The Autopsy of Jane Doe – A Autópsia

Pensa em um filme sinistro. Agora, multiplica esse tom sinistro algumas vezes. Este é um bom termômetro de The Autopsy of Jane Doe, um filme praticamente todo ambientado em um necrotério. Os detalhes de mais de uma autópsia (mas especialmente de uma) são mostrados nesta produção, assim como alguns outros corpos que não chegam a ser “destrinchados”. Então se você não tem problema com cenas fortes e um pequeno par de sustos, este pode ser um bom filme para você.

A HISTÓRIA: Em uma casa comum na cidade de Grantham, na Virgínia, legistas e policiais examinam um cenário variado de crimes. Pouco a pouco vamos vendo cada um dos corpos. De um casal de idosos, chegamos no segundo andar ao corpo de uma mulher negra. O xerife Burke (Michael McElhatton) olha todas as vítimas e, pela janela do segundo andar, vê que uma equipe de televisão chegou. Neste momento ele é chamado para descer para o porão. Lá ele vê um outro corpo, semi enterrado. Ela é a única da casa que não tem relação com a família e nem identidade, por isso ela é chamada pela equipe como Jane Doe (nome para Desconhecida, “interpretada” por Olwen Catherine Kelly).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Autopsy of Jane Doe): Sim, eu já assisti a vários filmes de terror e de suspense. Então ver corpos sendo cortados e destrinchados não é algo totalmente novo. Ainda assim, admito que este The Autopsy of Jane Doe me impactou. Como um filme que tem como protagonistas pai e filho habituados a autópsias deve fazer, é claro.

Honestamente, gostei muito da narrativa desta produção. O diretor André Ovredal e os roteiristas Ian B. Goldberg e Richard Naing não perdem tempo. O que sempre é algo positivo para qualquer produção, especialmente para uma de terror e suspense. A narrativa é muito bem construída. Logo de cara somos apresentados a uma cena com diversas mortes. Na sequência, começamos a nos “familiarizar” com os protagonistas desta história, Tommy (Brian Cox) e o filho Austin (Emile Hirsch).

Praticamente o filme inteiro é focado nos dois e ambientado no local de trabalho deles, a funerária/necrotério da família. Tommy e Austin tem uma relação interessante e que ajuda a dar “caldo” para a produção além da trama envolvendo a tal Jane Doe. Ovredal tem que ser bom para fazer um filme com quase uma hora e meia de duração que é quase todo ambientado no sótão de uma residência.

Este é o típico filme em que você está esperando sempre levar um belo de um susto. Admito que eu levei apenas um, de verdade, e depois fiquei “gato escaldado” para me preparar para as ciladas seguinte. O susto que fez os meus batimentos cardíacos acelerarem um pouco foi quando Emma (Ophelia Lovibond) aparece pelas costas de Austin e dá um susto no namorado. Aquela “aparição” eu não estava esperando. O restante dos “sustos” até dá para ficar preparado psicologicamente e “anulá-los”, digamos assim.

Então The Autopsy of Jane Doe, ao menos para mim, não foi um filme de muitos sustos. Mas não acho que isso seja um problema. Como há muitas e muitas cenas de gente morta e, especialmente, detalhes mórbidos sobre como as pessoas morreram e/ou foram feridas, esta tensão é o que acaba contando para o espectador. Além disso, o roteiro da dupla Goldberg e Naing prende a atenção naturalmente.

Muito bem escrito, o texto deles convence pelas explicações “científicas” envolvendo a tal autópsia que dá título à produção. De forma inteligente, eles nos colocam ao lado de Tommy e Austin. Junto com os protagonistas, vamos conhecendo os detalhes da autópsia de Jane Doe e as possibilidades do que aconteceu com ela. Algo que eu achei fundamental para este filme dar certo foi a narrativa ir crescendo pouco a pouco sem que o espectador perca as cenas iniciais.

Explico. Conforme a “magia” vai acontecendo com pai e filho, não é difícil lembrar da cena dos mortos que abriu a produção. Todos estavam dentro de casa, aparentemente não houve nenhuma invasão e, ainda assim, todos estavam mortos. Ora, se todos morreram, foi porque uns mataram os outros e/ou se mataram. Como uma policial bem pondera, parece que eles estavam tentando fugir. Conforme as cenas sinistras e um tanto “sobrenaturais” vão acontecendo ao redor da autópsia de Jane Doe, lembramos daqueles fatos iniciais.

Como temos um produto de sucesso chamado The Walking Dead no imaginário, pensar em “mortos-vivos” perseguindo alguém atualmente não é mais tão assustador. Verdade que não sabemos exatamente o ano em que esta história está acontecendo, mas aparentemente matar um “morto-vivo” não é tão complicado assim.

Isso é o que muitos de nós pensamos, assim como isso parece passar pela cabeça de Tommy. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E aí está uma boa pegada desta produção. A grande explicação sobre Jane Doe torna tudo pior. A bruxa “enlouquece”/manipula as pessoas que ela quer destruir. Eles acabam vendo o que não está acontecendo e, sem se darem conta, acabam atacando uns aos outros. É assim que eles são mortos. Ninguém realmente está sendo perseguido por “mortos-vivos”, mas por uma magia da qual eles não tem como escapar.

Ou seja, o terror de The Autopsy of Jane Doe é o pior possível. Porque quando existe um Mal contra o qual podemos lutar ou combater, tudo certo. Mas quando esse Mal nos engana, nos ilude e nos faz errar de maneira fatal, não há como correr ou se defender. A narrativa crescente e o “grand finale” do filme são muito interessantes porque convencem. No final, faz sentido o porquê do corpo de Jane Doe estar perfeito do lado externo. Ela sempre estará perfeita, ainda que tenha “muito trabalho” para ser feito até se vingar de tudo pelo qual passou.

Aliás, essa talvez seja uma dúvida que fique para muitas pessoas. Afinal, qual é a “moral” da história ou qual é a “missão” de Jane Doe? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como Tommy descobre bem na reta final da produção (e da própria vida dele), Jane Doe está “viajando” em busca de vingança. Ela foi bastante torturada e passou por agressões incríveis antes de morrer e, aparentemente, está migrando para o “Sul” para fazer as pessoas passarem pelo que ela passou. Pelo roteiro, conclui que ela está buscando os “herdeiros” de seus algozes. Pessoas como Tommy e Austin são mortas no processo, apenas, assim como tantas outras até que ela encontre a sua vingança final.

