Elefante Blanco – Elefante Branco

Eu tenho uma quedinha pelo Ricardo Darín. Na verdade, é uma queda considerável. Ao ponto de, quando vejo o nome dele em uma produção, tento assistí-la, não importa a história. No caso de Elefante Blanco, além de Darín, me chamou a atenção o filme ser dirigido por Pablo Trapero, diretor que me conquistou com Carancho (comentado aqui). Mas o filme não me convenceu, no final. Sim, a Argentina também tem problemas sociais como o Brasil, ainda que as favelas e comunidades criadas em locais irregulares não tenham ganho a mídia tanto quanto as made in Rio de Janeiro. Certo também que a Igreja tem um trabalho social importante. Mas o foco nestas duas realidades e o estilo de Darín e de Trapero não são suficiente para salvarem uma história que se revela longa demais e pouco interessante.

A HISTÓRIA: O padre Julián (Ricardo Darín) faz um exame complexo e delicado. Em outra parte, um homem se esconde na mata enquanto vários outros tentam encontrá-lo à noite. O padre Nicolás (Jérémie Renier) se esgueira enquanto escuta pessoas serem mortas porque não apontam para que lado ele fugiu.  Não demora muito para que Julián busque a Nicolás, resgatado após a morte de todos do vilarejo. A ideia de Julián é que Nicolás possa ajudá-lo a cuidar da comunidade formada ao redor de um elefante branco deixado pelo governo argentino. Pelos cálculos da Igreja, que tem um projeto social ali, há pelo menos 30 mil pessoas vivendo próximas ao projeto abandonado do maior hospital da América Latina lançado em 1937. Enquanto tentam erguer moradias mais dignas para aquelas pessoas,  padres, assistentes sociais e voluntários devem lidar com uma realidade violenta criada pelo tráfico de drogas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elefante Blanco): O diretor e roteirista Pablo Trapero tem um estilo de cinema interessante. Ele gosta de tratar assuntos complexos da realidade argentina, buscando uma forma de fazer “cinema social”. Relembrando o neo realismo italiano – guardadas todas as proporções de diferenças históricas e de realidades diferentes, mas ambos buscavam os “marginalizados” e beber da dureza de algumas realidades.

Trapero gosta desta abordagem. Não assisti ao premiado Leonera, mas assistindo a Carancho se percebe esta identidade como algo determinante para o diretor. Essa verve realística e seu estilo de dirigir e de escrever que incorpora o jeito de falar, de agir e a velocidade da vida cotidiana funcionaram bem em Carancho. Mas em Elefante Blanco o discurso não funcionou tão bem.

Primeiro porque não há esperança em parte alguma. A realidade é ruim e nada sinaliza para uma melhora do quadro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Vejamos: o protagonista está doente e tem tudo para ter uma morte súbida a qualquer minuto. Pressentindo isso, ele busca um “pupilo” para deixar em seu lugar. Esta promessa, contudo, está em dúvidas sobre o que fará da vida. Problema clássico quando o mestre tenta encontrar segurança na busca por “passar o bastão”. Como se não bastasse este ponto clássico, essa troca de “poder” entre heróis é buscada em meio a uma realidade caótica em que transbordam exemplos ruins – de gangues rivais aliciando jovens e empregados insatisfeitos com falta de pagamento – e onde falta mais ações heróicas.

Certo que a realidade é complicada. E o filme de Trapero mostra que este tipo de dificuldade em encontrar saídas para realidades violentas e contaminadas pelo tráfico de drogas não é algo que acontece apenas com o Brasil e a Colômbia, na América Latina. A Argentina, tão culta e que passou por tantos problemas econômicos nas últimas duas décadas, também tem as suas favelas e projetos sociais conturbados. Mas além desta constatação, o que nos sobra?

A importância da Igreja naquela realidade mostrada pelo filme é evidente. O trabalho dos personagens de Darín e Renier me fizeram lembrar muito a corrente da Teologia da Libertação, que mergulhou na realidade brasileira. E claro, de várias outras correntes da Igreja que, igualmente, buscam desenvolver no contato com as pessoas que mais precisam a verdadeira vocação do cristão. Só que isso não bastou para Trapero, e os roteiristas que ajudaram o diretor a escrever esta história, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre.

