The Neon Demon – Demônio de Neon

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Nem sempre a gente acerta. Mas tentar é o que importa. As falhas fazem parte do jogo. Como em outras ocasiões, procurei acompanhar um jovem diretor que me parecia promissor. E como já aconteceu antes, me decepcionei com o segundo trabalho que vi de um diretor em ascensão. The Neon Demon não traz absolutamente nada de novo e ainda excede nas intenções com pouco resultado prático interessante. Verdade que o filme mergulha na superficialidade, no jogo de aparências, cobiça e alta competitividade do mundo da moda – clima que está presente em outros segmentos também, diga-se. Mas apesar de uma ou duas boas ideias, que não tem nada de realmente inovadoras, este filme apenas gasta o nosso bom e precioso tempo sem apresentar nada além de uma crítica ligeira e um tanto over.

A HISTÓRIA: Uma garota, que parece mais um manequim, aparece deitada em um sofá clássico, iluminada com luzes de neon, com o pescoço cortado e cheia de sangue. Ela é fotografada por um aspirante a fotógrafo de moda. Em seguida, a modelo, a jovem Jesse (Elle Fanning), aparece limpando o sangue falso. Ruby (Jena Malone) a examina pelo espelho e puxa conversa. Ela diz que está admirando a bela pele de Jesse. Ruby se apresenta e fica conhecendo a modelo que chegou há pouco tempo em Los Angeles. Ela ajuda Jesse a tirar a maquiagem e a convida para uma festa. Pouco a pouco a nova modelo vai mergulhando no cenário da moda de Los Angeles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Neon Demon): Eu tenho essa mania de ficar fascinada com alguns diretores e, depois, “persegui-los” em seus próximos trabalhos. Algumas vezes acompanhar determinados diretores se mostra algo interessante mas, outras vezes, nem tanto. Esta não é a primeira vez que após ver a um belo trabalho de um diretor, me decepciono terrivelmente na experiência seguinte com ele.

Neste blog, já demonstrei essa minha “decepção” antes com Julio Medem, que me deixou fascinada com os filmes Los Amantes del Círculo Polar e Lucía y el Sexo e que, depois, nos apresentou o horripilante Caótica Ana (o único comentado aqui no blog, que pode ser acessado neste link). Muito ruim esse seu novo filme. O mesmo aconteceu agora, com o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn. Gostei muito do que ele apresentou em Drive (com crítica neste link), por isso me interessei por esse The Neon Demon. Também gosto da protagonista, a sempre competente Elle Fanning. Mas não vou enrolar vocês: esse filme é ruim. Nada mais, nada menos.

Vejamos. A história toda gira em torno do competitivo mundo da moda de Los Angeles. Ok, o ambiente fascina o diretor, que também ambiente Drive na cidade que é a meca do cinema nos Estados Unidos. E a história, que desde o início mexe bem com a ideia da superficialidade e até começa bem ao investir novamente em um importante protagonismo da trilha sonora e da ótima fotografia, logo se mostra com pouca criatividade.

O argumento é clássico e um tanto óbvio: uma jovem garota sai do interior e chega à Los Angeles fascinando as pessoas por sua beleza e por não ter nenhum cacoete de quem já está há tempos no mercado. A atriz Elle Fanning se encaixa perfeitamente no estereótipo porque tem um jeito angelical e um perfil maleável que permite que ela tanto pareça uma moça do interior quando não está em uma produção de moda quanto uma garota totalmente no padrão da indústria quando está sob a lente de um fotógrafo ou em um desfile.

Essa mesma garota do interior que acaba fascinando quem é do ramo acaba gerando uma grande antipatia das “concorrentes” do mercado, outras modelos também em busca de sucesso. Logo no início do filme, vemos a protagonista Jesse sendo fotografada por um rapaz que está, como ela, buscando mostrar trabalho em Los Angeles. Eles tem o desejo de crescer em comum, mas é evidente o fascínio que Jesse também desperta no rapaz – que acaba não tendo muitas chances com ela conforme a protagonista vai sendo descoberta.

Algo interessante nos minutos iniciais da produção é o que aquela sequência nos sugere. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O filme de Refn é dúbio do início ao fim. Se nas cenas iniciais temos dúvidas se estamos vendo a uma pessoa de verdade ou a um manequim – algo que se repetirá em outros momentos e com outras atrizes -, também nos questionamos se o fotógrafo Dean (Karl Glusman) é um psicopata que acaba de matar a sua mais recente vítima ou se aquela cena é uma montagem.

Este jogo duplo permanece na história em diversos momentos. Talvez seja a forma do diretor e roteirista (a história original é de Nicolas Winding Refn, que acabou dividindo o roteiro com Mary Laws e Polly Stenham) argumentar que tudo que envolve a moda e Los Angeles seja dúbio e que as aparências enganam. A filosofia é válida, mas o que nos interessa é o produto final de The Neon Demon.

Verdade que o diretor segue em sua “cruzada” para resgatar o espírito de filmes dos anos 1970 – percebemos isso tanto pelo uso “exagerado” das cores quanto pela presença marcante da trilha sonora -, o que é sempre válido. Mas afinal de conta, o que The Neon Demon nos apresenta? Como comentei antes, até que as ideias iniciais do filme são interessantes, assim como o início de sua execução. Mas o que me incomodou, conforme a história foi se desenvolvendo, foi justamente a falta de um desenrolar da história melhor, com a apresentação de argumentos que não fossem “mais do mesmo” ou redundantes e, especialmente, me incomodou o final.

Para resumir, me parece que o diretor está se perdendo no formato e nas intenções, tentando apresentar algo muito mais conceitual do que funcional. Em outra palavras, The Neon Demon me pareceu muito mais presunçoso do que competente. O filme tem algumas participações especiais de atores importantes que valorizaram a produção, mas eles tem papéis relativamente pequenos e desinteressantes na história.

O roteiro realmente é focado na protagonista e, em menor escala, nas outras três atrizes que orbitam em volta dela – a maquiadora que é fascinada pela beleza e pelo potencial da “carne nova no pedaço”, e as duas modelos que são as suas concorrentes diretas. A única atriz com destaque que realmente tem uma interpretação interessante é Elle Fanning. A atriz se esforça, ainda que a personagem de Jesse careça de história, e isso porque ela tem a personagem melhor desenvolvida da trama. As demais personagens são ainda pior desenvolvidas.

Nicolas Winding Refn recorre ao velho recurso de mostrar Jesse em uma e outra conversa – essencialmente com Dean – em que ela revela um pouco mais sobre a própria origem e estilo. Mas é pouco. Os outros personagens, conhecemos menos ainda. Apenas sabemos que todas as modelos e Dean estão lutando bravamente por conseguirem algum tempo nos holofotes. Os outros personagens são secundários e aparecem apenas para fins bem específicos na história.

O ator Desmond Harrington interpreta ao “badalado” fotógrafo Jack que aparece apenas para ajudar a impulsionar a carreira de Jesse; a ótima Christina Hendricks, conhecida por seu trabalho em Mad Men, aparece em uma pequena ponta como Roberta Hoffmann, dona de uma agência de modelos que rapidamente aposta na nova promessa; Keanu Reeves está em um papel estranhíssimo como Hank, gerente do motel em que Jesse está hospedada, e que aparece apenas para trazer tensão para a história da garota; e Alessandro Nivola interpreta o estilista Robert, que só aumenta a tensão ao também apostar um tanto “gratuitamente” na nova beleza do mercado.

A história é meio forçada – ainda que conhecemos, claro, histórias de modelos que tiveram carreira meteórica. Mas a impressão que eu tive durante o filme é que apesar de linda e de boa atriz, Elle Fanning não exatamente convenceu como uma grande beldade em quem todos apostariam tão rapidamente. Jovem, com 16 anos recém-completados, e com uma beleza que poderia ser bem moldada, ela tinha argumentos a seu favor. Mas daí a ela sair fascinando a todos com tanta facilidade… é preciso um pouco de generosidade do espectador para acreditar.

O diretor se esforça em mostrar a transformação da jovem modelo. Especialmente na interminável sequência relacionada ao desfile de Robert em que através de imagens de um prisma, vemos Jesse ganhando outras “personas” e se tornando ambiciosa. Isso seria como que uma desculpa para o que aconteceria com ela depois? Afinal, ela foi contaminada por aquele ambiente competitivo, deixou a fama incipiente “subir à cabeça” e, desta forma, justificou o próprio final?

