Hereditary – Hereditário

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Um filme, para ser sinistro, precisa apresentar alguns predicados. Primeiro, começar daquela forma bacana, quase pueril, e depois dar uma bela guinada na história. Depois, ter algumas atitudes bem estranhas dos seus protagonistas ou personagens secundários. Finalmente, deve ter alguns elementos sobrenaturais ou do tipo “incontroláveis”, do gênero que impede que qualquer atitude racional possa colocar um freio. Tudo isso encontramos em Hereditary, um dos filmes mais sinistros que eu assisti nos últimos tempos. Mas apesar de ter todos esses elementos e ser um bocado impactante, esse filme carece um pouco de originalidade. Vejamos o porquê.

A HISTÓRIA: Começa com um texto sobre a morte de Ellen Taper Leigh, que morreu aos 78 anos depois de passar por um longo período doente. A morte dela ocorreu na casa de sua filha, Annie, no dia 3 de abril de 2018. Amada esposa do falecido Martin Leigh, mãe devota de Annie Leigh Graham e do falecido Charles Leigh. Avó de Peter Graham e Charlie Graham. Sogra do Dr. Steven Graham. Todos sentirão sua falta. O corpo dela será velado na sexta-feira, das 10h às 12h, na Funerária Kingstone. Do funeral, o corpo seguirá no sábado, às 10h, para o enterro no Cemitério Spring Blossom.

Por uma janela, vemos a uma casa da árvore. Dentro da residência, diversas maquetes, inclusive uma que mostra um quarto simples, com cama e armário. Conforme a câmera se aproxima, vemos a jovem na cama. Entra pela porta o pai de Peter (Alex Wolff), Steve (Gabriel Byrne), que chama o jovem para o funeral da avó. Em seguida, Steve procura Charlie (Milly Shapiro) na casa da árvore, e chama a garota também para o carro, onde Annie (Toni Collette) está esperando a família para ir para o velório da mãe. Esse fato é apenas o começo de uma série de acontecimentos na vida da família Graham.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hereditary): Cheguei até esse filme porque ele foi citado por diferentes listas de “melhores filmes de 2018 até agora” feitas por críticos americanos. Assisti a essa produção, claro, desconfiando que se tratava de um filme de suspense/terror, mas eu não tinha mais nenhuma expectativa além dessa.

No início, achei interessante aquela pegada um tanto psicológica envolvendo Annie e o seu trabalho de criar “pequenos mundos”. Ela tinha que enfrentar a perda da mãe ao mesmo tempo em que precisava lidar com uma série de problemas familiares. Primeiro, os seus filhos, que não eram exatamente muito apegados ou comunicativos com ela. Depois, por ser sonâmbula e, aparentemente, um pouco inconstante, a própria Annie sentia que o marido e os filhos pareciam não confiar muito nela.

Temos, assim, um cenário com várias possibilidades de conflitos e de problemas. A tensão e a tristeza estão no ar mas, apesar disso, Annie e sua família parecem normais. Nada demais. Quando Hereditary começa, o roteiro do diretor Ari Aster nos situa em um momento importante, que é o luto vivenciado por Annie e pelos seus filhos com a morte de Ellen. O fato de Annie viver utilizando a imagem dela e das pessoas da sua família nas maquetes é o que dá os primeiros arrepios, mas nada demais.

O primeiro sinal realmente sinistro acontece quando um pássaro morre do lado de fora da classe de Charlie e a garota vai, discretamente, até lá para cortar a cabeça do animal e a leva para casa. A questão da perda de cabeças será uma constante nesse filme, aliás. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme). Há diversas cenas um pouco “estranhas” pinceladas aqui e ali – especialmente algumas “aparições”, mas tudo caminha com certa naturalidade até que Charlie acompanha a contragosto o irmão Peter para uma festa. O acidente em que Charlie literalmente é degolada marca um “antes” e um “depois” nesta produção.

Certo que a família de Annie parecia meio disfuncional. Ela tinha uma certa dificuldade de ser próxima dos filhos – como ela própria, aparentemente, não tinha conseguido ser próxima da própria mãe. Ainda que Peter estivesse um tanto “chapado”, a reação dele de ir para casa, deitar-se na cama e não dizer nada sobre o que tinha acontecido com a irmão é mais do que fora do comum. É muito, muito estranha. Mas todos naquela casa pareciam ter reações estranhas que envolviam mentir e esconder fatos uns dos outros.

Vejamos. Annie mente para o marido dizendo que ia ao cinema quando, na verdade, ela estava procurando um grupo de apoio para pessoas que estavam em luto. Steve não disse para a esposa que o túmulo da mãe dela tinha sido violado. Peter e Charlie também pouco compartilhavam de suas vidas – eles pareciam viver fechados em si mesmos. Então as pessoas, por si mesmas, já pareciam um tanto estranhas e descoladas.

Mas, volto a dizer, apesar deste cenário, a reação de Peter era digna de chamar um psicólogo para trabalhar com o garoto. Só que nada disso é feito. No lugar de procurar ajuda para o filho, Annie fica amargurada e guarda uma grande raiva e indignação dentro de si. Depois da segunda perda na família, ela acaba se aproximando ainda mais de Joan (Ann Dowd), uma mulher que ela conheceu no grupo de apoio para pessoas que estão em luto.

E aí que o filme começa a ficar um tanto óbvio e, ao mesmo tempo, cada vez mais sinistro e com algumas “forçadas de barra”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A parte do lugar-comum e da obviedade é a forma com que Joan convence Annie de que ela poderá voltar a falar com a filha. Retomamos o velho jogo do copo e, em seguida, o papel e caneta para o “espírito” da garota se comunicar com a mãe.

Mas, depois, descobrimos que nada daquilo é verdadeiro. Joan não é a pessoa que diz ser e tudo faz parte de um plano elaborado de “possessão”, mas não de Annie, e sim de Peter. O que achei mais curioso dessa história é todos da família terem que morrer de forma violenta para que a tal possessão de Peter fosse concretizada no final. Então a parte de Joan convencer Annie com “sessões espíritas” é a parte óbvia do filme.

A parte um tanto “forçada” para o meu gosto, é como os adultos Steve e Annie agem frente a situações cada vez mais sinistras e um tanto macabras. Quando descobre o corpo da sogra no sótão, Steve não faz o que qualquer pessoa normal faria e chama a polícia. Não, ele confronta a esposa achando que ela fez aquilo. Antes, ele já tinha agido com certa “naturalidade” com o comportamento estranho do filho com a morte da irmão. E agora isso?

Por mais que Steve quisesse proteger as pessoas da família, acho muito estranho para um médico – ou psiquiatra? – agir daquela maneira. Além disso, ele embarca na ideia maluca da mulher de querer queimar o caderno de desenhos feitos pela filha morta. As próprias ações de Annie não fazem muito sentido. Ora, se ela quer salvar a família, a melhor saída seria realmente se “autodestruir” jogando aqueles desenhos no fogo? E se, na cabeça de Annie, essa era a melhor saída, por que pedir para que Steve presencie a cena? Não faria mais sentido ela fazer isso sozinha?

Alguém desesperado, mas com o mínimo de sanidade, não tentaria tirar a família daquela casa, chamar a polícia para denunciar o corpo da mãe e as atitudes de Joan? Certo que filmes de suspense e de terror geralmente não tem muita preocupação em parecerem lógicos, mas acho que esse Hereditary se esforça muito para ser macabro e para nos apresentar mortes estranhas e sinistras e tem pouco contato com reações que poderíamos esperar de personagens com algum pé na realidade.

Não sei vocês, mas eu gosto de filmes de suspense/terror que tenham esse “fundinho” ao menos de realidade. Acho que quando tratamos de ações e reações mais realistas, mais o terror parece se aproximar do espectador. No caso de Hereditary, o filme impacta pelas cenas das morte sinistras, assim como pelo resgate de algo por si só assustador, que são os grupos de fanáticos satanistas. Mas fora esse detalhe, esse filme me pareceu forçar um pouco a barra da história com diversas cenas de “alucinações” e um bocado de descontrole da protagonista.

Os atores fazem um belo trabalho, mas achei um tanto forçada a interpretação tanto de Toni Collette, que faz uma Annie um bocado histérica, quanto de Alex Wolff, que também faz um garoto fora do “compasso” e um tanto “amedrontado” demais para um jovem da sua idade.

Na verdade, me parece, que o mais racional da família, Steve, deveria ter tido outra atitude em relação às perdas que eles tiveram. A passividade dele e a forma com que Annie ignora a história da própria família são de assustar – e acabam desencadeando boa parte da loucura que vemos em cena. Ah sim, outro ponto que me parece meio sem sentido: beleza que a mãe de Annie queria que o neto Peter fosse o novo “hospedeiro” do seu demônio do coração, mas para que, para realizar isso, ela precisava liquidar com toda a família? Outro ponto um tanto forçado.

Um filme assustador, em muitos momentos, mas que em outros nos cansa um pouco com aquele recurso de “figuras sinistras correndo a qualquer momento na frente da tela”. Hereditary tem bons atores – especialmente Toni Collette em grande momento – e uma crescente de terror que muitas vezes funciona mas que, aqui, me pareceu um bocado forçado. O final, de qualquer forma, na casa da árvore, é bastante impactante. Apenas por aquela cena, o filme merece aplausos pela coragem de Ari Aster. Mas a história em si… deixa um pouco a desejar.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei curiosas diversas escolhas do roteirista e diretor Ari Aster. Ele tem um estilo muito próprio em focar a atenção nos detalhes, seja dos cenários em miniatura, seja nas interpretações dos atores. A escalada sinistra que ele faz no roteiro também é para poucos. Procurei saber mais sobre o diretor e vi que Hereditary é o primeiro longa feito por ele. Antes, Aster dirigiu a sete curtas, apenas.

Para quem gostou do estilo de Ari Aster, a boa notícia é que ele já está filmando o seu próximo longa: Mindsommar, um outro filme de terror. Veremos o que ele nos apresenta da próxima vez. Mindsommar deve ser lançado em 2019.

O destaque desta produção, apesar de alguns rompantes histéricos, sem dúvida alguma é a atriz Toni Collette. Ela rouba a cena toda a vez em que aparece. Carismática e cheia de nuances em sua interpretação, ela é fascinante. Além dela, estão bem Alex Wolff como Peter, um garoto que parece querer a aprovação da mãe na mesma medida em que teme o que ela pode fazer; Gabriel Byrne como Steve, o estereótipo de marido calado e de bom pai; Milly Shapiro como Charlie, uma menina também um tanto “introspectiva” demais e a primeira vítima da avó; Mallory Bechtel bem em uma ponta como Bridget, a garota do colégio de quem Peter gosta; e Ann Dowd muito bem como Joan, um mulher aparentemente comum que se revela uma maluca de primeira linha.

Há diversos outros atores em cena, mas quase todos em papéis tão secundários e pouco relevantes para a história que eu nem acho que faz falta citá-los por aqui.

