Haywire – À Toda Prova

Alguns diretores são interessantes. Eles se esforçam para desenvolver uma linguagem própria, um estilo diferenciado, apresentar uma cereja em cada bolo (leia-se filme) que entregam. Steven Soderbergh é um destes nomes. Em seu novo filme, Haywire, o diretor volta a apostar em uma forma diferenciada de fazer cinema. A proposta é boa, até um determinado momento do filme. Mas joga contra o diretor um roteiro fraco e uma atriz sem expressividade alguma. Mais uma vez, Soderbergh aposta em uma garota desconhecida para estrelar um filme seu. Desta vez, ele errou na escolha, ainda que Gina Carano seja ótima nas cenas de ação, na interpretação ela é péssima.

A HISTÓRIA: Uma garota olha com capuz olha fixo para um café de estrada. Ela entra, tira a mochila e senta em uma mesa. Tira o casaco, toma um chá e olha um grupo de amigos em uma mesa próxima. Vê a chegada de um carro, e não fica satisfeita ao ver quem saiu dele. Ela se prepara, e começa uma conversa truncada com Aaron (Channing Tatum). Ele pede para Mallory Kane (Gina Carano) facilitar e acompanhá-lo até o carro, mas ela se nega. Depois de brigarem, Mallory foge no carro de um dos rapazes que estava no café, Scott (Michael Angarano). Enquanto dirige e pede para ele fazer um curativo em seu braço, Mallory explica porque está sendo perseguida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haywire): A primeira parte deste filme é muito, muito interessante. O estilo de Haywire lembra demais os grandes filmes de ação dos anos 1960. Não apenas o estilo de direção, que foca os atores em um estilo que lembra algumas vezes o documentário, algo mais cru e naturalista, mas também pela presença marcante da trilha sonora. Ela parece onipresente, e um elemento fundamental para marcar o ritmo do filme.

O elemento novo, conquistado principalmente a partir dos anos 1980, são as lutas perfeitamente coreografadas. A violência come solta, nestes momentos – e há um bocado de pancadaria em Haywire. E se o início do filme já mostra algo fundamental para a produção, que é a beleza e a alta limitação interpretativa da atriz Gina Carano, logo de cara, ele também deixa claro, nos primeiros minutos, a escolha por ter filmes antigos como referencial principal do diretor.

Steven Soderbergh é um sujeito que conhece bem o seu ofício. Um diretor que procura fazer um trabalho diferenciado do “balaio” dos cineastas que fazem filmes de ação. Muitas vezes ele acerta, mas em outras ele erra. Depois de “descobrir” Sasha Grey, uma atriz de pornô, e decidir que ela seria a estrela de The Girlfriend Experience, Soderbergh resolveu destacar a novata Gina Carano em Haywire.

Nos dois casos, o principal predicado de escolha foi a beleza, não há dúvidas. As duas são garotas lindas. Como eu escrevi nesta crítica, acho que Grey se saiu bem no filme mais sério que ela já estrelou na vida por uma simples razão: ela conhece bem aquele tipo de papel, de mulher-objeto. Mas Carano não se sai tão bem. Ela é linda, é verdade, correu e bateu muito bem. Mas Haywire exigia para o papel principal uma atriz que conseguisse expressar alguma emoção mínima em determinados momentos. E ela não consegue isso.

Neste ponto, é possível ver um paralelo entre Carano e Arnold Schwarzenegger. Digamos que ela é um Schwarzenegger de saias. 🙂 Ambos se dão (no caso dele, se dava) muito bem em filmes de ação, batendo, assustando, fazendo caras de gente malvada. Mas isso é tudo. Há um momento em que Carano deve parecer muito sensual e provocante em Haywire. Não acho que ela convenceu neste papel. Não achei ela provocante, apenas bonita. Faltou encontrar uma atriz que pudesse servir de alvo para outro herói dos filmes do gênero, o personagem James Bond. Qualquer “bondgirl” convenceria masi que Carano.

Falei tanto da atriz porque ela é fundamental para Haywire. A história gira em torno dela. Mas algo que não funciona muito bem neste filme é, também, o roteiro de Lem Dobbs. Ele escolheu um dos caminhos clássicos do gênero: entrega uma pílula da história quando ela já está avançada, em um momento fundamental da “fuga”, e depois, a partir de um conflito, investe no recurso do flashback – pontuado, como manda a regra, volta e meia por alguma cena do momento presente.

Certo, recurso batido. Mas ele existe por uma razão simples: que o momento presente seja explicado e “complicado”, pouco a pouco, pela explicação do que levou os personagens até aquele ponto. O problema é que o flashback não dialoga bem com o presente. E quando digo isso, não quero dizer que existam falhas na condição da história, mas que simplesmente o presente não torna o flashback mais tenso ou vice-versa. E sem essa tensão, o recurso se esvazia.

Lá pelas tantas, a história segue a rota linear. Ou seja, sae de cena o flashback e tudo o que acontece é no momento presente. Aí sim o roteiro mostra o quanto ele é batido, fraco, e como o final será previsível. Evidente que a direção de Soderbergh é a melhor parte do filme.

O diretor acerta no resgate do estilo cru de filmes como o clássico Bullitt, e de filmes do James Bond estrelados por Sean Connery, para citar dois exemplos. As cenas de pancadaria muito bem encenadas e filmadas, é o que o filme tem de melhor. Assim como as outras de perseguições – pelas ruas, correndo, ou em prédios, como se fazia antigamente, antes da ação se resumir a carros e tiroteios – são bem feitas. Mas isso é tudo. E é muito pouco.

O final é decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, toda aquela simulação para culpar a protagonista foi feita tendo como motivação dinheiro e uma certa “dor de cotovelo” do ex-chefe e amante, Kenneth (Ewan McGregor). E mais uma neurose de Rodrigo (Antonio Banderas), que se sentiu exposto por ela em uma negociação. Argumentação bem fraquinha, convenhamos. Haywire não vale o ingresso, apesar de sempre ser interessante ver um diretor como Soderbergh tentando acertar.

NOTA: 5,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Steven Soderbergh é, provavelmente, junto com Quentin Tarantino, o sujeito que melhor sabe aproveitar as referências dos filmes do passado, especialmente os de ação, e escancará-las em uma releitura mais modernete. A linguagem de Haywire lembra totalmente a de filmes históricos do gênero. Além dos filmes já citados, me lembrei de The French Connection, Shaft (o original, de 1971), Mean Streets, e de um clássico que ainda estou para ver: Faster, Pussycat! Kill! Kill!, dirigido por Russ Meyer e considerado, por nomes como John Waters, com o melhor filme de todos os tempos.

Nada em Haywire supera espécimes do gênero feitas anteriormente. E daí vem aquela pergunta básica: então para que gastar US$ 23 milhões em uma produção que não agrega nada? Pois é, eis uma boa pergunta. Acho que um filme como este só se justifica pela preguiça das pessoas em buscarem filmes melhores no passado. Porque há pessoas – e conhece algumas – que acham que não há nada de bom no cinema mudo ou naquele anterior aos anos 1980 ou 1990.

Que pena que muitos pensem assim. Alguns dos melhores filmes de ação de todos os tempos são, justamente, dos anos 1960 e 1970. Por isso acho que diretores como Soderbergh e Tarantino se dão tão bem. Eles fazem filmes para quem não conhece os originais e, consequentemente, vê muitas novidades nestas versões “cheias de homenagens” – para não dizer cópias.

Se o roteiro de Haywire é fraco e a direção de Soderbergh tem seus momentos interessantes, e se a atriz principal é só bonita, mas o elenco de “apoio” é formado por nomes de respeito, temos que admitir que algumas figuras da equipe técnica merecem alguns aplausos.

Para começar e, principalmente, a trilha sonora de David Holmes. Grande trabalho – e principal trunfo do filme. Outro que faz a sua parte com excelência é Soderbergh na direção de fotografia. Acertadas as escolhas de cores, tons e os momentos em que o filme fica em preto e branco. Ele sabe trabalhar bem com o visual.

