Casse-tête Chinois – Chinese Puzzle – O Enigma Chinês

cassetetechinois1

A vida é complicada ou é a gente que complica a vida? A pergunta que vale um milhão é um dos pontos centrais do filme Casse-tête Chinois. Uma produção que surpreende pela excelente trilha sonora, por uma edição de primeira grandeza e por várias boas sacadas, mas que não consegue manter o bom ritmo e a criatividade todo o tempo. E nem precisa. Afinal, o que seria do cinema se não tivéssemos vários filmes esforçados mas que deixam um gostinho de “poderia ter sido melhor”? A tentativa é o que importa. E dar a oportunidade para esta história vale a pena.

A HISTÓRIA: Xavier Rousseau (Romain Duris) olha para a tela do monitor. O cursor está piscando, mas não há nenhuma letra na tela. Corta. Xavier aparece correndo com uma mala por uma calçada. Atrás dele, os dois filhos do escritor, Tom (Pablo Mugnier-Jacob) e Mia (Margaux Mansart). Aos poucos ele começa a escrever sobre a própria vida e a filosofar. Comenta, por exemplo, como a vida para a maioria das pessoas consiste em ir do ponto A para o ponto B. Mas com ele isso não acontece porque Xavier, conforme sua própria leitura, tem problemas para ir para o ponto B. Ele troca de roupa no banheiro, e orienta os filhos a fazer o mesmo. Em seguida, casa. E confidencia que adoraria conseguir traçar uma linha reta até o plano B. Pouco a pouco, conhecemos a confusa história de Xavier e as mudanças pelas quais ele passou em pouco tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Casse-tête Chinois): O primeiro elemento arrebatador de Casse-tête Chinois é, sem dúvida alguma, a ótima trilha sonora do filme. Há tempos eu não via uma seleção tão bem feita, com cada canção sendo pensada como uma peça que cabe milimetricamente em determinado minuto da história. Mérito de Christophe Minck. Junto com a trilha sonora, fica evidente a “sacada” da edição cheia de estilo de Anne-Sophie Bion.

A exemplo de outras produções que brincam com recortes e ângulos diferenciados – vide os filmes de Steven Soderbergh, apenas para citar um diretor acostumado a este recurso -, Casse-tête Chinois ganha pontos com estas “sacadas” narrativas. Afinal, especialmente quando a história permite, as audiências agradecem um pouco de invenção no lugar da forma tradicional de contar uma história. Esta produção acerta quando investe nestes recursos.

O problema deste filme não está nestes recursos, mas no recheio da história. O diretor Cédric Klapisch não consegue segurar o interesse das primeiras cenas e das primeiras linhas de seu roteiro por muito tempo. Antes mesmo da primeira meia hora do filme o espectador já começa a mergulhar na parte “chata” da vida do protagonista. Antes, quando ele está explicando como a vida dele virou de pernas para o ar, a história se revela dinâmica e interessante. Mas depois…

Não é que durante todo o tempo o roteiro de Klapisch caia na mesmice. Mas há muito de “vida comum” em uma história que prometia ser diferenciada e mais criativa. O filme perde o ritmo e, por mais que os atores sejam ótimos e tenham carisma, a vida comum ocupa tempo demais da produção.

Certo, alguém pode argumentar que Casse-tête Chinois tem essa proposta mesmo. Mostrar como preenchemos grande parte da nossa vida com a resolução de problemas e, consequentemente, com pouco planejamento da própria vida. Por esse lado, o roteiro de Klapisch é bastante convincente. De fato boa parte da história de Xavier Rousseau mostra “nosso herói” correndo atrás de colocar ordem na própria vida.

Mas será mesmo que passamos grande parte da nossa vida apenas resolvendo problemas e sem decidir para que caminho estamos direcionando os nossos passos? E será que é isso mesmo o que acontece com Xavier? E eis o ponto interessante desta história. Segundo o protagonista de Casse-tête Chinois ele tem dificuldades em traçar uma linha entre o ponto A e o ponto B, sendo o primeiro o início de uma caminhada e, o último, uma linha de chegada que signifique sucesso em uma determinada trajetória.

Seguindo a linha de raciocínio de Xavier, ele é do tipo que “deixa a vida o levar”. Ou seja, não tem muito “jeito” de determinar os próprios passos porque está apenas respondendo às circunstâncias e ao que vai sendo decidido por outras pessoas e que lhe afetam. Verdade que algumas pessoas acreditam que são assim. Mas de fato este é o caso de Xavier? Não vejo desta forma.

Vejamos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Xavier vive um casamento feliz de 10 anos junto com Wendy (Kelly Reilly). Com ela o escritor teve dois filhos, os simpáticos Tom e Mia. Aparentemente o casal era feliz, até que Xavier resolve aceitar a proposta de uma de suas melhores amigas, a lésbica Isabelle (Cécile De France), para que ele seja o doador do esperma que possa permitir que ela tenha um filho. E daí a vida de Xavier começa a mudar radicalmente já que Wendy encara a decisão como o pretexto para a separação e para ela se mudar para Nova York.

Agora, meu caro leitor/a, me responda algo importante: Xavier decidiu aceitar o convite de Isabelle ou foi obrigado a tomar  aquela atitude? Acredito que você vai concordar comigo que ele teve o poder da escolha nesta situação. Como toda ação provoca reações e tem as suas consequências, aconteceu com o casamento dele o que era meio que inevitável. Afinal, Xavier tornar-se pai de uma criança fora do casamento não é algo tão simples de encarar – ainda mais se ele e Wendy tinham outros assuntos pendentes como o filme sugere.

Depois, Xavier não é apenas “levado pela vida”, mas toma as rédeas de seu presente e futuro com algumas decisões importantes. Para começar, mudando-se para Nova York para conseguir ter uma convivência maior com os filhos. Aqui ele revê o próprio passado, evitando de seguir os passos que o pai dele (interpretado por Benoît Jacquot) tomou. Vale um parênteses aqui. Notaram como muitas vezes tomamos atitudes sem na verdade percebermos as “razões de fundo”?

