Wonder – Extraordinário

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Este filme tem todos os elementos para fazer qualquer um chorar, mas o choro não é obrigatório. Mas ainda que você não chegue a verter lágrimas, algo é certo: Wonder vai te emocionar. Eu não chorei, mas fiquei tocada pela história, muito bem contada e conduzida, em mais de um momento. Isso porque este filme trata dos valores certos, do que realmente interessa no final de contas. Uma produção que dialoga com qualquer pessoa de qualquer idade porque tem uma proposta bastante universal. E por mais que a história não seja muito surpreendente, ela tem algumas ótimas sacadas que compensam a narrativa previsível por boa parte da duração do filme.

A HISTÓRIA: Em um céu estrelado, um astronauta flutua. Ele parece estar pulando e ergue os braços. Auggie (Jacob Tremblay) está pulando sobre a cama e comenta que ele sabe que não é uma criança como qualquer outra. Mas ele diz que faz coisas ordinárias, como tomar sorvete, andar de bicicleta, e fazer esportes no Xbox. Ele ama Minecraft, Ciências e, claro, Star Wars. Ele inclusive brinca de lutar com sabres de luz com o pai, Nate (Owen Wilson). Enquanto isso, ele deixa a irmã Via (Izabela Vidovic) maluca. Auggie também sonha em ir para o Espaço, como qualquer criança. Curioso que ele está sempre com um capacete.

Mas ele disse que o nascimento dele não foi ordinário e sim hilário. Mas quando Auggie nasce, todos percebem que tem algo errado. Desde então, ele fez 27 cirurgias para que ele pudesse fazer coisas básicas, como enxergar, respirar e tudo o mais. Mas, agora, ele terá um novo desafio pela frente. Em um certo dia, ele escuta a mãe Isabel (Julia Roberts) e o pai Nate falarem sobre ele ir para a escola. Aí começará o grande desafio de Auggie até o momento.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wonder): Eu não gosto de assistir a trailers de filmes. Mas, às vezes, quando vamos no cinema, meio que somos obrigados, não é mesmo? Assisti ao trailer de Wonder umas duas vezes antes de assistir ao filme. E que imagem aquele trailer me passou? Que Wonder seria um daqueles filmes “forçados”, literalmente planejados a cada milímetro para fazer o espectador chorar.

Então, serei franca, eu fui para o cinema com um certo “pezinho atrás”. Estava com esta expectativa de filme forçado quando comecei a ver o filme. E qual foi a minha surpresa quando eu percebi que não era nada daquilo? Verdade, como eu disse no princípio deste texto, que Wonder faz chorar com uma certa facilidade. Mas não porque ele apresenta uma carga melodramática exagerada e sim porque a história nos convence, ela parece real e ela faz a gente pensar em várias relações – especialmente de amizade – que nós mesmo temos. E o quanto tudo isso é fundamental.

Como eu disse, eu acabei não chorando. Mas foi por pouco. E o que exemplifica como o roteiro de Stephen Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne foi bem construído, é que a parte em que eu mais me “segurei” não teve a ver com o protagonista Auggie. Foi a parte em que Via canta para os pais e para as demais pessoas da plateia depois do gesto altruísta e de grande generosidade da “ex-amiga” Miranda (Danielle Rose Russell). Achei tanto o gesto da garota de uma grandeza imensa quanto me emocionei com a alegria e a entrega de Via no espetáculo sabendo que ela estaria orgulhando os seus pais.

Eis dois dos vários valores enaltecidos por esta produção que me cativaram. Primeiro, a amizade capaz dos gestos mais bonitos de Miranda, Jack Will (Noah Jupe), Summer (Millie Davis), Auggie e tantos outros. Depois, o desejo dos filhos em honrar e trazer alegria para os seus pais – com especial destaque, neste sentido, para a personagem de Via. Além disso, a história por si só de Auggie é inspiradora porque nos mostra que por mais difícil e/ou desafiadora que uma situação puder ou parecer, podemos superá-la se mantivermos o foco no que é certo e se tivermos os incentivos certos.

Algo que eu achei bacana neste filme é que ele não tem papas na língua. O roteiro do trio Chbosky, Conrad e Thorne, baseado no livro de R.J. Palacio, é bastante franco nas situações e nos diálogos de adultos, jovens e crianças. Desta forma, o trabalho do diretor Stephen Chbosky nos convence a cada minuto. Conseguimos nos lembrar do tempo do colégio – que, para muitos, foi realmente desafiador e uma tortura – e de tudo que aquela fase de encontro de diferenças e de nem sempre cuidado em tratar estas diferenças pode significar para uma criança e um jovem.

Sim, as crianças que aparecem em Wonder, quase na totalidade, são cruéis. Mas quem conhece o ambiente escolar sabe bem que boa parte do que vemos em cena realmente poderia acontecer em várias escolas mundo afora. Muitas crianças são perseguidas e viram chacota dos que, como Isabel bem define, tem problemas de autoestima.

Na vida real, e como acontece neste filme, as crianças que enfrentam este tipo de situação tem algumas formas de vencer isso. A primeira é elas se “impondo” de alguma maneira – pela força ou pela inteligência, muitas vezes. A segunda é elas resistindo ao máximo que elas podem e, pouco a pouco, ficando fortes com isso e ganhando a simpatia/amizade de algumas crianças. Isso sempre acontece, inevitavelmente. O papel dos adultos neste cenário, como Wonder também mostra com competência, é o de dar suporte, apoio e respostas para a criança que está sendo desafiada com bullying e com todas as suas práticas injustas.

Algo importante desta produção é que ela mostra que, infelizmente, em uma sociedade em que nem todos têm bom senso, educação ou respeito pelos outros, nunca poderemos evitar que as pessoas sofram. Os pais não podem evitar que os filhos sejam mal-tratados e desafiados, assim como as crianças que tem alguma particularidade que as distingue das demais não podem evitar de serem alvo de piadas e de grosserias. Mas se não podemos evitar algo, podemos aprender a lidar com isso, não é mesmo? Esta é a parte mais importante.

Wonder mostra tudo isso de forma muito franca e aberta, com sinceridade e delicadeza. E algo que eu achei importante no filme e que me surpreendeu é que Wonder não é centrado apenas no personagem de Auggie. Sim, é verdade que ele é o protagonista da história. Mas o filme é dividido em quatro “capítulos”, cada um com o nome de um personagem. O primeiro é dedicado a Auggie. O segundo, para Via, a irmã mais velha dele; o terceiro, para Jack Will, o menino que se torna o melhor amigo de Auggie; e o quarto, para Miranda, a “ex” melhor amiga de Via e uma personagem que, até aquele momento, você não esperava que tivesse um capítulo com o seu nome.

O interessante desta forma de narrativa é que cada “capítulo” do filme assume a ótica e a perspectiva daquele personagem. E isso é algo fundamental para o filme ter a qualidade que ele tem. Desta forma, Wonder nos mostra que uma mesma história e uma mesma realidade tem diversas perspectivas. Mesmo que às vezes não estejamos atentos para todas elas, todas são igualmente importantes e ricas de detalhes. Assim, entendemos não apenas o protagonista Auggie mas todas as pessoas da sua família e as outras pessoas mais próximas de forma mais completa com as diferentes perspectivas que aparecem em cena.

Por apresentar todas estas características, Wonder provoca apenas bons sentimentos, análises e perspectivas. O filme nos faz ter um olhar mais generoso e atento. Afinal, todas as pessoas vivem mundo próprios de experiências, sentimentos, expectativas, sucessos e fracassos, e deveríamos lembrar disso mais vezes no dia a dia em que encontramos pessoas nem sempre tão “adaptáveis” ou que fazem sentido para a gente. Wonder mostra que todos tem as suas perspectivas, e que todas estas perspectivas fazem sentido dentro de determinadas realidades lógicas e cheias de sentimento.

Ter um olhar mais atencioso, compreensivo e generoso para o outro é uma das mensagens centrais desta história. Todos tem as suas capacidades e talentos, e o que deveríamos fazer é ajudar, dentro das nossas possibilidades, para que todos consigam se expressar e se desenvolver como gostariam. Outras mensagens importantes que esta produção mostra e reforça a cada minuto é a importância da família e das amizades verdadeiras. Ou seja, grandes valores colocados em primeiro plano. Um belo filme, bem conduzido e desenvolvido, com um roteiro realista e que equilibra muito bem o drama e o humor. A variedade de perspectivas da história também ajuda muito Wonder a não ser o filme de um personagem só. Muito bacana.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei antes alguns dos grandes valores que Wonder destaca durante o seu desenvolvimento. Mas tem outras questões que a produção destaca e que achei igualmente inspiradoras. Por exemplo, a forma com que o filme mostra a importância de grandes professores na vida de todas as pessoas. Eles são fundamentais e, nesta produção, tratados de uma maneira bacana e inspiradora. Outro valor destacado por esta produção é a admiração que algumas pessoas provocam nas outras. Via poderia perceber a sua família como desigual e um tanto problemática, mas a perspectiva de Miranda era totalmente diferente. Às vezes deveríamos parar alguns minutos para pensar nestas diferentes perspectivas sobre a nossa vida e a nossa realidade.

Gostei também da viagem no tempo que Wonder me fez passar. Lembrar da época do colégio, de seus desafios e de seus prazeres. Das primeiras amizades verdadeiras, das amizades que se revelaram não ser tão sinceras assim ou tão duradouras, dos professores inspiradores e das situações que talvez pudessem ser classificadas hoje de bullying e que me tornaram mais forte. Ter bons valores e ter humor ajudam muito naquele período. E Wonder mostra isso de uma forma bacana e sem forçar a barra.

Além do roteiro bem escrito, equilibrado e da direção competente de Stephen Chbosky, há outros aspectos técnicos de Wonder que chamam a atenção. Para começar, a trilha sonora bem presente de Marcelo Zarvos; a edição competente de Mark Livolsi; a direção de fotografia de Don Burgess; o design de produção de Kalina Ivanov; a direção de arte de Kendelle Elliott e de Brad Goss; a decoração de set de Shannon Gottlieb; os figurinos de Monique Prudhomme; e os 19 profissionais envolvidos no trabalho do Departamento de Maquiagem.

Algo de tirar o chapéu neste filme: o desempenho do elenco. Todos os atores, sem exceção, estão ótimos e convincentes em seus papéis. Dá para perceber que todos realmente viveram os seus personagens e conseguiram, desta forma, nos passar os sentimentos e o realismo de cada situação. Isso nem sempre é comum, mas acontece com profusão neste filme.

O grande Jacob Tremblay, que todos descobrimos no filme Room (comentado por aqui), brilha novamente como protagonista de uma história. Este garoto realmente é ótimo e merece ser acompanhado. Além dele, estão ótimos também Julia Roberts e Owen Wilson, bastante convincentes como os pais dedicados, atenciosos e que não sobrecarregam os seus filhos. E ganha um destaque especial o trabalho de Izabela Vidovic. Ela rouba a cena cada vez que aparece como Via, irmã mais velha de Auggie. Foi ela que, por muito pouco, não me fez chorar com aquela significativa sequência no teatro. Mais um grande talento que merece ser acompanhado – espero que deem para ela papéis realmente bons daqui para a frente.

Outros atores que tem destaque nesta produção também estão ótimos. Noah Jupe faz uma entrega impressionante como Jack Will, o garoto que se “aventura” a se aproximar de Auggie e que realmente percebe o grande garoto que ele tem pela frente. Ele faz uma besteira, como vários outros de nós já fizemos em algum momento da vida, mas isso não lhe impede de continuar sendo bom caráter e de defender os valores certos.

