Juliet, Naked – Juliet, Nua e Crua

juliet-naked

Geralmente a gente leva aquela vidinha mais ou menos. E nos acostumamos com esse “mais ou menos”. Mas o que nos desagrada na nossa vidinha “assim, assim” nos tira a paz. Isso pode durar muito tempo. A vida inteira, muitas vezes. Ou pode chegar um dia em que um fato inesperado nos faz querer mudar. Juliet, Naked segue a onda da obra do escritor Nick Hornby na sua busca da relação das pessoas com a música e vice-versa mas avança alguns passos em direção à maturidade. Um filme com doses certas de humor, romance, drama e cinismo. Uma bela pedida.

A HISTÓRIA: Em um vídeo gravado para o seu site, Duncan Thomson (Chris O’Dowd) fala um pouco mais sobre a aura e as “lendas” que envolvem o seu ídolo máximo, o sumido “astro” do rock alternativo Tucker Crowe (Ethan Hawke). Nesse vídeo, feito em casa, Duncan relembra as linhas gerais da trajetória de Tucker e comenta como ele fez uma “obra-prima” em 1993 antes de “desaparecer”. Muitos anos depois, em 2014, teriam feito uma foto dele em uma fazenda, mas ninguém comprovou se a imagem seria do artista. Corta.

Em uma pequena cidade do litoral do Reino Unido, Annie Platt (Rose Byrne) mantém o legado do pai no museu da cidade. Agora, ela está com o desafio de organizar uma mostra que vai lembrar um Verão dos anos 1960 na cidade. Ela passa os dias entre o trabalho no museu, a rotina de um relacionamento morno com Duncan e desempenhando o papel de confidente da irmã mais nova, Katie (Alex Clatworthy).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu Juliet, Naked): Como manda o meu figurino, eu não sabia praticamente nada sobre Juliet, Naked antes de entrar no cinema e começar a assistir ao filme. Mas, conforme ele foi se desenvolvendo, me pareceu que aquele estilo e aquela assinatura da produção, especialmente do roteiro, me pareciam familiares.

Então não foi surpresa nenhuma, pelo contrário, fez muito sentido, depois, saber que o roteiro de Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins foi escrito tendo uma obra de Nick Hornby como fonte. Juliet, Naked tem o estilo de Hornby do primeiro ao último minuto. Assim, para entender bem este Juliet, Naked, o ideal seria antes visitar (ou revisitar) o filme High Fidelity – que eu assisti antes de criar este blog, por isso esse o texto sobre ele não poderá ser encontrado por aqui.

High Fidelity foi o filme que fez Hornby ser conhecido do grande público. Depois, dá para entender um bocado da “pegada” do autor com a produção About a Boy – que eu assisti também antes de criar o blog. O que estes filmes, baseados em livros de Hornby, têm em comum e que é importante conhecer e/ou entender antes de assistir a Juliet, Naked? Nas duas produções que “lançaram” Hornby para o grande público nós temos protagonistas em busca de sua própria maturidade.

Já foi comprovado, cientificamente, que os homens amadurecem, em geral, mais tarde que as mulheres. Esse amadurecimento mais tardio é sempre confrontado pelas responsabilidades da vida adulta versus os gostos ainda juvenis que muitos homens preservam pelo máximo de tempo possível. Assim, você pode ganhar muita responsabilidade conforme os anos passam, mas nem sempre você consegue lidar bem com toda essa responsabilidade e “cobrança”.

Mais uma vez, em Juliet, Naked, vemos a dois homens relevantes para a história que tem dificuldade de lidar com alguns aspectos mais “adultos” das suas vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Professor, Duncan alimenta uma verdadeira “paixão” pela música de Tucker Crowe. Ele é o típico “fanático” pelo artista, aquele cara que acredita que sabe tudo sobre o seu ídolo e o defende com unhas e dentes – mesmo não sendo muito racional (ou nada racional?) nesta defesa.

Ao mesmo tempo que dedica apenas o tempo necessário para a sua profissão de professor e igualmente apenas a atenção mínima para a namorada que vive com ele, Duncan dedica grande parte da sua paixão para a música de Tucker e para o site que criou sobre o artista. Cheio de razão sobre o que acredita saber sobre Tucker, Duncan fantasia o ídolo e a vida que ele possa ter seguido após ter optado pelo “anonimato”.

Nessa parte, tanto Hornby quanto os roteiristas de Juliet, Naked fazem uma ponderação interessante sobre as nossas paixões e como elas nos cegam. Duncan coloca tanta energia no seu “amor” pelo ídolo que, no dia em que ele o encontra com a ex-namorada na praia, ele é incapaz de identificar o objeto da sua paixão. Depois, no jantar cheio de constrangimento que os três e mais o filho de Tucker tem na casa de Annie, fica evidente o descolamento das impressões de Duncan sobre o ídolo e a realidade.

Nesse sentido, Juliet, Naked se revela um filme muito interessante. Nos faz pensar sobre o quanto o nosso amor, paixão ou admiração mesmo para outra pessoa (ou obra) nos torna cegos ou, no mínimo, míopes para a realidade sobre aquela pessoa (ou obra). De fato isso acontece, e com maior frequência do que gostaríamos de admitir. É preciso racionalizar e usar a nossa inteligência para eliminar a névoa e a vista nublada, para enxergar além da “cortina de fumaça”.

Mas para isso acontecer, é preciso ter contato com a realidade, nua e crua, e querer enxergar. Há quem prefira a vista nublada e a paixão cega, mesmo sabendo o que elas representam. Sempre é uma questão de escolha individual – e intransferível, portanto. Duncan, está claro conforme a produção avança, é um sujeito afeito e apreciador de miopia. Ele se deixa levar pelas emoções – ainda que seja tão ruim em administrá-las na prática. Lhe falta, evidentemente, uma maior maturidade emocional.

Isso é comprovado com o final de Juliet, Naked. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Depois de perder definitivamente a ex-namorada para o ex-ídolo, ele não disfarça a dor de cotovelo que passou a sentir utilizando a internet para “atacar” o novo trabalho de Tucker. Quantas decisões erradas tomamos por que nos sentimos traídos ou decepcionados? Esses sentimentos nunca são bons conselheiros.

Enquanto Duncan procura, mas parece não achar muito a maturidade emocional, temos outra figura em uma busca por maturidade nesta produção: Tucker. Depois de fazer um relativo sucesso como cantor e compositor, ele se afasta da música e da exposição pública e pula de relacionamento em relacionamento, colecionando não apenas ex-mulheres ou ex-parceiras, mas também diversos filhos.

Quando Duncan recebe a primeira gravação do disco de Tucker que ele ama e publica uma crônica a respeito no seu site, a pouco valorizada – e não tão míope – Annie resolve publicar um comentário dando um contraponto para toda aquela “rasgação de seda”. Ao ver um comentário mais ácido, Tucker entra em contato com a usuária que o postou. E assim ele começa a se corresponder com Annie.

Nesse sentido, Juliet, Naked explora muito bem as possibilidades de contato e de interação cheios de significado que a tecnologia da internet nos trouxe. Como é o caso deste blog mesmo, onde tanta gente boa fala sobre cinema e acaba trocando impressões sobre os filmes. Sempre é possível, nestes locais, encontrar pessoas com grande afinidade com a gente – mais até do que algumas pessoas próximas, muitas vezes.

Justamente esse potencial da internet que acaba sendo um elemento determinante para a história de Annie e de Tucker. Para surpresa dela, que não “endeusa” o artista como o namorado, Tucker acaba se revelando um sujeito realmente interessante. E atento, que lhe dá ouvidos e atenção, algo que ela não recebe em casa.

Juliet, Naked também entra, de forma bastante discreta, em outro tema bastante presente nos nossos dias: o que é, afinal, traição? Annie esconde de Duncan que ela está se correspondendo com o ídolo-mor dele. Não apenas trocando e-mails e mensagens, mas confidências – como a declaração de que ela “desperdiçou” os seus últimos 15 anos de vida. Annie não se sente orgulhosa de esconder isso do namorado, mas também não vê como falar a verdade para ele.

Como a vida tem as suas ironias, Duncan “mete a pata” e faz besteira traindo Annie com uma nova colega de colégio, Gina (Denise Gough). O “motivador” dele em relação à ela é porque Gina parece compartilhar da mesma emoção que ele sente ao escutar à primeira gravação do disco de Tucker.

Como acontece com muitos homens imaturos, Duncan “se deixa levar” e tem uma noite de sexo que não significa “nada” com Gina. Mas isso é suficiente para Annie ter a desculpa perfeita para terminar com aquele relacionamento morno e mais ou menos – sobre o qual ela já estava farta há algum tempo.

Depois, o que é um clássico também, Duncan se arrepende e tenta voltar com Annie. Sem sucesso, é claro, porque Annie já está cansada da “vidinha mais ou menos” que vinha levando e resolve correr atrás de algo que lhe faça mais sentido. Ufa! Ainda bem! Tantas mulheres abrem mão de suas próprias vontades, desejos e do que lhes traz mais sentido por causa de comodismo… ainda bem que esse não foi o caso da protagonista de Juliet, Naked.

