Ocean’s Eight – Ocean’s 8 – Oito Mulheres e um Segredo

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Sim, você já viu essa história antes. Não há novidade por aqui. Mas algo que não é tão comum de se ver é um elenco estelar e talentoso de atrizes desse naipe reunido em uma mesma produção. Assim, Ocean’s Eight se garante pelo seu elenco. Sem dúvida o ponto alto da produção. Mas não o único, como manda a cartilha da “grife” iniciada com Ocean’s Eleven – no já distante ano de 2001. Os figurinos, a edição ágil, a direção de fotografia e a direção também são pontos de destaque. O roteiro… bem, é mais do mesmo do gênero – e com menos criatividade que outros que o precederam.

A HISTÓRIA: Em um presídio, Debbie Ocean (Sandra Bullock) é entrevistada antes de ter direito a sair em condicional. Ela admite que teve um irmão criminoso e que parte da sua família também aderiu à vida de crimes. Mas ela garante que não é assim, que apenas errou ao se apaixonar pela pessoa errada. Ela parece se emocionar, e diz que saindo da prisão, tudo que ela quer é uma vida normal. Mas essa “vida normal” para ela não é nada comum. Durante o tempo que ficou presa, tudo que ela fez foi planejar um roubo ousado. Para colocar ele em pé, ela procura grandes parceiras, começando por Lou (Cate Blanchett).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desse filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ocean’s Eight): Ufa amigos e amigas! Finalmente coloco, com esta crítica, os meus comentários atrasados em dia! Assisti a Ocean’s Eight ainda em junho, mas como saí de férias por 15 dias e tive uns dias de correria pré e pós férias, estou conseguindo falar dele só agora. Depois desta crítica, bóra lá voltar ao cinema e retomar algumas pesquisas aqui para o blog. Bóra correr atrás porque já começamos o segundo semestre do ano!

Então, como eu disse antes, Ocean’s Eight é um filme divertido, com um grande elenco e bom ritmo. É puro entretenimento. Você se diverte, especialmente, com a entrega das atrizes e com as “embaixadinhas” e a troca de passes que elas fazem. Todas sabem dominar a bola muito bem, e entregam o que a audiência espera – viram que aproveite o último dia da Copa 2018 para usar umas “tiradas” futebolísticas, não é mesmo?

Mas a história em si, é bastante previsível. O roteiro de Gary Ross e Olivia Milch, que trabalharam sobre uma história de Ross e com base nos personagens criados por George Clayton Johnson e Jack Golden Russell, segue totalmente a cartilha dos outros filmes da grife. Ou seja, temos a uma protagonista – mulher, desta vez – que planeja um roubo incrível e que, para conseguir executá-lo, conta com vários outros especialistas – todas mulheres, nesse caso.

Então o início, o meio e o fim de Ocean’s Eight não fogem da cartilha e do que é previsto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mesmo a “surpresinha” no final, o roubo dentro do roubo, não é exatamente uma graaande surpresa. Isso já foi utilizado antes. O que surpreende sempre, nestes filmes com “crimes perfeitos”, é como a segurança de eventos/locais que deveriam ser quase impossíveis de serem ultrapassados podem falhar tanto.

No caso deste filme especificamente, parece um tanto difícil de engolir a trapalhada dos seguranças que acompanham Daphne Kluger (Anne Hathaway) e tudo que se segue após o sumiço e o “encontro” da joia mega valiosa. Ok, a edição ajuda, assim como o carisma das atrizes, mas é um tanto difícil de engolir todo aquele desenrolar envolvendo esse colar especificamente. Mas ok, ninguém quer ser muito exigente em um filme assim – até porque sabemos qual é a sua “pegada”.

Também achei um tanto “forçada” a aparição de Daphne no KG das mulheres e como todas aceitaram com tanta facilidade dividir a fortuna incluindo ela também. A pequena vingança particular de Debbie Ocean contra o ex, Claude Becker (Richard Armitage) também pareceu uma saída um tanto preguiçosa – afinal, praticamente elemento nenhum corroborava aquela teoria. Mas beleza, vamos acreditar que Debbie e Cia. são realmente geniais e conseguiram enganar a todo mundo.

Como este é um filme de puro entretenimento, o importante é nos focarmos menos na história – que, de fato, é fraquinha por ser previsível e com uns “exageros” para que tudo se encaixe e dê certo apesar de parte da história ser bastante improvável – e mais nos outros elementos que compõem uma produção do gênero. Assim, o elenco faz um ótimo trabalho; temos uma ótima e envolvente direção e edição; uma bela direção de fotografia e trilha sonora. Tudo isso junto nos entrega um filme tecnicamente bem acabado e que passa “rápido”.

Um outro ponto interessante e que não pode ser ignorado é que vivemos uma era de valorização crescente do talento feminino. Nesse cenário, Ocean’s Eight coloca em primeiro plano papéis que há tempos atrás eram masculinos. Hoje, mulheres estão cada vez mais filmes de ação como líderes da narrativa. E isso é muito bacana e interessante. Afinal, muitas vezes, elas tem um traquejo e uma sensualidade que não vemos nos homens.

Com isso, não defendo que todos os filmes de ação devam ser protagonizados por mulheres. Não, não! Mas quem sabe pode ser interessante termos mais um tipo de equilíbrio entre filmes estrelados por homens e mulheres nesse gênero? Isso pode ser bastante enriquecedor para o cinema – e fazer sentido para o público, cada vez mais preocupado com a questão da igualdade entre os gêneros.

O que podemos ver, com esse Ocean’s Eight, é que ótimas atrizes sim podem dedicar o seu talento para filmes mais descompromissados e que tem um propósito bastante específico. Filmes de ação, policiais e cheios de trama sempre são bem-vindos para “refrescar” o cinema – e dar uma pausa nas produções mais sérias e filosóficas.

Essa produção tem várias qualidades que fazem a experiência valer a pena. Só talvez poderia ter tido um roteiro um pouco mais inovador – as referências à grife foram bacanas, mas a história poderia ter tido alguns temperos e/ou surpresas mais interessantes ou convincentes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, assisti a esse filme há cerca de um mês. Por isso me perdoem por não lembrar de todos os detalhes, mas apenas do essencial. Desconfio que o roteiro de Ocean’s Eight teve outros pontos frágeis que eu não lembrei agora, mas tentei passar o que me marcou mais desta produção. A partir de agora, prometo, pretendo escrever as próximas críticas mais próximas da minha experiência de ter visto aos filmes. 😉

Como disse antes e repito, o elenco desta filme é o seu ponto forte. Mulheres poderosas, talentosas, carismáticas e que todos tem interesse de ver na telona. O grande destaque vai para Sandra Bullock, Cate Blanchett e Sarah Paulson. Para mim, elas estão acima da média nesse filme – e as suas personagens, melhor exploradas pelos roteiristas, ajudam nisso. Sem contar os talentos das três, que realmente brilham em cena. Depois, em papéis ligeiramente menores, estão muito bem também Helena Bonham Carter, Rihanna, Mindy Kaling e Awkwafina. Destas quatro, gostei especialmente de Mindy Kaling e de Awkwafina. Para mim, elas tem personagens mais interessantes (e engraçadas).

A lista citada acima é apenas o “núcleo duro” da produção. A equipe formada pela personagem de Sandra Bullock para viabilizar o seu plano do grande roubo. Mas, além destas atrizes, vale ainda comentar o trabalho de Anne Hathaway, outra atriz com destaque na trama, assim como o papel um pouco mais relevante de Richard Armitage, e as quase “pontas” de outros nomes, como Elliott Gould, Dakota Fanning, Damian Young e Dana Ivey. Vários outros famosos aparecem apenas de relance, no tal baile de gala, mas sem nenhuma fala, nem considero interessante citá-los aqui.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a boa direção de Gary Ross. Ele segue a cartilha de Steven Soderbergh, mas não apresenta nada inovador. Ainda assim, faz um bom trabalho orquestrando todos os talentos em volta do filme. Também vale destacar a competente direção de fotografia de Eigil Bryld; a trilha sonora de Daniel Pemberton; a ótima edição de Juliette Welfling; os figurinos superinteressantes de Sarah Edwards; o design de produção de Alex DiGerlando; a decoração de set de Rena DeAngelo; e a direção de arte de Henry Dunn, Kim Jennings e Chris Shriver.

