All The Money in the World – Todo o Dinheiro do Mundo

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Quanto mais uma pessoa mesquinha tem, mais ela quer ter. Alguém já disse que para um rico ser rico, ele deve realmente se importar com cada centavo. Não gastar à toa nunca. Sempre pechinchar. Mas essa ânsia por dinheiro e pelo poder derivado dele ganhou um novo significado com o sobrenome dos protagonistas de All The Money in the World. Um filme que mostra como o dinheiro destrói e não significa nenhuma grandeza, muito pelo contrário. Apesar de ser uma produção interessante, All The Money in the World está muito longe de ser um dos melhores filmes do diretor Ridley Scott.

A HISTÓRIA: Inicia afirmando que é inspirada em “acontecimentos reais”. Roma, 1973. Vemos a uma rua movimentada, cheia de carros e de pessoas, em uma sequência em preto e branco. Pouco a pouco, a câmera se aproxima de “Paolo”, que é a maneira como Paul (Charlie Plummer) se apresenta para quem pergunta o seu nome.

A imagem se enche de cores, como se Paul enchesse o ambiente de vida. Ele passa por um restaurante, por uma fonte, e chega até um grupo de prostitutas. Ela mexem com ele, mas ele não fica com nenhuma. Caminhando um pouco mais, Paul é sequestrado. Nesse momento começa o drama do neto do “homem mais rico do mundo”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All The Money in the World): A minha motivação principal para ver a esse filme, como estou na temporada do Oscar, foi a indicação do ator Christopher Plummer na categoria Melhor Ator Coadjuvante. Mas essa não foi a única razão.

As minhas outras motivações é que essa produção tinha a direção de Ridley Scott, um diretor que eu admiro e que eu gosto de acompanhar, e também porque ela tinha estreado no cinema em que eu sempre vou – o do Beiramar Shopping, em Florianópolis. Então, quanto tive oportunidade de assistir a essa produção, o que ocorreu apenas nessa semana, eu fui lá conferir All The Money in the World.

O que dizer sobre essa produção? Ela até começa bem, com uma reflexão do protagonista, John Paul Getty III, interpretado por Charlie Plummer, sobre a história do avô, J. Paul Getty (Christopher Plummer). Honestamente? Aquela introdução do filme é a melhor parte da história. Como quando Getty III diz que, apesar da família dele parecer com qualquer um de nós – ou seja, ser feita de carne e osso, mortal como qualquer outro -, eles só pareciam ser como qualquer outra pessoa. Porque eles eram feito de um “outro elemento”.

A questão fundamental nesse filme é que temos um sujeito que conquistou “todo o dinheiro do mundo” mas que não sabe abrir mão de nada do que possui. Ou do que acredita que possui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quando sequestram um de seus netos, Getty não pensa em momento algum em pagar o resgate – ao menos na fase inicial do crime. Primeiro, porque ele acredita que se pagar o sequestro desse neto, outros sequestros virão… e a família dele não terá paz nunca mais na vida.

Aparentemente, esse pensamento não é tão absurdo. Mas conforme a “investigação” – se é que ela pode ser chamada assim – sobre o que aconteceu com o neto não avança, Getty passa a ser ainda mais pressionado pela mãe do jovem, Gail Harris (Michelle Williams) e até admite pagar o resgate, desde que ele possa deduzir aquela quantia – muito, mas muito menor do que os US$ 17 milhões que os sequestradores pediram originalmente – do Imposto de Renda.

Ou seja, no fundo, ele não estava “desembolsando” nada para resgatar o neto, apenas dando uma quantia de dinheiro que obrigatoriamente teria outra finalidade – o pagamento de impostos. Conforme o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, avança, vemos como Getty lida com o dinheiro. Ele nunca perde um centavo. Muito pelo contrário. Vive gastando em obras de arte caras, mas nunca fecha um negócio sem pechinchar bem antes.

Ele não sabe perder e não sabe ceder. Está acostumado a multiplicar a sua fortuna e tem toda a atenção do mundo para a cotação da bolsa de valores – mas, aparentemente, tempo algum para relações verdadeiras. Vemos Getty em poucas interações com pessoas da família – e, estranhamente, apesar dele ter tido algumas esposas, filhos e netos, não vemos mais ninguém da família dele. Parece que ele vive de forma bastante solitária – ao menos segundo o filme.

É uma pena que a história não seja realmente bem desenvolvida. Temos um “ir e vir” no tempo na parte inicial do filme para explicar um pouco da origem da fortuna dos Getty e também a relação “carinhosa” entre Getty III e o seu avô – assim como a de Getty com o filho e a ex-nora. Acho que All The Money in the World até poderia ser mais interessante se o roteiro tivesse explorado um pouco mais a história dos personagens e as suas relações.

Isso acontece só no começo, e é uma pena. Depois, essa produção abraça a velha premissa do filme de “ação”, com toques de suspense e de filme policial para contar o desenrolar do sequestro de Getty III. Grande parte daquele desenrolar da ação é previsível, incluindo na previsibilidade a corrupção policial, que vivia “nas mãos” da máfia italiana, e a resistência do “homem mais rico do mundo” de perder qualquer dinheiro com o resgate de um de seus 14 netos.

Achei o roteiro bastante fraco e previsível. Como eu disse, Scarpa perdeu uma boa oportunidade de explorar melhor as características de cada personagem e as relações que eles tinham entre si. No final do filme, temos uma questão em que pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Getty III é resgatado, simultaneamente, o seu avô morre em casa “devaneando” e abraçado em uma de suas obras de arte. Quem assume a administração da fortuna dele, porque os herdeiros ainda são menores de idade, é Gail Harris.

Naquele momento, Gail descobre que Getty, na verdade, tinha colocado algumas regras na administração dos seus bens. Em teoria, ele não poderia gastar o dinheiro que tinha, só podia aplicá-lo em algo que fizesse aquele dinheiro ser multiplicado. Por isso ele investia tanto em obras de arte.

Mas aí, duas questões acabam não sendo explicadas na produção quando Oswald Hinge (Timothy Hutton) comenta isso com Gail: primeiro, essa regra de “não gastar, apenas multiplicar a fortuna” deveria ter limites, até porque as diversas propriedades de Getty exigiam um custo fixo, e ele próprio tinha as suas necessidades de consumo; depois, Getty acabou enviando mais do que o US$ 1 milhão que poderia deduzir do Imposto de Renda para pagar o resgate do neto.

Ainda que não fosse muito a mais, era mais do que ele poderia deduzir do Imposto de Renda… em teoria, ele estava gastando e não aplicando o dinheiro que tinha. Como ele conseguiu fazer isso se ele tinha que “seguir” aquela regra de não gastar? E afinal, se ele era bilionário, foi ele que colocou essa regra… ele também não poderia derrubá-la? Achei essa questão muito mal explicada no filme – ela tenta justificar os atos de Getty, mas me pareceu um bocado sem sentido.

Enfim, All The Money in the World cai no lugar-comum e um bocado previsível de que o dinheiro não traz felicidade e muito menos a proximidade ou a segurança das pessoas que você ama. Alguém como Getty, que é apegada demais ao seu dinheiro e tem pouco – ou nenhum – interesse nas pessoas, mesmo que elas sejam da família, vive uma vida mesquinha e que, afinal, o levou a que? A uma vida de cobiça, de contar dinheiro, ignorar pessoas e viver sozinho.

Triste existência. Se o dinheiro existe para algo, é para dar boas oportunidades para as pessoas. Simplesmente ser acumulado ou multiplicado não leva a nada de bom. Muito pelo contrário. All The Money in the World fala sobre isso de uma forma um tanto tediosa. Apesar de bem conduzido e de ter boas atuações do elenco, o filme carece de um roteiro melhor e de um sentido de ser menos óbvio e pobre. Como eu disse, está longe de ser um dos melhores trabalhos do diretor Ridley Scott. Espero que ele tenha mais sorte e melhor gosto da próxima vez.

Se pensarmos no desfecho da história, o mérito maior pela sobrevivência e resgate de Getty III não foi da mãe dele, do “pagamento” autorizado pelo avô ou do trabalho do ex-espião Fletcher Chase (Mark Wahlberg). O grande responsável pela sobrevivência do rapaz acabou sendo o único sequestrador que se manteve junto dele até o final, Cinquanta (Romain Duris). Ele se compadeceu do rapaz, provavelmente pensando nele como um filho, e acabou ajudando ele sempre que possível.

Ou seja, alguns bandidos são mais bonzinhos e bacanas do que muitos ricaços. Seria essa a filosofia “subversiva” dos realizadores de All The Money in the World? 😉 Claro, há pessoas boas em todas as partes – e cretinos também. Então não acho impossível um sequestrador italiano nos anos 1970 se mostrar solidário ao rapaz “sensível”, quieto e “comportado” que foi sequestrado. Impossível não é, apenas improvável.

Assim como um “ex-espião” e principal responsável pela segurança de um ricaço como Getty ser tão pouco eficaz como Chase se revela nessa produção, também parece um tanto “forçado”. Mas sim, ele nunca impede que a polícia italiana troque os pés pelas mãos ou consegue, de fato, investigar algo com eficiência para chegar no paradeiro de Paul. A única utilidade de Chase parece ser mesmo apoiar Gail, porque nem ele e nem a polícia italiana consegue chegar no paradeiro do sequestrado antes dos bandidos jogarem todos os seus dados.

Além de não ser muito bem desenvolvido, o roteiro de All The Money in the World mostra essas características um pouco difíceis de acreditar na prática. E vocês sabem, não é porque um filme diz que é “inspirado em acontecimentos reais” que ele traz, realmente, grande fidelidade aos fatos. Tanto isso é verdade que All The Money in the World mostra Getty morrendo na mesma noite em que o neto é resgatado, e isso não aconteceu. Getty foi morrer três anos depois daqueles fatos, ou seja, em 1976. Antes, ele recusou-se a receber uma ligação de agradecimento do neto.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não tenho nada contra filmes que “vão e vem” na linha temporal para contar uma história. Mas achei que as viagens no tempo de All The Money in the World foram feitas de forma muito rápida, um tanto “intempestiva” demais no início do filme.

Saímos de 1973, quando o sequestro de Paul aconteceu, para voltar para 1964, em Nova York, quando os pais de Paul decidem dar uma cartada para se aproximarem do patriarca bilionário e, por um rápido momento, para a década de 1940, quando Getty começa a fazer a sua fortuna ao explorar o petróleo na Arábia Saudita. Esses retorno no tempo, volto a dizer, muito rápidos. Facilmente eles poderiam ter sido explorados melhor e toda a historinha dos sequestro ter sido um bocado resumida – até porque, convenhamos, ela não tem nada demais.

Ridley Scott entende muito bem do seu ofício. Então ele faz um bom trabalho na condução dessa história. Mas ele não faz nada além do esperado. Para mim, o ponto fraco mesmo é o roteiro de David Scarpa. Entre os aspectos técnicos do filme, talvez a direção de fotografia de Dariusz Wolski é o que se destaque positivamente. Achei a trilha sonora de Daniel Pemberton um tanto dramática demais. Outros aspectos que vale citar: a edição de Claire Simpson; o design de produção de Arthur Max; a decoração de set de Letizia Santucci; e os figurinos de Janty Yates.

O personagem de Getty é um clássico da “vida real”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele nasceu para fazer dinheiro e fazer negócios. Para tirar o melhor proveito de cada situação. Ele não nasceu para ter uma família. Ainda assim, como diz o neto dele que foi sequestrado, Getty queria fazer uma “dinastia”. Para isso, claro, ele precisava ter herdeiros. Mas isso também fazia parte do orgulho dele.

Getty queria ser reconhecido por ser o mais rico – ou um dos mais ricos – do mundo e queria que os seus herdeiros seguissem com o sobrenome. Mas ele, de fato, parecia não se importar com ninguém. Qual é o sentido de tudo isso, afinal de contas? Nenhum, é claro. Não faz sentido.

O que falar do elenco de All The Money in the World? Até eles – a maioria, ao menos – parecem não acreditar muito na história do filme. Os destaques positivos são mesmo Christopher Plummer e Michelle Williams. Ambos fazem um trabalho em que você acredita no que eles estão apresentando. Outros nomes já estão um bocado “sem sal” e/ou um tanto robóticos. Esse é o caso de Charlie Plummer e de Mark Wahlberg. Romain Duris está bem como Cinquanta, mas o seu personagem parece um tanto exagerado…

Os demais atores envolvidos no projeto realmente tem uma importância muito menor. Todos estão razoáveis, a meu ver. Vale comentar o trabalho de Timothy Hutton como Oswald Hinge, advogado de Getty; Charlie Shotwell como John Paul Getty III aos sete anos de idade; Andrew Buchan como John Paul Getty II, pai do jovem sequestrado; Marco Leonardi como Mammoliti, o mafioso que “compra” Paul após os sequestradores originais não conseguirem avançar com a missão de receber o resgate; Giuseppe Bonifati como Giovanni Iacovoni, advogado de Gail; Nicolas Vaporidis como Il Tamia “Chipmunk”, um dos sequestradores – o primeiro a morrer; e Andrea Piedimonte Bodini como Corvo, outro participante do sequestro.

