Marguerite

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Na história das artes sempre existiu a figura do mecenas, aquela pessoa com alto poder econômico e que financiava artistas e suas variadas expressões. Antes era assim e hoje continua sendo. Não são poucas vezes, contudo, em que estes mecenas resolvem também manifestar os seus próprios “dotes” artísticos. O problema é que nem sempre eles carregam o dote que eles gostariam de ter. Marguerite conta a história de uma destas pessoas “endinheiradas” que ajuda outros artistas e que gostaria de ser, ela também, uma grande artista, mas lhe falta talento.

A HISTÓRIA: Começa com música clássica e dizendo que foi inspirada em uma história real. A soprano Nedda (Petra Nesvacilová) canta acompanhada de uma orquestra em um lindo salão. Corta. Capítulo 1 – A Grande Marguerite Dumont. Crianças brincam do lado de fora e muita gente ainda está chegando à propriedade. Estamos em setembro de 1920. Hazel (Christa Théret) apresenta uma carta e diz que é cantora e veio substituir alguém. Ela está atrasada, mas é recebida no portão pelo mordomo Madelbos (Denis Mpunga).

Quase ao mesmo tempo, o jornalista Lucien Beaumont (Sylvain Dieuaide) e o poeta Kyrill Von Priest (Aubert Fenoy) pulam o muro para conferir a grande ocasião do recital feito para arrecadar fundos para os órfãos da guerra. O local está cheio de pessoas ricas e importantes, e Kyrill aproveita para mostrar as suas poesias. Depois de belas apresentações, parte da plateia se sacrifica para ouvir Marguerite Dumont, enquanto parte sai de fininho para que seus ouvidos não sofram. Esta é a história de Marguerite Dumont, uma rica baronesa que cantava muito mal, mas que ninguém tinha coragem de lhe dizer a verdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Marguerite): Os franceses sabem fazer filmes complexos com muita sutileza. Marguerite, inicialmente, parece ser apenas uma comédia. Mas sempre há mais de uma camada de leitura em um filme francês. Verdade que há comédia nesta produção, mas também há crítica social, um bocado de melancolia e, porque não dizer, de tragédia.

Pessoalmente, não achei tanta graça assim em Marguerite. Desde o início eu achei aquela situação ridícula da protagonista mais triste do que engraçada. Acho que acabei me colocando no lugar do mordomo Madelbos, com aquele olhar atento, detalhista e ao mesmo tempo de compaixão. Ou mesmo no lugar de Hazel, quando ela percebe como Marguerite canta mal e como todos se divertem desta ilusão que ela nutre de ser uma cantora talentosa.

Vou falar da história antes de falar dos aspectos técnicos da produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim das contas, achei a história de Marguerite bem triste e até trágica, e desde o princípio. Logo no início o roteiro do diretor Xavier Giannoli, que teve a colaboração de Marcia Romano, nos apresenta uma senhora de alta classe com muito dinheiro para satisfazer todos os seus desejos materiais, mas em um casamento de fachada, sem afeto ou consideração, e cercada de mentiras.

Marguerite só não é miseravelmente infeliz porque acredita em uma ilusão: de que ela canta muito bem, algo que ela gostaria de fazer desde a infância. Mas o que seria melhor: ela ter uma vida feliz que ela construiria sobre a verdade e por sua própria conta ou ter uma vida “feliz” (entre aspas mesmo) baseada em um castelo de mentiras? Seria melhora ela saber a verdade e ter que enfrentar a sua própria realidade ou viver na ilusão?

Cada um tem o direito de pensar como quiser e de ter a vida que escolher. Mas eu não tenho dúvida sobre as respostas para as perguntas acima. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Marguerite não precisava morrer de desgosto no final desta produção se tivesse, ao invés de acreditado em uma mentira por tanto tempo, ter descoberto a verdade antes, muito antes, e ter tido a liberdade e a coragem de tomar as rédeas de sua própria vida nas mãos.

Eu sempre fui e serei da opinião que a verdade é fundamental. Eternamente eu vou preferir ouvir uma verdade dura e até cruel do que ser iludida por algo falso ou mentiroso. Só sabendo a verdade alguém poderá fazer a avaliação correta dos cenários e buscar escolher o melhor para si e para os demais. A protagonista desta história não teve esta chance por várias razões. Primeiro, pela covardia do marido, Georges Dumont (André Marcon), que nunca foi capaz de dizer para Marguerite que ela não tinha talento.

Depois, ela foi vítima da vida de aparências da época e, principalmente, da hipocrisia e do jogo de interesses da classe da qual ela fazia parte. O mordomo Madelbos escondia de Marguerite as críticas ruins – certamente ele era pago pelo marido para fazer isso. Até o início do filme, a protagonista vivia apresentando a falta de talento para um circuito fechado de amigos – certamente sob a orientação do marido. Mas eis que Lucien e Kyrill invadem o recital da nobreza e conferem de perto o que era apenas um boato para os dois.

Kyrill, um poeta revolucionário e agitador cultural, encara a falta de talento de Marguerite como uma forma de quebrar o status quo, uma atitude corajosa contra o que é belo e correto em uma época com diversos desafios na sociedade. Lucien, por sua conta, faz uma crítica sutil sobre o concerto, essa exposição na mídia anima Marguerite. Sob o convite de Kyrill, que de fato acredita na postura contra o sistema de Marguerite – nada mais exagerado e contra a realidade – ela acaba saindo da casca e se apresentando em um ato político disfarçado de noite artística e orquestrado por Kyrill.

De quebra, claro, Kyrill encara a generosidade de Marguerite como uma boa oportunidade dele fazer dinheiro – seja vendendo poesia, seja vendendo quadros. Lucien, por sua vez, acaba conhecendo mais de perto Marguerite e vendo que ela não é uma rica desmiolada, mas uma pessoa cheia de boa vontade, que se importa e que acredita nos demais – desde o marido que pula a cerca até qualquer pessoa que lhe peça ajuda para a arte. Consequentemente, os amigos acabam se distanciando por encararem a rica sem talento de formas muito diferentes.

Kyrill a vê como instrumento para a sua própria estratégia de romper paradigmas da época. Lucien a encara como uma pessoa que merece respeito e que tem as suas qualidades, apesar de acreditar em uma mentira. Mas depois de começar a se libertar, Marguerite não pensa em parar. E ela encara o desafio de fazer um grande concerto que, claro, não termina bem. Enquanto Georges não tem coragem de impedir a tragédia pessoal da esposa, Madelbos prevê tudo que vai acontecer.

E daí voltamos para a essência da história. Para mim, Marguerite – que é uma ficção, apesar de levemente baseada em uma história real – é um grande exemplo do efeito destrutivo que a mentira e a ilusão podem ter na vida de uma pessoa. Se a protagonista realmente tivesse amigos, algum deles teria lhe dito a verdade. O problema é que a alta sociedade daquela época e a de hoje, e especialmente esta levada que vivemos de “politicamente correto”, impede que as pessoas escutem boas verdades.

Afinal, o lema é que é preciso “cuidar com o que se fala para não ferir os sentimentos das pessoas”. Mas uma coisa é ter tato, é saber quando e como falar, outra bem diferente é fingir, dissimular, esconder e mentir. Em sociedades que foram e que seguem um bocado hipócritas, muitos dizem que o certo deve ser feito sempre, inclusive falar a verdade “doa a quem doer”, mas poucos de fato tem a coragem de fazer o que pregam e defendem. Enquanto isso, vão se acumulando história de pessoas que vivem grandes ilusões e mentiras.

Claro que a culpa, se podemos dizer assim, não é apenas dos outros. Marguerite talvez acreditasse com tanta força que cantava bem, quando não era nada disso, porque ela tinha medo de encarar a verdade sobre a própria vida. Especialmente o desastre de seu casamento. Curioso que, pelas atitudes de Georges, ele realmente amava a esposa ou, pelo menos, se importava e preocupava com ela, apesar de não conseguir demonstrar e nem viver isso na prática. Um covarde em todos os sentidos.

Marguerite acaba ignorando tudo que não é belo e tudo que não lhe agrada ou se encaixa em seu ideal de vida. No fim das contas, foi uma escolha dela este caminho. Dá mais trabalho encarar sempre a realidade, claro, mas por outro lado se colhe exatamente o que se planta – e não ilusões. Marguerite abre mão disso e acaba seguindo uma trajetória trágica. Antes, claro, ela tem pelo menos uma boa noite acompanhada de Lucien e outra bem divertida com a sua nova trupe de artistas e amigos antes de esbarrar com a dura verdade do marido e sua amante.

Com a realidade batendo à sua porta, Marguerite se agarra ainda mais à ilusão e à vontade de cantar, algo que ela ama fazer, apesar de não ter talento. Para finalmente se apresentar para o grande público ela quer estar preparada e por isso segue sendo acompanhada pelo cantor Atos Pezzini (Michel Fau). Ele percebe que ela “não tem jeito”, mas encara o desafio por causa do dinheiro – ele vai receber bem e conseguir pagar as dívidas e ainda sair no lucro.

Não vejo problema em uma pessoa fazer o que ela ama, mesmo que ela faça isso mal. Desde que esta aposta não seja a razão da vida da pessoa, porque aí não será possível ter um fim que não seja ruim ou trágico. Por outro lado, acredito sim que todas as pessoas nascem com vários talentos, e que quando alguém se dedica ao talento errado, está abrindo mão de dedicar-se ao dom que verdadeiramente aquela pessoa tem. Ou seja, puro desperdício.

Marguerite certamente tinha muitos talentos, mas acabou desperdiçando algum ou alguns deles ao apostar tanto em algo para o qual ela não tinha nascido. Todos deveriam fazer este exercício de procurar o seu verdadeiro talento e desenvolvê-lo. Assim teriam muito mais chances de alcançar a felicidade e de fazer a outros felizes. Para mim, esta foi uma das grandes reflexões deste filme, além da crítica às aparências e à hipocrisia de algumas rodas sociais.