Esta é uma forma de encarar a história, mas certamente existem outras interpretações que também podem estar corretas. De qualquer forma, achei interessante como os realizadores resgataram um tipo de personagem histórico que desperta sempre tanta polêmica e interesse para torná-lo algo contemporâneo e assustador de uma forma totalmente diferente. Foram criativos e realizaram muito bem esta produção. Claro que para isso Ovredal contou com dois atores ótimos, Brian Cox e Emile Hirsch. Sem dúvida eles tem grande parte do mérito deste filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como manda o figurino dos filmes de terror/suspense, a trilha sonora de Danny Bensi e de Saunder Jurriaans, assim como o departamento de som com 10 profissionais são dois personagens à parte. Em cada momento de tensão e nas cenas em que o “bicho pega”, estes profissionais dão um show. Os sustos (ou tentativas de assustar) desta produção não seriam os mesmos sem a trilha sonora e os efeitos sonoros. Grande trabalho.

Da parte técnica do filme, gostei e destaco também a direção de fotografia de Roman Osin; o departamento de maquiagem que faz um trabalho difícil e fundamental (profissional, sem nada parecer fake) composto por Bella Cruickshank, Alex Harper, Jemma Harwood, Ailsa Lawson, Kristyan Mallett, Victoria Money e Lisa Pemberton; os efeitos especiais de Sophie Bramley, Neil Jenkins, Scott McIntyre e Eddy Popplewell; e os efeitos visuais que envolveram 16 profissionais. Muito boa também a edição de Peter Gvozdas e de Patrick Larsgaard e o design de produção de Matt Gant.

Como eu comentei antes, o trabalho de Brian Cox e de Emile Hirsch é fundamental para o sucesso deste filme. Os dois convencem em seus respectivos papéis, especialmente em convencer a audiência sobre a intimidade e o afeto que unem os personagens principais de pai e filho. Mas, além deles, há também coadjuvantes que fazem um bom trabalho. Destaco, neste sentido, o bom trabalho de Ophelia Lovibond como Emma e o de Michael McElhatton como o sheriff Burke. Ainda tem destaque no filme o gato Sydney, que “interpreta” Stanley.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O diretor norueguês André Ovredal ficou inspirado em fazer um filme de terror depois que ele assistiu a The Conjuring (a crítica sobre ele você encontra aqui). Logo depois de assistir ao filme, Ovredal ligou para o agente dele e pediu que ele encontrasse um bom filme de terror para ele dirigir. Um mês depois desta conversa, o agente de Ovredal lhe apresentou o roteiro de The Autopsy of Jane Doe, e o diretor topou o projeto. Realmente o roteiro mereceu sair do papel.

Inicialmente, o ator Martin Sheen iria interpretar Tommy. Mas por causa de conflitos de agenda, ele teve que deixar o projeto. Não sei como ele teria se saído no papel, mas gostei muito do trabalho de Brian Cox na produção.

Achei interessante o comentário que Stephen King fez sobre o filme: “The Autopsy of Jane Doe é um terror visceral que pode rivalizar com Alien e com o Cronenberg em início de carreira. Assista, mas não sozinho”. Eu assisti ao filme sozinha, e por isso achei ele tão interessante/impactante. Realmente o filme tem “pegada” e estilo.

A música que toca em diversos momentos do filme fala sobre os Flinstones. O nome da canção é “Let the Sunshine In”, interpretada pelos Pebbles.

Duas outras curiosidades interessantes. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A cena favorita do filme para o diretor foi a do elevador em que Brian Cox e Emile Hirsch falam sobre a morte da esposa de Tommy e mãe de Austin. “Eu apenas coloquei a câmera e nós assistimos a uma performance fantástica de Brian Cox e de Emile Hirsch”, comentou André Ovredal. E a cena que o diretor mais teve orgulho de fazer foi a da descoberta das inscrições sob a pele de Jane Doe. Realmente as duas sequências são alguns dos grandes momentos da produção.

Este é apenas o quinto filme dirigido por André Ovredal. Antes ele dirigiu a dois curtas e aos longas Future Murder, que marcou a estreia dele na direção no ano 2000, e Trolljegeren, de 2010. Foi por este segundo filme que ele foi reconhecido com 10 prêmios.

The Autopsy of Jane Doe foi totalmente rodado em Londres. O filme é uma coprodução do Reino Unido e dos Estados Unidos – por causa deste segundo país este texto entra para a lista dos que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

Esta produção ganhou cinco prêmios e foi indicada a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme de Terror no Austin Fantastic Fest; para dois prêmios como Melhor Filme no Fantastic Fest; para o de Melhor Filme Estrangeiro no Monster Fest; e para o Prêmio Especial do Júri no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Catalunha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 críticas positivas e 11 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 6,8. Este é um raro empate entre as opiniões de público e crítica. Só achei as notas um tanto baixas. Ou eu que fiquei entusiasmada demais com o que eu vi, não sei…

CONCLUSÃO: A história de The Autopsy of Jane Doe é simples, se pararmos para pensar. Mas isso não impede que a experiência seja bastante interessante – e assustadora. Aliás, há tempos eu não assistia a um filme que me deixasse realmente “impactada” em alguns momentos, seja pelo que vai aparecendo em cena, seja pelo que fica sugerido pela história. Com um roteiro interessante e algumas boas sacadas, The Autopsy of Jane Doe é um dos melhores filmes do gênero que eu vi nos últimos tempos. Se você gosta de filme de terror pra valer, provavelmente vai gostar desta produção.

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Paterson

A beleza dos pequenos detalhes e as histórias curiosas que ouvimos apenas pela metade quando encontramos com pessoas que não conhecemos são pura poesia. Para quem está atento aos detalhes do dia a dia, há muita beleza no cotidiano. É sobre isso e sobre a poesia da vida “ordinária” que trata Paterson, um filme que é bastante lento e que pode dar sono para muita gente, mas que vale ser visto e conhecido por quem gosta de um tipo de cinema diferente. Não há efeitos especiais por aqui, apenas uma reflexão curiosa sobre vidas simples e os efeitos da arte no nosso cotidiano.

A HISTÓRIA: É segunda-feira e Paterson (Adam Driver) e Laura (Golshifteh Farahani) estão deitados na cama frente a frente. Ele acorda pouco depois das 6h10 e confere o horário no velho relógio de pulso. Beija a mulher, que fala sobre o sonho que ela teve de que os dois tinham tido dois filhos velhos e gêmeos. Eles conversam um pouco antes de Paterson levantar da cama e ir tomar café da manhã sozinho. Ele observa a caixa de fósforos na cozinha e desta observação surge um novo poema. Paterson sai de casa e vai para o trabalho, onde atua como motorista de ônibus. Esta é a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Paterson): A vida “ordinária” é a matéria prima para a poesia e para outras variações da arte que vive da observação do cotidiano. A poesia também fala do que sentimos e percebemos de forma diferenciada, assim como vários filmes e séries de TV. Paterson segue esta linha e trata sobre o relacionamento estreito entre a vida comum e o olhar cuidadoso sobre ela.