All The Money in the World estreou no dia 18 de dezembro de 2017 em première em Los Angeles. O filme não participou de nenhum festival. Estreou no Brasil no dia 1º de fevereiro de 2018.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Como vocês devem saber, Hollywood passa por uma saudável “devassa” das práticas ignóbeis de alguns “figurões” da indústria cinematográfica que usavam o seu poder para abusar/forçar relações com mulheres e homens que fazem parte do cinema – especialmente atrizes e atores. Um dos nomes envolvidos nesses escândalos foi o de Kevin Spacey, que passou a ser “banido” de eventos e produções. Ele tinha feito o papel de Getty, mas acabou sendo cortado do filme e substituído por Plummer.

Admito que no início do filme, especialmente, fiquei imaginando Spacey no papel de Getty. Mas isso foi só no início, porque o belo trabalho de Plummer logo me fez pensar nele e prestar atenção em sua interpretação – a partir daí, esqueci totalmente de Spacey. Na boa? Com todo o respeito ao que ele já fez, mas ele não faz falta não.

As refilmagens das cenas de Getty com Plummer demoraram oito dia para serem feitas e custaram US$ 10 milhões. Esse trabalho significou também o retorno de Michelle Williams e Mark Wahlberg para Roma, para que eles pudessem contracenar com Plummer, no feriado de Ação de Graças de 2017.

A Sony e a equipe de produção do filme decidiram, por unanimidade, substituir Spacey por Plummer quando faltava pouco mais de um mês para a estreia da produção. Ou seja, tiveram que correr para fazer a troca, mas certamente foi a escolha certa a se fazer. Spacey se queimou, aparentemente, para sempre na indústria do cinema.

Plummer disse que estava preparado para fazer Getty depois que Spacey foi retirado do projeto porque ele tinha sido considerado, antes, para o papel e, por isso, conhecia os roteiros. Além disso, Plummer conheceu pessoalmente Getty, frequentando algumas de suas festas promovidas em Londres nos anos 1960.

Angelina Jolie foi a primeira atriz convidada para fazer Gail Harris, mas ela recusou o papel. Depois, Natalie Portman chegou a ser anunciada como a atriz que faria esse papel, mas ela acabou pulando fora do projeto por causa da sua segunda gravidez. Foi aí que entrou em cena Michelle Williams.

Ainda que Christopher e Charlie tenham o mesmo sobrenome, Plummer, eles não são parentes. Bom para Christopher Plummer, porque achei Charlie muito, muito fraquinho.

Além do fato que eu citei sobre a morte de Getty, o filme tem outras “liberdades poéticas” consideráveis. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No filme, o pai de Paul não se envolve nas negociações para resgatar o filho. Mas não foi isso que aconteceu na vida real, onde ele insistiu com o pai para pagar o resgate e participou das negociações – não foi apenas Gail que fez isso. Depois, Paul foi espancado e torturado com bastante frequência no cativeiro – o que o filme não mostra. Após o fim do sequestro, Paul foi encontrado na beira de uma estrada por um motorista de caminhão – ou seja, não houve nenhuma perseguição dos bandidos e da polícia em uma vila italiana. Esses aspectos, assim como a morte de Getty, foram mudados no filme e, para o meu gosto, sem muita razão de ser.

All The Money in the World foi indicado para nove prêmios, mas não ganhou nenhum até agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 149 textos positivos e 44 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média 7. No fim, sem querer, acabei acompanhando tanto a votação do público quanto da crítica – juro que eu dei a minha nota antes de ver essas outras avaliações.

All The Money in the World faturou US$ 24, 9 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 21,3 milhões nos outros países em que estreou até o dia 15 de fevereiro. Ou seja, no total, fez pouco menos de US$ 46,2 milhões – um valor relativamente baixo, especialmente porque o filme deve ter custado muito mais que isso.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre os Getty, acho que vale dar uma olhadela nessa matéria do G1 que tratou da morte de John Paul Getty III em 2011 e esse resumão da trajetória de Getty disponível na Wikipédia.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, ele atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – quando vocês me pediram para comentar filmes desse país.

CONCLUSÃO: Antigamente, quando eu dava uma nota 7 para um filme, isso queria dizer que eu não tinha gostado muito do que eu tinha visto. Hoje, a nota 7 representa exatamente o que ela quer dizer quando estamos no colégio. Ou seja, sim, o filme tem méritos para “passar de ano”. Mas não, ele não está acima da média ou mesmo apresenta algum grande diferencial. É apenas mediano. Esse é bem o caso de All The Money in the World. Sim, os atores estão bem.

Viajamos um bocado para cá e para lá porque a história exige isso. Temos uma bela reflexão sobre mesquinharia e sobre o quanto uma pessoa abastada pode ser pobre de espírito. Mas isso é tudo. Nada demais no “reino da Inglaterra”. Você já viu a filmes que tratam sobre a falta de noção e de generosidade dos mais ricos. Essa história, apesar de não ser muito interessante ou surpreendente, ganha uns pontos por ser baseada em fatos reais. Mas isso é tudo. Um filme mediano, com bons atores, mas que não vai lhe agregar nada, realmente. Há opções bem melhores no mercado. Mas se você gosta do diretor ou dos atores, não vai sofrer ao assisti-lo.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Honestamente, esse filme não tem chance alguma na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. All The Money in the World está concorrendo apenas na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. De fato, Christopher Plummer é um dos elementos de destaque da produção. Mas ele não tem chances contra o favoritíssimo Sam Rockwell, de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (com crítica nesse link).

De fato, para mim, os melhores atores coadjuvantes desse ano, ao menos entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar, são Sam Rockwell e Richard Jenkins (de The Shape of Water, comentado por aqui). Mas deve ser o primeiro a ganhar o prêmio – até porque ele tem “papado” tudo nessa temporada, inclusive o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards. Ou seja, favoritíssimo. Plummer corre totalmente por fora e seria um pouco uma zebra se ele levasse.

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Curtas Documentário Indicados ao Oscar 2018 – Avaliação

Olá amigos e amigas do blog!

Como manda a tradição dos últimos anos da cobertura do Oscar feita aqui no blog, vale a pena falarmos também sobre os curtas que concorrem em três categorias da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Vou seguir, nesse ano, a ordem de divulgação dos indicados feita pela própria Academia. Assim, começo comentando sobre os filmes indicados na categoria Melhor Curta Documentário.

As bolsas de apostas já apontam os favoritos, mas a verdade é que nessa categoria, assim como na de Melhor Filme em Língua Estrangeira, o palpite dos apostadores é mais no “chutômetro” do que realmente baseado em chances reais de premiação. Ainda assim, vale falar também sobre como cada um destes curtas está sendo encarado pelos apostadores.

Vale lembrar que o Oscar 2018, que representa a 90ª premiação da Academia, será promovido esse ano no primeiro domingo de março – ou seja, no dia 4. Ou seja, estamos mais próximos do que nunca de saber quais destas produções sairá ganhando na disputa.

Eu sou uma incentivadora de curtas. Afinal, grande parte dos diretores que admiramos hoje em dia, começaram exatamente com essa modalidade de filmes. E grandes histórias podem ser contadas em curtas. Então vamos dar uma olhada no que temos esse ano na disputa da estatueta dourada na categoria de Curtas Documentário? Bóra lá!

1. Edith+Eddie

Achei a premissa desse curta muito, muito bacana. A diretora Laura Checkoway, que tem apenas três títulos no currículo como diretora, conta, nesse curta de 29 minutos, a história de Edith e de Eddie. Eles tem, respectivamente, 96 e 95 anos de idade, e são conhecidos por serem o casal de recém-casados inter-racial mais velho dos Estados Unidos.

O resumo do filme diz que a história de amor deles está ameaçada por suas respectivas famílias, que querem separá-los. Me pareceu muito interessante o filme porque ele não apenas trata do amor na velhice, e sobre a capacidade do ser humano de amar e de se reinventar durante a vida inteira, mas também aborda uma questão que parece nunca ter fim nos Estados Unidos – e em outras partes do mundo: o preconceito racial.

Esse é um tema muito vivo naquele país e que sempre rende filmes muito interessantes. Encontrei no YouTube o filme na íntegra – mas não sei por quanto tempo ele ainda estará disponível. O que me chamou muito a atenção, assistindo à essa produção, é a delicadeza e o respeito que a diretora tem pelos protagonistas de seu filme.

Edith e Eddie são mostrados em sua intimidade, começando pelo momento em que eles aparecem dançando em um dos tantos bares de música country do país, e passando para o momento em que eles estão dormindo juntos, lado a lado. Na introdução do filme, a diretora nos conta que eles se conheceram há 10 anos, em uma fila da loteria no Estado da Virginia.

Muito bacana ver aquela cena deles dormindo, com um urso de pelúcia junto com o casal na cama, e o retrato do casal na estante. Cenas de um cotidiano de pessoas reais, que descobriram que o amor é puro companheirismo. A questão é que nem tudo são flores, e eles, que já passaram por tanto na vida – só eles sabem o quanto -, ainda tem que, com toda aquela idade, enfrentar o preconceito – racial e de idade também, porque ambos existem.

Achei interessantíssimo o filme. Não apenas pelas temáticas que ele trata, que são muito atuais – e acho que serão por um longo tempo ainda -, mas pela forma com que a diretora conseguiu adentrar na intimidade do casal e valorizá-la com muita delicadeza e respeito.

Mas a história não tem um final feliz – desculpem o spoiler. E assim, sem firulas, a diretora nos faz questionarmos algo que poucos estão preparados para responder: até que ponto os filhos devem interferir na vida dos pais quando eles já estão com bastante idade e nem sempre capazes de fazer a melhor escolha com consciência? Essa não é uma resposta fácil, mas, sem dúvida alguma, o valor que deveria ser colocado na frente de outros não deveria ser o dinheiro ou a herança, mas o que a pessoa gostaria de ter feito antes de perder totalmente a capacidade de escolher.

Nas bolsas de apostas, Edith+Eddie é o favoritíssimo para ganhar a estatueta dourada do Oscar 2018. Mas essa não é a opinião de alguns críticos. Jude Dry, da IndieWire, por exemplo, nesse texto em que ele analisa os concorrentes, deu a menor nota para Edith+Eddie (C+). Nesse outro texto, da Slant Magazine, Ed Gonzalez comenta os curtas indicados nessa categoria e diz que Edith+Eddie pode ganhar a estatueta, mas que o favorito é Heroin(e).

Com um background como jornalista, Laura Checkoway estrou com o documentário Lucky em 2014. Depois, em 2016, ela lançou o curta Wolffland. Ou seja, Edith+Eddie é apenas o seu terceiro título – e o primeiro curta documentário. Até o momento, Checkoway tem sete prêmios no currículo. Destes prêmios, seis foram dados para Edith+Eddie – incluindo o prêmio de Melhor Curta no Prêmio da Associação Internacional de Documentários.

Sempre vale comentar a opinião do público e da crítica. Edith+Eddie tem a nota 7,3 no IMDb – mas ainda não tem avaliações no Rotten Tomatoes. Abaixo, eu deixo o curta na íntegra e, na sequência, o trailer do filme – afinal, eu não sei por quanto tempo o curta estará disponível no YouTube.

 

 

 

2. Heaven Is a Traffic Jam on the 405

Esse curta com 40 minutos de duração dirigido por Frank Stiefel conta a história de Mindy Alper, uma “torturada e brilhante artista de 56 anos de idade que é representada por uma das melhores galerias de Los Angeles”. Segundo a nota de apresentação do curta comenta, a protagonista desta história sofreu com “ansiedade aguda, transtorno mental e uma depressão devastadora”.

Esses problemas fizeram com que Mindy Alper passasse por instituições de tratamento para pessoas com transtornos mentais, onde ela passou por terapia de eletrochoque e por outros tratamentos que fizeram com que ela ficasse 10 anos sem falar. Detentora de uma grande auto-consciência, a artista produziu uma trajetória artística em que ela pode expressar todo o seu estado emocional com grande “precisão psicológica”.

Ainda segundo os produtores desse curta, Heaven Is a Traffic Jam on the 405 utiliza entrevistas, reconstituições, mostra a a construção de um busto feito em papel machê de oito pés (xx metros) que reconstituí o “amado psiquiatra” da artista e revela o talento dela através de desenhos que ela fez desde a infância para apresentar o retrato mais completo de Mindy Alper.

Dessa forma, segundo as notas da produção, o curta mostra como a artista retratada “emergiu da escuridão e do isolamento para uma vida que inclui amor, confiança e apoio”. Bastante interessante a premissa, não? A exemplo de Edith+Eddie, encontrei esse curta na íntegra também no YouTube – vamos ver até quando.

Gostei muito do começo, da forma com que o diretor Frank Stiefel mostra uma situação que pode irritar muita gente, que é o trânsito, e como ele é visto com prazer pela artista. Aliás, logo o filme se debruça sobre a forma de falar e de pensar de Mindy Alper. Gostei da trilha sonora e da pegada do curta. E aquele início já explica o título da produção. Em seguida, mergulhamos na arte da protagonista, assim como na sua história.