Ocean’s Eight foi exibido no dia 5 de junho em uma première em Nova York. Dois dias depois, o filme estreou em oito países – incluindo o Brasil. Até o momento, esta produção participou de apenas um festival, o Biografilm Festival, na Itália. Apesar de ter participado apenas deste festival, o filme ganhou dois prêmios e foi indicado a um terceiro no Golden Trailer Awards. Os prêmios que ele recebeu são o de Melhor Spot de Comédia para a TV e Melhor Teaser Poster.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Ocean’s Eight começa da mesma forma que Ocean’s Eleven, o filme que inaugurou a grife de produções dirigidas por Steven Soderbergh e estreladas, entre outros, por George Clooney. A exemplo do filme de 2001, no filme estrelado por mulheres uma Ocean – a personagem de Sandra Bullock é a irmã do personagem de Clooney – é questionada sobre o que ela fará após sair da prisão. O mesmo é feito com o Ocean interpretado por Clooney no filme de 2001.

Existe uma outra referência escancarada para a produção de 2001. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na cena final de Ocean’s Eight, a personagem de Sandra Bullock aparece na frente do túmulo do irmão vestindo um smoking preto e uma gravata borboleta aberta – a mesma roupa usada pelo irmão dela, Danny, na saída da prisão em Ocean’s Eleven.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 84 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 67%.

Ocean’s Eight teria custado cerca de US$ 70 milhões, segundo o site Box Office Mojo, e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 132,2 milhões. Nos outros países em que o filme estreou, ele faturou outros US$ 119,2 milhões. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 251,4 milhões – conseguiu, pelo visto, pagar os custos e ainda dar algum lucro para os produtores.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra para a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Elas são poderosas e são talentosas. E desfilam os seus carismas e talentos na nossa frente. Ocean’s Eight tem no “girl power” de um elenco escolhido à dedo o seu melhor trunfo. Esse filme, evidentemente, é puro entretenimento. Não dá para esperar muito dele e nem levar a história muito a sério. Comentado isso, é preciso dizer que Ocean’s Eight tem também uma ótima edição, trilha sonora e figurinos. Aqui e ali, ele também tem boas tiradas e algumas risadas. Para um dia qualquer no cinema, ele é diversão garantida. Sem você exigir muito da história, é claro.

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Revenge – Vingança

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Um filme que começa com estilo, com algumas qualidades técnicas de destaque e com um requinte quase de filme “de arte”. Até que Revenge descamba para um declarado estilo de “filme trash”. Sim, amigos e amigas! Há tempos eu não assistia a um filme tão trash, para dizer a verdade. Se você gosta do estilo, essa pode ser uma boa opção de passatempo. Agora, se você busca algo mais “denso” no cinema, passe longe. Especialmente indicado para quem gosta de profusão de sangue, daquelas cenas com detalhes macabros e para quem não se importa com produções que apresentem pouca lógica.

A HISTÓRIA: Deserto. Um helicóptero se aproxima. Através de uma lente espelhada de um óculos de sol, vemos a paisagem. O helicóptero para em uma casa. Um homem desce do helicóptero, seguido de uma bela garota com um pirulito. Richard (Kevin Janssens) agradece ao piloto, que diz que está à disposição e entrega um “presente” para o cliente – uma droga altamente alucinógena. Richard logo fica com Jen (Matilda Anna Ingrid Lutz). Mais tarde, ele fala por telefone com a esposa. Em breve, a chegada de dois amigos de Richard, Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède), vai mudar a rotina e a relação do casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Revenge): Vocês devem estar pensando: “Uau,  mas só agora a Alessandra vai falar desse filme? Pois sim. Sei que demorei muito. Assisti a Revenge em junho, ainda, antes das minhas férias de 15 dias e de um monte de outros fatos. Mas como tenho que colocar as minhas publicações em dia para então voltar ao cinema, e quero muito voltar a ver filmes em breve, bóra lá falar desse filme mesmo com atraso! 😉

Então, nem vou precisar escrever muito sobre Revenge, eu acho. Um bom resumo eu dei acima, no primeiro parágrafo. Achei esse filme bem estiloso e interessante no início. Ainda que a história, convenhamos, não tinha nada de muito inovador desde o início. Os protagonista são lindos e sarados. Dois jovens em uma casa isolada, meio que “no meio do nada”, e em uma pausa do cotidiano um tanto idílica. Não demora muito para entendermos que Jen é a amante do protagonista e que eles estão ali para fazer muito sexo e nada mais.

Quer dizer, também não demora muito para começarmos a pensar que algo acontecerá por ali. O filme não será apenas uma grande curtição dos sarados com um belo desfile de corpos na nossa frente. E realmente logo a realidade “idílica” do casal muda com a chegada dos “parças” de Richard. Logo que eles aparecem armados, pensamos que nada muito bom pode sair dali. E quando o filme começa a avançar para a sua “virada” é que as coisas começam a ficar complicadas.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, um dos amigos do protagonista tem que ser realmente muito sem noção por achar que vai estuprar a amante do amigo e que tudo vai continuar igual, que tudo vai acabar bem, não é mesmo? E não me venham dizer que o cara não pode “se controlar” porque isso é balela. Sempre vou defender que as pessoas tem sim escolha e que elas são muito bem responsáveis pelos seus atos. Aí o idiota vai lá, estupra a menina e ela, acuada, só pensa em ir para casa.

Claro que, para conseguir o que quer, ela meio que “ameaça” o amante. Coloquei entre aspas mesmo porque evidentemente ela estava acuada, desesperada e muito machucada e não ia cumprir a ameaça coisa alguma. Nesse momento, Jen descobre que Richard consegue ser pior que os amigos. E aí que o filme vira, com eles perseguindo a garota e querendo se livrar dela. Até aí, aparentemente, tudo “bem” – ou, ao menos, dá para acreditar na narrativa da diretora e roteirista Coralie Fargeat, que estreia nos longas com esse filme – antes ela tinha feito apenas dois curtas e uma minissérie de TV.

Os furos do roteiro e/ou exageros começam a partir desse momento do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Convenhamos que era quase impossível para alguém ser empalado como Jen foi e ainda sobreviver. Afinal, ela não foi apenas atravessada por um galho de uma árvore seca. Mas lembrem da altura da qual ela caiu ali. De boas, não tinha como alguém sobreviver àquela queda e aquele tipo de ferimento. Mas beleza, Fargeat quer nos contar uma história de “girl power” e de mulher extra porreta, então vamos deixar ela nos levar pela mão nessa seara.

Jen sobrevive a algo impossível, a meu ver. Beleza. Daí ela consegue sair do tal tronco colocando fogo na árvore… ok. Improvável, mas beleza. Mas a narrativa improvável e que exige a nossa boa vontade em acreditar apenas está começando… Ela também caminho horrores – basta ver o quanto os perseguidores dela tem que seguir motorizados para então chegar no rio em que ela teria “desaparecido” – e sangrando, mas consegue ter uma dianteira meio difícil de acreditar em relação aos perseguidores.

Como os amigos de Richard – e ele próprio – são bem burros em relação à perseguir uma garota moribunda, ela consegue se livrar de Dimitri com alguns requintes de crueldade – e com direito a close da morte para quem curte um horror explícito. Depois, Richard perde a cabeça com Stan e os dois, ignorando o manual dos filmes de terror, voltam a se separar para encontrar a incansável Jen – impressionante o que essa mulher caminha sangrando!

E aí vem outro furo do roteiro. Jen toma a droga porreta que Richard tinha dado para ela guardar e que torna as pessoas ao mesmo tempo resistentes à dor e “viajandonas” (suscetíveis a delírios). E o que ela faz? Utiliza uma lata de cerveja aberta e aquecida para “fechar” o corte que ela tem no abdômen e que furou ela da parte da frente até as costas. E aí o tal furo. Ora, ela só consegue “fechar” o furo na parte da frente do corpo. Mas, depois, vemos em algumas cenas que ela está com a parte das costas também fechada “perfeitamente”. Como isso? Só por mágica, aparentemente.