Esta leitura da produção nós temos conforme o filme avança. A produção tem uma narrativa linear e que acompanha uma semana na vida do protagonista, Paterson, que tem o mesmo nome da cidade americana em que ele nasceu e onde sempre viveu. Como a história começa na segunda-feira e mostra a rotina de Paterson desde que ele acorda e até o final do dia, o roteiro do diretor Jim Jarmusch acaba sendo bastante repetitivo.

Francamente, me deu um pouco de sono. Mas se você vence esta barreira, consegue acompanhar com o mesmo cuidado e generosidade do olhar do protagonista o cotidiano simples que lhe cerca. Há muita beleza e detalhes interessantes na cidade de Paterson, assim como em todos os lugares do mundo. Basta ter tempo e cuidado para observar. Ajuda também no processo soltar a imaginação e ver a vida com mais curiosidade e generosidade.

Por tudo isso, Paterson é um filme interessante e sensível. Vencido o sono que cotidiano sem grandes “aventuras” do protagonista desta produção nos provoca, conseguimos refletir sobre o que Jarmusch nos apresenta. A vida da maioria das pessoas no mundo é como a de Paterson, bastante comum. Mas há muita beleza e poesia em vidas como a dele. Este é, possivelmente, o grande insight desta produção.

Na reta final da produção, também somos lançados a outras duas reflexões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tudo parece estar bem, até que o cão do casal de protagonistas destroça o caderno com poesias de Paterson. Isso acontece na nossa vida também. Sem menos esperar, alguma “tragédia” pode acontecer e mudar definitivamente alguns planos que tínhamos – no caso de Paterson, Laura insistia há bastante tempo para ele fazer uma cópia das poesias e ele tinha prometido que faria isso. Mas não houve tempo hábil das cópias serem feitas.

Jarmusch nos mostra como a tristeza após uma adversidade é bem-vinda e faz parte do processo, mas que nunca devemos desistir. Paterson mostra resiliência, especialmente após uma conversa transformadora com um poeta japonês que está visitando a cidade (interpretado por Masatoshi Nagase). E, como tantas pessoas comuns mundo afora, Paterson também recomeça. Mais uma semana e mais um caderno de poesias.

A segunda reflexão daquele final do filme é que a arte é sempre inspiradora e vence a passagem do tempo e das vidas comuns. A pequena cidade de Paterson ficou mundialmente conhecida pelos seus artistas, assim como tantas outras cidades. O protagonista do filme é fascinado por William Carlos Williams, poeta que fez boa parte de sua obra na cidade de Paterson. O turista japonês também é levado para Paterson por causa de Williams e de outros nomes, o que nos mostra a força da poesia e da arte.

Desta forma, de forma bastante cuidadosa e interessante, Jarmusch faz o seu libelo em favor da arte e da vida comum. Ele mostra como o cotidiano de qualquer pessoa simples é cheio de riqueza e de beleza, e que praticamente qualquer pessoa pode ser um poeta e muito mais do que a sua profissão regular define. Para isso, basta estar disposto a dar vasão para as suas habilidades e investir nelas.

Um belo filme, ainda que um tanto cansativo. Mas ele é cheio de boas intenções e isso é o que vale. Paterson está mais para a arte do que para uma bela obra de cinema. Mas ele também mostra como a vida é bela em sua simplicidade e quando aceitamos quem a gente ama exatamente como a pessoa é. Por esta mensagem, ele merece a nota abaixo. Ou seja, mais pelo sentido do que pela execução ou por algo novo que o filme apresente.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Jim Jarmusch faz um belo trabalho ao acompanhar vários detalhes do cotidiano de Paterson. Acompanhamos de perto o protagonista ao mesmo tempo que mergulhamos nas belezas da cidade em que ele vive e no cotidiano das pessoas comuns que cruzam o caminho dele. Jarmusch acerta na direção detalhista e cuidadosa. O roteiro também é cuidadosamente construído para defender a proposta do diretor. Ele quer valorizar a vida comum e consegue fazer isso sem nunca abrir mão da simplicidade – francamente senti falta de um pouco mais de ousadia por parte dele, mas entendo as escolhas do realizador.

O grande nome desta produção é de Adam Driver. Ele traz muita legitimidade e coerência para o personagem que dá nome para a produção. A iraniana Golshifteh Farahani também está muito bem. Ela é a parte encantadora da produção, o estímulo que Paterson tem em enfrentar a rotina do dia a dia. Também estão bem outros atores secundários, com destaque para o veterano Barry Shabaka Henley como Doc, o dono do bar onde Paterson termina todas as noites da semana; Rizwan Manji como Donny, supervisor da empresa de ônibus onde Paterson trabalha; Chasten Harmon como Marie, amiga de Paterson e que vive dando o fora no ex-namorado Everett; e William Jackson Harper como Everett, um ator um tanto “charlatão” que não aceita a separação. Masatoshi Nagase também merece uma menção especial porque tem um papel importante no momento derradeiro da produção. Todos estão bem.

Por falar na história desta produção, ela tem outro aspecto interessante: fala sobre o cotidiano de milhões e milhões de americanos. Pessoas que tem rotinas simples, vivem de trabalhos com uma remuneração relativamente baixa, em cidades de pequeno ou médio porte, tem cotidianos bem repetitivos e terminam a maior parte do dia sendo “presenteados” com uma cerveja no bar.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Frederick Elmes, a ótima e cuidadosa edição de Affonso Gonçalves, a trilha sonora bastante pontual e lírica de Jim Jarmusch e de Carter Logan Sqürl, os figurinos de Catherine George, o design de produção de Mark Friedberg, a direção de arte de Kim Jennings e a decoração de set de Lydia Marks.

Jarmusch dá um certo destaque para o cão Nellie que, além de aparecer como parte do elenco, ainda recebeu um agradecimento especial do diretor. De fato, o cão de estimação de Paterson acaba atuando como um “coadjuvante” de luxo da produção.

Não encontrei informações sobre os custos de Paterson, mas vi que a produção fez pouco mais de US$ 2,15 milhões nos Estados Unidos. Filme independente e com uma bilheteria bastante baixa. Realmente ele se deu melhor com a crítica do que com o público.

Esta produção foi rodada em Paterson, cidade do Estado americano de Nova Jersey, assim como nos bairros nova-iorquinos de Yonkers e do Queens.

O filme dá a entender que o poeta William Carlos Williams nasceu em Paterson. Na verdade, segundo pesquisei, ele nasceu na cidade vizinha de Paterson, Rutherford, mas escreveu parte importante de sua obra em Paterson – inclusive ele tem um poema com o nome da cidade.

De acordo com as notas de produção de Paterson, os poemas que vemos no filme são de Ron Padgett, um dos poetas contemporâneos favoritos de Jim Jarmusch. Padgett aceitou escrever poemas específicos para a produção e deu autorização para Jarmusch usar alguns de seus poemas anteriores à produção.

