RBG

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Certa vez, alguém disse que o Papa era pop. Mas quem diria que uma juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos poderia ser pop? RBG traz essa novidade para quem vive fora dos Estados Unidos – porque quem vive lá, certamente, sabe que a juíza é pop. Através desse documentário, que faz parte da “lista curta” de produções pré-indicadas ao Oscar de Melhor Documentário – saberemos se ele chegará na lista de finalistas na próxima terça-feira -, conheci a história da juíza Ruth Bader Ginsburg. Um documentário muito interessante para quem gosta de Direito, da luta por igualdade de direitos e para quem precisa entender que em diversas partes do mundo dividimos problemas semelhantes – inclusive com tribunais superiores que “sofrem” com distintos vieses políticos.

A HISTÓRIA: Começa com diversas cenas de Washington, capital dos Estados Unidos. Em seguida, diversas pessoas começam a criticar uma mulher, chamando de “bruxa”, de uma pessoa que não tem respeito à Constituição ou aos costumes americanos. Outro afirma que ela é uma “verdadeira desgraça para a Suprema Corte”. São diversos os xingamentos, que incluem “antiamericana” e “zumbi”. Todos endereçados para Ruth Bader Ginsburg. Mas afinal, quem é essa mulher? Após as opiniões mais que críticas à ela, Ruth Bader Ginsburg começa a sua fala citando alguém que ela admira, e que diz: “Não peço nenhum favor ao meu sexo. Tudo o que eu peço aos meus irmãos é que deixem de oprimir-nos”. Essa é a história sobre essa juíza que virou ícone pop nos EUA.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a RBG): Esse filme, dirigido por Julie Cohen e Betsy West, cai como uma luva para um tempo em que muitos valores voltaram a ser discutidos. No mundo, como bem previu o grande Zygmunt Baumann, vivemos um novo ciclo de “conservadorismo”, das pessoas preferindo abrir mão da liberdade conquistada para voltarem a ter mais “segurança”.

Nesse cenário, em que diversos avanços sociais voltam ao debate e em que, na visão de alguns, estamos tendo alguns retrocessos na defesa dos direitos humanos e da igualdade entre as pessoas, RBG aparece como um filme necessário. Primeiramente, para mostrar para as novas gerações de americanos – em especial, mas não apenas para eles -, quem é esse ícone pop inusitado que virou meme nas redes sociais. Como uma juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos caiu tão bem no gosto popular e “viralizou”?

RBG nos conta essa história. E é uma história importante de ser contada, porque em 2019 não parece que, há algumas décadas atrás, tivéssemos uma compreensão equivocada sobre tantos fatos. Parece incrível, mas há apenas 40 anos milhares de mulheres em diversos lugares do mundo estavam pedindo por mais direitos. As manifestações nas ruas foram importantíssimas, mas pessoas como Ruth Bader Ginsburg foram fundamentais ao levar toda aquela discussão e comoção popular para dentro dos tribunais.

Afinal, não era necessário apenas mudar a compreensão da sociedade sobre o que é termos um coletivo justo e igualitário, para homens e mulheres, mas, sobretudo, mudar o marco legal que permitia que injustiças acontecessem. Nesse sentido, RBG é um filme interessante e fundamental. Pessoalmente, para mim, que sempre amei o Direito e o debate jurídico, o marco legal que acaba guiando as nossas sociedades, esse filme é especialmente interessante.

Não lembro de outro documentário que eu tenha visto e que aborde uma pessoa que ajudou a mudar, pouco a pouco, leis injustas em um país. Então, apenas por isso, essa produção já é diferenciada. Além de apresentar uma história interessante que envolve o Direito, RBG tenta se aprofundar na história de uma mulher incrível, que a sua maneira – bastante discreta, mas firme e obstinada – e com muito trabalho contribui para mudar uma sociedade.

Admiro muito, muito mesmo todas as mulheres da geração de Ruth Bader Ginsburg – ou que vieram um pouco antes ou um pouco depois do que ela – e que, de forma corajosa, ajudaram a mudar a nossa sociedade, empoderando as mulheres e mostrando que o sexo feminino não é “menor”. Acho que o trabalho das diretoras Cohen e West fazem um resgate importante da trajetória de Ginsburg, contando um pouco da sua origem, dos seus estudos e do apoio decisivo que ela recebeu do marido, Martin D. Ginsburg.

Por muito tempo, se disse que “por trás de um grande homem, sempre existe uma grande mulher”. Um grande homem ou uma grande mulher podem “se fazer” sem o apoio de uma outra pessoa – ao menos de um parceiro ou parceira mas, certamente, sempre vão precisar do apoio de outras pessoas. Mas RBG nos mostra que uma grande mulher pode se fazer tendo um grande homem “por trás”. Na verdade, nunca acho que o homem ou a mulher estão um atrás do outro, enquanto visão de um ser mais importante que o outro, mas um casal deve sim se apoiar e, através desse apoio, ajudarem-se mutuamente a fazerem a diferença nas suas respectivas realidades.

RBG é um filme do estilo homenagem. Ou seja, ele não chega a ignorar as críticas que são feitas para a pessoa retratada, mas, certamente, as diretoras focam a sua narrativa e o seu trabalho em construir uma “heroína” chamada Ruth Bader Ginsburg. De fato, ela é uma mulher admirável, por tudo que fez e que continua fazendo. Mas acho que o filme poderia montar um perfil um pouco mais aprofundado sobre ela, seja com entrevistas mais densas com a própria retratada, seja com as pessoas que conviveram com ela.

Por que, por exemplo, não são entrevistadas as pessoas que “combateram” (ou seguem combatendo) Ginsburg? Desta forma, talvez, teríamos um perfil um pouco mais completo. Outro documentário no estilo biografia que está buscando a estatueta dourada do Oscar, Won’t You Be My Neighbor? (com crítica neste link), me parece ter mais sucesso nessa busca por um perfil aprofundado do “homenageado”.

Não apenas nos aprofundamos mais no fenômeno de Fred Rogers, como também conhecemos mais sobre as críticas feitas à ele e sobre a sua filosofia de vida. Temos em RBG, acredito que na parte alta do filme, alguns trechos de argumentações e de defesas de causas feitas por Ginsburg. Mas senti falta de ter mais opiniões dela sobre o seu estilo, sobre os seus valores e, até, sobre a sua vida pessoal. Ginsburg fala de alguns pontos, mas ela fala menos do que seria realmente interessante para um perfil mais completo.

Por tratar sobre a evolução de questões importantes para a sociedade e sobre como guinadas recentes “à direita” podem nos levar a retrocessos; por tratar sobre a busca por mais igualdade na sociedade – entre homens e mulheres, negros e brancos, heterossexuais e homossexuais e um longo etcétera; por resgatar a história de um mulher discreta, inteligente, à frente do seu tempo e que sempre defendeu valores fundamentais; e por nos lembrar que é sempre possível defender o que é certo, mesmo quando a maioria está defendendo o que é errado, RBG vale 1h30 do nosso tempo.

Quem dera que mais pessoas como Ruth Bader Ginsburg “viralizasse”. Quem dera que mais Ginsburg virasse “meme” e se transformasse em ícone pop. Pessoas como ela, que defendem valores importantes, que continuam trabalhando enquanto o corpo lhes permitir, porque acreditam em um ideal, deveriam ser realmente os ícones da nossa sociedade. Isso se quiséssemos avançar, é claro. Mas cada sociedade é fruto do que deseja e do que acredita importante. Infelizmente, em diversas partes do mundo, muitas pessoas estão em fase de idiotização e, neste processo, transformando as nossas sociedades em locais mais duros para se viver.

Diante deste cenário, apesar de RBG não ser tão complexo ou completo quanto poderia ser, ele se torna um filme importante. Espero, honestamente, que mais documentários nos lembrem de causas importantes e de histórias inspiradores. Acredito que todos nós estamos precisando delas. Ah sim, e outro aspecto que achei interessante deste filme: como não é apenas no Brasil em que o Supremo Tribunal Federal se dividi entre juízes mais ou menos conservadores, mais ou menos liberais. Isso acontece nos Estados Unidos e, acredito, em todos os países que funcionam sob esse regime.

Essa é uma outra questão levantada pelo filme que me pareceu muito interessante. Ainda que os juízes devem basear-se na legislação nacional – ou local -, eles são indivíduos, formados por ideias e valores. Como a lei não é formada de letras incontestáveis, os juízes tem a função de interpretar esta lei. Eles devem ser isentos? RBG e a realidade nos mostram que essa isenção não existe.

Eles podem – e devem – tentar ser justos, mas eles sempre terão a interpretação da lei influenciada por suas visões de mundo. E isso acontece com os jornalistas e com qualquer outra profissão, por mais que alguns tentem defender a isenção. Na prática, ela não existe. Isso se aplica também à todo e qualquer texto aqui no blog. Posso tentar ser justa com os filmes mas, no fim das contas, a minha leitura sobre qualquer produção estará influenciada por minha história, por meus valores e crenças. Quem nega isso, essa influência, na sua própria vida e decisões cotidianas, está negando a realidade. E tenho dito! 😉

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu acho impressionante, de verdade, pessoas que passam dos 80 anos de idade e que continuam trabalhando. Eu não tenho metade desta idade ainda e gostaria, honestamente, de levar uma vida mais tranquila, sem tanto trabalho e uma rotina mais de “aposentada” – que, para mim, é sinônimo de você fazer apenas o que você deseja. Então acho impressionante a história de Ruth Bader Ginsburg e de outros que parecem amar tanto o trabalho e/ou a “missão” que eles acreditam que o trabalho tem para eles e seguem atuando no mercado mesmo muito depois do que seria o seu direito de se aposentar. Admirável e surpreendente, ao mesmo tempo.

Para mim, a melhor parte de RBG é quando o filme resgata os casos importante na trajetória de Ginsburg. Como amo o Direito e o que ele prevê, achei o resgate dessas histórias o ponto alto da produção. Assim, RBG parece nos vender a ideia que o que realmente interessa em Ginsburg é o seu trabalho – a sua vida pessoal está em segundo plano. Sim, ainda que ela focou grande parte da vida no trabalho, eu acho que o filme poderia tentar explorar outros aspectos das opiniões, dos valores e dos sentimentos da retratada. Senti falta disso.

As diretoras Julia Cohen e Betsy West utilizam recursos interessantes para contar a história de Ginsburg. Muitos deles, clássicos para documentários, como entrevistas com pessoas que conheceram a retratada e, inclusive, vídeos e depoimentos exclusivos para o filme da própria biografada. Elas também resgatam áudios de audiências e reproduzem reportagens, fotos e vídeos relacionados com a narrativa. Só senti falta delas entrevistarem mais pessoas, inclusive críticos da biografada, assim como aprofundar nas entrevistas com Ginsburg. Se tivessem feito isso, talvez teríamos um perfil mais completo dela.

A pessoa mais interessante que aparece em cena, sem dúvida alguma, é a própria Ginsburg, uma mulher que, após os 80 anos de idade, segue na ativa. RBG resgata a sua trajetória através de fotos e filmagens antigas, assim como pela reprodução de áudios de sessões na Suprema Corte e depoimentos de familiares – dos dois filhos e de uma neta -, amigos antigos e colegas de profissão. Entre outros nomes, temos a aparição de pessoas muito conhecidas, como Bill Clinton, o presidente que a indicou para a majoritariamente masculina Suprema Corte. Bacana, ao resgatar a casos antigos da juíza, quando ela ainda era advogada, foi o fato das diretoras trazerem os “requerentes” à cena novamente. Bacana ouvir as suas histórias de forma direta.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a trilha sonora de Miriam Cutler; a direção de fotografia de Claudia Raschke e a edição de Carla Gutierrez. Repararam em algo? Sim, na predominância de mulheres nessa produção. Achei isso muito interessante. Por que mais produções não buscam ao menos um equilíbrio entre profissionais dos dois sexos? É possível, sem dúvida. Basta o interesse dos envolvidos.