Se quisermos ser criativos para responder a essa pergunta, podemos dizer que ela teve a parte de trás do ferimento fechada quando ela colocou fogo na árvore em que ela foi empalada. Mas, convenhamos, isso é ser muito generoso com a história de Fargeat, não é verdade? Ok, filmes de terror/horror nem sempre precisam ser suuuuper lógicos. Quem curte o gênero até já espera vários furos e exageros no roteiro. Mas um pouco mais de cuidado com os detalhes não faria mal para esse filme.

Bueno, a partir daí, a história não apresenta mais nenhuma novidade. A super Jen consegue matar Stan – em uma perseguição de “gato e rato” um bocado atabalhoada, devo dizer – e, depois, procura se vingar de Richard. Na reta final do filme, temos literalmente alguns baldes de sangue falso espalhados em cena. Um verdadeiro deleite para quem curte o gênero – ou, como no meu caso, rir de filmes que exageram a mão nesse sentido.

Enfim, a nossa Rambo versão feminina acaba se vingando de todos e está pronta para a próxima, tendo sobrevivido a uma queda incrível e a um empalamento que, não sabemos como, não acertou nenhum de seus órgãos internos. O filme é bonito, tem um apelo visual e de edição muito interessantes, mas a história… bem, para alguém como eu, que curte um bom roteiro, não posso dizer que esta é a melhor pedida.

Claro, eu não estava esperando um filme com pegada filosófica ou que me fizesse pensar muito na vida ou em questões interessantes, mas daí a ter tanta forçada de barra em uma produção… realmente foi uma surpresa. O filme não faz parte dos piores que eu já vi, mas também não entra na lista dos mais interessantes ou dos que eu recomendaria. Vi que vários críticos curtiram a produção, e fico me perguntando o que eles viram que eu não vi. Não sei. Só sei que há coisa bem melhor no mercado aí para ser vista.

Agora, pensando sobre as razões que fizeram tantos críticos gostarem do filme, penso que talvez seja porque a protagonista de Revenge simbolize a “vingança” de todas as loiras mortas em filmes de terror. Sabem aquele perfil de “loira (ou morena) burra” que acaba sendo morta com facilidade pelo psicopata/vilão do gênero? Pois bem, aqui nesse filme essa loira que parecia meio boba acaba dando a volta por cima e indo à desforra. Em tempos em que as mulheres estão buscando cada vez mais serem respeitadas na sociedade, não é se admirar que esse filme funcione para muitos.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme é uma espécie de “Duro de Matar” com pegada “feminista”. No lugar de um homem que tem dificuldade de morrer e que enfrenta todos os seus “inimigos”, temos a uma bela mulher. E que, inicialmente, com um pirulito na boca, poderia não passar muita confiança para o público. Mas sim, ela é a nossa John McClane estilosa, bonita e “modernete”. Só achei um tanto exagerada essa tentativa de Fargeat transformar uma garota comum e em desvantagem em quase “super humana”.

Como ficou evidente na minha crítica acima, o ponto fraco de Revenge é o roteiro de Coralie Fargeat. Achei que ela exagerou demais nas doses e nas tintas. Mas ok, lá pelas tantas, você começa a rir desses exageros e leva o filme com maior suavidade, inclusive dando risada dos furos da história. Esse é o jeito. 😉

Fora o roteiro, achei os atores um tanto fraquinhos. Sim, os protagonistas tem um corpão, são lindos e etc e tal. Mas e como intérpretes? Achei eles um bocado fraquinhos. Ainda assim, gostei do trabalho, em especial, de Matilda Anna Ingrid Lutz. Ela encarnou bem esse papel de mulher “super poderosa” e quase indestrutível. Também fazem um bom trabalho, ainda que em tom forçado aqui e ali, Kevin Janssens como Richard; Vincent Colombe como Stan e, com menor talento, Guillaume Bouchède como Dimitri. Esse filme tem poucos personagens, o que é algo positivo se levarmos em conta o objetivo da produção.

Entre os aspectos positivos do filme, destaco a direção interessante e com algumas escolhas muito acertadas de ângulo de câmera e de estilo narrativo de Coralie Fargeat. Se ela erra no tom do roteiro, acerta na direção, muito bem conduzida e com uma dinâmica ágil e interessante. Nesse sentido, vale destacar, em especial, a direção de fotografia de Robrecht Heyvaert e a edição de Jerome Eltabet, Coralie Fargeat e Bruno Safar. Esses dois elementos são fundamentais para esta produção.

Além dos destaques comentados, vale citar a trilha sonora de Robin Coudert; os figurinos de Elisabeth Bornuat e a maquiagem de Laetitia Quillery.

Revenge estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, até julho de 2018, o filme participou de outros 15 festivais de cinema em vários países. Nessa trajetória, o filme conquistou uma indicação e nenhum prêmio.

De acordo com a diretora Coralie Fargeat, Revenge tem tanto sangue que a equipe de apoio chegou a ter o estoque de sangue falso zerado. Dá para imaginar… 😉

Jen, a protagonista, não tem mais falas a partir do minuto 26 da produção. Isso sim que eu chamo de curioso!

Agora, algumas considerações sobre essa produção feitas pelos produtores. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). De acordo com essas notas da produção, Revenge não é um filme que trata apenas de vingança. Ele também abordas questões mais “místicas”, como renascimento e transformação. A primeira imagem simbólica é dela empalada na árvore de uma maneira que lembra a crucificação de Cristo. Depois, ao por fogo na árvore, ela tem um gesto como de uma fênix, que se inflama para renascer. A imagem da fênix ficaria ainda mais evidente com a “cicatriz” tipo tatuagem que ela fica da ave mística no corpo após usar a lata da cerveja Phoenix Beer para cauterizar a ferida na frente do corpo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 81 críticas positivas e sete negativas para esta produção, o que garante para Revenge uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,3. Especialmente esse nível de aprovação dos críticos me impressiona. O site Metacritic, por sua vez, dá o metascore de 81 para esta produção, resultado de 21 críticas positivas e 2 críticas medianas.

Segundo o site Box Office Mojo, Revenge teria feito pouco mais de US$ 102 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. Filme pouco visto, basicamente prestigiado pelos críticos – aparentemente.

Revenge é uma produção 100% da França.

CONCLUSÃO: Esse é o típico filme que não pode ser levado à sério. Nem um pouco. Revenge é uma produção estilosa, com alguns momentos de direção bastante interessantes, mas que mergulha fundo no estilo trash de cinema. Gostei de alguns aspectos técnicos da produção, como a direção e a direção de fotografia, assim como dos atores. Mas o roteiro… ah, meus caros, quase é preciso tomar o mesmo alucinógeno que a protagonista para encarar essa história. Lá pelas tantas, quando o filme se apresenta realmente trash, o segredo é levar tudo na esportiva e na comédia. Rir, porque essa deve ser a intenção dos realizadores. Se você gosta de produções do gênero, vale conferir. Mas apenas nesse caso. 😉

Tully

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Ser mãe é uma tarefa complicada. Claro que todas as noites insones, as mudanças no corpo, as preocupações e a correria maior do dia a dia são compensadas pelo amor recebido pelos filhos. Mas nada disso apaga a dureza e o desafio da jornada. Acredito que Tully seja um dos melhores – senão o melhor – filme que eu já assisti sobre a maternidade. Uma história interessante e que faz pensar sobre como as mães são cobradas atualmente. Mais um belo trabalho da roteirista Diablo Cody – e do restante da equipe que faz parte desta produção.

A HISTÓRIA: Pela escada que dá acesso a um quarto, Marlo (Charlize Theron) desce com cuidado. Ela está grávida, e caminha com cuidado para o quarto do filho, Jonah (Asher Miles Fallica), um garoto que exige cuidados especiais. Marlo coloca uma música, pega uma escova e começa a escovar os braços e as costas do menino. Quando chega a hora das crianças irem para a escola, a mãe lembra Sarah (Lia Frankland) que ela não deve esquecer a sua bombinha. Na escola, Marlo fica sabendo que provavelmente terá que escolher outro local para o filho estudar. Os desafios dessa mãe estão apenas começando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tully): Eita que o tempo está passando muito rápido! Assisti esse filme há algumas semanas, então peço perdão pelo atraso nessa publicação. Mas é que logo depois saí de férias por 15 dias – folga esta que está terminando, que pena! -, e aí me dediquei a outros afazeres. Desculpem a demora.