Uma exceção é o poema lido por uma jovem estudante para Paterson durante a produção. Este poema foi escrito pelo próprio Jarmusch.

O ator Adam Driver foi para a autoescola e tirou permissão para dirigir ônibus. Ele queria conhecer sobre o ofício o suficiente para entrar no “piloto automático” como motorista de ônibus no filme. Drive aprendeu o ofício durante três meses no Queens, em Nova York.

Paterson recebeu sete prêmios e foi indicado a outros 27. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo a escolha do público do Festival Internacional de Cinema FEST; para o de Melhor Ator em Filme Estrangeiro no Prêmio Sant Jordi; e para os de Melhor Ator para Adam Driver dados pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles e pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto. Um prêmio curioso foi o Palm Dog para Nellie no Festival de Cinema de Cannes.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Paterson. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 185 críticas positivas e nove negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,6. Especialmente a nota dada pelos críticos é ótima e bem acima do padrão do site. Interessante.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, da França e da Alemanha. Por causa desta origem a produção entra para a lista de filmes que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Este é mais um daqueles filmes que tem grande potencial de desagradar à maioria e de cair no gosto de um público bastante específico. Paterson é um filme lento e bastante repetitivo, mas estas escolhas são propositais. O filme trata sobre poesia e sobre a observação do cotidiano e demonstra como qualquer pessoa pode desenvolver a capacidade de ver a vida com poesia. Todos temos grande potencial, e por mais que a nossa vida pareça “ordinária”, ela pode ser cheia de significado. Um filme singelo, com um propósito bastante franco e que dá um pouco de sono, mas que merece ser admirado.

 

Nocturnal Animals – Animais Noturnos

A arte, em suas mais variadas formas, é feita de paixão, de entrega, de exposição e de uma mistura intricada entre fantasia e realidade. Nocturnal Animals trata de dois tipos de arte – três, se pararmos para pensar – e sobre como a ligação de dois artistas/amantes pode perdurar apesar do tempo, da distância e de feridas que nunca foram curadas. Um filme interessante, que nos apresenta um roteiro apenas regular, mas que tem uma apresentação e uma “entrega” exemplares. Nocturnal Animals é envolvente, interessante nos detalhes e na narrativa, mas não é nada que você já não tenha visto antes (de alguma forma).

A HISTÓRIA: Uma música marcante, serpentinas e mulheres obesas, de meia idade ou mais, dançando com partes dos trajes típicos das bandas marciais. Essas mulheres fizeram parte do trabalho de Susan Morrow (Amy Adams), que expôs a sua arte na galeria que ajuda a administrar. Enquanto vemos as cenas da exposição, vemos também as imagens das artérias da cidade movimentada. Susan fica até o final do evento e vai para casa. Ela chega tarde e, pouco depois, outro carro chega no local. No dia seguinte, Susan recebe uma encomenda, um manuscrito do novo livro de Edward (Jake Gyllenhaal).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nocturnal Animals): O roteirista e diretor Tom Ford começa este seu novo filme trabalhando de forma contundente com a nossa noção de beleza e estética. Ele acerta um direto no padrão de mulher bonita que a sociedade considera e, de quebra, questiona como as aparências enganam. Tudo isso através do trabalho da protagonista em sua mais nova exposição.

A introdução do filme, que apresenta mulheres obesas, a maioria em idade mais avançada, nuas e com alguns adornos, apenas, é um tipo de cartão de visitas sobre a quebra de “paradigmas” que este filme nos apresenta. A ideia de que as aparências enganam e que os padrões estão aí para serem quebrados é uma constante na produção. Afinal, além daquelas cenas iniciais, a própria vida e escolhas da protagonista também foram baseadas em escolhas um tanto equivocadas e que sempre giraram em torno da tentativa dela de negar os padrões familiares.

Mas antes de falarmos disso, vamos retomar um pouco a lógica da produção que tem roteiro de Ford baseado no livro de Austin Wright. Depois daquela introdução desafiadora para os padrões estéticos do que a sociedade considera belo, Nocturnal Animals logo faz uma apresentação interessante da protagonista.

Em pouco minutos percebemos que, apesar de casada e de ser uma “artista de sucesso”, Susan se sente sozinha e insegura com o próprio talento e trabalho. Na manhã seguinte da abertura da última exposição dela, Susan recebe o manuscrito do novo livro do ex-marido. Enquanto ela vê o marido, Hutton Morrow (Armie Hammer), cada vez mais distante, tanto física quanto amorosamente, Susan mergulha na obra de Edward e, consequentemente, nas lembranças sobre o relacionamento que teve com ele. De quebra, revisita os seus próprios sentimentos.

Desta forma, temos duas narrativas que correm paralelas e que vivem se entrelaçando: aquela em que Susan questiona a sua vida atual, revisita o passado e fantasia sobre o futuro; e aquela em que a história contada por Edward se desenvolve. Todo filme com duas narrativas paralelas em desenvolvimento já se torna interessante apenas por isso, pela dinâmica que a produção acaba tendo, naturalmente. Mas Nocturnal Animals apresenta um interesse diferenciado porque vive jogando com dois elementos que mexem tanto com as pessoas e a sociedade: a violência e o desejo sexual.

A melhor parte do filme, sem dúvida alguma, é aquele mergulho inicial que Susan faz no livro de Edward. Vários filmes já exploraram o “terror em uma rodovia” como a história de Edward nos apresenta, mas Tom Ford faz um trabalho de excelência na direção neste momento do filme, despertando no público a tensão e o interesse necessário para que encaremos o restante da produção. A história contada por Edward mistura ficção, fantasia e realidade (ele seleciona alguns elementos familiares para Susan e insere na narrativa) em uma narrativa violenta que, claramente, tem requintes de atração e de vingança relacionados a ex-mulher.

O texto de Edward não é apenas evolvente em relação a qualquer público. Ele parece matematicamente planejado para mexer com Susan. E aí está a vingança maior de Nocturnal Animals. Este sentimento não move apenas o personagem principal do livro, Tony Hastings, também vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O senso de vingança parece mover também Edward, que quer tirar Susan da inércia, provocá-la e, depois, deixá-la esperando em vão no restaurante.

Interessante que ao escrever a sua obra-prima, Edward trata bem da vingança e demonstra, no final, que ela concretizada não traz paz alguma. Através do personagem de Tony ele mostra que cobrar uma dívida na mesma “moeda” não traz conforto, esperança ou o amor e a presença de quem perdemos no processo. Tony já estava “morto” quando terminou a sua vingança, como provavelmente o próprio Edward estava quando se “vingou” de Susan.

