Curtas de Animação Indicados ao Oscar 2017 – Avaliação

PIPER – Concept Art by Jason Deamer (Production Designer). ©2016 Disney•Pixar. All Rights Reserved.

Olá amigos e amigas do blog!

Faltam poucos dias agora para confirmarmos todas as expectativas sobre o Oscar 2017. O provável é que tenhamos poucas surpresas neste ano. La La Land é o favoritíssimo da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e deverá papar quase tudo.

Como já comentei no blog antes, esta é uma bela safra do cinema americano e de outros países representada no Oscar. La La Land não é o melhor filme do ano, mas deve será o grande vencedor porque esta é a forma que Hollywood encontrou para defender os seus “ideais” e a “fábrica de sonhos” que ela representa frente a um governo de Donald Trump um tanto “ameaçador”.

Como em anos anteriores, aproveito para falar também das três categorias de curtas-metragens que estão na disputa. Ainda que no Brasil o grande público não dê grande importância para este tipo de filmes, é importante sempre falar deles. Afinal, muitos cineastas que vamos admirar pelos seus trabalhos depois começam justamente fazendo curtas.

De acordo com esta matéria da IndieWire, em 2017 houve um recorde de curtas-metragens animados que disputaram uma indicação ao Oscar: 69 produções. A exemplo de outras categorias, nesta também foi divulgada uma lista de pré-indicados de 10 produções e, no final, apenas cinco realmente disputam a estatueta dourada. Vejamos, então, um pouco mais sobre os indicados deste ano na categoria Melhor Curta de Animação:

1. Blind Vaysha

O curta de oito minutos dirigido e escrito pelo búlgaro Theodore Ushev conta a história de uma garota “muito especial” chamada Vaysha. Desde que nasceu, Vaysha tem uma condição diferenciada: pelo olho esquerdo ela vê sempre o passado das pessoas, dos lugares e das situações, enquanto pelo seu olho direito ela enxerga sempre o futuro.

Como vocês poderão ver abaixo, já que o curta está disponível na íntegra no YouTube, Blind Vaysha tem uma proposta diferenciada em todos os sentidos. Ushev teria se inspirado, segundo este site, na arte medieval e na linogravura para contar esta história. A verdade é que o curta, com toques bastante sombrios, parece estar contando esta história com traços de pintura em movimento à frente dos nossos olhos.

Eu gostei tanto dos traços de Ushev quanto da reflexão que ele levanta com a história de Vaysha. Afinal, se a protagonista é cega para o presente e só consegue enxergar o passado ou o futuro, ela não seria uma alegoria de muitas pessoas que vivem nos tempos atuais e que não conseguem viver o que está acontecendo agora, mas apenas se prender em tempos cronológicos para os quais esta pessoa tem pouco controle?

Ah sim, e vale comentar que Blind Vaysha é inspirado em um conto do escritor búlgaro Georgi Gospodinov lançado em 2001. O curta com narração de Caroline Dhavernas é a primeira indicação ao Oscar do experiente diretor Ushev, que tem nesta produção o seu 15º curta. Formado e mestre em desenho gráfico pela Academia Nacional de Finas Artes em Sofia em 1995, quatro anos depois se mudou para o Canadá, onde começou a atuar como artista multimídia, ilustrador e com animação.

 

2. Borrowed Time

O curta dirigido por Andrew Coats e Lou Hamou-Lhadj (animadores da Pixar) tem sete minutos de duração e conta a história de um velho sheriff que retorna para um local marcante. Com uma trilha sonora maravilhosa de Gustavo Santaolalla, o curta resgata a essência dos filmes de western para contar uma história amarga, de redenção e de “fazer as pazes” com o passado.

Interessante como um curta com tão pouca duração pode conter uma história tão interessante. Borrowed Time é uma destas produções que mostram que poucos minutos podem ser o suficiente para contar belas histórias. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao curta). O sheriff deste curta de western acaba voltando para a paisagem onde a carruagem em que ele estava com o pai, então o sheriff da época, foi atacada por bandidos.

O protagonista desta história tenta frear a carruagem, mas ele acaba caindo e o pai dele é jogado precipício abaixo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O jovem se espreita pela borda do precipício e vê que o pai pode ser salvo, mas ao tentar ajudá-lo, o garoto acaba apertando o gatilho da arma sem querer. Agora, envelhecido, ele resolve encarar aquele local novamente e chega a tentar se largar precipício abaixo, mas ele acaba tendo refletido o brilho do relógio que o pai tinha lhe dado. Neste momento, e de forma muito sutil, ocorre a redenção do personagem.

Bem feito, com um bom ritmo e uma história muito honesta e direta, o americano Borrowed Time é um destes curtas que merece ser visto. Ele é menos artístico que o anterior, tem uma história simples, mas é muito bem feito. Gostei tanto do estilo do filme quanto da trilha sonora e de seu tom meio “amargo” mas com mensagem positiva no final.

 

3. Pear Cider and Cigarettes

Com coprodução do Canadá e do Reino Unido, este curta é o mais longo da disputa, com 35 minutos de duração. Infelizmente não encontrei ele disponível na íntegra, mas o trailer abaixo já dá uma bela palhinha da força desta história e do trabalho do diretor e roteirista Robert Valley.

De acordo com a apresentação do curta, Pear Cider and Cigarettes é a “brutalmente honesta” história do relacionamento entre o diretor e o seu autodestrutivo e carismático amigo de infância que pede ajuda para ele após sofrer um acidente e estar confinado em um hospital na China. Tudo o que este amigo do “alter-ego” de Robert Valley quer é que ele vá ao seu socorro e o ajude a voltar para Vancouver.

Segundo o próprio texto de Valley, tudo o que Techno Stypes quer é beber e fumar, mas isso é tudo que ele não pode fazer porque está doente. Após sofrer um acidente de moto na China, ele estava internado lá. O diretor tinha ouvido duas instruções clara do pai dele: fazer com que Techno parasse de beber o tempo suficiente para que ele recebesse um transplante de fígado e levá-lo de volta para a sua cidade-natal.

Pelo trailer, o curta parece ter um estilo muito diferenciado. É um filme de ação com uma grande técnica de desenho e traços interessantes de Robert Valley. Esta é a primeira indicação ao Oscar do diretor que dirigiu, antes, apenas três trabalho para a TV. Algo que me chamou a atenção no trailer de Pear Cider and Cigarettes foi a ótima trilha sonora de Mass Mental? composta por Robert Trujillo e Armand Sabal-Lecco. Gostei também da arte de Valley e do que parece ser um excelente trabalho de edição.

 

4. Pearl

A VR (realidade virtual) está cada vez mais ganhando protagonismo mundo afora, e não apenas nos games ou nas produções jornalísticas, mas também em todo o tipo de ação que envolva produções artísticas e empresas. Não por acaso 2017 marca a primeira indicação de um curta feito em VR da história do Oscar.

Este estreante é o curta Pearl, dirigido por Patrick Osborne e com seis minutos de duração. A produção, que pode ser “vivenciada” através do vídeo abaixo do usuário Nathie, conta em detalhes a relação entre uma garota e o seu pai. O curta começa com ela adolescente reproduzindo um gravador em um carro, o que remete o espectador ao passado dela.

A partir daí o curta reproduz a experiência de um roadie movie, já que pai e filha vivem viajando e tem, basicamente, o carro como propriedade compartilhada. Pearl tem uma trilha sonora muito bacana, assinada por Pollen Music Group, Alexis Harte e JJ Wiesler, e uma estética que lembra a de alguns games.

A narrativa é bacaninha, sensível, e mostra como a relação de pai e filha amadurece com o tempo, além de explorar bem o conceito de que o amor do pai pela música acabou influenciando positivamente a filha. É uma proposta interessante, especialmente por colocar o espectador dentro da experiência com o VR, mas o curta não me parece ter a qualidade para ganhar o Oscar.

Ainda assim, sem dúvida alguma Pearl pode estar sinalizando uma tendência importante. Com um pouco mais de qualidade de produção e com uma evolução de técnica e narrativa, não será uma surpresa se um curta ou filme de VR ainda ganhar um Oscar no futuro.

Vale comentar que este é o segundo curta dirigido por Osborne – ele estreou na direção de curtas após trabalhar como animador em muitos filmes da Disney com Feast – curta que, aliás, ganhou o Oscar. Abaixo eu deixo o curta na íntegra (que deve ser visto, preferencialmente, com o óculos VR da Google ou qualquer outro do gênero) e o vídeo com a experiência de um espectador.

 

5. Piper

Finalmente comento aquele que, para muitos, é o favoritíssimo deste ano nesta categoria. O curta Piper tem seis minutos de duração e conta com roteiro e direção de Alan Barillaro, animador conhecido por diversos trabalhos da Pixar.

A verdade é que o curta surpreende. Inicialmente, você pensa sobre a capacidade de um curta sobre um filhote de passarinho e a sua mãe entreter o grande público. Mas aí que Piper mostra todo o potencial de Barillaro. Ele conta esta singela e bonita história sem diálogos e com muitas cenas graciosas de forma magistral.

Piper conta a história de um filhote de passarinho que enfrenta “o mundo” pela primeira vez. Incentivado pela mãe, ele deixa o ninho e se aventura até a orla, logo descobrindo a razão que faz todos os pássaros correrem quando uma onda se aproxima. Ele tenta “caçar” alguns bichinhos no início, mas depois é levado por uma onda.

No início, o jovem pássaro fica traumatizado. Mas o pavor dele da água logo é superado quando ele demonstra uma grande capacidade de aprendizado. Singelo, bacana, divertido. Vale também comentar que este é o primeiro curta dirigido por Barillaro.

Apesar da Pixar ter um histórico de indicações ao Oscar, desde 2002 o estúdio não ganha a categoria de Melhor Curta de Animação. Piper tem grandes chances de acabar com esta longa ausência de prêmios para o estúdio – derrotado oito vezes desde que venceu pela última vez com For the Birds. Como Piper foi lançado nos cinemas junto com o blockbuster Finding Dory, sem dúvida ele é o curta na disputa mais popular.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Esta é uma safra de curtas com propostas e estilos muito diferentes. Difícil comparar produções tão diversas, mas acho que a disputa tem três produções com maiores chances e duas que correm por fora. As favoritas parecem ser, nesta ordem: Piper, Blind Vaysha e Pear Cider and Cigarettes.

Ainda que eu tenha gostado do estilo de Borrowed Time, acho que o curta é um tanto “simples” demais para o Oscar. O mesmo pode ser dito sobre Pearl, que tem como destaque ser o primeiro curta VR a ser indicado para a premiação. Avaliando o conjunto da obra, ou seja, a história, a criatividade da narrativa e a parte artística, admito que eu estou com os especialistas que apontam Piper como o favorito.

Blind Vaysha é o mais artístico dos curtas na disputa. Pear Cider and Cigarettes me chamou muito a atenção pelo estilo, mas como eu só vi o trailer do curta, não posso opinar realmente com propriedade sobre ele. Então, avaliando todos os outros, aos quais vi na versão integral, realmente Piper parece ser o provável vencedor.