O filme está centrado em Gina Carano. Mas há um elenco de “apoio” importante, e com nomes que já mostraram um excelente trabalho em outros filmes – mas que aqui, como Carano, parecem muito anestesiados. São eles: Channing Tatum como Aaron, parceiro de Mallory em missões encomendadas e bem pagas; Ewan McGregor como Kenneth, o chefe da agência de espiões; Antonio Banderas como Rodrigo, o homem por trás da “genial” ideia que irá resolver os problemas de alguns poderosos – ele incluído; Michael Douglas como Coblenz, um cara do governo dos Estados Unidos que gosta de Mallory; Michael Fassbender como Paul, um agente secreto inglês; Mathieu Kassovitz como Studer, o sujeito rico que está por trás de toda essa história; Bill Paxton como John Kane, pai de Mallory; e Anthony Brandon Wong como Jiang, o “sequestrado” que é resgatado por Mallory e equipe e que não tem uma fala no filme, mas que é importante para a história. Um baita elenco, mas que não tem espaço para aprofundar a história de nenhum de seus personagens. Todos muito rasos e superficiais.

Francamente? A minha vontade era dar uma nota ainda menor para este filme. Mas em respeito ao “virtuosismo” da direção de Soderbergh, resolvi elevar um pouco o conceito. Não porque o filme seja bom, mas porque ele se esforçou para fazer algo diferente.

Haywire estreou no Festival AFI em novembro de 2011, mas entrou em cartaz, comercialmente, apenas em janeiro deste ano nos Estados Unidos e em outros 16 países. Até o dia 18 de março, o filme havia acumulado pouco mais de US$ 18,9 milhões nos Estados Unidos. Como ele custou, pelo menos, US$ 23 milhões, pode-se dizer que ele não está no caminho do sucesso.

Antes de estrelar este filme, a texana Gina Carano havia participado da série de TV Fight Girls, em 2006, feito um papel no game Command & Conquer: Red Alert 3 e um papel em Blood and Bone. E só. Agora, pós Haywire, ela vai estrelar o thriller In the Blood, atualmente em pré-produção e que será dirigido por John Stockwell.

Algumas outras pessoas que merecem palmas por este filme são Jonathan Eusebio, J.J. Perry, Don Tai e Jon Valera. Eles atuaram como coreógrafos das lutas. Sem dúvida, a melhor parte de Haywire são aquelas cenas de pancadaria muito bem planejadas. Além de criativas, elas vendem bem a ideia de serem plausíveis – ainda que a protagonista pareça demais uma Mulher Maravilha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Achei uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos, dedicando 129 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,8.

Haywire foi filmado em Dublin, na Irlanda, e em Los Alamos, nso Estados Unidos – com algumas cenas simulando locais de Nova York. Esta é uma co-produção Estados Unidos e Irlanda.

CONCLUSÃO: Uma pena quando um filme tem uma proposta bacana, mas não consegue sustentá-la até o final. Gina Carano é muito fraca. Ótima na corrida e na pancadaria, mas péssima em qualquer momento em que ela precisa repassar o mínimo de emoção que deveria estar sendo vivida por sua personagem. E quando um filme tem uma atriz no foco o tempo todo, como é o caso de Haywire, ele acaba sendo muito prejudicado com uma intérprete fraquinha. Este é um dos problemas fundamentais deste filme. Mas não é o único. O estilo do filme, que relembra a alguns clássicos antigos de ação, acaba cansando lá pelas tantas. Especialmente da metade para a frente, quando o filme da uma certa “reviravolta”. A “surpresa” não cria realmente tensão – a trilha sonora é mais eficaz que o roteiro neste ponto. E todos sabemos o que vai acontecer até o final, o que mata o filme antes dele terminar – afinal, o elemento surpresa já era. Fora isso, esta é mais uma produção cheia de estilo e experimental de Soderbergh. Mas ele já fez melhores. Quem sabe no próximo ele acerte a mão? Ou segue apresentando trabalhos que, ao apostar tanto em uma linguagem mais dinâmica e diferenciada, se esquecem de elementos básicos, como um roteiro melhor acabado e uma atriz principal decente. Não foi desta vez, com Haywire, que ele conseguiu o equilíbrio.

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El Baile de la Victoria – A Dançarina e o Ladrão

Um filme com vários clichês pode ser bom? Vai depender de como a história é conduzida, dos atores e, claro, de um roteiro sem nenhum grande absurdo pelo caminho. El Baile de la Victoria foi atacado por parte da crítica internacional por ter muitos clichês. Apesar deles – ou inclusive por eles -, o filme demonstra o talento do espanhol Fernando Trueba em contar uma história sobre as possibilidades que todos deveriam ter de recomeçar a própria vida. Esta produção fala também sobre redenção, a descoberta do amor nos locais mais improváveis e sobre a (parece cada vez mais) difícil arte de sonhar.

A HISTÓRIA: Dois olhos castanhos olham em direção à Cordilheira. Algo levanta poeira, ao longe, e a dona dos olhos castanhos parece agitar-se. A câmera sobe até o céu e retorna mostrando a cidade de Santiago do Chile. Uma notícia na rádio informa que o novo governo promulgou uma anistia para os presos do país, libertando todos que tivessem cumprido dois terços de suas penas e que não tivessem sido condenados por assassinato. Entre os que seriam soltos estava uma “lenda do crime”, o ladrão especializado em cofres Nicolás Vergara Grey (Ricardo Darín). Mas a história vai centrar-se em um anistiado menos conhecido, o jovem Ángel Santiago (Abel Ayala) que, logo que sai da cadeia, encontra a apaixonante Victoria Ponce (Miranda Bodenhofer). A história dos três será entrelaçada em um conto sobre as mudanças ocorridas no Chile após a ditatura de Pinochet.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a El Baile de la Victoria): Como recomeçar a vida quando todas as portas parecem fechadas? Que chances dois ex-presidiários tem de serem respeitados e amados? Estas são duas perguntas levantadas por El Baile de la Victoria. Mas o filme não fala apenas da dificuldade de dois indivíduos em se reerguerem, mas do desafio de toda uma nação para começar a dar os primeiros voos após um longo período de ditadura.

O roteiro do diretor Fernando Trueba, de Jonás Trueba e de Antonio Skármeta é inspirado na obra homônima do escritor chileno lançada em 2003. Não li o livro de Skármeta, por isso não sei até que ponto o filme segue com fidelidade o original. Mas posso dizer que o diretor e os roteiristas acertaram na dosagem do drama, da comédia e da “aventura” nesta produção.

As histórias paralelas e intercaladas dos personagens de Vergara Grey e de Ángel mantêm o interesse do público até o final. Trueba não se preocupa em acelerar a narrativa, e nem cede ao estilo de filme policial. Ele prefere equilibrar o drama dos dois ex-presidiários na busca por novas rotas na vida ao mesmo tempo que mostra o lirismo da dança e do talento de uma garota que plasma a dor provocada pela ditadura chilena.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é por acaso e nem forçada a mudez traumática da personagem Victoria. Toda a odisseia envolvendo a garota, que dá título ao filme, na busca por uma oportunidade, de leveza e da própria “voz” resume a própria trajetória do país, que deve buscar os caminhos para encontrar o “gosto” pela vida novamente. Também não é à toa o pulso cicatrizado de Victoria, e o amor que ela sente por um garoto como Ángel. O condor macho do final, símbolo clássico da liberdade, também não aparece por acidente.

Aliás, cada parte de El Baile de la Victoria é bem planejado. Eis um filme inteligente, e que não pensa duas vezes em abrir espaço para cenas plasticamente bonitas. Alguns podem ficar irritados quando Ángel sai cavalgando pela cidade. Eu achei lindo. E a reação das pessoas enquanto ele passava, de espanto e resistência, mostra como ninguém hoje parece estar aberto para o inusitado e para as belas surpresas que a vida pode nos trazer.

Depois, claro, há uma explicação para o apreço de Ángel por aquele cavalo. Algo até dispensável. Mas que pode agradar às pessoas que precisam sempre de uma explicação lógica para tudo que veem pela frente. O trio de protagonistas luta por uma oportunidade. E por suas próprias paixões. Vergara Grey tem frustrado o sonho de resgatar o afeto familiar. E o que fazer quando o que você mais queria retomar não existe mais? Para alguns, isso pode significar o fim da linha. Mas a história de amor até certo ponto pueril de Ángel e Victoria faz o veterano ícone da bandidagem rever a sua própria história, quando ela ainda não estava falida.

Abel Ayala resgata uma tradição de personagens inocentes e que, mesmo com uma história complicada, acabam conquistando o público com um jeito simples e cheio de romantismo. Acompanhado de um chapéu durante grande parte do filme, ele lembra muito comediantes históricos, como Buster Keaton e, porque não, ao “herói” mexicano Cantinflas.

