Grace is Gone – Nossa Vida Sem Grace

Este é um bom exemplar de filme para ser bombardeado. Primeiro, porque a história é a típica que cai no gosto de quem gosta de julgar o próximo. Segundo, porque o diretor James C. Strouse não tem nenhuma pressa em acelerar o ritmo da narrativa ou de escrever o seu roteiro para agradar o espectador. Resumindo: Grace is Gone é o típico filme que fará muita gente criticar imensamente o personagem Stanley Philipps, vivido de uma maneira interessante e marcante por John Cusack, acreditando que tem a resposta certa para o que uma pessoa deveria fazer em uma situação como a dele. O problema é que jogam papéis decisivos aqui a frustração e a incredulidade. Como explicar para as suas duas filhas que você mal consegue criar sozinho quando a sua mulher está fora de que a mãe delas morreu de uma forma estúpida, sem justificativa? E olha que Philipps ainda acredita na instituição do Exército e vê como “justificável” a causa que matou a sua mulher… ou pensava que acreditava até que o pior aconteceu.

A HISTÓRIA: Stanley Philipps (John Cusack) é o chefe de uma equipe de vendedores de uma loja de departamentos típica nos Estados Unidos. Fora o tempo no trabalho, ele passa muito tempo em casa sozinho com as duas filhas, Heidi (Shélan O’Keefe) e Dawn (Gracie Bednarczyk), porque a mulher dele, Grace, serve o Exército e vive sendo chamada para missões fora. Desta vez ela está servindo na Guerra do Iraque. Um dia pela manhã, antes de ir trabalhar e depois que as filhas saem para o colégio, ele recebe a visita de dois oficiais que comunicam a morte de Grace. Sem saber como comunicar isso para as filhas, ele resolve sair com elas para uma aventura especial.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Grace is Gone): Muitas pessoas – talvez a maioria – que vá assistir a esse filme sairá do cinema ou desligará o DVD irritadas. Estarão dizendo uma para as outras: “Mas isso é atitude de um homem adulto, pai de família e que tem duas garotas em casa que são suas dependentes?”. Fácil julgar. Sempre foi e sempre será mais tranquilo apontar o dedo para a pessoa próxima e dizer tudo que ela faz de errado. Mas quem pode julgar Stanley Philipps? Ninguém. Nem mesmo alguém que tenha passado pelo mesmo. E eu explico o porquê.

O personagem vivido por John Cusack (em uma das, senão a maior interpretação de sua carreira) vive frustrado. Se sente também culpado por estar em casa enquanto a mulher faz o que ele gostaria, enquanto ela leva a vida de “herói” que ele sempre sonhou. Enquanto ela está longe de casa defendendo o seu país – algo que ele realmente acredita ser o correto -, ele está em casa cuidando de duas meninas com as quais ele não consegue se comunicar direito. Quando começamos a assistir o filme, Philipps parece um estranho em seu próprio lar, em seu próprio corpo. Cada gesto, cada olhar furtivo que Cusack lança em sua interpretação denuncia a falta de conforto de um homem vestindo uma fantasia de pai de família. E se ele queria sair correndo, tudo fica mais impossível quando chega a notícia da morte de Grace.

É dificílimo lidar com a morte de uma pessoa que a gente ama muito. Mas, algumas vezes, por mais paradoxo que isso possa parecer, é mais fácil lidar com a perda quando estamos sozinhos. Porque daí nada e nem ninguém nos impede de nos afundarmos por um tempo, de nos jogarmos dentro de um casulo sem prazo para sair. Mas tudo fica mais “pesado” ou mais “grave” quando existem pessoas hipoteticamente mais frágeis que nós mesmos dependendo de nossa força, de nossa postura. Mas que força? Que postura? Como permanecer com a coluna ereta se perdemos uma parte importante de nós mesmos expresso na forma da pessoa que escolhemos para viver conosco e que é o nosso amor? Difícil, muito difícil. Mas necessário se reerguer.

Neste cenário de perda, de frustração e de dificuldade em se comunicar é que Philipps decide sair de casa, do seu “lugar seguro”, para aventurar-se. Quem sabe no caminho ele não encontra a forma de contar para as filhas que a mãe que elas sentem falta todos os dias nunca mais irá voltar? E ele vai dirigindo, perguntando o que Heidi e Dawn querem fazer sempre, enquanto pensa no que vai fazer. (SPOILER – não leia o trecho a seguir se realmente não assistiu ao filme). Para mim um dos momentos mais duros do filme é a última ligação que ele faz para a casa deles. Na primeira, quando ele liga para ouvir a voz de Grace na secretária eletrônica e deixa uma mensagem como se ela fosse voltar para casa, achei besta, pensei que ele estivesse negando a realidade. Talvez sim. Mas depois, quando ele liga para ouvir a voz de Grace na secretária eletrônica e também para pedir ajuda, perguntando como ele deveria falar o que deveria falar para as filhas, foi de matar. Cada um realmente sabe a dor que sente e encontra, por autopreservação mesmo, a melhor forma de enfrentar a sua dor.

Agora sobre o filme propriamente dito. Gostei do ritmo natural da história, que não tem pressa alguma em chegar a respostas. James C. Strouse escreveu o roteiro e também dirige o filme. Para mim, fez um bom trabalho. John Cusack, como eu disse antes, está incrível. Não é fácil interpretar um sujeito que carrega tanto peso sobre os ombros e que, por incrível que pareça, talvez seja mais comum do que gostaríamos. As meninas que interpretam as filhas de Stanley e Grace são ótimas, especialmente Shélan O’Keefe. Gostei bastante da direção de fotografia de Jean-Louis Bompoint e da trilha sonora de – quem diria! – Clint Eastwood.