Entre os aspectos técnicos desta produção, o destaque vai para a direção cuidadosa e atenta para os detalhes de Ari Aster. Ele também sabe fazer a história assumir um “crescente” de tensão importante, ainda que o roteiro dele não seja tão brilhante por recorrer a diversos lugares-comuns e a um ou dois pontos um tanto “forçados”. Além do trabalho de Aster, vale destacar a direção de fotografia de Pawel Pogorzelski; a edição de Lucian Johnston e Jennifer Lame; a trilha sonora feita para assustar e criar tensão assinada por Colin Stetson; o design de produção de Grace Yun; a direção de arte de Richard T. Olson; a decoração de set de Brian Lives; os figurinos de Olga Mill; a maquiagem perfeita feita por 14 profissionais; e os efeitos visuais realizados por outros 19 profissionais.

Hereditary estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, do South by Southwest Film Festival e do Haifa Film Festival. No Brasil, o filme estreou em junho de 2018. Em sua trajetória até o momento, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros nove. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Toni Collette no International Online Cinema Awards.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: segundo Alex Wolf, Hereditary poderia ter, facilmente, três horas de duração por todas as cenas que foram rodadas para essa produção. Para ficar mais condensado, os realizadores resolveram cortar diversas cenas de diálogos familiares.

Hereditary foi rodado em 32 dias.

Muitas pessoas do elenco e da produção encaram Hereditary muito mais como um drama familiar do que como um filme de terror. Sim, até certo ponto do filme, eu concordo. Mas depois… essa produção se torna totalmente um filme de terror.

Ari Aster tem 10 roteiros já escritos que ele espera rodar ao longo de sua carreira. Isso que eu chamo de um sujeito organizado e com uma bela programação pela frente. 😉

Agora, uma curiosidade que ajudou a tirar uma dúvida que eu tinha sobre Hereditary. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O demônio invocado nesta produção seria um anjo herege que, apesar de poder tomar formas femininas é, essencialmente, masculino. Além de ocupar o corpo da mãe de Annie, antes dela morrer, ele também possuiu Charlie antes de finalmente se apoderar de Peter. Então sim, sempre que ouvimos Charlie “estralando” a língua, fazendo um som típico com a boca, é porque o demônio está por ali. Tive a impressão que a menina tinha sido “possuída” primeiro, mas tire essa dúvida ao ler essa nota da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 255 críticas positivas e 32 críticas negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 8,2. Chama a atenção, em especial, a nota média do Rotten Tomatoes – elevada se levarmos em conta o padrão do site. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 87 para esta produção, fruto de 46 críticas positivas, duas medianas e uma negativa. Com esta avaliação positiva, Hereditary ganhou o selo de “você precisa ver” do Metascore.

De acordo com o site Box Office Mojo, Hereditary fez US$ 44,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e outros US$ 35,3 milhões em outros mercados em que o filme estreou. No total, essa produção ultrapassou um pouco os US$ 79,3 milhões. Um belo resultado para uma estreia de um diretor no mercado do terror. Ainda mais que, segundo o site IMDb, Hereditary teria custado cerca de US$ 10 milhões. Ou seja, o filme deu um belo lucro. Um sinal positivo para Ari Aster seguir a sua trajetória.

Hereditary é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme atende a uma votação feita há tempos aqui no blog – e na qual vocês pediam mais filmes made in USA. 😉

CONCLUSÃO: Se você está procurando um novo filme de terror “clássico”, essa é uma boa pedida. Hereditary resgata parte do manual do terror para nos apresentar uma história matematicamente dividida e feita para levar você da calmaria para a aflição – ou algo parecido com isso. Com belas interpretações e um enredo com alguns furos, Hereditary é forte por não ter muitos filtros sobre o que veremos na tela. Sinistro, ele apresenta um par de cenas bastante fortes. Está entre os filmes do gênero mais impactantes dos últimos tempos, ainda que ele não tenha as sacadas ou a inteligência de outras produções recentes, como Get Out (comentado por aqui). Mas Hereditary é bom, sem ser imperdível. Recomendado, realmente, para quem gosta do gênero e não tem problemas com gritos. 😉

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Las Herederas – The Heiresses – As Herdeiras

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Muitas vezes a gente acha que conhece as necessidades de quem está mais próximo. Muitas vezes, achamos que conhecemos bem a nós mesmos. Até que somos obrigados a sair da nossa rotina e do lugar-comum em que a nossa vida se transformou e descobrimos muito mais do que antes seríamos capazes de imaginar. Las Herederas é um filme lento, bastante detalhista e que dá muito espaço para as interpretações das suas atrizes. Uma história aparentemente comum, mas que guarda algumas reflexões muito interessantes.

A HISTÓRIA: Um mulher olha para um retrato e ouvimos alguém cantarolando. Essa mesma mulher, caminha pela sala de jantar e pergunta sobre diversos objetos que estão à venda. A empregada responde, dando o preço de cada objeto, como o faqueiro, o jogo de taças, e informa que o relógio precisa ser consertado. Comenta também sobre o que não está à venda. No cômodo adjacente, Chela (Ana Brun) observa tudo com certa tristeza. Com dívidas e sem uma renda própria, Chela e Chiquita (Margarita Irun) encontram na venda dos seus pertences os recursos para sobreviver. Mas, em breve, esse cenário irá mudar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desse filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Las Herederas): Eu tinha grandes expectativas com esse filme, devo admitir. Especialmente pelo alto nível de aprovação que Las Herederas apresenta segundo avaliação de público e de crítica. Mas ao assistir a esse filme, me surpreendi com uma história onde não existe uma grande trama, digamos assim.

Os fatos se desenrolam muito mais em um campo interior e de mudança na vida da protagonista do que em um campo exterior. Assim, na prática, “pouco acontece” em Las Herederas. Vejamos o que a história nos apresenta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Dividem uma residência de luxo duas mulheres que herdaram – aparentemente – tudo que têm. O casal lésbico de meia idade parece estar junto há muito tempo. Elas têm um grupo de amigas mas, apesar disso, parecem viver um tanto isoladas.

Endividadas e com Chiquita sendo acusada de sonegação fiscal, as protagonistas começam a se desfazer de seus pertences para conseguir pagar as contas e sobreviver. Essa dificuldade financeira grave e a iminência de Chiquita ser presa fazem com que Chela tenha pouca vontade de sair de casa ou de ver pessoas – parece, inclusive, que ela está vivenciando uma depressão quando o filme começa.

O grande ponto de ruptura da história acontece quando Chiquita realmente vai para a prisão. Chela acaba sendo obrigada a sair do seu reduto e do seu “lugar seguro”. Primeiro, para visitar a companheira presa. Depois, para atender a uma vizinha que pede uma carona. Ela não dirigia muito – quem fazia isso, assim como quase todos os demais afazeres e tomava as decisões pelo casal era Chiquita. Mas justamente essa saída de casa desencadeia uma série de outras mudanças na vida da protagonista.

Como na história propriamente dita “nada demais” acontece, realmente o ponto de atenção do filme são as “mudanças internas” pelas quais a protagonista passa. Com muita sutiliza, o diretor e roteirista Marcelo Martinessi nos conta a história de uma mulher que acaba se descobrindo ao ser retirada da sua zona de conforto. Pouco a pouco, Chela redescobre o desejo – não apenas de viver, mas por outra mulher, Angy (Ana Ivanova) – e a liberdade.

Porque sim, algumas vezes as pessoas, movidas pelo amor e pela vontade de cuidar do “ser amado”, acabam cuidando e protegendo tanto essa outra pessoa que tiram dela toda a sua autonomia. E é justamente isso que acontece na relação de Chela e de Chiquita. Além desse casal cair na rotina – algo comum em casais que estão muito tempo juntos -, Chela também acaba sendo eclipsada pelo excesso de zelo de Chiquita.

Esse é um outro ponto interessante de Las Herederas. Como o filme demonstra, de forma muito honesta e natural, como uma relação pode se tornar desigual com o passar do tempo. Preocupada em cuidar de Chela, Chiquita acaba, na verdade, tirando a autonomia e os desejos da companheira. Para algumas pessoas, é mais fácil esse tipo de amor. Afinal, o “objeto amado” estará sempre dependente e sob controle.

Qual é a surpresa de Chela quando, sem todo esse zelo e controle de Chiquita, ela vai, pouco a pouco, descobrindo a sua própria capacidade de ser e fazer. Com algo tão simples quanto “dar carona” para a vizinha idosa e, depois, para todas as amigas dessa vizinha que, como ela, se encontram com frequência para jogar, Chela encontra o caminho para a própria independência. Não apenas financeira, mas também de ação.

Ela pode dirigir dentro da cidade e até na estrada, onde ela nunca tinha ido antes. Algo tão simples acaba sendo tão simbólico da retomada da liberdade. Interessante isso, porque desta forma Las Herederas nos lembram do próprio empoderamento feminino, da onda de mulheres que, ao aprender a dirigir, ganharam liberdade maior de ir e vir e de fazer as suas escolhas. E é justamente isso que esta produção nos faz lembrar.

Em suas idas e vindas para dar carona remunerada para as amigas idosas, Chela ainda redescobre o tesão. Ela fica fascinada com a beleza e com a atitude de Angy, a garota que cede a casa – cobrando por isso, certamente – para as idosas jogarem. Essa paixão acaba tirando Chela do prumo, e depois de sair de sua rotina, tudo o que ela não quer é voltar para ela. A consequência da saída de Chiquita da prisão, por isso, também pode ser prevista.

O mais interessante dessa história, além dela ser uma narrativa de autodescoberta e de empoderamento da protagonista, é a mensagem que Las Herederas nos passa. De que muitas vezes vamos acumulando os nossos dias e nos acostumando com uma certa rotina que não faz mais os nossos olhos brilharem ou o nosso coração realmente pulsar forte, mas que nunca é tarde para vivenciarmos tudo isso novamente.

Acho essa uma mensagem muito poderosa deste trabalho de Marcelo Martinessi. Afinal, não importa de que classe social você veio ou na qual você está agora. O quanto você batalhou para conseguir as suas coisas ou recebeu “tudo de graça” porque você é herdeira(o) de algo que batalharam antes de você existir. Todos têm o direito de sonhar, de vivenciar fortes emoções e de achar sentido no que fazem de suas vidas. Como Chela fez, meio que sem querer.

Um filme interessante, mais pelo que ele nos sugere e nos mostra com descrição do que por uma narrativa inovadora. Aparentemente, pouco acontece em cena. Aparentemente, vemos a uma “história comum” e sem grandes virtudes pela frente. Mas, no fundo, Las Herederas tem uma série de questões que nos fazem refletir sobre o que fazemos aos demais, com nosso excesso de “zelo e de amor”, e o que permitimos que seja feito com a gente mesmo. Seja pelos outros, e por nós, na nossa rotina que nos leva por caminhos estranhos, algumas vezes.

