Solo: A Star Wars Story – Han Solo: Uma História Star Wars

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Não é fácil contar a história de um personagem tão carismático e com tantos fãs como Han Solo. Honestamente, eu estava com a expectativa bastante baixa antes de assistir a Solo: A Star Wars Story. Primeiro, por causa do trailer do filme, que não me chamou muito a atenção. Depois, porque vi que as notas e o nível de avaliação do filme não tinham sido lá muito bons. Mesmo assim, fui conferir no cinema, e em 3D, mais essa produção com a marca Star Wars. O filme tem alguns problemas mas, no fim da contas, não é tão desastroso quanto eu esperava.

A HISTÓRIA: Começa com a frase clássica “Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante…”. Mas aí a tradicional música de Star Wars não surge na nossa frente. O que vemos é uma introdução para a história. Nela, comenta-se que aquela é uma época sem lei, na qual sindicatos de ladrões disputam entre si. Em Corella, a chefe de um destes sindicatos é Lady, uma criatura implacável e cruel. Diversos jovens lutam para sobreviver naquele ambiente agreste. Um deles é Han (Alden Ehrenreich), que surge fugindo de bandidos em uma perseguição ao retornar de uma missão. Ele se encontra com Qi’ra (Emilia Clarke), o seu affair, e comenta com ela que agora eles tem o necessário para fugir. Antes, ele deve enfrentar Lady Proxima (voz de Linda Hunt) e buscar uma rota de fuga que não mate o casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Solo: A Star Wars Story): Harrison Ford tem um carisma e um talento acima da média. Então comparar o ator que marcou mais de uma geração com o seu Han Solo e o trabalho de Alden Ehrenreich com o mesmo personagem não vai funcionar. Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que a comparação seja cruel por natureza. Evidentemente Harrison Ford é mais carismático e melhor ator.

Dito e superado isso, devo admitir que Alden Enrenreich até que encarna bem o personagem. Ao menos, conseguimos ver nele um Han Solo ainda mais “inocente” do que o personagem que conhecemos sob o talento de Ford. Uma das qualidades desse filme é justamente esta: conseguir transportar os fãs da saga Star Wars para o passado de alguns personagens importante da trilogia original sem que essa “viagem no tempo” pareça forçada ou descolada.

Para um filme como Solo: A Star Wars Story, que tem como objetivo introduzir o passado de um personagem importante para a saga, isso é fundamental. Então sim, os fãs não vão se sentir deslocados nesse filme dirigido por Ron Howard e com roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan. Para a história funcionar, evidentemente o protagonista mais jovem deve “dialogar” com o personagem clássico da saga. E isso acontece – para o alívio dos fãs.

O Han Solo de Alden Enrenreich apresenta algumas características que vamos encontrar, depois, no Han Solo de Harrison Ford. O estilo “bonachão” e aventureiro é um destes elementos que funciona nas duas fases do personagem. Vendo o que acontece com o protagonista neste seu “início” como mercenário, também podemos entender o lado desconfiado dele na trilogia original Star Wars.

Ele aprende bem, tanto com o mercenário e “mestre” na malandragem Beckett (Woody Harrelson em uma participação bastante interessante), quanto com a sua “apaixonite” Qi’ra, que o ideal é não confiar muito em ninguém. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Beckett tem muitas qualidades mas, no final das contas, ele ensina para Han que cada um vai defender sempre “o seu” antes de ajudar alguém. Qi’ra, por sua vez, apesar de ter gestos positivos pontilhados aqui e ali, também se deixa seduzir pelo poder – algo muito comum em vários personagens da saga, aliás.

Com essas pessoas, Han Solo aprende um bocado. Entre outros pontos, aprende a desconfiar e a ser mais “esperto”. Depois, veremos estas características no personagem já na fase Harrison Ford. A origem daquele “jeitão” do Han Solo vemos em Solo: A Star Wars Story. Esta é a principal vantagem do filme e o principal “ganho” que o filme poderá dar para os fãs Star Wars. Com tanto filme ruim ou mais ou menos sendo feito por aí, agradecemos quando uma obra “derivada” do original se mostra coerente e respeitando as características dos personagens.

Dito isso, vamos falar sobre alguns pontos que não funcionam tão bem em Solo: A Star Wars Story. Para começar, me incomodou um bocado e me chamou a atenção o estilo escuro demais do início do filme. Ok que Han e Qi’ra viviam em um local com poucos recursos e aquela coisa toda, mas realmente as imagens precisavam ser tão escuras? Eu não acho que isso funcionou muito bem. E há outros trechos também mais escuros do que o desejado.

Além disso, a história em si é um tanto “fraquinha”. Vejamos. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Han é um “rato de rua”, ladrãozinho que busca sobreviver, assim como Qi’ra, com quem ele tem um romance no início da produção, e outras pessoas da mesma “classe social”. Mas o rapaz é talentoso, especialmente como piloto, e deseja sair daquela miséria para viver com mais conforto e liberdade ao lado de Qi’ra. Logo no início do filme, eles tentam escapar, mas Qi’ra é recaptura e Han consegue se livrar do mesmo fim ao se juntar ao Império.

Até aí, tudo certo. Um começo interessante e promissor. Depois, vemos como Han Solo deixa o Império e vira um “fora da lei”. Isso acontece quando ele se encontra com Beckett e a sua turma: Val (Thandie Newton em quase uma super ponta) e Rio Durant (voz de Jon Favreau). Esse grupo de mercenários acaba formando Han e lhe apresentando para este universo – que ele abraçaria para sobreviver. Novamente, até aqui, tudo bem. Mas o filme depois trilha o caminho de uma história de “mercenário que se dá mal e se enrola em uma encrenca ainda maior para consertar o primeiro problema” que já cansamos um tanto de assistir.

Outro lugar comum e caminho um bocado batido foi Han encontrar a sua Qi’ra já bastante comprometida com o vilão da história, Dryden Vos (Paul Bettany). Aí seguimos a trilha conhecida de “mocinho tenta resgatar mocinha” só que em uma versão Star Wars – mais uma versão, diga-se. As partes mais bacanas do filme, na minha opinião, tem a ver com o aprendizado que Han te com Beckett e sua equipe e com o encontro e início da amizade do protagonista com Chewbacca (Joonas Suotamo).

Ainda que os atores não tenham tooooda aquela sintonia desejada, também é interessante a dinâmica entre os personagens de Han Solo e Qi’ra. Dá para entender um pouco a “descrença” do protagonista com o “amor” por causa dessa experiência que ele tem com o seu primeiro grande amor. Da minha parte, não deixei de pensar, quase a todo momento: calma, Han, você ainda vai encontrar uma Princesa bem mais legal pela frente. Lembrei do casamento dele com a Léia e aí pensei que Qi’ra não sabia de nada – muito menos do que ela estava perdendo no futuro. 😉

No geral, o filme funciona bem. A história respeita os personagens conhecidos de Star Wars agregando a eles alguns elementos que são do interesse dos fãs da saga e, apesar de ter uma dinâmica conhecida e um tanto batida, também consegue introduzir alguns novos personagens bastante interessantes. Não é um filme que vai revolucionar a sua vida ou mudar a compreensão que você tem de Star Wars, mas é uma produção envolvente, com algumas sequências – inclusive de perseguições – interessantes e com bons personagens. Vale ser visto.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme está cheio de personagens. Temos o protagonista, que é bastante coerente com o Han Solo que já conhecemos. Alden Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que lhe falte um pouco mais de carisma – a comparação com Harrison Ford, quando ele fez o primeiro Star Wars, chega a ser cruel. Depois de alguns minutos do filme, o indicado mesmo é tentar esquecer da inevitável lembrança de Ford e prestar atenção na entrega coerente de Ehrenreich.

Como esperado, outro personagem interessante deste filme é Chewbacca. Conhecemos um pouco mais também sobre a origem deste que é um dos personagens mais bacanas de Star Wars. Isso é importante. Dos personagens da trilogia original, outro sobre o qual conhecemos um pouco mais do passado é Lando Calrissian, interpretado aqui pelo talentoso Donald Glover. O ator faz um bom trabalho com o personagem de Lando. Assim, Solo: A Star Wars Story ajuda a explicar um pouco mais do “background” da amizade entre Han e Lando.

Ainda dos personagens conhecidos pelos fãs de Star Wars, vale destacar um outro com aparição relâmpago no final. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Bem nos “finalmentes” da produção, vemos a Maul (Ray Park, com voz de Sam Witwer), figurinha que ficaria conhecida na trilogia que explica a origem de Darth Vader – os filmes que viraram Star Wars I, II e III. Assim, fica subentendido que Qi’ra se tornará alguém importante para a saga de Darth Maul. Algo que poderá ser explorado em um próximo filme da saga.

