Crazy Heart – Coração Louco

Um homem derrotado pelo rolo compressor da própria vida. Considerado outrora um ídolo, ele agora toca para qualquer público para conseguir pagar seus vícios e seguir sobrevivendo. Crazy Heart conta uma história dura, mas ao mesmo tempo realista e tocante. Para isso, conta com uma interpretação inspirada, poderosa e decisiva, uma verdadeira entrega do ator Jeff Bridges que, com todos os méritos, deve ganhar o Oscar de Melhor Ator este ano – depois de ter ganho quatro prêmios importantes por sua atuação.

A HISTÓRIA: Um velho automóvel cruza quilômetros de asfalto em um território árido. Depois de percorrer planícies, paisagens agrestes e cadeias montanhosas, Bad Blake (Jeff Bridges) chega até um boliche no Novo México onde irá se apresentar à noite. Ele acende um cigarro, entre no boliche e, logo após ser cumprimentado pelo gerente do local (James Keane), recebe o aviso que não pode fumar ali. Em seguida, descobre que nem a bebida que pede no balcão pode ser descontada de seu cachê. Blake amarga uma fase em sua vida em que as pessoas parecem não se lembrar mais de sua grande trajetória como artista do country music. Sem dinheiro, “quebrado”, alcóolatra e sem compor há vários anos, Bad Blake vive uma fase terrível. Até que ele se encontra com a jornalista Jean Craddock (Maggie Gyllenhaal), sobrinha de Wesley Barnes (Rick Dial), um pianista nas horas vagas que contrata Blake para duas apresentações em Santa Fé, e sua vida ganha novas perspectivas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Crazy Heart): Não é todos os dias que um ator de Hollywood se emociona ao incorporar a vida de um personagem. Em um certo momento de Crazy Heart, quando Bad Blake está deitado na cama de Jean depois de sobreviver a um grave acidente, quando ele volta a compor uma música depois de um hiato de muitos anos, o espectador atento pode perceber que as lágrimas começam a se formar nos olhos de Bridges. Ele está sentindo, em cada palavra que canta e movimento que faz no violão, o que aquela música representa para o seu personagem. E mais, ele percebe a grandeza daquele momento na vida do “derrotado” Blake. Jeff Bridges vestiu a pele do personagem e, por isso, ele é o nome deste filme.

Crazy Heart é uma destas produções de baixo orçamento, descompromissadas, que mergulham sem medo em um tema específico. Por serem limpas e leves, sem a preocupação de “problematizar” a realidade, estas histórias acabam chegando diretamente na percepção do público. Francamente não sou uma grande conhecedora ou fã da country music norte-americana. Mesmo assim, fiquei fã da trilha sonora assinada por T-Bone Burnett e por Stephen Bruton. As músicas são lindas, uma mais perfeita para a história que a outra.

O diretor e roteirista Scott Cooper mergulha em todos os elementos que compõe a aura de um artista veterano da “velha” country music neste filme. Aos 57 anos de idade, o protagonista se sente em fim de carreira. Derrotado, falido, sem rumo e sem controle. Ele segue acionando o seu próprio piloto automático e dirigindo milhas e milhas pelo interior dos Estados Unidos tocando para um público pequeno e variado, essencialmente antigo como ele. Mais que isso, este personagem sofre com vícios dos quais ele parece ser incapaz de se livrar.

Neste ponto, Crazy Heart não é apenas uma história sobre um antigo ídolo de determinado gênero musical em decadência. Ainda que o filme trate do quanto efêmera e injusta pode ser a fama, Crazy Heart vai além disso. O roteiro, baseado na obra homônima de Thomas Cobb, serve como exemplo de como o alcoolismo pode destruir a dignidade de um homem e limitá-lo a cenas desesperadoras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos momentos mais angustiantes que eu assisti em um filme nos últimos tempos foi aquele em que Bad Blake descobre que o pequeno Buddy (Jack Nation), o filho de quatro anos de Jean, simplesmente desaparece quando estava sob seus cuidados. O desespero daquele homem e, depois, da mãe de Buddy acerta o espectador em cheio e serve como exemplo do tipo de descontrole que o alcoolismo pode provocar.

Além destes dois temas universais, Crazy Heart toca em outras questões que sempre rendem grandes momentos no cinema. Como a vontade de um adulto arrependido em fazer as pazes com o próprio passado. Ou a descoberta, mesmo em certa “idade avançada” da vida, que é sempre possível renascer. Crazy Heart é um filme sensível, cheio de emoção e com interpretações maravilhosas – além da já comentada roubada de cena de Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal está perfeita em seu papel. Ela ilumina cada quadro do filme no qual aparece – como a sua personagem deveria fazer.

Desde o primeiro minuto em que Jean aparece, percebe-se o seu fascínio por aquele homem mais velho que, mesmo tendo todos os elementos para ser uma “encrenca” em sua vida, ainda esbanja charme, talento e virilidade. Os dois se aproximam e, neste momento, Crazy Heart passa a ser também uma história de amor. Destas que revelam, sem virtuosismo o exageros, pelo contrário, com muita simplicidade, como o amor pode ser transformador. Aproximando-se novamente de um garoto como é o caso do filho de Jean, Blake tem a oportunidade de olhar para o próprio passado. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desta forma, ele percebe como abandonou o próprio filho, hoje adulto, e sente a necessidade de tentar consertar isso.

O bacana de filmes como este é que não existe a preocupação de seus realizadores em agradar ao grande público. Algo muito diferente de fenômenos como Avatar. Por isso mesmo é que Crazy Heart, Precious, An Education, The Hurt Locker e tantos outros se mostram tão mais criativos, legítimos, obras de cinema – e não peças de mercado com o único fim de fazerem lucro.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Scott Cooper não se esforça em encontrar um final feliz aos moldes de Hollywood. O “mocinho” não necessariamente tem que ficar com a “mocinha” no final da história ou receber o perdão do filho antigamente rejeitado. Buscando a legitimidade da vida real, o diretor e roteirista mostra que um final feliz pode existir com o esforço hercúleo de um homem em reerguer-se das cinzas. Ao se recriar, Bad Blake demonstra que a felicidade não reside na dependência que um indivíduo pode criar em relação a outro, mas em sua própria capacidade em exercer plenamente seu talento e buscar suas virtudes. Só depois, inteiro, ele poderá dividir isso com os demais. Seja em uma relação pessoal ou através de músicas belíssimas.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um tema secundário de Crazy Heart pode dar pano pra manga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os “novos” ídolos da música e sua falsa modéstia e relação de exploração, muitas vezes, com seus mentores “decadentes”. Bad Blake passa o filme inteiro com o “pé atrás” em relação ao fenômeno de massas Tommy Sweet (Colin Farrell). E não é para menos. Ao mesmo tempo em que rasga seda para Blake, Sweet deixa claro que por trás de seus elogios existe o interesse para que o veterano talentoso volte a lhe emprestar o seu talento. Há tempos sem escrever nada que preste, Sweet espera que Blake possa lhe ajudar na difícil tarefa de ficar sempre na crista da onda.

O tema é bom e polêmico. Na segunda parte de sua entrevista com Blake, Jean lhe pergunta quem continua compondo e tocando músicas verdadeiras na era em que o “country artificial” parece dominar o cenário musical. Blake admite que Sweet “tenta” fazer a música country de anos atrás. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas ironicamente, é justamente Sweet quem lhe pede e, posteriormente, praticamente obriga Blake a ceder-lhe suas novas composições. Para um compositor “quebrado” (no sentido financeiro e pessoal), a oferta de ceder por uma grande quantia de dinheiro, no período de dois anos a autoria de suas novas composições para um antigo “pupilo” e atual “rival” se mostra irrecusável.

Esta forma de exploração (outros a encaram como uma “providencial ajuda”) mostrada pelo filme ocorre na vida real. Muitos “novos ídolos” da juventude e/ou das massas se valem do talento esquecido de antigos mentores, companheiros de excursões e ídolos nacionais por meio de regravações de seus sucessos – pagando uma miséria por isso – ou ao utilizar novas composições destas pessoas. Manda mais quem está lotando seus shows e fazendo dinheiro com novos discos. Obedecem os que passaram a figurar na lista de “ilustres desconhecidos” da massa. A indústria musical, como outras do “show business”, acaba sendo bastante desleal com seus antigos ídolos.

O escritor Thomas Cobb lançou o livro Crazy Heart em 1987. Na época, o Los Angeles Times afirmou que o romance de estréia do escritor era uma cuidadosa “crônica de observação da América”. O Chicago Tribune publicou que o autor havia escrito uma quase obra-prima sobre um assunto até então pouco atrativo. O jornal afirmou ainda que Cobb havia criado um personagem principal inesquecível, em um texto que evidenciava não apenas seus interesses, mas também suas emoções. Não li o livro, mas tudo indica que o diretor e roteirista Scott Cooper conseguiu ser muito fiel a esta alma do personagem e à história da obra original.

Jeff Bridges é o nome do filme – assim como o personagem de Bad Blake parece dominar as páginas da obra original. Ainda assim, é importante comentar o desempenho dos coadjuvantes desta produção. Além dos já citados Maggie Gyllenhaal (maravilhosa), Jack Nation (encantador) e Colin Farrell (propositalmente “plastificado”), vale a pena comentar o trabalho do veterano Robert Duvall como Wayne, o proprietário de um bar que é amigo de Blake; Tom Bower em uma superponta como Bill Wilson, o fã do cantor que lhe “presenteia” com uma garrafa de whisky em troca de uma música na apresentação que ele faz no boliche do Novo México (tirada genial esta, aliás); e Paul Herman como Jack Greene, o empresário de Blake que não consegue nenhum acordo decente para o músico.

Crazy Heart conseguiu um desempenho até que satisfatório para um filme de seu porte. Apenas nos Estados Unidos ele arrecadou, até o dia 21 deste mês, pouco mais de US$ 21,5 milhões. Certamente devido aos elogios recebidos pela atuação de Jeff Bridges e pela força que a country music tem naquele país.

Até o momento o filme conquistou 13 prêmios e foi indicado a outros 13. Crazy Heart tem se consagrado especialmente pela atuação de Jeff Bridges e pelas músicas compostas por T-Bone Burnett e Ryan Bingham. Elas, aliás, merecem um capítulo a parte. São belíssimas e elevam o filme a um outro patamar. Assim como a direção de fotografia bastante acertada de Barry Markowitz e a direção suave e ao mesmo tempo atenta aos detalhes de Scott Cooper.

Mas nunca é demais recomendar que as composições escritas para o filme sejam observadas por completo, seja através da trilha sonora original, vendida em separado, ou pela divulgação de algumas delas em vídeos no Youtube. A performance de Ryan Bingham para a premiada The Weary Kind, aliás, tem uma audiência espetacular na internet (uma das opções de video é esta). Observando a trilha sonora, aliás, é que tirei uma importante dúvida que tive enquanto assistia a Crazy Heart: afinal, Jeff Bridges realmente soltou o gogó ao cantar aquelas composições? Pois os créditos da trilha sonora comprovam que Bridges canta grande parte das composições escritas especialmente para a produção e que até Colin Farrell e Robert Duvall dão suas palhinhas. Interessante.

Mas voltando ao tema dos prêmios… Das 13 conquistas de Crazy Heart até o momento, oito ocorreram devido às músicas compostas para o filme e cinco graças ao trabalho de Bridges. Lembrando que ambos foram premiados no Globo de Ouro. Jeff Bridges foi ainda premiado como Melhor Ator pela votação da Screen Actors Guild, o principal prêmio da categoria dos atores nos Estados Unidos.

Algumas curiosidades sobre Crazy Heart: ele foi filmado em apenas 24 dias e o show que Bad Blake abre para Tommy Sweet foi gravado no Journal Pavilion em Albuquerque utilizando a estrutura de uma apresentação do músico Toby Keith. Jeff Bridges sempre teve uma inclinação para a música, tanto que no ano 2000 ele lançou um disco chamado Be Here Soon.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para o filme. Achei ela muito, muito baixa. Mas talvez ela reflita a frustração das pessoas por este filme não ser, exatamente, “fácil”. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram muito mais generosos: eles dedicaram 159 textos positivos e apenas 13 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92%.