Las Herederas nos mostra, assim, algumas reflexões interessantes e uma “rebeldia” da protagonista no final que nos dá esperança. Sempre é possível recomeçar. E não importa a idade que temos, sempre é possível procurar sentido e paixão na nossa vida. Por mais que os outros nos digam que não, ou que a gente mesmo não acredite muito em uma nova saída, ela existe. Basta procurar e ter a coragem de se lançar. Um filme interessante, apesar de seu ritmo lento demais, muitas vezes.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que esse filme me conquistou mais quando comecei a pensar a respeito dele do que no momento em que ele estava se desenrolando na minha frente. A experiência de Las Herederas, propriamente dita, não é de encher os olhos ou de fazer o nosso coração palpitar mais forte. Não, muito pelo contrário. Mas quando paramos para pensar na história e no que ela nos diz ou provoca, o filme vai ganhando pontos. Tanto que ele saiu de uma nota 7 inicial, aqui no blog, para chegar no 8 ali acima.

Além dos aspectos que eu comentei antes, Las Herederas tem um “fundinho” de aspecto social. Vejamos. Primeiro, o filme retrata uma classe média-alta de mulheres lésbicas ou viúvas que não trabalham. Aparentemente, todas elas vivem das heranças que herdaram ou de aposentadorias. O que elas fazem? Além de festas com karaokê, jogam cartas valendo dinheiro. Será mesmo que isso é o melhor que podemos fazer na nossa velhice?

No Brasil e, talvez, na América Latina, as sociedades não se prepararam para ter a maior parte da população na velhice. Não temos, efetivamente, muitos programas que diversifiquem o cotidiano ou que deem outras perspectivas para estas pessoas. Mas não vai demorar muito para que a população brasileira seja, em sua maioria, de idosos. Que tipo de realidade teremos, então? Acho que vale nos questionarmos. Especialmente para a forma com que estamos nos preparando para nos reinventarmos e termos a nossa liberdade quando chegarmos lá.

Uma das grandes qualidades desse filme, sem dúvida alguma, é o trabalho da atriz Ana Brun. Ela está ótima e muito coerente com os diferentes momentos que vivem a sua personagem Chela no filme. Com uma interpretação detalhista e que, muitas vezes, expressa o que a personagem sente mais pela linguagem não verbal do que pela verbal, Ana Brun nos conquista conforme a produção avança. Um belo trabalho, sem dúvida alguma.

Além de Ana Brun, vale destacar o ótimo trabalho de Margarita Irun como Chiquita – ela é outra que tem um desempenho incrível no filme; de Ana Ivanova em um papel cheio de nuances e de controvérsias como Angy; de Nilda Gonzalez como Pati, a emprega simples e de grande coração que acaba entendendo Chela como poucos; María Martins em um desempenho interessante como Pituca, a vizinha que começa a pedir carona para Chela; e Alicia Guerra como Carmela, amiga que ajuda Chiquita a sair da cadeia.

No presídio, algumas mulheres ganham um certo destaque quando a história de Las Herederas se transporta para lá – e isso acontece, de forma pincelada, algumas vezes durante a produção. Entre as mulheres que ganham um certo destaque nesta parte do filme estão Ana Banks e Natalia Calcena.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar o bom trabalho de Luis Armando Arteaga na direção de fotografia; a edição de Fernando Epstein; o design de produção de Carlo Spatuzza; o design de produção de Tania Simbron; e a maquiagem de Luciana Diaz e de Edi Romero.

Marcelo Martinessi faz um bom trabalho na direção, mas o roteiro dele me pareceu menos consistente e interessante do que poderia ser. Talvez seja o estilo dele. Não sei, não posso opinar, porque esse foi o primeiro filme que eu vi com a assinatura de Martinessi. Antes de Las Herederas, ele dirigiu a dois curtas e a um curta de documentário. Ou seja, Las Herederas é o seu primeiro longa. Acho que precisamos de mais material para poder avaliar o estilo do diretor e roteirista.

Las Herederas estreou em fevereiro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou, ainda, de outros sete festivais de cinema em diversos países. Nessa trajetória, até o momento, o filme ganhou 20 prêmios e foi indicado a outros seis.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio Fipresci, para o prêmio de Melhor Atriz para Ana Brun e para o Prêmio Alfred Bauer para o diretor Marcelo Martinessi e para a produtora La Babosa Cine no Festival Internacional de Cinema de Berlim; para o Prêmio Fipresci e para o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cinema de Cartagena; para o prêmio de Melhor Filme Latino-americano pela escolha do público e para os prêmios da crítica de Melhor Filme Latino, Melhor Diretor entre os Filmes Latinos, Melhor Atriz entre os Filmes Latinos para Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova e Melhor Roteiro entre os Filmes Latinos no Festival de Cinema de Gramado; para o Melhor Filme Latino-americano no Festival Internacional de Cinema de San Sebástian; para o Melhor Filme no Festival de Cinema de Sydney; além de outros dois prêmios como Melhor Filme, um prêmio de Melhor Atriz para Ana Brun; um prêmio de melhor filme LGBTQ e um prêmio de Melhor Primeiro Trabalho. Uma coleção de prêmios, realmente.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 críticas positivas e nenhuma negativa para esta produção. Essa unanimidade, ou seja, aprovação de 100% no Rotten Tomatoes é algo muito, muito raro. Na média, os críticos do site deram a nota 8 para Las Herederas. No site Metacritic, Las Herederas apresenta um “metascore” de 82, fruto de seis críticas positivas. Novamente, um ótimo desempenho se levarmos em conta o padrão deste site.

Me parece, com a coletânea que o filme já ostenta até o momento e com esta unanimidade dos críticos, que Las Herederas já é um virtual forte candidato na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Pessoalmente, acho o filme bacana e interessante, mas não para ganhar o Oscar. Já vou me adiantando, pois. 😉

Las Herederas é uma coprodução do Paraguai com a Alemanha, o Uruguai, o Brasil, a Noruega e a França. Ou seja, esse filme deve representar o Paraguai na próxima disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2019. Veremos se ele chega entre os cinco.

CONCLUSÃO: Uma história introspectiva, destas em que parece que não está acontecendo nada. Isso porque o que de fato está acontecendo não é visível e não tem uma grande dinâmica. As mudanças e a “ação” em Las Herederas se passam no interior da protagonista. Um filme sutil, com grandes atuações e com um ritmo lento que desafiará os espectadores mais vorazes para que “algo aconteça”. Apesar de não ser realmente impactante, este filme apresenta algumas boas qualidades e, sobretudo, uma reflexão sobre as relações e o comodismo que algumas vezes adotamos na nossa vida. É interessante sair da zona do conforto. Essa saída sempre pode nos trazer respostas interessantes sobre os outros e, especialmente, sobre nós mesmos.

Ferrugem – Rust

ferrugem

Celular na mão ou no bolso. Pouco ou nenhum diálogo com os pais ou outros adultos. Que tipo de jovens estamos formando? Que tipo de sociedade estamos criando em pleno final da segunda década do século 21? Ferrugem é um filme que nos faz pensar especialmente pela quantidade de verdade que ele carrega. Não é uma história complexa ou muito surpreendente. Mas ela é necessária. Outra vantagem desse filme: nos mostrar como tudo só parece ter piorado no ambiente do ensino médio nos últimos tempos. O alerta está dado.

A HISTÓRIA: Som de água. Em um aquário, um peixe respira. Fora, uma garota observa com atenção e, na sequência, faz uma foto com o celular. Parte 1. A mesma jovem que vimos antes faz diversas fotos. Ao redor dela, os colegas de turma que estão visitando o aquário fazem o mesmo. Algumas das fotos que Tati (Tifanny Dopke) produziu no local, logo são compartilhadas no Instagram. Em seguida, ela vê que uma das suas fotos foi curtida por Renet (Giovanni de Lorenzi). Na volta para o hotel em que estão hospedados, mais fotos e compartilhamentos. Mas logo essa prática de compartilhar a vida cobrará um preço alto de um destes jovens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ferrugem): Eu fui assistir a esse filme, como faço sempre, sem buscar muitas informações sobre a produção antes de entrar na sala de cinema. Assim, não imaginava encontrar pela frente um filme tão franco e direto sobre parte da problemática que envolve, hoje, nossos jovens e os adultos “responsáveis” por eles.

O filme dirigido e com roteiro de Aly Muritiba, que escreveu essa história junto com Jessica Candal, tem uma dinâmica previsível e já conhecida. Dividido em duas partes, Ferrugem conta a história dos estragos que a exposição da intimidade de uma jovem podem causar não apenas na vida dela, mas de sua família, dos amigos e da escola.

Francamente, nos últimos tempos, eu tenho me perguntado o que os jovens desejam e pensam. Verdade que eles nasceram quase com um celular na mão, mas será mesmo que tudo precisa passar pelas fotos e likes das redes sociais? Não existem sentimentos e acontecimentos sem que eles precisem ser compartilhados – inicialmente, para pessoas conhecidas e, depois, para qualquer um?

O que francamente me impressionou em Ferrugem é a forma com que o filme nos mostra como poucos avançamos em alguns aspectos da vida – para não dizer que regredimos. Com todas as letras, Muritiba e Candal nos mostram como vivemos em uma sociedade machista, cheia de preconceitos e de problemas em lidar com o sexo. Ainda. Parece incrível, mas sim, em pleno 2018, ainda seguimos cometendo as mesmas babaquices que na segunda metade do século passado. E talvez até pior hoje, com a repercussão que as imagens têm em um mundo idiotizado.

Vejamos sobre o que Ferrugem trata. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim das contas, toda a tragédia desse filme é provocada pelo que? Em essência, pela dificuldade das pessoas de lidarem com o sexo. Que deveria ser visto como algo comum, saudável, acessível para qualquer pessoa responsável por seus atos. Mas que não, é tratado com um monte de tabus e preconceitos ainda em 2018.

O grande “pecado” de Tati foi qual, no final das contas? Aos 15 anos de idade (presumo que ela tenha isso por estar no segundo ano do ensino médio) ter feito sexo com o namorado (agora, ex-namorado)? Qual é o problema disso? Se o sexo foi consentido e feito com responsabilidade, ninguém deveria ter a ver com isso. Muito menos a rapaziada – e algumas garotas também – cair na historinha do “vagabunda” para cá, “vagabunda” para lá.

Jovens com comportamento tão machista… xingando uma jovem de “vagabunda” porque ela fez sexo com o então namorado… faz sentido? Nenhum. Se ela é vagabunda, na cabeça destas pessoas, o garoto com quem ela transou também deveria ser um vagabundo, ou não? Por que a diferença de tratamento? Até quando a nossa sociedade vai trabalhar com estes dois pesos e essas duas medidas?

Fico espantada também em como, para tanta gente, o sexo continua sendo um problema. Por que tantas pessoas se interessam para saber com quem as outras estão transando? Será que é por que elas próprias não tem uma vida sexual e/ou tem problemas com a sua vida sexual que não conseguem resolver?