Agora, falando da parte técnica da produção. Por ser um filme de época, um dos pontos forte de Marguerite é a reconstrução da França dos anos 1920. Jogam um papel fundamental, neste sentido, os figurinos em cena, a maquiagem, a direção de arte e a decoração dos sets. Tecnicamente o filme é muito bem feito, mas achei que a história é um tanto mediana. Por isso, inclusive, a nota abaixo.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus bons leitores e leitoras deste blog, vocês devem ter notado que eu não tenho conseguido escrever muito por aqui. Pelo menos não tanto quanto eu gostaria. Isso está acontecendo porque nas últimas semanas eu tenho trabalhado demais na minha profissão, inclusive com novos desafios. Mas pretendo, em breve, retomar a frequência de pelo menos duas atualizações por semana aqui no blog. Vejamos se eu consigo. Obrigada pela paciência de vocês e por acompanhar esta página.

O roteiro de Xavier Giannoli, com a colaboração de Marcia Romano, tem um bom ritmo e vários acertos. Por outro lado, achei que ele carregou um tanto as tintas, um pouco além da conta. Certo que a intenção era fazer rir e, se possível, provocar reflexão no público. Mas há um pouco de exagero nas caricaturas. Boa parte dos personagens são um tanto exagerados, o que torna o trabalho de Giannoli mais “fácil”, por um lado – afinal, exageros e caricaturas normalmente fazem rir e “popularizar” as histórias -, mas mais simplista também, por outro lado.

Apesar do exagero, das caricaturas e do roteiro um tanto simplório, Marguerite tem ao menos uma qualidade: um grande trabalho dos atores. Catherine Frot está perfeita como Marguerite, demonstrando diversas camadas da personalidade da personagem; e André Marcon como Georges e Denis Mpunga como Madelbos também tem trabalhos de destaque, muito sensíveis e expressivos inclusive em cenas em que expressam muito apenas com o olhar.

Outros três personagens importantes no filme são vividos com sensibilidade por Sylvain Dieuaide, o jornalista apaixonado por Hazel e que não tem coragem de assumir o que sente; pela própria Christa Théret, em um trabalho realmente interessante e que mostra como a atriz é promissora; e Aubert Fenoy em uma interpretação um tanto exagerada como Kyrill.

Junto com o belo trabalho de Michel Fau como Atos Pezzini estão os seus “fiéis escudeiros” na história e que fazem um bom trabalho também: Sophia Leboutte como Félicité “la barbue”; Théo Cholbi como Diego; e Boris Hybner como Mr. Callot, o pianista que não escuta nada e por isso consegue acompanhar as aulas de Marguerite. Também tem certo destaque o trabalho de Astrid Whettnall como Françoise Bellaire, a amante de Georges, e o ator Vincent Schmitt como o médico que trata Marguerite.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma merecem aplausos o design de produção de Martin Kurel; os figurinos de Pierre-Jean Larroque; a direção de fotografia muito precisa e atenta aos contrastes que dão mais dramaticidade para a história de Glynn Speeckaert; a trilha sonora de Ronan Maillard; a edição de Cyrill Nakache; a direção de arte de Pavel Tatar; e a decoração de set de Véronique Melery.

Marguerite estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois o filme passaria, ainda, por outros quatro festivais. Nesta trajetória, a produção conquistou seis prêmios e foi indicada a outros 13. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Catherine Frot, o de Melhor Figurino, o de Melhor Som e o de Melhor Design de Produção no Prêmio César, considerado o Oscar do cinema francês. Catherine Frot também ganhou como Melhor Atriz no Prêmio Lumiere e Xavier Giannoli ganhou o Prêmio Nazareno Taddei no Festival de Cinema de Veneza.

Como comentei antes, este filme é inspirado em uma história real. Apenas inspirado. Porque a verdadeira fonte da inspiração era muito diferente de Marguerite. Florence Foster Jenkins era americana, herdeira de um banqueiro e fez carreira como cantora na Nova York dos anos 1940, apesar de não ter talento para isso. É possível saber um pouco mais sobre a sua vida neste link da Wikipédia. A história dela vai estrear logo mais, no dia 7 de julho, no filme Florence Foster Jenkins, dirigido por Stephen Frears e com Meryl Streep como a protagonista – acompanhada de Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson, entre outros.

Marguerite foi totalmente rodado em Praga, na República Tcheca. O filme, aliás, é uma coprodução da França, da República Tcheca e da Bélgica.

Os usuários do site IMDb eram a nota 7,2 para a produção, o que é uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 82 críticas positivas e apenas quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 7,5. Avaliações muito boas, pois. O filme é bom, mas francamente eu não achei tuuuuudo aquilo.

CONCLUSÃO: Este é um filme sobre arte, sobre paixão e amor. Os três elementos fazem parte da história de Marguerite Dumont, protagonista desta produção. Com uma bela reconstituição de época e com uma boa dose de humor e de ironia, este filme resgata uma personagem real que acaba nos fazendo refletir sobre os dias atuais. Afinal, quantas pessoas realmente tem talento e quantos vivem apenas das palmas de quem elas conseguem “comprar”? E quantos artistas com talento jamais serão conhecidos porque não tem uma Marguerite para apoia-los? Além disso, está muito presente nesta história os perigos da ilusão não combatida. Uma vida de ilusões e de mentiras pode nos levar para a loucura e a morte. Um filme curioso, mas nada além disso.

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Risttuules – In the Crosswind – Na Ventania

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Esqueça as imagens em movimento. O fundamental em Risttuules é o movimento nas imagens. Essa consideração parece estranha para um filme, mas o diferencial desta produção está em tratar grande parte da trama como uma espécie de “aprofundamento” de imagens estáticas, em fotografias históricas. A direção de fotografia e a estética deste filme são elementos fundamentais para a história. Além disso, Risttuules parte de uma leitura bastante humana e particular de um extermínio menos conhecido, o feito pelos russos. Importante, artístico e altamente indicado.

A HISTÓRIA: Som de vento forte, seguido de um texto que introduz a história. Na noite do dia 14 de junho de 1941, mais de 40 mil inocentes foram deportados da Estônia, Letônia e Lituânia. O objetivo da operação secreta, ordenada pelo ditador russo Stalin, era a limpeza étnica dos povos nativos dos Países Bálticos. Entre estes milhares de deportados pela invasão russa estava Erna Tamm, cujas cartas da Sibéria inspiraram a história contada no filme. Na sequência, começamos a mergulhar na narrativa de Erna Tamm (Laura Peterson) em cartas que ela escreveu para o marido, Heldur (Tarmo Song).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Risttuules): Fiquei muito surpresa com esta produção. Não apenas a temática do filme é importante, mas especialmente a forma com que esta história é contada torna a produção especial. Recentemente comentei por aqui o ganhador do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano e vencedor de diversos outros prêmios, o elogiadíssimo e muito interessante Saul Fia.

Aquele filme, assim como este, trata do Holocausto. Mas o extermínio de Saul Fia é aquele conhecido por qualquer estudante mundo afora. O Holocausto nazista, tão debatido e tratado em diversas produções, é o tema de Saul Fia. Risttuules, por outro lado, fala de um outro Holocausto, bem menos conhecido e abordado no cinema e fora dele, que é o extermínio de milhões de pessoas pelo regime de Stálin com o gulag. Achei esta matéria da Superinteressante que ajuda a dimensionar aquele absurdo histórico até hoje pouco abordado.

Então, por um lado, Saul Fia tinha como principal desafio contar uma história bem conhecida e debatida de forma diferente. Como comento na crítica sobre o filme, o diretor László Nemes consegue fazer isso com maestria, usando também uma técnica diferenciada que imprime um novo ponto de vista para a história e uma narrativa angustiante. O diretor Martti Helde, que também é o roteirista de Risttuules – ele assina o texto junto com Liis Nimik – tinha a seu favor o pouco conhecimento da maioria das pessoas sobre o Holocausto comunista.

Então a novidade da história de Risttuules, naturalmente, já é um atrativo da produção. Mas isso não basta para Helde que, a exemplo de Nemes, mas de forma muito diferente e muito mais artística, nos apresenta também uma técnica muito interessante nesta produção. Enquanto em Saul Fia a câmara quase sempre colada no protagonista e a movimentação constante, muitas vezes embalada mais pelo som do que pela imagem clara do que está acontecendo, provoca aflição no espectador, em Risttuules o diretor subverte a própria lógica do cinema.

Saul Fia é câmera em movimento quase o tempo inteiro. Cinema puro. Risttuules é cinema mas, principalmente, uma reflexão sobre o movimento e a cena estática. Um filme muito mais artístico, que sabe valorizar e dar significo para as imagens com movimento e, principalmente, mergulhar na significação de fotografias vistas em perspectiva e profundidade.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É muito interessante acompanhar a narrativa imaginada por Helde. Antes de Erna, Heldur e Eliide virarem prisioneiros dos russos, existe movimento nas cenas, o que representa a vida. Depois que eles são levados de casa e durante todo o tempo em que a família fica separada e vira prisioneira, a narrativa é da câmera (em última análise, o olhar do espectador) “flutuando” entre as cenas estáticas – é como se aquelas imagens estivessem congeladas, paradas no tempo e sem vida.

O efeito, ao menos para mim, foi impressionante. Ao mesmo tempo que você faz essa análise que eu comentei pouco a pouco, nas primeiras sequências em que vemos a câmera “caminhando” por atores e atrizes paralisados em cenas estáticas – mas com pequenas variações conforme a ação vai se desenrolando – nos imaginamos “mergulhando” em fotos históricas. Lembrei de tantas imagens de guerra, migração e conflito que eu já vi e pelo qual grandes grupos já passaram, muitas delas em preto e branco, como este filme, e me imaginei tendo a chance de mergulhar naquelas fotografias e ver de perto rostos, emoções, gestos e agressões.

