Lady Macbeth

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O desprezo, o desamor, o tédio e algo que, aparentemente, solucione tudo isso pode levar a uma loucura crescente e a muita, muita crueldade. Lady Macbeth é um filme interessante e curioso. Ele nos mostra como as pessoas são capazes de criar os seus mais profundos infernos pessoais. E como os elementos que eu comentei anteriormente são perigosos, muito perigosos. Um grande filme, com uma atriz estupenda como protagonista e um desenrolar de história meticuloso e que cobra do espectador um grande autocontrole para suportar o abjeto.

A HISTÓRIA: Em uma celebração, Katherine (Florence Pugh) está com um véu branco sobre o rosto enquanto acompanha o canto na pequena igreja. Ela olha ao redor, e vê Boris (Christopher Fairbank) e Anna (Naomi Ackie) atrás. Corta. À noite, Anna ajuda Katherine a se vestir. Ela arruma os longos cabelos da jovem e pergunta se ela está com frio. Katherine diz que não. Anna pergunta se ela está nervosa, e Katherine diz que não.

Ela acaba de se casar com Alexander (Paul Hilton), e esta é a noite de núpcias deles. Alexander tenta ser amável, mas apenas consegue ser estranho e rude. Ele diz que ela não deve sair da casa e manda Katherine tirar a roupa. Na sequência, ele se deita para dormir. Este é apenas o começo da história de Katherine naquela casa e na posição de Senhora Lester.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lady Macbeth): Nos créditos finais desta produção nós percebemos que o roteiro de Lady Macbeth, escrito por Alice Birch, é baseado no livro de Nikolai Leskov chamado "Lady Macbeth of Mtsensk". Eu não li a obra, já vou me adiantando. Mas mesmo que ela trate de outra personagem, possivelmente uma "versão moderna" da original, impossível não assistir a este filme sem pensar na Lady Macbeth de William Shakeaspeare.

E aí, meus amigos e amigas, esta produção ganha ainda mais interesse. Porque a Lady Macbeth de Shakeaspeare é uma mulher ambiciosa e sem escrúpulos, que influencia o marido para que ele cometa um crime e, com ele, chegue ao poder. É como se ela não tivesse freios ou não fosse capaz de ser parada – pelo menos até o final, quando ela própria tem um desfecho trágico, ao menos na obra de Shakeaspeare. Só que o interessante do filme Lady Macbeth – e imagino que, possivelmente, na obra de Leskov – é que a Lady Macbeth moderna é ainda mais perigosa.

Francamente? Este filme dirigido por William Oldroyd tem cenas fortíssimas e sequências bem sinistras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A protagonista da história realmente não tem filtros, freios ou limites para conseguir o que quer. Mas neste filme esta obstinação é elevada a uma nova potência e, diferente da obra de Shakeaspeare, aqui ela não divide a cena com o marido. Não. Muito pelo contrário. Ela é sim a protagonista, e todos os atos importantes da história são tomados por elas. Planejados e executados por Lady Macbeth, sem que ela precise influenciar ninguém – ainda que, e vemos isso bem na história, ela também sabe usar bem as pessoas ao redor a seu favor.

A verdade é que a Lady Macbeth mostrada nesta produção é tão fascinante, complexa e tenebrosa quanto a que inspirou e foi utilizada por Shakeaspeare. Só que, diferente da obra do escritor e dramaturgo inglês, neste filme a dose sinistra ganha uma nova potência. E a questão da consciência da personagem, a culpa que ela sente em Macbeth, não vemos nesta produção. Só que como na obra de Shakeaspeare, neste filme também entendemos que ninguém nasce monstro. Os monstros se formam, se alimentam e crescem se assim o permitimos.

Algo fascinante neste filme, apesar dos crimes hediondos da protagonista, é a forma com que ela vai se libertando da prisão doméstica e vai tomando as rédeas da própria vida. No início, Katherine (a fantástica Florence Pugh) parece uma menina doce, um tanto frágil, bastante pura e até um pouco inocente. A noite de núpcias dela com o novo marido – se é que podemos chamar a noite e aquele homem destas formas – é de arrepiar. Como eu comentei no início deste post, logo percebemos os efeitos do desprezo e do desamor na jovem Katherine.

Inicialmente, parece, ela está morrendo de tédio. Prisioneira daquela casa, ela tenta dormir o máximo possível – o que nada mais é do que uma forma de fuga e de escapar daquela situação absurda. Mas quando o sogro de Katherine, o dono da propriedade, Boris (Christopher Fairbank), afirma que vai passar um tempo fora, assim como o marido dela, Alexander (Paul Hilton), Katherine percebe que pode se der a alguns "luxos". Como sair da porta de casa e explorar o exterior – algo que ela quer fazer desde o princípio.

Esta liberdade que parece simples marca também a liberação da própria Katherine em todos os sentidos. Encontrando outras pessoas, além da empregada Anna (a também ótima Naomi Ackie), Katherine começa a revelar até aonde ela pode chegar. Especialmente quando ela conhece Sebastian (Cosmo Jarvis), um novo e ousado empregado da família, tudo começa a tomar uma outra forma. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Katherine, livre, leve e solta, sem o sogro ou o marido por perto, resiste por alguns segundos a uma investida diretíssima de Sebastian para, na sequência, logo começar a sua própria liberação sexual.

Então o desprezo, o desamor e o tédio que a estavam consumindo naquele cativeiro doméstico acabam encontrando um certo "antídoto" na paixão que ela desenvolve junto com Sebastian. A vida sexual ativa que ela pretendia com o marido, e que nunca teve, acaba florescendo no contato com Sebastian. Finalmente Katherine se sente livre, em todos os sentidos, e dona da sua própria vida. Mas era evidente que isso não poderia durar para sempre. Em algum momento o sogro ou o marido dela iriam retornar, e aí o que poderia acontecer? Bueno, é exatamente isso que descobrimos em Lady Macbeth.

Diferente da obra de Shakeaspeare, neste filme Katherine é uma Lady Macbeth que, além de manipular para o crime, ela própria é capaz de cometê-lo. Quando ela conhece o prazer e desfruta da liberdade, ela não quer mais abrir mão disso, não importa o que ela tenha que fazer para seguir com estas condições. A personagem é fascinante, e tem uma evolução para a "maldade" impressionante. Na verdade, Katherine encarna de uma certa forma exagerada e trágica a ideia de "empoderamento" feminino.

Quando o sogro e o marido saem da propriedade e dão espaço para ela começar a mostrar a sua personalidade, Katherine aproveita esta oportunidade. Inicialmente, parece, ela está apenas "desfrutando o momento", saboreando o gosto da liberdade pouco a pouco. Mas quando Sebastian aparece em cena de forma provocadora, Katherine se joga em uma paixão que ela desejava, mas parecia antes ter medo de admitir. E depois que a porteira foi aberta… difícil conter a manada.

Lady Macbeth tem algumas cenas surpreendentes, como quando Katherine descobre a "brincadeira" de Sebastian e sua turma com Anna. Aquele é um cenário agreste, por todos os lados para os quais você olhe. Os "donos da casa" são do estilo bruto, um tanto toscos, e Alexander abre mão de ter uma relação razoável com Katherine pelo simples fato de não fazer a vontade do pai, Boris. Os dois são do estilo "rico estúpidos", mas os seus empregados não são melhores. Sebastian dá conta dos desejos da nova patroa, mas ele também não é nenhum poeta, digamos assim.

Naquele cenário de pessoas um tanto brutas, Katherine parece ser um estranho no ninho. Mas ela, logo que tem a liberdade para isso, consegue perceber que pode comandar o lugar com certa facilidade. Ela faz o que bem entende, mesmo que isso signifique "manchar" a sua própria reputação. No início, ela tenta disfarçar um pouco o romance com Sebastian, mas depois o caso deles fica escancarado. Como eu disse antes, um dia isso teria fim, e a escolha de Katherine, já uma pessoa sem limites, é tirar do caminho qualquer pedra que possa atrapalhar a sua missão de continuar livre.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sem nenhum apreço pelo sogro ou pelo marido, ela não tem muitas dificuldades de acabar com os dois. Agora, quando o pequeno Teddy (Anton Palmer) aparece em cena, ela tem as suas certezas colocadas por terra. Para começo de história, ela surpreende por saber que o marido, que parecia não "gostar da fruta", teria tido um filho fora do casamento. Depois, claro que é muito diferente se livrar de uma criança do que de alguns adultos. Neste sentido, diferente da Lady Macbeth de Shakeaspeare, não é Katherine que incita o crime, mas Sebastian. Os papéis se invertem no último crime, mas essa inversão não termina aí.

Enquanto na obra de Shakeaspeare a culpa acaba sendo decisiva para o fim de Lady Macbeth, nesta produção de Oldroyd não existe espaço para a culpa em Katherine. Sebastian sim tem um "rompante" de culpa no final – justamente ele que incitou o último crime… Mas Katherine não. De forma inteligente ela acaba conseguindo virar o jogo a seu favor mais uma vez, e penaliza o seu cúmplice e a inocente (e aparentemente apaixonada por ele) Anna. E cá entre nós, ao menos Sebastian mereceu o desfecho que teve. Achei muita coragem da parte dele fazer a confissão e jogar a culpa em Katherine… gostei da reviravolta que ela conseguiu dar na história.