Então a saída para isso não é humilhar, xingar ou tirar sarro de uma jovem adolescente, assistindo e compartilhando o vídeo que ela fez com o namorado quando eles estavam transando. A saída passa por fazer um tratamento com um psicólogo ou psiquiatra. Pedir ajuda, se tratar. As pessoas ao seu redor vão agradecer – e você, mais que ninguém, passará a viver melhor após resolver os seus próprios problemas, tenha certeza.

Ferrugem aborda, desta forma, como é absurdo, em pleno século 21, meninas serem maltratadas e excluídas de grupos sociais – ainda mais em uma escola – simplesmente pelo fato de terem descoberto a sua sexualidade. O mais complicado, e o filme aborda muito bem isso, é que na adolescência a gente dá muita importância para o que não tem tanta importância assim. Com o tempo, vemos que a opinião dos outros deve ser levada em consideração, mas de forma muito menor quando esses outros estão nos avaliando.

Em outras palavras, com o tempo, fica cada vez mais claro que as outras pessoas pouco conhecem da gente. Para valer. E que a gente deve sim sempre buscar mergulhar no autoconhecimento. Quanto mais você se conhece, para valer, mais fácil fica de identificar nas opiniões alheias verdades e mentiras a teu respeito. Assim, pouco importa o que os outros vão dizer sobre com quem você está dormindo ou não. Desde que você não esteja prejudicando ninguém com esses atos, pouco interessa o que os outros pensem ou comentem.

Mas na adolescência, eu sei, é mais difícil se blindar contra as opiniões equivocadas dos outros. Estamos em uma época mais frágil, ainda suscetíveis a estas opiniões cheias de preconceito e de babaquice. Ferrugem demonstra muito bem como isso acontece. Gostei da franqueza e da abordagem do roteiro, que procura realmente mergulhar no universo dos jovens que dialogam pouco, mas que estão muito vulneráveis ao “julgamento popular”.

Infelizmente, no caso da protagonista desta produção, a tragédia dela foi anunciada. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Primeiro, me chamou muito a atenção o fato dela não vislumbrar de falar sobre o problema que estava passando para os pais. Em uma conversa com a amiga Renata (Duda Azevedo), Tati chegou a dizer que a mãe não suportaria saber sobre o que estava acontecendo. Esse é um problema grave – do qual vou falar mais logo abaixo. Outro problema grave foi que Tati começou a ficar isolada pouco a pouco, com os próprios amigos se afastando dela – primeiro Renet e, depois, até a “amiga do peito” Renata.

Uma pessoa isolada não consegue ver saídas. E foi exatamente isso que aconteceu com Tati. Ferrugem acerta ao mostrar a problemática dos jovens ao mesmo tempo que joga um espelho grande para nós, “adultos”, nos vermos refletidos. Sim, é verdade que Renet e o primo, em primeiro lugar, e depois os demais jovens do entorno de Tati e do colégio em que ela estuda erraram. Mas estavam muito equivocados, também, os pais desses jovens. Vamos falar um pouco deles.

Na Parte 1 do filme, fica subentendido como tanto Tati quanto Renet não tem diálogo em casa. Mas na Parte 2, centrada em Renet, isso fica ainda mais evidente. Muito cobrados pelos pais, os jovens parecem não sentir que tem “margem para errar”. Eles não podem falar de seus problemas ou dilemas. Devem tirar boas notas, fazer tudo certinho, e jamais mostrar alguma fragilidade. Além disso, eles não recebem exatamente os melhores exemplos – pena que, muitas vezes, os jovens não tem a maturidade ou o desenvolvimento emocional para se dar conta disso.

Vejamos dois exemplos que vemos na Parte 2 de Ferrugem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a postura equivocada de Davi (Enrique Diaz), pai de Renet. Depois da morte de Tati, desconfiado de que o vazamento do vídeo que provocou a morte da garota foi feita pelo filho, Davi leva Renet para “refugiar-se” na praia. Isola o filho, distancia ele da polícia, porque não quer que ele fale a verdade. Que tipo de postura é essa? Esse é um exemplo que um pai pode deixar para um filho? Sério mesmo?

Na mesma lógica de Davi, o primo de Renet, Normal (Pedro Inoue), acha que o garoto não deve falar nada porque o pior já aconteceu e que eles não devem “se ferrar” porque a garota “resolveu se matar”. Não fica exatamente claro o papel de Renet e de Normal na tragédia de Tati, mas dá para presumirmos que Renet, por ciúmes ou por se sentir “decepcionado” com o novo “match”, resolveu compartilhar o vídeo, e que Davi foi o responsável por espalhar e dar uma dimensão maior para o seu conteúdo.

Então temos, por um lado, Davi achando que o filho não precisa ser responsabilizado – afinal, a “tragédia já aconteceu mesmo”. É aquele mesma lógica de “Para que você vai se entregar, se isso não fará a menina voltar à vida?”. Pensamento totalmente equivocado, evidentemente, porque a questão aqui não é a garota voltar a viver, e sim um jovem saber que deve se responsabilizar por seus atos. Isso é ser um cidadão, ter a noção de coletividade. O restante é individualismo ao extremo e busca pela barbárie.

Nesse sentido, mesmo se sentindo “traído” também pela mãe, Raquel (Clarissa Kiste), que deixou a casa após 17 anos de casada com Davi, Renet acaba sendo influenciado positivamente pela postura da mãe e resolve fazer o que é certo. Ainda bem que ainda temos pessoas como Raquel pelo mundo. Apesar da história dela não ser o centro do filme e dela aparecer mais na reta final, até o diálogo da personagem com o ex-marido é esclarecedor.

No carro, procurando pelo filho, os dois falam sobre o relacionamento que tiveram. Raquel demonstra, naquele momento, como após cuidar dos filhos, resolveu buscar a própria felicidade – algo que não tinha mais no casamento. Nesse momento, de forma corajosa, ela resolveu deixar os filhos sob o cuidado do ex-marido para que ele, finalmente, se sentisse um pouco responsável por eles.

Exemplo clássico, mais uma vez. Afinal, quantos pais acham que a responsabilidade pela criação e os cuidados do filho é da mãe e não deles? Mais um típico comportamento machista. Pois bem, Raquel se encheu disso e resolveu tornar a realidade um pouco mais equilibrada. Isso ajudou a deixar Renet ainda mais isolado, mas não dá para culpar Raquel sobre a sua atitude. E dá para ver que ela mais acertou que errou ao aparecer em cena e inspirar o filho a fazer algo positivo e não se esconder no mau exemplo do pai.

Outra pessoa que tem um ponta nesta produção mas que ajuda a mostrar o equívoco dos pais é a mãe de Tati. Antes de ir para a delegacia, Renet tem o gesto nobre de ir até a casa dos pais da amiga para contar a verdade primeiro para eles. E o que a mãe de Tati faz? Quando Renet pede desculpas para ela, ela simplesmente lhe agride e lhe diz que não. Que tipo de postura é essa? Ok, o garoto erro. Sim, a filha da mulher morreu (também) por causa disso. Mas ela deveria ser capaz de ver o gesto de grandeza do rapaz de admitir o próprio erro, não é mesmo?

A mãe de Tati, por sua vez, parece incapaz de admitir a própria parcela de culpa. Afinal, é mais fácil (sempre) jogar a culpa no outro do que perceber a sua própria culpa e erros, não é mesmo? Se ela tivesse um pouco de humildade e vontade de autoconhecer-se, poderia perceber que a falta de abertura dela para a própria filha e, agora, para o perdão ao jovem Renet, fez parte da tragédia familiar.

Importante, claro, ponderar que nem Renet e nem Normal puxaram o gatilho da arma do pai de Tati. Mas Renet está certo ao se sentir responsável pelo que aconteceu. Se eles não tivessem espalhado o vídeo íntimo da garota, nada daquilo teria acontecido. Mas outros também são responsáveis.

Os pais de Tati, ao não terem criado um ambiente de confiança em casa, no qual a garota poderia se sentir confortável em falar sobre algo tão complicado para ela e por terem uma arma em casa de fácil acesso; os pais de Renet e de Normal, por não terem criado também um ambiente de diálogo, no qual os filhos pudessem falar sobre as suas dúvidas, rancores e dores; e toda e qualquer pessoa que pegou o vídeo de Tati e o compartilhou pelo WhatsApp, Facebook ou outros meios.

Uma história como a de Ferrugem está aí para mostrar como um rastilho de pólvora pode se transforar em uma guerra se ninguém estiver atento para isso. Sim, para início de conversa, é preciso cada um pensar melhor sobre que tipo de conteúdo está produzindo e publicando por aí. Produzindo, em especial, já que um “inocente” vídeo íntimo pode ter consequências desastrosas se cair nas mãos erradas. A exposição das pessoas nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp deveria ser pensada e debatida – especialmente entre os jovens.

Depois, o filme mostra muito bem os efeitos do isolamento e da falta de diálogo nas famílias, entre os jovens e os seus pais e, consequentemente, para a sociedade. Ninguém quer ver uma jovem sofrer tanto ao ponto de cometer suicídio. E sim, há pessoas que vão se matar, não importa a rede de apoio que elas tenham ao redor. Mas a maioria dos casos de suicídio está cercado de falta de diálogo, de afeto e de atenção – de familiares e de amigos.

Por isso, cada vez mais, ao invés de julgarmos e de “tirarmos sarro” dos outros, deveríamos desenvolver a empatia. De fato nos preocuparmos com quem está do lado, olhar nos olhos e procurar dedicar parte dos nossos dias para realmente ouvir as pessoas. Isso já faria uma diferença gigantesca e, quem sabe, ajudaria a mudar o mundo. Você se considera, apesar de todas as tropeçadas da vida, ainda um sonhador ou sonhadora? Gostaria de ajudar a mudar o mundo, transformá-lo para melhor? Quem sabe fazendo o que eu comentei aqui você já não consiga fazer isso?

Por um lado, a narrativa e a dinâmica de Ferrugem são previsíveis. Não é exatamente uma surpresa o que acontece em cena. O filme tem alguns lugares-comum e algumas obviedades. Mas nada disso tira o mérito dos realizadores e da história, que apresenta uma temática fundamental para os nossos dias. Se Ferrugem conseguir levantar o debate sobre os temas que aborda e fazer jovens, pais e amigos pararem para falar sobre isso, teremos ganho na loteria.

Tomara que o filme consiga este propósito. E que mais jovens não se sintam perdidos ou “largados”. Que todos nós olhemos para a sociedade que estamos ajudando a formar. Por quanto tempo mais vamos aceitar esse tipo de babaquice e de preconceito? Por quanto tempo mais vamos achar que o machismo e a diferenciação no tratamento de garotas e de garotos podem ser aceitos? Está na hora de evoluirmos. Ferrugem é um bom alerta para isso.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu gostei da condução feita por Aly Muritiba. O diretor é bastante coerente com o público que retrata nesta produção, deixando a economia de diálogos e os longos silêncios como elementos importantes para contar essa história. O roteiro tem alguns pontos bastante previsíveis e recorrer a uma dinâmica já bastante conhecida, mas isso não impede que Ferrugem tenha consistência e que “incomode” o público na medida certa.

