Loving Vincent – Com Amor, Van Gogh

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A cada novo frame, uma obra de arte. Sem exageros. Loving Vincent é uma obra estonteante, um verdadeiro deleite para quem já se pegou passando um longo tempo contemplando uma obra de arte. E se você é fã de Van Gogh, então… aposto que você vai ficar sem palavras com este filme. Honestamente, acho que este é um dos filmes mais bonitos que eu já assisti na vida. A história é envolvente, interessante, o filme têm dinâmica e movimento, apesar de ser todo feito a partir de um trabalho totalmente artesanal. Uma bela, belíssima homenagem ao artista que foi incompreendido no seu tempo e valorizado apenas após a sua morte.

A HISTÓRIA: Começa nos informando que o filme que vamos assistir foi totalmente pintado à mão por uma equipe de mais de 100 artistas. Em uma notícia ampliada de jornal, sabemos que em Auvers-Sur-Oise, no domingo dia 17 de julho, Van Gogh, com 37 anos, pintor holandês que estava com “estadia” em Auvers, atirou em si mesmo com um revólver nos campos, mas que ele acabou retornando para o quarto em que estava hospedado, onde morreu dois dias depois. Depois desta notícia, o filme informa que a história de Loving Vincent começa um ano após a morte de Vincent Van Gogh. A “jornada” começa em Aarles, no ano de 1891.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving Vincent): Este é um filme que preferencialmente, você deve assisti-lo em um cinema. Afinal, para curtir toda a beleza e o trabalho magnífico dos artistas envolvidos neste filme, só mesmo em frente a uma tela grande. Algo similar com ver uma obra de arte em um livro e/ou na tela do computador ou pessoalmente. A diferença entre as nossas leituras e impressões é gigantesca.

Eu não sou uma grande conhecedora da vida e da obra de Vincent Van Gogh. Eu já vi a algumas de suas obras pessoalmente, em museus de mais de uma latitude, mas eu sei o que quase todo mundo sabe sobre a vida dele. Antes de assistir a este filme, por exemplo, eu sabia sim que ele não tinha sido uma pessoa exatamente feliz em vida, que ele tinha alguns problemas psicológicos – a ponto de cortar a própria orelha em um dia de desespero. E era isso que eu sabia sobre a vida dele.

Sobre a obra… esta eu posso dizer que eu conhecia um pouco mais. Tinha visto a alguns de seus quadros pessoalmente e a vários outros em coleções e livros de arte que eu li há vários anos. A obra dele é realmente algo impressionante. E isso é o que me marcou logo nos primeiros segundos deste filme. Como a equipe dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, responsáveis pelo roteiro desta produção junto com Jacek Dehnel, conseguiram reproduzir com tanto esmero e talento a obra do mestre que eles estão homenageando.

Realmente o trabalho é incrível. Cada frame que vemos em cena, especialmente do “tempo presente” da narrativa, é algo impressionante. Obras de arte que tem os traços e as cores das obras de Van Gogh. Como vários outros filmes com atores reais que são dirigidos em longas que não são de animação, em Loving Vincent o passado é narrado em preto e branco. Um recurso bem conhecido do público para diferenciar dois momentos narrativos diferentes.

Então este é outro ponto marcante nesta produção. Como cada tempo narrativo tem uma técnica diferente de pintura desenho e de arte. Muito interessante como os estilos, tão diferentes, acabam se complementando. Honestamente, achei o trabalho técnico e artístico deste filme impecável. Os realizadores não apenas resgatam a história de Van Gogh, mas o homenageiam de forma espetacular ao reproduzir algumas de suas telas na nossa frente. E o que não foi pintado pelo mestre holandês se inspira na obra dele para preencher os espaços entre uma obra e outra de Van Gogh que vemos em cena. Um trabalho belíssimo.

Imagino que quem conhece com profundidade a vida de Van Gogh, não tenha se surpreendido tanto com esta história quanto eu. Possivelmente esta pessoa que tem mais conhecimento tenha também achado um e outro defeito da história que está sendo contada. Da minha parte, de quem não é uma especialista em Van Gogh, achei o roteiro de Kobiela, Welchman e Dehnel muito bem construído. A história segue uma linha um tanto “clássica”, intercalando o momento presente da narrativa e o passado que tenta explicar o que teria provocado a morte prematura do pintor holandês.

O protagonista desta produção, o jovem Armand Roulin (com voz de Douglas Booth), que foi retratado por Van Gogh e que era filho do carteiro que atendeu o artista por muitos anos, faz as vezes em Loving Vincent de um investigador. Enviado pelo pai, Joseph Roulin (Chris O’Dowd), para encontrar a última carta escrita por Van Gogh, Armand acaba indo atrás, primeiro, do irmão do pintor holandês, Theo van Gogh (Cezary Lukaszewicz). Afinal, ele era o destinatário da carta e parecia a pessoa certa a receber esta última correspondência.

Em Paris, Armand descobre que Theo não morreu muito depois do irmão. E a esposa e filhos dele já não estão morando mais ali. Então ele decide ir para Auvers, onde Van Gogh morreu, para tentar encontrar algumas respostas sobre o que aconteceu com o amigo de seu pai. Inicialmente, Armand tinha pouco interesse em realmente saber o que tinha acontecido com Van Gogh, até porque ele acreditava na versão oficial de que o pintor tinha se matado. Mas a certeza do pai dele de que isso não teria acontecido com o amigo Van Gogh, que estaria melhor de uma depressão, fazem com que Armand acabe investigando as relações e os últimos dias de Van Gogh.

No fim das contas, Armand acredita que se ele entregar a carta de Van Gogh para o Doutor Gachet (Jerome Flynn), ele poderá dar o destino correto para a correspondência. É desta forma que ele conhece algumas pessoas interessantes e que foram retratadas por Van Gogh em suas obras. O roteiro de Loving Vincent equilibra, desta forma, esta espécie de “investigação” sobre a morte de Van Gogh, o que imprime um pouco de suspense para o roteiro do filme, com um resgate de fatos da vida do artista que aparecem como pinceladas volta e meia na história.

Assim, sabemos um pouco sobre a infância dele, da relação conturbada com os pais, sobre a dependência e a proximidade de Vincent com o irmão Theo, assim como sabemos sobre as alegrias e os muitos desafios e fontes de tristeza que o artista teve na sua vida. Fica evidente, com este filme, que Van Gogh foi incompreendido em seu tempo. Ele não teve apoio de ninguém além do irmão, e não teve sucesso com a sua arte enquanto vivo. Também sabemos sobre o quanto ele escrevia – muito! – para o irmão e sobre como ele era admirado pelas pessoas que o conheceram mais de perto. Afinal, ele era um sujeito calmo, atencioso, educado, e que vivia por sua arte.

Uma história interessante por si mesma, pois, e que foi muito bem explorada por esta produção. Claro que a vida de um artista como Van Gogh não pode ser resumida em 1h34 de filme, como é a duração desta produção, mas a homenagem que os realizadores fizeram para o artista aqui é impressionante e maravilhosa. Me apaixonei por esta produção. Achei uma grande experiência de cinema. Dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Por isso, recomendo a todos que assistam a Loving Vincent. Especialmente nos cinemas.

Além de todos os fatos que eu citei anteriormente e de todas as qualidades relacionadas, também pela história inspiradora de Vincent Van Gogh. Ele viveu em outro tempo e em outros locais do que a gente, mas algo que podemos aprender com a sua história é que quando nos dedicamos a um talento com o qual nascemos, maravilhas surgem do nosso trabalho. Mas que para chegarmos a um trabalho excepcional, precisamos sacrificar outras partes da nossa vida e realmente trabalhar muito. Van Gogh era um apaixonado pela arte e uma pessoa muito atenta e admiradora de tudo que o cercava. Características que deveriam nos inspirar e nos fazer pensar sobre como gastamos o nosso tempo, não é mesmo? Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei dos poucos momentos em que este filme citou trechos de cartas e, consequentemente, do pensamento de Vincent Van Gogh. Claro que o filme, com a duração que ele tem, já deu muitíssimo trabalho para os realizadores, mas eu não teria achado ruim mais 10 ou 15 minutos de filme e a citação de mais trechos de cartas de Van Gogh. Algo que esta produção desperta é o nosso interesse por saber mais sobre o artista, a sua vida, o que ele pensava e como ele produzia as suas obras de arte.

Falando no pensamento de Van Gogh, uma das frases dele que são citadas, logo no início do filme e que serve como uma espécie de cartão-de-visitas da produção é esta aqui: “Só podemos falar através das nossas pinturas”. De fato, Van Gogh acreditava nisso. Como ele não tinha muitas relações pessoais e pensava e conversava através de sua arte, é que entendemos o porquê dele ser tão talentoso.

Todos os atores que “interpretam” os personagens deste filme, ou seja, que dão vozes para eles, estão muito bem. O destaque inevitável, claro, pela presença dele em tela e por conduzir a narrativa, é para o ator Douglas Booth, que interpreta a Armand Roulin. Mas outros personagens e atores que ganham destaque neste filme são Eleanor Tomlinson, que interpreta Adeline Ravoux, filha dos proprietários do hotel em que Van Gogh ficou hospedado e onde morreu; Saoirse Ronan como Marguerite Gachet, filha do Doutor Gachet e uma grande admiradora do talento de Van Gogh; Jerome Flynn como Doutor Gachet, uma figura muito próxima de Van Gogh na temporada próxima de sua morte; Robert Gulaczyk como Vincent Van Gogh; Cezary Lukaszewicz como Theo van Gogh; Robin Hodges como o Lieutenant Milliet; Chris O’Dowd como o carteiro Joseph Roulin; John Sessions como Pere Tanguy, dono de galeria que tentava comercializar as obras de Van Gogh em Paris; Helen McCrory como Louise Chevalier, empregada dos Gachet; Aidan Turner como o barqueiro que conviveu com Van Gogh e que é procurado por Armand; Bill Thomas como o Doutor Mazery, que deu outra interpretação para o tiro que Van Gogh levou; e Piotr Pamula em uma ponta como Paul Gaugin.

Além da direção e do roteiro, já comentados antes, o grande mérito desta produção ser tão bela e perfeita são os artistas – mais de 100, como foi comentado na introdução deste filme – envolvidos nas pinturas que compõem este filme. O trabalho deles é que faz Loving Vincent ser tão diferenciado. Então todos os louros para os 20 nomes relacionados no Departamento de Arte deste filme e para os 111 nomes que trabalharam no Departamento de Animação. Eles são os grandes responsáveis por este filme ser tão especial. Parabéns a todos os envolvidos, pois!

Da parte técnica do filme, também vale destacar o ótimo – e fundamental – trabalho dos diretores de fotografia Tristan Oliver e Lukasz Zal; o belo e pontual trabalho de Clint Mansell com a trilha sonora; a edição cuidadosa e precisa de Dorota Kobiela e de Justyna Wierszynska; o design de produção de Matthew Button, Maria Duffek e Andrzej Rafal Waltenberger – os dois últimos envolvidos nas fotografias dos atores em Wroclaw, trabalho esse que depois influenciaria nas pinturas dos artistas que fizeram esta produção; a direção de arte de Daniela Faggio; os figurinos de Dorota Roqueplo; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – responsáveis, entre outros pontos, pela difícil sincronização das falas dos atores com o trabalho dos artistas envolvidos com as animações; e os 50 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Loving Vincent estreou em junho de 2017 no Annecy International Animation Film Festival. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 25 festivais em várias partes do mundo. Nesta trajetória, Loving Vincent ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme segundo a escolha do público no Annecy International Animation Film Festival; para o de Melhor Animação Estrangeira/Trailer Familiar e para o Melhores Gráficos Estrangeiros em um Trailer no Golden Trailer Awards; para o prêmio de Melhor Filme de Animação no Festival Internacional de Cinema de Shanghai; e para o prêmio Produção Internacional Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver. Loving Vincent também figura no Top 10 da lista do National Board of Review de Filmes Independentes. Ele é a única animação da lista, vale dizer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o site IMDb, Loving Vincent é o primeiro longa de animação totalmente pintado que já foi realizado pelo cinema mundial. Baita, não?

Segundo os produtores, cada um dos 65 mil frames que vemos em cena, nesta produção, são quadros de pinturas a óleo sobre tela. A parte do filme colorida utiliza a mesma técnica utilizada por Van Gogh; técnica esta reproduzida por pouco mais de 100 artistas.