Segundo as bolsas de apostas para o Oscar, essa produção estaria em segundo lugar na disputa pela estatueta dourada da Academia. Na avaliação de Jude Dry, do site IndieWire, Heaven Is a Traffic Jam on the 405 empata com Traffic Stop com a melhor nota entre os concorrentes: A-. Segundo Dry, o filme de Stiefel tem muitas camadas e conta uma fascinante história em que a arte é a sobrevivência de uma pessoa.

O crítico também destaca como Stiefel “apimenta” a produção com os desenhos dinâmicos da artista, valorizando, assim, tanto a sua história de superação quanto a sua arte. Por sua parte, Ed Gonzalez, do site Slant Magazine, afirma que Heaven Is a Traffic Jam on the 405 é o filme que “deveria ganhar” o Oscar, mas ele aponta que essa produção não deve levar a estatueta.

O curta Heaven Is a Traffic Jam on the 405 é o segundo trabalho de Frank Stiefel como diretor. Antes, ele filmou apenas ao curta documentário Ingelore, em 2009. A carreira maior de Stiefel é como produtor. Com Heaven ele conseguiu a sua primeira indicação ao Oscar – a exemplo de Laura Checkoway, diretora de Edith+Eddie.

Heaven conquistou, até o momento, quatro prêmios. Entre eles, os prêmios do público e do júri como Melhor Curta Documentário no Festival de Cinema de Austin e os mesmos prêmios no Full Frame Documentary Film Festival. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme – ainda não existem avaliações sobre essa produção no Rotten Tomatoes.

Achei a premissa e a “pegada” de Heaven bastante interessantes. Afinal, os artistas sempre precisam de uma boa plataforma para contar as suas histórias, e é sempre bacana ver alguém que passou por maus bocados, inclusive em questões psiquiátricas, conseguindo dar a volta por cima e tendo a arte como aliada para dar vasão para os seus sentimentos, pensamentos e desejos.

Porque todos, não importa pelo que eles passaram, merecem ser ouvidos, compreendidos e amados. Todos. Sem exceção. Gosto muito de filmes que valorizam as histórias de quem normalmente parece não ter vez. Esse me parece ser um filme com essa proposta. A exemplo do curta anterior, deixo por aqui também o curta que eu encontrei na íntegra, no YouTube e, na sequência, o trailer dele (afinal, não sei por quanto tempo o curta estará disponível na íntegra). Vale conferir ambos:

 

 

 

3. Heroin(e)

Com 39 minutos de duração, Heroin(e) conta a história de “três mulheres que lutam para quebrar o ciclo de uma vida, uma por vez”. Olhando dessa forma, essa descrição dos produtores parece bastante genérica, não é mesmo? Mas se pensarmos no título do curta, fica mais fácil de pensar sobre que “ciclo” estamos falando.

Classificado com a nota B+ pelo crítico Jude Dry, do site IndieWire, Heroin(e) traz um “retrato expansivo de uma cidade da Virgínia Ocidental envolvida em um epidemia de opióides” e que tem a sua narrativa conduzida por três mulheres “infatigáveis” na luta contra essa epidemia de drogas.

As protagonistas dessa história são a Chefe do Corpo de Bombeiros Jan Rader, que “gasta os seus dias revivendo viciados que caíram em overdose”; a juíza Patricia Keller, que tem um programa de reabilitação na corte que trata esses casos com humor e uma certa carga de amor; e a missionária Necia Freeman, do Brown Bag Ministry, que alimenta e aconselhas as mulheres que vendem os seus corpos para conseguir as drogas.

Na avaliação de Dry, a escolha da diretora Elaine McMillion Sheldon em seguir três mulheres para contar essa história da luta de uma cidade contra a epidemia de drogas é uma “grande vantagem” porque o espectador acaba ficando envolvido com as suas histórias e tem um retrato mais humano e completo da cidade com características industriais. Para o crítico, Heroin(e) é um retrato convincente de uma cidade dos esquecidos “Apalaches” e das mulheres que a mantêm.

Na avaliação do crítico Ed Gonzalez, do site Slant Magazine, Heroin(e) deve ganhar o Oscar na categoria Melhor Curta Documentário. Entre os apostadores, esse curta é apenas o terceiro na lista de preferência. Se olharmos pela nota do filme no IMDb (6,8) e pelo número de prêmios que ele recebeu – nenhum, até agora -, sem dúvida Heroin(e) corre atrás dos outros dois curtas citados anteriormente.

Mas como nada disso define o Oscar, realmente vamos precisar esperar para ver como Heroin(e) se sairá na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Heroin(e) é o sétimo projeto da diretora Elaine McMillion Sheldon. Ela estreou em 2011 com o documentário Lincoln County Massacre e, depois, lançou outros dois documentários antes de dirigir dois curtas documentário e um curta que antecederam a Heroin(e).

Apesar de ter uma trajetória reconhecida, com Heroin(e) ela conquistou a sua primeira indicação ao Oscar. Diferente dos outros dois curtas, que encontrei na íntegra no YouTube, dessa produção eu achei apenas o trailer. Mas por ser uma produção da Netflix, esse curta documentário esteja disponível para ser visto nesse serviço de streaming diretamente para quem tem uma assinatura. Deixo, abaixo, apenas o trailer do curta:

 

 

4. Knife Skills

Dirigido por Thomas Lennon, esse curta com 40 minutos de duração acompanha o “agitado lançamento” do restaurante Edwins na cidade de Cleveland, Estados Unidos. O restaurante é quase todo formado por homens e mulheres que saíram da prisão. O objetivo do negócio é que ele seja conhecido com um restaurante francês de classe mundial.

O desafio do negócio é treinar a equipe que faz parte do restaurante para atender às grandes expectativas dos clientes, já que a maior parte das pessoas contratadas nunca tinha cozinhado antes ou trabalhando em um negócio desse ramo. Para que o Edwins estreie da forma desejada, esse grupo de iniciantes passou dois meses aprendendo tudo que eles podiam sobre um restaurante com esse perfil.

De acordo com o texto de divulgação do curta, “nesse cenário improvável”, o espectador descobre os desafios dos homens e mulheres contratados para oferecer pratos deliciosos com seu “arcabouço de vocabulário francês”. No curta, o espectador vai conhecer de forma mais íntima três estagiários, assim como o fundador do restaurante – ele próprio assombrado com o seu tempo de prisão.

Da minha parte, achei a história dessa produção muito interessante. Outro tema importante levantado por um dos curtas indicados ao Oscar desse ano. Eu sempre reflito sobre as poucas oportunidades de trabalho e de “virada de vida” que as pessoas dão para quem um dia já foi preso. Como queremos que quem já prestou as suas contas na Justiça tenha uma vida diferente se não ajudamos elas para conseguir isso?

E esse ajudar é tão simples – ou deveria ser – quanto lhes oferecer uma oportunidade de trabalho, uma chance para que elas mostrem os seus talentos e a vontade que elas têm de trilhar um novo caminho. Achei interessante a proposta do restaurante e a do diretor Thomas Lennon em contar essa história.

Vou citar novamente o crítico Jude Dry, da IndieWire. Entre os cinco finalistas na categoria Melhor Curta Documentário desse ano, ele deu a segunda nota mais baixa para Knife Skills: B-. De acordo com Dry, apesar de ter uma “história que valha a pena”, o filme não é tão saboroso quanto poderia ser.

Um problema da produção segundo o crítico, é que o diretor começou a acompanhar os preparativos para a abertura do restaurante apenas seis semanas antes do negócio abrir as portas – e a produção nunca apresenta as razões para ter uma “linha do tempo tão apertada”. Dry também considerou um bocado cruel dar para os três estagiários uma tarefa “tão impossível”.

O crítico comenta que o filme se conecta menos do que deveria com os estagiários, afirma que a passagem de tempo na produção não é bem resolvida e que, em resumo, Knife Skills abrange uma história fascinante, mas que o filme, simplesmente, “não combina com a engenhosidade do assunto”.

Knife Skills é o único curta, entre os indicados, que é dirigido por um nome que já venceu o Oscar antes. O diretor Thomas Lennon tem 13 títulos no currículo. Ele estreou na direção em 1984 com o documentário feito para a TV To Save Our Schools, to Save Our Children. Depois, ele fez mais quatro trabalhos para a TV – filme e séries de documentário – até estrear, em 2003, com o primeiro documentário feito para os cinemas, Unchained Memories: Readings from the Slave Narratives.

Depois, viriam mais três trabalhos feitos para a TV, dois documentários e um curta documentário antes de Knife Skills. Como eu disse, ele já ganhou um Oscar. Foi em 2007, na categoria Melhor Curta Documentário, por The Blood of Yingzhou District. Com Knife Skills, Lennon acumula quatro indicações ao Oscar – sendo que, em uma delas, a já citada de 2007, ele levou a estatueta para casa. Ou seja, temos aqui um veterano já reconhecido pela Academia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para Knife Skills. O curta, até o momento, ganhou apenas um prêmio, o de Melhor Curta Documentário no Traverse City Film Festival. Na bolsa de apostas do Oscar, esse é o penúltimo filme na lista das preferências dos apostadores.

Para vocês conferirem um pouco mais sobre esse curto, deixo aqui o trailer de Knife Skills:

 

5. Traffic Stop

Fechando a lista dos curtas documentário indicados ao Oscar 2018, chegamos até Traffic Stop, uma produção com 30 minutos de duração dirigida por Kate Davis. Esse filme conta a história de Breaion King, uma professora afroamericano de 26 anos da cidade de Austin, no Texas, que foi parado inicialmente por causa de uma violação das leis de trânsito e que acabou sendo preso de uma forma dramática.

De acordo com o texto de apresentação desse curta, King foi pega pelas câmeras da polícia e logo puxada de seu carro por um policial que lhe deu voz de prisão. Diversas vezes ela foi jogada no chão até ser algemada. Quando estava sendo levada para a prisão, King empreendeu uma conversa revelada com o oficial que a estava levando sobre a questão racial e o cumprimento da lei nos Estados Unidos.

O curta documentário justapõe imagens das câmeras dos policiais com cenas do cotidiano de King com o objetivo de “oferecer um retrato mais completo da mulher que foi apanhada em um encontro inquietante”. O crítico Jude Dry, do site IndieWire, classificou Traffic Stop com a melhor nota entre os curtas que concorrem ao Oscar – na verdade, o filme “empata” com Heaven Is a Traffic Jam on the 405 no conceito A-.

Dry comenta como, em 2015, Breaion King foi parado por causa de uma pequena violação de trânsito. Ele explica que o que deveria ter terminado com uma multa de rotina acabou terminando com uma prisão violenta. Dry destaca ainda como a cineasta Kate Davis “corta a tensão” das imagens da prisão capturadas pelas câmeras da polícia com cenas da “vida rica e variada” do protagonista dessa história.

Segundo o crítico, contrasta muito a pessoa alegre, solidária e emotiva que King é na vida real com as imagens absurdas de sua prisão violenta. O alívio vem da entrevista que a diretora faz com ela – um sinal de que ela sobreviveu. Dry elogia o trabalho de Davis, afirmando que ela cria “um retrato profundo em movimento de uma mulher cuja vida é virada de cabeça para baixo pela brutalidade e o racismo de uma polícia insidiosa”.

Ou seja, Traffic Stop trata de um tema muito quente nos Estados Unidos. Para Dry, esse curta é um dos dois favoritos desse ano na disputa – o outro forte concorrente, segundo o crítico, seria Heaven Is a Traffic Jam on the 405. Apesar dessa opinião dele, Traffic Stop aparece em último lugar na lista de preferências de quem apostou nessa categoria nas bolsas de apostas.

Traffic Stop é o décimo-sexto trabalho da diretora Kate Davis. Ela estreou em 1983 dirigindo um dos episódios da série de documentários feitos para a TV American Undercover. Poucos anos depois, em 1987, ela estreou o primeiro documentário feito para os cinemas, Girltalk. Depois disso, ela lançou sete documentários, dois episódios de séries de documentários feitos para a TV, três documentários feitos para a TV e um episódio de uma série de TV antes de lançar Traffic Stop.

Com esse curta documentário, pela primeira vez, Kate Davis conseguiu uma indicação ao Oscar. Entre os curtas que concorrem esse ano nessa categoria, essa produção é a que ostenta a menor nota no site IMDb: 5,9. O filme também não ganhou nenhum outro prêmio antes – então, apesar da crítica favorável de Dry, parece realmente que este curta documentário é uma grande zebra nessa disputa por uma estatueta dourado.

Deixo, para vocês conferirem, o trailer de Traffic Stop. Sou franca que o trailer me deixou impressionada. Acho que a proposta do curta é muito interessante, e coloca luz sobre um tema sempre fundamental de ser discutido nos Estados Unidos e em tantos países mundo afora:

 

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Difícil opinar sobre todos esses concorrentes quando, na verdade, eu não pude conferir a todos eles. Mas observando a proposta de cada um e a “pegada” de cada produção que eu pude ver na íntegra ou através dos trailers, eu acho que os curtas mais interessantes são Traffic Stop, Edith+Eddie e Heaven Is a Traffic Jam on the 405.