Esta produção é forte, especialmente pelo sangue frio dos crimes e por um certo sadismo da protagonista. Mas, ao mesmo tempo, este é um filme sobre empoderamento feminino um tanto sarcástico e estrategicamente "exagerado". Ele nos mostra até onde uma mulher pode chegar para tomar as rédeas de sua vida nas próprias mãos. O preço para isso nem sempre é justo, e esta busca pode levar uma mulher à loucura. Como nos apresenta com bastante propriedade este filme cheio de momentos marcantes e de uma e outra surpresa no caminho.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme marcante. Daqueles que dificilmente vão sair da sua memória por um bom tempo. E isso não por um ou outro elemento, mas pelo conjunto da obra. A história, por si só, impressiona. Pela força narrativa e pela surpresas no caminho. Para uma história assim funcionar, o filme precisa ter ótimos atores, e este é o caso de Lady Macbeth. Além disso, esta produção se destaca por diversos aspectos técnicos.

Vou começar falando da ótima direção de fotografia de Ari Wegner e dos figurinos maravilhosos de Holly Waddington. Estes são dois elementos fundamentais para nos fazer embarcar em uma história que claramente é de época – Lady Macbeth está ambientado em uma propriedade rural inglesa no século 19. Um dos fatores que faz este filme ficar muito tempo na nossa memória é justamente o visual da produção – e a direção de fotografia e os figurinos se destacam neste sentido.

Agora, vale falarmos um pouco mais sobre a história contada nesta produção. Inevitável pensar, como comentei durante a crítica, na obra de Shakeaspeare. Se você ficou curioso para saber mais sobre um dos clássicos do bardo inglês e, especialmente, sobre a Lady Macbeth que ele criou, vale dar uma olhada neste artigo de Maria Ester Vargas e neste texto de Syntia Pereira Alves. Mas importante também observar o que eu citei anteriormente, de que este filme é baseado no livro do russo Nikolai Leskov.

Busquei um pouco mais de informações sobre esta obra dele, e encontrei este texto na Wikipédia. Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk foi publicada inicialmente em 1865 – justamente o século 19 – e tratava-se de uma "novela curta". A história foca o papel submisso das mulheres na Europa do século 19, o adultério e a vida provinciana. A protagonista, como vemos no filme (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Lady Macbeth), rompe com o papel de mulher submissa ao rebelar-se contra aquela situação tendo um amante, planejando e executando assassinatos.

Além da novela curta lançada em 1865, a obra de Leskov inspirou uma ópera homônima lançada por Dmitri Shostakovich em 1934 e o filme Sibirska Ledi Magbet (Lady Macbeth Siberiana) dirigido por Andrzej Wajda e lançado em 1962.

O visual desta produção é um ponto fundamental para o filme dar certo, assim como a direção segura e que valoriza estes elementos e as atuações dos atores feita por William Oldroyd. O roteiro de Alice Birch também é envolvente, e sabe conduzir a história de uma forma com que os espectadores se sintam parte daquele enredo e um tanto angustiados com o que acontece com a protagonista que parecia tão inocente e que se transforma com o passar do tempo.

Ainda que o filme tenha todas estas qualidades, ele não seria nem uma sombra do que ele é se não tivesse uma grande atriz no papel principal. Florence Pugh surpreende como Katherine. O papel dela não é fácil, mas a atriz consegue dar o tom exato para a sua personagem em cada fase. Ela nunca perde totalmente a inocência, mas de forma muito sutil a atriz vai desvelando as outras facetas de Katherine. Uma grande interpretação, sem dúvidas. Um dos pontos fortes da produção.

Para mim, 90% do mérito do filme é de Florence Pugh. Mas, além dela, outros atores fazem belos trabalhos em cena. Destaque, neste sentido, para Naomi Ackie, que faz um excelente trabalho como Anna. Ela é muito expressiva, o que garante que, mesmo na "fase muda", ela se destaque. Também se saem muito bem Cosmo Jarvis, Paul Hilton e Christopher Fairbank, ainda que estes dois últimos tenham quase pontas na produção. Estes são os atores com papéis mais relevantes.

Além deles, vale citar os coadjuvantes Golda Rosheuvel como Agnes, avó de Teddy; Anton Palmer como Teddy, que se diz herdeiro de Alexander; Cliff Burnett como o Padre Peter; e Bill Fellows como o Dr. Burdon.

Entre os elementos técnicos de Lady Macbeth, vale citar ainda a música muito pontual de Dan Jones; a edição de Nick Emerson; o design de produção de Jacqueline Abrahams; a direção de arte de Thalia Ecclestone; e a maquiagem de Claire Pompili, Sian Wilson e May Liddell-Grainger.

Lady Macbeth estreou em setembro de 2016 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. De lá para cá, a produção participou de impressionantes outros 34 festivais e mostras de cinema pelo mundo. Sem dúvida alguma eis uma produção com uma bela trajetória de festivais. Merecido.

Serei franca com vocês. Fiquei com vontade de dar um 10 para este filme. Mas achei complicado dar uma nota máxima para um filme tão "sem moral". Sim, ele tem aquele detalhe que eu comentei de uma história de "empoderamento feminino" levado às últimas consequências, um tanto macabra e trágica. Mas ainda assim, é um baita filme. Mas não tive coragem de dar um 10 para ele não. 😉

De acordo com o site Box Office Mojo, Lady Macbeth estreou em 131 cinemas dos Estados Unidos no dia 14 de julho de 2017 e, no dia 6 de agosto, estava passando em apenas cinco salas. Neste período, o filme acumulou pouco mais de US$ 739 mil nas bilheterias, um resultado bem de filme "alternativo" e pouco visto.

Em sua trajetória, Lady Macbeth conquistou 12 prêmios e foi indicada a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz para Florence Pugh no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Dublin; Melhor Atriz para Florence Pugh no Festival Internacional de Cinema de Dublin; o Prêmio Cineuropa para William Oldroyd no Festival de Cinema Europeu Les Arcs; o "Directors to Watch" para William Oldroyd no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; o Prêmio Fipresci para William Oldroyd no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; o Prêmio Fipresci para William Oldroyd no Festival de Cinema de Thessaloniki; e um Prêmio da Crítica e uma Menção Especial para William Oldroyd no Festival de Cinema de Zurique.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido. Lady Macbeth também foi totalmente rodado na Inglaterra, em cidades como Northumberland e Chester-le-Street e em locações feitas em Seaham Beach, Cow Green Reservoir em County Durham, e em Gibside, em New Rowlands Gill.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 críticas positivas e 15 negativas para Lady Macbeth, o que garante para o filme uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,7. Achei, especialmente, as notas muito boas, acima da média dos site. Merecido, porque este é um dos filmes marcantes de 2017, sem dúvidas.

CONCLUSÃO: Este é um filme que começa suave, quase pueril, e que descamba para o lado mais tenebroso do ser humano. Lady Macbeth é uma aula de construção narrativa. Nos faz pensar sobre o que somos capazes de fazer por amor, ódio, desprezo ou desespero. Difícil classificá-lo. Só sabemos que ele é potente. Tem uma grande construção narrativa, uma direção de fotografia maravilhosa, assim como belos figurinos e uma protagonista irrefreável. Lady Macbeth não é um filme bonito. Como o nome – para quem logo, como eu, pensou em Shakeaspeare – mesmo sugere. E ainda que o filme não tenha uma ligação direta com Shakeaspeare, ele trata sim do espírito humano. Aterrador, envolvente, fascinante. Veja com moderação. 😉

Un Sac de Billes – A Bag of Marbles – Os Meninos Que Enganavam Nazistas

 

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Os filmes sobre a Segunda Guerra Mundial são quase uma constante. Dificilmente passamos muitos anos – ou algum ano? – sem uma nova produção sobre o assunto. As histórias sobre este período lamentável da trajetória da Humanidade não parecem ter fim, e isso é algo positivo. Especialmente porque eu acredito que a memória sobre fatos negativos é algo fundamental para não cairmos nos mesmos erros. Pois bem, Un Sac de Billes se junta a outros filmes sobre a Segunda Guerra Mundial para nos contar uma história interessante e tocante. Desta vez vamos a tragédia sob o ponto de vista de uma família de judeus. Um filme bem conduzido, com uma história impressionante e com atores carismáticos.

A HISTÓRIA: Agosto de 1944. Em uma rua deserta com bandeiras francesas e inglesas, no amanhecer de mais um dia, vemos um garoto descendo uma rua com a Torre Eiffel aparecendo discretamente ao fundo. Joseph Joffo (Dorian Le Clech) corre um pouco e observa tudo ao redor. Ele olha para a fachada da escola em que ele estudou antes de tudo mudar. Observa tudo atentamente e diz que tudo está igual, ainda que tudo pareça menor. Ele se questiona se não foi ele que cresceu. Pensa que se passaram dois anos e meio desde que esteve ali pela última vez. E aí a história volta para o passado, antes de Joseph ter que deixar a sua cidade e se separar de quase todos de sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Un Sac de Billes): Este filme francês tem tudo que Hollywood ama. É uma produção que fala sobre a Segunda Guerra Mundial tratando do absurdo que foi a perseguição dos judeus pelos nazistas e ainda tem uma narrativa contada sob a ótica de uma criança. Sim, parece que não veremos nada de novo por aqui. Mas nem sempre o que precisamos é de uma história nova, e sim de uma narrativa competente.

E isso é algo que o diretor Christian Duguay nos apresenta. Uma narrativa muito competente. Vimos, até o momento, muitos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Muitos sob a ótima dos filmes de guerra, mostrando diferentes momentos do conflito entre os exércitos e suas nações. Assistimos a filmes de espionagem, a narrativas que enfocaram a estratégia das nações e uma e outra abordagem sobre a população envolvida no conflito. Também encontramos algumas histórias que focaram crianças e as suas óticas sobre o conflito.

