Indicados ao Oscar 2008 – Avaliação

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Ainda é cedo para falar de todos os indicados ao Oscar deste ano, até porque ainda me falta assistir a vários filmes… Por isso vou publicar minha opinião a respeito agora, “no calor da hora” e sigo atualizando-a conforme for vendo os filmes que restam para ver.

Mesmo sem ter visto todos os concorrentes e possíveis concorrentes que “morreram na praia” admito que me decepcionei com o fato de American Gangster (O Gângster) ficar praticamente de fora da premiação (afinal, ele só foi indicado em categorias “secundárias”). Gostei muito do filme e acho que ele poderia estar lá tranquilamente. Como produção cinematográfica, acho ele muitíssimo melhor que Atonement, por exemplo.

Todos sabem, contudo, que o Oscar é um prêmio da indústria do cinema. Ou seja: mais que qualidade técnica e tudo o mais, está em jogo dinheiro e um bom lobby. Só isso pode explicar, para mim, como Atonement continua sendo um dos principais concorrentes ao prêmio.

Mas ok, já superada a frustração de não ver American Gangster concorrendo a nada – assim como a frustração de terem deixado Eddie Vedder fora da concorrência pela música Guaranteed, do filme Into the Wild – vou comentando aqui categoria por categoria e dando palpites dos possíveis vencedores (ou, melhor dizendo, de quem eu acho que deveria ganhar).

Melhor ator: estão concorrendo George Clooney (por Michael Clayton), Daniel Day-Lewis (por There Will Be Blood), Johnny Depp (por Sweeney Todd), Tommy Lee Jones (por In The Valley of Elah) e Viggo Mortensen (por Eastern Promises). A verdade é que todos fazem um grande trabalho em seus respectivos filmes, mas eu tenho uma preferência por Tommy Lee Jones, Johnny Depp e Daniel Day-Lewis. No fundo, acho que o favorito realmente é o Daniel Day-Lewis – ainda que eu ache injusto o Denzel Washington não estar entre os cinco por seu papel em American Gangster. Só acho, realmente, que George Clooney e Viggo Mortensen estariam correndo por fora – não seriam os mais indicado a ganhar. Uma curiosidade: o inglês Daniel Day-Lewis é o único concorrente que nasceu fora dos Estados Unidos na disputa. ATUALIZAÇÃO (24/1): Assisti ontem à There Will Be Blood e posso afirmar, antes mesmo de assistir a Sweeney Todd: esse Oscar é de Daniel Day-Lewis. Realmente ele está magnífico no filme. Parece até que a história foi desenhada para ele. Se realmente levar a estatueta, este ator londrino que completa 50 anos logo mais, no dia 29 de abril, terá dois Oscar em sua estante. O anterior ele ganhou por Meu Pé Esquerdo (My Left Foot: The Story of Christy Brown, de 1989). De lá para cá, ele ainda foi indicado ao Oscar outros duas vezes – uma por In the Name of the Father e outra por Gangs of New York. Está na hora, realmente, de ele ganhar outra destas estatuetazinhas douradas. E o melhor: junto com Denzel Washington por American Gangster, ele merece.

Melhor ator coadjuvante: Casey Affleck (por The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford), Javier Bardem (por No Country for Old Men), Philip Seymour Hoffman (por Charlie Wilson´s War), Hal Holbrook (por Into the Wild) e Tom Wilkinson (por Michael Clayton). Dos cinco candidatos, só vi o trabalho de três. E destes, não tenho dúvida: Javier Bardem deveria ganhar a estatueta. Contudo, sei que existe uma pressão sobre o nome de Casey Affleck, especialmente porque ele fez dois bons trabalhos (mas não excepcionais, na minha opinião): tanto pelo filme ao qual está concorrendo ao Oscar quanto por Gone Baby Gone. Não vi ainda o trabalho de Philip Seymour Hoffman que, sem dúvida, é um grande ator. Hal Holbrook tem uma interpretação emocionante em Into the Wild, mas não o suficiente para ganhar a estatueta (exceto se a Academia quer premiar um veterano por sua carreira, mas não por este papel); enquanto Tom Wilkinson está bem, mas não bate a Javier Bardem. Para mim, nesta categoria, o Oscar já está quase dado ao ator espanhol – ainda que Casey Affleck possa surpreender. Aqui a disputa ficou mais equilibrada entre estadunidenses e “estrangeiros”, com o espanhol Javier Bardem e o inglês Tom Wilkinson entrando na disputa.

Melhor atriz: concorrem Cate Blanchett (por Elizabeth: The Golden Age), Julie Christie (por Away From Her), Marion Cotillard (por La Vie en Rose), Laura Linney (por The Savages) e Ellen Page (por Juno). Até agora só vi a interpretação de Julie Christie e de Ellen Page. Christie está fantástica no filme Away From Her. Para mim, ela merecia ganhar. Mas sei que uma forte concorrente é a atriz Marion Cotillard por sua interpretação de Edith Piaf. Corre por fora Ellen Page, no “queridinho” filme Juno – ela realmente é a alma do filme mas, para mim, está abaixo da interpretação de Christie. Cate Blanchett sempre é uma forte concorrente, enquanto Laura Linney parece, realmente, correr por fora nesta disputa. Uma curiosidade: os papéis se invertem por aqui. Apenas Laura Linney nasceu nos Estados Unidos… as demais são todas “estrangeiras”. Citando: Cate Blanchett australiana; Julie Christie, indiana; Marion Cotillard, francesa; e Ellen Page, canadense.

Melhor atriz coadjuvante: Cate Blanchett (por I´m Not There), Ruby Dee (por American Gangster), Saoirse Ronan (por Atonement), Amy Ryan (por Gone Baby Gone) e Tilda Swinton (por Michael Clayton). Nesta categoria eu vi todas as interpretações, menos a de Cate Blanchett em I´m Not There. Sei que ela está muito bem no papel – logo mais, quando ver o filme, comento aqui o veredicto final. Mas das demais, acho que “correm por fora” realmente Ruby Dee, que interpreta a mãe do personagem de Denzel Washington em American Gangster (me parece que sua indicação tem mais a ver com uma homenagem para esta veterana atriz, atualmente com 83 anos, do que realmente por ela ter feito um grande papel); Amy Ryan por seu papel como a mãe viciada e midiática de Gone Baby Gone (ela está bem no papel, mas não acho que é para tanto a ponto de ganhar um Oscar); assim como Tilda Swinton como a calculista Karen Crowder de Michael Clayton (ela sim tem uma interpretação mais marcante). Digo que todas correm por fora porque parece que a disputa ficará mesmo entre Cate Blanchett e Saoirse Ronan. Como disse antes, ainda não vi a interpretação de Blanchett, mas a verdade é que Saoirse Ronan está maravilhosa em Atonement. Para mim, é a grande interpretação do filme. Meu voto seria para ela, à princípio. Merece destaque o fato de Cate Blanchett estar concorrendo aqui, como atriz coadjuvante, e também na categoria de melhor atriz. Um fenômeno, realmente. Além dela, que é australiana, a outra “estrangeira” na disputa é a inglesa Tilda Swinton.

Melhor filme de animação: concorrem Persepolis, Ratatouille e Surf´s Up. Para surpresa de muita gente, a tradição de Walt Disney está concorrendo com dois representantes do estúdio Sony. Pessoalmente, gosto muito de Persepolis. Para mim o filme é mais que um desenho, chega a ser uma peça de arte. Não vi ainda os outros dois concorrentes, mas sei que Ratatouille tem a força da Disney por detrás. Acho que Surf´s Up é o azarão na disputa.

Melhor direção de arte: concorrem nesta categoria American Gangster, Atonement, The Golden Compass, Sweeney Todd e There Will Be Blood. Dos cinco concorrentes, só assisti os três primeiros até agora. Difícil escolher um deles, mas acho que ainda votaria no The Golden Compass. Sei, contudo, que Sweeney Todd e There Will Be Blood tem trabalhos de direção de arte muito bons. Mas acho que The Golden Compass ainda seria o melhor.