Por sua parte, Susan demonstra que sempre podemos nos arrepender e rever as nossas próprias vidas mas que, nem sempre, isso é suficiente para mudar o que foi feito. Como o próprio livro de Edward argumenta, há erros/crimes que por mais que tentemos consertar, jamais terão conserto.

No fim das contas, este filme quebra alguns pré-conceitos e nos conta uma história de vingança e de amor frustrado. Eis uma narrativa de bastante desesperança e um tanto amarga no final. Um filme envolvente, bem conduzido, com ótimos atores e que nos apresenta uma história não exatamente nova. É uma produção competente sobre algo que já vimos antes. Vale como experiência, mas não é nada que ficará na memória por muito tempo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bem, meus bons amigos e amigas do blog. Agora sim, posso dizer que assisti ao que ainda faltava da temporada Oscar 2017. Claro que ainda tenho um documentário da lista de indicados para assistir, assim como os filmes que foram selecionados para representar os seus países no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas isso vou fazendo aos poucos e sem pressa. Das categorias centrais do Oscar, contudo, já posso dizer que assisti a tudo que eu considerava mais importante. Tarefa cumprida, pois.

Assisti a Nocturnal Animals há umas duas ou três semanas. Escrevi este texto sobre o filme em diferentes dias. Então me perdoem se alguma parte da crítica estiver um tanto “deslocada” em relação às outras partes, mas os próximos textos serão mais coesos. Nestas últimas semanas passei por uma certa correria e por um tempo longe da internet, por isso esta crítica meio “atabalhoada”.

Tom Ford faz um trabalho competente na direção de Nocturnal Animals. Ele sabe tanto dar ritmo para o filme, especialmente na narrativa da obra de Edward, quanto sabe valorizar os ótimos atores que tem em cena. Mais uma vez Amy Adams e Jake Gyllenhaal mostram porque são dois atores dos mais talentosos de suas gerações. Sem dúvida a direção cuidadosa de Ford e a interpretação dos dois atores são o ponto forte do filme.

O roteiro de Ford, baseado na obra de Austin Wright, flui bem, ainda que tenha uma introdução muito longa, para o meu gosto, e que seja um bocado previsível. Mas a direção de Ford compensa um pouco a falta de originalidade da história. Me chamou a atenção o tom sombrio da produção, com uma direção de fotografia de Seamus McGarvey bastante “noturna” e/ou obscura durante boa parte do tempo.

Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Joan Sobel, a trilha sonora de Abel Korzeniowski, os figurinos de Arianne Phillips, o design de produção de Shane Valentino, a direção de arte de Christopher Brown, a decoração de set de Meg Everist e o trabalho dos 10 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

Nocturnal Animals teria custado US$ 22,5 milhões e faturado, nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,6 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 18,6 milhões, somando cerca de US$ 29,25 milhões – ou seja, não chegou a obter lucro, até porque além dos custos da produção, sempre devemos calcular os gastos com a distribuição e a divulgação. Ou seja, o filme não foi um sucesso.

Esta produção foi toda rodada na Califórnia, em locais como Malibu, Los Angeles e Mojave Desert.

Ainda que o filme não tenha ido muito bem nas bilheterias, ele se saiu muito bem na negociação para ser distribuído mundialmente. A Focus Features teria pago US$ 20 milhões pelos direitos de distribuição de Nocturnal Animals em uma disputada concorrência após o filme ser exibido em Cannes. Aliás, esse é o valor mais alto pago por um filme em um festival.

A atriz Isla Fisher disse que a sequência noturna no deserto de Mojave durou cerca de 10 dias e que foi uma experiência cansativa e emocionalmente desgastante. Ela ficou aliviada quando o filme foi finalizado. Eu posso imaginar…

Nocturnal Animals ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 127, incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson (que interpreta ao vilão Ray Marcus) e para o Grande Prêmio do Júri – Leão de Prata para Tom Ford no Festival de Cinema de Veneza.

Além dos atores principais, que roubam a cena, vale comentar o bom trabalho de Michael Shannon como o delegado Bobby Andes; Aaron Taylor-Johnson como um dos algozes da história de Edward, Ray Marcus; Isla Fisher como a mulher do personagem Tony Hastings, Laura; Ellie Bamber como India Hastings, filha de Tony e de Laura; Armie Hammer em uma “ponta de luxo” como Hutton Morrow, marido de Susan; Laura Linney em outra super ponta como Anne Sutton, mãe de Susan; Karl Gusman como Lou, outro dos bandidos; e Robert Aramayo como Turk, o último do trio de bandidos que vitimiza Laura e India.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média 7. Especialmente a média de avaliação do IMDb é boa, mas os críticos do Rotten Tomatoes foram mais reticentes. E eles tem razão.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a constar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: A vingança é um prato que se come frio, como já nos ensinaram há tanto tempo. Nocturnal Animals nos conta, essencialmente, uma história de vingança. Muito tem orquestrada, diga-se. Com um roteiro bem escrito, ainda que ele não seja exatamente surpreendente, Nocturnal Animals mexe com paixões e com os efeitos das escolhas que os personagens fazem. Tom Ford sabe trabalhar e desconstruir a noção do belo, questionando noções básicas como a violência, a vingança e o amor. Interessante na proposta, mas um tanto previsível demais, Nocturnal Animals apresenta belas atuações do elenco e uma narrativa envolvente. Pena que no final tudo pareça tão simples e tão óbvio.

Girl Asleep – O Sonho de Greta

Um filme bobinho mas com algumas sacadas bastante criativas sobre uma fase da vida já bastante explorada pelo cinema. Girl Asleep trata da história de uma garota que está perto de completar 15 anos e que acaba de mudar de cidade e de colégio. Explorando a fantasia e boa parte do estilo dos anos 1970, esta produção fala sobre o amadurecimento e as “pazes” que todos nós deveríamos fazer com a nossa “criança” interior. Bonitinho, criativo, mas apenas mediano.

A HISTÓRIA: Primeiro dia na nova escola. Sentada em um banco e com uniforme escolar, Greta (Bethany Whitmore) está cercada de diferentes tipos de estudantes. Atrás dela passa o time de basquete, que está treinando, e um trio de meninas conversa. Uma menina chega perto de Greta e aponta para o origami que ela tem sobre as pernas, sem falar nada. Greta entrega o origami para ela, e Elliott (Harrison Feldman) se aproxima para puxar conversa. Ele quer ser amigo da aluna nova. Greta deve se adaptar mais uma vez, perto de fazer o aniversário de 15 anos e de ter uma festa surpresa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Girl Asleep): Este filme é todo estiloso. Uma das características fortes da produção é o uso de muitas cores e de uma fotografia marcante, assim como uma visível homenagem para os anos 1970. Guardadas as devidas proporções, Girl Asleep me fez lembrar do excelente Little Miss Sunshine.