Comecei avaliando este filme com a nota 8,5, eu admito. Depois, fui subindo, passando para 8,8 e, no final, para o 9 acima. Por que eu fui melhorando a nota pouco a pouco? Porque, ao escrever a crítica acima, percebi melhor a importância e a consistência desta produção. Vi como ela é importante para discutirmos o nosso tempo. Deveria ser obrigatória nas escolas e nas casas dos jovens e seus pais pelo país afora. Que bom ver um filme com este potencial feito no Brasil. Mais uma prova de que o cinema nacional tem sim qualidade e um alto potencial. Que bom ver isso!

Procurei mais informações sobre Aly Muritiba. Não lembro de ter visto nada do diretor antes de Ferrugem. Procurando mais sobre ele, vi que Muritiba tem 15 trabalhos como diretor, sendo oito deles de curtas, duas minisséries para a TV e apenas três longas. O primeiro longa do diretor, chamado Circular, foi lançado em 2011. Depois, ele lançou A Gente, em 2013 e, agora, Ferrugem. Achei o trabalho dele interessante. Acho que merece ser acompanhado.

Os grandes destaques desta produção, sem sombra de dúvidas, são os jovens protagonistas Tifanny Dopke e Giovanni de Lorenzi. Eles fazem um trabalho interessante e que nos convence – com apoio do roteiro, que também retrata bem o público sobre o qual está focado. Além deles, vale destacar o trabalho de Enrique Diaz e Clarissa Kiste, especialmente na Parte 2 da produção; e o de Pedro Inoue como o babaca primo do protagonista.

Entre os coadjuvantes, gostei do trabalho da melhor amiga de Tati e da irmã de Renet. Gostaria de citar o nome das atrizes com segurança, mas fiquei com dúvidas sobre quem é quem – e de uma delas, nem encontrei o nome. Uma dificuldade relativamente comum dos filmes nacionais, que não tem a mesma preocupação das produções estrangeiras de divulgar a ficha técnica completa e de forma bem especificada. Uma pena – e fica a dica para isso ser melhorado!

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a direção de fotografia de Rui Poças; para a edição de João Menna Barreto; para o design de produção e a direção de arte de Tiago Marques Teixeira; para os figurinos de Valeria Stefani; e para a maquiagem de Amali Mussi.

Ferrugem estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participou, ainda, dos festivais de cinema em Seoul e em Galway. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios. A saber: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Som no Festival de Cinema de Gramado e o Prêmio do Ibero American Competition no Festival Internacional de Cinema de Seattle.

Então, entendo a relevância de Ferrugem para o debate público e achei bacana as escolhas de Aly Muritiba nesta produção, mas não acho Ferrugem melhor filme que Benzinho (comentado aqui no blog). Os temas e abordagens das duas produções são muito diferentes entre si, mas ainda Benzinho me parece um filme muito mais completo, sensível e emblemático.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que o site Rotten Tomatoes estampa três críticas positivas e uma negativa para a produção. Ainda que o volume seja baixo e não tenha sido contabilizado ainda pelo site, podemos considerar que Ferrugem tem 75% de aprovação no Rotten Tomatoes – um nível relativamente baixo.

Ferrugem é uma produção 100% brasileira. Assim, esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. 😉 Francamente, fiquei feliz em assistir a dois filmes nacionais bons na sequência. Quero ver se vejo mais das nossas produções. Acho que temos acertado mais, ultimamente. Que bom!

CONCLUSÃO: A falta de diálogo e o isolamento provocam grandes estragos. Ferrugem é um filme nacional que trabalha bem esses temas e o quanto a nossa juventude “está perdida” entre aplicativos de celular e falta de abertura para conversar sobre assuntos essenciais da vida. O filme também levanta algumas questões importantes, como a visão machista equivocada que ainda predomina na nossa sociedade e a dificuldade das pessoas de lidar com o sexo. Somado a isso, isolamento, falta de empatia e outras pragas que parecem se proliferar mais nos nossos dias. Vale especialmente para despertar o debate entre jovens e adultos. Bom filme, mas um tanto previsível.

Benzinho – Loveling

benzinho

A gente sonha e toca a vida. Essa mesma vida que nos apresenta oportunidades e muitas limitações – ao menos para o brasileiro médio. Benzinho nos conta uma história linda e um pouco triste. Para mim, um dos filmes mais exatos sobre a “alma” brasileira que eu já tive o prazer de assistir. De uma forma muito precisa e com uma sensibilidade ímpar, o diretor e roteirista Gustavo Pizzi, que escreveu Benzinho ao lado de Karine Teles, nos apresenta um perfil de família brasileira muito coerente com a nossa realidade atual. Para mim, um filme nacional imperdível.

A HISTÓRIA: Uma família está preparada para a praia, com brinquedos, guarda-sol e boias à tira-colo. Eles aguardam por um bom tempo até que conseguem atravessar a rua. Depois da espera, eles finalmente chegam ao destino. Corta. Em casa, Irene (Karine Teles) procura agilizar os dois filhos menores, gêmeos (Arthur Teles Pizzi e Francisco Teles Pizzi). Eles estão com pressa para sair de casa e chegar à tempo de ver ao filho mais velho de Irene e de Klaus (Otávio Müller), Fernando (Konstantinos Sarris), jogando uma partida decisiva de handebol.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Benzinho): Ai, que dúvida atroz sobre que nota dar para este filme. Sim, eu sei que isso é uma bobagem. Afinal, o importante é a experiência que tivemos no cinema e o que os filmes provocaram ou deixaram para a gente. Mas sim, me preocupo em não ser injusta com a nota que eu poderia dar para Benzinho. Porque este filme está bem acima da média.

Quem acompanha ao blog há algum tempo, sabe que eu não tenho assistido a muitos filmes nacionais. Nada contra o cinema brasileiro, muito pelo contrário. Mas o meu gosto para filmes não faz com que eu me sinta atraída pelas comédias, algumas no estilo “pastelão”, que o cinema brasileiro volta e meia nos apresento. Respeito, sei qual é o papel destes filmes para a indústria nacional, mas isso não faz com que eu tenha interesse em assistir a esse tipo de produção. E isso não vale apenas para o cinema brasileiro, mas para os filmes de todas as latitudes.

Aprecio mais outro tipo de filme. Produções que falem sobre o “humano, demasiado humano” ou que, pelo menos, se esforcem em nos apresentar questões pertinentes e/ou ideias novas. Se não exatamente “reinventem a roda”, que pelo menos tentem nos mostrar uma forma diferente de encarar algum gênero cinematográfico ou realidade. Por isso mesmo, seleciono muito bem os filmes nacionais que eu assisto. E que presente encontrar uma produção como Benzinho pela frente!

Muito pode ser dito sobre esse filme. Mas vou começar destacando como ele fala de forma interessante sobre as pessoas comuns. As vidas “ordinárias” sempre rendem ótimas histórias no cinema quando temos pela frente um diretor cuidadoso e um roteiro excepcional. Esse é o caso de Benzinho. O filme trata sobre uma “família comum” brasileira, com tudo que isso carrega de significados.

Temos em cena a peça central dessa história, a mãe de família e “dona de casa” Irene. A atriz Karine Teles dá um show de interpretação com essa personagem, nos apresentando uma mulher amorosa, batalhadora e o centro da família composta apenas por homens – o marido, interpretado pelo ótimo Otávio Müller, e os quatro filhos do casal. Irene representa milhões de mulheres brasileiras que estudaram relativamente pouco, casaram, tiveram vários filhos e que se tocaram, em determinado momento da vida, como dedicaram a vida para essa família – deixando a si próprias em segundo plano, geralmente.

No melhor estilo “deixa a vida me levar”, Irene e o marido Klaus percebem, em determinado momento da vida, como eles seguem batalhando o dia a dia. Tão envolvidos com a busca por sobreviver e por dar comida, educação e um teto que não caia sobre a cabeça dos filhos, Irene e Klaus tem pouco tempo para sonhar. Ainda assim, eles sonham – especialmente Klaus, que assume a postura clássica de “provedor” da família.

Mas esses sonhos, como tantos outros de todos nós, pessoas comuns desse Brasilzão continental, esbarram sempre na realidade dura de um país com poucas perspectivas para as pessoas. Klaus percebe, primeiro, que a sua papelaria e livraria já não dá muito certo. Cada vez menos pessoas fazem fotocópias ou compram livros usados. Ele acaba funcionando mais como “consultor” para quem quer comprar um bom livro na internet do que como alguém que realmente vai conseguir vender algo.

Como Klaus percebe que o negócio em que está começa mais a dar prejuízo do que lucro, ele sonha em alugar um galpão enorme onde poderá colocar uma livraria e realocar outros espaços para uso cultural. Irene, que além de cuidar dos filhos, vende lençóis e outros produtos para reforçar o orçamento doméstico, teme que aquela investida será catastrófica. E assim, Klaus larga essa ideia e sonha em investir em um restaurante em um ponto turístico da cidade que ainda precisa ser “revitalizado” pela prefeitura.

E assim, de maneira suave e envolvente, o roteiro de Benzinho nos apresenta essa característica do “sempre vamos dar um jeito” que o brasileiro parece ter desde nascença. Por aqui, temos menos oportunidades de desenvolvimento individual e coletivo do que em outros países. Mas isso não nos tira a esperança e a crença de dias melhores. Para mim, essa característica sempre foi uma das mais fascinantes do brasileiro. Assim como a nossa capacidade de sermos amorosos e cuidadosos, quando assim desejamos. E tudo isso está bem plasmado em Benzinho.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No fim das contas, nada dá muito certo para Irene e Klaus. Para realizar o seu último sonho, de investir em um restaurante naquele ponto turístico, Klaus precisava vender a casa deles na praia. Mas o negócio não sai como eles esperavam. Irene, por sua vez, não dá bronca no marido, mas o consola e afirma que eles vão dar um jeito. Como Klaus mesmo disse para o filho mais velho, Fernando (Kostantinos Sarris), “tudo dá certo para a gente no final”. Essa é a esperança sem fim do brasileiro.

Mas Benzinho não trata apenas disso. O filme é muito mais profundo. Ele trata sobre este “modus operandi” de sempre dar um jeito nas coisas do brasileiro, assim como a esperança sem fim de quem vive na terra brasilis, mas ele não ignora o tom amargo da falta de perspectivas e de oportunidades. Esses são temas presentes durante toda a produção. E aí entra em cena a história de Fernando, um jovem que encara na sua ida para jogar handebol na Alemanha a “chance da sua vida”. E por que será?