Refn tem diversas ideias estranhas e um desenvolvimento conceitual, é verdade, mas um tanto desgastado – levando em conta Drive, para dar um exemplo – e um bocado excessivo nesta nova produção. Honestamente achei exageradas algumas sequências “conceituais”, especialmente aquela do prisma durante o desfile. Uma boa digital do diretor é sempre bem-vinda, mas ela precisa ajudar a história e não substitui nunca um bom roteiro.

Sem dúvida alguma o ponto fraco de The Neon Demon é justamente o roteiro. Muitos já falaram sobre a superficialidade e a alta competitividade do mundo da moda. Refn não exatamente apresenta uma grande inovação com este filme. Pelo contrário. Ele requenta velhas discussões, exagera nos recursos que ele tem apostado como diretor e cai em velhos estereótipos. Desde a sequência inicial do filme é possível perceber que o interesse de Ruby por Jesse é além do fascínio por sua beleza – há tensão sexual no ar. Por isso não é surpresa o “ataque” dela quando Jesse está em seu território.

Achei o final especialmente decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Refn parece se esforçar para “escandalizar” o espectador. Primeiro, com Ruby “transando” com uma mulher morta após não conseguir ter êxito na investida em Jesse. Na sequência, ela se “vinga” da jovem modelo ao entregá-la para as rivais Gigi (Bella Heathcote) e Sarah (Abbey Lee). Ruby é a algoz principal da história porque Jesse confiava nela e, na hora H, é a maquiadora que atira a garota na piscina.

As duas modelos concorrentes ajudam a perseguir a vítima e, após ela ter sido “abatida”, voltam a atacá-la junto com Ruby. Muitas vezes durante o filme eu não sabia bem “quem era quem” entre as duas modelos loiras. Acredito que a intenção de Refn era realmente esta, mostrar que “todas são iguais”. A maneira de diferencia-las é que a modelo um pouco mais experiente e consagrada, Gigi, é a que tem cabelos curtos e que fez todas as mudanças possíveis no próprio corpo para “emplacar” melhor. Sarah é a modelo de cabelo mais comprido, mais jovem e ambiciosa.

Além de aniquilar a concorrente, as duas modelos acabam “consumindo” ela. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na sequência final e derradeira da história, fica claro que as duas literalmente devoraram a protagonista. Reza a lenda que os adeptos do canibalismo muitas vezes comiam as suas vítimas para “roubar” delas as suas principais qualidades – como força, destreza, etc.

Pois bem, Refn utiliza esta ideia em The Neon Demon. As modelos devoram Jesse para tentar assumir a sua beleza e o diferencial que ela tinha no mercado. Uma ideia, convenhamos, muito estapafúrdia. E no fim das contas, o que o diretor quer nos dizer?

Que o mundo da moda é feito de altíssima carga de ambição, de valorização exagerada e superficial da beleza, do consumo de belas mulheres até a morte – seja através de incontáveis plásticas seja através da puxada de tapete de uma profissional contra a outra (exageradamente representada aqui pelo assassinato e pelo canibalismo)?

Verdade que este ambiente é cruel e cheio de exageros, mas há algo de novo nesta leitura de Refn? Nada, absolutamente nada. Se eu soubesse antes, teria poupado o meu tempo vendo a este filme e, consequentemente, escrevendo sobre ele. Infelizmente o que vimos de “renovação” de um gênero em Drive não encontramos neste novo filme de Nicolas Winding Refn.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como vocês bem sabem, tenho como regra sempre comentar um filme por aqui depois de assisti-lo. Então mesmo não gostando de The Neon Demon, tive que argumentar sobre essa minha frustração por aqui. Quando o filme é bom e inspirador, gasto este tempo com prazer. Afinal, posso estar estimulando outras pessoas a ver uma bela produção. Agora, quando o filme é totalmente dispensável, como é o caso de The Neon Demon, admito que me dá um bocado de preguiça de falar da produção aqui no blog. Minha vontade mesmo era escrever apenas a introdução, dar uma nota baixa e terminar dizendo: “Não assista”. Mas o meu compromisso com vocês não é apenas dizer que não gostei, mas argumentar sobre.

Ao “refrescar” a minha memória sobre Nicolas Winding Refn é que eu percebi que eu perdi o filme que ele lançou após Drive. Não assisti a Only God Forgives. Se alguém que ler este texto assistiu, me digam: vale a experiência?

O diretor de The Neon Demon entende bem de seu ofício. Ele tem um olhar clínico para cada cena e tem um senso estético muito bom. Isso faz com que a nota para este filme não seja menor. Mas o roteiro… para mim, que sempre busco grandes filmes e histórias neles, o roteiro é fundamental. E o calcanhar de Aquiles desta produção é justamente o roteiro. Mas o diretor, sem dúvida, tem um apreço estético e qualidade técnica indiscutíveis.

The Neon Demon estreou em premiere no Festival de Cinema de Cannes em maio deste ano. Depois o filme participaria, ainda, de outros cinco festivais. Inclusive um sobre cinema canibal, no México. 😉 Nesta trajetória o filme ganhou dos prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Compositor para Cliff Martinez no Festival de Cinema de Cannes e o de Melhor Time de Locação do Ano – Filme Independente no California on Location Awards. Honestamente, acho incrível este filme ter ganho dois prêmios – e pensar que tantos outros filmes melhores nunca ganharam nada…

Apesar da minha bronca com The Neon Demon, preciso admitir que ele tem algumas qualidades técnicas muito evidentes. Além da boa direção de Refn, que tem uma visão bem definida e estilo próprio, devo destacar a ótima direção de fotografia de Natasha Braier e a trilha sonora inspirada de Cliff Martinez. O editor Matthew Newman também faz um trabalho muito bom. Apesar de ser um filme de moda, apenas em algumas ocasiões os figurinos de Erin Benach me chamaram a atenção. O trabalho dela acaba sendo ofuscado até pela equipe de maquiagem com quatro profissionais – liderados por Erin Ayanian na maquiagem e por Shandra Page no cabelo.

Do elenco, como comentei antes, o destaque é mesmo Elle Fanning. A atriz está muito bem no papel de protagonista, ainda que sofra com um texto bem fraquinho em alguns momentos. Do elenco de apoio, tem um desempenho um pouco acima da média Jena Malone. Das pontas, gostei de Christina Hendricks. Os demais atores, incluindo Keanu Reeves, estão muito displicentes e sem destaque.

The Neon Demon teria custado US$ 7 milhões. Não é um grande orçamento, para os padrões de Hollywood, mas também não é custo desprezível. Claro que o filme faz parte do grupo de “cinema independente”, mas este orçamento poderia ter garantido um ou duas produções melhores. Nos Estados Unidos o filme não decolou, fazendo pouco mais de US$ 1,33 milhão nas bilheterias. Quem sabe com este fracasso o diretor reveja o próprio trabalho? Seria uma boa ideia. Potencial ele tem. Só tem que melhorar – e muito – com os roteiros.

Como o filme mesmo sugere, ele foi totalmente rodado em Los Angeles, na Califórnia. Entre as locações estão o Bristol Salt Flats, o Hollywood Boulevard, o Sunset Boulevard, o Brite Spot Diner (a lanchonete em que Ruby se encontra com as modelos Gigi e Sarah) e o Canfield-Moreno Estate. Há cenas também em Malibu (a casa na praia que fecha a produção).

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme: de acordo com a atriz Elle Fanning, The Neon Demon foi rodado em ordem cronológica e o final da produção foi criado e improvisado em conjunto.

Este foi o segundo filme de Refn que estreou no Festival de Cinema de Cannes. A diferença é que, desta vez, The Neon Demon foi bastante vaiado após a exibição para a imprensa.

A exemplo da personagem que ela interpreta, Elle Fanning tinha 16 anos quando o filme foi rodado. Para preparar a atriz para o papel de protagonista, o diretor de The Neon Demon fez Elle Fanning assistir a Beyond the Valley of Dolls, de 1970.

Responsável pela trilha sonora do filme, Cliff Martinez definiu The Neon Demon como uma mistura entre Valley of the Dolls (1967), dirigido por Mark Robson, e The Texas Chain Saw (1974), de Tobe Hooper.

De acordo com a produção, há duas cenas que não estavam no roteiro e que foram improvisadas quando o filme foi rodado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira sequência é aquela em que Elle Fanning beixa a própria imagem no espelho – a atriz improvisou o beijo -; e a segunda é aquela do sexo com o cadáver. Inicialmente a atriz Jena Malone iria apenas dar um beijo na mulher morta – mas ela acabou improvisando o restante.

Este filme é uma coprodução a França, da Dinamarca e dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Uma avaliação bastante boa, para o meu gosto. Os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes não foram tão generosos. Eles dedicaram 96 críticas positivas e 84 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 53% e uma nota média de 5,7.

