Vals Im Bashir – Waltz with Bashir – Valsa com Bashir

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Existem animações de todos os tipos e para todos os públicos. Mas duas das melhores referências dos últimos anos tiveram na biografia de seus realizadores, familiares e/ou amigos a principal fonte de criatividade e, por consequência, seus maiores méritos. Primeiro, uma das minhas animações preferidas de todos os tempos: Persepolis. E agora, o prestigiado, premiado e elogiado Vals Im Bashir, do diretor israelense Ari Folman, que na opinião de muitos é o favorito na disputa de melhor filme estrangeiro deste Oscar. Com respeito às pessoas que adoraram o filme, mas eu tenho minhas reticências com ele. Prefiro ainda Persepolis, que acho uma obra melhor acabada. Vals Im Bashir é bem feito, artisticamente potente e plasticamente bonito, mas apresenta uma queda narrativa lá pelas tantas que me incomodou. Também acho que estou meio saturada de filmes sobre guerras, conflitos e genocídios – especialmente quando o que se apresenta não é, exatamente, novo.

A HISTÓRIA: Uma matilha de cães furiosos percorre as ruas da cidade sem parar, derrubando mesas e cadeiras e espantando as pessoas que estão fora de casa. Eles só param abaixo do apartamento de Boaz Rein-Buskila, amigo do diretor de cinema Ari Folman. O sonho terrorífico que se repete há 2 anos e meio leva Boaz a procurar o amigo para saber que recordações ele têm da Guerra do Líbano (a quinta da História) – da qual os dois participaram. Neste momento Ari Folman começa a se dar conta de que boa parte de sua memória simplesmente não existe mais, parece que foi borrada. Então ele começa a buscar seus antigos amigos e demais pessoas que estiveram naquela mesma guerra para que eles lhe ajudem a reconstruir a sua própria história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vals Im Bashir): Uma das características mais interessantes de Vals Im Bashir é justamente o fato do filme levar para a animação a linguagem do documentário. O diretor e roteirista Ari Folman comprova que a idéia funciona – especialmente porque é visualmente muito mais interessante e onírico reproduzir “lembranças” do passado através da animação do que da reconstituição pura e simples com atores. Certamente esse processo também sai beeeeeeeem mais barato. 😉

Então o filme acerta ao recontar as histórias pessoais de “soldados comuns” que viveram a Guerra do Líbano da década de 80, quando o Exército israelense invadiu o Sul daquele país como represália aos ataques que estavam recebendo daquele território. Como em qualquer documentário, a narrativa está na primeira pessoa, o que confere, em teoria, realismo para a história. E neste ponto entra outra qualidade de Vals Im Bashir: o relativismo da verdade. Sim, porque o filme está sempre questionando o valor das memórias daquelas pessoas – inclusive com depoimentos importantes que comentam a forma com que “registros borrados” da nossa mente acabam sendo preenchidos por imagens criadas. Aqui o filme ganha pontos.

A escolha por narrar as suas próprias memórias e dos amigos em forma de desenhos foi acertada, porque assim as recordações que misturam realidade e fantasia ganham ainda mais plasticidade e a capacidade de mutação. Para mim, este foi o grande acerto do diretor. O problema é que as histórias contadas, em muitos casos, se tornam fantasiosas ou prolongadas demais. Talvez uma edição um pouco mais dinâmica teria ajudado o filme.

O maior exemplo, para mim, de história que não funcionou foi a narrativa de Ronny Dayag. Sobrevivente de um ataque contra o seu pelotão, ele conta em detalhes o que aconteceu com ele na área costeira do setor ocidental do Líbano. Me desculpem os “sensíveis”, mas essa parte do filme me deu sono. Ok, todos sabemos que a guerra é injusta e que provoca cicatrizes difíceis de curar – assim como repulsa a tudo que a pessoa viveu naqueles dias. Acho que ninguém mais precisa ouvir essa história mil vezes. Talvez funcione para crianças – aliás, tenho curiosidade para saber o que uma criança acharia de toda aquela carnificina – ou com pessoas que assistiram poucos documentários e/ou pesquisou pouco sobre histórias do gênero.

Vals Im Bashir também funciona por eternizar em imagens o processo de busca por si mesmo do diretor. Fica evidente, na tela, a dor e a angústia dele em muitos momentos – a maior parte deles compartilhado com os amigos Ori Sivan, Boaz Rein-Buskila e Carmi Cna’an. Desta forma, o filme também se torna interessante por mostrar “o processo criativo” do diretor, exibindo não apenas os depoimentos que ele vai coletando no processo, mas também a sua própria saga individual por desvelar a sua história e a dos demais.

Certo, falei das qualidades do filme, essencialmente. Agora vou comentar os pontos em que ele me incomodou. Além do que eu citei rapidamente antes, sobre histórias muito longas ou até “óbvias”, como a de Ronny Dayag, achei que o filme beira o desrespeito em muitos trechos. Certo que as memórias das pessoas misturam realidade com fantasia. Certo que nenhum soldado é “santinho” e que não imagina sacanagem em lugares impossíveis. Mas tratar alguns momentos da guerra como “acampamentos juvenis” ou mesmo ver em um barco cheio de soldados um “barco do amor” é um pouco demais para o meu gosto. Talvez fosse para ser engraçado, para “soltar o público” antes do momento “drama” do final, mas estas características não me agradaram – e também não me fizeram rir. 

Na questão artística mesmo o filme é bacana, mas não é nenhum grande achado. Ok, existem cenas belíssimas, como a do sonho repetido da praia, a da despedida dos amigos Ari e Boaz logo no princípio e a sequência da “mulher nua que leva o soldado para longe da guerra”, mas elas são um hiato dentro do que é o “grosso” do filme. Achei que grande parte da história é apenas bem desenhada, mas sem poder ser classificada como excepcional. Existem outros animadores, como o russo Aleksandr Petrov, o japonês Hayao Miyazaki e os canadenses Chris Lavis e Maciek Szcerbowski que fazem um trabalho muito mais interessante plasticamente falando.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei realmente em dúvida sobre a nota que eu deveria dar para esse filme… estava entre 8 ou 8,5, mas optei pela cotação maior porque achei que o diretor foi corajoso em expor as suas memórias e a dos seus amigos desta forma. Além do mais, não é todos os dias que um israelense admite os seus erros, não é mesmo? (Vide a recente Guerra do Líbano e a atual invasão da Faixa de Gaza, episódios absurdos deste país defendido pelos Estados Unidos e por outras pessoas ainda pela “culpa” coletiva do genocídio de judeus na Segunda Guerra Mundial).

Não quis expor antes os detalhes do filme, mas vale citar as pessoas com quem o diretor fala durante o seu documentário-animação:

  • Ori Sivan – amigo de Ari Folman que é acordado um dia às seis e meia da manhã pelo diretor – depois que ele começa a sonhar com uma imagem da guerra desconhecida. Inicialmente Folman resiste a essas imagens, dizendo que acha incrível como a conversa com Boaz pode ter reativado desta maneira sua memória, sobre um assunto que, para ele, naquele momento, não tinha “nada a ver” com ele. Este mesmo amigo será importante durante todo o filme, especialmente porque ele ajuda a “clarificar” as idéias do diretor, falando sobre como as memórias passam a ser um tanto que “criadas” conforme o tempo passa e, depois, ao comentar sobre a simbologia do sonho da praia.
  • Carmi Cna’an – amigo do diretor que aparece com ele no sonho da praia. Ele mora na Holanda e resiste um bocado em aparecer no filme e até em buscar no passado imagens daquela guerra. Mais de uma vez ele não entende o que o diretor quer ao visitá-lo – quase que o questionando de porque buscar aquelas recordações. Ele é o homem que conta a história do “barco do amor” (seria uma referência a este filme com Elvis Presley?) e da sequência de viajar sobre o corpo nu desproporcional de uma mulher para longe do barco – que acaba sendo destruído, em uma evidente analogia ao amor que ele gostaria de estar tendo naquele momento em lugar de uma guerra com a qual ele não se identificava. Depois de fazer a primeira visita à Cna’an é que surgem as primeiras imagens claras da guerra na cabeça do diretor. Em sua viagem de táxi para Amsterdam ele acaba lembrando do primeiro dia da guerra, quando ele tinha 19 anos. Depois, em outro encontro, Cna’an acaba dando um depoimento interessante sobre o lugar em que eles interrogavam e exterminavam palestinos – um “mea culpa” importante durante o filme e que, certamente, irritou os israelenses.
  • Ronny Dayag – quando o diretor lembra do início da guerra e do momento em que ele e outros soldados “desovaram” mortos em um local ermo do Líbano, ele acaba lembrando de Ronny Dayag, que atuou durante os conflitos na área costeira. Dayag começa a contar a sua história de sobrevivência na guerra e sua posterior repulsa em ter contato com familiares dos colegas mortos. Sua história acaba sendo a mais longa e cansativa do filme.
  • Shmuel Frenkel – amigo que serviu com o diretor na guerra obcecado pela fragrância do patchouli e responsável pela tal “valsa” que dá título para a animação. Fascinado pelas artes marciais, ele é o personagem mais “figura” desta história. Sua atitude de pegar a arma de um colega de Exército chamado Erez e partir para o meio de uma zona de conflito atirando para todos os lados “como se estivesse fazendo balé” em frente a imagens do líder Bashir – recentemente assassinado – é o momento de quebra narrativa do filme. Até então, predomina a idéia onírica e de relato emocional e algumas vezes divertido do conflito. Depois da tal “valsa”, o filme parte declaradamente para a narrativa dramática e a “denúncia” do extermínio de palestinos no que ficou conhecido como “o massacre de Sabra e Shatila” (dois campos de refugiados).
  • Professora Zahava Solomon – especialista em reações pós-traumáticas (como as vividas por pessoas que participaram de guerra, conflitos e genocídios), ajuda a esclarecer as dúvidas do diretor sobre a “irrealidade” de algumas lembranças e a dificuldade dele e dos demais em recontar um episódio tão marcante em suas vidas. Como ela comenta, muitas pessoas nestas situações reagem se “deslocando” das situações de trauma.
  • Ron Ben-Yishai – correspondente de guerra televisivo que entra na história a partir do tiroteio em que acontece a tal “valsa com Bashir”. Ele entra na narrativa para dar mais “veracidade” aos fatos que antecederam o massacre dos palestinos, para falar como ocorreu aquilo e sobre o que aconteceu depois daquelas cenas. Na memória do diretor ele aparece como um Superman na hora do tiroteio. 
  • Dror Harazi – participante também da invasão israelense, ele é responsável pelo depoimento mais importante do filme no que diz respeito ao massacre que ocorreu nos campos de refugiados. Ele conta como ele e outros foram designados para uma parte alta próxima aos campos de refugiados na véspera do massacre e de que eles (os israelenses) receberam informação de que os cristãos iriam entrar nos campos e que eles deveriam dar “cobertura” para os membros das falanges que apoiavam Bashir – e que todos sabiam que iam para lá se vingarem do assassinato de seu líder.

Uma das partes mais interessantes do filme, para mim, foi quando Ori Sivan explica sobre a fabricação da nossa memória. Ele começa a citar um estudo científico em que foi feito um teste com várias pessoas através de fotografias. Bacana que o exemplo principal é sobre a imagem tirada em um circo – e aparece, pela janela, atrás do diretor, ao longe, justamente partes de um circo. 😉 Achei bacana essa “jogada”.

O mesmo Sivan explica para o diretor a simbologia do seu sonho da praia, comentando que a água normalmente encobre o que não queremos ver – no caso dele, seu papel no massacre do campo de refugiados. Ele também auxilia o amigo a enxergar que esta “chaga” vinha de muito antes, de outro massacre, com o qual ele convivia desde a infância: o do Holocausto nazista – os pais do diretor foram enviados para o campo de extermínio de Auschwitz. No final, o diretor descobre que ele se sentiu culpado aos 19 anos por ter lançado sinalizadores sobre os campos de refugiados palestinos, o que ajudou os falangistas a localizar durante a noite as pessoas que eles iriam exterminar. Desta forma, o diretor, que tinha um histórico tenebroso na família, se colocou no “lugar dos nazistas”, segundo Sivan, se sentindo culpado aos 19 anos de idade.