Tanna

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Algumas questões básicas de uma sociedade moderna podem ser encontradas também em uma sociedade primitiva. Se alguém duvida disso, basta assistir a Tanna. O filme, mais um da leva “baseado em uma história real”, mostra como a disputa entre a tradição e as novas práticas, entre a vingança e a busca pela paz, entre a preservação dos valores de uma comunidade e um amor que quebra promessas são elementos presentes em uma comunidade australiana original e também nas sociedades modernas ocidentais.

A HISTÓRIA: Em uma comunidade encravada na floresta, vemos ao início de mais um dia. O filme avisa que é baseado em uma história real e que é estrelado pelo povo de Yakel. As pessoas começam a sair de suas casas e um senhor varre o chão cantando uma música que fala de como os líderes escolhiam os casamentos “desde o início dos tempos”. Todos os casamentos eram arranjados, até que dois apaixonados resolveram mudar esta tradição e insistir no amor que eles tinham. Esta é a história deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tanna): Logo que a história central de Tanna se apresenta, impossível não pensar que o enredo trata de um “Romeu e Julieta” tribal. Verdade que os protagonistas não são de famílias rivais, mas você tira o conceito familiar de cena e coloca o conceito “familiar” de comunidade tribal e temos o mesmo conceito do clássico de Shakespeare por aqui.

Dito isso, é preciso ponderar que este é um filme muito diferente do que o que estamos acostumados a assistir. Tanna bebe de um tipo de cinema que é de uma história filmada mas que, ao mesmo tempo, é quase documentário. Isso ocorre porque o filme utiliza uma tribo original como “matéria-prima” para as interpretações. Uma bela sacada, sem dúvida, dos diretores Martin Butler e Bentley Dean.

Tanna não teria nem um pouco da mesma graça se fosse um filme interpretado por atores profissionais. O espectador tem outra experiência ao ver os costumes, o brilho nos olhos e a falta de vícios de interpretação das pessoas da tribo Yakel que aparecem em cena.

Esta produção mergulha na realidade e na rotina de uma tribo australiana. Nos faz pensar nas nossas próprias tribos, que ainda sobrevivem a duras penas e “apesar” dos colonizadores/ocupantes atuais da nação. É bonito como os Yakel procuram preservar as suas tradições e sobreviver através justamente desta prática. Afinal, se eles não preservarem o que aprenderam dos antepassados, os seus conhecimentos e forma de viver, o que eles terão de diferente dos demais?

E é justamente frente a esta preocupação de sobrevivência que assistimos a uma ameaça para aquela população. Primeiro, temos uma questão fundamental daquela cultura e de qualquer outra: ensinar para os jovens os valores de seus antepassados. A primeira figura a ganhar relevância na produção é a jovem Selin (Marceline Rofit). Ela é a irmã mais nova de Wawa (Marie Wawa), uma jovem na época para se casar.

Enquanto Selin afronta as ordens dos mais velhos sendo uma “criança rebelde”, Wawa é preparada pelas mulheres da tribo para logo ter o seu casamento arranjado. O que a maior parte da tribo não sabe – Selin é uma das poucas a perceber primeiro isso – é que Wawa está apaixonada por Dain (Mungau Dain), neto do chefe da tribo, Charlie (Charlie Kahla).

Esse grupo vive bem, mas sempre sob a ameaça da tribo vizinha dos Imedin. Eles tem uma antiga rixa, apesar de terem a mesma origem. A exemplo do que vemos em Abril Despedaçado, as duas comunidades estão ameaçadas por um constante revide de parte a parte. Os Imedin matam integrantes dos Yakel e algumas pessoas desta tribo, a exemplo de Dain, que teve os pais mortos pelos adversários, querem vingança.

Como a história de tantas outras civilizações e épocas já nos mostraram, esta ideia de “olho por olho, dente por dente”, nunca funciona. A busca por vingança ad eternum não leva a lugar nenhum, apenas à destruição, mortes e sofrimento. Sabendo disso, depois que o xamã e avó de Selin (Albi Nagia) é atacado por pessoas da tribo rival quando leva Selin para ela ver de perto a “mãe de todos”, Yahul – um vulcão fantástico e muito poderoso, o chefe da tribo Charlie decide dar um basta nas matanças.

Ao invés de deixar que Dain e os demais se vinguem do atentado contra o xamã, ele propõe a paz, uma trégua, e oferece para eles um casamento arranjado. Assim que Wawa é prometida justamente para o herdeiro da outra tribo e responsável pelo ataque contra o xamã. A reação de Wawa e de Dain é resistir a esta ideia, não apenas porque eles não concordam com o acerto, mas porque eles querem ficar juntos.

A história clássica, pois, de um amor proibido, com muita gente “metendo o bedelho” na história dos enamorados. A diferença é o ambiente em que esta história é contada e as pessoas que estão envolvidas nela. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas fora esta ambientação, a história é super previsível e conhecida. Os enamorados são proibidos de ficar junto e, vendo que serão forçados a se separar, eles preferem morrer junto – por isso falei antes de “Romeu e Julieta tribal”.

No fim das contas a história deles acaba fazendo as duas tribos rivais a reverem os seus conceitos. Eles acabaram mudando uma tradição ancestral – de que os casamentos eram sempre arranjados – para incluir também a possibilidade de casamento por amor. Sem dúvida alguma, uma evolução que outros povos e sociedades já passaram. Mas cada um tem o seu tempo e a sua vivência, o seu aprendizado.

Se a história propriamente de Tanna não é exatamente nova, muito pelo contrário, o que torna o filme interessante é realmente mergulharmos na história real de um povo. O que ela nos ensina nos faz refletir sobre a própria evolução da Humanidade. Afinal, ainda hoje, mesmo em “sociedades modernas”, muitas pessoas casam por meio de arranjos, interesses, e tantos outros vivem de batalhas, mortes, vingança e destruição. Então, o quanto “avançadas” são estas sociedades?

Acredito que Tanna nos questione isso e também nos mostre a beleza e a riqueza de um povo que luta para manter as suas tradições. Eles buscam e atingem a felicidade, como tantas outras pessoas de outras sociedades sobre a Terra. A diferença é que os protagonistas deste filme parecem ter um respeito e uma conexão com a Natureza que az falta para todos nós de “sociedades modernas”. Esta é uma das belezas de Tanna.

Outra reflexão que o filme sucinta é aquela que eu comentei antes: de que cada grupo encontra a sua própria evolução. Quem pode garantir que eles são menos evoluídos do que os habitantes de Nova York ou de Brasília, por exemplo? Qual é a métrica desta medida? Não acredito que seja o uso da tecnologia, ou de ferramentas e instrumentos, e sim os valores básicos e o respeito que uns tens pelo outros e pelo que os rodeia.

Ainda que em diferentes parâmetros eu acredite que os “filhos de Tanna” estão mais evoluídos do que alguns habitantes de cidades modernas, eles próprios tiveram que sofrer perdas para aprender algumas lições. Isso mostra que todos nós, individualmente e como grupos constituídos, temos sempre o que evoluir, melhorar. Este é um filme singelo e honesto sobre isso e sobre como a força do amor e do perdão são transformadoras.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma qualidade importante deste filme é o visual dele. Um belo trabalho dos diretores Martin Butler e Bentley Dean – este segundo também assina como diretor de fotografia. Eles sabem valorizar muito bem o entorno das tribos, as belas paisagens que fazem parte da rotina daquela comunidade, especialmente o vulcão Yahul, e também os detalhes das interpretações dos “atores” estreantes.

Outros aspectos técnicos importantes desta produção são a trilha sonora marcante e bem pontual de Antony Partos; a edição de Tania Nehme; e os seis profissionais do departamento de som, que fazem um trabalho fundamental.

O roteiro de Martin Butler, John Collee e Bentley Dean procura contar a história que marcou um período de crise das tribos de Tanna e de que forma ela foi resolvida de forma honesta e o mais fiel possível com a história original. Isso é sempre válido, não há dúvida. Ainda assim, é preciso admitir que a história do filme é o seu ponto fraco, até porque ela parece ser uma colcha de retalhos, em muitos momentos, nem sempre bem costurados, e principalmente porque a história não é original. A originalidade está apenas no ambiente e nas pessoas envolvidas na produção.

Além dos “atores” já citados, vale comentar o bom trabalho de Lingai Kowia como o pai de Selin e Wawa; Dadwa Mungau como a avó das meninas; Mikum Tainakou como o chefe da tribo Imedin; e Linette Yowayin como a mãe das meninas. Entre os nomes principais da produção, o destaque vai realmente para a menina que interpreta Selin, Marceline Rofit, que está sempre com os olhos brilhantes e faz um trabalho confiável e que passa verdade para os espectadores.

Tanna estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2015. Depois, o filme passou por outros 12 festivais mundo afora. Nesta trajetória Tanna acumulou oito prêmios e 21 indicações, incluindo aí a indicação na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Sutherland Award, o prêmio especial do júri do Festival de Cinema de Londres; para dois prêmios no Festival de Cinema de Veneza – o de Melhor Fotografia e o International Critic’s Week Award; e para três prêmios dados para Antony Partos como Melhor Trilha Sonora.

Não encontrei informações sobre o custo de Tanna ou sobre a bilheteria que ele conseguiu fazer nos Estados Unidos e nos demais países.

A única linguagem falada na produção é a Nauvhal.

Tanna foi totalmente rodado na cidade que dá nome ao filme e que fica em Vanuatu, na Austrália.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Tanna, e os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas positivas e três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,3.

Está é uma coprodução da Austrália e de Vanuatu. Sabendo disso, fui procurar saber mais sobre Vanuatu. Ele é um país que é uma ilha e faz parte da Oceania. Hoje República independente, Vanuatu ficou independente da França em 1980. Com cerca de 12,2 mil km2 de território, o país tem aproximadamente 208,7 mil habitantes.

Este é o primeiro longa de Martin Butler. Antes ele tinha dirigido apenas à série de documentários para a TV First Footprints. O diretor Bentley Dean tem um pouco mais de experiência, tendo filmado, antes de Tanna, o vídeo documentário Anatomy of a Coup, codirigiu The President Versus David Hicks, três documentários e, ao lado de Butler, a série de documentários para a TV First Footprints.

CONCLUSÃO: Um filme sensível e diferente, que resgata uma história importante de uma tribo pouco conhecida da Austrália que luta para preservar as suas tradições e costumes. Bem filmado e com uma proposta interessante de colocar os próprios integrantes da tribo para vivenciar uma história que realmente aconteceu, Tanna é um filme inusitado para o Oscar.

Ele nos faz pensar sobre como todos somos mais parecidos que diferentes, independente da latitude ou da “evolução” cultural das nossas sociedades. Também nos faz refletir sobre o quanto evoluímos ou não desde as tribos ancestrais, e sobre algumas motivações elementais que parecem impulsionar a Humanidade. Filme interessante, ainda que tenha uma história bastante simples e um tanto arrastada.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: A indicação de Tanna na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi surpreendente. A produção nunca era citada nas bolsas de apostas e, francamente, apesar dele ter várias qualidades, não acho que ele mereceu chegar tão longe.