Eu não sei se, exatamente, nessa ordem. Mas foram esses curtas que mais me “saltaram” aos olhos. Segundo os apostadores, Edith+Eddie e Heaven Is a Traffic Jam on the 405 são os favoritos. De acordo com críticos, a disputa está mais dividida, entre Heroin(e), Heaven Is a Traffic Jam on the 405 e Traffic Stop. Logo mais, veremos.

The Square – The Square: A Arte da Discórdia

Qual é o valor da arte hoje em dia? Em um mundo em que a desigualdade parece não ter fim, gastar com arte parece algo ético? O que a arte nos questiona, conseguimos levar para a nossa vida cotidiana ou a reflexão dura apenas alguns segundos, minutos, dias, mas não consegue sair do plano das ideias? The Square é um filme interessante, que nos desafia a pensar sobre o nosso contexto, sobre as sociedades que construímos e sobre as escolhas que fazemos. Trata de arte, é verdade, mas trata, sobretudo, de gente.

A HISTÓRIA: Som de festa. Um zumbido. Som de um sapato no piso. A secretária de Christian (Claes Bang) pergunta se ele precisa de algo, porque chegou a hora da próxima entrevista. Ele pede dois minutos para se preparar. Pouco depois, ele está pronto para falar com a jornalista Anne (Elisabeth Moss). A entrevista demora um pouco, porque as anotações dela caem, mas logo ela recomeça e pergunta para ele qual é o maior desafio para se gerenciar um museu. Christian diz que odeia dizer isso, mas que provavelmente é o dinheiro.

Ele diz que o museu, por ser de arte moderna e contemporânea, tem uma competição feroz, já que existem muitos compradores cheios de dinheiro no mundo que gastam mais em uma tarde do que eles em um ano. E assim começa essa produção, que mostra não apenas o que acontece dentro de um museu, mas em seu entorno, focando em aspectos que a arte moderna e contemporânea gosta de focar, ainda que nem sempre ela chegue em todos que deveria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Eu não sabia muito bem o que esperar desse filme. Sim, eu já tinha ouvido falar que ele tratava sobre a arte, mas qual seria exatamente a proposta desta produção, só vendo mesmo. E aí que esse filme me surpreendeu por tratar os bastidores da arte sem firulas e por aproveitar o tema para abrir um pouco mais a discussão sobre a sociedade que cada um de nós ajuda a construir.

Logo no começo do filme dirigido e com roteiro de Ruben Östlund somos apresentados ao protagonista dessa produção. Curador-chefe de um museu de arte moderna e contemporânea, Christian é um sujeito interessante – e que representa vários homens da sua geração. Bem educado, com uma vida boa e com “poder” no meio artístico, ele tem o olhar crítico necessário para estar na posição em que ele está. Mas será que esse olhar crítico se sustenta a longo prazo e/ou em qualquer situação?

Algo interessante nesse filme, e que eu notei logo de cara, é que ele trata de situações bastante plausíveis. Em alguns momentos, inclusive, parece que The Square se desenvolve quase como um documentário. Me refiro às diferentes cenas das ruas de Estocolmo, à garota que pede dinheiro ou comida em um 7-Eleven do Centro, e tantas outras sequências que parecem povoar o cotidiano não apenas daquela cidade, mas de qualquer outra.

O início do filme, que se debruça sobre os bastidores de uma nova exposição que está sendo preparada para estrear no museu, também parece bastante “a vida como ela é”. Christian está em meio a uma série de entrevistas para falar sobre o museu e sobre o seu esforço de seguir existindo em um mundo em que a disputa por recursos é cada vez maior – e quem, hoje em dia, realmente é filantropo e generoso para doar dinheiro para a arte?

Assim, The Square já começa desmistificando um pouco a ideia romântica que muitos tem sobre o mundo da arte. De que ele é formado apenas por pessoas criativas, muito ligadas em tudo que os cerca e críticas do cotidiano. Ainda que tudo isso seja verdade, esse meio também vive em uma busca constante por dinheiro e por recursos. Colocar uma nova exposição de pé não é algo fácil ou simples, como The Square revela muito bem.

Várias pessoas são envolvidas no processo, e há uma “briga” grande por parte de cada museu para que a sua proposta seja ouvida e reverberada na imprensa – porque, assim, eles conseguem não apenas público, mas também possíveis apoiadores/patrocinadores. E aí esse filme entra em uma outra esfera que, particularmente, me pareceu especialmente interessante: em um mundo com excesso de informação e de pautas que chamam a atenção e são de interesse público, como se fazer notar com uma exposição de arte?

Francamente, a arte deveria chamar a atenção naturalmente. Pelo menos é isso que eu penso. Porque a arte, não importa em que época da nossa história, ajudou a nos contar mais sobre o que somos, sobre o que sonhamos, e ampliou as nossas fronteiras da imaginação e da compreensão. Então a arte, por si só, deveria interessar a todos – inclusive aos jornais.

Mas não. Parece que a cada dia mais pessoas estão achando a arte desinteressante – ou essa é apenas uma impressão minha? Nesse sentido, The Square joga algumas perguntas importantes no ventilador. Como, por exemplo, a quem a arte interessa? Quem se importa com a arte? Será que ela pode ser tão importante ou interessante para um mendigo quanto para uma pessoa que tem uma ótima condição de vida?

Pior que, para quem já frequentou alguns museus, sabe que arte parece ser realmente restrita a alguns perfis de pessoas. Quantos museus, por exemplo, estariam dispostos a abrir as portas para quem não pode pagar pela entrada e/ou para moradores de rua? Bem, muitos museus tem os seus dias de gratuidade. Em teoria, nesses dias, qualquer pessoa poderia entrar – inclusive alguém sem dinheiro algum. Mas você, que já foi em alguns museus, já viu em algum deles um mendigo? Eu, nunca.

Então será mesmo que os diferentes cenários artísticos – museus, galerias, cinemas, teatros, etc. – são democráticos e abertos para todos? Ou será que eles, com certa “naturalidade”, selecionam quem deve ou não frequentar os seus ambientes e a sua arte? Apesar de não ser vista por todos, a arte trata sobre todos. Todas as manifestações artísticas que vemos nesse filme – todas muito interessantes, aliás -, acabam falando sobre conceitos universais e sobre questões que competem a toda a sociedade (inclusive a marginalizada).

Uma das exposições, que mostra montes de “cinzas” e a frase “você não tem nada”, aborda a insignificância e a finitude do indivíduo – e o fato de que nada do que ele acredita ter de posses realmente seja algo. Outra intervenção artística, feita por Oleg (Terry Notary), em um jantar chique – para mim, o ponto alto da produção -, trata com bastante impacto a questão do “bicho humano” e a sociedade machista em que vivemos – na qual, muitas vezes, parte considerável dos homens parece não ter saído do tempo das cavernas.

Além destas exposições, temos aquela que movimenta a produção – além da vida pessoal do protagonista, é claro. A exposição The Square de Lola Arias, que dá nome a esse filme, trata sobre uma sociedade em que a confiança ou a desconfiança sobre os outros dita as nossas escolhas cotidianas – e, mais que isso, a nossa vida.

Em paralelo a todo o trabalho envolvendo a montagem e a divulgação dessa exposição, temos a vida real acontecendo, com o protagonista Christian tendo a sua própria tolerância e confiança/desconfiança do outro testada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Primeiro, ao tentar ajudar uma garota desesperada, ele é enganado e roubado. E como ele reage a isso que lhe aconteceu? Esse é o ponto central da história.

Primeiro, Christian “acompanha” a trajetória do celular que foi roubado. Depois, em meio a vinho e um jantar, ele dá ouvidos para Michael (Christopher Laesso), que sugere que ele entregue uma carta ameaçadora para cada morador do prédio onde o celular dele foi parar. Até aí, o gesto dele parece ter sido inocente. Afinal, o criminoso pode ou não dar bola para a carta que ele escreveu. O problema é que nem toda cultura ou toda família funciona da mesma forma.

Então sim, Christian consegue os seus pertences de volta. Mas ele também consegue uma bela dor de cabeça com um garoto (Elijandro Edouard) ficando realmente indignado com a acusação que ele fez. Diferente de Christian, que provavelmente ignoraria uma carta daquela sendo deixada em sua porta, a família do garoto passou a desconfiar dele e a castigar. Claro que tudo isso se resolveria de uma maneira simples – se eles falassem com a vizinhança, por exemplo, facilmente eles saberiam que a acusação tinha sido generalizada.

Esse ponto do filme parece um tanto exagerado, não é mesmo? De fato ele é, um pouco. Porque vejamos a maior parte das pessoas… quem hoje em dia cumprimenta os vizinhos ou tem uma boa relação com eles? Sim, no Brasil ainda temos isso. Agora imagine um país da Europa onde os imigrantes são cada vez mais recebidos com receio e/ou indiferença… muitas pessoas realmente não se enturmam ou acabam se refugiando apenas dentro de casa – para evitar problemas maiores.

Nada fica totalmente claro em The Square, mas me parece que esse era o caso do garoto e de sua família. Parece que eles eram imigrantes – talvez até muçulmanos -, que não eram bem “inseridos” em sua comunidade e que, por isso, acabaram levando a acusação como algo tão grave.

Esse é um ponto não óbvio e importante do filme. Mostrar como hoje existem tantas pessoas marginalizadas nas nossas cidades – seja porque não tem dinheiro, seja porque vieram de outros países, atrás de uma oportunidade melhor de vida, e não falam direito o idioma ou encontram uma oportunidade de trabalho.

O problema é que nem eles se adaptam bem ao novo local, por causa do idioma e da cultura, e nem as pessoas locais conseguem perceber que a forma deles de pensar e de agir é diferente – e que todos nós, por isso mesmo, deveríamos ter mais cuidado e empatia no trato. Em resumo, mais consideração pelo ser humano, suas semelhanças e diferenças. Mas quem disse que isso é o que vemos acontecer?

Voltando para a questão da divulgação da nova exposição do museu. Esse é um ponto que me pareceu especialmente interessante. Christian, muito envolvido com as suas questões pessoais – além do resgate dos pertences roubados, a relação nova e um tanto conturbada com a jornalista Anne (Elisabeth Moss) e o retorno das filhas para casa (Lise Stephenson Engström e Lilianne Mardon) -, acaba sendo um bocado displicente com a divulgação da exposição The Square.

O resultado é que a agência de relações públicas e de marketing contratada para divulgar o evento acaba apostando na ideia maluca de dois “jovens talentos” (Daniel Hallberg e Martin Sööder) que conhecem bem a dinâmica das redes sociais e que vem com uma ideia literalmente “bombástica” para “causar” na internet. Para mim, esse é um dos pontos mais interessantes do filme.

Realmente muitas pessoas hoje em dia – vide inclusive políticos no Brasil – perdem a noção do ridículo ou do que pode ser aconselhável e se lançam com ideias malucas e/ou cretinas na internet para conseguirem a tão desejada exposição na mídia. Mas a que preço eles fazem isso? No caso do exemplo dado por The Square, os publicitários conseguiram “viralizar” o vídeo e chamar a atenção para a exposição, mas de uma forma totalmente errada.

Afinal, sim, a exposição queria chamar a atenção para a falta de cuidado e de afeto das pessoas com os outros de forma geral. Mostrar que o que deveria ser considerado básico no trato humano não acontece, muitas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas daí a explodir uma garotinha loira se passando como mendiga é um pouco demais, não? Afinal, estamos falando de uma era em que extremistas realmente se explodem para matar “infiéis” e na qual esses mesmos grupos utilizam crianças como “bala de canhão”… então mostrar uma criança explodindo para falar de uma exposição parece banalizar demais a violência que já acontece na vida real, não?

Mas essa ideia cretina apresentada em The Square nos ajuda a refletir sobre algo que gostaram de falar bastante por aqui também na exposição com um homem nu e uma criança: a liberdade de expressão. Hoje em dia, na era em que as “massas” antes apenas receptoras de informação podem também dar a sua opinião sobre tudo, certas ideias não passam mais pelo crivo do “tribunal da internet”.

O povo pode até consumir em massa um determinado vídeo – e, como The Square bem revela, inclusive dar dinheiro para quem fez isso e para o Google como “participante” dos lucros -, mas nem por isso ele bate palma para o que viu. No caso do vídeo infeliz dos publicitários “brilhantes” que sabem tudo sobre internet, o tiro saiu pela culatra. A mensagem foi distorcida, foi exagerada, tudo para chocar e para viralizar, e a polêmica destruiu uma exposição que tinha um princípio interessante – e, por tabela, fez o protagonista dessa história perder o emprego.

Essas questões, assim como a desigualdade de oportunidades e de tratamentos conforme a classe social ou a origem das pessoas, são temas importantes nesse filme. Só me incomodou um pouco, devo admitir, que alguns personagens foram pouco desenvolvidos – como o de Anne, interpretado por uma Elisabeth Moss quase em participação especial -, e que algumas sequências foram pensadas mais do que para nos chocar do que para fazer sentido (como aquela do protagonista empurrando o garoto pela escada).