Entre as críticas positivas para o filme, destaco esta de Liam Lacey publicada no The Globe and Mail. Ele começa seu texto categórico: “Outra temporada para o Oscar, outro ator veterano que descobre seu peito e volta a rugir. Em Crazy Heart, Jeff Bridges segue os passos de Frank Langella em Starting Out in the Evening (2007) e Mickey Rourke em The Wrestler (2008), como uma figura famosa e sua falência familiar que redescobre seu ‘mojo’ espiritual através do amor de uma mulher”. Para o crítico, o desempenho de Bridges na pele do protagonista é autêntico de uma forma desconcertante.

Na opinião de Lacey, o grande desempenho de Bridges ocorre em um filme “relativamente menor”. O crítico comenta que Crazy Heart é a adaptação de Scott Cooper do livro de Thomas Cobb que, por sua vez, se inspirou na carreira do falecido Waylon Jennings. Então, com este comentário, Lacey tira uma das minhas dúvidas principais: se o filme teria alguma inspiração real. Pois sim, ele teve. Lacey afirma que Crazy Heart lembra muito a produção Tender Mercies, de 1983, estrelada por Robert Duvall. O crítico comenta que o mergulho da personagem de Jean acaba não sendo tão convincente quanto deveria. Por outro lado, ele considera um dos pontos fortes do filme a autenticidade das canções escritas por T-Bone Burnett, Steven Broder e Ryan Bingham. “Em um gênero musical no qual a autenticidade emocional é essencial, Bridges é suficientemente grande ator para nos fazer acreditar que estas canções poderiam ser suas”, finaliza Lacey.

A crítica Kimberly Gadette, do Indie Movies Online.com, destaca as quatro indicações ao Oscar que Jeff Bridges recebeu em sua carreira – sem nunca ter ganho alguma estatueta. Ela comenta que em Crazy Heart ele tem um desempenho fora de série, “desprovido totalmente de vaidade”. Gadette elogia o trabalho de Maggie Gyllenhaal, afirmando que ela apresenta para o espectador uma jovem “forte”, direta, e que alimenta uma relação com o protagonista que foge do clichê hollywoodiano. Ela ainda elogia a trilha sonora, afirmando que as composições buscam “evocar ao invés de copiar” os mais conhecidos artistas da época, assim como considera “impressionante” a estréia de Scott Cooper como diretor.

CONCLUSÃO: A história de um homem que segue ladeira abaixo ainda que, para muitos que lhe enxergam apenas como um ídolo, ele parece bem quando assume sua guitarra e o microfone sobre um palco qualquer. Crazy Heart se debruça na derrocada de um antigo astro da country music para falar sobre os bastidores da música, parte da vida no interior dos Estados Unidos e, especialmente, sobre uma história de redenção. Estrelado por um Jeff Bridges em grande momento, este filme se mostra simples e ao mesmo tempo profundo, tocando em temas como família, alcoolismo, fama e a força que um novo amor pode ter em todo este contexto. Com uma trilha sonora deliciosa e canções belíssimas – mesmo para quem não gosta de country music -, Crazy Heart vale por Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal e pela maneira simples com que esta história é contada. Também chama a atenção como a história foge de um final feliz óbvio e, ainda assim, pode agradar e emocionar com alguns momentos preciosos.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Crazy Heart está concorrendo em três categorias na maior premiação de Hollywood: Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Canção Original. Deve ganhar dois destes prêmios. Sem dúvida a entrega de Jeff Bridges para o papel lhe credencia a ganhar a estatueta. Não assisti ainda ao desempenho de Colin Firth em A Single Man, mas ao comparar Bridges com George Clooney, Morgan Freeman e Jeremy Renner, o protagonista de Crazy Heart sai na dianteira. Ele realmente merece o prêmio. Minha segunda escolha ficaria entre Jeremy Renner e Morgan Freeman. George Clooney, definitivamente, não deveria levar a estatueta para casa.

Ainda que Maggie Gyllenhaal esteja ótima no filme, equilibrando com seu carismo e “luz” o lado pesado de Bad Blake a cada aparição sua na tela, fica difícil para ela concorrer com a performance visceral de Mo’nique em Precious. E mesmo que Mo’nique não ganhasse a estatueta, provavelmente a segunda na mira do Oscar seria Anna Kendrick por seu desempenho realmente interessante em Up in the Air. Não será desta vez que Maggie Gyllenhaal sairá com um Oscar do Kodak Theater.

Melhor Canção Original é uma barbada. Ainda que a animação The Princess and the Frog tenha duas músicas concorrendo ao Oscar, The Weary Kind parece imbatível. Seria um reconhecimento acertadíssimo para os compositores que produziram canções fundamentais para Crazy Heart. Eles devem ganhar a estatueta este ano.

Avatar 3D

Uma das maiores bilheterias de todos os tempos e um dos filmes mais falados – e propagandeados – do final de 2009 e início de 2010. Ninguém na face da Terra pode negar que Avatar (aqui o site oficial em português) é um fenômeno de massas como há tempos o cinema mundial não via (mais precisamente, desde 1997, quando foi lançado Titanic, o outro filme-fenômeno de James Cameron). Demorei para assistí-lo porque eu via como fundamental a questão do 3D. Me desculpem os sensíveis, mas assistir Avatar sem ser em 3D é o mesmo que preferir assistir qualquer filme que exige grandes dimensões em uma TV de 14 polegadas. O tão comentado 3D – que está, infelizmente, ainda longe de ser realmente revolucionário -, no caso de Avatar, acaba sendo tão ou mais importante que o roteiro e a direção de Cameron. Antes de assistí-lo, eu tinha ouvido comentários ruins sobre o roteiro do filme, aliás. Mas ainda que Avatar se perca um bocado no caminho – deixando para trás a oportunidade de ser um filme muito melhor -, admito que me surpreendi positivamente com o que eu vi. Esperava algo pior.

A HISTÓRIA: O ex-fuzileiro Jake Sully (Sam Worthington) lembra de um sonho clássico que tinha quando estava hospitalizado: ele experimenta a liberdade plena ao “voar” sobre árvores e entre nuvens baixas. Em seguida, ele acorda em uma cabine após passar pelo processo de criogenia. Ele entrou no projeto Avatar depois que seu irmão gêmeo, Tommy, foi morto em um assalto uma semana antes da viagem que o levaria até o planeta Pandora. Depois de uma viagem que durou 5 anos, nove meses e 22 dias, Jake e os demais “mercenários” inscritos para trabalhar explorando Pandora chegam até o planeta aonde vivem os Na’vi, uma espécie de “humanóides” que vive em perfeita sintonia com a Natureza. Jake acaba conhecendo de perto a cultura e o modo de vida dos Na’vi quando assume a pele de seu próprio avatar, criado a partir da mistura de seu DNA e o de nativos de Pandora.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Avatar): O argumento do filme capitaneado por James Cameron e boa parte do seu desenvolvimento são excepcionais. Levando em conta, claro, o estilo do diretor e roteirista. Acho curioso quando algumas pessoas “pedem” e/ou esperam um texto mais elaborado de Cameron. Ouvi algumas pessoas criticarem a falta de “complexidade” do roteiro de Avatar.

Meus caros, uma regra básica para entender um pouco sobre cinema é contextualizar sempre cada filme, cada autor, cada artista envolvido. James Cameron nunca foi um sujeito complexo. Muito pelo contrário. Ele é o típico diretor e roteirista que busca, com seus filmes, o maior público possível. Seus roteiros são rasos, simples, fáceis de serem entendidos por pessoas das mais diferentes idades, níveis sociais, formações educacional e cultural.

Cameron busca sempre a simplificação – ele ficará conhecido, no futuro, como o diretor de alguns dos filmes mais caros e com maiores bilheterias de todos os tempos, mas nunca por histórias brilhantes ou roteiros saborosos. Este é o seu estilo. E é preciso avaliar Avatar dentro deste contexto. Dito isso, volto a afirmar que a nova produção de James Cameron me surpreendeu por grande parte do tempo.

Primeiro, porque o diretor realmente pensou em cada detalhe da produção, em cada cena, em todo e qualquer momento em que os efeitos 3D poderiam deslumbrar o espectador. Depois porque gostei do roteiro. O protagonista Jake Sully não é um herói modelo – uma boa evolução para um roteirista que havia escrito anteriormente Terminator; uma das histórias de Rambo; Aliens e, principalmente, Titanic e seu “perfeito” Jack Dawson. Os mercenários humanos em Pandora assumem o papel que outrora foi desempenhado por distintas civilizações “conquistadoras” (em outras palavras, exterminadoras de nativos), como foi o caso de portugueses, espanhóis e ingleses.

Impressionante a forma com que Cameron critica o destempero dos países civilizados – e neste filme fica clara a referência aos Estados Unidos, ainda que não apareçam bandeiras tremulantes. Na era em que a preocupação ambiental e com as mudanças climáticas é a ordem do dia, Pandora aparece como um planeta ideal, habitado por uma civilização que sabe como viver em perfeita e plena sintonia com cada ser vivo que lhe cerca.

Uma civilização ideal considerada “selvagem” pelo invasor habituado a outros valores e práticas – como a de explorar até o fim os recursos naturais e trocá-los por dinheiro, algo que deveria ser insignificante na comparação com o que torna a vida possível e/ou sustentável. Cameron, assim, lança idéias “revolucionárias” para os seus próprios padrões, inserindo temas espinhosos em um filme que deveria ser, essencialmente, comercial. Essas características de Avatar, devo admitir, me surpreenderam.

Mas nada me deixou mais estupefata do que a forma estonteante com que Cameron apresentou, para os espectadores do filme em 3D, aquele planeta cheio de surpresas para os nossos olhos cansados e que não se surpreendem com quase mais nada. As melhores cenas do filme envolvem o avatar de Jake Sully e suas experiências como aprendiz da cultura e do jeito de viver do clã dos Omaticavas. Levado praticamente  pelas mãos de Neytiri (Zoe Saldana), Sully volta a andar, correr, aprende a montar cavalos selvagens e a voar com um “ikran”. Ele experimenta um contato com o selvagem impossível para um homem comum ao mesmo tempo em que vive na pele um tipo de mobilidade impossível de ser concretizada devido a condição de dependente de uma cadeira-de-rodas quando não está utilizando o seu avatar.

O personagem de Jake Sully não poderia ter sido melhor planejado. Primeiro, o protagonista se sente em dívida com o irmão morto, que se dedicou tanto tempo a um propósito “digno” como é o da ciência. Depois, ele se sente um bocado perdido, sem perspectivas, justamente por se ver preso a uma cadeira-de-rodas. Um dos objetivos de sua viagem a Pandora é ganhar dinheiro suficiente para conseguir voltar a andar. Cameron, através de Sully, faz um paralelo ao homem do século 21, preso a valores que não fazem sentido e que lhe impedem de ter uma vida plena.

Além disso, pelas razões anteriores, Sully tem um “objetivo” digno para fazer o que ele faz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ou seja, para “trair” a confiança daqueles seres azuis grandalhões que resolvem abrir o seu mundo para um desconhecido com perfil de inimigo. Entra em cena o grande vilão da história, o super Rambo da vez, coronel Miles Quaritch (Stephen Lang). Apelando para o código de honra e de conduta do ex-fuzileiro Sully, Quaritch sabe muito bem como pressioná-lo para conseguir as informações que a companhia precisa para vencer os nativos. O coronel também promete para Sully o que ele mais deseja: poder voltar a andar.