CONCLUSÃO: Um filme sobre superficialidade, beleza, moda e a competição levada ao extremo da insanidade que se apresenta cheio de proposta e de conceito mas que, na prática, frustra o espectador que espera algo mais. A história, que gira demais sob um mesmo elemento, parece apenas uma desculpa para mostrar belas atrizes e um cenário da moda por demais estigmatizado e caricatural. O argumento da trama é simplista, e a conclusão da história, ainda que tenha uma “problematização” da trama superficial, parece tão forçada quanto a leitura do cenário feito pelo diretor. Certamente, com outras opções no cinema, este filme não é a melhor escolha. Veja apenas se tiver um grande interesse na protagonista ou no mundo fashion, sem se importar com as falhas da produção.

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Last Days in the Desert – Últimos Dias no Deserto

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Um filme para causar polêmica. Mas isso se você o levar muito à sério ou, melhor, ao pé da letra. Não faça isso. Não leve Last Days in the Desert muito à sério. E também não o leve na brincadeira. Esta produção não é para fundamentalistas e sim para quem está disposto a abrir o campo de visão e filtrar algumas ideias interessantes que o diretor nos apresenta. Claro que nem tudo passa pela peneira. Mas isso é natural. Afinal, estamos falando de Jesus Cristo. Impossível qualquer filme sobre ele agradar a gregos e troianos.

A HISTÓRIA: Começa com as seguintes frases: “Preparando-se para a sua missão, o homem santo foi ao deserto para jejuar e orar e procurar orientação”. Cenas do deserto em diferentes condições, incluindo sol, dia, nuvens e entardecer. Jesus está ajoelhado, com a cabeça baixa, até que levanta o olhar e pensa “Pai, onde está você?”. Ele tira o capaz. Depois, aparece dormindo em um local protegido. Ele toma um pouco de água e segue a caminhada. No trajeto, se encontra com uma mulher que, na verdade, é o diabo. Jesus se encontrará com ele várias vezes, mas é no encontro com uma família que ele encontra muitas respostas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Last Days in the Desert): A Bíblia fala sobre os 40 dias em que Jesus Cristo passou no deserto antes de encarar o seu derradeiro final nesta vida terrena em Jerusalém. O diretor colombiano Rodrigo García pegou este fato para imaginar o que poderia ter acontecido com o filho de Deus no deserto durante este período. Roteirista desta produção, ele dá voz à própria imaginação e nos apresenta um filme instigante, interessante, com algumas ideias curiosas.

Para ler bem a Bíblia e também para entender melhor este filme é preciso interpretação. Não basta ler a Palavra ou entender o que se passa na telona com belas imagens planejadas por García. É preciso ir além. Para entender bem a Bíblia, é necessário conhecer não apenas o contexto da época de Jesus e do Velho Testamento, mas também entender sobre os contextos de quem escreveu as Escrituras.

O mesmo vale para esta produção de Rodrigo García. Mais do que saber sobre o diretor, é importante observar o que os fatos que ele nos apresenta significam. Na Bíblia está escrito apenas que Jesus passou 40 dias no deserto para orar, refletir e buscar o encontro com Deus que ele esperava, a força necessária para enfrentar todo o caminho de ultraje, agressões e morte que ele encararia em Jerusalém. Está na Bíblia que o Diabo o tentou repetidas vezes. E isso é tudo.

Não há nada sobre Jesus ter se encontrado com uma família no deserto e convivido com ela alguns dias. Esse trecho, como vocês devem saber, faz parte da imaginação de Rodrigo García. Mas devemos embarcar na história dele porque ela nos apresenta algumas reflexões muito interessantes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, aquela família que Jesus encontra e convive é, na verdade, uma alegoria da própria Humanidade. Pai, mãe e filho são a essência da família e, claro, da criação humana.

Pois bem, Jesus vai para o deserto para encontrar respostas. E como ele diz para o garoto, filho do casal, em certo ponto da produção, ele encontrou as respostas que ele desejava. Algumas delas justamente no convívio com a família. Neste momento ele percebe, por exemplo, a força do amor e da dedicação, da generosidade, e percebe que o maior gesto de amor é quando alguém se doa pelo outro. Ele próprio fará isso quando for encarar Jerusalém e a sua injusta morte na cruz. Ele será sacrificado por todos.

Aquela família marca o encontro de Jesus com todas as famílias do mundo, com a Humanidade. Sem Jesus, o próprio Diabo comenta sobre isso, o jovem pensaria em si em primeiro lugar e sacrificaria o pai para conseguir realizar o próprio desejo de ser livre. Isso pode ser entendido como algo específico, para aquela situação, ou projetado para qualquer época, como para hoje. Quem acredita em Jesus, quem tem fé, jamais teria uma atitude como essa porque ele amaria a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo, jamais matando, por exemplo, mas defendendo a vida sob todas as circunstâncias.

O pai da história quer o melhor para a sua família. Ele cuida da esposa, que está doente, e quer que o filho siga a tradição, que cuide do que a família conquistou. É como o papel de liderança da sociedade patriarcal, em que o pai tem a sabedoria de determinar o futuro dos mais jovens e é a voz que deve ser seguida. Mas como o exemplo daquela família, existe conflito e ruptura quando o pai não consegue se comunicar com o filho. A distância entre eles parece insolúvel, mas com a proximidade de Jesus e seu olhar amoroso e compassivo, o pai tenta se aproximar do filho. Sem muito sucesso, é verdade, mas o gesto demonstra esperança.

A mãe, mesmo doente, tenta aproximar pai e filho e quer o melhor para o herdeiro da família. Ela também, a exemplo do pai, está disposta a se sacrificar pelo filho. Até este ponto, as ideias de García coincidem muito com o que parece ser a essência do que está na Bíblia. Mas há outras ideias que não são, digamos assim, muito óbvias. Pelo contrário. E aí que reside, na minha opinião, uma certa polêmica que este filme pode levantar. Por isso mesmo acho importante assisti-lo com tranquilidade, sem muitas paixões e levando em conta que esta é uma obra artística e não religiosa.

O primeiro ponto que chama a atenção, sem dúvida, é o fato do Diabo, a partir de sua segunda aparição, surgir como um “irmão gêmeo” e/ou uma cópia do próprio Jesus. Esta é a primeira ideia provocadora do filme e que pode ser entendida de duas formas diferentes – dependendo do gosto do espectador.

O Diabo ter a “imagem e semelhança” de Jesus pode ser encarado como uma forma de dizer que o Diabo não é nada mais do que uma outra parte de nós mesmos, o lado “mau” que devemos combater. Mas isso não faz muito sentido no caso de Jesus, já que ele era santo – se fez homem e sentiu o mesmo que qualquer homem, mas não cometeu pecado, consequentemente não teira o lado “mau”.

Outra forma de encarar o Diabo como “imagem e semelhança de Jesus” seria o de demonstrar como ele é ardiloso, tentando se passar por Jesus e procurando confundir o Filho de Deus. Também podia ser visto como uma forma do Diabo tentar se “igualar” ao filho de Deus, a quem se referia com clara admiração e perplexidade. Em mais de um momento o Diabo tenta Jesus com pecados muito terrenos – da água e do alimento até a mulher que está na tenda. Claro que nada realmente tenta Jesus, como está claro na Bíblia também.

Uma preocupação clara de Rodrigo García é humanizar a figura de Jesus Cristo. Para mim, mais do que o que ele sofre no primeiro trecho do filme, isso fica claro ao mostrar que Jesus sonhava e tinha pesadelos. Talvez esta seja uma das demonstrações mais claras do diretor em tentar “desmistificar” o Filho de Deus. Uma parte um tanto polêmica, também, porque dá pano para a manga imaginar que Jesus tinha pesadelos.

Um outro ponto que pode render polêmica, mas não acho que ela se justifique, é o fato de Jesus beijar o pai e a mãe na boca – esse tipo de saudação era comum para a época, especialmente quando alguém estava para morrer ou tinha morrido. Agora, admito que alguns pontos me incomodaram um pouco. Porque todos comentados até agora me parecem parte da imaginação do diretor e não fogem muito do que se poderia esperar de Jesus pelo que sabemos dele e que está na Bíblia.

Um ponto que me incomodou foi quando Jesus pede ajuda para o Diabo e o ordena que mostre o futuro do garoto. Sério mesmo? Achei uma forçada de barra desnecessária do diretor naquele ponto. Jamais Jesus pediria ajuda do Diabo para saber qualquer coisa. Muito menos para “matar a curiosidade” sobre a vida de alguém. Totalmente desnecessário. Também achei um tanto ridícula aquela “aparição” do Diabo quando Jesus estava próximo da morte, colocado na cruz, e aparece o Diabo como um beija-flor. Humm… ideia estranha.