Ricardo Darín está brilhante, como sempre. Dá o devido peso, desesperança e novo ânimo para o personagem do criminoso que é admirado por seus feitos – e que, nem por isso, tem a vida mais fácil. A direção de Trueba é uma das principais qualidades do filme, ao lado do trabalho dos atores e da trilha sonora fundamental que acompanha a história. Falarei mais dela abaixo. Grande trabalho também do diretor de fotografia Julián Ledesma. Trueba acerta ao equilibrar o foco no trabalho dos atores com as cenas em que destaca o lirismo da história, seja nas cavalgadas de Ángel ou nos passos da bailarina Victoria.

O filme também prende a atenção do espectador porque alimenta uma dúvida constante sobre o que poderá dar de errado naquela história, nos planos de Ángel. E há duas fontes de problemas: o próprio plano ousado para o último assalto que ele propõe para Vergara Grey e a ameaça do diretor do presídio (Julio Jung) de eliminá-lo como forma de proteger-se de um problema que ele criou.

Aqui, mais uma vez, a imagem do abuso, de um sujeito que tinha o poder na mão e que o utilizou para subjugar alguém sem defesa – mais uma alusão ao que Pinochet fez com o próprio povo. E o que Ángel faz a respeito? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como El Baile de la Victoria ensina em mais de uma ocasião, a grande volta por cima dos personagens e da nação chilena está na fortaleza do perdão, muito mais que na busca pela vingança – que não faz o tempo voltar atrás e apagar as cicatrizes, mas apenas dar prosseguimento à dor.

Sobre o que realmente aconteceu no final… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quem se salvou e quem não conseguiu se salvar? Bem, como sempre, isso vai depender da leitura particular do espectador, que acredita no que quiser. O mais provável é que aquele cavalo estivesse correndo sozinho ou, na melhor das hipóteses, com o corpo inerte de Ángel. Dificilmente ele sobreviveria ao ataque que sofreu e, ainda, a uma cavalgada em terrenos inóspitos. Ainda assim, não seria bobagem acreditar que ele conseguiu. E que ao encontrar aos outros dois protagonistas, ele conseguiria seguir em frente. Sonhar é sempre possível. El Baile de la Victoria demonstra isso. E mesmo que ele tenha se tornado um “anjo”, e voado junto com as asas do condor, aquela não deixa de ser, também, uma vitória.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso que esta produção não tenha um nome assinando a trilha sonora. Até porque ela é maravilhosa. Não sei quem definiu as músicas, mas vale comentar que a trilha tem algumas músicas brasileiras. Faz parte da seleção canções de Milton Nascimento (Tema dos Deuses e Pablo nº 2, que ele fez com R. Bastos), Andrés Calamaro y Jerry González (a clássica El Día que me Quieras), Herbie Hancock (Sleeping Giant), Kurt Weill (Youkali Tango-Habanera), Victor Young (The Left Hand of God), Coleman Hawkins Quartet (Love Song From Apache), entre outros.

Vale comentar que a assinatura da anistia para os presos, mostrada no início do filme, plasma uma das primeiras decisões do presidente chileno com a chegada da democracia e o fim da ditadura de Pinochet.

O escritor Antonio Skármeta é um dos nomes mais conhecidos da literatura chilena. Nascido em Antofagasta em 1940, ele é autor também do clássico O Carteiro e o Poeta, que rendeu um belíssimo filme homônimo e que ele escreveu na Alemanha quando estava exilado – com o golpe militar em seu país, ele teve que sair de lá, morando primeiro na Argentina, por um ano. Recebeu diversos prêmios em sua trajetória como escritor.

Fernando Trueba é um diretor espanhol veterano. Procurando saber mais sobre ele, fiquei contente em saber que ele se formou na Faculdade de Ciências da Informação em Madri… temos algo em comum. Tenho um prazer incontido quando sei que pisei nos mesmos corredores que grandes diretores como ele. 🙂 Nascido em Madri em 1955, Trueba tem no currículo a direção de 27 filmes e o roteiro de outras 29 produções. Ele estreou na direção com o curta Óscar y Carlos, de 1974. Dos longas, destaque para Ópera Prima, El Año de las Luces, Belle Epoque (com Penélope Cruz e  que ganhou o Oscar como Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1994), La Niña de Tus Ojos e Chico & Rita, este último indicado ao Oscar de Melhor Animação este ano.

Trueba é um sujeito engraçado. Nesta matéria do jornal El Mundo, ele fala sobre El Baile de la Victoria e sobre os seus projetos futuros. Comenta, por exemplo, que o livro no qual o filme se inspirou lhe interessou pela “mistura dos tons entre a tragédia, a comédia, o romantismo, inclusive o western. O filme fala sobre o amor e a beleza; do que é preciso ser feito para aprisionar a beleza”. Depois, ele segue dizendo que este talvez seja um dos temas que mais lhe interessam, o de como “aprisionar a beleza e colocá-la dentro de um retângulo”.

No final, ele fala sobre o cinema de seu país: “O cinema espanhol, como o francês e o alemão, é um monte de merda do qual, de repente, surgem coisas bonitas”. hehehehe. Achei um tanto exagerado mas que, nem por isso, deixa der ser menos ácido ou engraçado. 🙂

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho da atriz Ariadna Gil como Teresa Capriatti, o amor da vida de Vergara Grey; a brasileira Marcia Haydée – bem que eu desconfiei pelo sotaque dela ao falar espanhol – como a professora de dança de Victoria; e Luis Dubó como o assassino de aluguel Rigoberto Marín.

Mesmo tendo nascido no Brasil, Marcia Haydée ficou conhecida por estrelar filmes produzidos na Europa. Seu trabalho de maior destaque foi o papel de Marguerite Gautier no filme alemão Die Kameliendame (The Lady of the Camellias, de 1987).

Mesmo rodado no Chile, El Baile de la Victoria é uma produção espanhola e foi o filme indicado pela Espanha para concorrer na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar de 2010. Mas ficou de fora da lista dos finalistas.

El Baile de la Victoria estreou no dia 18 de setembro de 2009 no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha. Depois, ele participaria de outros quatro festivais, nenhum de grande expressão. Nesta trajetória, o filme foi indicado a 12 prêmios, mas não ganhou nenhum.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,6 para a produção. Pouco conhecido no mercado dos Estados Unidos – tanto que não há informações sobre o desempenho do filme nas bilheterias daquele país ou no restante do globo -, El Baile de la Victoria não foi alvo, até o momento, de nenhum texto de críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes.

CONCLUSÃO: Concordo que El Baile de la Victoria tem muitos clichês. Mas quem se importa com isso quando o filme funciona? Além do mais, cada vez é mais difícil um filme não ter qualquer clichê. Em El Baile de la Victoria, o diretor Fernando Trueba consegue destilar algumas cenas belíssimas, e os atores seguram bem a responsabilidade de seus papéis. Além do mais, é sempre um prazer assistir ao grande Ricardo Darín em cena. Desta vez, ele não é o protagonista. Mesmo assim, ele faz a diferença na produção. Carregada de alguns simbolismos, esta produção também toca em algumas feridas do Chile e, porque não dizer, da América Latina, que ainda tem que se livrar dos fantasmas de tempos totalitários e das ditaduras. Mas estes temas são tratados nas entrelinhas e de forma simbólica. Em primeiro plano, está o conto de um trio de marginalizados que busca uma alternativa para suas vidas. É um belo filme, mas não uma obra-prima.

A Dangerous Method – Um Método Perigoso

Me disseram, certo dia, que qualquer pessoa que quiser ajudar outra a se tratar psicologicamente deve ter, também, um pouco de loucura para resolver. Ou, em outras palavras, que qualquer psicólogo ou psiquiatra deve, em algum momento, precisar de análise também, para enfrentar os seus próprios problemas e/ou demônios. Impossível não admirar a Freud, um dos grandes nomes das ciências de todos os tempos. Mas mesmo admirando-o, nunca entendi muito bem porque da fixação dele com as questões sexuais. Li algumas teorias a respeito, mas nunca me aprofundei sobre as razões que fizeram ele ir tão fundo apenas nesta direção. A Dangerous Method surge para contribuir com estes debates porque ele foca uma amizade entre dois científicos que mudou a história. Fala de Freud e de Jung. Fascinante.