Xavier não precisa pensar muito para resolver abandonar o bom momento que vivia em Paris para mudar-se para Nova York. Isso porque, no fundo, foi marcante para ele a ausência do pai, algo que ele não quer repetir para os filhos. Com a decisão de mudar-se, mais uma vez, o protagonista da história gira a roda da própria vida em outra direção. Mas ele não foi levado pela vida, ficou inerte, e sim agiu para alcançar o que gostaria.

A diferença em relação a uma linha reta entre dois pontos é que, nem sempre, e isso acontece na vida real, chegamos ao ponto B da forma que tínhamos imaginado. O que Xavier queria, afinal de contas? Além de ter sucesso como escritor, aparentemente ele queria ser feliz, ter uma família bacana, amor e os filhos por perto. Pois bem, se esse era o ponto B do jovem escritor, ele conseguiu o que queria, ainda que não fosse com a mulher que ele tinha imaginado inicialmente – Wendy – e sim com um velho amor do passado. Amor esse que ele achou que o fogo já tinha apagado, mas que, na verdade, estava apenas adormecendo.

O que acontece muitas vezes, e isso é verdade na vida fora da tela do cinema, é que as pessoas só conseguem tomar decisões aparentemente equivocadas. Destas como a de Xavier em doar o esperma para Isabelle. Ele fez errado? Dá para entender a atitude dele, generosa, em prol de uma amiga a quem ele ama, mas ao fazer essa doação ele abriu mão da felicidade que ele tinha no “casamento perfeito”. Alguns podem argumentar que Wendy não merecia ficar com ele por não aceitar a doação, mas a vida não é assim tão simples, afinal.

Então o que parece, muitas vezes, é que as pessoas sabem tomar as rédeas da própria vida, mas parece que sempre levando a trajetória do cavalo-vida para o lugar errado, para a lama. Xavier teria agido muito pior se tivesse ficado em Paris. Acertou em querer ficar perto dos filhos, mas daí foi perceber, logo que chegou em Nova York, que não conseguiria ter Wendy de volta – ela já estava em outra, com John (o interessantíssimo Peter Hermann).

A alternativa imaginada por Xavier, mesmo que não verbalizada, tinha ido ladeira abaixo. Mas ele segue escrevendo, trabalhando, e no final do filme terá conseguido o que mais queria: sucesso na carreira e no amor. E como ele conseguiu o segundo elemento, muitas vezes o mais difícil porque significa dar certo com outra pessoa com suas próprias particularidades? Sozinho o protagonista provavelmente não teria conseguido enxergar a felicidade. Precisou de um empurrão do filho.

E aí está um dos pontos interessantes da reflexão de Casse-tête Chinois. Depende da gente ampliar a nossa capacidade de decidir. Não basta fazer a roda girar em momentos de crise e tomar atitudes que fazem a vida ficar mais complicada – como no caso da doação que Xavier fez para Isabelle. Mas também está nas nossas mãos a capacidade de escolher o caminho para sermos felizes, abrindo mão de outros traços entre os pontos A e B para conseguir construir uma história feliz com alguém.

Para resumir, nosso poder de escolha não está apenas nas decisões aparentemente equivocadas, mas também e especialmente nas acertadas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No fim das contas, um otimista pode olhar para Xavier e achar que ele foi do plano A para o B fazendo algumas voltas, mas acertando em todas as escolhas – da doação para Isabelle até a mudança para Nova York, o casamento arranjado com Nancy (a simpática e carismática Li Jun Li) e o acerto de contas com Martine (Audrey Tautou). Um pessimista pode afirmar que ele conseguiu se dar bem apesar das escolhas erradas.

Da minha parte, acho que a vida é meio complicada sim, mas que a tendência é de tornarmos ela ainda mais difícil do que ela precisa ser em muitos momentos. Klapisch acerta ao nos contar a história de um sujeito que pode nos inspirar pela maneira leve com que ele encara cada desafio. Dá para enxergar nos olhos de Xavier a esperança constante de ter tudo resolvido da melhor forma. Essa postura é fundamental. Assim como alguma organização sentimental e mental da própria vida para enxergar qual é o ponto B para cada um de nós. Xavier acaba acertando nisso também. E com leveza. Uma boa lição pra gente.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Interessante como alguns realizadores gostam de certos intérpretes. Como Pedro Almodóvar teve o seu Antonio Banderas, investiu em Victoria Abril e Penélope Cruz, o diretor de Casse-tête Chinois estabeleceu uma parceria duradoura com Romain Duris. Klapisch trabalha com Duris desde 1994, quando o ator protagonizou a comédia Le Péril Jeune. Foi a estreia do ator no cinema e o segundo longa-metragem dirigido por Klapisch. O diretor seria responsável por aqueles que são, provavelmente, os dois maiores sucessos de Duris: L’auberge Espagnole e Les Poupées Russes. Dois filmes interessantes e recomendados.

Por falar nestas duas produções da dupla Klapisch/Duris, puxando pela memória me lembrei que neles já fica evidente esta característica do diretor/roteirista por histórias “fragmentadas” – se não na narrativa, no estilo da direção e/ou edição. Mesmo sem ter assistido a todos os filmes de Klapisch, posso dizer que esta parece ser o estilo do realizador.

Interessante, para quem assistiu a esses filmes anteriores da dupla Klapisch/Duris, ver como o ator amadureceu. Ele não é mais aquele jovem bonitão e apaixonante de L’auberge Espagnole. Amadurecido, contudo, ele continua interessante. Convence no papel de Xavier ao mesmo tempo em que mostra carisma – especialmente quando sorri.

Interessante a escolha do elenco deste filme. Ann Goulder, Gayle Keller e Jeanne Millet fizeram um bom trabalho com o casting ao escolher os nomes envolvidos na produção. Só vi acertos. A surpresa é que nomes conhecidos como Audrey Tautou e Kelly Reilly acabam um pouco eclipsados por surpresas como Sandrine Holt (que interpreta a Ju, esposa de Isabelle) e Li Jun Li. Além de talentosas, elas estão lindas e roubam a cena cada vez que aparecem convencendo o espectador de seus papéis. Mas no quesito beleza, ainda acho que Reilly se destaca – há cenas de uma certa despedida onírica da ex-mulher por parte de Xavier, o que ajuda a tornar a atriz um destaque neste quesito.