Desta temporada do Oscar, falta assistir a muitos filmes para completar a lista de 85 produções indicadas por seus respectivos países para uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Desta grande lista, nove produções avançaram na disputa antes da escolha dos cinco finalistas da categoria.

Então não dá para apontar todos os filmes melhores que Tanna para a lista final da premiação ainda, mas olhando apenas para as produções que eu assisti, além das finalistas, acho que o francês Elle e o venezuelano Desde Allá poderiam ter avançado. Os críticos sempre apontaram Paradise e My Life as a Zucchini como possíveis finalistas. Mas não, Tanna conquistou a sua vaga.

O filme australiano é bom, por todas as razões que eu citei acima, mas não acho que esta é uma produção que deveria estar na lista de finalistas do Oscar. Consequentemente, acredito que ele é o quinto na disputa pela estatueta deste ano. Não tem chances de levar o Oscar para casa.

Lion – Lion: Uma Jornada para Casa

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A força do encontro com as próprias origens. Um drama real que acontece a cada ano com milhares de crianças – ou seria milhões no mundo inteiro? – e que é tratada com suavidade neste Lion. Mesmo quando nos deparamos com uma história triste, é possível encontrar muitas lições nela, assim como a manifestação pura de amor. Tudo isso faz parte deste filme que, apesar de ser bacana, é o mais fraco da temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Diversas paisagens que mesclam terra e mar. No final de uma sequência delas, o filme explica que esta produção é baseada em uma história real. Logo vemos a Saroo (Sunny Pawar) maravilhado com um grupo gigantesco de borboletas. No alto de uma montanha, o irmão mais velho dele, Guddu (Abhishek Bharate), chama o irmão. Eles tem uma missão a cumprir.

Os garotos sobem em um trem carregado de carvão e roubam o máximo que eles conseguem carregar. Guardas chamam a atenção deles, e um dos guardas corre ao lado do trem pedindo para eles pularem. Os garotos se divertem quando o trem passa em um túnel. Estamos em Khandwa, na Índia, no ano de 1986. Com o carvão que os garotos roubaram, eles conseguem dois pacotes com leite, que levam para casa, para a mãe deles, Kamla (Priyanka Bose). Este filme conta a história de Saroo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lion): Nesses dias eu estava me perguntando onde estavam os tão conhecidos produtores da The Weinstein Company. Pois bem, resposta imediata nos créditos deste Lion. Isso explica, aliás, como este filme chegou tão longe, indicado a nada menos que seis estatuetas do Oscar.

Para quem não se lembra ou não liga os “nomes às pessoas”, os irmãos Weinstein são dois dos produtores mais fortes e “de peso” de Hollywood. Mais que investir em filmes, eles são craques no lobby de suas produções. Lobby é aquela campanha massiva que inclui favores e presentes para os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood valorizarem uma produção.

Às vezes esse lobby premia filmes realmente bons, mas nem sempre é assim. Os irmãos Harvey e Bob Weinstein fizeram Quentin Tarantino ser conhecido e emplacaram The Artist, dois bons exemplos. Mas eles também conquistaram, a custo de muito lobby, um Oscar de Melhor Filme para o mediano Shakespeare in Love. Eis um mal exemplo. Enfim, há algum tempo eles não “ditam” as regras do Oscar, e eu estava achando a ausência deles até ver o gigante crédito da companhia neles neste Lion.

Não me entendam mal. Este não é um filme ruim. Ele apenas é mediano. Se não fosse a força dos Weinstein por trás da produção, dificilmente este filme apareceria no Oscar. Descontado Lion na premiação deste ano, realmente falamos de uma safra excepcional na premiação. Lion é o ponto fora da curva nesta boa safra.

O filme, com narrativa linear, conta a história do indiano Saroo, um garoto como qualquer outro da sua idade nos anos 1980. A família dele era pobre, a mãe dos garotos, aparentemente sozinha, cuidava de três filhos, sendo dois deles pequenos – Saroo era o do meio -, tendo como a sua principal fonte de renda o trabalho pesado com pedras. Saroo, a exemplo de tantas crianças da Índia, não tem uma lei para as proteger – ou se existe lei, ela não é cumprida, porque estas crianças trabalham desde cedo.

Lion mostra um pouco da realidade do garoto até que ele se perde do irmão mais velho, Guddu, com quem ele estava sempre grudado. Com sono, Saroo não é capaz de ajudar o irmão em um trabalho noturno. Guddu pede para ele ficar no banco da estação de trem, mas o garoto acaba entrando em um vagão que é fechado e que não para em diversas estações até, finalmente, aceitar passageiros em Calcutá.

O menino, que parece ter cerca de seis anos, está a 1,6 mil quilômetros de casa. Ele cita o lugar em que ele mora, mas não fala bengalês, apenas híndi, e ninguém sabe do lugar do qual ele está falando. Saroo acaba tendo sorte e escapa de duas ciladas, pelo menos, passando a morar na rua e a se virar para conseguir comida. Em um certo dia, ele chama a atenção de um rapaz que com em um café (Riddhi Sen) e que o leva para a polícia.

Lá ele é “fichado”, ganha uma identificação como uma criança perdida, e é levado para um orfanato. Na sequência, ele é atendido pela Mrs. Sood (Deepti Naval), que publica um anúncio no jornal da cidade mas que, claro, não é visto pela família dele – não apenas porque a mãe do garoto é analfabeta e pobre, mas porque eles estão muito distantes de Calcutá.

Sem resposta da família do garoto, ele tem a sorte de ser adotado pelo casal australiano Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham). Uma das primeiras reflexões que Lion provoca é sobre o improvável da história de Saroo. Infelizmente ele é uma exceção naquela realidade da Índia – e de tantos países em que a pobreza e a desigualdade social não são artigos raros.

Impossível não pensar que para cada Saroo que tem sorte e que “dá certo” na vida porque tem as oportunidades para isso, existem tantas e tantas outras crianças que se dão muito mal e não tem a mesma oportunidade. Sem dúvida alguma é de cortar o coração, e toda a parte que mostra Saroo na sua fase de infância é o que Lion tem de melhor.

Na fase seguinte, há um grande trabalho que vale o investimento de tempo do espectador: o da atriz Nicole Kidman. Ela está ótima no papel da mãe adotiva de Saroo e tem, sem dúvida alguma, os melhores momentos de interpretação do filme – talvez esse seja o melhor trabalho dela deste The Hours. E isso não é pouca coisa. Nicole Kidman merece a sua indicação para o Oscar deste ano. Ela é o ponto forte do filme junto com os atores mirins da produção.

Adotado pelo casal, Saroo se desenvolve bem e tem as melhores oportunidades de estudar e de fazer esportes. Ele tem uma boa vida na Austrália. A história avança 20 anos, quando Saroo sai da casa dos pais para morar sozinho em Melbourne. É lá, interagindo com outros estudantes, que ele começa a questionar as suas origens e o seu passado. Começa a relembrar da mãe, do irmão, e da vida que tinha na Índia.

Esta é uma parte que eu acho mal explicada no roteiro regular de Luke Davies, baseado no livro escrito por Saroo Brierley. Afinal, Saroo ficou 20 anos morando com os novos pais na Austrália e nunca questionou as suas origens, procurou saber mais sobre a família e até buscá-la antes? Verdade que o indivíduo, quando vai morar sozinho, passa a ter outro tipo de “busca de si mesmo” mas, ainda assim, é um pouco estranho esse salto todo na vida do garoto sem nenhuma contextualização sobre as memórias dele antes, não?

Eu achei que o filme deixou esse buraco grande na história e que isso compromete a produção. Ok que eles quisessem saltar bastante tempo na trajetória de Saroo e mostrá-lo já adulto (interpretado então por Dev Patel). Mas então nesta fase adulta ele poderia ter comentado algo sobre como ele lidou com as suas lembranças e a saudade que tinha da família original, não? Para o meu gosto, o roteiro de Luke Davies é o ponto fraco de Lion.

Outra questão que eu acho que Davies não trabalha bem é sobre a “crise existencial” pela qual passa o protagonista desta história. Ok que ele estava dividido entre a necessidade de procurar a família original e a preocupação de não chatear os pais adotivos, mas isso não é exatamente bem explorado pela produção.

Lion acaba desacelerando justamente em uma parte vital, quando o rapaz começa a questionar a vida confortável que ele leva na Austrália e recorda o contraste das experiências que ele teve na Índia. A história acaba se repetindo naquela indecisão dele de realmente buscar as origens, o que não ajuda na narrativa.

O filme não teria perdido nada, pelo contrário, se tivesse cortado um pouco aquela investigação “by Google Earth” e explorado melhor as relações pessoais dele ou partido logo para a procura dele de suas origens. Francamente eu achei que ele não encontraria ninguém quando voltasse para casa, mas ele ainda tem a sorte de rever a mãe.

Lion nos faz pensar, desta forma, em dois elementos fundamentais: a importância de cada um de nós entender com profundidade de onde veio, porque nossas origens acabam moldando muito o que somos; e o quanto a desigualdade de oportunidades é algo injusto e cruel. Saroo acaba tendo uma qualidade de vida e uma série de oportunidades que ele jamais teria se tivesse ficado na Índia. Mas onde ele seria mais feliz? Nunca saberemos.

Mas independente disso, toda criança deveria ser protegida e ter as mesmas oportunidades na vida. Depois o que cada um faria de sua trajetória, seria algo que competiria a cada indivíduo. O cruel e injusto do mundo é que muitas crianças simplesmente não tem oportunidade de se desenvolver e de ter oportunidades na vida. Lion mostra isso de forma muito contundente, ainda que o filme poderia ser melhor planejado e ter um roteiro mais inteligente na segunda parte da produção.

Antes eu comentei sobre o ótimo trabalho de Nicole Kidman. Para mim, ela tem alguns dos melhores diálogos da produção. Particularmente, estou totalmente de acordo com ela de que já existem pessoas suficientes no mundo. O que muitos casais poderiam fazer, a exemplo do que os Brierley desta história fizeram, é adotar algumas das crianças que não tem estrutura familiar e que não terão oportunidades na vida para realmente dar para elas uma outra realidade.

Esta é uma outra boa reflexão que Lion nos propicia, pensar sobre que realidade temos, qual queremos ter e de que forma podemos contribuir para esta mudança. Este é um filme bacana, necessário, pena que não tem a qualidade narrativa que ele poderia ter.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O destaque desta produção são os garotos Sunny Pawar e Abhishek Bharate. Eles se saem muito bem em seus papéis, ainda que o roteiro de Luke Davies não ajude muito os dois ao tentar levar a narrativa um pouco para o “sentimentalismo”. Existe uma linha tênue entre retratar uma história difícil e explorá-la. Lion acaba caindo mais para o segundo lado do que para o primeiro. Mas sempre que os garotos aparecem em cena, o filme ganha.