RBG estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, de 19 festivais de cinema em diversos países. Na sua trajetória, o documentário ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 36, inclusive uma indicação ao BAFTA. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o prêmio de Melhor Documentário segundo o National Board of Review e para os prêmios de Melhor Documentário Político e Melhor Documentário sobre uma Pessoa Viva dados pelo Critic’s Choice Documentary Awards.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: As diretoras Julie Cohen e Betsy West já tinham trabalhado em alguns projetos que incluíam Ginsburg até que, em 2015, elas decidiram fazer um documentário focado exclusivamente na juíza. Em 2016, as diretoras acompanharam Ginsburg em diversos eventos, reuniões e discursos em que ela participou, incluindo eventos nas cidades de Chicago e Washington. No total, as diretoras tinham 20 horas de filmagens para trabalhar. A entrevista com Ginsburg feita “cara a cara” foi realizada em 2017.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 145 críticas positivas e oito negativas para RBG – o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 7,5. O site Metacritic apresenta o “metascore” 71 para esse documentário, fruto de 28 críticas positivas, três medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, RBG faturou US$ 14 milhões nas bilheterias americanas. Para um documentário, esse resultado pode ser considerado excelente. Com certeza, por ser um “ícone pop” nos Estados Unidos, Ginsburg atraiu muitas pessoas para o cinema para conhecer um pouco mais sobre a sua história. Interessante.

Eu não sei se o Supremo Tribunal Federal permite “votos dissidentes” registrados como tal, como RBG mostra que acontece nos Estados Unidos, mas isso seria algo interessante de ser feito por aqui também. Ficar registrado, em algumas decisões, as opiniões contrárias e bem argumentadas de alguns juízes.

RBG é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme vai fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. Mais um para a lista. 😉

CONCLUSÃO: Não importa se a maioria está defendendo algo errado e se o seu voto sempre é vencido. O importante é que você está defendendo o que é certo e deve ter o direito de verbalizar isso. Essa é uma das principais mensagens que RBG passa. Um filme sobre uma personagem muito interessante. Bem conduzida e interessante, essa produção só peca um pouco por investir mais na “curiosidade” sobre a personagem do que no aprofundamento sobre ela. Senti falta de ouvir mais opiniões da magistrada ou mesmo depoimentos de pessoas que esboçassem um retrato mais rico dela. Ainda assim, é um filme interessante pelas mensagens que ele passa. Vale ser visto e compartilhado, especialmente porque a mulher retratada é um grande exemplo, de fato.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Difícil fazer um prognóstico da categoria Melhor Documentário para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deste ano. Especialmente porque tenho muitos títulos para conferir ainda. Ainda assim, considerando que a Academia gosta de ter a sua presença “política” nos Estados Unidos, não seria nenhuma surpresa que um filme como RBG fosse indicado ao prêmio.

Agora, ele tem chance de ganhar? Se a Academia estiver em um ano de crítica maior, digamos assim, ao cenário político americano, certamente. O filme é bom o suficiente para levar um Oscar? Não acho. Acho sim que RBG é um filme importante por resgatar uma história inspiradora e por nos mostrar, em perspectiva, como podemos avançar ou retroceder enquanto sociedade. Mas acho que como produção cinematográfica, RBG poderia ser melhor.

Assisti, como vocês sabem, a apenas dois documentários desta temporada – além de RBG, assisti a Won’t You Be My Neighbor? (comentado por aqui). Francamente, achei o filme sobre Fred Rogers muito mais bem acabado, completo, envolvente e emocionante. Entre os dois, o meu voto iria para Won’t You Be My Neighbor?, sem dúvidas. Mas, claro, eu ainda preciso assistir a outras produções que estão na disputa para realmente poder opinar. Sigamos em frente, portanto! 😉

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BlacKkKlansman – Infiltrado na Klan

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Um filme contundente, bem ao estilo de seu realizador. Mas nós precisamos de filmes assim, ao menos enquanto restarem pessoas intolerantes e racistas, do tipo que se acha superior a outros grupos e pessoas. BlacKkKlansman mergulha na diáspora racial dos Estados Unidos. Faz isso seguindo a lógica do “teatro do absurdo” sem deixar de lado o tom crítico político – com diversas citações a um governo que dá margem para brancos supremacistas acharem que a “hora deles chegou”. Por sua temática, crítica e narrativa envolvente, merece chegar até o Oscar 2019, sem dúvidas.

A HISTÓRIA: Começa com uma sequência de …E o Vento Levou, com Scarlett (Vivien Leigh) buscando o Dr. Meade em meio a diversos feridos. Depois de perguntar pelo médico algumas vezes, ela diz: “Que Deus salve a Confederação”. A sequência fecha na bandeira dos Confederados. Em seguida, a mesma bandeira aparece nas costas do Dr. Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin), que diz que o país está sob ataque. Ele comenta que as pessoas estão vivendo em uma época marcada pela “integração e miscigenação” e que isso precisa ser combatido. Em um mesmo vídeo de propaganda, ele ataca os negros, os judeus e a Suprema Corte que “obrigou” crianças brancas a conviverem com crianças negras na escola.

Esse é o pano de fundo desse filme, que conta a história de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro policial negro de Colorado Springs. Cercado de policiais brancos por todos os lados e inserido em uma sociedade com muitos rasgos racistas, Stallworth tem a ideia, após ver a um anúncio no jornal, de entrar em contato com a Ku Klux Klan local. Ele começa a investigar o grupo e tenta “entrar” nele como “policial infiltrado”. Como ele é negro, ele acaba dividindo a sua “identidade” com o colega Flip Zimmerman (Adam Driver).

VOLTANDO À CRITICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a BlacKkKlansman): Na definição/categorização deste filme, ele aparece como “Biográfico, Crime, Drama”. Spike Lee acerta em cheio ao resgatar uma história realmente impressionante, de um homem que enfrentou todos os preconceitos e barreiras sociais e discriminatórias para se tornar o primeiro policial negro da sua cidade.

Mas não apenas isso. Ele faz algo inacreditável: se voluntaria como um novo voluntário para participar da Ku Klux Klan local. Mesmo que você não saiba muito sobre esse grupo, é claro que você sabe que eles são um bando de supremacistas brancos que se acham superiores e detentores da “missão” de atacar negros e pessoas que defendem o direito de todos terem a mesmas oportunidades e conviverem nos mesmos locais. Assim, como um negro pode trabalhar como um infiltrado na KKK? Impossível, é claro.

Mas é justamente isso que o protagonista desse filme faz. Ele sabe como ninguém como pensam os brancos preconceituosos e como falar/lidar com eles. Então ele está mais que preparado para lidar com os líderes do movimento, mas sempre por telefone. Quando tem que conviver com o grupo, quem se passa por Ron Stallworth é o seu colega, um dos policiais brancos mais abertos à conviver com um negro na corporação, Flip Zimmerman.

O diretor e roteirista Spike Lee – que escreveu esse roteiro juntamente com Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott – acerta na mosca na construção interessante que ele faz sobre essa história. Ele começa com uma provocação sobre a influência cultural que reforça ou sugere uma justificativa para o preconceito racial – inclusive em clássicos como …E o Vento Levou e O Nascimento de Uma Nação, dois filmes com trechos reproduzidos em BlacKkKlansman – e prossegue com a gravação de uma propaganda criminosa que reproduz essas ideias segregacionistas.

A forma com que BlacKkKlansman é construída é muito interessante por isso. Porque o filme constrói a narrativa de forma direta, mostrando todo o absurdo daquela corrente supremacista branca que considera todos os negros “estupradores e assassinos”, como argumenta Beauregard, apenas pela cor de sua pele. Isso não tem o mínimo sentido, evidentemente, mas o filme conta sobre uma época em que isso era defendido através de vídeos, de manifestações públicas e por grupos como a KKK.

Ao mesmo tempo, temos a um negro que sonha em ser policial e que se “aventura” em meio a um grupo de brancos – com parte deles sendo racistas também. Inicialmente, ele é colocado em uma tarefa burocrática, mas ele logo manifesta o seu desejo, para o Chefe Bridges (Robert John Burke), de ser um policial infiltrado. Qual é a primeira missão que dão para ele? Dele se infiltrar em um encontro político negro para saber sobre as “intenções dos agitadores” e, ao investigá-los, evitar “distúrbios” na cidade.

Os negros tem que ser controlados e calados. No mínimo. Isso é o que a autoridade policial defende, também influenciada por uma cultura historicamente racista. Vale ponderar que Colorado Springs é uma cidade situada na região central dos Estados Unidos – ou seja, fica entre o limiar do Sul mais preconceituoso e o Norte mais “liberal”. Spike Lee explora esses conceitos e esse “pano de fundo” muito bem.

Diversos momentos do filme beiram ao absurdo. Ao menos, sob a ótica de alguém “normal” que sabe que negros e brancos são iguais, deveriam ter os mesmos direitos e oportunidades, e vêem como absurdo o discurso supremacista branco. Por isso mesmo é especialmente incrível observar aquelas linhas iniciais de Lee comentando que “essa parada é baseada em uma merda muito, muito real”. Porque sim, existiu um Ron Stallworth que vivenciou aquilo que vemos em cena e que escreveu um livro para contar a sua experiência.

A narrativa de Lee é envolvente e o roteiro explora bem a história que beira o absurdo – mas que também convence por seus contratempos e pequenos “deslizes” aqui e ali. Stallworth e Zimmerman são corajosos ao assumir aquela missão de se infiltrarem na KKK para saber o que eles estão planejando. No fim, a missão deles evita uma ou mais mortes. Mas o grupo vai continuar aterrorizando, inclusive com a conivência de autoridades locais (ou nacionais).

Nesse quesito, claro, Spike Lee não poderia se furtar de fazer uma referência clara ao “supremacista branco” que está governando o país novamente. Assim, BlacKkKlansman conta sim uma história específica, mas também não fecha os olhos para um dos maiores líderes da KKK, David Duke (Topher Grace) que é, adivinhem?, um dos mais efusivos apoiadores do atual líder máximo da nação.

É de arrepiar que essas e tantas outras pessoas defendam os “sagrados valores brancos protestantes”. Me desculpem o palavreado, mas essa é uma gente escrota e sem contato com a realidade. Sem a mínima noção do que estão falando ou defendendo. Mas é uma gente desequilibrada e perigosa, como BlacKkKlansman mostra bem. O grupo no qual Zimmerman se infiltra tem pessoas beeem desajustadas – e armadas.

O filme nos faz pensar, especialmente até quando essa queda de braços vai continuar. Enquanto houver um grupo falando em “supremacia branca”, certamente haverá um grupo pedindo por “empoderamento dos negros”. Essa é uma luta que nunca irá terminar enquanto tiver pessoas dividindo a sociedade dessa forma. Será que é tão difícil vivermos em uma sociedade em que as políticas públicas e as pessoas comuns realmente busquem por igualdade de oportunidades para todos, independente da cor da pele.