Assim, de forma bem natural, esse filme nos faz refletir de que a vida está cheia de surpresas e de oportunidades. Por causa de um comentário franco que fez no site do namorado, Annie acabou se aproximando de um ex-ídolo rockeiro sobre o qual ela não tinha nenhuma atração em particular. A vida está cheia destas surpresas e oportunidades. O que fazemos com elas é o que realmente interessa, no final. Quantas vezes você teve uma ótima oportunidade pela frente mas a deixou passar?

Tucker estava “confortável” morando na garagem nos fundos da propriedade da sua última namorada e cuidando do filho Jackson (Azhy Robertson). Depois de errar tanto com suas ex-mulheres/namoradas e de não realmente buscar ser um bom pai, ele quer fazer diferente agora – assim, esse filme mostra um homem com dificuldade para amadurecer realmente procurando por esta mudança na sua vida.

Seus planos iam muito bem, até que Annie apareceu na sua vida. Apesar de estar em uma situação “confortável”, Tucker é quem toma a iniciativa de uma aproximação. Quando eles realmente se aproximam, Annie vê que a vida do novo pretendente é um verdadeiro caos. Ela poderia ter recuado, agradecido a oportunidade e seguido em outra direção. Mas ambos já tinham se modificado, um ao outro, e resolveram não fechar os olhos para isso.

Mudanças maravilhosas podem acontecer com as pessoas – e com as sociedades, enquanto coletivo de pessoas – quando as pessoas estão dispostas para que isso aconteça. Mas é preciso disposição, sem dúvida. É preciso sair da zona de conforto, da “vidinha mais ou menos” e da segurança do que já conhecemos. É preciso se arriscar, sabendo que há chances de dar certo ou de dar errado. E tudo bem.

Pensando no que pode ter atraído tanto Annie em Tucker, acho que foi a grande e incurável honestidade dele. Em nenhum momento Tucker quis disfarçar os seus defeitos ou parecer algo que ele não era. Essa franqueza, tão difícil de encontrar por aí, assim como o olhar cuidadoso e realmente interessado de Tucker, foram “fatais” para Annie. Realmente é como achar uma agulha em um palheiro.

Para uma pessoa que vive um bocado na zona de conforto mas que não está cega para as mudanças e para as possibilidades que a vida sempre nos apresenta, Juliet, Naked é uma brisa de ânimo e de esperança. Um filme sobre a busca da felicidade, de fazer melhor na próxima vez e de maior maturidade. Uma brisa animadora frente a tanto caos e cegueira. Um filme sobre música e o amor baseado em princípios que realmente valem a pena. Um belo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto de produções com muitos diálogos e com bastante conteúdo. Esse é o caso deste Juliet, Naked. Algo bastante típico também do escritor Nick Hornby. O autor, assim como os roteiristas desta produção, exploram muito bem a construção dos personagens. Não apenas nos diálogos deles com outros personagens mas, sobretudo, no diálogo deles “interno”. Vemos isso coloado em Juliet, Naked de forma natural, sem forçar a barra e em momentos pontuais.

O roteiro de Juliet, Naked, vocês podem imaginar, é um dos pontos fortes do filme. Evgenia Peretz, Jim Taylor e Tamara Jenkins respeitam o estilo de Nick Hornby e conseguem construir um roteiro envolvente e que mergulha com cuidado e verdadeira “admiração” nos personagens centrais da história. Há diálogos deliciosos e engraçados espalhados aqui e ali, assim como momentos para o drama e o romance. Uma crônica sobre pessoas comuns e os nossos tempos de comunicação intermediada por computadores e tudo que isso significa de filtros e de possibilidades.

Além do roteiro acima da média, Juliet, Naked apresenta uma direção de Jesse Peretz bastante coerente com a história. O diretor, com muitos trabalhos na direção de curtas e de séries de TV e relativamente poucos trabalhos na direção de longas, valoriza bem o trabalho dos atores e os locais em que eles vivem e/ou transitam. Essencialmente, o trabalho de Peretz não tem nenhum grande “achado” de ângulo ou ritmo de câmera, mas ele faz um trabalho competente de valorização das interpretações dos atores.

Falando em atores, esse é um outro ponto forte de Juliet, Naked. Rose Byrne e Ethan Hawke estão simplesmente incríveis em seus papéis. Especialmente Hawke, que parece se encaixar perfeitamente no papel de um “ex-ídolo” jovem, belo e admirado que acaba se afastando de tudo e de todos e passa a ter quase uma “ojeriza” à fama. Hawke envelheceu e não é mais aquele garoto jovem e belo como antes. Então ele se encaixa perfeitamente no papel. Hawke e Byrne são simpáticos e “iluminam” a tela, além de fazerem uma bela parceria em cena. Gostei muito do trabalho deles e da construção de seus personagens.

Para mim, Hawke e Byrne roubam as cenas sempre que aparecem. Apesar disso, há outros nomes competentes e que fazem um belo trabalho em Juliet, Naked. Vale citar, em especial, o bom trabalho de Chris O’Dowd como Duncan, um cara de meia idade com algumas paixões e com pouca capacidade de desenvolver relações reais; Alex Clatworthy muito bem com a irmã mais nova, lésbica e “pegadora” da protagonista, Katie, um contraponto interessante para Annie; Denise Gough bem em um papel menor e de coadjuvante, realmente, como Gina, a professora que dá em cima do colega Duncan; Azhy Robertson muito bem como Jackson, o filho mais novo de Tucker e a sua esperança de ser “um bom pai”; e Ayoola Smart como Lizzie, uma das filhas de Tucker que procura o pai quando está grávida.

Além destes nomes, que tem um destaque maior na trama, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Lily Newmark como Carly, uma das namoradas de Katie; Phil Davis como o caricatural e um bocado “sem noção” prefeito de cidade pequena Terry Barton; Eleanor Matsuura como Cat, a última ex-namorada de Tucker – e dona da propriedade onde ele mora nos fundos da residência; Florence Keith-Roach como Caroline e Megan Dodds como outras ex-mulheres de Tucker – elas são mães, respectivamente, de Lizzi e dos gêmeos Zak (Thomas Gray) e Jesse (Brodie Petrie), todos filhos de Tucker.

Entre os aspectos do filme, além do saboroso e interessante roteiro do trio Peretz, Taylor e Jenkins e da direção firme e coerente de Peretz, vale destacar a direção de fotografia de Remi Adefarasin; a edição de Sabine Hoffman e de Robert Nassau; a trilha sonora de Nathan Larson; o design de produção de Sarah Finlay; a direção de arte de Caroline Barclay; a decoração de set de Ellie Pash e os figurinos de Lindsay Pugh.

Ainda que os filmes mais significativos baseados na obra de Nick Hornby não tenham sido comentados aqui no blog – porque eles são anteriores à criação deste espaço -, tenho publicados no site duas críticas de filmes que contaram com o roteiro de Hornby. Vocês podem conferir por aqui a crítica de An Education e, neste link, a crítica de Brooklyn. Não são os melhores trabalhos dele, mas os dois filmes são interessantes.

Juliet, Naked estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de Sydney, de Zurique e do American Film Festival. Nessa trajetória de festivais, ele foi indicado em uma categoria mas não ganhou prêmio algum.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Rose Byrne estava grávida de seis meses quando Juliet, Naked foi filmado. Para esconder essa gravidez, o diretor optou por planos de câmera inteligentes, como takes de médio e grande plano, e pela colocação de bolsas e notebooks na frente da barriga da atriz para que a gravidez não aparecesse na tela.

O escritor Nick Hornby faz uma ponta no filme. Ele aparece ao lado da atriz Rose Byrne na sequência no museu na qual Tucker Crowe canta a música “Waterloo Sunset”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 96 textos positivos e 21 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,9. No site Metacritic, Juliet, Naked recebeu o “metascore” 67, fruto de 20 críticas positivas e 12 medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Juliet, Naked fez pouco mais de US$ 3,4 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos.

Juliet, Naked é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: A energia que nós dedicamos a alguns aspectos da nossa vida nem sempre é proporcional ao quanto aquilo vale a pena realmente. Muitas vezes, não nos dedicamos o quanto deveríamos para a pessoa que está ao nosso lado, gastando aquela energia com nossos gostos pessoais. Juliet, Naked segue a linha de Nick Hornby de falar de encantamento, de paixão, de amor e de música, mas com alguns toques maiores de autocrítica, cinismo e compaixão com seus personagens. Mais um filme interessante e divertido com a marca de Hornby e com ótimos atores em cena. Porque vale falar de música, de amor e da vida de gente comum. Boa pedida para quem gosta do gênero.