Os quatro também precisaram tocar em outra dificuldade de um dos dogmas da Igreja: a castidade. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nicolás sucumbe aos encantos da charmosa, determinada e linda Luciana (a sempre excelente Martina Gusman). E o discurso que os realizadores parecem nos deixar, no final das contas, é que tipo de homem pode ser santo? Aquele que se mantém fiel a todos os dogmas da Igreja e, desta forma, fica mais isolado da realidade (como nos retiros nos quais Nicolás se coloca de tempos em tempos) ou aquele que se “contamina” com os problemas do mundo e tenta participar das soluções para eles? Aliás, o homem mais santo seria aquele que consegue estes dois feitos? Manter-se “isolado” dos pecados, sem sucumbir às tentações, enquanto mergulha nos ambientes cheios de mazelas e tentações?

Apenas este último parágrafo renderia um texto inteiro. Mas como eu disse antes, quando comentava outros filmes que tratam sobre fé e religião, não é esta a proposta deste site. Aqui falamos de cinema. E voltando a ele, Elefante Blanco traz uma realidade complicada e homens que buscam permanecer santos (sejam eles homens ou mulheres) tentando fazer o melhor que eles podem naquele contexto.

Não é comum um filme ter esta abordagem. Por isso mesmo ele tem boas intenções, pena que a ideia não funcione muito bem no cinema. Porque o discurso cansa, e a falta de surpresa na história diminui o envolvimento que esta produção poderia ter junto ao público. Também prejudica a história não sabermos mais sobre os personagens principais. Sobre os seus passados, o que lhes trouxe até aquele ponto.

A falta de profundidade sobre os personagens em um filme centrado em três pessoas dificulta a compaixão de quem assiste e a capacidade do espectador colocar-se no lugar de qualquer um dos personagens. Uma pena. Porque histórias carregadas de humanidade, como esta, só funcionam bem quando esta “mágica” acontece.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, propriamente, merecia uma nota menor. Talvez um 6. Mas é difícil dar uma nota muito baixa para uma história que tem Ricardo Darín como protagonista. Também gosto muito da Martina Gusman, ainda que o seu papel, nesta produção, seja tão “ligeiro” e sem profundidade. Unidimensional, pode-se dizer.

Jérémie Renier é carismático, tem um sorriso lindo, é bonito e tem uma boa sintonia com Martina Gusman, especialmente nas cenas “provocantes”, mas, infelizmente, ele não convence no papel. É de doer as cenas em que ele demonstra estar “arrependido por ter sobrevivido”, dizendo sentir-se culpado de ter causado a morte de tantas pessoas e não ter morrido também. Aliás, boa parte da fraqueza do filme está neste personagem, que deveria ser o mais complexo da trama, mas que encontra um ator sem força para levar o papel ao máximo que ele poderia ir.

A trilha de sonora é uma das melhores qualidades de Elefante Blanco. Bela seleção feita por Michael Nyman. Me fez descobrir, por exemplo, a interessantíssima música Las Cosas que No se Tocan, de Pity Álvarez interpretada por Intoxicados.

Elefante Blanco estreou em maio, na Argentina. Depois, no mesmo mês, participou do Festival de Cannes. Em setembro e outubro, dos festivais de Hamburgo e Warsaw. Nesta trajetória, só foi indicado para um prêmio, no Um Certo Olhar, de Cannes. Mas não levou ele para casa – perdeu para Después de Lucía, uma co-produção México e França.

Para quem gosta de saber onde as produções foram rodadas, Elefante Blanco foi filmado em Buenos Aires, com cenas externas, mais precisamente, na Praça Guemes.

Pablo Trapero tem 14 filmes no currículo como diretor. Faz parte desta lista três curtas, um documentário, uma série de TV e um segmento no longa Stories on Human Rights, de 2008, codirigido por vários nomes. A parceria com Martina Gusman iniciou em 2006 com o filme Nacido y Criado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Uma nota boa que, tenho certeza, foi bastante provocada pelo fascínio de Darín, Gusman e Trapero – mais do que pelo resultado do filme propriamente. No site Rotten Tomatoes, até o momento, há apenas duas críticas citadas. Ambas positivas.