Claro que existe uma desigualdade histórica que precisa ser resolvida. Mas espero que um dia os policiais e as autoridades dos Estados Unidos parem de fechar os olhos para grupos criminosos, racistas e violentos como a KKK e os combatam de uma maneira mais efetiva. E que outras medidas sejam tomadas para educar as pessoas e buscar eliminar tanta ignorância no mundo. BlacKkKlansman trata destas questões de maneira franca e crítica. Precisamos de filmes assim, que coloquem o dedo na ferida e que não façam esquecermos dos absurdos que perduram.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Spike Lee bebe de muitas fontes para fazer este filme. Apesar do foco dele ser o primeiro negro policial em uma cidade da área central dos Estados Unidos, ele também faz alusões a várias outras fontes de referência. Além dos filmes que ele “cita” na produção literalmente, ao reproduzir trechos das produções, ele faz “colagens” de rostos, ao estilo de filmes antigos que adotavam este tipo de transição para dar dinâmica para a narrativa, e também mergulha um pouco na cultura negra do final dos anos 1970 – quando o filme é ambientado.

Há quem tenha visto “comédia” nesse filme. Honestamente? Eu não vejo comédia em BlacKkKlansman. Esse filme nos conta histórias que fazem parte da realidade dos americanos até hoje. O conflito racial por lá é muito mais claro e mais extremo do que estamos acostumados no Brasil. Mas é bom falarmos sobre aquele nível de ignorância e sobre aquele preconceito que vemos em cena para evitar que isso aconteça por estas bandas. E sempre que vejo a um filme como BlacKkKlansman me pergunto: será quem um dia os Estados Unidos vão conseguir resolver este problema? Parece algo realmente complicado, especialmente no governo atual. O que é lamentável.

Bom ver Spike Lee em grande forma novamente. Acho que ele retorna em grande estilo para a temporada de premiações. Nesta produção, ele nos apresenta uma história realmente interessante e bem conduzida. Mérito dele, dos roteiristas que fazem o roteiro com ele e dos atores – especialmente John David Washington e Adam Driver estão muito bem.

Além de Washington e de Driver, grande responsáveis pelo sucesso desta produção, vale comentar o bom trabalho de diversos coadjuvantes, a começar por Robert John Burke como o Chefe Bridges, que está no limiar do racismo; Brian Tarantina em uma super ponta como o Oficial Clay Mulaney, apoiador de Stallworth e de Zimmerman; Ken Garito como o Sargento Trapp, outro que fica mais do lado de Stallworth do que contra ele – muitas vezes ele é “a voz da razõa” de Bridges; Frederick Weller como o policial racista Andy Landers; Laura Harrier como Patrice Dumas, a líder do movimento estudantil negro por quem Stallworth se interessa; Ryan Eggold como Walter Breachway, o líder local da KKK; Jasper Pääkkönen como Felix Kendrickson, um dos mais extremistas membros da KKK local, junto com a sua mulher Connie, interpretada por Ashlie Atkinson; e Paul Walter Hauser como o “bobão” Ivanhoe, outro membro da KKK sedento por puxar o gatilho e acertar alguns “negros”.

Acho impressionante como a galera “macho branca” retratada por este filme, tempos depois do final da Segunda Guerra Mundial, continua defendendo os “sagrados valores brancos protestantes”, classificando negros como inimigos e “estupradores e assassinos” que querem atacar as “mulheres brancas virgens” e atacando o que chamam de “conspiração judaica internacional”. Como alguém pode proferir estas palavras e ideias? E mesmo acreditar nisso? Honestamente, é algo ultrajante e que não faz rir, mesmo pelo absurdo, mas apenas lamentar e nos indignar.

Impressionante como Stallworth é “ensinado” a aceitar qualquer barbaridade que ele for escutar. Afinal, ele é a “minoria” que deve se adaptar. Sério? Sério mesmo? Não importa se você está sozinho ou se você é o único em uma batalha. Se você está certo e defende os valores certos, isso é o que importa.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a edição de Barry Alexander Brown; para a trilha sonora de Terence Blanchard; para a direção de fotografia de Chayse Irvin; para o design de produção de Curt Beech; para a direção de arte de Marci Mudd; e para os figurinos de Marci Rodgers.

Antes, eu falei, essencialmente, sobre os pontos positivos de BlacKkKlansman. Mas o filme não é apenas acertos. Para mim, apesar de ser uma história interessante e bem conduzida, o filme perde um pouco de força ao querer contar uma história “semi” de amor entre o protagonista e a sua protegida, assim como em querer “abraçar” toda a cultura negra da época. Algumas festas e inserção de música pode ter sido interessante, mas fica um bocado deslocado da história. Acho que o filme perde um pouco o interesse nesses pontos.

BlacKkKlansman estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até novembro, o filme participou de outros 14 festivais e mostras em diversos países. Até o momento, BlacKkKlansman ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 133 prêmios – incluindo quatro indicações ao Globo de Ouro. Ou seja, apesar de ter ganho alguns prêmios, ele foi mais derrotado do que saiu vencedor das premiações. Isso, acredito, mostre uma tendência. Do Globo de Ouro, por exemplo, ele saiu de mãos vazias.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Grande Prêmio do Júri para Spike Lee e para a Menção Especial do Júri Ecumênico para o diretor no Festival de Cinema de Cannes; para o Prêmio da Audiência para Spike Lee no Festival Internacional de Cinema de Locarno; para o Prêmio de Melhor Filme Drama (Independente) no Satelitte Awards; e para nove prêmios como Melhor Roteiro ou Melhor Roteiro Adaptado. BlacKkKlansman também foi eleito, junto com outros nove filmes, com um dos filmes do ano segundo o AFI Award.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre BlacKkKlansman. Quem apresentou a história de Ron Stallworth para Spike Lee foi o produtor Jordan Peele. Lee achou a história do “homem negro que se infiltra na KKK” absurda demais, até que Peele garantiu para ele que a história era autêntica. Foi aí que Lee embarcou no projeto, porque achou que a história era ultrajante demais para ser ignorada. As únicas condições que Lee colocou para dirigir o filme foram de que ele pudesse incluir elementos cômicos e que pudesse fazer paralelo com questões raciais contemporâneas.

John David Washington é filho de Denzel Washington, ator que contracenou em quatro produções de Spike Lee.

O diretor Spike Lee recebeu uma ovação de seis minutos depois do filme ter estreado no Festival de Cinema de Cannes.

David Duke só descobriu que Ron Stallworth era negro em 2006, quando um repórter do Miami Herald ligou para ele para ouvir o seu lado da história. Lembrando que a história original do contato entre os dois remonta à década de 1970.

BlacKkKlansman é dedicado da Heather Heyer, uma garota que foi atropelada e morta em uma manifestação contra o movimento supremacista branco em agosto de 2017. Quando ela morreu, o filme estava sendo editado. Ao saber da história, Spike Lee quis incluir a homenagem no filme, lançando-o em circuito comercial um ano apos a manifestação “Unite the Right” e a morte de Heyer.

Esta produção é baseada no livro de memórias Black Klansman, lançado em 2014 por Ron Stallworth. Segundo Stallworth, o único arrependimento dele foi não ter exposto a história mais cedo, o que poderia ter mostrado o quão “bobo” foi David Duke nessa história e, com essa exposição, talvez ele teria prejudicado a carreira política do membro da KKK.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para BlacKkKlansman, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 352 críticas positivas e 17 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,3. O site Metacritic apresenta um “metascore” 83 para esta produção – fruto de 54 críticas positivas, de uma mediana e de uma negativa -, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, BlacKkKlansman teria custado cerca de US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 48,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez outros US$ 40,9 milhões. Ou seja, na soma, fez pouco mais de US$ 89,4 milhões – um grande sucesso para Spike Lee e um filme com lucro para os realizadores.

BlacKkKlansman é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há bastante tempo aqui no blog.

Importante comentar que já faz mais de 10 dias em que eu assisti a esse filme. Estou meio “devagar” nesse início de ano, eu sei, mas é por causa da correria. Mas tentarei ver a mais filmes a partir de agora, até porque em poucos dias teremos os indicados ao Oscar. E, além deles, temos muitos bons filmes interessantes para assistir. Tentarei acelerar as publicações por aqui, prometo. 😉

CONCLUSÃO: Spike Lee sempre foi contundente em seus filmes. Em BlacKkKlansman isso não é diferente. Em certo momento, ele resume o que vemos em cena. Enquanto houverem pessoas gritando por “poder branco”, haverão pessoas gritando por “poder negro”. De forma bastante honesta, envolvente e com um discurso político acertado perpassando tudo, Lee nos apresenta um filme chocante sobre o atraso em que muitos vivem ainda. Pessoas que buscam se colocar em patamar superior e menosprezar as outras, em um país dividido e com dificuldades de superar esta questão de atraso. Bem desenvolvido, BlacKkKlansman precisa ser visto. Simples assim.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Muitos apontam BlacKkKlansman como um filme forte na corrida pelas estatuetas do Oscar. Acredito que o filme tem grandes chances de figura entre as 10 produções que vão concorrer na categoria principal, de Melhor Filme. Não seria uma surpresa também se a produção emplacasse ainda indicações de Melhor Diretor, para Spike Lee, e de Melhor Roteiro Adaptado.

No Globo de Ouro, o filme também emplacou as indicações dos atores John David Washington e Adam Driver – como Melhor Ator – Drama e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente. Não sei se eles terão apelo ou força para emplacar as suas indicações no Oscar também, mas é fato que ambos estão muito bem.

Agora, que chances o filme tem de ganhar nestas categorias? Difícil dizer, neste momento, porque faltam muitos filmes para serem vistos ainda. Mas acho que BlacKkKlansman, apesar de corajoso e com um tom político marcante, algo que está em voga na Academia nos últimos antes, não tem exatamente o perfil de um vencedor do Oscar de Melhor Filme. Seria uma surpresa, e bastante positiva, se a Academia tivesse a coragem de premiar a um filme crítico como este. Terei chance de opinar melhor após assistir a outras produções que estão cotadas para esta disputa.

Won’t You Be My Neighbor?

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Nós somos seres gregários e que gostamos de nos comunicar. Ao menos, na maior parte do tempo. Quando nos comunicamos, podemos investir em algo bom, propagar os melhores valores. Como o amor, o respeito, a empatia e a solidariedade. Mas nem sempre é isso que acontece quando nos comunicamos ou nos aproximamos. Por isso é tão bom conhecer uma história maravilhosa como a contada pelo documentário Won’t You Be My Neighbor? Por muitos anos e para milhares – ou milhões – de crianças, Fred Rogers foi uma referência. Para a gente, no Brasil, não. Mas conhecer a sua história nos enche de esperança e de reflexão. Um grande filme.

A HISTÓRIA: Fred Rogers está sentido em um piano e pede para que o cinegrafista se aproxime. Ele está falando com cada um de nós, os seus expectadores. Ele comenta que tem tido algumas ideias sobre modulação. Ele comenta que existem diferentes temas na vida. Vemos a Fred Rogers em 1967. Ele comenta que uma de suas principais missões é, através dos meios de comunicação de massa, ajudar as crianças com as modulações difíceis das suas vidas.

Rogers então comenta como é fácil passar de algumas notas para outras, enquanto que outras variações são bem mais difíceis. Então ele comenta sobre a importância de ter alguém que lhe ajude a passar pelos momentos mais difíceis. Essa é a história sobre este apresentador de programas feitos para o público infantil, em especial, e que também trabalhou em um programa para o público adulto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Won’t You Be My Neighbor?): Depois que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de produções que avançaram em busca de uma vaga em nove categorias do Oscar 2019, algo que comentei neste post, fui atrás de tentar assistir aos filmes pré-indicados em Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Documentário.

Antes mesmo dessa lista ser divulgada, eu já tinha visto muitos especialistas no Oscar e críticos apontando Won’t You Be My Neighbor? como um dos fortes concorrentes do ano na categoria de Melhor Documentário. Eu não sabia sobre o que o filme tratava, mas foi uma grata surpresa perceber que ele abordava a trajetória de um ícone da TV infantil para o público americano. Fred Rogers marcou a cultura dos Estados Unidos a partir de 1968.