Anúncios

Venom

venom

Eis um personagem de HQ que era um ilustre desconhecido para mim. Tinha visto a alguns trailers de Venom, mas não sabia muito sobre a história do personagem antes de ir conferir ao filme. Gostei do que eu vi. Nem tanto pela história ser surpreendente, mas pela condução do diretor Ruben Fleischer e, principalmente, pelo ótimo trabalho do ator Tom Hardy. O astro, que até hoje não tinha me convencido muito, neste filme conseguiu me fazer tirar o chapéu. Filme divertido e bem realizado.

A HISTÓRIA: Espaço sideral. Uma nave se aproxima da Terra e comunica que dará entrada no planeta. Na comunicação que fazem com Fundação Vida, os astronautas comentam que as espécimes estão bem. Perto de dar entrada na atmosfera terrestre, contudo, surge um pedido de “mayday” (socorro) vindo da nave. A espaçonave queima ao entrar na atmosfera e cai na Malásia Oriental. Logo uma equipe de resgate vai para o local e encontra um sobrevivente.

Esse sobrevivente é levado em uma ambulância. No trajeto, o paciente se revela como um hospedeiro de uma espécime alienígena, que se empodera de uma socorrista. Enquanto isso, equipes da Fundação Vida resgatam outras espécimes acondicionadas em cilindros impermeáveis. O projeto desta fundação envolvendo essas espécimes alienígenas é o que vai desencadear toda a trama deste filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Venom): Tenho alguns defeitos no meu currículo de cinéfila. Infelizmente, pelo tanto que eu trabalho na vida fora do blog, eu não consigo tempo de assistir a tudo que eu gostaria. Assim, por exemplo, deixei de assistir a Deadpool, filme já com duas produções e que eu sei que tem a pegada mais “dark” e irreverente dos filmes baseados em HQ.

Ao comentar sobre isso, que eu não assisti ainda a nenhum Deadpool, quero dizer que não ignoro também o estilo de filme que esta produção representa. Diferente de outras produções de super heróis, nas quais eles são sempre valentes, honrados e altruístas, Deadpool e, agora, esse Venom, mostram outro perfil de heróis. Nesses filmes eles são mais complexos e, apesar de buscar fazer o que é certo na maioria das vezes, em algumas situações eles também se mostram falhos e com toques de egoísmo.

Gostei de Venom por algumas razões. Primeiro, que achei inteligente e diferenciada a forma com que lidaram com seres extraterrestres. O cinema, na maioria das vezes, encara os aliens como invasores, que vão colocar a vida na terra em perigo, ou como seres graciosos que vem nos ajudar em algo – ou apenas nos divertir com as suas faltas de entendimento sobre como o ser humano funciona.

Por mais maluca que a ideia de Carlton Drake (Riz Ahmed), CEO da Fundação Vida, pudesse parecer, surge com certo “frescor” a ideia de utilizar vida alienígena para criar um “super humano” capaz de se adaptar mais facilmente à vida em outro planeta. O roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel, baseados na história desenvolvida para o cinema por Pinkner e Rosenberg e inspirados nos personagens de HQ criados por Todd McFarlane e David Michelinie, parecem fazer alusões interessantes a questões presentes atualmente na nossa sociedade.

Para começar, Carlton Drake me pareceu ser livremente inspirado em figuras como a de Elon Musk, CEO  da Tesla Motors e um sujeito fascinado pela vida fora da Terra. Drake se diz visionário e realmente procura saídas diferentes para problemas antigos, mas a partir de que preço? Aí entra em cena quase uma “lenda urbana” sobre algumas empresas que utilizam vidas humanas como mercadorias para fazer os seus testes e experimentos.

O ponto determinante de Venom surge justamente quando o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy) é chamado para fazer uma entrevista com Carlton Drake e confronta o empresário com as mortes de pessoas miseráveis por causa de testes da Fundação Vida.

Poderoso, Drake faz com que Brock pague caro por sua “insolência”. Essa é uma parte fraca do filme, porque de forma um tanto displicente os roteiristas mostram como Brock “perde tudo”, do emprego até a noiva Anne Weying (Michelle Williams) por causa daquela entrevista desastrosa.

Se bem que é verdade, e Anne deixa claro isso em determinado ponto da história, que ela não termina com Brock por causa de Drake, e sim por causa da atitude egoísta do ex-noivo. De fato, Brock passa os seus interesses acima do zelo e do bom senso e acaba colocando tudo a perder. Mas aí está o lado interessante deste filme, que não nos apresenta um herói acima de qualquer suspeita, mas um sujeito que apresenta falhas e problemas – algo positivo se queremos aproximar o personagem da audiência.

Indignada com os sacrifícios humanos que a Fundação Vida começa a fazer em nome do “avanço científico”, a Dra. Dora Skirth (Jenny Slate) convida Brock a conferir de perto o perigo da equipe dela estar lidando com seres alienígenas. Em sua incursão desastrada no local, Brock acaba virando hospedeiro de uma destas criaturas – justamente Venom.

Como em qualquer relação de simbiose, os dois organismos vivem uma íntima relação de dependência. Venom precisa de Brock para sobreviver na Terra e Brock acaba tirando proveito de Venom para sobreviver em meio a tantas perseguições e desafios que surgem com o projeto de Drake. Como um filme baseado em HQ pede, em certo momento do filme o poderoso Venom tem que enfrentar um arqui-inimigo de potencial semelhante.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aquela criatura que primeiro migrou do astronauta para a socorrista e, depois, dela para uma senhora asiática e para uma menina loirinha, acabou, finalmente, no corpo de Carlton Drake. A intenção do malévolo Riot era liderar uma nova incursão fora da Terra para pegar mais de seus “irmãozinhos” e, depois, voltar para tocar terror no nosso planeta.

Como Venom é uma criatura parecida com o seu hospedeiro, ou seja, capaz de gestos altruístas e também egoístas, ele se diz encantado com a Terra e com Brock e, por isso, vai ajudar o nosso mais novo herói a enfrentar Riot e Drake. E aí o filme tem a sua esperada “batalha final” entre dois antagonistas de peso praticamente igual.

Entre aquele início do acidente da nave da Fundação Vida e esse embate final entre Venom e Riot, temos um filme recheado de perseguições a Brock e um pouco sobre a relação dele com Anne. A produção acerta, a meu ver, ao aprofundar no personagem de Brock, mostrando a sua vida antes e após o fim da sua carreira, a sua relação com a vizinhança e outros detalhes que trazem “molho” para a história.

As cenas de perseguição e a descoberta de Brock sobre todo o potencial de Venom foram muito bem feitas. Como podem os filmes de super heróis, também existe um equilíbrio interessante entre cenas de ação, tiroteio e pancadaria com sequências recheadas de humor, suspense e uma pitadinha de drama e romance. Esse caldeirão de gêneros é o que faz das histórias baseadas em HQ o que elas são.

Gostei do humor e dos personagens menos caricaturais e mais realistas de Venom. Acho que o filme tem um bom ritmo e personagens bem desenvolvidos. Também achei interessante como a história valoriza dois “losers”, duas figuras que são vistas como “perdedores” em seus respectivos planetas: Eddie Brock e Venom.

Todos, inclusive os “perdedores”, são capazes de grandes feitos. Você não precisa ser o Superman para fazer isso. Acho que esta talvez tenha sido a grande jogada das HQs a partir de um certo momento da sua evolução como obra artística. Deixar de valorizar os “super humanos” e começar a dar protagonismo para pessoas imperfeitas e comuns capazes de ações incríveis.

Também acho bacana quando um filme não esconde o “lado sombrio” que todos nós temos. Porque o ideal é não ignorarmos esse lado sombrio e sim sabermos lidar com ele. Não alimentá-lo, mas saber que ele existe e que precisa ser controlado. Venom trata disso e trata sobre outras questões relacionadas com o controle do lado sombrio. Uma proposta bacana, pois, e diferenciada em relação aos filmes de HQ. Eu gostei.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os personagens mais interessantes do filme são Eddie Brock e Venom. De todos os filmes que eu já assisti com Tom Hardy – não foram tantos assim, devo ponderar -, este foi, sem dúvida, o mais interessante. Para mim, Hardy brilha nessa produção. Ele não exagera na interpretação, o que é um ponto fundamental para um filme que pretende dar protagonismo para um sujeito comum colocado em situações extraordinárias. Um belo trabalho do ator, sem dúvidas.

Além dele, fazem um bom trabalho, mas alguns degraus mais abaixo, a atriz Michelle Williams, que vive a ex-noiva de Brock; Riz Ahmed, como o ambicioso empresário Carlton Drake; Scott Haze como o chefe de segurança da empresa de Drake, Roland Treece; Reid Scott como o Dr. Dan Lewis e Jenny Slate como a Dra. Dora Skirth, dois médicos que trabalham na Fundação Vida; Melora Walters como a moradora de rua Maria; Woody Harrelson como Cletus Kasady (que aparece só na sequência de cenas extras após os créditos finais); Peggy Lu como Mrs. Chen, a comerciante que costuma atender Brock e ser assaltada.

