Die Göttliche Ordnung – The Divine Order – Mulheres Divinas

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Os avanços sociais não chegam da mesma forma em todas as partes. Direitos que podemos considerar básicos atualmente, parece incrível, mas não faz tanto tempo que eles não eram entendidos desta forma em outros lugares. E a falta de igualdade de direitos não é algo de países extremistas ou muçulmanos, como atualmente podemos acreditar a partir de discursos rasos. Não, não. Países do “Primeiro Mundo” também podem ser bastante resistentes a mudanças que parecem óbvias. Quanto mais conservadores, pior. The Divine Order nos faz refletir sobre tudo isso e um tanto a mais.

A HISTÓRIA: Diversas imagens que remetem à liberdade de expressão, como cenas de Woodstock, dos hippies, de Janis Joplin, manifestações pelos direitos civis, os Panteras Negras, a revolução sexual, aparecem em sequência. A narradora comenta que o mundo estava mudando em 1971, mas na Suíça tudo “estava parado”. No vilarejo em que morava, então, Nora (Marie Leuenberger) e a sua família, tudo acontecia como sempre. Os homens iam trabalhar fora para sustentar a casa enquanto as mulheres cuidavam de suas famílias. Mas um dia, Nora vai até uma cidade maior, perto do vilarejo, e acaba ganhando vários panfletos que tentam conscientizar as mulheres para que elas exijam o seu direito ao voto. Em breve, um plebiscito no país vai perguntar sobre este assunto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Divine Order): Eu sou muito suspeita para falar. Porque sim, eu sempre vou defender o direito da igualdade entre as pessoas. E como até hoje as mulheres não conquistaram todos os seus direitos, me considero um bocado feminista. Como o roteiro da diretora Petra Biondina Volpe argumenta em certo momento de The Divine Order, homens e mulheres tem características diferentes, com certeza. Mas isso não faz uns serem melhores que outros.

Para mim, isso é tão básico… mas nem sempre isso foi considerado assim. Não apenas na História da Humanidade, mas até hoje na cabeça de tantas pessoas mundo afora, em pleno Século 21! Tem pessoas que acham sim justificável homens e mulheres com a mesma formação, experiência e desempenhando os mesmos papéis terem salários diferentes, por exemplo. Hollywood mesmo é prova disso. As mulheres que trabalham no cinema, em geral, ganham menos que os homens. E isso vale para tantas outras funções e para tantos outros setores e mercados…

Ok, as mulheres tem ainda muitas razões pelas quais lutar e reclamar. Mas há princípios tão mais básicos que este da remuneração… como o direito das mulheres votarem, pelo amor de Deus! Como é possível que, durante tanto tempo – séculos e séculos! -, tantas sociedades e culturas subjugaram tanto as mulheres que as proibiram de votar? A votação é o princípio básico da democracia e da escolha das pessoas na sociedade, não é mesmo? Então me parece extremamente básico que todas as pessoas, não importando o sexo que elas têm, a sua raça, credo e etc., tenham o direito de votar.

Parece sensato que o direito ao voto seja facultado apenas para adultos, pessoas que já tiveram uma formação cívica e cultural suficiente para tomar as suas próprias decisões – de aí que, para mim, ainda faz sentido as crianças e pré-adolescentes não votarem. Mas os demais… parece bastante básico isso, não? Pois é justamente sobre algo tão básico que este filme trata. E, consequentemente, claro, o filme de Volpe também aborda como certas questões podem demorar tanto para serem compreendidas como básicas por todas as nações e as suas sociedades.

Como eu disse lá no início deste texto, um dos fatos mais interessantes desta produção é que ela quebra alguns pré-conceitos que podemos ter. Para começar, de que os países desenvolvidos são precursores na maioria dos ganhos sociais. The Divine Order mostra que isso não é uma regra. O filme de Volpe revela, por exemplo, como sociedades/comunidades conservadoras demoram muito mais tempo do que outras mais plurais para aceitar as diferenças e, consequentemente, o direito de todos.

O roteiro de Volpe pincela, aqui e ali, uma certa “culpa” da religião pelo comportamento conservador das pessoas do vilarejo de Nora. Sim, é verdade que muitas religiões, quando mal utilizadas, acabam realmente mais separando e segregando as pessoas do que as unindo. Infelizmente. Mas isso acontece não por culpa das religiões, mas pelo interesse de algumas pessoas em manipular os textos religiosos para que elas consigam o que desejam.

Este é o caso do uso da Bíblia neste filme. Quem foca apenas no Velho Testamento e em alguns trechos da Bíblia, ignorando tudo o que o Novo Testamento prega, assim como todo o conteúdo do Livro Sagrado e a sua trajetória na História, realmente pode deturpar a Palavra e manipular as pessoas prejudicando diversos grupos. Sim, algumas pessoas mal intencionadas usavam apenas alguns trechos da Bíblia, anteriores à vinda de Jesus e tudo o que ele nos ensinou a partir do seu nascimento, para manipular as pessoas e justificar o injustificável – o direito ao voto só para homens.

Mas ok, não falemos muito sobre religião. Como vocês sabem, este blog não é para isso. Mas sim, como o título do filme sugere e como alguns conservadores que aparecem neste filme sinalizam em alto e bom som, a Bíblia foi usada de forma equivocada para justificar a desigualdade entre gêneros. E por muitos e muitos séculos, infelizmente. Agora, parece realmente incrível que um país “avançado” como a Suíça tenha demorado, em alguns vilarejos, até os anos 1990 – isso mesmo, os anos 1990!!! – para admitir que as mulheres pudessem votar nas eleições como os homens.

Por isso mesmo esta história é tão surpreendente e interessante. Primeiro, para desnudar alguns conceitos equivocados que podemos ter sobre alguns países e sociedades. Depois, para nos fazer pensar que o conservadorismo, normalmente, apenas atrasa os avanços da sociedade. Ou seja, quando alguém está debatendo algum avanço, especialmente em relação a direitos humanos, e outros estão resistindo muito a debater o assunto ou mantendo as suas posições firmemente fincadas no “lugar de sempre”, devemos nos preocupar com isso. A luz amarela deve acender. E devemos nos perguntar: esta posição conservadora está fazendo exatamente o que? Está preservando o que precisa ser preservado ou impedindo a sociedade de avançar?

Neste filme, tratamos sobre um direito básico para as mulheres. Mas quantos direitos, sem ser este do voto, continuam sendo ignorados ou impedidos hoje em dia no Brasil e em várias parte do mundo por causa do conservadorismo? Sim, é natural que na sociedade tenhamos sempre um “embate” de diversos interesses. Mas a busca pela igualdade não deveria estar acima destes interesses individuais ou de alguns grupos? Eu penso que sim.

Mas ok, vou parar de discursar. 😉 É que este filme realmente desperta este interesse de falarmos a respeito destes temas. Apenas por isso, The Divine Order já merece aplausos. Mas deixando em segundo plano agora os temas que o filme sucinta, vamos falar um pouco mais sobre a narrativa e sobre esta produção enquanto obra de cinema.

Uma das grandes qualidades deste filme é o roteiro interessante, bem escrito e bem equilibrado de Petra Biondina Volpe. Ela não torna a história arrastada ou pesada. Ela não faz um grande discurso “feminista”. Mas ela conta, de forma muito natural, como se desenvolvem as relações entre homens e mulheres em uma pequena vila conservadora em um país desenvolvido. Não é difícil de identificarmos, especialmente se tivermos um certo “tempo de vida”, alguns daqueles personagens na nossa própria realidade. Certamente já encontramos algumas daquelas pessoas, suas formas de pensar e de agir na nossa própria vida.

The Divine Order, então, tem esta primeira grande qualidade: consegue desenvolver empatia no público que assiste à produção ao mesmo tempo que apresenta as suas ideias de forma convincente e com uma boa dinâmica, sem grandes discursos ou com um roteiro “forçado”. A segunda grande qualidade desta produção é a escolha do elenco e o trabalho dos atores em cena.

Todos parece terem sido escolhidos à dedo, porque todos são muito bons. As atrizes, em especial, são carismáticas e talentosas. E os homens que aparecem em cena, apesar de não serem tão “simpáticos”, em geral – com exceção do marido da protagonista, Hans (Maximilian Simonischek), o único um pouco mais “evoluído” em cena -, fazem um belo trabalho, bastante convincente.