Na parte da fase adulta do protagonista, quem brilha é Nicole Kidman. Ela nos dá uma lição de amor e de dedicação pela forma igualitária com que ela trata os dois filhos adotivos. Saroo é um exemplo de filho, aparentemente, mas o segundo garoto que o casal adota, Mantosh (Divian Ladwa, vivido por Keshav Jadhav na infância), claramente tem problemas de comportamento. Isso não importa para Sue, que ama e aceita os filhos como eles são e da mesma forma.

Dev Patel está bem em seu papel, mas não faz nada extraordinário – para mim, o personagem de Saroo perde em força quando ele o interpreta, comparando com o trabalho de Sunny Pawar. Nesta fase da história estão bem também David Wenham como o pai dos garotos e Rooney Mara como Lucy, namorada de Saroo. Rooney Mara está novamente encantadora, e convincente, mas o roteiro não lhe ajuda muito. Uma pena.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Khushi Solanki em uma super ponta como Shekila quando criança; Tannishtha Chatterjee como Noor, uma mulher que ajuda Saroo quando criança com segundas intenções; Nawazuddin Siddiqui como Rawa, aparentemente um traficante de pessoas; Koushik Sen como o policial que atende Saroo; Pallavi Sharda como Prama, amiga de Saroo que o incentiva a procurar as suas origens; Sachin Joab como Bharat, também amigo de Saroo; Arka Das como Sami, jovem que faz parte do mesmo grupo; e Rohini Kargaiya como Shekila adulta.

Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho de uma série de pessoas. Ainda que, francamente, todos cumpram bem a sua função, apenas o diretor de fotografia Greig Fraser é o que merece uma menção especial. Os demais fazem apenas um trabalho ok. Ainda assim, vale citá-los: Volker Bertelman e Dustin O’Halloran assinam a trilha sonora; Alexandre de Franceschi faz a edição; Chris Kennedy assina o design de produção; Nicki Gardiner e Seema Kashyap assinam a decoração de set; Cappi Ireland, os figurinos; e Erica Brien o departamento de arte.

Sobre os irmãos Weinstein e o seu trabalho forte com o lobby em Hollywood, vale dar uma olhadela nesta matéria da revista Exame.

Lion estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros 18 festivais pelo mundo. Em sua trajetória até agora, Lion conquistou 26 prêmios e foi indicado a outros 72, incluindo seis indicações ao Oscar 2017.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel no Bafta Awards; para o de Melhor Diretor Estreante para Garth Davis dado pelo Directors Guild of America; oito prêmios como Melhor Filme – a maioria dada pelas audiências de festivais; dois prêmios de Melhor Roteiro Adaptado; quatro prêmios de Melhor Ator Coadjuvante ou de Melhor Ator para Dev Patel; quatro prêmios para Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman; um prêmios de Melhor Fotografia e um prêmio de Melhor Ator para Sunny Pawar.

Lion teria custado US$ 12 milhões, um orçamento até baixo para a complexidade da produção. O filme faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 30,4 milhões e, nos demais países em que já estreou, outros US$ 14,1 milhões. Até o momento a produção faturou pouco mais de US$ 44,5 milhões, ou seja, está trilhando o caminho do lucro – até porque ele custou relativamente pouco para os padrões de Hollywood.

Como a história mesmo conta, Lion foi totalmente rodado na Índia e na Austrália. Entre as cidades em que a produção passou estão a de Kolkata, em West Bengal, na Índia, e as de Hobart, Melbourne, Bruny Island, Cape Hauy e Recherche Bay, todas na Austrália.

Esta foi a estreia de Sunny Pawar no cinema. Torço para que ele consiga ter uma carreira legal. Talento não lhe falta. Falando em estreias, Lion também marca a estreia de Garth Davis entre os longas – antes ele tinha feito o documentário P.I.N.S., o curta Alice e alguns episódios das séries Love My Way e Top of the Lake.

Agora, aquelas curiosidades básicas da produção. A personagem de Rooney Mara não é baseada em uma pessoa específica, mas é a junção de diversas “amigas” do protagonista que o acompanharam em sua longa jornada em busca de seu lugar de origem.

Como a produção mesmo informa, na Índia, todos os anos, 80 mil crianças se perdem de seus país. E um número ainda mais impressionante e de cortar o coração: 11 milhões de crianças vivem nas ruas da Índia. Vocês leram bem? 11 milhões de crianças! Os produtores de Lion criaram a fundação #LionHeart para tentar ajudar estas crianças que vivem nas ruas.

A atriz Nicole Kidman foi escolhida a dedo pela verdadeira Sue Brierley. As duas conversaram sobre o papel em Sydney e imediatamente Nicole e Sue viram que elas tinham algo em comum: as duas amavam os seus filhos naturais e adotivos da mesma forma.

Nada menos que 4 mil meninos fizeram os testes para interpretar Saroo na infância.

O ator Dev Patel considera o roteiro de Lion o melhor que ele já leu.

Na Austrália o filme teve a melhor estreia de um filme independente da história. Entre todos os filmes do país que já estrearam naquele mercado, Lion teve a quinta melhor estreia de todos os tempos.

Esta é uma coprodução da Austrália, dos Estados Unidos e do Reino Unido. Como tem os EUA no meio, Lion atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, o que é uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,3. Me parece, até pelos prêmios que este filme já recebeu, que os espectadores têm sido mais “sensíveis” para a produção do que os críticos. Desta vez, tenho que concordar mais com os críticos. A história de Lion é importante, mas não é muito bem contada e nem é surpreendente. Enfim, poderia ser melhor.

Achei forçado o material de divulgação do filme explorar tanto a imagem de Dev Patel. Por justiça, seria muito mais interessante termos cartazes que dessem destaque para os irmãos quando pequenos. Afinal, a parte mais interessante do filme está com eles. Mas entendo os produtores, preocupados com a bilheteria, por explorarem a imagem do conhecido Dev Patel e da “queridinha” Rooney Mara.

CONCLUSÃO: A mensagem deste filme é importante, e ele tem boas interpretações. Mas entre os indicados deste ano do Oscar este é, sem dúvida, o elo fraco da corrente. Primeiro porque o filme é um bocado arrastado e tem muitos altos e baixos. Depois, porque ele talvez teria funcionado melhor como documentário do que como uma produção dramática.

Falta para esta produção um pouco de conteúdo, de brilho e de emoção, apesar de Lion ter algumas mensagens muito bacanas, especialmente pela forma com que o filme defende a importância da família, da generosidade, da busca por si mesmo e do amor. Vale a pena assistir se você já viu a todos os outros indicados ao Oscar desta safra.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Parece incrível pensar que Lion foi indicado em seis categorias do Oscar. Ok, o filme é bom, mas ele não passa disso. Como eu comentei por aqui antes, a única explicação para este número de indicações é a força dos produtores Harvey e Bob Weinstein. Eles continuam tendo um lobby forte em Hollywood, pelo visto.

Lion concorre neste ano nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel (classificação estranha essa, mas não é inédita), Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Entre os nove filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano, não tenho nenhuma dúvida em afirmar que Lion é o mais fraco concorrente. Sendo assim, claro que chance zero do filme ganhar nesta categoria. Também não vejo nenhuma chance do filme levar em Melhor Ator Coadjuvante – o prêmio deve ir para Mahershala Ali, de Moonlight – ou em Melhor Atriz Coadjuvante.

Apesar de Nicole Kidman ser, provavelmente, a indicação mais justa que o filme recebeu no Oscar 2017, a categoria em que ela concorre deve ser ganha por Viola Davis – que, a exemplo de Patel, poderia, perfeitamente, estar na categoria principal e não na de coadjuvante, já que ambos são os protagonistas nos seus respectivos filmes.

Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, Lion corre totalmente por fora. Não imagino ele tendo qualquer chance contra Moonlight, Fences, Arrival ou Hidden Figures. Todos os quatro são melhores do que ele.

Em Melhor Fotografia e em Melhor Trilha Sonora o favoritíssimo da noite é La La Land, apontado como o filme que será mais premiado na noite do Oscar. Quem corre por fora na primeira categoria é Arrival e Moonlight, enquanto na segunda existe uma mínima chance para Moonlight e Jackie. Ou seja, se o previsto acontecer, Lion sairá da noite do Oscar de mãos vazias. Nesta temporada de grandes filmes concorrendo, não será uma injustiça.

Hacksaw Ridge – Até o Último Homem

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Quando você defende valores corretos e está convicto sobre eles, não existe cenário agreste ou situação impossível pela frente. Hacksaw Ridge é um filme de guerra como você nunca viu. Por incrível que possa parecer, este é um libelo sobre a não violência e sobre a defesa da vida em meio à carnificina de uma guerra. Mel Gibson nos presenteia com um dos melhores filmes deste gênero de todos os tempos. Isso não é pouca coisa.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que se trata de uma história verdadeira. Muitos mortos no chão. Vários soldados estão sendo borbardeados e caem sobre o solo. Alguns são incendiados. Em meio àquela cena de guerra e morte, uma oração sobre Deus ecoa. Ela está sendo feita por Desmond Doss (Andrew Garfield), soldado que está sendo retirado do campo de batalha ferido. Este filme conta a história dele e do feito impressionante que ele foi capaz de realizar naquele mesmo cenário de destruição.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hacksaw Ridge): Eu admito logo de cara que este filme me conquistou. Fui fisgada e me emocionei em mais de um momento da produção. Se pensamos nela racionalmente, é claro que os roteiristas Robert Schenkkan e Andrew Knight e que o diretor Mel Gibson recorreram a vários lugares-comum e chavões. Mas você esquece de tudo isso quando vê o exemplo deixado por Desmond Doss.

Como vou falar novamente lá embaixo, na conclusão, este filme será visto e sentido de maneira muito diferente conforme as convicções do espectador. Para quem é ateu, mas acredita na não violência, na paz e na defesa da vida, este filme será uma história interessante descontada toda a parte “religiosa”. Para quem é cristão, como eu, as ações de Desmond Doss ganham outra camada de significado.

Como tantas outras produções, Hacksaw Ridge começa com uma “pílula” da parte final da história, quando Desmond é carregado por outros soldados que procuram salvá-lo no campo de batalhas. Depois deste rápido “lampejo” da parte final da história, o roteiro de Schenkkan e de Knight volta 16 anos no tempo.

Com esta escolha, vemos um pouco da infância de Desmond (quando criança, interpretado por Darcy Bryce), quando ele brincava nas Montanhas Blue Ridge, no Estado da Virgínia, ao lado do irmão Harold, conhecido como Hal (Roman Guerriero na fase infantil). Voltamos para um dia específico e que acabou sendo importante para formar o caráter de Desmond quando adulto.