Impressionante como a fotografia preto e branco, especialmente com aquele deslizar da câmera de Helde com o trabalho do diretor de fotografia Erik Põllumaa, nos leva pelas mãos como se estivéssemos vendo as cenas reais do que aconteceu. Nos sentimos praticamente em um documentário. Grande trabalho da equipe envolvida neste projeto, com uma entrega impressionante dos atores e um olhar fundamental do diretor e do diretor de fotografia. Certo que a inovação técnica aqui pode ser menos “revolucionária” que a feita por Nemes em Saul Fia, mas igualmente me impressionou o trabalho visual e a técnica dos realizadores de Risttuules.

Curioso que apesar de grande parte da história estar focada naquele jogo de deslizar de câmera entre imagens estáticas, a forma com que a lente captura as ações congeladas, a expressão dos atores e a dinâmica das cenas, em certo momento focando um detalhe, em outro imergindo em outro ângulo, torna a narrativa sempre fluída. Muito interessante. Não lembro de ter visto outro filme em que a técnica de filmagem e a ruptura do padrão cinematográfico fosse tão significativas.

Mas além da parte técnica, achei interessante como o roteiro de Helde e Nimik são fidedignos ao material original. Toda a narrativa da produção reproduz as cartas da protagonista, escritas por ela para o marido que ela não sabia se um dia iria reencontrar. Através do que ela nos conta, sabemos como era o campo de trabalho em que ela viveu e de que forma ela perdeu a filha única do casal. No final, além das cartas de Erna, temos a carta que Heldur escreveu para ela.

Fora estas cartas, o filme “adiciona” apenas o texto de introdução e o que conclui a história – e que ajuda o espectador menos avisado a compreender o contexto histórico e os efeitos do holocausto comunista – e alguns áudios que reproduzem comunicados históricos da época. Graças a essa escolha dos roteiristas, Risttuules é um filme conciso, direto, que não “floreia” nenhum acontecimento. O roteiro apenas reforça aquela ideia que o espectador pode ter de que esta produção é quase um documentário. Uma forma muito diferenciada, sem dúvida, de dramatizar e reavivar fatos históricos.

Fiquei arrepiada com esta produção. Achei ela muito honesta na forma com que a narrativa é contada e, analisando pela parte técnica, considero um filme bastante inovador. Além de valorizar o cinema, Risttuules homenageia a fotografia. A exemplo de Saul Fia, nesta produção os sons também são fundamentais – e, mais do que no filme de Nemes, aqui joga um papel-chave a trilha sonora.

Tudo funciona muito bem neste filme, com cada detalhe pensando, me parece, à exaustão. Grande trabalho técnico e também grande trabalho dos atores. Para o meu gosto, este filme é muito mais inovador do que qualquer um dos trabalhos recentes e premiados de Alejandro González Iñarritu. Para citar apenas um exemplo. Pena que jamais o Oscar premiaria m filme como este – afinal, ele é “artístico” demais para o gosto da maioria, e isso foge do foco da maioria das premiações do “cinemão”.

Risttuules, desta forma, acerta não apenas na narrativa, sem floreios ou penduricalhos, mas principalmente na técnica, apresentando um trabalho complexo de câmera sempre em movimento em imagens “estáticas” que exige, sem dúvida, um grande trabalho de preparo de cada detalhe e da equipe envolvida. Em pouquíssimas cenas é possível ver algum ator ou atriz piscando em cenas estáticas – eu vi isso em apenas duas ocasiões.

E os detalhes sutis, especialmente em ambientes fechados, de pequenas mudanças de cena após a câmera deslizar pelos personagens, só revela o trabalho minucioso e criativo de Martti Helde. Marcante e muito indicado, destas produções que vamos lembrar por muito tempo. Faltou pouco para a produção não ser perfeita – apesar de curto, com cerca de 1h20 de duração, achei que o filme tem algumas cenas um tanto repetitivas. A escolha de manter o roteiro focado apenas nas cartas dos personagens também não ajuda a aprofundar no cotidiano deles, deixando lacunas importantes na história. Pequenos detalhes que não fazem o filme perder o seu impacto ou inovação.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis um filme que precisa ser descoberto. E isso não é a coisa mais simples de acontecer. Primeiro porque Risttuules tem toda a “cara de festival”, ou seja, é uma destas produções que apenas os amantes mesmo do cinema provavelmente vão encontrar. Depois que é uma produção com uma narrativa que foge totalmente do padrão “filme de ação e/ou de heróis”, estas produções tão em alta ultimamente e “arrasa-quarteirão”. Quem não viu muitos filmes até hoje e nem se dá ao prazer de ver algo diferenciado dificilmente vai “aguentar” Risttuules. O que é uma pena, porque é importante “pensar fora da caixa” também em relação ao cinema.

Francamente, acho este filme muito recomendado não apenas para quem gosta de cinema, mas especialmente para quem admira e ama a fotografia. Que filme impressionante neste sentido! O jogo de sombra e luz das distintas cenas, o que é a essência das imagens (fotografia e cinema em suas origens), joga um papel fundamental nesta produção. Um verdadeiro deleite para quem gosta de admirar a arte apreciada com os olhos.

Os atores envolvidos neste projeto são fantásticos. A maioria não “interpreta” os seus papéis como estamos acostumados. Mas a expressão que eles ostentam, assim como as suas “ações imóveis”, são de arrepiar. Poucos nomes estão listados nos créditos do filme. Por isso vou citar apenas os que aparecem na lista, apesar de fazer a observação de que todos os envolvidos fazem um trabalho marcante.

Palmas especiais, pois, para a protagonista vivida por Laura Peterson, assim como para Tarmo Song, que interpreta a Heldur. Eles vivem uma linda e diferenciada história de amor. Os outros nomes que podem ser ressaltados são de Mirt Preegel como Eliide, filha do casal; Ingrid Isotamm, que interpreta Hermiine, uma das melhores amigas de Erna no campo de trabalhos forçados; e de Einar Hillep, como o chefe do campo de Kolhkoz.

Da parte técnica do filme, um dos pontos fortes e mais diferenciados da produção, os elogios principais vão para o diretor Martti Helde, que imaginou esta produção desta forma. Impressionante a visão diferenciada dele. Grande trabalho orquestrando cada cena e imaginando elas em detalhes e no conjunto da obra. Bravo, bravíssimo!!!

Depois, merece aplausos especiais o diretor de fotografia Erik Põllumaa, em um trabalho dinâmico e muito preciso em cada cena. A equipe de apoio do diretor também foi fundamental, com nove nomes envolvidos na segunda unidade de direção e como assistentes de direção. Também foram fundamentais na realização de Risttuules os 33 profissionais envolvidos com o departamento de câmera e elétrico. Eles é que executaram a visão do diretor e do diretor de fotografia, sustentando as câmeras e cuidando para que as imagens fossem captadas como deveriam. Trabalho de tirar o chapéu.

Agora que me dei conta de que eu fiquei tão fascinada pela técnica e pela narrativa de Risttuules que comentei pouco sobre a história. Bem, ainda há tempo para isso. 😉 (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Este filme foca a história particular de uma família para contar o drama que milhares viveram durante o gulag. Assim como em tantas obras literárias e histórias cinematográficas, partimos do particular para contar sobre o coletivo. Além de falar do holocausto comunista, esta produção é uma grande história de amor. Ela fala como uma pessoa pode viver de memórias boas enquanto luta para sobreviver apesar da morte da filha e da distância do marido que ela não sabe se está vivo ou como está. Com o passar do tempo, as pessoas se adaptam às piores situações mas, ainda assim, os dias bons e anteriores ao holocausto não saem da cabeça. Estas memórias é que dão o suporte para todo o inaceitável, para todos os abusos e violências. Este filme também trata de liberdade e da defesa de um lar, mesmo quando tudo parece nos tirar estes direitos. Uma história realmente impressionante, especialmente por não ser nada óbvia.

Da parte técnica do filme, eu ainda quero destacar o excelente trabalho de edição de Liis Nimik e de Tanel Toomsalu; a trilha sonora de Pärt Uusberg; o design de produção de Reet Brandt; os figurinos de Anna-Liisa Liiver; o departamento de arte de Pille-Maris Arro e Kristjan Suits; eo departamento de som com cinco profissionais que fazem um trabalho fantástico e fundamental e que são coordenados por diretor de som Janne Laine.

Risttuules estreou em março de 2014 na Estônia. Em outubro do mesmo ano o filme estreou no primeiro festival, o Festival de Cinema de Warsaw. Depois, o filme participaria, ainda, de outros nove festivais de cinema. Nesta trajetória a produção conquistou nove prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o prêmio de Melhor Filme pela escolha do público no Festival de Cinema de Göteborg; o Special Artistic Achievement no Festival de Cinema de Thessaloniki; o Prêmio Ecumênico do Júri do Festival Internacional de Cinema de Warsaw; e o prêmio de Melhor Novo Diretor para Martti Helde no Festival Internacional de Cinema de Beijing.

Aliás, vale comentar: Risttuules é o primeiro longa dirigido por Martti Helde. Aos 28 anos – o diretor completa 29 no dia 23 de agosto -, Helde dirigiu dois curtas antes deste filme e, depois de lançar Risttuules, lançou outro curta e está, atualmente, na pré-produção de outro longa-metragem. Eis um realizador que merece ser acompanhado.