E que trajetória impressionante a dele! Uma trajetória narrada com perfeição pelo diretor Morgan Neville em Won’t You Be My Neighbor?. Para contar a história de Fred Rogers, Neville intercala diversos trechos de entrevistas do apresentador com trechos de seus programas, assim como trechos de animação e entrevistas com pessoas da família dele, pessoas que trabalharam com ele, amigos ou especialistas em sua história.

Para mim, o maior ganho de Won’t You Be My Neighbor? e da trajetória de Rogers é nos mostrar a infância sob uma outra perspectiva. Da minha parte, de quem nem sempre tem “paciência” com as crianças, provavelmente porque eu não consigo entendê-las como eu deveria ou poderia, Won’t You Be My Neighbor? foi uma lição e um aprendizado.

Rogers tinha um olhar profundo, compreensivo e amoroso para as crianças. Elas eram o foco de seu trabalho e de sua preocupação. Ao conhecer a sua história e a sua proposta para um programa de TV, passei a repensar a minha própria forma de olhar e, quem sabe, até de agir em relação às crianças. Como Neville busca também elementos na infância de Rogers para explicar o seu estilo e personalidade, somos motivados a fazer isso a respeito de nós mesmos.

Assim, Won’t You Be My Neighbor? se revela um filme muito humano e sensível. Ele conta não apenas a história de um ídolo para muitas crianças americanas mas, também, nos faz refletir sobre as nossas próprias infâncias e sobre o universo das crianças. Um universo muito mais complexo e amplo do que a imagem que estamos acostumados a imaginar ou pensar. Essa reflexão e esse outro olhar sobre a infância e as crianças foram dois dos pontos que mais me marcaram deste filme. Mas não foram os únicos.

Como profissional formada na área de Comunicação, Won’t You Be My Neighbor? me fez lembrar o que me motivou a estudar essa área. A crença que a comunicação pode ser usada para o bem, para melhorar a nossa realidade. Rogers fez isso durante toda a sua vida. Ele batalhou por uma televisão pública de qualidade e por apresentar questões importantes para as crianças. E um ponto fundamental para ele buscar isso foi respeitando a inteligência e os sentimentos das crianças – e não as tratando como pessoas que ainda não cresceram, como muitos de nós fazemos.

Won’t You Be My Neighbor? nos faz pensar ainda mais sobre que tipo de televisão e de sociedade da informação nós temos hoje em dia. Para nós, adultos, e para as nossas crianças também. Que tipo de informação e lazer estamos consumindo? E as crianças do nosso país e de outras nações, que tipo de programas e de informações elas estão tendo? Won’t You Be My Neighbor? é um aprendizado também para quem ama a comunicação e atua nessa área.

Além de tudo isso, Won’t You Be My Neighbor? me impressionou por abordar e reforçar constantemente os valores e a “missão” que Rogers acreditava que tinha pela frente. Ele falava de amor, de valorizar o olhar compreensivo e compassivo, de perdão, de compreensão e de respeitarmos a todas as pessoas – especialmente as crianças. Falava sobre a importância de protegermos e apoiarmos as crianças. Abordava uma série de valores fundamentais e que nem sempre são lembrados com a constância e a força com que deveriam.

Por tudo isso, achei esse filme excepcional. Não apenas por nos contar uma história inspiradora, mas por nos mostrar que sim, podemos fazer mais e melhor do que estamos fazendo. Que é possível sempre buscar o bem, mesmo quando fatos ao nosso redor nos mostram retrocessos. Além disso, apesar de Won’t You Be My Neighbor? ser claramente uma homenagem para Rogers, Neville não foge de alguns temas controversos do personagem retratado.

Ou seja, diferente de outras produções que eu já comentei por aqui e que sofriam por serem apenas uma homenagem para a pessoa retratada, Won’t You Be My Neighbor? aborda os questionamentos feitos sobre Rogers. Temos tanto os programas que o parodiavam quanto os questionamentos sobre ele ser gay ou apoiar/não apoiar os gays – sendo que um ator de sua equipe, François Scarborough Clemmons, era gay e foi incentivado a se “esconder” por Rogers. Neville poderia ter “ignorado” estes fatos mas, acertadamente, ele não fez isso.

No fim das contas, Won’t You Be My Neighbor? é um filme bastante profundo. Que nos faz refletir sobre diversos valores e atitudes. Que nos faz pensar sobre o nosso próprio processo de amadurecimento e sobre como enfrentar as dificuldades e os temas difíceis e delicados da vida. Um documentário que estimula o olhar generoso e atento, que nos estimula a ser melhores ou a incentivar essa procura.

Bem conduzido, envolvente, apresentando uma narrativa profunda e, ao mesmo tempo, pontuada com diversos momentos de ternura e engraçados, Won’t You Be My Neighbor? é um filme inesquecível. Impressiona por sua humanidade, por sua sensibilidade e por sua capacidade de nos fazer refletir. Sou franca em dizer que ele também me emocionou. A narrativa segue em um crescente que pode levar muitos às lágrimas no final – algo que aconteceu comigo. Veja de coração aberto e se deixe levar. É uma bela, bela produção. Das melhores do gênero.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu nunca vi alguém tratar as crianças com tanto respeito e sensibilidade. Para Fred Rogers, não havia assunto que não pudesse ser tratado com as crianças. E ele estava certo sobre isso. Desde os anos 1960 ele sabia que as crianças eram bombardeadas pelos fatos bons e ruins da vida. Por causa da televisão, nos anos em que ele atuou e, mais recentemente, por causa da internet, as crianças não estão alheias a nada que acontece no mundo. Mas como tratar assuntos difíceis com as crianças? Rogers tem ensinamentos importantes para qualquer pai e mãe ou para qualquer pessoa interessada nesse tema e que seguem muito válidos até hoje.

Gostei muito do trabalho do diretor Morgan Neville. Ele constrói a narrativa de Won’t You Be My Neighbor? de maneira primorosa, não apenas pelos elementos que ele intercala para contar essa história mas, especialmente, pela forma com que ele vai se aprofundando no seu “personagem”. Esse filme é, no fundo, um grande estudo de personalidade. Por isso o filme é tão humano e sensível. Porque ele não apenas conta uma trajetória, mas também se aprofunda na personalidade, nos sentimentos e nas intenções do biografado.

Won’t You Be My Neighbor? se apresenta como uma produção muito envolvente, com uma edição primorosa de Jeff Malmberg e de Aaron Wickenden e que, acertadamente, mescla momentos de humor, narrativa, drama e emoção. As diferentes impressões das pessoas sobre Fred Rogers, o contexto que eles ajudam a montar sobre ele e o próprio trabalho e opiniões do biografado montam um perfil bastante completo sobre o homenageado.

Além da direção de Neville e da edição de Malmberg e Wickenden, vale destacar, nesta produção, o trabalho da direção de fotografia de Graham Willoughby; a trilha sonora de Jonathan Kirkscey; o departamento de arte comandado pelo designer gráfico Scott Grossman; e o departamento de animação comandado pelos animadores Ariel Costa e Rodrigo Miguel Rangel.

Algo interessante sobre Won’t You Be My Neighbor? é que o filme, apesar de ter uma narrativa quase toda linear – fora os momentos em que o filme fazia rápidas imersões na infância do retratado -, foge um pouco do modelo “clássico” de documentário focado em um biografado.

Comento isso porque, apesar de ouvirmos os depoimentos da esposa e de dois filhos de Rogers, o documentário não conta propriamente a história deste núcleo familiar. Não sabemos quando eles se casaram, como eles se conheceram e quando nasceram os filhos. Essa “ausência” de informações, para mim, tem um propósito: nos deixar focados na mensagem e na missão de Rogers e nem tanto na sua vida privada ou em particularidades da sua vida que acrescentariam pouco para entendermos as suas intenções. Interessante essa escolha de Neville.

Um outro detalhe que eu pensei sobre a história de Rogers: como ele soube aproveitar as condições especiais que ele teve pela frente para tirar o melhor proveito possível de seus recursos. Comento isso porque justamente em Pittsburgh foi nascer uma TV pública que poderia dar espaço para ele desenvolver um programa infantil com aquela preocupação social e com a psicologia das crianças e onde também foi feito um trabalho importante (eu diria fundamental) sobre as fase de desenvolvimento humano e sobre o aprendizado infantil. Dois fatores importantes para que ele tivesse tanta qualidade no seu trabalho.

Durante a sua trajetória, Fred Rogers ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 57 – inclusive a indicação a três prêmios Emmy. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os Emmy’s recebidos em 1980, em 1985, em 1997 e em 1999; para o Peabody Awards recebido em 1993 e para o seu nome colocado na Calçada da Fama em 1998. A estrela dele na Walk of Fame está na 6600 Hollywood Blvd. com a inscrição “To Mister Rogers”.

Como sempre, você pode entender ou não uma mensagem. Quando Rogers disse que todas as pessoas são especiais e perfeitas como elas são, ele não quis dizer que você terá tudo fácil e que não precisará fazer nada para se aperfeiçoar. Ele quis relembrar conceitos cristãos de que Deus ama a todos e que todos são perfeitos para Ele. Tem pessoas que conseguem entender isso, e tem outras que preferem não entender. E beleza sobre isso. Mas Rogers dizer isso repetidamente para as crianças, foi algo maravilhoso e muito corajoso.

Fred Rogers nasceu na cidade de Latrobe, no Estado da Pennsylvania, no dia 20 de março de 1928. Ou seja, no ano passado, quando Won’t You Be My Neighbor? foi lançado, se ele estivesse vivo, ele teria 90 anos de idade. Rogers comandou o programa Mister Roger’s Neighborhood entre 1967 e 2001 – no primeiro ano, em uma emissora de Pittsburgh e, a partir de 1968, na PBS, com transmissão em nível nacional. Rogers morreu em 2003 após uma rápida batalha contra um câncer no estômago. Ele se casou com Joanne Rogers em 1952 – eles ficaram casados até a morte dele. Com ela, ele teve dois filhos – os dois aparecem no documentário, John e Jim Rogers.

Até hoje, nos Estados Unidos, 305 dos 895 episódios de Mister Roger’s Neighborhood continuam sendo reprisados. Que sorte dos americanos por terem tido um programa como esse para as suas crianças! Os valores transmitidos por ele e plasmados neste Won’t You Be My Neighbor? são, para mim, pura preciosidade.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para esta produção. Não encontrei a página sobre este documentário no Rotten Tomatoes, mas no site Metacritic o filme é classificado com o “metascore” 85, fruto de 39 críticas positivas e de duas medianas, e com o selo “Metacritic Must-see”.

Won’t You Be My Neighbor? estreou em janeiro de 2019 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, até outubro do mesmo ano, ele participaria de outros 17 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou 33 prêmios e foi indicado a outros 28. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 25 prêmios de Melhor Documentário conferidos por diferentes associações de críticos. Além disso, ele foi considerado, ao lado de Minding the Gap, Free Solo, Crime + Punishment e Three Identical Srangers, um dos cinco melhores documentários do ano pela National Board of Review – mas quem venceu nesta categoria foi outro filme, RBG.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Em determinado momento do filme, vemos a um encontro de Rogers e o gorila Koko. Mas aquela situação do gorila tirar os sapatos de Rogers não é explicada no documentário. Quando Koko morreu, em junho de 2018, vários detalhes sobre a sua vida vieram à tona. Por exemplo, o fato de que o gorila assista ao programa de Rogers todos os dias e que ele tirou os sapatos do apresentador porque isso era o que ele fazia no começo de cada programa.