No dia comum da família Doss que acompanhamos, o pai dos garotos, Tom (Hugo Weaving) bebe e se lamenta para os amigos mortos na guerra ao visitá-los no cemitério. Desmond e Hal acabam brigando, e em um gesto sem pensar, Desmond atinge o irmão com um tijolo. Naquele momento ele percebe que poderia ter matado o irmão, como Caim fez com Abel, e ouve da mãe, Bertha (Rachel Griffiths), que é cristã, que matar alguém é o pior pecado contra Deus. Essa lição marcaria o protagonista da história para sempre.

Na sequência, o roteiro de Hacksaw Ridge pula 15 anos para a frente, ou seja, um ano antes das cenas de guerra que iniciaram a produção. Novamente somos apresentados a fatos determinantes para a vida de Desmond. Quando o protagonista vê um acidente acontecer na rua, ele vai ao socorro do acidentado atingido em uma artéria e o salva ao fazer um torniquete na perna. Ele acompanha o jovem até o hospital, e é lá que ele conhece a enfermeira Dorothy Schutte (Teresa Palmer).

Ele fica imediatamente encantado por ela e começa a flertar com a garota. Quando os dois engatam um namoro, ele pede ajuda para ela porque ele quer saber mais de Medicina. Hal se alista e vai para a guerra, e não demora muito para Desmond seguir o mesmo caminho. Nenhum dos irmãos quer ficar em casa enquanto os seus amigos e conhecidos estão defendendo o país no campo de batalha – mesmo os dois “odiando” o pai alcoólatra e veterano de guerra, eles são inspirados por ele no exemplo de “servir à pátria” e de fazer o que é certo pelo coletivo da nação.

Mesmo fazendo parte da mesma família, nem todos tem as mesmas convicções e a mesma fé. O pai, Tom, claramente parece um morto-vivo e indica que já não é capaz de acreditar em nada, muito menos em Deus. A mãe dos garotos é religiosa. Hal parece ser neutro – não há muitas informações sobre ele, na verdade -, enquanto Desmond seguiu os passos da mãe e é bastante religioso.

Realmente parece assustador pensar em alguém indo para uma guerra sem ao menos carregar uma arma sequer para se defender. Afinal, tudo que se espera em um campo de batalha é que você seja atacado. Mas Desmond se recusa a carregar uma arma e, claro, se recusa solenemente a atacar uma pessoa ou matá-la – nem que isso signifique a própria sobrevivência.

Se você parar para pensar, isso sim é ser revolucionário. É marcar uma posição quando todos os outros dizem que isso é impossível e que você não pode fazer aquilo não apenas porque é suicídio, mas especialmente porque você estará passando uma mensagem muito ruim para o restante da tropa. Mesmo após ser preso, Desmond continua defendendo as suas convicções. E, aí entra a primeira surpresa do filme, Desmond só não se dá mal porque o pai, aparentemente “ausente”, intervém.

Em certo momento questionam Desmond: por que ele simplesmente não desiste daquela ideia maluca e vai para casa? Isso acontece quando ele vai para a corte marcial. Ali ele dá o primeiro depoimento contundente. As convicções de Desmond não permitem que ele fique em casa “tocando a vida” enquanto tantos outros homens estão se sacrificando por ele. É uma questão de honra e de lealdade por amigos, pelo irmão e por tantos outros desconhecidos. Ele não consegue apenas “deixar para lá”.

Pois bem, após uma intervenção salutar do pai, Desmond consegue terminar a formação e ir para a guerra sem ter pego em uma arma. Importante dizer que a convicção dele anti-violência tem duas fontes principais: o exemplo violento do pai, que era alcoólatra e batia em todos em casa, dos filhos até a esposa; e aquele exemplo citado antes, de quando o garoto Desmond percebeu que ele próprio tinha a capacidade de matar e que isso era algo muito, muito errado. Sem contar, evidentemente, como ele se inspira no exemplo de Cristo e nos mandamentos fundamentais.

Em determinado momento do filme, no campo de batalha, quando está falando com um dos colegas de farda, Smitty Ryker (Luke Bracey), Desmond também admite que, certa vez, pegou em uma arma para defender a mãe e que chegou a apontá-la para o pai. A partir daquele momento ele prometeu para si mesmo nunca mais pegar em uma arma novamente.

Estes e outros detalhes do filme fazem Hacksaw Ridge ser muito rico em histórias e muito coerente em sua narrativa. Uma pessoa cercada por violência tem a capacidade de escolher entre seguir aquela linha ou mudar completamente, tornando-se uma pessoa da paz. Esse segundo caminho é o que Desmond escolhe. Mas ele não se satisfaz apenas em ter esta conduta na sua vida pessoal. Ele leva esta ética para o campo de batalha. Isso sim, é algo incrível. E que nos demonstra, sem dúvidas, como é possível ter esta atitude pacifista em qualquer lugar e contexto.

Quando o diretor Mel Gibson leva a narrativa para o campo de batalha é que o filme ganha outra dimensão. As cenas recheadas de disparos, explosões, ataques e contra-ataques são impecáveis. O diretor demonstra conhecer bem esta narrativa e vemos um grande cuidado técnico com cada sequência. Mas o que ganha o espectador não são esses recursos já conhecidos. Acho difícil alguém não se emocionar com as cenas de Desmond correndo em meio ao perigo com cada companheiro de farda pelas costas.

Da minha parte, me emocionei logo nas primeiras sequências de Desmond salvando vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas ainda que a emoção tenha começado pouco depois dele colocar os primeiros homens daquele batalhão nas costas e correr com eles para tentar salvá-los, sem se importar em quem poderia sobreviver ou não, porque ele acreditava que todos mereciam uma chance, foi na sequência em que Desmond fica sozinho e começa a salvar a todos que ele encontra pela frente, inclusive japoneses “inimigos”, que a emoção corre solta. Ele passou uma noite inteira, sozinho, fazendo isso, rezando a cada minuto e pedindo a Deus mais forças para seguir salvando vidas. Na verdade, toda vez que ele ora pedindo uma resposta e segue em frente ao ouvir um pedido de ajuda, a emoção corre solta. Há uma mensagem mais forte que essa? Acho difícil.

É fácil falar de princípios, de defesa da vida e da paz quando você está seguro e tranquilo na sua casa. Algo bem diferente é defender tudo isso estando sob risco constante de levar um tiro ou de ser implodido em um campo de batalha. Mas Desmond não tem nenhuma dúvida sobre como agir e sobre qual é a sua missão naquele local. Ele não vai matar ninguém. Ele está lá para salvar vidas. Incrível.

Tem gente que sempre usa o lema “uma andorinha só não faz Verão” para justificar que mais pessoas precisam ter interesse em uma ideia para que ela dê certo. Desmond mostra que uma pessoa sozinha pode fazer uma grande, imensa diferença. Ele mostrou mais honra e coragem do que muitos homens que foram para a guerra e apertaram gatilhos, usaram lança-chamas ou jogaram bombas nos inimigos.

Um tempo depois de ter assistido a Hacksaw Ridge, que achei muito inspirador, me lembrei de outro filme que mostra como uma única andorinha pode fazer uma grande diferença e salvar muitas vidas. Me lembrei de Schindler’s List, a história de outro homem que foi capaz de salvar muitas vidas. A exemplo de Desmond, Oskar Schindler teve a oportunidade de salvar pessoas e não se eximiu desta responsabilidade.

É inacreditável o que Desmond foi capaz de fazer. O exemplo dele foi tão inspirador que ele teve que entrar no campo de batalha novamente logo após ter passado uma noite salvando vidas sozinho. Os soldados que iam entrar em ação queriam ele por perto, como se ele fosse um tipo de “amuleto” ou alguém “protegido por Deus”. Neste momento Hacksaw Ridge mostra como um exemplo pode inspirar tantas pessoas. E é isso que Jesus continua fazendo até hoje.

Quando Desmond entra no campo de batalha novamente, é sábado, justamente o dia em que ele dizia que não poderia “trabalhar” por causa de sua fé. Mas ele sente que tem aquela missão para cumprir e, de fato, com o ânimo do exemplo dele, o batalhão vence a batalha e conquista Hacksaw. Desmond é ferido e consegue ser resgatado, e nos minutos finais do filme vemos a cenas reais do militar que foi condecorado por salvar 75 vidas. Certamente Mel Gibson quis colocar aquelas cenas no final para justificar alguns momentos mais “controversos” da produção.

Os roteiristas e o diretor constroem este filme de forma muito inteligente. Conhecemos as origens e o entorno familiar e social do protagonista, elementos que ajudaram a moldar o seu caráter. Os valores dele e a visão de mundo que ele constrói pelas experiências pelas quais ele passa são fundamentais para explicar a sua postura diferenciada no campo de batalha.

Depois de fazer esta contextualização essencial do personagem, entramos na ação propriamente dita. Nesta etapa, vemos o pior da guerra, toda a crueldade dos japoneses kamikazes e também dos soldados americanos, e um contra-exemplo dado por Desmond. Ele é o contraponto de tudo aquilo e serve de exemplo atualmente, nestes dias tão conturbados que vivemos no Brasil e no mundo, de que é possível buscar um caminho diferente.

Desmond nos lembra que sempre podemos escolher a paz e a defesa da vida, mesmo que todos ao nosso redor pareçam estar defendendo a violência e o conflito com a justificativa de que esta é a única saída. Nunca existe apenas uma saída. Desmond nos lembra que sempre temos a capacidade de escolher e que mesmo que a escolha faça todos pensarem que nós somos loucos ou “bobos”, ela vale a pena quando é feita com convicção.

Hacksaw Ridge também nos lembra que ninguém tem o direito de dizer para o outro o que ele deve fazer se isso vai contra o que ele acredita ser o melhor. Um belo e contundente filme. Um dos melhores filmes de guerra que já foram feitos para o meu gosto. Entra na lista de produções inesquecíveis e inspiradoras. Para quem é religioso, este filme também mostra como cada cristão pode ser o sal da Terra e servir de luz para os seus irmãos. Deus opera milagre através das pessoas que estão afinadas com ele, eu não tenho dúvidas disso. Desmond só conseguiu fazer tudo o que fez confiando muito em Deus e que ele lhe protegeria para cumprir a sua missão.

Ainda que Hacksaw Ridge tenha uma defesa da fé do protagonista inevitável, ele não precisa ser visto apenas sob esta ótica religiosa. Pode ser visto apenas como um filme de um homem com princípios diferentes dos de uma guerra. Mais uma grande produção desta safra especial do Oscar. Há muito tempo não se via filmes tão bons na disputa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Grande escolha dos produtores e do diretor Mel Gibson por Andrew Garfield como protagonista. Ele realmente tem o porte e o perfil adequado para o personagem de Desmond Doss. Afinal, o Desmond verdadeiro era magro e tido como um sujeito “fraco” para os padrões do Exército. Era um “cara comum” que foi capaz de um feito extraordinário. Garfield está muito bem no papel e merece, sem dúvida, ser indicado ao Oscar.