Apesar do tempo transcorrido desde que eu vi esse filme e de ter assistido a duas produções depois – já comecei a escrever sobre elas também, logo vocês verão as críticas por aqui -, me lembro bem da produção dirigida por Jason Reitman e com roteiro da sempre interessante Diablo Cody.

A roteirista natural de Chicago e com 40 anos recém completados – ela faz aniversário no dia 14 de junho – tem 14 trabalhos no currículo e um Oscar. Ela ganhou o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood por Juno (filme comentado por aqui) e que é uma das produções mais interessantes sobre a adolescência “atual” (e sobre maternidade também).

Então Tully já começa com a ótima qualidade de ter o roteiro escrito por Diablo Cody. Como é típico de seu trabalho, encontramos nesse filme diálogos interessantes e ágeis e uma preocupação em manter o foco da história nas pessoas e nas suas relações. Cody não tem papas na língua e procura mostrar uma história que reflita os tempos atuais – sem muito lirismo e com muita franqueza.

E é exatamente isso que vemos em cena. Esqueça a maternidade vista de maneira idealizada ou “pueril”. Cody coloca o dedo na ferida na parte “hardcore” da maternidade – especialmente no caso de mulheres que tem mais de um filho. A protagonista deste filme, muito bem interpretada por Charlize Theron, está justamente na fase da terceira gravidez. Ela está com um barrigão enorme, muito trabalho dentro de casa e ainda a responsabilidade de dar conta de dois filhos – sendo um deles um bocado “problemático” e/ou com necessidades especiais.

A rapadura é doce, mas não é mole não. E é sobre isso Tully. Sobre como uma mulher, linda e que já está deixando a beleza da juventude para trás, deve se desdobrar e se reinventar para conseguir dar conta de um casamento e de três filhos. Nesse contexto, surge a ideia de Craig (Mark Duplass), irmão descolado – e não muito “querido” – de Marlo. Ele é pai de duas crianças mas parece muito tranquilo sobre isso – assim como a esposa dele, Elyse (Elaine Tan).

Toda essa “tranquilidade” de Craig e de Elyse parecem irritar um pouco Marlo e Drew (Ron Livingston), que parece terem que ralar muito mais do que o irmão “endinheirado” dela. Mas é Craig quem acaba oferecendo um presente interessante – e um pouco inusitado – para a irmã: um tipo de babá noturna que pode ajudá-la a dormir e a relaxar. E ela está precisando muito, muito relaxar – como ninguém poderia sequer imaginar.

Inicialmente, como tantas mães que vestem a roupa de “super mãe” (aquela ideia antiga de que as “mães de verdade” devem sofrer e dar conta de tudo sozinhas), Marlo resiste à essa ideia. Afinal, onde já se viu entregar a filha recém nascida para os cuidados de uma “desconhecida”? Mas depois de algum tempo ela cede à tentação e acaba topando. E aí que ela conhece a Tully (Mackenzie Davis).

A partir daí, o filme se desenrola em uma relação interessante, provocante e um tanto “apimentada” – cheia de entrelinhas – entre Marlo, Tully e até o marido da protagonista, Drew. Tudo flui de maneira interessante e sugestiva, envolvendo o espectador em relações que algumas vezes parecem um tanto estranhas, mas que não vemos a hora do novelo se desenrolar. E ele se desenrola com uma certa “surpresa”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Dificilmente Diablo Cody escreve um roteiro sem alguma surpresa aqui e ali. E, novamente, ela nos apresenta isso em Tully. No fim das contas, esse filme se revela uma bela reflexão sobre o amadurecimento de uma mãe e sobre como uma mulher pode se dar conta de que viveu várias vidas dentro de uma mesma vida. Sim, é maravilhoso ter um marido e filhos, mas também é inevitável, algumas vezes, olhar para trás e não ter saudade sobre um tempo em que tudo era mais “fácil” e mais libertário.

A vida tem diversas fases e etapas. Cada uma delas com as suas dificuldades, riquezas, alegrias e aprendizados. Para viver bem e não “enlouquecer” é preciso ver a beleza de cada fase e não querer voltar ou avançar demais no tempo. O único tempo que existe, de fato, é o presente, já disseram. E isso é bem verdade. No mais, passado e futuro valem para reminiscências, para um e outro soluço e para sonhar. Mas nunca para viver.

Tully nos fala um pouco sobre isso. Sobre as dificuldades da amizade e sobre as diversas vidas de uma mulher. Ter filhos é maravilhoso, mas também exige muito de uma mulher – mais do que do homem que vira pai. Por isso mesmo, é preciso ter mais compaixão e paciência com as mães, especialmente com as que tem vários filhos “pequenos”. A vida é dura para elas, e não é difícil de imaginar como elas gostariam de sair correndo ou de fugir às vezes.

Claro que, como todo dia ruim na vida de qualquer pessoa, esses dias de “desespero” ou de vontade intensa de fugir passam. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas próximas podem se dar conta dessa aflição e ajudar – mesmo que demorem um pouco, como é o caso do marido de Marlo. O importante é saber que tudo passa – o que é bom e o que é ruim – e que cada fase da vida deve ser aproveitada ao máximo. De tudo podemos tirar aprendizado, se assim desejarmos.

Assim, Tully nos fala sobre a vida mesma. Sobre as nossas escolhas, sobre os prazeres e dores colhidos a partir dos caminhos trilhados. A vida é bela, é nosso maior presente, mas também é dura em diversos momentos. Tully nos ensina que é possível vencer a tudo isso, seja com amor, seja com alguma dose de loucura. O importante mesmo é buscarmos fazer sempre o melhor e, dentro do possível, olhar com atenção para quem está do lado. Isso e um pouco de sorte pode fazer toda a diferença.

Além de apresentar uma pegada bastante “humana”, o que eu gostei nesse filme foi da “surpresa” envolvendo a relação entre Marlo e Tully. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Perto da “revelação”, eu achava que podia estar rolando um interesse de Tully por Marlo, por isso o desejo dela de não “cuidar” mais de Marlo e de sua família. Mas quando sabemos que Tully era Marlo jovem, tudo faz sentido. No fim das contas, Marlo estava se desdobrando em duas – algo muito real para mães naquela situação – e acaba meio que “pirando” por causa disso.

Bela sacada de Cody para demonstrar não apenas como uma mãe de três filhos realmente pode perder os sentidos se não tiver o apoio mais adequado como também foi um recurso interessante para mostrar como a “mãezona Marlo” poderia, finalmente, com um bocado de boa vontade, fazer as pazes com a sua versão mais jovem. Bastante cobrada – inclusive pela vaidade -, a mãe que deixa a leveza da juventude para trás não precisa fazer isso com amargura. Basta saber que cada fase tem a sua graça e que ser mãe de três filhos também é algo incrível. Belo filme.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A grande qualidade desse filme, para mim, é o roteiro de Diablo Cody. Por todas as razões que eu comentei antes. Mas vale resumir por aqui também: o texto humano, cheio de diálogos interessantes – e uma “pimenta” aqui e ali – e que equilibra bem humor e drama, o foco na história dos personagens e em suas relações. Esse é o ponto forte de Tully. Mas é preciso dizer também que outro destaque da produção é o trabalho de Charlize Theron. Mais uma vez a atriz procura um papel de “gente como a gente” e faz uma entrega impecável.

Ainda que Charlize Theron seja o grande destaque desta produção, existe uma turma de “coadjuvantes” que fazem uma entrega condizente com os seus personagens – o que ajuda o filme a manter o alto nível. Nesse sentido, vale destacar, em especial, o trabalho interessante e o carisma de Mackenzie Davis como Tully. Além dela, vale citar o bom trabalho – mas nada acima da média – de Mark Duplass como o irmão de Marlo, Craig; Ron Livingston como o marido da protagonista, Drew; Elaine Tan como Elyse, mulher de Craig; Lia Frankland muito bem como Sarah, filha mais velha do casal Marlo e Drew; e Asher Miles Fallica como o “desafiador” Jonah, segundo filho do casal.