Além dos três personagens importantes da saga Star Wars original já mencionados – Han, Lando e Chewbacca -, Solo: A Star Wars Story nos apresenta alguns personagens novos interessantes. A de maior destaque, sem dúvida, é a personagem Qi’ra, interpretada com carisma pela “deusa” Emilia Clarke – sim, eu sou fã de Game os Thrones. 😉 Ela está ótima no papel. Tem muito carisma e faz a “femme fatale” na segunda parte em que aparece na trama. Pena que não tenha muita química com Alden Ehrenreich. Mas, no geral, Emilia Clarke está muito bem, obrigada.

Dos personagens secundários, destaco o trabalho de Woody Harrelson como Beckett, e de Donald Glover como Lando Calrissian. Apesar de ser ótima atriz, Thandie Newton – da ótima série Westworld – acaba sendo um tanto desperdiçada em um papel menor e com pouca contextualização, o de Val, mulher de Beckett. O personagem de Rio Durant, que também “prometia”, acaba tendo uma participação menor que o desejado também. Mas Thandie e Jon Favreau, que dá a voz para Rio Durant, estão bem.

Gostei bastante da personagem L3-37, interpretada por Phoebe Waller-Bridge. Ela é como uma tia dos androides que depois encantariam os fãs de Star Wars. Além disso, ela segue esta nova fase de valorização do “girl power” e revela-se uma androide bem feminina e revolucionária. Uma espécie até de Joana D’Arc dos androides – sem muito exagero. A personagem é interessante e tem uma mensagem que combina com os nossos tempos – tanto de liderança feminina quanto de libertação dos explorados. Uma das figuras novas mais interessantes da trama.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de outros atores: Paul Bettany como Dryden Vos, o vilão da trama; Erin Kellyman como Enfys Nest, outra figura feminina forte e revolucionária; e Linda Hunt em uma super ponta dando a voz para Lady Proxima.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e para os efeitos visuais da produção. Eles são boa parte da “graça” de Solo: A Star Wars Story. A equipe técnica responsável por estas duas áreas é gigantesca. Além deles, vale comentar a ótima edição de Pietro Scalia e a direção bem conduzida de Ron Howard. O roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan tem pontos positivos e negativos – como os já citados anteriormente. Basicamente, eles acertam ao respeitar o legado dos personagens criados por George Lucas, mas erram um pouco a mão ao optarem por uma história um bocado requentada e com desenrolar previsível. Na verdade, em momento algum, Solo: A Star Wars Story realmente te surpreende. Tudo que era previsto, é entregue – nada a mais.

A trilha sonora de John Powell achei um tanto morna. Ele acaba seguindo a cartilha de outras trilhas da saga, mas sem o brilhantismo de John Williams. Por outro lado, Bradford Young faz um bom trabalho na direção de fotografia, exceto por alguns trechos do filme que eu achei escuros demais. Vale ainda comentar o bom trabalho de Neil Lamont no design de produção; de Gary Tomkins e equipe na direção de arte; e de David Crossman e Glyn Dillon nos figurinos.

Solo: A Star Wars Story estreou em première em Los Angeles no dia 10 de maio de 2018. No dia 15 de maio, o filme estreou no Festival de Cinema de Cannes. Até o momento, o filme não ganhou nenhum prêmio.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 244 críticas positivas e 100 negativas para o filme, o que garante para a produção uma aprovação de 71% e uma nota média de 6,4. No site Metacritic o filme apresenta um “metascore” de 62, resultado de 32 avaliações positivas, 21 medianas e 1 negativa.

Solo: A Star Wars Story foi bem nas bilheterias, mas não tão bem quantos outros filmes do gênero – ou mesmo da grife. Até o dia 10 de junho, segundo o site Box Office Mojo, a produção tinha feito cerca de US$ 176,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e cerca de US$ 136,1 milhões nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 312,2 milhões. Ainda que não saibamos o quanto o filme custou, certamente ele precisou de muita grana para sair do papel – e falta um bom caminho ainda para dar um bom lucro.

Agora, alguns adendos para citar curiosidades sobre esta produção. O ator Harrison Ford disse que assistiu ao filme e que achou ele “fenomenal”,  mas afirmou que não participou da première da produção junto com o elenco para não roubar as atenções que eram merecidas para Alden Ehrenreich. Isso que eu chamo de elegância.

O diretor Ron Howard foi chamado para terminar Solo: A Star Wars Story depois que Phil Lord e Christopher Miller foram demitidos devido à “diferenças criativas”. Ainda assim, Howard teria refilmado pouco mais de 80% da produção. Isso que eu chamo de praticamente começar do zero…

A data de lançamento de Solo: A Star Wars Story foi 25 de maio de 2018, o mesmo dia e mês em que Star Wars estreou em 1977.

A cena em abertura em Corellia e a cena de abertura de Rogue One acontecem exatamente 13 anos antes do primeiro Star Wars.

A cena do jogo de xadrez entre Beckett e Chewbacca é uma homenagem de Solo: A Star Wars Story a uma sequência de Star Wars (1977), quando vemos R2-D2 jogando com Chewbacca e deixando ele vencer por sugestão de Han Solo.

Algo importante nesse filme, para os fãs da saga, é descobrir como Han Solo faz o Kessel Run em apenas “12 parsecs” – quando o normal seria em 20 parsecs. Como o Kessel Run é uma rota que exige certa distância, Han Solo consegue fazer em menos tempo através de um “atalho”. Também interessante que nesse filme pela primeira vez, Chewbacca fala a sua idade: 190 anos.

Quem dá o sobrenome para Han é uma guarda em Corellia. Esse fato é uma referência do filme para The Godfather: Part II, produção na qual o personagem Vito Andolini é “rebatizado” como Vito Corleone por um guarda de Nova York em Ellis Island.

Solo: A Star Wars Story tem muitas referências a falas de filmes posteriores da saga – e objetos que também constroem essas referências. Exemplos disso são a fala de Han Solo sobre a Millennium Falcon antes de vê-la comentando que acredita que encontraria “um pedaço de lixo” – mesma expressão utilizada por Luke Skywalker ao ver a nave em Star Wars (1977), e os dados que Han dá para Qi’ra e que ela depois devolve para ele e que são vistos nos filmes de 1977 e 2017 da saga.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim sendo, ele atende a uma votação feita aqui no blog tempos atrás e na qual os leitores pediram filmes desse país. 😉

CONCLUSÃO: Um filme bem ao estilo de Star Wars mas que não tem o desenvolvimento de personagens e algumas das qualidades de outras produções da grife que precederam esta história. Com cenas competentes de perseguição e um roteiro que repete uma cartilha já conhecida, Solo: A Star Wars Story não surpreende, mas também não se revela uma grande decepção. O filme é morno, e falta química entre os protagonistas. Mas, individualmente – não nas trocas de bola – os atores estão bem. Esse filme não é fundamental para a saga Star Wars, mas ele ajuda a explicar o “background” de um de seus personagens mais interessante. Vale ser visto se você não for muito exigente com esse universo.

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A Ciambra – Ciganos da Ciambra

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A passagem da vida infantil para a vida adulta revelada de uma maneira diferente. A Ciambra nos mostra um perfil de pessoas pouco retratadas. Me arrisco a dizer que até esquecida pelo cinema – e pela maioria dos meios de expressão e comunicação. Mas aquelas pessoas existem, são reais, e vivem de uma forma totalmente diferente em alternativa em diferentes partes do mundo. São os corajosos – essa é uma maneira de encará-los – que buscam viver à sua maneira independente das regras da sociedade. Interessante vê-los em um filme.

A HISTÓRIA: Um cavalo sobre um morro e um temporal. Um homem bem agasalhado, com cachecol e chapéu, se aproxima. O cavalo para de pastar um pouco e dá alguns passos. O homem alisa a crina do animal e, depois, a sua cabeça. O homem faz parte de um acampamento, e espreme um limão na água que toma pós recolhê-la de um riacho.

Corta. Pio (Pio Amato) se joga contra uma porta, e o irmão mais velho, Cosimo (Damiano Amato) diz para ele parar, porque vai estragar a porta e será repreendido pelo pai. Pio continua tentando e, entre uma tentativa e outra, Cosimo escapa pela janela. Pio corre atrás dele, mas Cosimo foge com a moto. Claramente Pio segue os passos do irmão, que enfrenta, de tempos em tempos, problemas com a polícia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção A Ciambra): O ideal da vida é que eu pudesse falar desse filme sem citar o título que ele recebeu no Brasil. Porque uma das “graças” dessa produção é, justamente, você não saber que ela trata de uma família de ciganos. Só ao publicar esse texto é que eu vi o título do filme no Brasil. E achei uma pena. Ele estraga uma surpresa fundamental dessa produção.