Este é um filme sobre empoderamento feminino. E há algumas cenas realmente muito interessantes sobre isso, como quando Nora, a cunhada Theresa (a ótima Rachel Braunschweig) e a amiga Vroni (a também excelente Sibylle Brunner) participam de uma palestra de conscientização feminina. Ali elas descobrem o poder do clítoris e a não ter vergonha de buscarem a sua própria sexualidade. Esta é uma das sequências mais divertidas e interessantes do filme. Ela ajuda a mostrar o talento da diretora e roteirista Petra Biondina Volpe para contar uma história.

Mas, ao mesmo tempo que o roteiro de The Divine Order é um de seus pontos fortes, ele também tem algumas escolhas que o tornam o pequeno ponto fraco desta produção. Certo que nem todos os homens do vilarejo suíço eram machistas e idiotas. Mas apenas um realmente se salvava? Segundo o roteiro de Volpe, apenas o marido da protagonista era um pouco mais consciente e sabia da importância de defender o voto feminino. Todo o restante do vilarejo seria contrário – ao menos é o isso o que sinalizaram no primeiro encontro comunitário para discutir o tema.

Então como, depois, apenas pela greve das mulheres – vencida por eles – e pela pressão que elas fizeram no dia da votação do plebiscito, a maioria mudou de ideia? Isso parece um tanto forçado, ou não? Eu achei. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Talvez se mais homens tivessem sinalizado alguma opinião diferente no início, ou se algum outro acontecimento além da morte de Vroni tivesse ocorrido e provocado uma reação direta de mais consciência dos homens do vilarejo, a mudança deles na reta final teria sido mais convincente, certo?

Apenas por detalhes como este, como a simplificação do filme entre os “idiotas” e conservadores e aqueles que começam a acordar para a igualdade entre as pessoas, é que não achei este filme perfeito. Acho que a história é bem narrada, que The Divine Order tem diversas qualidades técnicas, como a direção de fotografia e a direção de Volpe, mas que faltou para o roteiro uma migração melhor entre o cenário inicial e final da história. Mas, francamente, este é apenas um pequeno detalhe.

No geral, este filme é um belo entretenimento. Uma produção muito bem conduzida e com uma história importante e relevante até hoje. The Divine Order não apenas pode levantar debates sobre a igualdade de gênero como sobre outras lutas pelos direitos das pessoas. Quem sabe aprendemos um pouco com o que vemos em cena para tentar incluir mais as pessoas do que excluí-las das decisões que deveriam ser de todos? Um belo filme, e com um debate realmente necessário.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, gostei muito do trabalho de Petra Biondina Volpe, tanto na direção quanto no roteiro. Como eu não lembrava do nome dela, fui procurar mais informações sobre a diretora e roteirista. Esta suíça de 47 anos tem 11 produções no currículo como roteirista, oito como diretora, e 10 prêmios no currículo. De todos estes prêmios, sete ela recebeu por The Divine Order. Ela também foi premiada pelo filme feito para a TV Frühling im Herbst e pela produção Crevetten – este último quando ela ainda era estudante, em 2002. Ou seja, ela é um jovem talento que merece ser acompanhado.

Um dos primeiros aspectos desta produção que me chamou a atenção foi a linda direção de fotografia de Judith Kaufmann. Realmente ela sabe tirar o melhor proveito das lindas paisagens e lugares do interior da Suíça. O visual da produção, especialmente nas cenas iniciais, é incrível. Outros aspectos que merecem ser mencionados por sua qualidade são a trilha sonora de Annette Focks; a edição competente de Hansjörg Weissbrich; o design de produção de Su Erdt; e os figurinos de Linda Harper.

O elenco de The Divine Order é uma das grandes qualidades desta produção. A protagonista e narradora do filme, a atriz Marie Leuenberger, é puro carisma. A atriz faz muito bem o seu papel, tendo algumas parcerias fundamentais em cena, como as grandes atrizes Sibylle Brunner e Rachel Braunschweig. Para mim, elas são as estrelas da produção. Mas há outros atores, com papéis menores, que também fazem um belo trabalho. Neste sentido, vale destacar o bom trabalho de Maximilian Simonischek como Hans, marido de Nora; Marta Zoffoli ótima como Graziella; Bettina Stucky muito bem como Magda, filha de Vroni; Noe Krejcí muito bem como Max, filho mais novo da protagonista; Finn Sutter também bem como Luki, o outro filho de Nora; Peter Freiburghaus muito bem como Gottfried, pai de Hans e de Werner (e este último interpretado por Nicholas Ofczarek); e Ella Rumpf como Hanna, a filha “rebelde” do casal Werner e Theresa.

Estes são os atores que tem mais destaque na produção. Mas todos os coadjuvantes que aparecem em cena, inclusive muitas mulheres do vilarejo que aderem à greve liderada por Nora, fazem um belo trabalho e ajudam esta história a ser bem contada.

Fiquei muito curiosa para saber mais sobre a história do voto das mulheres. Eis algo que filmes bacanas fazem: despertam a nossa curiosidade para saber mais sobre o assunto. Se você também ficou interessado(a) sobre o tema, compartilho por aqui algumas leituras interessantes. Neste texto você descobre, entre outras informações, que o primeiro país que adotou o voto feminino foi a Nova Zelândia, em 1893. O segundo país a admitir que as mulheres votassem foi a Finlândia, em 1906. E o Brasil? O voto das mulheres foi reconhecido no Brasil em 1932 – como vocês podem conferir neste outro texto. Também vale dar uma olhadela no artigo da Wikipédia sobre o sufrágio feminino.

Ah sim, e sobre a história do voto, também recomendo este outro texto. Bem interessante, diga-se.

The Divine Order estreou na Suíça na região que fala alemão no dia 9 de março de 2017. O primeiro festival no qual o filme participou foi o Festival de Cinema de Tribeca, no mês seguinte. Depois, até novembro, a produção participou de outros 16 festivais de cinema em diferentes partes do mundo. Até o momento, o filme ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros sete.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Marie Leuenberger, o de Melhor Elenco e o de Melhor Filme em Língua Estrangeira conferidos no Film Club’s The Lost Weekend; Melhor Atriz para Marie Leuenberger, Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Braunschweig e Melhor Roteiro no Swiss Film Prize; Melhor Filme de Ficção e Melhor Filme em Língua Estrangeira no Traverse City Film Festival; Melhor Filme segundo a escolha do público, Melhor Atriz para Marie Leuenberger e o Nora Ephron Prize no Festival de Cinema de Tribeca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 16 críticas positivas e apenas duas negativas para The Divine Order, o que garante para a produção uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,2. O nível de aprovação dos dois sites para o filme é bastante positivo se levarmos em consideração o padrão das duas páginas.

CONCLUSÃO: Mulheres, uni-vos! The Divine Order demonstra como, só assim, as mulheres e qualquer grupo que é subjugado por outro com mais “direitos” consegue ter os seus direitos respeitados. Um filme muito interessante, especialmente pela história reveladora que ele nos apresenta. Países desenvolvidos nem sempre são os precursores de mudanças necessárias, como bem demonstra esta produção. Bem narrado, com uma direção de fotografia deslumbrante e com atores carismáticos, este filme é uma grata surpresa. Ele trata de uma luta de direitos importante, ainda que, convenhamos, é um tanto pueril em algumas partes. Mas vale muito ser visto. Mais uma bela pedida desta temporada pré-Oscar 2018.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Eis que temos filmes muito interessantes e diversos nesta lista pré-Oscar. Digam o que disserem, mas esta é uma das vantagens da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Divine Order é o quarto filme que eu vejo, de um total de 92, que estão buscando uma das cinco vagas na disputa da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018.

Dos quatro filmes que eu assisti até o momento, ainda acredito que First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers seja a produção que tenha mais predicados para chegar entre os cinco finalistas nesta categoria sempre tão disputada. Depois desta produção, que eu super recomendo e que eu comentei por aqui, acredito que The Divine Order seja o filme que tenha mais qualidades para chegar entre os finalistas. Acho que o filme pode chegar na lista dos pré-indicados, aquela que aponta os nove semifinalistas.

Mas chegar entre os cinco filmes que realmente vão disputar uma estatueta dourada… ainda é cedo para afirmar isso. Dos quatro filmes que eu assisti até o momento, eu diria que eu apostaria algumas fichas apenas em First They Killed My Father. Apesar de ser bom, The Divine Order acho que é “gracioso” demais e um tanto pueril para conseguir realmente avançar frente a outras produções mais densas, contemporâneas e até mais “inovadoras” do que este filme que é bacana, mas é um tanto previsível demais. Veremos, mas eu não apostaria nele entre os cinco finalistas.