Durante uma “masterclass” no Klik Amsterdam Animation Festival, os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman afirmaram que, se você olhar atentamente para cada cena desta produção, em uma delas você poderá notar uma mosca presa na pintura de um dos quadros. Quem se habilita a buscar a tal mosca? 😉

Loving Vincent foi totalmente rodado no Three Mills Studios, na cidade de Londres, no Reino Unidos.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido com a Polônia.

Claro que existem muitos outros textos melhores e mais profundos sobre a vida de Vincent Van Gogh. Mas vale, para os que ficaram curiosos para saber um “resumo” sobre a trajetória do artista, dar uma olhada nos textos dos sites InfoEscola; History; UOL Educação; e Huffpost Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Loving Vincent teria feito quase US$ 5,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Para um filme independente e com a proposta desta produção, acho que não está nada mal. Mas o principal concorrente dele no Oscar 2018 está em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos e conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 135,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Ou seja, uma comparação realmente brutal – e não fica difícil presumir para onde “pende” o pêndulo da indústria de Hollywood, não é mesmo?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e 21 negativas para este filme – o que garante para Loving Vincent uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Pelos prêmios que eu citei antes, já dá para perceber que este filme agradou mais ao público do que aos críticos, não é mesmo?

Procurando saber um pouco mais sobre os realizadores deste filme, achei interessante saber – e comentar com vocês – que Loving Vincent marca a estreia na direção do produtor Hugh Welchman. Por outro lado, este filme é o quarto trabalho na direção de Dorota Kobiela. Ela estreou na direção com o longa The Flying Machine, em 2011, e, depois, dirigiu a dois curtas antes de fazer com Welchman o filme Loving Vincent.

Ah sim, e você, como eu, deve ter se perguntado como os artistas trabalharam cada frame que vemos em cena, não é mesmo? Pesquisando sobre o filme e vendo fotos de bastidores, percebi que os diretores filmaram as cenas com os atores e que depois cada um daqueles 111 envolvidos com o trabalho do Departamento de Animação produziram as telas que reproduziram a ação em quadros que são verdadeiras obras de arte. Bem bacana!

CONCLUSÃO: Para quem é um profundo conhecedor da vida e da obra de Van Gogh, possivelmente a leitura deste filme será diferente da minha. Como eu não me enquadro neste perfil, me considero apenas uma pessoa com conhecido médio sobre o artista, achei Loving Vincent simplesmente divino. É um prazer passar pouco mais de uma hora e meia no cinema, frente a uma grande tela que desfila obras de arte a cada novo frame, como comentei lá na introdução deste texto.

Como animação, este filme é um dos melhores que eu já vi na vida. Enquanto história criada para o cinema, este filme cumpre bem o seu propósito, resgatando parte da vida, da obra e do pensamento do artista. Para mim, um trabalho irretocável. Merece ser visto com tempo e, quem sabe, até revisto. Este é um dos raros casos de peça de cinema que não cansa pela experiência prazerosa de cada cena. Não perca!

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Loving Vincent é um dos 26 filmes de animação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood informou que está concorrendo a uma vaga na disputa de Melhor Filme de Animação no próximo Oscar. Este filme a exemplo do que aconteceu em outros anos, foge do padrão “hollywoodiano” de filmes de animação. Especialmente pelo fato desta produção ser artística e mais “adulta”, diferente das produções que costumam ganhar o prêmio e que são feitas pela Disney ou pelo estúdio Pixar.

Francamente, este é o primeiro filme da lista de 26 que eu assisto. E mesmo sem poder compará-lo com os demais ainda, digo com toda a certeza que ele não deveria ficar fora da disputa do Oscar 2018 em sua categoria. Esta produção é brilhante, belíssima, muito bem narrada e com uma beleza ímpar. Como e disse antes, um dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Então, apesar de não ter o lobby dos grandes estúdios, Loving Vincent deveria sim estar entre os cinco finalistas desta categoria.

Agora, ele tem chances de ganhar o Oscar? O franco favorito, pelo que eu tenho lido, é o sucesso de público e de crítica Coco. Existem outros filmes que estariam na “dianteira” desta disputa, como The Breadwinner, Ferdinand e Birdboy: The Forgotten Children, além de outras produções que estariam correndo um pouco por fora mas com chances de chegar a uma das cinco indicações, como os filmes da grife The Lego Movie e The Boss Baby.

Para realmente opinar sobre esta categoria, eu preciso ver a outros concorrentes. Mas analisando apenas Loving Vincent, o meu foto seria, inicialmente, para ele. Seria muito injusto este filme não figurar entre os cinco finalistas ao Oscar. O grande desafio desta produção será vencer o grande lobby do filme Coco, uma coprodução das gigantes Disney e Pixar. Me parece que Coco leva vantagem, mas seria bacana ver a “zebra” Loving Vincent ganhar esta disputa.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro. Loving Vincent foi indicado na categoria Melhor Filme de Animação. Como esperado, o principal concorrente dele será Coco. Esperamos que este filme também consiga a sua vaga no Oscar. Eu estou na torcida desde já! 😉

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Nelyubov – Loveless

Ah, o desamor! Esta característica que parece estar cada vez mais presente em tantas casas e ruas de diversas cidades do Brasil e do mundo. Desamor este capaz de destruir, seja de forma lenta, seja de forma ligeira, tudo o que encontra pela frente. O filme russo Loveless, representante no Oscar 2018 do país que vende uma imagem gelada para o mundo há tanto tempo, acerta em cheio ao falar do desamor. Vi neste filme tantas realidades que eu conheci ou sobre as quais eu só ouvi falar – mas que são muito, muito reais. Um filme forte, tenso, com um roteiro que corta como uma navalha, mas cheio de verdade(s).

A HISTÓRIA: Uma grande árvore. A neve cai. O cenário gelado mostra neve sobre a terra e as árvores, mas a água do rio ainda não está congelada. Sobre a água, nadam alguns patos. Fora o movimento dos animais e da água e a queda da neve, todo o restante do cenário é estático. No pátio de uma escola, também não vemos movimento. Até que a porta se abre e as crianças e os jovens correm para fora. Entre eles, está o solitário Alyosha (Matvey Novikov). No longo caminho que faz à pé até em casa, Alyosha se diverte com uma fita que encontra no caminho. No próprio lar, contudo, ele não tem nenhum motivo de diversão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nelyubov): Logo no início você percebe aquela forma peculiar de ser e de revelar-se dos russos. Não assisti a tantos filmes daquele país quanto eu gostaria, mas sempre que eu vejo um filme “made in Russia”, este filme se revela marcante. Os russos – conheci poucos na vida – tem uma forma muito direta de ser e de se expressar. Eles são de uma cultura um tanto machista, mas as mulheres também tem opinião forte. E isso fica evidente nesta produção.

Interessante como Loveless é um filme russo e, ao mesmo tempo, muito universal. Especialmente pelo que eu comentei no início. A história e as verdades que este filme aborda de maneira muito franca e direta podem ser encontradas em muitos países e culturas. Tão, igual ou menos machistas que a cultura russa. Na verdade, esta questão, do machismo, pouco importa neste filme. O cerne da história está realmente naquela palavra, desamor.

O início de Loveless é perfeito. Ele mostra o desamor que move este filme em toda a sua potência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chega a ser complicado assistir a toda a crueldade da mãe e do pai de Alyosha em relação ao menino. O garoto parece ser um grande fardo para os dois. Nem a mãe dele, Zhenya (Maryana Spivak), e nem o pai, Boris (Aleksey Rozin) têm qualquer paciência ou demonstração de afeto por Alyosha.

Zhenya apenas faz o básico do básico do básico, ou seja, serve café da manhã para o filho e o manda para a escola todos os dias. Mas, em uma certa noite, depois que o garoto sai para a escola, ela nem dorme em casa e não tem certeza se Alyosha chegou a voltar para casa. Boris não é melhor. Ele vai para casa apenas para dormir, e em algumas noites, e parece ser incapaz de ter qualquer proximidade com o filho. Na verdade, nem vemos eles interagindo nesta produção.

A discussão de Zhenya com o quase ex-marido é ilustrativa do “clima” que existe na casa de Alyosha. Quando vemos aquela discussão e a forma com que os pais tratam o garoto, entendemos as cenas iniciais de Loveless que, até então, pareciam um tanto estranha. Afinal, em pouco tempo podemos perceber que Alyosha é um garoto um bocado solitário – ao ponto de preferir olhar pela janela a paisagem ao invés de sair para brincar com as crianças de perto de casa.

O que acontece com um menino para ele não ter nenhuma vontade de brincar? Essa foi a primeira pergunta que este filme me despertou. E o diretor e roteirista Andrey Zvyagintsev, que escreveu este roteiro junto com Oleg Negin, é muito preciso em nos dar esta resposta. Loveless é um filme muito direto do início ao fim, e a parte inicial da produção tem o ritmo e a dinâmica perfeita. O roteiro não deixa ninguém impassível. A realidade de Alyosha é de cortar o coração, e nos compadecemos do garoto. O pior é que após os pais deles se jogarem nos braços de seus amantes durante a noite inteira e Zhenya dar pelo sumiço do filho no dia seguinte, não temos como não esperar o pior.

A partir daí, o filme dá uma grande virada narrativa. Aquele ritmo certeiro e ágil do início é substituído por um roteiro que narra uma busca que parece sem fim. A narrativa então fica bastante previsível. Estamos sempre esperando pelo pior, pela notícia do fim trágido de Alyosha. Neste sentido, Loveless perde um tanto da sua força e da sua capacidade de surpreender. Sabemos por onde a história vai caminhar. Apenas perto do final o filme volta a ter a força que vimos no começo.

Os dois personagens principais, adultos, deveriam fazer qualquer pessoa refletir a respeito da vida que têm e que gostaria de ter. Zhenya está sempre com a atenção no celular e nas redes sociais, enquanto Boris está mais preocupado com o status social e com o que os chefes e colegas de trabalho vão falar dele, um sujeito que está se separando e que já engravidou uma outra garota (Yanina Hope). Nenhum dos dois parece se importar o mínimo com o filho que geraram. Não importa se Alyosha foi desejado ou não. Os pais deveriam, no mínimo, ter responsabilidade em relação a ele, certo?

Mas não. Loveless mostra que nem todas as pessoas nasceram com a vocação para ser mãe ou pai. Algo que eu já comentei aqui em outras críticas. Estou totalmente de acordo com esta leitura da realidade. Conheci alguns casos de pessoas que foram marcadas pela vida inteira por mães ou pais ineptos, para dizer o mínimo e ser “suave”. Centrados demais em si mesmos, egoístas ao extremo, mães e pais como Zhenya e Boris fazem os seus filhos vítimas – seja de forma definitiva, como Loveless mostra no caso de Alyosha, seja de forma menos definitiva mas igualmente grave, provocando feridas psicológicas ou de autoestima nos filhos algumas vezes difíceis de curar.

Depois de toda a narrativa de busca de Alyosha, em que Zhenya e Boris até parece terem resgatado alguma parte de suas “humanidades”, o final de Loveless é matador. Pensamos: puxa, depois de tudo que aconteceu, quem sabe a perda de Alyosha sirva para Zhenya ser mais aberta aos próprios sentimentos e ao amor, enquanto Boris, quem sabe, pode ser um melhor pai para o filho que teve com a nova namorada, não é mesmo? Mas não. Zhenya continua vivendo mais conectada ao celular e às redes sociais, incapaz de se solidarizar com a dor que vê na TV, enquanto Boris não tem paciência nenhuma com o novo filho.

E aí vem a pergunta inevitável: o que diabo estas pessoas estão fazendo com as próprias vidas? Para que, afinal, elas vivem? Para acumularem os dias e viverem em seu constante desamor? Estas são apenas algumas de várias perguntas que este filme pode levantar. Mas algo é fato: Loveless desenvolve algumas ideias importantes sobre as relações interpessoais e sobre a capacidade do ser humano de provocar dano. Um filme forte, impactante, que faz pensar e que, além disso, é capaz de provocar alguma agitação na bílis do espectador.

Por tudo isso, é um filme que merece ser assistido. Se você não tem problemas em ver filmes fortes e que possam lhe deixar um tanto indignado(a), é claro. Porque se você estiver procurando um filme leve e bacaninha para assistir, deve passar longe desta produção. Loveless é tudo, menos um filme que vai lhe deixar melhor após a experiência de assisti-lo. Mas isso não o torna um filme ruim. Muito pelo contrário. Quem sabe ele lhe prepare para identificar estas pessoas um tanto “desumanas” e incapazes de sentir perto de você e, dentro do possível, a se defender delas.