Produção 100% estoniana, Risttuules foi rodado na estação de trem Kabala, na cidade de Viru-Kabala, e no Centro de Treinamento Tapa Army, na cidade de Tapa, onde é “simulado” o campo de trabalhos forçados na Sibéria. As duas cidades ficam na Estônia, país que faz fronteira com a Rússia e a Finlândia e que tem cerca de 1,36 milhão de habitantes. Até 1721 o país pertencia à Suécia, mas naquele ano ele passou para o império russo. Aqui estão as informações principais sobre este pequeno país que faz parte da Comunidade Europeia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Risttuules. Uma bela avaliação se levarmos em conta o padrão de notas do site. Merecido.

CONCLUSÃO: Um dos filmes mais inovadores na técnica narrativa que eu vi nos últimos tempos. Verdade que recentemente eu comentei Saul Fia, que também é inovador, mas este Risttuules acaba sendo até mais ousado na técnica. Saul Fia é mais profundo na história e na reflexão, mas fiquei encantada com o caráter artístico deste Risttuules. Curioso também assisti-lo depois de me debruçar sobre um filme inovador de um século atrás. O cinema é, sempre foi e continua sendo uma grande escola. Risttuules contribui com as suas colheradas de arte e de inovação neste sentido. Vale ser visto, mas com paciência e sabendo que ele foge bastante da ideia que normalmente se espera do desenvolvimento de um filme. Mas se arrisque, porque vale muito a experiência.

Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages – Intolerância

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Imagine como era o cinema há exatos 100 anos. Conseguiu imaginar? Provavelmente você pensou “ah, filme mudo, com poucos atores, mais ao estilo de teatro”. Imaginou algo assim? Bem, você não está de todo errado(a). Muito do cinema feito em 1916 tinha esta característica, mas não vamos falar aqui, na estreia de uma nova seção no blog, de um filme qualquer. Vamos estrear com um dos grandes filmes de todos os tempos, Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages, dirigido por um dos grandes cineastas da Sétima Arte, D.W. Griffith. Vale a pena nos debruçarmos nesta produção e em tudo que a define como um dos maiores clássicos do cinema. Com este filme, que está completando em 2016 exatos 100 anos, marcamos a estreia da seção “Um olhar para trás”. Boa leitura e bom filme!

A HISTÓRIA: Logo no início, junto com o nome do filme, sabemos que esta história tem “um prólogo e dois atos”. A trilha sonora é marcante, e vemos a apresentação de Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages em um daqueles quadros clássicos das primeiras décadas do cinema. Na sequência do nome do filme, aparece uma tela informando que o filme é constituído por “quatro histórias separadas, ambientadas em diferentes períodos da História, cada uma com o seu grupo de personagens. Cada história demonstra como o ódio e intolerância, através dos tempos, trava batalha contra o amor e a caridade. Assim, você vai notar que o nosso filme passa de uma história para a outra das quatro histórias, mas tendo o tema central sempre presente. Começamos com o berço divino balançando sem parar”. Estas frases se sucedem em uma série de telas, com a música mudando conforme a trama se desenvolve.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Intolerance): Que obra impressionante, meus bons leitores e leitoras! Admito que há muito tempo eu queria ter assistido a este filme de D.W. Griffith, mas nunca tinha tido a oportunidade de fazer isso como se deve, com calma e com tempo. Não haveria filme melhor para começar esta nova seção aqui no blog.

Há muito tempo, também, eu queria estrear esta seção de filmes históricos. Olhar para trás no cinema é um verdadeiro aprendizado e deleite. Não apenas para ver como a Sétima Arte se desenvolveu com o tempo, mas inclusive para perceber como diferentes artistas e diferentes épocas entenderam a nossa própria evolução enquanto civilização. É um verdadeiro prazer, desta forma, voltar exatamente 100 anos na História para assistir a um filme tão ousado em diversos sentidos.

Sempre ouvi falar em alguns nomes do cinema, evidentemente. Muitos destes nomes eu já assisti, aqui e ali, um ou outro filme, mas nem sempre tive a oportunidade de ver a todos os filmes que estes grandes nomes produziram. D.W. Griffith é uma unanimidade, entre os conhecedores do cinema, como um dos nomes principais da História da Sétima Arte. Ao assistir Intolerance não sobra nenhuma dúvida das razões para isto.

Como comento na conclusão deste texto, este é um filme que, aos olhos do espectador de 2016, é um grande desafio para ser assistido. Não é fácil, admito, ver a um filme mudo tão longo – 163 minutos na versão original, quando o filme estreou, 178 minutos na versão lançada nos anos 2000, a qual eu assisti, e 197 minutos na versão do DVD. Houve ainda uma versão mais curta, de 123 minutos, que foi lançada na TV.

Mas vamos lá, eu assisti a esta versão de quase três horas que foi lançada no ano 2000. Quase três horas de um filme mudo exige paciência e vontade de aprender, sem dúvida. Mas quero dizer para você, caro leitor e leitora, que vale à pena. Intolerance é uma aula de cinema do primeiro ao último minuto.

Primeiro, é preciso nos imaginarmos no ano de 1916, quando este filme foi lançado nos cinema. Apenas para contextualizar um pouco, vocês devem recordar que em 1916 o mundo estava no meio – exatamente no meio – da Primeira Guerra Mundial. Ou seja, a obra de Griffith não poderia ter sido lançada em um momento melhor para falarmos de ódio e intolerância. Claro, naquele momento, ainda não se sabia que a Humanidade viveria a Segunda Guerra Mundial e outros conflitos.

Por isso mesmo, nos imaginemos no meio da Primeira Guerra Mundial, quando as pessoas ainda eram mortas, principalmente, com baionetas… ok, começou a se matar também com lança-chamas, granadas, morteiros e aviões, mas no dia a dia da guerra predominavam as baionetas. No cinema, as produções eram mais elaboradoras do que há duas décadas, quando a Sétima Arte surgiu, mas muitos filmes basicamente tentavam reproduzir peças de teatro – inclusive com ambientações parecidas.

Daí, neste contexto, surge o ousadíssimo Intolerance. Achei o filme ousado logo nos primeiros minutos. Tanto pela coragem da narrativa, que misturava mais de uma história com um desenvolvimento paralelo de cada trama, mas entrelaçando as suas narrativas, quanto e principalmente pela técnica. Quem assistir a Intolerance com olhar acurado, vai notar boa parte do cinema que seria feito nas décadas seguintes e por grandes nomes neste filme. Há desde Hitchcock nas cenas do crime envolvendo o jovem casal até grandes produções de batalha como Ben-Hur nas sequências da Babilônia.

Griffith também foi muito ousado em fazer um filme tão longo e tão difícil  naquela época. É bom lembrar que todas as cenas em que vemos dezenas, centenas de figurantes realmente tinham esta quantidade de gente envolvida diretamente nas filmagens. Em 1916, muito antes de qualquer computador ser inventado, as cenas que vemos não contavam com efeitos especiais ou computação gráfica. Claro que há técnicas para reproduzir alguns cenários, como o uso de maquetes, e alguns recursos utilizando lentes para dar maior relevância para alguns aspectos da cena, mas isso era tudo. O cinema estava em sua infância e, por isso mesmo, não lembra nem um pouco o que é feito hoje.

Então seja pelas condições da época, tanto históricas quanto técnicas, seja pela ousadia de apresentar algo totalmente diferente para o espectador que ia aos cinemas, Intolerance é um marco. Deve ser visto e apreciado com calma. Volto a dizer: vale muito a pena enfrentar o desafio de ver a um filme mudo de quase três horas.

Falando um pouco mais da narrativa e das técnicas utilizadas no filme, chama demais a atenção o talento e o olhar diferenciado de Griffith. Gostei do fato de Intolerance dizer logo nos primeiros caracteres ao que o filme se propõe. De fato, todas as histórias narradas pela produção estão focadas na luta entre o ódio e o amor, a intolerância e a caridade. Sentimentos e gestos que podem ser identificados em todas as épocas e que acabam sendo o foco da história ambientada nos “tempos atuais” (lembrando, por volta de 1916); na “velha Jerusalém”, no tempo de Jesus; em Paris no ano 1572, no tempo de Catarina de Médici e sua perseguição aos protestantes; e, finalmente, no tempo da Babilônia como a nação mais poderosa da Terra, em 539 a.C.

Falando em técnica, chama a atenção, depois da introdução e apresentação do filme, a impressionante fotografia de G.W. Bitzer na sequência inicial do “berço divino” que nunca pára de balançar. Bitzer trabalha ali a essência da fotografia, que é o contraste entre luz e sombra. O quadro estático também ajuda, assim como a trilha sonora fundamental de Felix Günther e Joseph Carl Breil – o primeiro assinou a trilha da versão de 1924, enquanto o segundo não teve o nome creditado na trilha sonora -, além de Carl Davis, que contribuiu com a versão de 1989.

Como mandava o figurino do cinema mudo, volta e meia a ação era “explicada” ou contextualizada por telas com textos que ajudavam a dar perspectiva e compreensão para as cenas que o espectador via e que eram acompanhadas apenas pela trilha sonora – o cinema começou a agregar as falas dos atores/personagens apenas 11 anos depois de Intolerance, em 1927. Nas primeiras décadas do cinema, a Sétima Arte utiliza muito recursos já conhecidos do teatro e da literatura. Por isso achei especialmente interessante como Intolerance utiliza o recurso de “um livro que vai se abrindo” para nos contar esta história.

Naqueles anos, era muito comum que o diretor por trás do filme tivesse uma importância muito grande – afinal, ele era o “maestro” da obra, o grande realizador que, na maioria das vezes, colocava boa parte do dinheiro do próprio bolso para que os filmes fossem realizados. Em Intolerance percebemos isso claramente porque o nome de Griffith é uma assinatura bastante presente na produção – observem o DG (de David Griffith) volta e meia no canto inferior das telas.