Faz parte do material de divulgação do filme uma interessante entrevista com Ari Folman. Ali ele comenta que o filme começou no dia em que ele descobriu que algumas partes de sua vida tinham se “apagado” de sua memória. O resultado dos quatro anos de trabalho dele para elaborar Vals Im Bashir teriam lhe provocado, em suas próprias palavras, “um violento transtorno psicológico”. “Descobri coisas muito duras do meu passado e, contudo, durante estes quatro anos, nasceram meus três filhos. Pode ser que eu tenha feito esse filme para eles. Para que, quando crescerem e verem o filme, ele os ajude a saber escolher, a não participar de guerra alguma”.

Na opinião do diretor, o processo de fazer o filme foi como uma terapia, em que se intercalavam momentos da “depressão mais absoluta, frutos das recordações que vinham” em sua memória, com a “euforia mais desbordante por fazer um filme de animação inovador”. Folman ainda comenta que sete de nove personagens que aparecem na tela são verdadeiros, e que apenas os amigos Boaz e Carmi quiseram que seus nomes reais não aparecessem no filme (mas suas histórias são verídicas).

O diretor também comenta, no material de divulgação do filme, que ele sempre imaginou esta história sendo contada como um filme de documentário-animação.

Achei curioso o processo do filme. Primeiro Vals Im Bashir foi filmado em vídeo em um estúdio e foi montado como um filme de 90 minutos. A partir deste material é que o diretor e sua equipe trabalharam em um storyboard com 2,3 mil desenhos que foram animados posteriormente. Em seguida o diretor de animação, Yoni Goodman, criou o estilo da animação que seria vista em tela usando uma mescla de de animação em Flash, animação clássica e animação 3D. Cada desenho que vemos foi criado do zero “graças ao magnífico talento do diretor artístico David Polonsky e de seus três assistentes”.

Interessante a conclusão do diretor sobre o tema principal do seu documentário-animação: “(…) a guerra é terrivelmente inútil. Não tem nada a ver com os filmes estadunidenses. Não tem nada de glamuroso e nem nada de glorioso. Não são mais que homens muito jovens que não vão a parte alguma e que disparam contra desconhecidos, lhes disparam desconhecidos, e que voltam para suas casas tentando esquecer tudo”. 

Ari Folman têm uma biografia curiosa. Depois de servir ao Exército israelense ele começou a dar uma volta ao mundo que não passou do segundo país. Foi então que ele decidiu estudar cinema. Durante sua trajetória de 1991 (quando concluiu o curso e dirigiu um documentário que acabou sendo premiado como o melhor do ano em Israel) até Vals Im Bashir, ele dedicou-se mais a documentários que a produções de ficção. Sua única experiência anterior em animação tinha sido a série documental The Material That Love is Made Of, na qual os três primeiros minutos de cada episódio eram narrados em formato de animação.

Sobre a Guerra do Líbano que o filme trata: o Exército israelense invadiu o país vizinho em junho de 1982 como represália aos bombardeios que eles recebiam da parte Sul do Líbano contra a parte Norte de seu território. Inicialmente o governo israelense pensava em ocupar uma “área de segurança” de 40 quilômetros na fronteira, impedindo assim que os mísseis palestinos chegassem a Israel. Só que depois o ministro de Defesa israelense, Ariel Sharon, decidiu tentar um plano muito mais ousado: que seu Exército ocupasse o Líbano até Beirute, o que permitiria que seu aliado cristão Bashir Gemayel se transformasse em presidente do Líbano. Outra razão dos israelenses com essa manobra era chegar mais próximos da Síria, que sempre consideraram seu principal inimigo no Oriente Médio.

Depois de uma semana, as tropas israelenses já haviam chegado na fronteira de Beirute. E ali ficaram até agosto, quando foi assinado um tratado com os palestinos que previa que todos os combatentes palestinos seriam enviados para fora do país através de barcos para a Tunísia. Em troca, Israel retiraria suas tropas do país, segundo o material de divulgação do filme. Naquela mesma semana Bashir Gemayel, comandante-chefe das milícias de cristãos falangistas no país, foi eleito presidente do Líbano. 

Mas Bashir foi assassinado enquanto dava um discurso na parte Leste de Beirute, o que desencadeou uma grande revolta entre seus seguidores. Na mesma tarde, tropas israelenses entraram na parte Oeste de Beirute, situando-se na parte de fora dos campos de refugiados palestinos. Com a ajuda dos israelenses, os falangistas entraram nos campos de refugiados para buscar combatentes palestinos – ainda que se sabia que praticamente todos já haviam sido retirados do país. Por três dias os cristãos apoiados pelos israelitas mataram refugiados em Sabra e Chatila – não existem números exatos, mas se calcula em pelo 3 mil os mortos (crianças, mulheres e homens) daqueles dias. 

Ainda conforme o material de divulgação do filme, o que aconteceu no Líbano provocou uma onda de protestos em Israel, o que desencadeou um processo de investigação sobre os fatos. Esse processo resultou na culpabilidade de Ariel Sharon, que foi obrigado a se demitir de seu cargo e foi proibido de assumir novamente o posto de ministro da Defesa – ainda que, 20 anos depois, ele acabou sendo eleito primeiro ministro (ou seja, em um cargo muito mais importante). Detalhe: o conflito mostrado no filme foi o quinto da História. Este texto conta um pouco sobre os antecedentes e origens destes conflitos.

Algo fundamental no filme é a trilha sonora, assinada por Max Richter.

Para quem quer saber o nome de todas as pessoas que se envolveram na parte artística do projeto, faço citar: Tal Gadon e Gali Edelbaum (chefes de animação); Neta Holzer, Asenath (Osi) Wald, Sefi Gayego, Orit Shimon, Zohar Shahar, Lilach Sarid e Barak Drori (animadores); Asenath (Osi) Wald (citado antes, responsável também pela animação 3D); Michael Faust, Asaf Hanuka, Tomer Hanuka e Ya’ara Buchman (grafistas).

O filme têm agradado especialmente aos críticos. No Rotten Tomatoes, site que abriga textos de vários críticos do mundo afora, estão armazenadas 73 críticas positivas e apenas quatro negativas para Vals Im Bashir – o que coloca o filme no termômetro de aprovação de 95%. Os usuários do site IMDb já foram mais comedidos: deram a nota 8,3 para a animação.

Até agora o filme de Ari Folman foi indicado a 18 prêmios e ganhou outros 18. Entre os que ganhou, estão o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro; a vitória na mesma categoria pela opinião da crítica do prêmio da Broadcast Film Critics Association; assim como o prêmio que ganhou, na mesma categoria, no British Independent Film Awards.

Para os interessados na parte “monetária” da arte: Vals Im Bashir teria custado US$ 1,5 milhão e faturou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 19 de janeiro, pouco mais de US$ 551 mil. Talvez o Oscar – ou a bilheteria somada em outros mercados e países – lhe garanta um êxito maior.

Uma curiosidade: o filme é uma co-produção de Israel, da Alemanha, da França e dos Estados Unidos.

Ah, e para quem gosta de assistir a história com bastante carga biográfica com fantasia, ou seja, que misturem realidade com uma visão onírica, recomendo os diretores Federico Fellini e Akira Kurosawa (realmente mestres).

CONCLUSÃO: Um filme curioso sobre a busca pelas memórias pessoais perdidas de um diretor de cinema que foi combatente na Guerra do Líbano dos anos 80 pelo lado de Israel. No melhor estilo documentário, esta animação tem depoimentos puro e simples de amigos, colegas e testemunhas dos combates e do massacre de dois campos de refugiados palestinos. Mas a produção tem também, e sobretudo, trechos de pura narrativa fantástica sobre a memória deturpada daqueles dias. Bem desenhado, ele tem alguns problemas de narrativa, especialmente com uma grande história desinteressante lá pelas tantas. É bacana, mas não seria a minha escolha para melhor filme estrangeiro ou mesmo melhor filme de animação do ano. 

PALPITE PARA O OSCAR: Vals Im Bashir está concorrendo na categoria de melhor filme estrangeiro do ano. Para muitos ele é o favorito, mas eu discordo. Não acho, realmente, que ele merecia este prêmio. Não assisti ainda aos outros quatro concorrentes da categoria, mas posso dizer, olhando para filmes como Gomorra ou To Verdener, que Vals Im Bashir não deveria ganhar a estatueta dourada. Ok, se ele levar ela para casa, talvez o prêmio incentive outras produções do gênero. Mas francamente espero que uma produção como Entre Les Murs, que trata de questões delicadas como é o processo de aceitação dos imigrantes na Europa, saia vencedora desta vez.

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Doubt – Dúvida

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Um filme profundo sobre a fé e a perda dela, sobre convicções e dúvidas, sobre pecado e virtude, sobre inocência e malícia. Há tempos não assistia uma história que vá tão fundo nestes temas e de forma tão bem conduzida. Ao assistir a Doubt ficou claro porque ele é considerado um dos grandes filmes de 2008 – e as razões que o levaram a ter quatro de seus atores indicados ao Oscar. Aliás, fora o elenco juvenil e as “pontas” de atrizes com idade avançada, Doubt conseguiu levar todo seu elenco para premiações conceituadas. Entre as interpretações, destaque para Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman que comprovam, para quem ainda tinha alguma dúvida, porque são dois dos principais atores em atividade atualmente nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Um ano depois do assassinato de John F. Kennedy, uma comunidade católica do Bronx, em Nova York, se une ao redor da Igreja de Sant Nicholas. A congregação vive uma época de conflito entre a visão moderna de um padre e a conduta tradicionalista da freira que dirige a escola de Sant Nicholas. Líder inspirado, o padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman) é visto com desconfiança pela freira Aloysius Beauvier (Meryl Streep), especialmente depois de um sermão dele que tinha a dúvida como tema principal. Semeando pontos de interrogações entre as freiras da congregação, ela pede para que a Irmã James (Amy Adams) fique de olho nas ações do padre e, consequentemente, dos alunos que frequentam a aula de História ministrada pela Irmã James. A partir de uma observação da jovem freira, a Irmã Aloysius empreende uma cruzada por saber a verdade sobre o padre, tentando comprovar a sua teoria de que ele estaria seduzindo um jovem garoto negro da escola.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Doubt): O resumo logo ali encima dá uma palhinha de todos os temas que o filme aborda. E são muitos. Para começar, a questão da dúvida para pessoas como as religiosas e o padre. É fato que a dúvida é o lado oposto da fé. E eles, em teoria, vivem necessariamente na fé plena. Em Deus, no que se acredita que foi ensinado por ele e, especialmente, nos desígnios da Igreja Católica. O problema é quando um religioso acaba nutrindo muitas dúvidas… e não encontra, exatamente, respostas satisfatórias. Qual seria o seu caminho a partir daí?

Então, no filme, temos de um lado a freira Aloysius, que se mostra uma mulher dura, convicta, firme em suas crenças, fé e propósitos. Do outro lado, aparentemente, temos ao padre Flynn, um “modernista” dentro da Igreja, que não leva tão “à ferro e fogo” os dogmas católicos e acredita que a Igreja deve se renovar para ser mais receptiva. Tradição versus modernidade – pelo menos na questão de mudanças de comportamento. Mas mais que isso, Doubt vai mostrando que estas linhas que “dividem” estas duas pessoas não são tão evidentes assim. Conforme o ótimo roteiro do diretor John Patrick Shanley vai se desenvolvendo, percebemos que Aloysius e Flynn estão mais próximos do que gostariam de admitir. Seja pelas dúvidas que carregam, por suas convicções ou pela culpa que devem suportar de erros do pasado (ou do presente).