Sully se porta como uma criança – Neytiri logo de cara o classifica assim – frente a um mundo desconhecido. Esse é outro acerto de Cameron porque, desta forma, ele coloca cada espectador em uma posição confortável de “ignorância” sobre o que ele está assistindo. Todos nós somos crianças, ignorantes frente ao mundo perfeito criado por Cameron. Pandora é um planeta ideal, perfeito, onde diferentes clãs, animais selvagens, plantas curiosas e demais seres parecem viver em constante harmonia.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Claro que isso é difícil de acreditar. Especialmente porque, se tudo realmente é assim perfeito, o que justificaria a chegada de um Na’vi que dominasse a fera Toruk para, só assim, unir os diferentes clãs no sentido de defender um único propósito? Mas isso pouco importa. Cameron está aí para nos dizer que deveríamos nos colocar mais na posição de crianças, de ignorantes, para aprender com os seres mais sábios – e/ou aprender e aceitar diferentes formas de vida.

Até hoje existe muito preconceito com descendentes de indígenas, aborígenes, quilombolas, entre outras minorias que são consideradas por muitos como “menos evoluídas”. A própria antropologia, que antes enxergava determinados povos como estágios anteriores a uma evolução inevitável até o ideal (normalmente eurocêntrico), hoje enxerga que não existe um modelo de desenvolvimento – e que mesmo este conceito pode não ser válido.

Mas vamos voltar ao filme… Avatar acerta em todas estas questões e na forma com que o personagem principal e a história vai sendo apresentada. Até que… o filme se perde. Pois sim. Juro que me surpreendi com a história e esperei que ela seguisse por aquele caminho de reflexão/certa crítica social, mas aí o roteiro de Cameron fraquejou e caímos em uma história previsível, longa e simplista demais.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, deixamos de lado os dilemas do protagonista e a ligação perigosamente estreita entre uma “ciência desinteressada” (ok, esse foi um eufemismo adotado pelo amante dos avanços tecnológicos chamado James Cameron) e a pilhagem provocada pela ambição econômica para cair na velha história de disputa amorosa e da luta do bem contra o mal.

Avatar estava indo tão bem, havia tanto esplendor visual e eficiência na direção de Cameron e, por tudo isso, não deixa de ser uma pena quando o filme descambar definitivamente para os lugares-comum e as saídas previsíveis para seus problemas. Vamos combinar que todos já sabiam o que iria acontecer muito antes da ação propriamente dita se desenrolar.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Era evidente o “romance” de Jake Sully e Neytiri (ainda que, me desculpem, mas ainda não me conformo com a “menina” se jogando nos braços de um ser que ela sabia que não era real). Também ficou evidente uma certa disputa de Sully com Tsu’tey (Laz Alonso), o guerreiro que estava destinado a suceder Eytukan (Wes Studi) como líder dos Omaticayas e, consequentemente, a casar com sua filha, Neytiri. Era óbvio que Sully ficaria do lado dos Na’vi e que o recurso da “morte e ressurreição” tentado no caso da Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver) seria, depois, utilizado pelo protagonista.

James Cameron tinha a faca e o queijo na mão para fazer o melhor filme de 2009 e, talvez, um dos melhores dos últimos anos. Explorando ao máximo os atuais recursos do cinema 3D – ainda fracos para o meu gosto, mas depois falarei mais disso -, o diretor soube planejar com maestria cada cena, cada ângulo, criar um mundo maravilhoso para nossos “olhos de crianças”. Até certo ponto, seu roteiro também surpreendeu, misturando assuntos importantes de forma despretensiosa, leve, nos conduzindo sob os signos da ação, aventura, romance, comédia e umas pitadinhas de guerra (até aquele momento, apenas sugerida).

Uma pena, realmente, que pouco depois da metade do filme Cameron não tenha conseguido exprimir em seu roteiro a inovação que conseguiu com sua técnica e apuro visual.  Tudo acaba se resumindo, mais uma vez, à velha história de um “amor impossível”, algo muito corriqueiro desde Romeu & Julieta – e, inclusive, uma tradição anterior à obra de Shakespeare. Um verdadeiro desperdício.

Além disso tudo, Avatar é longo demais. O filme poderia ter, perfeitamente, 20 minutos menos. Não faria falta. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção). Eu cortaria grande parte deste tempo do meio do filme para o final. Reduziria, por exemplo, aquelas cansativas cenas do “novo Rambo” e seus comandados em operações como a de destruir a casa dos Omaticayas. Cortaria também uma ou outra cena um tanto repetida e que não produzisse o efeito de fascínio que outras sequências provocam. Faria bem para o filme.

Descontadas estas falhas e desperdícios de Avatar, ele é um grande filme. Muito bem planejado, conduzido e com a exploração adequada de todos os recursos que a alta tecnologia do cinema atual pode proporcionar. Além disso, a história apresenta alguns momentos realmente tocantes, emocionantes. Ver um adulto enxergar um mundo perfeito sob o fascínio que apenas uma criança pode ter e encontrar um povo tão amistoso e aberto a significados maiores do que o de suas próprias existências é algo raro de ser visto. Ainda mais no cinema de Hollywood. Por tudo isso, este filme é grande. E merece chegar longe, ser premiado, bater recordes de bilheterias (por que não?), mas não deveria levar mais do que uma série de Oscar’s técnicos. Ele não é, nem de longe, o melhor (ou um dos 5 melhores) filme(s) de 2009.

NOTA: 9 (por sua versão em 3D).

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei vocês, mas eu acho um verdadeiro absurdo um filme, seja ele qual for, gastar inacreditáveis US$ 237 milhões em sua produção e, incluindo marketing e distribuição, chegar a um custo total de US$ 500 milhões. Esses valores, referentes a Avatar, tornaram a produção de James Cameron a mais cara de todos os tempos – quer dizer, segundo esta reportagem da Folha de S. Paulo, Avatar empataria hoje em dia com os gastos reajustados de Guerra e Paz, produção soviética de 1967.

De qualquer forma, mesmo que forem analisados “apenas” os US$ 237 milhões utilizados para que Avatar fosse produzido, isto equivaleria a 23 filmes do porte de Precious (que teria custado US$ 10 milhões), 34 filmes como An Education (que custou US$ 6,8 milhões) ou 21 produções como The Hurt Locker (que consumiu US$ 11 milhões). Sei que é importante que “visionários” como James Cameron invistam seu talento e potencial para o marketing na evolução tecnológica do cinema, mas ainda assim não me convenço que todo esse dinheiro deveria ser gasto em apenas uma produção. Prefiro ainda dezenas de filmes no estilo dos outros candidatos ao Oscar comentados frases acima do que em produções como Avatar.

Para quem não lembra, James Cameron estreou como roteirista e diretor de longas-metragens com The Terminator, de 1984, filme que lançou definitivamente à fama um até então relativamente pouco conhecido Arnold Schwarzenegger – o ator musculoso havia se destacado, anteriormente, apenas por dois filmes em que encarnava o “bárbaro” Conan. Depois, Cameron escreveu o roteiro de Rambo: First Blood Part II (ao lado de outros roteiristas), de Aliens e The Abyss (estes dois últimos ele também dirigiu).

Desde muito jovem o diretor e roteirista mostrava seu gosto pela alta tecnologia e pela ficção científica. Ele deu uma pausa nestes temas com True Lies e Titanic, tentando, com eles, chegar a um público muito maior do que aquele que costuma se interessar por ficção científica. Em Avatar, Cameron tenta seguir nesta linha ao resgatar, mais uma vez, seu gosto pela alta tecnologia e a ficção científica.

James Cameron vai seguir a linha de ficção científica em seu próximo projeto, intitulado Battle Angel. Previsto para ser lançado em 2011, o filme se lança no futuro para contar a história de uma cyborg feminina que é retirada da condição de “sucata” por um cientista. Será que o filme vai promover a mistura de “um amor impossível”, tema recorrente de Cameron em suas últimas produções, com The Terminator? 😉

Avatar carrega a lenda também de ser a maior bilheteria que o cinema já teve. A verdade é que ele passou o campeão anterior, Titanic, que havia arrecadado US$ 600,7 milhões. Mas há quem discuta os valores absolutos e avalie as maiores bilheterias levando em conta a inflação que os ingressos de cinema tiveram com o passar do tempo. Segundo este parâmetro, Avatar figuraria na 15ª posição. Encabeçando a lista estariam Gone with the Wind, Star Wars e The Sound of Music.

Mas quem entende que os números absolutos que contam, os quase US$ 688 milhões arrecadados por Avatar apenas nos Estados Unidos colocam a produção no topo da lista das maiores bilheterias. E ainda que siga a sua trajetória em busca de recordes ainda maiores, dificilmente Avatar conseguirá chegar perto do filme mais lucrativo de todos os tempos – afinal, ele custou quase US$ 500 milhões incluindo marketing e distribuição. Lembrando que um filme é lucrativo levando em conta seus custos e o lucro final com as bilheterias.

De qualquer forma, é importante citar que Avatar ultrapassou a marca de US$ 1,858 bilhão nas bilheterias de todo o mundo, ultrapassando o recordista anterior, Titanic, que havia alcançado US$ 1,843 bilhão. O novo recorde foi registrado no dia 26 de janeiro deste ano.

Até o momento Avatar ganhou 18 prêmios e foi indicado ainda a outros 41. Entre os que levou para casa estão os de Melhor Filme – Drama e Melhor Diretor entregues no Globo de Ouro; Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Especiais no BAFTA (o chamado “Oscar” inglês); além de seis prêmios técnicos entregues ao filme pela premiação da Broadcast Film Critics Association e outros prêmios do gênero entregues em distintas premiações. Até o momento, para resumir, o melhor desempenho do filme foi mesmo no Globo de Ouro.

Avatar conseguiu uma nota muito boa pela avaliação dos usuários do site IMDb: 8,5. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também foram bastante generosos com a produção: dedicaram ao filme 207 críticas positivas e apenas 45 negativas (o que garante para o filme uma aprovação de 82%). Ainda assim, ninguém foi tão generoso quanto eu com a nota para Avatar – acho que eu estava em um bom dia quando o assisti. 🙂

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. A atriz Sigourney Weaver declarou, em algumas entrevistas, que se espelhou no próprio James Cameron para interpretar a cientista perfeccionista e idealista Grace Augustine. Segundo os produtores de Avatar, 40% do filme é composto de “live action” (o trabalho “realista” dos atores) e 60% de uma composição que mistura interpretações reais com computação gráfica. Foram desenvolvidos, para o filme, uma série de aparatos de alta tecnologia para que a computação gráfica fosse utilizada de maneira inovadora.

James Cameron se convenceu de que a tecnologia da computação gráfica havia chegado no ponto em que ele gostaria para realizar Avatar depois que ele assistiu o trabalho feito com o personagem de Gollum no filme The Lord of the Rings: The Two Towers (de 2002).

A linguagem Na’vi, segundo as notas de produção de Avatar, foi criada pelo linguista Paul R. Frommer “do zero”. Ou seja, ele não se baseou em nenhum outro idioma para criar a forma com que os habitantes de Pandora se comunicam. Frommer teria aceitado o desafio de criar uma linguagem totalmente nova e elaborou uma coleção de mil palavras neste idioma inusitado.

A palavra “unobtainium” (material encontrado em Pandora que motiva a cobiça humana) é utilizada de uma forma bem-humorada pela indústria aeroespacial. O termo descreve um material que teria uma aplicação perfeita para fins científicos, mas que se torna inviável porque não existe, ou é muito caro ou simplesmente viola as leis da física.

Inicialmente o estúdio responsável por Avatar havia apontado Matt Damon e Jake Gyllenhaal como candidatos para o papel de Jake Sully, mas James Cameron acabou ganhando na queda de braço e apostando em um ator desconhecido do grande público.

Avatar significa, em sânscrito, “encarnação”. O termo era muito utilizado nas escrituras hindus para fazer referência à encarnação humana de Deus. Isto interessa porque, segundo James Cameron, os Na’vi de seu filme são azuis como forma de criar um paralelo conceitual com as representações hindus de Deus – que podem ser vistas, desta forma, nas imagens de Vishnu, Shiva, Rama, Krishna, etcétera -, além do fato de que o diretor diz “gostar desta cor”.