Falando em “quem diria!”, Marisa Tomei faz uma ponta quase imperceptível como a “mulher da piscina” do hotel em que eles ficam hospedados uma noite – e em que Heidi conhece um garoto com o qual tenta “flertar” e começar a fumar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante do filme é que nunca vemos a Grace que dá título ao filme, mas ela está sempre presente, como uma “entidade”. Acho que a trilha sonora de Eastwood ajuda bastante neste efeito.

Falando em “efeito”, achei curioso também como o filme acaba sendo uma crítica interessante a ignorância da Guerra do Iraque, ainda que isto não seja muito óbvio na história. Sabemos que Grace foi para o Iraque por uma “fração” de tempo em que Heidi está assistindo TV em casa. Depois, a crítica aparece em uma conversa “casual” entre Heidi, seu tio John (Alessandro Nivola) e o próprio pai. No fim das contas, assistimos em tela uma história que poderia ser real e que, provavelmente, está ocorrendo de maneiras “levemente” distintas em muitas casas dos Estados Unidos agora mesmo. Pessoas perdendo amores de suas vidas, filhas ficando órfãs por uma guerra inútil e corrompida. Mesmo sendo um “drama humano”, Grace is Gone é carregado desta crítica das mortes estúpidas e anti-naturais.

Até agora o filme foi indicado a 10 prêmios – levando para casa quatro deles. Entre os mais importantes, destaque para os prêmios de no Festival de Sundance – para o roteiro de Strouse e como prêmio da audiência para filme dramático. No Globo de Ouro o filme concorreu em duas categorias de música – trilha sonora e música – mas não levou nenhum prêmio para casa.

O interessante é que Grace is Gone teve um baixíssimo orçamento: teria custado US$ 2 milhões. Independente, sendo exibido em pouquíssimas salas nos Estados Unidos, ele até agora conseguiu uma bilheteria “ridícula” para os padrões de Hollywood: pouco mais de US$ 50 mil. Isso mesmo, “mil” e não “milhões”… hehehehehehehehe

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para o filme, enquanto o site Rotten Tomatoes publica 35 críticas positivas e 25 negativas para o filme.

CONCLUSÃO: Um filme com clara vocação para ser “amado ou odiado”, pode tanto fazer as pessoas chorarem quanto fazê-las querer bater no personagem principal – ou querer acelerar o filme até a parte inevitável. Ainda assim, achei um filme interessante por mostrar outra “ótica” na questão de perdas pela Guerra do Iraque. E, mais que isso, por tratar de forma natural o quão desajustada uma pessoa pode estar e/ou ficar com uma notícia incomunicável. Recomendado para quem consegue ver filmes sem muita ação e que gostam de observar diferentes tipos de pessoas em situações de ruptura em suas vidas.

Iron Man – Homem de Ferro

Como falei há pouco tempo na coluna Em Foco, que mantenho no site DVD Magazine, em 2008 os fãs de heróis dos quadrinhos e de personagens de desenhos animados terão alguns filmes interessantes para assistir nos cinemas. O primeiro a estrear desta “nova leva” foi Iron Man, dirigido pelo nova-iorquino Jon Favreau. Para os seguidores do herói nos quadrinhos é um alívio saber que desta vez Hollywood acertou a mão em uma adaptação para o cinema. O filme está bem equilibrado entre ação, drama e crítica ao uso de armas como “defesa” de um status quo norte-americano que defende a idéia de “polícia mundial”, apaziguador de guerras – quando, na verdade, contribui decisivamente para que muitas delas existam. Mas o bom mesmo é que o filme não exagera em nenhuma dose. Também respeita as característica do personagem que originou o filme, ou seja, mostra um Tony Stark um bocado temperamental, excêntrico e intempestivo.

A HISTÓRIA: O filme conta a história de Tony Stark (Robert Downey Jr.), o herdeiro de um conglomerado de alta tecnologia especializado na indústria armamentista. Logo conhecemos a sua veia “bon vivant”, habituado a ter as mulheres mais lindas – e descartá-las depois -, amante do que de melhor uma grande fortuna e o poder de ser o principal fornecedor do Exército dos Estados Unidos pode oferecer a uma pessoa. Mas sua vida muda de rumo quando ele é raptado por terrorista depois de apresentar o seu último armamento de destruição. Ameaçado de morte, ele dissimula que está construindo o novo míssel para os terroristas enquanto utiliza seu tempo no cativeiro para construir a primeira roupa do Homem de Ferro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Iron Man): Um dos pontos interessantes do filme é que ele mostra a mudança que ocorreu com Tony Stark tal qual ocorreu no gibi, mas sem exagerar na mensagem de “mudança radical”. Ou seja: sim, ele percebe o risco que suas armas provocam em mãos erradas e decidi mudar de rumo, produzindo uma roupa incrível que poderá ser utilizada por ele para o “bem”, mas ainda assim ele não muda radicalmente ao ponto de deixar de ser temperamental ou excêntrico. Não, Tony Stark continua sendo Tony Stark. E o bacana do filme é que ele termina justamente quando o personagem recebe outra lição: que mesmo a sua “boa intenção” de construir um traje para o “bem” pode ser manipulada e utilizada para outros interesses se parte da tecnologia utilizada por ele cair em mãos erradas.