Além disso, achei a duração desse filme realmente longa. Para o que ele tinha que nos apresentar, tranquilamente ele poderia ter duas horas de duração ou até um pouco menos – mas The Square tem 2h22min! Também acho que algumas sequências da produção ficaram um tanto deslocadas, como toda aquela sequência de Christian no apartamento de Anne (que poderia ser bem mais curta e direta) ou o encontro do garoto indignado com o “emissário” de Christian, Michael. Um pouco menos de pretensão faria bem para esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os artistas são seres fabulosos. Eles pensam a realidade de uma forma que os “reles mortais”, tão ocupados em seus cotidianos de trabalho e demais afazeres, não são capazes de fazer. Além disso, eles tem a capacidade de ver o belo – ou o feio – de uma forma diferenciada, olhando além das aparências e sabendo provocar as audiências como poucos.

Ainda que tudo isso seja verdade, até que ponto um artista tem a liberdade para expressar a sua arte? Ele pode ter a liberdade completa, fazer o que realmente deseja sem ter que pensar em mais nada ou ninguém? Pergunto isso por causa de uma das sequências mais marcantes e fascinantes do filme, aquela em que Oleg faz a sua intervenção.

No início, achei impressionante o trabalho dele. De fato, aquela era uma alegoria sobre a nossa sociedade, na qual os que tem medo ou procuram escapar do “terror” apenas se tornam vítimas dele. Quem fica imóvel apenas para ver outro se tornar vítima, é quem sobrevive. Essa é um alegoria sobre diversos ambientes da nossa sociedade atual – inclusive o empresarial, não? E ainda que o trabalho do artista tenha sido impressionante, a sequência final dele, pegando aquela mulher pelos cabelos… realmente era necessária? Até que ponto o artista não estava extravasando a sua própria loucura? A liberdade de expressão tudo permite? Acho que não.

Acho sim que a liberdade de expressão deve ser defendida, desde que ela não afete os direitos básicos dos outros. Desde que a liberdade de expressão não fira leis e regras que foram estabelecidas pela sociedade. Não basta querer passar uma ideia. É preciso ter a responsabilidade de cuidar para que aquela ideia não provoque danos para pessoas inocentes e que não escolheram ser expostas a determinadas situações.

Entre os aspectos técnicos desse filme, gostei muito da trilha sonora, que geralmente utiliza o clássico para tornar as sequências mais “líricas”, e que tem Rasmus Thord como supervisor musical; assim como gostei da direção de fotografia de Fredrik Wenzel; da direção sempre atenta aos personagens e à cidade de Ruben Östlund; da edição de Jacob Secher Schulsinger e de Ruben Östlund; do design de produção de Josefin Asberg; e dos figurinos de Sofie Krunegard.

O grande nome desse filme é o de Claes Bang. Toda a produção está centrada no Christian que ele interpreta. Como o ator ganha uma evidência monumental nessa produção, outros nomes bem conhecidos, como Elisabeth Moss e Dominic West, aparecem em trabalhos bastante secundários. A verdade é que nenhum outro personagem, exceto o protagonista, tem o seu papel bem desenvolvido nessa produção. Esse é um dos pontos fracos do filme, aliás.

Além dos atores citados, vale destacar o trabalho de alguns outros coadjuvantes: Terry Notary rouba a cena como Oleg – sem dúvida um trabalho marcante e pelo qual esse filme ficará lembrado; Christopher Laesso está muito bem como Michael – ainda que, novamente, a exemplo dos demais, seu personagem seja pouco desenvolvido; Lise Stephenson Ergström e Lilianne Mardon estão ok como as filhas do protagonista; Marina Schiptjenko está bem como Elna, administradora do museu; Elijandro Edouard como o garoto indignado está bem, ainda que me pareceu um pouco exagerado; e Daniel Hallberg e Martin Sööder fazem muito bem os “jovens talentos” do meio de RP e publicitário – eles realmente se parecem com muitas figuras que encontramos hoje em dia em várias empresas.

The Square estreou em première no dia 20 de maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 37 festivais em diversos países pelo mundo. Realmente um filme com uma longa trajetória de festivais. Interessante. Nessa sua trajetória, The Square ganhou 22 prêmios e foi indicado a outros 33 – sendo uma destas indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e para o Prêmio Vulcain para Artista Técnico dado para Josefin Asberg no mesmo evento; para os prêmios de Melhor Filme Europeu, Melhor Comédia Europeia, Melhor Diretor Europeu, Melhor Ator Europeu para Claes Bang, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Designer de Produção Europeu para Josefin Asberg no European Film Awards; para o Goya de Melhor Filme Europeu; e para oito prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por diferentes associações de críticos dos Estados Unidos e do Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre The Square. O ator Terry Notary interpretou, nesse filme, ao “homem macaco” Oleg. O artista russo Oleg Kulik ficou famoso por, ao ser convidado para participar da exposição coletiva internacional Interpol, em Estocolmo, fazer, na abertura, uma performance como um cão. Ele correu, pulou, rolou no chão e até mordeu alguns convidados VIPs nas pernas. Kulik disse que estava representando o povo russo “intimidado”, que estava sendo atacado e que, agora, estava revidando. Os convidados da exposição ficaram indignados ao ponto de chamar a polícia. No filme, há uma cena semelhante na capacidade de chocar, mas na qual o artista se passa por macaco.

Uma das perguntas da exposição The Square é interessante: você é do tipo de pessoa que confia ou que desconfia das pessoas? O restante da exposição e da tua experiência nela é definida por isso. Na vida real, também definimos a nossa vida a partir do momento que respondemos essa pergunta. E afinal de contas, por que chegamos ao ponto de tanta gente, ao menos na prática, mais desconfiar do que confiar nos outros?

O incidente em que Christian tem o celular roubado foi baseado na própria experiência de um amigo do diretor Ruben Östlund. Ele passou por algo bastante similar.

O diretor de The Square disse que ele nunca mais quer filmar uma cena que esteja em um filme apenas para ajudar a contar a história. Ele quer reunir diversas cenas interessantes que ajudem a explicar o comportamento humano.

Em uma cena, um homem com síndrome de Tourette tira a concentração de uma repórter que estava entrevistado o artista Julian. Östlund se inspirou em uma situação semelhante que aconteceu em um teatro da Suécia. E a verdade é que uma cena assim pode acontecer em qualquer parte. Como as pessoas lidam com essas diferenças extremas? Acho que isso e o descontrole de alguns participantes do jantar em que o homem macaco ataca, ajuda a demonstrar bem qual caminho as nossas sociedades cada vez mais sem paciência estão seguindo.

The Square faturou US$ 1,4 milhão nos Estados Unidos. Não é um sucesso, para os padrões americanos, mas é um resultado melhor que o de Una Mujer Fantástica – que praticamente não foi visto no país do Tio Sam. Olhando por isso e pelos prêmios que conquistou em votações de críticos americanos, The Square parece levar vantagem na disputa pela estatueta dourada.

Esse filme é uma coprodução da Suécia, da Alemanha, da França e da Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 112 críticas positivas e 25 negativas para o filme, o que lhe garante um aprovação de 82% e uma nota média de 7,3.

O diretor Ruben Östlund é realmente ousado. Prestes a completar 44 anos de idade em abril, esse sueco da cidade Styrsö tem 12 títulos no currículo como diretor, sendo seis deles curtas, um documentário e cinco longas. De sua filmografia, lembro de ter assistido a apenas um filme antes: De Ofrivilliga. Um filme bastante diferenciado e até mais controverso que esse The Square. A crítica sobre De Ofrivilliga vocês encontram por aqui. Realmente Östlund parece ser um sujeito que faz cinema para surpreender.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos bastidores de um museu de arte tinha tudo para ser chato, não é mesmo? Ou, talvez, “intelectual” demais para os padrões do grande público. E ainda que seja verdade que The Square é longo demais – facilmente ele poderia ter meia hora ou pouco mais de “corte” -, ele não se mostra enfadonho. Isso porque ainda que ele trate de arte e do valor que ela tem nos dias de hoje, assim como para quem ela é dirigida, esse filme trata de outros assuntos muito atuais, como a desigualdade de oportunidades, a marginalização social e os efeitos daninhos da busca por “causar” na internet – especialmente quando você é uma entidade com responsabilidades.

Para mim, aliás, essa parte sobre a noção do que é público e do que é privado e a questão do “tribunal” da opinião pública propiciado pela internet são alguns dos aspectos mais interessantes desse filme. Assim como a reflexão que uma pessoa ser bem educada, ter ótima posição social e tudo o mais não lhe torna realmente mais consciente sobre o mundo que ela não conhece. Um filme interessante e instigante. Só uma pena que ele seja longo demais e que peque um pouco por deixar alguns personagens um tanto “perdidos” na história e por se esforçar tanto em nos “chocar”/surpreender em algumas sequências. Mas, no geral, The Square é um bom filme.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: The Square é um forte candidato à estatueta dourada nesse ano. Especialmente sem o filme In the Fade, de Fatih Akin, na disputa. Segundo as bolsas de apostas do Oscar, ele é o segundo filme mais cotado nesse ano – ele fica atrás apenas de Una Mujer Fantástica (comentado aqui).

Difícil saber o que os votantes da Academia vão decidir. Mas eu, se tivesse que votar, certamente escolheria Una Mujer Fantástica. Primeiro, porque acho o filme mais impactante e comovente. Ambos tem boas sacadas, é verdade, mas acho que o filme chileno tem um desenvolvimento mais satisfatório da história e dos personagens.

A produção também me agradou mais, me pareceu mais “humana” e com uma mensagem mais significativa que The Square. Mas, volto a dizer, esta é uma questão de gosto pessoal. Olhando tecnicamente para as duas produções, ambas tem muitos méritos, bons atores e um roteiros que tocam em temas contemporâneos. Então teremos que ver, mais que nada, qual é o gosto da Academia para premiar um ou outro – ou, quem sabe, o russo Loveless (com crítica neste link). Me parece que esses três são, realmente, os títulos que estão na disputa.

Una Mujer Fantástica – A Fantastic Woman – Uma Mulher Fantástica

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Algumas vidas são muito mais difíceis do que o normal. E muito mais difíceis do que deveriam. E isso simplesmente pelo fato das pessoas não aceitarem o que é diferente a elas. Por que, afinal, tantas pessoas se importam com o que as outras fazem entre quatro paredes? Por que tantos querem dizer como os outros devem ser ou fazer? Una Mujer Fantastica é um filme muito contemporâneo e bastante contundente. Ele lembra o Pedro Almodòvar em sua melhor fase. Mas com mais suavidade, até. Um dos melhores filmes dessa temporada do Oscar 2018.

A HISTÓRIA: As cataratas, esplendorosas, aparecem em tela cheia. Diversos ângulos das quedas d’água que são uma das 7 Maravilhas do Mundo. Sobre umas almofadas, Orlando (Francisco Reyes) curte a sua sauna. Depois, ele recebe uma massagem relaxante. Em seguida, ele said a sauna Finlandia e caminha pelas ruas, até chegar ao escritório da empresa. Ele chama a secretária e pergunta se ela viu um envelope grande que ele tinha deixado sobre a mesa. Ela diz que não. Depois, ele procura em todas as partes do carro, e nada.

Mais tarde, em um hotel, ele pede um papel e um envelope. Em seguida, ele sobe até o andar em que Marina (Daniela Vega) está cantando. Ela vê quando Orlando chega e os dois se olham. Essa é uma noite especial. É o aniversário de Marina. Os dois jantam juntos, e aí ele dá de presente o envelope com a promessa de uma viagem às Cataratas – a viagem que ele tinha comprado ele perdeu. Eles são um casal, bastante feliz, mas logo essa alegria vai terminar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Una Mujer Fantastica): Fiquei surpresa positivamente com essa produção. Como é de praxe, não li nada sobre o filme antes de assisti-lo, por isso eu não sabia o que esperar do roteiro ou do desenvolvimento da história. Gostei muito do que eu vi. Especialmente por esse filme não ter nenhuma pirotecnia e nem por tratar de uma história “absurda” ou exagerada.

Na verdade, Una Mujer Fantástica é um filme no estilo “a vida como ela é”. Pois sim. E essa é uma das maiores qualidades dessa produção. Se formos olhar para o que vemos em cena, tudo que o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu esse roteiro junto com Gonzalo Maza – nos conta, é muito, muito plausível. Na verdade, assustadoramente plausível.

Nós partimos de um dia “comum” para o protagonista Orlando, um homem de meia idade que é senhor de si e responsável pelas suas ações, e terminamos nos desdobramentos do que pode acontecer com uma pessoa após ela passar por um problema de saúde bastante comum. (SPOILER – não leia a partir de aqui se você ainda não assistiu a esse filme). Então partimos desse “dia comum” do sujeito, que namora e vive com uma transsexual, para o momento de sua morte e toda a dor e luta de “su pareja”, Marina Vidal, para conseguir se despedir dele e ter o mínimo de respeito em sua fase de luto.

Una Mujer Fantástica é muito bem escrito e tem um desenvolvimento espetacular. Porque a câmera de Lelio, que permanentemente está próxima da protagonista desta história, aproxima também cada espectador de sua história, de todo o preconceito que ela sofre e, o que é mais tocante, de toda a sua dor. Como comentei antes, pela força narrativa dessa produção e pelo cuidado no desenvolvimento dos personagens centrais da história, essa produção me fez lembrar a melhor fase de Pedro Almodòvar. E isso não é pouco.