Entre os aspectos técnicos do filme, uma salva de palmas especial para a trilha sonora interessantíssima – e escolhida a dedo – de Rob Simonsen. O diretor Jason Reitman faz um bom trabalho, acompanhando sempre de perto os atores e valorizando também os seus “habitats”, mas não achei a sua direção realmente impactante – ou inovadora. Mas ele está bem. Também vale destacar o bom trabalho do diretor de fotografia Eric Steelberg; a ótima edição de Stefan Grube; o design de produção de Anastasia Masaro; a direção de arte de Craig Humphries e de Maki Takenouchi; a decoração de set de Louise Roper e de Karin Wiesel; e os figurinos de Aieisha Li.

Tully estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participou, ainda, de outros cinco festivais de cinema, todos nos Estados Unidos. Nessa trajetória, o filme foi indicado a apenas um prêmio, mas não saiu vencedor.

Agora, algumas curiosidades sobre Tully. A atriz Charlize Theron ganhou 22,7 quilos – ou 50 libras – para fazer o papel principal desta produção. Para engordar dessa maneira, ela fez uma dieta de “junk food”, o que incluiu muitos “burger’s” com tudo dentro, milkshakes e alimentos processados. Para “manter o peso” conquistado, a atriz também se habituou a comer macarrão com queijo na madrugada. A atriz disse que o filho mais novo dela achou que ela estava grávida por causa da mudança no seu corpo. Após fazer Tully, a atriz demorou um ano e meio para voltar para a forma antiga. Isso que é vontade de “entrar” no papel, hein?

O sacrifício de Charlize Theron acabou cobrando um preço alto da atriz. Segundo as notas da produção, pela primeira vez Charlize Theron sofreu depressão enquanto participava dessa produção – um pouco por causa do ganho de peso e da pressão para perder ele depois que o filme fosse rodado.

O filme rendeu uma certa discussão – e polêmica – por tratar do tema da depressão pós-parto. Alguns acham que isso não ficou tão claro, assim como os tratamentos disponíveis para o problema, enquanto outros consideraram que o filme acerta ao não deixar o tema claro – já que a depressão pós-parto muitas vezes não é diagnosticada. Da minha parte, acho que o filme vai além desse tema. Não vejo que o foco seja só a depressão pós-parto, mas outras questões envolvendo a maternidade e que vão além desta “condição” momentânea.

Tully faturou, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais de US$ 9,2 milhões nos Estados Unidos. Um resultado bom para um filme alternativo, mas não muito expressiva para uma produção com os nomes envolvidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Tully, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 189 críticas positivas e 29 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,7. No site Metacritic o filme ostenta um metascore de 75, fruto de 46 críticas positivas e seis medianas. Ou seja, o filme se saiu muito bem segundo a crítica do público e da crítica.

Tully é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme atende a uma votação feita por aqui há tempos.

CONCLUSÃO: Um roteiro envolvente, bem ao estilo “A Vida Como Ela É”, que nos faz pensar e que nos presenteia com ótimos diálogos e atuações coerentes. Tudo parece funcionar em um compasso quase perfeito neste Tully. Uma produção bastante honesta sobre a maternidade, todos os seus desafios e aprendizados. O ideal é assistir a esse filme se deliciando com ele mas também refletindo sobre o que estamos vendo.

Quantas mães, muito cobradas por si mesmas e pelos outros, vivem por aí “à beira de um ataque de nervos”? Vale pensarmos sobre isso e sermos mais solidários. Mesmo que for apenas para deixá-las desabafar ou ajudar aqui e ali com pequenos gestos. Belo filme, com uma mensagem bem bacana e um bocado de reflexões deixadas no ar. Acima da média.

Solo: A Star Wars Story – Han Solo: Uma História Star Wars

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Não é fácil contar a história de um personagem tão carismático e com tantos fãs como Han Solo. Honestamente, eu estava com a expectativa bastante baixa antes de assistir a Solo: A Star Wars Story. Primeiro, por causa do trailer do filme, que não me chamou muito a atenção. Depois, porque vi que as notas e o nível de avaliação do filme não tinham sido lá muito bons. Mesmo assim, fui conferir no cinema, e em 3D, mais essa produção com a marca Star Wars. O filme tem alguns problemas mas, no fim da contas, não é tão desastroso quanto eu esperava.

A HISTÓRIA: Começa com a frase clássica “Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante…”. Mas aí a tradicional música de Star Wars não surge na nossa frente. O que vemos é uma introdução para a história. Nela, comenta-se que aquela é uma época sem lei, na qual sindicatos de ladrões disputam entre si. Em Corella, a chefe de um destes sindicatos é Lady, uma criatura implacável e cruel. Diversos jovens lutam para sobreviver naquele ambiente agreste. Um deles é Han (Alden Ehrenreich), que surge fugindo de bandidos em uma perseguição ao retornar de uma missão. Ele se encontra com Qi’ra (Emilia Clarke), o seu affair, e comenta com ela que agora eles tem o necessário para fugir. Antes, ele deve enfrentar Lady Proxima (voz de Linda Hunt) e buscar uma rota de fuga que não mate o casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Solo: A Star Wars Story): Harrison Ford tem um carisma e um talento acima da média. Então comparar o ator que marcou mais de uma geração com o seu Han Solo e o trabalho de Alden Ehrenreich com o mesmo personagem não vai funcionar. Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que a comparação seja cruel por natureza. Evidentemente Harrison Ford é mais carismático e melhor ator.

Dito e superado isso, devo admitir que Alden Enrenreich até que encarna bem o personagem. Ao menos, conseguimos ver nele um Han Solo ainda mais “inocente” do que o personagem que conhecemos sob o talento de Ford. Uma das qualidades desse filme é justamente esta: conseguir transportar os fãs da saga Star Wars para o passado de alguns personagens importante da trilogia original sem que essa “viagem no tempo” pareça forçada ou descolada.

Para um filme como Solo: A Star Wars Story, que tem como objetivo introduzir o passado de um personagem importante para a saga, isso é fundamental. Então sim, os fãs não vão se sentir deslocados nesse filme dirigido por Ron Howard e com roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan. Para a história funcionar, evidentemente o protagonista mais jovem deve “dialogar” com o personagem clássico da saga. E isso acontece – para o alívio dos fãs.

O Han Solo de Alden Enrenreich apresenta algumas características que vamos encontrar, depois, no Han Solo de Harrison Ford. O estilo “bonachão” e aventureiro é um destes elementos que funciona nas duas fases do personagem. Vendo o que acontece com o protagonista neste seu “início” como mercenário, também podemos entender o lado desconfiado dele na trilogia original Star Wars.

Ele aprende bem, tanto com o mercenário e “mestre” na malandragem Beckett (Woody Harrelson em uma participação bastante interessante), quanto com a sua “apaixonite” Qi’ra, que o ideal é não confiar muito em ninguém. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Beckett tem muitas qualidades mas, no final das contas, ele ensina para Han que cada um vai defender sempre “o seu” antes de ajudar alguém. Qi’ra, por sua vez, apesar de ter gestos positivos pontilhados aqui e ali, também se deixa seduzir pelo poder – algo muito comum em vários personagens da saga, aliás.

Com essas pessoas, Han Solo aprende um bocado. Entre outros pontos, aprende a desconfiar e a ser mais “esperto”. Depois, veremos estas características no personagem já na fase Harrison Ford. A origem daquele “jeitão” do Han Solo vemos em Solo: A Star Wars Story. Esta é a principal vantagem do filme e o principal “ganho” que o filme poderá dar para os fãs Star Wars. Com tanto filme ruim ou mais ou menos sendo feito por aí, agradecemos quando uma obra “derivada” do original se mostra coerente e respeitando as características dos personagens.

Dito isso, vamos falar sobre alguns pontos que não funcionam tão bem em Solo: A Star Wars Story. Para começar, me incomodou um bocado e me chamou a atenção o estilo escuro demais do início do filme. Ok que Han e Qi’ra viviam em um local com poucos recursos e aquela coisa toda, mas realmente as imagens precisavam ser tão escuras? Eu não acho que isso funcionou muito bem. E há outros trechos também mais escuros do que o desejado.