Há alguns momentos bem interessantes no filme. Um dos que destaco é aquele em que Xavier encontra a esquina que eterniza o amor entre os pais dele. De fato, infelizmente muitas vezes não acompanhamos os momentos mais importantes de nossos pais. Xavier encontrou o registro de algo que ele desconheceu: a paixão e os momentos alegres de seus velhos. É marcante quando percebemos que algo importante pra gente pode estar totalmente fora do nosso alcance. Como um sentimento ou fato antigo de nossos pais quando ainda não fazíamos parte da vida deles. Mas é assim mesmo… destas descobertas que a vida é feita.

Além das atrizes citadas, vale bater palma para o trabalho do garoto Pablo Mugnier-Jacob como Tom, o filho mais velho de Xavier. O garoto tem uma interpretação contida, quase intimista, e por isso mesmo muito sensível e convincente. Afinal, que criança lida bem com a separação dos pais e com uma mudança de cidade na sequência? Mas Tom lida com tudo isso de uma forma bacana, realista, e com uma postura que vai ajudar muito ao pai – que é quase uma criança também.

Os atores principais de Casse-tête Chinois já foram citados. Mas há alguns outros importantes para a história que ainda não foram comentados. Vale citar o bom trabalho de Flore Bonaventura como Isabelle, a babá que acaba encantando a Isabelle amiga de Xavier; Jochen Hägele como Hegel e Schopenhauer (aliás, muito boa a sacada de Klapisch em citar filósofos alemães no filme!); Peter McRobbie como o agente de imigração que fica no pé de Xavier; Jason Kravits como o advogado enrolão de Xavier; Dominique Besnehard como o editor de Xavier – e que acaba sendo um pouco a “consciência” do protagonista ao mesmo tempo que é uma ironia sobre histórias do tipo; e Phil Nee como o taxista chinês que acaba ajudando Xavier em um assunto importante.

Da parte técnica do filme, além das deslumbrantes e impecáveis trilha sonora e edição já comentadas, vale citar a direção segura e bem focada de Klapisch (que, este sim, sabe bem como sair do ponto A e chegar no ponto B) e a competente e muito bonita direção de fotografia de Natasha Braier. Essa dupla consegue destilar ótimas cenas em Paris e, principalmente, em Nova York, colocando as cidades como cenários importantes da história.

Casse-tête Chinois estreou em agosto de 2013 no Festival de Cinema Francês d’Angoulême. Depois, em outubro, o filme participaria do Festival de Cinema de Londres. A produção passaria ainda por outros nove festivais ou semanas de cinema, sendo o último deles o Festival de Cinema Montclair, agendado para começar no próximo dia 3 de maio nos Estados Unidos. Nesta trajetória, a produção foi indicada a apenas um prêmio, o de Melhor Trilha Sonora no Prêmio César. Mas o filme perdeu nesta categoria para a produção Michael Kohlhaas.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Casse-tête Chinois foi rodado em diversas locações de Nova York e teve cenas gravadas ainda na China e em Paris.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Casse-tête Chinois. Uma boa avaliação para o filme levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram sete críticas positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 100% e uma nota média 7,2. Resultados impressionantes para o padrão do Rotten Tomatoes.

Não há informações sobre o custo de Casse-tête Chinois. Mas de acordo com o site Box Office Mojo, esta produção conseguiu pouco mais de US$ 7,14 milhões de bilheteria nos mercados em que estreou até agora – exceto os Estados Unidos, onde o filme deve estrear no dia 16 de maio.

Casse-tetê Chinois é uma produção 100% francesa.

CONCLUSÃO: Um filme que trata sobre qual é a forma ideal de levar a vida não pode ser só entretenimento. E Casse-tête Chinois não é apenas isso mesmo. Mas ele também não se apresenta como uma produção profunda ou verdadeiramente existencial. O roteiro deste filme é leve na maior parte do tempo e aposta nas pequenas surpresas cotidianas para embalar o espectador em uma história sobre amores, apostas em diferentes direções e comprometimento. Com bons atores e uma trilha sonora ainda melhor, Casse-tête Chinois é destes entretenimentos com toque filosófico que satisfaz quem busca qualidade sem querer um peso muito grande na história. Vai te divertir, mas provavelmente não vai mudar a sua vida. Exceto se estás justamente pensando em como traçar uma linha reta até o ponto B. 🙂

Anúncios

Noah 3D – Noé 3D

noah4

Um dos mitos mais fascinantes da Bíblia se tornou o mais novo projeto de um dos meus diretores preferidos. Como não assistir a Noah? Mesmo não querendo saber muito sobre o filme antes de buscá-lo em uma sala 3D, li uma e outra chamada de críticos detonando a performance de Russell Crowe. Mas me arrisquei mesmo assim, porque sempre gostei do trabalho de Darren Aronofsky. E não me enganei. Noah é um filme bem conduzido e que tem momentos verdadeiramente impactantes. É destas experiências gratificantes em uma sala 3D. O que mais você pode querer?

A HISTÓRIA: No início, não havia nada. Mas daí tudo foi criado, até chegarmos a Adão e Eva. Com eles, surgiu o pecado. A partir dos filhos do casal surgiu também o primeiro assassinato, quando Caim matou Abel. Seres iluminados tentaram ajudar os homens, mas por traírem a vontade divina, eles acabaram sendo aprisionados na Terra, ficando conhecidos como os Guardiões. A linhagem de Methuselah (Anthony Hopkins) prossegue até Noah (Dakota Goyo quando criança, Russell Crowe na fase adulta). Após ouvir a história anterior do pai, Noah vê ele ser assassinado. Adulto, tenta passar para os filhos Shem (Douglas Booth), Ham (Logan Lerman) e Japheth (Leo McHugh Carroll) os princípios dos antepassados, especialmente o amor à Deus e à sua criação. Mas tudo muda na vida da família quando Noah começa a ter visões sobre o fim do mundo como eles o conheciam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Noah): Até prevejo os dois estilos de comentários que este post vai render. O primeiro, de pessoas que sempre estão mais interessadas na experiência que o cinema pode proporcionar, independente da fonte de inspiração para o cineasta e sua equipe. O segundo, de pessoas que estão mais interessadas na origem do filme do que no produto cinema.