Por isso mesmo, o nome do diretor e, pouco a pouco, dos atores, vai ganhando cada vez mais protagonismo e destaque – na história do cinema esta evolução é facilmente identificável. A consequência disso é que muitos nomes envolvido em produções como Intolerance acabavam não sendo creditados. O interessante roteiro deste filme, bastante ousado para a época – e que inspiraria vários trabalhos posteriormente, especialmente por ter uma narrativa fragmentada e com diversas histórias correndo em paralelo -, teve nada menos que sete nomes envolvidos no projeto direta ou indiretamente.

O roteiro, incluindo os textos que vemos nos quadros que ajudam a explicar a narrativa e também a ação propriamente dita, é assinado por D.W. Griffith e Anita Loos, oficialmente, mas teve ainda a colaboração de Hettie Grey Baker, Tod Browning, Mary H. O’Connor e Frank E. Woods, todos sem crédito, e ainda um poema de Walt Whitman também não creditado.

É interessante refletir sobre os momentos históricos retratados em Intolerance. Griffith e companhia se debruçam sobre as práticas, ações e atitudes de pessoas ricas e pobres em quatro épocas diferentes. De forma ousada, o diretor retorna quase 2 mil anos na História para retratar a Babilônia de 539 anos antes de Cristo, assim como a época do próprio Jesus e, o que era mais fácil para ele nos anos 1910, a Paris de quase 500 anos antes, quando os protestantes foram massacrados na noite de São Bartolomeu.

Cada época escolhida por Griffith e seus roteiristas tinha uma dificuldade específica – assim como cada fato que ele queria retratar. Apesar de serem quatro histórias diferentes, mas todas confluindo na crítica ácida dos mais ricos e “poderosos” hipócritas e que poderiam fazer mais pelos pobres e pelos necessitados mas que, no fim das contas, só os exploram, Intolerance claramente dá mais destaque para dois destes momentos históricos.

O tempo de Jesus Cristo, as relações entre fariseus e o povo e a própria trajetória de Cristo são pouco explorados. Ganha mais evidência, especialmente por algumas cenas fortes de estupro e assassinato, a Paris de Catarina de Médici e do massacre “em nome de Deus” contra os protestantes. Mas, sem dúvida alguma, o maior destaque, tanto no tempo de narrativa quando no aprofundamento das relações e dos personagens, se passa nos extremos dos “tempos” das quatro histórias, ou seja, na Babilônia antes de Cristo e nos “tempos atuais”.

Nestes quatro momentos, contudo, como comentei antes, há em comum um fio condutor em que os ricos e poderosos são claramente e duramente criticados porque fazem muito pouco pelos outros – pelo contrário, aliás. Em muitos casos eles exploram as outras pessoas, apesar de se dizerem “caridosos” – isso fica evidente nos “tempos atuais” e na época de Jesus Cristo, segundo Intolerance. Outra característica marcante é a traição e a violência sem escrúpulos, o que fica ainda mais evidente na Paris de 1572 e na Babilônia. Parece sempre que o mal quer vencer o bem, e que consegue isso, aparentemente, em diferentes épocas e momentos.

O filme é duro, é pesado, bastante crítico e irônico com a alta sociedade e os poderosos. Há um bocado de violência e de ignomínia em cena, mas nem tudo é crítica e desesperança. Na reta final do filme, que parece ter muitos gêneros misturados – do época até o histórico, do drama até o policial e a comédia -, Griffith resolve apostar na história da “queridinha do papai” e/ou The Dear One (maravilhosamente interpretada por Mae Marsh) e do “jovem” e/ou The Boy (o bastante competente Robert Harron).

Essa história pessoal do casal que é separado injustamente e que, no final, corre um sério risco de ser separado para sempre, acaba resumindo, como tantas outras histórias particulares, a essência de Intolerance. The Boy é um rapaz que tem a vida mudada por causa da avareza dos ricos e, por sua própria responsabilidade, em um segundo momento, acaba fazendo escolhas erradas e caindo no crime. Mas como tantas outras histórias clássicas de redenção, ele encontra o amor junto de The Dear One e acaba buscando o caminho correto.

Só que, claro, nada é tão fácil assim. O chefe do bando de criminosos, chamado de The Musketeer (Walter Long) não aceita ser “deixado” por um de seus subordinados e acaba traindo o ex-pupilo – inclusive se interessando por roubar a mulher dele. Há novamente violência e traição em cena – ou intolerância, segundo a ótica de Griffith. Mas esta história, que acaba roubando boa parte da reta final da produção, deixa um tom de otimismo e esperança no ar. É a única em que o ódio, a intolerância e a injustiça não conseguiram predominar. Ufa, um verdadeiro alívio para um filme que é bastante ousado na crítica ácida e na reflexão que ele provoca. Brilhante e indispensável. Não poderia haver melhor estreia para esta nova seção no blog.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que o texto foi longo, além da média do blog, mas vocês hão de me perdoar. 😉 Mesmo escrevendo muito, acho que nunca eu poderia falar tudo que Intolerance merece. É um filme gigante, indispensável para quem gosta de cinema. Não por acaso ele já mereceu tantos textos, teses, escritos e reflexões. Sem dúvida é digno de tudo isso.

Esta nova seção do blog tem como premissa voltar no tempo do cinema mundial, buscando filmes que são referência em todas as épocas. A ideia é, a cada ano, selecionar filmes que estão fazendo “aniversário”. Ou seja, agora em 2016, assistir a filmes de 1916, 1926, 1936, 1946 e assim por diante. Como vou fazer a seleção inicial? Bem, tenho que partir de algum ponto, e escolhi como referência “mestra” desta seleção o livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, editado por Steven Jay Schneider. Ali estão alguns dos maiores filmes de todos os tempos, em um resultado que levou em conta as listas mais conhecidas de “melhores filmes” e mais a opinião de críticos de cinema.

Então a partir de agora, com esta seção, vou voltar sempre no tempo, seguindo a lista de filmes que estão fazendo aniversário e que estão listados em “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”. Algumas destas produções são novas para mim, como este Intolerance, mas outras serão revistas, assistidas mais uma vez – e com bastante tempo de distância desde a primeira vez que as vi. Vou seguir a lista dos filmes indicados pelo livro, mas também aceito sugestões de vocês, caros leitores. A cada década abordada por esta série de críticas, vou comentar se assistirei a mais de um filme de um determinado ano e, depois de comentar todos da lista (se ela existir, já que há anos com apenas um filme sugerido pelo livro), vocês poderão indicar também filmes interessantes do respectivo ano.

Dito isso, quero comentar que o único filme de 1916 citado pelo livro de Schneider e que eu pretendo assistir é realmente este Intolerance. Se houver algum outro clássico “inevitável” daquele ano que você quiser recomendar, por favor, é só comentar.

Da parte técnica do filme, achei realmente impressionante a visão diferenciada de D.W. Griffith. O diretor sabia muito bem o que queria em cada cena, e soube narrar muito bem essa história em um longa marcante para a época – e para todas as épocas, me arrisco a dizer. Gostei tanto das cenas em que ele privilegia os cenários e o grande trabalho com diversos figurantes, até aquelas em que ele dá closes bem precisos e dramáticos em personagens importantes para a história – em especial nas mulheres protagonistas e em personagens como The Boy.

Além da direção precisa e cirúrgica de Griffith, quero destacar a direção de fotografia de G.W. Bitzer, já comentada anteriormente; a edição bem trabalhosa de Griffith, James Smith e Rose Smith; o design de produção de Griffith; a direção de arte de Walter L. Hall; e os figurinos de Griffith e Clare West. Não era fácil, sem dúvida, ter todo este trabalho naquela época – prova disso é o envolvimento de Griffith em praticamente todos os processos do filme.

Interessante, analisando todos os nomes envolvidos na produção – praticamente todos eles sem crédito no filme original -, observar que nada menos que 18 diretores trabalharam como “diretores de segunda unidade” ou como assistentes de diretor de Griffith. Ou seja, o filme foi uma grande escola para muita gente.

Fez parte deste grupo de assistentes de direção de Griffith nomes como Tod Browning, que teve 62 filmes no currículo e ganhou dois prêmios por sua carreira; Jack Conway, diretor com 113 filmes no currículo e dois prêmios por Viva Villa!; Allan Dwan, com impressionantes 406 filmes no currículo como diretor e dois prêmios pela carreira; Victor Fleming, diretor com 50 filmes no currículo e vencedor do Oscar de Melhor Diretor por Gone with the Wind em 1940; e W.S. Van Dyke, com 91 títulos no currículo de diretor e indicado duas vezes ao Oscar por The Thin Man e San Francisco. Impressionante.

Além da trilha sonora, que veio posteriormente, vale citar os nomes envolvidos com o departamento de música original. Trabalharam como arranjadores musicais Griffith, Joseph Carl Breil e, para o lançamento no Reino Unido em 1917, A.J. Beard. Depois, na versão do filme de 1918 que chegou aos cinemas, trabalhou como arranjador musical também Louis F. Gottschalk. Finalmente, na versão do filme de 1989, atuaram como regentes da trilha sonora de Carl Davis os músicos Colin Matthews e David Matthews.

Intolerance estreou no dia 5 de agosto de 1916 em Riverside, na Califórnia. Em setembro o filme passou a ser exibido no circuito comercial dos Estados Unidos. Apenas dois anos depois, em 1918, ele estreou na Dinamarca e, no ano seguinte, em 1919, no Japão, na França e na Suécia. Nos anos seguintes, o filme chegaria aos cinemas de mais cinco países, sendo o último deles a Alemanha, em 1924. A produção participou de festivais recentemente: em 2007 no Festival de Cinema de Veneza e, em 2010, Festival de Cinema Mudo da Grécia.