Um dos pontos interessantes do filme é justamente este: de que não interessa a intenção que você possa ter ao inventar ou fazer algo, porque nunca terás total controle sobre isso. Ou seja: o conhecimento traz responsabilidades, porque ele pode servir para usos muito distintos do que originalmente foram planejados. Um dos exemplos clássicos disto foi o uso da descoberta da fissão nuclear, pelos alemães Otto Hahn, Lise Meitner e Fritz Strassmann, para a posterior elaboração das bombas atômicas que mataram milhares de pessoas no Japão. E ninguém pode se dizer “inocente” totalmente pelo uso indevido do conhecimento que ajuda a produzir. Afinal, o estudo da História e um pensamento crítico e dialético dela nos ensina que as inovações são absorvidas – ou tentam ser, pelo menos – pelo mercado mais cedo ou mais tarde. Como diria um professor meu do doutorado, Miguel Angel Sobrino, quem produz conhecimento tem que cuidar para saber que as inovações podem ser instrumentalizadas pelo sistema e utilizadas contra os “interesses originais” de quem encontra o conhecimento. E daí é preciso saber e definir “de que lado você está” ou prever os efeitos bons e ruins que o conhecimento pode trazer.

Mas voltando ao filme: Iron Man ganha pontos ao mostrar um Tony Stark imprevisível, temperamental, um sujeito que cresceu em um sistema de vida – cheio de grana – que o deixa um bocado distante do “mundo real” ou, digamos, pelo menos lhe deixa ignorante a respeito de boa parte do que existe fora do seu quintal de fartura. Ele acaba conhecendo um pouco do que existe além do seu “charco” e resolve mudar um pouco de postura – até porque se sente responsável por alguns absurdos que encontra no caminho. Ainda assim, não muda radicalmente. Não vira um “homem generoso” que distribui seu dinheiro para os pobres. Não, ele continuará multimilionário e poderoso, é claro. Ainda que realmente siga com a idéia de que sua Indústrias Starke deixe de fabricar armas.

No geral o filme é muito bem conduzido pelo diretor Jon Favreau, com uma competente edição de Dan Lebental e uma direção de fotografia equilibrada de Matthew Libatique. O criador do personagem, Stan Lee, faz mais uma de suas aparições à la Hitchcock – desta vez, cercados de mulheres. hehehehehehehe. Robert Downey Jr. mostra que é um grande ator – algo que já podia ser conferido em A Guide to Recognizing Your Saints, entre outros. Terrence Howard está bem no papel do coronel James “Rhodey” Rhodes, personagem que faz o elo de ligação entre o Exército e Tony Stark – e que acaba sendo mais do que um contato, mas um verdadeiro amigo do excêntrico industrial. Jeff Bridges mudou bastante para encarnar bem Obadiah Stane, o “braço-direito” do pai de Stark e que sigue sendo “o segundo homem no comando” da empresa depois que ela passa para Tony. Para ser franca, ele me irritou um pouquinho no final, porque me pareceu muito maniqueísta, mas tudo bem. Acho que o problema não foi tanto do ator, mas do roteiro mesmo, que deu uma certa “derrapadinha” no desfecho – me refiro a parte da explosão do reator. Gwyneth Paltrow está razoável – como sempre, aliás. No mais, sem nenhum outro destaque – talvez Faran Tahir como Raza, líder dos terroristas; e o inglês Shaun Toub como o prisioneiro médico que ajuda Stark no cativeiro, Yinsen.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Prestando atenção nos créditos do filme é que percebi que o diretor faz uma “ponta” como Hogan “Happy”, ex-boxeador que nos quadrinhos é motorista e assistente de Tony Stark – e que, no futuro, chegou a virar até um dos vilões nas HQs do Homem de Ferro, chamado de Freak, depois de ter sido exposto a um poderoso raio de cobalto.

Para quem não sabe, o Homem de Ferro foi publicado pela primeira vez em abril de 1963, criado por Stan Lee, Larry Lieber, Don Heck e Jack Kirby. O personagem de Tony Stark foi inspirado na figura excêntrica do empresário e cineasta Howard Hughes (retratada em vários filmes, incluindo o filme de Martin Scorsese, The Aviator/O Aviador). Nas palavras de Stan Lee, produtor executivo do filme Iron Man, Hughes era “um inventor, aventureiro, multimilionário, galanteador e também um doido”.

O filme tem um roteiro escrito a oito mãos: por Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum e Matt Holloway. Por coincidência, o mesmo número de pessoas responsável pela criação do personagem para os quadrinhos. Da trupe responsável pelo roteiro, os mais “conhecidos” são Mark Fergus e Hawk Ostby, responsáveis por roteiros como o de Children of Men (Filhos da Esperança) e First Snow (Marcas do Passado). Uma curiosidade: Art Marcum e Matt Holloway são os responsáveis pelo roteiro de outra adaptação dos quadrinhos prevista para estreiar este ano, a de Punisher: War Zone, que traz para as telonas novamente o personagem de Frank Castle/O Justiceiro. Mais uma vez eles assinam o roteiro ao lado de outras duas pessoas: Nick Santora (conhecido por ser co-produtor e um dos roteiristas de Prison Break) e Kurt Sutter (também co-produtor e um dos roteiristas da série The Shield).

Iron Man está se saindo muito bem tanto no quesito bilheteria quanto nas críticas. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 140 milhões, arrecadou, apenas nos Estados Unidos e até o dia 18 de maio pouco mais de US$ 223 milhões. Apenas na primeira semana, sendo exibido em 4.105 salas de cinema, ele arrecadou pouco mais de US$ 102 milhões. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,2 para o filme, enquanto que o Rotten Tomatoes publica 183 críticas positivas e apenas 14 negativas.

Com certeza, tanto pelo sucesso de crítica quanto de bilheteria e, claro, pela maneira com que o filme termina, este será apenas o primeiro de muitos da grife Homem de Ferro. Que os próximos sejam tão bons quanto.