Ao assistir a essa produção, a verdade é que eu tive uma grande curiosidade para conhecer mais do trabalho de Sebastián Lelio. Acredito que o diretor, que em março completará 44 anos de idade, ganha uma outra projeção e respeito em Hollywood e no circuito mundial de cinema com esse Una Mujer Fantástica. Olhando para a trajetória do diretor, vi que ele dirigiu seis curtas antes de lançar o seu primeiro longa, La Sagrada Familia, em 2005.

Além desse filme, ele tem outros cinco longas no currículo. O único filme que eu assisti, dessa lista, foi Gloria (comentado aqui). Nesse ano, ele vai fazer a versão americana de Gloria, com Julianne Moore, Sean Astin, Michael Cera, Jeanne Tripplehorn, Holland Taylor, entre outros, no elenco. Gloria é um belo filme, mas acho que gostei mais de Una Mujer Fantástica. De qualquer forma, esse diretor tem um estilo interessante e marcante, e acho que vale seguirmos a sua trajetória.

Mas voltando para a história de Una Mujer Fantástica. O filme conta o que acontece na vida da transgênero Marina Vidal desde que o seu companheiro morre e até pouco depois do funeral e da cremação dele. Esse parece ser um período curto de tempo, mas tudo que a protagonista dessa história passa, nesse período, poderia resumir boa parte da sua vida desde que ela se descobriu Marina. Impressionante como temos todo o preconceito da sociedade destrinchado nessa produção.

Porque não é apenas a ex-mulher do falecido, Sonia (Aline Küppenheim) que tem uma postura de não “admitir” a existência de Marina e a sua relação com Orlando. A polícia age de forma estranha e preconceituosa com Marina, assim como o médico que atende Orlando, o filho do falecido, Bruno (Nicolás Saavedra) e, aparentemente, todas as pessoas que foram próximas de Orlando. Mas afinal de contas, por que é tão difícil para as pessoas aceitarem uma transgênero? Em essência, me parece, as pessoas tem uma grande dificuldade de aceitarem aquilo que é diferente a elas.

Mas, afinal de contas, quais as razões para isso? No fundo, todos somos diferentes e, ao mesmo tempo, mais similares do que pode parecer na superfície. Todos somos feitos de pele, carne, ossos, órgãos internos e sangue. Todos nascemos, vivemos e um dia vamos morrer. Todos vivemos grandes alegrias, sorrimos, choramos e vivenciamos grande tristeza, frustrações, decepções, temos que encarar desafios e vencer barreiras. Então por que, afinal de contas, não podemos ser um pouco mais solidários? Por que nem sempre conseguimos olhar para o outro como um ser humano com qualidades e defeitos como nós mesmos somos?

Acho que essa é a grande forma deste Una Mujer Fantástica. O filme coloca em evidência uma transgênero, uma pessoa tão marginalizada pela sociedade e que, provavelmente, não faz parte do convívio da maioria da audiência. E ao dar evidência para a sua vida, os seus gostos, o seu caráter e os seus sentimentos, Lelio desmistifica essa pessoa e a torna extremamente próxima do espectador. Que bom. Assim, ele nos faz um grande favor. Quem sabe, com esse filme, alguns preconceitos não caiam por terra? Quem sabe mais pessoas não consigam entender melhor o que é diferente a elas e aceitar essa diferença, abraçá-la sem medo, ter mais compaixão?

Outro ponto que me chamou muito a atenção nesse filme é como ele trata o preconceito das pessoas. Por que, afinal de contas, Sonia e Bruno tem tanta dificuldade de aceitar a “opção” que Orlando fez em sua vida? Ok, até entendo o “recalque” e a falta de aceitação de Sonia, que foi traída por Orlando. Mas se ela deveria ter “raiva” de alguém, deveria ser dele, não é mesmo? Porque foi ele que traiu a confiança dela. Marina não tinha nada a ver com isso. Pessoas adultas fazem as suas escolhas, e os demais deveriam ter a capacidade de respeitar essas decisões, não?

Bruno, por sua parte, me parece que reflete toda a cultura machista do Chile, do Brasil e de tantos outros países latinos. Para ele, só faz sentido um homem se interessar por uma mulher. Então ele não entende Marina, não consegue perceber que ela se vê como mulher – e é uma mulher. No fundo, ele é inseguro, um sujeito perdido e que não tem o mínimo respeito pelo que ele não entende. Faz o estilo “boçal” – como tantos que vemos cada vez mais proliferando-se por aí.

Mas o interessante é que ambos, tanto Sonia quanto Bruno, representam muito bem a maioria da sociedade. Sonia está muito preocupada com as aparências, com o que os “outros vão dizer”. Essa é a grande preocupação dela em relação aos “trâmites” finais envolvendo Orlando. Ela não mantinha uma boa relação com o ex, mas ela tinha que colocar uma bela nota de despedida no jornal e encenar um velório e uma despedida do ex-marido dentro “da normalidade” – e, para isso, seria “inconcebível” a presença de Marina.

O circo de Sonia e Bruno, assim, mostra o que as nossas sociedades tanto parecem prezar: as aparência. Não importa se eles, no fundo, não tinham uma relação próxima com Orlando. Não importa se a única pessoa que realmente deveria estar lá está proibida de ir. O que importa mesmo é que tudo seja feito dentro da política da “moralidade e dos bons costumes”. Mas do que adianta tanta mentira? No fim das contas, as pessoas estão mentindo para quem? Nessa busca desgastante pelas aparências, pessoas como Marina são sacrificadas e sofrem sem um pingo de remorso dos preconceituosos.

Por tudo isso, a história de Una Mujer Fantástica é marcante, envolvente e com um propósito muito bacana. Lelio evidencia a história de uma pessoa sobre a qual quase ninguém quer falar. Mas, como eu disse antes, uma pessoa como eu e você, com a sua luta, os seus desejos e sentimentos. Que deveria merecer, portanto, o mesmo respeito e consideração que qualquer outra pessoa. Lelio, aliás, explora muito bem as características de Marina, e faz doer em todos nós como ela tem um nível de dificuldade na vida que não deveria ter. Por esse aspecto, impossível não ficar mexida(o) com esse filme.

Todos os atores em cena estão muito bem, mas é de arrepiar o trabalho de Daniela Vega nessa produção. Ela tem um trabalho muito, muito marcante. Sem a entrega dela, esse filme não seria metade do que é. Se o Oscar fosse mais justo com as indicações de astros e estrelas, colocando o trabalho de todos no mesmo patamar, independente se eles trabalham ou não em Hollywood, certamente Daniela Vega teria conquistado uma indicação como Melhor Atriz. Ela merecia, sem dúvida – está muito melhor, a meu ver, para dar um exemplo, que Saoirse Ronan em Lady Bird (com crítica por aqui).

Mas, para não dizer que o filme é perfeito, teve dois pontos que me “incomodaram” um pouco nessa produção – porque eu acho que eles não fazem toooodo aquele sentido que deveriam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, a verdadeira razão da policial Adriana (Amparo Noguera) insistir tanto para um exame de corpo de delito em Marina. Inicialmente, ela diz que é para ver se ela tinha sofrido algum abuso e/ou agressão. Mas o que isso realmente indicaria sobre Orlando ter morrido de causa natural ou de sua morte ter sido provocada?

Francamente, não me pareceu totalmente lógico aquele argumento. Então a real justificativa de Adriana seria de expor Marina, de matar a sua própria curiosidade sobre como seria o corpo da transsexual? Novamente, um tanto exagerado, não? A outra parte que me pareceu um tanto sem sentido e/ou lógica foi a forma com que Marina sai, perto do final, para correr com Diabla. Ela fez tanto para ter a cadela de volta e, do nada, após tantas recusas de Bruno, como Diabla acabou parando com Marina?

Uma explicação possível para isso é que Bruno manteve Diabla como “refém” como forma de pressionar Marina a não ir no velório de Orlando e que, passada aquela situação, ele resolveu devolver a cadela para a dona. Mas, então, se foi isso que aconteceu, não teria sido melhor Lelio apresentar essa cena? Apenas para essa parte não ficar um tanto sem sentido no filme? Esses são apenas pequenos detalhes que me pareceram um tanto falhos em um filme bem acima da média. Espero que Una Mujer Fantástica seja cada vez mais visto e que mais pessoas aprendam a ver ao outro, não importa o que ele faça entre quatro paredes e como ele enxergue a sua própria identidade, como um igual que merece respeito, consideração e empatia.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu disse antes e volto a repetir: o grande nome desse filme é o de Daniela Vega. Que interpretação, meus amigos! Para mim, uma das melhores dessa temporada do Oscar. Pena que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não teve a coragem de indicá-la como Melhor Atriz. Ela merecia. Una Mujer Fantástica é o que é por causa dela. Trabalho impecável, e muito bem capturado por Sebastián Lelio que, aliás, revela-se também, mais uma vez, um belo diretor e roteirista. Ambos merecem ser acompanhados.

Algo que esse filme tem de qualidade – e todo grande filme precisa disso – é, aliás, o seu elenco. Todos que vemos em cena estão muito bem. Francisco Reyes está perfeito como Orlando – apesar dele “sumir” logo da trama, ele volta a aparecer depois em alguns momentos pontuais. Ele é muito bom sempre. Além deles, vale comentar o bom trabalho de Luis Gnecco como Gabo, o único que se relaciona com Marina de uma forma um pouco mais humana; Aline Küppenheim como Sonia; Nicolás Saavedra como Bruno – figura que, não sei vocês, mas eu tive vontade de bater (e olha que eu sou anti-violência); Amparo Noguera como Adriana, policial que faz Marina passar por um grande constrangimento; Trinidad González como Wanda, irmã de Marina; Néstor Cantillana como Gastón, marido de Wanda; Alejandro Goic como o médico que atende Orlando no hospital; Antonia Zegers como Alessandra, chefe de Marina em um restaurante; e Sergio Hernández ótimo como o professor de canto da protagonista. Todos estão muito bem.

Muito interessante aquele detalhe da “chave misteriosa” de Orlando. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, ela alimentava os sonhos de Marina de encontrar algum “presente” de Orlando para ela. Um presente não planejado, é claro. Mas quem sabe algo dele que poderá compensar um pouco toda aquela ausência e dor provocada pela morte dele… Então, sem querer, ao atender a um cliente no restaurante, ela descobre que aquela chave é da sauna que ele frequentava. E quando ela finalmente chega no armário – após uma sequência interessante de “suspense” muito bem conduzida por Lelio -, o que ela encontra? Nada. E aquele vazio simboliza o que de fato Orlando deixou para ela. Nada além das lembranças.

Dos aspectos técnicos do filme, me chamou muito a atenção a trilha sonora bastante pontual e interessante de Nani García e de Matthew Herbert; a direção de fotografia de Benjamín Echazarreta e os figurinos de Muriel Parra. Esses aspectos realmente “saltam aos olhos”. Além deles, vale citar o bom trabalho de Soledad Salfate na edição e de Estefania Larrain no design de produção.

Una Mujer Fantástica estreou em fevereiro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais em diferentes países mundo afora. Nessa trajetória, o filme recebeu 14 prêmios e foi indicado a outros 28 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Menção Especial no Prêmio do Júri Ecumênico do Festival Internacional de Berlim; para o Urso de Prata como Melhor Roteiro e para o Teddy de Melhor Filme, ambos dados também no festival de Berlim; para o Goya de Melhor Filme Iberoamericano; para o Prêmio Especial do Júri como Melhor Filme no Festival de Cinema de Havana; para o prêmio de Melhor Filme Latinoamericano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; para o Prêmio Fipresci de Melhor Atriz para Daniela Vega e a Menção Especial – Prêmio Cinema Latino para Sebastián Lelio no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Nos Estados Unidos, segundo o site Box Office Mojo, Una Mujer Fantástica fez US$ 111,3 mil nas bilheterias. Um resultado insignificante. Uma pena. Realmente os americanos não tem o costume e/ou interesse de ver ao cinema que é feito fora do seu país. Uma lástima, porque o cinema mundial tem ótimos realizadores, como este e tantos outros filmes nos demonstram a cada dia.

Em determinado momento, Sonia diz para Marina que ela tem dificuldade de “classificá-la”, mas que se ela fosse fazer, isso, talvez a chamaria de “quimera”. Para quem ficou curioso(a) para saber sobre uma quimera, sugiro esse texto do site Mitologia Grega BR que fala sobre esses seres conhecidos da mitologia grega.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 83 textos positivos e oito negativos para Una Mujer Fantástica, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média 8. Especialmente a nota do segundo site chama a atenção – está acima da média.

Una Mujer Fantástica é uma coprodução do Chile, da Alemanha, da Espanha e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A vida é bela, mas pode ser também uma pedreira. O importante é que você não perca a perspectiva, mesmo quando lhe tirem o oxigênio. Mesmo quando lhe impeçam de falar, ou de ser. Porque tudo passa. O que é bom, e o que é ruim. Una Mujer Fantástica nos conta uma história bastante realista de uma forma muito competente e envolvente. Um grande trabalho de direção e de roteiro de Sebastián Lelio, e uma interpretação impecável de Daniela Vega.