Ainda assim, considero que ele tem mais chances que Layla M. e que Du Forsvinder. Agora, bora seguir o restante da lista e ver a outros favoritos e filmes que “correm por fora”.

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Layla M.

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Você mora em um lugar com o qual você não se identifica. E você não está ali por acaso. Você nasceu ali. Mas aquele lugar não parece fazer o menor sentido. Então você sonha em ir para um lugar distante, no qual você nunca pisou, mas onde você acredita que poderá ser feliz. Layla M. nos fala de uma realidade que é vivida por diversas pessoas mundo afora. Neste filme, vemos como a falta de pertencimento a um determinado local e cultura pode ser ruim e perigoso. Um filme muito contemporâneo e interessante. Necessário.

A HISTÓRIA: Uma garota com um lenço na cabeça anda agitada de um lado para o outro com uma bandeirinha na mão. Ela deve ajudar o juiz a apitar a partida mas, na verdade, ela está torcendo para o time que é treinado pelo pai dela (Mohammed Azaay). Layla M. (Nora El Koussour) não tem papas na língua e acaba discutindo com o juiz e saindo de campo. A mãe e a avó tentam acalmar a garota, mas ela não quer saber e vai embora.

No caminho, o comportamento radical dela parece agradar a um grupo de jovens. Muçulmana, Layla M. aceita o convite do grupo para fazer uma foto de resistência utilizando uma burca, que foi proibida no país. Pouco a pouco ela e o grupo vão se tornando cada vez mais resistentes às mudanças impostas no país.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Layla M.): Não é fácil equilibrar todos os interesses em uma sociedade. Isso é um fato. Mas todos devem compreender as regras de forma muito clara e, dentro do possível, estas regras devem ser as mais justas e democráticas possíveis. O problema é quando entramos na seara da religião, da fé e de seus costumes.

Layla M. aborda um pouco desta problemática. E junto com a aparente “interferência” das regras de um país e de uma sociedade na vida religiosa de uma parte dos integrantes desta sociedade, surge a questão do radicalismo e da falta de pertencimento que algumas destas pessoas. Todas estas são questões complicadas, mas muito presentes em diversos países da Europa – em especial. Estes países, democráticos e, até segunda ordem, “acolhedores”, começam a colocar regras cada vez maiores para tentar evitar ataques terroristas e extremismos em seus territórios.

Achei interessante como o filme dirigido por Mijke de Jong, com roteiro da diretora e de Jan Eilander, mostra como em uma mesma família – sempre representante em menor escala do comportamento da própria sociedade – podem existir visões tão divergentes sobre um mesmo tema. Enquanto a adolescente Layla não aceita a forma com que a Holanda trata os “soldados de Alá”, impondo proibições como a burca e, conforme a resistência à estas leis vai crescendo, aumentando estas restrições até o ponto de proibir a reunião de grupos que professam a mesma fé, os demais familiares dela são mais moderados e entendem estas restrições e as aceitam sem maior resistência.

Layla é uma adolescente como tantas outras que conhecemos. Ela é inteligente e tem opinião firme. Fica revoltada com algumas coisas que vê ao seu redor e acaba reagindo contra tudo isso que ela não compreende muito bem e sobre o qual se posiciona contra. O comportamento da personagem, assim como das pessoas que a rodeiam, são bem desenvolvidos e convencem. Por causa disso, boa parte do filme também transcorre de maneira um tanto “natural” e que convence.

Outro fato interessante do roteiro de Jong e de Eilander é a forma com que eles mostram como uma pessoa, tendo motivação suficiente, consegue se tornar radical de uma maneira muito rápida e simples. Os roteiristas revelam algo fundamental nesta alquimia do radicalismo: a internet. Layla e os demais jovens que não aceitam as restrições aos seus costumes no país em que vivem, encontram facilmente vídeos radicais na internet e, com eles, só alimentam a sua revolta. Pouco a pouco, vemos Layla e os demais se tornando cada vez mais radicais.

Enquanto isso, dentro de casa, Layla tenta “converter” as pessoas próximas, especialmente o irmão, Younes (Bilal Wahib). Mas nem ele e nem os pais de Layla tem qualquer interesse de seguirem o caminho de radicalização da jovem. Para ela e para outros jovens como Abdel (Ilias Addab), Zine (Hassan Akkouch) e Oum Osama (Yasemin Cetinkaya), quem não leva o Alcorão ao pé da letra e resiste à sociedade ocidental e as suas “liberdades” é traidor e infiel. Apenas os “fundamentalistas” é que terão a vida eterna e serão aceitos por Alá.

Por boa parte da produção, achei interessante a narrativa do filme e a crescente dos radicais, assim como a visão diferente das pessoas da família de Layla sobre o mesmo assunto. Mas chegou um momento da produção em que a narrativa me pareceu um tanto forçada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Layla foge de casa para se casar com Abdel e para fugir do país, por exemplo. Achei que o filme tornou muito simples uma fuga como essa. E, de fato, seria tão fácil para a garota se casar sem o consentimento dos pais e sem ninguém questionar o porquê dela estar fazendo aquilo sem a família por perto?

Verdade que o filme sugere que uma série de pessoas tem interesse em incentivar e financiar células extremistas como aquelas criadas pelos jovens que se aproximam de Layla. Uma figura destas que aparece apenas de forma secundária mas que dá o que pensar é o Sheikh Abdullah Al Sabin (Husam Chadat). Ele aparece em algumas ocasiões e parece ser a figura que dá os recursos materiais para que jovens como Layla e Abdel sirvam para propósitos radicais. Mas isso tudo fica subentendido, algo que nem sempre é bom para a narrativa de um filme.

No fim das contas, Layla se torna cada vez mais radical, até chegar ao ponto de usar uma burca proibida e confrontar a melhor amiga antes de fugir de casa com Abdel. Ela acredita que será feliz fora do país em que nasceu, em uma nação distante que ela tem idealizada. Chegando lá, ela se decepciona. Não apenas com Abdel, que passa a assumir a postura machista dos homens que seguem o Alcorão ao pé da letra, mas também com a sociedade tão diferente que ela encontra pela frente.

Nesta parte, achei interessante a provocação que Layla M. faz. O filme explora bem a distância entre o idealismo pueril de uma jovem que decide trilhar o caminho do radicalismo e a realidade que esta mesma adolescente tem dificuldade de enxergar na altura de sua visão limitada dos fatos. Na adolescência, de fato, somos mais radicais. Nos revoltamos com uma certa facilidade e temos dificuldade de aceitar o que nos parece ser injusto. Com o tempo, contudo, percebemos que nem tudo precisa ser a ferro e fogo. Aprendemos a ser mais tolerantes e a aceitar o que é diferente da gente.

A protagonista desta produção não tem tempo de amadurecer e de aprender a ser tolerante. Ela utiliza toda a sua revolta para ser cada vez mais extremista e intolerante com os que não são como ela acha que deveriam ser – baseada em uma interpretação radical da sua própria religião. Os radicalismos nunca levam a nada. Apenas à divisões, mortes e destruição. No fim das contas, Layla aprende na marra a diferença entre a idealização de algo e a experimentação daquela realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E, a suma ironia, tudo que ela deseja, no final, é voltar para a “casa” que ela não considerava sua.

Mas mesmo aí, ao conseguir “voltar para a casa”, esta volta não é como ela imaginava. A Holanda, assim como tantos outros países na Europa e em outras partes, estão muito atentos a células extremistas. Com isso, eles querem evitar que pessoas com ideias radicais promovam ataques terroristas e matem inocentes. Dá para entender a estratégia destes países. Mas também dá para entender a revolta de quem não concorda com nada disso.

Então qual é a solução para este impasse? Certamente a paz e a aceitação das diferenças parece ser o caminho, mas como você pode pedir isso para quem só vê o mundo de uma certa forma e não aceita outras maneiras de encarar a realidade, os costumes e as relações? No fim das contas, Layla M. nos apresenta a problemática de uma maneira muito eficaz, terminando com uma realidade difícil e sem definição. Como estas próprias perguntas que eu fiz e como a problemática real do choque “civilizatório” também terminam sem respostas.

Gostei do filme. Acho que ele é muito eficaz em sua narrativa. Só me incomodou um pouco algumas pontas soltas que a produção deixou pelo caminho – como, afinal, quem financiou a fuga de Layla e de Abdel? Fica sugerido, no filme, o que aconteceu com o jovem marido da protagonista, mas não teria sido mais interessante realmente alguém explicar o que ele fez e como ele terminou?