A HISTÓRIA: Dois homens seguram uma mulher descontrolada em uma carruagem. Sabina Spielrein (Keira Knightley) quer sair dali, ela resiste, mas quando a carruagem para, ela é levada para dentro da Clínica Burghölzli na cidade de Zurique, na Suíça, em agosto de 1904. Na manhã seguinte, ela é recepcionada pelo médico Carl Jung (Michael Fassbender), que começa a experimentar com Sabina os métodos de psicanálise de Sigmund Freud (Viggo Mortensen). A proposta de Jung é que ele e a paciente se encontrem quase todos os dias para conversar. Conforme o caso dela vai avançando e o tratamento surte efeito, Jung se arrisca a começar a corresponder-se com Freud. A partir daí, o filme conta a história destes três personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme A Dangerous Method): O surgimento da psicanálise, momento revolucionário no tratamento dos problemas e dores da mente, é o foco deste filme. A primeira sensação que A Dangerous Method nos provoca é a da angústia, ao ver Keira Knightley se retorcendo, literalmente, para interpretar a personagem de Sabina Spielrein em sua fase de crise e mesmo depois.

A atriz faz um bom trabalho. Mas continuo achando que esse tipo de papel não é para ela. Senti Knightley um pouco deslocada no papel. Quando você sente o esforço do ator, é porque as coisas não vão bem. Quando assistimos a um ator vivenciando o personagem, tornando-o legítimo, aquele personagem faz sentido. Quando o esforço fica evidente… parece que para o espectador é jogada a outra parte do sacrifício.

Isso acontece com os outros dois atores. Eles estão bem, mas parecem se esforçar em assumir um tom sério e intelectual. A Dangerous Method tem menos de duas horas, mas parece ter mais. E isso não se deve apenas à densidade do roteiro de Christopher Hampton, inspirado em sua peça The Talking Cure e no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr. Parte do esforço que o espectador tem que fazer para continuar interessado na história se deve também pelas interpretações, algumas vezes forçadas.

Mas a história, por si só, é fascinante. E, evidentemente, não cabe em um filme, em uma peça ou em um livro. O surgimento da psicanálise e as relações amistosas e depois de ruptura entre Freud e Jung estão cheias de detalhes que merecem ser conhecidos e, eu diria, estudados.

A Dangerous Method humaniza os dois ícones da psicanálise e nos faz pensar em como mesmo o mais genial e ousado cientista tem, ele próprio, as suas imperfeições. Se um ícone estivesse alheio a defeitos e problemas, não seria humano, certo? Eu já conhecia um pouco da história de Freud e Jung, mas francamente este filme torna muito mais simples a explicação de pontos fundamentais na vida dos cientista. Para começar, a fixação de Freud pelo que Jung chamou de “interpretação exclusivamente sexual do material clínico” que eles estudavam.

Nunca entendi porque ele limitava as interpretações a essa questão. Devo dizer que sempre concordei com Jung e outros teóricos que afirmavam que havia muito mais em jogo do que apenas a questão sexual. Mas A Dangerous Method torna evidente que esta foi uma escolha pragmática de Freud. Ele preferia manter-se firme à esta leitura do que abrir o foco para outras possibilidades e fazer a psicanálise ser combatida ao ponto de ser desacreditada. Faz sentido. Na época – e até hoje – as ideias dele foram muito combatidas. Se ele tivesse ampliando muito o leque, talvez tivesse todo o seu trabalho, que surtia e continua surtindo efeito, destruído.

Sobre Jung, eu sabia menos… e achei fascinante a escolha do filme em pegá-lo como personagem principal. Interessante as suas fraquezas e a vontade do médico pesquisador em lançar-se na experiência de satisfazer os próprios desejos, independente do efeito que estas suas ações poderia ter na parte frágil da história, Sabina Spielrein. Claro que, posteriormente, ela mesma se tornaria uma teórica e pesquisadora, mas ela era a pessoa que precisa de maior cuidado. Se bem que, se olharmos com um pouco de lupa, toda a relação de admiração e, ao mesmo tempo, competitividade e negação de atitudes de Freud por parte de Jung mostrava que, este último, também precisava de algum cuidado e, quem sabe, ajuda profissional.

Aliás, essa ideia de que mesmo os profissionais precisam de ajuda fica ainda mais evidente com o personagem de Otto Gross (Vincent Cassel). Ele mesmo se classificava como neurótico, e defendia a ideia de que ninguém deveria reprimir os seus desejos, até porque a monogamia era uma afronta ao indivíduo. Sua racionalidade, mesmo que muitos possam considerá-la equivocada, fez com que Jung se lançasse em direções que ele antes não havia experimentado.

Interessante conhecer os métodos antigos para o tratamento de pessoas doentes, e as primeiras medições relacionadas com os desejos e sentimentos dos pacientes desenvolvidas por Jung. A ciência avançou muito, desde então, mas poucos tiveram uma importância tão decisiva no desenvolvimento de um método inovador quanto Freud com essa ideia de conversar com o paciente – ao invés de tratá-lo com sessões de choque, isolamento, e etc.

A direção de David Cronenberg segue uma linha tradicional, sem que ele seja inventivo. Na verdade, acho que 90% dos diretores norte-americanos poderiam ter feito um filme igual ou muito parecido com esse. O roteiro de Hampton é bom, mas recomendado apenas para as pessoas interessadas nos personagens – duvido muito que este texto, denso como ele é, agrade ao grande público. O diretor de fotografia Peter Suschitzky também faz um belo trabalho.

Outro ponto é fundamental para explicar as diferenças entre Jung e Freud: a diferença social e de origens deles. A mulher de Jung, Emma (a ótima Sarah Gadon), era de uma família rica e tinha dinheiro. Jung trabalhava, mas não tinha que se preocupar tanto com o sustento da casa quanto Freud – que tinha mais filhos que Jung e era o provedor familiar. Há uma cena importante em que Freud comenta que há outro risco para ele e o grupo de Viena que trabalhava a psicanálise: o fato deles serem judeus. Jung pergunta o que isso tem a ver, e Freud comenta que eis uma afirmação típica de um protestante.

Pouco depois, na primeira e, especialmente, na segunda guerra mundial, ficaria evidente que a questão dos judeus era algo importante para aquela época. Foi também na relação entre Jung e Freud, assim como nas convicções deles sobre quais deveriam ser as linhas da psicanálise. Em uma conversa com Freud, Sabina afirma que Jung está preocupado não apenas a explicar aos pacientes que eles são de determinada forma por isso e por aquilo (a proposta de Freud), mas ajudá-los a, a partir desta constatação, encontrar aquilo que eles gostariam de ser. Para Freud, isso era brincar de ser Deus.

Até hoje a divisão entre estas duas correntes existe. E mesmo sem ser uma pesquisadora e, muito menos, uma especialista nesta seara, me arrisco a dizer que eu prefiro a linha de quem vê as questões sexuais como fundamentais, mas não como únicas, e que tenta ir além da constatação do problema para tentar, também, buscar alternativas e caminhos para os pacientes em busca de ajuda. Sempre fui um pouco mais para o lado de Jung. E com este filme, apesar dos equívocos do homem, continuo tendo mais interesse por suas ideias.

Ainda que o filme seja interessante e tenha bons atores à frente da produção, senti falta de outros personagens, de outros pacientes e casos clínicos tratados por Jung ou algum por parte de Freud para exemplificar um pouco mais os seus métodos e conclusões. Há pouco exemplo prático nesta história, o que eu acho que a tornaria mais fascinante. Claro que foi uma escolha de A Dangerous Method manter o foco na vida pessoal e nos bastidores do trabalho de Jung e Freud. Isso é bacana. Mas alguns discursos teóricos poderiam ter dado lugar para exemplos práticos. Faltou isso.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu admito que a Keira Knightley me irritou um pouquinho, especialmente com aquelas saídas fáceis de arcada dentária para a frente e contorsionismo do início, quando ela estava na fase mais difícil da doença. Sei que a personagem exigia mostrar este descontrole, só achei a forma equivocada. Michael Fassbender está melhor e, em especial, Viggo Mortensen. Eles fazem um bom duelo. Os demais atores, ainda que importantes para a história, se destacam menos. Vale voltar a comentar sobre Vincent Cassel, que está muito bem e charmoso neste filme,  e a talentosa e comedida Sarah Gadon.

Da parte técnica da produção, além do diretor de fotografia, faz um bom trabalho o editor Ronald Sanders. A trilha sonora do veterano Howard Shore tem uma presença pouco marcante, basicamente importante no início e no final do filme. Achei ela bastante previsível, sem grande inventividade. Um trabalho medíocre, apesar de levar a assinatura de um mestre.

Fiquei curiosa para saber se o filme foi rodado nos locais citados, ou se várias cenas foram feitas em estúdio. De fato, A Dangerous Method foi rodado nas cidades de Viena, na Áustria, e em diversas cidades alemãs, a saber: Bodensee, na Bavária, e Constance e Überlingen, ambas em Baden-Württemberg, além do estúdio MMC em Hürth, também Alemanha.