Um filme que, como eu comentei antes, nos faz recordar do espanhol Almodòvar em sua melhor fase. Uma das grandes produções dessa safra do Oscar, e um filme que mereceu ser apontado como um dos favoritos da disputa de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Apenas assista, e sem pré-conceitos. Espero que essa produção rompa algumas barreiras e faça as pessoas aceitarem mais as outras como elas são. Assim de simples (e quem dera que, realmente, na prática, fosse simples como realmente é).

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Antes das indicações ao Oscar saírem, havia um grande favorito para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira: In the Fade, do diretor Fatih Akin. Aí que, quando saíram as indicações ao Oscar 2018 e o filme de Akin ficou de fora, o favoritismo nessa categoria também foi perdido. Sim, há três filmes fortes no páreo, mas um favorito favorito, não existe.

Nas apostas relacionadas ao Oscar, Una Mujer Fantástica está liderando, e com uma bela vantagem sobre os demais. Em segundo lugar, segundo os apostadores, aparece The Square; e em terceiro, Loveless. Eu ainda não assisti a The Square – mas posso adiantar que ele será o próximo filme que eu vou comentar por aqui -, mas entre os outros filmes que concorrem nessa categoria em 2018, sem dúvida alguma eu prefiro o filme de Sebastián Lelio.

Com isso, não quero dizer que Loveless (com crítica nesse link) ou On Body and Soul (comentado por aqui) não sejam bons. Na verdade, os três filmes tem um belo “punch”, uma bela pegada. Todos são fortes e tratam de temas importantes. Todos são capazes de despertar um belo debate e de fazer pensar. Mas entre os três, prefiro Una Mujer Fantástica. Inicialmente, estarei na torcida por ele. Mas, para realmente bater o martelo nessa categoria, eu ainda preciso assistir a The Square e a The Insult.

The Shape of Water – A Forma da Água

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Uma bela homenagem ao amor e aos filmes. Um conto sobre como os diferentes podem se reconhecer, e como a nossa percepção da divindade pode estar equivocada. The Shape of Water é mais uma bela obra do diretor Guillermo del Toro, esse mexicano com um gosto diferenciado por contos nada óbvios. Novamente temos na nossa frente um filme com alma e com estilo, bem composto por todos os elementos que fazem o cinema ser uma viagem mágica. Ou seja, belas interpretações, roteiro interessante e com algumas surpresas e um visual incrível. Cheio de boas intenções, The Shape of Water só falha nos detalhes.

A HISTÓRIA: Começa com um local submerso em água. Adentramos lentamente e começamos a ver cadeiras, mesas e demais objetos flutuando na água. O narrador então comenta, que se ele falasse sobre aquilo, ele não saberia exatamente o que contar a respeito. Ele diz que não sabe se falaria sobre a época, que parece que foi há muito tempo, nos últimos dias do reinado de um príncipe justo…

Ou se falaria sobre o local, uma pequena cidade perto da costa e longe de todo o resto. Ou se falaria sobre ela, a princesa sem voz. Ou ainda ele poderia falar sobre a veracidade dos fatos. Um história de amor e de perda. E o monstro, que tentou destruir tudo aquilo. Após essa introdução, mergulhamos na história desse conto cheio de fantasia e de realidade ao mesmo tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Shape of Water): Impossível, depois desse filme ter sido tão premiado nessa última temporada e de apresentar o maior número de indicações ao Oscar, não ter grandes expectativas sobre The Shape of Water. Então foi assim que eu fui assistir a esse filme, com um bocado de expectativas junto comigo.

Um pouco da história eu já sabia – apesar de não gostar nada de saber das histórias antes de conferi-las na telona. Mas não tinha como não saber que esse filme era protagonizado por uma personagem muda e que ela se interessa por um “monstro” aquático. O maravilhoso de The Shape of Water é que essa é apenas uma pequena parte da história. O filme surpreende pelo visual, em primeiro lugar, e, logo na sequência, pelo excelente trabalho dos atores.

O trio central está ótimo. Eu já esperava um belo trabalho de Sally Hawkins como Elisa Esposito, a protagonista dessa produção. Mas a atriz ainda conseguiu me surpreender por sua interpretação sensível, precisa, carismática e nada exagerada. Realmente ela está muito bem. Também fiquei encantada com o trabalho seguro e muito competente de Richard Jenkins e Octavia Spencer, respectivamente Giles e Zelda Fuller, os melhores amigos de Elisa.

Todos estão muito bem. E o roteiro de Guillermo del Toro e Vanessa Taylor, desenvolvido a partir de uma história criada pelo diretor, também começa muito bem. Logo de cara o filme nos apresenta os dois cenários centrais dessa história e que são muito representativos para The Shape of Water: a casa e o cinema abaixo dos apartamentos em que moram Elisa e Giles, e o laboratório militar em que Elisa e Zelda trabalham como “mulheres da limpeza”.

O que mais me surpreende em The Shape of Water é como o filme faz uma grande homenagem para o cinema. Volta e meia a produção é recheada por músicas e cenas de filmes que fizeram a história da Sétima Arte. Os filmes fazem parte do tempo vago dos personagens Giles e Elisa que, ainda para completar, moram próximos de um antigo cinema de rua – cada vez mais vazio e abandonado.

Assim, apesar do filme claramente ser um conto fantasioso sobre o amor entre duas “criaturas” solitárias e incompreendidas, mas com referência claríssima para outro conto clássico, A Bela e a Fera, The Shape of Water se apresenta também com algumas narrativas paralelas muito interessantes. Apesar de não ficar claro na introdução do filme, essa produção se passa nos anos 1960. Possivelmente a década em que perdemos a nossa inocência enquanto civilização por diversas razões.

O filme mostra isso de forma pincelada aqui e ali. Primeiro, com uma cena isolada na TV de Giles que mostra a perseguição e a violência policial contra negros. Depois, em um dos cenários principais da história, a base militar em que o malvado Richard Strickland (Michael Shannon) manda e desmanda, a violência dos militares americanos contra tudo que poderia ter o mínimo cheiro de inimigo.

E, claro, nos bastidores daquele cenário, a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, cada um procurando ganhar do outro na corrida armamentista e de “conquista do Espaço”. Algo interessante desse filme do diretor Guillermo del Toro é como a história é cheia de referências.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além de A Bela e a Fera citada e dos diversos filmes homenageados por essa produção, se destacam também as referências históricas. Para mim, impossível não pensar no massacre dos colonizadores aos incas, maias e demais povos latinos, assim como a influência dos Estados Unidos em ditaduras da América do Sul, quando os personagens falam sobre a origem do “homem anfíbio” (Doug Jones).

Em determinado momento, Strickland comenta que os “nativos” amazônicos consideram o “homem anfíbio” como uma espécie de Deus, oferecendo para ele oferendas. Ele ridiculariza tal ação. Mas por esse “detalhe” e pelas características dos personagens Elisa, Giles e do próprio “homem anfíbio”, The Shape of Water se mostra um filme sensível e especial.

Vejamos. Primeiro, The Shape of Water trata do preconceito religioso e dos perigos da visão limitada que uma crença pode provocar. Strickland, que abriga todo o perfil de um militar com visão limitada, seguidor de ordens e com perfil violento, também resume parte da visão do “americano médio”. Ou seja, ele leva ao pé da letra que “Deus criou o homem a sua imagem e semelhança”. Assim, ele não aceita que possa existir um ser especial como o “homem anfíbio”, um outro tipo de “Deus” para uma outra civilização.

Temos aí pincelado os perigos do extremismo religioso, e como ele pode levar à exclusão e à violência. The Shape of Water trata sim sobre a exclusão do que não entendemos e do que é diferente ao nosso “padrão”. Algo que já fez muito parte da história da Humanidade e que, infelizmente, em épocas de extremismo religioso pelo mundo, continua fazendo parte da nossa história.

Mas esse filme também trata sobre o massacre da beleza em outros sentidos. Como eu comentei antes, The Shape of Water trata muito bem sobre o esvaziamento dos cinemas de rua e sobre como o cinema deixou de ter importância na vida das pessoas com o surgimento da TV – e por outros fatores, evidentemente. Aquela magia de ir para uma sala de cinema foi sendo substituída por outros “passatempos”, e todos perdemos um pouco daquela magia por causa disso.

Essa produção ainda revela como a Guerra Fria provocou muitas mortes gratuitas e absurdas, com duas grandes nações competindo não pela evolução da Humanidade, mas sim em uma queda-de-braços para ver quem era “melhor”. Espionagem e contra-espionagem e muitas mortes como saldo disso.

Como o chefe russo do Dr. Robert Hoffstetler/Dimitri (Michael Stuhlbarg) bem define, o importante não era o que eles poderiam “descobrir” ou aprender com o “homem anfíbio”, mas sim impedir que o inimigo conseguisse descobrir algo significativo. Então esse é um conto fantasioso sobre aquele período, mas que revela bem as oportunidades que os dois países tiveram e que perderam por pura ambição.

De pano de fundo da história, também vemos a uma sociedade com muitas oportunidades desiguais para as pessoas. Giles rebolava tentando conseguir algum trabalho aqui e ali, enquanto Elisa e Zelda trabalhavam na madrugada para conseguir pagar as suas contas. Giles teve um problema com alcoolismo, e Zelda lida com um marido que é castigado pelo trabalho e com quem ela nem sempre tem uma boa relação. É a vida do cidadão comum no foco dessa produção.

Esse é um dos aspectos interessantes desse filme. Como a vida de pessoas comuns pode ter – e sempre tem, quando estamos atentos para perceber – muita poesia e significado. E, claro, The Shape of Water é um filme sobre a admiração e a aproximação de duas pessoas solitárias e incompreendidas. Por  um lado, a muda, solteira e com poucos amigos, Elisa, que se encanta por um “homem anfíbio” que também não tem voz, mas que é inteligente, sabe se comunicar de outra forma e é sensível. Como ela.

Os dois se identificam e se aproximam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E sim, por mais que eles flertaram e se aproximaram no decorrer da história, não deixa de ser estranha a noite de amor entre os dois quando o “homem anfíbio” está no banheiro de Elisa. Apesar daquela sequência ter sido um pouco forçada, ela ainda é justificável. O que me incomodou mesmo e que eu achei um certo “deslize” do roteiro de del Toro e de Taylor foi outra parte.

Ora, passa um bom tempo entre o “resgate”/sequestro do “homem anfíbio” e o momento em que Strickland persegue Dimitri no momento de sua “extração”. Achei um tanto “forçada” toda aquela incompetência de Strickland. Afinal, não seria natural que ele tivesse seguido o Dr. Hoffstetler e outros suspeitos antes? Mas tudo que ele parece fazer são interrogatórios sem muito sentido e pouco mais que isso.

Claro que houve um motivo para o filme ser desenrolado dessa forma. Se Strickland tivesse tido uma atitude mais coerente na história, provavelmente o romance e a aproximação do “homem anfíbio” e de Elisa não teria tido tempo de ocorrer. Mas esse “desleixo” relativo com a história e a falta de explicação para a fórmula do Dr. Hoffstetler começar a deixar de funcionar com o “homem anfíbio” enfraquecem um pouco o roteiro de The Shape of Water.

Ainda assim, esses são apenas detalhes e pequenos deslizes de um filme que renova o gênero dos contos de fantasia. Como qualquer conto, The Shape of Water trabalha a realidade com uma boa carga de fantasia para provocar reflexão. Nada pode ser muito óbvio ou realista, justamente para fazer as pessoas pensarem sobre a história e, a partir dela, sobre a própria realidade. Esse é um belo conto, cheio de ponderações interessantes.

O maior valor e “moral da história” da produção, evidentemente, reside na reflexão que todas as pessoas merecem ser amadas e serem vistas por suas características e qualidades e não por seus “problemas” ou por alguma diferença que tenham com o “modelo ideal” previsto pela sociedade. Todos merecem ser incluídos, compreendidos, amados. E não excluídos ou extintos porque são diferentes do que o padrão gostaria.

Em uma época como a nossa, em que alguns extremistas voltam com a ideia de dizer quem merece ou não viver, quem merece ter ou não oportunidades, The Shape of Water se revela um filme importante. Nem tanto pelo que ele deixa óbvio, mas pelo que ele sugere e faz refletir. Vejam essa produção como um conto, como uma fantasia. Como tantos outros contos clássicos, esse também está cheio de belas mensagens e de reflexão.

NOTA: 9,3 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que eu amo no diretor e roteirista Guillermo del Toro: a visão artística diferenciada que ele tem. Para mim, ele possui um estilo e uma assinatura quase tão diferenciadas quanto Tim Burton. Esses são dois realizadores que tem um grande apreço pelo visual e pelos contos, algo que eu admiro. Novamente com The Shape of Water del Toro consegue nos apresentar uma história interessante e com um visual muito bacana. Esse tipo de filme que pode até não ficar tanto tempo na nossa mente pela história, mas talvez pelo visual da produção.