Me incomodou um pouco também a forma com que esta produção sugere um certo “heroísmo” do casal Layla e Abdel, que fogem para viver o seu “amor” e o sonho de acreditarem na religião que eles quiserem com toda a “liberdade do mundo”. No fundo, eles são jovens como tantos outros, ainda que eles se sintam especiais, acabam fazendo as mesmas besteiras que qualquer outro jovem casal. No fim das contas, eles estavam vivendo realmente os seus próprios sonhos ou sendo utilizados como bala de canhão por outras pessoas? Layla M. é muito competente em fazer estes questionamentos.

Um bom filme, que mostra como é relativamente simples virar um radical e um extremista. Ele deveria ser visto nas escolas e debatido em sala de aula. Há outras maneiras de tratarmos tudo aquilo sobre o que discordamos. E não é sendo radical e buscando a morte dos desafetos que chegaremos longe ou que realmente vamos conseguir uma mudança significativa da realidade que acreditamos estar errada. Também é importante lembrar que nem tudo que idealizamos e que sonhamos ser uma determinada forma se mantém em pé após um exame mais cuidadoso dos fatos.

Layla M. expõe tudo isso de forma direta e interessante, incomodando um pouco apenas a forma “simples” com que a protagonista consegue sair do país e deixar para trás a sua família. Estranho também com os pais dela não mexem os “pauzinhos” para buscar informações sobre a filha – e, se fazem isso, a produção não mostra este movimento deles. Este é o problema quando a narrativa é contada apenas sob a ótica de um personagem. Ficamos sabendo de tudo sob o olhar de Layla, mas acabamos ignorando tudo o mais que acontece ao redor da personagem e das pessoas próximas. Esta visão um tanto “limitada” do filme é o seu ponto fraco. Mas, em geral, Layla M. é um filme importante pelo debate que levanta. Vale ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo nesta vida são escolhas. A fé é uma escolha individual e intransferível. Nossas crenças em geral são assim. Somos influenciados por nossas famílias e pelo meio, claro, mas no final das contas, somos (e cada vez mais deveríamos ser) responsáveis por nossos atos e escolhas. Layla M. mostra como é fácil adotar o caminho do radicalismo. Mas o que ele nos traz? Nada de bom, certamente. Da minha parte, sempre vou defender o direito individual às escolhas. Nunca vou defender a imposição do que seja. Se temos que viver em sociedade, que saibamos respeitar o diferente. Não vejo outro caminho. Acho que esta produção aborda bem esta questão.

Layla e a sua família fazem parte de um contingente grande de marroquinos que vivem na Europa. Aliás, acho este tema importantíssimo. No Brasil, vivemos distantes desta imigração em massa que está acontecendo na Europa enquanto escrevo estas linhas. Verdade que no século 18 nós vivemos isso, mas na época tudo era diferente. O Brasil era um país gigantesco, continental, e pouco ocupado. Hoje, ainda, temos muito espaço, especialmente no interior. Agora, imaginem nas cidades mais populosas do nosso país começarem a chegar milhões de pessoas de países muçulmanos com os seus costumes.

Temos, no Brasil, por hábito, aceitar o diferente. Mas certamente também veríamos algumas reações de xenofobia aqui e ali. Porque realmente há pessoas com uma grande dificuldade de aceitar o que é diferente. Infelizmente. E como será que o Brasil lidaria com questões como a burca e os núcleos radicais que sempre podem aparecer entre aqueles que seguem de forma radical uma certa religião? Estamos longe das grandes ondas migratórias para realmente testar estas questões. Mas não acho difícil nos colocarmos no lugar dos europeus e das pessoas que migram para lá. Por isso mesmo, sempre vou defender o diálogo e a tolerância. Afinal, somos todos iguais. Mortais, de carne e osso, com defeitos e qualidades. Para que, então, nos dividirmos com tanta ânsia quando podemos nos unir e nos ajudar?

Fiquei curiosa para saber a quantas anda a questão da migração na Europa. Então achei este site com estatísticas sobre o assunto. De acordo com o site, apenas em 2015 imigraram para algum país da União Europeia nada menos que 4,7 milhões de pessoas. Apenas a título de comparação, este número é mais do que um terço de toda a população de São Paulo – capital paulista que tem, segundo estimativas do IBGE, 12,1 milhões de habitantes em 2017. É algo realmente impressionante, não? Mas importante observar que dos 4,7 milhões de imigrantes registrados em 2015, cerca de 2,4 milhões vieram de países de fora do bloco europeu – e nem todos, claro, de países muçulmanos.

De acordo com o site Eurostat, em 1 de janeiro de 2016 viviam na União Europeia 20,7 milhões de pessoas que tinham nascido fora do continente europeu. Layla M. é um filme da Holanda. Achei interessante olhar a origem das pessoas estrangeiras que moram no país. Segundo esta tabela, disponível no site que eu comentei antes, os marroquinos – do qual a protagonista desta produção faz parte – são o terceiro maior contingente de estrangeiros no país. No total, segundo a tabela, morariam na Holanda 168,5 mil marroquinos em 2015, atrás do contingente de turcos e de pessoas do Suriname. E ainda que a maioria seja muçulmana, certamente não são todos que tem dificuldade de adaptação no país. Mas o foco desta produção foi neste contingente.

Eu gostei da direção de Mijke de Jong. A diretora holandesa com 21 títulos no currículo como diretora, nove como roteirista e 16 prêmios em sua trajetória, tem uma direção bastante dinâmica e jovial. Parecida com a sua protagonista e com o tema contemporâneo que foca nesta produção. A câmera de Mijke de Jong está sempre próxima dos personagens e mostra bastante “intimidade” com a protagonista, algo importante para a história que é contada. Um bom trabalho de Mijke.

Entre os atores em cena, destaque em especial, como não poderia deixar de ser, para a atriz que faz a protagonista. Nora El Koussour faz um belo trabalho como Layla. Bastante convincente. Também gostei muito do trabalho do veterano Mohammed Azaay como o pai da protagonista. Outros atores que tem destaque nesta produção estão bem, mas tem um trabalho menos impactante e um tanto irregular. Este é o caso de Ilias Addab como Abdel e de Bilal Wahib como Younes. Os dois estão bem, merecem ser destacados, mas não tem a força da interpretação dos outros dois atores citados.

Sobre os elementos técnicos desta produção, vale destacar o bom trabalho de Danny Elsen como diretor de fotografia; de Dorith Vinken como editora; de Rebecca van Unen na escolha e apoio da direção do elenco; e de Jacqueline Steylen nos figurinos. Vale citar ainda o trabalho de Jorien Sont no design de produção; de Nasser Zoubi na direção de arte e de Karim Kheir na decoração de set.

Layla M. estreou em setembro de 2016 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros 12 festivais em diversos países pelo mundo. Nesta trajetória, o filme ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os prêmios que recebeu, vale destacar o de Melhor Filme segundo a Escolha do Público no Les Arcs European Film Festival, assim como o prêmio de Melhor Atriz para Nora El Koussour no mesmo festival; o Fritz-Gerlich-Preis no Festival de Cinema de Munique; o Prêmio Especial do Júri de “Outstanding Performance” para Nora El Koussour no Festival de Cinema da Filadélfia; e dois prêmios no Festival de Cinema Holandês: Melhor Atriz para Nora El Koussour e Melhor Ator Coadjuvante para Mohammed Azaay.

Como a história desta produção sugere, Layla M. foi rodado na cidade de Amsterdã, capital da Holanda. Este filme, aliás, é uma produção 100% holandesa. Layla M. representa o país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. Ainda não existem críticas suficientes no Rotten Tomatoes para este filme ganhar uma “métrica” no site. Mas por ali é possível encontrar três críticas, todas positivas. Ou seja, o filme foi pouco visto ainda. O que é algo que não o favorece para uma “corrida” por uma vaga no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme que mostra o quanto daninha a repressão pode ser, assim como a resistência a um lugar e a um determinado “modo de ser” social. Layla M. trata de temas muito importantes para os dias de hoje, onde cada vez mais países e sociedades têm que se esforçar para viver com diversas diferenças. Mais pessoas também tem que lidar com os seus próprios entendimentos do que é certo e do que é errado e com os seus sentimentos de pertencimento ou de estranheza em relação a um lugar ou sociedade. Temas importantes estão em cena, e o filme desenvolve eles muito bem, ainda que exista uma certa simplificação sobre alguns personagens e as suas ações. Mas vale assistir, especialmente para repensarmos sobre as escolhas que estamos fazendo, seja individualmente ou como sociedade. Impor valores nunca é o caminho.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Esse é o terceiro filme pré-cotado para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira para o Oscar 2018 que eu assisto. Aparentemente, este ano temos diversas produções com temáticas interessantes e importantes em cena. Em relação aos outros dois filmes que eu assisti e que estão concorrendo a uma das cinco vagas no Oscar, acredito que Layla M. tem menos chances que First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers, comentado aqui no blog, e mais chances que o “cerebral” Du Forsvinder, que tem crítica neste link.