Apesar deste terreno ter sido bem explorado, precisamos admitir que Un Sac de Billes tem uma narrativa bastante competente. Um dos principais méritos do filme é o desempenho do elenco escolhido com perfeição. Todos os atores estão ótimos, começando pelas crianças e seguindo para os adultos. O elenco é carismático e tem a sua interpretação valorizada pela lente sempre atenta de Duguay. Ele faz um trabalho muito competente e utiliza diferentes planos para sempre valorizar as interpretações e também o entorno pelos quais os personagens se movimentam.

As cidades são importantes, os caminhos percorridos, mas as pessoas estão sempre no centro da história escrita a cinco mãos. O roteiro original de Jonathan Allouche e Alexandra Geismar teve adaptação de Christian Duguay e Benoît Guichard, que contaram com colaboração de Laurent Zeitoun. Todos trabalharam sobre a história contada no livro de Joseph Joffo – sim, o protagonista deste filme. No final, vemos a ele e ao irmão Maurice (interpretado por Batyste Fleurial) em um café de Paris, onde eles voltaram a viver após o final da guerra.

Este filme tem força porque é baseado em uma história real. Os acontecimentos parecem incríveis e um tanto improváveis, mas foi assim mesmo que muitos sobreviveram na Segunda Guerra Mundial. De forma improvável, quase milagrosa. Un Sac de Billes têm o mérito de nos apresenta a história sob a ótica de pessoas simples, moradores de Paris que passaram a ser perseguidos pelo simples fato de serem judeus. A narrativa conduzida por Duguay nos mostra bem como o terror da perseguição foi crescendo de forma relativamente rápida.

Quando a história retorna no tempo, voltamos para o início de 1942, quando o conflito tinha pouco mais de dois anos. Naquele momento, apenas os estabelecimentos comerciais judeus eram identificados com placas. Joseph e o irmão Maurice ainda conseguem ver o pai deles sendo corajoso com dois soldados alemães que entram em sua barbearia. Mas não precisaria passar muito tempo para que aquela atitude dele não fosse mais possível.

Em maio de 1942 as pessoas começam a ser marcadas também. Vemos ao protagonista e aos seus irmãos tendo estrelas sendo colocadas na roupa para identificá-los como judeus. Alguns começam a hostilizá-los, e este episódio é a deixa para os pais dos garotos – eles eram em quatro irmãos – adotem uma postura muito corajosa.

Roman Joffo (Patrick Bruel) e a esposa Anna (Elsa Zylberstein) sabem que a família aumentará a chance de sobreviver se eles se dividirem. E é desta forma que eles mandam os filhos mais velhos, Henri (César Domboy) e Albert (Ilian Bergala) para o litoral na frente. Em seguida, enviam Joseph e Maurice. Finalmente, o casal também sai de Paris. Eles sabem que, desta forma, fica mais fácil pelo menos parte da família sobreviver. O filme acerta, aliás, ao não revelar, logo de cara, que se trata de uma história baseada em fatos reais. Porque se soubéssemos disso logo no início, iríamos presumir que o protagonista, ao menos, iria sobreviver.

Ainda que isso fique um tanto evidente na produção, é sempre bom manter a dúvida da audiência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Existem vários momentos de tensão e quando Joseph e o irmão quase são pegos pelos nazistas. Eles sobrevivem por detalhes e pela ajuda de várias pessoas. Un Sac de Billes não alivia ao mostrar muita gente sendo presa e enviada para os campos de trabalho – e depois, de extermínio. Não escapavam adultos, idosos ou crianças. A primeira vez que os garotos escapam de um envio é quando contam com a ajuda de um padre no trem.

Para que o protagonista consiga voltar para Paris em 1944, quando esta produção apresenta os seus primeiros minutos, ele contou, junto com o irmão Maurice, com algumas intervenções fundamentais. Se não fosse a ajuda de dois padres, de um francês que os ajudou a chegar em uma zona livre de conflito, de um diretor de um centro de treinamento juvenil e de um médico que fazia a “triagem” de judeus para os alemães – todos eles sabendo que os garotos eram judeus -, eles não teriam sobrevivido.

Além disso, claro, eles contaram com a sorte e com a própria inteligência. Bem preparados pelos pais – inclusive em uma cena forte em que Roman esbofeteia o filho mais novo para prepará-lo para situações similares -, eles conseguem sobreviver apesar de todas as chances jogarem contra eles. Além das pessoas que eu citei, eles contaram com caronas de motoristas anônimos para chegar até o litoral francês onde, pela última vez, viveram momentos de alegria com toda a família reunida.

Finalmente, depois que tiveram que sair do centro de treinamento juvenil porque tinham o risco de serem pegos lá, eles passaram uma última temporada de sobrevivência contando com a ajuda de pessoas que, na verdade, não sabiam que eles eram judeus. Este é o caso do dono de livraria e vendedor de jornais Amboise Mancelier (Bernand Campan). Ele abriga e dá trabalho para Joseph sem saber que está dando guarita para um “inimigo” – ao menos sob a ótica dele, que era um colaborador dos nazistas. Maurice, por outro lado, é o empregado de um hotel onde vivem pessoas da Resistência.

Os irmãos conseguem sobreviver na última temporada com a ajuda de pessoas muito diferentes, mas que acabam se confrontando no final. Daí Joseph mostra toda a sua grandeza – e o quanto ele amadureceu com aquela experiência aterradora – ao defender Amboise quando ele é atacado após a libertação de Paris pelos ingleses. Impossível não celebrar, junto com o garoto, quando ele vê a manchete do jornal que dá a notícia sobre Paris.

Sim, o filme tem uma boa dose de previsibilidade e uma certa “exagerada de mão” para que o público se emocione com a história. A trilha sonora ajuda nisso, assim como a forma de direção bastante lírica de Duguay em diversos momentos. Mas cá entre nós, qual é o problema também em um filme buscar o nosso lado mais sentimental? Quando isso não é feito com muito exagero, funciona e não atrapalha a história. Considero que os roteiristas envolvidos neste projeto conseguem encontrar o tom exato, assim como os atores, que são muito carismáticos.

Todos convencem. Conseguimos acreditar na história que assistimos, ainda que ela tenha tantos momentos improváveis. Impossível não se deliciar com as peripécias de Joseph e de Maurice para sobreviver. Improvável que alguém também não fique impressionado com a força de cada pessoa daquela família em tentar sobreviver e ajudar ao menos uma outra pessoa da família a conseguir o mesmo. Eles estão sempre em dupla, e isso ajuda nas tentativas de escapar dos nazistas.

Ainda que o filme tenha alguns momentos bem pesados e duros – como quando o pai bate em Joseph e quando o garoto leva um golpe brutal de fuzil no rosto -, estes momentos nos revelam um pouco do absurdo que foram aqueles anos, aquela perseguição, aquele extermínio. Desta vez, diferente de outras produções, temos isso na nossa frente sob a ótica de pessoas comuns. Impossível não se solidarizar com eles.

Algo bacana de Un Sac de Billes é que ele demonstra, com muita propriedade, como a decisão cotidiana das pessoas pode fazer muita diferença, especialmente quando vivemos momentos de exceção nas nossas sociedades. Diversas pessoas que cruzaram o caminho dos protagonistas desta história tomaram a decisão de ajudá-los. Eles poderiam ter “lavado” as próprias mãos, cruzarem os braços e não agirem na hora certa. Tudo poderia ter sido muito diferente se aquelas pessoas não decidissem ajudar. Isso foi muito válido naqueles dias e é até hoje. Pequenos ou grandes gestos de auxílio podem sim fazer a diferença para alguém viver/sobreviver mais um dia. Eis uma mensagem importante desta produção.

Um belo filme, muito bem dirigido e conduzido. Só não é perfeito porque ele segue uma fórmula um tanto batida e já bem conhecida. É previsível, mesmo na “surpresa” final. Mas isso não o torna menos interessante. Como tantas outras produções sobre a Segunda Guerra Mundial, Un Sac de Billes deveria ser visto nas escolas. Para nunca nos esquecermos dos absurdos que um regime totalitário, preconceituoso e violento pode provocar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco deste filme é a sua grande qualidade. Fiquei impressionada pelo belo trabalho de todos os atores. Ainda que o elenco todo seja muito bom, impossível não destacar o talento dos jovens talentos que protagonizam esta produção. Dorian Le Clech e Batyste Fleurial como Joseph e Maurice, respectivamente, carregam a produção nas costas. Como eles nos conduzem por toda a história, impossível não ficarmos fascinados pelo carisma dos jovens atores. Eles estão ótimos.

Além deles, se destacam toda vez que aparecem em cenas os experientes atores Patrick Bruel e Elsa Zylberstein, respectivamente pai e mãe dos garotos. Eles também são muito carismáticos e convencem em cada micro detalhe de suas atuações. Estão ótimos. Aparecem menos, mas também fazem um bom trabalho César Domboy e Ilian Bergala, os atores que interpretam os irmãos mais velhos de Joseph e Maurice. Sem dúvida alguma o elenco é o ponto forte da produção.