Ah sim, e antes de terminar esta crítica. A desaceleração do roteiro após Zhenya perceber a ausência do filho tem um sentido de ser. Aquela busca que parece ser sem fim, com Zhenya colando cartazes do filho pela cidade e Boris acompanhando de perto as buscas dos grupos de voluntários – questão social muito interessante, aliás -, tem um propósito. O diretor e roteirista Andrey Zvyagintsev quer nos mostrar a angústia que os pais de um filho desaparecido sentem e demonstrar por A+B como este tempo de falta de respostas sobre alguém desaparecido parece passar de forma muito mais lenta que os ponteiros de um relógio.

De fato, quando o filme entra nesta segunda fase, é isso o que vivenciamos. O diretor e roteirista consegue nos colocar exatamente naquele lugar, da mãe e/ou do pai do garoto. Vivemos a angústia da busca e da falta de respostas. Até que surge uma resposta possível – ou, para alguns, a continuidade da falta de respostas. Não importa qual versão você adote. O importante é que Loveless fez você sentir o que as pessoas que buscam desaparecidos sentem. Por isso e pelo restante, esta é uma bela produção, ainda que não de toda inovadora. Mas ela é potente e acerta em seus alvos. E apenas por isso, devemos nos sentir bastante satisfeitos.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme com um elenco reduzido, com poucos atores, e que aposta em uma narrativa realista e bastante direta. Gostei das escolhas feitas pelo diretor e roteirista Andrey Zvyagintsev. Nós vemos em Loveless que apesar da Rússia ter algumas particularidades, como qualquer país e cultura, temos mais elementos semelhantes do que características que nos diferenciam.

Entre outros aspectos, achei interessante perceber como a polícia russa é sobrecarregada – como a polícia das maiores cidades brasileiras – e, consequentemente, não abraça a todas as ocorrências como um “simples” desaparecimento de uma criança. Claro que esta é uma situação grave e angustiante, mas para uma polícia sobrecarregada, com menos gente e recursos do que deveria, se entende que é preciso priorizar algumas ocorrências e deixar outras em “segundo plano”.

Então achei interessante esta crítica sobre o sucateamento policial e o envolvimento civil nas buscas por desaparecidos. A sociedade pode sim fazer mais do que simplesmente pagar uma grande carga tributária e esperar receber todos os serviços do governo. Loveless demonstra na prática como a organização civil pode melhorar diversas realidades e trazer um pouco mais de conforto e de eficiência em aspectos que os governos não dão conta.

O ritmo do filme foi cuidadosamente planejado por Zvyagintsev. E ainda que a história, lá pelas tantas, se torne um bocado previsível, tenho que admitir que o compasso da narrativa foi bem planejado e executado. Temos o momento dos “sentimentos” e das “verdades” sendo colocados todos para fora, que foi na parte inicial da produção, com os personagens principais dizendo ao que vieram, e depois partimos para uma busca angustiante por respostas. Como eu disse, uma narrativa bastante pé no chão e que não larga o realismo em momento nenhum.

No final, nós pensamos: será que tudo que aconteceu serviu para mudar os protagonistas. Será que a angústia da busca por respostas e todos os demais sentimentos relacionados a esta busca mudaram Zhenya e Boris? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma das perguntas inevitáveis é a seguinte: afinal, para que serviu tudo aquilo? Foi para tornar algumas pessoas melhores? E a resposta é não. Uma criança provavelmente morreu e os pais dela nunca terão uma resposta definitiva sobre o que aconteceu e isso não serviu para ninguém se tornar melhor. Mais uma vez, a dura e pura realidade de muitas histórias. Um bocado impactante. E esta é a graça do cinema.

Falando em respostas… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alyosha não é encontrado vivo pelos voluntários e pelos pais. Mas, em determinado momento, Zhenya e Boris são chamados para reconhecer um garoto que foi encontrado morto. Zhenya é convicta em dizer que ele não é o seu filho desaparecido, e entre os argumentos que ela dá para esta certeza é de que o filho tem uma marca no peito que o menino morto não tem. O diretor Andrey Zvyagintsev não mostra a criança mais do que em uma cena rapidíssima. E isso tem uma razão de ser.

Para a história, faz mais sentido a incerteza da resposta. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Tanto para os personagens dos pais de Alyosha quanto para os espectadores. Então você pode chegar a sua própria resposta, se aquela criança era Alyosha ou não. Da minha parte, assistindo aquela cena mais de uma vez – e inclusive pausei naquele rápido momento em que o menino morto é mostrado – e percebendo que a criança estava bastante machucada e quase irreconhecível, notei que ele tinha o mesmo tamanho de Alyosha e que poderia ser o menino. Então, francamente, acho que este foi o fim daquele menino sensível e que sofreu muito em casa antes de desaparecer. Acredito que Alyosha morreu de forma natural, talvez em um acidente, ou foi morto por alguém e que, depois, foi atacado por algum animal para estar tão machucado, deformado e irreconhecível. Como é muito improvável uma criança sobreviver sem ter estrutura, apoio e/ou dinheiro, desde o início esperamos pelo pior para o personagem. Infelizmente.

Os personagens deles são odiosos, mas os atores Maryana Spivak e Aleksey Rozin estão ótimos como os pais que não tem nenhuma vocação para serem pais e que protagonizam esta história. O garoto Matvey Novikov aparece pouco nesta produção, mas as cenas em que ele aparece são bastante impactantes. Ele tem uma ótima presença em tela e tem uma interpretação bastante marcante. Além deles, vale comentar o belo trabalho dos coadjuvantes Varvara Shmykova, que interpreta Lena, uma das voluntárias mais experientes que se envolvem nas buscas de Alyosha; Yanina Hope como a nova namorada de Boris; Aleksey Fateev como o coordenador do grupo de voluntários; e Andris Keiss como Anton, novo namorado de Zhenya. Todos estão muito bem.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima direção de fotografia de Mikhail Krichman; a edição competente de Anna Mass; a trilha sonora pontual e marcante de Evgueni Galperine e de Sacha Galperine; e o design de produção de Andrey Ponkratov.

Loveless estreou em maio no Festival de Cinema de Cannes. Depois o filme participaria, ainda, de outros 25 festivais pelo mundo. Nesta trajetória, ele ganhou nove prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Direção no Asia Pacific Screen Awards; para o Silver Frog no Camerimage; para o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres; para o de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique; para o de Melhor Filme no Festival de Cinema Zagreb; e para o de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles.

Também vale destacar que Loveless foi escolhido para figurar no Top 5 dos Melhores Filmes em Língua Estrangeira do National Board of Review. Junto com Loveless, aparecem na lista Frantz (comentado aqui), Una Mujer Fantástica, Verano 1993 e The Square.

Loveless foi totalmente rodado em Moscou, em locais como o Shodnenskiy Kovsh (as cenas do rio e das árvores), que faz parte do distrito de Yuzhnoye Toshino. Todas as demais cenas, aliás, foram rodadas neste mesmo distrito.

Falando um pouco mais de Andrey Zvyagintsev, este diretor de 53 anos tem apenas oito produções no currículo – incluindo Loveless, um episódio de uma série de TV e dois curtas. Ou seja, se olharmos apenas os longos feitos pelo diretor, ele tem apenas cinco filmes no currículo de diretor – sendo que para três deles ele também escreveu o roteiro. Essas três produções que levam a assinatura de roteiro e direção dele são, na ordem de lançamento: Elena, de 2011; Leviathan, de 2014; e agora Loveless, de 2017. Um diretor bastante seletivo, me parece. Preocupado com a qualidade e não com a produtividade.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 47 críticas positivas e apenas quatro negativas para Loveless, o que garante para este filme um nível de aprovação de 92% e uma nota média de 8,2. O nível destas notas, tanto do IMDb quanto do Rotten Tomatoes, realmente está alto. Acima do padrão para os dois sites. O que mostra que, talvez, o representante da Rússia no próximo Oscar tenha chances consideráveis de avançar na disputa na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

CONCLUSÃO: Este filme trata de temas sobre os quais poucos querem falar. Afinal, a maioria quer destacar as lindas histórias de amor e os filhos gerados a partir destas lindas histórias. Mas e a vida real, o quanto ela pode ser diferente do “comercial de margarina”? Há tempos eu falo, para quem quiser escutar, que as pessoas deveriam, antes de tomar decisões importantes nas suas vidas, pensarem bem sobre o que estão fazendo. O autoconhecimento é um ponto fundamental na equação. Assim, quem sabe, evitaríamos tantos casamentos construídos sobre alicerces podres e, consequentemente, veríamos um número bastante reduzido de crianças que sofrem com decisões equivocadas de adultos perdidos.

Loveless trata sobre tudo isso de uma maneira franca e direta como nem sempre estamos acostumados a ver no cinema. As escolhas iniciais dos realizadores são perfeitas, mas o filme não avança no restante do tempo com a mesma força e vigor que no início. Claro que a desaceleração na narrativa e a previsibilidade do que acontece tem um sentido de ser. Mas para o meu gosto, o filme perdeu força em momentos em que ele poderia ter se saído melhor. Ainda assim, é mais uma descoberta muito interessante e sensível nesta temporada pré-Oscar. Tudo indica que temos mais uma safra especial para degustar até a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood em 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis um filme que pode surpreender. Inicialmente, eu não diria que Loveless teria grandes chances no Oscar. Mas ao analisar o background de prêmios, de críticas positivas e o nome que está por trás desta produção – o diretor Andrey Zvyagintsev, anteriormente aclamado por Leviathan, comentado aqui no blog -, considero que Loveless pode sim ter uma boa chance de chegar até os cinco finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Isso avaliando o contexto. Porque, avaliando apenas sob os meus critérios, eu diria que Loveless não tem tantos méritos assim para chegar até os cinco finalistas. Bem, falta um bocado de filmes ainda para eu assistir. Mas descontando os favoritos – muitos que eu não vi ainda – e entre as seis produções (incluindo Loveless) que eu assisti e que buscam uma das vagas na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018, vejo Loveless correndo por fora.

Entre os filmes que eu já assisti e que comentei aqui no blog – como não poderia deixar de ser -, vejo que têm mais chances que Loveless os seguintes filmes (na ordem de maior chance mesmo): First They Killed My Father, The Divine Order e Spoor. Como os principais críticos americanos apontam para outros favoritos, acredito que apenas First They Killed Mty Father teria chance de emplacar uma indicação entre os filmes que eu já assisti.

Acho Loveless potente, como eu já comentei antes. O filme trata de um tema bastante atual – e, talvez, atual em todas as épocas da Humanidade. Apesar de começar com um roteiro impecável, Loveless acaba se enfraquecendo depois com uma narrativa um bocado previsível e que tem um desfecho também nada inovador. Assim sendo, acho que ele não está totalmente fora da disputa, mas vejo que ele tem poucas chances de emplacar uma indicação entre os cinco finalistas – mas, antes, ele pode chegar até a “pré-lista” dos nove filmes que avançaram por uma vaga.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2018. Loveless é um dos cinco indicados na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ele concorre com In the Fade, First They Killed My Father, The Square e Una Mujer Fantástica. Veremos quem levará a melhor.

Pokot – Spoor – Rastros

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Alguns gostam de repetir esta frase como um mantra: “as coisas são como são”. Mas as “coisas são como são” porque a maioria da sociedade escolheu que fosse assim. Ou, ao menos, dependendo da análise, certas pessoas de um pequeno núcleo familiar ou social escolheram que fosse assim. O “status quo” é o que é exatamente por isso, graças a escolhas. E é o acúmulo de pequenas escolhas que fazem o “status quo”. Spoor é um filme eloquente sobre isso. Eis uma produção interessante, que vai se revelando aos poucos e que, por mais que não tenha um desfecho totalmente surpreendente, de fato ele não pode ser “vislumbrado” muito tempo antes. Faz pensar, e isso sempre é muito bom no cinema.

A HISTÓRIA: Começa com a narradora comentando que a data da nossa morte é decretada no nosso mapa astral com a data do nosso nascimento. Isso acontece porque a lei universal prevê que tudo que nasce, um dia morre. Ela também nos diz que há áreas no mapa astral que sinalizam informações que podem nos ajudar a prever a nossa morte. Em um local de muitos campos e árvores, alguns animais selvagens apenas observam. Um carro percorre uma estrada e chega até um círculo com outros veículos. É noite. Em uma casa, vemos um computador, uma prancha, uma luneta e vários outros objetos da sala até que a câmera chega no quarto de Janina Duszejko (Agnieszka Mandat-Grabka).