Digo guardadas as devidas proporções porque o roteiro de Little Miss Sunshine é bem mais interessante, envolvente e bem acabado, com diversas camadas de leitura, do que este Girl Asleep. O que os dois filmes tem em comum é o estilo muito peculiar do visual das duas produções e uma certa coleção de personagens “estranhos”. Ainda que em Girl Asleep os personagens sejam bem mais simples e caricaturais do que o filme dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris.

A narrativa de Girl Asleep achei um bocado simplória. Basicamente o filme explora os sentimentos e a visão de uma jovem que está perto de completar 15 anos e que tem ao seu redor uma série de personagens muito característicos. O filme todo, na verdade, parece a lembrança “floreada” de alguém que pensa no seu próprio passado. As cores são mais vibrantes do que na realidade, e mesmo os personagens são bastante “simples”, sem as diversas camadas que normalmente eles teriam.

Ou seja, é como se estivéssemos assistindo às lembranças de Greta de sua própria juventude. Apesar de ser claramente dividido em duas partes, entre a realidade de Greta e o sonho que ela tem embalado por sua imaginação e a caixinha de música que ganhou da mãe, o filme todo parece uma grande fantasia. Se os personagens são “ligeiros”, pouco aprofundados e quase todos caricaturais, a narrativa também é bastante simples. Sabemos por onde a história vai do início até o fim.

Girl Asleep explora uma fase da vida de muitas pessoas que pode ser bastante traumática. Greta é, como tantas outras adolescentes, a garota que vive os desafios de sua idade com o agravante de estar começando em uma nova escola. Então ela deve começar o processo de conhecer pessoas e fazer novos amigos ao mesmo tempo em que “enfrenta” o trio de garotas que se sentem as “maiorais” do pedaço. Em casa, ela tem duas personalidades muito diferentes como pai e mãe.

Enquanto o pai Conrad (Matthew Whittet) é o piadista e o sujeito que está sempre presente e preocupado com Greta e a irmã Genevieve (Imogen Archer), a mãe das garotas, Janet (Amber McMahon) parece estar sofrendo um pouco a crise da meia idade. Ela fica ouriçada com o novo namorado da filha mais velha e também com o novo amigo de Greta. Além disso, Janet e Conrad tentam disfarçar os desentendimentos e discussões, mas Greta está começando a deixar a “idade da inocência” e passa a perceber as entrelinhas do que acontece dentro e fora de casa.

Girl Asleep trata com franqueza e com um pouco de tintas exageradas esta fase de “passagem” da infância para a vida adulta simbolizada no aniversário de 15 anos da protagonista. A maioria já passou por esta fase, então não é difícil ter alguma lembrança engraçada ao ver a história de Greta. A narrativa é simples e curta, e os personagens são um tanto simplórios e/ou caricaturais, mas o estilo do filme é interessante. Na verdade, a sua melhor qualidade.

A diretora Rosemary Myers explora bastante os closes e a câmera próxima dos personagens, assim como trabalha todos os elementos em cena, inclusive explorando os cenários para marcar o tempo da narrativa. Cada imagem que vemos parece ter sido pensado como um quadro, com a câmera fixa em diversos momentos do filme e pouca dinâmica nas filmagens. É como se esta produção tivesse sido feita em uma época em que o cinema não explorasse tanto a “câmera na mão” como hoje em dia.

Os cenários, o figurino e a trilha sonora, principalmente, são elementos importantíssimos para a história. Como eu disse, mais que conteúdo, Girl Asleep tem como o seu forte um estilo bem marcado. É um filme bonitinho, estiloso, mas que carece de um roteiro mais interessante. Talvez interesse mais para o público jovem, adolescente, do que para adultos. Meu problema, talvez, seja ter mais de 15 anos. 😉 Como cinema, ele é tecnicamente bem feito e tem algumas boas sacadas. Mas é só. E é pouco.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção me pareceu um daqueles filmes de TCC (trabalho de conclusão de curso) de uma faculdade de Cinema. Ou seja, bem feito, mas ainda sem a qualidade de uma obra maturada e pensada para o cinema comercial. Como Girl Asleep não tem personagens ou mesmo uma história muito complexa, achei a duração do filme, de apenas 77 minutos – sim, uma hora e 17 minutos – bastante adequada. Realmente não precisávamos de mais tempo para o que foi apresentado.

Girl Asleep marca a estreia na direção de Rosemary Myers. A diretora já tem uma boa característica técnica, mas certamente ela precisa de um roteiro melhor para mostrar todo o seu potencial. O roteiro desta produção é assinado pelo ator australiano Matthew Whittet, de 42 anos e que interpreta, no filme, o pai da protagonista. Este é o primeiro roteiro assinado por ele, que tem 22 filmes no currículo como ator.

Esta produção está centrada na personagem de Greta, interpretada com muita sensibilidade e carisma pela atriz Bethany Whitmore. Ela é o ponto forte do filme, assim como o conjunto de aspectos técnicos da produção. Do elenco, ainda vale citar o bom trabalho de Harrison Feldman como Elliott, o novo melhor amigo de Greta; Amber McMahon como Janet e a Mulher de Gelo; Matthew Whittet como Conrad e o Homem Abjeto; Imogen Archer como Genevieve, irmã mais velha de Greta; Eamon Farren como Adam, namorado de Genevieve e também Benoit Tremet; Tilda Cobham-Hervey como The Huldra; Maiah Stewardson como Jade, a garota popular e maldosa que lidera o trio composto ainda por Amber, interpretada por Fiona Dawson, e por Sapphire, interpretada por Grace Dawson.

Alguns aspectos técnicos são o ponto forte de Girl Asleep. Entre outros pontos, destaco a direção de fotografia vivaz de Andrew Commis; a trilha sonora deliciosa de Harry Covill; a edição bem feita de Karryn de Cinque; e uma série de elementos fundamental para a história ter a “graça” que ela tem: o design de produção de Jonathon Oxlade; a direção de arte de Erica Brien; os figurinos de Jonathon Oxlade; a maquiagem de Catherine Biggs; e o departamento de arte com oito profissionais.

Girl Asleep teria custado 1,5 milhão de dólares australianos e faturado, nos Estados Unidos, quase US$ 60,3 mil. Não há informações sobre o resultado do filme nas bilheterias de outros países.

Esta produção foi totalmente rodada no Sul da Austrália. E o filme é, também, uma produção 100% australiana.

Girl Asleep ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 10. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Filme pela escolha do público no Festival de Cinema de Adelaide; o de Melhor Figurino no Prêmio da Academia de Artes do Cinema e da Televisão Australiana; o de Melhor Filme Australiano no Festival Internacional de Cinema de Melbourne; e dois prêmios de Melhor Filme dados pelo Futurewave Youth Jury Award e pelo Grande Prêmio do Júri do Festival Internacional de Cinema de Seattle.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para Girl Asleep, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 27 críticas positivas e seis negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,9.