A história conta mais de um embate simultâneo. Existe a disputa óbvia, entre estas duas “correntes” de conduta dentro da Igreja – e presente em tantos outros locais. Mas existe também uma disputa “interna”, pessoal e intransferível, individual. Tanto Aloysius quanto Flynn e outros personagens do filmes estão em um momento de crise, de questionamentos e, como consequência disto, de estabeler suas convicções. Neste quesito o filme transpassa a fronteira das questões de fé e de religião. E também existe por ali o conflito entre a inocência e a experiência e/ou a malícia. Um abismo separa as irmãs James e Aloysius. Talvez apenas um abismo de experiência de vida, ou talvez uma distância que esteja muito além disso – a de espécie humana mesmo.

É possível que a irmã Aloysius seja calejada, tenha passado por tantas experiências na vida que lhe fizeram ter dificuldade em ter fé nas pessoas; e que a irmã James teve uma vivência totalmente diferente e que, por isso, tenha uma facilidade maior de vê o bem por onde olhe. Mas pode ser também que a crise de fé que passa a Irmã Aloysius seja apenas uma questão de tempo para acontecer, mesmo com pessoas “inocentes” e sem malícia como a Irmã James. Isso fica difícil de estabeler – ao menos eu ainda não cheguei a uma conclusão sobre a inevitabilidade ou não das coisas.

Fora os temas já comentados, o filme toca em um assunto sempre delicado: o abuso sexual de padres contra crianças e jovens de suas paróquias. Essa é uma chaga que a Igreja Católica carrega e que será difícil de ser resolvida sem uma mudança de conduta da própria Igreja. Anteriormente eu já comentei neste blog um documentário muito interessante sobre este tema: Deliver Us From Evil. Recomendo para quem se interessa pelo tema.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). No fundo, não fica comprovado no filme a culpabilidade do padre. Aliás, esse é um acerto de mão cheia do roteirista, diretor e autor da peça que originou esta produção. Seria péssimo se tivéssemos certeza sobre o que realmente aconteceu. Claro que tudo fica mais que subentendido – ainda que eu ache que cada pessoa pode tirar uma conclusão da história. Os infames como eu terão certeza que o padre molestava sexualmente os garotos. Pessoas que vêem bondade em tudo podem achar que ele saiu da paróquia para não criar mais problemas para o garoto Donald Miller (Joseph Foster), já devidamente perseguido por sua cor de pele e por seu “jeito” – a mãe comprovou, em uma conversa inesquecível com a Irmã Aloysius, que o filho era gay. Muitos também pode ver nas reações dos garotos atitudes comuns de garotos que se identificam ou que rechaçam a autoridade de um padre como aquele. A dúvida realmente permanece. Mas eu, francamente, fico com a Irmã Aloysius. 😉 Acredito que ela estava certa – talvez porque eu também ache que “conheça as pessoas”.

Aliás, esse tema de “conhecer as pessoas” é curioso. Ao mesmo tempo que isso é algo interessante, porque nos economiza decepções e nos economiza também o trabalho de estar sempre lendo “novos sinais” que as pessoas nos passam, essa atitude é um prato cheio para injustiças. Afinal, por mais que “conheçamos as pessoas” e que identifiquemos padrões de comportamento, cada indivíduo é realmente um universo. E talvez aí esteja também o bacana deste filme… porque ele demonstra que, apesar das nossas convicções, é imprescindível vivermos com dúvidas. E lidar com elas. No meio da certeza, é preciso haver algum espaço para as surpresas e o imprevisto.

Todos os atores em cena estão realmente excepcionais. Meryl Streep, incrível. Philip Seymour Hoffman, preciso. Amy Adams mostra, em mais esse filme, porque é um dos grandes nomes da nova geração – ainda que eu ache que ela está abaixo de outras interpretações que eu vi recentemente. Viola Davis aparece uma única vez no filme, como a Sra. Miller, em uma sequência de tirar o chapéu – tanto que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por estes minutos em cena.

O restante do elenco também está muito bem – fazendo seu trabalho de forma exemplar, seja em pequenos ou médios papéis. Destaque para os garotos Joseph Foster, Lloyd Clay Brown (que está muito bem como Jimmy Hurley, uma testemunha ocular e silenciosa do que acontece na sacristia), Mike Roukis (o revoltado William London) e Frank Shanley (Kevin). Também merecem créditos as atrizes que fizeram as freiras da congregação: Alice Drummond (como a Irmã Veronica), Audrie J. Neenan (como Irmã Raymond) e Helen Stenborg (como Irmã Teresa).

As grandes qualidades do filme são realmente o roteiro, a direção e as interpretações de cada papel. Ainda assim, não deixa de ter destaque o “lado técnico” da produção, especialmente a cuidadosa fotografia de Roger Deakins (responsável ainda pelas fotografias de Revolutionary Road e The Reader) e a trilha sonora sempre potente de Howard Shore. Por se passar nos anos 60, o filme precisou também de uma pesquisa cuidadosa da figurinista Ann Roth e da direção de arte de Peter Rogness.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dei a nota acima para o filme porque realmente não vi nada que o desmereça. Pelo contrário. Para mim se trata de um filme redondo, bem acabado em cada detalhe. Assim como Gran Torino, mereceu a mesma cotação dos dois melhores filmes do ano – Slumdog Millionaire e The Curious Case of Benjamin Button.

Fiquei curiosa para saber quem foi a Irmã Margaret McEntee, para quem o filme é dedicado. Segundo a declaração de homenagem à religiosa feita pelo diretor no final de Doubt, ela era conhecida como Irmã James – não por acaso o papel da “alma pura” e inocente do filme, interpretada por Amy Adams. Pesquisando um pouco a respeito descobri que Margaret McEntee, hoje com 73 anos, foi a conselheira técnica do diretor de teatro, de cinema e roteirista. Mas antes, ela foi professora de Shanley na escola St. Anthony, no Bronx, onde ele estou no primeiro grau. Na época, a freira tinha 21 anos e, Shanley, seis. Ela marcou a tenra infância dele de forma tão positiva que agora, 48 anos depois, ele lhe dedica este filme. Curioso. E prova de como uma pessoa pode influenciar outra tão positivamente quando se dedica ao máximo em fazer bem o seu ofício.

Doubt vem seguindo uma carreira de prêmios. Até agora ele foi indicado a 29 deles – incluindo cinco Oscar’s – e recebeu outros sete. Dos que levou para casa, destaque para o prêmio de melhor atriz para Meryl Streep pela escolha da crítica do prêmio da Broadcast Film Critics Association; e o de melhor “interpretação penetrante” para Viola Davis no National Board of Review – quando todo o elenco também foi premiado. Mery Streep também acabou levando para casa o importante prêmio de melhor atriz conferido pelo Screen Actors Guild – prêmio mais badalado da categoria.

Segundo os produtores do filme – encabeçados pela poderosa Miramax -, Doubt teria custado US$ 25 milhões. Até o dia 18 de janeiro ele tinha conseguido se pagar apenas com a bilheteria nos Estados Unidos, faturando pouco mais de US$ 25,5 milhões. Certamente é pouco para o que se esperava dele – mas, quem sabe com o apelo das indicações ao Oscar, ele cresça um pouquinho mais.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Muitos podem ficar indignados com o final do filme, quando a Irmã Aloysius conclui que sua “busca pela verdade” não adiantou de nada, já que o padre Flynn acabou saindo daquela paróquia para ser promovido. Pois sim. O que não é nada surpreendente, para falar a verdade, já que isso aconteceu com muitos padres envolvidos em escândalos de pedofilia – vide Deliver Us From Evil ou qualquer pesquisa sobre casos do gênero pela internet. É difícil admitir, mas muitas vezes a busca pela verdade e a punição “possível” – que está nas nossas mãos – não é suficiente. No caso da Igreja Católica, eles realmente se protegem de uma maneira inacreditável.

Ainda que não seja um tema muito explorado pelo filme, mas Doubt também trata de preconceitos. Dois, pelo menos: o de raça e o de orientação sexual. Fica evidente a repulsa da Irmã Aloysius tanto para um fator quanto para o outro. E não apenas ela. Afinal, a história também conta a conturbada experiência do primeiro garoto negro a ser aceito como estudante naquela escola – e por influência do padre Flynn, certamente. Então mesmo os “justos” deste filme são pecadores – aliás, Irmã Aloysius é deliciosamente pecadora, seja por usar de recursos como a mentira, seja por manipular e criticar as pessoas tão duramente. Os santos têm pé de barro.

Algo curioso do filme: como a Irmã Aloysius acaba incorporando alguns comportamentos que a Igreja Católica adotou por muito tempo. Como o de empreender uma verdadeira “cruzada” contra o que ela via como errado – idéias incorporadas pelo padre Flynn -, querendo expurgar o mal “pela raiz” daquela comunidade… alguém aí lembrou da Era da Inquisição? A dúvida, nestas situações, não tem lugar. Não importa se estamos vendo na frente uma injustiça ou não, mas é preciso ter convicção para julgar.

Para mim, o filme tem três grandes momentos: o início, quando se percebe o incomodada que ficou a Irmã Aloysius com o discurso sobre a dúvida do padre Flynn; o momento em que ela interroga a mãe de Donald Miller e, claro, a grande discussão entre a Irmã Aloysius e o padre Flynn. Impressionante aquele último momento… para mim (logo mais falarei disso), esses momentos fazem Meryl Streep merecer outra estatueta dourada. Impressionante aquela mulher. E Philip Seymour Hoffman também.

Para quem não sabia, John Patrick Shanley escreveu a peça que deu a origem ao filme no início dos anos 2000, estreando-a no teatro no circuito off-Broadway em 2004. A peça teve tanto êxito e recebeu um número tão grande de críticas positivas que foi levada para a Broadway, onde estrou em 2005 – e foi lá que Meryl Streep conheceu o trabalho Shanley. O texto dele ganhou os cobiçados prêmios Tony e Pulitzer – dois dos mais importantes da atualidade.

Lendo as notas da produção, foi curioso saber como surgiu a idéia do roteirista e diretor para escrever a sua peça de teatro homônima: assistindo a televisão. Ele via um programa de debate político, em que os especialistas se degladiavam com suas convicções, quando teve a idéia de tratar de uma história sobre a dúvida. “Senti que vivíamos em uma sociedade muito segura sobre um monte de coisas. Todos tinham opiniões imutáveis, mas não havia o intercâmbio de idéias. Se alguém se atrevia a dizer ‘não sei’, corria o risco de ser jogado para os leões. Na nossa sociedade havia uma máscara de certezas tão dura que ela começava a rachar. E as rachaduras eram as dúvidas”, comentou Shanley. Maravilhoso, não?

Neste mesmo material o autor disse o que queria com sua obra: “explorar a idéia de que a dúvida tem uma natureza infinita, que cresce e muda com o tempo, enquanto que a certeza é um caminho sem saída. Quando existe certeza, se termina o diálogo. E a mim me interessam os diálogos, especialmente porque eles são sinônimo de vida. Temos que aprender a viver com alguma incerteza. Esse é o silêncio que se esconde abaixo da verborragia do nosso mundo”.

Interessante também saber que o autor não têm um especial interesse pelos escândalos da Igreja Católica, mas que escolheu o tema de um padre acusado de pedofilia porque acreditava que nesta história todos tem clara a sua posição – o que torna ainda mais interessante criar a “dúvida” na cabeça dos espectadores anteriormente tão convictos. Quando se decidiu por tratar deste ambiente, ele voltou atrás em sua própria vivência – como eu disse antes, Shanley estudou em uma escola pública católica, no Bronx, em um bairro de irlandeses católicos e trabalhadores. “Eu conheci essa gente. O personagem da Irmã Aloysius está inspirada em freiras que eu conheci, e é alguém com quem eu me identifico… compartilho com ela a tristeza de ver como desapareceram tantas coisas, como o silêncio ou as canetas de ponta redonda, ou os estudantes lendo Platão“, comenta o diretor.

O personagem de Donald Miller também foi inspirado na vivência de Shanley que lembra que, na sua época de colégio, havia apenas um aluno negro entre os estudantes.

Também não havia me dado conta, mas ambientar Doubt em 1964 teve uma série de razões. Além de ser uma época de incerteza, tanto pelo assassinato de JFK um pouco antes quanto por ser uma fase de alta dos movimentos pelos direitos civis, aqueles anos sucederam o famoso Concílio Vaticano Segundo, de 1962. O documento apontava para uma série de reformas na Igreja Católica, incluindo o término da exigência das freiras usarem hábitos e a abolição de uma série de formalidades entre o trato do sacerdote e seus fiéis.