O personagem do Fernando é bastante sintomático em Benzinho. E muito interessante – possivelmente o personagem mais interessante da história, junto com a personagem de Irene. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Amoroso, próximo dos irmão mais novos e dos pais, Fernando simboliza o jovem brasileiro cansado de uma sociedade sem muitas perspectivas. Assim, quando surge uma oportunidade fora do país, ele não só não pensa duas vezes em ir como é enfático em dizer para a mãe que não pretende voltar.

Esse é o outro lado de uma mesma moeda. Ao mesmo tempo que temos em cena Irene, uma mulher que nunca teve muita oportunidade de estudar, mas que se sente realizada por terminar o ensino médio já quase na meia idade, temos também a Fernando, um jovem que admira o esforço dos pais e ama a sua família, mas que não pensa em se limitar por causa das condições de uma vida com menos oportunidades e barreiras.

Poucos vão conseguir ser um “ponto fora da curva”, para usar uma expressão que se popularizou e que tem como base a questão estatística. Ou seja, a maioria será mediana, terá uma vida comum. Sonhará, em alguns momentos, mas terá que lidar, na maior parte do tempo, com as limitações da realidade. Fernando, ao perceber uma oportunidade fora do país, está tentando ser esse “ponto fora da curva”.

Com isso ele não está negando as origens, ou sendo ingrato com o que recebeu, mas ele quer mais para si do que ter como grande prazer da semana – ou do mês – assistir a um desfile de uma banda marcial. Essa cena, aliás, achei genial. Como tantas outras interessantíssimas de Benzinho. A cena do desfile, em que Irene estampa com perfeição a felicidade e a tristeza em seu rosto – felicidade e tristeza pela “separação” familiar e por tantas outras razões plasmadas por essa produção e ditas ou não nesta crítica -, me fez lembrar de uma música.

Vez ou outra, o meu pai me fazia lembrar de Ouro de Tolo, lançado por Raul Seixas no longínquo 1973. O trecho que o meu pai gosta de citar diz: “(…) Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo/ Pra ir com a família no jardim zoológico dar pipocas aos macacos/ Ah, mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco”.

O final de Benzinho me fez lembrar dessa música e desse trecho porque, para mim, muitas vezes o brasileiro – e não apenas nós, devo dizer – parece ser resumido nessa cena. Seja a do zoológico, seja a desfile de Benzinho. Trabalhamos tanto, corremos tanto, procuramos fazer o melhor e não perder a esperança mas, no final das contas, estamos mesmo fazendo o que queremos e sendo quem desejamos?

Alcançamos e desenvolvemos o nosso maior potencial ou ficamos apenas com parte do caminho e os seus prêmios (como o amor transbordante da família de Irene)? O melhor que Irene e Cia. podem desejar é um final de semana na praia e um desfile de banda marcial para acompanhar? Ou está certo o Fernando, que vai levar tudo isso na memória mas que vai procurar desenvolver-se ao máximo em uma sociedade com economia e sociedade mais desenvolvidas?

Um dos acertos de Benzinho é que eles nos apresenta muita verdade, muitos sentimentos e muita beleza, assim como muitos questionamentos sem que, para tudo isso, sejam precisos discursos. Benzinho funciona tão bem porque alia um ótimo roteiro e um elenco excelente com uma direção cuidadosa, que apresenta muita sensibilidade, sutileza e beleza em diversos planos de câmera.

Belíssimo, gostoso, saboroso e um pouco amargo, Benzinho enaltece as pessoas simples e a “alma nacional”. Valoriza estes elementos para a gente ver eles com orgulho, mas também pensando em como podemos avançar para que melhoremos o que temos por aí. Além da história de Irene e de Klaus com os seus filhos, esse filme tem a personagem de Sônia (Adriana Esteves), irmã de Irene e agredida pelo marido, Alan (César Troncoso), como uma espécie de lembrete de que a realidade das famílias não é feita só de dedicação, amor e cuidado.

Sônia e Alan estão no filme para nos lembrar das fragilidades dos laços amorosos e da desgraça bastante presente na vida de tantas famílias que é a dependência química e o abuso contra as mulheres. Apesar de não ser um tema central nessa produção, o roteiro de Gustavo Pizzi e Karine Teles está atento para essa questão e a trata com bastante sensibilidade e sem julgamentos. Mais um indicativo de que este filme está sim acima da média.

Para finalizar, preciso comentar uma parte desta produção que eu achei bastante simbólica. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Logo no início da produção, ao tentar sair de casa rapidamente para não perder o jogo do filho mais velho, Irene percebe que não vai conseguir abrir a porta da frente da casa e, de forma provisória, ela providencia uma saída pela janela da frente com a ajuda de uma escada.

O que eu achei bastante simbólico, nessa cena de Benzinho, é que o que era para ser provisório acaba sendo definitivo. Desde o início do filme e até o final – quando a família está procurando terminar a casa nova que ficou por muito tempo com a obra paralisada -, ninguém é capaz de resolver o problema da porta. Seja trocando a fechadura ou a porta mesmo… A solução da família é continuar a entrar e sair da casa pela janela.

Esse, para mim, é um dos aspectos mais interessantes e fortes dessa história. A forma de entrar e sair da casa simboliza a característica do “improviso” que parece nos definir enquanto povo, muitas vezes. Impossível para um alemão, apenas para simbolizar o “modus operandi” do povo no qual Fernando pretende ser inserido, imaginar o seu dia a dia daquela forma.

Ok, na hora de sair rapidamente de casa, um alemão até poderia adotar a alternativa da escada na janela. Mas, logo que possível, ele resolveria definitivamente o problema da porta. Mas isso nem sempre é feito pelo brasileiro, que acha que aquele problema pode ser contornado e não enfrentado. Isso é bastante simbólico, vocês não acham? Essas e tantas outras sutilezas fazem deste Benzinho um filme muito especial. Assistam.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vou dizer para vocês. Fiquei muito tempo pensando sobre a nota que eu deveria dar para este filme. Até perto de concluir a crítica acima, eu ainda estava em dúvidas. Mas ao comentar sobre uma das grandes “sacadas” desta produção, percebi que o filme realmente é incrível. Logo depois que eu assisti a Benzinho no cinema, pensei se ele não mereceria um 10.

Quando comecei essa crítica, eu estava na faixa do 9,7… mas ao concluir o texto, percebi mesmo que ele merece a nota máxima. Não vi defeitos nessa produção, apenas diversas sacadas bacanas, muita sensibilidade, visão crítica e beleza. Então por que não dar uma nota 10 para uma produção nacional? Posso estar exagerando na nota, eu sei. Por isso deixo a critério de vocês se eu exagerei ou não. 😉

Gostei muito do roteiro de Gustavo Pizzi e Karine Teles. A narrativa de Benzinho transcorre de modo envolvente, com muita sensibilidade e com atenção a cada personagem. Claro que o filme é bastante focado na protagonista, Irene, brilhantemente interpretada por Karine Teles. Mas outros atores também fazem um grande trabalho, com destaque para Otávio Müller, Konstantinos Sarris, Adriana Esteves, César Troncoso e os garotos que interpretam os filhos mais novos dos protagonistas, Arthur Teles Pizzi, Francisco Teles Pizzi e, acredito, Luan Teles. Por que comento esse “acredito” aqui? Porque não ficou claro para mim quem é o ator que interpreta ao segundo filho mais velho do casal. Achei o trabalho dele muito bom, assim como dos outros garotos, mas não achei fácil o seu nome nos créditos.

A escolha e a condução do elenco é outro ponto forte de Benzinho. A história não funcionaria tão bem se ela não tivesse atores tão inspirados em cena. Mérito dos produtores e do diretor Gustavo Pizzi, sem dúvida, assim como de cada ator envolvido no projeto. Além dos nomes já citados, vale comentar o trabalho de Camilo Pellegrini como Ligia, uma transsexual que é amiga Irene e de Sônia; Mateus Solano como Paçoca, o técnico estressado do time de handebol “abandonado” por Fernando; e de Vicente Demori como Thiago, filho de Sônia e de Alan. Tenho dúvida também se não estou trocando os nomes de Vicente Demori e de Luan Teles. Se estiver, alguém me corrija. 😉

Alguns outros elementos técnicos fazem de Benzinho um filme diferenciado. Destaque, em especial, para a direção de fotografia especial e belíssima de Pedro Faerstein. Também merecem aplausos a trilha sonora de Maximiliano Silveira; a edição perfeita e cirúrgica de Lívia Serpa; a direção de arte de Dina Salem Levy; os figurinos perfeitos de Diana Leste; a maquiagem de Virginia Silva; e o departamento de arte de Carla Mendes.

Benzinho estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2018. Depois, o filme participou, ainda, de outros nove festivais de cinema – alguns bastante interessantes, como os festivais de Roterdã, Málaga e San Francisco.

A produção foi um dos destaques do Festival de Cinema de Gramado, onde venceu nas categorias de Melhor Filme segundo a escolha do público; Melhor Filme na votação dos críticos; Melhor Atriz para Karine Teles e Melhor Atriz Coadjuvante para Adriana Esteves. Além destes prêmios recebidos no Brasil, Benzinho ganhou em duas categorias no Festival de Cinema Espanhol de Málaga: Melhor Filme Iberoamericano e Prêmio Especial da Crítica para Gustavo Pizzi.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Benzinho, enquanto que os críticos que tem os seus textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 14 críticas positivas e uma negativa para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,6. Achei ambas as notas bastante boas se levarmos em conta os padrões dos dois sites. O site Metacritic ostenta um “metascore” de 81 para Benzinho, fruto de cinco críticas positivas.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção. Não sei vocês, mas eu fiquei por um bom tempo tentando “descobrir” aonde Benzinho foi rodado. Depois de assistir à produção é que eu tive certeza. O filme foi rodado nas cidades de Petrópolis e de Araruama, ambas no interior do Estado do Rio de Janeiro.

Benzinho é um dos filmes brasileiros que disputa a indicação do Brasil no próximo Oscar. Ainda que eu não tenha visto a mais nenhum filme nacional dessa safra – pretendo fazer isso hoje, buscando no cinema a um outro filme elogiado nesse ano -, devo dizer que a minha torcida já é para Benzinho. Para mim, esse é um dos melhores filmes nacionais que eu já vi e, sem dúvida, ele não deixa a dever nada para filmes franceses ou de outras latitudes. Acho que teríamos alguma chance de emplacar no próximo Oscar – a depender da safra dos outros países – com ele. Veremos.

Benzinho é uma coprodução do Brasil com o Uruguai e a Alemanha. Por causa do primeiro e do terceiro país desta lista, o filme atende à votações feitas aqui no blog – quando vocês me pediram mais críticas de filmes do Brasil e da Alemanha. Por isso, ele passará a figurar nessa categoria de filmes (também).

CONCLUSÃO: Um filme maravilhoso, para dizer o mínimo. Destes que fazem você se deliciar e refletir durante a exibição e além, muito além de quando os créditos terminam. Como comentei antes, Benzinho é um dos filmes que eu vi que mais falam sobre a alma brasileira. Mostra com perfeição a esperança e a perseverança das pessoas comuns, assim como as suas frustrações e o seus desejos de conseguirem ir adiante, mesmo com as perspectivas contra. Trata de amor, de cuidado, afeto e de batalha. De tudo isso que as “vidas comuns” estão cheias, mas que poucos param para observar. Benzinho é lindo, profundo e revelador. Um dos grandes filmes nacionais que eu já vi.