O diretor Morgan Neville foi parcialmente inspirado a contar a história de Rogers quando, ao entrevistar Yo-Yo Ma sobre como ele tinha lidado com a sua fama, ele ter respondido que aprendeu com Rogers que ele poderia usar a sua fama para o bem.

Betty Aberlin, que vemos contracenando com Rogers em muitos momentos do programa dele, foi convidada para participar do documentário, mas ela se recusou porque fazia muito tempo que ela não dava entrevistas e se sentiu insegura de aparecer novamente frente às câmeras.

Além de ser um sucesso de crítica, Won’t You Be My Neighbor? teve um ótimo resultado nos cinemas americanos. O filme fez US$ 22,6 milhões nas bilheterias segundo o site Box Office Mojo, um ótimo resultado para um documentário, sem dúvida. Certamente esse resultado foi puxado pela popularidade do apresentador.

Se vocês ficaram interessados sobre saber mais sobre os estudos a respeito do desenvolvimento humano e infantil, vale dar uma olhada no trabalho de Erik Erikson. Uma boa introdução pode ser esse texto do site Pensar Contemporâneo. #ficaadica

O diretor Morgan Neville tem 25 trabalhos no currículo como diretor, incluindo documentários, filmes para a TV e episódios de séries de documentário feitas para a TV. Em 2014 ele ganhou o Oscar de Melhor Documentário por Twenty Feet from Stardom (comentado neste link).

Não tenho dúvidas que esse filme “bate” de maneira muito diferente para nós, que não crescemos assistindo a Fred Rogers, e para o público americano, que teve um contato muito mais próximo e afetivo com ele. Ainda assim, acho que Won’t You Be My Neighbor? tem uma linguagem universal e pode tocar a qualquer pessoa que acredite nos mesmos valores que o biografado – e que esteja aberto a observar as crianças de uma outra maneira. Fascinante.

Won’t You Be My Neighbor? é um filme 100% dos Estados Unidos, por isso ele entra na relação de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme, para ser grande, deve nos envolver, nos surpreender, nos fazer pensar e nos emocionar. Uma produção que consiga tudo isso é algo difícil de encontrar. Mas é exatamente isso que o documentário Won’t You Be My Neighbor? proporciona. Esse filme resgata uma história inspiradora que precisa ser mais difundida, especialmente para que repensemos a forma com que olhamos e com que tralhamos a nossa relação com as crianças. Sejam as que nos rodeiam, sejam as crianças que ainda podem estar nos habitando. Um filme imprescindível, especialmente para os dias atuais, em que, muitas vezes, nos perguntamos para onde estamos indo enquanto coletivos. Impecável, muito bem narrado e conduzido, não nos faz apenas pensar, mas também sentir.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Won’t You Be My Neighbor? foi um dos 15 filmes que avançaram na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Documentário, conforme comentei neste post. Ou seja, cada um dos filmes que avançaram na disputa vão deixar outros dois para trás – afinal, apenas cinco produções realmente serão indicadas nesta categoria.

Como quem acompanha o blog sabe, Won’t You Be My Neighbor? é o primeiro filme da lista de documentários que avançaram na disputa que eu assisto. Não consigo compará-lo ainda com os concorrentes, portanto, mas devo dizer que torço muito para ele chegar entre os cinco finalistas nessa categoria na premiação máxima da indústria cinematográfica norte-americana. Simplesmente porque eu acho que ele é um grande filme, cheio de boas intenções e muito bem narrado e construído.

Por ter tantas qualidades, acho que Won’t You Be My Neighbor? merece chegar entre os finalistas e, quem sabe, inclusive ganhar a estatueta dourada? Claro que precisarei assistir a outros concorrentes para falar melhor a respeito, mas acho que seria muito bacana que esse filme chegasse tão longe. Quem sabe assim, mais gente não se interessa em assisti-lo? E isso seria algo importante, especialmente pelas mensagens que essa produção passa. Acho sim que ele chegará entre os finalistas. Agora, sobre ele ter chances de ganhar, ainda é cedo para dizer.

Roma

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Um filme simples com diversas camadas de interpretação e pequenas pérolas de informações espalhadas aqui e ali. Roma, por muitos considerado como um dos fortes concorrentes do Oscar 2019 – ao menos na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira -, realmente tem muitas qualidades. Mas eu não sei… ao término da produção, fiquei com aquele gostinho de que falaram tanto do filme e que ele entrega menos do que eu esperava. Grandes expectativas costumam resultar nessa conclusão. Mas uma obra-prima, realmente, teria satisfeito e superado as expectativas. Esse não é o caso de Roma.

A HISTÓRIA: Sobre um piso, alguns baldes de água são derramados. O reflexo que a água faz mostra em parte o céu, por onde passa um avião. Depois de limpar o piso, Cleo (Yalitza Aparicio) recolhe o material utilizado e conversa com o cachorro, Borras. Ela vai até um banheiro, colocado do lado externo da casa, e entra na residência dos patrões. No piso superior, ela recolhe as roupas de cama utilizadas e coloca as novas. Faz tudo com agilidade, levando o fiel rádio consigo em cada cômodo.

Em seguida, Adela (Nancy García García) chama a atenção de Cleo de que é quase 13h e que ela precisa se apressar. Cleo corre pela calçada e vai até o colégio para buscar o caçula dos patrões. Na volta, Adela comenta que Fermín (Jorge Antonio Guerrero) está ao telefone para falar com Cleo. As duas falam no dialeto mixteco, idioma que Pepe (Marco Graf) desconhece. Aos poucos, vamos acompanhando as histórias dessa família e de seus empregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Roma): Eu gosto muito do Sr. Alfonso Cuarón. E não é de hoje. Gosto do estilo do diretor muito antes dele ser reconhecido pelo trabalho extremamente técnico de Gravity (comentado por aqui). Eu acompanho o trabalho desde há exatos 20 anos, desde Great Expectations, filme com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow e anterior a Y Tu Mamá También – que o tornou mais conhecido e admirado.

Dito isso, comento que fiquei feliz que um filme dele, Roma, é considerado um dos favoritos – se não o maior favorito – para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Como quem acompanha o blog há mais tempo sabe, essa é a minha categoria preferida do Oscar. Especialmente pelas obras interessantes e diversificadas que esta categoria me apresenta a cada ano da premiação.

Assim, devo admitir, fui assistir a Roma com grandes expectativas. Não apenas por seu favoritismo, mas porque conheço o talento de Cuarón. Nascido na Cidade do México em 1961, Cuarón fez uma releitura muito particular sobre os anos de 1970 e 1971 – quando se passa a história desse filme. Pensando na produção, me parece que o personagem de Pepe, interpretado pelo carismático Marco Graf, representa o pequeno Cuarón.

Assim, nos debruçamos sobre a realidade do México naqueles anos conturbados. Para isso, Cuarón nos apresenta uma visão bastante intimista e próxima de uma família da classe média, onde duas realidades muito diferentes são retratadas. A das pessoas com recursos e que podem se dar ao luxo de ter até três empregados – o que é o caso da família de Sofía (Marina de Tavira) e de Antonio (Fernando Grediaga).

Enquanto o casal, que vive uma crise no matrimônio, tem condições de viver bem, educar os quatro filhos em bons colégios e ter uma empregada, uma cozinheira e um motorista à sua disposição, os empregados da família vivem em função dos chefes e à espera de uma folga para ir namorar no cinema – ao menos Cleo e Adela.

A narrativa desta produção, linear e focada no cotidiano da família e de seus empregados, apresenta diversas sutilezas e temas que fazem pensar. Mas sem grandes “choques” narrativos ou inovações na forma de contar essa história. Cuarón faz um excelente trabalho na direção, valorizando o trabalho dos atores, focando no cotidiano da Cidade do México no início dos anos 1970 e com planos de câmera que valorizam os movimentos contínuos.

De forma acertada, ele foca em poucos personagens e foca a narrativa sob a ótica da empregada da família, Cleo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela é uma garota simples, que não tem contato com a própria família (ouvimos falar apenas da mãe dela, na realidade) e que dedica a sua vida para os patrões – especialmente para os filhos de Sofía. Ela é especialmente apegada aos menores, Pepe e Sofi (Daniela Demesa).

A principal reflexão de Roma, para mim, é justamente as desigualdades sociais e de oportunidades que marcaram o México e outros países latinos nos anos 1970 e até hoje. No fundo, Cleo abre mão da própria vida para dedicar-se 100% à família dos patrões. No momento mais angustiante do filme, quando Cleo salva Paco (Carlos Peralta) e Sofi na praia, ela confessa que não queria que a filha que teve com Fermín nascesse.

Em outro momento importante do filme, Sofía comenta que não importa o que digam para elas, mas as mulheres estão sempre sozinhas. Esse é outro aspecto muito interessante e relevante do filme. Como mulheres com histórias tão diferentes, níveis de educação e oportunidades tão diversas, no fundo, podem ser vítimas da mesma sociedade machista. O México, assim como o Brasil e outros países, sofre com esta cultura em que todas as decisões e as principais oportunidades são decididas pelos homens.

Assim, com bastante facilidade, Antonio abandona a família ao mesmo tempo em que Fermín não assume o seu compromisso com Cleo. Para eles, fazer isso é muito fácil. Ninguém os questiona, ninguém acha absurdo o abandono e desprezo que eles promovem. Ao mesmo tempo, Cuarón revela uma fase da história em que as mulheres começam a assumir o controle de suas próprias vidas.

Desta forma, Roma também nos mostra o início de um maior “empoderamento” feminino na sociedade mexicana. Seja com Sofía mudando o foco de sua atividade para conseguir um emprego que lhe ajude a pagar as contas e sustentar a sua família, seja com Cleo revelando abertamente que não gostaria de ter a sua filha. Claro, podemos debater as razões dela não querer a sua própria filha. Seria por que ela está focada demais em ajudar a criar e cuidar das filhas da patroa ou será mesmo que, a exemplo de outras mulheres, ela não sente a necessidade em ter uma herdeira e colocar uma criança à mais no mundo?

As respostas para estas questões não são simples e nem devem ser dadas com base no que acreditamos ou fazemos. As questões sociais são complexas mesmo, seja no México do início dos anos 1970, seja nos dias atuais. Roma nos apresenta histórias muito humanas e com um olhar sensível e muito cuidadoso de Cuarón – além de dirigir o filme, ele é o responsável pelo roteiro de Roma.

Além destas questões muito particulares e humanas de Roma, o filme trata, em pequenas pérolas espalhadas aqui e ali, questões sociais importantes para o México daquela época. Como no início do filme Paco narra uma cena em que um menino foi morto por um militar por ter jogado um balão cheio de água nele, inicialmente eu achei que o México também vivia uma fase de regime militar – como era o caso do Brasil, na mesma época. Mas não. Buscando mais informações sobre o período, descobri que quem governava o México na época era o PRI (Partido Revolucionário Institucional).

Ainda assim, mesmo que o regime na época no México não fosse ditatorial, o exército e a polícia desempenharam um papel decisivo no que alguns chamaram de “guerra suja” contra a oposição ao PRI nos anos 1960 e 1970. Isso é o que vemos em cena em dois momentos contundentes da produção. Primeiro, no “treinamento” de Fermín, que acaba sendo flagrado por Cleo – que, inocente, acredita que o ex-namorado está treinando para as Olimpíadas.