Da parte técnica do filme, pouco a destacar. Achei a direção de Trapero muito “tradicional”, sem ousadia ou um trabalho de edição interessante. O mesmo sobre a direção de fotografia, que garante apenas imagens utilizáveis, por assim dizer, mas nada além da média.

Elefante Blanco é uma co-produção da Argentina com a Espanha.

CONCLUSÃO: A trilha sonora e a ideia original de Elefante Blanco é o que esta produção tem de melhor. Pena que nem sempre uma ideia original resulte em um bom filme. E este é o caso. Elefante Blanco nasce com uma premissa bacana, de apresentar uma face da Argentina pouco conhecida e de mostrar que a complexidade da vida não permite leituras preto e branco, como muitos gostam de fazer acreditar. Mesmo homens que buscam fazer o bem e seguir o caminho da santidade apresentam fraquezas e caem em suas imperfeições. E há realidades de degradação e de vulnerabilidade das pessoas difícil de mudar. Porque todos tem pressa, com razão, mas há muita gente que prefere que estas realidades não mudem. A intenção de Elefante Blanco é boa, há ótimos atores em cena, mas o filme acaba sendo arrastado demais, previsível e mesmo quando surpreende, não é para deixar um gosto de “quero mais”, mas o desejo que tudo termine logo. Não funciona, infelizmente. Mas vale uma nota 7, especialmente por Darín, que sempre faz um trabalho de excelência.

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Intouchables – Intocáveis

Sempre me interessam os filmes que viram fenômeno de bilheteria. E não me refiro àquelas bolas cantadas, às superproduções que foram forjadas para arrasarem nos cinemas. Me refiro a filmes como Intouchables, uma produção que foi conquistando o público na boa e velha propaganda boca-a-boca. E o começo desta produção não deixa por menos. É excepcional. Pena que aquelas sacadas não seguem com a mesma vitalidade até o final. Ainda assim, é um filme interessante sobre como o politicamente correto, além de chato, muitas vezes apenas prejudicada quem “precisa” ser protegido pela patrulha que gosta do excesso de forma e evita a improvisação.

A HISTÓRIA: Dois homens trafegam normalmente pelas ruas. O motorista olha para o carona, que parece um pouco entediado. Ele para atrás de um carro, mas resolve rebelar-se, ultrapassando a fila pela faixa da direita, proibida, e chegar na frente de todos quando o sinaleiro abre. O carona olha para o motorista, que sorri, e que segue andando rápido e cortando todos os carros que encontra pela frente. Depois de passar muita gente, ele vê que a polícia começa a perseguí-lo. Pede, então, para Philippe (François Cluzet) acordar e apostar com ele de como os dois vão conseguir se livrar da polícia. Philippe aceita a aposta, e o motorista, Driss (Omar Sy), de fato consegue se livrar da primeira viatura, mas cai frente a outra. Daí começamos a conhecer a história inusitada destes dois, Philippe e Driss.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Intouchables): Gosto de histórias que valorizam o imprevisto. Tudo aquilo que nos surpreende na vida e que escapa de tantas histórias que preferem seguir a fórmula do sucesso, sem ousar. Intouchables faz isso desde o princípio. Um passeio tranquilo de carro com uma dupla inusitada dentro do veículo logo se transforma em uma escapada cheia de adrenalina. E o espectador nem sabe para onde ou do que eles estão fugindo.

Grande parte da surpresa deste filme está na união daquela dupla inusitada. Dois “marginalizados” pela sociedade. De um lado, o rico, mas totalmente dependente de cuidados de outros Philippe. Do outro lado, o negro, suburbano e desempregado Driss. Em outras ocasiões, a realidade vivida por cada um deles dificilmente teria alguma concordância. Eles não se encontrariam, exceto por algum cruze em uma esquina.

Mas uma entrevista de emprego com Driss tendo uma atitude de coragem e inusitada mudou tudo. E aproximou as realidades muito diversas da sociedade francesa – mas que existem em todas as partes do mundo. Driss não enxergou em Philippe um sujeito que necesitasse de todos os cuidados. E nunca pensou em trabalhar cuidando de alguém que precisasse de tanta atenção. Mas acabou tendo aquela oportunidade de emprego e abraçou ela com ousadia.