Merecem ser citados, porque estão muito bem em seus papéis, Mandy Patinkin como o diretor do colégio Mr. Tushman; Bryce Gheisar como Julian, o mais cretino dos garotos da turma de Auggie – com os pais que ele tem, dá para entender porque ele é um imbecil; Elle McKinnon como Charlotte, a menina que, junto com Jack e Julian, apresenta o colégio para Auggie antes das aulas começarem; Daveed Diggs como Mr. Browne, um dos professores de Auggie; Ty Consiglio como Amos, um dos garotos “valentões” que acompanham Julian; Kyle Breitkopf como Miles, outro garoto que anda com Julian; Millie Davis como Summer, a primeira estudante que se aproxima de Auggie depois que ele rompe a relação com Jack; Ali Liebert como Ms. Petosa, professora de Ciências; Danielle Rose Russell como uma surpreendente Miranda, que ganha espaço mais perto do final e que tem uma interpretação interessantíssima; Nadji Jeter como Justin, o garoto que se aproxima de Via e que lhe incentiva a fazer teatro; e a nossa atriz brasileira Sonia Braga em uma super ponta como a avó de Via e Auggie. Sonia Braga aparece em apenas uma cena, mas é uma sequência bacaninha.

Em papéis realmente menores, mas com uma presença marcante quando aparecem em cena, temos ainda os atores Nicole Oliver como a mãe de Jack; Rachel Hayward, como a mãe de Miranda; Crystal Lowe e Steve Bacic como os pais cretinos de Julian – figuras odiosas que, infelizmente, existem no mundo real. Aliás, Wonder nos mostra bem, também, como bons pais são fundamentais para termos uma boa sociedade. Pais que ensinam os valores certos e que tem as atitudes adequadas são fundamentais para a formação de boas pessoas, enquanto que pais boçais e cretinos (e eles existem) provocam exatamente o contrário. Pensem nisso, se vocês são pais atualmente ou se pensam em ter filhos em algum momento da vida. Que tipo de pais vocês são e/ou vão ser?

Wonder estreou em première em Los Angeles no dia 14 de novembro. Na sequência, ele foi estreando em dezenas de países mundo afora, chegando aos cinemas do Brasil no dia 7 de dezembro. Até o momento, esta produção ganhou dois prêmios e foi indicada a outros seis. Os dois prêmios que o filme levou para casa foram o Humanitarian Award para Stephen Chbosky no Satellite Awards e o Truly Moving Picture Award no Heartland Film.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Jacob Tremblay e a família dele foram para o retiro da Associação Craniofacial Infantil, onde o ator e seus familiares puderem conhecer de perto a realidade de pessoas que tiveram a síndrome de Treacher Collins, a mesma que Auggie teve. Um outro nome para a síndrome de Auggie mostrada nesta produção é disostose mandibulofacial. Mais informações sobre esta síndrome neste artigo da Info Escola.

Olhem que interessante. Wonder é baseado no livro bestseller de R.J. Palacio. E sabem como o autor se inspirou para escrever a sua obra? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele pensou em escrever o livro depois que ele e o seu filho foram a uma sorveteria e encontraram lá um garoto com a síndrome de Treacher Collins. O filho de Palacio chorou ao ver o outro garoto. Essa cena, que realmente ocorreu, é citada em uma parte do filme como sendo algo vivenciado por Jack, sua mãe e irmão mais novo.

Miranda chama Auggie de Major Tom. Esta é uma referência à música Space Oddity, de David Bowie, que fala sobre o astronauta Major Tom.

Wonder foi rodado em diversas locações do Canadá e, nos Estados Unidos, em Manhattan e Coney Island, ambos em Nova York. No Canadá, o filme teve cenas rodadas no Heritage Woods Secondary School, na cidade de Port Moody; no Vancouver College e no Playland, na cidade de Vancouver.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 121 críticas positivas e 21 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média 7. Os dois níveis de avaliação são muito bons, mas ficou claro que o filme agradou mais ao público que à crítica, não é mesmo?

De acordo com o site Box Office Mojo, Wonder fez pouco mais de US$ 109,2 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 44,4 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Com isso, esta produção já ultrapassou a marca de US$ 153,6 milhões nas bilheterias. Nada mal, mas o filme poderia ter se saído melhor nas bilheterias de outros países fora os Estados Unidos.

Wonder é uma coprodução dos Estados Unidos e de Hong Kong.

CONCLUSÃO: Um filme que enaltece a família, a amizade, o respeito às diferenças, a inteligência e a gentileza. Tem como ser melhor? Wonder está cheio de belos valores. Sim, ele tem alguns discursos importantes. Mas o que enche os olhos dos espectadores são os belos exemplos que vemos em cena. Para conseguir a empatia tão desejada em qualquer obra, Wonder mergulha na realidade do ambiente escolar de dois filhos de um casal. Então além dos valores positivos, temos também um bocado de crueldade, bullying e contra-exemplos de adultos e crianças.

Mas a vida é assim mesmo, não é verdade? Cheia de desafios, de pessoas sem noção e de uma certa dose de maldade. O que Wonder nos lembra é que para cada história lamentável, existem vários exemplos positivos e de superação. A narrativa linear desta produção é um bocado previsível. Sabemos por onde a história vai caminhar. Ainda assim, são os belos acertos do caminho que nos encantam e que nos fazem sorrir. Como na vida mesmo. Com atores que emocionam em belas interpretações, este é um filme que acerta quase em cheio no alvo. Faltou pouco para o 10. Vale ser assistido, sem dúvida, especialmente pelos belos valores que o filme trata e que sempre merecem ser debatidos e relembrados.

 

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Teströl és Lélekröl – On Body and Soul – Corpo e Alma

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Todos são capazes de amar, mesmo aqueles que não acreditam que tem (ainda) esta capacidade. On Body and Soul conta o interessante encontro e (re)descoberta de amar de duas pessoas que, aparentemente, não tem nada em comum. Este filme, ambientado em um local brutal – um matadouro – não poupa o espectador de diversas cenas fortes. Apesar da história ser interessante e marcante, recomendo que as pessoas quem tem certa sensibilidade para ver cortes, sangue e afins, pensem bem antes de assistir a esta produção. Mais um filme forte nesta temporada pré-Oscar 2018. Realmente este ano temos uma safra diferenciada, com sabores agridoces que há muito não tínhamos que engolir a seco e em profusão como neste filme.

A HISTÓRIA: Um campo cheio de neve, de árvores e com dois cervos. Os animais caminham lentamente e olham um para o outro. O macho se aproxima da fêmea e procura o contato, mas ela se afasta. Enquanto isso, a neve cai em seu compasso lento. Corta. Em um curral, diversos bois estão próximos uns dos outros. Um dos animais olha para fora e vê alguns funcionários uniformizados. Logo um destes animais vai para o abate. O sol desponta, e diversas pessoas notam a sua presença. O dia começa como qualquer outro no abatedouro, onde mais um animal é morto. Carcaças desfilam penduradas.

Em seu escritório, o diretor financeiro da empresa, Endre (Géza Morcsányi), escuta a reclamação de um funcionário sobre uma máquina que não pode ser consertada. Na sequência, ele olha para um grupo de funcionárias que está no pátio da empresa, quando então percebe uma pessoa diferente. Depois, no almoço, ele pergunta para o diretor de RH, Jenö (Zoltán Schneider), quem é a nova funcionária. Ele responde que ela não foi contratada, mas que se chama Mária (Alexandra Borbély) e que é a nova inspetora de qualidade. Eles vão se aproximar, apesar das estranhezas iniciais, porque descobrem que tem uma ligação difícil de explicar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a On Body and Soul): Este filme surpreende pela história bastante inusitada. Afinal, não é todo dia que você assiste a um filme em que boa parte da história se passa em um abatedouro/açougue e que tenha como protagonistas pessoas de perfis tão diferentes como Endre e Mária.

Além disso, eles acabam se aproximando não apenas pelo trabalho, mas principalmente por algo também bastante raro: eles descobrem que sonham o mesmo sonho noite após noite. Bem, e aí temos um grande campo para interpretações tanto de psicólogos quanto de pessoas que acreditam em vidas passadas e etcétera. Eu vou primeiro me ater ao filme propriamente dito e depois vou comentar sobre estes pontos “transcendentais”, tudo bem?

Algo que chama a atenção logo no começo deste filme é como a diretora e a roteirista húngara Ildikó Enyedi não tem puder algum em nos apresenta algumas cenas bastante duras. A exemplo de Spoor (comentado aqui), parece que em On Body and Soul a diretora também quer nos fazer pensar sobre as nossas escolhas. Impossível uma pessoa que come carne, como eu, não pensar sobre a crueldade do tratamento e da morte dos animais.

Afinal, ainda que as nossas sociedades modernas tenham nos tirado a necessidade de “matar a nossa caça”, alguém ganha a vida fazendo isso pela gente. E, muitas vezes, não queremos realmente ver como tudo é cruel e brutal, mas On Body and Soul nos mostra isso sem firulas. Então, logo no começo do filme, temos algumas cenas fortes. Mas nada que se assemelhe ao que veremos depois. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Sou honesta em dizer que fiquei impactada com toda a sequência em que Mária vai para o banheiro para fazer o seu “ritual” depois de levar um fora de Endre.

Como disse para alguns amigos, eu posso ver um filme de terror como Saw (um dos filmes da “grife” tem crítica aqui) sem me impactar tanto quanto com essa sequência da protagonista de On Body and Soul. Isso porque Saw e outros filmes do gênero são exagerados e sabemos que tudo não passa de uma grande fantasia. Mas com On Body and Soul é diferente. O competente roteiro e narrativa de Enyedi fazem o espectador se colocar no lugar de Mária e, assim, sentir toda a sua angústia, desesperança e dor dilacerante que fazem ela tomar aquela atitude extrema.

E aí, para mim, reside o aspecto mais marcante desta história. On Body and Soul mostra como um sujeito que acreditava que não amaria mais, Endre, volta a acreditar que pode amar e ser amado a partir dos sonhos que compartilha com Mária. E Mária, por sua conta, que é uma pessoa muito peculiar e que, aparentemente, até então nunca tinha amado um homem ou se aproximado amorosamente de alguém, descobre que também é capaz de amar. A parte potente da produção é quando essa capacidade de amar dos dois praticamente é jogada fora por medo, insegurança e incompreensão.

Nessa parte esta produção se diferencia de outras. É marcante perceber como, apesar de compartilharem sonhos à noite, quando se encontram como dois cervos em uma floresta gelada, Endre e Mária têm dificuldade de se comunicarem e de se entenderem de fato quando acordados. Endre nem sonha, por exemplo, em todo o esforço que Mária está empreendendo para conseguir lidar com aquela situação e para conseguir, pela primeira vez na vida, se preparar para ser tocada por alguém. O esforço dela é marcante e tocante. Sem dúvida alguma a atriz Alexandra Borbély é o ponto forte desta produção.

Mesmo reagindo de forma totalmente diferente, o personagem de Endre também tenta lidar da melhor forma possível com aquela situação que o tira do lugar-comum. O ator Géza Morcsányi também tem uma interpretação marcante e se destaca pelo olhar e pela forma de atuar em cada momento em que aparece em cena. Desta forma, On Body and Soul mostra de forma muito natural e convincente como o amor – e a crença nele – pode desestabilizar a rotina e os atos de duas pessoas com “backgrounds” tão diferentes.

Da mesma forma, a falta de diálogo e de compreensão do outro, que sempre será diferente de um dos indivíduos que ama, pode provocar a perda de todo esse potencial de aproximação e de contato e terminar, o que não é tão raro assim de acontecer, em uma tragédia. On Body and Soul mostra tudo isso com muito cuidado e atenção aos detalhes. Vamos entender todas as dimensões do filme quando ele termina, porque enquanto a história está se apresentando, as pequenas surpresas que ela vai guardando no caminho e a interpretação marcante dos protagonistas não nos deixa ver o quadro completo.

Depois, decorrido um tempo após o espectador ter enfrentado a dureza de algumas cenas deste filme, é que On Body and Soul vai mostrar toda a sua profundidade, beleza e franqueza. Há muitas pessoas no mundo como Endre e Mária, com as suas diferentes limitações para amar. A beleza deste filme é que ele mostra que não importa a limitação que um indivíduo tenha para se aproximar, se abrir e se entregar para outro, esses gestos sempre são possíveis se nos propomos a eles e se enfrentamos o nosso medo de nos expormos e de dar errado.

On Body and Soul é surpreendente por tudo isso. Um filme vigoroso e que consegue explorar muito bem a história de duas pessoas interessantes em suas “normalidades”. Uma parte significativa da história, que se refere a uma investigação sobre um furto ocorrido na empresa, só serve de desculpa para Endre e Mária descobrirem que sonham o mesmo sonho, noite após noite, e, com esta descoberta, os dois se aproximarem de forma amorosa.