A palavra Ey’wa, que no filme é aplicada para identificar a divindade do povo Na’vi – que seria algo como a “deusa Natureza” – faz referência à pronúncia de Yahweh, termo que identifica Deus para os hebreus.

Cameron disse no programa The Tonight Show with Conan O’Brien que havia começado a trabalhar nos desenhos preliminares de Avatar em 1995, mas que teve que esperar uma década para começar a tornar seu projeto viável nos conceitos visuais e de efeitos especiais.

Algumas das idéias apresentadas em Avatar, como o conceito de uma “rede de árvores” que preserva a memória dos mortos aparecem na série intitulada Ender de autoria de Orson Scott Card. Segundo esta notícia publicada pelo site Adoro Cinema, Cameron teria ainda sido acusado de plagiar a graphic novel Firekind, publicada na Inglaterra em 1993 por John Smith e Paul Marshall. Talvez para responder um pouco estas suspeitas, o produtor de Avatar informou, neste mês, que James Cameron deve publicar um livro que antecede cronologicamente o que acontece no filme ainda este ano. A obra, a primeira lançada por Cameron, serviria como um prelúdio ao que os espectadores assistiram em Avatar.

Falando do tema de alta tecnologia utilizada em Avatar, queria comentar que eu discordo da aura de “revolução cinematográfica” que circunda este novo filme de James Cameron. Concordo sim que o filme é belíssimo visualmente e que convida os espectadores a uma experiência diferenciada com a forma com que a produção trabalha os recursos 3D. Ainda assim, falta um bom caminho ainda para que esta tecnologia faça uma revolução para o cinema da magnitude que significaram a passagem do cinema mudo para o falado e do cinema preto e branco para o colorido.

Para que o 3D realmente revolucione o cinema é preciso que o espectador se sinta ainda mais inserido no filme. Talvez com a adoção de óculos mais modernos, que realmente dão a sensação de tridimensionalidade, ou mesmo a adoção de luvas e/ou sensores acoplados aos espectadores em salas de alta tecnologia. Enquanto os videogames cuidam de inserir seus usuários realmente “dentro” das histórias, o cinema 3D ainda está a meio caminho disto.

Achei exagerado demais o tom “Rambo” que o filme assume lá pelas tantas. Para mim, ao menos, foi cansativo e desnecessário. Stephen Lang, coitado, poderia ter sido poupado desta. 😉 Também achei pueril demais a idéia que Cameron tenta vender de que os cientistas mostrados no filme eram, essencialmente, “do bem”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entendo que o diretor defenda a evolução da tecnologia (afinal, seu marketing depende disso) e da ciência, mas é no mínimo ridículo que alguém verdadeiramente acredite que a Dra. Grace Augustine e Cia. não percebiam que seus interesses por descobertas científicas eram financiados por uma organização movida por lucros e focada na exploração desleal de recursos naturais. A questão – pouco ou nada questionada pelo filme – é que muitos cientistas sérios “fecham os olhos” para questões éticas e não querem saber até que ponto suas descobertas podem ser usadas (ou já estão sendo) para fins antiéticos e/ou criminosos. A ciência não pode ser absolvida em Avatar como Cameron provavelmente gostaria.

Além dos atores citados anteriormente, vale comentar o desempenho dos seguintes atores: Joel Moore como o “simpático” e um tanto “invejoso” cientista Norm Spellman (que, posteriormente, acaba ajudando Sully em sua missão “maior” em Pandora); Giovanni Ribisi como o vilão Parker Selfridge, o homem que comandava as operações de exploração do valioso minério no planeta dos Na’vi; Michelle Rodriguez como Trudy Chacon, a militar de “bom coração” que acaba sendo fundamental em certo ponto da história; CCH Pounder (e isso é nome?) como Mo’at, a mãe de Neytiri que desempenha o papel de líder espiritual do clã onde o protagonista vai parar; e Dileep Rao como o Dr. Max Patel, cientista que também dá uma forcinha para o grupo de “salvadores da pátria” (no caso, de Pandora). Os demais são, realmente, coadjuvantes.

Para os que ficaram – com toda a razão – fascinados pela qualidade técnica de Avatar, nunca é demais nomear os seus responsáveis: James Horner é o veterano que assina a trilha sonora do filme; Mauro Fiore é o diretor de fotografia (impecável e estonteante, diga-se); a edição foi feita por James Cameron, John Refoua e Stephen E. Rivkin; o design de produção é assinado por Rick Carter e Robert Stromberg (outro trabalho magnífico); a direção de arte foi capitaneada por 12 profissionais sob a supervisão de Todd Cherniawsky, Kevin Ishioka e Kim Sinclair; o departamento de maquiagem, que envolveu o trabalho de 20 profissionais, foi coordenado por Michele Barber, Corinna Liebel, Angela Mooar e Sarah Rubano; e os departamentos de arte, de efeitos visuais e sonoros segue com uma lista de dezenas de centenas de profissionais.

CONCLUSÃO: Um espetáculo visual e para os sentidos em sua versão 3D – para mim, a única que deve realmente valer a pena ser assistida. Avatar segue o gosto de seu realizador, o roteirista e diretor James Cameron, em tudo que isso pode significar de interessante e de previsível. Misturando ficção cientítica (o tema preferido de seu realizador), mais uma história de “amor impossível” (alguém lembrou de Titanic?) e críticas interessantes sobre a capacidade do homem destruir tudo o que “toca” (uma versão contrária de Midas), Avatar se mostra um filme com grandes idéias, uma boa dose de “mistura pop” e uma realização impecável.

O problema é que o filme, que começa muito bem e segue interessante e desafiador até pouco mais de uma hora, depois se perca nos vícios de Cameron. O diretor esquece o primor narrativo que vinha imprimindo à produção e cai em uma série de lugares-comum de filmes que tratam de batalhas de conquista e resistência. Instigante em sua proposta visual e pueril em sua narrativa (especialmente da metade do filme para o final), Avatar mescla alta tecnologia com a busca por uma forma de vida ideal e impraticável. No final das contas, esta é a produção de um sonhador chamado James Cameron. O filme tem algumas sequências estonteantes, impressionantes, e uma certa carga de emoção imprevisível. Uma pena que ele seja longo demais e que caia em qualidade em certo momento, abrindo o flanco para uma história “a la Rambo” que poderia ter sido contornada. Os avanços técnicos desta produção, infelizmente, não encontram eco em inovações narrativas.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Avatar era o último filme que me faltava assistir da lista de 10 indicados na categoria de Melhor Filme. Agora sim, fechei a lista. 😉 Como eu já esperava, não mudei a minha opinião sobre o filme que deveria ganhar este ano nas categorias Melhor Filme e Melhor Direção: The Hurt Locker. Ainda que eu tenha me surpreendido positivamente com Avatar – francamente eu esperava algo pior -, vejo outros filmes como sendo melhores que ele este ano. Na minha lista de preferência, a sequência de produções que poderiam ganhar o principal prêmio do Oscar seria: The Hurt Locker, Precious, Inglourios Basterds, An Education, A Serious Man e, finalmente, Avatar.

Acredito que The Hurt Locker ganhe de Avatar na disputa por Melhor Filme – isso não ocorreria apenas no caso de uma zebra, com os votantes da Academia premiando um terceiro filme conforme os votos fossem sendo computados para o chamado “consenso” feito pela instituição (aqui informações mais detalhadas sobre esta teoria em texto da sempre excelente Ana Maria Bahiana). Outro fator que pode atrapalhar The Hurt Locker em sua merecedíssima premiação (quem acompanha este blog sabe que venho apontando ele como favorito há bastante tempo) é uma certa lambança que o produtor encrenqueiro Nicolas Chartier fez na reta final da escolha para os melhores do ano feita pelos votantes (detalhes neste e neste outro texto de Ana Maria Bahiana). Seria uma pena The Hurt Locker perder o Oscar de Melhor Filme por causa deste imbecil. Mas enfim, o negócio é esperarmos para ver…

Na categoria de Melhor Diretor, mesmo que James Cameron tenha feito um grande trabalho – especialmente na concepção visual de Avatar e na condução impecável da primeira metade do filme -, considero o olhar diferenciado e o pulso firme de Kathryn Bigelow favoritos para o prêmio. Estava na hora também de uma mulher ganhar nesta categoria do Oscar, oras bolas – ainda mais quando ela tem todos os méritos. Se Bigelow não ganhar, preferia o trabalho de Quentin Tarantino que o de Cameron.

Vejamos as outras sete categorias em que Avatar concorre: não acredito que o filme vença em Melhor Trilha Sonora ou Melhor Edição (o favorito é The Hurt Locker); por outro lado, ele é o favoritíssimo para levar as estatuetas de Melhor Direção de Arte, Melhor Direção de Fotografia (pode perder esta estatueta apenas para Das Weisse Band ou The Hurt Locker), Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som (corre o risco de perder para Star Trek) e Melhores Efeitos Especiais. Se ganhar nestas categorias técnicas que considero ele como favorito, Avatar sairá do Oscar com cinco estatuetas, podendo chegar a sete (se vencer em edição e trilha sonora). Não será um mal negócio para os produtores do filme e James Cameron.

SUGESTÕES DE LEITORES: Era inevitável que eu assistisse a esse filme em algum momento. Especialmente porque este ano resolvi me esforçar para assistir a todos os principais concorrentes do Oscar antes que a premiação ocorresse. Sei lá, acho que isso segue a minha linha de ser “meio do contra” – afinal, há tempos o Oscar não parecia tão sem “brilho” como neste ano. Avatar fecha a lista dos 10 filmes indicados na categoria principal da premiação. Mas é importante comentar que o José Carlos Dias havia publicado, no dia 20 de dezembro de 2009, um comentário em que pedia uma crítica do filme aqui no blog. Pois bem, José Carlos, eu demorei bastante – porque não tive como assistir a uma cópia 3D antes -, mas acabei cumprindo a promessa de assistir a Avatar. Agora, espero um comentário teu aqui sobre o filme e sobre o meu texto. Um abração e obrigado por mais esta dica das boas.

Ágora

A reconstrução de uma época ímpar para a Humanidade de uma forma que você nunca viu. Ágora, novo filme do brilhante Alejandro Amenábar, mergulha em Alexandria, uma das cidades mais importantes de todos os tempos, para narrar a vida de uma mulher excepcional, nos mostrar como e porque grande parte do conhecimento adquirido até então foi destruído e também para refletir sobre o início da supremacia cristã. Violência, disputa pelo poder, gosto pelo conhecimento, um embate incrível entre crenças e escolhas faz de Ágora um dos filmes mais potentes deste início de ano. Perfeito na forma de resgatar uma era, Ágora é um deleite para os olhos e um prato cheio para os amantes da história ocidental, além de uma reflexão interessante sobre a insignificância do arrogante ser humano. Mesmo com todas suas qualidades, sua visão romântica de determinados fatos históricos impedem que o filme seja perfeito.

A HISTÓRIA: No final do século IV, o Império Romano começa a desmoronar e, apesar disto, a cidade de Alexandria, no Egito, preserva parte do esplendor dos tempos de “ouro” da Antiguidade. Ali, continua preservada uma das sete maravilhas do mundo daquela época, o Farol de Alexandria, além da cidade abrigar uma majestosa e importantíssima Biblioteca – que, além de reduto do conhecimento, era um símbolo religioso “pagão” importante. Neste cenário, uma mulher se destaca: Hypatia (Rachel Weisz), uma filósofa que ensina matemática, astronomia e astrologia para jovens de várias partes do Império. Fora das paredes da Biblioteca de Alexandria, contudo, crescem as disputas entre cristãos, judeus e pagões. O embate entre as diferentes crenças e a disputa pelo poder vai marcar o fim de uma era para a civilização ocidental e marcar o início de uma outra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ágora): O primeiro aspecto da nova produção do genial Alejandro Amenábar que impressiona é a sua reconstrução histórica. Há tempos eu não assisto a um épico como este, tão rico em detalhes e no resgate de cenários, vestimentas e objetos de uma época – em lugar do cada vez mais costumeiro uso de efeitos CGI, ou seja, da apresentação de cenários e outros detalhes através da computação gráfica.