Claro que eu tenho uma grande lista ainda de filmes para assistir. Concorrem a uma das cinco vagas de filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira nada menos que 92 países… então, falta ver muita coisa ainda. Entre os três que eu já citei, acho que First they Killed My Father tem mais chances de chegar entre os cinco finalistas. Depois, o segundo filme com chances, mas menores, seria Layla M. Du Forsvinder entraria na lista dos cinco apenas com um bom trabalho de lobby dos distribuidores.

Ainda que Layla M. trate de assuntos muito atuais, não acho que o filme tenha a força e o “estilo” que agrade os votantes da Academia. Afinal, esta produção mostra de forma clara como a repressão de uma sociedade contra os muçulmanos mais religiosos e que querem manter os seus costumes pode ser daninha. Apesar de mostrar como a protagonista acaba não tendo, exatamente, um final feliz, Layla M. não parece ter o discurso de “aceitação” de uma sociedade ocidental que Hollywood gostaria de ver difundido por aí. Então acho que ele pode nem chegar entre os cinco indicados. Mas se chegar lá, não vejo Layla M. com o perfil de ganhar uma estatueta dourada.

Du Forsvinder – You Disappear

O que faz sermos o que somos? Esta é uma das questões filosóficas que mais rendeu (e ainda rende) estudos em diferentes campos da Ciência. E esta pergunta está no centro da trama de Du Forsvinder, o representante da Dinamarca na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018. O filme tem alguns questionamentos interessantes e algumas boas surpresas, mas sofre um bocado com a própria redundância de seus questionamentos. É bem feito, tem uma proposta interessante, mas acaba sendo um tanto cansativo e até previsível, lá pelas tantas. De qualquer forma, vale ser visto.

A HISTÓRIA: Um carro trafega por uma rodovia estreita enquanto um casal e o seu filho escutam um rádio em espanhol. Nicklas (Sofus Ronnov) pede para o pai andar um pouco mais rápido, mas Frederik (Nikolaj Lie Kaas) acelera demais. Ele quase atropela um grupo de ciclistas, mas isso e os apelos de Mia (Trine Dyrholm) para que ele vá mais devagar não fazem mudar de atitude. Até que em um curva ele se perde um pouco e bate o carro do lado da esposa. O filho pede para o pai parar, mas Frederik uiva. Eles param em um local para ver se podem pedir ajuda, Frederik reclama que a mulher só coloca limites para ele. Frederik caminha até a beira do penhasco e cai. Corta. Em seguida, vemos Frederik indo para o seu julgamento.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Du Forsvinder): Este filme começa muito bem, obrigada, e tem algumas ideias muito, muito interessantes. Mais uma produção “apresentada” por uma das listas de “pré-indicados” ao Oscar 2018 – o que só comprova que sim, vale a pena ficar de olho na premiação da Academia de Arte e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

O começo de Du Forsvinder é muito potente. Aquela calma dos segundos iniciais de uma estrada tranquila que abre frente para uma sequência de loucura, caos e de rompante do protagonista é um belo cartão de visitas sobre o que veremos em seguida. Logo no início ficamos em dúvida sobre o que aconteceu com Frederik, e as dúvidas sobre este personagem serão fundamentais para esta produção. Depois daquele início potente, é interessante a “apresentação” da problemática que veremos em cena pela protagonista e narradora desta história, Mia, esposa de Frederik.

Realmente, há muito tempo nos questionamos o que nos define. E não apenas a nós, mas também as pessoas que amamos e que nos cercam. É fácil entender a perplexidade da protagonista quando o marido é acusado de fraude e de roubo. Pessoal responsável pela administração de uma escola por uma década, Frederik é acusado de desviar dinheiro da instituição e de ainda a utilizar para fazer diversos empréstimos bancários. Ao ser apresentada para esta realidade, da qual desconhecia, Mia se pergunta sobre o quanto ela conhece o marido.

Quando nos questionamos algo tão básico, começamos a questionar outros elementos tão ou mais básicos. Como Frederik também descobre que tinha um tumor no cérebro, Mia, Frederik e os demais que os cercam começam a questionar também o que pode ter sido racional ou involuntário das atitudes dele. Agora, imagine que tudo o que você viveu em muitos anos começa a ser questionado. Não apenas pelos outros, pelas pessoas que estão fora da tua casa e da tua relação pessoal, mas também questionados por você mesmo.

Du Forsvinder, assim, nos apresenta estas questões pertinentes e interessantes. De fato, é de se questionar o que somos, de verdade, além das interpretações dos outros e de nós mesmos, assim como quem são realmente as pessoas que nos rodeiam. O que é realidade e o que é interpretação da realidade? E esta interpretação, o quanto está sujeita a erros e a subjetividades? Tudo isso é explorado pelo roteiro de Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen, que trabalharam tendo como base o livro de Christian Jungersen.

Sabendo que vocês vão perdoar a minha “brincadeira”, este filme é um bocado cabeça. 😉 De fato, Du Forsvinder explora bastante a mente humana, o que sabemos sobre ela e tudo aquilo que ainda desconhecemos a respeito do órgão que determina grande parte do que somos e do que fazemos. E aí que o filme se perde um pouco.

Verdade que ele traz algumas verdades interessantes sobre a mente humana – como que um tumor ou uma doença no cérebro pode mudar radicalmente o modo de agir e de pensar de uma pessoa – mas, nos demais espaços que a falta de respostas da neurologia e das demais ciências relacionadas deixa, o filme dá uma “forçada” em algumas explicações ou conjeturas.

Por exemplo, em mais de um momento da história, o advogado Bernard Berman (Michael Nyqvist), que Mia acaba conhecendo em um grupo de apoio de pessoas que tem familiares com problemas mentais, sugere que nós somos “comandados” pelas reações químicas do nosso cérebro. Que, por mais que acreditemos que temos escolhas, e que podemos decidir o que queremos fazer ou não, no fundo não temos escolha alguma.

Nosso cérebro interpreta os fatos alguns segundos depois deles acontecerem e sempre de forma condicionada. Assim, quando respondemos a algo, na verdade, estamos apenas repetindo padrões estabelecidos pelo nosso cérebro com base no que já vivenciamos e com foco na nossa sobrevivência. Ainda que parte de tudo isso faça sentido, no contexto desta produção estas ideias parecem um tanto “forçadas” para enquadrarem os personagens centrais e as suas ações.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Em certo momento, por exemplo, Mia se aproxima romanticamente de Bernard e ele faz um grande discurso para ela de que eles não podem evitar a traição das relação com os seus respectivos cônjuges porque esta é a Natureza “falando”. Ou seja, que a química dos seus cérebros lhes impele a traírem e que não tem como eles fugirem disso. Também durante grande parte da história, que se passa no tribunal do julgamento de Frederik, ouvimos os argumentos da defesa do ex-diretor de escola sobre como o tumor fez ele agir de forma impulsiva e roubar os recursos do educandário.

Ora, com estes argumentos, fica fácil de justificar qualquer crime, não é mesmo? Em certo momento, uma pessoa inclusive fala que grande parte das pessoas que estão presas atualmente são, na verdade, doentes, e não deveriam ser julgados por seus crimes. Ainda que eu concorde que existem casos sim de demência e de falta de capacidade de julgamento de alguns criminosos, na maioria dos casos temos sim a capacidade de decidir, de escolher. E devemos, em uma sociedade civilizada, ter leis para impedir certos atos e responsabilidade de pagarmos pelo que fazemos, não é mesmo?

Claramente o roteiro do diretor Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen tem uma preocupação de não ser enfadonho, apesar do tema espinhoso. Os realizadores conseguem isso ao intercalar a história com diversos momentos narrativos. Como Mia é a pessoa que nos conta essa história, acompanhamos a sua “forma” de narrar descontinuada, que vai e volta no tempo narrativo. Isso acontece também com a gente. Normalmente, quando contamos um “causo”, intercalamos ele com vários outros fatos e com “explicações” que vão se encaixando no meio da história.