Jezebel

jezebel

Dois grandes atores em suas respectivas primeiras fases de suas longas e profícuas carreiras. Jezebel nos apresenta Bette Davis e Henry Fonda em um belo trabalho. Um filme que retrata os Estados Unidos dividido entre o Norte e o Sul e prestes a passar por mais uma crise envolvendo a saúde pública. Produção bastante datada, que trata de forma franca um estilo de vida que foi importante para os Estados Unidos. É um filme interessante especialmente pelo desempenho de seus astros.

A HISTÓRIA: Começa em New Orleans, em 1852. As ruas estão cheias de comerciantes e pessoas comprando de roupas, máscaras até flores. Carruagens são conduzidas por escravos negros, e senhores bem vestidos caminham pelas ruas. Em uma carruagem, Buck Cantrell (George Brent) pede para o cocheiro parar em um hotel. Ele vai, junto com Ted Dillard (Richard Cromwell), para o bar do hotel, para eles tomarem uma dose de whisky antes da festa de Julie (Bette Davis).

No bar do hotel, Buck acaba se desentendendo por causa de comentários feitos sobre Julie. Como manda o costume da época, ele deve enfrentar o desafeto em um duelo. Em seguida, Buck e Ted vão para a festa de Julie, que chega atrasada, causando comentários de reprovação em parte dos convidados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jezebel): Eu não vou mentir para vocês. O grande interesse desse filme é ver a dois grandes atores, que marcaram as suas épocas – e, porque não dizer, a história do cinema -, em grande fase. Bette Davis era o nome de destaque deste filme. E não por menos, já que ela tinha sido indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1935 e vencido o Oscar nessa mesma categoria em 1936.

Ou seja, Jezebel, quando estreou, estava sendo estrelado por uma atriz que recém tinha vencido o Oscar. Bette Davis estava em ascensão quando fez este filme. Não por acaso o seu nome aparece em tamanho maior do que o dos outros astros da produção. Ela é a protagonista, e a história orbita ao seu redor. Mas afinal de contas, o que o roteiro de Clements Ripley, Abem Finkel e John Huston nos apresenta?

Apesar do filme ter sido lançado em 1938, um ano antes do começo da Segunda Guerra Mundial, a história em si de Jezebel se passa em 1852. Importante ter isso em mente. Também é fundamental sabermos que estamos na região Sul dos Estados Unidos – o roteiro do filme nos lembrará disso inúmeras vezes.

Porque apesar de Jezebel ser um filme centrado em uma mulher que resolve romper as regras vigentes daquele período – e é sempre criticada por isso -, ele também trata, de maneira muito direta e franca, as diferenças entre os ianques (do Norte do país) e os sulistas. Ou seja, entre os que querem a abolição da escravatura e aqueles que a defendem.

Vale, nesse sentido, lembrar que este filme se passa nove anos antes do início da Guerra de Secessão – ou Guerra Civil Americana. Todo o cenário que vemos em Jezebel, das diferenças cruciais entre o Sul e o Norte dos Estados Unidos, serão a base do conflito militar que duraria quatro anos e que teria provocado cerca de 618 mil mortes – alguns projetam números até maiores do que este. De qualquer forma, um número espantoso de vítimas por um conflito que teve as suas bases um pouco esboçadas nesta produção.

Antes de falar deste fundo cultural, político, econômico e de costumes de Jezebel, vamos tratar da essência desta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A protagonista do filme, e na qual a história é centrada, é a destemida, “mimada” e temperamental Julie Marsden (Bette Davis). Ela era uma garota à frente da sua época porque, apesar de concordar com algumas convenções e de amar a sua terra natal, ela também queria romper com alguns costumes e mostrar que tinha tanto direito quanto os homens de opinar e de marcar posição.

Esse é um clássico. Uma mulher que procura romper os costumes conservadores e o “modus operandi” de uma sociedade machista para fazer-se ouvir e respeitar. Depois de namorar a Buck, Julie agora é noiva de Preston Dillard (Henry Fonda), um super partido da época por ser herdeiro de uma família respeitada e por trabalhar em um banco. Além de tudo, ele era bonito e elegante. Julie não poderia querer alguém melhor.

O problema é que logo percebemos que Julie quer tudo a sua maneira. E por uma razão idiota, porque Julie quer que o noivo vá com ela na prova do vestido que ela deseja usar no baile de gala da cidade, mas ele está ocupando em uma reunião importante no banco e não vai com ela, Julie resolve quebrar uma regra social considerada importante naquela época. A regra também é ridícula, convenhamos, mas a simbologia da atitude dela é o que muda tudo.

Como Preston resolve terminar a reunião que tinha começado no banco para defender a construção de ferrovias para investidores, Julie resolve “escandalizar” a todos ao optar por um vestido vermelho para ir para o baile. Naquela sociedade conservadora e cheia de regras, uma moça solteira só poderia ir para o baile vestida de branco. Uma pena, nesse sentido, que Jezebel ainda seja um filme preto e branco. Fiquei imaginando como, em uma produção colorida, teria sido chocante ver Julie vestida de vermelho em meio a um salão de mulheres com vestidos brancos.

Mesmo não vendo esse contraste em todo o seu esplendor por causa do preto e branco, conseguimos imaginar a cena. E sim, por causa de um costume tão idiota e de uma “cabeça dura” tão grande como Julie, ela acaba sendo deixada pelo noivo. Como a vida anda para a frente e não para trás – ainda que Julie tenha preferido ficar com a própria vida paralisada à espera de Preston -, depois de romper com a protagonista, Preston vai para o Norte do país trabalhar e lá ele conhece à Amy Bradford Dillard (Margaret Lindsay).

Os dois se casam e, após um ano do rompimento com Julie, Preston volta para o Sul por causa da epidemia de febre amarela que está assolando a região de New Orleans. Honestamente, eu não vejo que essa teria sido a melhor decisão a tomar, voltar para uma região com epidemia crescente, mas Preston é do tipo que quer ajudar o banco no qual ele é um dos responsáveis.

Além disso, claro, nesse caso, o roteiro não pode ser tão lógico porque o que importa mesmo é a nova fase de “tensão” entre Julie e Preston. Como Amy é uma garota “ianque”, do Norte do país, isso rende uma série de comentários hostis por parte de Julie e da sua eterna marionete Buck.

Olhando especificamente para a protagonista deste filme, os roteiristas parecem nos dizer que uma mulher, quando resolve ter opiniões próprias, ir contra as convenções e assumir uma postura egoísta – funções que parecem ser restritas apenas aos homens -, causa apenas dor, destruição e morte. A Jezebel do título é explicada pela tia de Julie, Belle Massey (Fay Bainter), que lembra a sobrinha de uma mulher que foi contra Deus, na Bíblia, e que tinha esse nome.

Verdade que os joguinhos e o egoísmo de Julie provocaram mais conflitos – e inclusive uma morte – do que ela gostaria. Mas será que ela foi realmente a responsável pela morte de Buck, por exemplo? Ela mesma pede para ele deixar para lá o costume dos duelos, e não confrontar Ted por uma bobagem. Mas ele é orgulhoso e defende até o final os costumes do Sul. E aí que mais uma vida se perde por uma bobagem.

Daí entramos naquele fundo social do qual eu falava antes. Jezebel trata indiretamente vários elementos que serviriam de estopim para ocorrer a Guerra de Secessão nove anos depois desta história. Por um lado, temos a uma sociedade conservadora e cheia de regras – ao ponto de uma garota ser considerada uma “pária” porque não usou uma cor de vestido em uma determinada festa. Sociedade essa que defendia o uso de escravos e colocava a honra acima da vida – vide os duelos que poderiam terminar em morte por causa de desentendimentos.

Bem diferente desta visão de mundo, temos no filme Amy e um Preston com nova visão após ter morado no Norte do país. Naquele região, as pessoas acham que os negros devem ter as mesmas oportunidades que os brancos, e que uma mulher também deve ter liberdade de escolher como ela deve se vestir. No Norte não existem tantas convenções sociais ou regras, e as máquinas começam a exigir uma nova postura dos trabalhadores – ao ponto de Preston afirmar, com todas as letras, que as máquinas vão superar o trabalho escravo em breve.

Esse choque de visões e de maneiras de encarar a realidade cria tensão na casa de Julie e da tia Belle da mesma maneira que cria divisões e conflitos em qualquer outra casa do Sul do país. Jezebel, desta forma, além de uma história de amor mal resolvida, se revela um filme que ajuda a explicar um contexto social e histórico importante por Estados Unidos.

Por tudo isso, esse filme se revela interessante. Apesar disso, um grande problema do roteiro de Jezebel é que ele é um bocado previsível. Não existe, descontados um ou dois momentos, nenhuma grande surpresa. No lugar disso, o que vemos é uma carga um tanto exagerada de melodrama – especialmente a partir do ponto em que Julie parte em “socorro” do amado que não está mais com ela. Dá para entender as escolhas dos roteiristas e do diretor William Wyler, já que este estilo deveria ser apreciado pelas audiências na época.

Mas, para o meu gosto, o filme poderia ser um pouco mais surpreendente e um pouco menos melodramático. O roteiro também não apresenta nenhuma grande novidade, ainda que Ripley, Finkel e Huston acertam ao não centrar a história apenas na garota rebelde e sua história de amor frustrada, mas também em nos apresentar um pano de fundo histórico interessante.

De qualquer forma, o grande interesse do filme está mesmo em ver Bette Davis e Henry Fonda ainda jovens e em grande momento. Uma das sequências desta produção, quando Julie encontra Preston após um ano, vestida de branco, e que se ajoelha em frente ao amado, certamente é uma das imagens mais repetidas quando tratamos do trabalho de Bette Davis. O filme merece ser visto apenas por isso, pelo desempenho da atriz e por sua troca com o grande Henry Fonda. Ambos estão muito bem. Mas o filme, infelizmente, é um pouco datado e previsível demais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem se interessou em saber um pouco mais sobre os conflitos entre o Sul e o Norte dos Estados Unidos, vale dar uma lida nessa curiosa matéria da Superinteressante. Apesar daquela era revelada por Jezebel já fazer parte do passado dos Estados Unidos, certamente as suas marcas continuam ajudando a ditar o cotidiano do país em pleno 2018 – vide a questão racial mal resolvida no país, entre outras questões.

Vale comentar que Jezebel está completando, em 2018, nada menos que 80 anos de seu lançamento nos cinemas. Impressionante pensar que há oito décadas já tínhamos filmes com o zelo, o cuidado e o talento de atores como Bette Davis e Henry Fonda nos cinemas. Esse filme faz parte da história do cinema norte-americano, sem dúvidas.