Isso aconteceu antes e deve se repetir sempre, e especialmente, quando a fonte da história contada no cinema for a Bíblia. The Book of Eli (com crítica por aqui) é um dos comentários sobre filmes que eu fiz que mais rendeu “marola” no site. E nem tanto porque as pessoas discordavam ou concordavam com a minha análise do filme, mas especialmente porque queriam falar sobre as suas próprias crenças. Então, caro/a leitor/a, se você faz parte do segundo grupo, por favor, tente entender que este é um blog que fala sobre cinema e não sobre religião. Por isso mesmo, não vou discutir por aqui o teu ou o meu credo.

Feito este “preâmbulo” para a crítica, vamos ao que interessa. Noah em sua versão 3D. Sim, porque este filme, a exemplo de Gravity (comentado aqui) e Avatar (com crítica neste link), merece ser visto na versão da tecnologia na qual ele foi planejado desde o princípio. Noah tem cenas verdadeiramente impactantes, uma ótima direção de fotografia de Matthew Libatique e sequências cheias de efeitos especiais que tem uma dinâmica diferente nas salas 3D.

Dito isso, vamos voltar ao que eu comentei lá no início. Ao mesmo tempo que eu achei surpreendente a escolha do diretor Darren Aronofsky em explorar uma história bíblica, devo admitir que a ideia foi um verdadeiro achado. Afinal, a história de Noé nunca tinha sido explorada com toda a tecnologia que o cinema atual propicia. E este mito da Bíblia, além de ser um dos melhores em termos de impacto visual, também revela-se muito forte na mensagem que ele quer passar.

Importante dizer e repetir que a história de Noé é um mito bíblico porque, evidentemente, ela não aconteceu. Pelo menos não da forma literal que muitos insistem em acreditar – mas que a própria Igreja afirma que não foi bem assim. O importante da história de qualquer mito é o que ela quer nos dizer. E neste sentido, Noah, o filme, cumpre bem o seu papel.

Primeiro de tudo, Aronofsky soube, mais uma vez, conduzir bem uma história. Sabendo equilibrar momentos de introspecção e de narrativa mais lenta com aqueles de pura ação e adrenalina. Há um bocado de ação em Noah, mas também várias sequências que fazem as pessoas se emocionarem, exercerem a empatia e pensarem sobre o que está sendo dito/mostrado.

A essência da história é que após um longo período de decepção com a raça humana, Deus decide acabar com o último elo de sua Criação. Após o “pecado original” de Adão e Eva, parte da humanidade teria caído em disputas motivadas pela busca pelo poder e pela cobiça. Apenas os descendentes de Methuselah (na tradução, Matusalém) seguiram o caminho do bem. Mas nem eles são poupados, como o início do filme mostra quando o pai de Noé é morto na frente do filho, que foge.

O principal da criação que Noé passa para os filhos, o mais velho Shem, o segundo Ham e o mais novo, Japheth, é o respeito a cada pedaço da criação de Deus. Assim, ele ensina para Ham que ele não deve arrancar uma flor do chão apenas porque ela é bonita, já que ela tem um propósito na Natureza e não deve ser retirada se não for por necessidade. No momento em que Noé ensina este princípio para o filho, ele tem a primeira visão. Outras virão. Cada uma delas é o ponto alto do filme em termos de uso de efeitos especiais e simbolismo.

O dilúvio vislumbrado por Noé é encarado como a redenção para a Humanidade, que havia se perdido após o pecado original. O primeiro problema desta produção, para o meu gosto, é quando surgem os Guardiões. Bem mal-feitos, eles ficam no meio do caminho entre seres dantescos e o que eles deveriam ser: seres de luz aprisionados em pedras e lama. Em certo momento do filme, no momento de maior ação de Noah, quando se dá o embate pouco antes do caos, pela primeira vez os Guardiões se revelam interessantes – é quando, finalmente, eles se libertam e são salvos.

Mesmo que a imagem dos Guardiões deixe a desejar, a história deles convence e se revela interessante – seres de luz que tentam ajudar a Humanidade e que acabam punidos por Deus por causa disso. Quando sonha com a destruição do mundo, Noé também vê o monte de origem de seu ancestral, Methuselah. E é assim que ele e a família procuram pelo ancião, esbarram com os Guardiões e recebem do velho patriarca a semente que dará início ao oásis que servirá de matéria-prima para a arca gigantesca da qual todos já ouviram falar.

Interessante a saída encontrada por Aronofsky, que escreve o roteiro junto com Ari Handel, para a equação quase impossível de encher uma arca, por maior que ela seja, com um casal de cada bicho vivo sobre a Terra. Noé e família usam uma espécie de sonífero para fazer todos os animais “hibernarem”. Desta forma, todos são acomodados dentro da arca para uma viagem que ninguém sabe quando terá fim. Evidentemente que na prática aquela imagem seria impossível, mas o que importa é a mensagem de Noah.

E qual seria essa mensagem? Desde o pecado original, quando Adão e Eva desobedeceram a Deus e comeram a fruta da árvore proibida (que não apenas simboliza o pecado, porque representa a desobediência a Deus, mas também o desejo do homem e da mulher em possuir tudo, sua ganância, ambição e arrogância), passando pela morte de Abel pelas mãos de seu irmão, Caim – primogênito de Adão e Eva -, a Humanidade apenas caminhou ladeira abaixo.