Nesse sentido, vale destacar o excelente trabalho de Dan Laustsen na direção de fotografia; de Paul D. Austerberry no design de produção; de Nigel Churcher na direção de arte; de Jeffrey A. Melvin e de Shane Vieau na decoração de set; e de Luis Sequeira nos figurinos. Todos eles, especialmente os três primeiros, fazem um trabalho fundamental para mergulharmos na época e no estilo diferenciado dessa história. Um belo trabalho, sem dúvida.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale também destacar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; de Sidney Wolinsky na edição; dos 12 profissionais envolvidos com o departamento de maquiagem; dos 21 profissionais responsáveis pelo departamento de arte e dos 69 profissionais envolvidos com os efeitos visuais da produção. Toda a equipe técnica está de parabéns.

Entre as belas lembranças do cinema resgatadas por The Shape of Water, devo dizer que fiquei especialmente tocada pela lembrança de Carmen Miranda. Apesar de ter nascido em Portugal, Carmen Miranda ficou conhecida após ter se radicado no Brasil e ter vendido a imagem do nosso país para o mundo antes mesmo do futebol e do Carnaval realmente dominarem o nosso imaginário fora das nossas fronteiras. Bacana terem lembrado dela.

Sobre o elenco, como comentei antes, os grandes destaques são mesmo Sally Hawkins, Richard Jenkins e Octavia Spencer. Todos muito bem, firmes e precisos em seus papéis, evitando os exageros e os estereótipos. Michael Shannon combina sempre muito bem com os papéis de “meio malvado, meio louco”. Novamente ele faz bem esse personagem. Assim como Michael Stuhlbarg combina bem com o papel do sujeito “humano, demasiado humano”, que tem os seus dilemas, mas que sempre (ou quase sempre) acaba fazendo o que é certo. Estou curiosa para o dia em que Shannon e Stuhlbarg conseguirem sair desses papéis-padrão.

Como é sempre indicado para filmes que querem desenvolver os seus personagens um pouco melhor, The Shape of Water tem um pequeno grupo de personagens importantes. Os demais, que aparecem em cena, realmente são secundários e com papéis pouco desenvolvidos. Isso funciona bem aqui – e na maioria das vezes. Entre os personagens com menor relevância, vale destacar o bom trabalho de David Hewlett como Fleming, o chefe de segurança do laboratório militar até a chegada de Strickland; Nick Searcy como o General Hoyt, superior de Strickland e perfil totalmente coerente com os militares americanos da época; Nigel Bennett como Mihalkov, líder russo e superior de Dimitri; Lauren Lee Smith como Elaine Strickland, esposa de Richard; e Wendy Lyon como Sally, a secretária do vilão. Ainda que ele não “dê as caras”, tem um trabalho importante nessa produção o ator Doug Jones. Ele é que dá a vida para o “homem-anfíbio”.

The Shape of Water estreou em agosto de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de 38 festivais em diversos países mundo afora. Nessa trajetória, o filme conquistou 73 prêmios e foi nomeado a outros 231 prêmios – incluindo a indicação em 13 categorias do Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Diretor para Guillermo del Toro e para Melhor Trilha Sonora no Globo de Ouro 2018; para 12 outros prêmios de Melhor Diretor para del Toro; outros 11 prêmios de melhor trilha sonora; 16 prêmios de Melhor Atriz para Sally Hawkins; 6 prêmios de Melhor Design de Produção; 6 prêmios de Melhor Filme; e 3 prêmios para Melhor Direção de Fotografia.

Entre os prêmios de Melhor Filme, destaque para o recebido no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Guillermo del Toro disse que a atriz Sally Hawkins não foi apenas a “primeira” escolha dele para o papel de Elisa, mas a sua “única” escolha. A personagem foi escrita para a atriz, assim como o personagem de Richard Strickland para Michael Shannon. Sobre Sally, o diretor e roteirista disse que queria uma atriz que lembrasse uma mulher de um “comercial de perfume”, ou seja, que o espectador visse e acreditasse que poderia estar ao seu lado em um ônibus ao mesmo tempo que ela tivesse uma “luminosidade e uma beleza quase mágica, etérea”. Melhor definição, impossível.

O visual do “homem-anfíbio” é fortemente inspirado na “criatura” do filme The Creature from the Black Lagoon, lançado em 1954. A exemplo do personagem de The Shape of Water, que é pego em um rio na América do Sul, o personagem de The Creature from the Black Lagoon também tinha essa origem.

Guillermo del Toro escreveu longos “backstories” para cada um dos personagens principais dessa produção. Alguns tinham mais de 40 páginas. Depois de escrever esse material, o diretor deixou os atores livres para utilizarem esse material ou não. Enquanto Richard Jenkins preferiu ignorar o “backstorie” para se centrar apenas no que acontecia em cena, Michael Stuhlbarg leu o “backstorie” de seu personagem e disse que esse material foi útil para ele desenvolver o seu papel no filme.

O sobrenome de Elisa, Esposito, tem origem italiana e costuma ser dado, nos Estados Unidos, para crianças que foram abandonadas.

De acordo com del Toro, se The Shape of Water tivesse sido um fracasso, ele teria se aposentado da carreira como diretor. O mesmo aconteceu antes, na carreira dele, com El Laberinto de Fauno e com The Devil’s Backbone – outros filmes que tiveram um grande envolvimento pessoal do diretor.

A atriz Sally Hawkins disse que se inspirou em Charles Chaplin, Stan Laurel, Oliver Hardy, Buster Keaton e Audrey Hepburn para fazer o seu papel. Mistura realmente interessante, e com alguns dos grandes nomes do cinema – infelizmente pouco conhecidos pela galera nova, ultimamente.

Inicialmente, Guillermo del Toro tinha pensado em fazer The Shape of Water em preto e branco. Teria ficado interessante, mas acho que menos do que a versão colorida que vimos na telona. O diretor desistiu a ideia porque filmar em preto e branco sairia mais caro.

As filmagens de The Shape of Water, quase todas feitas dentro de um estúdio, foram feitas durante 12 semanas.

Vale citar uma interpretação interessante do roteiro feita pela atriz Octavia Spencer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chamou a atenção dela, do roteiro, que o casal de protagonista é mudo, e que a maior parte do diálogo é feita por uma mulher negra e por um homem de meia idade gay, ambos perfis oprimidos pela sociedade nos anos 1960. Eu não tinha parado para pensar nisso, mas realmente é um toque interessante do filme.

The Shape of Water faturou quase US$ 44,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos, e fez outros US$ 19,6 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Somados, esses dois resultados dão cerca de US$ 64,2 milhões para o filme. A bilheteria não é ruim, mas me parece também muito distante de um sucesso comercial para a produção. E isso porque ela recebeu 13 indicações ao Oscar 2018… pelo jeito, muitas pessoas já não dão bola para isso. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 263 críticas positivas e 22 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4. Os dois níveis de avaliação são muito bons, se levarmos em conta os padrões dos dois sites, mas especialmente a nota dos críticos é excelente.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme lindo, em vários sentidos. Especialmente nas mensagens que ele propaga e no visual. The Shape of Water é uma produção bonita, bem acabada tecnicamente e com um bom trabalho dos atores. O roteiro, segue a linha que o realizar gosta, de contos que resgatam e renovam a tradição desse gênero. Apenas a narrativa, que convence por uma boa parte do tempo, dá uma certa “escorregada” para justificar a ação por mais tempo.

Essa é a única falha do filme que, como eu disse no princípio, faz uma bela homenagem ao cinema e ao amor nas suas formas mais surpreendentes e inusitadas. Entre outras mensagens, The Shape of Water nos mostra como todos devem ter o direito de amar e de serem aceitos como eles são. Mesmo que o “sistema vigente” não pense da mesma forma, é possível resistir e buscar isso com uma certa ajuda “dos amigos”. Belo filme. Mais um gol de del Toro.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Esse filme é um grande mistério. Ao menos se pensarmos nas chances que ele tem na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele é o recordista em indicações nesse ano, concorrendo em 13 categorias… mas ele realmente deve se consagrar como o maior vencedor do ano?

Essa é a grande questão que se apresenta. Acho sim que ele tem alguma chance de levar como Melhor Filme. Mas, para isso, ele terá que vencer o favorito Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado por aqui). Não seria uma injustiça um ou outro vencer. Mas… para o meu gosto, acho Three Billboards mais interessante que The Shape. Nem tanto pelo visual ou pelos aspectos técnicos, mas pelo roteiro.

Então, pessoalmente, acho que Three Billboards, apesar de ter quase metade das indicações de The Shape, deve se consagrar como o grande vencedor da noite – ganhando não apenas Melhor Filme, mas Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e, talvez, Melhor Roteiro Original (ainda que, nessa categoria, ele corra por fora).

Vejo The Shape com maiores chances de abocanhar os prêmios de Melhor Diretor, Melhor Design de Produção e Melhor Direção de Fotografia. Mas, não está descartado dele surpreender em outras categorias, como Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora, por exemplo.

Da minha parte, ainda que eu tenha gostado muito dos atores coadjuvantes de Three Billboards, me chamou muito a atenção o trabalho de Richard Jenkins em The Shape. Ele poderia surpreender – mas nessa categoria é mais difícil o favorito Sam Rockwell não levar.

Enfim, The Shape pode sair com o Oscar principal e mais três ou quatro prêmios no Oscar 2018 como pode, também, sair com as mãos mais vazias. Espero que ele saia com alguns prêmios, porque o filme merece. Muito bem feito e com mensagens bacanas. Segundo as bolsas de apostas, as melhores chances do filme estão em cinco categorias. Tenho as minhas dúvidas se o filme levará tantas estatuetas para casa. Logo mais saberemos ao certo sobre isso.

ATUALIZAÇÃO (13/02): Olá amigos e amigas do blog! Senti a necessidade de fazer uma atualização desse texto. Até para explicar um pouco sobre as razões que fizeram eu baixar a nota do filme. Quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que essa não é a primeira vez que isso acontece. Mas, como isso não é tão comum assim, acho importante explicar o que aconteceu dessa vez.

Admito que algumas vezes, quando escrevo a crítica pouco depois de ter assistido ao filme – o que foi o caso desse The Shape of Water -, a minha avaliação ainda está positivamente contaminada pelas sensações que a produção acaba de me despertar. Mas, transcorrido algum tempo, percebe que a nota que eu dei estava acima do que deveria. Esse foi o caso.

Fiquei surpresa com a beleza e a proposta visual de The Shape of Water e, sobretudo, com a homenagem que o filme faz para o cinema. Ok, essa não é a primeira vez que um filme faz isso – na verdade, temos algumas décadas de experiência de filmes que volta e meia homenageiam a Sétima Arte. Como o cinema, para mim, muitas vezes significa o mecanismo que salva a minha sanidade, sim, eu tenho um fraco por filmes que fazem essa homenagem.

Mas, devo admitir, passado um tempo desse impacto visual de The Shape of Water, os problemas de roteiro da produção começam a incomodar mais. Especialmente pelo fato de que eles poderiam ter sido facilmente resolvidos – com um pouco de esforço de Guillermo del Toro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Então sim, me incomodaram três falhas um tanto “gritantes” nessa produção. Para começar, se Richard Strickland estava realmente desconfiando do Dr. Robert Hoffstetler, como ele não “flagrou” a visita dos russos ao “companheiro” no seu apartamento após o sequestro do “homem-peixe”? Não faz sentido.

Depois, ainda que tivesse rolado um “flerte” entre Elisa e o “homem peixe”, como eu disse na crítica, me pareceu um bocado forçada a “primeira noite de amor” entre os dois. Parecia que o diretor precisava correr com a narrativa. E, claro, durante a produção, me saltou “aos olhos” a falha comentada pelo Paulo Cesar Luz no comentário logo abaixo – pensei nisso enquanto o filme se desenrolava, mas, depois, esqueci de citar na crítica aqui do blog. Sim, me chamou muito a atenção o fato do “homem-peixe” ter sido encontrado em um “rio” da América do Sul e, depois, o cientista ter recomendado para Elisa uma solução “salina” para que ele não sofresse no cativeiro.

Ora, isso não faz o menor sentido. Claro, para a narrativa um tanto desleixada de del Toro, o “homem-peixe” precisar ficar em água salgada justificaria, depois, ele ser solto em um rio que iria desembocar no mar – caminho que ele poderia, então, “trilhar” para voltar para casa. Mas vamos combinar, então por que falar que ele foi achado em um rio? Ok, como o “homem-peixe” era capaz de “adaptar” o seu organismo para respirar na água e fora dela, ele também poderia ser capaz de se adaptar em água doce e salgada… mas isso não foi dito em momento algum da produção e, se fosse assim, ele não teria problema em ficar na água doce de uma banheira, não é mesmo?

Enfim, essas “forçadas de barra” do roteiro, os fios soltos da história que não precisavam ter sido deixados soltos – o que, para mim, só mostra desleixo de del Toro – me fizeram baixar mais a nota dessa produção. E, talvez, daqui a seis meses, eu até ache que o filme merece menos que 9. Mas é que ele é tão bonito e tão cheio de boas intenções… que vou deixar ele com essa nota por enquanto. É um bom filme, só um bocado desleixado no roteiro – nos outros aspectos ele funciona bem, especialmente no visual.