Ele diz que foi “salvo” pelas artes marciais, mas de que tipo de salvação ele está falando? Órfão de mãe ainda criança e criado em uma favela, Fermín acredita que não caiu na criminalidade por causa das artes marciais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas, depois, ele acaba sendo utilizado como um criminoso pelo próprio regime para matar estudantes que protestavam contra o governo. Ele não atira em Cleo, apesar de ter tido vontade, mas o efeito que ele causa naquela situação é o mesmo praticamente se ele tivesse realmente apertado o gatilho.

Apenas jogando os “fatos” na nossa frente, Cuarón nos faz refletir sobre os efeitos daninhos da desigualdade de oportunidades e de acesso à educação. No fundo, Cleo e Fermín fazem parte de um mesmo sistema injusto no qual eles não tem perspectiva praticamente nenhuma de sair de seus “destinos”. A ignorância faz Cleo engravidar sem ao menos saber como poderia ter evitado aquilo, enquanto Fermín serve de massa de manobra para crimes sem que ele realmente tenha percebido alguma outra alternativa para si mesmo.

Com isso, claro, não estou dizendo que todos são produto apenas do seu meio. Claro que, no final das contas, somos responsáveis pelos nossos atos e podemos escolher o que fazer dos nossos dias, mesmo que alguns tenham mais opções do que outros – e isso não pode ser ignorado. De forma muito direta, Cuarón nos fala sobre isso nessa produção. Um filme bastante humano, intimista, mas também com uma grande carga de debate social.

Algumas pérolas espalhadas pelo diretor aqui e ali também nos fazem refletir sobre outra questão. Seja pela narrativa de Paco sobre o garoto que levou um tiro do militar por jogar um balão cheio de água, seja pela criança que morre empalada em uma incubadora no hospital, Roma parece nos sugerir que as crianças são as principais vítimas de uma sociedade injusta e que apresenta diversos riscos que nem sempre podem ser calculados. Isso também nos faz pensar sobre a finitude da vida e sobre a falta de controle que temos sobre diversos fatos.

O momento alto da produção, sem dúvida alguma, é a sequência derradeira na praia. Extremamente angustiante a forma com que Cleo não pensa na própria vida e se entrega para salvar as crianças que ela ama – e que não são dela. Ela tem um altruísmo e uma entrega que impressionam. Naquele momento, impossível não pensar no pior cenário da situação, e justamente isso que cria a angústia muito bem planejada pelo diretor/roteirista. Sequência brilhante – especialmente por nos mostrar apenas parte do que está acontecendo, o que aumenta a angústia.

Cleo vai continuar dedicando a sua vida para aquela família. Apesar disso, ela nunca realmente vai fazer parte daquela realidade. Isso talvez seja o incômodo que perdura mais após o fim dessa produção. Um filme bem planejado, interessante e delicado mas que, apesar de todas as suas qualidades, não cria realmente um grande impacto.

Roma não surpreende ou provoca o desconforto que outras produções mais “potentes” deste ano e que buscavam uma vaga entre os finalistas do Oscar causam. É um belo filme, mas não o considero o melhor desta categoria neste ano. Ainda assim, algo eu tenho que admitir: o filme faz uma bela apresentação da cultura e dos valores mexicanos – inclusive a força de vontade das mulheres, as desigualdades sociais e algumas superstições e costumes. Mas acho que a produção poderia ser um pouco mais curta. Acho que Roma tem trechos realmente dispensáveis – como o incêndio aparentemente provocado após a festa de Réveillon e a cantoria que se segue. Alguns minutos a menos, retirados daqui e dali, fariam bem para a produção.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de Roma, sem dúvida alguma, é a direção de fotografia de Alfonso Cuarón. Além de ter uma direção primorosa, Cuarón também teve um trabalho irretocável na fotografia – valorizada pelo preto e branco. Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar também a edição de Alfonso Cuarón e Adam Gough. Outro item importante para o sucesso de Roma.

Certamente existem diversos textos e materiais que falam sobre o cenário político e social do México no início dos anos 1970. Mas para quem deseja uma leitura rápida, recomendo este texto do site Público e esse artigo sobre o papel dos intelectuais frente àquele cenário repressivo do regime do PRI.

A grande estrela desta produção, sem dúvida alguma, é a atriz Yalitza Aparicio. Ela está perfeita como a protagonista Cleo, uma garota simples, singela, mas muito amorosa e dedicada. Ela simboliza muito bem a mulher “comum” do México. Está perfeita. E o mais interessante: segundo o site IMDb, Roma marca a estreia de Yalitza Aparicio no cinema. Um belo, belo achado do diretor Cuarón, sem dúvida. Ela simboliza muito bem a delicadeza, a simplicidade e a origem indígena de uma parte considerável das mulheres mexicanas.

Além dela, fazem um bom trabalho nesta produção a “patroa” de Cleo, interpretada por Marina de Tavira; a colega de Cleo, responsável pela cozinha da família, interpretada por Nancy García García; o elenco infanto-juvenil que dá vida para os filhos de Sofía, interpretados por Diego Cortina Autrey (Toño), Carlos Peralta (Paco), Marco Graf (Pepe) e Daniela Demesa (Sofi); e a atriz Verónica García, que interpreta à Teresa, mãe de Sofía.

Outros atores fazem papéis menores, mas que também tem a sua relevância – ainda que eles, a meu ver, ficam em um nível de entrega menor que o dos outros atores. Integram esse grupo os atores Fernando Grediaga, que interpreta a Antonio, chefe da família que emprega Cleo; Jorge Antonio Guerrero, que interpreta ao “desajustado” Fermín; José Manuel Guerrero Mendoza como Ramón, “namoradinho” de Adela e parente de Fermín; e Latin Lover como o Profesor Zovek – uma figura que simboliza alguns ídolos mexicanos mas que, francamente, não sei se precisaria estar nesta produção. Talvez a razão dele estar lá é de nos questionarmos quem são os nossos “ídolos” e o que eles representam ou significam.

Roma estreou no final de agosto no Festival de Cinema de Veneza. Depois, até novembro, o filme participou de outros 28 festivais em diversos países antes de estrear na internet em dezembro – Roma é distribuído pela Netflix.

Fiquei me perguntando, por um bom tempo, o porquê do nome Roma para esta produção. Depois é que eu fui descobrir que a história se passa, predominantemente, na vizinhança da “colônia” Roma, na Cidade do México. Aí sim, faz sentido. 😉

Roma é dedicado a Libo, que era a empregada doméstica da família do diretor e na qual ele se baseou para escrever a protagonista desta produção.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. A razão de vários aviões serem vistos na produção é que Cuarón decidiu filmar na Cidade do México e não em um estúdio – e, atualmente, segundo o diretor, um avião passa a cada cinco minutos pelo céu da cidade.

Vale citar algumas falas de Cuarón sobre Roma: “Há períodos na história que cicatrizam as sociedades e momentos na vida que nos transformam como indivíduos. O tempo e o espaço podem nos constranger, mas também nos definem, criando vínculos inexplicáveis com os outros que fluem junto conosco no mesmo tempo e nos mesmos lugares. Roma é uma tentativa de capturar a memória de eventos que eu experimentei há quase cinquenta anos. É uma exploração da hierarquia social do México, onde classe e etnia foram perversamente entrelaçadas nesta data, acima de tudo. Tudo é um retrato íntimo de duas mulheres que me criaram em um reconhecimento do amor como um mistério que transcende o espaço, a memória e o tempo”.

O diretor e roteirista era a única pessoa que conhecia todo o roteiro e a direção que o filme teria. A cada dia ele chegava nas filmagens para entregar para o elenco as linhas do roteiro que seriam filmadas naquele dia. A intenção de Cuarón era surpreender os atores e provocar choque e emoção em cada um deles. Além disso, cada ator recebia orientações e explicações contraditórias, para que houvesse algum “caos” no set a cada dia. Essa ação de Cuarón é explicada com a seguinte frase do diretor: “A vida é exatamente assim: caótica, e você não pode realmente planejar como reagirá sempre em cada situação que ela apresenta”.

Segundo Cuarón, 90% das cenas de Roma representam imagens que ele guardou na sua própria memória. Ou seja, um filme bastante “autobiográfico” ou bastante inspirado nas memórias do diretor, bem ao gosto de Fellini.

Ao apresentar Roma no Festival de Cinema de Nova York, o diretor Guillermo Del Toro disse que o filme de Cuarón é um de seus cinco filmes favoritos de todos os tempos. Deve influenciar bastante para isso o fato de Del Toro ser mexicano também – certamente o filme “bate” diferente para quem nasceu naquele país. Esse mesmo efeito, guardada as devidas proporções, Benzinho (comentado aqui) causou em mim neste ano.

O distrito Roma fica localizado na região Oeste a partir do centro histórico da Cidade do México – caso alguém um dia for para lá e quiser conhecer o local. 😉

Para o filme, Cuarón reuniu 70% dos móveis da sua casa e da residência de familiares para que esses objetivos aparecessem em cena.

De acordo com Cuarón, Roma é o filme “mais essencial” da sua carreira. Cada cena do filme foi gravada no local onde os eventos aconteceram ou em sets que procuraram reproduzir os locais com o maior grau de exatidão possível.

Nos créditos finais do filme, além de agradecer a membros de sua família, Cuarón agradece a nomes do cinema de origem mexicana, como Gael García Bernal, Guillermo Del Toro, Alejandro G. Inãrritu e Emmanuel Lubezki.

Parte da linguagem do filme está no dialeto mixtec. Curioso que o dialeto é falado, essencialmente, pelas mulheres que aparecem na produção – não apenas as empregadas, mas também Sofía.

Pedro Almodòvar considerou Roma como o melhor filme de 2018. A revista TIME também escolheu Roma como o melhor filme do ano, descrevendo ele como “uma ode ao poder da memória, tão íntimo quanto um sussurro e tão vital quanto o rugido do mar”.

De acordo com o roteiro de Roma, a história transcorre entre os dias 3 de setembro de 1970 e 28 de junho de 1971.

Segundo Cuarón, a simbologia de abrir o filme com um avião refletido na água era o de tratar da situação transitória da vida, declarando também que o universo é mais amplo que a vida que os personagens da produção apresentam.

A atriz Yalitza Aparicio, a exemplo de sua personagem Cleo – e da empregada na qual ela é inspirada -, também não sabia nadar.

Dos aspectos técnicos do filme, além da maravilhosa direção de fotografia de Cuarón e da edição dele e de Gough, vale destacar o design de produção de Eugenio Caballero; a direção de arte de Carlos Benassini e Oscar Tello; a decoração de set de Barbara Enriquez; os figurinos de Anna Terrazas e o Departamento de Arte formado por Marcela Arenas, Gabriel Cortes, Ziuhtei Erdmann, Eliud López, Ana Carolina Sánchez Mendoza, Raisa Torres e Marcos Demián Vargas.

Até o momento, Roma ganhou 90 prêmios e foi indicado a outros 122 prêmios – números realmente impressionantes. Entre as indicações, estão incluídas as indicações aos Globos de Ouro de Melhor Roteiro, Melhor Diretor e Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que o filme já recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme e o SIGNIS Award para Alfonso Cuarón no Festival de Cinema de Veneza; e para 34 prêmios de Melhor Filme ou de Melhor Filme em Língua Estrangeira e 20 de Melhor Diretor para Alfonso Cuarón conferidos por diferentes círculos e associações de críticos de cinema dos Estados Unidos e de outros países. Ou seja, esse filme chega super premiado já tanto para o Globo de Ouro quanto para o Oscar em 2019.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Roma, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 287 críticas positivas e 13 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 9,1. As notas dos dois sites para o filme são altas se considerarmos o padrão dos sites. O site Metacritic apresenta o “metascore” 96 para esta produção – fruto de 50 críticas positivas -, assim como o selo “Metacritic Must-see”.