A essência do filme é bastante interessante, por tudo que eu comentei, mas admito que alguns pontos da produção não permitiram que eu gostasse mais ainda de On Body and Soul. Para começar, apesar de entender a intenção da diretora de “chocar” para fazer pensar, eu achei um tanto pesadas demais e até exageradas as cenas dos abates – tanto dos animais quanto da protagonista. Sim, o mundo é cruel, mas talvez isso não precisasse ser tão jogado na nossa cara, não é mesmo? Claro que, desta forma, o filme faz pensar. Mas talvez ele não chegue a tantas pessoas porque nem todos estão preparados para ver a cenas tão duras.

Depois, entendo que Enyedi precisava de uma boa razão para aproximar pessoas tão diferentes quanto Endre e Mária. Mas será mesmo que uma desculpa um tanto “esotérica” como a dos sonhos em comum foi a melhor escolha? Digo isso porque não duvido que muitas pessoas vão usar On Body and Soul para discutir mais esta questão do sonho do que outros aspectos relevantes da produção. Abaixo eu vou comentar alguns textos que eu achei sobre o assunto, mas nada muito profundo na internet. Mas certamente alguns especialistas poderão vir aqui para nos ajudar a entender melhor esta questão dos sonhos em comum.

No geral, e para resumir, eu achei este filme interessante pela história realmente diferenciada que ele nos conta. A diretora e roteirista Ildikó Enyedi também soube fazer escolhas potentes e marcantes que farão On Body and Soul ficar na memória dos espectadores por um bom tempo. Este é um filme de “pegada”, que tem um belo “punch”.

Especialmente porque ele tem muitas sequências de “vida real”, que fazem o espectador se identificar com diferentes situações ou, mesmo quando não se sente “na pele” dos protagonistas, consegue ter empatia por eles. Bem conduzido, com ótimos atores principais, este filme acerta no foco e em boa parte de suas intenções. Pena que nem todos poderão aguentar o “punch” de algumas cenas desta produção. Mas faz parte. O cinema, assim como a vida, é feito de escolhas. Enyedi fez as suas e, com elas, está indo longe com On Body and Soul.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho meio difícil alguém assistir a On Body and Soul e não ficar curioso para saber se, de fato, tem pessoas que sonham os mesmos sonhos que outras pessoas. E com isso, claro, eu não quero dizer sonhar esporadicamente com cobras, lagartos e afins, mas compartilhar realmente um sonho com outro indivíduo sem que isso tenha sido “provocado”. Aguardo um especialista para nos “iluminar” sobre esse assunto. Mas cito este texto do site João Bidu que trata dos “sonhos simultâneos”. O texto apenas comenta que estes sonhos sinalizam para o fato de que existe “um grande vínculo entre os sonhadores”. Bem, isso é meio evidente, não? Mas o que explicaria esse “fenômeno” é que são os 500.

Um outro texto, do site da Revista Encontro, trata também sobre o assunto dos sonhos simultâneos. De acordo com o psiquiatra consultado pela reportagem, Dirceu Valladares, duas pessoas sonharem com a mesma coisa seria “como ganhar na Mega Sena”. Algo muito raro e difícil de comprovar. Ainda que, me parece, o método utilizado em On Body and Soul é o mais eficiente e lógico.

E sobre o significado de Endre e Mária sonharem, cada um, que são um cervo? Claro que a Psicologia tem toda uma corrente que estuda o assunto – vide Jung. Então há especialistas – muitos, imagino – no mercado que podem falar melhor do assunto do que eu. Mas pesquisando rapidamente pela internet, encontrei esta explicação no site Livro do Sonho sobre o que significa “sonhar com cervo”: “Ver um cervo em seu sonho simboliza graça, bondade e beleza natural. Também significa independência e virilidade. Para os homens, significa que você pode estar rejeitando o seu lado feminino. Sonhar que você mata um cervo simboliza que você está tentando suprimir o seu lado feminino”. A primeira parte desta interpretação, em especial, faz bastante sentido em relação a On Body and Soul, não é mesmo?

Acredito que este filme será um produto interessante, aliás, para quem estuda Psicologia. Os personagens são marcantes e, certamente, Mária, que é acompanhada desde a infância por um psicólogo, deve ter sido diagnosticada com algum distúrbio – que não é citado no filme, mas que fica evidente. Eu não sou uma especialista, mas fiquei pensando se ela teria TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) em um estágio um tanto avançado ou se ela teria algum grau de autismo. Um especialista que passe por aqui, novamente, poderá nos “esclarecer” melhor sobre isso. Mas acho fascinantes filmes que mostram o comportamento, as aspirações e a rotina de pessoas que são como nós, mas que tem algumas características especiais.

Como comentei antes, um aspecto marcante deste filme é a direção detalhista e muito bem planejada de Ildikó Enyedi. A diretora húngara de 62 anos e 14 prêmios no currículo também escreveu o roteiro e soube, desta forma, selecionar com precisa os momentos marcantes do seu filme. Um acerto dela foi centrar a narrativa em dois personagens e se aprofundar na vida, nas rotinas e nos desejos deles.

Desta forma, o filme não se perde em histórias desimportantes e acaba ampliando a capacidade da narrativa de tocar o público e de fazer cada espectador se sentir próximo dos protagonistas e das suas histórias. Muita gente com dificuldades, acredito, sentirá uma brisa de esperança com este filme, enquanto outros que não passaram por aquilo terão como se “colocar na pele” de alguém diferente e de desenvolver empatia. Importante sob as duas óticas.

Além da diretora e roteirista, o destaque desta produção é a dupla de atores que “carrega” a história nas costas. A atriz Alexandra Borbély, em especial, tem uma das interpretações mais marcantes do ano. É de tirar o chapéu para ela! Géza Morcsányi tem o difícil desafio de fazer um “dueto” com a atriz, e ele se sai muito bem também. Cada um com o seu estilo de interpretação e de personagem, mas ambos convencem em cada minuto que estão em cena. Isso é raro e potente. Eis um ponto forte da produção.

Ainda que o filme seja bem centrado nos personagens de Endre e Mária, On Body and Soul tem um pequeno grupo de personagens secundários e de atores coadjuvantes que também fazem um bom trabalho. Vale citar o nome de Zoltán Schneider, que interpreta a Jenö, amigo de Endre e responsável pelo RH da empresa em que ambos trabalham; Ervin Nagy como Sanyi, o sujeito “boa pinta”, um tanto mulherengo e “abusado” e que é um dos contratados recentes do abatedouro; Tamás Jordán como o psicólogo de Mária; Réka Tenki como Klára, a psicóloga que é contratada para ajudar na investigação do furto na empresa e que acaba ficando intrigada com os sonhos simultâneos dos protagonistas; e Itala Békés como Zsóka, a mulher da limpeza do abatedouro e que não tem muitas papas na língua.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a bela direção de fotografia de Máté Herbai; a trilha sonora bastante pontual mas bem feita de Adam Balazs; a edição precisa de Károly Szalai; os figurinos de Judit Sinkovics; o design de produção de Imola Láng; e o Departamento de Maquiagem com nove profissionais que fazem um ótimo trabalho.

On Body and Soul estreou em fevereiro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Ou seja, o filme fez uma loooonga carreira em festivais mundo afora. Até o momento, a produção ganhou oito prêmios e foi indicada a outros sete. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Urso de Ouro como Melhor Filme e para outros três prêmios (incluindo o FIPRESCI Prize e o do Júri Ecumênico) no Festival de Berlim; para o Golden Frog para Máté Herbai no Camerimage; para o de Melhor Atriz Europeia para Alexandra Borbély no European Film Awards; para o Melhor Filme segundo a Escolha do Público no Festival de Cinema de Mumbai; e para o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Sydney.

E uma curiosidade sobre esta produção: On Body and Soul é o primeiro filme feito por Ildikó Enyedi em 18 anos. Uau! Realmente, olhando para a filmografia da diretora, o longa anterior que ela dirigiu foi Simon Mágus, lançado em 1999. Depois, ela dirigiu dois curtas e a série Terápia. E só. Belo retorno para os longas no cinema, não é mesmo? Ela está de parabéns!

Para os curiosos sobre os locais em que os filmes são rodados, On Body and Soul foi filmado em Budapeste e no Bükk National Park.

Este filme é uma produção 100% da Hungria – e o indicado pelo país ao Oscar 2018 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 35 textos positivos e apenas quatro negativos para este filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,3.

CONCLUSÃO: Eis um filme que deixa você pensando sobre o que você achou sobre tudo o que você viu por algum tempo. On Body and Soul provoca, instiga e revela que, mesmo em cenários brutais, podemos encontrar uma certa poesia. Admito que algumas cenas desta produção me incomodaram. E não foi pouco. Mas, passado o impacto destas imagens, percebi que este é um filme diferenciado sobre o amor e sobre como as pessoas podem ser modificadas/redescobertas a partir deste sentimento.

Como eu disse no princípio, todos são capazes de amar. Mesmo os que nunca se imaginaram fazendo isso – ou aqueles que acreditavam que nunca mais iriam “cair nessa”. Um belo filme, ainda que eu ache que ele exagera um pouco nas tintas para “chocar”. Nem sempre isso é necessário. Mas o lado positivo é que as intenções aqui acabam justificando um pouco os meios. Não é um filme arrebatador, destes que você vai colocar na lista dos melhores de todos os tempos. Mas ele cumpre o seu papel. Mais um achado impactante desta safra 2017.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Olha, este ano está difícil de dar muitos palpites para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar. Digo isso porque uma coisa é o nosso gosto pessoal, outra muito diferente – às vezes – são os filmes que vão colecionando prêmios pelo mundo. Em outras palavras, muitas vezes esta categoria surpreende pelos filmes indicados/finalistas. Nem sempre o nosso gosto bate com o que os críticos e votantes das premiações percebem como as melhores obras de cinema.

Da minha parte, francamente, eu não votaria em On Body and Soul para uma das cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas este filme ganhou, entre outros prêmios, o Urso de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cinema de Berlim… então quem vai dizer para os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que eles estariam errados em indicar este filme no Oscar 2018?

Quem acompanha o blog sabe que este é o sétimo filme da lista de 92 produções que tem alguma chance de avançar na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Estou tentando ver a alguns dos mais fortes candidatos, segundo as predileções dos experts estrangeiros. Dos filmes que eu vi até agora, acho que o que tem mais chances em conseguir uma das cobiçadas cinco vagas de finalista é o filme First They Killed My Father (comentado por aqui). Depois, vejo alguma chance de indicação para The Divine Order (com texto neste link), Spoor (com crítica por aqui) e para Loveless (com comentário neste link).

Mas eu sei também que tem alguns filmes bem cotados que eu ainda não assisti – como In the Fade e The Square. Para resumir, a disputa este ano está das boas. Temos uma safra de filmes fortes, marcantes e com histórias realmente originais – seja pela história em si, seja pela narrativa. Neste cenário, acho que os prêmios recebidos por On Body and Soul e um bom lobby envolvendo o filme podem fazer ele chegar até os nove pré-indicados e, quem sabe, até a lista dos cinco finalistas ao prêmio.

Agora, acredito que mesmo que ele tenha todos os elementos jogando a seu favor, On Body and Soul conseguirá, no máximo, ficar entre os finalistas. Ele não conseguirá uma estatueta dourada. Mas se eu for falar do meu gosto pessoal, ele ficaria de fora. Da lista que eu já assisti, vejo mais chances para First They Killed My Father, para Loveless e para The Divine Order, nesta sequência.

ATUALIZAÇÃO (16/12): Comecei a escrever esta crítica há alguns dias. E aí, no dia 14/12, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood me surpreendeu divulgando a lista dos nove filmes que avançaram na disputa na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. On Body and Soul é um dos filmes que avançou – juntamente com Una Mujer Fantástica, In the Fade, Foxtrot, The Insult, Loveless, Félicité, The Wound e The Square.