Assim, se vermos Du Forsvinder com uma lupa, esta produção é a história de um homem que é julgado por um crime e que tenta se justificar alegando insanidade causada por um tumor no cérebro. O que vemos antes e em “pitadas” no meio desta narrativa são pensamentos de Mia, esposa do homem que está sendo julgado, que tenta nos contextualizar esta história, contando o que aconteceu antes e “ao redor” do julgamento do marido. Desta forma, nos aproximamos do casal em sua intimidade e, especialmente, das buscas por respostas de Mia.

Interessante como o filme demonstra, na prática, como tudo aquilo que acreditamos ser realidade pode ser uma ideia falsa se não estivermos nas nossas “plenas faculdades mentais”. Ou seja, que aquilo que pensamos ser verdade pode ser apenas uma “doença falando”, ou uma condição mental diferenciada que nós, por nossa conta, não conseguimos identificar. Então sim, dá um pouco de medo pensar que um dia podemos ter a nossa realidade totalmente modificada por causa de algo de “anormal” que aconteça com o nosso cérebro.

Como eu disse antes, Du Forsvinder tem algumas surpresas interessantes. Depois daquele início provocante, temos um desenvolvimento interessante de dramas envolvendo problemas com a mente humana. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Até aí, esta produção é densa, “cabeça”, exige atenção do espectador, mas caminha por estradas interessantes. Agora, quando Mia começa a ter um “caso” com Bernard, a forma com que eles se aproximam e começam a trair os seus cônjuges, deixa quem assiste um tanto desconcertado.

Não apenas porque não parece justo eles traírem os seus cônjuges quando eles vivem momentos tão delicados mas, e acho que isso foi o que mais me incomodou, essa tal traição não parecia fazer muito sentido em relação à construção dos dois personagens apresentada até então. Neste momento, você já não sabe muito bem sobre o que filme está tratando. Afinal, Du Forsvinder é uma crônica sobre o autoconhecimento, sobre a descoberta de quem é a pessoa que está mais próxima da gente e sobre o que percebemos como realidade ou um filme sobre casamentos em ruína?

Até que… surge o final para dar uma nova “reviravolta” na história e para nos fazer pensar um pouco mais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Aquilo que pode ter incomodado você no meio da história, como incomodou a mim, aquela falta de coerência de alguns atos de Mia e de Bernard em relação ao que estes personagens pareciam pensar e significar até então, fica claro após esta nova reviravolta na história.

No fim das contas, Du Forsvinder não é tanto sobre o quanto Frederik é capaz ou incapaz ou sobre o quanto ele fala a verdade ou mente. Du Forsvinder se revela um filme sobre Mia e a sua capacidade de nos contar uma história verdadeira. Ela parece ser a pessoa mais lúcida em cena, capaz de identificar mudanças de comportamento e de humor do marido, coerências e incoerências por todas as partes. Mas descobrimos, no final, que isso tudo não é bem assim. Ela mesma fantasiou parte do passado e do presente e, aparentemente, sem perceber.

Daí sim, Du Forsvinder mostra a que veio. Afinal, se alguém aparentemente “normal” e lúcido é capaz de deturpar tanto a realidade, no que podemos confiar? E em quem? A reviravolta no final é interessante e abre uma outra fronteira de discussão sobre o que é a realidade e sobre como a nossa mente pode nos pregar peças.

Mas algo fica mal explicado nesta história. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Sim, três anos antes do julgamento de Frederik, Mia tentou se matar. Aparentemente, porque estava deprimida com as traições e a saída de casa do marido. Até aí, tudo bem. Mas como ela apagou as pílulas que usou de forma tão profunda da memória e o que teria motivado as fantasias dela com Mia?

Talvez uma grande carga de estresse, motivada pelo julgamento de Frederik, e o trauma causado pela tentativa de suicídio, expliquem as duas situações. Mas como não há diagnóstico feito em cena e como estas questões não ficam claras, ficamos na dúvida sobre o que teria causado estas reações de Mia. Frederik tenta usar o tumor como desculpa para os seus atos, mas o que poderia ter causado tantos “desvios” da realidade por parte de Mia? E o quanto do restante que vimos em cena fazia parte da realidade ou também era fantasia da protagonista?

Enfim, acho que o filme termina com muitas perguntas sem resposta e que, o que acaba sendo pior para a narrativa, que Du Forsvinder se perde muitas vezes na repetição de alguns argumentos e nas reações um tanto forçadas dos personagens. Este é um filme denso, bastante psicológico e que apresenta alguns argumentos interessantes, mas parece que algumas vezes o diretor Peter Schonau Fog prefere abrir mão da coerência para “surpreender” o espectador. Isso joga contra qualquer filme, quando esta técnica se torna evidente.

Apesar de seus pequenos defeitos, Du Forsvinder me pareceu um filme interessante por tocar em assuntos delicados. Tanto a respeito dos fatores que explicam porque fazemos o que fazemos, pensamos o que pensamos, quanto sobre as relações humanas e as suas fragilidades. Também faz pensar, como poucos filmes que eu já assisti até hoje, sobre como somos frágeis em relação ao controle da nossa vida. De uma hora para a outra, seja por um acidente, seja por uma doença, podemos ter a nossa compreensão de nós mesmos, dos outros e do mundo totalmente modificada e deturpada. Isso é assustador, mas nos faz pensar. Enquanto somos capazes, evidentemente. 😉

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu gostei da direção de Peter Schonau Fog. Ele sabe valorizar bem o trabalho dos ótimos atores em cena, e consegue nos surpreender nos momentos exatos. É bom assistir a este filme com atenção total para não perder nenhum detalhe. Ajuda muito o diretor em seu ofício o diretor de fotografia Laust Trier-Mork e a edição feita pelo trio Morten Hojbjerg, Olivia Neergaard-Holm e Peter Winther.

O roteiro de Peter Schonau Fog e de Bo Hr. Hansen é, ao mesmo tempo, um dos pontos fortes e o ponto fraco desta produção. Há algumas linhas de diálogo realmente interessantes, assim como alguns grandes momentos cuidadosamente pincelados com surpresas aqui e ali na produção, mas o roteiro também derrapa em algumas redundâncias, repetições e na falta de explicações no final. Ainda assim, por tudo que eu comentei no texto acima, Du Forsvinder é uma produção instigante.

Da parte técnica do filme, além dos elementos que eu citei antes, vale comentar a trilha sonora bastante pontual de Mikkel Maltha; o design de produção de Soren Gam e Gitte Malling; e os figurinos de Kirsten Zäschke.

Du Forsvinder foi lançado em abril de 2017 na Dinamarca. Apenas em setembro ele participou do seu primeiro festival, o Festival Internacional de Cinema de Toronto. Em outubro, ele participou do Festival de Cinema de Hamburgo. E isso foi tudo, até agora, em termos de festivais. No festival em Hamburgo, Du Forsvinder foi indicado para o Audience Award como Melhor Filme. Ele perdeu a disputa para Es Por Tu Bien.

Vale comentar onde esta produção foi rodada. Du Forsvinder foi totalmente filmado no estúdio Trollhättan, na cidade sueca de Västra Götalands Iän.

O diretor Peter Schonau Fog tem um bocado de prêmios no currículo. Du Forsvinder é apenas o seu quarto filme como diretor, mas ele tem nada menos que 21 prêmios recebidos pela carreira – que compreende ainda o trabalho de roteirista. Du Forsvinder marca o retorno do diretor após 11 anos de ausência. O seu filme anterior foi Kunsten At Graede I Kor, de 2006. Antes, ele dirigiu a dois curtas, Lille Maensk, lançado em 1999, e Vildfarelser, de 1998. A maior parte dos prêmios que ele recebeu foi pelo longa Kunsten At Graede I Kor.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram seis críticas negativas e quatro positivas para a produção, o que garante a Du Forsvinder uma aprovação de apenas 40% e uma nota média de 5,2. Ou seja, duas avaliações baixas, tanto de público quanto de crítica. Realmente o novo filme de Fog parece não ter agradado. Da minha parte, não acho este um grande filme, mas ele tem a sua força e a sua validade. Mas poderia ser melhor desenvolvido, sem dúvidas.

Ah, e antes que eu termine estes comentários, vale falar sobre o elenco desta produção. Para mim, uma das grandes qualidades de Du Forsvinder. Os roteiristas acertaram em concentrar esta história em poucos personagens. Quem realmente brilha em cena são os veteranos Trine Dyrholm e Michael Nyqvist. Eles estão ótimos, muito humanos e com interpretações convincentes e interessantes. Outros atores fazem um bom trabalho, com destaque para Nikolaj Lie Kaas, que interpreta Frederik.