Em Ágora tudo é feito do “jeito antigo”. Um trabalho excepcional de reconstrução de época comandado por Amenábar e com o talento decisivo de pessoas como o diretor de fotografia Xavi Giménez; o design de produção impecável de Guy Dyas; a direção de arte incrível de um time de profissionais comandado por Frank Walsh; a decoração de set de Larry Dias e o figurino de Gabriella Pescucci. Vale citar ainda a trilha sonora de Dario Marianelli e a edição de Nacho Ruiz Capillas. Como no caso de filmes como Spartacus, Ben-Hur, entre outros, Ágora é, sobretudo, um trabalho de equipe.

Depois do impacto inicial do “ambiente” perfeitamente resgatado da Alexandria do século 4, o espectador mergulha fundo na história contada pelo roteiro de Amenábar e do premiado Mateo Gil. Ágora é destes filmes com muitas leituras e significados. Os mais evidentes, logo no início, se referem ao fim de uma era e ao início de uma outra. A disputa entre diferentes religiões, formas de poder e, principalmente, maneiras de encarar o mundo e a vida estão no foco dos roteiristas. Além disto, seguindo parte dos manuais das histórias clássicas, Ágora ainda abre espaço para romances, histórias de traições, disputas pelo poder e a queda de braço entre “heróis” e “vilões”.

Mas além de tudo isso, este filme é a história de uma mulher corajosa, destemida, sábia, admirada e temida quase nas mesmas proporções. Mesclando elementos de algumas das heroínas da Antiguidade e a imagem de figuras mais “modernas” como Joana D’Arc, a personagem principal desta história, Hypatia, mantêm-se “acima” da barbárie reinante e apresenta um comportamento permanentemente digno. Mesmo perto de personagens ambíguos, como é o caso do escravo e depois liberto Davus (Max Minghella), ela mantêm um comportamento reto, digno, capaz de perdoar gestos brutos e de desrespeito.

Muito interessante, aliás, o resgate desta personagem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Amenábar poderia apenas se lançar em um filme épico sobre Alexandria, a derrocada do Império Romano e a arrancada do catolicismo. Mas ele escolheu um olhar diferenciado e o resgate da história daquela que, para muitos, marcou o pioneirismo intelectual feminino da nossa civilização. A busca de Hypatia por entender mistérios como o comportamento dos astros em relação à Terra e ao Sol é emocionante – e não sei vocês, mas em certo momento do filme eu tive vontade de gritar para ela: “Não pense em um círculo, mas em uma elipse!!”. 😉

A verdade é que a forma de contar esta história, valorizando no primeiro plano a heroína de Ágora e os demais personagens, torna este filme com uma grande pegada humana. A idéia do diretor, sem dúvida, foi manter o espectador sempre muito próximo dos personagens principais do filme. Muitas vezes a câmera se insere na intimidade deles, o que nos leva a “torcer” por uns ou outros. Além de inserir uma certa disputa amorosa no filme – algo, convenhamos, um tanto desnecessário -, Amenábar e Gil buscam o contraste entre as histórias particulares de alguns personagens e o estilo de vida do coletivo de pessoas que viviam naquele tempo e naquele lugar.

Rachel Weisz está especialmente bela, carismática e encantadora neste filme. Impossível não entender, através das lentes do diretor, o fascínio que aquela figura resoluta despertava em homens tão diferentes como Davus e Orestes (Oscar Isaac). Mesmo Synesius (Rupert Evans), que desde o princípio parecia destinado a ter uma vida dedicada à religião, não escondia a sua admiração e fascínio por Hypatia. O roteiro de Ágora consegue equilibrar bem o “particular” e o “universal” desta história, intercalando sempre os embates envolvendo Hypatia e aqueles que ocorriam em um nível mais amplo, no caso, pela cidade.

Ainda que o foco do filme seja Hypatia e sua busca pelo conhecimento em contraste com o fanatismo e a violência dos diferentes coletivos religiosos que dividiam espaço em Alexandria naqueles dias, um elemento que impressiona neste filme é o dos bastidores da consolidação do cristianismo. Francamente, como católica, eu sempre soube dos absurdos praticados ao longo do tempo em nome de Jesus – como a Inquisição, as Cruzadas e etcétera. Mas não sabia dos detalhes que cercaram o fim das perseguições aos cristãos e o início da era em que esta religião fosse legalizada e, posteriormente, se tornasse a religião oficial do Império Romano. Simplesmente estarrecedor o que Ágora nos mostra a respeito.

Até imagino o que alguns cristãos mais “enfáticos” podem falar a respeito: de que não havia outra saída para os cristãos do que empunhar armas e cometer barbaridades como aquelas vistas no filme. Muitos podem justificar aqueles atos dizendo que por três séculos os cristãos haviam sido perseguidos e mortos e que, finalmente, eles deveriam “dar o troco” para conseguir sobreviver. De fato, e levando em conta o contexto da época, possivelmente a história da nossa civilização seria outra se os cristãos não tivessem utilizado os mesmos recursos de matança e perseguição adotados por judeus e governantes romanos anteriormente. Ainda assim, acho difícil engolir que aqueles atos, tão distantes do que Jesus havia pregado, tenham sido fundamentais para que o Cristianismo predominasse no mundo. E o pior é que até hoje tem pessoas cegas ao que a Bíblica e o cristianismo deveria realmente ensinar. Ágora talvez, especialmente por este aspecto, seja ainda muito atual – e emblemático.

Para não dizer que o filme é perfeito – bem que eu gostaria de classificá-lo assim -, contudo, devo comentar certas “suavizadas” ou romantizadas na história que enfraquecem a produção. Para começar, como comentei anteriormente, achei desnecessária a apresentação de um virtual “triângulo amoroso” em Ágora. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que Hypatia não ceda nunca ao flerte de Orestes ou à investida bruta de Davus, a sugestão de uma rivalidade entre os dois homens com perfil propositalmente oposto acaba se mostrando forçada. O final é especialmente impressionante. Hypatia expõe seus últimos ensinamentos para os ex-alunos Orestes e Synesius, em algumas das melhores frases do roteiro. Mas o finalzinho da história acaba, mais uma vez, tirando um pouco do brilho desta produção. A verdade é que a protagonista não recebeu nenhum tipo de proteção ou gesto de compaixão – como pode-se perceber em alguns textos que falam sobre a sua história. O filme deveria ter sido honesto neste ponto, mesmo que ele desagradasse ao público em busca de uma história “romântica”.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curiosa a “dança de cadeiras” das religiões/crenças no período histórico focado por Ágora. Antes do cristianismo crescer de forma exponencial e começar a dominar o cenário do “mundo civilizado” antigo, os chamados “pagãos” eram dominantes. Depois, foi a vez do judaísmo, a mais antiga das religiões monoteístas. A curiosidade destas disputas reside na forma com que o que era antes dominante passa a ser proibido ou combatido logo depois. Certamente “evoluímos” muito para chegar no estágio em que estamos, quando em teoria as pessoas tem a liberdade para escolherem o seu credo e um mesmo país permite que distintas religiões sejam praticadas em seu território sem restrições.

Ágora não é um tratado sobre religiões ou sobre a queda do Império Romano. Ainda assim, ele traz à tona alguns elementos para provocar reflexões nos espectadores. O crescimento do cristianismo, por exemplo, teve uma ligação determinante com a necessidade de uma mudança social naquela época. Pessoas como Davus, então escravo, enxergavam no cristianismo uma válvula de escape para a sua condição de excluído da sociedade. O que não deixa de ser algo curioso, já que em sua época, o próprio Cristo se negou a assumir a posição de um líder político que provocasse uma revolução social. Pois 300 e poucos anos depois isso iria acontecer.

Terminando com o tema das religiões, queria apenas destacar uma parte importante do filme, quando o bispo Cyril (Sami Samir) declara que os judeus haviam sido julgados por Deus e que, assim, eles estariam “amaldiçoados e exilados até o final dos tempos”. Argumento esse que acabou justificando inúmeras perseguições e o extermínio de grandes coletivos de judeus em diferentes épocas históricas. Impressionante como o ódio em que uma religião pode ser fundada pode ter reflexos tão ultrajantes tantos séculos depois.

Para as pessoas que ficaram, como eu, curiosas para saber mais sobre a história de Hypatia, recomendo algumas leituras ligeiras. Para começar, este texto (em inglês) da Wikipedia que traz, inclusive, uma reprodução dela feita por Raphael. O bacana do texto é que ele resgata não apenas a vida, o trabalho e a morte de Hypatia, mas também seu legado em diferentes áreas da ciência e da arte. Para quem quer saber mais, o texto da Wikipedia ainda remete para outras fontes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Destaco ainda este texto (também em inglês) de Jim Haldenwang, que conta detalhes da vida e da morte de Hypatia, comentando que seu assassinato (muito mais cruel do que aquele mostrado no filme) marcou o início da Era das Trevas. Vale a pena ainda a leitura deste texto, do Heritage Key (em inglês) e este outro, em português.

Sobre a Biblioteca de Alexandria e a sua destruição, achei ilustrativos este texto da InfoEscola e este outro (do qual não identifiquei a autoria).

Rachel Weisz está segura e perfeita no papel da protagonista. Mas é importante citar que Max Minghella, que interpreta a Davus, também faz um trabalho excepcional. Junto com eles, merecem destaque os já citados Oscar Isaac e Ruper Evans, respectivamente Orestes e Synesius; assim como Ashraf Barhom como Ammonius, o “milagreiro” que ajuda a converter pessoas ao cristianismo – e atrai Davus para a religião; Michael Lonsdale como Theon, pai de Hypatia; Richard Durden como Olympius, o líder de um ataque covarde contra os cristãos e que seria decisivo para o futuro da Biblioteca de Alexandria; Manuel Cauchi como o bispo Theophilus, que antecedeu Cyril; e Homayoun Ershadi como Aspasius, o escravo de Hypatia que foi seu fiel colaborador e interlocutor após a libertação de Davus.

Não sei vocês, mas eu não sabia o significado da palavra ágora até assistir a este filme. Como este texto (em espanhol) esclarece, a palavra ágora tem origem no idioma grego e era usada para denominar as praças públicas e as assembléias que eram celebradas nestas praças das cidades (polis) da Grécia. Com o tempo, a palavra passou a ser utilizada como referência a outros lugares de reunião ou discussão. No caso do filme, a palavra deve ter duplo sentido: o de lugar onde as decisões da civilização são tomadas e debatidas e, ao mesmo tempo, o de “anarquia” ou quebra de um poder estabelecido.

Gostei de um recurso utilizado pelo diretor Alejandro Amenábar de tempos em tempos – o de afastar a narrativa até o espaço, mostrando a Terra desde fora. Uma forma interessante de sugerir que tudo aquilo que estava acontecendo na “pequena” Alexandria era algo minúsculo diante da imensidão do espaço e que nós, seres humanos, na nossa arrogância, nos sentimos mais importante do que realmente somos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Ágora. Até o momento, poucos críticos comentaram sobre o filme. O Rotten Tomatoes abriga apenas oito textos sobre a produção: quatro deles positivos, quatro negativos – o que garante uma aprovação de 50% para o filme.