Gostei muito do trabalho do diretor e roteirista Jonas Carpignano. Ele realmente adentra na história de Pio, o protagonista, e de sua família. Sempre seguindo a ótica do protagonista, o filme vai mostrando a realidade dele e das pessoas que fazem parte do seu convívio. Algumas daquelas pessoas estão entre as mais marginalizadas da Europa. É preciso observar isso e entender isso ao conferir esse filme com tranquilidade e desarmando os nossos próprios preconceitos – ou, ao menos, as ideias pré-concebidas que temos daquelas pessoas.

Da minha parte, achei importante não saber, logo de cara, que Pio e a sua família eram ciganos. Digo isso porque, quando não sabemos disso no início do filme, passamos a ver as pessoas conforme os seus atos e relações e não já com uma série de estigmas. Realmente entendi que aquele grupo era de ciganos quando o avô de Pio tem com ele um diálogo que, para mim, é um dos pontos altos do filme.

Nesse diálogo, (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme), pouco antes de morrer, o avô de Pio comenta com ele sobre a época em que eles viviam viajando. Os ciganos, por definição, não tem endereço fixo. Antigamente, viviam viajando de uma parte para a outra. Hoje, a exemplo da família de Pio, muitos se estabeleceram em um local fixo – até segunda ordem, ao menos. Mas o avô de Pio fala para o neto sobre como eles viajavam antes, e como eles eram – e lutam para continuar sendo – espíritos livres. Então ele fala uma frase que marca Pio: “Somos nós contra o mundo”.

E isso define um bocado o filme e o que vemos da cultura cigana na tela. Eles são espíritos livres, bem “simbolizados” pelo cavalo “selvagem”. Eles não podem ser domados ou comprados. Eles são livres e, desta forma, por definição, anti-convenções sociais. Os homens fizeram as leis e as regras, mas elas não funcionam para quem se considera livre. Assim, os ciganos consideram que eles são um grupo que deve lutar contra tudo e contra todos e, assim, resistir. Em outras palavras, são anarquistas e libertários extremistas.

Claro que para quem vive sob as regras e leis de uma sociedade, não existe um “bicho” mais estranho do que um cigano. Afinal, ele vai contra toda as convenções. No Brasil, não temos o costume de encontrar ciganos por aí. Mas na Europa eles seguem sendo grupos bem definidos e inseridos na sociedade. Pessoalmente, os encontrei em mais de uma cidade da Espanha. A Ciambra se passa na Itália, claro, mas essa história facilmente poderia ser ambientada em quase qualquer país da Europa.

Tendo encontrado alguns ciganos na Espanha e tendo visto como os espanhóis lidam com os ciganos, percebi bem como eles são marginalizados. E assistindo a esse filme, entendi melhor as razões para isso. Quando estive lá, percebi como as pessoas sempre tem o “pé atrás” com os ciganos e muitos os consideram sempre bandidos ou potenciais bandidos. Parece que as pessoas estão sempre esperando o pior deles – algum golpe, algum roubo, e por aí vai.

A Ciambra não nega nada disso. Muito pelo contrário. Como eu comentei no início desse texto, esse filme mostra o ritual de passagem de um cigano – o protagonista Pio – da vida infantil/juvenil para a vida adulta. E nessa trajetória do nosso “herói”, ele cresce na criminalidade. Passa de acobertar o roubo de energia elétrica e cobre, além de outros crimes menores, para começar a furtar mercadorias mais relevantes – e, mais que isso, fazer mal a um amigo.

Francamente, eu não sei o quanto o filme de Jonas Carpignano é fiel ou não a uma comunidade cigana, mas essa produção parece fazer sentido. Parece realmente resgatar um meio de vida que sempre estará à margem do que a sociedade entende como certo – até porque os ciganos não aceitam as regras, leis e convenções que os demais consideram normais.

Enfim, dá para entender, assistindo a esse filme, todos os pontos de vista. Desde a ótica dos ciganos, que não conseguem se encaixar em sociedades cheias de regras – o que, a priori, parece ir contra quem quer ser livre -, até a ótica de quem tem um certo “preconceito” com esse grupo da sociedade. Afinal, como você lida com pessoas que fogem totalmente às regras e não consideram crime os atos que forem necessários para elas sobreviverem?

Dessa forma, A Ciambra trata de temas muito atuais, especialmente na Europa. Lá, ciganos continuam sendo um desafio para polícias e comunidades, ao mesmo tempo que “africanos” também desafiam a aceitação dos autóctones. Como em qualquer formação social, os ciganos, que costumam ser um tanto que “desprezados” pelos italianos, também são capazes de desprezar outro grupo social – no caso, os imigrantes africanos.

A verdade é que temos em A Ciambra uma dinâmica social interessante e que continua, na prática, desafiando países mundo afora. No fim das contas, não importa qual é a sua origem, e se você é mais ou menos “livre”, se respeita mais ou menos as leis e regras da sociedade em que você vive. O que define, no fim do dia, como você trata o seu próximo, é a forma com que você olha para ele. Com respeito ou com desprezo? Para você, só interessa os “seus” ou te interessa todo mundo? Estas são as grandes questões que acabam definindo quem se integra ou não a um coletivo.

Porque se você tem uma atitude individualista, se você acha que apenas a sua família e/ou o seu grupo social é que valem, e que qualquer ato pode ser praticado contra os outros, não importa quem, desde que você defenda o seu “quinhão”, então você nunca vai realmente “se encaixar” ou pertencer a um coletivo maior. A Ciambra, ao retratar um coletivo específico com essa “filosofia de vida”, nos faz refletir sobre aquele grupo mas sobre todos os demais também.

Enquanto eu assisti a esse filme, admito que me deixei encantar pelos atores – especialmente pelo talentoso e carismático Pio Amato. Me surpreendi quando ele acaba deixando para trás a amizade com Ayiva (Koudous Seihon) para conseguir ter a aceitação de seu irmão e de sua família. O rito de passagem dele é trair o que ele tinha de mais precioso. As lágrimas dele, naquele momento de traição, são comoventes, porque parecem sinceras. Mas que grupo é esse que pede que alguém traia algo tão bonito como a amizade sincera para que a pessoa seja aceita?

Enfim, eu não conheço pessoalmente um grupo de ciganos para saber o quanto A Ciambra é fiel ou não à forma com que eles pensam e agem. Mas se, de fato, Jonas Capignano conseguiu resumir nesse filme a “filosofia de vida” desse grupo, que os ciganos me desculpem, mas a ideia de “liberdade” deles está bem equivocada.

Eles, no fundo, são livres dentro de regras deturpadas que eles mesmo definiram, e frente às quais ninguém – a exemplo de Pio – consegue lutar contra. Se para ser livre é preciso “vender-se” e abandonar as suas convicções, como a defesa da amizade, isso para mim não é ser livre realmente, mas apenas seguir regras que foram estabelecidos por outros para ser aceito em um grupo. Então como essa “liberdade” se diferencia de quem faz parte de uma sociedade e aceita viver naquele entorno social?

Achei interessante como esse filme parece singelo, inicialmente, mas depois se torna mais complexo do que poderíamos imaginar. Refletindo sobre ele, posteriormente, chegamos a algumas questões realmente relevantes, como as citadas acima – e tantas outras, como a de que esforço cada um precisa fazer para, com as diferenças culturais que carrega, integrar uma sociedade em paz. Gostei bastante do que eu vi. E acho que esse filme poderia render belos debates em salas de aulas e em grupos de discussão. Vale conferir e debater sobre.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti a esse filme da forma com que eu mais gosto: sem ter ouvido falar nada da história antes. Assim, eu nem sabia da temática que essa produção tratava. Novamente, essa é a forma que eu defendo como a melhor para ver a um filme. Quanto menos você sabe a respeito, melhor. Porque a história realmente pode lhe surpreender. No caso de A Ciambra, eu apenas sabia que esta produção tinha sido premiada, que ela tinha sido a indicação da Itália para o Oscar e que ela tinha sido bem avaliada, mais nada. Esse é o caminho ideal.

Pelo que se conclui, lá pelas tantas na história, Ciambra é o nome do local – conjunto habitacional seria o mais próximo da realidade? – em que moram as famílias de ciganos. O foco da história é uma destas famílias em específico, a do protagonista Pio, um jovem em fase de amadurecimento dentro daquele grupo familiar. Ele passa por um “rito de passagem” que acompanhamos de perto pelas lentes de Jonas Carpignano.