Melhor direção de fotografia: nesta categoria estão concorrendo The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, Atonement, The Diving Bell and the Butterfly, No Country for Old Men e There Will Be Blood. De todos, assisti apenas a Atonement e No Country for Old Men. Sei que The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford tem uma fotografia primorosa. Algo me diz que There Will Be Blood também deve apresentar um trabalho muito bom, assim como acho muito bom o trabalho do diretor de fotografia Janusz Kaminski (do filme francês The Diving Bell and the Butterfly). Avaliando só os dois que já assisti, Atonement é o melhor. Acho que ele é um dos favoritos nesta categoria. ATUALIZAÇÃO (20/2):  De todos os filmes que estão concorrendo, só não assisti a The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford que, para muitos, tem uma direção de fotografia primorosa. Mas posso falar dos demais… Todos os concorrentes são muito bons, mas eu diria que gosto em especial do trabalho de Janusz Kaminski em The Diving Bell and the Butterfly. Acho que ele consegue a perfeição técnica em um filme muito difícil de ser contado. Meu voto seria para ele, ainda que a fotografia de Atonement realmente é impressionante, assim como o trabalho feito em There Will Be Blood.

Melhor figurino: concorrem Across the Universe, Atonement, Elizabeth: The Golden Age, La Vie en Rose e Sweeney Todd. Aqui o bicho pega! Pelo que eu vi de trailer e/ou de fotos destes filmes (afinal, até agora, só assisti a Atonement), todos tem um trabalho muito bom de figurinos. Ainda assim, acho que Elizabeth, por se tratar de um filme de época; La Vie en Rose, pela fidelidade aos trajes da cantora Edith Piaf e de seu “mundo” ao redor; e Sweeney Todd, também por ser um filme de época, levariam vantagem. Ainda assim, Atonement pode levar o troféu, já que tem um bom lobby por detrás. Inicialmente o meu palpite aponta para Elizabeth ou La Vie en Rose. Achei um pouco injusto, contudo, The Golden Compass ter ficado fora da concorrência nesta categoria. Acho que o trabalho de figurino no filme impecável.

Melhor diretor: disputa o Oscar Julian Schnabel (por The Diving Bell and the Butterfly), Jason Reitman (por Juno), Tony Gilroy (por Michael Clayton), Joel e Ethan Coen (por No Country for Old Men) e Paul Thomas Anderson (por There Will Be Blood). Eu confesso que fiquei feliz com estas indicações, ainda que ache que Ridley Scott poderia estar na lista dos cinco finalistas por seu trabalho com American Gangster. Mas gostei muito de ver o “ressurgimento” de Paul Thomas Anderson, um diretor que me fascinou com Magnólia e que, depois, não fez nada que prestasse. É bom vê-lo sendo indicado ao Oscar junto com seu filme There Will Be Blood. Gosto muito também de ver os irmãos Coen ali, afinal, eles são um bocado “anti-sistema Hollywood”. Gosto do humor e do trabalho deles. Tony Gilroy dirigi com mão-de-ferro Michael Clayton. Jason Reitman faz um competente e criativo trabalho em Juno. O único que ainda não posso avaliar é Julian Schnabel. Mas de todos os concorrentes anteriores, meu “coração” estará com Paul Thomas Anderson e com os irmãos Coen. Se algum deles ganhar, estarei contente. É uma parte de Hollywood mais “independente” que ganhará uma força. O único “estrangeiro” na disputa é o canadense Jason Reitman. ATUALIZAÇÃO (20/2): Agora que assisti ao filme do diretor Julian Schnabel eu posso realmente dar minha opinião a respeito. Mais uma vez temos aqui um páreo duro. Para mim está fora da disputa real Tony Gilroy e Jason Reitman. A estatueta estaria entre os irmãos Coen, Paul Thomas Anderson e Julian Schnabel. Acho difícil o último ganhar, ainda que ele mereça por seu cuidadoso e incrível trabalho em The Diving Bell and the Butterfly. Mas acho que o Oscar deve ir mesmo para os irmãos Coen. Eles merecem e, além disso, vêem de uma série de prêmios nos Estados Unidos.

Melhor documentário: concorrem No End in Sight, Operation Homecoming, Sicko, Taxi to The Dark Side e War/Dance. Destes todos, só assisti até agora Sicko. Gosto do Michael Moore, mas acho que dificilmente o seu filme ganhará a estatueta. Logo que assistir aos demais eu comento mais. Mas o que eu posso comentar desde agora é que três dos cinco concorrentes são críticas às práticas do Exército norte-americano no Iraque e no Afeganistão. Apenas Sicko trata da crise da saúde nos Estados Unidos e War/Dance conta a história de três crianças que vivem em um acampamento de refugiados em Uganda, na África, e que irão competir em um campeonato nacional de dança e música. Esse último filme, em especial, parece muito interessante.

Melhor curta-metragem documentário: concorrem Freeheld, La Corona, Salim Baba e Sari´s Mother. Infelizmente não assisti a nenhum, porque conseguir ver algum destes no circuito comercial ou até mesmo através da internet é muito difícil. Mas se conseguir “caçar” algum por aí, comento aqui. O que eu sei é que dois dos concorrentes tem temas muito fortes: Freeheld fala de uma mulher que está morrendo e que luta para que sua parceira ganhe uma pensão após sua morte; e Sari´s Mother conta a história da mãe de um garoto de 10 anos que tem AIDS e que, além de rezar pelo filho, reza por alguma proteção durante a invasão do Iraque.

Melhor montagem: concorrem The Bourne Ultimatum, The Diving Bell and the Butterfly, Into the Wild, No Country for Old Men e There Will Be Blood. Novamente não assisti a todos, falta ver o filme francês e a There Will Be Blood. Dos demais concorrente, posso dizer que a montagem de The Bourne Ultimatum realmente é impressionante. Gosto do trabalho feito em Into the Wild (com muitos detalhes e “tempos” diferentes), assim como de No Country for Old Men. Mas, realmente, acho que até agora o favorito seria The Bourne Ultimatum. ATUALIZAÇÃO (20/2): Agora que assisti a The Diving Bell and the Butterfly eu posso dizer com segurança que este filme, se não ganhar o Oscar, deveria pelo menos ser citado no discurso do ganhador. O trabalho de Juliette Welfling na edição é impressionante. Claro que o mesmo vale dizer para o trabalho de Christopher Rouse em The Bourne Ultimatum. Para mim, os dois são os mais fortes concorrentes ao prêmio. Ainda que sempre pode rolar uma “zebra” em categorias como esta. Mas meu voto seria para Juliette Welfling.

Melhor filme estrangeiro: disputam a estatueta o israelense Beaufort; o austríaco The Counterfeiters; o polonês Katyn; o russo 12 e o representante do Cazaquistão, Mongol. Para ser franca, assisti a vários outros filmes que estavam naquela lista inicial para o Oscar, mas a estes ainda não. De qualquer forma, ouvi o boato de que Beaufort e, principalmente, The Counterfeiters seriam os mais fortes concorrentes. Logo que assistir a todos, comento melhor aqui. O que eu posso comentar desde já é que três dos concorrentes são dirigidos por feras e “mestres” do cinema: Sergei Bodrov é o responsável por Mongol; Nikita Mikhalkov assina 12; e Andrzej Wajda é o mestre por trás de Katyn. The Counterfeiters, do austríaco Stefan Ruzowitzky toca em um tema que a Academia adora: o nazismo e o extermínio de judeus. Mais poderei comentar só depois de assistí-los.

Melhor maquiagem: concorrem La Vie en Rose, Norbit e Pirates of the Caribbean: At World´s End. Novamente não assisti a nenhum deles, por isso não posso avaliar, mas sei que muitos falam dos milagres que fizeram com Eddie Murphy em Norbit.

Melhor trilha sonora: concorrem Dario Marianelli por Atonement; Alberto Iglesias por The Kite Runner; James Newton Howard por Michael Clayton; Michael Giacchino por Ratatouille; e Marco Beltrami por 3:10 to Yuma. Nesta disputa não assisti a Ratatouille e a The Kite Runner, mas posso dar meu pitaco sobre os demais. Para quem acompanha as trilhas sonoras dos filmes, sabe que os principais concorrentes são veteranos neste labor. Gosto demais do trabalho de Marianelli em Atonement e do de Marco Beltrami em 3:10 to Yuma. Não saberia votar em um deles, porque acho que os dois mereceriam o prêmio. Uma curiosidade: nesta categoria estão concorrendo dois italianos (Dario Marianelli e Marco Beltrami) e um espanhol (Alberto Iglesias).