O diretor Jon Favreau consegue dar um bom “salto” na carreira com este Iron Man. Afinal, antes ele não tinha feito nenhum filme de destaque. Na sua filmografia, consta Zathura: A Space Aventure (Zathura: Uma Aventura Espacial); Elf (Um Duende em Nova York); e Made (Crime Desorganizado).

Para os fãs “extremistas” dos quadrinhos talvez possa incomodar um pouco a “adaptação” das origens do personagem. Não acho que seja o caso, afinal, não tem mais muito a ver contar o “nascimento” do Homem de Ferro ambientado na idéia anticomunista original, mostrando Tony Stark sendo capturado durante uma visita ao Vietnã. Até porque atualmente o vilão da “vez” do público estadunidense é outro “ismo”: tiraram de cena o já “vencido” comunismo para colocar na mente geral o medo ao terrorismo. Tempos modernos, meu caro leitor (ou seriam pós-pós-modernos? ultra-modernos?).

Para quem gosta de saber das locações, Iron Man foi rodado em Los Angeles; em Playa Vista, Lone Pine, Olancha e Rosamond, todas cidades na Califórnia. As cenas do cativeiro e que dão a idéia de uma parte do Afeganistão foram feitas em estúdio.

A armadura final do Homem de Ferro que aparece no filme foi inspirada nas ilustrações de Adi Granov da recente série do personagem chamada Extremis.

O vilão que o Homem de Ferro enfrenta neste primeiro filme tem o nome de Monge de Ferro. Ele mede três metros de altura e pesa aproximadamente 360 quilos. Segundo os produtores do filme, foi preciso o trabalho de cinco pessoas para operá-lo.

CONCLUSÃO: Uma interessante e bastante fiel adaptação dos quadrinhos para o cinema, a primeira que transporta o personagem do Homem de Ferro para a tela grande. Bem equilibrado entre ação, drama e suspense, o filme também questiona o uso da tecnologia, da ciência e do conhecimento de maneira diferente a aquela inicialmente planejada. Vale pelo conjunto da obra e pela interpretação inspirada de Robert Downey Jr.

War/Dance

Impressionante o ponto em que pode chegar a maldade humana. Devo dizer que fiquei mal com esse filme. E claro que o mal que eu fiquei tem a ver com as minhas crenças e minhas necessidades e não, necessariamente, pelo que o filme realmente é. Dito isso, comento que eu estava atrás deste War/Dance há alguns meses, mas nunca conseguia assistí-lo. Por fim consegui. E me fez um estrago importante, ainda que necessário. É um filme duro, muito duro. E belo, belíssimo. Incrível como a crueldade e a beleza podem dividir um mesmo espaço e, mais, compartilhar das mesmas vidas. Mas talvez aí, justamente neste ponto, esteja o mais incrível do filme: nos mostrar como a pior das maldades, que a vida mais vilipendiada do mundo, pode também renascer e sonhar. A esperança das pessoas reais que aparecem neste documentário é algo impossível de medir. E contagiante. Ainda que fique um gosto amargo na boca, a sensação de que algo importante pode ser feito de maneira muito simples acaba sendo maior.

A HISTÓRIA: O documentário dirigido por Sean Fine e Andrea Nix conta a história da Escola Primária de Patongo, localizada no Campo de Refugiados da Zona de Guerra de Patongo, no Norte de Uganda. Pela primeira vez na história do Concurso Nacional de Música a tribo Acholi participa com uma escola na competição. Naquele ano, 20 mil escolas de todo o país competiram por uma vaga no concurso, e a Escola Primária de Patongo conseguiu ser selecionada. O filme mostra os preparativos para o concurso de música, dança e tradições ao mesmo tempo em que ressalta a história de Rose, Dominic e Nancy, pré-adolescentes marcados pela situação de conflito permanente na região – eles tiveram alguns de seus pais ou parentes mortos pelos guerrilheiros, além de contarem com outras marcas de abuso, violência, medo e de privação da liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a War/Dance): O filme inteiro é marcado por umas imagens muito boas, tecnicamente falando, e fortes em sua expressão. Ainda assim, depois de algumas imagens muito boas iniciais, War/Dance começa a ouvir o depoimento de Rose, Dominic e Nancy sobre as suas vidas e o que lhes aconteceu. Inicialmente me incomodou um pouco o estilo “falar direto para a câmera”. Achei que os depoimentos ficaram, assim, muito “forçados” ou mecânicos. Me incomodou porque sempre há outras maneiras de se ouvir um depoimento sem que pareçam tão “forçados”, mas depois as histórias dos pré-adolescentes vão se desenvolvendo e vê-los cantando e dançando, principalmente, é algo mágico e que quebra qualquer idéia anterior de artificialidade.

War/Dance é realmente impressionante. Primeiro porque conta uma história que muitos poderiam considerar “banal”, ou seja, conta a história da participação de uma pequena e esquecida escola primária nos “cafundós” de Uganda em um concurso de música, danças e tradições. Essa seria a típica história que ninguém nunca conheceria ou ouviria falar se não fosse pelo filme. Típica história também ignorada por jornalistas e governos mundo afora. Mas é justamente uma história simples como esta que comove porque mostra uma parte da realidade pela ótica das pessoas que vivem ali – e que sempre são estereotipadas – e, mais que isso, mostra a superação destas pessoas por um sonho. Lindo, realmente lindo.