Merecem ser mencionados alguns hospedeiros dos alienígenas que não conseguiram ficar muito tempo em corpos humanos sem matá-los. São pessoas sem fala no filme, praticamente, mas que acabaram aparecendo um bocado em cena. Michelle Lee como a socorrista que hospeda Riot logo após socorrer o astronauta sobrevivente; Vickie Eng como a senhora asiática que faz boa parte do transporte de Riot até os Estados Unidos; e Zeva DuVall como a garotinha que leva Riot até a Fundação Vida; Jared Bankens e Martin Bats Bradford como Isaac e Jacob, dois hospedeiros de Blue.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a direção de fotografia de Matthew Libatique; para a trilha sonora de Ludwig Göransson; para a edição de Alan Baumgarten e Maryann Brandon; para o design de produção de Oliver Scholl; para a direção de arte de Christophe Couzon, Doug Fick, Martin Gendron, Gregory S. Hooper, Drew Monahan, Troy Sizemore e James F. Truesdale; para a decoração de set de Alice Felton; para os figurinos de Kelli Jones e para o excelente trabalho feito na Maquiagem, pelas dezenas de profissionais do Departamento de Arte, pelo Departamento de Som, pelos Efeitos Especiais e pelos Efeitos Visuais. Impressionante a lista de profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais, aliás. Mas, sem eles, esse filme não seria o que ele é. Incrível o trabalho deles.

Venom estreou no dia 2 de outubro de 2018 na Alemanha e, a partir do dia seguinte, no Reino Unido, na Indonésia, na Irlanda, na Coreia do Sul e em Taiwan. No Brasil, o filme estreou no dia 4 de outubro. Assisti ele logo na sequência da sua estreia e em 3D – que eu sempre acho uma boa pedida, porque dá muito mais profundidade para as cenas e melhora a nossa experiência, especialmente em filmes de ação.

Agora, vale falarmos de algumas curiosidades sobre esta produção. O filho de Tom Hardy, Louis Thomas Hardy, é fã de Venom. Isso estimulou o ator a querer fazer o personagem. Hardy comentou: “Eu queria fazer algo que meu filho pudesse assistir. Então eu fiz algo em que eu mordo a cabeça das pessoas”. Louis orientou o pai sobre como ele deveria retratar Brock/Venom, já que o ator conhecia pouco os personagens.

Achei curiosa essa história de Hardy e do filho porque, na sessão que eu fui assistir Venom, uma avó levou dois netos – ou um neto e seu amigo, não sei ao certo – para ver ao filme. Detalhe: em 3D e legendado. Lá pelas tantas, quando a pancadaria começou para valer, eles saíram do cinema. Sim, para os mais sensíveis, é bom saber que este filme tem uma boa dose de violência e talvez não seja indicado para crianças menores. 😉

Vale citar outro comentário de Tom Hardy sobre Venom, que ele considera como um palhaço trágico: “Há algo de engraçado nas circunstâncias de se ter um presente trágico. É uma superpotência que você não quer, mas ao mesmo tempo que ama você. Isso faz você se sentir especial. Ele é um herói relutante e um anti-herói”. Achei uma bela definição.

Tom Hardy gravou as falas de Venom durante a pré-produção. Quando as filmagens começaram, essas falas foram reproduzidas para o ator através de um fone de ouvido para reproduzir as “conversas” de Brock com Venom.

Desde 2007 se falava em um spin-off de Homem-Aranha – que seria um filme de Venom. Várias tentativas e promessas foram feitas desde então, mas só em 2018 o filme de Venom se materializou.

Venom foi lançado no ano em que os quadrinhos do personagem completaram 30 anos – a HQ dele foi lançada em maio de 1988.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Admito que, ao esperar as cenas extras após os créditos de Venom, não reconheci o personagem de Woody Harrelson. Ele parecia um super-vilão, mas eu não sabia de quem se tratava. Mas o personagem de Harrelson é Cletus Kasady, o nome de batismo do psicopata e super-vilão Carnage (ou Carnificina, segundo este artigo da Wikipédia). Vale dar uma olhada nesse artigo para saber o que nos espera em uma continuação de Venom ou do Homem-Aranha. 😉

Vendo as notas de produção do filme, fiquei sabendo que a origem de Venom, na verdade, foi a relação do alienígena com o Homem-Aranha. Como o personagem não podia ser citado nesse novo filme, arranjaram a Fundação Vida como “desculpa” para introduzir Venom na terra. Interessante. Espero que isso não tenha irritado (muito) os fãs do personagem. Afinal, acho que funcionou bem a nova saída que eles deram – e o paralelo com Musk torna essa parte do filme interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas negativas e 74 textos positivos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de apenas 30% e uma nota média de 4,5. Achei os críticos, especialmente, bastante duros com esta produção. Não entendi, francamente, porque tanta rejeição para esta produção. Se vocês também não gostaram, deixem comentários por aqui para eu entender melhor. Quem sabe me faltou conhecer melhor o personagem para saber se o diretor Ruben Fleischer e os seus roteiristas realmente fizeram besteira com Venom? Não sei, não entendi. 😉

O site Metacritic segue a linha do Rotten Tomatoes e apresenta um “metascore” de apenas 35 para Venom. Esse metascore é fruto de 28 críticas medianas, de 14 críticas negativas e de quatro críticas positivas.

Enquanto os críticos desprezam Venom, o filme vem levando multidões aos cinemas. Segundo o site Box Office Mojo, Venom teria custado US$ 100 milhões e faturado, até o dia 11 de outubro, pouco mais de US$ 107,1 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 127,1 milhões nos outros mercados em que o filme estreou. Ou seja, a produção fez cerca de US$ 234,2 milhões em cerca de 10 dias em cartaz. Caminha com passos largos para faturar bem para as distribuidoras Sony e Columbia, apesar das críticas majoritariamente negativas.

Venom é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – na qual vocês pediam filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um herói que é “gente como a gente”, cheio de defeitos e de boas intenções. E, na verdade, ele em si não tem nenhum grande super poder, mas tem uma parceria igualmente inusitada. Um filme envolvente e bem dirigido, com um bom desenvolvimento de personagens e ótimos efeitos especiais. Bem ao gosto de quem curte o gênero. Um entretenimento competente que segue a linha dos filmes recentes dos heróis de HQ, ou seja, que torna os personagens mais complexos e dinâmicos, sem ignorar o “lado sombrio” que alguns deles possuem. Uma boa pedida.

10 Segundos para Vencer

10-segundos-para-vencer

O tempo passa e quem “não é visto, não é lembrado”. O Brasil tem alguns fenômenos sobre os quais falamos pouco. 10 Segundos para Vencer conta a história de um deles: Éder Jofre. O único brasileiro a conquistar o título de campeão mundial de boxe em duas ocasiões e em duas categorias diferentes. Um verdadeiro fenômeno sobre o qual praticamente não ouvimos falar. Isso diz muito sobre o Brasil e os brasileiros. Nesse sentido, 10 Segundos para Vencer nos faz pensar um bocado.

A HISTÓRIA: Abertura em preto e branco e o som de uma transmissão de rádio. Está difícil de sintonizar a estação. Surge a informação de que o filme é baseado em uma história real. Vamos para 5 de maio de 1973. Em Brasília, vai se decidir mais um título mundial da WBC. Agora, de peso pena. Para muitos, 10 segundos podem não significar grande coisa. Mas 10 segundos é tudo para um lutador.

Éder Jofre (Daniel de Oliveira) aparece deitado, olhando para cima, esperando a sua hora de lutar. A história volta para 1946, quando Éder é um garoto e acompanha, admirado, o trabalho do pai, Kid Jofre (Osmar Prado) como treinador e do tio, Silvano (Ricardo Gelli) como pugilista. Mal sabe o jovem Éder que ele vai seguir os passos do tio, mas superá-lo nos resultados para tornar-se um dos maiores pugilistas da história do esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu só recomendo que continue a ler quem já assistiu a 10 Segundos para Vencer): Estou aqui na minha odisseia para colocar em dia os filmes que eu assisti nas últimas semana. Vi a esta produção nacional pouco depois dela estrear. Sempre amei o boxe. Lembro bem, de quando era criança e pré-adolescente, assistir às lutas que muitas vezes a TV passava no final da noite.

Acompanhei bem a carreira de Mike Tyson, por exemplo, antes dele surtar, e assisti a outros grandes nomes no ringue, como George Foreman e Evander Holyfield. Bons tempos em que era fácil assistir a grandes lutas de boxe no conforto do nosso lar. O que sempre me fascinou no boxe é que este é um esporte de garra, de técnica e de inteligência. Mas também de vigor físico, de resistência, de foco e de obstinação.

Todos nós conhecemos a história de Rocky Balboa, na série de filmes que fizeram a carreira de Sylvester Stallone. Mas o Brasil já teve o seu herói nos ringues. Pena que ele é pouco lembrado. Mas 10 Segundos para Vencer dá o merecido protagonismo para este herói brasileiro do boxe, Éder Jofre.