Das críticas linkadas no site, destaco esta publicada por Todd McCarthy, da Variety. Ele começa seu texto assim: “A mãe de todos os humanistas seculares luta uma batalha perdida contra os recém-cunhados fanáticos religiosos em Ágora, um visualmente impositivo épico ambicioso que coloca um dos momentos cruciais da história ocidental pela primeira vez na tela”. Para McCarthy, o filme de linguagem elaborada é espetacular de forma consistente e apresenta bastante conflito e ação para torná-lo comercial. Ainda assim, o crítico afirma que o estilo pesado e a falta de um impulso emocional pode “causar problemas” na aceitação do filme pela audiência de massa dos Estados Unidos.

McCarthy comenta que Ágora se concentra, muito mais do que outros filmes, em questões como o lugar que a “humanidade ocupa no universo, a necessidade humana de compreender o cosmos e o debate sobre a existência de uma única divindade”. Ele destaca como a destruição da biblioteca de Alexandria, o “repositório de todo conhecimento do mundo até aquele momento”, é o evento dramático principal da história, enquanto que em paralelo é explorado a ação de fanáticos cristãos. O crítico considera Hypatia o “olhar racional em meio ao furação intelectual e religioso” retratado pelo filme. Gostei da observação dele de que os cristãos vestidos de roupas escuras, em certo ponto do filme, lembram a ação de formigas. Para McCarthy, ainda que os acontecimentos dramáticos dêem um impulso natural para o filme, os dramas pessoais nunca conseguem se conectar com a força desejada. Ele questiona a forma com que a personagem de Hypatia é apresentada, sempre com a “cabeça nas nuvens” e desconectada do que está acontecendo ao seu redor, assim como a falta de força dos atores que interpretam os homens que a “disputam” no filme. Mas o visual da produção e seus acertos, para McCarthy, superam as falhas dramáticas do roteiro.

Ágora foi indicado, até o momento, em 18 categorias de duas premiações. Nos Prêmios Goya, o “Oscar” do cinema espanhol, Ágora saiu vencedor em sete das 13 categorias em que concorreu. A produção ganhou como melhor roteiro original, melhor direção de produção, melhor direção de fotografia, melhor direção artística, melhor desenho de vestuário, melhor maquiagem e melhores efeitos especiais.

A trajetória da superprodução comandada por Amenábar começou no Festival de Cannes em maio de 2009. De lá para cá, o filme participou de outros três festivais e estreou em nove mercados pelo mundo – mas ainda não chegou aos Estados Unidos. Ágora custou importantes US$ 73 milhões – torço para que ele se dê bem nas bilheterias e, pelo menos, consiga se pagar.

CONCLUSÃO: Um filme visualmente perfeito que conta uma história espetacular. Vários temas estão em jogo em Ágora, mas o centro da narrativa é a vida da filósofa e cientista Hypatia, uma mulher excepcional muito à frente de seu tempo e que, por isso mesmo, vira alvo de quem procura converter as pessoas para uma fé sem questionamentos. O filme marca o retorno do genial Alejandro Amenábar depois de cinco anos – seu último filme foi o emocionante Mar Adentro. Bem narrado, com um roteiro envolvente e uma narrativa que mistura ação, romance, religião e uma importante reconstrução de época, Ágora opõe ciência e fanatismo, a iluminação do conhecimento e o obscurantismo dos fanáticos. Além de remontar um local incrível como era a cidade de Alexandria, esta história provoca um forte impacto no público ao mostrar uma parte do embate entre as religiões no século 4 pouco ou nada explorada pelo cinema. Um filme impressionante que mostra parte do contexto da época sem censuras. Pena que ele tente suavizar alguns aspectos da história de Hypatia e force algumas situações de romance, assim como torna alguns personagens unidimensionais. Ainda assim, é um filme impactante e que merece ser visto.

SUGESTÕES DE LEITORES: Ágora estava na minha mira para ser assistido desde que ele estrou no Festival de Cannes no ano passado. Ainda assim, devo dizer, que o comentário do Mangabeira aqui no blog me fez ter ainda mais vontade de assistí-lo. Sendo assim, Ágora passou a ser a minha prioridade, passando na frente de outras produções que estavam na fila. Mangabeira, agora precisas vir aqui e comentar o que achaste do novo filme do Amenábar. Espero, sinceramente, que gostes dele. Eu adorei – ainda que ele não seja perfeito. Mas nem só de perfeição a gente vive, não é mesmo? Continuo sendo fã do diretor.

The Messenger – O Mensageiro

Há temas que afetam muito mais a determinados países e/ou coletivos do que outros. Os efeitos da Guerra do Iraque, por exemplo, tem um apelo direto no público dos Estados Unidos porque eles vivem na pele a ausência e a perda de amigos e familiares. O mesmo, claro está, ocorre com os iraquianos (de forma muito mais profunda, eu diria) e demais nacionalidades envolvidas no conflito. Um país que não enfrenta periodicamente os problemas provenientes das guerras não entende todas as dimensões que ela afeta ou as feridas que acarreta. Por isso mesmo, The Messenger não terá o apelo com o público brasileiro como ele consegue ter com o estadunidense. Com dois atores perfeitos e um roteiro com muitos altos e baixos, este filme se debruça sobre os efeitos da guerra na casa e no quintal dos estadunidenses. Ao trazer para a frente das câmeras um olhar mais particular sobre a guerra, The Messenger procura dar nome e rosto para os familiares em luto, tornando cada perda da guerra em algo particular. O resultado é impactante no início, mas depois a produção vai perdendo força e trilhando caminhos previsíveis demais.

A HISTÓRIA: O sargento Will Montgomery (Ben Foster) passa por mais uma consulta médica antes de se encontrar com Kelly (Jena Malone), uma antiga namorada que atualmente está noiva de Alan (Michael Chernus). Atualmente, Montgomery tem que se acostumar com as visitas rotineiras ao médico. Faltando três meses para terminar o seu período de alistamento, ele acaba sendo designado para trabalhar ao lado do capitão Tony Stone (Woody Harrelson) em um tipo de trabalho que ele jamais imaginou desempenhar: o de comunicar os familiares sobre a morte de seus entes queridos na Guerra do Iraque. Depois de vencer a morte e salvar amigos do Exército na guerra, Montgomery acreditava que tinha sido preparado para tudo, mas se surpreende com os desafios que a vida “comum” podem lhe apresentar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Messenger): A primeira parte do roteiro de Alessandro Camon e do diretor Oren Moverman é bastante promissora. The Messenger começa de uma forma diferente do usual, focando o protagonista, considerado um herói, de maneira fria e em atitudes pouco honradas. Afinal, não sabemos em detalhes quem é Kelly, mas logo fica claro que Montgomery está colocando os chifres em alguém. Esta desmistificação do “herói de guerra” parece ser um dos objetivos principais do filme. Os protagonistas de The Messenger parecem tudo, menos modelos a serem seguidos – isso se alguém ainda acredita que existam “modelos” a serem seguidos. 😉

Depois de apresentar um comportamento um bocado antissocial, Montgomery é apresentado a uma missão que considera quase uma “piada”. Ou, talvez, uma espécie de castigo. Até que entra na primeira casa junto a Stone para informar os familiares do primeiro soldado morto, Montgomery considera o trabalho no Grupo de Notificação de Vítimas e seus protocolos um desperdício de tempo para um militar. O espectador, colocado na posição de Montgomery, também não entende muito bem que tipo de missões são aquelas, até que o trabalho começa a ser feito. E daí entra a parte mais interessante de The Messenger: cada comunicado nos transporta para a intimidade das famílias dos soldados mortos, acabando de uma vez com a política dos “números de guerra” e passando a humanizar a barbárie.

Isso funciona por um tempo ou, melhor dizendo, até a segunda visita da dupla Montgomery/Stone aos familiares dos soldados aniquilados. A partir do momento em que o protagonista se encontra com a personagem de Olivia Pitterson (Samantha Morton), o roteiro de The Messenger dá uma guinada fundamental para o desenrolar da história. Pena que ela essa guinada foi feita para o lado errado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, quantos filmes já foram feitos sobre o “difícil que é a vida para um ex-combatente”? Inúmeros, hein? Poderia fazer uma lista deles. Por isso mesmo que a partir do momento em que The Messenger resolve mostrar os “fantasmas” e feridas nunca cicatrizadas da dupla de protagonistas ele se torna praticamente “mais um” na lista. Alcoolismo, falta de tato social, violência exagerada, uma constante falta de paciência e dificuldade de dormir, todos estes sinais que “acompanham” soldados que voltaram de uma guerra já são velhos conhecidos de quem acompanha os filmes do gênero produzidos por Hollywood.

Além disso, o roteiro de The Messenger simplifica demais os seus personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Todos estão sofrendo, de uma forma ou de outra. Os protagonistas não se adaptam a uma vida normal, enquanto que o luto dos familiares por eles notificados aparece e desaparece de forma muito pontual – com exceção para a personagem de Olivia que acaba virando obsessão para Montgomery. Todos aquelas pessoas parecem um tanto “rasas” demais. Não há sutileza em parte alguma, apenas um permanente tom acima do normal. Nenhum dos personagens parece capaz de sentir algum prazer verdadeiro – o sentimento de perda eterna permeia todas as relações. Até mesmo a aproximação de Olivia e Montgomery está carregada de culpa, remorso e dor.

Não quero dizer, com tudo isso, que estes sentimentos não sejam condizentes com muito da “realidade” explorada pela história. Mas será mesmo que todos os minutos daquelas pessoas todas se resumem a isso ou houve uma exagerada no roteiro para que estes sentimentos de luto e perda estivessem a todo momento na tela? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Achei um tanto forçada a tentativa do protagonista em se aproximar de Olivia. Inicialmente, ele parecia ter apenas a curiosidade em “desmascarar” aquela mulher que, em sua opinião, não reagiu como deveria com a notícia da morte do marido. Mas depois, ele realmente parece enxergar nela uma alternativa de “felicidade”. Certo que Montgomery e Stone parecem estar permanentemente em busca de alguma sensação de prazer, de compreensão, mas honestamente isto não aparece de forma tão convincente como deveria.

A culpa desta falta de convencimento não está na dedicação dos atores para seus papéis e sim nas linhas de roteiro algumas vezes pouco críveis. Ben Foster e Woody Harrelson tem desempenhos muito bons, bem acima da média – deles próprios e de outros atores em papéis similares. Ainda assim, o trabalho de ambos não é suficiente para evitar que The Messenger caia em lugares comum e desvie seu foco de uma direção inicial que parecia muito promissora. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Dar nome e apresentar um contexto para as vítimas das guerras em que os Estados Unidos se envolve colocando o espectador dentro do quintal de quem sofre com o luto sem fazer disso um melodrama foi um acerto da produção. Questionar também a finalidade destas mortes e a noção de “herói de guerra” sem fazer grandes discursos a respeito também é algo sempre interessante de ser feito no cinema. Agora bater na velha tecla das “marcas indeléveis” que uma guerra provoca em quem volta para “casa” sem apresentar a força vista em The Hurt Locker, para citar um exemplo recente, foi um verdadeiro desperdício.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As ironias proferidas pelo personagem de Woody Harrelson são alguns dos pontos altos do roteiro do diretor Oren Moverman e de Alessandro Camon. Pena que a “fina ironia” do personagem se perca depois nas lamentações e algumas frustrações do superior que se sente “abaixo” – ainda que não admita – do subordinado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei especialmente irritada com uma cena: quando Tony Stone chora no sofá de Montgomery depois que ele narra a experiência que teve salvando companheiros de pelotão na guerra. Honestamente? Não era para tanto. Aquele mesmo choro, apresentado de outra forma, teria me convencido, mas não como a cena foi filmada por Moverman. Talvez a cena emocione a muitas pessoas, mas a mim ela apenas me deixou decepcionada.

The Messenger é um filme declaradamente de dois atores: Ben Foster e Woody Harrelson, nesta ordem. Ainda assim, há personagens secundários que roubam a cena quando aparecem. Destaco, em especial, aos atores Steve Buscemi, que interpreta ao enlutado Dale Martin; Eamonn Walker como o coronel Stuart Dorsett, responsável por aproximar Montgomery e Stone; e a Yaya DaCosta como Monica Washington, namorada do soldado Leroy, e Portia, que interpreta a mãe do militar, a primeira dupla a nos emocionar.