Como comentei antes, fiquei admirada de como a crueldade pode andar tão de braços dados com a resistência, como o medo pode estar tão ligado a esperança e a superação, de como a miséria pode ser apenas o pano de fundo de vidas que sonham e que lutam mais com a suas consciências do que com a sua fome. No filme existem um ou dois takes de crianças vivendo a miséria extrema, como um garotinho que fica catando grãos de arroz depois que a população refugiada reparte os sacos de donativos, mas não é este o foco da história. O filme de Sean Fine e Andrea Nix quer mesmo descobrir o que pensam aqueles jovens, o que eles sentem por estar ali, sendo ameaçados constantemente pela violência, pelas guerrilhas e pela perda de pessoas que amam. O que pensam e sentem jovens que não podem usufruir de sua liberdade plena e que só tem a memória e os sonhos como aliados.

War/Dance não mostra cenas de violência, mas tem uma narrativa do terror tão impressionante que torna esta história algo muito forte. E dói ainda mais ouvir estas histórias das bocas dos jovens que a viveram literalmente na pele. Dói, mas é fundamental ouvir. Assim como é fundamental ver a beleza que a música e a dança trazem para estas vidas, iluminando os olhos desta garotada acostumada a ver absurdos; enchendo de esperança e de encanto os corações e mentes algumas vezes cansados da lida diária de trabalho ou de luta contra os seus “fantasmas”. Lindo, realmente. Nesta parte o filme é muito poético, com imagens realmente incríveis.

E claro, quando a história vai chegando cada vez mais perto da competição, o espectador não foge da “armadilha” de ficar torcendo pela escola de Patongo. Digo que é uma armadilha porque, afinal, você está torcendo por algo que já aconteceu, que é passado, para algo que sua torcida não fará mais nenhuma diferença. Ao mesmo tempo, senti medo por eles… afinal, toda aquela vontade de ganhar, se fosse frustrada, seria realmente terrível. Especialmente para aquelas crianças e jovens.

Gostei muito também da idéia de resgate e preservação das tradições que o filme passa com a história daquelas pessoas. Afinal, como dizem em um certo momento, a música e suas tradições são valores que nem a guerra pode tirar deles. A verdade é que uma pessoa se conhece muito melhor quando descobre de onde veio, que elementos, costumes e signos de suas “linhagens” lhe acompanham até hoje – direta ou indiretamente.

Recomendo o filme muitíssimo, mas para pessoas não muito sensíveis. Como eu disse, ele não tem cenas de violência, mas tem uma narrativa dura sobre os abusos que foram feitos contra aquelas pessoas, sobre o extremo da maldade humana. Também tem cenas belíssimas e uma idéia muito forte de quebra de estigmas, de quebra de pré-conceitos e de esperança. Para quem pode suportar algumas verdades muito duras e que está preparado para querer “sair correndo para alguma parte” para fazer um gesto pequeno que signifique algo, eu recomendo.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: War/Dance foi indicado ao Oscar 2008 – mas perdeu a estatueta para Taxi to the Dark Side, um filme que ainda não tive o prazer de assistir. Além do Oscar, ele foi indicado a muitos outros prêmios – ganhando 15 deles até agora, com destaque para os prêmios dados pelo público nos festivais de Aspen, Wisconsin e Woodstock. Sean Fine e Andrea Fix ganharam ainda o prêmio como melhores diretores no Festival de Sundance.

Antes não tratei de um dos pontos fortes do filme: além de contar histórias de perdas, War/Dance toca no tema do ultrajante sequestro de crianças pelas tropas rebeldes. Elas são levadas para as selvas e treinados para matar – algo que vai mudar as suas vidas para sempre. Forçadas pelos rebeldes, elas algumas vezes tem que matar pessoas que conhecem. Algo inconcebível, aterrador. Nesta parte, a hora em que Dominic pergunta sobre seu irmão desaparecido e, mais, pergunta a razão dos rebeldes sequestrarem crianças como ele mesmo “sabendo que isto é errado”, é de romper qualquer coração. Tudo se resume a luta por poder, sempre. Realmente um belíssimo trabalho dos diretores.

Segundo as notas dos produtores no site do filme – ótimo, diga-se – o campo de refugiados em que a história é contada abriga 60 mil pessoas. Eles não tem eletricidade e nem água corrente, além de estarem permanentemente inseguros sobre possíveis ataques – ainda que tenham a “segurança” permanente do exército. Para se ter uma idéia desta insegurança, um ano antes do filme ser feito, 29 crianças foram sequestradas, retiradas a força do colégio local, pelos rebeldes.

Uma das coisas bacanas do site é que ele tenta atualizar as pessoas da vida de Rose, Dominic e Nancy. No filme, Rose tem 13 anos e conta a sua história após ter perdido os pais assassinados. Dominic, 14 anos, escapou do território dos rebeldes depois de ter sido sequestrado por eles, separado de sua família e de ter sido obrigado a servir para os rebeldes com armas nas mãos. Nancy, 14 anos, perdeu o pai, morto pelos rebeldes, e agora cuida dos irmãos enquanto a mãe viaja para trabalhar e ajudar outras pessoas. No site os produtores publicam mais informações de cada um.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,7 para o filme, enquanto que o Rotten Tomatoes publica 37 críticas positivas e seis negativas. Ele não é uma unanimidade… ainda assim, achei a nota no IMDb muito baixa.

Sean Fine vêm de uma carreira basada essencialmente em produções para a televisão – tendo no currículo trabalhos como diretor de fotografia para a National Geographic e para a série Taboo, da qual é também produtor e roteirista. Andrea Nix trabalhou com ele na série Taboo, além de ter experiência em documentários como Reptile Wild. Resumindo: os dois tem experiência como documentaristas e vêm de uma grande parceria com a National Geographic – o que explica, talvez, um pouco da preocupação em “depoimentos para a câmera”.