Os atores que dão vida para a família que é o foco principal desta história são o destaque do filme. Mas o elenco de apoio também foi muito bem escolhido. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O veterano Christian Clavier faz uma participação importante como o doutor Rosen, uma das pessoas que ajudam os garotos a sobreviver. Também merece ser citado o trabalho de Kev Adams como Ferdinand, um motorista que abastece o centro de treinamento juvenil e que acabamos por descobrir que é um judeu que participa da Resistência; Emile Berling como Raoul, o filho radical do também radical delator Amboise (interpretado por Bernard Campan); Coline Leclère como o “primeiro amor” de Joseph, a bela Françoise, filha de Amboise e de Marcelle (interpretada por Jocelyne Desverchère); Holger Daemgen como o capitão alemão Alois Brunner, oficial que quase dá um fim nos irmãos – eles escapam por pouco de uma armadilha orquestrada por ele.

Da parte técnica do filme, destaque para a excelente direção de fotografia de Christophe Graillot e para a difícil e competente edição de Olivier Gajan. A trilha sonora assinada por Quentin Boniface, Philippe Briand, Hugo Gonzalez-Pioli, Gabriel Saban, Steven A. Saltzman e Anne-Sophie Versnaeyen é bacana, mas poderia ser um pouco menos “protagonista”/sentimental. Destaque também para o trabalho de casting feito por Valerie Espagne e Juliette Ménager – especialmente para a primeira, que ficou responsável pelas crianças. Vale citar ainda o design de produção de Franck Schwartz; a direção de arte de Cécile Arlet Colin; a decoração de set de Jimena Esteve e de Hélène Maroutian; e os figurinos de Pierre-Jean Larroque. Todos fazem um trabalho muito bom e que nos ajuda a voltar 70 anos na História.

Não li o livro de Joseph Joffo, mas imagino que ele deve ser incrível. Assistindo a este filme eu fiquei com vontade de ler a obra original. E gostaria de saber a opinião de alguém que leu o livro para comentar sobre o filme. Será que ele consegue manter bem a “alma” da obra de Joffo?

Un Sac de Billes fez a sua première em Paris em janeiro de 2017. Depois, o filme participou de dois festivais: o de Belgrado, em fevereiro, e o de BCN, em abril. Nesta trajetória, não conquistou nenhum prêmio ou indicação. Também não encontrei informações sobre o custo ou a bilheteria da produção.

O título original em francês, assim como o título internacional da produção, pode ser traduzido como “Um Saco de Clicas”. No Brasil ele recebeu uma tradução bem diferente. Ainda que faça sentido o título original, desta vez eu tenho que admitir que o título brasileiro não é ruim. Apenas entrega um pouco demais da história, não?

Este filme é uma coprodução da França, do Canadá e da República Tcheca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. O site Rotten Tomatoes tem apenas uma crítica para este filme, e ela é positiva.

CONCLUSÃO: Este não é um filme exatamente surpreendente. Especialmente se você já assistiu a várias produções sobre a Segunda Guerra Mundial. Un Sac de Billes pode não trazer muita novidade para esta temática, mas algo temos que dizer sobre este filme: ele é muito bem feito. E atinge os seus objetivos. Para começar, ele se mostra uma competente narrativa sobre a Segunda Guerra através da ótica de pessoas comuns. Depois, o diretor Christian Duguay e o time de roteiristas desta produção acertam no equilíbrio da ação, do drama e da comédia. O espectador é sempre conduzido pela mão em uma montanha-russa de momentos mais “leves” e de tensão. Uma narrativa competente e que fica acima da média pelo talento do elenco. Vale assistir, sem dúvidas.

Yeelen – Brightness – A Luz

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Existe uma diversidade impressionante de culturas, modos de agir e de ser no mundo. Pena que nem sempre as pessoas pensem sobre isso. Yeelen é um destes filmes que nos apresenta uma destas formas de ser e de agir diferentes das nossas. Nos apresenta uma cultura que é “estranha” mas que, não por causa disso, é menos valiosa que a nossa ou que qualquer outra. Ver a um filme como este nos faz lembrar de que existem muitas formas de pensar e de agir diferentes da nossa. E isso é o que faz a Humanidade ser tão interessante.

A HISTÓRIA: Começa com símbolos que explicam que o calor faz o fogo e os dois mundos (terra e céu) existem na luz. Em seguida, a introdução da história fala sobre o Komo, que para o povo bambara quer dizer a encarnação do saber divino. Os ensinamentos do Komo estão baseados no conhecimento dos “signos” (letras/sinais), dos tempos e dos mundos. Este conhecimento abrange os campos da vida e do saber.

O Koré é a sétima e a última sociedade de iniciação bambara, e ela é simbolizada pelo abutre sagrado “Mawla Duga”, ave de espaços abertos na casa, da guerra, do saber e da morte. Seu emblema é um cavalo de madeira, símbolo da diligência do espírito humano, e seu cetro é uma tábua lavrada chamada Koré “Kaman” ou a Asa do Koré. O “Kolonkalanni” ou martelo mágico serve para encontrar quem se perdeu, para descobrir e castigar os patifes, os ladrões, os criminosos, os traidores e os mentirosos. A Asa do Koré e o martelo mágico são usados em Mali há milhares de anos. O que vamos ver na sequência é o uso destes elementos da cultura bambara em uma história de perseguição e confronto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Yeelen): Este filme começa dando o recado logo na cena inaugural. Depois daquela explicação sobre a cultura e o modo de viver dos bambara, somos apresentados a um sol gigante, no alvorecer de um novo dia, e a um frango em chamas. Pois sim. O sacrifício é um elemento que aparece em diversos momentos desta produção.

Yeelen nos fala de luz – esse nome significa justamente isso, “a luz” -, mas o filme está carregado de sombras, de magia e de morte. Os sacrifícios são uma constante, assim como perpassa toda a história uma certa luta entre o bem e o mal. Para muitos também assistir a Yeelen pode ser um sacrifício – e eu não os culpo. Este é um dos filmes mais distantes de tudo o que a maioria está acostumada a assistir.

Não temos o ritmo ou a preocupação estética de Hollywood. Nem temos uma grande preocupação com a história ou com o desenvolvimento dos personagens como boa parte do cinema europeu. Nada disso. Vemos pela frente sim uma história, com começo, meio e fim. Mas essa história é contada bem ao gosto da cultura que ela foca. Ou seja, sem pressa, com uma dinâmica fragmentada e o máximo possível “legítima”, com pessoas interpretando personagens sem ter realmente estudado para isso.

Este tom um tanto documental da produção que tem direção e roteiro de Souleymane Cissé é um dos pontos fortes da produção. Afinal, quantas oportunidades você teve de assistir a um filme de Mali? Que não só fosse ambientado naquele país africano, mas que jogasse para o mundo um pouco da história e dos costumes de um dos povos que formou aquele continente tão esquecido pelo mundo? Este é o grande mérito deste filme.

Yeelen pode ser um tanto difícil de assistir. Pode cobrar de você mais de uma tentativa – como foi o meu caso… tive que assistir o filme em dois dias porque no primeiro estava cansada demais para acompanhar a narrativa um tanto “lenta” e “repetitiva” desta produção. Mas é bacana ver que um cineasta conseguiu apresentar para o mundo uma história legítima de um povo que nunca ganha voz ou vez no cinema. Apenas por causa disso este filme merece ser visto.

Agora, descontada esta parte de interesse um tanto antropológico e sociológico, algo que todas as pessoas deveriam buscar um pouco ao menos em algum momento da vida, vamos falar sobre a história apresentada pelo filme. Pode parecer loucura da minha parte, mas vi um bocado de Shakespeare nesta produção. Alguém poderia dizer que não existe nada mais distante do que a obra do bardo inglês e os costumes bambara, mas eu vi semelhanças.

Me explico. Para começar, vendo o sacrifício do galo, queimado vivo, e tantas outras cenas de pura magia nesta produção, me lembrei daquela frase de Shakespeare de que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Ou seja, por mais “toscas” que algumas cenas desta produção possam parecer – como quando Niankoro (Issiaka Kane) “congela” o ataque dos inimigos -, não devemos duvidar de quase nada. Afinal, sim, existe a magia. E existem pessoas que conseguem fazer coisas incríveis. Então não devemos duvidar apesar de parecer absurdo.

Além disso, também é clássica a disputa entre pai e filho. Isso me lembra Shakespeare na mesma medida que me lembra um pouco o Complexo de Édipo… ainda que a mãe de Niankoro não jogue um papel fundamental durante a produção inteira, ela está presente, sem dúvida, na disputa do pai, Soma (Niamanto Sanogo) contra o protagonista desta produção.

A justificativa de Soma para perseguir o filho é que ele “traiu” as tradições ao fugir – na verdade ele foi levado pela mãe – com parte dos objetos sagrados que permitiam que eles pudessem fazer a magia, ter poder e “proteger” o seu povo. Mah (Soumba Traore), por sua vez, justifica ter levado o filho para longe porque o pai dele seria um homem cruel e abusivo. Ela teria feito isso, em resumo, para proteger o filho. O garoto cresce longe do pai, mas chega um dia em que Soma resolve procurá-los.

Yeelen nos conta a história a partir daí. Da perseguição de Soma e da tentativa de Mah e de Niankoro a sobreviverem à vingança dele. Mah vai para um lado, buscando um rio sagrado para se purificar e para pedir pela vida do filho. Niankoro, por outra parte, anda sozinho por muito tempo até que encontra com a tribo de Rouma Boll, o rei Peul (o interessante e expressivo Balla Moussa Keita). Para se livrar de um ataque, Niankoro usa a magia. Vendo o poder do jovem prisioneiro, Rouma Boll resolve pedir a ajuda dele para enfrentar uma tribo inimiga.