Melhor música: disputam nesta categoria Falling Slowly (do filme Once); Raise It Up (do filme August Rush), e três músicas de Alan Menken para o filme Enchanted – a citar, Happy Working Song, So Close e That´s How You Know. Não ouvi nenhum dos trabalhos concorrentes, mas acho que por concorrer três vezes na mesma categoria o troféu deve ficar mesmo para Alan Menken. hehehehehehehehehehe

Melhor filme: concorrem Atonement, Juno, Michael Clayton, No Country for Old Men e There Will Be Blood. Para ser franca, fiquei surpresa com a lista final dos indicados. Havia muita especulação sobre os cinco que chegariam até lá, mas quase todos concordavam que Atonement, No Country for Old Men e There Will Be Blood seriam indicados. Restava dúvida sobre os outros dois concorrentes. Eu esperava que estivesse ali, por exemplo, American Gangster e Sweeney Todd. Mas para a minha surpresa chegaram lá Michael Clayton e Juno. Assisti a este dois últimos filmes e posso dizer que eles são bons, muito bons. Mas que American Gangster, para mim, é melhor. Ainda assim, a lista como ficou, exceto por Atonement, é uma vitória dos amantes de cinema. Digo isso porque nenhum destes filmes é uma produção com “cara de Oscar”, ou seja, feita para agradar os membros da Academia. Juno é uma comédia muito bem escrita sobre adolescentes que fazem sexo sem camisinha e que percebem que estão encrencados com uma gravidez – sem contar que trata de divórcio e outros temas “pouco vendáveis”, por assim dizer. No Country for Old Men é um filme com a assinatura dos irmãos Coen, ou seja, sarcástico essencialmente, além de sombrio e “sem esperanças”. Michael Clayton é um filme bem crítico e mordaz, muito bem escrito também, sobre o “poder” das coorporações. There Will Be Blood, ainda não assisti, mas pelo trailer não parece um filme “bonitinho”. Pelo contrário, parece ser um grande filme sobre cinismo, o poder do dinheiro e temas afins. E mesmo Atonement não é um filme “positivo”, afinal, trata sobre a destruição que uma mentira pode causar na vida das pessoas. Na verdade, acho que fazia tempo que o Oscar não colocava na sua lista dos cinco indicados a melhor filme produções tão “sombrias”, tão críticas a realidade atual ou de uma certa época. Acredito que apenas Juno é um pouco “pra cima” nestes termos, ainda que trate de um tema espinhoso e sem dar “lição de moral”. Para mim falta assistir a There Will Be Blood, mas me parece que a disputa realmente ficaria entre o filme de Paul Thomas Anderson, No Country for Old Men e Atonement. Exceto pelo último, qualquer um dos outros dois ganhando eu ficarei feliz. Só acharia absurdo, realmente, Atonement ganhar, porque não vejo qualidades no filme para bater os demais. ATUALIZAÇÃO (24/1): Como disse antes, assisti ontem a There Will Be Blood, e agora posso dizer com segurança meu veredicto. Para mim, de todos, realmente No Country for Old Men seria o melhor. Ainda que There Will Be Blood tenha muitas qualidades (falarei mais dele logo mais, quando escrever sua crítica) e uma grande atuação de Daniel Day-Lewis, mas o filme dos irmãos Coen tem mais “sabor”, mais “tempero”. There Will Be Blood tenta ser um Cidadão Kane moderno, mas sem a ousadia técnica do clássico de Orson Welles – e substituindo o magnata das comunicações pelo magnata do petróleo. Realmente é um grande filme, mas ainda prefiro No Country for Old Men. Ainda assim, prefiro que um dos dois saia vencedor do que Atonement, Juno (que é muito bom, mas não para ganhar o Oscar) ou Michael Clayton (corajoso, mas menos “cinema” que os meus dois preferidos).

Melhor curta-metragem de animação: concorrem I Met the Walrus, Madame Tutli-Putli, Même Les Pigeons Vont au Paradis, My Love (Moya Lyubov) e Peter & the Wolf. Novamente, como no caso dos curtas documentários, não tive a oportunidade ainda de assistir a estes concorrentes. Se conseguir, comento aqui depois.

Melhor curta-metragem: disputam a estatueta At Night, Il Supplente, Le Mozart des Pickpockets, Tanghi Argentini e The Tonto Woman. O mesmo vale para esta categoria do que comentei antes em “melhor curta-metragem de animação”.

Melhor edição de som: concorrem The Bourne Ultimatum, No Country for Old Men, Ratatouille, There Will Be Blood e Transformers. Ok, não assisti a quase nenhum exceto por The Bourne Ultimatum e No Country for Old Men. Ainda assim, algo me diz que os mais fortes candidatos são mesmo The Bourne Ultimatum e Transformers.

Melhor efeito sonoro: aqui os concorrentes da categoria anterior quase se repetem, com uma exceção. Disputam o Oscar The Bourne Ultimatum, No Country for Old Men, Ratatouille, 3:10 to Yuma e Transformers. Para mim o favorito é Transformers, ainda que eu não tenha visto o filme. hehehehehehehe

Melhor efeito visual: concorrem The Golden Compass, Pirates of the Caribbean e Transformers. Não vi os últimos dois, mas acho que o Oscar deve ir para The Golden Compass ou Transformers.

Melhor roteiro adaptado: concorrem Christopher Hampton por Atonement; Sarah Polley por Away from Her; Ronald Harwood por The Diving Bell and the Butterfly; Joel e Ethan Coen por No Country for Old Men; e Paul Thomas Anderson por There Will Be Blood. Novamente aqui o bicho pega. Realmente todos os trabalhos de adaptação parecem ter sido geniais. Acho que corre um pouco por fora da disputa Ronald Harwood e Sarah Polley (ainda que eu tenha adorado o trabalho dela com o filme). Mas a disputa deve ficar mesmo entre Atonement (creio que o favorito), No Country for Old Men (meu voto atual) e There Will Be Blood (que ainda preciso ver para avaliar melhor). Interessante comentar que três dos cinco concorrentes não nasceram nos Estados Unidos. Christopher Hampton é português, Sarah Polley é canadense e Ronald Harwood é sul-africano. ATUALIZAÇÃO (20/2): Não lembro o último Oscar em que a disputa estivesse tão acirrada nesta categoria. A verdade é que todos os concorrentes são muito, mas muito bons. Eu tiraria da disputa Atonement. Sobrariam quatro. Destes, ainda acho que os mais fortes concorrentes seriam os roteirista de There Will Be Blood, No Country for Old Men e The Diving Bell and the Butterfly. Achei o trabalho de Ronald Harwood excepcional. Mas não posso falar diferente dos trabalhos dos irmãos Coen e de Paul Thomas Anderson. Se tenho que escolher alguém, diria que meu voto “apaixonado” seria para The Diving Bell and the Butterfly, ainda que eu ache que quem deve mesmo levar a estatueta para casa são os irmãos Coen.

Melhor roteiro original: concorrem Diablo Cody por Juno; Nancy Oliver por Lars and the Real Girl; Tony Gilroy por Michael Clayton; Brad Bird por Ratatouille; e Tamara Jenkins por The Savages. Exceto por Juno e Michael Clayton, os demais filmes eu ainda não vi. Gosto muito do roteiro de Juno, mas acho que o trabalho de Tony Gilroy é mais contundente. Ainda falta assistir aos demais para poder opinar definitivamente. Detalhe: três mulheres (sim, porque Diablo Cody é o nome de uma mulher) contra dois homens. hehehehehehe

Para arrematar esta avaliação, quero comentar que, no geral, gostei dos indicados deste ano. Acho que houve algumas injustiças – como deixar American Gangster de fora da disputa por melhor filme e roteiro, assim como Denzel Washington (que este ano fez um belo trabalho em dois filmes: American Gangster e The Great Debaters); não indicar Eddie Vedder ou mesmo 4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile.

De qualquer forma, vou atualizando este comentário conforme for assistindo aos filmes que faltam. Como costumo fazer por aqui, deixo meu texto original e adiciono um “ATUALIZAÇÃO” no final – até para que fiquem registrados os meus erros e minhas mudanças de opinião. hehehehehehehe

Gostaria muito que os queridos leitores que passarem por aqui comentassem, dando seus palpites e registrando os seus desejos para que uns ou outros saiam vencedores. Um grande abraço a todos e cada um(a) e até o dia da premiação deste “circo de Hollywood”.

ATUALIZAÇÃO (no dia 4/1/2009): Para quem está buscando a minha opinião sobres os filmes pré-indicados para o Oscar deste ano, de 2009, sugiro que vá olhando as últimas crônicas que publiquei aqui no blog. Pouco a pouco estou assistindo aos filmes que concorrem a alguma vaga na categoria de filme estrangeiro, assim como os principais cotados nas categorias principais da premiação. Outra alternativa é digitar o nome do filme que você quer saber mais no buscador do blog. Todas as produções que podem chegar a ser indicadas à maior premiação do cinemão podem ser identificadas no final de cada crítica pela frase “palpite para o Oscar 2009”.