Philippe ficou encantado justamente pela atitude de Driss. Sem meias palavras, desbocado e irreverente, ele fez Philippe sentir-se vivo novamente. Até aquele momento, todos tinham “todos os dedos” para tratar com ele. Tentavam disfarçar a pena, mas esse sentimento sempre parecia ficar no meio do caminho de qualquer relação. Até que Driss, que vinha de uma realidade difícil, resolveu encarar Philippe como um sujeito interessante de conhecer e com quem interagir.

Mas o que torna Intouchables interessante é que os dois personagens se respeitam e “desrespeitam” mutuamente. Ou seja, tanto Driss quanto Philippe acreditam que tem algo a aprender e a ensinar um para o outro. E assim, eles alimentam uma relação que ultrapassa o trabalho e chega na amizade. Uma bela história, que nos ensina muito sobre como usar o humor para romper barreiras, e ter uma postura de respeito para conseguir chegar a uma relação de reciprocidade.

Como eu disse antes, o começo foi excepcional. Depois, quando a história volta no tempo e conhecemos como Philippe e Driss se conheceram, essa retomada também funciona. A entrevista de trabalho curiosa, quase às avessas, e o mergulho na realidade de Driss que, sem casa, encara o trabalho com Philippe, mesmo ele não tendo preparação alguma para isto, como uma salvação, faz todo o sentido e propicia o mergulho adequado do espectador na realidade dos protagonistas.

Tudo isso funciona bem. O que faz o filme perder pontos é quando ele sucumbe para o humor pastelão. Quando, por exemplo, Driss brinca em jogar com a insensibilidade do corpo do “patrão”, erra a boca dele ao tentar alimentá-lo e ficar encarando a bunda de sua secretária, ou quando faz piadas repetitivas sobre ele não poder sair do lugar. Uma brincadeira, uma vez, funciona. Repetidas vezes, se torna apenas um recurso previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sequência mais pastelão e desnecessária acontece na parte final do filme, quando Driss brinca com Philippe ao fazer a sua barba – tirando sarro, inclusive, de Hitler. Típica piada boba e que achei desnecessária.

Dá para entender a escolha dos diretores e roteiristas Olivier Nakache e Eric Toledano sobre este último ponto. Ao acrescentarem piadas repetitivas e algumas que podem ser consideradas de humor pastelão, eles conquistam o grande público. O humor, certamente, assim como a sensibilidade da história e a grande atuação dos atores principais, são os fatores principais do sucesso desta produção. E por mais que algumas piadas cansem, e pareçam meio bobas demais, elas não desmerecem o restante do conjunto.

Falando em conjunto, todos os elementos funcionam muito bem em Intouchables. Do roteiro ágil e cheio de diálogos interessantes até a direção que foca a interpretação dos atores, em primeiro plano, sem esquecer de mostrar os detalhes de seus ambientes. Uma forma importante de contextualizar as suas histórias, meios culturais e referências. Como estamos falando em dois mundos distintos em diálogo, esses elementos acabam jogando um papel importante. Muito boa, também, a trilha sonora de Ludovico Einaudi.

E os atores fazem o filme ter o sucesso que tem. Tudo indica, apenas ao assistir a esta produção, sem ler as notas dos bastidores, que eles tiveram muito espaço para improvisar. Tanto que é perceptível, algumas vezes, reparar em François Cluzet realmente dando risadas por causa de tiradas surpreendentes de Omar Sy. A sintonia entre estes dois faz o ingresso valer.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus bons leitores, devo pedir desculpas para vocês. Assisti a Intouchables há mais de um mês. Ainda em agosto, ou no início de setembro, segundo as minhas contas. Daí comecei a escrever sobre ele, mas acabei deixando para finalizar depois e… só agora, quase no meio de outubro, consigo me “livrar” da crítica sobre o filme. Claro que, com isso, perdi algumas das sensações de quando deixei de assistí-lo. Por isso, esta é uma crítica que fala a essência do meu pensamento sobre Intouchables mas, certamente, não é a crítica integral que eu poderia ter escrito sobre ele se tivesse logo parado para fazer isso. Me perdoem por demorar tanto para escrever.