Nessa lista, alguns favoritos foram confirmados, e outros ficaram de fora. On Body and Soul era apontado por muitos críticos como um forte candidato a figurar na lista de cinco finalistas. Ele confirmou a sua força, assim como Una Mujer Fantástica, In The Fade, Loveless e The Square. Só foi um tanto surpreendente o filme do Camboja, First They Killed My Father, e o filme francês BPM (Beats Per Minute) terem ficado de fora desta primeira peneirada em que nove produções avançaram.

Acho que On Body and Soul, assim como Loveless, tem boas chances de avançarem e de ficarem entre os cinco indicados nesta categoria do Oscar. Vejo também que outros filmes com grandes chances de fechar a lista são Una Mujer Fantástica, In the Fade (que parece ser o favorito) e The Square. Este, pelo menos, seria o palpite a partir da opinião dos críticos. Porque, como vocês que acompanham o blog sabem, ainda preciso assistir a sete dos nove filmes que avançaram na disputa. Tenho bastante dever de casa para fazer ainda. 😉

Loving Vincent – Com Amor, Van Gogh

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A cada novo frame, uma obra de arte. Sem exageros. Loving Vincent é uma obra estonteante, um verdadeiro deleite para quem já se pegou passando um longo tempo contemplando uma obra de arte. E se você é fã de Van Gogh, então… aposto que você vai ficar sem palavras com este filme. Honestamente, acho que este é um dos filmes mais bonitos que eu já assisti na vida. A história é envolvente, interessante, o filme têm dinâmica e movimento, apesar de ser todo feito a partir de um trabalho totalmente artesanal. Uma bela, belíssima homenagem ao artista que foi incompreendido no seu tempo e valorizado apenas após a sua morte.

A HISTÓRIA: Começa nos informando que o filme que vamos assistir foi totalmente pintado à mão por uma equipe de mais de 100 artistas. Em uma notícia ampliada de jornal, sabemos que em Auvers-Sur-Oise, no domingo dia 17 de julho, Van Gogh, com 37 anos, pintor holandês que estava com “estadia” em Auvers, atirou em si mesmo com um revólver nos campos, mas que ele acabou retornando para o quarto em que estava hospedado, onde morreu dois dias depois. Depois desta notícia, o filme informa que a história de Loving Vincent começa um ano após a morte de Vincent Van Gogh. A “jornada” começa em Aarles, no ano de 1891.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving Vincent): Este é um filme que preferencialmente, você deve assisti-lo em um cinema. Afinal, para curtir toda a beleza e o trabalho magnífico dos artistas envolvidos neste filme, só mesmo em frente a uma tela grande. Algo similar com ver uma obra de arte em um livro e/ou na tela do computador ou pessoalmente. A diferença entre as nossas leituras e impressões é gigantesca.

Eu não sou uma grande conhecedora da vida e da obra de Vincent Van Gogh. Eu já vi a algumas de suas obras pessoalmente, em museus de mais de uma latitude, mas eu sei o que quase todo mundo sabe sobre a vida dele. Antes de assistir a este filme, por exemplo, eu sabia sim que ele não tinha sido uma pessoa exatamente feliz em vida, que ele tinha alguns problemas psicológicos – a ponto de cortar a própria orelha em um dia de desespero. E era isso que eu sabia sobre a vida dele.

Sobre a obra… esta eu posso dizer que eu conhecia um pouco mais. Tinha visto a alguns de seus quadros pessoalmente e a vários outros em coleções e livros de arte que eu li há vários anos. A obra dele é realmente algo impressionante. E isso é o que me marcou logo nos primeiros segundos deste filme. Como a equipe dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, responsáveis pelo roteiro desta produção junto com Jacek Dehnel, conseguiram reproduzir com tanto esmero e talento a obra do mestre que eles estão homenageando.

Realmente o trabalho é incrível. Cada frame que vemos em cena, especialmente do “tempo presente” da narrativa, é algo impressionante. Obras de arte que tem os traços e as cores das obras de Van Gogh. Como vários outros filmes com atores reais que são dirigidos em longas que não são de animação, em Loving Vincent o passado é narrado em preto e branco. Um recurso bem conhecido do público para diferenciar dois momentos narrativos diferentes.

Então este é outro ponto marcante nesta produção. Como cada tempo narrativo tem uma técnica diferente de pintura desenho e de arte. Muito interessante como os estilos, tão diferentes, acabam se complementando. Honestamente, achei o trabalho técnico e artístico deste filme impecável. Os realizadores não apenas resgatam a história de Van Gogh, mas o homenageiam de forma espetacular ao reproduzir algumas de suas telas na nossa frente. E o que não foi pintado pelo mestre holandês se inspira na obra dele para preencher os espaços entre uma obra e outra de Van Gogh que vemos em cena. Um trabalho belíssimo.

Imagino que quem conhece com profundidade a vida de Van Gogh, não tenha se surpreendido tanto com esta história quanto eu. Possivelmente esta pessoa que tem mais conhecimento tenha também achado um e outro defeito da história que está sendo contada. Da minha parte, de quem não é uma especialista em Van Gogh, achei o roteiro de Kobiela, Welchman e Dehnel muito bem construído. A história segue uma linha um tanto “clássica”, intercalando o momento presente da narrativa e o passado que tenta explicar o que teria provocado a morte prematura do pintor holandês.

O protagonista desta produção, o jovem Armand Roulin (com voz de Douglas Booth), que foi retratado por Van Gogh e que era filho do carteiro que atendeu o artista por muitos anos, faz as vezes em Loving Vincent de um investigador. Enviado pelo pai, Joseph Roulin (Chris O’Dowd), para encontrar a última carta escrita por Van Gogh, Armand acaba indo atrás, primeiro, do irmão do pintor holandês, Theo van Gogh (Cezary Lukaszewicz). Afinal, ele era o destinatário da carta e parecia a pessoa certa a receber esta última correspondência.

Em Paris, Armand descobre que Theo não morreu muito depois do irmão. E a esposa e filhos dele já não estão morando mais ali. Então ele decide ir para Auvers, onde Van Gogh morreu, para tentar encontrar algumas respostas sobre o que aconteceu com o amigo de seu pai. Inicialmente, Armand tinha pouco interesse em realmente saber o que tinha acontecido com Van Gogh, até porque ele acreditava na versão oficial de que o pintor tinha se matado. Mas a certeza do pai dele de que isso não teria acontecido com o amigo Van Gogh, que estaria melhor de uma depressão, fazem com que Armand acabe investigando as relações e os últimos dias de Van Gogh.

No fim das contas, Armand acredita que se ele entregar a carta de Van Gogh para o Doutor Gachet (Jerome Flynn), ele poderá dar o destino correto para a correspondência. É desta forma que ele conhece algumas pessoas interessantes e que foram retratadas por Van Gogh em suas obras. O roteiro de Loving Vincent equilibra, desta forma, esta espécie de “investigação” sobre a morte de Van Gogh, o que imprime um pouco de suspense para o roteiro do filme, com um resgate de fatos da vida do artista que aparecem como pinceladas volta e meia na história.

Assim, sabemos um pouco sobre a infância dele, da relação conturbada com os pais, sobre a dependência e a proximidade de Vincent com o irmão Theo, assim como sabemos sobre as alegrias e os muitos desafios e fontes de tristeza que o artista teve na sua vida. Fica evidente, com este filme, que Van Gogh foi incompreendido em seu tempo. Ele não teve apoio de ninguém além do irmão, e não teve sucesso com a sua arte enquanto vivo. Também sabemos sobre o quanto ele escrevia – muito! – para o irmão e sobre como ele era admirado pelas pessoas que o conheceram mais de perto. Afinal, ele era um sujeito calmo, atencioso, educado, e que vivia por sua arte.

Uma história interessante por si mesma, pois, e que foi muito bem explorada por esta produção. Claro que a vida de um artista como Van Gogh não pode ser resumida em 1h34 de filme, como é a duração desta produção, mas a homenagem que os realizadores fizeram para o artista aqui é impressionante e maravilhosa. Me apaixonei por esta produção. Achei uma grande experiência de cinema. Dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Por isso, recomendo a todos que assistam a Loving Vincent. Especialmente nos cinemas.

Além de todos os fatos que eu citei anteriormente e de todas as qualidades relacionadas, também pela história inspiradora de Vincent Van Gogh. Ele viveu em outro tempo e em outros locais do que a gente, mas algo que podemos aprender com a sua história é que quando nos dedicamos a um talento com o qual nascemos, maravilhas surgem do nosso trabalho. Mas que para chegarmos a um trabalho excepcional, precisamos sacrificar outras partes da nossa vida e realmente trabalhar muito. Van Gogh era um apaixonado pela arte e uma pessoa muito atenta e admiradora de tudo que o cercava. Características que deveriam nos inspirar e nos fazer pensar sobre como gastamos o nosso tempo, não é mesmo? Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei dos poucos momentos em que este filme citou trechos de cartas e, consequentemente, do pensamento de Vincent Van Gogh. Claro que o filme, com a duração que ele tem, já deu muitíssimo trabalho para os realizadores, mas eu não teria achado ruim mais 10 ou 15 minutos de filme e a citação de mais trechos de cartas de Van Gogh. Algo que esta produção desperta é o nosso interesse por saber mais sobre o artista, a sua vida, o que ele pensava e como ele produzia as suas obras de arte.

Falando no pensamento de Van Gogh, uma das frases dele que são citadas, logo no início do filme e que serve como uma espécie de cartão-de-visitas da produção é esta aqui: “Só podemos falar através das nossas pinturas”. De fato, Van Gogh acreditava nisso. Como ele não tinha muitas relações pessoais e pensava e conversava através de sua arte, é que entendemos o porquê dele ser tão talentoso.

Todos os atores que “interpretam” os personagens deste filme, ou seja, que dão vozes para eles, estão muito bem. O destaque inevitável, claro, pela presença dele em tela e por conduzir a narrativa, é para o ator Douglas Booth, que interpreta a Armand Roulin. Mas outros personagens e atores que ganham destaque neste filme são Eleanor Tomlinson, que interpreta Adeline Ravoux, filha dos proprietários do hotel em que Van Gogh ficou hospedado e onde morreu; Saoirse Ronan como Marguerite Gachet, filha do Doutor Gachet e uma grande admiradora do talento de Van Gogh; Jerome Flynn como Doutor Gachet, uma figura muito próxima de Van Gogh na temporada próxima de sua morte; Robert Gulaczyk como Vincent Van Gogh; Cezary Lukaszewicz como Theo van Gogh; Robin Hodges como o Lieutenant Milliet; Chris O’Dowd como o carteiro Joseph Roulin; John Sessions como Pere Tanguy, dono de galeria que tentava comercializar as obras de Van Gogh em Paris; Helen McCrory como Louise Chevalier, empregada dos Gachet; Aidan Turner como o barqueiro que conviveu com Van Gogh e que é procurado por Armand; Bill Thomas como o Doutor Mazery, que deu outra interpretação para o tiro que Van Gogh levou; e Piotr Pamula em uma ponta como Paul Gaugin.

Além da direção e do roteiro, já comentados antes, o grande mérito desta produção ser tão bela e perfeita são os artistas – mais de 100, como foi comentado na introdução deste filme – envolvidos nas pinturas que compõem este filme. O trabalho deles é que faz Loving Vincent ser tão diferenciado. Então todos os louros para os 20 nomes relacionados no Departamento de Arte deste filme e para os 111 nomes que trabalharam no Departamento de Animação. Eles são os grandes responsáveis por este filme ser tão especial. Parabéns a todos os envolvidos, pois!