Roma é uma coprodução do México com os Estados Unidos.

No caso de vencer em uma ou mais categorias do Oscar, será que Cuarón fará um discurso político? Com os Estados Unidos sendo governado, atualmente, por um senhor que deseja erguer um muro entre o México e o seu país, acredito que sim. De qualquer forma, seria interessante ver a mais um latino sendo consagrado pelo Oscar. Veremos.

Última crítica de 2018, aproveito esse post para desejar um maravilhoso 2019 para todos vocês, meus queridos leitores e minhas queridas leitoras aqui do blog. Espero que vocês tenham um ano incrível, com muitas alegrias, ótimos filmes e realizações! Abraços e até as críticas de 2019! 😉

CONCLUSÃO: Um filme que nos apresenta duas realidades muito diferentes e que, ao mesmo tempo, se mostram similares em diversos pontos. Roma traz no seu pano de fundo questões fortes do período de ditadura no México, ao mesmo tempo em que retrata com muito cuidado e atenção a intimidade de pessoas de classes sociais muito diferentes que convivem sob o mesmo teto. Essa produção acerta ao retratar uma época de início de empoderamento feminino, assim como de mudança de comportamentos, mas acaba sendo menos impactante ou inovador do que eu esperava.

Uma bela produção, mas que me pareceu um tanto longa demais e sem a carga de novidade de outros filmes que disputam com ela uma vaga no Oscar. Não achei o melhor filme desta categoria até o momento. Está entre as boas pedidas do ano, mas não me impactou como outras produções que buscavam (ou ainda buscam) uma vaga entre os finalistas da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Cinema, para mim, é mais que competência técnica. Um filme tem que apresentar emoção, mexer com o espectador ou inovar. Roma apresenta o primeiro elemento, mas com uma carga menor do que o esperado. Bom, competente, interessante e belo, mas não é excepcional.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Roma parece ter uma forte campanha para chegar forte no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Sim, o filme tem muitas qualidades, mas não acho ele poderoso ou inovador o suficiente para ser considerado o favorito deste ano – que é como ele tem sido apontado até agora.

Dos filmes pré-indicados que eu assisti até o momento, sem dúvida alguma eu achei The Guilty (comentado aqui) mais impactante e inovador. É o meu preferido na disputa, até agora. Burning (com crítica neste link) é menos detalhista e bem acabado que Roma, mas também me pareceu mais impactante e inovador. Apenas Cold War (comentado aqui) pode ser comparado com o filme de Cuarón – não apenas pela fotografia em preto-e-branco mas, em especial, pela história central um tanto “conservadora”.

Conforme comentei neste artigo sobre os filmes que avançaram em nove categorias do Oscar 2019, estou especialmente curiosa para assistir aos filmes da Colômbia, da Alemanha e do Líbano. Quem sabe alguma destas produções ou mesmo o filme dinamarquês na disputa não surpreenda e ganhe do “favorito” Roma? O filme de Cuarón tem o seu valor, mas não me conquistou como eu esperava.

Finalistas em nove categorias do Oscar 2019 – Confira as listas

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O tempo passa, o tempo voa… E já chegamos nos últimos dias de 2018. 😉 Há algumas semanas, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood surpreendeu ao divulgar a lista de longas e de curtas-metragens que avançaram na busca por uma vaga em nove categorias do Oscar 2019.

O bom dessa lista ter saído assim, com antecedência, é facilitar o nosso “trabalho” (e que trabalho bom, diga-se) de conferir a algumas das melhores produções desse ano e que buscam uma estatueta dourada na premiação de 2019. Então que tal dar uma conferida nessa lista e buscar essas produções? Segue a lista e um breve comentário sobre cada uma das produções que avançaram na busca por uma indicação ao Oscar 2019.

Lista dos filmes que avançaram na busca por uma vaga no Oscar 2019

Melhor Documentário:

Inicialmente, 166 longas de documentário foram inscritos e habilitados para buscar uma vaga entre os finalistas nessa categoria no Oscar 2019. Essa lista foi reduzida para 15 filmes na disputa. Os membros da Academia na categoria Documentário foram os responsáveis por fazer essa lista avançar – e eles também serão os responsáveis por apontar os cinco finalistas dessa categoria. Confira quem avançou na disputa:

  • Charm City

Dirigido por Marilyn Ness, Charm City faz um retrato “inesperadamente sincero e observador” sobre as pessoa que ficaram na linha de frente dos três anos de grande violência que marcaram a cidade de Baltimore, nos Estados Unidos. “Com coragem, fúria e compaixão”, um grupo de policiais, cidadãos e funcionários públicos lida com a violência na cidade e buscam uma saída que aponte para o futuro da cidade. Filme com 1h48min de duração.

  • Communion

Fiquei em dúvida sobre esse título porque o único documentário recente com este título é Komunia, filme dirigido por Anna Zamecka e que tem 10 prêmios no currículo. A sinopse do filme é um pouco vaga. Ela comenta que Communion “revela a beleza do rejeitado, a força dos fracos e a necessidade de mudança quando essa mudança parece impossível”. Aparentemente, a produção trata sobre a adoção de crianças e de como nenhuma “falha” é impossível de ser contornada quando o amor faz parte da equação. Interessante. Esse documentário tem 1h12min de duração.

  • Crime + Punishment

Dirigido por Stephen Maing, esse documentário conta a história de um grupo de policiais do Departamento de Polícia de Nova York que “arrisca tudo para expor a verdade sobre as práticas ilegais no departamento de polícia”. Produzido pelo serviço de streaming Hulu, o filme tem uma temática interessante. Esse documentário já conta com nove prêmios no currículo e tem 1h52min de duração.

  • Dark Money

Dirigido por Kimberly Reed, esse documentário tem dois prêmios no currículo e tem uma temática interessante. Autodenominado um “thriller político”, o filme “examina uma das maiores ameaças atuais à democracia americana: a influência do dinheiro corporativo que não pode ser rastreado nas eleições e nas autoridades eleitas”. O documentário busca expor “a verdade chocante e vital de como as eleições americanas são compradas e vendidas”. Gostei da temática – válida para diversos países, diga-se. O filme tem 1h39min de duração.

  • The Distant Barking of Dogs

Dirigido por Simon Lereng Wilmont, este documentário com 1h30min de duração foca a linha de frente da guerra travada no leste da Ucrânia. Mais especificamente, o filme acompanha a vida do garoto ucraniano Oleg, um menino com 10 anos de idade e que vai, pouco a pouco, perdendo a sua inocência por causa das pressões da guerra. Uma história interessante e que, me parece, tem bem o estilo do Oscar. Até o momento, o filme ganhou oito prêmios.

  • Free Solo

Dirigido por Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi, esse filme com 1h40min de duração e 10 prêmios no currículo acompanha de perto Alex Honnold, o homem que se torna a primeira pessoa a escalar sempre sozinha a parede El Capitan, com 3.000 pés de altura, em Yosemite. Sem cordas ou equipamentos de segurança, Honnold completou, segundo os especialistas, o maior feito da escalada.

  • Hale County This Morning, This Evening

Documentário dirigido por RaMell Ross e com 1h16min de duração, esse filme com 11 prêmios se define como uma produção que é “composta por momentos íntimos e sem impedimentos de pessoas de uma comunidade” do Sul histórico dos Estados Unidos. A proposta da produção é produzir uma “impressão emotiva” que valoriza a beleza e as consequências da construção social do Sul americano, com todas as suas questões que envolvem a questão racial desta parte do país. Interessante, especialmente por se tratar de um assunto tão atual e importante.

  • Minding the Gap

Dirigido por Bing Liu, esse documentário com 1h33min de duração e impressionantes 46 prêmios no currículo conta a história de três jovens que se unem para “escapar de famílias voláteis em sua cidade natal, Rust-Belt”. Enquanto esses jovens começam a enfrentar as responsabilidades de adultos, “revelações inesperadas” ameaçam a amizade que eles construíram na última década. Parece uma bela pedida, tanto pela temática quanto pelo número muito relevante de prêmios que essa produção já recebeu.

  • Of Fathers and Sons

Com título original de Kinder Des Kalifats, essa produção com 1h39min de duração é dirigida por Talal Derki, que consegue uma narrativa muito particular ao retornar para a sua terra natal, onde ele ganha a confiança de uma família radical islâmica que, a partir de então, compartilha com o diretor a sua vida diária durante dois anos. Ao conseguir essa proximidade, o realizador consegue uma “visão extremamente rara” sobre o que significa, na prática, crescer em um califado islâmico. Mais uma produção que chama a minha atenção nessa lista. Até o momento, esse filme conta com 13 prêmios no currículo.

  • On Her Shoulders

Filme dirigido por Alexandria Bombach, esse documentário com 1h35min de duração e nove prêmios no currículo conta a história de Nadia Murad, uma Yazidi de 23 anos que sobreviveu ao genocídio e à escravidão sexual praticados pelo Estado Islâmico. Ao contar a sua história, Nadia Murad se sente como a porta-voz do seu povo. Depois que esse documentário foi feito, a ativista dos direitos humanos foi reconhecida como uma das ganhadoras do Prêmio Nobel da Paz de 2018. O filme sobre a sua história é outra boa pedida deste ano.

  • RBG

Dirigido por Julie Cohen e por Betsy West, este documentário com 1h38min de duração e nove prêmios no currículo narra a vida e a carreira da “excepcional Ruth Bader Ginsburg, uma juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos que desenvolveu um legado de tirar o fôlego quando se tornou um ícone inesperado da cultura pop”. Outro filme curioso e que pode servir para uma reflexão interessante para os brasileiros – que tem uma Suprema Corte também bastante atípica.

  • Shirkers

Dirigido por Sandi Tan, esse documentário com duração de 1h36min e cinco prêmios recebidos até o momento tem uma narrativa bastante “intimista”. De acordo com os produtores, o filme conta a história de uma mulher que explora os acontecimentos em torno de uma produção que ela e suas amigas começaram a fazer junto com um “estranho misterioso” há algumas décadas.

  • The Silence of Others

Com o título original de El Silencio de Otros, esse documentário dirigido por Robert Bahar e Almudena Carracedo tem 1h36min de duração e nove prêmios no currículo. O filme revela “a luta épica das vítimas da ditadura que durou 40 anos na Espanha, sob o comando do general Franco, em busca da verdade até hoje”. Filmado ao longo de seis anos, o documentário acompanha os sobreviventes do regime ditatorial em busca de respostas em um país ainda dividido sobre o assunto. Outra produção que parece bastante interessante.

  • Three Identical Strangers

Dirigido por Tim Wardle e com 1h36min de duração, esse filme conta a história de três jovens que são adotados por uma família, nos anos 1980. Eles descobrem, após serem adotados, que eles são, na verdade, trigêmeos que foram separados ao nascer. Procurando respostas sobre as suas origens, eles descobrem a razão de terem sido separados. Até o momento, a produção já recebeu 10 prêmios.

Dirigido por Morgan Neville e com 1h34min de duração, esse documentário é apontado, por muitos, como o favorito na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2019. Até o momento, esse filme ganhou impressionantes 30 prêmios. A produção explora a “vida, as lições e o legado do apresentador icônico da televisão infantil norte-americana Fred Rogers”. A conferir porque essa produção é considerada uma forte concorrente no Oscar 2019.

Melhor Curta Documentário:

Inicialmente, 140 curtas do gênero documentário se qualificaram para concorrer nessa categoria. Desta lista original, os membros da Academia que votam nas categorias de Documentário escolheram 10 curtas que avançaram na disputa – destes, cinco serão selecionados para disputar uma estatueta dourada. Ainda vou fazer um post sobre os curtas que chegarem na reta final da disputa, então deixarei para falar sobre eles mais para a frente. Nesse primeiro momento, vou comentar um pouco mais apenas dos longas.