Após o primeiro assassinato narrado pela Bíblica – o de Abel pelas mãos de Caim -, homens e mulheres teriam criado guerras e surgido diferentes pecados e crimes motivados pela cobiça, pela arrogância e pelo desejo de muitas pessoas em dominar a Terra sobre todas as outras criaturas. Muito bem, a história de Noé surge para mostrar como havia gente ainda fiel à Deus. Não apenas a família do protagonista é devota, mas ela simboliza quem ainda seguia a vontade de Deus e não a sua própria vontade.

Pois bem, quando Deus decide acabar com a Humanidade, por não acreditar mais em uma “salvação” para as pessoas que estavam perdidas em si mesmas, Noé lidera a família nos preparativos para a arca que deveria salvar a todos os animais vivos na Terra. Mas mesmo a família de Noé tinha problemas, como uma certa rivalidade entre os irmãos Ham e Shem. O conflito fica pior quando Ham vê o irmão acompanhado – por Ila (Emma Thompson Watson), adotado por Noé e pela mulher Naameh (Jennifer Connelly) – e percebe que ficará sem companheira para o futuro de um mundo sem outras pessoas.

Noé está seguro sobre a vontade de Deus e entende que a Humanidade deve terminar. Afinal, Ila não poderia ter filhos – até que o avô de Noé interfere nesta realidade -, ele e a esposa também não. Assim, quando o filho mais novo do casal morresse, a Humanidade teria terminado. Naameh quer o melhor para os filhos e buscando a felicidade deles, interfere nesta realidade com a ajuda de Methusalah. E daí surge o questionamento fundamental do filme: Noé acredita que o mal está em todas as pessoas, e que mesmo quem se diz do bem é capaz de matar para defender um filho.

Para o protagonista, é preciso vigiar a própria vontade e ser fiel à Deus. Desta forma, mesmo tendo o bem e o mal dentro de si, a pessoa vai trilhar o caminho do bem porque não cairá na tentação de fazer a própria vontade, mas de seguir o que o Criador deseja. Naameh é temente à Deus e concorda em seguir os passos do marido, mas não quer ver os filhos sofrerem e, por isso, segundo a visão de Noé, afronta a vontade divina.

Mas daí surge um ponderamento importante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se Deus deu ao homem o poder de escolher entre o bem e o mal, e se nada que ele não deseja acontece, como dizer que a gravidez de Ila não é vontade de Deus? Algumas vezes acreditamos que estamos lendo os sinais de Deus corretamente, mas talvez em muitas situações a nossa compreensão limitada seja falha. Noé sofre com a própria “fraqueza”, acreditando que ao poupar as netas ele estava confrontando Deus. Mas nada aconteceria se o Criador não tivesse concordado com a “mudança de planos”. Ele teve misericórdia com a própria criação e resolveu nos dar uma nova chance.

Esta são algumas das reflexões do filme. Independente da crença de cada um, acho que alguns dos pontos citados acima – capacidade de escolha, cada pessoa abrigar o bem e o mal, possibilidade de ser fiel a um desejo superior ou seguir apenas os próprios desejos – valem para qualquer pessoa refletir sobre si mesma e os demais. Além de que Noah aparece em um momento importante, no qual estamos destruindo um bocado dos recursos naturais do mundo e ponderando sobre o nosso egoísmo como civilização – sem contar o choque que temos cada vez que um ato de crueldade é praticado em histórias ordinárias ao nosso redor.

Não há dúvidas de que esta produção aparece em um momento em que muita gente está questionando não apenas o que estamos fazendo, enquanto coletivo, mas também sobre as escolhas que praticamos cotidianamente como indivíduos. Perceber que não estamos sozinhos no mundo e que os nossos atos afetam aos demais independe de religião. Neste ponto Noah cumpre o seu papel de fazer qualquer pessoa refletir. Sem contar que o filme mostra o seu valor como obra de cinema. Explora bem os recursos narrativos e, principalmente, a tecnologia de ponta disponível para este tipo de arte. Ou seja, um bom programa sob qualquer ótica.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de mais nada, quero pedir desculpas pela ausência aqui no blog. Há duas semanas eu não publico nada, e este foi o tempo que me separa de ter assistido a Noah e de estar publicando este texto. Por esta razão, também não considero a crítica acima das melhores. Afinal, quanto mais demoro para falar de um filme que eu assisti, mais fácil para que eu perca detalhes de impressões que eu tive. Dito isso, acho que comentei a essência sobre o que achei desta produção por aqui – mas algo sempre se perde com este hiato de tempo. Tentarei evitá-lo nas próximas publicações.

Noah, como não poderia deixar de ser, é um filme carregado de valores. E de questionamentos. O primeiro valor explorado pela história e que me chamou a atenção foi o da retidão. Esta qualidade fica evidente na linhagem de Noah. A qualidade seguinte daquela família é o respeito extremo a tudo que é vivo – a tudo que é a criação de Deus. Nada deve ser usado ou destruído sem que isso seja extremamente necessário. Uma grande lição para os tempos atuais, quando as principais nações do mundo não conseguem nem mesmo o básico, que é reduzir o nível de poluição de seus países. Sem contar o restante dos problemas causados pelo consumismo e pelo exagero/desrespeito que as pessoas tem pelo que nos cerca.

Dos elementos técnicos do filme, destaque para a ótima direção de Darren Aronofsky. Não por acaso ele é um dos meus diretores favoritos de sua geração. Aronofsky soube conduzir muito bem a trama, com imagens verdadeiramente impressionantes em um filme que exigia cenas grandiloquentes e uma boa condução de atores. Merece aplausos também a impecável direção de fotografia de Matthew Libatique; a trilha forte e marcante de Clint Mansell e, principalmente, os efeitos especiais fantásticos da equipe liderada por Lindsay Boffoli. Para mim, o excelente trabalho de efeitos especiais se revela em todo o seu esplendor em dois momentos: primeiro, no sonho de Noé com a inundação; depois, com o “ressurgimento do Éden”, quando surge da semente dada por Methuselah a floresta que servirá de base para a arca.

Algo que achei interessante nesta produção é que ninguém no filme é visto acima de qualquer suspeita. Por exemplo: apesar do grande respeito que tem por tudo que foi criado por Deus, Noah não titubeia em matar agressores para proteger a própria família. O “não matarás” que está nos 10 mandamentos é desrespeitado, neste sentido. Em outro momento, o próprio Noah vai filosofar com a esposa de como todos carregam o bem e o mal dentro de si. Ele incluído, evidentemente.