Da parte técnica do filme, também vale destacar o ótimo – e fundamental – trabalho dos diretores de fotografia Tristan Oliver e Lukasz Zal; o belo e pontual trabalho de Clint Mansell com a trilha sonora; a edição cuidadosa e precisa de Dorota Kobiela e de Justyna Wierszynska; o design de produção de Matthew Button, Maria Duffek e Andrzej Rafal Waltenberger – os dois últimos envolvidos nas fotografias dos atores em Wroclaw, trabalho esse que depois influenciaria nas pinturas dos artistas que fizeram esta produção; a direção de arte de Daniela Faggio; os figurinos de Dorota Roqueplo; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – responsáveis, entre outros pontos, pela difícil sincronização das falas dos atores com o trabalho dos artistas envolvidos com as animações; e os 50 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Loving Vincent estreou em junho de 2017 no Annecy International Animation Film Festival. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 25 festivais em várias partes do mundo. Nesta trajetória, Loving Vincent ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme segundo a escolha do público no Annecy International Animation Film Festival; para o de Melhor Animação Estrangeira/Trailer Familiar e para o Melhores Gráficos Estrangeiros em um Trailer no Golden Trailer Awards; para o prêmio de Melhor Filme de Animação no Festival Internacional de Cinema de Shanghai; e para o prêmio Produção Internacional Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver. Loving Vincent também figura no Top 10 da lista do National Board of Review de Filmes Independentes. Ele é a única animação da lista, vale dizer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o site IMDb, Loving Vincent é o primeiro longa de animação totalmente pintado que já foi realizado pelo cinema mundial. Baita, não?

Segundo os produtores, cada um dos 65 mil frames que vemos em cena, nesta produção, são quadros de pinturas a óleo sobre tela. A parte do filme colorida utiliza a mesma técnica utilizada por Van Gogh; técnica esta reproduzida por pouco mais de 100 artistas.

Durante uma “masterclass” no Klik Amsterdam Animation Festival, os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman afirmaram que, se você olhar atentamente para cada cena desta produção, em uma delas você poderá notar uma mosca presa na pintura de um dos quadros. Quem se habilita a buscar a tal mosca? 😉

Loving Vincent foi totalmente rodado no Three Mills Studios, na cidade de Londres, no Reino Unidos.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido com a Polônia.

Claro que existem muitos outros textos melhores e mais profundos sobre a vida de Vincent Van Gogh. Mas vale, para os que ficaram curiosos para saber um “resumo” sobre a trajetória do artista, dar uma olhada nos textos dos sites InfoEscola; History; UOL Educação; e Huffpost Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Loving Vincent teria feito quase US$ 5,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Para um filme independente e com a proposta desta produção, acho que não está nada mal. Mas o principal concorrente dele no Oscar 2018 está em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos e conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 135,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Ou seja, uma comparação realmente brutal – e não fica difícil presumir para onde “pende” o pêndulo da indústria de Hollywood, não é mesmo?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e 21 negativas para este filme – o que garante para Loving Vincent uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Pelos prêmios que eu citei antes, já dá para perceber que este filme agradou mais ao público do que aos críticos, não é mesmo?

Procurando saber um pouco mais sobre os realizadores deste filme, achei interessante saber – e comentar com vocês – que Loving Vincent marca a estreia na direção do produtor Hugh Welchman. Por outro lado, este filme é o quarto trabalho na direção de Dorota Kobiela. Ela estreou na direção com o longa The Flying Machine, em 2011, e, depois, dirigiu a dois curtas antes de fazer com Welchman o filme Loving Vincent.

Ah sim, e você, como eu, deve ter se perguntado como os artistas trabalharam cada frame que vemos em cena, não é mesmo? Pesquisando sobre o filme e vendo fotos de bastidores, percebi que os diretores filmaram as cenas com os atores e que depois cada um daqueles 111 envolvidos com o trabalho do Departamento de Animação produziram as telas que reproduziram a ação em quadros que são verdadeiras obras de arte. Bem bacana!

CONCLUSÃO: Para quem é um profundo conhecedor da vida e da obra de Van Gogh, possivelmente a leitura deste filme será diferente da minha. Como eu não me enquadro neste perfil, me considero apenas uma pessoa com conhecido médio sobre o artista, achei Loving Vincent simplesmente divino. É um prazer passar pouco mais de uma hora e meia no cinema, frente a uma grande tela que desfila obras de arte a cada novo frame, como comentei lá na introdução deste texto.

Como animação, este filme é um dos melhores que eu já vi na vida. Enquanto história criada para o cinema, este filme cumpre bem o seu propósito, resgatando parte da vida, da obra e do pensamento do artista. Para mim, um trabalho irretocável. Merece ser visto com tempo e, quem sabe, até revisto. Este é um dos raros casos de peça de cinema que não cansa pela experiência prazerosa de cada cena. Não perca!

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Loving Vincent é um dos 26 filmes de animação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood informou que está concorrendo a uma vaga na disputa de Melhor Filme de Animação no próximo Oscar. Este filme a exemplo do que aconteceu em outros anos, foge do padrão “hollywoodiano” de filmes de animação. Especialmente pelo fato desta produção ser artística e mais “adulta”, diferente das produções que costumam ganhar o prêmio e que são feitas pela Disney ou pelo estúdio Pixar.

Francamente, este é o primeiro filme da lista de 26 que eu assisto. E mesmo sem poder compará-lo com os demais ainda, digo com toda a certeza que ele não deveria ficar fora da disputa do Oscar 2018 em sua categoria. Esta produção é brilhante, belíssima, muito bem narrada e com uma beleza ímpar. Como e disse antes, um dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Então, apesar de não ter o lobby dos grandes estúdios, Loving Vincent deveria sim estar entre os cinco finalistas desta categoria.

Agora, ele tem chances de ganhar o Oscar? O franco favorito, pelo que eu tenho lido, é o sucesso de público e de crítica Coco. Existem outros filmes que estariam na “dianteira” desta disputa, como The Breadwinner, Ferdinand e Birdboy: The Forgotten Children, além de outras produções que estariam correndo um pouco por fora mas com chances de chegar a uma das cinco indicações, como os filmes da grife The Lego Movie e The Boss Baby.

Para realmente opinar sobre esta categoria, eu preciso ver a outros concorrentes. Mas analisando apenas Loving Vincent, o meu foto seria, inicialmente, para ele. Seria muito injusto este filme não figurar entre os cinco finalistas ao Oscar. O grande desafio desta produção será vencer o grande lobby do filme Coco, uma coprodução das gigantes Disney e Pixar. Me parece que Coco leva vantagem, mas seria bacana ver a “zebra” Loving Vincent ganhar esta disputa.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro. Loving Vincent foi indicado na categoria Melhor Filme de Animação. Como esperado, o principal concorrente dele será Coco. Esperamos que este filme também consiga a sua vaga no Oscar. Eu estou na torcida desde já! 😉

Nelyubov – Loveless

Ah, o desamor! Esta característica que parece estar cada vez mais presente em tantas casas e ruas de diversas cidades do Brasil e do mundo. Desamor este capaz de destruir, seja de forma lenta, seja de forma ligeira, tudo o que encontra pela frente. O filme russo Loveless, representante no Oscar 2018 do país que vende uma imagem gelada para o mundo há tanto tempo, acerta em cheio ao falar do desamor. Vi neste filme tantas realidades que eu conheci ou sobre as quais eu só ouvi falar – mas que são muito, muito reais. Um filme forte, tenso, com um roteiro que corta como uma navalha, mas cheio de verdade(s).

A HISTÓRIA: Uma grande árvore. A neve cai. O cenário gelado mostra neve sobre a terra e as árvores, mas a água do rio ainda não está congelada. Sobre a água, nadam alguns patos. Fora o movimento dos animais e da água e a queda da neve, todo o restante do cenário é estático. No pátio de uma escola, também não vemos movimento. Até que a porta se abre e as crianças e os jovens correm para fora. Entre eles, está o solitário Alyosha (Matvey Novikov). No longo caminho que faz à pé até em casa, Alyosha se diverte com uma fita que encontra no caminho. No próprio lar, contudo, ele não tem nenhum motivo de diversão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nelyubov): Logo no início você percebe aquela forma peculiar de ser e de revelar-se dos russos. Não assisti a tantos filmes daquele país quanto eu gostaria, mas sempre que eu vejo um filme “made in Russia”, este filme se revela marcante. Os russos – conheci poucos na vida – tem uma forma muito direta de ser e de se expressar. Eles são de uma cultura um tanto machista, mas as mulheres também tem opinião forte. E isso fica evidente nesta produção.

Interessante como Loveless é um filme russo e, ao mesmo tempo, muito universal. Especialmente pelo que eu comentei no início. A história e as verdades que este filme aborda de maneira muito franca e direta podem ser encontradas em muitos países e culturas. Tão, igual ou menos machistas que a cultura russa. Na verdade, esta questão, do machismo, pouco importa neste filme. O cerne da história está realmente naquela palavra, desamor.

O início de Loveless é perfeito. Ele mostra o desamor que move este filme em toda a sua potência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chega a ser complicado assistir a toda a crueldade da mãe e do pai de Alyosha em relação ao menino. O garoto parece ser um grande fardo para os dois. Nem a mãe dele, Zhenya (Maryana Spivak), e nem o pai, Boris (Aleksey Rozin) têm qualquer paciência ou demonstração de afeto por Alyosha.

Zhenya apenas faz o básico do básico do básico, ou seja, serve café da manhã para o filho e o manda para a escola todos os dias. Mas, em uma certa noite, depois que o garoto sai para a escola, ela nem dorme em casa e não tem certeza se Alyosha chegou a voltar para casa. Boris não é melhor. Ele vai para casa apenas para dormir, e em algumas noites, e parece ser incapaz de ter qualquer proximidade com o filho. Na verdade, nem vemos eles interagindo nesta produção.

A discussão de Zhenya com o quase ex-marido é ilustrativa do “clima” que existe na casa de Alyosha. Quando vemos aquela discussão e a forma com que os pais tratam o garoto, entendemos as cenas iniciais de Loveless que, até então, pareciam um tanto estranha. Afinal, em pouco tempo podemos perceber que Alyosha é um garoto um bocado solitário – ao ponto de preferir olhar pela janela a paisagem ao invés de sair para brincar com as crianças de perto de casa.

O que acontece com um menino para ele não ter nenhuma vontade de brincar? Essa foi a primeira pergunta que este filme me despertou. E o diretor e roteirista Andrey Zvyagintsev, que escreveu este roteiro junto com Oleg Negin, é muito preciso em nos dar esta resposta. Loveless é um filme muito direto do início ao fim, e a parte inicial da produção tem o ritmo e a dinâmica perfeita. O roteiro não deixa ninguém impassível. A realidade de Alyosha é de cortar o coração, e nos compadecemos do garoto. O pior é que após os pais deles se jogarem nos braços de seus amantes durante a noite inteira e Zhenya dar pelo sumiço do filho no dia seguinte, não temos como não esperar o pior.

A partir daí, o filme dá uma grande virada narrativa. Aquele ritmo certeiro e ágil do início é substituído por um roteiro que narra uma busca que parece sem fim. A narrativa então fica bastante previsível. Estamos sempre esperando pelo pior, pela notícia do fim trágido de Alyosha. Neste sentido, Loveless perde um tanto da sua força e da sua capacidade de surpreender. Sabemos por onde a história vai caminhar. Apenas perto do final o filme volta a ter a força que vimos no começo.

Os dois personagens principais, adultos, deveriam fazer qualquer pessoa refletir a respeito da vida que têm e que gostaria de ter. Zhenya está sempre com a atenção no celular e nas redes sociais, enquanto Boris está mais preocupado com o status social e com o que os chefes e colegas de trabalho vão falar dele, um sujeito que está se separando e que já engravidou uma outra garota (Yanina Hope). Nenhum dos dois parece se importar o mínimo com o filho que geraram. Não importa se Alyosha foi desejado ou não. Os pais deveriam, no mínimo, ter responsabilidade em relação a ele, certo?

Mas não. Loveless mostra que nem todas as pessoas nasceram com a vocação para ser mãe ou pai. Algo que eu já comentei aqui em outras críticas. Estou totalmente de acordo com esta leitura da realidade. Conheci alguns casos de pessoas que foram marcadas pela vida inteira por mães ou pais ineptos, para dizer o mínimo e ser “suave”. Centrados demais em si mesmos, egoístas ao extremo, mães e pais como Zhenya e Boris fazem os seus filhos vítimas – seja de forma definitiva, como Loveless mostra no caso de Alyosha, seja de forma menos definitiva mas igualmente grave, provocando feridas psicológicas ou de autoestima nos filhos algumas vezes difíceis de curar.