O filme segue a linha das produções que homenageiam o retratado. Ou seja, você não verá complexidade no roteiro de Thomas Stavros e Patrícia Andrade, que contaram com a colaboração de José Alvarenga Jr. e José Guertzenstein. Muito pelo contrário. O filme segue uma linha clássica de começar com um momento importante do homenageado para, depois, voltar atrás na sua história e contar os principais fatos da vida dele até chegarmos àquele primeiro momento novamente.

Acompanhamos, assim, a história de Éder Jofre desde que ele era um garoto, em 1946 – ele tinha, então, 10 anos de idade -, e até aquela decisão do seu segundo título mundial, em 1973. O foco da história é sempre a “responsabilidade” de Jofre de seguir o legado da família e de honrar o pai, o treinador Kid Jofre. O garoto quer orgulhar o patriarca e, ao ver que o tio não será capaz de fazer isso, ele assume essa responsabilidade.

Mas nada disso acontece sem dúvidas ou sem dor. Por um bom tempo, o jovem Éder quis seguir a carreira artística. Ele teve o apoio da mãe, Angelina (Sandra Corveloni), mas, naquela época – e ainda hoje, infelizmente -, as mulheres não tinham muita voz ou vez dentro da família. Assim, a personalidade marcante e “dominadora” de Kid se sobrepõem a do filho e à da mulher.

Mais que isso, quando o irmão mais novo Doga (Ravel Andrade) fica doente, Éder assume a responsabilidade de entrar no boxe para conseguir dinheiro para o tratamento do irmão. Segundo esta matéria interessante que conta um pouco da história de Éder Jofre, o pugilista se transformou em profissional em 1953, quando se tornou Campeão da Forja de Campeões.

A partir daí, ele não parou mais, se tornando Campeão Brasileiro dos Galos em 1958; Campeão Sul-americano dos Galos em 1960; Campeão Mundial dos Galos em 1960; Campeão Unificado dos Galos em 1962 e Campeão Mundial dos Penas em 1973. Realmente uma trajetória impressionante. Além de todos esses títulos, Éder Jofre é considerado como um dos melhores pugilistas de todos os tempos.

Em 10 Segundos para Vencer nós assistimos de perto o “background” familiar de Jofre, a sua ascensão e suas conquistas. Interessante como ele não se deslumbrou com a fama e com os títulos e, em certo momento da vida, quis parar com tudo para ter uma vida mais familiar com a esposa e os filhos. Está bem, no filme, a atriz Keli Freitas como Cida, esposa do protagonista.

Pensando nos dois, logo me lembro da ótima reconstituição de época feita neste filme. Especialmente os figurinos e a reconstituição da São Paulo dos anos 1960 foi incrível. Do elenco, todos estão muito bem, mas com destaque para Daniel de Oliveira e para Osmar Prado – especialmente Prado em uma interpretação incrível, com um sotaque paulistano acentuado e uma emoção que transborda a telona.

No filme, também acompanhamos um dilema interessante e que nem sempre está presente em filmes sobre grande atletas: o quanto o esporte de alto nível cobra da vida da pessoa. Sim, ela ama aquele determinado esporte. Sim, ela tem orgulho de representar a sua família e nação. Mas e tudo o mais da vida que ela abre mão para chegar ao auge, vale a pena? E depois de chegar ao auge, até quando fazer sacrifício para permanecer lá?

O interessante do exemplo de Éder Jofre é que ele nunca foi um deslumbrado com o que ele conquistou. Depois de conseguir se consagrar como campeão mundial, ele não quis permanecer nessa posição para sempre e fazer todos os sacrifícios que isso trazia. E ele estava certo. Há tempo para tudo, nessa vida. Para desfrutar dela e para fazer sacrifícios para um “bem maior”. Mas ninguém merece ser sacrificado a vida inteira. 10 Segundos para Viver faz uma ponderação interessante sobre isso.

Gostei da homenagem que fizeram para Éder Jofre. Mais pessoas precisam conhecer a sua história. Espero que o filme faça esse trabalho. Fez isso comigo, que fui atrás de saber mais sobre ele. Só achei que o filme perde em densidade ao abrir mão de falar mais sobre os dilemas do personagem. Afinal, todos temos os nossos dilemas e defeitos, mas nada disso aparece em 10 Segundos para Vencer.

Assim, o filme vale pela homenagem e pelo cuidado do diretor José Alvarenga Jr. pelos detalhes, assim como pelo trabalho dos atores principais. Sempre é bom assistir a filmes de grandes nomes do esporte. Especialmente dos brasileiros, tão pouco lembrados no cinema. Apenas por esses aspectos, vale assistir a 10 Segundos para Vencer. A história poderia ser melhor acabada e mais cheia de nuances, mas nós perdoamos a falta de camadas do filme por tratar-se realmente de uma homenagem.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mais um belo filme nacional que eu assisto nesse ano. Fico feliz. Torço muito pelo cinema brasileiro – para além das produções de comédia escrachada. Que bom que estamos investindo também em outros tipos de produções, além daquelas feitas para levar um grande público ao cinema. 10 Segundos para Vencer faz parte de uma safra boa.

Gostei do trabalho de José Alvarenga Jr. neste filme. Ele tem uma direção segura e não deixa nada a desejar nas cenas das lutas de boxe – sem dúvida alguma, as mais difíceis de serem feitas. O diretor acerta também em valorizar a interpretação dos atores e a reconstituição de época, que é um outro ponto forte do filme. O diretor dá um bom ritmo para a produção, que não deixa a bola cair em momento algum e prende a atenção da audiência, apesar da história previsível e carregada demais de “homenagem”, até o final. Mais mérito do diretor do que do roteiro, sem dúvida.

Além de um bom trabalho de José Alvarenga Jr., 10 Segundos para Vencer merece destaque pelo ótimo trabalho na atuação de Daniel de Oliveira e de Osmar Prado. Eles são dois gigantes em cena. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Sandra Corveloni, de Ravel Andrade, de Keli Freitas e de Ricardo Gelli. Em papéis menores, estão ainda Samuel Toledo e Christiano Torreão.

Entre os aspectos técnicos do filme, o principal destaque vai, sem dúvida, para a excelente direção de fotografia de Lula Carvalho; para os figurinos impecáveis de Marcelo Pies; e para a bela produção de design de Claudio Domingos. Também vale destacar a emotiva trilha sonora de Berna Ceppas. Não encontrei o nome de quem fez a edição do filme, mas esse foi mais um belo e fundamental aspecto da produção.

Vale indicar algumas matérias sobre Éder Jofre. Para começar, recomendo duas sobre como o pugilista se emocionou ao ver a sua história narrada em 10 Segundos para Vencer: esta da Globo e esta outra do Estadão. Depois, para quem gosta (ou gostava) de boxe, como eu, vale conferir esta outra matéria do site Melhor de 10 sobre 10 dos melhores atletas do boxe de todos os tempos – e com o nosso Éder Jofre fazendo parte desta lista. O bacana deste último site é podermos ver a cenas reais de lutas dos pugilistas. Bem legal.

Analisando especialmente essa lista do Melhor de 10, percebi algo que considero importante. No boxe, os “menos entendidos” sempre deram muito valor para os peso-pesados. Aí que Éder Jofre teve uma grande concorrência por atenção na sua época, já que ele era contemporâneo, entre outros nomes, de outro gigante do esporte: Muhammad Ali. Muito dos holofotes foram para Ali, naquela época. Além disso, claro, enquanto os americanos gostam de enaltecer os seus ídolos, a maior parte dos brasileiros não aprecia a mesma boa prática. Infelizmente.

10 Segundo para Vencer estreou no dia 23 de agosto de 2018 no Festival de Cinema de Gramado. Em circuito comercial, o filme estreou nos cinemas no dia 27 de setembro – assisti ele pouco depois.

No Festival de Cinema de Gramado, 10 Segundos para Vencer ganhou dois prêmios: Melhor Ator para Osmar Prado e Melhor Ator Coadjuvante para Ricardo Gelli. Prado mereceu. Está incrível no filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Nenhum outro site apresentou críticas sobre este filme.

10 Segundos para Vencer é uma produção 100% do Brasil. Por causa disso, ele passa a figurar na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando foram pedidos filmes feitos no Brasil para serem comentados por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme bem feito, bem acabado, com ótima direção e reconstituição de época. 10 Segundos para Vencer conta a história de um grande ídolo nacional, mas pouco lembrado. O filme segue a linha das produções de “homenagem”, ou seja, com um mergulho apenas no lado “bacana” do personagem principal. Não vemos a todas as camadas ou mesmo à complexidade do protagonista. Apesar disso, o filme se mostra coerente com o seu estilo e muito bem conduzido. Sem dúvida alguma a história de Éder Jofre deveria ser mais conhecida. Vale assistir a 10 Segundos para Vencer como introdução para isso.