Gostei do estilo de direção de Oren Moverman. Ele assume a postura de um documentarista e, geralmente, acompanha os passos de seus atores como um observador “da realidade” que está sendo mostrada. Claro que tudo isso é mais que intencional. The Messenger, com esta idéia de “câmera na mão” e uma narrativa seguindo a ótica dos personagens – especialmente a de Montgomery – busca aprofundar o “mergulho” no cotidiano que a história busca desvelar. Uma escolha acertada, ainda que nada inventiva.

The Messenger caiu nas graças da opinião do público e da crítica. Até mais dos segundos do que dos primeiros. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 7,6 para a produção. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 88 textos positivos e apenas 10 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 90%. Nada mal!

O filme dirigido por Oren Moverman completou mais de um ano de “estrada”. Ele começou sua caminhada no Festival de Sundance em janeiro de 2009 e, de lá para cá, participou de outros 17 festivais pelo mundo. Pouco a pouco The Messenger foi conquistando sete prêmios e acumulando outras 16 indicações. Entre os mais importantes que conquistou estão dois prêmios no Festival de Berlim – o de melhor roteiro e o “Peace Film Award” para Oren Moverman – e dois prêmios como melhor filme (pela crítica e o prêmio principal) no Festival de Cinema de Deauville. O respeitado National Board of Review também entrou os prêmios de melhor ator coadjuvante para Woody Harrelson e o “Spotlight Award” para Moverman. Samantha Morton recebeu, merecidamente, o prêmio de melhor atriz coadjuvante na premiação anual da Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego. No Globo de Ouro, The Messenger apareceu apenas em uma categoria: a de melhor ator coadjuvante tendo Woody Harrelson como concorrente. Mas como todos que leram este texto sabem, Harrelson não ganhou o prêmio.

O filme não tem se saído bem nas bilheterias. Pelo menos nos Estados Unidos. Até o dia 7 de fevereiro The Messenger tinha arrecadado pouco mais de US$ 804 mil nas bilheterias. Um valor muito baixo, especialmente porque este tema e, principalmente, o enfoque da produção deveria agradar, especialmente, o público estadunidense.

Para os interessados na parte técnica do filme, vale citar o trabalho do diretor de fotografia Bobby Bukowski; a edição de Alexander Hall e a trilha sonora de Nathan Larson.

Entre os críticos que gostaram de The Messenger destaco Rex Reed, do The New York Observer. Ele comenta, neste texto, que muitos filmes que trataram dos conflitos no Oriente Médio se deram mal nas bilheterias e que, agora, surge para o público o “sensível e inteligente” The Messenger. Reed destaca que a produção marca a estréia na direção do roteirista conhecido por I’m Not There. Para o crítico, The Messenger é superior ao filme sobre Bob Dylan, especialmente porque o filme conta com as interpretações espetaculares de Ben Foster, Woody Harrelson e Samantha Morton. Achei especialmente interessante quando o crítico comenta sobre a aproximação de Montgomery e Olivia, afirmando que cada um dos personagens demonstra “os efeitos da fadiga da batalha”, seja ela tendo sido travada “nas trincheiras ou na frente em casa”. Mesmo com todos os elogios, Reed admite que The Messenger sofre com uma série de clichês de produções do gênero.

Outro crítico que aprovou The Messenger foi Michael Phillips, do Chicago Tribune. Ele escreveu, neste texto, que o trabalho desempenhado pelos protagonistas do filme está entre os mais “exaustivos” que um ser humano pode ser chamado a desempenhar. Ainda assim, escreve Phillips, The Messenger não é um filme esgotante, pelo contrário. A produção oferece “uma gama completa de emoções delicada que humaniza os personagens e deixa as polêmicas para um segundo plano”. Comparando esta produção com The Hurt Locker, Phillips afirma que o único ponto em comum dos dois filmes é que ambos são apolíticos e “honram o guerreiro sem colocar a guerra em um trono”. O conflito de The Messenger reside na relação do protagonista com uma viúva de guerra, na visão do crítico. Phillips destaca a interpretação de Foster e Harrelson afirmando que ambos tem um desempenho “sólido como uma rocha e muito comovente”, e que Samantha Morton empresta veracidade e “calor” suficientes para sua personagem. Para o crítico The Messenger não trata de uma guerra específica, mas se apresenta “tranquilamente universal”.

Finalizando a sequência de críticos que aprovaram The Messenger, cito Claudia Puig, do USA Today, que afirma, neste texto, que todos sabem que não devem atirar no mensageiro e, ainda assim, as reações violentas vistas em The Messenger ao que os protagonistas comunicam tem um “sentido trágico”. Ela considera que a história de “cortar o coração” ganha um fascínio especial pelas “performances soberbas” de seus atores, especialmente Ben Foster e Woody Harrelson. Puig também destaca o trabalho de Samantha Morton, classificando seu desempenho de “sutil” e “excelente”. Para a crítica, The Messenger apresenta um “olhar completamente diferente sobre a Guerra do Iraque e os seus efeitos sobre soldados e civis”. A crítica do USA Today classifica a produção como um “retrato de tristeza, amizade e consolo”, e destaca o senso de autenticidade “corajoso” impresso pelos roteiristas Oren Moverman e Alessandro Camon. Para Puig, The Messenger é um companheiro perfeito para The Hurt Locker, o filme mais “poderoso” sobre a Guerra do Iraque e um “dos melhores do ano”.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos efeitos da guerra sem, para isso, mostrar um único combate ou explosão. The Messenger lança um olhar “doméstico” sobre a Guerra do Iraque ao narrar a história de dois militares que tem como missão informar aos familiares de soldados mortos em combate sobre as suas perdas. Filmado com uma levada de documentário, este filme acerta a mão em seu trecho inicial mas, depois, cai em uma série de clichês desnecessários. Além de dar nomes e uma dimensão familiar para os números de uma guerra, The Messenger se lança em uma reflexão natural sobre o sentido do luto reinante. Com atuações convincentes e algumas sequências realmente emocionantes, The Messenger se diferencia de muitas produções do gênero, até um certo ponto, mas depois perde força ao ceder espaço para vários lugares-comum. Infelizmente a “inventividade” do roteiro não se sustenta por muito tempo. Ainda assim, The Messenger não deixa de ser um complemento interessante para o infinitamente superior The Hurt Locker.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The Messenger foi indicado em duas categorias no Oscar deste ano: melhor ator coadjuvante para Woody Harrelson e Melhor Roteiro Original. Francamente, não vejo que o filme tenha chances nestas categorias. Por mais que Harrelson esteja muito bem no filme, ele não consegue superar o trabalho realmente impecável e inspirador de Christoph Waltz em Inglourious Basterds. Como roteiro The Messenger também perde para seus concorrentes. The Hurt Locker e Inglourious Basterds são superiores ao resultado final do trabalho de Alessandro Camon e Oren Moverman. Também gosto mais do roteiro dos irmãos Coen para A Serious Man. The Messenger, como eu disse antes, apresenta um roteiro muito irregular. Provavelmente o filme sairá de mãos vazias da premiação – seria uma zebra se ele ganhasse alguma das estatuetas.

The Imaginarium of Doctor Parnassus – O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus

Um diretor genial, um elenco estelar, o último trabalho de um ator premiado como Heath Ledger e, ainda assim, The Imaginarium of Doctor Parnassus parece uma obra inacabada. Algo está faltando. Ou muita coisa parece ter ficado no caminho. O mundo extraordinário do personagem título não convence como deveria. Em uma era em que James Cameron busca a perfeição em 3D, o filme de Terry Gilliam parece traços de um amador ou uma caricatura de um iniciante. Mesmo a história, que bebe na já conhecida lenda do “homem que tentou enganar o diabo”, não apresenta nada de novo, não reinventa a fórmula e, mesmo que tudo isso não seja necessário, nem mesmo convencer o filme convence. Falta encantamento e espaço para que o espectador possa explorar a sua imaginação – no filme de Terry Gilliam tudo é explicado demais.

A HISTÓRIA: Em Londres, uma companhia de artistas mambembe  busca público para seu espetáculo The Imaginarium of Doctor Parnassus. O jovem Anton (Andrew Garfield), vestido de Mercúrio, tenta chamar as pessoas que passam, mas ele não consegue atrair ninguém. Exceto por um grupo de jovens que beberam demais e que estão saindo da boate Medusa. Liderados por Martin (Richard Riddell), eles se aproximam do espetáculo, mas apenas Martin resolve perseguir a bela Valentina (Lily Cole), filha do Dr. Parnassus (Christopher Plummer). Tentando escapar do bêbado abusado, Valentina entra no espelho mágico. Lá dentro, Martin se perde em um mundo irreal criado por sua imaginação e estimulado pelo Dr. Parnassus. Em permanente movimento, o espetáculo muda de local e, no caminho, Dr. Parnassus volta a se encontrar com um antigo parceiro de apostas, Mr. Nick (Tom Waits). Perto de perder mais uma delas, Dr. Parnassus joga as cartas do baralho e pressente a chegada de Tony (Heath Ledger), um jovem desmemoriado que irá mudar a vida do grupo para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Imaginarium of Doctor Parnassus): Respeito muito o trabalho do diretor e roteirista Terry Gilliam. Ele é uma verdadeira lenda. Um dos remanescentes do genial grupo inglês Monty Phyton, Gilliam sobreviveu ao tempo e ainda produziu outros trabalhos independentes incríveis, como Twelve Monkeys e Fear and Loathing in Las Vegas. Prestes a completar 70 anos, contudo, ele deu um palso em falso com esta produção sobre o Dr. Parnassus. Em breve, quando estrear o novo filme de outro gênio dos cinemas, Tim Burton, Alice in Wonderland, ficará ainda mais evidente como Dr. Parnassus parece uma tentativa frustrada ou o trabalho de um amador.

Sem problemas um filme ser “nonsense” ou explorar de maneira descarada a imaginação cheia de simbolismos e lógicas escondidas. Esse não é o problema. A questão é que Dr. Parnassus não tem uma história interessante que sustente toda a “viagem” imaginada por Terry Gilliam. E o pior: na fase de alta tecnologia em que estamos, um filme não pode ficar no meio do caminho entre o artesanal e o visual produzido pela alta tecnologia. Em outras palavras, é possível sim produzir ainda obras no melhor estilo de Fellini, em que a imaginação ganha uma tintura quase teatral. O que não convence é quando Gilliam tenta fazer algo que mistura artesanato com alta tecnologia. Isso funcionava na década de 70, nos filmes revolucionários do Monty Phyton, mas agora essa estética parece apenas fora de moda.

Salta aos olhos do público efeitos especiais de quinta ou, sendo gentil, terceira categoria. Cito, explicitamente – entre outras – a sequência em que a imagem do Mr. Nick aparece em um rio de águas turvas que marca a escolha de uma dondoca incentivada por Tony a escolher o “desprendimento”. Se no visual o filme funciona apenas em parte – quando ele é escancaradamente teatral -, no roteiro ele também parece um bocado perdido. Há momentos em que o texto de Terry Gilliam e Charles McKeown consegue aliar intenções com execução, ou seja, que através da direção de Gilliam se torna interessante e convence o espectador. A maioria deles tem a ver com os diálogos entre Mr. Nick e Parnassus e entre Tony e Valentina. No mais, o roteiro de Dr. Parnassus é arrastado e previsível, carregado de poucas surpresas e, o que é fatal para um projeto como este, quase nenhum encantamento ou “magia”.