Não sabia, mas John Patrick Shanley havia ganho um Oscar como roteirista… Doubt é sua estréia como diretor, mas ele vinha já de uma sólida carreira de roteirista. Tanto que ganhou uma estatueta dourada por seu trabalho com Moonstruck (que rendeu também um inacreditável Oscar para Cher), na premiação de 1988.

Antes que me esqueça definitivamente… (SPOILER). No final, Irmã Aloysius revela o porquê dela nunca ter “topado” o padre: porque ela sente que ele é incapaz de se arrepender. Interessante e precisa! Mas e ela? Diria que ela é incapaz de admitir um erro – ainda que, como se pode ver perto do “the end”, ela já foi capaz de admitir dúvidas. Realmente parece que aquela jornada mudou um pouco a todos.

Doubt conseguiu uma boa cotação entre público e crítica. Os usuários do IMDb lhe deram a nota 8,1; enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes lhe dedicaram 128 críticas positivas e 37 negativas.

Doubt garantiu a 15ª indicação para o Oscar deste fenômeno chamado Meryl Streep. Aos 59 anos de idade (ela completará seis décadas de vida no dia 22 de junho) ela desbancou todas as atrizes da história de Hollywood, abrindo ainda mais vantagem em relação as anteriores “campeãs em indicações” ao Oscar. Até agora, das 15 vezes em que concorreu a uma das cobiçadas estatuetas douradas, ela ganhou em duas ocasiões: por suas interpretações em Kramer vs. Kramer e em Sophie’s Choice – a primeira em1979 e a segunda em 1982. Estava na hora dela levar outra estatueta para casa. No total, ela tem no currículo 81 prêmios – menos que Clint Eastwood, injustamente esquecido neste Oscar, que têm espantosos 100 prêmios em algum lugar de sua casa.

CONCLUSÃO: Um filme potente, maravilhosamente escrito e com interpretações marcantes sobre questões importantes da nossa sociedade, como a necessidade de ter certezas ou dúvidas, de ter fé ou questionamentos, de seguir uma direção ou propagar mudanças na realidade. Baseada em uma peça de teatro premiada, a história acabou sendo adaptada pelo próprio autor do trabalho teatral, o que confere realmente um trabalho o mais próximo do original possível. Sem conclusões – o que é ótimo -, o filme nos faz reavaliar conceitos e perceber um pouco de tudo aquilo que pode ser combatido e do que precisa ser, simplesmente, aceitado.

PALPITE PARA O OSCAR: Doubt está concorrendo em cinco categorias neste Oscar. Na de melhor atriz, Meryl Streep tem um paro duro – especialmente por Kate Winslet e por Anne Hathaway. Ainda que eu tenha gostado muito de Angelina Jolie em Changeling, assim como de Melissa Leo em Frozen River (ela é o filme), admito que Meryl Streep sempre me convence. E em Doubt, mais uma vez, ela está arrasadora. Difícil dizer, com certeza, porque ainda não vi a Kate Winslet em The Reader, mas acho que realmente Meryl Streep estaria liderando minha preferência junto com Kate Winslet (que faz um trabalho exemplar em Revolutionary Road).

Philip Seymour Hoffman foi indicado para o Oscar de melhor ator coadjuvante. E merecidamente. Realmente ele faz um grande dueto com Meryl Streep em Doubt. Mas, pelo que todos dizem, ele realmente deve ser subjugado por Heath Ledger. Gosto muito do Philip Seymour Hoffman, por isso acredito que será uma questão de tempo para ele ganhar uma estatueta dourada. Como bem observou uma leitora do blog nos comentários abaixo, a Darci, o Seymour Hoffman já recebeu uma estatueta dourada. Ele foi premiado no Oscar de 2006 como Melhor Ator por seu desempenho no filme Capote. Dos atores que eu vi em cena até agora, acredito que Hoffman e Michael Shannon seriam, realmente, os melhores – lembrando que não assisti a The Dark Knight.

Doubt ainda foi duplamente indicado na categoria de melhor atriz coadjuvante: receberam menções Amy Adams e Viola Davis. As duas realmente estão ótimas no filme, mas acho que seria injustiça premiar Viola Davis… ainda que ela tenha uma interpretação arrasadora nos poucos minutos em que aparece no filme, se trata exatamente disto: de uma interpretação de alguns minutos. Comparada com ela, Amy Adams está melhor – faz um papel interessante por muito mais tempo, sem cair em um estereótipo (o que seria relativamente fácil). Ainda assim, prefiro o trabalho de Marisa Tomei. Não assisti ainda a Penélope Cruz em Vicky Cristina Barcelona… mas pelo que os críticos a elogiam, me arrisco a dizer que a estatueta deve ser decidida entre Tomei e Cruz.

Para completar a lista de indicações ao Oscar, Doubt está concorrendo como melhor roteiro adaptado. E ele tem uma disputa das boas. O trabalho de Shanley é excepcional, mas acredito que Slumdog Millionaire ou Benjamin Button devem levar vantagem na disputa. De qualquer forma, qualquer um dos filmes que disputam nessa categoria merecem ganhar. No final das contas, eu diria que Doubt tem chances de ganhar como melhor atriz (Meryl Streep) e melhor atriz coadjuvante (Amy Adams), mas que é igualmente possível que o filme saia de mãos abanando deste Oscar.

Frozen River – Rio Congelado

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Normalmente é fácil dizer para alguém que ele está errado quando comete um crime. Afinal, acredita-se que todos sabem o que é certo e o que é o errado. Outros repetem o provérbio de que “a oportunidade faz o ladrão”. Mas tem momentos da vida em que o desespero realmente transforma gente responsável em criminoso/a. Frozen River conta uma história destas, em que uma mãe desesperada é capaz de praticamente tudo para conseguir garantir que seus filhos tenham uma casa e um pouco de conforto. E entra no foco do filme, de quebra, a imigração ilegal pela fronteira do Canadá e dos Estados Unidos e, tão porreta quanto, a “imunidade” das comunidades indígenas protegidas por leis federais e “intocáveis” no que se refere a muitas leis. No elenco, a indicada ao Oscar de melhor atriz Melissa Leo.

A HISTÓRIA: Ray Eddy (Melissa Leo) está do lado de fora de casa fumando um cigarro e literalmente “tomando um ar” de sua vida desastrosa. Pouco depois ela acelera os filhos, T. J. (Charlie McDermott) e Ricky (James Reilly) para eles irem para suas respectivas escolas. Abandonada pelo marido, um jogador compulsivo que foge com todo o dinheiro que ela tinha economizado para a compra de uma casa nova, Ray decide ir atrás dele. Em sua busca, ela encontra o carro com o qual ele fugiu com Lila (Misty Upham), uma integrante da tribo Mohawk que vive em uma reserva na região. Induzida por Lila, Ray acaba entrando no arriscado jogo da imigração ilegal na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frozen River): Há dois anos Ray Eddy trabalha em uma loja de departamento esperando ser promovida. Ou, pelo menos, conseguir trabalhar em tempo integral – ela foi contratada por tempo parcial e, com o que ganha, sustenta a casa pré-fabricada e os dois filhos. A vida deles tinha uma certa “ordem” quando o pai dos garotos estava por perto, mas tudo muda quando ele abandona a mulher e os filhos e foge com o dinheiro que ela vinha economizando para comprar outra casa pré-fabricada (mas muito melhor do que a que eles têm).

Detalhe: o marido viciado em jogos de Ray abandona a família uma semana antes do Natal. Controlando o desespero – para não enfurecer ainda mais o filho adolescente e contestador T. J. e para não preocupar o caçula -, Ray se mostra uma “fortaleza” e busca, por conta própria, o marido fugitivo. Não demora muito para que ela encontre o carro da família do lado de fora de um bingo que aceita apostas altas dentro da reserva indígena local. Mas ao invés de encontrar o marido, Ray acaba descobrindo que o carro deles está com Lila, uma descendente da tribo Mohawk que é vista com um certo desprezo pelos demais moradores da reserva indígena. Ray não demorará muito para saber a razão deste desprezo: Lila é conhecida por facilitar a entrada de imigrantes ilegais nos Estados Unidos.

Mas Ray entra nesta jogada de imigração ilegal de gaiata. Lila diz para ela que encontrou o carro da família abandonado e que pode conseguir com que alguém da reserva indígena o compre por mais que o preço do mercado. Desesperada por dinheiro, Ray decide levar o carro para tentar vendê-lo. Só depois, quando ela chega no local, fica sabendo que estava sendo ludibriada e que, na verdade, ela está ajudando a passar pessoas ilegais da fronteira do Canadá para os Estados Unidos. Em teoria o plano é seguro: a maior parte do trajeto é feito por dentro da reserva indígena, onde não existe controle policial. O único risco é quando elas têm que passar por uma rodovia que sempre é patrulhada. Mas uma mulher branca no volante, segundo Lila, passa desapercebida.

Os contrabandistas pagam US$ 1,2 mil por cabeça – pagamento dividido entre a saída destas pessoas do lado do Canadá e a chegada do lado estadunidense. Como naquele provérbio que eu citei lá encima, quando Ray percebe como é “fácil” fazer este trabalho e de como é possível ganhar, através dele, o dinheiro que a família tanto precisa para a casa nova, ela decide arriscar-se. A oportunidade e o desespero fizeram uma mãe responsável se tornar criminosa. Por seu lado, Lila também passa por um grande drama pessoal. Ela perdeu o marido em uma destas tentativas de passar gente ilegal para dentro da fronteira e, de quebra, tem que acompanhar o filho ser criado pela sogra – que o roubou logo depois que ele nasceu, segundo a jovem mãe indígena. 

Por tudo o que eu contei acima, Frozen River se mostra um marcante drama familiar protagonizado por duas mulheres desesperadas (e traídas). Como todos sabem, nada bom pode sair do desespero. E quem pode julgar uma mulher no lugar de Ray? 

Como comentado antes, o filme acaba tratando de temas polêmicos, como a imigração ilegal e o superprotetorismo que circunda as reservas indígenas. O que o filme mostra pode perfeitamente acontecer em qualquer país que tenha uma reserva indígena em sua fronteira. Quando eu era repórter de um jornal local, fiz mais de uma reportagem sobre conflitos entre indígenas e agricultores na região em que morávamos. Foi assim que eu fiquei sabendo sobre as leis especiais que garantem quase imunidade para os índios. Um policial, na época, me disse: sabemos que muitos foragidos da Justiça acabam se escondendo dentro da reserva indígena, porque sabem que a polícia comum não pode entrar na reserva e nem fazer nada. Além disso, parte dos índios acaba praticando crimes – como o roubo de madeiras – sabendo que será muito difícil conseguir acusá-los. 

Para ser franca, não sei como funciona a lei nos Estados Unidos no que se refere a reservas indígenas, mas pelo que o filme mostra, eles devem gozar de uma proteção como a que existe no Brasil. Dentro deste tema, Frozen River mostra ainda de forma muito interessante as diferenças culturais e a mútua desconfiança entre brancos e índios. Realmente existe todo aquele “pé atrás” de ambas as partes. Os “brancos” só interessam aos índios quando eles podem lhes dar algo, lhes fazer um favor. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Até por isso o final da história acaba sendo tão interessante. Ray e Lila quebram um ciclo esperado de “superioridade” e fraqueza e conseguem, realmente, dar o seu grãozinho de areia em um processo de mudança de comportamentos. Afinal, nada melhor que a convivência de garotos como T. J. e Ricky com “pessoas de outra raça” para que eles vejam como todos temos qualidades e, principalmente, somos humanos.

O roteiro da diretora Courtney Hunt também explora de maneira interessante e um bocado natural o tema da imigração ilegal. Sem discursos na narrativa, percebemos que as pessoas que Ray e Lila colocaram para dentro dos Estados Unidos seriam realmente exploradas – algumas talvez como prostitutas (as últimas), outras como “escravos” modernos (como os asiáticos). Enfim, ninguém deles sairía bem daquele processo – talvez apenas os muçulmanos, que pareciam ter condições de realmente pagarem a fortuna que eles cobram por colocar pessoas para dentro dos Estados Unidos ilegalmente.