Os cães dela acordam e saem correndo e latindo até a porta. Duszejko chama Lea e Bialka, que fazem festa com a dona. Duszejko solta as duas cadelas e vai brincar com elas do lado de fora, quando cumprimenta mais um dia que está nascendo. Quando segue para a escola, onde dá aula, Duszejko encontra Dobra Nowina (Patrycja Volny) e Wnetrzak (Borys Szyc) com o carro atolado. Ela ajuda os dois, mas deixa claro que não simpatiza com Wnetrzak e sim com Dobra Nowina. Este filme conta a história desta senhora peculiar e da cidade em que ela mora, cheia de caçadores.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Spoor): Que filme interessante, meus bons leitores e leitoras deste blog! Esta produção dirigida pela veterana Agnieszka Holland e com direção de apoio de Kasia Adamik foi pensada, me parece, para nos tirar da zona de conforto. Para quebrar alguns “paradigmas” que temos e alguns pré-conceitos que podemos sustentar.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Nos dias de hoje, em que muitas pessoas estão cada vez mais radicais em relação a seus atos e opiniões, este filme nos faz repensar este radicalismo. Sim, eu concordo que as pessoas devem ter opinião, devem ter uma determinada postura e, preferencialmente, serem coerentes entre o que elas pensam, falam e fazem. O problema é que nem sempre vemos esta coerência por aí. E mesmo que alguém seja coerente e defenda os “valores certos”, realmente o caminho deve ser do radicalismo, de fazer todos pensarem igual?

Interessante como Spoor questiona, ao mesmo tempo, uma sociedade doente, que não tem respeito pela vida que não seja humana, e a pessoa que se coloca contra tudo isso. Afinal, apesar da personagem de Duszejko ser muito densa, carismática e interessante, maravilhosamente interpretada pela atriz Agnieszka Mandat-Grabka, e mesmo que a gente concorde com ela, toda a sua indignação e falta de aceitação daquela sociedade adepta da matança de animais, a protagonista desta produção não deixa de ser uma serial killer. Pois sim. E aí está outro questionamento interessante desta produção.

Afinal, quem são os vilões e os mocinhos? Uma serial killer, por mais que seja movida por “bons sentimentos” e por uma indignação coerente, pode ser considerada uma “mocinha”? Não, não pode. A atriz Agnieszka Mandat-Grabka, magnífica em seu trabalho, torna difícil a tarefa de abominarmos o que ela faz. Mas, no fim das contas, para onde todos nós iríamos se várias Duszejko começassem a fazer a “justiça” com as próprias mãos? Por mais que tenhamos razões para abominar e discordar de diversas pessoas e seus atos na sociedade, isto nos dá o direito de sair matando estas pessoas?

E aí talvez um dos questionamentos mais interessantes que esta produção pode levantar: ao defender a vida dos animais matando as pessoas que causam esta matança, Duszejko pode ser considerada melhor que os seus alvos ou ela acabou se igualando ou até se tornando pior que eles? Francamente, eu nunca vou achar que o assassinato, seja de pessoas, seja de animais selvagens, seja o caminho. Todos nós deveríamos defender o direito à vida, não é mesmo? Mas, infelizmente, me parece, vivemos em sociedades em que a vida, seja humana, seja dos animais, parece ter cada vez menos valor.

Como chegamos até aqui? Em que momento as pessoas acharam que “tanto faz” matar um animal ou uma pessoa? Eu não sei. Mas com algo eu concordo em toda a discussão que é levantada com Spoor: não precisamos aceitar as coisas como elas são. Não importa quantos “nãos” você recebeu durante a vida ou quantas frustrações já experimentou, acho que nunca deveríamos perder a capacidade que tínhamos quando crianças e jovens em imaginar uma sociedade melhor e buscar maneiras de contribuirmos para isso.

Talvez uma forma de “resistência” e de buscar esta mudança seja cada um de nós realmente defendermos o direito à vida, tanto de pessoas, quanto dos animais – e das plantas, das florestas e um longo etc. Eu não cheguei ainda ao estágio evolutivo de abrir mão das carnes. Então sim, eu contribuo com a morte de vários animais para poder fazer as minhas refeições diariamente. Mas estes animais não estão livres na Natureza, e sim foram gerados e viveram sempre em cativeiro com o “fim” de alimentar a mim e a tantas outras pessoas.

Não acho que esta é uma crueldade como a que vemos em Spoor, até porque muitos destes animais nem existiriam se não fosse pela indústria alimentícia. Ainda assim, é claro, concordo com quem questiona estas mortes também. Acho que Spoor acerta em cheio ao colocar estas questões em evidência. E sim, eu não entendo quem mata por prazer e tenho dificuldade de aceitar que algumas sociedades continuem com a caça legalizada, algo que me parece um bocado primitivo, não?

E sim, há quem diga- como algumas pessoas neste filme – que os caçadores ajudam a manter o “equilíbrio” no Meio Ambiente. Bem, eu respeito todas as opiniões, mas isso não quer dizer que eu tenha que concordar com elas. Para cada animal e ser vivo, existe um predador natural, não é mesmo? Então se o homem interferisse menos no Meio Ambiente e realmente quisesse preservá-lo, a própria Natureza se equilibraria, como ocorreu durante todas as eras antes do surgimento da Humanidade. Sendo assim, evidentemente que eu discordo deste argumento de quem defende a caça.

Ufa! Quanto eu falei motivada pelo que Spoor nos apresentou! Agora, vou deixar de filosofar sobre os temas que este filme da diretora Holland nos apresentou e comentar sobre a produção propriamente dita. O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção foi a trilha sonora de Antoni Lazarkiewicz. O trabalho dele é marcante e fundamental para esta produção. Em diversas sequências do filme eu fiquei imaginando se não tivéssemos a trilha sonora de Lazarkiewicz. Teríamos um filme muito menos potente, eu não tenho dúvida sobre isso.

O segundo elemento que me chamou a atenção nesta produção foi o trabalho maravilhoso e impecável da atriz Agnieszka Mandat-Grabka. Ela está perfeita no papel, nos convencendo em cada pequeno detalhe de sua interpretação. Infelizmente este filme, por ser uma produção polonesa, não terá “lobby” e força suficiente para indicar Agnieszka Mandat-Grabka para o Oscar de Melhor Atriz. Mas ela merecia. Ela é uma das grandes responsáveis pela qualidade desta produção. Tem um trabalho impecável nesta produção. De tirar o chapéu.

Depois, o outro ponto que me chamou a atenção foi o roteiro de Olga Tokarczuk e Agnieszka Holland, texto baseado na obra de Olga Tokarczuk. O roteiro, muito bem escrito, é perfeitamente acompanhado por uma direção inspirada de Holland. Os dois elementos, roteiro e direção, estão em perfeita sintonia, algo que nem sempre é comum em uma produção. Por isso a produção consegue ser envolvente e interessante ao mesmo tempo.

Achei muito bacana, em especial, como o “mundo” da protagonista e narradora norteia toda a história. Vemos tudo sob a ótica de Duszejko, que é uma engenheira aposentada que dá aulas de inglês no colégio da comunidade para manter-se ocupada. Profunda admiradora da Natureza, ela ama as duas cadelas que desaparecem logo no início da trama. Ela também é uma estudiosa da astrologia e, sempre que pode, pede as informações básicas das pessoas – data e horário de nascimento – para fazer o mapa astral delas e tentar entendê-las melhor.

Desta forma, a protagonista deste filme é uma figura interessantíssima. Mas não é a única que chama a atenção na história. Spoor lembra um pouco os filmes dos irmãos Coen no sentido de que a história explora bem os personagens curiosos de uma certa comunidade interiorana. Ali, há várias figuras de personalidade forte e peculiares. Duszejko não é, exatamente, uma exceção entre as pessoas curiosas que se cruzam naquele local da Polônia que muda de cenário conforme as estações passam.

Achei interessante como o diretor explora bem a imaginação e/ou a sensibilidade da protagonista. Quando ela observa determinadas pessoas e escuta as suas histórias, ela consegue “ver”/sentir o “background” relacionado a elas. Algumas vezes, ela vê o passado da pessoa que ela está observando. Em outras ocasiões, como na casa do vizinho e amigo Matoga (Wiktor Zborowski), ela consegue “visualizar” a relação dos pais dele.

Estas contextualizações na história são muito interessantes e deixam a narrativa ainda mais “intrigante” – afinal, Duszejko meio que desenvolveu um “sexto sentido” e consegue ver além das aparências e se aprofundar na história das pessoas ou aquilo tudo não passa de imaginação dela? Da minha parte, acho que as narrativas que vemos em cena realmente reproduzem a realidade do que os personagens viveram e demonstra a sensibilidade além do normal da protagonista. Ela é sim capaz de ver além das aparências. Mas isso não a impede de cometer assassinatos e de tornar-se uma serial killer.

E aí surge aquele outro questionamento que esta produção nos apresenta. Algumas vezes os “monstros” da nossa sociedade, aqueles que são capazes de matar várias pessoas aparentemente cheios de convicção e sem culpa, são pessoas “normais” até prova ao contrário. E, algumas vezes, na lógica destas pessoas, os crimes que elas cometeram podem fazer todo o sentido. A loucura e a falta de “filtros”/limites realmente podem afetar a qualquer pessoa, mesmo as mais sensíveis e “normais”. Por isso devemos estar atentos e zelar por estas pessoas, para que a dor que elas sentem não chegue até o extremo do insuportável e para que elas não tomem atitudes com as quais elas podem se arrepender depois.

Então, para resumir, este filme tem muitas qualidades e mais acerta do que erra. Mas tem alguns “poréns” que atrapalham um pouco o resultado final da produção. Algo interessante é que o filme, no início, parece ser uma crônica de um certo lugar cheio de pessoas peculiares. Neste lugar, temos a protagonista, defensora dos animais, cercada por uma sociedade que defende a caça e a morte destes animais. Ela sofre, e isso fica evidente. Mas então, lá pelas tantas, as pessoas começam a morrer.

De forma inteligente, os roteiristas apresentam primeiro a morte do delegado. Como ele parecia estar devendo dinheiro e estava sendo ameaçado, a morte dele parece ser fruto desta dívida. Mas aí, pouco depois, morre também o “vilão” da comunidade, Wnetrzak, que além de ter a loja em que Dobra Nowina trabalha, também é dono de um bordel, explora as mulheres que trabalham ali e mantém várias pessoas sob o seu jugo por causa de dívidas. A morte dele é um pouco mais suspeita. Afinal, morreram, na sequência, dois “desafetos” da protagonista. Será mesmo coincidência? Mas realmente começamos a desconfiar de Duszejko quando morre também o prefeito.

Antes, claro, já desconfiamos um pouco dela pela justificativa que ela dá para a morte do delegado. Ela insiste que ele foi morto por um veado e que isso ela conseguiu ver no mapa astral do delegado. Depois, ela fala da teoria de que a Natureza/os animais estão se vingando das pessoas que lhes faziam mal. Teoria um tanto maluca, e aí surgem as primeiras desconfianças. Depois da morte do prefeito, o filme acelera para descobrirmos quem realmente está por trás de todas estas mortes. A história ter o tempo exato em todas as suas fases é uma qualidade desta produção.

O roteiro não enrola o espectador. Ele só gasta o tempo exato para nos apresentar com maior profundidade os personagens principais e para contar esta narrativa de “vingança” um tanto diferenciada. Tudo isso são qualidades, mas, como eu disse antes, este filme tem um ou dois problemas também. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Quando Duszejko é chamada por Matoga para “arrumar” o vizinho deles que tinha morrido, percebemos que ela achou algo que a emocionou na casa do sujeito de quem ela não gostava nem um pouco.

Naquele momento, ficou evidente que ela não estava chorando pelo morto. Mas então, o que poderia fazê-la chorar ali? Na hora, pensei que ela tinha encontrado alguma prova de que o vizinho tinha matado as cadelas dela. Mas logo a história avança e esquecemos daquilo. Mas esse não é o problema da narrativa. O problema está mesmo no uso dos feromônios dos insetos que acabam sendo utilizados em cada vítima – no delegado e em Wnetrzak – e que fazem o jovem Dyzio (Jakub Gierszal) ser o primeiro a matar a charada sobre a serial killer ser a generosa Duszejko.