Persepolis – Persépolis

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Para muitos os desenhos ou filmes de animação continuam sendo “coisa para crianças”. Ainda que existam dezenas de exemplos de filmes do gênero que foram produzidos mais para adultos do que para “niños y niñas”, muitos ainda continuam com esta crença. Pois Persepolis, a animação francesa que arrebatou até agora oito prêmios e foi indicado para o Globo de Ouro deste ano, prova mais uma vez para os descrentes que grandes histórias podem (e até devem) ser contatas desta forma. Afinal, nenhuma produção com atores poderia ter rendido uma obra tão bonita e poética. Fiquei maravilhada com o filme e agora entendo porque ele foi tão admirado por onde passou.

A HISTÓRIA: O filme conta a história de Marjane “Marji” Satrapi (com voz de Chiara Mastroianni), uma iraniana que acompanha e narra as grandes mudanças sofridas por seu país desde a Revolução Islâmica. Através de sua narrativa pessoal desde a infância, acompanhamos a história, os costumes, as relações familiares e sociais no Irã no período de 1978 até os anos 90. Marji também conta a história antiga do Irã através do relato de seus familiares, como do pai (voz de Simon Abkarian), da mãe (voz de Catherine Deneuve), de sua avó (voz de Danielle Darrieux) e de seu tio, Anouche (voz de François Jerosme). Além da história de seu país, Marji nos conta a história que muitas crianças e jovens viveram nos anos 80 e 90, com toda a busca por liberdade e os gostos culturais desta época.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que trechos do texto à seguir contam partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Persepolis): Como falei antes, este filme é emocionante, tanto pela técnica, pela arte da animação feita com um esmero que há tempos eu não via, quanto pelo roteiro propriamente dito. O texto é lindo. E tem a força que tem, assim como a emoção que se vê, porque essa história é uma autobiografia. Ou seja: a menininha que vemos crescendo até se tornar adulta é a diretora e roteirista do filme, Marjane Satrapi – que antes de fazer esta animação já havia contado sua história através dos quadrinhos. Para colocar na telona o que viveu, ela contou com a ajuda do roteirista e co-diretor Vincent Parannaud.

O mais interessante do filme é que ele é divertido ao mesmo tempo que emocionante. Marjane consegue nos contar parte da história do seu país sem ser chata, acadêmica ou formal. Pelo contrário. Ela nos mostra a vida “como ela foi”, ou seja, o que ocorria ao seu redor conforme foi crescendo e amadurecendo. Conforme foi mudando de pele. Desta maneira acompanhamos a garotinha curiosa e idealista que queria aprender o máximo possível sobre política, Bruce Lee, revoluções e tudo o mais junto a seus amiguinhos; passando a vê-la em sua pré-adolescência, já com as imposições do islamismo no uso de trajes (como a adoção da burca) e com outras formas de controle sociais; até chegar a sua adolescência e fase adulta, quando vira uma imigrante e vai conhecer a sociedade fora do seu país.

Como se pode entender do resumo acima, Persepolis trata de muitos temas. De tradições, educação, família, idealismos, choque de culturas, crescimento pessoal, liberdade, autoritarismo, repressão, política, religião, costumes, amores, ilusões e desilusões, heroísmo, revolução, raízes, comprometimento, lealdade, etc. Um dos pontos mais bonitos, na minha opinião, é o da relação amorosa e de incentivo por parte dos pais e avó de Marji com ela. Realmente comovente a maneira com que eles encaram a sua liberdade e tentam orientá-la para uma vida justa consigo mesma e com os demais apesar da guerra e da repressão em que vive o seu país.

Falando em guerra, o filme inevitavelmente trata também da guerra entre o Irã e o Iraque, que durou oito anos e marcou definitivamente a história do país de Marji. Impressionante a delicadeza dos diretores e a arte realista que conseguem produzir destas histórias. Para mim, Persepolis é realmente uma obra de arte.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não conheço os quadrinhos em que o filme foi baseado, mas fiquei curiosa para conhecê-lo. Somente na França, a HQ de Marjane Satrapi vendeu mais de 400 mil exemplares. Os direitos de sua obra foram vendidos para quase 20 países. Em 2004, sua HQ ganhou o prêmio de melhor história em quadrinhos da Feira de Frankfurt. E pensar que eu nem tinha ouvido falar nela… realmente ando meio desconectada do mundo HQ.

Para quem não sabe, Persépolis foi uma antiga capital do Irã e é, atualmente, o principal sítio arqueológico do país. Ruínas da cidade datam de mais de 2,5 mil anos. Ela foi destruída pelo Exército de Alexandre, o Grande, durante o extermínio do império persa. Aqui encontrei uma interessante reportagem a respeito.

Persepolis ganhou alguns prêmios importantes, como o conferido pelo júri do Festival de Cannes; o de melhor animação pela Associação de Críticos de Los Angeles e pela Associação de Críticos de Nova York; o de Liberdade de Expressão pelo National Board of Review dos Estados Unidos (associação de críticos daquele país); prêmio da audiência como Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de São Paulo; além dos prêmios de Filme Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver; prêmio especial do júri no Festival Internacional de Cinema Cinemanila, nas Filipinas; e o “Sutherland Trophy” do Instituto Britânico de Cinema. Além dos prêmios já recebidos, ele foi indicado ao Globo de Ouro como Melhor Filme Estrangeiro (perdendo para o também francês The Diving Bell and The Butterfly) e está concorrendo a quatro prêmios no Annie Awards, uma espécie de Oscar da animação que terá a premiação divulgada no dia 8 de fevereiro em Hollywood.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,2 para a produção, enquanto os críticos que tem seus textos publicados no site Rotten Tomatoes escreveram 62 comentários positivos e apenas quatro negativos para o filme. Parece que ainda é um filme que agrada mais aos críticos que ao público.

A animação de Marjane Satrapi teria custado aproximadamente US$ 7,3 milhões. Somente na França esta produção já faturou pouco mais de € 5,5 milhões (lembrando que o Euro está mais valorizado que o dólar). Na Bélgica, Persepolis acumula uma bilheteria de € 238,6 mil, enquanto nos Estados Unidos o filme faturou até o dia 6 de janeiro pouco mais de US$ 313,6 mil. Desde maio de 2007 Persepolis está fazendo o circuito dos festivais de cinema, sem ter caído ainda no gosto popular – exceto pela França. Nos Estados Unidos, por exemplo, o filme estreou apenas no dia 25 de dezembro com poucas cópias.

Uma qualidade do filme é que nele tudo funciona bem, desde o roteiro até as “interpretações” dos atores, que imprimem o tom exato em cada fala, passando pela trilha sonora e a arte gráfica propriamente dita.

O filme é uma co-produção França e Estados Unidos.

PALPITE PARA O OSCAR: Eu colocaria Persepolis como certeza na categoria de filme estrangeiro ou de animação, mas para a minha surpresa foram divulgados os nove “pré-selecionados” para a premiação deste ano e ele ficou de fora. Para mim isso só tem duas explicações: ou Persepolis será indicado na categoria de Melhor Animação e/ou de Melhor Filme ou, o que seria absurdo, a Academia simplesmente vai deixar ele de fora. Acho mais provável que ele seja indicado como Melhor Animação… e daí ele terá que vencer todo o marketing e lobby de filmes como Bee Movie para ganhar. O que ele merece, com certeza. Acho mais difícil ele chegar a ser indicado como Melhor Filme, já que o embate deste ano para uma das cinco vagas está grande.

CONCLUSÃO: Emocionante e divertida autobiografia de uma mulher que nasceu no Irã e viveu, desde a sua infância, as mudanças radicais pelas quais o seu país passou. Mais que uma história que aborda a política e as mudanças sociais naquele país, é uma história sobre a valorização da família, a busca da identidade própria e a necessidade de buscar uma vida melhor em outro país.

ATUALIZAÇÃO (08/01/2009): Passado praticamente um ano desta crítica, posso dizer que tive a alegria de ler a HQ que originou ao filme. Ela é tão boa quanto. Recomendadíssima para os que gostam de HQs (e das idéias feministas). 😉 No final, Persepolis foi indicado realmente ao Oscar de Animação em 2008, mas perdeu para Ratatouille. Em sua trajetória, o filme de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud ganharam 15 prêmios e foram indicados a outros 22. A nota no IMDb baixou para 8.