Gostei do estilo do diretor, que é roteirista do filme também. Procurei mais a respeito dele e descobri que Jonas Carpignano é nova iorquino e tem, no currículo, sete produções como diretor e roteirista. Antes de A Ciambra, ele filmou e dirigiu cinco curtas e apenas um longa: Mediterranea, de 2015. Fiquei bastante interessada em assistir ao primeiro longa dele. Assim como eu acho que esse é um nome que merece ser acompanhado. Tem muito potencial.

O grande destaque desta produção é o jovem Pio Amato, que interpreta o protagonista. O garoto passa muita verdade na sua interpretação. É fácil acreditar no que ele está fazendo e nos mostrando. Mérito também, sem dúvida, do diretor, que deve incentivar essa interpretação “orgânica” dos atores. Outro destaque, pelo carisma e pelo talento, é Koudous Seihon, que interpreta a Ayiva, um cara gente boa que sempre se esforça em ajudar Pio.

O filme é bastante centrado em Pio. Todos os demais personagens orbitam ao redor dele. Entre os coadjuvantes, o que ganha mais destaque, como eu comentei antes, é Koudous Seihon. Mas também vale comentar o bom trabalho de Damiano Amato como Cosimo, irmão mais velho de Pio e em quem ele tenta se espelhar; Iolanda Amato como a marcante Iolanda, mãe de Pio e “chefe” da família; e Rocco Amato como Rocco, pai de Pio.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a trilha sonora de Dan Romer; a direção de fotografia de Tim Curtin; a edição de Affonso Gonçalves; e o design de produção de Marco Ascanio Viarigi.

A Ciambra estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois, até maio de 2018, o filme participou de nada menos que outros 30 festivais em diversas partes do mundo. Nessa trajetória, a produção ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 16.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Label Europa Cinemas entregue no Festival de Cinema de Cannes; para os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Edição no David di Donatello Awards; para o prêmio de Melhor Filme Italiano no Festival de Cinema de Trieste; para o de Melhor Ator para Pio Amato no Festival de Cinema Europeu de Sevilha; e para o prêmio de Melhor Filme não Lançado em 2017 segundo a Sociedade Internacional de Cinéfilos.

Vale lembrar que A Ciambra também foi escolhido pela Itália para representar o país no Oscar 2018 – mas o que o filme não chegou a ficar entre os finalistas ou mesmo os semifinalistas.

A Ciambra tem, entre os seus produtores, dois brasileiros: Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira. Dois nomes fortes e que tem se envolvido em ótimas produções. Vale acompanhá-los.

Este filme é uma coprodução da Itália com o Brasil, a Alemanha, a França, a Suécia e os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para A Ciambra, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 28 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 6,8. No site Metacritic o filme registra o metascore 70, resultado de 14 críticas positivas e de duas críticas medianas. Ou seja, no geral, o filme foi muito bem na crítica do público e dos especialistas.

CONCLUSÃO: Uma história simples que, aos poucos, revela-se não tão simples assim. Esse filme, como a maioria dos filmes interessantes do mercado, pode ser encarado sob mais de um ponto de vista. Pode ser visto sim como um “rito de passagem” do protagonista para a vida adulta, mas também é a história de um “povo” que resiste às mudanças do tempo e das sociedades. No fim das contas, uma história de resistência, com tudo que ela denota de desafio para quem a assiste. Um filme interessante, envolvente, e que nos mostra uma realidade com a qual não estamos acostumados. Vale conferir, especialmente se você deixar os seus preconceitos de lado para conhecer uma realidade que provavelmente é totalmente diferente da sua.

Paul, Apostle of Christ – Paulo, Apóstolo de Cristo

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Algumas mensagens não perdem a importância ou desbotam com o tempo. Muito pelo contrário. Algumas mensagens são mais atuais do que nunca. Ainda assim, muita gente não estava preparada há 2018 anos para ouvi-las e não está preparada hoje, ainda, para realmente entender o que foi dito. Paul, Apostle of Christ tem mensagens essenciais para qualquer indivíduo mas, apesar disso, não é indicado para qualquer pessoa. Infelizmente. Assista especialmente se você tem a fé cristã ou se, ao menos, está aberto(a) a conhecer um pouco mais sobre essa fé. Do contrário, passe longe.

A HISTÓRIA: Começa em Roma, no ano 67 depois de Cristo. Metade da cidade foi arrasada por causa de grandes incêndios. Nero, o Imperador de Roma, culpa Paulo (James Faulkaner), seguidor de Cristo, pela tragédia. Como represália ao que aconteceu, Nero atira, de tempos em tempos, cristãos em sua arena, para que eles sejam mortos por suas feras. Nas ruas, os cristãos também são queimados vivos, como “velas” para “iluminar” a cidade. Escondido, Lucas (Jim Caviezel) entra em Roma para procurar Paulo e contar a sua história enquanto ele está vivo na cadeia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Paul, Apostle of Christ): Me desculpem pela sinceridade da introdução acima. Mas realmente isso é o que eu penso sobre essa história e esse filme. Respeito todas as religiões e inclusive as pessoas que não tem fé alguma. Todos tem o direito de fazer as suas escolhas. Como cristã, eu atribuo isso à vontade de Deus, que nos deu como o nosso maior presente a liberdade de escolher – inclusive de acreditarmos ou não Nele.

Dito isso, esse filme é recomendado e faz um grande sentido para quem é cristão – ou para quem tem interesse por essa religião. Para os demais, que desprezam o cristianismo ou que simplesmente não acreditam em Jesus Cristo, o mais recomendado mesmo é nem “perder tempo” assistindo a esse filme. Possivelmente muitos cristãos vão discordar de mim. Vão comentar que esse é um belo filme para “tocar” e, quem sabe, “converter” os que não tem fé. Até pode ser verdade, mas eu prefiro recomendar que apenas os mais abertos à essa fé gastem o seu tempo nesse filme.

Feitas essas observações, quero dizer que fiquei realmente encantada com essa produção. Paul, Apostle of Christ não é um filme do estilo “bíblico”, apesar de ter muitos elementos da Bíblia – evidentemente. Mas ele não segue a “cartilha” de filmes do gênero. E isso faz dele uma produção fora da curva e torna essa história tão interessante. Porque temos, além dos ensinamentos que podemos buscar na Bíblia, também um belo resgate histórico das primeiras décadas do cristianismo e toda aquela perseguição que foi feita contra os seguidores de Cristo.

Por ter esse resgate histórico, Paul, Apostle of Christ não é um filme exatamente “fácil” de assistir. O diretor Andrew Hyatt, que escreveu o roteiro ao lado de Terence Berden, escolheu mostrar a realidade do tempo de Paulo e de Lucas sem filtros. Assim, assistimos a mais de uma cena de pura crueldade contra os cristãos da época, com pessoas virando tochas humanas, literalmente, nas ruas romanas. Não por acaso, os cristãos viviam escondidos, procurando sobreviver. E havia um bocado de dissidência entre os irmãos e irmãs que viviam a mesma fé.

Como católica interessada em sempre buscar mais detalhes sobre a minha fé, eu já sabia sobre parte daqueles acontecimentos. De fato, as primeiras décadas após a morte de Jesus Cristo não foram nada fáceis. Os cristãos foram perseguidos, maltratados e mortos. Até hoje existem pessoas que morrem pelo mundo por professar a fé cristã – mas, evidentemente, em número muito menor do que naquela época próxima do início da fé cristã.

Assim, Paul, Apostle of Christ tem o mérito de mostrar muito bem aquele momento da história do cristianismo. Como foram valentes pessoas como Aquila (John Lynch) e Priscilla (Joanne Whalley), que lideravam uma comunidade cristã em Roma. Eles resistiram por muito tempo, mas aumentava cada vez mais a insegurança daquele grupo que eles protegiam. Parte das pessoas queria ficar ali, para dar alternativa para os pobres e os esquecidos de Roma, mas parte queria sair da cidade para conseguir sobreviver.

De fato esse era o contexto da época. Assim, Hyatt e Berden conta uma história que intercala esse resgate histórico e os ensinamentos de Paulo repassados para as comunidades cristãs através do médico Lucas, seu companheiro de tantas caminhadas. Muito especial, e emocionante mesmo – eu me emocionei, ao menos -, acompanhar a relação de irmandade entre Paulo e Lucas. Paulo, preso mais uma vez, sabendo que os seus dias estavam chegando ao fim, ainda se sentia “perseguido” pela própria consciência. Pela época em que ele próprio era um perseguidor de cristãos.

Lucas, por sua vez, foi convertido através de Paulo. E como um discípulo dele, procurava absorver o máximo possível dos ensinamentos do homem que se converteu ao presenciar Cristo em uma viagem. Como comentei antes, a comunidade cristã estava dividida na época. Não apenas sobre a questão de permanecer ou fugir de Roma, mas também sobre como comportar-se frente à tanta injustiça e assassinatos de cristãos.