Além disso, a história em si é um tanto “fraquinha”. Vejamos. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Han é um “rato de rua”, ladrãozinho que busca sobreviver, assim como Qi’ra, com quem ele tem um romance no início da produção, e outras pessoas da mesma “classe social”. Mas o rapaz é talentoso, especialmente como piloto, e deseja sair daquela miséria para viver com mais conforto e liberdade ao lado de Qi’ra. Logo no início do filme, eles tentam escapar, mas Qi’ra é recaptura e Han consegue se livrar do mesmo fim ao se juntar ao Império.

Até aí, tudo certo. Um começo interessante e promissor. Depois, vemos como Han Solo deixa o Império e vira um “fora da lei”. Isso acontece quando ele se encontra com Beckett e a sua turma: Val (Thandie Newton em quase uma super ponta) e Rio Durant (voz de Jon Favreau). Esse grupo de mercenários acaba formando Han e lhe apresentando para este universo – que ele abraçaria para sobreviver. Novamente, até aqui, tudo bem. Mas o filme depois trilha o caminho de uma história de “mercenário que se dá mal e se enrola em uma encrenca ainda maior para consertar o primeiro problema” que já cansamos um tanto de assistir.

Outro lugar comum e caminho um bocado batido foi Han encontrar a sua Qi’ra já bastante comprometida com o vilão da história, Dryden Vos (Paul Bettany). Aí seguimos a trilha conhecida de “mocinho tenta resgatar mocinha” só que em uma versão Star Wars – mais uma versão, diga-se. As partes mais bacanas do filme, na minha opinião, tem a ver com o aprendizado que Han te com Beckett e sua equipe e com o encontro e início da amizade do protagonista com Chewbacca (Joonas Suotamo).

Ainda que os atores não tenham tooooda aquela sintonia desejada, também é interessante a dinâmica entre os personagens de Han Solo e Qi’ra. Dá para entender um pouco a “descrença” do protagonista com o “amor” por causa dessa experiência que ele tem com o seu primeiro grande amor. Da minha parte, não deixei de pensar, quase a todo momento: calma, Han, você ainda vai encontrar uma Princesa bem mais legal pela frente. Lembrei do casamento dele com a Léia e aí pensei que Qi’ra não sabia de nada – muito menos do que ela estava perdendo no futuro. 😉

No geral, o filme funciona bem. A história respeita os personagens conhecidos de Star Wars agregando a eles alguns elementos que são do interesse dos fãs da saga e, apesar de ter uma dinâmica conhecida e um tanto batida, também consegue introduzir alguns novos personagens bastante interessantes. Não é um filme que vai revolucionar a sua vida ou mudar a compreensão que você tem de Star Wars, mas é uma produção envolvente, com algumas sequências – inclusive de perseguições – interessantes e com bons personagens. Vale ser visto.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme está cheio de personagens. Temos o protagonista, que é bastante coerente com o Han Solo que já conhecemos. Alden Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que lhe falte um pouco mais de carisma – a comparação com Harrison Ford, quando ele fez o primeiro Star Wars, chega a ser cruel. Depois de alguns minutos do filme, o indicado mesmo é tentar esquecer da inevitável lembrança de Ford e prestar atenção na entrega coerente de Ehrenreich.

Como esperado, outro personagem interessante deste filme é Chewbacca. Conhecemos um pouco mais também sobre a origem deste que é um dos personagens mais bacanas de Star Wars. Isso é importante. Dos personagens da trilogia original, outro sobre o qual conhecemos um pouco mais do passado é Lando Calrissian, interpretado aqui pelo talentoso Donald Glover. O ator faz um bom trabalho com o personagem de Lando. Assim, Solo: A Star Wars Story ajuda a explicar um pouco mais do “background” da amizade entre Han e Lando.

Ainda dos personagens conhecidos pelos fãs de Star Wars, vale destacar um outro com aparição relâmpago no final. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Bem nos “finalmentes” da produção, vemos a Maul (Ray Park, com voz de Sam Witwer), figurinha que ficaria conhecida na trilogia que explica a origem de Darth Vader – os filmes que viraram Star Wars I, II e III. Assim, fica subentendido que Qi’ra se tornará alguém importante para a saga de Darth Maul. Algo que poderá ser explorado em um próximo filme da saga.

Além dos três personagens importantes da saga Star Wars original já mencionados – Han, Lando e Chewbacca -, Solo: A Star Wars Story nos apresenta alguns personagens novos interessantes. A de maior destaque, sem dúvida, é a personagem Qi’ra, interpretada com carisma pela “deusa” Emilia Clarke – sim, eu sou fã de Game os Thrones. 😉 Ela está ótima no papel. Tem muito carisma e faz a “femme fatale” na segunda parte em que aparece na trama. Pena que não tenha muita química com Alden Ehrenreich. Mas, no geral, Emilia Clarke está muito bem, obrigada.

Dos personagens secundários, destaco o trabalho de Woody Harrelson como Beckett, e de Donald Glover como Lando Calrissian. Apesar de ser ótima atriz, Thandie Newton – da ótima série Westworld – acaba sendo um tanto desperdiçada em um papel menor e com pouca contextualização, o de Val, mulher de Beckett. O personagem de Rio Durant, que também “prometia”, acaba tendo uma participação menor que o desejado também. Mas Thandie e Jon Favreau, que dá a voz para Rio Durant, estão bem.

Gostei bastante da personagem L3-37, interpretada por Phoebe Waller-Bridge. Ela é como uma tia dos androides que depois encantariam os fãs de Star Wars. Além disso, ela segue esta nova fase de valorização do “girl power” e revela-se uma androide bem feminina e revolucionária. Uma espécie até de Joana D’Arc dos androides – sem muito exagero. A personagem é interessante e tem uma mensagem que combina com os nossos tempos – tanto de liderança feminina quanto de libertação dos explorados. Uma das figuras novas mais interessantes da trama.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de outros atores: Paul Bettany como Dryden Vos, o vilão da trama; Erin Kellyman como Enfys Nest, outra figura feminina forte e revolucionária; e Linda Hunt em uma super ponta dando a voz para Lady Proxima.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e para os efeitos visuais da produção. Eles são boa parte da “graça” de Solo: A Star Wars Story. A equipe técnica responsável por estas duas áreas é gigantesca. Além deles, vale comentar a ótima edição de Pietro Scalia e a direção bem conduzida de Ron Howard. O roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan tem pontos positivos e negativos – como os já citados anteriormente. Basicamente, eles acertam ao respeitar o legado dos personagens criados por George Lucas, mas erram um pouco a mão ao optarem por uma história um bocado requentada e com desenrolar previsível. Na verdade, em momento algum, Solo: A Star Wars Story realmente te surpreende. Tudo que era previsto, é entregue – nada a mais.

A trilha sonora de John Powell achei um tanto morna. Ele acaba seguindo a cartilha de outras trilhas da saga, mas sem o brilhantismo de John Williams. Por outro lado, Bradford Young faz um bom trabalho na direção de fotografia, exceto por alguns trechos do filme que eu achei escuros demais. Vale ainda comentar o bom trabalho de Neil Lamont no design de produção; de Gary Tomkins e equipe na direção de arte; e de David Crossman e Glyn Dillon nos figurinos.

Solo: A Star Wars Story estreou em première em Los Angeles no dia 10 de maio de 2018. No dia 15 de maio, o filme estreou no Festival de Cinema de Cannes. Até o momento, o filme não ganhou nenhum prêmio.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 244 críticas positivas e 100 negativas para o filme, o que garante para a produção uma aprovação de 71% e uma nota média de 6,4. No site Metacritic o filme apresenta um “metascore” de 62, resultado de 32 avaliações positivas, 21 medianas e 1 negativa.

Solo: A Star Wars Story foi bem nas bilheterias, mas não tão bem quantos outros filmes do gênero – ou mesmo da grife. Até o dia 10 de junho, segundo o site Box Office Mojo, a produção tinha feito cerca de US$ 176,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e cerca de US$ 136,1 milhões nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 312,2 milhões. Ainda que não saibamos o quanto o filme custou, certamente ele precisou de muita grana para sair do papel – e falta um bom caminho ainda para dar um bom lucro.

Agora, alguns adendos para citar curiosidades sobre esta produção. O ator Harrison Ford disse que assistiu ao filme e que achou ele “fenomenal”,  mas afirmou que não participou da première da produção junto com o elenco para não roubar as atenções que eram merecidas para Alden Ehrenreich. Isso que eu chamo de elegância.