Logo depois de assistir a este filme eu pensei em dar a nota máxima para ele. Mas aí pensei um pouco melhor e teve um ou dois pontos que me “incomodaram” um pouco na história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apesar dele ser baseado em fatos reais e eu achar que boa parte do que vemos no filme realmente aconteceu, tem partes que me pareceram um tanto “exageradas”. Primeiro, o filme é declaradamente pró-EUA. Ou seja, os japoneses são tratados como super cruéis e carniceiros,mas certamente esta visão também era a que o outro lado tinha dos americanos.

A simplificação dos japoneses e a sequência em que Desmond ajuda um inimigo e que é “poupado” por ele me pareceram um pouco equivocadas. Também me incomodou um pouquinho o tom de “protegidos por Deus” na segunda batalha em Hacksaw, quando eles vencem os japoneses. Desnecessário, afinal, Deus jamais estará do lado de alguém que faz guerra – uns vencem e outros perdem apesar de Deus. Também me incomodou um pouquinho a cena de “endeusamento” de Desmond, ou de torná-lo praticamente um “anjo” quando ele está sendo resgatado. Mas estes são detalhes em um filme com mensagem, no geral, bacana e importante.

Hacksaw Ridge é um filme declaradamente de um personagem. Ainda que tenhamos vários nomes interessantes em cena, esta produção é toda construída para valorizar a história de Desmond Doss. Andrew Garfield brilha no papel, neste que pode ser, até o momento, o filme da vida do ator. Ele tem uma presença, um carisma e uma postura otimista que é típica de quem está “repleto do Espírito Santo”, e por isso ele convence tanto no papel de Desmond. Mas além dele, tem outros atores importantes e que fazem bem o seu trabalho.

Do núcleo familiar do protagonista, vale destacar o belo trabalho de Hugo Weaving como o ex-veterano de guerra e patriarca da família Tom Doss; o coerente e sensível trabalho de Rachel Griffiths como a pacífica e amorosa mãe Bertha Doss; e o da talentosa atriz Teresa Palmer em um dueto importante com Andrew Garfield como a namorada e depois esposa dele, a enfermeira Dorothy Schutte. Também vale citar o bom trabalho de Nathaniel Buzolic como Hal Doss – ainda que o papel dele seja micro.

Do núcleo do exército, sem dúvida merecem aplausos os atores Sam Worthington como o capitão Glover; Vince Vaughn lembrando um pouco o capitão do clássico de Kubrick neste filme como o sargento Howell; e Luke Bracey brilha como Smitty Ryker. Todos eles tem em comum desprezarem Desmond no início, mas depois se renderem à bravura e ao exemplo dele.

Como em todo filme de guerra, é complicado ligar “o nome à pessoa”. Quando Desmond chega no treinamento militar, rapidamente um grupo de soldados se apresentam para ele. Mas é difícil, depois, você identificar este ou aquele no campo de batalha. Ainda assim, vale citar o nome de alguns atores que, mesmo sendo coadjuvantes, recebem um certo destaque na história nesta tentativa dos roteiristas em “humanizar” os soldados: Firass Dirani como Vito Rinnelli; Michael Sheasby como Tex Lewis; Luke Pegler como Hollywood Zane; Ben Mingay como Grease Nolan; Nico Cortez como Wal Kirzinski, apelidado de “Chefe”; e Goran D. Kleut como o “esquisitão” Ghoul.

Além deste grupo de atores que dão vida a jovens soldados, vale destacar alguns atores veteranos em pequenos papéis no filme, como Richard Roxburgh como o coronel Stelzer; Robert Morgan em uma participação contundente como o coronel Sangston; e Philip Quast como o juiz que sabe ser justo quando Desmond decide se defender na corte marcial.

Tecnicamente falando, o filme é irretocável. Não vi nenhum problema em parte alguma. Diversos talentos ajudaram este filme a ele ter a qualidade que vemos em cena. Para começar, a envolvente, emocional e um tanto época trilha sonora de Rupert Gregson-Williams que, sem dúvida alguma, ajuda bastante a história nas cenas de batalha.

Outros profissionais que dão um show em suas respectivas funções são o diretor de fotografia Simon Duggan; o editor John Gilbert; os 16 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 23 profissionais envolvidos no departamento de arte; os 21 profissionais que fazem um trabalho fundamental e perfeito no departamento de som; os 10 profissionais responsáveis pelos efeitos especiais; os 30 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais; além do design de produção de Barry Robinson; a direção de arte de Jacinta Leong e de Mark Robins; e os figurinos de Lizzy Gardiner.

Hacksaw Ridge estreou em setembro de 2016 no Festival de Cinema de Veneza. Foi o único festival em que a produção participou. Apesar disso, ela já contabiliza 38 prêmios e foi indicado a outros 79, incluindo seis indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de melhor elenco em um filme de ação dado pelo Screen Actors Guild Awards; quatro prêmios para Mel Gibson como Melhor Diretor; três prêmios de Melhor Filme, Melhor Filme de Ação ou Melhor Filme Estrangeiro; cinco prêmios de Melhor Ator para Andrew Garfield; e seis prêmios de Melhor Edição.

Esta produção teria custado cerca de US$ 40 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 66,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 97,7 milhões. No total, faturou US$ 164,2 milhões, o que o coloca na trajetória de obter lucro.

Hacksaw Ridge foi totalmente rodado na Austrália, em locais como os estúdios Fox em Sydney; no cemitério Centennal Park, em Eastern Suburbs, também em Sydney; no Newington Amory, que serviu de locação para o Fort Jackson, e que fica no Sydney Olympic Park; e em cidades como Richmond (cenas da Igreja e do cinema) e Camden.

Este filme é uma coprodução da Austrália e dos Estados Unidos. Como este segundo país foi o mais votado em uma das enquetes feitas aqui no blog, ele entra para a lista de produções que atendem às votações feitas aqui.

Agora, para finalizar, algumas curiosidades sobre a produção. Sempre que perguntavam para Desmond Doss quantas pessoas ele tinha ajudado a salvar, ele dizia que aproximadamente 50. No entanto, testemunhas daqueles dias disseram que foi mais perto de 100. Para chegar a um meio-termo, eles chegaram ao número de 75.

De acordo com o diretor Mel Gibson, o filho de Desmond Doss, Desmond Jr., participou da escolha do elenco e ficou emocionado com a forma com que Andrew Garfield interpretou com fidelidade o pai dele.

As notas de produção dizem que Desmond Doss foi o único soldado que serviu na linha de frente sem portar uma arma. Na Segunda Guerra Mundial, nas guerras da Coreia e do Vietnã, os militares que eram da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram classificados como 1A-O, o que significava que eles estavam dispostos a servir, mas que não portariam uma arma em combate. Havia um grupo similar, chamado Society of Friends (Quaker) que se voluntariou desta forma na Primeira Guerra Mundial.

O produtor Hal B. Wallis tinha tentado comprar a história de Desmond Doss nos anos 1950, imaginando o ator Audie Murphy como o protagonista. Mas Desmond não tinha interesse em que a sua história se transformasse em um filme de Hollywood. Bem, como o filme mesmo nos informa, ele morreu em 2006… abrindo então a oportunidade para que os realizadores finalmente levassem a sua história para os cinemas.

As cenas de batalha demoraram 19 dias para serem filmadas.

Hacksaw Ridge foi aplaudido de pé durante nove minutos e 48 segundos na estreia no Festival de Cinema de Veneza – o próprio Mel Gibson cronometrou este tempo.

Além de salvar 75 homens, Desmond Doss teria tratado outros 55 que puderam sair do campo de batalha sozinhos.

A Bíblia que Desmond levava sempre consigo realmente foi perdida no campo de batalha e só foi recuperada depois que ele foi levado para casa para tratar de seus ferimentos. A divisão da qual ele fazia parte, depois de capturar Hacksaw, passou algum tempo procurando a Bíblia até que a conseguiram localizar.

Esta produção levou 59 dias para ser filmada.

O filme marca a estreia de Milo Gibson, filho do diretor Mel Gibson – ele faz o papel de Lucky Ford, um dos soldados do batalhão de Doss.

James Horner tinha sido contratado para fazer a trilha sonora de Hacksaw Ridge, mas com a morte prematura e repentina do premiado compositor, entrou em cena John Debney. Mas o trabalho dele foi rejeitado e aí assumiu o posto Rupert Gregson-Williams.

Impressionante uma parte da história real de Desmond. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele não foi ferido e resgatado na conquista de Hacksaw. Na verdade ele foi ferido algumas semanas depois na Campanha Okinawa durante um ataque noturno perto de Shuri. Ele foi ferido nas pernas por uma granada e teve que esperar cinco horas até que os maqueiros pudessem alcançá-lo. Neste tempo, ele tratou de suas próprias feridas como pôde.

Quando ele estava sendo levado por três maqueiros, eles foram atacados por um tanque japonês. Doss se arrastou para fora da maca para que outro soldado em situação mais grave que a dele fosse atendido primeiro. Enquanto ele esperava a maca retornar, ele foi baleado por um franco-atirador, o que causou uma fratura no braço de Desmond. Para tratá-la, ele próprio improvisou uma tala usando a parte de um rifle.

Desmond então rastejou cerca de 274 metros para uma estação de socorro em que ele pôde ser atendido. Estes e outros detalhes da história de Desmond foram deixados de fora do filme porque o diretor Mel Gibson achou que o público não acreditaria neles. Acho que ele tem razão. A história de Desmond é incrível demais para reles mortais acreditarem com toda a facilidade que deveriam sem estarem lá para presenciar os fatos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para Hacksaw Ridge, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 191 críticas positivas e 30 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,2. Neste caso, estou mais do lado do público que vota no IMDb do que dos críticos que foram um tanto “duros” com a produção. Talvez tenha incomodado os críticos o tom religioso do filme, mas este era um elemento importante para o protagonista da história e não tinha como ser negado na produção. Para os padrões do site IMDb a nota de Hacksaw Ridge é muito boa.

CONCLUSÃO: O testemunho de uma pessoa através de seu exemplo vale mais do que mil discursos. Esse filme será visto de maneira muito diferente dependendo se o espectador acredita ou não em Deus. Mas, independente disso, Hacksaw Ridge é um grande testemunho de que é possível se manter fiel à si mesmo e ao que se acreditar ser certo mesmo que todas as pessoas ao redor e as condições que o cerca lhe disser o contrário.

Para o meu gosto, volto a afirmar: Hacksaw Ridge é um dos grandes filmes sobre guerra de todos os tempos. Ele mostra a crueldade de um campo de batalha mas vai muito além disso. Resgata uma história impressionante de bravura e de defesa da vida em um local em que o elemento mais constante e certo é o da morte. Bem conduzido, o filme começa morno, previsível, mas depois acerta o espectador direto na emoção. Mais uma das belas surpresas desta temporada do Oscar 2017. Altamente recomendado.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Hacksaw Ridge está concorrendo em seis categorias do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele disputa a estatueta dourada nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor para Mel Gibson, Melhor Ator para Andrew Garfield, Melhor Edição para John Gilbert, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Em um ano “normal” do Oscar, Hacksaw Ridge talvez fosse o favorito na categoria Melhor Filme. Mas este não é um ano normal da premiação. A Academia está visivelmente querendo defender os seus valores e a si mesma e, por isso, deve premiar La La Land, um filme bom, mas que definitivamente não é o melhor do ano.