Quando Paulo responde a um grupo dissidente, para mim, chegamos ao ponto alto do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O próprio Lucas, frente à tanta violência – inclusive a morte de uma criança de quem todos gostavam -, também apresenta dúvidas, mas isso não acontece com Paulo. No melhor momento da produção, Paulo fala sobre a essência do ensinamento de Cristo: que o único caminho é o amor. E isso vale para todos, não apenas para quem gostamos ou para as pessoas com as quais concordamos.

O amor deve valer para todos, inclusive (ou especialmente) para aqueles que são diferentes da gente, para aqueles com os quais não concordamos ou para aqueles que nos fazem mal. Esse é maior desafio, sem dúvida alguma, do ser humano. Superar-se ao ponto de amar o inimigo e/ou quem lhe faz mal. Mas esse é o maior exemplo de Cristo, algo que Paulo compreendeu muito bem e soube propagar em pouco mais de 30 anos de evangelização.

Interessante também acompanhar como o livro Ato dos Apóstolos surgiu, através daquela experiência de Lucas visitando Paulo na prisão. Lucas percebeu – ou foi induzido por Deus – a importância de contar a história dos apóstolos enquanto Paulo ainda estava vivo. Sem essa iniciativa, não teríamos um dos livros mais importantes do Evangelho. Além disso, o filme resgata algumas das cartas de Paulo, aqui narradas pelo próprio apóstolo através de diálogos que ele teria tido com Lucas.

Claro que o filme não é 100% histórico. É uma narrativa sobre aqueles fatos que busca sintetizar os ensinamentos de Paulo e a presença marcante de Lucas na comunidade cristã. Independente do filme não ser 100% fiel aos fatos, para mim ele cumpriu com maestria o papel ao qual ele se propôs. Além de resgatar parte da história, os ensinamentos de um dos maiores apóstolos de Cristo e, por consequência, os próprios ensinamentos de Cristo, esse filme conta com um elenco diferenciado.

Um dos pontos fortes de Paul, Apostle of Christ é justamente a dupla de protagonistas. James Faulkaner como Paulo e Jim Caviezel como Lucas estão – me perdoem o trocadilho – divinos. Ambos interpretam com precisão papéis que são complicados. Mas eles humanizam os apóstolos e nos aproximam daquele momento histórico de forma impecável. Além deles, o elenco de apoio também faz um belo trabalho. Honestamente, não consegui ver nenhum defeito nessa produção. Encontrei sim uma bela história, muito bem narrada e que emociona.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti a esse filme há umas duas semanas. Mas aí veio uma temporada de muito trabalho, Dia das Mães, e acabei conseguindo parar para falar de Paul, Apostle of Christ apenas hoje. Me perdoem se eu não tinha mais o filme tão “vivo” na minha lembrança do que se tivesse escrito sobre ele logo em seguida, mas tentei resgatar na memória os principais fatores que me fizeram dar a nota 10 para ele após tê-lo assistido.

Os três pontos altos do filme, para mim, são o roteiro de Andrew Hyatt e Terence Berden, que equilibra muito bem o resgate histórico com os ensinamentos de Paulo e de Cristo através das vozes de Paulo e de Lucas; o elenco da produção e a produção que faz um resgate histórico bastante interessante.

Do elenco, o grande destaque é mesmo o trabalho da dupla James Faulkaner e Jim Caviezel. Além deles, vale citar o belo trabalho de Olivier Martinez como Mauritius, o militar romano que é “desprestigiado” ao assumir a direção do presídio em que Paulo é colocado; Joanne Whalley como Priscilla, líder da comunidade cristã em Roma e que resiste a deixar a cidade; John Lynch como Aquila, parceiro de Priscilla e um líder dividido entre ficar ou sair de Roma; Yorgos Karamihos como o jovem Paulo – da fase em que ele perseguia os cristãos; Antonia Campbell-Hughes como Irenica, esposa de Mauritius e que cobra do marido, a todo momento, a cura da filha do casal; Alessandro Sperduti como Cassius, um dos líderes entre os cristãos do movimento que busca “revanche” e a tomada de armas contra os perseguidores romanos; Alexandra Vino como Octavia, uma das vítimas da violência romana; e Manuel Cauchi como Ananias, o homem que recebe Paulo e que o ajuda a conhecer melhor a Cristo.

Como comentei antes, o resgate histórico de Paul, Apostle of Christ é um dos pontos fortes da produção. Por isso vale bater palma para diversos elementos técnicos dessa produção, começando pela direção de fotografia de Gerardo Madrazo; o design de produção de Dave Arrowsmith; a direção de arte de Ino Bonello; a decoração de set de Craig Menzies; os figurinos de Luciano Capozzi; a maquiagem de Lara Licari; o departamento de arte de Jon Banthorpe, Cesco Bonello, Sven Bonnici, George Farrugia, Dylan Gouder, John Gouder e Matthew Pace. Além deles, vale citar a trilha sonora de Jan A. P. Kaczmarek e a edição de Scott Richter.

Paul, Apostle of Christ estreou no Canadá, na Espanha, nas Filipinas e nos Estados Unidos no dia 23 de março de 2018. A produção não participou de nenhum festival de cinema ou ganhou qualquer prêmio até o momento.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas negativas e 14 positivas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 42% e uma nota média de 5,5. No site Metacritic, o filme registra o metascore 49, resultado de sete críticas medianas, duas positivas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Paul, Apostle of Christ teria custado cerca de US$ 5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, US$ 17,5 milhões. Nos outros países em que o filme estreou, ele teria feito outros US$ 3,4 milhões. Na soma, o filme teria faturado cerca de US$ 20,9 milhões. Ou seja, apesar das críticas negativas, o filme está conseguindo um bom lucro.

Paul, Apostle of Christ é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que funciona à perfeição para atender o propósito estabelecido. Paul, Apostle of Christ tem ótimos atores, um roteiro muito competente e conta uma história potente para todos os cristãos. Assim, cumpre o seu papel com esmero e sem necessidade de retoques. Claro que essa conclusão tem tudo a ver com a minha própria fé. Por isso, como eu disse na introdução, assista a esse filme apenas se você realmente tem apreço pelo tema. Se não, certamente o efeito desse filme será muito diferente. Ainda que eu ache que, independente da fé da plateia, todos vão concordar que essa produção é competente – mas, talvez, para quem não compartilha da mesma fé, ela não mereça a nota acima. Mas, para mim, o filme merece.

Please Stand By – Tudo que Quero

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Todos merecem o direito de sonhar. De desenvolver os seus talentos, mesmo que todas as pessoas ao redor achem que aquela pessoa não tem “nada demais” para oferecer. Please Stand By foca em uma protagonista diferente, que tem os seus próprios desafios cotidianos para enfrentar mas que, apesar deles, acredita em seu próprio potencial para fazer algo incrível. Uma bela homenagem para as pessoas que “fogem do comum” e para uma das franquias do cinema mais admiradas por quem gosta de ficção científica.

A HISTÓRIA: De olhos fechados, ela escuta algo no fone de ouvido. Em seguida, abre os olhos e começa a imaginar uma história que envolve o espaço. Em seguida, ela imagina Spock em seu último gesto de bravura e de sobrevivência. Wendy (Dakota Fanning) é fascinada por Star Trek e está trabalhando em uma história que envolve esse universo. Scottie (Toni Collette) chega ao trabalho e cumprimenta vários moradores da residência que abriga muitas pessoas com seus desafios particulares. Ela toca um apito e entra no quarto de Wendy, que responde com outro apito. Scottie então comenta que a irmã de Wendy virá para visitá-la, e ela pergunta como ela se sente a respeito. Wendy tem muitos desafios para enfrentar no dia a dia e, em breve, vai passar por uma grande aventura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Please Stand By): Olá pessoal! Me desculpem a longa ausência. Mas tive Dia das Mães e muito trabalho nesse período. Assisti esse filme há umas duas semanas, então lembro do que eu vi, claro, mas sem toda aquela “vivacidade” que eu teria se tivesse conseguido tempo de escrever sobre Please Stand By antes. Peço desculpas por isso.

Assisti a esse filme sem grandes expectativas. Como vocês sabem, isso é algo importante. Pelo cartaz de Please Stand By, conclui, claro, que a produção fazia uma homenagem ou ao menos fazia uma bela referência para Star Trek. O que eu não sabia era que o filme teria um olhar tão generoso para pessoas “não comuns” da nossa realidade. Dizem que de médico e de louco todo mundo tem um pouco. Mas as pessoas nem sempre pensam sobre isso. Sobre como todos nós somos frágeis e podemos passar por dificuldades físicas ou mentais sem poder prever isso ou evitar que isso aconteça.