O diretor Ron Howard foi chamado para terminar Solo: A Star Wars Story depois que Phil Lord e Christopher Miller foram demitidos devido à “diferenças criativas”. Ainda assim, Howard teria refilmado pouco mais de 80% da produção. Isso que eu chamo de praticamente começar do zero…

A data de lançamento de Solo: A Star Wars Story foi 25 de maio de 2018, o mesmo dia e mês em que Star Wars estreou em 1977.

A cena em abertura em Corellia e a cena de abertura de Rogue One acontecem exatamente 13 anos antes do primeiro Star Wars.

A cena do jogo de xadrez entre Beckett e Chewbacca é uma homenagem de Solo: A Star Wars Story a uma sequência de Star Wars (1977), quando vemos R2-D2 jogando com Chewbacca e deixando ele vencer por sugestão de Han Solo.

Algo importante nesse filme, para os fãs da saga, é descobrir como Han Solo faz o Kessel Run em apenas “12 parsecs” – quando o normal seria em 20 parsecs. Como o Kessel Run é uma rota que exige certa distância, Han Solo consegue fazer em menos tempo através de um “atalho”. Também interessante que nesse filme pela primeira vez, Chewbacca fala a sua idade: 190 anos.

Quem dá o sobrenome para Han é uma guarda em Corellia. Esse fato é uma referência do filme para The Godfather: Part II, produção na qual o personagem Vito Andolini é “rebatizado” como Vito Corleone por um guarda de Nova York em Ellis Island.

Solo: A Star Wars Story tem muitas referências a falas de filmes posteriores da saga – e objetos que também constroem essas referências. Exemplos disso são a fala de Han Solo sobre a Millennium Falcon antes de vê-la comentando que acredita que encontraria “um pedaço de lixo” – mesma expressão utilizada por Luke Skywalker ao ver a nave em Star Wars (1977), e os dados que Han dá para Qi’ra e que ela depois devolve para ele e que são vistos nos filmes de 1977 e 2017 da saga.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim sendo, ele atende a uma votação feita aqui no blog tempos atrás e na qual os leitores pediram filmes desse país. 😉

CONCLUSÃO: Um filme bem ao estilo de Star Wars mas que não tem o desenvolvimento de personagens e algumas das qualidades de outras produções da grife que precederam esta história. Com cenas competentes de perseguição e um roteiro que repete uma cartilha já conhecida, Solo: A Star Wars Story não surpreende, mas também não se revela uma grande decepção. O filme é morno, e falta química entre os protagonistas. Mas, individualmente – não nas trocas de bola – os atores estão bem. Esse filme não é fundamental para a saga Star Wars, mas ele ajuda a explicar o “background” de um de seus personagens mais interessante. Vale ser visto se você não for muito exigente com esse universo.

A Ciambra – Ciganos da Ciambra

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A passagem da vida infantil para a vida adulta revelada de uma maneira diferente. A Ciambra nos mostra um perfil de pessoas pouco retratadas. Me arrisco a dizer que até esquecida pelo cinema – e pela maioria dos meios de expressão e comunicação. Mas aquelas pessoas existem, são reais, e vivem de uma forma totalmente diferente em alternativa em diferentes partes do mundo. São os corajosos – essa é uma maneira de encará-los – que buscam viver à sua maneira independente das regras da sociedade. Interessante vê-los em um filme.

A HISTÓRIA: Um cavalo sobre um morro e um temporal. Um homem bem agasalhado, com cachecol e chapéu, se aproxima. O cavalo para de pastar um pouco e dá alguns passos. O homem alisa a crina do animal e, depois, a sua cabeça. O homem faz parte de um acampamento, e espreme um limão na água que toma pós recolhê-la de um riacho.

Corta. Pio (Pio Amato) se joga contra uma porta, e o irmão mais velho, Cosimo (Damiano Amato) diz para ele parar, porque vai estragar a porta e será repreendido pelo pai. Pio continua tentando e, entre uma tentativa e outra, Cosimo escapa pela janela. Pio corre atrás dele, mas Cosimo foge com a moto. Claramente Pio segue os passos do irmão, que enfrenta, de tempos em tempos, problemas com a polícia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção A Ciambra): O ideal da vida é que eu pudesse falar desse filme sem citar o título que ele recebeu no Brasil. Porque uma das “graças” dessa produção é, justamente, você não saber que ela trata de uma família de ciganos. Só ao publicar esse texto é que eu vi o título do filme no Brasil. E achei uma pena. Ele estraga uma surpresa fundamental dessa produção.

Gostei muito do trabalho do diretor e roteirista Jonas Carpignano. Ele realmente adentra na história de Pio, o protagonista, e de sua família. Sempre seguindo a ótica do protagonista, o filme vai mostrando a realidade dele e das pessoas que fazem parte do seu convívio. Algumas daquelas pessoas estão entre as mais marginalizadas da Europa. É preciso observar isso e entender isso ao conferir esse filme com tranquilidade e desarmando os nossos próprios preconceitos – ou, ao menos, as ideias pré-concebidas que temos daquelas pessoas.

Da minha parte, achei importante não saber, logo de cara, que Pio e a sua família eram ciganos. Digo isso porque, quando não sabemos disso no início do filme, passamos a ver as pessoas conforme os seus atos e relações e não já com uma série de estigmas. Realmente entendi que aquele grupo era de ciganos quando o avô de Pio tem com ele um diálogo que, para mim, é um dos pontos altos do filme.

Nesse diálogo, (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme), pouco antes de morrer, o avô de Pio comenta com ele sobre a época em que eles viviam viajando. Os ciganos, por definição, não tem endereço fixo. Antigamente, viviam viajando de uma parte para a outra. Hoje, a exemplo da família de Pio, muitos se estabeleceram em um local fixo – até segunda ordem, ao menos. Mas o avô de Pio fala para o neto sobre como eles viajavam antes, e como eles eram – e lutam para continuar sendo – espíritos livres. Então ele fala uma frase que marca Pio: “Somos nós contra o mundo”.

E isso define um bocado o filme e o que vemos da cultura cigana na tela. Eles são espíritos livres, bem “simbolizados” pelo cavalo “selvagem”. Eles não podem ser domados ou comprados. Eles são livres e, desta forma, por definição, anti-convenções sociais. Os homens fizeram as leis e as regras, mas elas não funcionam para quem se considera livre. Assim, os ciganos consideram que eles são um grupo que deve lutar contra tudo e contra todos e, assim, resistir. Em outras palavras, são anarquistas e libertários extremistas.

Claro que para quem vive sob as regras e leis de uma sociedade, não existe um “bicho” mais estranho do que um cigano. Afinal, ele vai contra toda as convenções. No Brasil, não temos o costume de encontrar ciganos por aí. Mas na Europa eles seguem sendo grupos bem definidos e inseridos na sociedade. Pessoalmente, os encontrei em mais de uma cidade da Espanha. A Ciambra se passa na Itália, claro, mas essa história facilmente poderia ser ambientada em quase qualquer país da Europa.

Tendo encontrado alguns ciganos na Espanha e tendo visto como os espanhóis lidam com os ciganos, percebi bem como eles são marginalizados. E assistindo a esse filme, entendi melhor as razões para isso. Quando estive lá, percebi como as pessoas sempre tem o “pé atrás” com os ciganos e muitos os consideram sempre bandidos ou potenciais bandidos. Parece que as pessoas estão sempre esperando o pior deles – algum golpe, algum roubo, e por aí vai.

A Ciambra não nega nada disso. Muito pelo contrário. Como eu comentei no início desse texto, esse filme mostra o ritual de passagem de um cigano – o protagonista Pio – da vida infantil/juvenil para a vida adulta. E nessa trajetória do nosso “herói”, ele cresce na criminalidade. Passa de acobertar o roubo de energia elétrica e cobre, além de outros crimes menores, para começar a furtar mercadorias mais relevantes – e, mais que isso, fazer mal a um amigo.

Francamente, eu não sei o quanto o filme de Jonas Carpignano é fiel ou não a uma comunidade cigana, mas essa produção parece fazer sentido. Parece realmente resgatar um meio de vida que sempre estará à margem do que a sociedade entende como certo – até porque os ciganos não aceitam as regras, leis e convenções que os demais consideram normais.