Aliás, curioso outro ponto do roteiro: o claro preconceito daquela dona-de-casa, mãe e trabalhadora de meia idade com os muçulmanos que ela ajuda a colocar em seu país. Eles são os únicos com os quais ela tem realmente dificuldade em aceitar. Fica evidente uma certa neurose dos norte-americanos com qualquer pessoa que venha do Oriente Médio, especialmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Apesar de que o filme é bem interessante, uma ou outra coisa nele me incomodou. Por exemplo a história do “sequestro” do filho de Lila. Não é exagerado dizer que, muitas vezes, os líderes de uma tribo são coniventes com episódios como aquele. Mas achei estranha a resolução do problema. Se fosse assim tão fácil, por que Lila não tomou uma atitude antes? Estaria ela “mal acostumada” com o protecionismo que ela tinha dentro da reserva indígena e, por isso, ela não se arriscava?

A história gira em torno, basicamente, dos quatro personagens já citados: Lila, Ray e seus dois filhos. Mas existem outros personagens que acabam sendo importantes na história. Entre eles o do policial Finnerty (Michael O’Keefe); o do gigolô e contrabandista Jacques Bruno (Mark Boone Junior); o do índio Jimmy (Dylan Carusona), atravessador entre os contrabandistas; e o do vendedor de “casas dos sonhos” Guy Versailles (Jay Klaitz). 

Produção de baixíssimo orçamento, Frozen River teria custado US$ 1 milhão – algo inacreditável para os padrões dos Estados Unidos. Graças provavelmente à propaganda boca-a-boca, a produção já se pagou e agora está lucrando: conseguiu até o dia 28 de dezembro de 2008 pouco mais de US$ 2,3 milhões de bilheteria nos Estados Unidos. 

A diretora e roteirista Courtney Hunt merece o destaque que está tendo – inclusive conseguindo duas surpreendentes indicações para o Oscar. Frozen River é sua estréia nos cinemas. E ela começa muito, muito bem.

Algo que me incomodou um pouco no filme também – mas que, infelizmente, é verdade: a relação dominante dos homens. Fica claro que existe um caráter machista nos “dois mundos” – dos brancos e dos índios. Primeiro que Ray é tratada como quase um estorvo por seu chefe na loja em que ela trabalha. Claramente ela é deixada para trás em relação a uma “gatinha” que sempre chega atrasada porque ela não é, para a maioria dos homens, uma pessoa sexy. O mesmo machismo se percebe entre os indígenas, que sabem quem são os rapazes envolvidos na rota de imigração ilegal e, nem por isso, cuidam de controlá-los. A tribo parece querer impedir apenas que as mulheres entrem nisso – os homens até podem. Mais uma vez a diretora e roteirista trata com inteligência este outro tema espinhoso.

Uma grande amiga minha mora relativamente perto da fronteira dos Estados Unidos com o Canadá – so que do lado canadense. Eu já sabia que lá, muitas vezes, faz a temperatura de 20 ou 30 graus abaixo de zero. Ninguém merece. Eu sei que as pessoas se acostumam a tudo, mas eu não me imagino vivendo em um lugar assim. Não, obrigada. Eu passo!

Para quem ficou curioso para saber aonde o filme foi feito, comento que ele foi filmado na cidade de Plattsburgh, no Estado de Nova York. Curioso ler sobre a cidade neste artigo e perceber que ela foi colonizada no século 17, influenciada inicialmente pelos franceses – que já dominavam a parte canadense. A cidade passou a ser interessante para os colonizadores devido a sua proximidade de Quebec. Não demorou muito para ser criada uma rota de comércio com Montreal. Agora, o curioso mesmo é que no texto eles comentam sobre conflitos entre os colonizadores e os “iroquois“… soube só depois que iroquois é, nada mais nada menos, que uma confederação de índios Mohawk, Oneida, Onondaga, Cayuga e Seneca. Ah tá.

Os Mohawk são uma das tribos mais respeitadas dos Estados Unidos. Eles são originários daquela região tratada pelo filme, realmente, ou seja, de Nova York até Ontario e Quebec. E o filme também é realista ao mostrar a região em que eles vivem. É verdade que os Mohawk estão localizados perto de rios como o Mohawk e o St. Lawrence e que sua reserva faz fronteira com a Nação Oneida e as Grandes Montanhas de Vermont. Eles são conhecidos por serem os “guardiões” daquelas fronteiras, tendo impedido, no passado, invasões do território por ali.

Interessante também a questão dos cassinos dentro do território indígena. Em 2003 o governador do Estado de NY começou uma briga com os Mohawk porque eles vinham praticando jogos considerados ilegais dentro de seu território – incluindo o baccarat, o blackjack e a roleta. Depois de alguns anos de briga entre os indígenas e o governo estadual, os Mohawk conseguiram a autorização para o funcionamento de cassinos dentro de seu território. Entende-se porque o marido de Ray era conhecido por “visitar” a reserva indígena – local para sua jogatina.

Frozen River está fazendo uma bela carreira de prêmios. Ganhou 19 até agora e foi indicado ainda para outros 16. Entre os principais prêmios que recebeu, destaca-se o Grande Prêmio do Júri do Festival de Sundance do ano passado para a diretora, Courtney Hunt; o Bronze Horse como melhor filme do Festival de Estocolmo; três prêmios no Festival de San Sebastián – dois para a diretora e um para Melissa Leo; e dois prêmios pelo National Board of Review – novamente para Hunt e Leo. Além destes prêmios, o filme foi indicado para o Oscar 2009 nas categorias de melhor atriz e de melhor roteiro original.

O filme ainda conseguiu uma boa crítica de público e de especialistas. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,4 para o filme, enquanto que os críticos que têm textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 68 críticas positivas e 11 negativas para a produção.

Frozen River realmente dá o destaque merecido para a atriz Melissa Leo. Veterana dos cinemas e da televisão, esta nova-iorquina de 48 anos que começou a atuar em meados dos anos 80 finalmente achou um papel que lhe propicia mostrar seus recursos como intérprete. Merecidamente ela chega ao Oscar com ele. Ainda que todos os holofotes sejam para ela, vale comentar que a atriz Misty Upham também faz um grande trabalho como Lila. As duas é que seguram o filme.

CONCLUSÃO: Um filme bem escrito sobre os dramas familiares de duas mulheres de culturas muito diferentes: uma dona-de-casa, mãe e trabalhadora de meia idade branca e uma jovem indígena que teve seu filho sequestrado pela sogra e que é vigiada pelas demais pessoas da tribo. A história das duas acabam se cruzando em um momento decisivo para ambas. Além de ter um roteiro muito bom, o filme nos apresenta a competente diretora Courtney Hunt, além de dar o merecido destaque para uma atriz veterana: Melissa Leo. Além de mostrar de maneira natural – quase como um documentário – a vida conflitiva daquelas pessoas, o filme conta uma história curiosa na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá, resgatando relações pouco abordadas pelo cinema atualmente. 

PALPITE PARA O OSCAR: Frozen River conseguiu um importante feito ao emplacar duas indicações para o próximo Oscar. Produção superindenpendente, ela pode se considerar vitoriosa por conseguir a projeção que está conseguindo com estas indicações. Ainda assim, dificilmente a equipe da produção levará algo para casa. Melissa Leo, ainda que esteja ótima em seu papel, não conseguirá desbancar Kate Winslet ou Anne Hathaway. Mesmo as atrizes que “correm por fora”, como Angelina Jolie e Meryl Streep, acredito que têm mais chances de levar o prêmio do que a nova-iorquina que interpreta uma mãe desesperada. Em roteiro original acredito que o filme até teria mais chances. Ele não estaria em último na corrida pela estatueta, pelo menos. Ainda assim, vejo como difícil ele ganhar de Wall-E ou Milk, dois fortes concorrentes. O negócio é esperar para ver, mas meu palpite é que Frozen River não levará nenhuma estatueta para casa.

Indicados para o Oscar 2009 – As chances de cada um (Avaliação)

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A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou, na manhã desta quinta-feira, a tão esperada lista das produções indicadas para a sua 81ª cerimônia de premiações. Os porta-vozes das “boas novas” para alguns – e de um amargo esquecimento para outros – foram o ator Forest Whitaker e o presidente da Academia, Sid Ganis. A verdade é que a lista que foi tornada pública era bem previsível – pelo menos nas categorias principais. Ainda assim, especialmente nas categorias secundárias, como trilha sonora e melhor canção, houve surpresas.

Mais tradicional que outras premiações, o Oscar conseguiu agregar boa parte dos grandes títulos lançados em 2008, abarcando desde blockbusters como The Dark Knight e Iron Man até filmes menos badalados, como The Reader e Frozen River. E, como todos esperavam, os grandes indicados deste ano foram mesmo Slumdog Millionaire e The Curious Case of Benjamin Button (este último apontado em 13 categorias, uma a menos que o recorde de 14 indicações conseguido por Titanic). Agora é esperar o momento da premiação do Oscar 2009, que será apresentada pelo ator Hugh Jackman no dia 22 de fevereiro a partir das 22h.

Acompanhe a minha avaliação para cada uma das 24 categorias do Oscar 2009:

slumdog31Melhor filme: a lista dos cinco indicados era mais que previsível. Quatro vagas se pode dizer que eram certas: as de Slumdog Millionaire, The Curious Case of Benjamin Button, Milk e Frost/Nixon. Os quatro filmes eram apontados por todos os especialistas para o prêmio. A quinta vaga, contudo, poderia ser disputada entre vários títulos. The Reader acabou ganhando seu lugar ao sol – o filme, ao total, recebeu cinco importantes indicações. Pessoalmente, gostaria que Gran Torino ou The Changeling estivesse em seu lugar – seria uma merecida indicação de um filme de Clint Eastwood, que foi responsável por estas duas produções interessantes em 2008. Mas paciência. Entre os cinco finalistas, mesmo sem ter assistido a The Reader, acredito que a queda-de-braço ficará mesmo entre Slumdog Millionaire (grande premiado no Globo de Ouro) e The Curious Case of Benjamin Button. Meu voto iria para Slumdog Millionaire, um filme mais inventivo que seu concorrente.

20_Slumdog_Boyle.jpgMelhor diretor: os maestros dos grandes filmes do ano chegam até o Oscar sem nenhuma surpresa. Na verdade, o Oscar praticamente “copiou” a lista dos indicados do Globo de Ouro – e de várias outras premiações. Quatro vagas eram dadas praticamente como fechadas: as de Danny Boyle (Slumdog Millionaire), David Fincher (Benjamin Button), Ron Howard (Frost/Nixon) e Stephen Daldry (The Reader). Apenas para a quinta vaga existia dúvida entre Sam Mendes (Revolutionary Road), Gus Van Sant (Milk) e Clint Eastwood (Changeling ou Gran Torino). Gus Van Sant acabou conseguindo a melhor. Como na categoria de melhor filme, acredito que a disputa fique restrita a Boyle e Fincher, ainda que Howard é sempre visto como um dos favoritos. Meu voto – difícil escolher – seria para Danny Boyle, porque acredito que ele consegue um trabalho realmente instigante com sua homenagem ao cinema de Bollywood.

milk37Melhor ator: outra vez quatro indicações eram um bocado óbvias. Todos apontavam Mickey Rourke (por The Wrestler), Sean Penn (por Milk), Frank Langella (por Frost/Nixon) e Brad Pitt (por Benjamin Button) como os melhores atores do ano. Apenas a quinta vaga da disputa estava em jogo. Richard Jenkins acabou ganhando o posto por seu elogiado trabalho como o professor Walter Vale, protagonista de The Visitor, um personagem que viaja para Nova York para uma conferência e acaba descobrindo que um casal está morando ilegalmente em seu apartamento. Com esta indicação ele deixou para trás nomes que estavam se engalfinhando para chegar lá, como Clint Eastwood (de Gran Torino) e Dev Patel (de Slumdog Millionaire). Nesta categoria o embate é feroz. Qualquer um dos concorrentes pode sair vencedor, mas acredito que existe um leve favoritismo para Rourke, Penn e Pitt, nesta ordem.

katewinsletMelhor atriz: aqui, mais uma vez, restava apenas uma vaga “surpresa”, porque as outras quatro já estavam definidas. Kate Winslet, Angelina Jolie, Meryl Streep e Anne Hathaway vinham sendo apontadas por todos os críticos como as melhores atrizes do ano. O que me surpreendeu é que Kate Winslet foi indicada por seu papel em The Reader… eu esperava que ela recebesse uma indicação por Revolutionary Road (que lhe garantiu o Globo de Ouro como melhor atriz). Ela ser indicada por um ou por outro filme comprova que 2008 foi o grande ano da atriz. Pessoalmente, meu voto seria para ela – acredito que ela leva uma pequena vantagem a respeito das demais. Mas sabe-se que Anne Hathaway, Angelina Jolie e Meryl Streep, nesta ordem, também têm boas chances de levar uma estatueta para casa. Da lista de indicadas, Melissa Leo não é, exatamente, uma surpresa, porque ela vinha sendo indicada a este mesmo prêmio em outros festivais e círculos de críticos. Na verdade ela ganhou a vaga na disputa com Kristin Scott Thomas (de I’ve Loved You So Long) e Sally Hawkins (Happy-Go-Lucky). Seu papel como uma mãe que acaba entrando no “negócio” de facilitar a entrada de imigrantes ilegais nos Estados Unidos lhe valeu uma indicação ao Oscar, mas dificilmente lhe dará a estatueta.