CONCLUSÃO: Um filme forte e belo, que toca em temas como o sequestro de crianças para engrossar o número de guerreiros em tropas rebeldes, a falta de liberdade e os problemas de um campo de refugiados, a violência e o medo em uma zona de conflito e, ao mesmo tempo, aborda com um trabalho de direção muito bom a esperança que a música, a dança e os resgates de tradições trazem para crianças e jovens expostos às condições acima comentadas. No fundo, é um belo filme sobre a luta contra a brutalidade, sobre atos simples que podem trazer esperança e brilho nos olhos para pessoas esquecidas pela dita “humanidade”. Recomendo, especialmente para quem pode suportar narrativas de violência – mas sem cenas do mesmo – fortes. Um belíssimo filme, realmente.

The Savages – A Família Savage

As pessoas sofrem e tem problemas, mas muitas vezes não se dão conta disso. Até que algo realmente forte acontece em suas vidas para dar uma “chacoalhada” geral no que parecia até então ser um quadro estável e controlado. The Savages é um filme que eu tinha curiosidade de ver há algum tempo porque ele foi aparecendo, aqui e ali, como indicado a vários prêmios. Nunca como melhor filme, mas sempre em categorias de roteiro e de interpretações de seus atores principais. E realmente o trio principal de atores, em especial Laura Linney – para mim na melhor interpretação de sua carreira – e Philip Seymour Hoffman, estão desconcertantes. Um filme sobre família, sentimentos mal resolvidos e a confrontação de um estado na velhice que infelizmente pode acometer a qualquer pessoa – inclusive aquelas que mais amamos.

A HISTÓRIA: Wendy (Laura Linney) e Jon Savage (Philip Seymour Hoffman) são dois irmãos que vivem distantes e que não mantêm praticamente contato algum um com o outro. Wendy é uma escritora freelancer que tem como verdadeira vocação escrever peças de teatro, mas nunca conseguiu montar nenhum de seus textos ou alguma ajuda para financiá-los. Uma noite ela recebe um recado de que seu pai, Lenny (o incrível Philip Bosco) está apresentando os primeiros sinais de demência. Ela então liga para Jon, seu irmão que trabalha como professor universitário e que está envolvido em um novo ensaio sobre o trabalho de Bertold Brecht, para que os dois possam tomar uma atitude juntos. Ele não considera a situação ainda preocupante. Até que a mulher com quem Lenny morava morre, e os irmãos Wendy e Jon tem que assumir a responsabilidade de cuidar do pai que começa a apresentar o Mal de Parkinson.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Savages): Lidar com a fragilidade humana não é algo fácil. Verdade que todos sabemos que um dia vamos morrer, mas assistir ao deterioro de nossas capacidades é algo duro, triste. Quando acontece conosco, talvez não seja tão complicado, porque aprendemos a lidar com a dor e com os demais problemas que surgem na vida como mecanismo de sobrevivência mesmo. Mas tudo piora quando isso ocorre com alguém que amamos, especialmente se tratando de pai ou mãe.

O interessante deste filme, contudo, é que ele não suaviza em aspecto algum. Afinal, ele não tenta contar uma “historinha da carrochinha” ao enfeitar o que acontece com a família dos Savage. Não. A diretora e roteirista Tamara Jenkins deixa claro, desde o início, que aquelas três pessoas envolvidas com o mesmo sobrenome não tem, na verdade, muita intimidade. Elas carregam o mesmo sangue e um laço familiar impossível de negar, mas também levam muita incompreensão, abandono e desconhecimento de uns com os outros. Ainda assim, a doença do pai de Wendy e Jon acaba aproximando-os de uma maneira tocante e forte – a ponto de confrontar os irmãos com a vida que estão levando e de fazer com que eles reajam a tudo que lhes deixa infelizes. A verdade é que perdas importantes ou a exposição um tanto prolongada a fragilidade humana faz qualquer pessoa pensar sobre as decisões que anda tomando e sobre o rumo que vem dando para a sua vida.

O roteiro tem algumas linhas realmente preciosas. Ele não alivia, como eu disse antes, mas não chega a ser cruel. Na verdade, é mais realista do que muita gente gostaria de admitir. Uma das primeiras grandes falas do filme é quando Jon diz a sua irmã que a conversa que eles estão tendo de sua vida pessoal não é “uma terapia, mas é a vida real”. Demais! Sempre me pareceu hipócrita os familiares que crêem que sabem muito da sua vida e que podem dar opinião sobre você, sendo que na verdade eles nem lhe conhece  ou sabe de verdade o que você pensa ou sente. Claro que Jon está tendo uma postura de auto-defesa e quer afastar a irmã que pode colocar o dedo justamente em sua ferida – a partida de Kasia (Cara Seymour), sua namorada de alguns anos, de volta para a Polônia. Sempre fui da opinião que é importante, algumas vezes, alguém fazer esse papel, mas que normalmente as pessoas que tentam fazer isso não passam muitas vezes de serem apenas franco-atiradores, sem conhecimento de causa. Não é o caso de Wendy, claro – mas isso ela mesma precisa descobrir sozinha depois.

Além de uma grande e contundente radiografia das relações entre pessoas de uma mesma família, uns “estranhos” que compartilharam de uma mesma realidade por algum tempo; assim como de uma reflexão sobre a fragilidade humana, The Savages trata da redenção que todos nós somos capazes de fazer com o nosso passado e com tudo aquilo que nos ajudou a formar e que nos faz mal. Sempre me interessei muito pelo tema de “o que faz você ser o que você é”, ou seja, o quanto de você depende da sua criação familiar, de seu entorno de amigos, de sua educação, de seu “meio” (país e cultura onde nasceu), de seus hábitos, do que aconteceu com você na vida e de como você reagiu a isso – seu próprio aprendizado. E quanto mais eu penso a respeito, mais eu tenho certeza que muito depende do que ocorreu na fase da sua criação familiar, de como seus pais lhe trataram e educaram.