CONCLUSÃO: Para muitas garotas os 15 anos são um marco da passagem da infância para a vida adulta. Até hoje há quem sonhe com bailes de debutantes, por exemplo – algo tão “atual” quanto a realeza, não é mesmo? Ainda que as expectativas pela chegada dos 15 anos tenham mudado muito com o tempo, alguns aspectos deste período permanecem igual desde sempre, como a “estranheza” com o que a pessoa tinha como certo na vida e com o que está começando a surgir.

É uma época complicada, para muitos, e que tem alguns de seus elementos bem explorados por este filme. Apesar de bem feito e de divertido, Girl Asleep me pareceu um tanto simplório e “mais do mesmo”. Talvez seja um filme mais indicado mesmo para uma “sessão da tarde”, nada além disso.

The Lobster – O Lagosta

Uma alegoria sobre as relações interpessoais de uma sociedade preto no branco e com uma boa dose de nonsense. The Lobster exagera em seus argumentos e no desenvolvimento da história para nos fazer pensar sobre os padrões estabelecidos, sobre sociedades muito regradas e, de quebra, nos apresenta uma história de amor inusitada. Um filme criativo, sem dúvida, mas que não chega a mexer com o espectador. Algumas vezes o exagero faz isso. Faz pensar, mas não nos cativa.

A HISTÓRIA: Uma mulher dirige um carro na chuva. Ela está atenta à paisagem e para em determinado ponto. Ela sai do carro, caminha alguns passos em direção a um pasto e dá três tiros contra um asno. Um outro animal próximo olha tudo e se aproxima lentamente do animal abatido. A mulher volta para o carro. David (Colin Farrell) está sentado no sofá e ouve um “sinto muito” da mulher. Ele pergunta se ele usa óculos ou lentes, e ela responde que óculos. Em seguida, David e o seu cachorro/irmão são levados da casa. Ele chega no hotel e faz o seu cadastro, logo sendo apresentado para as regras do local. Esta é a primeira vez que ele fica sozinho e terá pela frente uma série de desafios por causa disso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Lobster): Pouco a pouco o espectador vai entrando no mundo “maluco” criado pelos roteiristas Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou. Se bem que, depois que o filme termina, você fica pensando que o nonsense da história não é tão nonsense assim. Vamos falar sobre isso.

Quando The Lobster começa, percebemos que o protagonista foi abandonado pela mulher (que não aparece em cena), que encontrou alguém mais “interessante” que ele. A saída para David (Colin Farrell) é ir para um “hotel” que tem regras muito claras. Aparentemente, todo mundo que fica sozinho na “cidade” é levado para aquele hotel.

Ali, a pessoa tem duas opções: ou consegue arranjar alguém compatível e dar certo com esta pessoa em um determinado período de tempo ou, no final do prazo, a pessoa escolhe um animal para se “transformar” nele e, nesta nova condição, tentar ter um futuro melhor. Para alongar o período que a pessoa tem no hotel e aumentar as chances de conhecer alguém compatível, a pessoa participa em grupo de caçadas em que para cada pessoa “solitária” abatida, o caçador ganha um dia a mais de permanência no hotel.

Lendo estas linhas e vendo o filme sem interpretação, The Lobster parece um bocado absurdo, não é mesmo? Mas como a narrativa é lenta, durante a experiência de assistir a produção já começamos a refletir sobre as mensagens que o diretor e roteirista Lanthimos quer nos passar. Primeiro, vejo que ele exagera na narrativa para fazer os espectadores se questionarem sobre a sociedade em que vivemos. Para a maioria parece realmente que só faz sentido se uma pessoa encontrar a outra em viver em “casal”. Os que decidem fugir deste padrão são considerados “párias” sociais, não é mesmo?

Claro que cada vez mais, nas nossas sociedades modernas, o solitário acaba sendo aceito porque este perfil foi aumentando com o passar do tempo. Mas o padrão das sociedades ainda é de homem e mulher que formam um casal e, preferencialmente, tem filhos. As razões para defender este padrão são tão primárias quanto aquelas mostradas pelos administradores do hotel desta produção. Além disso, Lanthimos e Filippou brincam com alguns outros conceitos sociais muito interessantes.

De várias tiradas que The Lobster apresenta, me chamaram atenção duas. A primeira é que quando um “protótipo” de casal começa a ter problemas de convivência, como discussões e desentendimentos, eles podem receber dos administradores um “filho” para amenizar os problemas. Na vida real, infelizmente, muitos casais tem esta mesma leitura. Que um filho poderá resolver o que eles não conseguem sozinhos. Ter um filho por este motivo nunca é uma boa ideia.

A outra tirada interessante da produção é a lógica com que vivem os “solitários”. Não vivem sob regras rígidas apenas aqueles que estão no circuito do hotel. Os “párias” que vivem refugiados na floresta também estão sob regras rígidas. Eles podem até conversar e ter uma interação básica, mas não podem ter relações sexuais ou muito próximas. Nas festas, por exemplo, cada um dança música eletrônica com o seu próprio fone de ouvido e aparelho. Piada sobre os solitários que vivem em festas e em tantas outras partes de forma realmente individualista.

Analisando o comportamento dos personagens, todos são um bocado mecânicos. Não apenas as pessoas envolvidas na dinâmica do hotel, mas também aqueles que buscam ali uma nova oportunidade de seguir sendo “humano”, agem de forma pouco natural. As conversas são estranhas, assim como as atitudes. Para um casal ter chances, ele deve ter um elemento que os “define” em comum. Se um homem manco não encontra uma mulher que também seja manca, ele forja um problema de sangramento no nariz para combinar com uma garota que tem a mesma condição.

Ainda que todos, aparentemente, lidem bem com a ideia de serem transformados em animais se não conseguirem um(a) parceiro(a) em tempo hábil, a verdade é que todos parecem um tanto desesperados ou para ganhar mais tempo através da caça de solitários ou forjando semelhanças que não existem para fazer um casal. Vale também analisar esta ideia das pessoas serem “transformadas” em animais caso elas não sejam mais “úteis” como humanos (e a utilidade só existe se você vive como casal).

A ideia de The Lobster é que se uma pessoa não pode ser útil formando um casal, ela pode ganhar nova utilidade se transformando em um animal. Nesta circunstância ela poderá procriar, ajudar a aumentar a população de uma espécie em risco de extinção ou até ter uma “serventia” para outros humanos, seja como animal doméstico, seja como comida. Daí paro para pensar no início desta produção. Aquela mulher estaria se “vingando” de um ex-marido ou de outro tipo de desafeto? Bem possível. 😉

Engraçado como o protagonista acaba fazendo o mesmo que um colega e mentindo para tentar conseguir uma parceira no hotel e, depois que o plano dá errado, ele se lança para a vida solitária sem querer, na verdade, viver aquela realidade. No início ele até aceitou bem as regras dos solitários, mas quando conheceu uma mulher que era míope como ele, eles se apaixonaram. A partir daí, eles não podiam ser mais aceitos naquele grupo. Ao invés de serem expulsos, eles foram penalizados.