O que reforça a minha teoria de que a família que Jesus encontra no deserto segundo a visão criativa de Rodrigo García seria a própria Humanidade é a sequência em que Jesus vai ajudar a mãe doente, perto do final. Não fica claro ali se ele iria curá-la ou apenas tirar a dor que ela estava sentindo, mas a mulher recusa a ajuda. O que acontecia muito naquela época e acontece até hoje: nem todos querem aceitar a Verdade da vinda de Jesus e também não querem ser ajudados. Cada pessoa daquela família simboliza uma vertente da conduta da própria Humanidade com a qual Jesus se encontra, observa e aprende a respeito.

Finalmente, García polemiza um pouco com aquele final. Em certo momento, o Diabo, tentando a Jesus, lhe questiona sobre o que ele vai fazer ao sair do deserto e se ele acredita que alguém lhe dará importância no futuro. A última sequência do filme mostra justamente o que parece ser um pai e um filho no desfiladeiro em que o pai da época de Jesus se sacrifica pelo filho. Na visão de García, nos tempos atuais, um pai e um filho vão ao local para fazer uma foto. Essa imagem provavelmente será compartilhada pelas redes sociais na sequência.

A questão que o diretor deixa no ar é: aquele pai e aquele filho estão lá por causa de Jesus ou apenas para ver a um belo cenário para uma foto? A resposta fica, como tantos outros pontos do filme, ao gosto do espectador. Da minha parte, acho sim que eles estão lá por causa de Jesus e que, diferente do que o Diabo sugeriu para o Filho de Deus, ele segue sendo importante e lembrado até hoje. A questão é que tipo de lembrança temos Dele? Apenas como uma desculpa para uma foto, para uma viagem de turismo com requintes de fé, ou será que vivenciamos o que ele tentou nos ensinar no dia a dia, de fato, tentando mudar a realidade ao nosso redor? Talvez esta seja uma pergunta importante que Last Days in the Desert nos deixe de presente.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme indicado para pessoas que não se importam com narrativas lentas e contemplativas. Porque é exatamente isso que Last Days in the Desert é. Rodrigo García faz um trabalho detalhista, atento ao cenário e à relação entre Jesus e os demais personagens entre si e com o entorno. Há muita contemplação em cena. O que não é ruim, mas certamente não agrada a todos os estilos de público. É bom você saber isso antes de assistir a esta produção. Assim como é bom saber, claro, que se trata de uma ficção sobre um capítulo na vida de Jesus Cristo. É bom ter algum interesse sobre o tema ou então, inevitavelmente, acharás tudo isso muito chato. 😉

O colombiano Rodrigo García acertou em cheio ao valorizar o deserto como um personagem importante nesta história na mesma medida em que acertou ao escolher um pequeno punhado de atores para a produção. E todos muito bons, diga-se. Ewan McGregor é admirável e não é de hoje. Para o meu gosto ele faz um belo trabalho como Jesus (e como o Diabo também). Ele não força na interpretação, muito pelo contrário. Ele consegue convencer bem neste papel, que nunca é fácil de ser interpretado, dando legitimidade e trazendo humanidade para o papel de Jesus.

Os demais atores foram escolhidos à dedo. Destaque, em especial, para o sempre ótimo Ciarán Hinds. Depois, fazem um bom trabalho Tye Sheridan – um garoto que vale acompanhar – e a atriz Ayelet Zurer. Ela, mais bonita e enigmática do que com desempenho de destaque, até porque o seu papel é o menor entre os citados.

Um ponto fundamental nesta produção é a direção de fotografia do veterano Emmanuel Lubezki. Ele apresenta aqui mais um excelente trabalho. A trilha sonora do filme é bastante pontual. Nem sempre ela está preenchendo os espaços do filme – pelo contrário, Last Days in the Desert tem muitos momentos de silêncio e de som ambiente. Mas quando aparece, a trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans ajuda a imprimir o sentimento que o diretor quer na história.

Antes citei trechos do filme que exigem interpretação – e, claro, comentei alguma interpretações que eu tive. Falei de pontos interessantes e de outros que me incomodaram. Pois bem, teve um outro ponto que me incomodou e que eu não citei. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento, Jesus diz para o garoto que vai para Jerusalém para que ele ame a Deus sobre todas as coisas e para que ame a vida. Humm… Algo que fica evidente no filme de Rodrigo García é que ele mostra um Jesus bastante humano. Tanto que, e isso é inevitável, por ser humano ele ama muito a vida. Gostaria de ficar mais tempo por aqui – e daí vem a sua dúvida sobre o fim inevitável, porque ele amava a vida. Mas percebe que precisa se sacrificar para o bem de toda a Humanidade. Certo. Só que na Bíblia fica claro que Jesus resume todos os mandamentos em dois: amar a Deus sobre toda as coisas e o próximo como a ti mesmo. Por que então não repetir isso no filme e mudar a segunda parte para “ame a vida”? Me parece que se alguém ama a vida e não ao próximo a saída pode ser o egoísmo, não? Uma contradição no filme que me incomodou.

Além dos aspectos técnicos que eu já comentei, não existe muito o que destacar – o design de produção, a direção de arte e a decoração de set me pareceram ok, mas nada além do básico. Os figurinos, talvez, sejam um pouco mais interessantes – ainda que, volto a dizer, nada demais. Vale citar, contudo, o trabalho de Judianna Makovsky nos figurinos – realmente bem feito. Talvez eu destacaria apenas o bom trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o departamento de som. E também o bom trabalho do editor Matt Maddox. E só.

O visual é uma parte fundamental do filme. Sem dúvida alguma um de seus pontos fortes.

Last Days in the Desert estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2015. Depois, o filme passaria por outros nove festivais antes de chegar comercialmente nos cinemas de alguns países. Nos Estados Unidos, por exemplo, ele estreou de forma limitada apenas em maio deste ano. Depois ele estreou em Cingapura e, no dia 8 de setembro, no Brasil.

Esta produção foi totalmente rodada no Anza-Borrego Desert State Park, na Califórnia – ou seja, muito distante do verdadeiro deserto por onde Jesus caminhou.

O diretor Rodrigo García nasceu na cidade de Bogotá no dia 24 de agosto de 1959. Ele estreou na direção com Things You Can Tell Just by Looking at Her, no ano 2000, com um belo elenco de atrizes: Gleen Close, Cameron Diaz, Calista Flockhart, Kathy Baker, Holly Hunter e Amy Brenneman. Depois, ele trabalharia na direção de episódios de diversas séries, inclusive a elogiada Six Feet Under e a série Big Love. Provavelmente o filme dele mais conhecido seja Nive Lives, de 2005. Até hoje, contudo, o diretor não recebeu nenhum grande destaque por seus longas.

Last Days in the Desert foi indicado a apenas um prêmio: Assistant Location Manager of the Year – Feature no desconhecido California on Location Awards em 2014. Mas ele não levou o prêmio para casa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,6 para esta produção. Uma avaliação abaixo da média, sem dúvida. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,7. Ou seja, os críticos gostaram mais do filme do que o público em geral.

Algo que eu gostei no filme que talvez eu não tenha deixado claro antes vale citar aqui. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Se é verdade que este filme tem alguns pontos controversos e outros um tanto sem coerência, também é verdade que ele repassa algo fundamental de Jesus com muita propriedade. Neste filme, fica claro como Jesus se importa com as pessoas, com a dor humana, com as nossas dúvidas e atribulações. Ele se compadece, Ele quer ficar junto, mesmo quando não estamos exatamente dispostos a ouvi-lo ou a fazer o que deveríamos fazer. Mas ele está ali, está junto, nunca se separa e fica conosco até que o melhor aconteça. Isso é algo belo no filme, assim como a tentativa de mostrar um lado bem humano de Jesus – afinal, ele se fez carne e se tornou um de nós (exceto pelo pecado) para mostrar a todos que é possível trilhar um caminho de santidade.

Vale citar de que forma a experiência de Jesus no deserto é tratada na Bíblia. Em Mateus, após pedir para João Batista para ser batizado, “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome”, e daí o Demônio se aproximou dele por três vezes e tentou Jesus de três formas diferentes, recebendo respostas sábias Dele todas as vezes. “Em seguida, o demônio o deixou e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo”. Depois disso, Jesus teria ido para a Galileia e começado a Sua vida pública.

No Evangelho segundo São Marcos, após o batismo no Rio Jordão, “logo o Espírito” impeliu Jesus “para o deserto. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam. Depois que João (Batista) foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galileia”.