Segundo o roteiro, Duszejko conhece Boros (Miroslav Krobot) quando ele encontra o corpo de Wnetrzak, que já está em avançado estado de putrefação. Ao encontrar o corpo, o próprio Boros diz que ele foi morto há alguns meses. Duszejko está caminhando e se assusta quando Boros aparece na frente dela. Ela, inclusive, pergunta quem ele é. Depois eles se aproximam, inclusive tem um romance, e nesta convivência que Boros explica para Duszejko sobre os besouros e o feromônio que os atrai.

Então, se isso aconteceu após a morte do delegado e de Wnetrzak, como é que Duszejko poderia ter usado o feromônio dos besouros nestas duas vítimas? Para mim, esta foi a maior falha do roteiro. E uma pena, porque o restante funciona tão bem… Gostei muito da história e dos questionamentos salutares que ela nos levanta sobre a sociedade em que queremos viver e aquilo que queremos ou podemos aceitar.

Não tenho dúvida que este filme será ovacionado pelos defensores dos animais, ao mesmo tempo que será atacado pelos adeptos da caça. Mas espero, que além das opiniões pessoas de cada um, as pessoas possam admirar o belo trabalho dos realizados e do elenco desta produção. Sem dúvida alguma mais uma bela descoberta propiciada pelo Oscar 2018.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um belo acerto desta produção é que Spoor investe em um grupo pequeno de personagens. Algo fundamental para um filme que procura se aprofundar em algumas ideias e sentimentos, em algumas realidades muito específicas. Uma produção com muitos personagens jamais conseguiria explorar bem ideias, sentimentos e as relações entre diferentes pessoas. Então este é um acerto do roteiro e também da direção de Agnieszka Holland, porque a diretora acaba reproduzindo bem a proposta do texto que escreveu junto com a escritora Olga Tokarczuk. Fiquei curiosa, aliás, para ler o livro dela. Ele deve ser ainda mais interessante que o filme.

Este filme deve levantar algumas polêmicas. Especialmente entre os defensores da caça legalizada, é claro. Deixo aqui um artigo que foi publicado no site da revista Superinteressante e que mostra um destes pontos de vista favoráveis à caça legalizada e controlada. Sempre é interessante conhecermos e respeitarmos outros pontos de vista. Deixo aqui também uma reportagem do jornal El País que mostra um outro ponto de vista sobre esta questão.

Falei um bocado antes e vou me repetir aqui: a atriz Agnieszka Mandat-Grabka faz um trabalho soberbo. Para mim, um dos melhores que eu vi neste ano. Pena que ela não será indicada ao Oscar de Melhor Atriz, porque ela merecia. Além dela, estão muito bem também os outros atores que tem destaque nesta produção. Vale comentar o belo e sensível trabalho de Wiktor Zborowski como Matoga, vizinho de Duszejko, viúvo, que tem um porão com alguns “segredos bombásticos” e que tem uma caidinha pela vizinha; Patrycja Volny como Dobra Nowina, a jovem que é explorada por Wnetrzak e que luta para tentar conseguir a guarda do irmão mais novo; Jakub Gierszal como Dyzio, o “nerd” que trabalha para a polícia e que também guarda um segredo; e Miroslav Krobot como Boros, que aparece menos que os demais, mas que rouba a cena como o especialista botânico que tem um romance com a protagonista.

Além deles, que fazem o núcleo principal desta história, temos alguns atores coadjuvantes que acabam também tendo os seus momentos de destaque nesta produção. Vale citar o bom trabalho de Borys Szyc como Wnetrzak, uma espécie de “mafioso” da comunidade; Tomasz Kot como o procurador Swierszczynski, filho de Matoga; Andrzej Grabowski como o prefeito Wolsky; Andrzej Konopka como o delegado; e Marcin Bosak como o padre local – provavelmente um dos personagens mais desprezíveis e equivocados em cena.

Por que eu considero o personagem do padre um dos mais desprezíveis e equivocados? Porque eu tenho um verdadeiro pavor dos “padres”, “sacerdotes” e “pastores” que utilizam a Bíblia para justificar absurdos. Eles deturpam a Palavra e servem exatamente como contra-exemplo do que deveriam ser.

Entre os elementos técnicos desta produção, sem dúvida alguma o grande destaque é a magnífica e marcante trilha sonora de Antoni Lazarkiewicz, mais um elemento que merecia uma indicação ao Oscar – mas que não chegará lá por ser um filme polonês e não americano. Depois, vale destacar a competente direção de fotografia de Jolanta Dylewska e de Rafal Paradowski e a ótima edição de Pavel Hrdlicka. Cito ainda os figurinos de Katarzyna Lewinska; a decoração de set de Joanna Macha; o design de produção feito por sete competentes profissionais e a maquiagem feita por outros sete profissionais.

Spoor estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim em fevereiro de 2017. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 17 festivais em diversas partes do mundo. Em sua trajetória, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio Alfred Bauer no Festival Internacional de Cinema de Berlim; para o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Fantasia; para o prêmio de Melhor Atriz para Agnieszka Mandat-Grabka no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; e para os prêmios de Melhor Diretora para Agnieszka Holland e Kasia Adamik e o de Melhor Maquiagem para Janusz Kaleja no Festival de Cinema Polonês.

Agora, estava pensando aqui em outro ponto que Spoor nos faz pensar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Este filme acaba questionando todas aquelas pessoas que amam tanto a Natureza e os animais, em especial, mas que tem tão pouco apreço pelas pessoas, pelo ser humano. Sim, é verdade que sobram exemplos de pessoas desprezíveis caminhando por aí. E nós não precisamos gostar delas. Mas será mesmo que as pessoas que amam tanto os animais, as plantas e afins podem amar tanto estes seres e desprezar tantos os humanos ao ponto de desejar que eles morram? Pegue o mais cretino dos mais cretinos que você conhece. Você o despreza, até pode considerá-lo um animal. Mas você o mataria? Entendo o desprezo, a raiva, mas honestamente eu não entendo quem mate o outro por causa disso.

Spoor é uma coprodução da Polônia, da Alemanha, da República Tcheca, da Suécia e da Eslováquia. Apesar de ter capital de tantos países, Spoor foi escolhido pela Polônia – origem principal da produção – como representante do país na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018.

Esta produção foi totalmente rodada na Polônia, no Estado de Dolnoslaskie – que fica no Noroeste do país -, nas cidades de Kotlina Klodzka, Nowa Ruda, Osówka, Bystrzyca Klodzka, Miedzygórze e Przelecz Puchaczówka.

O filme é dedicado para Weronki. Dei uma boa pesquisada, mas não descobri quem era Weronki para a diretora ou para a roteirista. Em resumo, não descobri quem foi/é Weronki. Caso alguém souber e puder nos informar, eu agradeço. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 14 críticas positivas e cinco negativas para Spoor, o que garante para o filme uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,8. Não está ruim, mas também não está muito bom esse nível de avaliação nos dois sites.

Os críticos e o público que vota no IMDb podem não ter gostado taaaanto assim de Spoor, mas eu tenho certeza que uma das minhas melhores amigas, a Janice Eleotério, vai amar esta produção. Algo me diz que ela vai entender completamente os gestos e a motivação de Duszejko. 😉

CONCLUSÃO: A vida exige que tenhamos postura. O ideal é que cada pessoa usasse o próprio cérebro, de tempos em tempos, para pensar porque faz o que faz e pensa o que pensa. Ao fazer este exercício, depois de olharmos para os nossos próprios atos e crenças, podemos ampliar este questionamento para além do nosso umbigo. E aí poderíamos repensar o nosso entorno e a nossa sociedade para que ela fosse algo melhor do que é hoje. Isto foi o que Spoor despertou em mim. Um filme interessante, que mostra uma grande mulher cometendo ações extremas após uma grande perda. E por pouco que ninguém notou o que realmente aconteceu. O filme faz a gente refletir sobre a sociedade em que vivemos e como a ideia de “monstros” pode ser bastante questionável. Muitas vezes, depende da perspectiva. Filme intrigante, bem desenvolvido e interessante. Vale ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis um filme peculiar. Sob vários pontos de vista. Por contar uma história interessante, com uma clara crítica ao modelo atual de sociedade em que poucos – ainda uma minoria, infelizmente – realmente se preocupam com todos os tipos de vida no mundo, Spoor me parece não ter um perfil muito de Oscar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Digo isso especialmente pelo fato da protagonista deste filme, apesar de ser super humana, sensível a todo tipo de vida – especialmente a dos animais -, não ser, digamos assim, exatamente um “exemplo” de boa gente, não é?

Quer dizer, a personagem e a atriz que a interpreta são maravilhosas. Mas apesar de concordar com a revolta que a moveu, não vejo que os atos dela sejam exatamente “louváveis” 😉 ou que agradem tanto os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para fazer este filme ser indicado como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018. Então, francamente, acho que esta é mais uma produção interessante que a lista inicial de filmes habilitados ao Oscar nos apresenta, mas não vejo Spoor tendo chances de chegar até uma indicação, quanto mais ganhar a estatueta. Outros filmes comentados aqui no blog e outros considerados “fortes candidatos” e que eu ainda não vi me parecem ter muito mais chances.

Victoria and Abdul – Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha

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Algumas posições que certas pessoas ocuparam – ou ocupam ainda hoje – na História são verdadeiramente impraticáveis. Muito poder e tudo o que vem junto com ele para um único indivíduo. A carga disso tudo, o nível de bajulação, de covardia, de interesses e de traição que certas “posições” despertaram (e despertam) não deveria ser carregada por ninguém. Victoria and Abdul nos conta uma história interessante sobre este nível de peso e sobre como as pessoas até podem ser consideradas diferentes por suas “posições” e sociedades, mas que, no fundo, todos nós queremos o mesmo. Quase sempre, ao menos. Filme interessantíssimo. Mais um bom achado na temporada “pré-Oscar”.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que o filme é baseado em fatos reais… ou, pelo menos, grande parte dele. A narrativa inicia na cidade de Agra, na Índia, em 1887. Como a introdução explica, a Grã-Bretanha governou a Índia por 29 anos. Naquela cidade, Abdul (Ali Fazal) tem um dia comum, como qualquer outro. Ele faz as orações, logo que acorda, e depois segue apressado pelas ruas apinhadas de gente e de mercadorias. Ele passa por alguns guardas e chega no posto de trabalho, onde registra os dados das pessoas que estão sendo presas. É ali que ele acaba sendo chamado pelo governador.

Abdul Karim foi a pessoa que ajudou a escolher os tapetes que foram enviados para a Rainha Victoria. Como eles gostaram muito dos tapetes, agora a Índia vai oferecer para a rainha um mohur – uma espécie de moeda mongol comemorativa. Por ser o indiano mais alto que o governador conhece, Abdul foi escolhido para entregar o mohur pessoalmente para a rainha em uma cerimônia. E é assim que este indiano comum e sem grandes perspectiva acaba viajando para Londres e conhecendo a rainha e a corte real no Palácio de Buckingham. Esta viagem dele mudará a vida de muitas pessoas de forma inesperada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Victoria and Abdul): Antes de mais nada, quero dizer que demorei demais para escrever sobre esta produção. Assisti ela há uma semana e só hoje estou terminando de escrever este texto. Terminando é a palavra exata porque, afinal, eu sempre tenho o mesmo “modus operandi”: escrevo o primeiro parágrafo, a conclusão e, muitas vezes, como fiz com esta crítica, a parte sobre “a história” e os “palpites para o Oscar” para, só depois, escrever este miolo.

E é justamente o miolo que eu demorei sete dias para terminar. Admito que isso aconteceu porque, esta semana, tudo que eu queria era ter um dia de folga ao menos de escrever. Como no meu trabalho eu escrevo todos os dias, e muito, nos horários livres que eu tive esta semana eu quis fazer outras coisas que não escrever. E por pouco hoje eu não deixei este texto para lá outra vez. Só não fiz isso por causa de vocês, meus caros leitores. Afinal, ao menos um texto por semana eu tenho que me “obrigar” a escrever, não é mesmo? Então é por vocês que eu escrevo isso aqui hoje.