E quem define o que é “ser normal”? E quem disse que as pessoas diferentes e “especiais” não fazem a nossa civilização ser especial? Diferente do que alguns ditadores já tentaram defender na nossa História, não acho que ganhemos nada – absolutamente nada, na verdade – eliminando as pessoas que tem algum problema ou dificuldade, seja ela física ou mental. Todos nós podemos um dia passar por isso, e podemos aprender muito com as pessoas diferentes da gente ou que fogem da “normalidade”.

Mas para aprender com elas, é preciso ter um olhar cuidadoso, atento e generoso. Perceber que ninguém é melhor que ninguém e que todos tem o seu valor. Todos podem contribuir e devem ter o direito e sonhar e de buscar a própria superação. Não para ficarem parecidos com alguém ou para servirem de modelo seja para quem for. Mas para sentirem o prazer próprio desse gesto de superação – só alguém que já fez isso sabe do que estou falando.

O que eu achei bacana de Please Stand By é que esse filme trata com respeito e com carinho exatamente esse cenário não comum para muitas pessoas. Cada família tem a sua realidade e cada pessoa a sua trajetória. Talvez você nunca tenha conhecido ou convivido com uma pessoa que tem algum problema mental. Então para você esse filme será uma bela introdução – se assim você desejar, é claro – para esse universo diferenciado. Se você já conviveu ou convive com alguém que seja “diferente”, certamente essa produção fará um sentido todo especial.

O bonito desse filme dirigido por Ben Lewin e com roteiro de Michael Golamco é que ele trata com respeito e com um olhar afetuoso essa realidade sempre desafiadora de alguém que foge da “normalidade”. Wendy é a protagonista, mas conseguimos ver também as pessoas que orbitam ao redor dela. Assim, observamos também como as pessoas “normais” lidam com o que foge da sua compreensão. Alguns são mais generosos e atentos, outros, nem tanto. E isso não acontece apenas nesse filme, mas na vida real. Mas Please Stand By está aí para nos fazer pensar a respeito.

Gostei da sensibilidade e da naturalidade com que essa história é contada. Esse é um ponto forte do filme. No fim das contas, Please Stand By é a história de uma pessoa que busca realizar um sonho apesar de todos os elementos que jogam contra esse desejo e também um road movie. Acompanhamos a protagonista em sua jornada de superação, e esse tipo de história sempre é bacana de ser contada e de ser vista.

Um outro ponto alto desta produção é o belo trabalho dos atores. O destaque, claro, vai para Dakota Fanning como a protagonista. Ela convence no papel em cada detalhe da sua interpretação. Depois, ao lado dela, estão belos trabalhos de Toni Collette e Alice Eve (que vive a irmã mais velha de Wendy).

Além de ser uma produção sobre a jornada particular de uma pessoa diferenciada e que vive os seus próprios “dilemas” e “limitações” – não sou uma grande especialista, mas me parece que a protagonista é autista, certo? -, Please Stand By faz uma bela homenagem para o universo Star Trek. Wendy é apaixonada pelo universo do filme e da série de TV e, evidentemente, se sente “próxima” de Spock, que também deve enfrentar o desafio de lidar com as pessoas (como ela). Spock não entende muito bem os humanos, assim como precisa aprender a sentir. Desafios que parecem muito comuns com a protagonita de Please Stand By.

Alguns filmes, como o interessantíssimo documentário Life, Animated (comentado aqui), mostram como o cinema pode ajudar as pessoas a se encontrarem e a superarem os seus próprios dilemas. No fundo, o cinema nos aproxima – se você estiver disposto(a) a isso, é claro. Nos apresenta histórias, realidades e pontos de vista diferentes. E esse Please Stand By é um exemplo disso.

A história em si não é muuuuito surpreendente. A aventura de Wendy é linear e um bocado previsível, mas isso não importa tanto quanto a mensagem que o filme quer nos passar. De que todas as pessoas, como comentei antes, tem talentos, tem qualidades, limitações e o direito de sonhar e de realizar-se.

Mesmo quem se acha perfeito, certamente, tem algo que pode melhorar, tem algum defeito – ainda que não seja capaz de enxergar isso ao olhar-se no espelho. Então, devemos ser mais cuidadosos uns com os outros, mais generosos e ter mais respeito, especialmente com o que é diferente da gente. Esse tipo de mensagem é sempre bem-vindo, e isso é algo que esse filme faz.

Sobre a previsibilidade da história, como manda o clássico modelo de “trajetória do herói”, claro que Wendy tem que passar por uma série de desafios e de contratempos em sua jornada. Sim, o mundo nem sempre é simples. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Expulsam ela do ônibus porque ela está com um cachorro – porque, afinal, as regras são mais importantes que as pessoas, em muitos lugares – e ela é assaltada. Mas ela consegue terminar a jornada, superando-se. E no final, pouco importa se ela conseguiu ou não ser reconhecida pelo roteiro criado para Star Trek. O mais importante de uma viagem é o caminho e não o destino e/ou a vitória final.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme tem uma série de mensagens bacanas. Como que as pessoas diferentes e relativamente distantes podem se aproximar se tiverem uma motivação ou interesse para isso. Vemos isso no caso das irmãs Wendy e Audrey e também entre Scottie e o seu filho, Sam (River Alexander). Audrey percebe que a irmã consegue fazer muito mais do que ela imaginava, e que ela tem talento, enquanto Sam se aproxima da mãe quando ele decide viajar com ela para procurar Wendy. É Sam quem explica para a mãe a “graça” por trás de Star Trek. Bacana.

Como Sam resume com precisão na conversa que tem com a mãe no carro, a grande “graça” de Star Trek são os seus personagens. E, da mesma forma, a parte mais interessante de Please Stand By são também os personagens e os atores que foram escalados para a produção. Golamco acerta ao dar destaque para poucos personagens – assim, conseguimos nos aprofundar melhor neles, nas suas histórias e relações. Não adianta, é isso que dá a graça para uma produção.

Como comentei antes, Please Stand By tem uma série de qualidades. Só não dei uma nota maior para a produção porque ela é, temos que admitir, bastante previsível e não apresenta nenhuma grande “inovação” ou sacada diferenciada. Esse é um filme um pouco no estilo Sessão da Tarde. Não é mega recomendado, mas pode ser visto sem grandes pretensões e, desta forma, representar uma bela surpresa para o espectador. Cheio de boas mensagens e princípios, ele só não é surpreendente ou inovador. Por isso, acredito, merece uma nota boa, mas distante da avaliação máxima – essa nota é apenas para os filmes realmente imperdíveis.

O destaque dessa produção é o trabalho de Dakota Fanning como a protagonista. A atriz, que vem fazendo uma bela carreira desde a infância, demonstra como segue trilhando um belo caminho na profissão. Vejo ela como muito potencial para seguir fazendo ótimos trabalhos no futuro – se fizer as escolhas certas, é claro. Além dela, estão muito bem nos papéis secundários a veterana Toni Collette e Alice Eve.

Além deles, merece ser citado o bom trabalho, como coadjuvantes, de Tony Revolori como Nemo, o colega de Wendy na lanchonete e que tem uma “caidinha” por ela; e do veterano de séries e de pontas Patton Oswalt como o policial Frank, um fã de Star Trek que tem a sensibilidade de falar com Wendy em klingon – ou seja, ele foi a primeira pessoa a falar com ela de uma forma cuidadosa e bacana desde que ela começou a sua viagem para Hollywood. Outra veterana de pontas e de séries, a atriz Robin Weigert também merece ser citada pela ponta como a policial Doyle. Também vale citar o trabalho de Farrah Mackenzie como a jovem Wendy e de Madeleine Murden como a jovem Audrey.

O filme é bacana, cheio de boas intenções, mas me incomodou um pouco a forma com que ele “exagerou” um pouco na falta de sensibilidade das pessoas com Wendy. Ok que vivemos em uma época de muito individualismo e egoísmo, mas ninguém nunca ter se disposto a ajudá-la me pareceu um pouco exagerado – como quando ela não tem dinheiro para pagar um ônibus que a leve para a Paramount Pictures. Segundo esse filme, todos estão muito presos a regras e burocracias. Ainda que isso seja em parte verdade, acho que existe mais margem para o improviso e para a solidariedade no dia a dia do que o filme nos mostra.

Entre os elementos técnicos desse filme, vale destacar a trilha sonora de Heitor Pereira; a direção de fotografia de Geoffrey Simpson; o design de produção de John Collins; a direção de arte de Lindsey Moran; a decoração de set de Tamar Barnoon e os figurinos de Annie Bloom. Ben Lewin faz um bom trabalho na direção, mas não apresenta nada muito diferente da normalidade e do padrão.