No Evangelho de São Lucas, novamente, temos Jesus indo para o deserto após o batismo no Rio Jordão. No deserto, Ele “foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome”. Novamente aparecem as três tentações do Diabo e as respostas de Jesus, e Lucas afirma: “Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião”. Após esta experiência Jesus começa o seu ministério na Galileia. No Evangelho de São João não existe esta passagem sobre a ida de Jesus para o deserto.

Last Days in the Desert é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de pedidos aqui no blog – em uma votação passada a maioria dos leitores pediu filmes originados naquele país.

CONCLUSÃO: Este é um grande exercício de imaginação do diretor Rodrigo García. Esqueça a Bíblia e o que ela nos diz sobre a peregrinação de Jesus pelo deserto. García pega um fato narrado pela Bíblia para se debruçar sobre alguns conceitos e reflexões muito interessantes. Para mim, este filme é mais sobre a Humanidade do que sobre Jesus, ainda que haja muito da sabedoria Dele na telona. Como comentei lá no início, não é possível assistir a esta produção com um olhar histórico, de fé ou fundamentalista. Saia de todos estes tipos de visão e assista com o olhar de uma obra artística. Com belas imagens, ótimos atores e um roteiro interessante, este filme nos leva pela mão em várias reflexões. Por isso mesmo, é mais do que muitas outras produções disponíveis no mercado. Vale a experiência.

Blood Father – Herança de Sangue

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Para fazer um filme um bocado maluco, você precisa ter uma estrela igualmente “crazy”. Blood Father, em essência, não tem nada de novo. Pelo menos o argumento central não é inovador. Mas ele tem uma segunda camada de leitura interessante e que funciona muito bem. E à frente da trama, o ator um tanto maluco Mel Gibson. Ele está mais velho, mais experiente, mas não perdeu aquele olhar um tanto “descompassado” que volta e meia vemos nele. Para este filme, isso funciona muito bem.

A HISTÓRIA: A imagem de uma menina surge aos poucos e vemos que se trata de um cartaz de pessoa desaparecida. Pelas informações, sabemos que a garota está desaparecida desde os 14 anos. Uma jovem compra várias caixas de munição e um chiclete. Quando pede um cigarro, a caixa pede a identidade dela. Na sequência, a garota entra em um carro cheio de caras armados.

Um dos bandidos reclama que a garota de Jonah (Diego Luna) comprou munição errada para ele. O grupo sai em direção a uma casa, e a garota fica no carro. Ela resiste a seguir o grupo, mas Jonah a ameaça e diz que precisa confiar nela. O final daquela situação levará Lydia (Erin Moriarty) para uma busca desesperada por proteção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blood Father): Mel Gibson está mais velho, mais experiente e, parece, mais interessante. Assistindo a Blood Father temos a impressão de que a fase mais “louca” e “raivosa” do ator já passou. Então, talvez, possamos ver a fase inicial da carreira dele, com o primeiro Mad Max, Gallipoli, The Year of Living Dangerously e Lethal Weapon como a primeira grande fase do ator e, quem sabe agora, o início de um grande outro momento.

Mas ainda é cedo para dizer se o ator passou a fase mais louca da vida e vai começar, novamente, a apresentar um grande trabalho. De qualquer forma, é bom vê-lo um pouco mais centrado e com os “olhos menos arregalados”, se é que vocês me entendem. Ao menos eu voltei a acreditar em uma interpretação dele. Ajuda o fato, claro, do personagem dele em Blood Father ser um pouco “underground”, o que casa com o estilo do ator. Mas, de fato, ele está um pouco menos “over”, com uma interpretação bem mais coerente e que faz quem gosta dele acreditar no que ele está fazendo e não vendo apenas ao personagem “Mel Gibson”.

Descontadas as bobagens que ele fez na vida pessoal, eu gosto do estilo Mel Gibson de ser. Afinal, ele saiu daquele perfil de galã do início de carreira para abraçar um tipo de produção mais underground e, com Blood Father, mais realista. Bem, pelo menos até perto do final. Envelhecido, com as rugas bem à mostra e com um personagem que deixa claro que é um bandido que tenta levar uma vida sem maiores problemas até que a filha com bandidos atrás dela aparece, Mel Gibson faz um belo trabalho neste Blood Father.

O filme, evidentemente, é bem centrado no trabalho do ator. Mas ele não está sozinho. Pelo contrário. Por quase todo o filme ele faz uma bela parceria com a jovem atriz Erin Moriarty. Além de muito bonita, a garota tem estilo e tem talento. No filme, a personagem dela está começando a trilhar o caminho da malandragem, se envolvendo com um bandido de porte grande que nem ela imaginava o quanto de poder de fogo ele tinha.

Se o pai dela no filme é “macaco velho”, sabe todos os caminhos da bandidagem e da criminalidade, ela ainda está tateando neste mundo. Mas como fugiu de casa aos 14 anos de idade e andou por aí se virando por conta própria, ela também aprendeu um e outro truque. Bonita, ela sabe usar este argumento a seu favor. E é assim que, pouco a pouco, pai e filha vão se aproximando enquanto eles correm em fuga para tentar sobreviver. No caminho, claro, ele também procura saber quem está realmente perseguindo os dois. Conhecer o inimigo é uma questão vital.

O filme, que poderia ser apenas mais uma história de “bandido persegui mocinha que tem que fazer tudo para sobreviver”, acaba sendo também uma interessante história de aproximação entre pai e filha. Fica evidente, nas entrelinhas do roteiro de Peter Craig e Andrea Berloff, baseado no livro de Peter Craig, que apesar da pouca convivência com o pai, que ficou muito tempo preso, Lydia admira John Link e busca seguir vários de seus passos em sua própria jornada.

Quando ela se vê em apuros, ela sabe que não pode contar com mais ninguém. Se alguém sabe como lidar com bandidos é o pai dela. Algo interessante de Blood Father também é que os roteiristas e o diretor Jean-François Richet não “douram a pílula”. Ou seja, os protagonistas são enrolados, tem uma tendência forte para o crime, e isso não é escondido. John Link queria uma vida tranquila, fora de confusão, mas quando ele tem que proteger a filha, ele não se importa em matar. Lydia certamente não quer matar inocentes, mas se tiver que matar algum bandido para se defender, ela não pensará por muito tempo.

Não faltam tiros e cenas de ação nesta produção, ainda que os roteiristas e o diretor acertem ao não resumir a história apenas a isso. Pelo contrário. O filme equilibra bem estas cenas de ação com o desenvolvimento da relação entre os protagonistas. Por isso eta produção funciona e foge um pouco do lugar-comum. Se a história propriamente dita não inova, pelo menos ela apresenta um certo molho e mais de uma camada de leitura e de interesse. Algo que é bem-vindo em um filme deste estilo.

O realismo é um dos elementos presentes em grande parte desta produção. Por exemplo, John Link mora em um trailer velho, tem um carro que muitas vezes não pega na primeira e parece ter sempre o dinheiro contado. Lydia certamente vive “um dia de cada vez”. Os dois são, digamos assim, uns “ferrados”. Mas estão procurando os seus próprios caminhos tentando fazer o menor dano possível. Apenas por isso eles já merecem uma chance.

Enquanto John Link descobre que o ex-namorado da filha é herdeiro de uma quadrilha realmente barra pesada, a dupla segue sendo perseguida. Fica claro que querem dar um fim na garota, e demora um tempo para sabermos o porquê. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é exatamente uma surpresa quando sabemos que Jonah não morreu. Ele persegue Lydia para que ela não conte para ninguém que ele está enganando a quadrilha mas, provavelmente e acima disso, porque ele quer se vingar da garota.

Mas aí reside o principal problema desta história. Se o desenvolvimento do filme até é bom e convence por boa parte do tempo, a reta final da história é de chorar. A “super” esperta Lydia não se toca de dar um fim no próprio celular – questão básica para quem não quer ser rastreado, certo? Pouco a pouco, com o celular na mão, ela vai dando a pista para os perseguidores por onde ela anda. Quando, finalmente, ela é pega, é ridícula a negociação de John Link com Jonah. Se o rapaz realmente fosse bandido, ele não daria nenhuma chance para pai e filha se livrarem.

Primeiro, provavelmente teria matado Lydia antes de John Link se aproximar. E mesmo que não tivesse feito isso, esperando para “desfrutar” do fim da ex-namorada, certamente ele não deixaria o pai dela “se despedir” da filha. Não tem muita lógica toda aquela sequência final, de John Link se sentando ao lado da filha e dos bandidos “caindo” na armadilha da morte, em especial. Depois, claro, o filme se redime um pouco com o final para John Link – ainda que o tiroteio final “à la” faroeste pareceu um tanto forçado também.