No total, Intolerance foi rodado em cinco locações diferentes: em Baldwin Hills, em Los Angeles; em dois locais diferentes do Fine Arts Studio, em Hollywood (onde foi construído o cenário da Babilônia); no Silver Lake, em Los Angeles (outra parte do cenário da Babilônia); e em Saint-Mihiel, em Meuse, na França (a sequência da Guerra Mundial).

As companhias responsáveis por esta produção são duas empresas que não sobreviveram com o passar do tempo: a Triangle Film Corporation e a Wark Producing. De acordo com o site IMDb, a Triangle foi responsável por 287 filmes feitos entre os anos de 1916 e 1922, e a Wark Producing tem apenas Intolerance no currículo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. 😉 Durante as filmagens das sequências de batalha, alguns figurantes realmente “vestiram a camisa”, ao ponto de vários deles terem provocados ferimentos em seus colegas de trabalho. No final do dia de filmagens, foram contabilizadas 60 lesões que tiveram que ser tratadas na barraca de primeiros socorros da produção.

A inspiração para este filme surgiu da surpresa sentida por Griffith depois que o seu filme anterior, o clássico The Birth of a Nation, de 1915, provocou fortes protestos. Para responder a esta polêmica, o diretor quis fazer um filme sobre a intolerância a partir do ponto de vista das pessoas.

A sequência da orgia na Babilônia teria custado, sozinha, US$ 200 mil para ser rodada. Este valor é quase o dobro do custo total do filme The Birth of a Nation.

No final dos anos 1910 Intolerance foi um grande sucesso na então União Soviética. Mas Griffith nunca viu a cor deste dinheiro porque o filme foi distribuído sem o seu consentimento e através de cópias piratas – para vocês verem que o problema da pirataria é beeeeeem antigo. Curioso, não?

Segundo a terceira parte da série de documentários American Masters: D.W. Griffith, de Kevin Brownlow, Intolerance conseguiu um resultado nas bilheterias que fez o filme se pagar. O que a produção não conseguiu foi pagar os custos das exibições luxuosas que Griffith pediu, naquela época, e que incluíam uma decoração especial nos cinemas e a presença de orquestras ao vivo.

Por outro lado, existe outra versão que diz que Griffith gastou pouco mais de US$ 2 milhões para fazer Intolerance – uma quantia inconcebível para um filme na época – e que ele jamais conseguiu reaver toda esta quantia de dinheiro. Isso se explica pelo fato de que o público daquele época não estava habituado a ver a uma produção tão longa – imagino e consigo entender completamente. Mesmo quando o diretor cortou o filme e o dividiu em duas partes, lançando ele como “The Fall of Babylon” e “The Mother and the Law”, ele não conseguiu fazer dinheiro o suficiente para pagar todo o investimento inicial.

A fundação de Jenkins foi criada para o filme após a criação da fundação de John D. Rockefeller, e a sequência do massacre dos trabalhadores que aparece no início de Intolerance foi rodado após o massacre de Ludlow de 1914 no qual o próprio Rockfeller estava envolvido. Interessante.

Depois das filmagens de Intolerance terminarem, o Departamento dos Bombeiros de Los Angeles considerou o cenário construído para as cenas da Babilônia como um potencial risco para incêndios e ordenou que ele fosse demolido. Mas Griffith descobriu que não tinha sobrado dinheiro para pagar pela demolição, e por isso o local ficou abandonado e em ruínas por quase quatro anos, até que finalmente foi derrubado em 1919 – neste período ele tinha sido degradado naturalmente o suficiente para ter o restante da demolição feito a baixo custo. Eita fase!

O título e algumas linhas do poema “Out of the Cradle Endlessly Rocking” de Walt Whitman foram usados nos textos que aparecem no filme. Um outro intertítulo do filme cita trechos de The Ballad of Reading Gaol, de Oscar Wilde.

Em 2007 o The American Film Institute classificou Intolerance como o 49º Grande Filme de Todos os Tempos.

Este filme é anterior ao surgimento do Oscar e de vários outros prêmios de cinema. Por isso ele tem apenas um prêmio no currículo, dado em 1989: Intolerance passou, então, a figurar no National Film Registry do National Film Preservation Board dos Estados Unidos.

Esta produção tem alguns atores que dominam a cena – além daquelas centenas de figurantes que chamam a atenção pela quantidade e pela ousadia de Griffith. Além dos nomes de Mae Marsh (divina!) e de Robert Harron (muito bem no papel) já destacados, vale citar os trabalhos de Lillian Gish, como The Woman Who Rocks the Cradle, personagem fundamental do trecho da Babilônia, e que também interpreta a Eternal Mother; F.A. Turner como o pai de The Dear One; Sam De Grasse como Arthur Jenkins; Vera Lewis como Mary Jenkins; Howard Gaye como Jesus Cristo e como  Cardial de Lorraine; Margery Wilson como Brown Eyes; Eugene Pallette como Prosper Latour; Allan Sears como o Mercenário; Frank Bennett como Charles IX; Maxfield Stanley como Henri III; Josephine Crowell como Catarina de Médici; Alfred Paget como o Príncipe Belshazzar; Constance Talmdge como Marguerite de Navarre e como The Mountain Girl; Carl Stockdale como King Nabonidus; Tully Marshall como High Priest of Bel e um amigo do The Musketeer; e Seena Owen como The Princess Beloved.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra naquela lista de filmes de países que foram votados por vocês, caros leitores.

O diretor D.W. Griffith, ou David Llewelyn Wark Griffith, nasceu na rural LaGrange, no Estado do Kentucky. Filho de Jacob Griffith, conhecido como Roaring Jake, um ex-coronel do Exército Confederado e herói da Guerra Civil americana. David Griffith cresceu ouvindo as histórias de guerra românticas de seu pai, além de apreciar a literatura melodramática do século XIX. Em 1897 Griffith partiu para tentar a carreira como ator e escritor de teatro, mas como não conseguiu muito sucesso, ele acabou, inicialmente de forma relutante, trabalhando como ator em uma produção de Edwin S. Porter para a Edison Company.

Na sequência, Griffith acabou trabalhando na cambaleante American Mutoscope & Biograph Company, empresa para a qual ele dirigiu cerca de 450 curtas-metragens, experimentando e aperfeiçoando técnicas que ele utilizaria, em 1915, para fazer o longa The Birth of a Nation. Nos anos seguintes, após ter lançado este seu clássico, Griffith nunca mais teve o mesmo sucesso. Isso fez com que, em 1931, após fracassos crescentes nas bilheterias, o diretor fosse obrigado a se aposentar.

Apesar de ser muito elogiado por sua técnica, Griffith também sempre foi muito criticado pelo seu racismo flagrante. Ele foi casado duas vezes, com Linda Arvidson entre 1906 e 1936, e com Evelyn Baldwin entre 1936 e 1947. Griffith morreu em 1948, em Los Angeles, aos 73 anos de idade.

No total, Griffith tem 520 filmes no currículo como diretor – a maioria, disparada, de curtas. O último filme que ele dirigiu e que foi lançado nos cinemas foi The Struggle, de 1931. Ele recebeu quatro prêmios, dois antes de morrer e dois depois. Em vida ele foi reconhecido com um Prêmio Honorário no Oscar de 1936 e, dois anos depois, com um DGA Honorary Life Member Award da Directors Guild of America. Em 1960 o diretor recebeu um estrela na Calçada da Fama e, em 2009, um OFTA Film Hall of Fame do Online Film & Television Association.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 31 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,1.

Vale citar o trecho inicial do texto de R. Barton Palmer sobre Intolerance que consta no livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”: “Talvez em parte como resposta àqueles que criticaram a política racial de O Nascimento de Uma Nação, D.W. Griffith mostrou-se igualmente preocupado em se posicionar contra a censura no cinema. Esse assunto foi abordado mais diretamente no panfleto publicado na época da exibição de Intolerância, chamado Ascensão e queda da liberdade de expressão na América. A intenção de Griffith com este filme, finalizado nas semanas que se seguiram ao lançamento de sua produção épica anterior, é sobrepor quatro histórias de diferentes períodos que ilustrassem ‘as lutas do amor através dos tempos’.(…)”. Recomendo, aliás, o texto inteiro, assim como o livro. 😉

Com isso, estreio essa nova seção no blog. Que bom fazer isso ainda em 2016, antes do Crítica (non)Sense da 7Arte completar 10 anos de caminhada. Espero que vocês gostem da nova seção e que possam comentar e sugerir novos filmes. Aliás, comento que a enquete aí do lado, sobre qual década vocês preferem para uma série de críticas, tem tudo a ver com esta nova seção. Estão listadas ali as décadas com uma variedade maior de filmes que vou assistir. Abraços e até a próxima! 😉

Este não é um filme difícil de ser encontrado. Mas, caso você tiver alguma dificuldade, fica a dica deste link em que Intolerance está disponível. Como o filme foi considerado de “domínio público”, ele é divulgado livremente. Bacana que o mesmo site tem outros clássicos listados e acessíveis. Fica a dica.

CONCLUSÃO: Para entender bem qualquer filme antigo, ainda mais um lançado em 1916, é preciso nos transportarmos no tempo. Nos imaginarmos naquela época, ainda nos princípios do cinema. Ao fazer este exercício de “viagem no tempo e no espaço” fica mais fácil compreender a engenhosidade, a criatividade e a maestria do diretor D.W. Griffith com este Intolerance. Muito do cinema que seria feito depois – e até hoje – bebe de muitos conceitos, da narrativa e da técnica apresentada por Griffith neste filme. Uma aula de cinema, ainda que seja duro, para um espectador atual, ver um filme tão longo de cinema mudo. Mas eu garanto, vale o esforço. Sem dúvida é um dos grandes filmes de todos os tempos, com justiça para esta classificação, e uma aula de cinema para quem gosta do tema. Assista, com calma, sem pressa, porque há muito para ser analisado e é uma produção longa.