Mile 22 – 22 Milhas

mile22

Um filme bastante violento, com um bocado de pancadaria e recheado de palavrões. Mile 22 segue a nova linha de encarar a espionagem no mundo “pós-moderno”, em que FBI, CIA, antiga-KGB e afins não se comportam mais como antigamente. Francamente? Homeland, a série de TV, trata disso de uma forma mais interessante. Mile 22 começa até que bem, com uma operação interessante de uma força especial dos Estados Unidos, mas, depois, o filme cai em um jogo previsível. Algumas cenas de luta, especialmente do ator Iko Uwais, chamam a atenção. Também é interessante ver à pessoas como Lauren Cohan e Ronda Rousey em cena. Mas isso é tudo. Apenas mediano.

A HISTÓRIA: Um carro trafega calmamente em uma rua residencial. Algumas pessoas caminham enquanto um grupo de crianças brinca. Logo depois de parar, Rook (Billy Smith) pergunta para Alice (Lauren Cohan) se eles estão no endereço certo. Ela acha que não, porque diz que no e-mail falaram em uma casa branca, e aquela residência é azul. Enquanto ela pede para Rook ver no e-mail em que o endereço era citado, ele comenta que é mais fácil eles tocarem a campainha e perguntarem. Enquanto isso, nos fundos, James Silva (Mark Wahlberg) lidera uma equipe que vai invadir o local. Essa ação, que não resulta exatamente exitosa, terá ainda diversos desdobramentos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mile 22): Assisti à esta produção há algumas semanas já. Quem acompanha a página do blog no Facebook sabe a razão de eu não ter publicado este texto antes. Fiquei algumas semanas sem computador em casa, e aí não consegui terminar a crítica que comecei lá atrás.

Como estou com outros três filmes para falar na sequência, vou resgatar aquela intenção de um tempo atrás de falar menos das produções, beleza? Serei bem objetiva, portanto, com este Mile 22. A introdução e a conclusão deste texto já falam tudo que eu gostaria. 😉 Mile 22 entra em uma onda mais recente de análise dos movimentos de espionagem e contraespionagem que seguem válidos no mundo.

A queda de braço entre as principais potências econômicas e militares mundiais não é feita apenas no plano dos embaixadores, tratados comerciais e das reuniões de OTAN e ONU. Muito da geopolítica mundial ocorre em outro plano, com ações “embaixo do pano” envolvendo agentes de diversas siglas e com diferentes métodos. Isso não é ficção, mas o que de fato segue acontecendo no mundo enquanto escrevo estas linhas (e você as lê).

O tema espionagem já rendeu diversos filmes e séries interessantes e continuará rendendo. Como comentei antes, Homeland, para mim, é o expoente máximo desse tipo de produção. Primeiro, porque a série tem diversas camadas de leitura e se revela bastante complexa. Depois, porque tem excelentes atores em cena e uma busca por profundidade na apresentação dos personagens principais.

Feita esta introdução sobre o tema de Mile 22, vamos ao que interessa. Ao filme. 😉 Mile 22 começa bem, com um bairro comum e aparentemente “inocente” onde, na verdade, tanto os moradores de uma residência quanto o “casal” (que não é casal, na verdade) de visitantes são, na verdade, outras pessoas. Aquele início nos apresenta uma ideia interessante: o perigo pode estar morando ao lado.

Ataques terroristas nos Estados Unidos e em outros países nos mostram muito bem isso. Pessoas comuns, aparentemente, um belo dia se mostram extremistas e assassinos. Sob esta aura de medo e de incerteza é que Mile 22 se sustenta. Filmes no estilo James Bond já exploraram muito bem essa “licença para matar” que o protagonista desta produção gosta de pedir e de utilizar.

O que dá o tom para este filme é justamente aquela missão inicial. James Silva pede permissão para liquidar os inimigos, inclusive um jovem que estava ferido e desarmado. Essas ações serão determinantes para o restante da trama. A operação que a equipe faz é para achar uma certa quantidade de césio que está “perdida” e que poderá ser utilizada para um ataque em um – ou mais de um – centro urbano nos Estados Unidos.

A operação fracassa, ao menos inicialmente, no sentido de achar o césio. James Silva cobra Alice Kerr sobre qual teria sido a fonte dela de informação de que naquela casa eles encontrariam o césio. Ela disse que a fonte era segura, que se tratava de um policial que queria ajudar a desbaratar células terroristas. O tempo passa e um belo dia Li Noor (Iko Uwais) se prepara para uma missão. Ele queima a foto da filha e se concentra para começar a sua própria operação.

Li Noor dirige rapidamente até a embaixada americana na Indonésia e diz que tem o segredo da localização do césio. Essa informação está em um HD criptografado. Ele só passará a senha se os Estados Unidos lhe tirarem do país em segurança. Em seguida, o governo da Indonésia inicia uma ação de combate a essa tentativa de Li Noor receber asilo e ser tirado do país. Começa então o jogo de “gato e rato” entre os americanos e os seus inimigos.

Resumindo o filme desta maneira, não é difícil de perceber que a parte mais interessante da produção é a inicial, não é mesmo? Porque o restante, a história de “eu vou falar a senha do HD só depois que eu sair do país” e da perseguição por 22 milhas (cerca de 35 quilômetros) é bastante previsível, convenhamos. Depois daquela introdução da história, o “miolo” do filme acaba sendo os diferentes tipos de ataques e de confrontos envolvendo os indonésios e os americanos.

Em todo esse “miolo” da produção, as sequências acabam ficando um bocado repetitivas e cansativas. Quem acaba se destacando é o ator Iko Uwais que, junto com os seus dublês (acredito que ele deve ter tido alguns), protagonizou as cenas mais interessantes de lutas. Fora isso, temos a um protagonista e os seus atores “satélites” com personagens pouco desenvolvidos. E isso é tudo.

No final, descobrimos que uma pessoa pode não ser apenas agente duplo, mas agente triplo. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Aparentemente, o responsável pela contra-espionagem da Indonésia, Axel (Sam Medina), tinha muito medo do que Li Noor poderia contar sobre as operações do país – o que não deixa de ser um pouco um mistério, como Li Noor poderia saber tanto sendo apenas um “policial”. Mas, quem realmente estava por trás das ações de Noor eram os russos.

Sempre são eles, não é mesmo? Até essa saída acabou sendo um tanto óbvia. Mas nesse ponto Mile 22 me fez pensar. Realmente os russos devem se achar os defensores dos interesses globais ao trabalhar para que uma única nação (os Estados Unidos) não se sobreponha sozinha na geopolítica mundial. Por um lado, eles tem razão. Não é bom que país algum se sinta dono realmente de todas as cartas e dados dispostos em uma mesa.

Assim, Mile 22 é um filme que começa bem mas que, depois, cai em um lugar-comum, em uma trama previsível e com várias sequências de tiroteio e de lutas um bocado repetitivas. Bem realizado, o filme não chega a ser um desastre, mas também está muito longe de ser lembrado como uma referência do gênero. Pode ser considerado mediano, e olha lá.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Peter Berg é um belo diretor. Faz um trabalho competente em Mile 22. Mas o que prejudica o filme mesmo é o roteiro fraquinho de Lea Carpenter, que se baseia na história de Graham Roland e dela mesma. O tema em si sempre será interessante, mas falta ao trabalho de Carpenter um pouco mais de desenvolvimento dos personagens e algumas pitadas de interesse espalhadas no meio da trama além de uma infindável perseguição e pancadaria.

Admito que gostei, em especial, de ver à atriz Lauren Cohan, mais conhecida por seu trabalho em The Walking Dead, em outro papel de protagonismo fora da série. Ela é uma boa atriz e poderá se dar bem além do seriado que ainda está no ar – e um tanto “perdido”, ao meu ver. Ela só não brilha mais no filme porque faltou para ela um roteiro melhor para trabalhar.

Além de Lauren Cohan, o destaque da produção é Iko Uwais. O ator tem o melhor papel e o melhor desempenho em cena. Está melhor que o verborrágico e um bocado confuso personagem de Mark Wahlberg – esse, apenas mediano. Também vale citar o bom trabalho – ainda que pequeno – da lutadora Ronda Rousey e de John Malkovich, ambos como parte da equipe de James Silva.

Em papéis menores e desempenhos mornos estão ainda Carlo Alban, Natasha Goubskaya, Sam Medina, Billy Smith, Emily Skeggs, entre outros que tem papel tão pouco significante que eu nem consegui localizar que ator interpreta qual papel. 😉

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a direção de fotografia de Jacques Jouffret; a edição de Melissa Lawson Cheung e de Colby Parker Jr.; a trilha sonora de Jeff Russo; o design de produção de Andrew Menzies; a direção de arte de Alex McCarroll e María Fernanda Muñoz; a decoração de set de Natalie Pope; os figurinos de Virginia Johnson; os efeitos visuais e o excelente trabalho do departamento de som – cada aspecto deste contando com dezenas de profissionais.