Enfim, um filme bom, interessante pela boa parceria entre os atores principais, com uma ou outra ideia bacana mas com muitas outras saídas bem batidas, além de um final que esvazio boa parte das qualidades da produção. Ainda assim, após aquele “tiroteio final”, ainda temos uma Lydia se declarando para o pai, o que ficou bacana e torna a decepção com o final um pouco menos irritante. A boa notícia é que Mel Gibson voltou a fazer um bom trabalho, e que Erin Moriarty pode ser um nome interessante que merece ser acompanhado.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Peter Craig e de Andrea Berloff procura, claramente, um tom “realista” sobre a história e os personagens. Ninguém é totalmente bom e, aparentemente, ninguém é totalmente mau. Mas este filme é, digamos assim, mais sobre bandidos do que sobre mocinhos. Todos tem algum pecado pelo qual precisa pedir perdão, e isso torna o filme menos óbvio e um pouco mais interessante.

Este sentido de “realismo” é seguido pelo diretor Jean-François Richet. Em muitas cenas a câmera orquestrada por ele está um tanto “trêmula”, no melhor estilo de um documentário, sem grandes aparatos de sustentação ou preocupação para que a imagem fique perfeita. O diretor também cuida de estar sempre próximo dos atores, valorizando, em especial, a interação entre Mel Gibson e Erin Moriarty. Sem dúvida alguma são boas escolhas.

Como esta produção tem este tom realista e como se trata também de um filme com várias sequências de ação, outro trabalho bastante importante é o do editor Steven Rosenblum. Ele faz um bom trabalho – e difícil, diga-se. Importante também o trabalho do diretor de fotografia Robert Gantz que tem, especialmente nas cenas noturnas, um belo desafio. Mas ambos se saem muito bem. Da parte técnica do filme, vale destacar também a trilha sonora bastante presente de Sven Faulconer.

Na minha crítica acima eu destaquei o trabalho de Mel Gibson e Erin Moriarty porque, realmente, este filme é centrado nos dois. Citei também o vilão da história, o personagem de Diego Luna. Ele está bem, mas achei a interpretação dele um tanto linear demais, sem nuances, sem a complexidade que ele poderia ter. Provavelmente mais culpa do roteiro do que do ator, ainda que eu acho que Diego Luna poderia ter se saído melhor. Parecia que estava apenas “cumprindo tabela”.

Um pouco melhor que ele eu achei outros atores secundários, como o veterano William H. Macy como Kirby, melhor amigo do protagonista e “padrinho” dele no AA, em um trabalho discreto, pontual, mas interessante; Michael Parks como “Preacher”, o líder do grupo do qual John Link fazia parte, responsável por ele ter ficado tanto tempo na prisão, e que tem uma passagem estranha mas curiosa no filme; Dale Dickey em um pequeno papel como a companheira bandida de Preacher; Miguel Sandoval como Arturo Rios, o outro lado da moeda do Preacher, ou seja, o cara que está na prisão mas que é uma espécie de manda-chuva do pedaço e que acaba ajudando o protagonista – bem diferente do antigo “chefe” dele. Além destes, há vários bandidos que aparecem em cena. Destes, destaque para Raoul Max Trujillo como The Cleaner, o mais malvado dos malvados. Ele realmente assusta pelo porte e pela cara de mau.

Blood Father estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio deste ano. Depois, o filme passaria ainda por outros três festivais de cinema. Em nenhum destes festivais ele recebeu qualquer prêmio.

Esta produção foi totalmente rodada no Estado do Novo México, nos Estados Unidos, em cidades como Laguna e Belen.

Antes deste filme ser dirigido por Jean-François Richet e estrelado por Mel Gibson, o ator Sylvester Stallone tinha planos, em 2008, para dirigir e estrelar esta produção.

O ator Raoul Max Trujillo já tinha trabalhado com Mel Gibson antes. Ele faz um trabalho importante como o guerreiro chefe do filme Apocalypto, que foi dirigido por Gibson.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 textos positivos e seis negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,7. Em termos de nível de aprovação, é um belo desempenho deste filme.

Este filme, apesar de ter sido totalmente rodado nos Estados Unidos e de ter protagonistas norte-americanos, é uma produção francesa. Certamente por causa do diretor.

CONCLUSÃO: Sim, este é mais um filme de vingança. Uma garota atira em um cara que ela não deveria ter atirado e a partir daí ela começa a ser caçada. Para a “sorte” desta garota, ela tem um pai que é bandidão e que pode colocar frente aos outros bandidos. Na essência, Blood Father não é novo. Mas além da perseguição propriamente dita e das consequentes cenas de ação muito bem feitas, a tentativa do protagonista em, mesmo em meio ao caos, “tirar o atraso” na relação com a filha e resgatar um pouco a relação com ela é um ponto interessante e diferenciado da produção. No fim das contas, é um bom filme. Envolvente, com uma bela interação e sintonia entre os dois atores principais. Incomoda alguma forçada de barra, mas nada que não torne a experiência interessante.

Kollektivet – The Commune – A Comunidade

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Alguns filmes tem propósitos pouco claros. A interpretação sobre o que vemos na telona é livre e depende do tipo de olhar de quem assiste. Kollektivet é um destes filmes. O diretor Thomas Vinterberg sempre tem um estilo muito próprio de fazer cinema mas, em outras produções, ele deixou mais claro o que ele queria com a história que ele estava contando. Este filme, mais uma vez, toca em temas importantes tanto sob a ótica individual quanto sob a ótica coletiva, da sociedade. Pessoalmente, fiquei um pouco incomodada com o “andar da carruagem” da história. Explico as razões logo abaixo.

A HISTÓRIA: Um corretor caminha com passos largos por uma rua residencial até encontrar Erik Moller (Ulrich Thomsen). Ele dá os pêsames para o homem que está voltando para a casa familiar após perder o pai. Residência esta que ele não via há muito tempo, já que não tinha contato com a família desde os 22 anos de idade. Erik quer se livrar logo da casa, que considera muito grande e com manutenção cara. Mas a mulher dele, Anna (Trine Dyrholm) tem outros planos para o lugar. Ela acha a casa espaçosa perfeita para que o casal e a filha Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansen) possam viver em comunidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kollektivet): Este filme trata de muitos assuntos. Alguns óbvios, outros nem tanto. Um dos pontos fundamentais do filme, e não sabemos sobre isso quando as frases são ditas, estão justamente bem no início da produção com roteiro do diretor Thomas Vinterberg e de Tobias Lindholm.

A questão essencial de Kollektivet está em um dos primeiros diálogos dos protagonistas Erik e Anna. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na visão de Erik, para duas pessoas viverem juntas, elas precisam “ver e ouvir um ao outro”. Ou seja, para ele, é fundamental que o casal e a filha sigam vivendo em um local pequeno, no qual eles mantenham proximidade e tenham intimidade. Emma, por outro lado, não está satisfeita apenas com esta realidade e rotina. Ela quer mais. Como comenta em uma sequência seguinte, ela precisa “ouvir outras vozes”, ouvir outras pessoas além de Erik para “não enlouquecer”.

No início, tudo é maravilhoso. Primeiro, o casal Erik e Emma parece muito feliz e satisfeito consigo mesmo. Freja claramente ama e admira os pais. Estão todos felizes. Especialmente Emma ao imaginar a vida que eles poderão ter naquela grande casa familiar de Erik e que ela planeja transformar em reduto de uma comunidade de amigos e conhecidos. Cada um com um estilo de vida e características para somar ao grupo.

Pouco a pouco o casal vai “entrevistando” os pretendentes a morarem naquela casa. O grupo acaba formando uma forma de se autogestionar que leva em conta como cada um está se sentindo e como cada um pode contribuir para as contas do mês. Novamente a felicidade está presente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Até que em um certo dia Erik fala com Emma e simplesmente não consegue ser ouvido em meio ao falatório dos demais.

Pronto, aí está a ruptura fundamental de Kollektivet. Como se refletisse sobre a própria coletividade e sobre o sentido que cada indivíduo tem sobre a importância de suas próprias necessidades, o filme demonstra como o que acaba predominando no final das contas é mesmo a supremacia de alguns desejos particulares sobre o dos demais. A ideia de comunidade é bonita, bacana, mas simplesmente não funciona, parece que Vinterberg está nos dizendo, porque o poder econômico sempre prevalece sobre o bem estar comum.