Provavelmente os fãs de Heath Ledger vão discordar de mim, mas nem da interpretação do ator eu gostei. Desde a primeira fala dele até a sua última nesta produção o astro me pareceu caricato. Ok, seu personagem pedia um tom um pouco exagerado de interpretação. Mas, ainda assim… ele não parecia, simplesmente, ele mesmo. Sem saber quando os outros atores iriam entrar em cena e a razão que seria dada no roteiro para isto – me recuso a ler textos sobre as produções que assisto antes de assistí-las -, Heath Ledger me parecia mais com Johnny Depp do que com Heath Ledger. Cheguei a respirar aliviada quando o próprio Depp entrou em cena – agora sim, rosto e interpretação estavam casando perfeitamente. Uma triste despedida para um ator tão talentoso quanto Ledger. A verdade é que seria melhor, para seus fãs, lembrarem do ator em outros de seus trabalhos.

Ainda que Christopher Plummer defenda bravamente o seu personagem de Dr. Parnassus, o nome deste filme é o de Tom Waits. O músico e ator simplesmente rouba a cena toda vez que aparece. Seu personagem, também, é o melhor desenvolvido do roteiro. Suas aparições e uma ou outra sequencia envolvendo Valentina – como as cenas em que ela está viajando com sua trupe e Gilliam aproveita para mostrar o lado itinerante do grupo e Londres durante a noite – valem o tempo gasto com a produção. Vale citar ainda o trabalho do ator Verne Troyer como Percy, fiel companheiro do Dr. Parnassus.

A reflexão sobre a capacidade das pessoas atualmente se sentirem maravilhadas pelo “mistério”, pela imaginação ou pelos contadores de história é interessante. Certamente o Diabo teria atualmente, em uma era do consumismo e dos valores facilmente intercambiáveis, muito mais chances de ganhar uma aposta do que o homem sábio e crente. Ainda assim, tanto tempo e tantos recursos para tratar desta velha história me parecem um desperdício. Nem sempre grandes nomes acertam em todos seus projetos. Por tudo isso, devo dizer que a nota abaixo está relacionada com o respeito que eu tenho à carreira de Terry Gilliam, porque o filme propriamente dito merecia muito menos. Talvez um 6. Infelizmente a imaginação e a ousadia do diretor e roteirista, desta vez, ficaram abaixo da média do mercado.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assistindo a este filme, fiquei com saudade do Dr. Caligari, personagem clássico lançado em 1920 pelo filme Das Cabinet des Dr. Caligari – que ganharia outras versões posteriormente. Naquela produção – e em outros do gênero – sim havia mistério, uma permanente sombra de perigo/morte e o convite provocativo para que o espectador imaginasse o que estava acontecendo. Em The Imaginarium of Doctor Parnassus tudo é explícito demais – e um bocado “fake” ou mesmo “kitsch”. Não combina muito com o final da primeira década do século 21 ou mesmo com a carreira inovadora de Terry Gilliam.

Como a maioria ou todos devem saber, Heath Ledger morreu enquanto o filme ainda estava sendo rodado. Com a morte do ator, a produção acabou sendo suspensa por alguns meses. A sorte de Terry Gilliam é que as cenas filmadas com Ledger permitiram que o trabalho do ator pudesse ser complementado com as atuações de Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. A aparição de cada um dos três casa perfeitamente com a premissa de que algumas pessoas podem mudar seus aspectos quando entram no “mundo imaginário” incentivado/criado pelo Dr. Parnassus. Parte do roteiro, contudo, teve que ser reescrito para que a história pudesse se adequar com a ausência de Ledger.

Uma curiosidade ainda sobre esta participação dos três astros para complementar o trabalho de Heath Ledger: segundo o site IMDb, eles doaram os cachês que receberam por seus trabalhos para Matilda, filha de Ledger, como forma de garantir-lhe um futuro mais seguro. Um belo gesto, sem dúvida.

The Imaginarium of Doctor Parnassus faz várias referências à peça Esperando Godot (no original, En Attendant Godot), de Samuel Beckett. As mais evidentes seriam o terno e o chapéu utilizados por Mr. Nick e a cena em que Jude Law aparece com uma corda no pescoço.

O ator Dominic Cooper teria feito os testes para o papel de Anton. Talvez ele tivesse se saído melhor que o relativamente “cru” Andrew Garfield.

Os produtores do filme dizem que Heath Ledger improvisou grande parte de suas cenas cômicas. Certo. Mas, ainda assim, sua performance está abaixo de outras de sua filmografia recente. Sinto muito para os fãs.

Dr. Parnassus estreou no Festival de Cannes em maio de 2009. Depois do festival francês, o filme participou ainda de outros 17 festivais. Nesta longa tragetória, a produção capitaneada por Terry Gilliam recebeu apenas um prêmio – e cinco nomeações. Isso reflete, meus caros, o quanto o filme agradou aos especialistas no assunto. O único prêmio recebido pela produção foi o de melhor figurino para Monique Prudhomme no Satellite Awards. O trabalho dela é bom, mas inferior ao de outras produções recentes. Vale dizer ainda que Dr. Parnassus está concorrendo a dois Oscar – um deles, o de figurino.

Este novo filme de Terry Gilliam custou uma pequena fortuna: US$ 30 milhões. Justifica-se, claro, pelos nomes de boa parte de seu elenco e, principalmente, pelos custos de uma produção que envolve muitos efeitos especiais (ainda que a maioria deles ruins) e um grande trabalho de design de produção, figurinos e edição de arte. Nos Estados Unidos, mesmo com o “marketing” de ter sido o último filme de Heath Ledger, Dr. Parnassus teve um desempenho um tanto fraco. Ele arrecadou, até o dia 7 de fevereiro deste ano, pouco mais de US$ 6,7 milhões nas bilheterias. No Reino Unido, até novembro de 2009, foram 3,2 milhões de libras. Ele ainda está longe de dar lucro.

Co-produzido pelo Reino Unido, pelo Canadá e pela França, Dr. Parnassus foi filmado nos dois primeiros países citados.

O visual de algumas cenas deste filme, assim como boa parte da caracterização da personagem de Valentina me lembraram várias das obras do famoso pintor El Bosco – recomendo uma olhadela em alguns de seus quadros no Museo Nacional del Prado, como El Jardín de las Delicias.

Na parte técnica, não achei nenhum trabalho excepcional. Ainda assim, para os curiosos, vale citar os trabalhos de Nicola Pecorini na direção de fotografia; o de Mick Audsley na edição; o de Anastasia Masaro no design de produção; o de Dan Hermansen e Denis Schnegg na direção de arte; o de Caroline Smith e Shane Vieau na decoração de set; o de Ailbhe Lemass coordenando a equipe responsável pela maquiagem e o de Jeff Danna e Mychael Danna na trilha sonora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Uma nota muito boa, devo dizer, levando em conta o resultado final da produção. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 110 textos positivos e 56 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 66%.

Um dos críticos que gostaram de Dr. Parnassus foi Ty Burr, do The Boston Globe. Ele escreveu neste texto que o novo filme de Terry Gilliam “é uma bagunça”, algo que o realizador vem fazendo durante os anos. Burr comenta que ele foi conquistado pelos “caprichos desorganizados” do diretor. Gostei quando ele comenta sobre o trabalho corajoso de Ledger, afirmando que ele se joga no papel de Tony com “inteligência e inventividade inconstante”. O crítico ressalta ainda como as cenas do “universo interior” do espetáculo do Dr. Parnassus revelam o orçamento enxuto do filme, ainda que o resultado lembre uma colha de retalhos das animações do Monty Phyton. Burr ainda enaltece o trabalho de Troyer, que interpreta o “pessimista da trupe” e afirma que Imaginarium trata da “possibilidade da magia no mundo moderno”.

O crítico Peter Howell, do Toronto Star, comentou neste texto que mesmo que o ator Heath Ledger não tivesse morrido antes das filmagens terminarem, dificilmente The Imaginarium teria sobrevivido às “várias indulgências” de Terry Gilliam. “Parnassus continua com o velho hábito de Gilliam em sabotar o próprio trabalho ao empilhar imagens desenfreadas sem levar em conta o desenvolvimento dos personagens ou em contar histórias”, escreveu Howell. Ele foi duro com o diretor, mas devo admitir que, pelo menos com este filme – e alguns outros de Gilliam – ele está certo. Achei especialmente “porreta” o momento em que o crítico comenta que o esforço dos atores que interpretam Tony foi em vão e que apesar de Dr. Parnassus ser descrito como “um conto de moralidade fantástico, ele é realmente uma bagunça fantástica que começa com um lembrete macabro – embora acidental – da morte de Ledger”. No final de seu texto, o crítico afirma que mesmo o resgate de recursos utilizados na época do Monty Phyton não são suficientes para reanimar o filme.

O conhecido crítico Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, escreveu neste texto que The Imaginarium pode ser visto como uma versão secundária da própria vida de seu diretor, Terry Gilliam. Ele seria o homem que tenta atrair as “pessoas para as suas fantasias, em um cenário extravagante e exagerado, com fumaça e espelhos, o que, depois de tudo, é sua verdadeira natureza”. Ebert elogia o trabalho feito com a computação gráfica do filme, dizendo que algumas visões do diretor se materializam de forma “maravilhosa”. Concordo que parte do trabalho ficou interessante, mas há uma grande parte realmente ruim. Parece até que não assistimos ao mesmo filme.

Ebert acredita que Heath Ledger seria o guia do público para os diferentes mundos fantásticos do filme. Mas ele afirma que Terry Gilliam, “aparentemente”, terminou de filmar as cenas externas, onde aparecia a Londres moderna, para depois filmar as demais cenas em estúdio. Enquanto isso, Ledger voltou para Nova York e, como todos sabem, foi encontrado morto em seu apartamento. Para o crítico, Depp se parece mais com Ledger, mas “é um fato triste” que Farrell roube o papel. “O meu problema com os filmes de Gilliam é a falta de roteiro discernível. Eu não preciso seguir o ABC, ação 1-2-3, mas aprecio bastante ter alguma noção das regras próprias do filme”, escreveu ainda Ebert. O crítico finaliza recomendando que o espectador tente viver cada momento do filme, sem pensar em sua memória a longo prazo, para tentar aproveitá-lo.

CONCLUSÃO: Mais conhecido por ter sido o último trabalho do ator Heath Ledger, The Imaginarium of Doctor Parnassus é um dos filmes mais fracos da carreira do diretor Terry Gilliam. Remanescente do genial Monty Phyton, Gilliam faz aqui um de seus filmes mais vazios e fracos inclusive na proposta visual. Há elementos que lembram os antigos filmes do Monty Phyton, mas há também uma busca por um sentido artístico e de moral que não se concretiza. Reformulando a velha história do homem que tenta enganar o Diabo, o diretor e roteirista consegue, no máximo, homenagear os artistas itinerantes. Mas ele não dá, infelizmente, um passo no sentido de contar uma história original ou que tenha muito pé ou cabeça. Mesmo Heath Ledger, que teve seu trabalho complementado pelo dos atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, não está em seu melhor momento. Um verdadeiro desperdício de talentos em um filme mal construído desde o princípio, cheio de personagens fracos e efeitos ruins.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The Imaginarium of Doctor Parnassus surpreendentemente está concorrendo a dois Oscar este ano. Não que o filme não tenha qualidades. Mas, francamente, ele não merece Oscar algum. De qualquer forma, vale citar que Dr. Parnassus está concorrendo nas categorias Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Na primeira, como comentei neste texto em que falo dos candidatos nas 24 categorias da premiação, Avatar leva vantagem. E mesmo que o filme dirigido por James Cameron não leve a estatueta dourada, acredito que o trabalho feito em Nine ou The Young Victoria sejam superiores ao de Dr. Parnassus. Na categoria de Melhor Figurino, prefiro o resultado de Bright Star, comentado recentemente. Ainda que, volto a afirmar, The Young Victoria tem grandes chances de levar o Oscar nesta categoria. Resumindo: para mim, The Imaginarium of Doctor Parnassus sairá de mãos vazias deste Oscar. Na melhor das hipóteses, Heath Ledger será homenageado na noite de premiação. E olha lá – levando em conta o papelão que a família dele protagonizou no ano passado.