Cada um vai tirar uma mensagem específica deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Noah). Da minha parte, como católica, achei ótimo um dos meus diretores preferidos ter recontado um dos mitos mais significativos da Bíblia. Afinal, a história de Noé mostra o quanto vale a pena ser fiel à Deus. E o quanto isso é difícil no dia a dia. Afinal, há muitas tentações, diariamente, e recusar estas tentações, esmagando sempre que possível o orgulho, a soberba e a falsa ideia de que somos mais do que pó é difícil. Mas também recompensador. Além de tudo isso, essa história passa para mim a mensagem que, por mais que ele esteja decepcionado com a Humanidade muitas vezes, Deus é sempre perdão e amor. Isso é o que tiro desta história. Mas cada um vai tirar o que lhe parecer mais interessante.

Inicialmente eu achei os Guardiões toscos demais. Me assustei com o quanto eles foram “mal feitos”. Depois, claro, entendi a razão daquele aspecto tosco. Ainda assim, mesmo que justificados pela história, achei o aspecto daqueles Guardiões descuidado demais.

Interessante e ao mesmo tempo um pouco cômica a caracterização do grande Anthony Hopkins como Methuselah. Em certo momento do filme, quando ele está na floresta, o personagem me fez lembrar a figura do clássico desenho Caverna dos Dragão. 🙂

O elenco principal desta produção foi citado antes. Mas faltou comentar o bom trabalho de Ray Winstone como o vilão da história Tubal-cain. Descendente de Caim, ele resume a linhagem da soberba, da crença que o homem é superior ao Criador e que basta em si mesmo. O ator está bem em cada cena, resumindo bem a tentação de Ham e a presença do Mal. Dos atores principais, gostei do trabalho de Russell Crowe – acho que ele esteve firme no papel-chave, sem exagerar a mão na interpretação ou ser relapso com o papel como em produções recentes. Mas o destaque fica mesmo com Emma Watson. Ela rouba a cena como Ila.

Em certo momento, Noé diz que foi escolhido por Deus para proteger a Sua criação porque Ele sabia que Noé seria fiel e faria tudo o que lhe fosse pedido. De fato, dificilmente alguma outra pessoa conseguiria. Porque Noé não se importava de perder tudo e a todos, de que sua própria família desaparecesse da face da Terra se esta fosse a vontade de Deus. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nós humanos, em geral, seguimos o nosso instinto da autopreservação. Mas isso não mostra a nossa fidelidade com Deus, apenas a nossa condição humana falha e a nossa fraqueza. Noé é diferente. Não apenas a mulher dele “fraqueja” e pensa na família em primeiro lugar, como também o filho “certinho” de Noé, Shem, acaba atacando o pai em momento decisivo. E, quem diria, é o “sempre tentado” e questionador Ham que impede a tragédia. Mais ensinamentos nestes exemplos. Finalmente, concordo com Ila… no fim das contas, nada daquilo teria acontecido se Deus não quisesse. E sim, a compaixão e o amor sempre vencem no final.

Fiquei curiosa para saber o que teria motivado o diretor Darren Aronofsky a filmar uma história da Bíblia. Encontrei alguns textos que ajudam a tirar esta dúvida. Nesta entrevista para o The Washington Post, Aronofsky explica como sendo um judeu do Brooklyn ele teve contato com a história de Noé muito jovem. Na sétima série, quando teve que escrever um texto sobre a paz, ele escreveu o poema The Dove sobre Noé.

O texto acabou levando ele para uma convenção da ONU e foi então que ele percebeu, pela primeira vez, que tinha o talento para contar histórias. Ou seja, Noé marcou a vida do diretor, que segue comentando que logo após fazer Pi (filme bem interessante e que recomendo para quem não assistiu ainda) ele pensou em Noé, mas que Hollywood não estava interessada em um projeto do tipo “filme bíblico”. Mas agora não, este perfil de filme está “em voga”, segundo o próprio Aronofsky. E foi aí que ele viu a oportunidade de resgatar aquela antiga ideia.

E sobre a essência de Noah, Aronofsky afirma que existe uma complexidade na história dele que não está necessariamente escrita na Bíblia, mas que é insinuada. Por exemplo, no fato de Noé ficar bêbado e se desentender com Ham logo após o dilúvio. Para haver este rompimento, os personagens tinham que ter uma relação conflituosa antes, e essa linha foi o que Aronofsky quis explorar. Para o diretor, o relacionamento de Noah e Ham levou a ideia “de bom e ruim que temos dentro de todos nós, e a luta da justiça que ocorre em cada um de nós para tentar equilibrar justiça e misericórdia em nossas vidas”. Cada personagem do filme, segundo o diretor, lida com essa ideia de maldade e perdão. Outro ponto interessante é quando o diretor diz que o seu grande propósito é entreter as pessoas, procurando fazer filmes excitantes, divertidos, emocionais e com movimento, cheios de ação. Ele consegue.

A entrevista do diretor para o The Washington Post está muito boa. Mas quem quiser saber mais sobre as opiniões do diretor, há esta outra entrevista para o Huffington Post e esta outra para a The Independent.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: antes de ser lançado, Noah rendeu um belo embate entre Aronofsky e o estúdio Paramount. Preocupado com a recepção que o filme poderia ter, o estúdio fez testes com audiências católicas com três edições diferentes daquela planejada pelo diretor. Aronofsky resistiu à ideia de ter o trabalho alterado e acabou vencendo no final, já que o corte pensado por ele é que chegou até os cinemas. O efeito, acredito, foi o mesmo que se a produção tivesse chegado com algum dos outros cortes: Noah foi proibido em diversos países (como Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Egito) porque ele não seria fiel aos ensinamentos do Islã.

De acordo com os realizadores da produção, grande parte dos recursos dos efeitos especiais foi utilizada para recriar todos os animais vistos no filme. Não teriam sido utilizados bichos reais em nenhum momento da produção.