Saul Fia – Son of Saul – O Filho de Saul

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A angústia não para nem por um segundo e parece não ter fim. Mais que uma grande história, Saul Fia nos apresenta uma grande técnica. O cinema ao serviço de mergulhar o espectador no caos e no extremo da crueldade de uma fase tenebrosa da nossa história. Demorei para assistir a este filme, o vencedor na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016. Mas apesar de toda a saraivada de elogios e de críticas positivas que precederam esta experiência, ela não deixou de ser impactante ou diminuiu por causa disso.

A HISTÓRIA: Começa explicando a expressão alemã Sonderkommando. Ela foi utilizada nos campos de concentração nazista para designar prisioneiros com status especial, que não ficavam junto com os demais. Normalmente eles eram mortos após alguns meses de trabalho. Em um cenário embaçado, surgem alguns sonderkommando, com Saul (Géza Röhrig) na frente deles. Junto com os demais homens com um X vermelho nas costas, ele ajuda a organizar o fluxo de prisioneiros que acabou de chegar em um trem. Eles são conduzidos até um local onde tiram as roupas e, depois, confinados, são exterminados. Mas uma das vítimas acaba chamando a atenção de Saul que, a partir daí, empreende uma cruzada para dar um fim digno para aquele garoto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Saul Fia): Sempre sou da opinião que quando uma produção do cinema é muito elogiada, a análise do espectador já inicia um tanto “viciada” e/ou comprometida. Eu não apenas sabia, antes do Oscar 2016, que este filme era o franco favorito, como acompanhei ele ganhando praticamente todos os prêmios do ano ao qual ele concorreu – pelo menos os principais.

Ainda assim, sempre faço um esforço de esquecer esse tipo de informação quando vejo um filme muito premiado ou elogiado. Fiz isso desta vez, e fiquei simplesmente surpresa com o que eu vi. Mais que a história, que tem sim o seu viés inovador, Saul Fia me surpreendeu pela narrativa e pela técnica do diretor László Nemes.

O mexicano Alejandro González Iñarritu foi premiado dois anos seguidos como Melhor Diretor no Oscar por seu estilo de filmar sem cortes – ou quase sem cortes, no caso do último The Revenant (com crítica neste link). Mas, francamente, achei a direção de Nemes neste Saul Fia mais inovadora e interessante do que o próprio trabalho de Iñarritu. O problema é que Hollywood não costuma premiar diretores de outros países que não estão radicados na meca americana do cinema. Uma pena, porque Nemes merecia.

Desde o primeiro minuto desta produção e até o final a câmera que nos apresenta a história está quase colada nas costas do protagonista ou, quando isso não é assim, ela está muito próxima. Não temos praticamente planos em que ele aparece com uma certa distância ou em perspectiva. Não. A câmera está sempre muito próxima dele, muitas vezes deixando a ação que transcorre em volta como quase um “pano de fundo”. Esta é uma das grandes qualidades desta produção.

O que você sentiu estando por boa parte da produção “nas costas” de Saul? No início, certamente, estranheza. Afinal, não é comum um filme assumir aquela ótica. Depois, junto com a estranheza, provavelmente confusão. Nem sempre a narrativa que ocorre ao redor de Saul é clara ou evidente. Muito fica em segundo plano, e os detalhes fazem a diferença. Além disso, provavelmente você sentiu aflição e desconforto. A história em si provoca isso, além de outros sentimentos, mas a forma com que a história é contada reforça e amplia a angústia que eu comentava lá no início.

Saul e os outros sonderkommando passam os dias encaminhando prisioneiros nazistas para a morte. Por acaso, apenas por uma circunstância qualquer, praticamente de forma aleatória, não é Saul e seus companheiros que estão do lado das vítimas que, depois de exterminadas, viram pilhas de corpos que devem ser queimados ou jogados em valas.

Depois de encaminhar mais um comboio para a morte, seguindo sempre um mesmo “modus operandi”, Saul parece reconhecer uma das vítimas que não morre junto com as outras no gás letal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O jovem é morto na sequência, asfixiado por um militar judeu, e segue para uma autópsia. Aí começa a via crucis de Saul para tentar dar um fim honrado para o garoto que ele diz ser o seu filho.

Primeiro, ele tenta negociar com o médico Miklos Nyiszli (Sándor Zsótér) para que ele não faça a autópsia. Afinal, segundo o que prega o judaísmo, o corpo da pessoa morta deve ser preservado. Segundo os preceitos seguidos pelos judeus, ele também não pode ser cremado e nem visto por qualquer pessoa após a morte. Finalmente, as orações fúnebres devem ser recitadas em hebraico por um rabino ou por um membro do Chevra Kadisha (“sociedade sagrada”, composta por homens e mulheres dedicados que executam as preparações dos corpos dos mortos). Este texto é bem completo sobre tudo que deve ser feito após a morte de um judeu.

Depois de negociar com o médico, sem muito sucesso – tanto que ele acaba “furtando” o corpo do jovem quando tem uma oportunidade -, Saul começa a correr atrás de um rabino para fazer as orações fúnebres para o seu filho (“interpretado” por Georgö Farkas e por Balázs Farkas). Como ele não encontra um rabino que tope enterrar um corpo – uma ideia que realmente parece maluca e impossível naquele contexto -, Saul parte para se “infiltrar” em outro grupo para encontrar o rabino Mietek (Kamil Dobrowolski).

Como era previsto, esta tentativa de Saul de convencer Mietek a ajudá-lo não termina bem. Mas o protagonista se safa, a tempo de buscar um outro rabino que possa lhe ajudar. Com os alemães perto de perderem a guerra, eles apressam o envio de prisioneiros para o extermínio, o que faz a rotina de Saul e seus colegas que trabalham de dia não terminar à noite. Eles devem dobrar os esforços para dar conta da nova leva expressiva de vítimas.

Como não é possível matar todos nas câmaras de gás com monóxido de carbono, os nazistas passam a matar as pessoas com tiros e jogá-las diretamente nas covas. Na parte mais caótica do filme, inclusive os sonderkommando viram alvo dos tiros e da confusão. Mesmo no meio daquele caos Saul não desistiu de enterrar aquele que ele diz ser o seu filho. Mas antes disso, Saul participa de uma ação de alguns judeus que tentam usar pólvora para explodir alguns nazistas e, com isso, tentarem fugir.

Depois das pessoas serem mortas nas câmaras de gás e seus corpos incendiados, os sonderkommando vasculham nas roupas das vítimas atrás de dinheiro, joias, relógios e demais peças valiosas. Alguns conseguem esconder algumas peças que, depois, serão utilizadas como moeda de troca por “favores” – como o guarda que deixa os judeus se aproximarem das mulheres para uma “rapidinha”. Saul acaba fazendo esse papel, do intermediário, mas durante a noite caótica ele perde a pólvora que Ella (Juli Jakab) lhe havia passado.

Mesmo no meio daquela confusão extrema, Saul não desiste de encontrar um rabino e, de forma um tanto confusa, ele acha que encontrou um em um prisioneiro exausto e barbudo (Todd Charmont). A partir daquele encontro não demora muito para o filme acabar após o enfrentamento entre os judeus desesperados por alguma chance de fuga e os nazistas acelerando o extermínio de quem ainda estava vivo antes que os inimigos chegassem nos campos de concentração e pudessem encontrar sobreviventes.

O confronto começa no dia seguinte e, mesmo com os tiroteios em andamento, Saul tenta enterrar o adolescente. Sem sucesso, ele acaba empreendendo fuga com o corpo nos ombros e, no caminho, descobre o que os seus companheiros já suspeitavam: o prisioneiro não era um rabino. Ao tentar cruzar um rio, Saul perde o corpo do jovem e parece desistir de seguir lutando. Mas o seu amigo Abraham Warszawski (Levente Molnár), que parece conhecer Saul antes daquela loucura, volta para ajudá-lo a sair do rio. O grupo acaba se escondendo em um celeiro, mas não por muito tempo.

Se o dia de Saul parece não ter fim – e, de fato, ele avança pela noite e tem o seu desfecho apenas no dia seguinte -, o espectador também não consegue desgrudar os olhos da narrativa de Nemes. A técnica utilizada por ele é magistral e casa muito bem com a história que ele está contando – o roteiro é assinado pelo diretor e por Clara Royer. Os personagens não são de muitas falas, especialmente Saul, mas a ação é constante, assim como a angústia e o horror.

Impossível não se colocar no lugar de Saul – por mais que a ideia dele de dar um fim digno e dentro do que prega a religião para aquele jovem pareça absurda, nos compadecemos dele e acompanhamos os seus passos de perto. O ator que vive Saul é simplesmente genial, apresentando uma interpretação soberba. Conseguimos acompanhar cada sentimento dele em suas micro-expressões e, especialmente, em seu olhar. Com a câmera boa parte do tempo nas costas dele, é como se estivéssemos vigilando os seus passos, com um lado “bem definido” para cada um de nós.

Para mim, por mais que já foram feitos e lançados muitos filmes sobre o Holocausto – e muitos deles bem narrados e conduzidos -, nenhum outro foi tão contundente em mostrar a crueldade, a crueza e o absurdo dos campos de concentração do que este filme.

Além da técnica narrativa impressionante de Nemes, foi uma grande sacada dele e de Clara Royer ter contado esta história sob a ótica de judeus que eram obrigados a trabalhar para os nazistas na infame função de ajudá-los a matar os seus similares. Impactante e marcante. Não imagino ninguém encarando aquela realidade da mesma forma depois de assistir a esta produção.