Neste ponto The Savages também entra fundo nas “marcas” que uma pessoa pode levar para a vida toda daquela fase “familiar”. E o filme mostra, de uma maneira bem interessante, de como muitas pessoas não se dão conta de que muitos de seus problemas vêem de muito longe, quase do “berço”… na verdade, acredito que tem pessoas que vão morrer sem descobrir isso. Mas o importante é que nossos personagens conseguem a sua redenção e conseguem, a sua maneira, sobreviver aos cortes e feridas ainda não bem cicatrizadas e saem para fora para respirar o ar puro das novas oportunidades. A vida sempre é feita de escolhas, e sempre há o caminho de quem quer dar certo e daquele que vai passar o resto dos seus dias reclamando.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, Laura Linney, para mim, apresenta aqui a grande interpretação da sua carreira. Ela realmente mereceu ser indicada para o Oscar como atriz coadjuvante – e, na verdade, acho que ela deveria ter ganho no lugar de Tilda Swinton. Philip Seymour Hoffman está mais uma vez ótimo – aliás, esse ator é increvelmente regular em seus papéis, nunca o vejo “mal” em algum filme. Aos 77 anos de idade, Philip Bosco tem uma interpretação muito sensível e impressionantemente equilibrada como o patriarca dos Savage. Além deles, vale citar o trabalho de Peter Friedman como Larry, o vizinho casado de Wendy que mantêm um caso com ela; e Gbenga Akinnagbe como Jimmy, um dos enfermeiros que passa a cuidar de Lenny no asilo em que ele acaba ficando depois da morte da sua namorada.

Antes de The Savages, a diretora Tamara Jenkins havia dirigido três curtas-metragens e um longa, este último chamado Slums of Beverly Hills, de 1998, com Natasha Lyonne, Alan Arkin e Marisa Tomei.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,6 para o filme. Achei baixa. Os críticos gostaram mais do filme: o Rotten Tomatoes registra 129 críticas positivas e apenas 14 negativas para a produção.

The Savages realmente foi filmado nas cidades em que a história é contada, ou seja, Nova York, Buffalo (ambas no Estado de Nova York), Sun City e Phoenix (ambas no Arizona).

O filme foi indicado a um total de 20 prêmios, incluindo as indicações ao Oscar por roteiro e atriz coadjuvante, e ganhou seis deles, com destaque para o prêmio de melhor roteiro conferido pelo Círculo de Críticos de Cinema de San Francisco, pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles e do prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos; além de prêmios para o ator Philip Seymour Hoffman conferidos pela Associação de Críticos de Cinema de Ohio Central e no Independent Spirit Award.

Considerado de produção independente, The Savages conseguiu uma bilheteria modesta nos Estados Unidos: até o dia 27 de abril ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 6,6 milhões.

Na parte técnica, merece destaque o trabalho do diretor de fotografia W. Mott Hupfel III e do compositor Stephen Trask pela trilha sonora do filme – só fui descobrir depois que ele também assina a trilha de Feast of Love, outro trabalho interessante dele e um filme bem gostoso.

CONCLUSÃO: Um filme sem papas-na-língua sobre a realidade de uma família que se separou com os filhos ganharam a sua independência e que volta a se reencontrar quando o patriarca fica doente. Com um roteiro cuidadosamente escrito e uma direção competente, o filme dá todo o espaço para que seus atores se sobressaiam em diálogos realistas e provocadores. Uma bela história sobre a fragilidade humana e o poder das pessoas em fazerem mal umas as outras e, ao mesmo tempo, em conseguirem a cura e a redenção própria no difícil desafio de viver.

Enchanted – Encantada

Realmente eu não tinha interesse em assistir a esse filme. Nada nele me atraia – até porque a única “razão” justificável para assistí-lo, ver ao ator Patrick Dempsey em cena, não era suficientemente forte. Explico: para ver esse bonitão atuando, vale mais a pena assistir a Grey’s Anatomy (ainda que a série não seja uma “Brastemp” mas, pelo menos, trata de dramas humanos e não de uma fantasia cor-de-rosa). Bem, mas acabei assistindo a Enchanted por “encomenda”, a pedido do editor de um site para o qual estou escrevendo alguns textos. Não digo que meu tempo foi totalmente jogado fora, mas este filme definitivamente é muito “Disney” para o meu gosto. Digo isso porque ele é carregado demais de uma “fantasia” já vencida, na minha opinião. Exceto para as crianças, claro. Para os “pequenos” ele deve ser interessante. Mas, diferente do anteriormente comentado Penelope – que eu tinha interesse de assistir porque gosto da Christina Ricci e tinha curiosidade de ver a James McAvoy em outro papel que não fosse em Atonement -, que trata também de transportar uma história de conto-de-fadas para a “vida real”, esse Enchanted me pareceu muito óbvio, um tanto arrastado e um bocado chato – pelo menos para os adultos. Espero ver um filme melhor em breve… quem sabe algo mais denso para compensar tanto açúcar – hehehehehehehehe.