Noah estreou em première na Cidade do México no dia 10 de março. Três dias depois o filme teve première em Berlim e, no dia 17 de março, em Madrid. No Brasil o filme estreou no dia 3 de abril. Até o momento o filme não ganhou nenhum prêmio.

Por ser uma superprodução, Noah teria custado cerca de US$ 125 milhões. Segundo o site Box Office Mojo, até ontem, dia 23 de abril, Noah teria conseguido pouco menos de US$ 94,7 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 207 milhões nos outros mercados. Na soma, acumulou pouco mais de US$ 301 milhões. Ou seja, está conseguindo pagar as contas e conseguir algum lucro.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Noah foi rodado em Hollywood, na Islândia, no México, em Nova York e em Washington.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Noah. Acho que a avaliação poderia ser melhor, mas dá para entender porque o filme levantou muitas controvérsias – como a maioria das produções bíblicas que não são “extremistas”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,6.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de filmes da categoria “Votações no blog”, já que os leitores deste espaço escolheram os Estados Unidos para uma série de críticas por aqui.

CONCLUSÃO: Quem leva tudo muito à sério não pode assistir a Noah. Por uma razão muito simples: esta é uma obra artística e não um libelo fundamentalista. Digo isso porque quem está buscando neste filme a história ipsis litteris do mito de Noé que está na Bíblia já começou perdendo a viagem. A produção dirigida por Aronofsky não tem a pretensão de levar a história bíblica a sério demais. Ainda bem. O resultado das escolhas do diretor é que assistimos a um filme potente pela forma e pelo conteúdo. Na forma, ótimos efeitos especiais e um bom trabalho dos atores. No conteúdo, o essencial da mensagem do mito de Noé e várias reflexões para adaptarmos para os dias atuais. Um filme inspirador, como tudo que o diretor apresentou até hoje. Se você não é um fundamentalista, tem grandes chances de apreciar mais esta obra interessante em 3D.

9 Mois Ferme – 9-Month Stretch – Uma Juíza Sem Juízo

9moisferme3

Algumas vezes é bom dar um tempo nos filmes sérios, existenciais e complexos e se jogar em uma produção “bobinha”. 9 Mois Ferme pode ser classificada nesta última categoria. Não existe, no filme, nenhuma grande reflexão e pouco espaço para a identificação do espectador. Mas há sim um belo trabalho de direção e dos atores. Eles fazem o filme valer o nosso tempo, assim como a história divertida e envolvente – além de inusitada.

A HISTÓRIA: Uma estátua da Justiça vendada e com sua tradicional balança equilibrada. A câmera se afasta. Ao redor daquela estátua, muitos sorrisos, flertes, bebidas e comemoração. É Ano-Novo. A câmera desliza seguindo bandejas, convidados, no compasso da música clássica, até chegar a um punhado de balões. Um deles se desprende e sai voando pela janela, chegando até o local de trabalho da juíza Ariane Felder (Sandrine Kiberlain). Ela narra a própria história, fala de suas convicções e das razões que a fazem não celebrar a virada de ano. Mas acaba cedendo ao apelo de um grupo de festeiros e sai para celebrar, sem saber que aquela noite iria mudar a vida dela para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 9 Mois Ferme): Normalmente eu gosto do que o cinema francês nos apresenta. Isso porque, no geral, as produções daquele país primam por histórias bem contadas, muitas delas com tom existencialista – ou seja, que nos fazem pensar sobre as nossas próprias vidas, seja no singular ou no plural. Mas mesmo quando o filme é mais “raso”, como no caso das comédias, a tendência é que encontremos produções de qualidade se a grife é francesa.

E com 9 Mois Ferme a regra segue valendo. Depois de vários filmes de ação e dramas, nada melhor do que mergulhar em uma comédia inteligente e cheia de ironias. Desta vez o ambiente é o do tribunal – aliás, não lembro de ter visto a outro filme tirando tanto sarro deste cenário tão cheio de drama e de suspense como este. E o romance liga duas pessoas que normalmente não veríamos unidas nunca – ou, melhor, apenas em outra posição, a da juíza que condena o criminoso.

Mesmo sendo uma comédia, contudo, 9 Mois Ferme toca em temas muito contemporâneos e interessantes. Para começar, o filme explorar a visão da mulher moderna, independente, que dedica a vida ao trabalho e que “abre mão” dos homens. O roteiro sagaz do diretor e ator Albert Dupontel, que teve a colaboração de Héctor Cabello Reyes e Olivier Demangel para escrever a história deste filme, também explora a realidade dos tribunais, que são vistos sem pompa ou circunstância, e também a cada vez mais frequente desestruturação das famílias.

Os dois protagonistas desta produção são frutos de lares desfeitos. Isso é o que une a juíza Ariane e o bandido Bob Nolan (o diretor e roteirista Albert Dupontel). Mas esta característica, segundo a própria Ariane, se espalhou mais que capim em terreno fértil e não cuidado. Vide os vários casos que ela atende das varas da família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por ironia completa, é justamente o protótipo de uma nova família o que acaba aproximando Ariane e Bob. Algo que não foi nem um pouco planejado e ideia que a protagonista combate por um bom período.

Ariane exemplifica o perfil de muitas mulheres de sucesso da atualidade. Ela tem 40 anos e se dedica totalmente ao trabalho, abrindo mão de relacionar-se com homens (e mulheres), sem sentir necessidade de ter uma vida sexual ativa, conseguindo prazer em outras atividades – como a dança. O mesmo se vê em várias partes – com a busca do prazer variando entre sair com os amigos e beber, dançar ou praticar um esporte atrás de adrenalina e endorfina.

Mas para ela basta uma noite de “loucuras” para que este “modelo perfeito” de vida controlada seja testado. Ela fica grávida, e não tem a menor ideia de quem. Fazendo os cálculos, ela descobre que engravidou na virada do ano. Primeiro, desconfia do colega De Bernard (Philippe Uchan), sujeito sem noção e bastante debochado – e que parece flertar com ela mais que o normal nos últimos meses.