Consequentemente, se Hollywood quer consagrar La La Land, é praticamente certo que Mel Gibson vai perder a disputa para Damien Chazelle. E mesmo que aconteça uma zebra e Chazelle não vença, a estatueta deve ir para outro nome, para Barry Jenkins, de Moonlight. Na categoria Melhor Ator, a disputa está entre Denzel Washington (meu voto) e Casey Affleck.

Então as chances que restam para Hacksaw Ridge estão nas categorias técnicas. Como La La Land é o favoritíssimo para papar quase tudo na noite de entrega do Oscar, é o filme de Chazelle que tem a preferência para levar o Oscar de Melhor Edição – ainda que eu prefira o trabalho feito em Hacksaw Ridge.

O mesmo se pode dizer em Melhor Mixagem de Som, onde nas bolsas de apostas La La Land leva vantagem. A única categoria em que Hacksaw Ridge está liderando é na de Melhor Edição de Som. Francamente, acho que ele poderia levar tranquilamente nas três categorias técnicas. Acho o trabalho das equipes de Hacksaw Ridge mais contundentes nas três categorias do que as equipes de La La Land. Mas, novamente, este parece ser o ano do musical, então talvez Hacksaw Ridge saia com duas, uma ou nenhuma estatueta deste Oscar. Qualquer um destes cenários não será surpreendente. Uma pena. O filme merecia mais reconhecimento.

Jackie

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Jackie revela uma Jacqueline Kennedy, posteriormente Jacqueline Onassis, como você nunca viu. Diferente do que alguns poderiam esperar – e eu me incluo neste grupo -, Jackie não conta a trajetória de uma das primeiras-damas dos Estados Unidos mais conhecidas de todos os tempos. Não. Este filme se debruça sobre os fatos que circundaram o assassinato de JFK. Ou, em outras palavras, Jackie é a história do assassinato de JFK e de parte dos sonhos e da vida do casal sob a ótica de Jackie.

A HISTÓRIA: Jackie (Natalie Portman) caminha por um gramado. A câmera está muito próxima dela e registra uma expressão que parece ser a de choro contido. Corta. Em Hyannis Port, na cidade de Massachusetts, em 1963, Jackie acompanha a chegada de um carro na propriedade. Um jornalista (Billy Crudup) desembarca e se apresenta à porta, dando os pêsames para a ex-primeira dama.

Ela logo pergunta se ele tem lido o que outros jornalistas tem escrito. Ele diz que sim, e Jackie demonstra todo o seu descontentamento com a forma com que estão tratando o seu marido morto, John F. Kennedy. O jornalista pergunta como ela gostaria que JFK fosse lembrado, e Jackie afirma que ela vai editar o que ela quiser da conversa. Ele acaba aceitando a condição, e Jackie começa a contar a sua própria versão dos fatos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Jackie): Na seção que eu fui para assistir a Jackie, a maioria dos espectadores era de pessoas com 60 anos de idade ou mais. Um público que vivenciou os anos de JFK e que, provavelmente, como a maioria da audiência mundo afora, admirava a figura da primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy.

Para este público não foi fácil assistir a Jackie. Na verdade, para qualquer público eu imagino que não seja uma experiência fácil. Eu, que não vivi aquela época do início dos anos 1960 mas que, como quase todo terráqueo, conhece a história de JFK, de seu assassinato, todas as teorias de conspiração envolvendo o fato e, claro, a figura admirada de Jackie Kennedy, achei este um filme difícil.

Especialmente por uma razão: Jackie quebra toda expectativa do público. Esta produção não mostra um Jacqueline Kennedy dócil, serena, simpática. Muito pelo contrário. O filme destrincha toda a complexidade desta figura histórica ao mostrar fatos de sua vida pré e pós o assassinato do marido, incluindo no pacote cenas do fato propriamente dito.

Boa parte do público deve ter procurado Jackie pensando que este filme mostraria a trajetória de Jacqueline Kennedy, talvez até da Jacqueline Onassis. Eu, ao menos, que não gosto de ler sobre os filmes antes e evito assistir aos trailers das produções, achava que eu teria pela frente um interessante retrato sobre a protagonista.

Isso não deixa de ser verdade. Só que o roteirista Noah Oppenheim e o diretor Pablo Larraín fizeram uma escolha diferente. Ao invés de contar a história de Jackie desde antes do casamento com JFK e até depois de sua morte, quando se casou com Aristóteles Onassis, os realizadores resolveram focar em sua personalidade durante o episódio da morte do presidente americano.

A linha narrativa é toda cadenciada pela entrevista que Jackie dá para um jornalista, interpretado por Billy Crudup. Até a sua morte, em 1994, Jackie deu apenas três entrevistas. A primeira, que inspirou o filme Jackie, foi feita realmente poucos dias após a morte de JFK e foi divulgada pouco depois. Nela, Jackie cria o mito de “Camelot” como sendo a inspiração do marido morto.

A segunda entrevista, que Jackie queria que fosse divulgada apenas 50 anos após a sua morte, foi dada para o amigo e historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964 e divulgada no livro “Jacqueline Kennedy – Historic Conversations on Life with John F. Kennedy” em 2011 sob a autorização da filha do casal presidencial, Caroline. A terceira entrevista, reza a lenda, será divulgada apenas em 2067.

Como eu comentava, Jackie tem como linha narrativa a primeira entrevista divulgada com a ex-primeira-dama. A partir da conversa dela com o jornalista a história retrocede e avança na linha temporal, mostrando cenas de Jackie na Casa Branca antes da morte do marido, todos os detalhes dos fatos ocorridos logo após o assassinato de JFK, toda a preocupação da protagonista com o velório e o funeral do marido e questionamentos que ela fez neste período.

É um filme profundo, que disseca Jacqueline Kennedy de uma forma muito interessante e impactante. Natalie Portman dá um show de interpretação tanto nos momentos em que está sozinha em cena, tendo que lidar com a solidão e o luto, quanto nos momentos em que está lutando por colocar o marido e a família dela definitivamente na história dos Estados Unidos.

Mais que uma pessoa elegante, simpática e encantadora, Jackie se revela uma mulher forte, inteligente, perspicaz, afiada nas respostas para o jornalista – em mais de uma ocasião ela o questiona e o deixa constrangido – e, principalmente, uma grande conhecedora da História dos EUA e obstinada por colocar Kennedy e sua família como um capítulo importante desta mesma História.

Este talvez seja o aspecto mais interessante de Jackie. Como o roteiro de Oppenheim e a direção talentosa de Larraín revelam uma primeira-dama extremamente preocupada com o legado do marido e, consequentemente, dela própria para os Estados Unidos. Ela queria ter o controle sobre tudo, especialmente sobre a imagem dela e de JFK.

Jackie era obcecada por Abraham Lincoln, não apenas por ele ter sido um presidente dos EUA que também foi assassinado, a exemplo do marido, mas especialmente pela força da figura de Lincoln na história americana. O filme deixa claro como ela queria que JFK tivesse uma figura tão marcante para a História como tinha sido Lincoln – tanto que ela pede para examinar o cortejo de Lincoln e tentar emular algo parecido para o marido morto.

Mas mesmo antes da morte de JFK Jacqueline queria que a figura do marido e de sua família fosse marcante para a História. Esta preocupação constante com a imagem e o trabalho de Jackie para utilizar a nova “fábrica” de sonhos, manipuladora de “corações e mentes” chamada televisão a seu favor, é algo fascinante neste filme. Nos faz pensar sobre o uso da comunicação de massas, que apenas mudou de plataforma, tirando um pouco da audiência dos meios tradicionais (rádio, jornais, revistas e TV) para jogá-la nos meios digitais, a favor dos interesses próprios.

Jackie foi muito inteligente nesta forma de explorar a comunicação de massas e o poder da imagem. Neste sentido, o filme também é uma maravilha. O diretor chileno Pablo Larraín cuida para construir um filme em que as imagens jogam um papel narrativo fundamental. Ele coloca a câmera sempre próxima dos atores, permitindo que os espectadores escutem as suas conversas “ao pé do ouvido” e, principalmente, foca em cada detalhe da interpretação de Natalie Portman.

A atriz está impecável especialmente porque ela estudou cada detalhe da forma de falar, caminhar e agir da personagem histórica que ela está retratando. A ajudou neste processo, claro, o rico e variado material de imagens com a primeira-dama, incluindo o filme “A Tour of the White House with Mrs. John F. Kennedy” que está disponível neste link no YouTube e que é muito bem explorado por Larraín no filme.

Identificamos Natalie Portman, é claro, mas ela se transfigura de forma tão intensa em Jacqueline Kennedy que, em alguns momentos, parece que estamos vendo a ex-primeira-dama pela frente. É impressionante. Mais um trabalho soberbo desta atriz que, para mim, é uma das melhores de sua geração.

Como duas das três entrevistas com a ex-primeira-dama dos EUA já mostraram, ela era realmente uma mulher forte e inteligente, muito mais do que aquelas imagens históricas controladas por ela revelam. Procurando mais sobre a personagem, descobri que realmente o filme Jackie faz um retrato bastante interessante e próximo da realidade dela.

Ainda assim, como para o público em geral esta imagem mais complexa de Jacqueline Kennedy Onassis não é a mais frequente, muita gente vai se surpreender com este filme. Tanto porque ele desconstrói a imagem tradicional da protagonista quanto porque ele foca em um capítulo bem complicado da história americana. Ainda que a produção tenha algumas pílulas de história além da tragédia, 95% da produção é sobre o assassinato de JFK e sobre os fatos que o sucedem.

Por tudo isso, Jackie não é um filme fácil. Pelo contrário. Ele é um filme triste, tenso, impactante. Ajuda neste processo a trilha sonora igualmente forte Mica Levi. Ela ajuda na narrativa da produção e muitas vezes leva a tensão para outro nível. Jackie, apesar de um ou outro “defeito”, é uma produção muito interessante sobre os bastidores do poder. Ele nos conta uma história de pessoas que ficaram encantadas com o poder e com a imagem que deixariam de legado. São temas até hoje muito, muito atuais.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No geral, achei as escolhas do roteirista Noah Oppenheim e do diretor Pablo Larraín muito interessantes. Eles conseguem o que desejam, que é apresentar uma outra visão de uma personagem histórica bastante conhecida e impactar com esta narrativa.

Dificilmente alguém vai pensar em Jacqueline Kennedy da mesma forma depois de assistir a Jackie. Eles conseguem uma desconstrução muito interessante da personagem história e a humanizam. Algo importante e inspirador, sem dúvidas.