The Great Debaters – O Grande Debate

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Serei franca: não tinha ouvido falar de The Great Debaters até o dia em que ele apareceu na lista dos concorrentes ao prêmio de Melhor Filme – Drama do Globo de Ouro deste ano. Daí fui atrás e soube que era um filme dirigido e com atuação de Denzel Washington. O que, para mim, normalmente é sinônimo de qualidade – digo normalmente porque, até ele, Denzel Washington, já fez “besteiras” (leia-se filmes ruins, dispensáveis) na vida. Ainda que, claro, ele é um dos que menos erra nas escolhas. Mas voltemos ao filme… O assisti há dois dias atrás sem saber muito mais do que o fato de que ele havia concorrido ao Globo de Ouro e que tinha o Denzel Washington como um de seus “cabeças”. Gostei do que vi, ainda que tenha algumas ressalvas. Mas é um grande filme sobre uma vitória praticamente desconhecida dos negros nos Estados Unidos. E não uma vitória qualquer, mas uma vitória através da educação, mostrando a todos os racistas e brancos nojentos que queimavam negros na beira das estradas que eles, os negros, podiam fazer igual ou melhor que qualquer outro branco o que eles quisessem, inclusive debater. Me lembrou – porque é inevitável não lembrar – um pouco a Sociedade dos Poetas Mortos, ainda que em The Great Debaters a discussão principal não seja apenas a educação e o ensino como arma libertadora, mas também (e principalmente) o respeito a todas as raças, além de uma crítica ao que já foi feito no “país das oportunidades” contra pessoas inocentes e, mais que tudo, se trata de um elogio a resistência contra as injustiças. Gosto do filme também porque ele é engajado, ou seja, se trata de um filme declaradamente “partidário” feito por um negro, Denzel Washington, e com um elenco essencialmente de negros para contar uma história marcante para eles, uma história que pode servir de exemplo e de orgulho.

A HISTÓRIA: O professor Melvin B. Tolson (Denzel Washington) dá aula de literatura na Universidade Wiley, na cidade de Mashall, Texas, nos anos 30. Em 1935 ele resolve criar um novo grupo de debates selecionando os melhores alunos da universidade. Dos 350 estudantes do Wiley College, apenas 45 se inscreveram no grupo de debates. Depois de uma peneirada grande, ele acaba selecionando ao rebelde Henry Lowe (Nate Parker), a Samantha Booke (Jurnee Smollett), a James Farner Jr. (Denzel Whitaker) e a Hamilton Burgess (Jermaine Williams). Henry é um garoto intempestivo, dividido entre a sua vida simples em um lago onde o avô foi escravo, as noites de festa, mulheres e bebedeira, e a vontade de viajar o mundo e de ter conhecimento – ele já entrou e saiu da universidade. Samantha saiu de uma cidade ainda mais interiorana e transferiu seus estudos para tentar entrar no grupo de debates de Tolson – uma mulher nunca tinha conseguido isso. E James Farner Jr. é o filho do lendário James Farner Sr. (Forest Whitaker), um dos primeiros negros a se formarem em uma universidade nos Estados Unidos e uma referência de intelectual.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que parte do texto à seguir revela aspectos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Great Debaters): Este é o segundo filme dirigido pelo ator Denzel Washington. O anterior, Antwone Fisher (Voltando a Viver), também contava uma história em que os negros eram protagonistas. Naquele filme de 2002 Denzel Washington também atuou na história, além de dirigí-la. Mas, para mim, se vê uma grande evolução entre um filme e outro, em todos os sentidos. A história de The Great Debaters é muito mais interessante que a de Antwone Fisher, assim como a direção de Denzel está mais apurada e os atores, no geral, são melhores que em sua estréia como diretor. De qualquer forma, se percebe uma linha de união entre os dois filmes: a ênfase de Denzel Washington em apostar na educação e na compreensão como estímulos para os negros e demais marginados da sociedade saírem de suas condições de exploração e subverter positivamente o que ocorre ao seu redor. Gosto deste tema.

Para alguns a dinâmica do filme, permeada por vários debates dos estudantes de Wiley, pode cansar. A mim não cansou nem um pouco, até porque gosto de debates. hehehehehehehe. De verdade gosto. Prefiro o debate de idéias, a discussão inteligente de pontos-de-vista do que outras formas de disputa. O interessante do filme é que, com seus debates, ele nos relembra algo importante: toda idéia pode ser defendida. Afinal, cada time, em cada debate, se posicionava a favor ou contra uma idéia, por mais absurda ou correta que ela fosse. E é interessante ver como na maioria dos debates os estudantes realmente tinham bom argumentos para defender qualquer idéia. O bom de relembrar isso e de ter isso em mente é que podemos olhar com mirada crítica a certas idéias reinantes ou que tentam nos vender todos os dias.

Ainda que The Great Debaters tenha muito de discurso no meio, devido justamente aos tais debates estudantis, ele não é um filme essencialmente sobre isso. Na verdade, nos primeiros três minutos da história o diretor Denzel Washington e o roteirista Robert Eisele mostram ao que vieram: fazer um painel o mais abrangente possível sobre a sociedade estadunidense dividida entre brancos e negros no Sul do país nos anos 30. Nos minutos iniciais, por exemplo, assistimos a uma festa, a uma aula inaugural que parece mais uma pregação religiosa, e a uma mulher negra viajando de uma cidade a outra em uma paisagem de racismo. O bacana é que esta característica do filme não se perde pelo caminho. Em paralelo a história do grupo de debates vencedor, acompanhamos o trabalho político do professor Tolson, que se veste como um camponês para criar a conscientização entre os trabalhadores da região; assistimos ao duplo preconceito que sofrem as mulheres negras, inclusive por “homens letrados”, como o professor e intelectual Farmer (se percebe isso quando ele pergunta ao filho sobre a tal “senhorita Booke”); sem contar a opressão que sofrem os negros pelos brancos, com direito a transposição disto vista na ação de um pai com seu filho ou de um homem negro mais forte em relação a um mais fraco.

O filme é interessante na mesma medida em que é um discurso político, de orgulho racial e de história edificante. Realmente acredito que a educação é o caminho para mudar a sociedade – ainda que ela esteja sempre em décimo plano. E também acredito em outra mensagem do filme (e de seu diretor): que é preciso rebelar-se contra as injustiças, que é preciso atuar além de discursar. Aliás, bem interessante esse equilíbrio entre o discurso e a ação na história. Muito bacana também saber que se trata de uma história real. Ela foi revelada em um artigo do jornalista Tony Scherman que, depois, serviu de base para a história desenvolvida por Robert Eisele e Jeffrey Porro.

É um filme interessante, ainda que ele peque um pouco pela obviedade de seus recursos. Ele emociona, mas me incomoda um pouco o fato que você sabe exatamente quando irá emocionar e como. Tudo vai em encontro da emoção em algumas partes, com música e planos de filmagem bastante óbvios neste caminho. Neste quesito eu acho que o diretor poderia ter experimentado um pouco mais para, pelo menos, tentar fazer algo menos “óbvio”. Mas no geral é um belo filme.

Um aspecto que me pareceu bem interessante, ainda que seja apenas um entre vários – e que não foi muito explorado pelo filme – é o da dúvida que divide ao personagem de Henry Lowe. Acho curioso como muitas pessoas – e talvez eu, em parte – fiquem divididas entre o que elas são e o que elas podem ser ou, no caso de Lowe, entre a simplicidade do mundo do qual ele vêm e que o emociona e o mundo que ele tem curiosidade de conhecer e o fascina. Acho complicado esse tipo de decisão, porque os dois mundos possíveis são interessantes, bonitos e tem seu valor. Mas algumas vezes é realmente complicado deixar o “lago” de nossas lembranças e afetos, a simplicidade de uma vida que nos parece tão familiar e se lançar a um mundo tão competitivo e predador como o dos debates em que Lowe acaba se jogando. Realmente é um dilema interessante e bem apresentado no filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos atores já comentados, destaco a participação de Gina Ravera como Ruth Tolson, a mulher do professor “revolucionário e comunista” Melvin Tolson; John Heard como o Sheriff Dozier; e Kimberly Elise como Pearl Farmer, a mulher do professor e intelectual James Farner. Do elenco principal, destaque para a atriz Jurnee Smollett, que me surpreendeu em sua atuação que equilibra, na medida certa, drama e valentia; e também para o garoto Denzel Whitaker, de 17 anos. Ainda que o nome sugira, ele não tem parentesco com o ator Forest Whitaker. Interessante saber que o garoto fez uma ponta no filme Training Day, de 2001, em que Denzel Washington fazia um grande papel.