Ela confronta o provável “culpado” de sua gravidez. Procura confirmar a suspeita fazendo um teste de DNA. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E é aí que ela fica sabendo da existência de Bob Nolan. Ele é acusado de um assalto que terminou quase em homicídio, um crime com requintes de crueldade. Como ele está preso, não é difícil para a juíza conseguir um “depoimento” do possível pai de seu filho. Ao saber pelo advogado gago Trolos (Nicolas Marié) que Ariane é uma juíza temida e muito inteligente, o nada esperto Bob dá um jeito de procurar a ajuda da magistrada, sem ao menos sonhar que eles já estão ligados por causa do Ano-Novo.

A narrativa de 9 Mois Ferme é veloz e envolvente. Não há espaço para bocejos ou para o tédio. O roteiro do filme faz rir sem apelações, ainda que escolha a via do exagero e da exploração dos estereótipos. Sabemos o que esperar de quase todos os personagens porque eles são apresentados de forma direta e honesta. Como pede uma boa comédia, não há viradas surpreendentes em 9 Mois Ferme, apenas uma narrativa que fica mais profunda conforme os personagens vão reagindo ao que acontece ao seu redor.

Em alguns momentos este filme me fez lembrar outras produções interessantes como Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain e Lola Rennt. Em que sentido? Especialmente na narrativa rápida, concisa e inventiva (características de Lola Rennt), assim como na realidade fantasiada e na “reconstituição” de cenas passadas e/ou imaginadas que caracteriza Amélie Poulain. Estes elementos são bem utilizados por 9 Mois Ferme, com destaque para a direção inspirada de Dupontel e o roteiro bem escrito por ele e seus colaboradores.

Como acontece com tantas pessoas na vida real, uma noite de “destempero” de Ariane é o suficiente para mudar a vida da personagem. Mas isso só acontece de fato porque ela revê as próprias certezas e tem, para isso, uma ajudinha de Bob Nolan. Ele é fundamental não apenas na noite do Ano-Novo, mas também na intervenção que salva o filho da juíza quando ela, desesperada, tenta provocar um aborto ao atirar-se de uma altura considerável na sala de casa.

Há quem possa ver neste filme várias cenas exageradas – essa última, da tentativa de aborto, é uma delas. Mas sem exagero, o que seria feito das comédias? Esse gênero investe no escracho e no exagero de forma consciente. E cá entre nós, a vida mesma é feita de vários momentos assim. Então relaxe e aproveite este filme, ou pense nele como um bom passatempo. Além de ser envolvente e engraçado, 9 Mois Ferme nos fala sobre a nossa própria capacidade de reinvenção.

Algumas vezes, quando estamos distraídos e/ou resolvemos quebrar um pouco as nossas certezas bem sólidas, o inesperado pode acontecer e nos trazer presentes muito bacanas, como o amor e uma nova forma de encarar a vida. Sem tantas regras e sisudez, de uma maneira muito mais leve. Como este filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores escalados para fazer este filme estão ótimos. Todos. Mas com destaque especial para aqueles que dão vida para os protagonistas. Fiquei impressionada com a consistência de Albert Dupontel e Sandrine Kiberlain. Seja juntos ou separados, eles convencem em seus papéis e apresentam grande sintonia.

Falando em atores, vale citar uma ponta de primeira grandeza: o ator Jean Dujardin aparece como o tradutor para a língua de sinais de diversas matérias televisivas que apresentam o caso do bandido Bob Nolan. Quando o vi em cena, quase não acreditei. Mais uma razão para sorrir durante este filme.

9 Mois Ferme me chamou a atenção para o trabalho de Albert Dupontel. Não apenas porque ele estrela a produção, mas também porque atua aqui como diretor e roteirista. Fui procurar mais informações sobre ele e vi que Dupontel tem nada menos que 42 trabalhos como ator – incluindo filmes e séries para a TV – e mais seis como diretor e roteirista. Todos os filmes que ele dirigiu, desde o curta Désiré, de 1992, até este 9 Mois Ferme foram escritos por ele. Eis um nome interessante e que merece ser acompanhado.

Este filme tem várias sequências interessante. Mas uma das melhores, para mim, foi aquela da dobradinha feita pela protagonista vivida por Sandrine Kiberlain e o ator Bouli Lanners – que interpreta o policial que ajuda ela a resgatar imagens de diversas câmeras que filmaram a saída da festa de Ano-Novo. Genial a forma com que o diretor/roteirista constrói aquela busca desesperada e também a sintonia entre os atores em cena. Impossível não rir das ironias ditas por Lanners.

9 Mois Ferme estreou no Festival de Cinema Francês de Angoulême em agosto de 2013. Depois, o filme participaria ainda de outros quatro festivais – o mais conhecido deles foi o de San Sebastián. Nesta trajetória, a produção ganhou dois prêmios e foi indicada a outros nove. Os dois prêmios recebidos foram relevantes: Melhor Atriz para Sandrine Kiberlain e Melhor Roteiro Original no César, maior prêmio do cinema francês. Merecidos.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, 9 Mois Ferme foi totalmente rodado em Paris, com cenas no Palais de Justice e na Place Dauphine – dois dos variados pontos turísticos da Cidade Luz.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Vincent Mathias, a ótima edição de Christophe Pinel e a trilha sonora envolvente de Christophe Julien.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para 9 Mois Ferme. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site e o tipo do filme.

CONCLUSÃO: Pegue uma história inusitada e carregada de humor, junte uma ótima direção e atores competentes e você terá um filme divertido e que vai passar rápido. Este é o caso de 9 Mois Ferme, que narra a inesperada ligação entre uma juíza e um arrombador/assaltante. Mesmo sendo uma comédia que investe no exagero, como bem pede o gênero, este filme tem algumas ponderações interessantes, como que a herança que recebemos de nossos pais pode ser revista no futuro – e a vida pode nos trazer revisões interessantes de certezas há muito solidificadas. Divertido, ágil e com a duração certa, 9 Mois Ferme se revela um entretenimento interessante e competente.