Agora, vou comentar o que, para muitos, deve ser uma dúvida bastante presente sobre uma aspecto importante deste filme: afinal, aquele jovem era ou não o filho de Saul? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Achei incrível quando o roteiro de Nemes, através do personagem de Abraham, questiona isso. O amigo de Saul insiste em dizer que Saul não tem filhos e que aquele jovem não pode ser o seu filho. Saul responde que ele é um filho que ele teve fora do casamento. Mas, ainda assim, paira a dúvida no ar – especialmente porque Abraham insiste em contradizer o amigo.

Da minha parte, acho que dificilmente Abraham insistiria neste ponto se ele não estivesse convicto de que Saul não era o pai do garoto. Mas então por que o protagonista insistiria tanto em enterrar aquele jovem e em dizer que ele era o seu filho? Para mim ele viu a oportunidade de dar um fim digno para alguém, de pelo menos salvar uma alma, e colocou toda a sua energia nisso. Por isso mesmo acho que não é tão importante se aquele era realmente filho de Saul ou não. A beleza do gesto do protagonista é o que importa, sendo por “causa própria” ou não.

No fim das contas a mensagem que este filme passou para mim foi essa. De que mesmo em meio a todo o terror, à toda ameaça e desesperança, é possível fazer um gesto bom para alguém, buscar fazer o certo apesar dos pesares. Saul é um homem obstinado e ele percebe que, mesmo que ele não tiver chances de sobrevivência, ele pode fazer um grande gesto final por alguém – sendo esta pessoa ou seu filho ou não. Grande filme. Marcante e merecedor de todos os seus prêmios, tanto pela contundência da história quanto e, principalmente, pela inovação narrativa.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Normalmente eu procuro acompanhar as estreias da semana nos cinemas em que estou – como, agora, no Brasil e, antes, na Espanha. Outras vezes, quando consigo publicar duas críticas na semana, busco também produções que foram indicadas por vocês, caros leitores e leitoras aqui do blog, ou algum outro filme que eu tenho curiosidade de assistir e que foge das duas regras anteriores. Nesta semana, como nenhuma produção me chamou muito a atenção entre as estreias no Brasil, resolvi, finalmente, colocar em dia a curiosidade que sempre tive sobre Saul Fia. Quando o filme estreou no Brasil, não tive como parar para assisti-lo, por isso aproveitei esta semana sem grandes destaques nos cinemas para conferi-lo.

Ainda há alguns filmes do Oscar 2016 que eu não assisti, por isso não se espantem se em outra semana “fraca” nos cinemas eu não voltar a eles.

Depois de escrever a crítica acima, fui buscar algumas entrevistas com o diretor Lászlo Nemes para sabe se eu estava falando uma bobagem muito grande ou não na parte final do meu texto. Pois bem, achei entrevistas interessantes neste link, neste outro e, finalmente, neste aqui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No primeiro, em português, Nemes comenta, ao explicar o seu processo criativo, que ele buscou uma história muito simples e que ele se interessou “mais (com) a ideia de num lugar onde se queimam pessoas haver um tipo que quer enterrar aquele que julga ser o seu filho”. Perceberam? Não há certeza aí, apenas a convicção de Saul – que pode estar equivocado.

Na entrevista de Nemes para o Jornal Tornado ele comenta também sobre as dificuldades que ele teve em financiar o filme. Ninguém queria bancar o projeto. Então fico feliz que ele passou o rodo e ganhou praticamente todos os prêmios possíveis em 2016. Com isso ele prova que cinema de qualidade deve ser corajoso. Espero que o êxito de Nemes facilite os seus próximos projetos. Ele merece.

Na entrevista para o site Mubi, Nemes fala algo interessante: “Meu filme não é sobre sobrevivência, é sobre a realidade da morte. A sobrevivência é uma mentira, porque ela era uma exceção”. Perfeito. Um realizador que não soube apenas construir bem a sua obra, mas que tem olhar crítico e sabe do que está falando. Em outra parte da entrevista ele fala sobre a questão central do filme, na ótica dele, que não é a sobrevivência física, mas a sobrevivência interior. Ou seja, isso também bate com o que eu dizia antes. Pouco importa se o rapaz é ou não o filho de Saul, mas o importante é que ele tem uma “causa” justa e bela para “lutar”. Aí estaria a sobrevivência interior falada por Nemes? Eu acredito que sim. E esta leitura faz o filme ser ainda mais genial.

A visão e a direção de László Nemes é simplesmente fundamental para Saul Fia. Sem ele o filme simplesmente não existiria de forma tão magistral. Mas depois de Nemes é preciso tirar o chapéu para Géza Röhrig. Que ator, meu Deus! Ele deixa várias outras interpretas no chinelo. Impressionante em todos os momentos e, para mim, especialmente nos minutos finais. A liberdade é uma questão de ponto de vista e, no final desta história, isto fica evidente. Depois de todo aquele pesadelo ele e os demais finalmente serão livres. Enquanto o garotinho estava aterrorizado, Saul estava livre e foi capaz de sorrir. Afinal, ele tinha feito tudo que era possível.

Géza Röhrig é o grande nome deste filme junto com Nemes. Mas é preciso citar o trabalho de outros atores que também deram um show nesta produção: Levente Molnár está ótimo como o amigo de Saul, Abraham Warszawski; Urs Rechn como o oberkapo (chefes dos sonderkommando) Biederman, chefe do grupo de Saul; Todd Charmont como o prisioneiro barbudo que Saul acredita ser um rabino; Jerzy Walczak muito bem como o rabino Frankel, que tenta convencer o protagonista a apenas rezar e não tentar enterrar o seu “filho”; Sándor Zsótér como o Dr. Miklos Nyiszli; e outros atores, como Marcin Czarnik, Kamil Dobrowolski e Attila Fritz como outros judeus do sonderkommando que apareceram mais; além de Uwe Lauer e Christian Harting como chefes nazistas que tinham contato direto com aquele grupo de judeus “de confiança”.

O filme tem muitas qualidades técnicas. Merece uma reverência especial o excelente trabalho de Nemes e de seus assistentes na direção, assim como o departamento da equipe elétrica e de câmeras. No total, 11 pessoas estiveram divididas na função de operador de câmera, assistente de câmera, operador de vídeo, eletricista e afins. Equipe de tirar o chapéu. Também merecem aplausos os nove profissionais envolvidos com o departamento de som – um elemento fundamental para este filme funcionar. Finalmente, vale citar o bom trabalho do diretor de fotografia Mátyás Erdély e do editor Matthieu Taponier.

Saul Fia estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2015. Até maio de 2016 o filme passou por nada menos que outros 29 festivais mundo afora. Nesta trajetória a produção acumulou 46 prêmios – incluindo o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira – e foi indicada a outros 38. Entre os prêmios que recebeu, além do Oscar, eu destacaria o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira; o Grande Prêmio do Júri e outros três prêmios no Festival de Cinema de Cannes; o National Board of Review de Melhor Filme em Língua Estrangeira e o Independent Spirit Award de Melhor Filme Internacional.

Esta produção teria custado US$ 1,65 milhão e faturado, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, US$ 1,77 milhão – não há informações sobre o resultado do filme em outros mercados.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Todas as cenas externas foram filmadas com luz natural. Saul Fia foi rodado totalmente na Hungria (nas cidades de Budapeste e Rácalmás e no Rio Danúbio, perto de Budapeste) em apenas 28 dias. A produção de 107 minutos é composta a partir de 85 takes – nenhum com mais de quatro minutos.

Esta produção é 100% da Hungria. Aliás, este é o primeiro filme húngaro a ganhar um Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Estrangeira e o segundo a levar um Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira – o anterior tinha sido Mephisto, de 1981.

Saul Fia bebe de diversas fontes históricas, apesar de ser um filme ficcional. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A história, por exemplo, transcorre durante um dia e meio entre os dias 6 e 7 de outubro de 1944 – quando uma revolta de sonderkommando realmente aconteceu em Auschwitz-Birkenau.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Ainda que seja uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, achei que a nota poderia ser maior – afinal, o filme realmente é diferenciado. Ela estar neste patamar apenas demonstra que boa parte do público ainda não está disposta a ver filme inovadores – elas ficam mais “confortáveis” com produções que seguem um padrão normalzinho. Uma pena. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 184 críticas positivas e apenas oito negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,9 – esta nota sim, eu gostei. Muito alta para o padrão do site.

Antes de Saul Fia, László Nemes tinha dirigido apenas outros três títulos, todos curtas, entre 2007 e 2010. Ou seja, esta produção marca a estreia dele em longas. Impressionante. Sem dúvida alguma Nemes é um nome a ser acompanhado. O protagonista desta produção, amigo pessoal de Nemes, também é praticamente um estreante. Ele tinha apenas participado, em 1999, como ator na minissérie para a TV Eszmélet. Ou seja, Saul Fia marca a estreia de Géza Röhrig no cinema e em longas. Que dupla!

Se tudo der certo, até o final desta semana, finalmente, eu vou conseguir estrear uma seção aqui no blog que há tempos estou imaginando. Tenho essa ideia na cabeça há bastante tempo e espero estreá-la nos próximos dias. Espero que vocês gostem. 😉

CONCLUSÃO: Eis uma grande experiência de cinema. Como eu disse antes, mais que uma história marcante, Saul Fia nos apresenta uma técnica diferenciada e que potencializa a experiência de quem assiste. Muito já foi falado sobre o Holocausto, mas não lembro de outro filme que tenha colocado o espectador sob a ótica de uma vítima com olhar diferenciado do horror do extermínio judeu. O diretor László Nemes dá um banho de técnica cinematográfica enquanto o protagonista Géza Röhrig dá um show de interpretação. Um filme que, diferente do que o tema pode sugerir, foge do óbvio e não deixa ninguém indiferente. Sem dúvida alguma, uma grande peça de bom cinema.