Please Stand By estreou em outubro de 2017 no Festival de Cinema de Austin. Depois, o filme passou pelos festivais de Roma e da Virgínia. Nessa trajetória, o filme não foi indicado a nenhum prêmio.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. As falas trocadas entre Kirk e Spock na história criada por Wendy são as mesmas que os dois personagens falam no episódio The Tholian Web, de 1968.

As equipes de Star Trek Deep Space Nine e Star Trek Voyager nunca promoveram um concurso de roteiros. Ainda assim, elas permitiram que alguns fãs das séries escrevessem roteiros. Parte desse material foi, de fato, utilizado nas séries enquanto elas eram transmitidas.

As montanhas que aparecem nos sonhos de Wendy são as Vasquez Rocks localizadas em Agua Dulce, na Califórnia. Esse local foi usado, de fato, em diversos filmes e séries da grife Star Trek, inclusive no episódio Arena, de 1966.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 17 críticas positivas e 11 negativas para Please Stand By – ou seja, o filme tem uma aprovação de 61% e uma nota média de 5,8. No site Metacritic, o filme apresenta um metascore de 49, resultado de quatro críticas positivas, sete medianas e uma negativa. Ou seja, o filme é considerado mediano – o que é o meu parecer também.

Please Stand By é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog, na qual os leitores podiam filmes desse país. Mais um para a lista, pois. 😉

CONCLUSÃO: Um filme singelo, mas muito bem conduzido e com atuações convincentes. Sempre bato palmas para produções que dão voz e que destacam pessoas especiais mas para quem muita gente não dá a mínima bola. Todos nascem com talentos e com capacidade, basta olharmos com um pouco mais de carinho e de generosidade para aqueles que são diferentes da gente. Please Stand By consegue fazer um cruzamento interessante de histórias ao mesmo tempo que presta uma bela homenagem para o próprio cinema e um clássico da ficção científica. Despretensioso, merece ser visto. Um filme leve e que, ao mesmo tempo, tem uma bela mensagem.

Entebbe – 7 Days in Entebbe – 7 Dias em Entebbe

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O conflito israelense e palestino já rendeu bastante pano pra manga. Não apenas histórias, contadas em livros, filmes, séries e em outras plataformas, mas, sobretudo, já rendeu muitas mortes, sofrimento, dor. Entebbe conta um dos episódios desse conflito que parece não ter fim. O filme dirigido pelo brasileiro José Padilha é bem filmado e tem bons atores, mas a narrativa é bastante cansativa e previsível. Na verdade, Entebbe dá sono. A parte mais interessante do filme é vermos a alguns personagens históricos importantes daquele cenário em ação.

A HISTÓRIA: Em um palco, várias pessoas estão dispostas em um semicírculo. A música e o ensaio começam. A introdução comenta como, em 1947, Israel consegue se estabelecer como nação, enquanto os palestinos resistem à falta de território e consegue o apoio de diversos grupos de esquerda espalhados pelo mundo. A história dessa produção, em si, começa no dia 27 de junho de 1976, considerado o primeiro dia da ação.

Wilfried Böse (Daniel Brühl) não está passando bem no banheiro, mas ele se recompõe e sai para o saguão do aeroporto para se encontrar com Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike). Quando eles saem, dois outros homens olham para eles. Todos estão juntos. Eles entram no avião da Air France que está saindo de Tel Aviv com destino a Paris. Em breve, eles vão entrar em ação e entrar para a História.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Entebbe): Dessa vez eu prometo não falar muito sobre esse filme. Até porque eu acho que Entebbe não merece uma grande avaliação. Por uma razão muito simples: esse filme deveria ter rendido um curta e não um longa. E se fosse para render um longa, que ele fosse muito, mas muito melhor contextualizado.

Da maneira com que Entebbe foi desenvolvido, não precisaríamos gastar tanto tempo no cinema. Afinal, o roteiro de Gregory Burke é simplório e previsível. Fora um breve momento de retorno na história para mostrar a preparação dos sequestradores para a operação envolvendo o avião da Air France, a narrativa é linear e com um desenvolvimento um bocado lento. Como comentei no início dessa crítica, com bastante facilidade esse filme dá sono.

Apesar de ter poucos personagens de destaque, Entebbe realmente não desenvolve bem personagem algum. Os atores principais, que podem ser considerados Daniel Brühl e Rosamund Pike, fazem um bom trabalho, mas, apesar disso, não sabemos quase nada de seus personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, qual era a origem de Böse e de Kuhlmann. Sabemos que Kuhlmann se responsabiliza pela prisão – e posterior morte – de Ulrike Meinhof na prisão, mas não sabemos muito mais do que isso da personagem.

Presumimos, com a cena em que Brigitte Kuhlmann fala da morte de Ulrike Meinhof na prisão, que ela fazia parte do grupo Baader Meinhof – ou RAF (Fração do Exército Vermelho) – e que planejava, com aquele sequestro do avião francês com dezenas de israelenses à bordo, resgatar parte do grupo que estava preso. O mesmo presumimos de Böse, mas tudo não passa de suposições. Afinal, Entebbe realmente nos fala pouco destes personagens. E o mesmo a respeito dos outros sequestradores.

Assim, Entebbe deixa tudo muito sugerido e pouco realmente claro. Ao menos envolvendo os sequestradores. Porque a respeito de Israel e de seus líderes, claramente Entebbe praticamente lhes rende uma homenagem. Em partes, ao menos. Claramente percebemos uma postura, por parte de Shimon Peres (Eddie Marsan), de não ceder aos sequestradores sob circunstância alguma. O primeiro ministro Yitzhak Rabin (Lior Ashkenazi), por sua vez, parece ter muito mais dúvidas do que certezas.

Se algo esse filme tem de interessante, é mostrar como as preocupações políticas de algumas lideranças – ou seria de todas? – está acima de vidas humanas e de interesses maiores que não sejam os seus próprios projetos de poder. Peres parece estar sempre preocupado com o “custo político” das ações que o governo israelense pode tomar. Claramente ele é um sujeito ambicioso e combativo, que acredita piamente na filosofia “nós contra eles”.

Enquanto isso, Rabin parece ser um sujeito muito mais ponderado e pacifista. Ele percebe, já na segunda metade dos anos 1970, que não adianta Israel sempre optar pelo combate e pelo enfrentamento. Em algum momento, o país deverá ceder e dialogar, chegar a um acordo – e, para isso, abrir mão de algo, seja de um pouco de poder, seja de um pouco do território. Naquele momento já existiam questões que seguem válidas mais de 40 anos depois – infelizmente.

Para resumir, se temos algo de interessante nesse filme, é justamente esse bastidor político e de jogo de poder. Vemos a dois personagens importantes da história – Peres e Rabin – em momentos de debate e de decisão. Essa é a parte que faz esse filme valer o tempo gasto. O restante, o sequestro e o resgate dos reféns, em si, são desenvolvidos de maneira simplória e um tanto desorganizada.

No fundo, pelo que o filme nos conta, não nos aprofundamos na história e na motivação dos sequestradores e nem nos aprofundamos na história e nas intenções dos outros envolvidos naquela situação. A parte melhor desenvolvida, digamos assim, é a dos personagens de Israel. Sobre o ditador Idi Amin (Nonso Anozie) sabemos pouco. Apenas, por exemplo, que ele é uma pessoa dúbia e com motivações não muito claras – parece que ele faz um jogo duplo.

Um problema de Entebbe, a meu ver, é que ele é uma produção muito “chapa branca”. Ou seja, basicamente, o roteiro de Gregory Burke assume a versão dos fatos de Israel. Eles são os heróis, no fim das contas – ainda que a direção do brasileiro José Padilha mostre que a operação “heroica” de resgate dos reféns foi mais atabalhoada e desastrada do que a história oficial costuma mostrar.

Enfim, aquele foi um episódio importante para Israel e para os palestinos, mas pareceu mais que o sequestro do avião teve a ver com interesses paralelos ao interesse palestino – como o dos apoiadores da RAF, por exemplo, e de outras pessoas que tem a motivação pouco clara no filme, como o líder do núcleo de terroristas e que negocia diretamente com o ditador de Uganda. Afinal, qual era a real motivação daquele cidadão? O filme não deixa isso claro.

Para resumir, Entebbe fraqueja mais por tudo que ele não mostra e não explica do que se sustenta por aquilo que apresenta. As diversas cenas que buscam apresentar a tensão do sequestro acabam sendo bastante repetitivas, e alguns personagens não dizem ao que vieram. Falta contextualização e falta um roteiro que apresente uma versão dos fatos mais crítica e um pouco menos “chapa branca”.

Um exemplo de parte do roteiro que não convence é quando Böse insisti dizendo que nem ele e nem Brigitte Kuhlmann eram nazistas (ou neonazistas). Que a motivação deles não era matar e/ou combater judeus. Certo. Nesse sentido, além de mostrar a “operação heroica” de Israel, Entebbe parece querer convencer a audiência de que a dupla alemã era inocente na história.