Fiquei admirada com a quantidade de produtores e estúdios envolvidos em A Dangerous Method. Nomes que aparecem na abertura do filme. Para a realização deste projeto, vieram recursos de quatro países: Reino Unido, Alemanha, Canadá e Suíça.

A Dangerous Method estreou em setembro do ano passado no Festival de Veneza. Depois, o filme passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Zurique, Nova York, Chicago, Rio de Janeiro, Londres e Estocolmo.

Nesta trajetória, o filme recebeu 13 prêmios, foi indicado a outros 13 e ainda ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Viggo Mortensen. Entre os que recebeu, destaque para os recebidos por Michael Fassbender no National Board of Review e pelos críticos de Londres e Los Angeles. Ainda que estes prêmios que ele recebeu não foram dados apenas pelo trabalho em A Dangerous Method, mas por sua performance em outras produções, como Jane Eyre, X-Men: First Class e Shame.

A Dangerous Method teria custado, aproximadamente, US$ 15 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos ele conseguiu um terço disto, arrecadando pouco mais de US$ 5,6 milhões até o dia 22 de março. No mercado internacional ele foi melhor, ainda que nada excepcional – se levarmos em conta os ótimos nomes por trás da produção, especialmente os atores -, arrecadando pouco mais de US$ 17,5 milhões. Por tratar-se de um filme difícil, que não foi feito para cair no gosto do grande público, até que ele não se saiu tão mal quanto poderia ter se saído.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para A Dangerous Method. Para os padrões do site e pela densidade desta produção, podemos considerar esta uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 113 críticas positivas e 33 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,9.

Um dos críticos que eu costumo citar, Tom Long, do Detroit News, disse que a história real por trás deste filme é extraordinária, mas que o filme não consegue chegar neste nível. Devo concordar. Outro que eu gosto de citar, Peter Howell, do Toronto Star, afirma que Cronenberg chegou a um patamar na carreira em que não tem mais que satisfazer expectativas. Que, para ele, basta envolver o público. Na opinião de Howell, ele consegue isso neste filme.

Uma curiosidade sobre o filme: a atriz Keira Knightley disse que não sabia como interpretar o momento de histeria de sua personagem. Até que ela leu as anotações de Sabina Spielrein e viu que a mulher se descrevia, quando estava neste estágio, entre as figuras de um demônio ou de um cão. Daí Knightley começou a pensar nas caretas e recebeu a aprovação de Cronenberg.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as diferenças entre Freud e Jung, um bom começo é este texto assinado por Adriana Tanese Nogueira. Gostei da explicação dela, bem didática. Interessante, em especial, a explicação dela para conceitos fundamentais dos dois cientistas. Como a livre associação de Jung, mostrada de forma interessante neste filme. Bacana também a distinção entre a ação dos dois com os seus pacientes, e a forma com que Jung observou como qualquer psicólogo é parte do diálogo com o paciente – não pode ausentar-se do diálogo, como propunha Freud. Achei bacana também este outro texto, que reproduz uma parte do livro Incesto e Amor Humano, de Robert Stein. Finalmente, recomendo este outro texto, de Andrew Samuels, sobre a aproximação e ruptura entre Jung e Freud.

CONCLUSÃO: Eis um filme denso e complexo. Não porque ele seja feito de quebra-cabeças. A Dangerous Method não exige que o espectador descubra uma charada. Mas ele trata de assuntos difíceis, conta parte da trajetória de personagens históricos complexos e remexe em questões densas da psique humana. Possivelmente muitas pessoas se sentirão retratadas na produção. Seja pela dificuldade que alguns tem, mais que outros, de manter a conduta próxima do discurso e de suas crenças. Seja pelas pedras que alguém que pensa fora da curva costuma encontrar pelo caminho. A Dangerous Method acerta em focar a atenção no talento do trio de protagonistas. Mas por ser dirigida por David Cronenberg, que já fez filmes mais ousados e experimentais, esta produção parece menor do que poderia ser. Em alguns momentos, ela chega a ser arrastada. Poderia ter ajudado o filme, neste sentido, focar em outros casos tratados por Jung e Freud, além da personagem de Sabina Spielrein. Mas como filme histórico, ele é interessante. Nos mostra uma parte importante da história até então pouco revelada. Vale ser assistido, especialmente se você gosta do tema psicanálise ou de saber um pouco mais sobre personagens históricos.

Gone – 12 Horas

Você sabe o que esperar de um thriller. Suspense, perseguições, adrenalina e alguma surpresa espalhada aqui e ali. Gone, primeiro filme do brasileiro Heitor Dhalia feito em Hollywood, não escapa da fórmula. Pelo contrário. Segundo o próprio diretor, ele foi feito como mais um produto do gênero. Mesmo que Dhalia tenha seguido ordens e faça um bom trabalho, o problema de Gone é o roteiro. Querendo brincar com lugares-comum, mas sem fazer muita graça, este filme apenas parece uma desculpa para fazer dinheiro.

A HISTÓRIA: Uma garota, Jill (Amanda Seyfried) caminha por um bosque. Ela tem um mapa nas mãos. A câmera mostra ela riscando mais uma parte percorrida do imenso Forest Park. Vemos que ela percorreu, mais ou menos, metade do território. Ela volta para o carro, e vai para casa. Ela toma um banho, e fala com a irmã, Molly (Emily Wickersham), que está estudando para um exame. A irmã desaprova a ida de Jill ao bosque. Por sua vez, Jill fala algo sobre bebida que nos deixa pensar sobre problemas que a garota pode ter com as bebidas. Molly fala sobre elas saírem em um encontro no final de semana, mas Jill não parece gostar muito da ideia. Depois, vemos cenas dela lutando com alguém, em uma espécie de pesadelo. Ela vai trabalhar como garçonete com o carro da irmã. Depois do expediente, volta para casa e encontra as coisas da irmã fora do lugar – a cama desarrumada, os livros e papéis que ela estava estudando bagunçados. Ela se desespera, porque acha que Molly foi sequestrada pelo homem que a tinha atacado alguns anos antes. A partir daí, ela empreende uma busca para saber o que aconteceu com Molly.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Gone): Honestamente, eu esperava um filme pior. Isso não quer dizer que Gone seja bom. Mas como eu fui convidada, através do Diário Catarinense, jornal para o qual trabalho e onde ando escrevendo sobre filmes no blog Sala de Cinema, para o lançamento do filme, me interessei em saber o que a crítica internacional estava falando da produção. E não era muita coisa boa.

Então fui para São Paulo preparada para assistir a uma bomba. E, no final das contas, até que não achei Gone tão ruim quanto os críticos estrangeiros haviam falado. Para início de conversa, como eu disse antes, algo que as pessoas precisam entender é que este filme é totalmente uma produção de gênero. Então sim, você terá a busca clássica por momentos de tensão, pelo suspense e a expectativa de reviravoltas. Como um thriller exige, há também muitas cenas de perseguição, e alguns personagens que podem mostrar-se culpados.

Gostei da direção de Heitor Dhalia. Acho que ele soube utilizar muito bem os recursos que teve à sua disposição. Tecnicamente falando, é um filme bem acabado. Dhalia utiliza muitos recursos de panorâmicas e mantêm a atenção quase todo o tempo nos olhões azuis de Amanda Seyfried. Esses são os seus acertos. Os principais problemas de Gone não residem na direção de Dhalia, mas no roteiro de Allison Burnett.

Li nas notas de produção de Gone que Burnett comentou que escreveu este roteiro praticamente a toque de caixa. Ou seja, que não foi um trabalho que exigiu muito do roteirista. Isso fica evidente. Ele utiliza a velha premissa da “moça traumatizada que parece um tanto desequilibrada e em quem ninguém acredita” como protagonista. A sanidade mental de Jill é um dos elementos fortes do filme. Isso seria interessante, e poderia dar caldo, se fosse explorado de outra forma. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Porque Burnett explora esse possível desequilíbrio de duas formas: mostrando que Jill tomava remédios de uso controlado e que já tinha sido internada em uma instituição psiquiátrica e com ela inventando uma história nova para cada pessoa que ia encontrando na busca pela irmã.

Esse segundo recurso eu achei ridículo. Afinal, essa atitude de nova história a cada esquina, parece mais um recurso de uma adolescente do que de uma mulher “descontrolada”. Ela seria uma mentirosa compulsiva? Não parece. Se fosse, mentiria para todos, inclusive para a irmã e a melhor amiga, Sharon Ames (Jennifer Carpenter, em uma mega ponta). Então não cola, e fica estranho.