A intervenção de Niankoro acaba sendo decisiva, e o rei Rouma Boll convida o forte aliado a permanecer por ali. Niankoro diz que precisa ir embora, mas resolve aceitar um último pedido do rei. Ele é convocado para ajudar a mais jovem esposa de Rouma Boll, Attou (Aoua Sangare) a engravidar. Aparentemente ela é estéril. Niankoro sai com Attou para tentar ajudar o rei, mas acaba se encantando pela garota. Os dois traem o rei, mas falam a verdade e, ao invés de serem mortos, são expulsos do local.

Desta forma, a história de Niankoro se encaminha para que a profecia do “homem-leopardo-com-cabeça-de-macaco” se cumpra. Realmente Niankoro terá uma vida feliz – ainda que curta – e vai terminar sua trajetória de forma iluminada. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Ele tem tempo de fugir com Attou por um período e engravida ela, mas não escapa – e nem deseja isso – do confronto com o pai. Diferente do que Mah previa, Niankoro consegue, com a ajuda do tio que era gêmeo de Soma, enfrentar o pai de igual para igual.

Os dois acabam morrendo, mas Niankoro deixa um filho como herdeiro. O garoto vai crescer sem ser perseguido, um futuro melhor do que o pai teve. E, desta forma, esta produção sobre uma cultura tão diferente nos mostra que disputas familiares sempre existiram e parecem se renovar com o tempo independente da latitude.

Sobre a história, achei interessante a forma com que Yeelen nos apresenta a trajetória de um homem que procura o seu próprio destino e que o aceita com bastante tranquilidade. Ele sabe o que precisa fazer e sabe que, mesmo que sem desejar o confronto, terá que enfrentar o próprio pai para terminar com aquela sequência de maldades e garantir a paz para o seu filho e mulher. Ele não vive muito tempo junto com a esposa e não chega a conhecer o filho, mas sabe o que virá após a sua partida e isso lhe traz paz antes da morte. Apesar do formato da história ser muito diferente do que estamos acostumados, a mensagem que o filme deixa é interessante.

A morte faz parte da vida, assim como as disputas e os confrontos, Mas é preciso aceitar o nosso destino e abraçá-lo quando ele faça sentido – que o diga Game os Thrones. 😉 O personagem central desta história nos mostra isso. E o filme, de quebra, revela que sempre após a morte surge uma nova vida. O sol sempre desaparece, no final de cada dia, dando lugar para a escuridão e para o “desalento”, mas no dia seguinte o sol surge novamente, trazendo ânimo para as pessoas e vida.

Achei os atores, ainda que inexperientes, muito bons. Cissé soube valorizar a beleza que ele tinha nas mãos, especialmente dos atores principais, na mesma medida em que soube valorizar em detalhes a forma de ser e agir daquelas tribos. Este é um filme diferente, que dá um tanto de sono, mas que merece ser visto por ser um raro exemplo de filme africano legítimo. A história pode ser um tanto fraca, mas a narrativa é bem construída – descontadas algumas repetições um tanto cansativas. Vale mais pelo interesse sociológico, sem dúvida.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu não lembro quantos filmes africanos eu assisti na vida. Mas foram poucos, muito poucos, não tenho dúvidas. A África é, infelizmente, um continente um bocado esquecido pelo mundo. Digo isso em geral. Em relação ao cinema africano, então, muito mais. Por isso mesmo é bacana pensar que um filme como este tornou-se importante há 30 anos atrás, em 1987. Um importante documento, sem dúvidas, de uma cultura pouco conhecida e bastante ignorada.

Como eu descobri este filme? Ora, como tantas outras produções históricas e pouco comentadas e que volta e meia viram foco de críticas aqui no blog. A recomendação de Yeelen veio através do livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. Como vocês que me acompanham há mais tempo sabem, este livro serve de base para a seção “Um Olhar Para Trás” que eu criei aqui no blog para falar de filmes que estão fazendo aniversário e que fazem parte da história do cinema mundial.

Como foi o livro “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer” que me indicou este filme, vale citar a crítica de Jonathan Rosenbaum que faz parte da obra: “A Luz, uma bela e hipnótica fantasia do diretor Souleymane Cissé, transcorre na antiga cultura Bambara de Mali, muito antes que fosse invadido pelo Marrocos no século XVI. Um jovem chamado Niankoro (Issiaka Kane) parte com o objetivo de descobrir os mistérios da natureza – ou komo, a ciência dos deuses – com a ajuda de sua mãe (Soumba Traore) e do tio (Ismaila Sarr). Mas Soma (Niamanto Sanogo), o pai ciumento de Niankoro, prepara uma trama para impedi-lo de decifrar os elementos dos rituais sagrados dos Bambara e tenta matá-lo”.

E a crítica de Rosenbaum segue assim: “Além de criar um universo denso e excitante que deveria deixar George Lucas verde de inveja, Cissé filma suas imagens impressionantes em Fujicolor e acompanha a sua história com uma trilha esparsa, hipnótica e percussiva. Misturando habilmente coisas triviais com profundos mistérios, esta obra formidável ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes em 1987. Como um todo, A Luz é uma apresentação ideal a um diretor que, junto com Ousmane Sembène, é um dos melhores da África”.

A direção de Souleymane Cissé é, sem dúvida, o ponto alto desta produção. Os atores que têm destaque na história também estão muito bem. Eles são expressivos e apresentam um trabalho convincente. Além disso, como bem destacou Rosenbaum, a trilha sonora bastante pontual de Salif Keita e de Michel Portal também é um elemento importante da produção. Finalizando os destaques técnicos, vale citar a ótima direção de fotografia de Jean-Nöel Ferragut e de Jean-Michel Humeau.

Além desta equipe, vale comentar o trabalho de edição de Douanmba Coulibaly, Andrée Davanture, Jenny Frenck, Nathalie Goepfert, Seipati Keita, Marie-Catherine Miqueau e Seipati N’Xumalo; o design de produção e os figurinos de Kossa Mody Keita; os efeitos visuais de Philippe Tourret; e os efeitos especiais de Frédéric Duru e de Nikos Meletopoulos.

O diretor e roteirista Souleymane Cissé tem, hoje, 77 anos e um currículo com nove longas. Ele estreou na direção com Cinq Jours d’Une Vie em 1973. Os últimos dois filmes dele, O Sembene! e O Ka, de 2013 e 2015, respectivamente, foram os seus únicos documentários. Todos os outros foram longas de ficção.

Yeelen estreou no Festival de Cinema de Toronto em setembro de 1987. Depois, até 2016, o filme participaria ainda de outros cinco festivais. Em sua trajetória, esta produção conquistou cinco prêmios e foi indicada a outros dois. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio do Júri e para o Prêmio do Júri Ecumênico – Menção Especial no Festival de Cinema de Cannes; e para o Sutherland Trophy no Prêmio do Instituto de Cinema Britânico.

Esta produção foi totalmente rodada em Mali, país africano que não tem saída para o mar e que é vizinho da Argélia, da Nigéria, da Mauritânia e de Guiné, entre outros. Fica a noroeste do continente africano e tem, segundo Banco Mundial, cerca de 18 milhões de habitantes. A capital do país é Bamako, e a língua oficial, hoje em dia, é o francês. Yeelen foi rodado em cidades como Dilly, Dra, Drani, Falani, Hambori, Mopti, Moutoungouta e Sangha.

O destaque desta produção em termos de interpretação, para o meu gosto, são os atores Issiaka Kane, Balla Moussa Keita e Soumba Traore – que interpretam, respectivamente, Niankoro, o rei Peul e a mãe de Niankoro. Também se saem bem Niamanto Sanogo como Soma, pai de Niankoro, e que interpreta também o tio do protagonista, Djigui. Vale citar também o trabalho de Aoua Sangare como Attou, que vira mulher de Niankoro; Youssouf Tenin Cissé como o filho deles; Ismaila Sarr como o outro tio do protagonista, Bofing; e Koke Sangare como o chefe Komo. Há outros personagens com certa relevância na história mas que não têm os seus personagens identificados nos créditos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram seis críticas positivas e apenas uma negativa para o filme, o que garante para Yeelen a aprovação de 86% e uma nota média de 7,4.

Este filme é uma coprodução de Mali, Burkina Faso, França, Alemanha Ocidental e do Japão. Cinco países contribuíram para Yeelen existir. Há tempos eu não via recursos de tantos países contribuírem para uma produção sair do papel.

CONCLUSÃO: Um filme com narrativa lenta e protagonizado por pessoas que não são atores profissionais. Yeelen respeita, desta forma, a história que está contando. Não faria nenhum sentido se este filme seguisse o “mainstream” de Hollywood ou de outras escolas de cinema. Não. O que faz sentido é que ele realmente beba na fonte da cultura que está retratando. Desta forma, Yeelen se apresenta como uma grata surpresa entre os filmes que saíram das escolas tradicionais de cinema e que nos mostraram com competência culturas desprezadas pelo cinema. Vale tanto como uma obra de cinema diferenciada quanto por apresentar uma cultura ignorada e que não teria sobrevida no tempo se não fosse por este filme.

Song to Song – De Canção em Canção

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Três pessoas e seus amores – especialmente, suas mulheres. O diretor Terrence Malick volta à cena com mais uma de suas narrativas diferenciadas, fragmentadas e cheias de pensamentos, palavras não ditas e muita beleza. Song to Song nos parece, mais que uma história, um compêndio de lembranças. É como se os protagonistas revisitassem as suas próprias histórias e paixões e falassem sobre tudo aquilo como pessoas um tanto “onipresentes” sobre tudo o que acontecia. Um filme muito peculiar, bem ao estilo de seu realizador.