Aparentemente, segundo o roteiro, Böse e Brigitte estavam sequestrando um avião cheio de pessoas, inclusive judeus, achando que todos renderiam o resgate de “aliados” de seu movimento “libertário”. Ora, não sejamos inocentes. Eles sabiam que eram alemães e que no voo haveriam muitos judeus. Em que planeta o gesto de alemães ameaçando de morte judeus não faria lembrar a Segunda Guerra Mundial e o extermínio comandado por Hitler? Então o roteiro de Burke me pareceu um tanto estranho e um bocado “parcial”.

No fim das contas, achei esse filme bastante cansativo e pouco explicativo. Valeu por conferir a mais um trabalho do diretor José Padilha que, desta vez, nos entrega um resultado apenas “ok”. O ponto fraco do filme é realmente o roteiro. A ponto de mesmo os atores principais fazerem um trabalho mediano, mas sem realmente nos convencer do que eles estão fazendo.

Para mim, tudo muito mediano. Ou seja, um filme que está longe de ser fundamental. Há muitos outros no mercado bem mais interessantes. Agora, se você, como eu, gosta do diretor José Padilha e de alguns atores em cena, talvez vale a pena investir o seu tempo nesta produção. Mas sabendo que você não verá nada demais em cena.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem ficou curioso sobre o grupo Baader Meinhof, recomendo duas leituras e conteúdos. O primeiro é o filme Der Baader Meinhof Komplex, comentado por aqui no blog. E o segundo material que eu recomendo é esse super resumo feito pela Deutsche Welle sobre a história da RAF. Vale aprofundar-se nesse contexto para entender melhor a “motivação” da dupla de alemães que fazem parte do sequestro mostrado em Entebbe.

Falando em contexto, como Entebbe não é muito preciso ou mesmo contextualiza muito bem a história do sequestro, os seus antecedentes e desdobramentos, pode ser interessante ler a alguns textos que relembram aqueles fatos. Vale consultar desde esse artigo da Wikipédia até essa matéria curta da revista IstoÉ, essa reportagem do Acervo de O Globo e essa outra matéria da Folha de S. Paulo.

Ainda bem que muito mudou em relação à aviação civil no mundo nas últimas décadas, não é mesmo? Evoluímos muito em questão de segurança, por exemplo. Nunca hoje um grupo de terroristas entraria com tanta facilidade em um avião com armas dentro das bolsas de mão. O filme também me fez lembrar o tempo em que era permitido fumar dentro dos voos – não que isso seja mostrado em Entebbe, mas esse tipo de falta de controle e de “noção” sobre riscos para o voo veio à minha mente ao ver o sequestro “fácil” do avião que é mostrado nessa produção.

O diretor José Padilha faz um bom trabalho, valorizando as cenas de ação e o trabalho dos atores, mas ele realmente não consegue entregar uma grande produção porque falta para isso um roteiro melhor. Achei o trabalho de Gregory Burke abaixo da média. Infelizmente.

Como o roteiro não ajuda os atores, eles fazem em cena o melhor que eles podem, mas sem nenhum grande destaque. Ainda assim, vale comentar o sempre competente trabalho de Daniel Brühl como Wilfried Böse; de Rosamund Pike como Brigitte Kuhlmann; de Eddier Marsan como Shimon Peres; de Lior Ashkenazi como Yitzhak Rabin; de Ben Schnetzer como Zeev Hirsch, um dos soldados que se destaca no resgate dos reféns; de Nonso Anozie como o ditador de Uganda, Idi Amin; de Mark Ivanir como o general israelense Motta Gur; de Juan Pablo Raba como Juan Pablo, um personagem muito deslocado e mal desenvolvido mas que seria o namorado de Brigitte que pula fora da operação antes dela começar; Denis Ménochet como Jacques Le Moine, o engenheiro da aeronave que se destaca entre os representantes da tripulação do voo; e Angel Bonanni como Yonatan Netanyahu, comandante da operação de resgate.

Falando em roteiro bem mais ou menos, achei uma viagem a história de pelo menos dois personagens: Zeev Hirsch e Juan Pablo. O primeiro, a exemplo do personagem de Jacques Le Moine, “representante” da tripulação da aeronave sequestrada, parece ter sido destacado apenas para que o espectador se sinta mais “próximo” ou familiarizado com o grupo de militares israelenses. Zeev, assim como a sua namorada, aparecem um bocado na história sem ter, realmente, uma relevância grande para o que aconteceu. Eles, como tantos outros, tem a mesma “importância”, digamos assim. Então por que só eles foram destacados? O mesmo sobre o personagem de Juan Pablo, um bocado deslocado na história. Se ao invés de gastar tempo com esses personagens o roteirista tivesse contextualizado mais a situação do sequestro, certamente o filme seria melhor.

Filme arrastado e um bocado longo para o meu gosto. Para ter a entrega que teve, poderia ser um curta ou ter, pelo menos, uns 20 minutos de corte. Há muitas sobras nessa produção ao mesmo tempo em que falta uma contextualização para o filme funcionar melhor.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale citar a trilha sonora de Rodrigo Amarante; a direção de fotografia de Lula Carvalho; a edição de Daniel Rezende; o design de produção de Kave Quinn; a direção de arte de Charlo Dalli; a decoração de set de Stella Fox; e os figurinos de Bina Daigeler.

Entebbe estreou em fevereiro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participou do Festival BCN. E nada mais. Em sua curta trajetória em eventos, ele não recebeu nenhum prêmio ou indicação.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e apenas 17 positivas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 22% e uma nota média de 5,2. Realmente eu não tenho como discordar dos usuários do site IMDb ou dos críticos. O filme talvez mereça mesmo estar na faixa da nota 5.

No site Metacritic o filme registrou metascore 49, resultado de 6 críticas positivas, 19 críticas medianas e 2 negativas. Acho até que o site foi “bonzinho” com essa produção – especialmente se comparamos com outros metascores. Segundo o site Box Office Mojo, Entebbe faturou US$ 3,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e quase US$ 3 milhões nas bilheterias dos outros países em que estreou. Ou seja, o filme teria feito quase US$ 6,2 milhões. É pouco para Hollywood, mas como não há informações sobre o custo da produção, fica difícil de saber o tamanho do “prejuízo” do filme para os produtores.

Talvez você esteja se perguntando porque eu assisti a esse filme se ele tinha tão pouca aprovação nos sites que eu sempre consulto. Olha, sou franca em dizer que eu resolvi encarar essa produção, basicamente, por duas razões. A primeira, porque eu queria ver ao novo filme do diretor José Padilha. Eu gosto do diretor brasileiro – acho um dos melhores da sua geração. Depois, porque esse filme ainda estava em cartaz no cinema no feriado de 1º de maio e eu resolvi aproveitar ao máximo a minha carteirinha do cinema – incentivo importante do Beiramar Shopping de Florianópolis para pessoas como eu, que ajudam a difundir os bons (ou nem tão bons) filmes que estão em cartaz.

Dito isso, sim, estou em uma fase no estilo “ver o que está passando nos cinemas”. Mas, em breve, quero resgatar os comentários sobre filmes clássicos e/ou históricos que estão fazendo aniversário nesse ano e também ver a outros filmes mais alternativos e que nem sempre passam nos cinemas comerciais. Em breve, meus caros, vou conseguir equilibrar esses três perfis novamente aqui no blog.

Espero que o José Padilha tenha mais sorte em sua próxima produção em Hollywood. Espero que ele conte com um roteiro melhor para trabalhar – ou que ele próprio consiga emplacar um roteiro por lá. Do contrário, ele pode apenas queimar o próprio filme ou cair na “vala comum” de tantos diretores que não emplacaram naquele super competitivo mercado de realizadores.

Entebbe é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos. Por ser tão “chapa branca”, até achei que poderia ter grana de Israel no meio. Mas não.

CONCLUSÃO: Entebbe trata de uma história real para nos ensinar como o idealismo muitas vezes sofre com o pouco contato com a realidade. Ao mesmo tempo que é verdade que não é justo o que Israel historicamente faz com os palestinos, também é verdade que não adianta atacar civis israelenses que não tem nada a ver com isso para tornar a balança “mais justa”. Atacar civis nunca pode ser considerado algo correto.

Bem filmado, mas com um roteiro bastante enfadonho, Entebbe sofre com um ritmo lento e uma história por si só pouco interessante para um longa. Poderia render um belo curta ou, talvez, ficaria melhor em um formato de até 1h30. Mais que isso, é exigir demais do espectador. Apenas mediano, e ainda sendo generosa na avaliação.