Depois de toda a narrativa de busca de Alyosha, em que Zhenya e Boris até parece terem resgatado alguma parte de suas “humanidades”, o final de Loveless é matador. Pensamos: puxa, depois de tudo que aconteceu, quem sabe a perda de Alyosha sirva para Zhenya ser mais aberta aos próprios sentimentos e ao amor, enquanto Boris, quem sabe, pode ser um melhor pai para o filho que teve com a nova namorada, não é mesmo? Mas não. Zhenya continua vivendo mais conectada ao celular e às redes sociais, incapaz de se solidarizar com a dor que vê na TV, enquanto Boris não tem paciência nenhuma com o novo filho.

E aí vem a pergunta inevitável: o que diabo estas pessoas estão fazendo com as próprias vidas? Para que, afinal, elas vivem? Para acumularem os dias e viverem em seu constante desamor? Estas são apenas algumas de várias perguntas que este filme pode levantar. Mas algo é fato: Loveless desenvolve algumas ideias importantes sobre as relações interpessoais e sobre a capacidade do ser humano de provocar dano. Um filme forte, impactante, que faz pensar e que, além disso, é capaz de provocar alguma agitação na bílis do espectador.

Por tudo isso, é um filme que merece ser assistido. Se você não tem problemas em ver filmes fortes e que possam lhe deixar um tanto indignado(a), é claro. Porque se você estiver procurando um filme leve e bacaninha para assistir, deve passar longe desta produção. Loveless é tudo, menos um filme que vai lhe deixar melhor após a experiência de assisti-lo. Mas isso não o torna um filme ruim. Muito pelo contrário. Quem sabe ele lhe prepare para identificar estas pessoas um tanto “desumanas” e incapazes de sentir perto de você e, dentro do possível, a se defender delas.

Ah sim, e antes de terminar esta crítica. A desaceleração do roteiro após Zhenya perceber a ausência do filho tem um sentido de ser. Aquela busca que parece ser sem fim, com Zhenya colando cartazes do filho pela cidade e Boris acompanhando de perto as buscas dos grupos de voluntários – questão social muito interessante, aliás -, tem um propósito. O diretor e roteirista Andrey Zvyagintsev quer nos mostrar a angústia que os pais de um filho desaparecido sentem e demonstrar por A+B como este tempo de falta de respostas sobre alguém desaparecido parece passar de forma muito mais lenta que os ponteiros de um relógio.

De fato, quando o filme entra nesta segunda fase, é isso o que vivenciamos. O diretor e roteirista consegue nos colocar exatamente naquele lugar, da mãe e/ou do pai do garoto. Vivemos a angústia da busca e da falta de respostas. Até que surge uma resposta possível – ou, para alguns, a continuidade da falta de respostas. Não importa qual versão você adote. O importante é que Loveless fez você sentir o que as pessoas que buscam desaparecidos sentem. Por isso e pelo restante, esta é uma bela produção, ainda que não de toda inovadora. Mas ela é potente e acerta em seus alvos. E apenas por isso, devemos nos sentir bastante satisfeitos.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme com um elenco reduzido, com poucos atores, e que aposta em uma narrativa realista e bastante direta. Gostei das escolhas feitas pelo diretor e roteirista Andrey Zvyagintsev. Nós vemos em Loveless que apesar da Rússia ter algumas particularidades, como qualquer país e cultura, temos mais elementos semelhantes do que características que nos diferenciam.

Entre outros aspectos, achei interessante perceber como a polícia russa é sobrecarregada – como a polícia das maiores cidades brasileiras – e, consequentemente, não abraça a todas as ocorrências como um “simples” desaparecimento de uma criança. Claro que esta é uma situação grave e angustiante, mas para uma polícia sobrecarregada, com menos gente e recursos do que deveria, se entende que é preciso priorizar algumas ocorrências e deixar outras em “segundo plano”.

Então achei interessante esta crítica sobre o sucateamento policial e o envolvimento civil nas buscas por desaparecidos. A sociedade pode sim fazer mais do que simplesmente pagar uma grande carga tributária e esperar receber todos os serviços do governo. Loveless demonstra na prática como a organização civil pode melhorar diversas realidades e trazer um pouco mais de conforto e de eficiência em aspectos que os governos não dão conta.

O ritmo do filme foi cuidadosamente planejado por Zvyagintsev. E ainda que a história, lá pelas tantas, se torne um bocado previsível, tenho que admitir que o compasso da narrativa foi bem planejado e executado. Temos o momento dos “sentimentos” e das “verdades” sendo colocados todos para fora, que foi na parte inicial da produção, com os personagens principais dizendo ao que vieram, e depois partimos para uma busca angustiante por respostas. Como eu disse, uma narrativa bastante pé no chão e que não larga o realismo em momento nenhum.

No final, nós pensamos: será que tudo que aconteceu serviu para mudar os protagonistas. Será que a angústia da busca por respostas e todos os demais sentimentos relacionados a esta busca mudaram Zhenya e Boris? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma das perguntas inevitáveis é a seguinte: afinal, para que serviu tudo aquilo? Foi para tornar algumas pessoas melhores? E a resposta é não. Uma criança provavelmente morreu e os pais dela nunca terão uma resposta definitiva sobre o que aconteceu e isso não serviu para ninguém se tornar melhor. Mais uma vez, a dura e pura realidade de muitas histórias. Um bocado impactante. E esta é a graça do cinema.

Falando em respostas… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alyosha não é encontrado vivo pelos voluntários e pelos pais. Mas, em determinado momento, Zhenya e Boris são chamados para reconhecer um garoto que foi encontrado morto. Zhenya é convicta em dizer que ele não é o seu filho desaparecido, e entre os argumentos que ela dá para esta certeza é de que o filho tem uma marca no peito que o menino morto não tem. O diretor Andrey Zvyagintsev não mostra a criança mais do que em uma cena rapidíssima. E isso tem uma razão de ser.

Para a história, faz mais sentido a incerteza da resposta. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Tanto para os personagens dos pais de Alyosha quanto para os espectadores. Então você pode chegar a sua própria resposta, se aquela criança era Alyosha ou não. Da minha parte, assistindo aquela cena mais de uma vez – e inclusive pausei naquele rápido momento em que o menino morto é mostrado – e percebendo que a criança estava bastante machucada e quase irreconhecível, notei que ele tinha o mesmo tamanho de Alyosha e que poderia ser o menino. Então, francamente, acho que este foi o fim daquele menino sensível e que sofreu muito em casa antes de desaparecer. Acredito que Alyosha morreu de forma natural, talvez em um acidente, ou foi morto por alguém e que, depois, foi atacado por algum animal para estar tão machucado, deformado e irreconhecível. Como é muito improvável uma criança sobreviver sem ter estrutura, apoio e/ou dinheiro, desde o início esperamos pelo pior para o personagem. Infelizmente.

Os personagens deles são odiosos, mas os atores Maryana Spivak e Aleksey Rozin estão ótimos como os pais que não tem nenhuma vocação para serem pais e que protagonizam esta história. O garoto Matvey Novikov aparece pouco nesta produção, mas as cenas em que ele aparece são bastante impactantes. Ele tem uma ótima presença em tela e tem uma interpretação bastante marcante. Além deles, vale comentar o belo trabalho dos coadjuvantes Varvara Shmykova, que interpreta Lena, uma das voluntárias mais experientes que se envolvem nas buscas de Alyosha; Yanina Hope como a nova namorada de Boris; Aleksey Fateev como o coordenador do grupo de voluntários; e Andris Keiss como Anton, novo namorado de Zhenya. Todos estão muito bem.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima direção de fotografia de Mikhail Krichman; a edição competente de Anna Mass; a trilha sonora pontual e marcante de Evgueni Galperine e de Sacha Galperine; e o design de produção de Andrey Ponkratov.

Loveless estreou em maio no Festival de Cinema de Cannes. Depois o filme participaria, ainda, de outros 25 festivais pelo mundo. Nesta trajetória, ele ganhou nove prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Direção no Asia Pacific Screen Awards; para o Silver Frog no Camerimage; para o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres; para o de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique; para o de Melhor Filme no Festival de Cinema Zagreb; e para o de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles.

Também vale destacar que Loveless foi escolhido para figurar no Top 5 dos Melhores Filmes em Língua Estrangeira do National Board of Review. Junto com Loveless, aparecem na lista Frantz (comentado aqui), Una Mujer Fantástica, Verano 1993 e The Square.

Loveless foi totalmente rodado em Moscou, em locais como o Shodnenskiy Kovsh (as cenas do rio e das árvores), que faz parte do distrito de Yuzhnoye Toshino. Todas as demais cenas, aliás, foram rodadas neste mesmo distrito.

Falando um pouco mais de Andrey Zvyagintsev, este diretor de 53 anos tem apenas oito produções no currículo – incluindo Loveless, um episódio de uma série de TV e dois curtas. Ou seja, se olharmos apenas os longos feitos pelo diretor, ele tem apenas cinco filmes no currículo de diretor – sendo que para três deles ele também escreveu o roteiro. Essas três produções que levam a assinatura de roteiro e direção dele são, na ordem de lançamento: Elena, de 2011; Leviathan, de 2014; e agora Loveless, de 2017. Um diretor bastante seletivo, me parece. Preocupado com a qualidade e não com a produtividade.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 47 críticas positivas e apenas quatro negativas para Loveless, o que garante para este filme um nível de aprovação de 92% e uma nota média de 8,2. O nível destas notas, tanto do IMDb quanto do Rotten Tomatoes, realmente está alto. Acima do padrão para os dois sites. O que mostra que, talvez, o representante da Rússia no próximo Oscar tenha chances consideráveis de avançar na disputa na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

CONCLUSÃO: Este filme trata de temas sobre os quais poucos querem falar. Afinal, a maioria quer destacar as lindas histórias de amor e os filhos gerados a partir destas lindas histórias. Mas e a vida real, o quanto ela pode ser diferente do “comercial de margarina”? Há tempos eu falo, para quem quiser escutar, que as pessoas deveriam, antes de tomar decisões importantes nas suas vidas, pensarem bem sobre o que estão fazendo. O autoconhecimento é um ponto fundamental na equação. Assim, quem sabe, evitaríamos tantos casamentos construídos sobre alicerces podres e, consequentemente, veríamos um número bastante reduzido de crianças que sofrem com decisões equivocadas de adultos perdidos.

Loveless trata sobre tudo isso de uma maneira franca e direta como nem sempre estamos acostumados a ver no cinema. As escolhas iniciais dos realizadores são perfeitas, mas o filme não avança no restante do tempo com a mesma força e vigor que no início. Claro que a desaceleração na narrativa e a previsibilidade do que acontece tem um sentido de ser. Mas para o meu gosto, o filme perdeu força em momentos em que ele poderia ter se saído melhor. Ainda assim, é mais uma descoberta muito interessante e sensível nesta temporada pré-Oscar. Tudo indica que temos mais uma safra especial para degustar até a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood em 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis um filme que pode surpreender. Inicialmente, eu não diria que Loveless teria grandes chances no Oscar. Mas ao analisar o background de prêmios, de críticas positivas e o nome que está por trás desta produção – o diretor Andrey Zvyagintsev, anteriormente aclamado por Leviathan, comentado aqui no blog -, considero que Loveless pode sim ter uma boa chance de chegar até os cinco finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Isso avaliando o contexto. Porque, avaliando apenas sob os meus critérios, eu diria que Loveless não tem tantos méritos assim para chegar até os cinco finalistas. Bem, falta um bocado de filmes ainda para eu assistir. Mas descontando os favoritos – muitos que eu não vi ainda – e entre as seis produções (incluindo Loveless) que eu assisti e que buscam uma das vagas na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018, vejo Loveless correndo por fora.

Entre os filmes que eu já assisti e que comentei aqui no blog – como não poderia deixar de ser -, vejo que têm mais chances que Loveless os seguintes filmes (na ordem de maior chance mesmo): First They Killed My Father, The Divine Order e Spoor. Como os principais críticos americanos apontam para outros favoritos, acredito que apenas First They Killed Mty Father teria chance de emplacar uma indicação entre os filmes que eu já assisti.