Além deles, fazem um bom trabalho os coadjuvantes Meike Bahnsen, como Laerke, esposa de Bernard; Mikkel Boe Folsgaard como o promotor que acusa Frederik; Lars Knutzon como Laust Saxtorph, fundador da escola na qual Frederik dá o golpe; e Sofus Ronnov como Nicklas, filho do casal problemático.

E sim, vale um comentário final antes da conclusão: fico impressionada com o egoísmo de alguns adultos. Frederik e Mia agem como querem, por impulso ou de forma racional, sem parecer se importar com o fato de que eles são pais e que tem como responsabilidade a formação de Nicklas. Que tipo de exemplo os dois dão para o filho dentro de casa? Sem julgamentos, mas eis outro ponto que vale uma reflexão, ou não?

Du Forsvinder é uma coprodução da Dinamarca e da Suécia. Mas esta produção é a representante da Dinamarca na busca por uma indicação ao Oscar 2018 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

CONCLUSÃO: Tudo o que existe, o que vemos, escutamos, sentimos… absolutamente tudo é interpretado por nós. Sobre isso, muitos já falaram, desde Platão. E este filme, por incrível que pareça, se junta a toda esta grande “escola” sobre o que é realidade e como a interpretamos. Du Forsvinder tem uma pegada interessante, especialmente no começo e no fim, mas o seu “recheio” deixa um pouco a desejar por causa de uma certa redundância de argumentos. De qualquer forma, é um filme interessante. Mais uma boa pedida do cinema dinamarquês. Mas que ninguém se engane. O filme é “cerebral” e exige extrema atenção. Faz pensar, mas poderia ser melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sempre pode surpreender. Quanto a isso, não há dúvidas. Prova é o quanto o Oscar, que chega em 2018 em sua 90ª edição, evoluiu ao longo de todo este tempo. Algo inevitável, eu diria, porque o cinema e as suas premiações evoluem como a própria sociedade.

Dito isso, não acho que Du Forsvinder tenha muitas chances de chegar entre os filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Esta produção é, por um lado, “cabeça” demais para o Oscar e, por outro, um tanto “falha” em alguns aspectos. Acho que já citei eles todos antes, mas basicamente as principais falhas do filme são a sua redundância e o esvaziamento da história e da “novidade” que a produção parece apresentar em um primeiro momento. No fim das contas, este filme não é tão “inovador” quanto poderíamos esperar.

Além disso, não acho que ele tenha muito o perfil do Oscar. Especialmente em um ano como este, em que parece que temos grandes produções com temas importantes na disputa. Da minha parte, acho que Du Forsvinder seria uma grande zebra se ele entrasse na lista final de indicados. Veremos. O primeiro filme dos que estão concorrendo a uma vaga no Oscar 2018 nesta categoria que eu assisti foi First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers, comentado por aqui. Até agora, ele é o meu favorito. A conferir se ele segue assim. 😉

First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers – Primeiro Eles Mataram o Meu Pai

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Este filme deveria ser obrigatório para qualquer pessoa que realmente defende a ideia do comunismo. E não, o objetivo deste blog não é falar sobre política – ou religião, dois temas sempre espinhosos. Mas como tratamos aqui de cinema, e a 7Arte sempre aborda questões muito particulares dos indivíduos e dos coletivos que formamos, sim, eventualmente falamos de política e de religião. First They Killed My Father é o primeiro filme que eu assisto realmente visando ao Oscar 2018. E que filme é esse, minha gente? Achei ele porreta, forte, bem feito, com uma proposta muito clara e executado com esmero. Uma história potente contada com muita engenhosidade. Para mim, altamente recomendado.

A HISTÓRIA: Campos verdes com algumas flores. Aparece em uma imagem de TV Richard Nixon falando do Camboja, uma nação neutra desde 1954. Nixon segue comentando que os Estados Unidos, desde aquele ano, respeita a neutralidade do Camboja. Diversas notícias falam, contudo, de ataques de vietcongues no Camboja e da morte de inocentes. Os Estados Unidos interferem, e o conflito cresce. Notícias também dão conta do surgimento do Khmer Vermelho, que promete recuperar o Camboja, e da chegada dos rebeldes comunistas na Capital do país. Enquanto isso, os Estados Unidos deixam de dar “apoio” para o Camboja. Loung Ung (Sareum Srey Moch) vê a uma destas notícias na TV, em um apartamento na capital do Camboja, em abril de 1975. Em pouco tempo aquela rotina da família vai mudar radicalmente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a First They Killed My Father): Como eu comentei na página do blog no Facebook estes dias, estava mesmo na hora de começar a olhar para os filmes que são “pré-candidatos” a uma das vagas do Oscar 2018. Quem me acompanha aqui há algum tempo, em alguns destes 10 anos do blog, sabe que eu não sou nenhuma “devota” da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas que gosto sim da “seleção” que o Oscar nos apresenta a cada ano – especialmente em relação a filmes de quase uma centena de países.

Pois bem, como as listas dos filmes “habilitados” ao Oscar já começaram a sair, nada melhor que começar a ver que filmes estão disponíveis no mercado e falar deles por aqui. E foi assim, indo atrás destas produções, que eu descobri este First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers. Esta produção é a representante do Camboja na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2018. Depois que eu busquei o filme é que eu percebi que ele era dirigido por Angelina Jolie.

Isso, evidentemente, não é algo que jogue contra a produção. Até porque sabemos que Jolie é talentosa e tem uma sensibilidade interessante. Mas, francamente, a visão dela me surpreendeu ao assistir a esta produção. Claro que boa parte do “trabalho” está feito pelo simples fato da história contar a perspectiva dos absurdos que aconteceram no Camboja pela ótica de uma criança. Nós sabemos o que isso costuma significar. Filmes que assumem a perspectiva de uma criança costumam ser bastante emotivos e especiais. First They Killed My Father não foge desta regra.

Mas esta produção merece elogios muito além deste fato. Diferente do que algumas pessoas podem pensar, First They Killed My Father é um filme mais pesado e denso do que emotivo. Claro, existe bastante emoção em cena, mas diferente de outras escolas de cinema e de outras culturas, em que as pessoas fariam grandes discursos e teríamos frases de “efeito” espalhadas aqui e ali na produção, neste filme as roteiristas Angelina Jolie e Loung Ung respeitaram a cultura da escritora e humanista e buscaram revestir a história quase de um tom documental.

Angelina Jolie, como diretora, soube valorizar muito bem a cultura do Camboja, seus hábitos e costumes, as suas tradições, cores, músicas, e conseguiu, de forma impressionante, resgatar aquela época de conflitos. As cenas do filme são incríveis, desde o deslocamento humano – bastante desumano, diga-se – em massa das cidades para os campos, com cenas aéreas que ajudaram a contextualizar bem o drama daquelas pessoas comuns, até as sequências que revelaram todas as nuances de uma nova realidade de exploração e de violência para quem teve que ceder aos comunistas.

Não teve um momento deste filme em que eu não fiquei presa à história de Loung Ung e de sua família. Os atores em cena são ótimos, e o cuidado da diretora Angeline Jolie com os detalhes de cada tomada, de cada cena, mostram todo o respeito que ela teve pela história. Para um filme ter a força com que First They Killed My Father têm, só mesmo ele bebendo diretamente da fonte. Por isso considero fundamental o trabalho de Loung Ung, que escreveu o livro homônimo, em ajudar Angelina Jolie no roteiro desta produção.

Loung Ung pode não ser uma especialista na indústria do cinema, mas, sem dúvidas, ela era a melhor pessoa para contar a sua própria história. Angelina Jolie aportou o seu talento como uma especialista da indústria cinematográfica, sabendo como posicionar as suas câmeras, conduzir os atores e desenvolver uma dinâmica interessante para a história que, por si só, tem uma força incrível.

A paz nesta produção dura poucos minutos. Logo First They Killed My Father mergulha na realidade das pessoas comuns, como a então menina Loung Ung, que tiveram que deixar as suas casas e as suas vidas e cair em um verdadeiro Inferno. Podemos não conhecer o que acontece com as pessoas após a morte, mas o que vemos neste filme pode ser considerada a materialização do Inferno na Terra. Especialmente importante vermos tudo o que acontece sob a ótica de uma criança. Mais que isso, de uma sobrevivente.

Sabemos, logo no início, por uma questão lógica, que se este filme está sendo contado por Loung Ung e por ele se basear em uma história real, que a nossa protagonista – ao menos ela – vai sobreviver. Mesmo sabendo disso, é duro assistir a sua história. Não é simples ver o que vemos em cena, especialmente por saber que aquilo realmente aconteceu.