A HISTÓRIA: Ele abre a porte devagar enquanto ela espera com o rosto perto da parede e da porta. Faye (Rooney Mara) confessa, em suas reminiscências, que houve um tempo em que sexo bom, para ela, tinha que ser violento. Faye e Cook (Michael Fassbender) se provocam sobre o chão. Faye continua comentando sobre como, para ela, era importante tentar sentir algo. E que ela decidiu experimentar tudo que podia. Por sua parte, Cook vivia a vida freneticamente. Outras pessoas aparecem em cena. Pessoas das quais vamos saber parte de suas histórias e desejos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Song to Song): Para assistir a este filme, não é preciso nenhum manual de instruções. Mas é altamente recomendado conhecer o estilo do diretor Terrence Malick. Especialmente o seu “mais recente” estilo de contar histórias de uma forma bastante fragmentada, de jeito “confessional” e mais artística do que o normal para Hollywood.

Não adianta assistir a um filme de Malick e achar que vai encontrar pela frente uma história “regular”, “mais uma” produção de um cineasta norte-americano. Esse diretor, que ficou 20 anos sem filmar depois de ter emplacado um sucesso de crítica e público, não se importa com convenções. Ele faz cinema como lhe parece melhor e de um jeito que faz sentido para ele. Em sua trajetória há filmes mais “palatáveis” e outros nem tanto. Depois de fazer o elogiado Days of Heaven, em 1978, Malick voltaria a lançar um longa apenas em 1998, The Thin Red Line.

Entre os seus filmes, The Thin Red Line pode ser considerada uma produção mais “mainstream” ou mais “facilmente digerível” pelo grande público. Mas nem sempre o diretor trabalha com este perfil de filme. Vide The Tree of Life que, quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que me pareceu um tanto pretensioso demais. Mas Malick não se importa realmente com o que os outros acham. Ele faz os filmes da forma com que para ele faz sentido e espera que cada um trabalhe as suas histórias como lhe convir melhor.

Da minha parte – e como vocês sabem, super respeito as opiniões contrárias -, gostei mais deste Song to Song do que de The Tree of Life. Os dois filmes são um tanto pretensioso, além de “artísticos”, mas uma boa diferença entre eles é que nesta produção mais recente não temos que ver a uma longa de sequência da “origem dos tempos” que vimos em The Tree of Life. Em Song to Song o que interessa é a reflexão de três personagens sobre as suas próprias buscas pelo amor.

Sim, como eu comentei antes, novamente aqui temos a uma narrativa bem fragmentada e sem um sequência “lógica” dos fatos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história não é linear, ainda que, por um tempo, o espectador pode acreditar que sim. Mas conforme vamos acompanhando as diferentes reflexões dos personagens sobre as suas escolhas e trajetórias, percebemos que não. A sequência dos fatos não é apresentada conforme tudo aconteceu e sim conforme os personagens vão “revisitando” as suas próprias lembranças.

Ainda que o filme tenha três “narradores” – Faye, Cook e BV (Ryan Gosling) em algum momento comentam as suas próprias lembranças -, existe um certo protagonismo da personagem de Rooney Mara. Ela é praticamente onipresente na história. Mas há sequências em que ela não aparece e nas quais os personagens de Ryan Gosling e Michael Fassbender contam um pouco sobre outras de suas desventuras amorosas.

Song to Song não é muito óbvio sobre a narrativa “ir e vir” na linha temporal. Percebemos isso nos detalhes, como quando BV pergunta para Faye o que “eles” fizeram com a “professora”. Ora, ele está se referindo à mulher de Cook, Rhonda (Natalie Portman). Conforme a história apresentada por Malick, parece que Cook conhece Rhonda após ele ter “desistido” de Faye. A nossa protagonista, encantada por BV, acaba deixando para trás a relação intensa, um tanto “doentia” e “caótica” que ela tinha com Cook. Mas quando a secretária do ricaço DJ e músico vira amante dele, aparentemente, ele já era casado com Rhonda.

Como este filme é um grande compêndio de reminiscências de três pessoas sobre os seus amores e as suas trajetórias, não existe uma preocupação temporal na narrativa. Pense em você mesmo. Quando você começa a lembrar de seus amores e de suas escolhas, dificilmente você segue uma ordem realmente cronológica, não é mesmo? As lembranças vão e vem conforme a ordem que nós mesmos colocamos nas nossas recordações. Muitas vezes a ordem que damos vai do ponto mais importante para o que tem menos importância, mas esta graduação também vai mudando com o tempo.

O mesmo parece acontecer com este filme. E por fazer esta escolha Malick nos apresenta algo interessante e um tanto “inovador”. Poucos diretores – para não dizer que mais nenhum – teria a coragem de fazer um filme tão diferenciado. Mas esta parece ser a natureza de Malick. Então a narrativa é interessante. Ponto. Mas isso não torna o filme brilhante. Francamente, acho que a produção deixa a desejar um bocado na questão musical – eu esperava bem mais música embalando a trama – e, muitas vezes, a história abre espaço para um certo “puxa-saquismo” de estrelas da música.

Certo que o foco da história são personagens que vivem naquele ambiente. Mas tem pouco a acrescentar as “aparições” de famosos como Iggy Pop, Patti Smith ou os caras do Red Hot Chili Peppers (Flea, Anthony Kiedis e Chad Smith). É bacana vê-los interagindo com os personagens da história, mas achei um tanto “forçado” colocar Iggy Pop e Patti Smith em sequências maiores do que aparições relâmpago.

Além disso, apesar de eu agradecer de não ter uma longa e tediosa sequência sobre “a origem da vida e a evolução até hoje” ao estilo de The Tree of Life para encarar neste novo filme, achei que toda a “arte” do nosso amigo Malick carece um pouco de conteúdo. Ele ama belas imagens, assim como ama tirar interpretações “legítimas” de seus atores, incentivando eles a se “soltarem” a partir de seus personagens. Dá para perceber que os astros em cena – e a lista é admirável – também se divertem. Mas no final, o que fica para nós, espectadores de tudo isso?

Sim, quem ama belas cenas tem várias aqui para curtir. Os fãs dos astros escolhidos à dedo para esta produção também vão vê-los em grande forma. Belos, valorizados pelo diretor. Mas e aí? O que Song to Song nos diz, afinal? O roteiro retrata alguns ambientes e personagens que tem tudo a ver com o século 21. Jovens – ou não tão jovens assim, mas que gostariam de ser jovens para sempre – que gostam de viver cada dia ao máximo.

Que gostam, como bem define Faye, de experimentar. Muitas vezes eles exageram nesta experimentação porque querem sentir algo… preencher um vazio que, só tempos depois, eles vão descobrir que não será preenchido com música, raves eletrônicas, conhecendo famosos, enchendo a cara ou se drogando. O tempo ensina um bocado, assim como as experiências, é claro. Este é um filme sobre pessoas que olham para as suas próprias trajetórias e amores tentando aprender com elas. Colhemos o que plantamos e, algumas vezes, um pouco mais do que isso. Song to Song trata disso e de mais.

Achei esse filme interessante por ele tratar tão bem de pessoas que estão vivendo os nossos dias. Pessoas de carne e osso, como você e eu, a gente tendo ou não os mesmos ambientes em comum. Não importa se você se identifica com eles ou não. Temos em comum a nossa humanidade e nossa busca pelo amor – atual ou que ficou no passado. Como eles. Achei por isso Song to Song um filme bastante humano, apesar da forma dele ser tão diferenciada e, muitas vezes, esta forma roubar o protagonismo do conteúdo.

Algo que eu achei interessante nesta produção é como ela mostra que uma pessoa nunca é uma coisa só. Faye nos mostra isso de uma forma muito bem acabada. Ela vive diversos amores durante a produção. Está sempre disposta a “experimentar”. Os diferentes momentos – que eu chamo de retratos – da personagem são mostrados neste filme. Mas a junção deles nos revela o “filme” da vida da personagem. E nós também somos assim. Somos retrato (no momento) e também filme (na passagem do tempo). Não somos, assim, uma coisa só… somos múltiplos, complexos, simples e, conforme a vida passa, sabemos cada vez mais o que nos interessa e o que não.

Esta é a beleza da vida. E isso Song to Song nos apresenta. Bem no seu estilo, é claro. Mas esta mensagem está ali. Depois de Faye experimentar um bocado, ela sabe definir melhor quem ela é o que lhe interessa. O que lhe faz mais sentido. Esta é a beleza da passagem do tempo e do aprendizado. Os personagens deste filme e nós mesmos vamos aprendendo com os nossos erros e nossos acertos. Sabendo selecionar melhor o que nos faz bem e o que nos dá sentido. Faye descobre que tipo de amor lhe interessa, ainda que essa descoberta parece ter sido um tanto tardia – e as suas escolhas anteriores terem cobrado um preço grande dela através da culpa.

Estas questões renderiam outro texto, longas discussões, mas não vem ao acaso. O que importa mesmo é o que Song to Song nos apresenta histórias de amor e de vida interessantes e muito atuais. No mundo há muita fúria, caos, amor, alegria, culpa, entrega e desespero. Sentimentos e reações que são retratados nesta produção. Cook é um cara cheio de grana que gosta de mostrar o que o dinheiro pode comprar e trazer “de bom”. Mas ele não percebe a destruição que esse mesmo dinheiro e falta de freios pode causar – até que é tarde demais.