  • Black Sheep
  • End Game
  • Lifeboat
  • Los Comandos
  • My Dead Dad’s Porno Tapes
  • A Night at the Garden
  • Period. End of Sentence
  • 63 Boycott
  • Women of the Gulag
  • Zion

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

Inicialmente, 87 filmes foram considerados para essa categoria. De acordo com a Academia, os seus membros sediados em Los Angeles primeiro selecionam as inscrições originais entre meados de outubro e o dia 10 de dezembro. Em seguida, as seis melhores escolhas do grupo, acrescidas de três escolhas adicionais feitas pelo Comitê Executivo do Prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira da Academia, formam a lista dos nove filmes que avançam na disputa. Depois desta escolha ter sido feita, os membros da Academia qualificados para participar da rodada de nomeações de votação assistirão aos filmes pré-selecionados. Antes de votar, esses membros devem assistir aos nove filmes “finalistas”. Confira a lista das produções que avançaram na disputa:

  • Birds of Passage (Colômbia)

Com título original de Pájaros de Verano, essa produção made in Colombia é dirigida por Cristina Gallego e por Ciro Guerra. O filme, do gênero Drama, é ambientado durante o período da “bonança da maconha” no país, uma década violenta e na qual a história fica focada em uma família específica: a de Rapayet. Ela e a sua família indígena se envolvem em uma guerra para controlar o negócio da maconha e, nesta tentativa, acabam tendo as suas vidas e a sua cultura destruídas pela violência. A temática e o fato de ser um filme latino chamam muito a atenção. Sem dúvida, vou querer assistir. 😉 Esta produção conta já com 10 prêmios.

Filme bastante interessante que já foi comentado aqui no blog. Como sempre, recomendo que vocês primeiro assistam ao filme antes de ler a crítica. Mas algo posso garantir: esse filme vale o ingresso. Tanto pela temática quanto pela narrativa e o trabalho do protagonista. Com título original de Den Skyldige, esse é um belo trabalho do diretor Gustav Möller. Acredito que o filme tem grandes chances de avançar e ficar entre os cinco finalistas nesta categoria. Estou torcendo para ele chegar lá. Até o momento, o filme ostenta 23 prêmios.

  • Never Look Away (Alemanha)

E a Alemanha, como praticamente em todos os anos, emplacou mais um finalista no Oscar. Isso só demonstra a qualidade do cinema alemão. Com título original de Werk Ohne Autor, esse filme dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck tem três prêmios no currículo e foi indicado ao Globo de Ouro 2019. Considerado um filme dos gêneros Drama, Thriller e Histórico, essa produção foca na história do artista alemão Kurt Barnert. Ele escapou da Alemanha Oriental e, durante a narrativa da produção, vive na Alemanha Ocidental, onde é “atormentado por sua infância vivida sob o regime nazista e a RDA”. Mais uma vez o cinema alemão se debruça sobre temas importantes e que ainda marcam a sua história. Vou querer assistir. 😉

  • Shoplifters (Japão)

Produção japonesa dirigida por Hirokazu Koreeda e com o título original de Manbiki Kazoku, esse filme tem 18 prêmios no currículo e foi indicado ao Globo de Ouro 2019. De acordo com os produtores, a produção dos gêneros Drama e Crime conta a história de “uma família de bandidos de pequeno porte que adota uma criança que eles encontram do lado de fora da casa, no frio”. Parece interessante também. 😉

  • Ayka (Cazaquistão)

Dirigido por Sergei Dvortsevoy, esse Drama com cinco prêmios conquistados até aqui conta a história de “uma mulher pobre e sem emprego que luta para criar o seu filho”. Sim, os produtores do filme foram comedidos e econômicos nas palavras. Mas para um país sem tradição no cinema, como o Cazaquistão, avançar na disputa e deixar outras “escolas” para trás, é porque o filme deve ter muitas qualidades. A conferir.

  • Capernaum (Líbano)

Para muitos, considerado um dos fortes concorrentes deste ano, este filme dirigido por Nadine Labaki já tem 19 prêmios conquistados e ainda foi indicado ao Globo de Ouro. Pertencente à categoria Drama, essa produção, com título original de Capharnaüm, conta a história de um menino de 12 anos que cumpre uma sentença de cinco anos de condenação por causa de um crime violento. Enquanto cumpre a sua pena, o garoto processa os pais por negligência. Vamos combinar que a sinopse é matadora. Estou bem curiosa para assistir a esse filme. E, aparentemente, ele realmente deve chegar entre os cinco finalistas. A conferir se merece a estatueta.

Outro fortíssimo candidato deste ano. Dirigido pelo excelente Alfonso Cuarón, esse Drama ostenta nada menos que 90 prêmios e foi indicado em três categorias do Globo do Ouro – Melhor Roteiro, Melhor Diretor e Melhor Filme em Língua Estrangeira. Se existe um filme que saiu na dianteira na disputa, sem dúvida alguma, é este. A produção foca em um ano da vida de uma empregada doméstica de uma família de classe média da Cidade do México no início dos anos 1970. Será o meu próximo filme. Logo mais conto sobre ele aqui no blog. 😉

Filme recém comentado aqui no blog, essa produção, com título original de Zimna Wojna, marca o retorno à direção do interessante cineasta Pawel Pawlikowski. Muito bonito, com uma direção de fotografia primorosa e com um resgate cultura do folclore polonês muito interessante, esse filme carece apenas de uma história um pouco mais original. Sim, ele é um clássico filme de romance, mas tem uma pegada histórica e crítica interessantes. Dos gêneros Drama, Musical e Romance, essa produção já acumula 21 prêmios – e tem boas chances de chegar entre os cinco finalistas. Mais uma vez, recomendo que assistam ao filme antes de ler a minha crítica – mas nela, vocês encontram tudo que eu achei sobre a produção.

Último filme da lista de pré-finalistas desta categoria do Oscar 2019, esse filme sul-coreano também é um dos mais “diferentões” na disputa – pelo menos entre os que eu assisti até agora. Ele não é óbvio, o que é algo interessante a citar da produção dirigida por Chang-dong Lee. O filme é comentado nesta crítica aqui no blog – veja o filme primeiro e leia a crítica depois. Por ser mais “diferentão”, não sei se este filme terá força para chegar entre os finalistas. Com título original de Beoning, esse filme já ostenta 26 prêmios.

Melhor Maquiagem e Cabelo:

Uma das categorias de menor “relevância” do Oscar, ao menos para o grande público, a categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo teve sete filmes pré-selecionados para a disputa em 2019. De acordo com a Academia, todos os membros que votam nesta categoria, ou seja, maquiadores e cabeleireiros que trabalham para a indústria do cinema, serão convidados a assistir a trechos de 10 minutos dos filmes concorrentes no dia 5 de janeiro de 2019. Depois de conferirem o trabalho dos pré-selecionados, eles vão escolher os três finalistas nesta categoria. Não vou comentar cada filme, mas apenas trazer a relação dos filmes que avançaram nessa disputa. Confira:

  • Black Panther
  • Bohemian Rhapsosy
  • Border
  • Mary Queen of Scots
  • Stan & Ollie
  • Suspira
  • Vice

Melhor Trilha Sonora:

Segundo a Academia, 156 trilhas sonoras estavam elegíveis para esta categoria, mas 15 delas foram selecionadas para avançar na disputa. Os membros que fazem parte do “ramo” Música da Academia votaram para determinar a lista dos finalistas – e eles também vão escolher os cinco que irão realmente disputar a estatueta dourada no ano que vem. Confira os filmes que avançaram na disputa:

Melhor Música Original:

Aqui nós temas a um dos filmes que estão em uma batalha muito pessoal pela consagração no Oscar 2019. Sim, estou me referindo ao “conturbado” (por dividir opiniões) A Star is Born. O filme que, para mim, deveria ser forte concorrente apenas nesta categoria e em Melhor Trilha Sonora – para a qual, para o meu espanto, ele nem chegou a ser indicado -, pode emplacar diversas indicações nas categorias principais. De acordo com a Academia, 90 músicas podiam ser votadas pelos membros participantes do “ramo” Música, mas apenas 15 chegaram a ser pré-finalistas. Os membros da Academia que fazem parte do grupo que vota em Música escolheram essa lista e também vão votar nos cinco finalistas. Confira quem avançou na disputa:

  • “When A Cowboy Trades His Spurs For Wings” (The Ballad of Buster Scruggs)
  • “Treasure” (Beautiful Boy)
  • “All The Stars” (Black Panther)
  • “Revelation” (Boy Erased)
  • “Girl In The Movies” (Dumplin)
  • “We Won’t Move” (The Hate U Give)
  • “The Place Where Lost Things Go” (Mary Poppins Returns)
  • “Trip A Little Light Fantastic” (Mary Poppins Returns)
  • “Keep Reachin” (Quincy)
  • “I’ll Fight” (RBG)
  • “A Place Called Slaughter Race” (Ralph Breaks the Internet)
  • “OYAHYTT” (Sorry to Bother You)
  • “Shallow” (A Star Is Born)
  • “Suspirium” (Suspiria)
  • “The Big Unknown” (Widows)

Melhor Curta de Animação:

Inicialmente, essa categoria tinha 81 curtas de animação classificados para concorrer entre si. Desta lista, restaram 10 filmes que avançaram na disputa. Os membros das “seções” de curtas-metragens e de animação votaram tanto para escolher essa lista quanto a dos finalistas na categoria. A exemplo da outra categoria de curtas, vou produzir um post sobre os concorrentes depois deles terem sido anunciados. Por enquanto, confira quem avançou na disputa:

  • Age of Sail
  • Animal Behaviour
  • Bao
  • Bilby
  • Bird Karma
  • Late Afternoon
  • Lost & Found
  • One Small Step
  • Pépé le Morse
  • Weekends

Melhor Curta:

No início, 140 curtas foram qualificados para concorrer nessa categoria. Desta lista, 10 avançaram na disputa. Tanto os membros das “seções” curtas-metragens quanto longas de animação votaram para determinar essa lista e também para escolher as produções que farão parte da lista final dos indicados. Confira as produções que avançaram:

  • Caroline
  • Chuchotage
  • Detainment
  • Fauve
  • Icare
  • Marguerite
  • May Day
  • Mother
  • Skin
  • Wale

Melhores Efeitos Visuais:

Fechando a lista das nove categorias que tiveram produções divulgadas como pré-finalistas, chegamos a essa relação. De acordo com a Academia, o Comitê Executivo do Ramo de Efeitos Visuais determinou a lista de finalistas. Agora, no dia 5 de janeiro de 2019, todos os membros desse “ramo” serão convidados a assistir a trechos de 10 minutos dos filmes pré-selecionados para, após as exibições, escolher os cinco filmes que realmente serão votados nessa categoria do Oscar. Eu assisti a alguns dos concorrentes, como vocês podem ver abaixo, e é natural que os filmes de super-heróis dominem nessa categoria, mas acho que tanto First Man quanto Solo deveriam avançar na lista dos finalistas. Veremos. Confira quem avançou na disputa:

A votação dos indicados ao Oscar 2019 começa no dia 7 de janeiro de 2019 e termina no dia 14 do mesmo mês. Os indicados ao Oscar serão anunciados no dia 22 de janeiro. Até lá, bóra ver ao máximo de filmes destas listas – ao menos nas categorias Documentário e Filme em Língua Estrangeira. Até breve. 😉