14_DarkKight_Ledger.jpgMelhor ator coadjuvante: outra disputa que está boa. O favorito Heath Ledger (de The Dark Knight) enfrenta na disputa a colegas em grande fase, como Michael Shannon (em mais uma impressionante interpretação, agora em Revolutionary Road), Josh Brolin (muito bem em Milk) e Philip Seymour Hoffman (pelo elogiado Doubt). De quebra, ainda conseguiu uma vaga na disputa de forma um tanto inesperada Robert Downey Jr., por seu papel em Tropic Thunder. Ok que o ator tinha entrado na mesma disputa no Globo de Ouro, mas acredito que Ralph Fiennes (por The Duchess) seria uma indicação mais esperada que a de Downey Jr. Ainda assim, ele merece estar nos holofotes nesta cerimônia, especialmente porque ele vem de um grande ano. O favorito, ao que tudo parece, é mesmo Heath Ledger. A filha dele deve ganhar a estatueta no lugar do ator. Pessoalmente, não assisti a todos os desempenhos, mas entre Brolin ou Shannon, eu votaria no segundo. Francamente não assisti a Tropic Thunder, mas acho que James Franco, por seu trabalho em Milk, poderia ter sido indicado nesta categoria.

12_Wrestler_Tomei.jpgMelhor atriz coadjuvante: o filme Doubt é considerado um dos grandes títulos do ano, considerando-se o trabalho do elenco. Tanto é verdade que apenas pela falta de um ator principal ele não domina as indicações do Oscar no quesito intérpretes. Além de ter uma indicação como atriz principal e ator coadjuvante, o filme emplacou duas indicações nesta categoria de atriz coadjuvante: uma para Amy Adams e outra para Viola Davis. Outros dois nomes sempre apontados como favoritos chegaram lá: Penélope Cruz (por Vicky Cristina Barcelona) e Marisa Tomei (por The Wrestler). Pessoalmente, nunca gostei de Penélope Cruz e, até há pouco, mantinha certa reticência com Marisa Tomei. Mas a atriz está realmente ótima em The Wrestler. A vaga que sobrou acabou no colo de Taraji P. Henson, que faz um trabalho muito bom como a mãe adotiva de Benjamin Button. Nesta categoria a disputa está aberta, e ainda que Penélope Cruz tenha recebido o Globo de Ouro e outros prêmios por seu desempenho no filme de Woody Allen, tenho dúvidas se a atriz espanhola levará a estatueta para o país das touradas. Meu voto, até agora – faltando assistir aos outros filmes – iria para Marisa Tomei.

Melhor roteiro original: ótimos filmes estão na disputa. Acredito que a animação Wall-E e o drama Milk levem uma pequena vantagem. Mas é bacana ver a produções mais “independentes” na disputa, como In Bruges, Frozen River e Happy-Go-Lucky. Uma grata surpresa da Academia, que resolveu este ano dar espaço para algumas das boas surpresas do ano – independente do tamanho do lobby que as cerca (ou não). Para mim é difícil escolher o melhor, porque estamos falando de filmes extremamente diferentes (e também porque não assisti a todos ainda), mas acho que meu voto iria para Milk. Ainda que alguns acreditam que Wall-E teria mais condições de vencer.

slumdog9Melhor roteiro adaptado: como normalmente acontece em Hollywood, a categoria de roteiro adaptado é mais disputada que a de roteiro original. Aqui, novamente, os indicados a melhor filme do ano se engalfinham (exceto por Milk, que entrou na outra categoria e cedeu espaço para Doubt, também um dos grandes indicados do ano). A disputa por aqui é acirrada, mas acredito que leve uma pequena vantagem Slumdog Millionaire, Benjamin Button e The Reader. Pessoalmente, meu voto – e minha crença de êxito – estão com Slumdog. Mas independente do resultado, qualquer um que vencer deve ser por mérito.

Melhor trilha sonora original: novamente uma disputa das boas. E, para variar, três nomes que nunca saem da lista dos melhores em cada ano: Danny Elfman (por Milk), Thomas Newman (Wall-E) e James Newton Howard (Defiance). Eles são, junto com alguns outros, realmente os mestres das trilhas sonoras de Hollywood. Mas este ano estas feras terão que brigar pela estatueta com os trabalhos elogiados de A. R. Rahman (pela ótima trilha de Slumdog) e de Alexandre Desplat (que fez um trabalho muito bom em Benjamin Button). Para mim, esta é uma das categorias mais disputadas do ano. Complicado escolher o melhor, ainda que eu tenha uma leve preferência por Rahman e por Desplat.

wall-eMelhor canção original: novamente Slumdog Millionaire mostra a sua força. O filme conseguiu emplacar duas músicas nesta categoria – que surpreendentemente teve apenas três finalistas. Ficaram de fora dois favoritos: Bruce Springsteen com a canção The Wrestler, do filme homônimo (que lhe rendeu um Globo de Ouro) e Jamie Cullum e Clint Eastwood por Gran Torino, do filme com o mesmo nome dirigido pelo veterano ator. Esta categoria foi talvez a grande surpresa da lista divulgada. No lugar de algumas favoritas foram indicadas as músicas Jai Ho, de Gulzar; O Saya, de A.R. Rahman e Maya Arulpragasam (ambas de Slumdog); e Down to Earth, de Peter Gabriel (do filme Wall-E). Se analisarmos apenas pela tradição do Oscar, leva favoritismo Peter Gabriel e a música da animação Wall-E. Mas quem sabe este é o ano da surpresa A.R. Rahman?

waltzMelhor filme estrangeiro: mais uma vez, exceto por um detalhe (a ausência do filme Gomorra, que já havia sido descartado na lista de pré-selecionados), não houve surpresas nesta categoria. Eram praticamente certas as indicações de Waltz With Bashir, Entre les Murs e Der Baader Meinhof Komplex neste Oscar. O filme israelense, segundo a maioria dos críticos, leva vantagem. O francês Entre les Murs e o alemão Der Baader Meinhof Komplex também têm boas chances – ainda que pareçam um pouco “independentes” demais para a Academia. Correm ainda pela estatueta os elogiados Okuribito (ou Departures, do Japão) e Revanche (da Áustria). Como eu não assisti a nenhum dos concorrentes – tinha apostado minhas fichas em Gomorra, Three Monkeys e To Verdener -, resta saber o que a crítica e o público pensam de todos eles. Levando em conta votações dos sites IMDb e Rotten Tomatoes, Waltz With Bashir realmente está na dianteira, seguido de Okuribito e Entre les Murs.

Melhor animação: os três filmes apontados por todos até agora como os melhores do ano (Wall-E, Bolt e Kung Fu Panda) realmente chegaram lá. Surpresa alguma nesta categoria. Também não será nada surpreendente Wall-E levar o prêmio para casa – ele é, de longe, o favorito da noite.

manonwire6Melhor documentário: algumas das melhores produções do ano chegaram até o final da concorrida disputa conseguindo uma vaga entre os indicados. Man on Wire e Trouble the Water são os grandes favoritos. Mas era esperada também a indicação de Encounters at the End of the World. O que foi um bocado surpreendente é que Standard Operating Procedure ficasse de fora da lista dos cinco melhores do ano. Mas paciência. Em seu lugar entrou o elogiado The Betrayal (Nerakhoon), que mergulha na história de uma família que sofreu com a Guerra do Vietnã. O filme demorou 23 anos para ser filmado – acompanhando a fundo a história da família de Thavisouk Phrasavath, co-diretor do filme, que emigrou para os Estados Unidos quando tinha 14 anos. Outra produção na disputa é The Garden, um documentário que conta a vida de uma comunidade de agricultores imigrantes que se instalaram em uma região de Los Angeles. Acredito que o favorito seja Man on Wire – ainda que a disputa esteja acirrada e que outro filme pode, perfeitamente, sair vencedor.

Melhor curta animação: produções muito interessantes concorrem este ano no Oscar – como geralmente acontece nesta categoria que tem pouca audiência entre o grande público. Todas multiculturais – ou, pelo menos, que percorrem várias partes do globo. Estão na disputa o japonês La Maison en Petits Cubes, que conta a história de uma casa em permanente estado de construção e de seu morador, um vovô que revisita suas memórias da vida em família; o russo Lavatory – Lovestory, que conta como uma história de amor pode surgir em um banheiro público; o francês Oktapodi, que narra a tentativa de dois polvos em ficarem juntos e evitarem o destino quase certo de virarem um prato de comida; o inglês This Way Up, que conta o “lado divertido” de um funeral; e o estadunidense Presto, curta exibido antes de Wall-E nos cinemas e que narra a história entre um mágico e um coelho. Ainda tenho que assistir a todos eles, mas me parece levar uma pequena vantagem La Maison en Petits Cubes, Lavatory – Lovestory e Oktapodi. Presto correria por fora junto com This Way Up.

The Witness Screening LAMelhor documentário em curta-metragem: aqui, novamente, a disputa será um pouco acirrada. Competem nesta categoria os trabalhos dos diretores Steven Okazaki (por The Conscience of Nhem En), Megan Mylan (por Smile Pinki), Adam Pertofsky (por The Witness from the Balcony of Room 306), e Irene Taylor Brodsky e Tom Grant (por The Final Inch). Achei especialmente interessante a história do filme de Pertofsky, que conta as horas que antecederam o assassinato do líder político e herói dos direitos civis nos Estados Unidos, Martin Luther King. Também parece interessante o documentário The Final Inch, sobre o esforço global em erradicar a poliomielite. Acredito que estes dois filmes têm boas chances de levar a estatueta – tenho uma certa preferência pelo primeiro, mesmo sem tê-lo assistido.

Melhor curta-metragem: concorrem nesta categoria várias produções de diferentes países. Disputam uma estatueta a co-produção da Alemanha/Suíça intitulada Auf der Strecke; a francesa Manon sur le Bitume; a alemã Spielzeugland; a dinamarquesa Grisen, e a irlandesa New Boy. A melhor cotação até agora para os curta-metragens é a de Manon sur le Bitume, que recebeu a nota 8 pelos usuários do site IMDb. O curta francês conta a história de Manon, uma garota que sofre um acidente de bicicleta e que passa por uma experiência de “ver a vida fora de seu corpo”. Parece interessante.

thecuriouscase7Melhor direção de arte: aqui não houve surpresa. Benjamin Button, talvez o favorito nesta categoria, deve ganhar a queda-de-braço com os filmes de época The Duchess (tipo de produção que sempre rende um ótimo resultado em direção de arte) e Changeling. Corre um pouco por fora, na minha opinião, The Dark Knight e Revolutionary Road – ainda que, devo admitir, o trabalho em todos foi muito bem feito. Pessoalmente, acredito que Benjamin Button ou Changeling deve ficar com a estatueta.