Quantas pessoas existem no mundo com este perfil? Quantas você já encontrou pela frente ou apenas ouviu falar? Cook realmente “contamina” todos que estão ao seu redor mas, tão cheio de si, não percebe como esta sua forma de vida nos 220 volts provoca estragos. Novamente temos pela frente a questão do “como as pessoas buscam preencher os seus próprios vazios”. Esta é uma questão existencial, tão ao gosto de Terrence Malick.

Para o meu gosto, desta vez, a reflexão existencial dele não é chata. Ela está cheia de amor, cenas provocantes e sensuais e muita, muita beleza. Nossos olhos agradecem, ainda que, no final, podemos pensar que seria interessante ter, além da forma e do visual, um pouco mais de “substância” na história. Mas isso tudo, evidentemente, vai depender do gosto do cliente.

Para os fãs do diretor e para as pessoas que gostam dos atores em cena, dificilmente este filme não será prazeroso. Para os demais – a maioria – ele será longo demais e “artístico” demais. Acho que eu fico no meio do caminho entre estas duas visões, pendendo um pouco para a primeira. Até porque, no fim das contas, o filme tem uma mensagem interessante. De que o amor pode sim preencher aquele vazio existencial do qual boa parte da história trata. Voltar para o simples, deixar tanta besteira de lado e focar no amor pode ser uma boa saída. Song to Song nos mostra isso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, não gosto de ver muito sobre o filme que eu vou assistir antes de conferi-lo de perto. Sendo assim, para mim foi uma surpresa ver tantos astros nesta produção. Claro que eu já sabia que estavam neste filme Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara. Mas foi uma surpresa ver também Natalie Porman e Cate Blanchett, só para citar os papéis importantes. Além delas, fazem papéis menores outros nomes interessantes/importantes, como Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Linda Emond, Lykke Li e Olivia Grace Applegate.

Isso para citar apenas os atores. Além deles, há muitos outros famosos da música. Além dos já citados anteriormente, vale citar John Lydon, Florence Welch, Big Freedia, Tegan e Sara Quin, entre outros.

Song to Song estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Até agosto ele terá participado de outros quatro festivais – incluindo os de Sydney e Melbourne.

Não encontrei informações sobre o quanto o filme custou, e os dados sobre o resultado dele nas bilheterias americanas ainda é restrito, de cerca de US$ 443 mil – resultado em 77 dias em que ele ficou em cartaz em apenas 95 cinemas. Ou seja, ele estreou em um circuito bastante fechado e ainda não se deu muito bem.

Agora, aquelas curiosidades “clássicas” sobre a produção. De acordo com o ator Ryan Gosling, eles filmaram sem roteiro. Isso fica um pouco evidente ao assistirmos à produção, não? Provavelmente os atores receberam linhas gerais sobre os seus personagens e as suas histórias e improvisaram a partir daí. Depois é que vieram as “reflexões” sobre as suas histórias – o que construiu a narrativa propriamente dita.

O ator Christian Bale teria, inicialmente, um papel com certa importância no filme. Mas, no fim das contas, ele acabou participando de apenas quatro dias de filmagens e, no final, o personagem dele foi cortado da produção porque ele se parecia muito com o de Michael Fassbender. Ou seja, seria mais um nome de peso no elenco. Além dele, iriam participar com cenas na produção mas acabaram tendo estas participações cortadas na edição final nomes como Haley Bennett, Trevante Rhodes, Boyd Holbrook, Callie Hernandez, Clifton Collins Jr. e Benicio Del Toro.

Esta produção foi rodada ao mesmo tempo que Knight of Cups, filme dirigido por Terrence Malick e lançado em 2015 – e que eu não assisti. 😉

Song to Song foi parcialmente rodado durante o Austin City Limits Festival 2012 e, por isso, apresenta alguns artistas que se apresentaram no evento naquele ano, como Arcade Fire, John Lydon e Iron and Wine.

O diretor e roteirista Terrence Malick fez uma primeira versão desta produção com oito horas de duração. Já pensaram? hehehehehe. Deste corte final o filme foi sendo reduzido até ficar com pouco mais de duas horas de duração – ufa!

Esta produção foi rodada durante 40 dias no período de dois anos. Quando as filmagens eram feitas, elas eram longas, começando pela manhã e tendo apenas uma pausa de 30 minutos para o almoço. Malick saia com os atores pela cidade, muitas vezes filmando eles dirigindo, para depois usar estas imagens na produção.

Inicialmente esta produção iria receber o título de Limitless. Depois, foi batizada de Weightless. Até que chegaram à versão definitiva de Song to Song. Segundo Malick, com este filme ele quis mostrar como a vida é feita de “uma série de momentos”, como canções que marcam a nossa trajetória. Faz sentido e é muito coerente com o que vemos na telona.

Na primeira sessão de exibição deste filme em Los Angeles, cerca de 15 pessoas deixaram o cinema antes do filme acabar. Realmente o filme não agradou a muita gente, basta ver as bilheterias…

O destaque do filme, além da direção “visceral” de Terrence Malick é, sem dúvidas, o trio de atores principais. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender estão bem “soltinhos” e se saem muito bem em seus respectivos papéis. Dos três, sem dúvida alguma o destaque mesmo é Mara. Ela está excelente.

Da parte técnica do filme, como a beleza é um elemento fundamental da história, um dos principais destaques é a direção de fotografia do sempre ótimo Emmanuel Lubezki. Depois, vale citar o bom trabalho do trio Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase na edição; o design de produção de Jack Fisk; a direção de arte de Ruth De Jong; a decoração de set de David Hack; os figurinos de Jacqueline West; o trabalho dos 24 profissionais envolvidos no departamento de som; e o trabalho dos seis profissionais que trabalham com o departamento musical.

Esta produção foi rodada na cidade de Austin, no Texas; e nas cidades mexicanas de Progreso, Mérida e Izamal.

Nem sempre os filmes de Terrence Malick são realmente marcantes. Talvez esta seja uma particularidade do diretor. Os filmes dele nos despertam impressões enquanto os assistimos mas, depois, não perduram muito na memória. Acho que esta é a característica dos filmes sem roteiros marcantes. Tanto isso é verdade que, por exemplo, não lembrava de ter assistido a To The Wonder, produção de Malick após The Tree of Life. Reparei, ao encontrar a crítica do filme, que gostei mais dele do que do anterior. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,4. Realmente os críticos parecem ter gostado pouco da produção. Curioso que os críticos aprovaram em 84% The Tree of Life. Realmente o meu gosto não bate com o deles. hehehehe

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Mais um filme artístico com a assinatura de Terrence Malick. Sim, o diretor tem um estilo próprio e esta produção é mais uma chance dele mostrar isso. Explorando a beleza dos lugares e das pessoas e um estilo de vida à la “carpe diem” nos 200 volts, Song to Song nos conta algumas histórias de amor embaladas por algo de música. Mais que som, o que vemos em cena é desejo, tesão, fúria, suavidade, e muitas, muitas reminiscências. O filme inteiro é como se alguém olhasse para trás, na própria história, e divagasse sobre o que viveu. É uma produção interessante, especialmente se você gosta do diretor e/ou dos atores. Mas vá com paciência. Porque este é um filme bem ao estilo Malick. Lento e “filosófico”, muitas vezes pretensioso e um bocado bonito.

Kedi – Gatos

kedi

Um filme sobre gatos e sobre gente. Kedi nos apresenta cenas belíssimas de felinos, dos mais variados tipos, da cidade onde eles vivem, Istambul, e também, como se não fosse possível evitar, das pessoas que convivem com estes belos animais a cada dia. Diferente do que alguém poderia pensar inicialmente, este documentário não é recomendado apenas para quem gosta de gatos. Ele deveria ser assistido por qualquer pessoa que é interessada em conhecer outras culturas e outras formas de lidar com o diferente e aprender com ele. Belo filme, em mais de um sentido.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que “gatos vivem em Istambul” há muitos séculos. Eles viram impérios surgirem e desaparecerem, assim como presenciaram o crescimento e o encolhimento da cidade. Embora eles sejam cuidados por muitas pessoas, eles vivem se um mestre. Adorados, ignorados ou desprezados, eles fazem parte da vida de todos. Depois desta introdução, vemos imagens da cidade de Istambul e, pouco a pouco, vamos entendendo a íntima relação dos gatos com esta cidade e vice-versa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kedi): Eu nunca me imaginei assistindo a um filme sobre gatos que me ensinasse tanto não apenas sobre estes animais, mas também sobre uma cultura, uma cidade e alguns costumes tão diferentes daqueles da sociedade onde eu cresci. A exemplo do que o maravilhoso Human nos mostra, Kedi também reforça a compreensão de que o mundo é muito vasto e cheio de formas diferentes de viver e de encarar a vida. E que esta diversidade é a parte mais bonita da Criação.

Em Kedi, é claro, os protagonistas são os gatos. Mas eles não estão sozinhos. Ainda que sejam muito independentes, eles vivem em um determinado contexto. E é a relação dos gatos com este contexto que nos revela exatamente como eles são. A exemplo dos humanos, os gatos também não são parecidos. Cada um tem uma personalidade, uma forma de pensar e de se comportar. Para quem ama estes animais, não há dúvidas de que este filme será um verdadeiro deleite.

A verdade é que a diretora turca Ceyda Torun tem um olhar todo delicado para os gatos que vivem em sua cidade natal, Istambul. Ela consegue captar com grande maestria cenas maravilhosas destes felinos cheios de personalidade e de carisma. Em diversas sequências a câmera de Ceyda Torun “caminha” próxima do chão para se colocar no mesmo plano dos gatos. Afinal, para entendê-los melhor, é preciso seguir a ótica diferenciada que eles têm. É como se a diretora nos convidasse para nos colocarmos no lugar dos felinos.