E esta questão é fundamental. Porque se o espectador não acredita, realmente, que Jill pode ser louca, como a polícia parece estar convicta nesta crença, Gone se resume a um filme de ação. Da busca da protagonista por encontrar a irmã viva e vingar-se do algoz sequestrador assassino. Como o desequilíbrio de Jill não cola, e não porque a atriz seja ruim, mas porque o roteiro erra ao forçar a barra nas mentiras, o que nos resta é fazer uma busca por possíveis culpados, no melhor estilo dos livros de Agatha Christie.

E aqui surge o segundo problema. Pela dinâmica do filme, nenhum possível culpado realmente convence. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Vejamos: o personagem do investigador novato Peter Hood (Wes Bentley) parece resumir-se a um compêndio de caras sérias e estranhas estampadas pelo ator. Não há nenhuma linha no roteiro que realmente torne a possibilidade dele ser o serial killer convincente. Ele não parece inteligente o suficiente para enganar a polícia ou mesmo os espectadores.

A atuação de Bentley se resume a caras de muito sério e olhares atravessados. Pouco. E quem mais sobra? Jill vai esbarrando só com sujeitos que falam de maneira estranha, mas nenhum deles parece ser o serial killer. O namorado de Molly, Billy (Sebastian Stan) poderia ser esse suspeito? Também não parece muito lógico, especialmente pelas ações dele na história. Falta esse elemento na produção, a de possíveis suspeitos que convençam. Se bem que, com aquele final… pela ótica de Burnett, parece que a identidade do culpado pouco importa. E eis um erro primário do roteirista. Porque ótimos filmes sobre serial killers já mostraram que o vilão é tão ou mais importante que o mocinho. Não dar importância alguma a ele, como faz Gone, é seu principal erro.

Fora estes dois elementos fundamentais para um bom thriller funcionar e que aqui não se apresentam – a dúvida sobre a protagonista e sobre o possível vilão -, Gone tem problemas em outras escolhas do roteirista. Ainda que ele acerte em alguns diálogos, em outros ele literalmente troca os pés pelas mãos. Por exemplo, quando o chefe de polícia Ray Bozeman (Michael Paré) diz para Jill que “adultos tem o direito de desaparecer”. Engraçado, inteligente. Mas essa fala funcionária se tivesse sido dita por outra pessoa, não por um policial. Por mais que o povo daquela delegacia estivesse farto de Jill, não imagino um grupo deixando de fazer o seu trabalho de forma tão escancarada e sem ter, aparentemente, um caso melhor para averiguar.

Depois, toda relação da polícia com Jill parece bastante sem sentido. Eles acabaram tendo mais trabalho atuando como “pais preocupados” da garota depois que ela começa uma caçada sozinha do que fazendo uma apuração simples da primeira suspeita da protagonista. Fora isso, a história da “sopa para a mãe” e o gato literalmente pulando na frente da câmera eram bem, mas BEM dispensáveis. Agora, nem tudo em Gone são problemas.

Além da direção eficaz de Dhalia, a trilha sonora David Buckley é fundamental para o ritmo do filme. O roteiro também acerta na dinâmica clássica dos filmes de suspense, com a protagonista seguindo pistas para trilhar o seu caminho. Como migalhas de pão deixadas por uma criança no bosque para depois encontrar o caminho de volta para casa – aliás, algumas vezes eu lembrei de histórias clássicas durante este filme. Há quem tenha estranhado alguns “descuidos” do vilão do filme, como a caixa de fósforo que Jill encontra. Francamente? Até pelo final do filme, tudo indica que cada vestígio daquele foi deixado propositalmente por ele. Afinal, ele queria que Jill chegasse aonde ela chegou…

O filme tem ritmo, não dá sono, ainda que pudesse ter uns 15 ou 20 minutos a menos. Acho que uma versão mais dúbia, ou que provocasse outras dúvidas no espectador, teria sido mais interessante. E o final, é claro, deveria ter sido melhor planejado. Duvido que alguém fique convencido com a versão “ninja” de Jill, e com a facilidade com que ela se livra do problema. A falta de explicação sobre as origens e motivações do vilão também desagradam. Mas é um filme que sabe criar alguma tensão, é bem dirigido e tem o ritmo certo em grande parte do tempo. Quem gosta deste tipo de produção, passará por bons momentos. Mas provavelmente ficará insatisfeita(o) com o final. Porque, diferente do que Dhalia argumentou, não há nenhuma catarse ali.

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Na coletiva e nas entrevistas com os grupos de jornalistas que foram até São Paulo para o lançamento deste filme, Heitor Dhalia deixou claro que não teve nenhuma liberdade criativa nesta produção. Tentou redimir-se de responsabilidades sobre um filme que ele sabe que havia sido atacado, fora do país, pela crítica, e que provavelmente seria criticado no Brasil também. Mas nem era para tanto. Quem assistir a Gone vai perceber que Dhalia faz um bom trabalho. O problema do filme não está na direção, nem na atriz principal, que faz um ótimo trabalho, aliás. Mas essencialmente no roteiro.

Dhalia comparou o trabalho dele neste filme com o de um matador de aluguel, que puxa o gatilho, mas que não sente o mesmo prazer que um serial killer. Ele disse que não pôde ensaiar com os atores antes de filmar, e que não teve liberdade também de fazer as mudanças que achou necessárias no roteiro. Apenas executou o que o produtor queria. Gone teria saído pago. Quando a primeira cena foi rodada, o filme já teria dinheiro para cobrir os custos, com a venda para o mercado internacional para a exibição da produção. A bilheteria que Gone conquistou nos Estados Unidos, por exemplo, seria lucro garantido. Assim como o dinheiro que o filme fizer no mercado internacional além do patamar de seus custos.

O diretor de Gone mostrou uma sinceridade rara no dia do lançamento do filme no Brasil. Ele foi tão aberto não porque não queira mais produzir em Hollywood. Não. Ele deixou claro que quer continuar fazendo filmes por lá – mas com outras condições de trabalho. Talvez a sinceridade se justifique pela ideia do diretor de que os produtores de Gone não devem ler as falas dele na imprensa brasileira. Se ele quiser continuar trabalhando em Hollywood, é bom que ele esteja certo.

Você quer ler a entrevista completa com o diretor Heitor Dhalia e ainda ver um vídeo com três perguntas exclusivas que eu fiz para ele? Então acesse este post do blog Sala de Cinema, do Diário Catarinense, onde publiquei este material.

Um dos poucos elementos que Dhalia disse ter autoridade para influenciar foi a fotografia de Gone. Em vários momentos, achei ela um pouco escura demais. Mas esta foi uma escolha de Dhalia, juntamente com o diretor de fotografia Michael Grady.

Este é um filme de uma atriz, basicamente. Amanda Seyfried domina a cena, e faz um bom trabalho. Os demais atores fazem apenas um trabalho mediano, para dizer o melhor. Este é o caso de Emily Wickersham e de Daniel Sunjata, que interpreta ao policial Powers. Outros, como Wes Bentley, Jennifer Carpenter, Sebastian Stan e Katherine Moennig (conhecida pela série The L Word, e que aqui faz a policial Erica Lonsdale) estão muito mal. São caricatos e se esforçam demais para fazerem caras de maus. Moennig mesmo, tem poucas falas – assim como Carpenter. Boas atrizes desperdiçadas em papéis previsíveis e caricatos.

Outros atores razoáveis fazem papéis ainda menores. Como Nick Searcy, Socratis Otto e Joel David Moore. Mais desperdício.

Um jornalista que estava no lançamento do filme perguntou porque ele se chamou 12 Horas no mercado brasileiro. Afinal, a história se passa em mais do que 12 horas. O diretor não soube explicar, mas pessoas que faziam parte da divulgação disseram que sim, que o principal da trama se passaria em 12 horas. Vejamos: Jill chega em casa as 6h, depois do trabalho, quando começa a correr atrás da irmã… e esta caçada termina pelas 18h, quando está anoitecendo. Eu diria que é preciso fazer um grande esforço para entender o filme desta forma. Primeiro porque toda aquela “novelinha” no carro leva bastante tempo, e o desfecho mesmo deve acontecer bem depois das 18h. Depois, a história propriamente começa antes das 6h, no dia anterior, e termina depois do desfecho. Mais de 12 horas, pois. Mas ok, dá para entender a escolha deste título para chamar a atenção de fãs da série 24 Horas e de outras produções que tem o tempo como um elemento importante.