The Great Debaters foi indicado ao Globo de Ouro, mas não levou a estatueta – conquistada por Atonement. Por outro lado, o filme de Denzel Washington ganhou dois prêmios interessantes: o Freedom of Expression Award da National Board of Review (algo como “Prêmio para a Liberdade de Expressão” da Associação de Críticos dos Estados Unidos) e o Stanley Kramer Award da PGA Awards (um prêmio honorário da associação de produtores de cinema dos Estados Unidos). Enfim, o filme parece ter mais oportunidades em prêmios que tem algum carácter mais humanista do que apenas nos comerciais.

Falando em dinheiro, The Great Debaters conseguiu arrecadar, no período de 23 de dezembro de 2007 até 6 de janeiro deste ano, pouco mais de US$ 22 milhões nos Estados Unidos. Não está mal, ainda mais se tratando de um filme com muito discurso e pouca ação ou comédia, algo tão ao gosto do público norte-americano.

No site IMDb o filme ganhou a nota 7,8 de seus usuários, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra 88 críticas positivas e 23 negativas – está melhor que muitas estréias recentes e que muitos líderes de bilheteria nos Estados Unidos. hehehehehe

Gosto da atitude do ator Denzel Washington. Ele nunca perde a oportunidade de abrir o debate sobre a sua raça e nem foge dos temas políticos, pelo contrário. Ele estimula a crítica, a educação, o debate e a ação. Bacana. Gosto de pessoas engajadas.

PALPITE PARA O OSCAR: Não acredito que The Great Debaters conseguirá alguma indicação para o Oscar 2008. Realmente parece que os demais concorrentes estão mais fortes e que ele não terá o lobby suficiente para chegar lá. A verdade é que acho ele tão merecedor de uma indicação que Atonement, ou até um pouco mais. Mas o ganhador do Globo de Ouro tem muito mais lobby que o filme de Denzel Washington para chegar ao Oscar. The Great Debaters até poderia ser indicado para filme e roteiro, por exemplo, mas duvido que chegue lá.

CONCLUSÃO: Um filme emocionante sobre a luta através da educação de um grupo de jovens contra o racismo nos Estados Unidos, bem dirigido por Denzel Washington e com atuações muito boas do elenco em geral. Exagera um pouco a mãe na forma de “emocionar” e na previsibilidade, mas não deixa de ser um grande filme humanista e que aposta na resistência pacífica, através da educação e da autogestão de grupos para mudar a sociedade.

Into the Wild – Na Natureza Selvagem

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Tem filmes que ficam na memória por algum tempo depois que a última filigrana da película passa na frente de nossa retina. Into the Wild, o último trabalho do diretor Sean Penn, é um destes. Terminei de ver o filme faz algumas madrugadas e ele continua ali, aparecendo na memória. Há muitas frases incríveis no roteiro, várias imagens idem. Na verdade, descobri depois, que o filme vai fazendo efeito conforme o tempo passa. E foi depois de uma certa distância temporal das imagens que eu percebi o quanto ele é bonito, o quanto ele trata de alguns assuntos que eu tenho pensado muito ultimamente. Entre eles, o de como vivemos em uma sociedade que dá vontade de escapar, algumas vezes. Mas que, ainda que tenhamos pavor das pessoas que vivem para consumir, são justamente as pessoas (incluindo estas, talvez) que façam a vida ter sentido. Então a verdade é que descobrimos o que o personagem principal de Into the Wild descobre: de que o mais bonito está na Natureza, na nossa capacidade de sobrevivermos por nossa conta, sem supérfluos ou luxos ao nosso redor mas que, paralelo a isso, não é possível viver feliz sem compartilhar o que sabemos e o que vivemos. Into the Wild fala disto e de muito mais.

A HISTÓRIA: Acompanhamos a trajetória de Christopher McCandless (Emile Hirsch) em sua aventura de descoberta pessoal e de busca pela vida fora da sociedade consumista. O filme começa com os pais dele, Billie (Marcia Gay Harden) e Walt (William Hurt) acordando em uma noite depois que ela sonha com o filho “desaparecido”. Em seguida aparece o texto de uma carta escrita por Christopher para o seu amigo Wayne Westerberg (Vince Vaughn), contando de sua chegada a Fairbanks e de como ele estava preparado para ficar um bom tempo longe da civilização. A partir do momento em que ele encontra um “ônibus mágico” abandonado no meio das montanhas, passamos a acompanhar a sua trajetória em retrospectiva, desde que ele se formou na universidade e resolveu abandonar tudo para viver da maneira que acreditava ser a mais correta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte da crítica à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à Into the Wild): O resumo do filme parece meio infantil, eu sei. Dizer que Into the Wild conta a trajetória de um jovem recém-formado em um caminho de auto-conhecimento, de auto-determinação e de busca por uma vida mais “selvagem”, de contato com a Natureza e de repúdio ao consumismo que vê no berço da sua família parece não resumir ao último trabalho de Sean Penn como diretor. E realmente o filme tem mais conteúdo que isso.

Gostei, sobretudo, da maneira com que a história é contada. Primeiro assistimos a Chris – ou Alexander Supertramp, como ele próprio passa a se chamar – realizando o seu sonho de chegar no Alaska. Depois que ele encontra um ônibus abandonado é que vamos sabendo como ele chegou lá. Então conhecemos o caminho que ele quase segue, depois que termina a faculdade, mas que acaba refutando. E sabemos, por exemplo, que ele abomina as mentiras que os pais contam, assim como o seu padrão de valorizar o dinheiro e não as pessoas ou a vida. E ele resolve tomar outra direção, totalmente contrário ao que todos pensam. E aí o filme fala do “seu próprio nascimento”, da sua “adolescência” como novo ser – agora “criado” por ele mesmo, de sua “família” e, claro, de sua lição de “sabedoria”. É muito bonito acompanhar na vida adulta a evolução de um ser humano em busca da verdade, do amor, da liberdade.

Comentei que depois fui vendo como o filme trata de vários temas que tem me feito pensar ultimamente porque é verdade. Desde que fui para o Brasil por três semanas em dezembro e que passei o Natal com minha família eu comecei a refletir ainda mais sobre o que importa na vida para mim. E vi como estava feliz lá, na casa dos meus pais, observando os pássaros que vivem ao redor da casa, percebendo as nuances de cor do dia, entre outros detalhes da Natureza. Não se compara, claro, a experiência do personagem de Into the Wild porque, ele sim, descobre a força que tinha dentro ao conseguir com seu próprio suor sobreviver em um meio sem nenhum recurso, em uma vida realmente selvagem. Mas eu, na minha pequena experiência em casa, vi que o contato com a Natureza e a convivência com as pessoas mais queridas da tua vida podem ser tudo o que uma pessoa deseja. Interessante.

Outra questão que o filme aborda e que é algo que venho pensando faz algum tempo é sobre a aflição que dá essa nossa sociedade consumista. Realmente, eu que sempre fui muito de leitura e de filmes, por exemplo, prefiro mil vezes uma criação artística do que um objeto que pode ser comprado para “agregar valor” ou “status” a minha vida. Acho isso de conseguir “status” com o consumo de produtos de uma estupidez gigante. E sei que isto é, faz tempo, a moeda corrente. Por isso que devo admitir que, às vezes, tenho vontade de mandar essa sociedade pro espaço e ir viver da minha maneira, ainda que pareça uma louca, como o personagem de Chris parecia.

Aliás, algo interessante do filme (só continue lendo se você realmente já viu a Into the Wild): em nenhum momento antes do final você tem certeza se a história daquele rapaz realmente aconteceu ou não. E acho isso muito bacana… não ter uma linha como “baseado em uma história real” no princípio. Assim você vai desejando que essa história tenha acontecido porque, eu acredito, os exemplos reais ensinam. E eu fiquei torcendo para Chris realmente ter feito aquelas descobertas na vida para que sua história inspire outras pessoas a buscarem as suas verdades, a buscarem o que de mais essencial é possível encontrar no caminho. Bacana que esse sujeito realmente existiu.