Mile 22 estreou no dia 16 de agosto de 2018 na Grécia, em Israel e em Cingapura. No Brasil, o filme estreou no dia 20 de setembro do mesmo ano. Em algum dia após a estreia por aqui que eu o assisti no cinema.

O final do filme dá a entender que ele poderá ter uma sequência. Durante o CinemaCon, em março de 2017, Mark Wahlberg e o diretor Peter Berg comentaram que pretendem fazer uma trilogia Mile 22. Espero que melhorem bastante o roteiro nos próximos ou que desistam da ideia.

Outra curiosidade sobre esta produção: apesar de parte da história se passar na Ásia, as cenas daquela região foram filmadas realmente na Colômbia. A razão para isso foi uma melhor segurança do elenco e da equipe técnica. Curioso, porque não faz muito tempo que filmes ambientados na Colômbia eram filmados no México pela mesma razão.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 críticas negativas e 39 positivas para o filme – o que lhe dá uma aprovação de apenas 39% e uma nota média de 4,2. No site Metacritic, Mile 22 registra o “metascore” 38, fruto de 15 críticas negativas, 13 medianas e oito positivas.

Segundo o site Box Office Mojo, Mile 22 teria custado US$ 50 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, US$ 36,1 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou, ele faturou outros US$ 23,8 milhões. Ou seja, na soma, Mile 22 teria feito cerca de US$ 59,9 milhões. O resultado ruim – não pagou os custos de distribuição e divulgação – poderá fazer Berg e Wahlberg rever as continuações do filme.

Mile 22 é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, esse filme passa a integrar uma lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog e que pediam filmes deste país.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido, com algumas cenas de ação – especialmente de luta – muito bem planejadas, Mile 22 só não consegue surpreender. Ok, no início, até ele consegue nos instigar com cenas rápidas e envolventes. Mas depois… caímos em uma perseguição que chega ao auge do maçante em tiroteios que parecem sem fim em um prédio residencial. Para contar o que conta, essa produção poderia ter 20 minutos a menos sem maiores problemas. Apesar de um pouco cansativo, é um filme que apresenta bons atores em personagens rasos. Você viveria sem esse filme tranquilamente mas, para um dia qualquer, pode ser um bom entretenimento. Tudo vai depender do seu gosto, evidentemente. Mas há filmes bem melhores no mercado, inclusive nesse gênero.

Searching – Buscando…

searching

Geralmente eu gosto de filmes com uma certa pegada “humanista”, filosófica ou de psicologia. Os leitores que me acompanham há mais tempo bem sabem disso. Mas nem sempre um filme precisa ter estas características para ser ótimo. Basta, para isso, ter um ótimo roteiro, algumas sacadas muito boas, envolver a audiência com perfeição e, claro, ter bons atores em cena. Searching tem todos esses elementos. Um filme que começa de maneira deliciosa e delicada e que, depois, vai nos levando pela mão como crianças perdidas na multidão. Simplesmente incrível.

A HISTÓRIA: Ouvimos o “clássico” barulho de uma conexão de internet discada. Em seguida, surge em cena a tela do Windows, com um ícone do antivírus Norton no canto direito inferior. O usuário David, login criado por David Kim (John Cho), cria o usuário Margot, login para a filha Margot (interpretada por Alex Jayne Go, aos cinco anos; por Megan Liu aos sete anos; por Kya Dawn Lau aos nove e por Michelle La na adolescência). A partir daí, vemos a várias fotos e vídeos que contam parte da história do casal David e Pamela (Sara Sohn) e de sua filha Margot, até que uma morte e um desaparecimento mudam a rotina da família para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Searching): Fiquei encantada com esse filme, devo admitir. E desde o princípio, desde os primeiros minutos da produção com roteiro de Aneesh Chaganty e Sev Ohanian. Achei ótimas as sacadas do roteiro e, em especial, a condução segura e cheia de pequenas nuances de inteligência do diretor Aneesh Chaganty.

Aliás, fui obrigada a procurar sobre ele. Vi que Searching é o primeiro longa dirigido por Chaganty – antes, ele tinha dirigido a seis curtas. Ou seja, ele começou com os dois pés direitos a sua trajetória em longas-metragem. Para começar, gostei muito das sacadas do diretor ao mostrar o cotidiano de uma família que é comum hoje em dia. O casal David e Pamela tiveram Margot em uma época em que já estávamos imersos em tecnologia. E isso muda muita coisa.

Sei que para a galera que já nasceu praticamente com um smartphone na mão pode ser difícil entender todas as sacadas e o deleite que Searching causa para uma pessoa como eu, que sou fruto de uma geração que bebeu das duas fontes. Me explico. Eu nasci em uma era ainda analógica e comecei inclusive a minha carreira nessa época. Não tínhamos celular e, para chamar “resgate” de um motorista do jornal em que eu trabalhava, ou tínhamos que ligar do local em que estávamos – uma casa ou uma empresa – ou tínhamos que achar um orelhão.

Ao mesmo tempo, apesar de trabalharmos em computadores, convivíamos com internet discada – algo que apenas alguém que viveu aqueles dias vai identificar nos primeiros segundos de Searching. Pois bem, era outra época. Agora, imaginem que a gente sabe bem o que é não fazer fotos e vídeos de tudo – porque, para fazer uma foto, antes dos smartphones, você precisava de uma câmera, de um rolo de filme e, depois, gastar com a revelação.

Isso, claro, é o que pessoas da faixa dos 40 anos, pouco mais ou um pouco menos, vivenciaram. Essa transição entre o analógico e o digital. E é exatamente isso que Searching mostra. Agora, imagine, mesmo você não tendo vivido isso, como era a época sem internet banda larga e smartphones na palma da mão. Certamente as pessoas não tinham muitas fotos e muito menos vídeos de momentos importantes da família. Isso tudo mudou com a digitalização.

Assim, vamos através da narrativa precisa, cheia de boas sacadas e bem planejada de Chaganty, um casal que vivenciou essa transformação digital e que, ao ter a sua filha, conseguem registrar tudo que podem sobre ela. E sobre a vida familiar. Muito bacana ver isso na parte inicial do filme. Inclusive acompanhar, com uma ótima edição e direção, os fatos se sucedendo apenas pelos registros digitais – seja no calendário, seja através de fotos e vídeos.

Toda essa tecnologia e a nossa relação com os recursos tecnológicos não faz parte apenas da parte “introdutória” da produção. Não, não. E isso é o que eu achei mais interessante e diferenciado desse filme. De forma muito direta e interessante, Searching nos mostra como tudo hoje passa pelas nossas “pegadas digitais”. Não apenas a relação de pai e filha é bastante intermediada pela tecnologia como, depois que a garota desaparece, toda a investigação e a busca de David acaba sendo feita através das pistas que ele vai achando pela internet.

A grande sacada desta produção, para mim, é justamente a forma ágil e envolvente em que a narrativa nos inclui no cotidiano investigativo do protagonista. Como todos nós usamos algumas ou todas daquelas tecnologias que vemos em cena, não é difícil desenvolver uma empatia com David, Margot e as demais pessoas que participam desta história. Os caminhos escolhidos por David fazem sentido, assim como a exposição do caso e a forma com que televisão/imprensa local aborda o assunto.

Todos aqueles elementos fazem parte da narrativa com a qual nos acostumamos. Chaganty e Ohanian acertam na mosca ao apresentarem aquela dinâmica como um elemento importante da produção. Além disso, Searching nos chama a atenção para a proximidade e/ou a falta de proximidade que temos nas famílias e entre pessoas que convivem – seja no colégio, seja no trabalho – apesar de estarmos “sempre em contato”.

Um tema bastante presente neste filme é: o quanto você realmente conhece aos outros? Mesmo pessoas muito próximas, como um pai e uma filha. O quanto um pode dizer que conhece bem ao outro? Podemos estar “falando” com algumas pessoas com bastante frequência, mas realmente falamos o que interessa? Realmente estamos “nos abrindo” ou, com tanto blá-blá-blá, no fundo, estamos nos escondendo?

Gostei também de algumas “cutucadas” que os roteiristas fazem durante o desenrolar da história. Eles questionam bem os efeitos, em épocas de mídias sociais, da “sociedade do espetáculo”. Assim, enquanto Margot era apenas uma garota desaparecida que estava sendo procurada pelo pai, David descobriu que a filha realmente não tinha muitos amigos – ou ninguém que pudesse ser chamado realmente assim. Mas quando o caso dela ganha projeção, esses mesmos não-amigos se tornam os “melhores amigos” da garota desaparecida nas redes sociais.

O comportamento pouco lógico e racional da internet também aparece em outros momentos da produção. Quando o caso de Margot passa a ser propagado em notícias e em sites diversos, vemos cada vez mais pessoas com tempo livre e “criativas” – para não usar outro termo – com as suas teorias da conspiração e variáveis. Assim, muita gente chega a colocar dúvida sobre o próprio David, sugerindo que o pai teria sido o culpado pelo sumiço da filha. O lado mais cruel e sem responsabilidade da internet acaba fazendo parte da produção também.