O roteiro de Jezebel, escrito por Clements Ripley, Abem Finkel e John Huston, é baseado na peça de teatro de Owen Davis. Além dos três roteiristas, contribuíram para o roteiro, apesar de não terem recebido crédito por isso, Robert Buckner e Louis F. Edelman. Interessante como naquela época diversos nomes se envolviam em um mesmo roteiro – hoje, por outro lado, é mais comum que um ou dois roteiristas, no máximo, se envolvam em um projeto.

São épocas diferentes, sem dúvida. Na época de Jezebel, na era dos estúdios, o nome dos astros e estrelas, assim como os dos diretores, tinham mais relevância do que o dos roteiristas. Os projetos eram capitaneados pelos produtores e pelos estúdios muito mais do que hoje em dia.

Vou admitir algo que é difícil para “engolir” nessa produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entendo que a produção retrate uma situação em pleno século 19, nos Estados Unidos, mas a ideia de que uma mulher é a origem da “desgraça” dos homens, ao estilo da Jezebel da Bíblia e de Eva, idem, me incomoda. Como eu disse antes, os homens fazem o que bem entendem, inclusive nessa história, mas a culpa acaba sendo das “ardilosas” mulheres que os provocam? Ah vá! Quando as pessoas serem realmente responsáveis pelos seus atos?

Jezebel é um filme de William Wyler, um dos grandes diretores da época dos estúdios em Hollywood. Nesta produção, ele faz um trabalho correto e bem conduzido, valorizando os cenários e os locais de luxo que ajudam a explicar a origem dos personagens. Ele também captura muito bem o ritmo de uma cidade na época e o trabalho dos atores, valorizando muito bem os talentos que foram escolhidos para esta produção. Faz um trabalho competente, ainda que, tecnicamente falando, ele não entregue nada assim de tão excepcional. Os seus ângulos e dinâmica das câmeras já tinham sido explorados com talento antes por vários nomes. Nada demais, portanto.

Bette Davis e Henry Fonda são as grandes estrelas desse filme. Com um certo destaque para a atriz, que realmente conduz a história e brilha com a sua personagem cheia de nuances. Além deles, vale citar o belo trabalho de George Brent como Buck Cantrell; de Margaret Lindsay como Amy Bradford Dillard; de Donald Crisp como o Dr. Livingstone, amigo da família Dillard e de Julie; Fay Bainter muito bem como a tia Belle Massey; Richard Cromwell como Ted Dillard, irmão mais novo de Preston e um sujeito pouco afeito a “desaforos”; Henry O’Neill como o general Theopholus Bogardus, tutor de Julie; Lew Payton como o “tio” Cato, um escravo que era empregado da família de Julie há muito tempo; Eddie “Rochester” Anderson como Gros Bat, escravo de confiança da família; e Matthew “Stymie” Beard como Ti Bat, um simpático escravo que servia como “garoto de recados” e quase um “faz tudo”.

O filme não tem muitos personagens importantes, ma tem diversos personagens com pouca relevância ou figurantes. Alguns outros nomes tem algumas falas e um pouco de importância no filme, mas nada que mereça realmente ser mencionado.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a direção de Ernest Haller; a trilha sonora de Max Steiner; e a edição de Warren Low. Também valem ser mencionadas a direção de arte de Robert M. Haas; os figurinos de Orry-Kelly; e o departamento de arte de Fred M. MacLean, Pat Patterson e George Sweeney.

Jezebel estreou em première no dia 10 de março de 1938 em Nova York. No mesmo ano, o filme estreou em outros 11 países, incluindo uma participação no Festival de Cinema de Veneza em agosto daquele ano.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Bette Davis concluiu que William Wyler era um diretor diferenciado porque ele fazia questão de apresentar para ela o resultado das filmagens do dia. Nenhum diretor tinha feito isso com ela antes. Eles assistiram juntos, por exemplo, a uma cena em que a atriz estava descendo uma escada e que, quando foi filmada, tinha irritado Bette Davis porque Wyler tinha pedido para a sequência ser repetida pouco mais de 30 vezes. Ao rever o material, contudo, Wyler mostrou a sequência em que Bette Davis tinha feito uma expressão fugaz e que resumia bem a sua personagem. A partir daí, a atriz não questionou mais nenhuma sequência que o diretor pediu para ser repetida.

Bette Davis teria gravado cerca de 45 takes até que ela conseguiu aperfeiçoar o gesto em que ela levanta a capa da sua montaria – na parte inicial do filme. Isso demonstra, assim como o parágrafo anterior, o nível de exigência da atriz e do diretor com os detalhes desse filme. De fato, nada aparece em cena sem que tudo tenha sido ensaiado e/ou gravado até a exaustão para que ficasse “perfeito”.

Depois que o filme terminou de ser gravado, Bette Davis chorou durante alguns dias. Não apenas porque ela teria terminado uma das suas experiências cinematográficas mais gratificantes mas, também, porque ela descobriu estar grávida de William Wyler. Agora sim, faz ainda mais sentido o diretor preocupar-se em mostrar as cenas rodadas a cada dia para a sua então amada. 😉

Bette Davis recebeu o Oscar de Melhor Atriz por Jezebel em 1939. Em 2001, esse Oscar que ela recebeu pelo filme foi leiloado por US$ 57,8 mil pela Christie’s. Quem arrematou a estatueta foi Steven Spielberg que, na sequência, doou o prêmio para os arquivos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Bette Davis conheceu William Wyler durante o teste que fez para o filme A House Divided em 1931. Como estava atrasada para o teste, Davis pegou um vestido de tamanho menor do que o dela e, enquanto caminhava, ouviu o seguinte comentário de Wyler para uma pessoa de sua equipe: “O que você acha dessas damas que mostram os seus seios acreditam que podem conseguir um emprego por causa disso?”. Davis se sentiu humilhada por esse comentário e fez questão de lembrar Wyler sobre ele quando os dois se encontraram para tratar de Jezebel. A ironia do episódio é que Bette Davis era conhecida por renunciar do seu sex appeal – muitas vezes aparecendo nos testes e nos encontros com os diretores e produtores sem maquiagem.

Durante as filmagens de Jezebel, Bette Davis e William Wyler tiveram um caso. Na época, Davis era casada com Harmon Nelson. Quando Jezebel foi rodado, Nelson trabalhava, principalmente, em Nova York, e o casamento dele com Davis encaminhava-se para o fim. Enquanto isso, a atriz passava muitas noites na casa de Wyler onde, entre uma noite e outra de amor, eles também falavam do filme que estavam fazendo juntos.

Após brigar com Wyler em um determinado momento, Bette Davis embarcou em um caso com Henry Fonda. Isso aumentou muito a tensão nos sets de filmagem. Mas depois que a esposa grávida de Fonda ligou para o marido, Davis desembarcou desse caso.

Para alguns críticos, Jezebel é a versão preto e branco de Gone with the Wind, que estava em fase de pré-produção na época em que o filme de Wyler foi rodado. Francamente? Acho Gone with the Wind melhor. Mais maduro enquanto produção e com interpretações mais marcantes.

O ator Henry Fonda foi liberado de ficar junto com a equipe até o final das rodagens porque ele estava ansioso para acompanhar ao nascimento da sua filha Jane Fonda. Por isso ele gravou algumas cenas com antecedência e foi liberado. Enquanto isso, Bette Davis perdeu o pai durante as filmagens de Jezebel. Ele morreu durante o Ano Novo de 1938. Como a produção estava 24 dias atrasada, Davis tirou uma folga para ir até o funeral do pai.

A peça em que o filme foi baseado, estrelada pela “inimiga” de Bette Davis, Miriam Hopkins, foi um fracasso na Broadway. A atriz Miriam Hopkins chegou a afirmar que, em seu contrato, estava determinado que ela estrearia o filme baseado na peça. Mas a verdade é que o contrato não era determinista – apenas dizia que ela seria “considerada” caso a produção rendesse um filme.

Humphrey Bogart, que tinha acabado de trabalhar com Wyler em Dead End, alertou Bette Davis que ela poderia odiar trabalhar com o diretor já que ele tinha o hábito de pedir que uma sequência fosse rodada diversas vezes sem, contudo, orientar os atores sobre o que eles poderiam fazer diferente. No primeiro dia de filmagens, Davis teve que rodar 28 vezes uma cena considerada simples em uma loja de roupas. Inicialmente, ela não gostou daquilo. Mas quando viu o resumo das filmagens do dia e percebeu que a cada nova rodagem na sequência a interpretação dela ficava melhor, ela foi convencida pelo jeito de trabalhar do diretor.

Jezebel ganhou em duas categorias do Oscar de 1939 e foi o vencedor de outros três prêmios – além de ter sido indicado a outros quatro. O filme ganhou o Oscar de Melhor Atriz para Bette Davis e de Melhor Atriz Coadjuvante para Fay Bainter. Ele ficou ainda no Top Ten Films da National Board of Review, em 1938; o National Film Registry do National Film Preservation Board dos Estados Unidos em 2009; e a Special Recommendation para William Wyler no Festival de Cinema de Veneza de 1938.

Impressionante a trajetória de Bette Davis. Ela recebeu duas vezes a estatueta de Melhor Atriz no Oscar, em 1936 por Dangerous e em 1939 por Jezebel, e foi indicada outras nove vezes ao Oscar – mas nunca mais ganhou uma estatueta. A primeira indicação dela veio em 1935, por Of Human Bondage; e a última, em 1963, por What Ever Happened to Baby Jane?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Jezebel, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 15 críticas positivas e uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 7,5.

Escolhi Jezebel para figurar na lista dos filmes da seção Um Olhar Para Trás porque este é o primeiro filme da lista destaca pelo livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer. Como sempre, gosto de destacar parte da crítica da produção que é feita no livro. Em seu texto, R. Barton Palmer comenta o seguinte: “O segundo mais famoso retrato de Hollywood de uma mimada bela do Sul, Jezebel ofereceu a Bette Davis o veículo perfeito para seus talentos como atriz em um papel marcante. Davis interpreta Julie Marsden, a mais cobiçada debutante da Nova Orleans de 1850, uma sociedade regida por códigos de comportamento inflexíveis que a jovem considera sufocantes”. Como sempre, vale ler toda a crítica de Palmer, que faz uma interessante comparação de Jezebel com Gone with the Wind.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, esse filme também figura na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Essa produção se desdobra sobre um tempo dos Estados Unidos que já passou mas que, até hoje, tem os seus desdobramentos no país. Uma mulher que busca ter opinião própria sofre com uma sociedade cheia de regras e na qual os homens decidem os rumos da sociedade. Esse é um dos temas do filme. O outro é a diferença brutal entre a “forma de ser” da região Norte e Sul do país, com as suas diferenças “irreconciliáveis”. Um filme interessante, com dois atores ótimos em suas fases iniciais de carreira, mas que sofre um pouco com o fato de ser muito datado e por ficar um tanto “indeciso” sobre qual é o foco principal da história.