Como eu disse lá no início, há muitas interpretações possíveis sobre Kollektivet. Mas esta foi a que “gritou” mais forte para mim. Com este filme Vinterberg parece nos dizer que o desejo utópico e que se tornou realidade por um período de tempo de Emma de ter em um mesmo espaço várias pessoas com estilos de vida e visões diferentes vivendo de forma harmoniosa e um apoiando o outro perde na queda de braço para os desejos particulares de Erik.

Quando o protagonista não consegue o que ele quer e se dá conta disso – a cena crucial é aquela em que ele não consegue ser ouvido pela mulher, Anna -, ele decide buscar o que ele deseja fora de casa. Como a maioria dos homens – e me perdoem vocês, espécimes do sexo masculino que não são assim -, Erik é um idiota inseguro que precisa se sentir importante ao ser desejado e amado por uma linda (e preferencialmente jovem) mulher. Então dane-se o casamento de 15 anos com Anna e tudo que eles passaram juntos. Dane-se o choque e o medo que a dissolução da família pode causar na filha Freja. O importante para Erik é sentir-se desejado por uma bela mulher.

Para muitos homens isso significa poder, significa massagem para o ego. E é isso que vemos em Kollektivet. Erik acaba dando corda para a bela aluna Emma (Helene Reingaard Neumann) que vai até a sala dele questioná-lo sobre o tratamento dado para um colega e os dois começam um caso. Como é dono da casa em que vive o coletivo de amigos, Erik não pensa duas vezes em levantar a amante para lá quando ele sabe que todos estão fora. Mas ao ser flagrado pela filha, ele resolve não esconder a relação da qual ele não quer abrir mão.

A partir daí e porque Erik passa a deixar claro que quer ficar com Anna, ele se distancia cada vez mais de Anna, o que deixa a vida da mulher dele cada vez mais miserável. No fim das contas, Erik acaba mergulhando no trabalho e passa a dormir fora de casa também para ficar mais com Emma, abandonando Anna na prática. A mulher dele, que parecia querer mais que o relacionamento apenas dos dois no início do filme – afinal, é ela que diz que precisa de outras pessoas e que gostaria de ter diversidade na convivência diária em casa -, não lida bem com a ausência do marido. Muito pelo contrário. Ela desmorona.

Quando o filme migra para esta realidade em que Erik é mais um marido carente de atenção e que acaba traindo a mulher para satisfazer o seu próprio vazio e que Emma vira esta mulher frágil que desmorona quando não tem a atenção do marido canalha, Kollektivet perdeu boa parte da graça para mim. Na verdade, fiquei um tanto revoltada e frustrada. Mas aí, quando o filme acabou, pensei que talvez esta tenha sido exatamente a intenção de Thomas Vinterberg. Nos mostrar “a vida como ela é” para muitas pessoas e nos fazer refletir sobre isso.

Alguns, certamente, vão achar que “as coisas são assim mesmo”, e que é natural e aceitável que Erik tenha traído a esposa e não se importado em deixá-la naquele estado lastimável porque, afinal de contas, ele tinha o “direito” de buscar o que lhe parecia melhor apenas para si mesmo. É como uma ode ao egoísmo. Outros, como eu, podem ficar indignados com isso e refletir não apenas sobre a canalhice da situação, mas também sobre o comportamento da comunidade.

O grupo formado por Ole (Lars Ranthe), Mona (Julie Agnete Vang), Steffen (Magnus Millang), Allon (Fares Fares) e Ditte (Anne Gry Henningsen) fica perplexo, claro, com a situação de conflito que eles acabam presenciando entre a diferença de desejos de Erik e Anna. Afinal, o casal é o que chamou todos para aquela convivência. Acreditando que poderia ter alguma “migalha” de atenção de Erik ao chamá-lo de volta para a casa junto com Anna, Emma faz o grupo votar pela adição da jovem amante do marido.

Aquela comunidade, a meu ver fazendo as “vezes” da sociedade em geral, acaba sendo até certo ponto “receptiva” com Anna. Não a julga, mas também, claramente, se sente constrangida em aceitá-la sem ressalvas. No fundo, o grupo quer que o “status quo” permaneça como era antes, quando todos viviam bem e harmoniosamente, aparentemente todos felizes. Erik fica surpreso quando, apesar da receptividade amistosa, o grupo vota para que Anna não seja aceita. E ele se revolta. Novamente o que deve predominar é a vontade individual de Erik e não o que é melhor para a maioria – ou mesmo para a que era, até então, a família dele.

Daí entra a crítica principal de Kollektivet, a meu ver. Como Erik é o dono da casa, ele ameaça todos de expulsão se não aceitarem a vontade dele. E o grupo, a comunidade, acaba cedendo para não perder o que eles tem. A generosidade e a preocupação com o bem estar de todos cai por terra naquele instante. Todos abrem mão da felicidade e do bem estar de Emma até o ponto em que fica impossível ignorar a miséria pela qual ela está passando. Neste momento o grupo coloca o casal contra a parede e, finalmente, a jovem Freja pede para que a mãe tome uma atitude e busque a felicidade em outro lugar.

Neste momento, em especial, o filme me incomodou. Afinal, realmente a única saída de Anna seria sentir-se tão miserável e sofrer tanto pela ruptura do casamento? Ela não poderia ter buscado ser feliz de outra forma e sem ter que ser a pessoa a sair de casa? A comunidade, assim como a sociedade, aceita o traidor e o canalha para a preservação do “bem comum”. Será mesmo o bem comum? Enquanto a sociedade machista seguir aceitando o sujeito que não se preocupa com os demais mas sim apenas em satisfazer os próprios desejos, para onde iremos?

Me incomodou, por exemplo, a filha Freja ficar do lado do pai – afinal, ela não sugere para ele, o traidor, sair de casa, e sim a mãe. Claro, o próprio Freud pode ajudar a explicar isso – classicamente as filhas ficam do lado dos pais porque se sentem “inconscientemente” atraídas por eles. Ainda assim, me incomoda pensar que Freja iria repetir velhos padrões e não pensar realmente no que estava acontecendo e em quem era a “parte frágil” do processo. Consequentemente, ao não fazer isso, ela não pensou sobre ela própria.

Agora, claro, sem dúvida alguma Emma estava certa em buscar a própria felicidade após a falência do casamento. Ela não poderia seguir sofrendo daquela forma. A protagonista assim mostra determinação e coragem – ainda que um tanto tardia. Mas ok, afinal, esta produção se passa nos anos 1960 – um tempo que ainda exigiria amadurecimento das mulheres. Mas o que virá depois daquela saída de Anna de casa? Na sequência final, Freja se declara para Peter (Rasmus Lind Rubin) que está em “outro mundo”.

Há formas diferentes de interpretar aquela sequência, assim como outras partes do filme, mas para mim aquela cena quer mostrar que a história vai seguir se repetindo. Ou seja, que Freja vai dedicar toda a sua vida, atenção e afeto para um sujeito que, a exemplo do pai dela, estará sempre mais preocupado com si mesmo do que com ela ou os demais. Um egoísta clássico, cretino e babaca que, quando não tiver todos os seus desejos atendidos, irá procurar quem poderá satisfazê-los fora de casa. E o círculo vicioso irá se repetir.

Esta aparente “imutabilidade” das coisas me incomodou um bocado no filme. Ainda que esta possa ser a realidade como ela se apresenta para a maioria, gosto de pensar que existe esperança além do cinismo. De que se existem história como a contada por Kollektivet, existem também histórias de quebra de ciclos de dependência e onde o egoísmo prevalece. De que há histórias de grandeza, doação e generosidade. Kollektivet me parece cheio de cinismo e de desesperança. E não é exatamente filmes assim que eu gosto de ver. Ainda que, eu admita, ele tem um propósito de ser. E talvez seja exatamente este de deixar alguns como eu incomodados.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como manda o figurino nos filmes de Thomas Vinterberg, o diretor escolheu o seu elenco a dedo. Todos os atores são ótimos e estão muito bem em seus respectivos papéis. Vinterberg sempre exige interpretações convincentes, fazendo com que os atores mergulhem na história de seus personagens. Nenhuma linha do roteiro é falada sem convicção. Isso fica evidente em mais este filme do diretor. Não por acaso esse tom “naturalista” dos filmes de Vinterberg faz com que realmente acreditemos em sua história. É como se víssemos um documentário na nossa frente. O envolvimento de quem assiste ao filme, desta forma, é inevitável. Mais uma vez o diretor consegue isso com Kollektivet.