Impressionante o efeito de Intouchables. Quando eu assisti a este filme, foi pouco antes dele estrear no Brasil. A partir daí, muita gente começou a vê-lo e todos, absolutamente todos os comentários que chegaram até mim foram de aprovação. Até o momento, não conheci uma pessoa que não tenha gostado desta produção. De fato, ela parece ser uma unanimidade.

François Cluzet demonstra, mais uma vez, o grande ator que ele é. Para mim, um dos grandes nomes do cinema francês. Ele tem carisma, técnica e sempre desenvolve uma sintonia interessante com seus parceiros de cena. A exemplo do argentino Ricardo Darín, é um nome que merece ser “perseguido”.

Gostei da dupla de roteiristas e diretores Olivier Nakache e Eric Toledano. Até aqui, nunca tinha assistido a uma produção deles. Mas fui atrás para saber mais sobre estes dois. Nakache e Toledano praticamente fizeram todos os seus trabalhos juntos. Eles têm, no currículo, três curtas, uma série de TV e quatro longas, incluindo Intouchables. Apenas Nakache tem, em sua filmografia, um curta a mais que Toledano. O restante dos trabalhos foram desenvolvido em parceria entre os dois. O primeiro longa deles foi Je Préfère qu’on Reste Amis, de 2005, que tem Gérard Depardieu, Jean-Paul Rouve e Annie Girardot, entre outros, no elenco. Fiquei com vontade de assistir a mais trabalhos deles.

Além dos atores principais, que dão um banho, Intouchables tem atores coadjuvantes que ganham relevância na história. E que também fazem um bom trabalho. Merecem ser mencionadas Audrey Fleurot, que interpreta a Magalie, secretária de Philippe e a quem Driss sempre quer tirar uma “casquinha” e a quem ele chama de “estímulo”; e Anne Le Ny como Yvonne, a governanta da casa do protagonista. As duas estão muito bem, emprestando legitimidade e carisma para suas respectivas personagens.

A direção de fotografia vívida de Mathieu Vadepied também merece ser mencionada. Ele fez um trabalho interessante, ressaltando as cores naturais dos ambientes e valorizando bastante a luz do dia. Como o filme celebra a vida, nada melhor do que deixar as cores naturais se sobressairem.

Uma curiosidade sobre esta produção: nove semanas depois dela estrear, Intouchables tornou-se o segundo filme francês de maior sucesso da história. Ele perde apenas para Bienvenue chez les Ch’tis, comédia de 2008.

Intouchables é o candidato da França para o Oscar 2013. Minha dúvida é se ele não é “comercial demais” para entrar. Mas caso conseguir chegar na lista de finalistas, acho que ele pode surpreender. Veremos no próximo ano.

Este filme estreou em setembro de 2011 no Festival Internacional de Cinema de San Sebastian, na Espanha. Depois, no mês seguinte, ele esteve em festivais em Namur e em Tokyo. De lá para cá, participou ainda de outros seis festivais. Nesta trajetória, abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os que recebeu, destaque para o César (equivalente ao Oscar na França) de melhor ator para Omar Sy; e para o grande prêmio como melhor filme e o prêmio de melhor ator compartilhado por Sy e François Cluzet ganhos no Festival de Tokyo.

Para quem gosta de saber o local em que os filmes foram rodados, como a história desta produção mesmo sugere, Intouchables foi rodado em Paris e na cidade de Cabourg, na França.

Intouchables é, realmente, fenômeno de público e de crítica. Mais de público, devo dizer. Apenas nos Estados Unidos, onde os filmes franceses costumam ter um êxito apenas mediano, ele conseguiu, até o dia 7 de outubro, pouco mais de US$ 12,6 milhões. No restante do mundo, até o dia 30 de junho, ele havia abocanhado US$ 351 milhões. Uau! Para uma produção sem grandes pretensões, sem dúvida alguma é um grande feito.