Acho Loveless potente, como eu já comentei antes. O filme trata de um tema bastante atual – e, talvez, atual em todas as épocas da Humanidade. Apesar de começar com um roteiro impecável, Loveless acaba se enfraquecendo depois com uma narrativa um bocado previsível e que tem um desfecho também nada inovador. Assim sendo, acho que ele não está totalmente fora da disputa, mas vejo que ele tem poucas chances de emplacar uma indicação entre os cinco finalistas – mas, antes, ele pode chegar até a “pré-lista” dos nove filmes que avançaram por uma vaga.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2018. Loveless é um dos cinco indicados na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ele concorre com In the Fade, First They Killed My Father, The Square e Una Mujer Fantástica. Veremos quem levará a melhor.

ATUALIZAÇÃO (17/12): E não é que Loveless conseguiu avançar? A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se antecipou neste ano e divulgou, já no dia 14 de dezembro, a lista dos 9 filmes que ainda disputam uma das cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. E Loveless é um destes filmes. Ele concorre com os já esperados In the Fade, The Square, Una Mujer Fantástica e On Body and Soul (comentado por aqui) e com os menos esperados Foxtrot, The Insult, Félicité e The Wound. Vamos ver quem vai se sair melhor. Mas não seria uma surpresa se Loveless conseguisse uma das cinco vagas.

Pokot – Spoor – Rastros

pokot-spoor

Alguns gostam de repetir esta frase como um mantra: “as coisas são como são”. Mas as “coisas são como são” porque a maioria da sociedade escolheu que fosse assim. Ou, ao menos, dependendo da análise, certas pessoas de um pequeno núcleo familiar ou social escolheram que fosse assim. O “status quo” é o que é exatamente por isso, graças a escolhas. E é o acúmulo de pequenas escolhas que fazem o “status quo”. Spoor é um filme eloquente sobre isso. Eis uma produção interessante, que vai se revelando aos poucos e que, por mais que não tenha um desfecho totalmente surpreendente, de fato ele não pode ser “vislumbrado” muito tempo antes. Faz pensar, e isso sempre é muito bom no cinema.

A HISTÓRIA: Começa com a narradora comentando que a data da nossa morte é decretada no nosso mapa astral com a data do nosso nascimento. Isso acontece porque a lei universal prevê que tudo que nasce, um dia morre. Ela também nos diz que há áreas no mapa astral que sinalizam informações que podem nos ajudar a prever a nossa morte. Em um local de muitos campos e árvores, alguns animais selvagens apenas observam. Um carro percorre uma estrada e chega até um círculo com outros veículos. É noite. Em uma casa, vemos um computador, uma prancha, uma luneta e vários outros objetos da sala até que a câmera chega no quarto de Janina Duszejko (Agnieszka Mandat-Grabka).

Os cães dela acordam e saem correndo e latindo até a porta. Duszejko chama Lea e Bialka, que fazem festa com a dona. Duszejko solta as duas cadelas e vai brincar com elas do lado de fora, quando cumprimenta mais um dia que está nascendo. Quando segue para a escola, onde dá aula, Duszejko encontra Dobra Nowina (Patrycja Volny) e Wnetrzak (Borys Szyc) com o carro atolado. Ela ajuda os dois, mas deixa claro que não simpatiza com Wnetrzak e sim com Dobra Nowina. Este filme conta a história desta senhora peculiar e da cidade em que ela mora, cheia de caçadores.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Spoor): Que filme interessante, meus bons leitores e leitoras deste blog! Esta produção dirigida pela veterana Agnieszka Holland e com direção de apoio de Kasia Adamik foi pensada, me parece, para nos tirar da zona de conforto. Para quebrar alguns “paradigmas” que temos e alguns pré-conceitos que podemos sustentar.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Nos dias de hoje, em que muitas pessoas estão cada vez mais radicais em relação a seus atos e opiniões, este filme nos faz repensar este radicalismo. Sim, eu concordo que as pessoas devem ter opinião, devem ter uma determinada postura e, preferencialmente, serem coerentes entre o que elas pensam, falam e fazem. O problema é que nem sempre vemos esta coerência por aí. E mesmo que alguém seja coerente e defenda os “valores certos”, realmente o caminho deve ser do radicalismo, de fazer todos pensarem igual?

Interessante como Spoor questiona, ao mesmo tempo, uma sociedade doente, que não tem respeito pela vida que não seja humana, e a pessoa que se coloca contra tudo isso. Afinal, apesar da personagem de Duszejko ser muito densa, carismática e interessante, maravilhosamente interpretada pela atriz Agnieszka Mandat-Grabka, e mesmo que a gente concorde com ela, toda a sua indignação e falta de aceitação daquela sociedade adepta da matança de animais, a protagonista desta produção não deixa de ser uma serial killer. Pois sim. E aí está outro questionamento interessante desta produção.

Afinal, quem são os vilões e os mocinhos? Uma serial killer, por mais que seja movida por “bons sentimentos” e por uma indignação coerente, pode ser considerada uma “mocinha”? Não, não pode. A atriz Agnieszka Mandat-Grabka, magnífica em seu trabalho, torna difícil a tarefa de abominarmos o que ela faz. Mas, no fim das contas, para onde todos nós iríamos se várias Duszejko começassem a fazer a “justiça” com as próprias mãos? Por mais que tenhamos razões para abominar e discordar de diversas pessoas e seus atos na sociedade, isto nos dá o direito de sair matando estas pessoas?

E aí talvez um dos questionamentos mais interessantes que esta produção pode levantar: ao defender a vida dos animais matando as pessoas que causam esta matança, Duszejko pode ser considerada melhor que os seus alvos ou ela acabou se igualando ou até se tornando pior que eles? Francamente, eu nunca vou achar que o assassinato, seja de pessoas, seja de animais selvagens, seja o caminho. Todos nós deveríamos defender o direito à vida, não é mesmo? Mas, infelizmente, me parece, vivemos em sociedades em que a vida, seja humana, seja dos animais, parece ter cada vez menos valor.

Como chegamos até aqui? Em que momento as pessoas acharam que “tanto faz” matar um animal ou uma pessoa? Eu não sei. Mas com algo eu concordo em toda a discussão que é levantada com Spoor: não precisamos aceitar as coisas como elas são. Não importa quantos “nãos” você recebeu durante a vida ou quantas frustrações já experimentou, acho que nunca deveríamos perder a capacidade que tínhamos quando crianças e jovens em imaginar uma sociedade melhor e buscar maneiras de contribuirmos para isso.

Talvez uma forma de “resistência” e de buscar esta mudança seja cada um de nós realmente defendermos o direito à vida, tanto de pessoas, quanto dos animais – e das plantas, das florestas e um longo etc. Eu não cheguei ainda ao estágio evolutivo de abrir mão das carnes. Então sim, eu contribuo com a morte de vários animais para poder fazer as minhas refeições diariamente. Mas estes animais não estão livres na Natureza, e sim foram gerados e viveram sempre em cativeiro com o “fim” de alimentar a mim e a tantas outras pessoas.

Não acho que esta é uma crueldade como a que vemos em Spoor, até porque muitos destes animais nem existiriam se não fosse pela indústria alimentícia. Ainda assim, é claro, concordo com quem questiona estas mortes também. Acho que Spoor acerta em cheio ao colocar estas questões em evidência. E sim, eu não entendo quem mata por prazer e tenho dificuldade de aceitar que algumas sociedades continuem com a caça legalizada, algo que me parece um bocado primitivo, não?

E sim, há quem diga- como algumas pessoas neste filme – que os caçadores ajudam a manter o “equilíbrio” no Meio Ambiente. Bem, eu respeito todas as opiniões, mas isso não quer dizer que eu tenha que concordar com elas. Para cada animal e ser vivo, existe um predador natural, não é mesmo? Então se o homem interferisse menos no Meio Ambiente e realmente quisesse preservá-lo, a própria Natureza se equilibraria, como ocorreu durante todas as eras antes do surgimento da Humanidade. Sendo assim, evidentemente que eu discordo deste argumento de quem defende a caça.

Ufa! Quanto eu falei motivada pelo que Spoor nos apresentou! Agora, vou deixar de filosofar sobre os temas que este filme da diretora Holland nos apresentou e comentar sobre a produção propriamente dita. O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção foi a trilha sonora de Antoni Lazarkiewicz. O trabalho dele é marcante e fundamental para esta produção. Em diversas sequências do filme eu fiquei imaginando se não tivéssemos a trilha sonora de Lazarkiewicz. Teríamos um filme muito menos potente, eu não tenho dúvida sobre isso.

O segundo elemento que me chamou a atenção nesta produção foi o trabalho maravilhoso e impecável da atriz Agnieszka Mandat-Grabka. Ela está perfeita no papel, nos convencendo em cada pequeno detalhe de sua interpretação. Infelizmente este filme, por ser uma produção polonesa, não terá “lobby” e força suficiente para indicar Agnieszka Mandat-Grabka para o Oscar de Melhor Atriz. Mas ela merecia. Ela é uma das grandes responsáveis pela qualidade desta produção. Tem um trabalho impecável nesta produção. De tirar o chapéu.

Depois, o outro ponto que me chamou a atenção foi o roteiro de Olga Tokarczuk e Agnieszka Holland, texto baseado na obra de Olga Tokarczuk. O roteiro, muito bem escrito, é perfeitamente acompanhado por uma direção inspirada de Holland. Os dois elementos, roteiro e direção, estão em perfeita sintonia, algo que nem sempre é comum em uma produção. Por isso a produção consegue ser envolvente e interessante ao mesmo tempo.

Achei muito bacana, em especial, como o “mundo” da protagonista e narradora norteia toda a história. Vemos tudo sob a ótica de Duszejko, que é uma engenheira aposentada que dá aulas de inglês no colégio da comunidade para manter-se ocupada. Profunda admiradora da Natureza, ela ama as duas cadelas que desaparecem logo no início da trama. Ela também é uma estudiosa da astrologia e, sempre que pode, pede as informações básicas das pessoas – data e horário de nascimento – para fazer o mapa astral delas e tentar entendê-las melhor.

Desta forma, a protagonista deste filme é uma figura interessantíssima. Mas não é a única que chama a atenção na história. Spoor lembra um pouco os filmes dos irmãos Coen no sentido de que a história explora bem os personagens curiosos de uma certa comunidade interiorana. Ali, há várias figuras de personalidade forte e peculiares. Duszejko não é, exatamente, uma exceção entre as pessoas curiosas que se cruzam naquele local da Polônia que muda de cenário conforme as estações passam.

Achei interessante como o diretor explora bem a imaginação e/ou a sensibilidade da protagonista. Quando ela observa determinadas pessoas e escuta as suas histórias, ela consegue “ver”/sentir o “background” relacionado a elas. Algumas vezes, ela vê o passado da pessoa que ela está observando. Em outras ocasiões, como na casa do vizinho e amigo Matoga (Wiktor Zborowski), ela consegue “visualizar” a relação dos pais dele.

Estas contextualizações na história são muito interessantes e deixam a narrativa ainda mais “intrigante” – afinal, Duszejko meio que desenvolveu um “sexto sentido” e consegue ver além das aparências e se aprofundar na história das pessoas ou aquilo tudo não passa de imaginação dela? Da minha parte, acho que as narrativas que vemos em cena realmente reproduzem a realidade do que os personagens viveram e demonstra a sensibilidade além do normal da protagonista. Ela é sim capaz de ver além das aparências. Mas isso não a impede de cometer assassinatos e de tornar-se uma serial killer.

E aí surge aquele outro questionamento que esta produção nos apresenta. Algumas vezes os “monstros” da nossa sociedade, aqueles que são capazes de matar várias pessoas aparentemente cheios de convicção e sem culpa, são pessoas “normais” até prova ao contrário. E, algumas vezes, na lógica destas pessoas, os crimes que elas cometeram podem fazer todo o sentido. A loucura e a falta de “filtros”/limites realmente podem afetar a qualquer pessoa, mesmo as mais sensíveis e “normais”. Por isso devemos estar atentos e zelar por estas pessoas, para que a dor que elas sentem não chegue até o extremo do insuportável e para que elas não tomem atitudes com as quais elas podem se arrepender depois.