Bem, como eu disse, há uma semana eu fui no cinema para assistir a Victoria and Abdul. O meu interesse maior pelo filme, é claro, foi o fato dele ser um “leve” concorrente ao Oscar. Algumas bolsas de apostas colocam ele como possível candidato em algumas categorias. Mas, já vou deixando claro, ele corre sempre “por fora”. Ou seja, até tem alguma chance de emplacar, mas não está entre os favoritos. Esta foi uma boa motivação, assim como o elenco e o diretor – gosto muito de Judi Dench e respeito o trabalho de Stephen Frears.

E aí que este filme é mais uma grande produção de época do perfeccionista Stephen Frears. É impressionante e muito marcante a forma com que o diretor e a sua equipe de colaboradores nos transporta para a Agra e para a Londres do final do século 19. A história que vemos em cena tem nada menos que 140 anos, quando inicia, e chama muito a atenção como os realizadores conseguem reproduzir as condições da época com perfeição.

Então o visual deste filme é o seu primeiro grande acerto. O segundo, claro, é a escolha do elenco. Judi Dench rouba a cena sempre que aparece. Mas, ao lado dela, temos um ator com um sorriso cativante e uma simpatia difícil de ignorar. Ali Fazal não se intimida com o personagem e nem com a grande atriz Judi Dench. Muito pelo contrário. Ele faz uma dupla perfeita com a atriz veterana que, muitas vezes, não precisa dizer nem uma palavra para transparecer tudo que a sua personagem está pensando ou sentindo. Ela é divina!

Junto com eles, o elenco de coadjuvantes também faz um grande trabalho. Vou falar deles mais para a frente. Apesar de todos estarem bem, sem dúvidas o grande mérito desta produção, como a história mesmo exige, é dos atores Judi Dench e Ali Fazal. Isso porque, ainda que alguns coadjuvantes tenham relevância na história, em muitos momentos importantes da produção Dench e Fazal estão sozinhos em cena. E se eles não estivessem perfeitos em seus respectivos papéis, eles não nos convenceriam com a intensidade com que fazem neste filme.

E a história? Vocês sabem que, para mim, o roteiro é um elemento mais que fundamental. Ele consagra ou destrói um filme na minha avaliação. Então o roteiro de Lee Hall, baseado no livro de Shrabani Basu, tem muitos acertos. Mais acertos do que erros, sem dúvida alguma. Mas, nem por isso, ele é realmente surpreendente ou perfeito. Vamos falar dos acertos primeiro.

O texto de Hall tem alguns diálogos preciosos e uma dinâmica “clássica”, com narrativa linear e construído de uma forma que é para fazer o público ir se encantando aos poucos até que nos emocionemos no final. Como pedem os bons roteiros, Victoria and Abdul se centra em poucos personagens e tenta se aprofundar neles. Como o título do filme sugere, este mergulho é feito nos últimos anos de vida da rainha Victoria e do seu inusitado “munshi” (professor de uma língua nativa) que vira, o que é ainda mais inusitado, uma espécie de “confidente” da rainha.

Além da reconstituição de época, o que eu achei marcante nesta produção e um grande acerto do roteiro foi nos desvelar, em todos os detalhes, o tipo de “súditos” que uma rainha como Victoria tinha ao seu redor. Impressionante como absolutamente tudo que ela fazia era “facilitado” e/ou acompanhado pelos outros. Do levantar da cama em determinado horário e com a assistência de diversas criadas até todos os quase infindáveis compromissos que a rainha tinha durante o dia. A agenda dela era de arrepiar qualquer mortal.

Acima de tudo isso, Victoria – e tantas outras rainhas e reis – tinha um poder “soberano” que era assustador. O que ela dizia era seguido – pelo menos até que começassem a surgir traições ao seu redor. Mas ela sabia como ser temida, e provavelmente qualquer outra rainha e rei que a precedeu ou que a seguiu também sabiam o poder de alguém ser temido. Então, por trás daquela vida cheia de compromissos, de criados e de bajulação, restava tudo, menos qualquer sombra de liberdade.

Alguém muito “poderoso”, no fim das contas, não é livre. Esta foi uma das maiores constatações que eu tive ao assistir a este filme. Então eu acho que ninguém, por mais brilhante ou capacitado que seja, deveria ter tanto poder e tanta limitação ao mesmo tempo. Chama muito a atenção, neste filme, a corte de interesseiros, puxa-sacos e bajuladores que cerca a rainha. No fim das contas, ninguém está ali porque gosta de Victoria, mas sim porque gosta do “status” de seus cargos e de disputar quem pode ter a maior migalha de atenção e de benesses dadas pela rainha.

É esta corja que não aceita que um estrangeiro, mestiço, que veio da Índia apenas para entregar uma moeda comemorativa, ganhe mais atenção e carinho da rainha do que eles que estão ao lado dela “este tempo todo”. Ah, bem sabemos que estar ao lado por muito tempo não quer dizer nada. Quantas famílias vivem juntas por uma vida inteira e não tem afeto, compreensão e amor suficientes? Ou mesmo que se comparem quando existe um verdadeiro “encontro de almas” em uma relação que até pode durar pouco, no tempo, mas que transcende as limitações desta vida?

Victoria e Abdul nos conta sobre um destes encontros. Quando uma rainha, já idosa e cheia de limitações causadas por sua idade em uma época em que a Medicina não era tão avançada, encontra finalmente alguém que tem a coragem de olhar para dentro dos olhos dela. Abdul é um sujeito que não está afeito à regras ou que realmente se preocupa com a própria vida. Ele quer conhecer tudo e todos que o cercam e tem muito respeito pela vida e por todos os encontros que ela nos permite. Assim, ele olha realmente para a rainha Victoria, com uma admiração e um interesse que há muito ela desconhecia.

Isto é o que justifica as “loucuras” da rainha Victoria ao tornar um indiano desconhecido como alguém tão próximo dela. No fundo, tudo o que a rainha queria – e quem de nós não quer ou precisa? – era ter “alguém com quem conversar, alguém que depois” não usasse o que ela poderia dizer contra ela (para citar uma letra da Legião Urbana). Ela queria ter alguém para falar o que ela realmente pensava e sentia, o mais profundo e verdadeiro que ela poderia dizer, sem que esta pessoa a julgasse ou depois pudesse usar as suas “fraquezas” de forma estratégica e vil contra ela.

Típicos atos que poderíamos esperar do filho dela, o príncipe Bertie (Eddie Izzard) ou de quase toda a corja que a cercava – exceto, talvez, o seu secretário mais próximo, Sir Henry Ponsonby (Tim Pigott-Smith), talvez a pessoa mais fiel à rainha, apesar de seus preconceitos e de sua dificuldade em aceitar Abdul próximo da monarca. Os desabafos da rainha e as falas de Abdul, especialmente quando ele fala sobre o próprio entendimento dele para o “sentido da vida” – que é o de servir – são alguns dos pontos altos do roteiro. Falas realmente interessantes, diretas e bem escritas.

Por outro lado, Victoria e Abdul não é um filme perfeito porque ela acaba sendo um bocado repetitivo e tem parte da sua narrativa um tanto “exagerada” para fazer o público se chocar e/ou emocionar. Depois que Victoria pede para Abdul a acompanhar pela primeira vez no momento das suas deliberações e despacho, boa parte do enredo acaba circulando, ao menos em relação ao elenco de apoio, sobre “maneiras de despachar o indiano insolente”.

Desta forma, o filme acaba sendo um tanto repetitivo sobre a aproximação de Victoria de Abdul e sobre os movimentos da Côrte em fazer Abdul voltar para a Índia. Senti falta, por exemplo, já que a história transcorre por vários anos, de saber sobre algumas decisões tomadas pela rainha naquele período. Afinal, a vida dela não se resumiu às conversas com Abdul, à uma série de jantares para cumprir agenda, à aproximação da monarca aos costumes indianos e nada mais. Certamente ela tomou decisões importantes, e nada disso aparece em cena.

Também senti falta, por exemplo, de saber mais sobre a família de Victoria. Em certo momento, ela mesma comenta que teve nove filhos… mas em cena, nos aparece apenas o pusilânime Bertie. E os outros? Senti falta de conhecer um pouco mais, realmente, sobre a vida de Victoria, quem lhe era próximo, sobre sua família, etc. Também achei um tanto “forçado” a rainha rapidamente começar a aprender um dos idiomas falados na Índia. Certo que ela estava fascinada por Abdul, encantada por ele – a quem achava bonito e interessante.

Mas daí a uma rainha como Victoria começar a dedicar tanto tempo para aprender um idioma… faria sentido se o filme mostrasse como ela era poliglota, que ela falava X idiomas e que era uma ávida “devoradora” de informações de outras nações. Isso não fica claro no filme – falarei sobre este assunto mais abaixo. Então eu senti falta destes pontos na produção e no trabalho de Hall. Ainda assim, Victoria and Abdul é uma produção importante pois nos apresenta uma história que, certamente, muitas pessoas tiveram grande interesse de ocultar ou mesmo de apagar para sempre.

Pensar que a proximidade de Abdul com a rainha Victoria demorou mais de 100 anos para vir à tona. Certamente a parte da realeza britânica não queria que a lembrança de Abdul e o seu ponto de vista aparecesse. Mas passado tanto tempo, pudemos saber um pouco mais sobre os bastidores dos anos finais da rainha Victoria. Um filme fascinante pela sua reconstrução de época, pelo trabalho dos atores e por algumas linhas de roteiro realmente preciosas.

Destaco, em especial, a forma com que o filme desnudou a Côrte e a intimidade de uma rainha tão importante como Victoria, além de nos dar alguns ensinamentos preciosos sobre os muçulmanos e as suas crenças. Hoje, por causa de movimentos terroristas, muitas vezes pensamos que o que está por trás destes absurdos é o Islã e a fé muçulmana. Mas houve uma boa parte da História também em que a Bíblia foi usada para diversas pessoas cometerem absurdos. E, hoje, muitos usam o Alcorão da mesma forma. Infelizmente.

Algo bacana que Victoria and Abdul nos mostra é que esta não é a essência nem do Alcorão e nem da Bíblia. No fundo – e isso alguns tem dificuldade de entender -, todas as religiões pregam a paz, a harmonia entre as pessoas e os povos, o respeito entre as pessoas e, como bem diz Abdul, a compreensão de que todos estamos aqui para servir uns aos outros. Deveria ser assim, ao menos. Quando as pessoas não entendem errado as suas próprias religiões e utilizam os livros sagrados de suas religiões apenas para benefício próprio, de forma totalmente equivocada.

Então Victoria and Abdul, de maneira inesperada, nos faz pensar que todos somos muito mais parecidos do que muitas vezes nos damos conta. Todos precisamos de alguém que nos veja como realmente somos, sem preconceitos, sem julgamentos e sem diversos interesses próprios colocados sobre a capacidade de entendimento do outro. Quando duas pessoas realmente resolvem dialogar, se conhecer e se respeitar, todas as barreiras caem por terra – sejam sociais, sejam de origem ou o que mais pensarmos. Um belo filme por nos fazer pensar em tudo isso.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, uma das características marcantes desta produção é a reconstituição de época. Mérito do design de produção de Alan MacDonald; da direção de arte de Sarah Finlay e de Adam Squires; dos ótimos figurinos de Consolata Boyle; do Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; do trabalho dos 29 profissionais do Departamento de Arte; e do trabalho dos 23 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais.

Além destes profissionais, que nos ajudaram a nos transportar no tempo e no espaço, vale comentar o ótimo trabalho do veterano Thomas Newman na trilha desta produção, assim como a direção de fotografia impecável de Danny Cohen e a edição de Melanie Oliver.

A atriz Judi Dench, mais uma vez, está divina. Impecável. Como eu disse, ela convence em cada gesto, em cada olhar e na mudança grande que ela consegue dar para a personagem conforme as expressões, a “leveza” ou o “peso” de seus humores. Consequentemente, parece que vemos a rainha Victoria interpretada por ela sofrendo com a idade, rejuvenescendo e, na reta final, voltando a envelhecer após algumas decepções e traições. Impressionante como a atriz consegue nos passar tudo isso com o seu talento e interpretação – e a ajuda de maquiagem e da fotografia, claro. Além dela, o grande nome do filme é o de Ali Fazal. Ele faz um belo trabalho, é carismático, mas claro que não tem as nuances de interpretação de Dench.