Melhor fotografia: uma das minhas categorias favoritas também não teve muitas surpresas este ano. Slumdog Millionaire e Benjamin Button eram vistas como indicações certeiras. Ganhou o seu espaço, com muitos méritos, Changeling. Entraram na disputa ainda The Reader e The Dark Knight. Sou suspeita para falar, mas gostei muito do trabalho dos diretores de fotografia dos filmes The Wrestler e Milk. Dos indicados, meu voto iria mesmo para Slumdog Millionaire. A disputa deve ficar entre ele e Benjamin Button.

slumdog2Melhor edição: mais uma vez foram selecionados alguns dos melhores trabalhos do ano. Ainda que seja ótimo o trabalho feito em Frost/Nixon – sem a edição de Mike Hill e Daniel P. Hanley o filme não seria o que ele é -; em Milk e em The Dark Knight, acredito que a disputa se concentra (mais uma vez) entre Slumdog e Benjamin Button. Nem preciso dizer – qualquer um que leu a minha crítica de Slumdog sabe disso – que meu favoritíssimo nesta categoria é Slumdog. Chris Dickens fez um labor realmente digno da estatueta.

Melhor mixagem de som: além dos favoritos desta edição do Oscar (Slumdog, Benjamin Button e Wall-E), nesta disputa entra na jogada ainda The Dark Knight e Wanted. Acredito que o filme mais elogiado do Batman dos últimos tempos leva uma certa vantagem na disputa. Seu grande concorrente talvez seja Wall-E.

thedarkknightMelhor edição de som: não é muito usual, mas desta vez um filme que não está na categoria de ação entrou na disputa. Se trata, é claro, de Slumdog Millionaire. O filme tem realmente uma ótima edição de som. Ainda assim, dificilmente ele vai ganhar de The Dark Knight ou, correndo um pouco atrás, Iron Man, Wall-E ou Wanted. O filme com o Cavaleiro das Trevas deve levar mais esta estatueta.

Melhores efeitos especiais: nesta categoria, duas das maiores bilheterias do ano disputam com o filme mais indicado desta edição do Oscar. The Dark Knight e Iron Man levam franca vantagem em relação a Benjamin Button, mas nunca se sabe quando a Academia resolve dar a maioria dos prêmios para um único filme. 😉 Pessoalmente, acredito que The Dark Knight deve sair vencedor. O segundo na lista seria Iron Man.

thecuriouscase31Melhor maquiagem: aqui os papéis da categoria anterior se invertem. Ainda que o trabalho com o Coringa em The Dark Knight tenha sido fundamental para o personagem, Benjamin Button é o franco favorito para levar a estatueta de maquiagem. Apenas um desastre tira este prêmio do filme. Concorrendo por fora está ainda Hellboy II.

Melhor figurino: dois trabalhos que eu tinha gostado muito entraram na lista de indicados – Benjamin Button e Milk. Estão na disputa ainda The Duchess (figurinos de época sempre são um prato cheio), Australia e Revolutionary Road. Os últimos dois, para mim, são os azarões. Benjamin Button e The Duchess devem decidir o prêmio.

Standard Operating Procedure – Procedimento Operação Padrão

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Todos sabem e/ou presumem que uma guerra é vergonhosa no trato do ser humano. Além da carnificina propriamente dita – tiroteiros, bombardeios, etc. -, existe a parte da “inteligência de guerra”, que nada mais é do que interrogatórios com base em técnicas de tortura. Mas uma coisa é especular e fantasiar sobre isso, outra muito diferente é ter provas de que os direitos humanos são ignorados em muitos de seus artigos aceitos por todos os países do mundo. O documentário Standard Operating Procedure se debruça sobre o escândalo fotográfico da prisão de Abu Ghraib, exposto na mídia em abril de 2004 – e que provocou um pedido de desculpas público do então presidente-cavalo George W. Bush. Para os norte-americanos talvez o documentário traiga pouca informação nova – afinal, o caso foi tratado exaustivamente na mídia estadunidense -, mas, para nós, “seres de outros países”, o filme traz uma série de detalhes do que aconteceu por ali e sobre o que, certamente, continua acontecendo em bases do Exército dos Estados Unidos ainda hoje.

A HISTÓRIA: O filme conta a história de um episódio doloroso na vida recente dos militares dos Estados Unidos: o escândalo revelado através de fotos e alguns vídeos das operações na base militar de Abu Ghraib, no Iraque. Através de depoimentos de homens e mulheres que trabalharam lá no período em que ocorreram os abusos, torturas e humilhações de prisioneiros, o filme vai reproduzindo as fotos que foram utilizadas no julgamento dos militares e, ao mesmo tempo, reconstituindo o que aconteceu através da dramatização com atores. O escândalo de Abu Ghraib veio à tona em abril de 2004, com as primeiras fotos sendo publicadas pelo The New Yorker e exibidas no 60 Minutes. Nestas fotos, soldados dos Estados Unidos registravam diferentes técnicas de humilhação e abuso feitos com presos iraquianos na base militar. Alguns dos participantes – especialmente as pessoas que aparecem nas fotografias – foram condenados. 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Standard Operating Procedure): Nenhuma imaginação, eu acredito, chega a tocar o que algumas vezes a realidade revela. Ok, em uma país como o Brasil, que teve uma ditadura militar, todos já ouviram falar em pau-de-arara, choques elétricos, tortura psicológica e demais técnicas utilizadas para fazer “prisioneiros falarem”. Mas ouvir da boca dos protagonistas destas histórias, ouvir dos torturadores a narrativa do que aconteceu e, pior, o esboço de uma justificativa para os atos praticados é, algumas vezes, pior do que simplesmente ver as imagens dos prisioneiros sendo maltratados.

Fiquei chocada realmente com Standard Operating Procedure. Não apenas pelas imagens impressionantes dos abusos que foram feitos – até porque estas imagens já haviam sido publicadas no mundo inteiro (ainda que eu, francamente, não me lembrava de muitas delas). Mas fiquei chocada especialmente pelas idiotices sem tamanho que aquelas pessoas disseram, tentando justificar o que estava acontecendo e, mais impressionante quanto o anteriormente citado, quando o especialista Brent Pack começa a classificar o que era considerado “ato criminal” ou “procedimento operação padrão”. Chocante o que eles podem considerar como aceitável em uma guerra para obter informações de prisioneiros. 

O filme todo é uma surpresa após a outra. Existe momentos de puro interesse policial, como quando Brent Pack conta em detalhes como eles conseguiram reunir todas as fotos em temas e depois colocá-las cronologicamente para que esse material narrasse o que aconteceu em Abu Ghraib. Conseguiram, inclusive, identificar as fotos que foram feitas por cada máquina e, claro, as pessoas que tinham tirado elas. Um trabalho realmente interessante. 

Mas o filme ganha protagonismo especialmente por deixar os envolvidos falarem. Logo que Lynndie England aparece, nas suas primeiras declarações – antes de sabermos tudo o que ela fez -, percebe-se que a mulher é uma louca. Incrível como ela e outras figuras como Megan Ambuhl Graner tentam realmente justificar o que fizeram como algo aceitável, dizendo que estavam apenas “seguindo ordens”. Ah, ok. Será que elas convencem alguém? Porque outras pessoas que contam o que aconteceu por lá dizem como não aderiram a esse esquema. E como diz Sabrina Harman lá pelas tantas, sempre é possível as pessoas fazerem diferente, mas ela não consegue ver o que poderia ter feito naqueles casos. 

A verdade é que ela tem razão quando comenta que o importante era documentar aquilo, para provar que esses fatos aconteceram. Sabe-se que eles ocorriam antes e estão ocorrendo agora, anos depois, mas pelo menos em algum momento da História eles foram documentados e se tornaram públicos, mostrando algumas das características mais bizarras e horríveis do ser humano. Atos que comprovam o quão baixo as pessoas podem chegar com o propósito de “defenderem” sua sobrevivência. Só que no caso destas fotos, o que se percebe é que na maioria das situações o que realmente ocorria é que estas pessoas fizeram o que fizeram apenas para se divertirem. Eles gozavam realmente com a humilhação dos “inimigos” – que sabiam, muitas vezes, serem inocentes. Para mim, isso é a base da insanidade e do crime vergonhoso.

Gostei muito da direção de Errol Morris. Ele conseguiu depoimentos realmente potentes (para os quais farei comentários detalhados em seguida), além de ter cuidado muito bem dos detalhes da narrativa, tornando o filme permanentemente interessante e, ao mesmo tempo, devastador. Claro que ele seguiu praticamente uma linha cronológica, contando os fatos através das fotos e das cartas de Sabrina Harman mas, mesmo assim, ele tornou a história realmente impactante, sem perder o ritmo em momento algum. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Prova disso é que mais perto do final, quando você já pensa que viu tudo que era possível – humilhações e abusos sexuais e até assassinato provocado por torturas – ainda aparece a cena dos cães sendo jogados contra presos. Inacreditável.

Junto com o diretor, que faz realmente um trabalho muito bom, destaco o trabalho dos editores Andy Grieve, Steven Hathaway e Dan Mooney. Mais uma vez o compositor Danny Elfman faz um trabalho excepcional com a trilha sonora, que imprime o tom exato entre suspense e “era da informática” no filme. Um grande trabalho da equipe técnica, realmente.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Só fiquei um pouco incomodada, para ser franca, pelo documentário ter entrevistado apenas os envolvidos da parte “estadunidense” desta história. Gostaria de ter ouvido depoimentos das pessoas que foram humilhadas e agredidas. Sei que seria difícil conseguir um depoimento delas, mas não seria impossível. Ainda que o documentário, com estes depoimentos, precisasse ter quatro horas de duração, mas acho que ele teria sido um documento ainda mais potente. Faltou isso, mostrar os outros lados da questão – e, por essa razão, dei esta nota menor para o filme. Teria sido interessante ouvir os iraquianos, por exemplo, para eles contrastarem alguns depoimentos dos soldades norte-americanos, como o “espantalho”, que disse que efetivamente os fios eram eletrificados e que ele estava acostumado a levar choques elétricos – o que os militares negam.

Standard Operating Procedure é destes filmes que vão servir sempre como um documento sobre a guerra e sobre a atuação dos Estados Unidos em conflitos pelo mundo. Acaba sendo um filme raro sobre uma face que poucos gostam de olhar no procedimento deles – e de outros países, com certeza – em situações como aquela.