Então, para resumir, este filme tem muitas qualidades e mais acerta do que erra. Mas tem alguns “poréns” que atrapalham um pouco o resultado final da produção. Algo interessante é que o filme, no início, parece ser uma crônica de um certo lugar cheio de pessoas peculiares. Neste lugar, temos a protagonista, defensora dos animais, cercada por uma sociedade que defende a caça e a morte destes animais. Ela sofre, e isso fica evidente. Mas então, lá pelas tantas, as pessoas começam a morrer.

De forma inteligente, os roteiristas apresentam primeiro a morte do delegado. Como ele parecia estar devendo dinheiro e estava sendo ameaçado, a morte dele parece ser fruto desta dívida. Mas aí, pouco depois, morre também o “vilão” da comunidade, Wnetrzak, que além de ter a loja em que Dobra Nowina trabalha, também é dono de um bordel, explora as mulheres que trabalham ali e mantém várias pessoas sob o seu jugo por causa de dívidas. A morte dele é um pouco mais suspeita. Afinal, morreram, na sequência, dois “desafetos” da protagonista. Será mesmo coincidência? Mas realmente começamos a desconfiar de Duszejko quando morre também o prefeito.

Antes, claro, já desconfiamos um pouco dela pela justificativa que ela dá para a morte do delegado. Ela insiste que ele foi morto por um veado e que isso ela conseguiu ver no mapa astral do delegado. Depois, ela fala da teoria de que a Natureza/os animais estão se vingando das pessoas que lhes faziam mal. Teoria um tanto maluca, e aí surgem as primeiras desconfianças. Depois da morte do prefeito, o filme acelera para descobrirmos quem realmente está por trás de todas estas mortes. A história ter o tempo exato em todas as suas fases é uma qualidade desta produção.

O roteiro não enrola o espectador. Ele só gasta o tempo exato para nos apresentar com maior profundidade os personagens principais e para contar esta narrativa de “vingança” um tanto diferenciada. Tudo isso são qualidades, mas, como eu disse antes, este filme tem um ou dois problemas também. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Quando Duszejko é chamada por Matoga para “arrumar” o vizinho deles que tinha morrido, percebemos que ela achou algo que a emocionou na casa do sujeito de quem ela não gostava nem um pouco.

Naquele momento, ficou evidente que ela não estava chorando pelo morto. Mas então, o que poderia fazê-la chorar ali? Na hora, pensei que ela tinha encontrado alguma prova de que o vizinho tinha matado as cadelas dela. Mas logo a história avança e esquecemos daquilo. Mas esse não é o problema da narrativa. O problema está mesmo no uso dos feromônios dos insetos que acabam sendo utilizados em cada vítima – no delegado e em Wnetrzak – e que fazem o jovem Dyzio (Jakub Gierszal) ser o primeiro a matar a charada sobre a serial killer ser a generosa Duszejko.

Segundo o roteiro, Duszejko conhece Boros (Miroslav Krobot) quando ele encontra o corpo de Wnetrzak, que já está em avançado estado de putrefação. Ao encontrar o corpo, o próprio Boros diz que ele foi morto há alguns meses. Duszejko está caminhando e se assusta quando Boros aparece na frente dela. Ela, inclusive, pergunta quem ele é. Depois eles se aproximam, inclusive tem um romance, e nesta convivência que Boros explica para Duszejko sobre os besouros e o feromônio que os atrai.

Então, se isso aconteceu após a morte do delegado e de Wnetrzak, como é que Duszejko poderia ter usado o feromônio dos besouros nestas duas vítimas? Para mim, esta foi a maior falha do roteiro. E uma pena, porque o restante funciona tão bem… Gostei muito da história e dos questionamentos salutares que ela nos levanta sobre a sociedade em que queremos viver e aquilo que queremos ou podemos aceitar.

Não tenho dúvida que este filme será ovacionado pelos defensores dos animais, ao mesmo tempo que será atacado pelos adeptos da caça. Mas espero, que além das opiniões pessoas de cada um, as pessoas possam admirar o belo trabalho dos realizados e do elenco desta produção. Sem dúvida alguma mais uma bela descoberta propiciada pelo Oscar 2018.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um belo acerto desta produção é que Spoor investe em um grupo pequeno de personagens. Algo fundamental para um filme que procura se aprofundar em algumas ideias e sentimentos, em algumas realidades muito específicas. Uma produção com muitos personagens jamais conseguiria explorar bem ideias, sentimentos e as relações entre diferentes pessoas. Então este é um acerto do roteiro e também da direção de Agnieszka Holland, porque a diretora acaba reproduzindo bem a proposta do texto que escreveu junto com a escritora Olga Tokarczuk. Fiquei curiosa, aliás, para ler o livro dela. Ele deve ser ainda mais interessante que o filme.

Este filme deve levantar algumas polêmicas. Especialmente entre os defensores da caça legalizada, é claro. Deixo aqui um artigo que foi publicado no site da revista Superinteressante e que mostra um destes pontos de vista favoráveis à caça legalizada e controlada. Sempre é interessante conhecermos e respeitarmos outros pontos de vista. Deixo aqui também uma reportagem do jornal El País que mostra um outro ponto de vista sobre esta questão.

Falei um bocado antes e vou me repetir aqui: a atriz Agnieszka Mandat-Grabka faz um trabalho soberbo. Para mim, um dos melhores que eu vi neste ano. Pena que ela não será indicada ao Oscar de Melhor Atriz, porque ela merecia. Além dela, estão muito bem também os outros atores que tem destaque nesta produção. Vale comentar o belo e sensível trabalho de Wiktor Zborowski como Matoga, vizinho de Duszejko, viúvo, que tem um porão com alguns “segredos bombásticos” e que tem uma caidinha pela vizinha; Patrycja Volny como Dobra Nowina, a jovem que é explorada por Wnetrzak e que luta para tentar conseguir a guarda do irmão mais novo; Jakub Gierszal como Dyzio, o “nerd” que trabalha para a polícia e que também guarda um segredo; e Miroslav Krobot como Boros, que aparece menos que os demais, mas que rouba a cena como o especialista botânico que tem um romance com a protagonista.

Além deles, que fazem o núcleo principal desta história, temos alguns atores coadjuvantes que acabam também tendo os seus momentos de destaque nesta produção. Vale citar o bom trabalho de Borys Szyc como Wnetrzak, uma espécie de “mafioso” da comunidade; Tomasz Kot como o procurador Swierszczynski, filho de Matoga; Andrzej Grabowski como o prefeito Wolsky; Andrzej Konopka como o delegado; e Marcin Bosak como o padre local – provavelmente um dos personagens mais desprezíveis e equivocados em cena.

Por que eu considero o personagem do padre um dos mais desprezíveis e equivocados? Porque eu tenho um verdadeiro pavor dos “padres”, “sacerdotes” e “pastores” que utilizam a Bíblia para justificar absurdos. Eles deturpam a Palavra e servem exatamente como contra-exemplo do que deveriam ser.

Entre os elementos técnicos desta produção, sem dúvida alguma o grande destaque é a magnífica e marcante trilha sonora de Antoni Lazarkiewicz, mais um elemento que merecia uma indicação ao Oscar – mas que não chegará lá por ser um filme polonês e não americano. Depois, vale destacar a competente direção de fotografia de Jolanta Dylewska e de Rafal Paradowski e a ótima edição de Pavel Hrdlicka. Cito ainda os figurinos de Katarzyna Lewinska; a decoração de set de Joanna Macha; o design de produção feito por sete competentes profissionais e a maquiagem feita por outros sete profissionais.

Spoor estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim em fevereiro de 2017. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 17 festivais em diversas partes do mundo. Em sua trajetória, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio Alfred Bauer no Festival Internacional de Cinema de Berlim; para o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Fantasia; para o prêmio de Melhor Atriz para Agnieszka Mandat-Grabka no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; e para os prêmios de Melhor Diretora para Agnieszka Holland e Kasia Adamik e o de Melhor Maquiagem para Janusz Kaleja no Festival de Cinema Polonês.

Agora, estava pensando aqui em outro ponto que Spoor nos faz pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Este filme acaba questionando todas aquelas pessoas que amam tanto a Natureza e os animais, em especial, mas que tem tão pouco apreço pelas pessoas, pelo ser humano. Sim, é verdade que sobram exemplos de pessoas desprezíveis caminhando por aí. E nós não precisamos gostar delas. Mas será mesmo que as pessoas que amam tanto os animais, as plantas e afins podem amar tanto estes seres e desprezar tantos os humanos ao ponto de desejar que eles morram? Pegue o mais cretino dos mais cretinos que você conhece. Você o despreza, até pode considerá-lo um animal. Mas você o mataria? Entendo o desprezo, a raiva, mas honestamente eu não entendo quem mate o outro por causa disso.

Spoor é uma coprodução da Polônia, da Alemanha, da República Tcheca, da Suécia e da Eslováquia. Apesar de ter capital de tantos países, Spoor foi escolhido pela Polônia – origem principal da produção – como representante do país na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018.

Esta produção foi totalmente rodada na Polônia, no Estado de Dolnoslaskie – que fica no Noroeste do país -, nas cidades de Kotlina Klodzka, Nowa Ruda, Osówka, Bystrzyca Klodzka, Miedzygórze e Przelecz Puchaczówka.

O filme é dedicado para Weronki. Dei uma boa pesquisada, mas não descobri quem era Weronki para a diretora ou para a roteirista. Em resumo, não descobri quem foi/é Weronki. Caso alguém souber e puder nos informar, eu agradeço. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 14 críticas positivas e cinco negativas para Spoor, o que garante para o filme uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,8. Não está ruim, mas também não está muito bom esse nível de avaliação nos dois sites.

Os críticos e o público que vota no IMDb podem não ter gostado taaaanto assim de Spoor, mas eu tenho certeza que uma das minhas melhores amigas, a Janice Eleotério, vai amar esta produção. Algo me diz que ela vai entender completamente os gestos e a motivação de Duszejko. 😉

CONCLUSÃO: A vida exige que tenhamos postura. O ideal é que cada pessoa usasse o próprio cérebro, de tempos em tempos, para pensar porque faz o que faz e pensa o que pensa. Ao fazer este exercício, depois de olharmos para os nossos próprios atos e crenças, podemos ampliar este questionamento para além do nosso umbigo. E aí poderíamos repensar o nosso entorno e a nossa sociedade para que ela fosse algo melhor do que é hoje. Isto foi o que Spoor despertou em mim. Um filme interessante, que mostra uma grande mulher cometendo ações extremas após uma grande perda. E por pouco que ninguém notou o que realmente aconteceu. O filme faz a gente refletir sobre a sociedade em que vivemos e como a ideia de “monstros” pode ser bastante questionável. Muitas vezes, depende da perspectiva. Filme intrigante, bem desenvolvido e interessante. Vale ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis um filme peculiar. Sob vários pontos de vista. Por contar uma história interessante, com uma clara crítica ao modelo atual de sociedade em que poucos – ainda uma minoria, infelizmente – realmente se preocupam com todos os tipos de vida no mundo, Spoor me parece não ter um perfil muito de Oscar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Digo isso especialmente pelo fato da protagonista deste filme, apesar de ser super humana, sensível a todo tipo de vida – especialmente a dos animais -, não ser, digamos assim, exatamente um “exemplo” de boa gente, não é?

Quer dizer, a personagem e a atriz que a interpreta são maravilhosas. Mas apesar de concordar com a revolta que a moveu, não vejo que os atos dela sejam exatamente “louváveis” 😉 ou que agradem tanto os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para fazer este filme ser indicado como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018. Então, francamente, acho que esta é mais uma produção interessante que a lista inicial de filmes habilitados ao Oscar nos apresenta, mas não vejo Spoor tendo chances de chegar até uma indicação, quanto mais ganhar a estatueta. Outros filmes comentados aqui no blog e outros considerados “fortes candidatos” e que eu ainda não vi me parecem ter muito mais chances.

ATUALIZAÇÃO (17/12): Para a minha surpresa, neste ano a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se antecipou e divulgou, já no dia 14 de dezembro, a lista de 9 filmes que avançaram na disputa por uma das cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018. Spoor, que era um dos filmes que tinha chances de passar na primeira grande peneirada, ficou pelo caminho. Ele não foi um dos filmes que avançaram. Mas, como todos os outros que foram indicados pelos 91 países que buscaram uma vaga no Oscar 2018, ele merece ser visto.