Alguns atores se destacam nos papéis de coadjuvante – até porque os papéis deles tem relevância para a história. Neste sentido, vale destacar o belo trabalho de Tim Pigott-Smith como Sir Henry Ponsonby, braço direito da rainha; Adeel Akhtar ótimo como Mohammed, o outro indiano que viaja para presentear a rainha Victoria e que é um bom contraponto em relação a Abdul – afinal, não é todo indiano que olhava para a rainha com admiração – alguns, a exemplo de Mohammed, vinham naquela pessoa e no seu cortejo o sinônimo de exploração, algo bem representado por este personagem e bem interpretado pelo ator; Paul Higgins bem como o covarde e um tanto odioso médico Dr. Reid; Michael Gambon em quase uma ponta como Lord Salisbury, primeiro-ministro na época; Olivia Williams como Lady Churchill, uma das pessoas mais próxima da rainha; Fenella Woolgar como Miss Phipps, também próxima da rainha e usada como “bala de canhão” pelos outros covardes que a cercavam; e Eddie Izzard como o odioso e interesseiro Bertie, Príncipe de Wales e herdeiro do trono. Todos estão muito bem.

Victoria and Abdul estreou em setembro no Festival de Cinema de Veneza. Poucos dias depois, o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, até o final de outubro, a produção participou ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, o filme conquistou dois prêmios: o Truly Moving Picture Award no Heartland Film e o de Compositor do Ano para Thomas Newman conferido pelo Hollywood Film Awards. Teremos uma ideia melhor do potencial desta produção no Oscar quando saírem os indicados ao Globo de Ouro. Pode ser que ele consiga emplacar uma ou mais indicações ou pode ser que ele seja categoricamente esquecido. Veremos.

Esta produção fez, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 21,9 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez outros US$ 40,9 milhões. Não são números desprezíveis, mas tenho minhas dúvidas se ele vai conseguir lucrar.

Victoria and Abdul foi rodada em três países: Inglaterra, Escócia e Índia. O filme teve cenas rodadas em Delhi e Agra, na Índia; em Cairngorms, na Escócia; e na Ilha de Wight, no Castelo de Belvoir, na Universidade de Greenwich, na Ham House, no Museu Nacional Railway, no West Wycombe House, no Castelo de Windsor, entre outros locais nas cidades de Londres, West Wycombe, York, Knebworth, Richmond, Greenwich e Belvoir.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Quando as filmagens de Victoria and Abdul começaram, em setembro de 2016, Judi Dench era um mês mais velha que a rainha Victoria quando ela morreu. Interessante esta semelhança e como hoje conseguimos envelhecer com muito mais qualidade de vida, não é mesmo? Viva aos avanços científicos, pois!

A atriz Judi Dench já havia interpretado a rainha Victoria antes, no filme Her Majesty Mrs Brown, de 1997, dirigido por John Madden. Filme esse que foi indicado a dois Oscar em 1998: Melhor Atriz para Judi Dench e Melhor Maquiagem.

Aliás, senti falta de Victoria and Abdul nos apresentar ao menos um pouco de tudo que Victoria significou para o Reino Unido. Como sempre, me interessei por buscar mais informações sobre os personagens dos filmes. Acho que vale começar por textos como este, do site Brasil Escola, que dão uma resumida simplificada sobre a rainha que, antes da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II, era a monarca que mais tempo ficou no poder. E em uma era muito expansionista para o Reino Unido, como o texto bem explica.

Neste texto é que eu fiquei sabendo, afinal, sobre um dos personagens citados pela rainha de Judi Dench no filme: Albert. Ela se referia ao seu primo, o príncipe Albert, com quem a rainha Victoria se casou em 1840 e com quem teve nove filhos. Neste texto, também descobri que ela era uma “amante das letras” e que falava francês e alemão, além da língua materna.

O marido, Albert, morreu em 1861, ou seja, 40 anos da rainha. Vale também conferir outros dois textos sobre a rainha: este da BBC e este outro do blog da Cultura Inglesa. E o outro personagem citado pela Rainha Victoria neste filme, John Brown? Quis saber mais sobre ele e achei esta interessante matéria do site da Revista Piauí. Vale conferir. Lendo sobre Brown, neste texto, me lembrei de Abdul. Me parece que a rainha realmente precisava de aliados, de pessoas francas e sinceras do seu lado, e encontrou em Albert, em Brown e em Abdul estas pessoas. Interessante.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 102 críticas positivas e 54 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média de 6.2.

CONCLUSÃO: Faz toda a diferença quando alguém olha para os teus olhos de verdade. Tudo o que as pessoas desejam é que elas sejam notadas e respeitadas pelo que elas são e não pelo “poder” ou pela “posição” que elas possam ter na sociedade. Vitoria and Abdul nos fala de uma forma muito clara sobre isso. Assim como trata também de posições “impossíveis”, como pode ser a de uma rainha que domina 1/4 do mundo, por exemplo. Esta produção, com um roteiro muito bem escrito e atores impecáveis, nos transporta para uma outra época e local.

Mas, infelizmente, boa parte daquela desigualdade e do que vemos em tela segue válido hoje em dia, mais de um século depois. Quem dera que aprendêssemos, em algum momento, que todos somos iguais e que não faz sentido – ou mesmo seja algo justo – tanta desigualdade por todas as partes. Um belo filme. Que nos faz pensar sobre temas importantes, além de ter uma história envolvente. Merece ser visto, sem dúvidas.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis um filme interessante para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Com um roteiro bem escrito, um diretor veterano e admirado no comando e uma atriz que dispensa apresentações, Victoria and Abdul pode chegar longe com o lobby certo. Ou pode nem chegar, dependendo dos humores dos votantes. Predicados este filme tem para emplacar – além dos já comentados, a temática da produção, sobre inclusão e respeito, temas tão em voga em uma Hollywood que está cuidando de seus próprios “pecados”.

Nas bolsas de apostas que começam a pipocar nos Estados Unidos, entre especialistas e literalmente apostadores, Victoria and Abdul têm aparecido com chances em algumas categorias. Mas nunca liderando as principais listas. Da minha parte, como o Oscar contempla até 10 produções na categoria Melhor Filme, eu não ficaria surpresa se o veterano Stephen Frears conseguisse emplacar esta produção na categoria principal do Oscar 2018. Mas, igualmente, não seria surpresa se o filme ficasse fora da lista.

Digo isso porque Victoria and Abdul não é um filme óbvio na disputa. Ou seja, ele pode chegar lá, mas não tem chances de levar o Oscar principal. Mas, pode sim ser indicado em várias categorias – o que, muitas vezes, é o suficiente para os produtores e distribuidores. Acho que esta produção tem chances de ser indicada ainda como Melhor Atriz, em mais uma indicação para a excelente Judi Dench; como Melhor Figurino e como Melhor Direção de Arte. Stephen Frears também poderia ser lembrado na categoria Melhor Diretor, assim como o roteiro como Melhor Roteiro Adaptado.

Mas para o filme receber tantas indicações, realmente parece ser fundamental uma grande campanha dos produtores e da Universal Pictures. Da minha parte, acho que o filme não receberá muitas indicações – talvez mesmo apenas como Melhor Atriz e Melhor Figurino – e, pelo andar da carruagem e das bolsas de apostas, mesmo que ele consiga emplacar alguma indicação, sairá da noite do Oscar de mãos vazias. Mas, como vocês sabem, isso não denota contra o filme. Afinal, poucos saem ganhando, mas muitos chegam – e poderiam chegar lá – cheio de méritos. Ou seja, vale assistir a esta produção. Mesmo que ela não tenha chances de emplacar as suas estatuetas no Oscar.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista de indicados para o Globo de Ouro 2018. Victoria & Abdul foi lembrado em uma categoria, a de Melhor Atriz – Musical ou Comédia para Judi Dench. Para muitas pessoas, como eu disse acima, ela pode chegar até a uma indicação ao Oscar. Este ano, a disputa está acirrada nesta categoria – mais do que na de ator. Veremos o que vai acontecer, mas acho que Judi Dench deve se contentar já se for indicada.

Die Göttliche Ordnung – The Divine Order – Mulheres Divinas

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Os avanços sociais não chegam da mesma forma em todas as partes. Direitos que podemos considerar básicos atualmente, parece incrível, mas não faz tanto tempo que eles não eram entendidos desta forma em outros lugares. E a falta de igualdade de direitos não é algo de países extremistas ou muçulmanos, como atualmente podemos acreditar a partir de discursos rasos. Não, não. Países do “Primeiro Mundo” também podem ser bastante resistentes a mudanças que parecem óbvias. Quanto mais conservadores, pior. The Divine Order nos faz refletir sobre tudo isso e um tanto a mais.

A HISTÓRIA: Diversas imagens que remetem à liberdade de expressão, como cenas de Woodstock, dos hippies, de Janis Joplin, manifestações pelos direitos civis, os Panteras Negras, a revolução sexual, aparecem em sequência. A narradora comenta que o mundo estava mudando em 1971, mas na Suíça tudo “estava parado”. No vilarejo em que morava, então, Nora (Marie Leuenberger) e a sua família, tudo acontecia como sempre. Os homens iam trabalhar fora para sustentar a casa enquanto as mulheres cuidavam de suas famílias. Mas um dia, Nora vai até uma cidade maior, perto do vilarejo, e acaba ganhando vários panfletos que tentam conscientizar as mulheres para que elas exijam o seu direito ao voto. Em breve, um plebiscito no país vai perguntar sobre este assunto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Divine Order): Eu sou muito suspeita para falar. Porque sim, eu sempre vou defender o direito da igualdade entre as pessoas. E como até hoje as mulheres não conquistaram todos os seus direitos, me considero um bocado feminista. Como o roteiro da diretora Petra Biondina Volpe argumenta em certo momento de The Divine Order, homens e mulheres tem características diferentes, com certeza. Mas isso não faz uns serem melhores que outros.

Para mim, isso é tão básico… mas nem sempre isso foi considerado assim. Não apenas na História da Humanidade, mas até hoje na cabeça de tantas pessoas mundo afora, em pleno Século 21! Tem pessoas que acham sim justificável homens e mulheres com a mesma formação, experiência e desempenhando os mesmos papéis terem salários diferentes, por exemplo. Hollywood mesmo é prova disso. As mulheres que trabalham no cinema, em geral, ganham menos que os homens. E isso vale para tantas outras funções e para tantos outros setores e mercados…

Ok, as mulheres tem ainda muitas razões pelas quais lutar e reclamar. Mas há princípios tão mais básicos que este da remuneração… como o direito das mulheres votarem, pelo amor de Deus! Como é possível que, durante tanto tempo – séculos e séculos! -, tantas sociedades e culturas subjugaram tanto as mulheres que as proibiram de votar? A votação é o princípio básico da democracia e da escolha das pessoas na sociedade, não é mesmo? Então me parece extremamente básico que todas as pessoas, não importando o sexo que elas têm, a sua raça, credo e etc., tenham o direito de votar.

Parece sensato que o direito ao voto seja facultado apenas para adultos, pessoas que já tiveram uma formação cívica e cultural suficiente para tomar as suas próprias decisões – de aí que, para mim, ainda faz sentido as crianças e pré-adolescentes não votarem. Mas os demais… parece bastante básico isso, não? Pois é justamente sobre algo tão básico que este filme trata. E, consequentemente, claro, o filme de Volpe também aborda como certas questões podem demorar tanto para serem compreendidas como básicas por todas as nações e as suas sociedades.

Como eu disse lá no início deste texto, um dos fatos mais interessantes desta produção é que ela quebra alguns pré-conceitos que podemos ter. Para começar, de que os países desenvolvidos são precursores na maioria dos ganhos sociais. The Divine Order mostra que isso não é uma regra. O filme de Volpe revela, por exemplo, como sociedades/comunidades conservadoras demoram muito mais tempo do que outras mais plurais para aceitar as diferenças e, consequentemente, o direito de todos.

O roteiro de Volpe pincela, aqui e ali, uma certa “culpa” da religião pelo comportamento conservador das pessoas do vilarejo de Nora. Sim, é verdade que muitas religiões, quando mal utilizadas, acabam realmente mais separando e segregando as pessoas do que as unindo. Infelizmente. Mas isso acontece não por culpa das religiões, mas pelo interesse de algumas pessoas em manipular os textos religiosos para que elas consigam o que desejam.