A HISTÓRIA: Em um bosque encantado cheio de animais falantes, uma linda garota espera por seu príncipe encantado, que lhe dará um beijo de “amor eterno”. O filme começa como os antigos desenhos da Disney, até que a rainha e mãe do príncipe resolve se livrar da garota que irá se casar com ele. A rainha joga a garota em um poço encantado e ela surge em um bueiro em Nova York. Perdida na cidade, Giselle (Amy Adams) é encontrada pelo advogado Robert Philip (Patrick Dempsey) e sua filha Morgan (Rachel Covey). Mas o príncipe Edward (James Marsden) logo aparece no encalço de sua amada, trazendo para o mundo real vários outros personagens do conto-de-fadas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes da história, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Enchanted): Como eu dizia lá no princípio, o filme é por demais “Disney” antiga. Desde Roger Rabbit – que está completando 20 anos – a mistura de desenho animado com atores reais não é mais novidade – e evoluiu bastante, desde então. Ainda assim, em Enchanted a escolha do diretor Kevin Lima, um amante do mundo Disney, segue pelo caminho do tradicionalismo. Tanto que as inserções animadas no mundo real são bem limitadas e resgatam uma forma de “traços de desenhos” antiga da Disney – resgatando a animação 2D. Para crianças deve funcionar.

Como comentei lá no início também, o filme é muito, mas muito óbvio. Todos nós sabemos, logo que a atriz Amy Adams aparece no mundo real, o que irá acontecer entre ela e Patrick Dempsey. A partir daí e até o final não há surpresa alguma. E magia? Me desculpem os extremamente românticos, mas até a “sintonia” entre os dois não me convenceu. Dempsey faz as mesmas caras, bocas e esbanja aquele sorriso que faz muita gente suspirar por aí do seu personagem Dr. Derek Shepherd de Grey’s Anatomy. Igualzinho, sem colocar ou tirar nada. A única diferença é que em Enchanted ele é um pai que foi “deixado” por sua mulher e que cuida sozinho de uma menininha encantadora. Nada mais. Mas não senti com ele e a atriz principal do filme a sintonia ou o carismo que vi, por exemplo, entre Christina Ricci e James McAvoy no recentemente comentado Penelope.

Também tenho que admitir que me irritou um pouco o estilo “quase” musical do filme. Toda a parte da cantoria no parque, por exemplo, achei por demais brega. Ok, foi tudo muito bem filmado e coreografado. Lembrou algumas sequências de musicais urbanos feitos por Hollywood. Mas, de verdade? Dispensável. Assim como todo aquele final… depois do tão “esperado” e previsível beijo para salvar a Giselle, toda a transformação e “loucura” da Rainha Narissa (Susan Sarandon, coitada!), era totalmente passível de ser cortada, convenhamos. Não leva a lugar algum e não refresca em nada a história. Mas enfim…

Além dos atores já citados, vale citar a participação de Idina Menzel como a namorada de Robert, Nancy Tremaine; e de Timothy Spall como Nathaniel, o braço direito da Rainha má que, sem nenhuma lógica, vira a casaca no final. E não me venham dizer que ele foi influenciado pela televisão, porque nem isso me convence. hehehheheheheheheehehe. E duas curiosidades: a veterana atriz Julie Andrews participa do filme como narradora da história; enquanto o diretor Kevin Lima dá a voz ao esquilo Pip em sua passagem “muda” (melhor dizendo, falando através de grunhidos) em Nova York. E a filha dele, Emma Rose Lima, dá a voz para três personagens: o pássaro azul, o falcão e a Rapunzel.

Semi-musical, o filme foi indicado a três Oscar pelas canções Happy Working Song, So Close e That’s How You Know. Perdeu, na decisão, para Falling Slowly, uma linda composição de Glen Hansard e Makéta Irglová para o filme Once.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes que alguém envie vírus para o meu computador como represália indignada, quero ressaltar que a nota acima leva em conta que eu já passei dos 10 anos de idade. O filme ganharia uma nota melhor, talvez um 8, se eu fosse indicá-lo para as crianças. Afinal, tem toda uma parte de “acreditar nos seus sonhos e no amor” e de ver a fantasia como algo tão paupável como um sorvete que se compra no parque que pode ser valorizada. Mas como escrevo, inicialmente, para adultos, acho que o filme realmente é previsível e arrastado demais. Por isso a nota 5.

O filme, que custou impressionantes US$ 85 milhões, se deu muito bem na bilheteria. Apenas nos Estados Unidos ele arrecadou pouco mais de US$ 127,7, milhões. A Disney mostra que ainda está podendo. E com um filme no estilo tradicional, deixando para trás as “inovações” narrativas e de estilo de várias histórias inspiradas em seus desenhos. Eu diria que é quase uma revanche que deu certo. Vamos ver agora se eles vão continuar com seu resgate do “velho jeito de fazer” animações e filmes…

No site IMDb o filme registra a nota 7,7 conferida por seus usuários, enquanto no Rotten Tomatoes Enchanted acumula impressionantes 133 críticas positivas e apenas nove negativas.

O filme foi indicado a outros 14 prêmios, além dos três Oscar já citados para canções, e saiu vencedor em duas premiações: como Melhor Filme para a Família dado pela crítica na premiação da Broadcast Film Critics Association (que reúne desde 1995 um total de 192 críticos de televisão, rádio e meios online do Canadá e dos Estados Unidos), e como Melhor Filme de Ação para a Família no prêmio da Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix. Nenhum dos dois prêmios é expressivo, mas pelo menos o filme ganhou algo…

CONCLUSÃO: Um filme à moda antiga da Disney, que resgata tanto sequencias de animação em duas dimensões – na parte inicial – quanto um roteiro tradicional sobre a busca do amor verdadeiro. Deve agradar às crianças, mas adultos um pouco exigentes devem sentir que falta algo na história. E realmente falta, praticamente tudo – desde um roteiro que não seja extremamente óbvio até atores com melhor sintonia.