Ainda assim, eu admito que eu esperava um filme um pouco mais “amplo”, que mostrasse um pouco mais de Jackie antes e depois do fato que é narrado. Eu queria saber mais sobre a sua fase após a viuvez e sobre a sua vida antes de JFK. Esse é um dos fatores para eu ter dado a nota acima para esta produção. Acho que os realizadores poderiam ter ousado um pouco mais na narrativa, poderiam ter fragmentado ela mais e se aprofundado na leitura da personagem para outras épocas de sua vida.

Um outro fator para a nota de Jackie não ser maior é que, apesar do filme desconstruir um bocado a imagem da ex-primeira-dama, ele também ignora uma série de outros fatos da época e que foram comentados por Jacqueline Kennedy nas cartas para o padre – e, talvez, na entrevista com o jornalista.

Por exemplo, ficam de fora do filme todas as infidelidades conjugais de JFK e, possivelmente, de Jackie. Muitos comentam que Onassis já era uma figura presente na vida de Jackie antes dela se tornar viúva e que ela teve um caso um tanto conhecido com William Holden quando ainda era casada com JFK. Nada disso é explorado no filme, o que achei uma escolha um tanto equivocada dos realizadores.

Antes eu comentei que o principal fio condutor da história é a entrevista real que Jacqueline Kennedy deu para um jornalista poucos dias depois da morte de JFK. Ainda que isso seja verdade, é preciso comentar que outro trecho marcante do filme, de conversas da protagonista com um padre (interpretado por John Hurt) são inspiradas em correspondências que a ex-primeira dama teve com um padre irlandês durante 15 anos e que foram leiloadas em 2014. Nestas cartas, ela fala sobre o que sentiu após a morte do marido – incluindo aí uma certa “bronca” com Deus.

Natalie Portman é realmente o nome deste filme. E não teria como ser diferente, já que ela é uma figura praticamente onipresente na história. O filme, afinal de contas, conta os fatos sob a ótica dela. Ainda assim, em algumas cenas ela não está presente. Nestes momentos outros nomes brilham em cena. Achei impressionante a caracterização de época. As pessoas escolhidas para cada papel foram certeiras.

Além da protagonista, que faz um trabalho impecável, estão muito bem em seus papéis Peter Sarsgaard como Bobby Kennedy; Billy Crudup como o jornalista que entrevista a ex-primeira-dama; John Hurt como o padre que conversa com Jackie após o assassinato de JFK; e Caspar Phillipson com uma semelhança assustadora como JFK – ele aparece pouco, mas está muito bem em cada aparição que faz no filme.

Em papéis menores e secundários, mas igualmente bem, estão os atores Greta Gerwig como Nancy Tuckerman, assessora e braço direito de Jackie no período em que ela foi a primeira-dama; Richard E. Grant como Bill Walton, assessor da Casa Branca; John Carroll Lynch como Lyndon B. Johnson; Beth Grant como a nova primeira-dama dos EUA, Bird Johnson; Max Casella como Jack Valenti, assessor de Johnson; e Georgie Glen como Rose Kennedy, mãe de JFK e Bobby. Todos estão muito bem.

O trabalho do diretor Pablo Larraín neste filme é feito com esmero. Em diversas cenas ele mistura cenas de época, reais, com os atores que fazem parte desta produção. O trabalho é interessante e dá outra força para a narrativa. Todos sabemos que estamos vendo personagens reais tendo as suas vidas contadas nesta produção, mas é diferente quando temos esta história imersa em cenas reais. Há diversas sequências impactantes, mas sem dúvida as que envolvem o assassinato em si e a sequência em que Jackie está limpando o sangue do marido no rosto estão no rol de inesquecíveis.

Além do diretor Pablo Larraín, que se credencia como um dos nomes a ser acompanhados no cinema, merecem aplausos nesta produção o trabalho de Mica Levi na trilha sonora; o de Stéphane Fontaine na direção de fotografia primorosa; o de Sebastián Sepúlveda na edição impecável e muito detalhista; o de Madeline Fontaine com os figurinos; o de Jean Rabasse no design de produção; o de Halina Gebarowicz na direção de arte; o de Véronique Melery na decoração de set; o dos 11 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 22 profissionais do departamento de arte; os 10 profissionais que fazem um ótimo trabalho no departamento de som; e os 12 profissionais dos efeitos visuais e que propiciam aquela “mescla” entre cenas históricas e as feitas pelo diretor.

Jackie estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2016. Depois o filme teve uma trajetória em 18 festivais pelo mundo – o último deles será o de Belgrado a partir de 3 de março deste ano. Até o momento o filme conquistou 32 prêmios e foi indicado a outros 136 – incluindo a indicação para três Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 15 recebidos por Natalie Portman como Melhor Atriz, para os sete recebidos por Mica Levi por Melhor Trilha Sonora e para os dois recebidos por Madeline Fontaine por Melhor Figurino.

Jackie teria custado US$ 9 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 13 milhões. É uma bilheteria baixa se levarmos em conta a força da figura de Jacqueline Kennedy no país. Chega a ser admirável como o filme não decolou nos EUA.

Talvez o público da época de JFK não tenha gostado da narrativa, um tanto “pesada” para a memória de Jackie, e a história contada pela produção não tenha atraído ao público mais jovem. O que é uma pena, porque é um belo filme, muito bem feito e que com temáticas muito atuais, além de ser uma produção interessante sobre uma época importante dos EUA e do mundo.

Esta produção foi rodada nos Estados Unidos e na França. Entre as locações, destaque para os Studios de Paris, na La Cité du Cinéma; para o Easton Newman Field Airport, em Maryland (cena em que Jackie sai do avião junto com JFK); e em Tred Avon Manor, em Royal Oak, Maryland (casa de Verão da família do presidente); além das cidades de Washington e de Baltimore, nos EUA, e de Paris, na França.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Jackie foi anunciado como um filme que seria dirigido por Darren Aronofsky e tendo Rachel Weisz como protagonista. Os dois acabaram pulando fora da produção, mas Aronofsky seguiu sendo um dos produtores do filme.

O diretor Pablo Larraín estima que pelo menos um terço do que vemos no filme no corte final foram rodados em apenas um take – o que reforça ainda mais o talento da equipe envolvida.

O jornalista interpretado por Billy Crudup é inspirado em Theodore H. White, jornalista da revista Life que fez uma entrevista com a ex-primeira-dama pouco depois da morte de JFK.

As filmagens foram feitas em um prazo curto para os padrões de Hollywood: duraram 23 dias em Paris e mais 10 dias em Washington e Baltimore.

O diretor Pablo Larraín disse que só faria Jackie se Natalie Portman estrelasse a produção. O produtor Darren Aronofsky concordou que ela era a pessoa ideal para viver Jackie.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 218 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8. A nota do IMDb é boa, mas está entre as mais baixas entre os filmes concorrentes ao Oscar. A nota do Rotten Tomatoes, por outro lado, é bastante boa se levarmos em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução do Chile, da França e dos Estados Unidos. Por ter os EUA como um de seus países, ele entra para a lista de produções que atendem uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

Há diversos textos interessantes sobre as entrevistas dadas por Jacqueline Kennedy e sobre esta personagem conhecida da história americana. Deixo como sugestões por aqui esta matéria em espanhol do jornal El País; esta outra do El País sobre as cartas de Jackie para o padre irlandês Joseph Leonard; esta matéria da Veja sobre a entrevista de Jackie dada em 1963; esta reportagem do português Jornal de Notícias sobre a segunda entrevista de Jackie; esta coluna de Elio Gaspari em que ele fala das três entrevistas da ex-primeira-dama; e, finalmente, esta matéria da Carta Capital sobre a vida sexual diversificada do casal Kennedy.

CONCLUSÃO: Este filme é impactante. Ele incomoda. Não apenas porque ele mergulha em uma realidade duríssima, mas também porque é um mergulho na cabeça de uma mulher que se habituou a ser fotografada a cada passo. Com uma direção interessante de Pablo Larraín, Jackie tem uma interpretação impressionante de Natalie Portman. Mais uma, aliás.

Em Jackie ela e o diretor conseguem desconstruir boa parte da imagem que temos de Jackie Kennedy. O que não é uma tarefa fácil, mas que é cumprida a risca. É um filme angustiante, até certo ponto, e pode ser uma decepção para quem tem apenas uma imagem positiva da protagonista na lembrança. Não acredito que este filme seja interessante para qualquer pessoa, mas ele tem um propósito muito claro e o realiza muito bem.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Era certo que Jackie teria pelo menos duas indicações ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Atriz para Natalie Portman e Melhor Figurino. Além destas indicações mais que esperadas, o filme ainda emplacou uma terceira, a de Melhor Trilha Sonora.

Para mim, a interpretação de Natalie Portman neste filme, que é todo focado nela, é uma peça irretocável. A forma com que a atriz emula a voz, a forma de falar, o jeito de andar, a postura e todos os demais detalhes da ex-primeira-dama americana é algo impressionante. E não é uma tarefa simples, especialmente porque há muito material de comparação – Jackie Kennedy foi uma figura extremamente filmada e fotografada.

Fiquei arrepiada e perplexa de forma positiva com a forma com que Natalie Portman “encarnou” uma personagem tão conhecida. E fazendo algo ainda mais difícil: além de “emular” Jackie Kennedy, ela ainda imprimiu uma dinâmica para a personagem que não vimos em lugar algum. Digo tudo isso para afirmar que, sem dúvidas, ela merecia ganhar o Oscar 2017 mas que, infelizmente, isso não deve acontecer.

Tudo indica que este será o ano de La La Land. E como já comentei na crítica do filme, La La Land é a produção da vida de Emma Stone. No prêmio máximo dos atores, o Screen Actors Guild Awards, Emma Stone foi a vencedora como Melhor Atriz. Então é muito improvável que um resultado diferente ocorra no Oscar.

O bom é que, diferente de outros anos, Natalie Portman perder para Emma Stone não será exatamente uma grande injustiça, até porque Emma Stone está muito bem em La La Land – para mim, ela é um dos pontos fortes do filme que carece de roteiro. Então, apesar de fazer um trabalho mais complexo, Natalie Portman vai perder para alguém que também está bem.

Sobram as outras duas categorias em que Jackie está concorrendo. O filme tem boas chances em Melhor Figurino, mas ele tem pela frente, novamente, o “queridinho do ano” La La Land. Então sim, ele pode perder novamente nesta mesma queda-de-braço. Em Melhor Trilha Sonora ele tem chances muito, muito remotas. O favoritíssimo, e com razões desta vez, é La La Land, seguido de Moonlight.

Então, se as previsões estiverem certas e este ano for confirmado como o ano de La La Land, Jackie deve sair do Oscar 2017 com as mãos vazias. Não será de todo injusto, porque realmente La La Land é um filme muito bem acabado, ainda que lhe falte conteúdo. Jackie é denso, tem conteúdo e tem uma reconstrução de época impressionante, mas não tem a mensagem de celebração de Hollywood que o rival tem e que a indústria do cinema acha tão importante valorizar neste momento político dos Estados Unidos.