Este é o caso do uso da Bíblia neste filme. Quem foca apenas no Velho Testamento e em alguns trechos da Bíblia, ignorando tudo o que o Novo Testamento prega, assim como todo o conteúdo do Livro Sagrado e a sua trajetória na História, realmente pode deturpar a Palavra e manipular as pessoas prejudicando diversos grupos. Sim, algumas pessoas mal intencionadas usavam apenas alguns trechos da Bíblia, anteriores à vinda de Jesus e tudo o que ele nos ensinou a partir do seu nascimento, para manipular as pessoas e justificar o injustificável – o direito ao voto só para homens.

Mas ok, não falemos muito sobre religião. Como vocês sabem, este blog não é para isso. Mas sim, como o título do filme sugere e como alguns conservadores que aparecem neste filme sinalizam em alto e bom som, a Bíblia foi usada de forma equivocada para justificar a desigualdade entre gêneros. E por muitos e muitos séculos, infelizmente. Agora, parece realmente incrível que um país “avançado” como a Suíça tenha demorado, em alguns vilarejos, até os anos 1990 – isso mesmo, os anos 1990!!! – para admitir que as mulheres pudessem votar nas eleições como os homens.

Por isso mesmo esta história é tão surpreendente e interessante. Primeiro, para desnudar alguns conceitos equivocados que podemos ter sobre alguns países e sociedades. Depois, para nos fazer pensar que o conservadorismo, normalmente, apenas atrasa os avanços da sociedade. Ou seja, quando alguém está debatendo algum avanço, especialmente em relação a direitos humanos, e outros estão resistindo muito a debater o assunto ou mantendo as suas posições firmemente fincadas no “lugar de sempre”, devemos nos preocupar com isso. A luz amarela deve acender. E devemos nos perguntar: esta posição conservadora está fazendo exatamente o que? Está preservando o que precisa ser preservado ou impedindo a sociedade de avançar?

Neste filme, tratamos sobre um direito básico para as mulheres. Mas quantos direitos, sem ser este do voto, continuam sendo ignorados ou impedidos hoje em dia no Brasil e em várias parte do mundo por causa do conservadorismo? Sim, é natural que na sociedade tenhamos sempre um “embate” de diversos interesses. Mas a busca pela igualdade não deveria estar acima destes interesses individuais ou de alguns grupos? Eu penso que sim.

Mas ok, vou parar de discursar. 😉 É que este filme realmente desperta este interesse de falarmos a respeito destes temas. Apenas por isso, The Divine Order já merece aplausos. Mas deixando em segundo plano agora os temas que o filme sucinta, vamos falar um pouco mais sobre a narrativa e sobre esta produção enquanto obra de cinema.

Uma das grandes qualidades deste filme é o roteiro interessante, bem escrito e bem equilibrado de Petra Biondina Volpe. Ela não torna a história arrastada ou pesada. Ela não faz um grande discurso “feminista”. Mas ela conta, de forma muito natural, como se desenvolvem as relações entre homens e mulheres em uma pequena vila conservadora em um país desenvolvido. Não é difícil de identificarmos, especialmente se tivermos um certo “tempo de vida”, alguns daqueles personagens na nossa própria realidade. Certamente já encontramos algumas daquelas pessoas, suas formas de pensar e de agir na nossa própria vida.

The Divine Order, então, tem esta primeira grande qualidade: consegue desenvolver empatia no público que assiste à produção ao mesmo tempo que apresenta as suas ideias de forma convincente e com uma boa dinâmica, sem grandes discursos ou com um roteiro “forçado”. A segunda grande qualidade desta produção é a escolha do elenco e o trabalho dos atores em cena.

Todos parece terem sido escolhidos à dedo, porque todos são muito bons. As atrizes, em especial, são carismáticas e talentosas. E os homens que aparecem em cena, apesar de não serem tão “simpáticos”, em geral – com exceção do marido da protagonista, Hans (Maximilian Simonischek), o único um pouco mais “evoluído” em cena -, fazem um belo trabalho, bastante convincente.

Este é um filme sobre empoderamento feminino. E há algumas cenas realmente muito interessantes sobre isso, como quando Nora, a cunhada Theresa (a ótima Rachel Braunschweig) e a amiga Vroni (a também excelente Sibylle Brunner) participam de uma palestra de conscientização feminina. Ali elas descobrem o poder do clítoris e a não ter vergonha de buscarem a sua própria sexualidade. Esta é uma das sequências mais divertidas e interessantes do filme. Ela ajuda a mostrar o talento da diretora e roteirista Petra Biondina Volpe para contar uma história.

Mas, ao mesmo tempo que o roteiro de The Divine Order é um de seus pontos fortes, ele também tem algumas escolhas que o tornam o pequeno ponto fraco desta produção. Certo que nem todos os homens do vilarejo suíço eram machistas e idiotas. Mas apenas um realmente se salvava? Segundo o roteiro de Volpe, apenas o marido da protagonista era um pouco mais consciente e sabia da importância de defender o voto feminino. Todo o restante do vilarejo seria contrário – ao menos é o isso o que sinalizaram no primeiro encontro comunitário para discutir o tema.

Então como, depois, apenas pela greve das mulheres – vencida por eles – e pela pressão que elas fizeram no dia da votação do plebiscito, a maioria mudou de ideia? Isso parece um tanto forçado, ou não? Eu achei. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Talvez se mais homens tivessem sinalizado alguma opinião diferente no início, ou se algum outro acontecimento além da morte de Vroni tivesse ocorrido e provocado uma reação direta de mais consciência dos homens do vilarejo, a mudança deles na reta final teria sido mais convincente, certo?

Apenas por detalhes como este, como a simplificação do filme entre os “idiotas” e conservadores e aqueles que começam a acordar para a igualdade entre as pessoas, é que não achei este filme perfeito. Acho que a história é bem narrada, que The Divine Order tem diversas qualidades técnicas, como a direção de fotografia e a direção de Volpe, mas que faltou para o roteiro uma migração melhor entre o cenário inicial e final da história. Mas, francamente, este é apenas um pequeno detalhe.

No geral, este filme é um belo entretenimento. Uma produção muito bem conduzida e com uma história importante e relevante até hoje. The Divine Order não apenas pode levantar debates sobre a igualdade de gênero como sobre outras lutas pelos direitos das pessoas. Quem sabe aprendemos um pouco com o que vemos em cena para tentar incluir mais as pessoas do que excluí-las das decisões que deveriam ser de todos? Um belo filme, e com um debate realmente necessário.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, gostei muito do trabalho de Petra Biondina Volpe, tanto na direção quanto no roteiro. Como eu não lembrava do nome dela, fui procurar mais informações sobre a diretora e roteirista. Esta suíça de 47 anos tem 11 produções no currículo como roteirista, oito como diretora, e 10 prêmios no currículo. De todos estes prêmios, sete ela recebeu por The Divine Order. Ela também foi premiada pelo filme feito para a TV Frühling im Herbst e pela produção Crevetten – este último quando ela ainda era estudante, em 2002. Ou seja, ela é um jovem talento que merece ser acompanhado.

Um dos primeiros aspectos desta produção que me chamou a atenção foi a linda direção de fotografia de Judith Kaufmann. Realmente ela sabe tirar o melhor proveito das lindas paisagens e lugares do interior da Suíça. O visual da produção, especialmente nas cenas iniciais, é incrível. Outros aspectos que merecem ser mencionados por sua qualidade são a trilha sonora de Annette Focks; a edição competente de Hansjörg Weissbrich; o design de produção de Su Erdt; e os figurinos de Linda Harper.

O elenco de The Divine Order é uma das grandes qualidades desta produção. A protagonista e narradora do filme, a atriz Marie Leuenberger, é puro carisma. A atriz faz muito bem o seu papel, tendo algumas parcerias fundamentais em cena, como as grandes atrizes Sibylle Brunner e Rachel Braunschweig. Para mim, elas são as estrelas da produção. Mas há outros atores, com papéis menores, que também fazem um belo trabalho. Neste sentido, vale destacar o bom trabalho de Maximilian Simonischek como Hans, marido de Nora; Marta Zoffoli ótima como Graziella; Bettina Stucky muito bem como Magda, filha de Vroni; Noe Krejcí muito bem como Max, filho mais novo da protagonista; Finn Sutter também bem como Luki, o outro filho de Nora; Peter Freiburghaus muito bem como Gottfried, pai de Hans e de Werner (e este último interpretado por Nicholas Ofczarek); e Ella Rumpf como Hanna, a filha “rebelde” do casal Werner e Theresa.

Estes são os atores que tem mais destaque na produção. Mas todos os coadjuvantes que aparecem em cena, inclusive muitas mulheres do vilarejo que aderem à greve liderada por Nora, fazem um belo trabalho e ajudam esta história a ser bem contada.

Fiquei muito curiosa para saber mais sobre a história do voto das mulheres. Eis algo que filmes bacanas fazem: despertam a nossa curiosidade para saber mais sobre o assunto. Se você também ficou interessado(a) sobre o tema, compartilho por aqui algumas leituras interessantes. Neste texto você descobre, entre outras informações, que o primeiro país que adotou o voto feminino foi a Nova Zelândia, em 1893. O segundo país a admitir que as mulheres votassem foi a Finlândia, em 1906. E o Brasil? O voto das mulheres foi reconhecido no Brasil em 1932 – como vocês podem conferir neste outro texto. Também vale dar uma olhadela no artigo da Wikipédia sobre o sufrágio feminino.

Ah sim, e sobre a história do voto, também recomendo este outro texto. Bem interessante, diga-se.

The Divine Order estreou na Suíça na região que fala alemão no dia 9 de março de 2017. O primeiro festival no qual o filme participou foi o Festival de Cinema de Tribeca, no mês seguinte. Depois, até novembro, a produção participou de outros 16 festivais de cinema em diferentes partes do mundo. Até o momento, o filme ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros sete.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Marie Leuenberger, o de Melhor Elenco e o de Melhor Filme em Língua Estrangeira conferidos no Film Club’s The Lost Weekend; Melhor Atriz para Marie Leuenberger, Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Braunschweig e Melhor Roteiro no Swiss Film Prize; Melhor Filme de Ficção e Melhor Filme em Língua Estrangeira no Traverse City Film Festival; Melhor Filme segundo a escolha do público, Melhor Atriz para Marie Leuenberger e o Nora Ephron Prize no Festival de Cinema de Tribeca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 16 críticas positivas e apenas duas negativas para The Divine Order, o que garante para a produção uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,2. O nível de aprovação dos dois sites para o filme é bastante positivo se levarmos em consideração o padrão das duas páginas.

CONCLUSÃO: Mulheres, uni-vos! The Divine Order demonstra como, só assim, as mulheres e qualquer grupo que é subjugado por outro com mais “direitos” consegue ter os seus direitos respeitados. Um filme muito interessante, especialmente pela história reveladora que ele nos apresenta. Países desenvolvidos nem sempre são os precursores de mudanças necessárias, como bem demonstra esta produção. Bem narrado, com uma direção de fotografia deslumbrante e com atores carismáticos, este filme é uma grata surpresa. Ele trata de uma luta de direitos importante, ainda que, convenhamos, é um tanto pueril em algumas partes. Mas vale muito ser visto. Mais uma bela pedida desta temporada pré-Oscar 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis que temos filmes muito interessantes e diversos nesta lista pré-Oscar. Digam o que disserem, mas esta é uma das vantagens da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Divine Order é o quarto filme que eu vejo, de um total de 92, que estão buscando uma das cinco vagas na disputa da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018.

Dos quatro filmes que eu assisti até o momento, ainda acredito que First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers seja a produção que tenha mais predicados para chegar entre os cinco finalistas nesta categoria sempre tão disputada. Depois desta produção, que eu super recomendo e que eu comentei por aqui, acredito que The Divine Order seja o filme que tenha mais qualidades para chegar entre os finalistas. Acho que o filme pode chegar na lista dos pré-indicados, aquela que aponta os nove semifinalistas.

Mas chegar entre os cinco filmes que realmente vão disputar uma estatueta dourada… ainda é cedo para afirmar isso. Dos quatro filmes que eu assisti até o momento, eu diria que eu apostaria algumas fichas apenas em First They Killed My Father. Apesar de ser bom, The Divine Order acho que é “gracioso” demais e um tanto pueril para conseguir realmente avançar frente a outras produções mais densas, contemporâneas e até mais “inovadoras” do que este filme que é bacana, mas é um tanto previsível demais. Veremos, mas eu não apostaria nele entre os cinco finalistas.

Ainda assim, considero que ele tem mais chances que Layla M. e que Du Forsvinder. Agora, bora seguir o restante da lista e ver a outros favoritos e filmes que “correm por fora”.