Isso faz pensar como determinados grupos – e isso é algo bastante atual – tem uma grande dificuldade de aceitar pessoas que tenham um padrão diferente. A resposta deles para os “rebeldes” é, geralmente, uma penalização grave, desde o banimento até a morte. Simplesmente os que são diferentes não são aceitos – e isso vale, na viagem deste filme, tanto para os que não formam casais quanto para aqueles que formam, dependendo se falamos do povo do hotel ou da floresta.

No fim das contas, David se vê obrigado a mutilar a si mesmo para que ele e a sua nova mulher tenham uma chance na cidade, onde as pessoas só são aceitas como casais. E é regra básica de qualquer casal ter “o que define o indivíduo” em comum. Com isso, Lanthimos e Filippou nos fazem refletir sobre como qualquer radicalismo e como qualquer sociedade cheia de regras é daninha, mortal. Deveríamos todos trabalhar para a inclusão das pessoas, e não para a exclusão. Um filme interessante, com um roteiro bem inusitado para nos fazer pensar sobre conceitos importantes. Só achei ele um pouco longo e com um desenvolvimento um tanto arrastado. Poderia ser mais curto e um tanto mais direto nos pontos centrais.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fazia tempo que eu não via o ator Colin Farrell em uma interpretação tão interessante. Ele exagera nas caras e bocas e nem faz uma interpretação caricatural – o que volta e meia ele apresenta. Não. Em The Lobster Farrell está coerente e em uma interpretação sem exageros e na qual é possível acreditar no personagem. Ele humanizou uma figura bem diferente do usual. O espectador agradece.

Além de Colin Farrell, The Lobster tem alguns grandes atores em papéis secundários. Deste elenco “de apoio”, destaque para Rachel Weisz como a narradora e a nova parceira que o protagonista encontra na floresta, entre os solitários; John C. Reilly como o “homem que sibila” e que vira amigo de David no hotel; Léa Seydoux como a maluquete líder dos solitários; Michael Smiley como o braço direito da líder dos solitários; Olivia Colman como a gerente do hotel; Ashley Jensen como a mulher do “biscoito” e que se desespera por não conseguir um companheiro; Angeliki Papoulia como a “sem coração” que é a psicopata que David resolve enganar sem sucesso; Garry Mountaine como o parceiro da gerente do hotel; Ariane Labed como a camareira que é “agente dupla”; Ben Whishaw como o jovem manco que finge ter o mesmo problema de uma jovem para fazer um casal com ela; e Jessica Barden como a jovem garota que tem um problema com o nariz que sempre sangra.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de Yorgos Lanthimos. Ele soube explorar bem a interpretação dos atores e também os cenários restritos em que eles se movimentam. Só achei o filme um tanto longo demais. Alguns trechos menos relevantes para a história poderiam ter sido perfeitamente cortados. Vale ainda destacar a direção de fotografia de Thimios Bakatakis; a edição de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Jacqueline Abrahams e a trilha sonora contundente e bastante pontual, quase como outro narrador do filme, e executada por seis nomes do Departamento de Música.

O nome de Yorgos Lanthimos não me parecia familiar. Buscando mais informações sobre ele, descobri que o diretor grego tem 44 anos e fez, antes de The Lobster, oito curtas e longas. Foi vendo a lista do que ele tinha dirigido antes que eu percebi que The Lobster não foi o primeiro filme que eu vi dele. Antes, assisti a Kynodontas (comentado aqui), outro filme muito, muito peculiar e forte. Pelo visto, Lanthimos tem um estilo de cinema realmente diferenciado, que tende ao exagero para fazer o espectador pensar sobre determinados padrões e realidades. Não deixa de ser interessante.

Novamente a violência é um elemento importante em um filme de Lanthimos. Parece que ao explorá-la de forma tão crua e visceral ele está querendo nos alertar sobre o fascínio que nós como indivíduos e em coletivo, nas nossas sociedades, temos com a violência. Vale questionar isso sim, com certeza.

The Lobster teria custado cerca de 4 milhões de euros e faturado, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 9 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou ele teria feito outros US$ 8,98 milhões. Ou seja, conseguiu cobrir os gastos e faturar alguma coisa.

Esta produção foi totalmente rodada na Irlanda, em locais como o Parknasilla Hotel and Resort, em Sneem; o The Eccles Hotel, em Glengariff Harbour; o Grand Canal Dock e o Blanchardstown Shopping Centre, em Dublin; e a floresta Dromore, em Coillte Teoranta.

The Lobster é uma coprodução da Grécia, da Irlanda, da Holanda, do Reino Unido e da França. São poucos os filmes com tantas produtoras e países envolvidos. Interessante a forma com que os produtores deste filme conseguiram captar tantos recursos de diferentes países.

Esta produção ganhou 22 prêmios e foi indicada a outros 65. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz Coadjuvante para Olivia Colman no British Independent Film Awards; para o prêmio do júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cannes – onde o filme recebeu ainda o prêmio do júri do Palm Dog para o cachorro Bob e uma menção especial no Queer Palm para Yorgos Lanthimos; o de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original no Florida Film Critics Circle Awards; o de Melhor Filme Estrangeiro no Hellenic Film Academy Awards; o de Melhor Roteiro no International Cinephile Society Awards; o de Melhor Diretor no Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Miami; e o de Melhor Trilha Sonora Original e Design de Som para Johnnie Burn no Festival Internacional de Cinema de Ghent.

Além destes prêmios que recebeu, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original e ao Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Colin Farrell. No primeiro ele perdeu para Manchester by the Sea (comentado aqui) e, no segundo, para Ryan Gosling, de La La Land (com crítica neste link). Francamente, acho que nos dois casos as derrotas foram merecidas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 180 críticas positivas e 23 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,6.

CONCLUSÃO: Um filme cerebral e nada emocional. O diretor e roteirista Yorgos Lanthimos leva ao extremo alguns conceitos de padronização da sociedade dos indivíduos para nos fazer pensar sobre como o excesso de regras pode nos tornar pouco mais que robôs. Mesmo sendo um “espetáculo do absurdo”, The Lobster mexe com diversos conceitos individuais e coletivos e mostra que mesmo em sociedades hiper controladas é possível improvisar e encontrar o amor.

Com roteiro bem criativo e curioso, esta produção é para quem não se importa com histórias e enredos estranhos e inusitados. É curioso, mas não chega a mexer com o espectador. Esta mais para uma obra nonsense do que para um grande filme.