Dhalia disse que quer seguir um pouco os passos de Walter Salles, que estreou com um filme criticado e também de suspense, Dark Water, no qual ele parece ter tido pouca liberdade para fazer escolhas, e que agora está lançando uma produção aparentemente mais autoral, On the Road. Veremos se Dhalia conseguirá realmente fazer o mesmo. Francamente estou na torcida por ele porque, concordo com o diretor, a exposição conquistada ao fazer um filme em Hollywood é incomparável.

Há pelo menos um erro grave nesta produção. E talvez ele se justifique pelaas cenas refilmadas e pela mudança no final feita após sessões com audiências que não gostaram da primeira versão de Gone. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não faz sentido algum a cena em que Jill fala para o vilão da história que a ligação está falhando, e ele diz que dentro do bosque não pegam telefones celulares. Alguém explica? Para mim, a única justificativa possível – e que faria sentido se lembrarmos a frase que ele disse tempos antes, que ela deveria, desta vez, dirigir com cuidado – seria a de que ele estava dentro do carro com ela. E que grande parte do diálogo tinha sido feito diretamente entre eles, e não pelo celular. O filme dá essa impressão também nas frases finais da conversa, quando parece que a voz dele está mais forte do que quando eles falavam pelo telefone. Mas isso não faz sentido por duas razões: quando ela ligou para o número dele e ele atende, se ele estivesse no carro, ela ouviria o telefone tocar, certo? E isso não acontece. Depois, o que justificaria ele estar no carro e o diretor não mostrar isso? E ele sairia tão rápido dali, sem ela notar, para chegar antes que ela no buraco? Eis uma falha do roteiro que incomoda.

Gone teve uma premiere em Hollywood no dia 21 de fevereiro. Poucos dias depois, ele estreou nos circuitos da Austrália, Rússia, Canadá e Estados Unidos. No Brasil, ele tem previsão de estrear no dia 6 de abril. ATUALIZAÇÃO (30/3): A distribuidora Paris Filmes mudou a data de estreia para o dia 20, no início desta semana e hoje, dia 30, informou que 12 Horas deverá estrear no dia 13 de abril.

Esta produção teria custado, segundo o diretor, que afirma que não tem essa informação precisa, entre US$ 12 milhões e US$ 15 milhões. Mas Dhalia repetiu em mais de uma ocasião que o filme saiu pago. Até o último dia 18 de março, apenas nos Estados Unidos, o filme tinha faturado quase US$ 11,36 milhões. Segundo o diretor, este é o lucro da produção – além do que ela for faturar no mercado internacional.

Gone foi totalmente rodado na cidade de Portland, terra de Gus Van Sant e de uma ótima cena musical, segundo Dhalia.

A crítica internacional dinamitou este filme. O site Rotten Tomatoes, que concentra textos de críticos de várias nacionalidades, faz links para 42 críticas negativas e para apenas cinco positivas dedicadas à Gone – o que lhe garante uma aprovação de 11% e uma nota média de 3,2. Acredito que uma das piores avaliações já vista no site. Os usuários do site IMDb também não aprovaram a produção. Eles deram a nota 5,4 para Gone.

Depois deste filme, Dhalia promete voltar para o cinema autoral e fazer um grande “épico brasileiro”. Segundo o diretor, Serra Pelada, seu próximo filme, será o maior projeto de sua carreira – e o terceiro com foco no mercado internacional (após À Deriva e Gone). Após a entrevista que eu fiz com ele em vídeo, citada anteriormente, comentei com o diretor sobre Ricardo Kotscho, jornalista que escreveu um dos livros mais célebres sobre a Serra Pelada, e Dhalia me confidenciou que iria se reunir com Kotscho no dia seguinte. A obra de Kotscho, assim como a biografia de Eike Batista, seriam dois livros que serviriam de base para o diretor. Faria parte do elenco do filme o ator Wagner Moura. Eis um filme para ficar de olho, até porque o assunto é muito interessante.

CONCLUSÃO: Eu devo discordar de Heitor Dhalia. Em uma entrevista que ele deu para um grupo de jornalista – e eu fazia parte do grupo – em São Paulo, quando Gone foi lançado esta semana, o diretor confirmou que parte de Gone teve que ser refilmada, inclusive o final, mas que o resultado após estás alterações tornou o filme melhor. Perguntei como era a versão anterior, e ele disse que mais dúbia, que ela deixava mais perguntas no ar e que não apresentava para o espectador o que ele queria no final. Não tinha a questão da vingança. Não sei exatamente como era o outro final, mas posso dizer que o que foi aprovado e que nós assistimos não pode ser considerado bom. Pelo contrário. Ele é um grande tiro no pé. Não acho que o espectador preciso da catarse, da vingança. Acho que todos nós precisamos ser surpreendidos. E mesmo que isso seja cada vez mais difícil, especialmente em filmes como este, esta é a razão de assistí-los. Gone é bem dirigido. Bem feito tecnicamente. Amanda Seyfried aparece em praticamente todas as cenas e carrega o filme nas costas com aqueles olhões arregalados. Mas o roteiro é fraco, erra a mão em várias vezes. E o final é decepcionante. Se ainda assim você quiser assistir ao filme, bom proveito. Mas não diga que eu não avisei.

Rampart

Um policial fora de controle. Que se enrola cada vez mais em seus próprios erros. Rampart revela os bastidores da polícia de Los Angeles no final dos anos 1990. Como estrela da produção, Woody Harrelson faz um de seus melhores trabalhos. Além de honesto, este filme se destaca por algumas sequências inventivas do diretor. Entretenimento com levada autoral e alguma inovação.

A HISTÓRIA: O policial David Douglas Brown (Woody Harrelson) faz várias rondas na Los Angeles de 1999. Em um certo dia, ele aparece ao lado da estagiária Jane (Stella Schnabel) e do policial Dan Morone (Jon Bernthal). Jane escuta os conselhos dos dois policiais, especialmente de Dan, que afirma que ela deve aprender logo a diferença entre os diferentes tipos de latinos que vivem na jurisdição deles. Afinal, quanto antes ela aprender a identificar suas diferentes origens, mais rapidamente ela perceberá quem odeia quem. Segundo David, todos traficam, todo o tempo, e estão armados para atacar a polícia. Ela pergunta sobre o escândalo, e os dois policiais desprezam este tema. David diz que dois policiais fizeram besteira e mancharam o restante da corporação. Mas logo mais veremos que esta não é toda a história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Rampart): O roteiro de James Ellroy e do diretor Oren Moverman acerta no começo do filme. O texto planta dúvidas na cabeça dos espectadores, que não sabem até que ponto David Brown é apenas um policial um pouco exagerado, cansado da rotina de rondas e problemas, mas que tem uma preocupação ética e de conduta, ou se ele é um louco fardado.

Aquela conversa dele com colegas no início do filme mostra as duas facetas do protagonista: por um lado, ele acredita que todos os latinos são traficantes e estão preparados para ferrar a ele e seus colegas quando tiverem a primeira oportunidade e, por outro, ele revela ter um grande respeito pela disciplina e de que é capaz de voltar atrás em um gesto exagerado.

Em seguida, ele quer mostrar força para a colega iniciante, e tem outro gesto idiota, que não parece ser próprio de alguém que está há muito tempo nas ruas. Na delegacia de polícia, mais uma vez, ele exagera com um preso que havia batido em um colega. Não parece que o escândalo envolvendo a Rampart, divisão da polícia de Los Angeles que atende a bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, foi realmente um equívoco de dois policiais.

O protagonista desta produção serve de exemplo de uma polícia contaminada pela brutalidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Das ruas, passamos rapidamente para a intimidade dele. Para complicar o enredo daquela vida conturbada, ele tem duas ex-mulheres, que são irmãs, e duas filhas com as quais ele não sabe lidar. Aliás, ele tem dificuldade em lidar com mulheres em geral. Não parece ter muito respeito por elas. Bom de cama, ele pula de uma relação para a outra. Parece não gostar de dormir sozinho – como tantos e tantos outros. Mas algo de positivo (e é preciso dizer, diante de tantos defeitos desse personagem): ele não bate em mulher. Pode insultá-las, desprezá-las, mas não levanta a mão para elas.

Evidente, mesmo sem sabermos quase nada sobre o passado de David, que ele respeita muito a “superioridade” dos homens. Mesmo que de uma maneira torta, ele tenta também preservar o valor da “família”. Claro que nenhum destes conceitos estão limpos, sem contaminação. Nada na vida de David, e isso vamos percebendo aos poucos, parece não estar manchado pela violência ou pela corrupção.