Agora, vou comentar todos os entrevistados do filme e o que eles trazem de mais interessante para esta produção:

  • Javal Davis, sargento da polícia militar dos Estados Unidos: um dos grandes depoimentos do filme. Ele conta realmente em detalhes como era a vida dos militares na região, tanto no trabalho de patrulhamento quanto no de controle dos presos. É um dos poucos que realmente narra a pressão pela qual eles passavam, sob constante ataque. Bastante crítico, ele também comenta sobre os vários presos nunca registrados pela prisão, presos considerados “importantes” pelas diversas instituições de inteligência norte-americana (da CIA adiante). Davis também fala sobre técnicas de tortura psicológica, como a de expor os presos a altos níveis de estresse com música alta. Um dos momentos mais fortes do filme, para mim, é quando ele revela como as prisões de muitas pessoas eram arbitrárias. Literalmente eles “passavam o rodo” na cidade, prendendo praticamente todos os homens da região apenas para “controlá-los”. Ou seja, muitos inocentes passaram por situações de estresse, humilhações e torturas totalmente de graça. E depois eles não sabem porque os iraquianos e outros povos do Oriente Médio nutrem tanto ódio pelos estadunidenses e/ou ocidentais.
  • Ken Davis, sargento da polícia militar: é um dos que aparece menos no documentário. Ele ajuda a dar credibilidade para os demais, comentando sobre o seu “espanto” ao ver os presos sendo tratados daquela maneira – sempre sendo despidos e colocados sob o controle de militares mulheres. Ken Davis corrabora também a informação que outros deram de que, quando alguém contestava o que estava acontecendo, os superiores hierárquicos apenas diziam que eram “procedimentos do IM (inteligência militar)” e que eles “sabiam o que estavam fazendo”. O sargento realmente comenta que ficou assustado com o que viu e que decidiu não participar daquilo – e como ele não apareceu em nenhuma das fotos, fica impossível comprovar se isso é verdade ou não.
  • Walter (Tony) Diaz, sargento da polícia militar: ele também aparece pouco no filme, basicamente para contar detalhes sobre a morte do preso durante uma sessão de interrogatório/tortura. O interessante de depoimentos como o dele é que eles acabam dando validade para um fato que não teve registros durante o crime propriamente dito – Sabrina fez fotos apenas depois, quando o prisioneiro tinha sido colocado em um saco repleto de gelo para “impedir” que ele começasse a cheirar mal e apodrecer. Com depoimentos como o de Tony Diaz fica claro que eles “passaram dos limites” e realmente mataram uma (e certamente mais) pessoa no processo.
  • Tim Dugan, interrogador do CACI Corp.: um dos grandes depoimentos do filme. Ele praticamente pode ser visto como o narrador desta história, afinal, a produção começa e termina com fotos e opiniões dele. Um homem sensato, que já passou por muitas guerras e que acaba sendo, neste documentário, uma das poucas vozes sensatas sobre o que pode ser aceito ou não em um trabalho como o deles. Realmente muito boas as suas falas, algumas bastante inspiradas – ainda que, como as demais pessoas que não aparecem nas fotos, não sabemos até que ponto ele pode ser considerado um dos “bonzinhos” da história.
  • Lynndie England, soldado da polícia militar: essa é, sem dúvida, louca de pedra. Logo na primeira aparição dela, pelo jeito que ela olha para a câmera e, principalmente, pelo jeito com que ela fala, você pode perceber que a mulher está desequilibrada. E ela só vai piorando. Até porque, pouco a pouco, descobrimos que ela é uma das “estrelas” das fotografias incriminadoras. Ela e seu então “namorado”,  Charles Graner – um dos principais envolvidos que não pôde ser ouvido pela equipe de produção do filme. A mulher se mostra realmente louca ao tentar justificar os atos dela e dos demais, sem contar que ela “culpa” a paixão dela por Graner como o que fez ela ser tão estúpida. Me desculpem, mas ela não me convence em momento algum. As pessoas sabem o que é certo e o que é errado, e quando elas fazem o errado por causa de alguém, são mais estúpidas ainda. Mas, no caso daquelas humilhações, não me parecia que a garota, então com 20/21 anos, estava fazendo aquilo coagida. Não, parecia mesmo que ela se divertia. Ultrajante. 
  • Jeffery Frost, especialista da polícia militar: outro que fala pouco durante o filme. Basicamente ele ajuda a narrar o que acontecia em Abu Ghraib cotidianamente, além de dar mais detalhes sobre a morte do prisioneiro após ser torturado. Se mostra um pouco menos consciente que o general Tony Diaz, até porque, em alguns momentos, ele parece se divertir com o que ocorreu por lá.
  • Megan Ambuhl Graner, especialista da polícia militar: outra louca do grupo. Basta olhar para o seu olhar fixo para a câmera e seus depoimentos praticamente automáticos/sem emoção para perceber que algo de errado acontece com essa mulher. Ela é uma das pessoas que mais tenta justificar o que eles fizeram como algo que “faz parte no processo de salvar vidas”. Realmente repugnante. Sem contar que ela reforça a justificativa de muitos de que eles tomavam aquelas atitudes sob o comando de superiores. Ah, me poupem! Ok que muitos deles seguiam ordens, mas em vários casos mostrados no documentário, eles agrediam e humilhavam presos apenas para se divertirem. Isto está claro. Não tinham recebidos ordens para pisar nos dedos de uns, dar um soco forte em outros, fazer uma pirâmide de homens nus a certa altura do dia. Esses atos não tiveram  justificativa e nem ordem de superiores para ocorrerem.
  • Sabrina Harman, especialista da polícia militar: um dos grandes depoimentos do filme, tanto pelo que ela fala quanto pelas cartas dela para a mulher que acabaram sendo um interessante fio condutor da história. Através das cartas de Sabrina acompanhamos a rotina da prisão desde o dia 1° de outubro de 2003, quando ela chega no local, até o momento em que ela começa a fazer as primeiras fotos e, depois, em que eles começam a passar por uma investigação militar. Sem dúvida ela se mostra uma das pessoas mais sensíveis do filme, consciente de que o que eles fizeram foi errado. Ainda que, em certas ocasiões, ficou difícil dela negar que talvez estivesse se divertindo em vários momentos, como quando faz o sinal de positivo ao lado do morto sob tortura e, em outra ocasião, quando diz que o homem colocado como um “espantalho sob risco de ser eletrocutado” era “divertido”. Realmente não existem santos naquele meio – e nem ela, uma das pessoas que fala mais francamente sobre tudo que aconteceu, era inocente na história.
  • Janis Karpinski, general de brigada responsável por Abu Ghraib e outras prisões da região: outro grande depoimento do documentário. Indignada com o tratamento que recebeu depois que o escândalo veio à tona, ela nomeia todos os superiores que tiveram alguma participação nos abusos daquele local. Uma das primeiras falas dela narra a visita de Donald Rumsfeld, então Secretário de Defesa dos Estados Unidos, as instalações de Abu Ghraib. Fica claro o descaso dele com o local e as suas ordens para transformar aquilo em um centro de tortura no Iraque. Tanto que ela mesma comenta que no dia seguinte em que o Secretário de Defesa esteve lá é que começaram as mudanças. No dia seguinte um tal de General Miller muda toda a estrutura de Abu Ghraib e coloca as alas 1A e 1B, onde ocorreram os principais abusos contra presos, sob o comando de um tal de Coronel Pappas. Posteriormente, Karpinski ainda cita ao General Wojdakowski como o comandante que disse que eles não tinham autorização alguma para libertar nenhum dos mais de 1,5 mil presos do local – um número muito acima do que seria o razoável para as pessoas que trabalhavam ali. Realmente corajosa, Karpinski acaba sendo um dos melhores depoimentos do filme – detalhe: nenhum “peixe grande” do Exército foi condenado pelos crimes que ocorreram em Abu Ghraib.
  • Roman Krol, especialista da Inteligência Militar: outro louco de pedra. Logo que ele aparece em cena se percebe que ele é um descontrolado. Especialmente revoltante quando ele fala que não entende como pode ter sido condenado “apenas” por ter jogado uma garrafa de água e por ter jogado uma bola de futebol americano em cima de presos do local. Fica claro também que ele comenta que nada disso teria acontecido se as fotos não existissem – uma maneira de dizer que o problema foi o registro “idiota” de alguns de seus colegas, e não o procedimento dos militares. Típico imbecil do Exército.
  • Brent Pack, agente especial do exército da divisão de investigação criminal: figura fundamental da história, especialmente porque é ele quem conta como as provas foram classificadas e viraram peça-chave nas condenações daquelas pessoas. Como agente de investigação criminal, ele é direto em dizer que boa parte dos crimes solucionados dependem da burrice dos criminosos. E ele considera uma grande burrice os militares terem tirados fotos de seus atos. Com isso ele não quer dizer que eles não deveriam ter feito isso, apenas constata que estes crimes chegaram ao grande público e viraram o que viraram porque alguém teve a genial idéia de documentar tudo através de fotos. Sabe-se que outros abusos acontecem diariamente nas prisões militares dos Estados Unidos mas elas não aparecem porque ninguém que está lá dentro tem essa idéia de registrar tudo. Algo bem típico da era das máquinas digitais e da internet, não?
  • Jeremy Sivits, especialista da polícia militar: típico cara que parece ter “entrado de gaiato no navio”. Pelo menos segundo seu depoimento, ele entrou como bobo na história que viraria, na opinião de Brent Pack, elemento-chave na condenação daquelas pessoas: a infame “pirâmide de sete iraquianos nus”. Aparentemente Sivits participou daquela cena apenas tirando fotografias e cortando as amarras que estavam deixando um preso com as mãos roxas. Aparentemente, porque ninguém sabe se ele participou de outras histórias de humilhação não documentadas. Ainda assim, ele acaba resumindo um pouco o sentimento de vergonha que muitos militares e/ou estadunidenses sentiram com este episódio. Um depoimento pequeno no filme, mas importante.

Vale a pena citar que os investigadores do caso receberam 12 CDs recheados com milhares de fotos e conseguiram, com este material, contar cronologicamente tudo que aconteceu em Abu Ghraib no período em que foram feitas aquelas fotografias.

Encontrei alguns artigos interessantes sobre o caso e o documentário. Vale citar: este do Los Angeles Times, este outro do Washington Post, este do New York Times e, por fim, esta crítica do Boston.com. Foi um filme realmente que ganhou muita projeção internacional, especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Falando em projeção internacional, Standard Operating Procedure conseguiu uma nota relativamente baixa no IMDb: apenas 7,5. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes também não foram dos mais efusivos com este documentário. Eles dedicaram 75 críticas positivas e 19 negativas para o filme – lembrando que o concorrente de Standard Operating Procedure no próximo Oscar, Man on Wire, conseguiu 100% de críticas positivas no mesmo site.

O documentário de Errol Morris foi indicado a seis prêmios até agora, ganhando apenas um (importante, diga-se): o prêmio especial da crítica/Urso de Prata no Festival de Berlim de 2008.

De bilheteria o filme foi fraco: conseguiu quase US$ 229 mil nos Estados Unidos até julho de 2008.

Importante contextualizar a importância deste escândalo na história recente dos Estados Unidos. A publicação das fotos de Abu Ghraib foi a que desencadeou uma série de publicações e denúnicas de maus tratos e de violação de direitos humanos por parte dos militares estadunidenses em diversas prisões pelo mundo. Depois que se tornaram públicas as fotos de Abu Ghraib é que vieram à tona problemas em outros locais do Iraque, no Afeganistão e na prisão da base naval americana em Guantánamo, em Cuba.

CONCLUSÃO: Um filme revoltante sobre um dos episódios mais vergonhosos da história recente dos Estados Unidos. Bem produzido e com uma direção cuidadosa, Standard Operating Procedure se mostra um importante documento sobre os abusos da guerra e sobre a capacidade humana em chegar ao nível mais baixo de comportamento. Por ser uma história sobre tortura, violência e humilhações contra presos durante uma guerra, se trata de um filme duro, com muitas cenas que vão provocar revolta e, dependendo da “fragilidade” do espectador, até mal estar físico. Realmente é de embrulhar o estômago algumas vezes – não sei se por efeito da bílis ou pela constatação de que, algumas vezes, a realidade pode ser pior do que alguns filmes de terror.

PALPITE PARA O OSCAR: Acredito que Standard Operating Procedure será um dos cinco indicados para o Oscar de melhor documentário deste ano. Não é um filme fácil para os Estados Unidos, mas ele deveria ser visto com um filme necessário. Acredito que ele tem qualidades técnicas e de narrativa suficiente para levar a estatueta para casa. Só acho uma incógnita o que os membros da Academia vão decidir. Eles podem realmente valorizar o trabalho de denúncia de Errol Morris ou, igualmente, premiar o trabalho mais inspirado e artístico de James Marsh com seu bacana Man on Wire. Realmente fica difícil de apontar um favorito, ainda que eu ache que Man on Wire leva uma pequena vantagem – pelo menos na opinião dos críticos.

ATUALIZAÇÃO – 22/01/2009: Acabo de ver na lista de indicados para o Oscar que Standard Operating Procedure ficou de fora. Uma pena. Acho que o filme merecia, pelo menos, ser indicado. Acho que o favorito mesmo nesta categoria será Man on Wire, ainda que existam filmes fortes na disputa, como Trouble the Water, que revela o drama ocorrido em Nova Orleans com a passagem do furacão Katrina.