Merecia um capítulo a parte a trilha sonora de Into the Wild. Que trabalho maravilhoso o de Eddie Vedder neste filme! Ele realmente dá outro nível de beleza e de compreensão da história com suas composições. Lindo! Sempre fui fã do líder do Pearl Jam, mas agora ainda mais. Ele ganhou ontem o Globo de Ouro pela canção Guaranteed e espero que repita o feito no Oscar. Se bem que eu acho que ele terá um grande rival a bater: o italiano Dario Marianelli por sua trilha sonora em Atonement.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme tem a direção e o roteiro assinados pelo ator Sean Penn. Interessante e bacana o trabalho que ele fez tomando como base a obra de Jon Krakauer (interessante este texto sobre outro livro dele, Pela Bandeira do Paraíso). O filme merece a nota acima especialmente pelos detalhes, como as transcrições de cartas de Chris, ou o depoimento de sua irmã como uma das narradoras da história, etc.

Interessante perceber a reação das pessoas em relação ao andarilho Chris. Talvez por ele não ser alcóolatra e não andar bêbado por aí ou talvez por ele ser jovem e bonito, ele consegue ser respeitado pelas pessoas. E bem visto, bem recebido. O que nem sempre acontece com pessoas que decidem viver fora das regras sociais, como andarilhos ou nômades. Na vida real estas pessoas realmente passam por maus bocados. Se bem que isso ocorre mais nas grandes cidades, como o filme também mostra, até um certo ponto. E quando Chris percebe como a cidade sufoca, maltrata e tudo o mais, ele foge para longe, para de volta ao selvagem.

Achei realmente muito legal a história dele, ainda que admita que para um mulher fazer o mesmo seja muito mais difícil. Também achei que a mudança dele foi muito radical. Ok que os pais mentiam e eram consumistas, mas eu sempre acho que um filho deve levar em conta que, por mais que os pais erram, eles tentaram acertar. Ainda que eu o entenda muito bem, acho que não teria coragem de fazer exatamente o mesmo em sua situação. Mas daí também a questão do “nascimento” da pessoa livre, algo que ele só conseguiu se desapegando de todos e de tudo.

Into the Wild foi indicado para 18 prêmios e já ganhou cinco – entre elas a de melhor música para Guaranteed, de Eddie Vedder, no Globo de Ouro; melhor ator para Emile Hirsch no Festival de Cinema de Mill Valley; melhor atuação masculina para Emile Hirsch pelo National Board of Review (associação de críticos norte-americanos); diretor do ano para Sean Penn no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; prêmio do júri para Sean Penn, William Pohland e Art Linson no Festival de Cinema de Roma; e prêmio da audiência como Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de São Paulo.

A verdade é que a direção de Sean Penn merece realmente ser indicada a vários prêmios, assim como a atuação do jovem Emile Hirsch. O garoto consegue interpretar Chris com naturalidade e, assim, realmente rouba a cena. Além dos já citados, fazem parte do elenco Jena Malone como a irmã de Chris, Carine; Brian Dierker como Rainey, um hippie casado com Jan Burres (Catherine Keener) – os dois acabam se tornando alguns dos melhores amigos de Chris; Kristen Stewart como a jovem cantora Tracy; e Hal Holbrook como Ron Franz, o viúvo que quase adota a Chris – a parceria dos dois é emocionante.

Into the Wild custou apenas US$ 15 milhões – achei um valor baixo levando em conta todos os locais pelos quais a produção passou para filmar esta história. Somente nos Estados Unidos o filme faturou pouco mais de US$ 17,2 milhões. O bom é que ele se pagou, mas cá entre nós ele têm faturado muito menos do que merece. Infelizmente não é um filme para qualquer um, na minha opinião.

No site IMDb Into the Wild registra a nota 8,1 pelos usuários, enquanto no site Rotten Tomatoes o filme conseguiu 127 críticas positivas e 27 negativas.

Sean Penn terminou de filmar Crossing Over, um filme de Wayne Kramer (de Running Scared ou No Rastro da Bala) sobre imigrantes em Los Angeles. Parece bem interessante. É esperar para ver. Ao lado de Sean Penn estão Harrison Ford, Ray Liotta, Ashley Judd, Cliff Curtis e outros. Enquanto isso, o ator Emile Hirsch logo poderá ser visto no papel de Speed no filme Speed Racer, atualmente em fase de pós-produção. O jovem ator californiano de 22 anos também está no elenco de Milk, o próximo filme de Gus Van Sant que terá no elenco, ainda, Josh Brolin e Sean Penn, entre outros. O garoto tem futuro.

PALPITE PARA O OSCAR: O filme deve receber algumas indicações para o maior prêmio da indústria estadunidense. É certo que serão indicados como melhor filme Atonement, No Country for Old Men e American Gangster. Sobraria duas vagas para o restante dos filmes se engalfinharem. Espero, sinceramente, que uma delas seja para Into the Wild, mas nada é certo. Para essas duas vagas muitos outros estão concorrendo, como Juno, There Will Be Blood, Sweeney Todd, entre outros. Vai ser complicado Into the Wild chegar, ainda que ele mereça, na minha opinião. Aliás, podiam ignorar Atonement e colocá-lo. hehehehehehehehe. Só sonhando. Realmente Atonement é forte candidato a ganhar o Oscar – ainda que eu ache que ele não mereça. Mas enfim. Como ia dizendo, acho que Into the Wild tem potencial para ser indicado como melhor filme, roteiro e diretor, além de uma indicação certa para a música de Eddie Vedder e para a direção de fotografia de Eric Gautier. Pena que a disputa para melhor ator está muito acirrada, porque o jovem Emile Hirsch bem que merecia estar lá.

CONCLUSÃO: Um bonito filme sobre a liberdade de escolha de um indivíduo e sua busca por suas verdades. Trata principalmente da história de um jovem que resolveu viver fora dos padrões sociais e resgatar o contato com a natureza. Também trata de relações familiares, de amizade, de valores pessoais e sociais.

SUGESTÃO DO LEITOR: Me esqueci de comentar aqui antes – uma falha imperdoável – que este filme foi sugerido pelo querido leitor participante deste blog Osmar. Lembro que faz tempo já que ele tinha comentado deste filme, o último de Sean Penn, e que eu disse que estava sedenta por vê-lo, mas que ainda não tinha conseguido. Pois aqui está ele, Osmar. Espero que depois acrescentes teus comentários por aqui também. Aproveito a deixa para dizer aos que acompanham esse blog que eu aceito sim (e muito!) a sugestão de vocês para ver filmes e escrever comentários sobre eles. Só realmente demoro às vezes porque nem sempre consigo vê-los logo, mas tentarei sempre que possível satisfazer os pedidos. Um grande abraço ao Osmar, esse querido participante do blog, e a todos os demais que passam por aqui com frequencia.

My Blueberry Nights – Um Beijo Roubado

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Grandes diretores espalhados pelo mundo já foram tentados a fazer carreira em Hollywood. Alguns se deram muito bem – o maior exemplo acredito ainda ser Hitchcock -, outros nem tanto (digam o que disserem, mas Walter Salles não fez a melhor estréia possível com seu Dark Water, ainda que eu não tenha achado o filme de todo ruim). Desta vez quem teve esta oportunidade foi o diretor chinês Kar Wai Wong, muito venerado por filmes como Fa Yeung Nin Wa (In the Mood for Love ou Amor à Flor da Pele), Chung Hing Sam Iam (Chungking Express ou Amores Expressos) e 2046 (para citar alguns). A estréia dele em Hollywood se chama My Blueberry Nights e conta com atuações de Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Natalie Portman e Rachel Weisz. O bacana do filme é que ele preserva algumas das principais características do diretor, ainda que se trata de um filme com toques hollywoodianos. No final, assistimos a várias histórias de amor, de rompimentos, de reencontros, de descobertas e de sobrevivência (ou morte) contadas com a digital de Kar Wai Wong, com vários planos se sobreexposição de planos diretos, de cores, de “sentidos”, em uma interessante dedicação para contar histórias nos detalhes, com paciência e delicadeza. É um romance diferente do usual de Hollywood, o que lhe faz ganhar pontos. Mas, ao mesmo tempo, sofre de algunas pequenas ciladas que não deixam que seja um filme arrebatador.