Realmente vestir a pele deles é algo impossível, mas podemos fazer um exercício neste sentido e observá-los com atenção e com cuidado. Ceyda Torun consegue, com maestria, mostrar a beleza de diversos “personagens” felinos, contando parte de suas histórias, acompanhando muitos de seus passos e, de quebra, revelando a relação que eles tem com a cidade, os lugares e as pessoas que dividem o espaço urbano com eles. As imagens são lindas, muito bem planejadas e executadas.

Mas o que mais me impressionou nesta produção, além das belas cenas dos gatos e da cidade de Istambul, foi a forma totalmente diferenciada com que o povo da cidade trata os seus felinos. Diferente das sociedades ocidentais, onde os animais são “propriedade” de algumas pessoas ou vivem abandonados nas ruas, passando por todas as dificuldades que um animal sem cuidado pode passar, em Istambul não existe esta definição de propriedade ou de abandono. Os gatos da cidade são de todos e todos se preocupam com eles.

Claro, conforme o filme vai avançando e vai se aprofundando, percebemos que na parte mais “desenvolvida” de Istambul o cuidado com os gatos se perde um bocado. Enquanto na orla e na parte menos “urbana” da cidade o sentido de comunidade e de cuidado com os gatos é preservado, nos bairros mais “desenvolvidos” existe uma possibilidade maior dos gatos serem ignorados.

Desta forma, um bocado “sem querer”, Ceyda Torun nos mostra que em áreas em que o concreto e a correria ganharam protagonismo, outros valores se perdem. Especialmente a capacidade de olhar com atenção para os lados, perceber os detalhes da cidade e as nuances de seus habitantes – sejam eles humanos, sejam eles gatos. E se pararmos para pensar, isso vale para qualquer lugar. Quando as pessoas estão correndo demais e quando elas estão mais preocupados com a segurança e em se trancar dentro de carros e de casas/apartamentos, todo o restante praticamente se perde.

O contato mais amistoso e cuidadoso entre as pessoas e delas com os animais se desvanece. Mas sempre que alguém quer resgatar isso, é possível. Basta desacelerar e começar a refletir que toda a vida é valiosa. No caso de Istambul, grande parte da cidade respeita a tradição dos gatos livres e independentes como patrimônio histórico e cultural da cidade. Interessante como as pessoas identificam a comida e a água que são deixadas para os felinos e respeitam isso. Não existe necessidade de posse e a propriedade se perde porque o carinho e o amor são livres.

A independência dos gatos é respeitada na mesma medida em que as pessoas sabem que eles precisam de atenção, de cuidado e de afeto. Homens e mulheres conseguem ter um olhar generoso para os felinos – ao menos a maioria. E este olhar cuidadoso captado com talento por Ceyda Torun nos faz pensar em como seria bacana se em todos os lugares houvesse tanto cuidado com os gatos. E não apenas com eles, mas com todos os tipos de pessoas e de animais. Afinal, toda vida é preciosa. Ou ao menos é assim que todos deveriam pensar. Já imaginaram como teríamos sociedades melhores se esta visão fosse generalizada?

Então Kedi é uma crônica interessante sobre gatos, suas histórias – contadas por outras, evidentemente -, os lugares pelos quais eles passam e as pessoas com as quais eles convivem. Como os gatos não falam, com este filme apenas lhes admiramos. E eles aparecem belos, sejam eles da raça (ou sem raça) ou da cor que for. Aprendemos e nos identificamos com eles – ou nos vemos como diferentes, mas respeitamos a distinção. Sempre é válido aprender com uma cultura tão diferente da nossa e observar como ela se organiza, se articula e se relaciona. Sempre é possível aprender algo – ou muito, no caso deste filme.

Kedi nos mostra como é diferente viver em uma cidade onde os gatos andam e vivem livremente e são cuidados por todos. Quem dera que em todas as partes fosse assim. Que os animais pudessem viver com tranquilidade e segurança e serem bem tratados (pelo menos pela maioria das pessoas, descontadas aquelas que não se importam mas que respeitam aos demais que fazem diferente). Certamente não apenas os animais ganhariam com isso, mas as pessoas também. Seríamos mais sensíveis e atentos aos detalhes, e aprenderíamos mais a respeito de nós mesmos neste contato com os gatos (e outros bichos).

O filme é lindo. Quem ama os gatos vai se apaixonar por cada cena e vai dar a nota máxima para esta produção, certamente. Eu gosto de gatos, ainda que nunca tive um para chamar de meu. Achei o filme lindo, e há um trabalho realmente primoroso da diretora em capturar não apenas as diferentes belezas dos felinos, mas também a particularidade de Istambul e de seu povo.

Só não dei uma nota maior para a produção porque eu achei que ela acaba se tornando um tanto repetitiva. Nem tanto pelos gatos, porque sempre é interessante vê-los em cena, mas principalmente pelas histórias contadas pelas pessoas da cidade. Alguns agregam valor para o filme com as suas interpretações sobre a relação deles com os gatos, assim como pela narrativa da história de alguns felinos, mas outros acabam contribuindo pouco para o filme. Ainda assim, claro, o filme é interessante por mostrar pessoas comuns e variadas como os felinos com os quais eles se relacionam. Bela produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu já assisti a alguns documentários sobre cidades e suas pessoas, mas este é o primeiro que eu assisto sobre gatos e a sua cidade. Kedi faz uma “virada de chave” muito interessante e inteligente.

Para fazer um filme com tanta delicadeza e um olhar tão apurado, só mesmo conhecendo bem sobe o assunto que está sendo retratado. E este é o caso da diretora turca Ceyda Torun. Como o site mesmo do filme explica, ela passou os primeiros anos de sua infância convivendo nas ruas com os gatos em sua cidade natal, Istambul. Então ela tinha na memória e no coração este afeto todo pelos bichanos e um conhecimento apurado sobre a cidade e sobre os seus animais para poder nos apresentar um documentário único. Formidável!

Além de Kedi, Ceyda Torun tem no currículo apenas um curta, Consuming Love, de 2008. Ela também tem trabalhos como assistente de direção, mas ainda precisa desenvolver a sua carreira para conseguir ser mais conhecida.

Kedi tem uma direção cuidadosa, atenta e ritmada de Ceyda Torun. Certamente o olhar da diretora é um diferencial desta produção. Mas há outros elementos técnicos que também se destacam, como a linda direção de fotografia de Alp Korfali e de Charlie Wuppermann; a trilha sonora interessante e que nos ajuda a nos situar na sociedade turca feita por Kira Fontana e a edição precisa de Mo Stoebe.

Esta produção estreou no Festival de Cinema Independente de Istambul !f em fevereiro de 2016. Depois, o filme participaria, ainda, de outros nove festivais em diversos países pelo mundo. Em sua trajetória pelos festivais Kedi recebeu um prêmio, o de Melhor Filme Familiar segundo votação do júri do Festival de Cinema de Sidewalk.

Não encontrei informações sobre o custo de Kedi, mas segundo o site Box Office Mojo, esta produção faturou US$ 2,8 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é um desempenho desprezível, especialmente porque estamos falando de um documentário sobre gatos. Mas como o filme transpassa esta noção de “documentário sobre um animal”, dá para entender o sucesso dele na propaganda boca a boca.

Como a produção mesmo sugere, Kedi foi totalmente rodado na cidade de Istambul, na Turquia. O filme, por sua vez, é uma coprodução da Turquia com os Estados Unidos.

Agora, algumas pequenas curiosidades sobre esta produção. 😉 As imagens feitas sob a “perspectiva dos gatos”, ou seja, no mesmo plano em que eles caminham, foram feitas com a adaptação de uma câmera sobre um carrinho de controle remoto.

Em alguns edifícios é possível ler a mensagem “Erdo Gone”. Esta era uma mensagem comum em Istambul e mostrava a insatisfação de grande parte da população com o governo de Recip Erdogan.

Uma das pessoas que aparecem no filme, Bulent Ustun, é um famoso criador de quadrinhos turco. Ele criou o personagem “Kotu Kedi Serafettin”.

O filme é dedicado para os gatos de Istambul e para todos os moradores da cidade que amam e que cuidam destes animais.

Gente, eu sei que ultimamente eu tenho dado um monte de 9 para os filmes aqui do blog… mas é que eles realmente mereceram um 9, o que eu posso fazer? hehehehe. Sei que vocês vão me entender. 😉

Interessante que Kedi é uma produção do YouTube. A exemplo do que o Netflix e outras empresas com modelo de negócios digital vem fazendo, o YouTube também lança uma brisa nova para a produção cinematográfica. Quem gosta de cinema agradece.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 85 críticas positivas e apenas duas negativas para o filme, o que garante para Kedi uma aprovação de 98% e uma nota média de 7,7.

CONCLUSÃO: Está certo o senhor que em certo momento deste filme diz que alguém que não gosta de animais não deve ser uma boa pessoa. Independente do quanto você conviva com eles ou não, mas realmente apreciar toda e qualquer vida sobre a Terra é uma questão de respeito e de evolução. Kedi nos mostra uma sociedade que convive de forma muito diferenciada com os gatos e que nos faz pensar sobre outras questões. Como, por exemplo, o respeito que somos capazes de cultivar e a liberdade que somos aptos a dar para aqueles que amamos e admiramos. Também nos faz refletir sobre a noção de propriedade e de co-dependência. Enfim, um filme belo e muito rico em significado ao mesmo tempo.