Algo que eu gostei nesta produção é como ela foca em poucos personagens. Isso costuma dar muito certo – e a regra é mais uma vez comprovada com Searching. Claro, muitas pessoas acabam “aparecendo” na investigação feita por David, mas ninguém realmente com grande importância. Os personagens significativos na história são quatro: David, Pamela e Margot – elas, essencialmente, através de vídeos que assistimos através de David – e a detetive Vick (Debra Messing), a policial que assume a investigação sobre o que aconteceu com Margot.

Além deles, aparece com certa relevância apenas Peter (Joseph Lee), o irmão mais novo de David e que acompanha tudo com uma certa proximidade. Essa aposta em poucos personagens e no uso da tecnologia como um elemento fundamental da narrativa são dois grandes acertos do filme. Assim como o roteiro inteligente, que acerta ao provocar empatia e na edição ágil e perfeita.

Como um bom filme policial e de suspense pede, Searching tem algumas reviravoltas na história. E isso é um verdadeiro deleite para o espectador. 😉 (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Honestamente, quando a história já tinha passado da teoria da fuga da garota para a de que alguém a tinha sequestrado e, por fim, de que um ex-detento havia matado ela e depois se matado, eu estava como o pai da jovem. Ok, a “realidade” é difícil de acreditar, é dura, mas mais que isso é complicado lidar com a sensação de que algo não estava se encaixando.

Naquele momento de Searching, eu pensei: “Não, mas tem algo estranho aí. Se a confissão de vídeo do sujeito fosse verdade, por que não encontraram o corpo da garota?”. O próprio David questiona a história do carro e das malas, mas todos, inclusive a detetive Vick, insistem apenas em lhe dar as condolências e os pêsames. Ele está quase aceitando a perda, até que surge uma imagem “familiar” como agradecimento do serviço de homenagem para a filha. Que sacada, minha gente!

Na hora, como trabalho com “banco de imagens”, pensei no mesmo que David: “Aí tem coisa!”. Mas ele foi muito mais rápido e longe do que eu. O “plot twist” derradeiro de Searching foi bastante criativo e não deixou pontas soltas. Algo fundamental em produções do gênero também. Claro, alguém pode questionar o “milagre” que a história opera e o final feliz que a produção acaba tendo, mas a gente até pode dar um desconto para tanto “otimismo” depois de ver a um filme tão bem feito.

Eu simplesmente não consigo achar defeitos em Searching. Para mim, o filme tem o ritmo adequado, uma bela imersão na forma com que as pessoas se comunicam (ou deixam de se comunicar) atualmente, além de uma análise interessante sobre as famílias. Tanto a família de David quanto a da detetive Vick se mostram “incompletas” – no caso da família dele, porque a esposa morreu vítima de câncer; no caso da família dela, não temos essa resposta na produção. Essas famílias incompletas revelam tentativas diferentes dos responsáveis pelos jovens em educá-los.

Enquanto David procura incentivar e apoiar a filha ao mesmo tempo que não deixa ela totalmente “solta”, ou seja, que também cobra dela responsabilidade, Vick revela-se uma mãe super-protetora, daquelas que nunca admite que o filho está errado. Os efeitos destas escolhas dos pais e da forma deles de “educar” (em alguns casos, deseducar) podemos ver claramente no filme e na vida fora das telonas também.

Achei muito bacana também uma das mensagens dessa produção. A busca incessante de um pai por respostas, por encontrar a filha e por se aproximar dela. No lugar dele, eu também provavelmente não iria “descansar” até que a minha filha – ou o corpo dela, ao menos – fosse encontrado. Bonita essa mensagem, de busca incessante por uma resposta e por proximidade. Precisamos disso mais do que nunca nos dias atuais.

Por todo esse conjunto da obra e por nos apresentar um roteiro bem cadenciado e envolvente, não vejo alternativa além de considerar esse um dos melhores filmes que eu assisti esse ano e de conferir para ele a nota abaixo. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tenho um certo “modus operandi” para escolher aos filmes que eu vou assistir. Primeiro, vejo se eles tiveram um bom nível de aprovação de público e de crítica. Depois, vejo quem está por trás das produções. Se o filme é dirigido por alguém de quem eu gosto muito – ou, pelo menos, por alguém que eu costumo acompanhar e/ou admiro -, mesmo que a produção levou “bomba”, costumo assistir também.

No caso de Searching, certamente o que me motivou a conferir esta produção foi o belo nível de aprovação que o filme apresentou tanto no site IMDb quanto no Rotten Tomatoes. Vou começar essa seção “Obs de pé de página” falando sobre isso, portanto.

No site IMDb, Searching apresenta uma nota 7,9, enquanto no Rotten Tomatoes o filme apresenta uma aprovação de 93% – fruto de 162 críticas positivas e de 13 críticas negativas. A nota média dada pelos críticos do Rotten Tomatoes é 7,4. Especialmente as notas chamam a atenção. Bastante positivas para o padrão dos sites. No site Metacritic esse filme apresenta o “metascore” 71, fruto de 29 críticas positivas, quatro medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Searching faturou US$ 23,11 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 31,1 milhões nos outros mercados em que o filme estreou até o dia 24 de agosto de 2018. Ou seja, somando esses resultados, Searching teria feito pouco mais de US$ 54,2 milhões. Por tratar-se de um filme “independente” e sem nenhum grande astro no elenco, certamente a produção está registrando um bom lucro. Merece.

Gostei muito da direção de Aneesh Chaganty. Ele tem uma visão muito interessante e uma apresentação das informações simples e que faz bastante sentido para o espectador que vivencia a internet no seu dia a dia. Chaganty valoriza muito bem o trabalho dos atores e também apresenta em cena recursos que criam empatia com o público. Muito bom o ritmo de direção dele e o roteiro que ele escreveu com Sev Ohanian. Com o trabalho deles, o filme apresenta algumas reviravoltas interessantes e uma trama que não desacelera em momento algum.

Além da direção e do roteiro que se destacam, vale comentar o ótimo trabalho dos editores Nicholas D. Johnson e Will Merrick; a direção de fotografia de Juan Sebastian Baron, Nicholas D. Johnson e Will Merrick; a trilha sonora discreta de Torin Borrowdale; o design de produção de Angel Herrera; a direção de arte de Carol Uraneck; a decoração de set de Robert Guard; e os figurinos de Emily Moran.

Searching estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, até o início de setembro, o filme participaria, ainda, de outros 14 festivais em diversos países. Nessa trajetória, a produção ganhou dois prêmios e foi indicada a outros dois. Os prêmios que Searching recebeu foram dados no Festival de Cinema de Sundance: prêmio do público em Best of Next! para Aneesh Chaganty e o Alfred P. Sloan Feature Film Prize para Aneesh Chaganty e Sev Ohanian. Sem dúvida, estou com o público de Sundance. Chaganty merece ser acompanhado. Veremos o que ele nos apresenta na próxima – já foi divulgado que será um filme de terror. 😉

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Searching levou apenas 13 dias para ser rodado. Apesar das filmagens terem sido rápidas, a produção levou dois anos para ser concluída devido ao trabalho de preparação, edição e finalização – especialmente os dois últimos pontos.

Além de marcar a estreia de Aneesh Chaganty dirigindo a longas, Searching marca a estreia da atriz Michelle La – que interpreta a jovem Margot Kim.

Vale conferir diversas curiosidades sobre esta produção no IMDb, diversas “migalhas de pão” que os realizadores vão deixando para o público durante o filme e que não percebemos em um primeiro momento. Interessante.

Falando em elenco, devo bater palmas para os atores envolvidos nesse projeto. Todos estão muito bem. O destaque principal vai para John Cho. Para mim, o melhor filme e desempenho do ator até o momento. Também vale destacar o ótimo trabalho de Debra Messing como a detetive Vick e de Michelle La como Margot. Estão bem também, ainda que em papéis de menos destaque, Sara Sohn como Pamela Nam Kim; Joseph Lee como Peter; Connor McRaith em uma ponta como Isaac; Briana McLean também em uma ponta como Abigail; Ric Sarabia em uma ponta como Randy Cartoff; e Steven Michael Eich em um papel pequeno como Robert.

Searching é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esse filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme com uma forte pegada familiar, embebido em tecnologia e nos tempos atuais e que ainda tem uma narrativa competente de investigação policial e de suspense. Dificilmente alguém não consegue se colocar no lugar do protagonista de Searching. Não importa se você teve filhos ou não, mas o roteiro é tão envolvente que é impossível não desenvolver empatia. E esse elemento vale ouro em uma produção com uma boa carga de drama e de suspense. Bem conduzido, com um roteiro cheio de boas sacadas e ótimos atores, Searching surpreende. Sem dúvida alguma, uma das boas surpresas do ano até o momento.