Enfim, dá para entender, assistindo a esse filme, todos os pontos de vista. Desde a ótica dos ciganos, que não conseguem se encaixar em sociedades cheias de regras – o que, a priori, parece ir contra quem quer ser livre -, até a ótica de quem tem um certo “preconceito” com esse grupo da sociedade. Afinal, como você lida com pessoas que fogem totalmente às regras e não consideram crime os atos que forem necessários para elas sobreviverem?

Dessa forma, A Ciambra trata de temas muito atuais, especialmente na Europa. Lá, ciganos continuam sendo um desafio para polícias e comunidades, ao mesmo tempo que “africanos” também desafiam a aceitação dos autóctones. Como em qualquer formação social, os ciganos, que costumam ser um tanto que “desprezados” pelos italianos, também são capazes de desprezar outro grupo social – no caso, os imigrantes africanos.

A verdade é que temos em A Ciambra uma dinâmica social interessante e que continua, na prática, desafiando países mundo afora. No fim das contas, não importa qual é a sua origem, e se você é mais ou menos “livre”, se respeita mais ou menos as leis e regras da sociedade em que você vive. O que define, no fim do dia, como você trata o seu próximo, é a forma com que você olha para ele. Com respeito ou com desprezo? Para você, só interessa os “seus” ou te interessa todo mundo? Estas são as grandes questões que acabam definindo quem se integra ou não a um coletivo.

Porque se você tem uma atitude individualista, se você acha que apenas a sua família e/ou o seu grupo social é que valem, e que qualquer ato pode ser praticado contra os outros, não importa quem, desde que você defenda o seu “quinhão”, então você nunca vai realmente “se encaixar” ou pertencer a um coletivo maior. A Ciambra, ao retratar um coletivo específico com essa “filosofia de vida”, nos faz refletir sobre aquele grupo mas sobre todos os demais também.

Enquanto eu assisti a esse filme, admito que me deixei encantar pelos atores – especialmente pelo talentoso e carismático Pio Amato. Me surpreendi quando ele acaba deixando para trás a amizade com Ayiva (Koudous Seihon) para conseguir ter a aceitação de seu irmão e de sua família. O rito de passagem dele é trair o que ele tinha de mais precioso. As lágrimas dele, naquele momento de traição, são comoventes, porque parecem sinceras. Mas que grupo é esse que pede que alguém traia algo tão bonito como a amizade sincera para que a pessoa seja aceita?

Enfim, eu não conheço pessoalmente um grupo de ciganos para saber o quanto A Ciambra é fiel ou não à forma com que eles pensam e agem. Mas se, de fato, Jonas Capignano conseguiu resumir nesse filme a “filosofia de vida” desse grupo, que os ciganos me desculpem, mas a ideia de “liberdade” deles está bem equivocada.

Eles, no fundo, são livres dentro de regras deturpadas que eles mesmo definiram, e frente às quais ninguém – a exemplo de Pio – consegue lutar contra. Se para ser livre é preciso “vender-se” e abandonar as suas convicções, como a defesa da amizade, isso para mim não é ser livre realmente, mas apenas seguir regras que foram estabelecidos por outros para ser aceito em um grupo. Então como essa “liberdade” se diferencia de quem faz parte de uma sociedade e aceita viver naquele entorno social?

Achei interessante como esse filme parece singelo, inicialmente, mas depois se torna mais complexo do que poderíamos imaginar. Refletindo sobre ele, posteriormente, chegamos a algumas questões realmente relevantes, como as citadas acima – e tantas outras, como a de que esforço cada um precisa fazer para, com as diferenças culturais que carrega, integrar uma sociedade em paz. Gostei bastante do que eu vi. E acho que esse filme poderia render belos debates em salas de aulas e em grupos de discussão. Vale conferir e debater sobre.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti a esse filme da forma com que eu mais gosto: sem ter ouvido falar nada da história antes. Assim, eu nem sabia da temática que essa produção tratava. Novamente, essa é a forma que eu defendo como a melhor para ver a um filme. Quanto menos você sabe a respeito, melhor. Porque a história realmente pode lhe surpreender. No caso de A Ciambra, eu apenas sabia que esta produção tinha sido premiada, que ela tinha sido a indicação da Itália para o Oscar e que ela tinha sido bem avaliada, mais nada. Esse é o caminho ideal.

Pelo que se conclui, lá pelas tantas na história, Ciambra é o nome do local – conjunto habitacional seria o mais próximo da realidade? – em que moram as famílias de ciganos. O foco da história é uma destas famílias em específico, a do protagonista Pio, um jovem em fase de amadurecimento dentro daquele grupo familiar. Ele passa por um “rito de passagem” que acompanhamos de perto pelas lentes de Jonas Carpignano.

Gostei do estilo do diretor, que é roteirista do filme também. Procurei mais a respeito dele e descobri que Jonas Carpignano é nova iorquino e tem, no currículo, sete produções como diretor e roteirista. Antes de A Ciambra, ele filmou e dirigiu cinco curtas e apenas um longa: Mediterranea, de 2015. Fiquei bastante interessada em assistir ao primeiro longa dele. Assim como eu acho que esse é um nome que merece ser acompanhado. Tem muito potencial.

O grande destaque desta produção é o jovem Pio Amato, que interpreta o protagonista. O garoto passa muita verdade na sua interpretação. É fácil acreditar no que ele está fazendo e nos mostrando. Mérito também, sem dúvida, do diretor, que deve incentivar essa interpretação “orgânica” dos atores. Outro destaque, pelo carisma e pelo talento, é Koudous Seihon, que interpreta a Ayiva, um cara gente boa que sempre se esforça em ajudar Pio.

O filme é bastante centrado em Pio. Todos os demais personagens orbitam ao redor dele. Entre os coadjuvantes, o que ganha mais destaque, como eu comentei antes, é Koudous Seihon. Mas também vale comentar o bom trabalho de Damiano Amato como Cosimo, irmão mais velho de Pio e em quem ele tenta se espelhar; Iolanda Amato como a marcante Iolanda, mãe de Pio e “chefe” da família; e Rocco Amato como Rocco, pai de Pio.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a trilha sonora de Dan Romer; a direção de fotografia de Tim Curtin; a edição de Affonso Gonçalves; e o design de produção de Marco Ascanio Viarigi.

A Ciambra estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois, até maio de 2018, o filme participou de nada menos que outros 30 festivais em diversas partes do mundo. Nessa trajetória, a produção ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 16.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Label Europa Cinemas entregue no Festival de Cinema de Cannes; para os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Edição no David di Donatello Awards; para o prêmio de Melhor Filme Italiano no Festival de Cinema de Trieste; para o de Melhor Ator para Pio Amato no Festival de Cinema Europeu de Sevilha; e para o prêmio de Melhor Filme não Lançado em 2017 segundo a Sociedade Internacional de Cinéfilos.

Vale lembrar que A Ciambra também foi escolhido pela Itália para representar o país no Oscar 2018 – mas o que o filme não chegou a ficar entre os finalistas ou mesmo os semifinalistas.

A Ciambra tem, entre os seus produtores, dois brasileiros: Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira. Dois nomes fortes e que tem se envolvido em ótimas produções. Vale acompanhá-los.

Este filme é uma coprodução da Itália com o Brasil, a Alemanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para A Ciambra, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 28 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,8. No site Metacritic o filme registra o metascore 70, resultado de 14 críticas positivas e de duas críticas medianas. Ou seja, no geral, o filme foi muito bem na crítica do público e dos especialistas.

CONCLUSÃO: Uma história simples que, aos poucos, revela-se não tão simples assim. Esse filme, como a maioria dos filmes interessantes do mercado, pode ser encarado sob mais de um ponto de vista. Pode ser visto sim como um “rito de passagem” do protagonista para a vida adulta, mas também é a história de um “povo” que resiste às mudanças do tempo e das sociedades. No fim das contas, uma história de resistência, com tudo que ela denota de desafio para quem a assiste. Um filme interessante, envolvente, e que nos mostra uma realidade com a qual não estamos acostumados. Vale conferir, especialmente se você deixar os seus preconceitos de lado para conhecer uma realidade que provavelmente é totalmente diferente da sua.