A HISTÓRIA: Jeremy (Jude Law) é dono de um bar em Nova York. Ele coleciona chaves de clientes que partem para longe ou que tem os seus corações partidos por desilusões amorosas. Neste último exemplo se encaixa Elizabeth (Norah Jones), uma garota que aparece em uma noite acreditando que seu namorado tem outra mulher. Conversando com Jeremy, ela logo descobre que está certa e, ao caminhar até a casa dele, o vê com outra. Elizabeth volta para o bar de Jeremy e passa a noite ali, comendo uma “torta rejeitada” por todos os clientes, bebendo e dormindo no balcão. Depois desta noite ela sai pela porta, como tantas pessoas na vida de Jeremy, sem promessas de volta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir narra momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a My Blueberry Nights): O excesso de cores, os planos longos e próximos dos atores, as quebras de narrativas “acidentais”, tudo isso faz parte do tipo de cinema feito por Kar Wai Wong. Muitos já contaram histórias de desilusões amorosas, de recomeços e tudo o mais, mas poucos são os que contam essas histórias de maneira diferente. Pois o diretor chinês faz isso em My Blueberry Nights.

Eu gostei do filme. Ele abriu a edição 60 do Festival de Cannes, em 2007. Pelo que eu vi, a maioria dos críticos torceu o nariz para ele. My Blueberry Nights também concorreu ao principal prêmio do festival, mas não ganhou (quem levou a estatueta foi o já comentado neste blog 4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile). Realmente ele não tinha forças para ganhar, ainda que se trate de um filme competente. Mais que tudo, ele tem um grande apreço pelas imagens e conta, sem dúvida, com um dos mais bonitos (e desenhados) beijos do cinema.

O interessante do filme é a escolha da personagem principal. Ao invés de simplesmente encher a cara em noites seguidas ou de ficar em casa chorando, Elizabeth resolve esquecer o que considerava o “amor de sua vida” fazendo uma viagem pelo interior dos Estados Unidos. Ela parte como se não tivesse mais vida própria e passa pelas cidades buscando empregos simples, especialmente em restaurantes e bares. No caminho, vai encontrando outras histórias de amor e de perda e, assim, acaba entendendo a sua própria história. Vê o quadro em perspectiva. Seu exemplo deveria ser seguido por muita gente que sempre acredita que seus problemas são os maiores do mundo.

O bacana da história é justamente isso. A vontade da personagem principal em suprir a perda e enfrentar a dor conhecendo pessoas e suas histórias. Desta maneira ela encontra a Arnie (David Strathairn), um policial que todas as noites enche a cara para esquecer a ex-mulher Sue Lynne (Rachel Weisz), que o abandonou para viver outros amores na cidade de Memphis, no Tennessee. Elizabeth convive com Arnie em uma mescla de identificação, pena e medo. A história dele parece ter sido tragicamente desenhada. Rachel Weisz está belíssima e rouba cada minuto em que está em cena. David Strathairn mostra porque é um grande ator e imprime o tom exato de sua dor e falta de perspectiva em cada fala.

Depois que a história de Arnie e Sue Lynne se resolve, Elizabeth viaja novamente. Ela não fica estática no mesmo emprego e no mesmo lugar, como faz Jeremy. Ela ainda precisa viajar e descobrir outras verdades por aí. Assim ela começa a trabalhar em um cassino, onde conhece a Leslie (Natalie Portman), uma elegante e aparentemente rica mulher que vive entre as mesas de poker. Depois de perder todo o dinheiro que tinha, Leslie faz uma proposta para Elizabeth: ela lhe deixa os pouco mais de US$ 2 mil que tem economizados para comprar um carro para que Leslie volte às mesas de poker e, se ela perder, dá a Elizabeth o seu carrão conversível. Depois de perder, Leslie “dá” o carro para Elizabeth, mas pede uma carona até Las Vegas, onde ela irá encontrar um homem que pode lhe dar dinheiro e propiciar sua volta às mesas de jogos.

A verdade é que tanto Raquel Weisz quanto Natalie Portman são as beldades da história. Em uma visível metáfora em relação à torta de “Blueberry”, Norah Jones parece um “patinho feio”, um pedaço de torta sempre deixado pelos clientes do bar de Jeremy. Ela realmente não tem nada a ver com a beleza das personagens das outras duas atrizes. Mas, mais que isso, me incomodou um pouco a sua falta de “jogo de cintura” como atriz. Claro, ela é uma cantora, não uma atriz profissional. E, por mais que faça bem o seu papel, ela parece sempre estar um ou mais níveis abaixo das atrizes profissionais.

Mas voltando para a história: o bacana da trajetória de Elizabeth é que ela faz tudo ao contrário. Pelo menos do que é o padrão atualmente estabelecido. Ela não fica chorando ou enchendo a cara, como eu já havia dito. Ao invés disso, ela viaja e experimenta recomeçar sempre do zero no local em que vai morar. Enquanto isso, aproveita para aprender com os exemplos ao seu redor. Observa. Sente os cheiros, os sabores. Trabalha muito para não lembrar do ex que lhe traiu. E, além e mais que tudo, escreve cartas para Jeremy, lhe narrando detalhes e descobertas desta sua “road trip”. Ele, claro, vai se apaixonando por ela a cada carta, esperando seu retorno. Fica louco, tenta encontrá-la. Esta é, por tudo isso, uma grande história de amor à moda antiga, quando o interesse pelas pessoas crescia pelo que elas escreviam, por sua sinceridade em narrar o que pensavam e sentiam.

Tecnicamente falando o filme é bem feito, com escolhas muito marcadas – e já comentadas anteriormente. A busca constante do diretor pela intimidade, pelos detalhes normalmente esquecidos das situações, é muito bacana. Esse clima intimista é uma das suas marcas registradas. Gostei de ver isso em uma produção hollywoodiana. Os atores também estão bem, ainda que quem roube a cena seja realmente Rachel Weisz, David Strathairn e Natalie Portman (ainda que está última me faça lembrar demais a sua Alice em Closer).

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: My Blueberry Nights custou aproximadamente US$ 10 milhões. Ele participou dos festivais de Cannes, Hamburgo, Valladolid (Espanha), Munique e Thessaloniki (na Grécia) em 2007. Não ganhou nenhum prêmio. Depois de estreiar no circuito comercial com poucas cópias no Canadá e na Finlândia, ele estreou no final de novembro de 2007 na França. Nos Estados Unidos ele só estréia, também com número limitado de cópias, em fevereiro deste ano. Me parece que é um filme que será um bocado “alternativo” desde o começo, com poucas cópias circulando e pouca divulgação de mídia. Pelo jeito já nasce “cult”.

O filme realmente foi todo filmado nos Estados Unidos. Entre as cidades escolhidas pelo diretor estão Caliente, Ely, Las Vegas e McGill, todas no Estado de Nevada; Los Angeles, na California; Memphis, no Tennessee; e Nova York.

No site IMDb o filme conseguiu a nota 7,3 de seus usuários, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra 7 críticas positivas e 4 negativas – realmente poucos críticos parecem ter visto este filme ou, pelo menos, escrito sobre ele.

O diretor Kar Wai Wong também escreveu o roteiro do filme – com a ajuda de Lawrence Block. A idéia original é do próprio Kar Wai Wong.

Ainda que eu tenha gostado do filme e tudo, ele me parece “forçado” em dois aspectos: pela personagem de Elizabeth (ou seria a interpretação de Norah Jones?), que me parece sempre meio “improvável”; assim como a relação dela com Jeremy que, apesar de linda, me parece também um pouco surreal. Afinal, nada até a primeira carta parece fazer com que os dois mantenham contato. E ainda assim essa história acontece. Também achei que a interpretação de Natalie Portman lembrou demais a sua personagem de Closer… isso foi algo que me incomodou um pouco. No mais, o filme realmente é muito bacana. Uma história de amor um pouco fora dos padrões – o que eu gosto de ver.

Como todos já devem saber, Elizabeth foi a estréia da cantora Norah Jones no cinema. Para a interpretação dela eu daria um 7 ou 8.

Algo interessante da história, para mim, é a marcação de tempo e de lugar meio ao estilo de um “roteiro”. Também gostei que os cartazes do filme seguem o estilo do mesmo – escolhi o menos interessante para publicar aqui porque o outro, do beijo, tira a graça da cena para ela ser vista durante a narração da história.

Este filme é uma co-produção dos países de Hong Kong, China e França.

CONCLUSÃO: Um interessante filme sobre amores, desilusões, perdas e recomeços. Marca a estréia da cantora Norah Jones como atriz e do diretor chinês Kar Wai Wong em Hollywood. Vale a pena pelo cuidado técnico do diretor e por sua forma característica de narrar uma história. Um filme bem cuidado e interessante nos detalhes.