Ainda assim, é interessante como Ellroy e o diretor Oren Moverman conseguem adentrar de forma sutil na vida do personagem, mostrando várias de suas facetas. Há o homem de família, que não consegue conciliar ninguém em casa – não resgata o romance com nenhuma das ex e nem consegue muito afeto das filhas. Há o policial, que está cansado de ver o mesmo e perde a cabeça facilmente, seja com um imigrante ou com um superior – nestas horas, a hierarquia parece importar pouco. Existe também o David garanhão e festeiro, que bebe em serviço, fuma sem parar, frequenta bares e boates em busca de sexo sem compromissos. E há ainda o homem corrupto, com contatos suspeitos com Hartshorn (Ned Beatty), o homem que conhece o submundo da jogatina.

Rampart é complexo por isso, por focar todas estas facetas de um homem que ganhou os noticiários por um momento de violência. Mas a condução do filme inova pouco. Se o roteiro é bem amarrado e interessante, a direção segue o caminho tradicional. Exceto por duas sequências que valem quase pelo restante da produção: aquela do “confronto” entre David e os superiores Joan Confrey (Sigourney Weaver) e Bill Blago (Steve Buscemi), uma roleta russa de pressões e egos; e a que foca uma das noites mais alucinantes do protagonista, em uma boate onde rolam sexo e drogas e onde predomina a cor vermelha. A visão distorcida que o personagem naquela noite pode sintetizar toda a perda de foco que ele está vivenciando naquela momento da vida.

Os atores e atrizes que embarcam nesta produção é algo que impressiona. Além dos já citados, vale destacar a atuação de Ben Foster como o general Terry, preso à uma cadeira-de-rodas; Cynthia Nixon como Barbara, irmã de Catherine, interpretada por Anne Heche, ambas ex-mulheres de David; Brie Larson como Helen, filha mais velha do protagonista, e Sammy Boyarsky como Margaret, a caçula da família; Robert Wisdom como o capitão da divisão Rampart; Robin Wright como Linda Fentress, uma advogada que acaba se relacionando com David em seu pior momento; e Ice Cube como Kyle Timkins, investigador do Ministério Público que não sai da cola do protagonista. Baita elenco, não? E todos estão bem, ninguém destoando muito do ótimo trabalho de Harrelson.

Rampart tem dois momentos de explosão do protagonista que marcam erros importantes e difíceis de serem contornados. Fora estes “rompantes”, nenhum dos dois muito surpreendentes – afinal, o espectador já está “armado” para aquelas sequências -, o restante do filme é bastante cerebral, e tenta mostrar as diferentes facetas do protagonista. Essa busca é interessante, e torna esta produção densa.

Mas por outro lado, deixa pouco espaço para surpresas. E em um filme policial, elas são importantes. Com tantas linhas e histórias para contar, Rampart perde um pouco de ritmo para abrir espaço para uma leitura mais completa daquela realidade. É um filme louvável, ainda que pouco provocador. Faz refletir, mas inova em poucas cenas. Está bem acima da média, mas não chega a ser excepcional.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O estilo de direção de Oren Moverman segue a lógica dos documentários. Câmera na mão, estilo de interpretação dos atores cheia de improvisos, Rampart vende a ideia de que o espectador está acompanhando uma história real, enquanto ela acontece. Uma escolha acertada, para este tipo de história. Fora aquelas duas sequências que eu comentei antes, o restante da produção segue uma lógica limpa, linear, sem inovações.

A direção de fotografia de Bobby Bukowski explora, evidencia e potencializa a luminosidade de Los Angeles. Uma decisão acertada, e que muitas vezes deixa o filme um pouco “over” na luz. A impressão é que o sol queima, e que não é possível para ninguém conseguir proteção suficiente contra ele. Assim como os personagens, que não conseguem ficar incólumes em meio àquele cenário de insegurança e violência crescente.

De todos os atores citados, os que apresentaram o melhor trabalho foram, claro, o protagonista Woody Harrelson, Jon Foster – em uma ponta -, Brie Larson (ainda que ela irrite, alguma vezes) e Robin Wright. Outros atores, talentosos, aparecem tão pouco que não conseguem se destacar. Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho do editor Jay Rabinowitz.

Gostei de ter visto o ator Jon Bernthal, que faz um trabalho excelente na série The Walking Dead, em um filme. Mas senti falta de vê-lo nesta produção mais do que em uma ponta.

Fiquei curiosa por saber mais sobre a divisão Rampart. Neste link da Wikipédia (em inglês), é possível saber que ela integra a polícia de Los Angeles e atende as regiões oeste e noroeste do Centro da cidade. Como eu disse antes, faz parte desta região bairros como Echo Park, Pico-Union e Westlake, conhecidos por abrigar muitos latinos. O nome da divisão surgiu a partir do Boulevard Rampart, uma das principais ruas da área de patrulha dos policiais que a integram. A população de Rampart chega a 300 mil pessoas, e é considerada a área mais populosa da cidade.

No mesmo texto da Wikipédia é possível saber um pouco mais sobre o escândalo que envolveu a divisão Rampart. No final dos anos 1970, foi criado ali um programa anti-gangues. Ele teria funcionado bem nos primeiros anos, mas entre 1998 e o ano 2000, vários policiais e detetives do esquadrão foram acusados de má conduta. Um deles, Rafael Perez, foi acusado de participar de um assalto à banco e por roubar seis quilos de cocaína de um armário de provas policiais.

O ato mais notório de Perez foi ele ter sido gravado espancando o membro de uma gangue que estava desarmado – história parecida com a do protagonista de Rampart, não? Ele teria confessado o roubo da cocaína e trocou esta possível condenação pelo gesto de delatar colegas corruptos – Perez teria apontado 70 deles por má conduta.

Rampart estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. No mesmo mês, ele participou do festival de cinema de San Sebastian, na Espanha. Até agora, o filme foi indicado a dois prêmios, ambos para o ator Woody Harrelson, mas não ganhou nenhum deles.

Há poucas informações sobre o resultado desta produção nas bilheterias. Segundo o site IMDb, nos Estados Unidos, o filme teria arrecadado pouco mais de US$ 663,3 mil até o dia 11 de março. Sim, mil, não milhões. Uma bilheteria minúscula, para os padrões do cinema norte-americano. Em sua melhor época, o filme foi exibido em 106 cinemas, nos Estados Unidos. Em um cenário muito restrito, o que ajuda a explicar a baixa bilheteria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para Rampart. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 92 críticas positivas e 29 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

O crítico Andre Barcinski, da Folha, escreveu aqui que ele considera Rampart o melhor filme americano de 2011. Respeito a opinião dele, é claro. Gostei de Rampart. Mas não achei esta produção a melhor do ano passado. Nem de perto. O filme não é tão surpreendente, nem na forma ou no conteúdo, quanto poderia ser.

Rampart é o segundo filme do diretor e roteirista Oren Moverman. Antes, ele dirigiu a The Messenger, filme bem interessante e que tem no elenco, outra vez, Woody Harrelson, Ben Foster, Steve Buscemi, entre outros. Atualmente, ele está trabalhando na pré-produção de Berlin, I Love You, com previsão para ser lançado em 2013.

Woody Harrelson entrou na minha lista de ótimos atores com Natural Born Killers. Depois daquele filme de Oliver Stone, de 1994, ele fez outros trabalhos excelentes. Vale citar (e assistir) a The People vs. Larry Flynt, de Milos Forman; The Walker, de Paul Schrader; Transsiberian, de Brad Anderson; e o já citado The Messenger.

CONCLUSÃO: Um vilão nunca é apenas um vilão, por mais que tantos filmes de Hollywood tenham tentado simplificar estes personagens repetidas vezes. Um sujeito errado sempre tem uma história pessoal para contar, assim como ele sofre com uma certa contaminação originada na sociedade e identificável em seu comportamento. Rampart mergulha na história de um homem que deveria ser o mocinho de uma determinada realidade – replicável para qualquer parte, mas que aparece como um reflexo mal acabado das falhas deste coletivo. Acreditando ser intocável, o protagonista abusa de sua autoridade e ajuda a disseminar o caos na realidade que deveria contribuir para controlar. O filme acerta ao acompanhar ele de perto pouco antes do trem de sua vida descarrilhar, até para que o espectador possa ver de perto como os problemas sempre podem aumentar e uma pessoa perder o controle da própria vida. Há chance de redenção para o personagem de Rampart? Dificilmente. E essa crueza talvez seja o melhor do filme.