Falando em aprovação do público, interessante a nota que os usuários do site IMDb deram para Intouchables até o momento: um expressivo 8,6. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também gostaram do que viram, mas sem tanta ênfase: eles publicaram 81 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

Agora, algo que me chamou a atenção nas cenas finais da produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como todos sabem, esta história é baseada em fatos reais. Narra, com liberdades artísticas, a amizade que surgiu entre Philippe Pozzo Di Borgo e o angelino Abdel Sellou. O que eu achei interessante é que aparecem imagens reais dos dois, no final, e Abdel é branco. Claro que foi uma escolha dos diretores preferir que o personagem, no filme fosse negro. E alguns podem se perguntar o porquê da mudança. Não li uma justificativa dos diretores em parte alguma, mas acredito que foi pensada a escolha para reforçar o desejo deles em fazer o público francês repensar os seus valores e atitudes. Já que a questão racial por ali tem sido, cada vez mais, uma questão de agitação social. Outra explicação pode estar nesta entrevista dos diretores: este é o quarto filme deles com o ator Omar Sy, comediante que vem crescendo na carreira junto com os realizadores. A escolha dele, independente da cor, mas pela história dos três juntos e pelo talento, faz sentido também. E algo me surpreendeu  na entrevista: eles escreveram e reescreveram o roteiro muitas vezes, deixando pouco espaço para o improviso. E eu achando que Omar Sy, em especial, tinha improvisado muito… interessante.

Falando na entrevista, algo interessante e que merece destaque nela: os diretores disseram fazer parte de uma leva nova de diretores que querem não querem produzir filmes apenas para o mercado francês, mas para o mundo. Essa visão ambiciosa e de diálogo com o público, sem dúvida, é o que está fazendo diferença no cinema daquele país. Postura adotada por alguns cineastas brasileiros, de Walter Salles a Fernando Meirelles. Pena que esta visão não seja da maioria.

Para quem quer conhecer mais a história que inspirou este filme, descobri que há dois livros que narram, um sob a ótica de Abdel, outro sob o olhar de Di Borgo, esta história. Vale dar uma olhada nestas obras, ambas publicadas no Brasil.

CONCLUSÃO: As pessoas não sabem muito bem como lidar com o que elas não estão familiarizadas. Em outras palavras, com o diferente. Ainda mais quando este “diferente” é uma pessoa com uma limitação grave e/ou que parece estar em desvantagem com alguém “perfeitamente saudável” (isso existe?). Intouchables junta dois “marginalizados” para debater o politicamente correto, e o quanto o excesso de “zelo” e “cuidado” com aqueles que são diferentes de outras pessoas podem, no fim das contas, apenas prejudicá-las, ao invés de ajudá-las. O sujeito desempregado para quem ninguém daria trabalho, desbocado, irreverente, mas com um coração generoso, acaba mudando a vida do cara rico, erudito e tratado como alguém sem muitas possibilidades na vida. Porque sempre é possível romper preconceitos de forma natural. Para isso, basta deixar esse “excesso de educação” forçada de lado e tratar a vida como ela é, excercitando o saudável hábito de provocar as pessoas a fazerem mais do que elas estão acostumadas a fazer. O filme tem esse espírito, o que é muito bacana, mas acaba exagerando nas piadas, que se tornam repetitivas e bobas, em vários momentos. E o final… mesmo que bacana, acabou ficando previsível demais. Mas no conjunto da obra, é uma produção bacana e que merece ser conferida.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Bueno, Intouchables chegou lá. Depois de virar fenômeno nas bilheterias mundo afora, ele foi indicado como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro. Consequentemente, ele me faz falar a respeito de suas chances no Oscar do próximo ano. Francamente, ainda não assisti aos seus quatro concorrentes no Globo de Ouro. Mas só de dar uma geral nos indicados, eu diria que ele concorre diretamente com Amour e De Rouille et D’os. No Oscar, a concorrência pode ser muito diferentes. Especialmente porque alguns candidatos, indicados por seus respectivos países, podem mudar. De qualquer forma, acho Intouchables com mais chances no Globo de Ouro do que no Oscar. Até porque a premiação da Academia, por mais que tenha se renovado nos últimos anos, continua um pouco distante do popular. E este filme é pop.