Há dois protagonistas claros neste filme. Outros atores e seus respectivos personagens acabam ganhando destaque, aqui e ali, mas claramente esta produção tem na dianteira o excelente trabalho dos atores Trine Dyrholm e Ulrich Thomsen. Os dois estão perfeitos, sem tirar e nem por. Acreditamos em cada detalhe da interpretação de Trine, enquanto Ulrich dificilmente não vai despertar indignação de quem assistir a este filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lá pelas tantas eu não consigo ver a cara do ator sem ter uma certa raiva dele – especialmente quando ele “desabafa” com Anna de que ele deve se concentrar no trabalho e não em “coisas de mulher”. Uma sequência que também fez o meu queixo cair um bocado foi aquela em que a personagem de Trine diz que entende que o marido tem as suas “necessidades”. Ah, por favor! Se devemos sempre saciar as nossas necessidades e sem se importar com as consequências o que nos diferencia exatamente dos outros animais?

Duas outras atrizes tem um papel de bastante relevância na história: a jovem Martha Sofie Wallstrom Hansen e a bela e carismática Helene Reingaard Neumann. As duas fazem um belo trabalho, ainda que chame a atenção como Martha está, em muitas situações, apenas com olhar de perplexidade, enquanto Helene tenha mais espaço para demonstrar nuances diferentes de sua personalidade. Por mais que ela seja linda e a beleza sempre “ajuda” a perdoar pecados, não dá para ignorar que a personagem de Helene também está pouco se importando com os efeitos de sua “nova paixão”. A sequência em que as duas personagens se encontram pela primeira vez, em especial, achei um bocado reveladora sobre o “real espírito” da personagem de Helene.

Todos os outros atores coadjuvantes estão bem em seus papéis, mas gostei, em especial, do trabalho de Lars Ranthe como Ole. Acho que ele acaba se destacando um pouco mais que os demais. Além de todos os atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Sebastian Gronnegaard Milbrat como Vilads, garoto que sofre de uma doença e que vive repetindo que não vai viver além dos nove anos de idade.

Da parte técnica do filme, um elemento bastante presente no filme, especialmente na parte inicial, é a trilha sonora de Fons Merkies. Depois, conforme a história vai se desenrolando, curiosamente a música perde um bocado de sua importância – seria uma forma de reforçar que a “fase dourada” da história já passou? Possivelmente. Sempre que um filme começa com uma presença marcante de música, o que, para mim, significa “alegria na vida”, e depois vai perdendo esse elemento pouco a pouco, é como se a história também perdesse em graça. Acho que é o que acontece em Kollektivet, especialmente porque a frustração, a decepção e a tristeza vão ganhando corpo lá pelas tantas.

Outros elementos importantes para esta produção ter a aura que ela tem – lembrando que a história se passa nos anos 1960 – são a direção de fotografia de Jesper Toffner e os figurinos escolhidos à dedo por Ellen Lens. Características complementares a estas são o design de produção de Niels Sejer; a decoração de set de Salli Lindgreen e Didde Hojlund Olsen; e o departamento de maquiagem com oito profissionais. Os editores Janus Billeskov Jansen e Anne Osterud também fazem um bom trabalho e merecem ser citados.

Kollektivet estreou na Dinamarca em janeiro deste ano. No mês seguinte o filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme passaria ainda por outros 10 festivais mundo afora – o último deles será o Festival Internacional de Cinema de Toronto que começa nesta próxima semana, no dia 8 de setembro.

Nesta trajetória, o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outro. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Trine Dyrholm no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Muito justo. A atriz está divina e perfeita nesta produção. Merecia ganhar um prêmio pelo seu desempenho. Ela e o parceiro de cena como protagonista estão impecáveis – ainda que ela consiga chegar a um grau um pouco acima dele até pela personagem que ela tem, mais humana e sem dúvida alguma mais complexa.

Agora, uma curiosidade sobre Kollektivet: o roteiro do filme é baseado em uma peça com o mesmo nome escrita por Thomas Vinterberg e que é, por sua vez, inspirada na infância que ele teve em uma comunidade acadêmica na região Norte de Copenhague.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 18 críticas positivas e seis negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média 6.

Este filme é uma coprodução da Dinamarca, da Suécia e da Holanda.

Eu gosto do diretor Thomas Vinterberg. Assisti a boa parte da filmografia dele – ainda que nem todos os filmes estejam comentados aqui no blog. Este dinamarquês de 47 anos estreou na direção com Sneblind, em 1990. O primeiro filme que eu assisti dele foi Festen, uma obra-prima que não está comentada aqui porque eu não tinha começado o blog ainda – o filme foi lançado em 1998. Depois viria Dear Wendy, filme de 2004 do qual eu gostei muito e que merece ser visto. Depois do blog já ter sido criado, assisti e comentei por aqui Submarino (com crítica neste link) e o ótimo Jagten (comentado aqui). Se Kollektivet é o seu primeiro filme do Vinterberg, recomendo que você volte alguns anos e assista Jagten, Dear Wendy e Festen, principalmente. Ele é um diretor interessante e que merece ser assistido – até por integrar o grupo do Dogma 95 que pedia um cinema mais “original” e visceral.

Procurei alguma entrevista com o diretor para ver se ele “aclarava” um pouco mais para mim as suas intenções com Kollektivet. Pois bem, encontrei esta entrevista interessante. Para começar, na introdução à conversa eu fiquei sabendo que o filme se passa no final dos anos 1970 e não nos anos 1960 como eu imaginava. Depois, fiquei sabendo que a atriz que interpreta Emma, a bela Helene Reingaard Neumann, é a mulher de Vinterberg e estudante de Teologia. Segundo o texto, Kollektivet é uma homenagem à comunidade em que ele próprio viveu entre os sete e os 19 anos de idade.

De acordo com Vinterberg, ele viveu em uma comunidade formada por 12 pessoas em 1975 e que começou com cada um pagando o que podia para o aluguel. Todos faziam tudo, e “todos abraçavam as suas diferenças”. Depois, no final, em 1985, tinham restado três famílias e o “amor havia acabado”. Isso também teria acontecido com a sociedade que, segundo o diretor, “foi de Anker para Schlüter e de Carter a Reagan”.

E o diretor segue (vou citar o trecho inteiro porque achei muito interessante): “Hoje estamos mais individualistas do que nunca. E também está mais difícil dizer eu te amo. O amor é algo que está acontecendo por telefone e online. As pessoas estão se transportando o tempo todo, e eu vejo muitas pessoas que estão pensando sobre o trabalho quando estão com a família, e eles estão no trabalho no mundo inteiro sem tempo para perder com suas famílias. Acho que as pessoas não estão tão presentes hoje. E isso vale para mim. As pessoas vivem mais em trânsito. Estamos constantemente na estrada para novos lugares e, portanto, nunca realmente presentes. E isso dá condições precárias tanto para o amor quanto para o sexo. Acho que as pessoas terão muito menos sexo do que eles fizeram nos anos 1970, assim como eles festejaram, dançaram e beberam mais naquela época”.

Ainda segundo o diretor, “As comunidades físicas são substituídas pelo Facebook, onde vamos construir pequenas versões ideais de nós mesmos”. E ele segue argumentando na entrevista que vale ser conferida. Vinterberg também defende que poderíamos aprender algo com os anos 1970. Não há dúvidas. Vinterberg defende a ideia de que deveríamos viver cada dia como se fosse o último porque, afinal, “tudo é perecível, mesmo amizades, parcerias e casamentos. O coletivo em que eu cresci, de fato, também foi”.

O diretor também defende na entrevista que o “público deve pensar por si mesmo”, que ele, como diretor, deve dar espaço para as pessoas interpretarem a sua própria história. Vinterberg afirma que se perdemos a coesão presente nos anos 1980, ganhamos em “liberdade e individualismo”. “Eu acho que é claro que o amor ainda existe, ele é imortal, mas ele tem condições mais apertadas (de existir). E o risco de continuamente estar ocupado faz com que você se esqueça de viver a vida”. Belas ponderações, devo admitir. Pena que elas não ficaram tãoooo evidentes no filme. Quem sabe em um próximo filme o diretor consiga deixar as suas ideias mais claras?

CONCLUSÃO: Até um certo ponto de Kollektivet eu tinha gostado da proposta do filme. Afinal, é sempre interessante ver a uma pessoa, um casal e um grupo que resolvem quebrar “as regras” e a normalidade e buscar formas diferentes de convivência pacífica e harmoniosa. Mas aquela coletividade acaba perdendo terreno para uma questão muito particular e individual e que acaba caindo no lugar-comum de uma disputa particular entre homem e mulher. Claro que há outras nuances nesta história e personagens complementares, mas no fim das contas Kollektivet acaba girando muito sobre a falência do casamento. Quando isso acontece, o filme perde boa parte da sua graça. Uma pena. Poderia ser melhor e mais ousado. Ainda assim, vale por algumas reflexões que sucinta.