A emoção vem da própria narrativa. Surge do olhar inocente da protagonista que, visivelmente, não entende o que está acontecendo. Diferente dos ocidentais, os asiáticos não são de falar muito. Então, em momento algum, explicam para Loung Ung porque ela e a família tiveram que deixar a casa deles e seguir andando, aparentemente, em uma caminhada sem fim. Mesmo não entendendo o que está acontecendo ao seu redor, a protagonista observa tudo, de forma muito atenta e sensível. E nós vamos com ela, observando como as pessoas e os lugares mudam.

Percebemos, por exemplo, que não existe mais segurança em parte alguma. Que a fome e a miséria passaram a ser companheiras fiéis, e que o perigo da morte por um rebelde comunista ou pela fome são constantes. Ainda assim, Loung Ung e a sua família continuam, sempre em frente, resistindo o máximo que podem a injustiças e ultrajes que, admito, são difíceis de assistir. Mas tudo que vemos pela frente é necessário. Precisamos ver, precisamos sentir tudo que esta história nos manifesta.

Eu sou sempre da opinião que um dos problemas principais que temos hoje em dia é as pessoas não quererem saber, não se importarem, terem memória curta. Quanto mais sabemos sobre o que nos cerca, não apenas no presente, mas no passado, mais nos preparamos para evitar absurdos no futuro. E como o subtítulo deste filme comenta, é importante uma filha do Camboja não se esquecer. E não apenas ela. Esse filme corajoso, capitaneado por Loung Ung e por Angelina Jolie, é um libelo pacifista e contra o esquecimento. E para fazer isso, é preciso coragem.

Aliás, falando em coragem, achei muito importante e marcante como os realizadores tocam o dedo na ferida da culpa dos Estados Unidos em tudo o que vemos. Ok, quem realmente puxou o gatilho e defendeu as suas ideias extremistas foi o Khmer Vermelho, mas quem ajudou para que tudo aquilo acontecesse? First They Killed My Father deixa claro que os Estados Unidos tiveram responsabilidade na morte de milhões e milhões de inocentes no Camboja. Típica culpa que o país levará muito tempo ainda para tentar se eximir.

Algo que me chamou muito atenção neste filme, além do favor que a história nos faz em apresentar os fatos da forma mais direta e sincera possível, sem grandes discursos ou falas “sentimentais”, é como a história de First They Killed My Father consegue ir crescendo com o tempo. Não existe momento menos importante nesta produção.

O Inferno pelo qual a protagonista e a sua família passa – e eles simbolizam tantas outras famílias cambojanas que passaram pelo mesmo ou pior, que foram totalmente dizimadas naqueles anos – parece não ter fim. E a angústia e o desconforto de ver esta história apenas crescem. E isso é bom, porque o mínimo que podemos fazer é olhar para aquele drama com respeito e nunca nos esquecermos de como o ser humano pode ser canalha e algoz do próprio ser humano. First They Killed My Father impressiona por tudo isso, e cumpre com esmero o seu papel.

Achei a direção de Angelina Jolie brilhante, mantendo a câmera sempre próxima da protagonista e narradora desta história. Vemos tudo o que acontece sob a ótica de Loung Ung, toda a sua surpresa, perplexidade, incerteza e valentia. A menina resiste a uma realidade que muitos adultos, inclusive homens fortes, foram incapazes.

Apesar de prevermos o que vai acontecer com o pai da protagonista, por causa do título do filme, ainda assim First They Killed My Father nos surpreende. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pelo que acontece antes da morte de Pa Ung (Phoeung Kompheak) e pelo que acontece depois. Esta produção conta em detalhes como ocorreu a exploração do povo cambojano e o extermínio de uma parte considerável daquele povo, começando pela expulsão em massa das pessoas das cidades, passando pela exploração de homens, mulheres e crianças nos campos de trabalho forçado e, chegando, no final, de forma surpreendente, pelo uso de crianças como “bala de canhão”. É de arrepiar.

Fazia tempo que eu não assistia a um filme que contasse uma história baseada em fatos reais tão marcante e com um propósito tão claro. First They Killed My Father coloca todos os dedos possíveis nas feridas. Nos faz refletir e, principalmente, nos apresenta uma defesa irretocável da paz, do respeito ao próximo e da defesa da vida. Nada justifica o que vemos em cena. Absolutamente nada justifica a exploração de pessoas e a violência desmedida contra famílias, especialmente crianças.

Este filme é potente, e precisa ser. Ainda bem que os realizadores respeitaram a história de Loung Ung. E isso fica perceptível a cada cena, a cada sequência desta produção. Um filme forte, bem contado, com uma narrativa longa – a produção tem 2h16min de duração – mas que, por ser envolvente e bem conduzida, não cansa. Quem dera que mais cineastas se inspirassem em Angelina Jolie e trabalhassem em prol da história e não de receber louros ou de fazer algo pretensioso.

Eis um filme incrível, que parece simples, mas que sabe muito bem a que propósito está servindo. First They Killed My Father não é um filme hollywoodiano sobre uma história cambojana. Este filme respeita a cultura que está retratando, seus costumes, as suas pessoas, a sua História, incluindo aí o uso bastante restrito de diálogos, mas com muita observação dos detalhes e das cenas – e seus significados. Para quem gosta de cinema, é uma verdadeira aula. E para quem gosta de grandes histórias, de produções humanistas e pacifistas, eis uma produção para guardar na memória.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Honestamente, eu não consegui enxergar um defeito neste filme. A direção de Angelina Jolie, como eu comentei antes, está atenta a cada detalhe. E os detalhes contam muito em uma produção carregada de silêncios e de muitos significados na troca de olhares, nos gestos e nos acontecimentos que se desenrolam na luz do dia ou no breu da noite. Jolie valoriza o trabalho dos atores na mesma medida em que sabe construir cenas “grandiloquentes” com muitos figurantes – especialmente nas sequências de deslocamento humano. Faz um grande trabalho, possivelmente o melhor de sua carreira como diretora até o momento.

Ajuda muito a diretora, para conseguir este excelente resultado, evidentemente, a grande história que ela têm nas mãos. E aí passou a ser fundamental, para o filme, ter a presença da autora de First They Killed My Father, a própria Loung Ung que vemos criança em cena, como co-roteirista desta produção. Foi um grande acerto também o filme adotar uma narrativa linear, sem usar de artifícios como o cada vez mais comum “preâmbulo” da história no futuro para depois contar como os personagens chegaram naquela situação-limite. Como em First They Killed My Father a história ocorre em uma crescente importante, nada melhor que deixar os fatos fluírem na sua sequência e ritmo. Roteiro brilhante.

First They Killed My Father é mais uma produção original da Netflix que chega com força no Oscar. Claro, ainda é cedo para dizer que chances este filme terá na premiação da Academia. Há quem aponte ele não apenas para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, mas como candidato para receber outras estatuetas. Falarei disso mais adiante. Da minha parte, já estou na torcida por First They Killed My Father surpreender, seja com indicações, seja com alguma estatueta.

Falando no Netflix. Olha, parabéns para essa empresa! Além de ter revolucionado a forma com que as pessoas consomem séries e filmes, ela investe cada vez mais em produções próprias. Muito do que vemos hoje de qualidade por aí, inclusive em filmes, têm origem no Netflix. Então parabéns! Desde já estou na torcida para a empresa ganhar alguns Oscar’s em 2018.

Entre os aspectos técnicos deste filme, vale destacar a ótima direção de fotografia de Anthony Dod Mantle, que faz um trabalho excepcional – seja nas ótimas cenas de dia, seja nas cuidadosas e competentes filmagens noturnas; a excelente edição de Xavier Box e de Patricia Rommel, dupla que garante que o filme tenha um ritmo muito interessante; a pontual, mas muito interessante e marcante trilha sonora de Marco Beltrami; o design de produção de Tom Brown; os figurinos perfeitos para a história de Ellen Mirojnick; e a maquiagem fundamental de Brynn Berg, Budd Bird, Ken Diaz, Andruitha Lee, Heather Mages, Lesa Nielsen e Thomas Terhaar.

Também vale citar a direção de arte de Lek Chaiyan Chunsuttiwat, Eric Luling e Tom Reta; a decoração de set de Kelly Berry e de Judy Farr; o importante e competente trabalho dos 22 profissionais responsáveis pelo Departamento de Som; e o igualmente importante e competente trabalho dos 85 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais.

O interessante é que todos estes elementos técnicos, importantes para esta história ser contada, são eclipsados pelo que vemos em cena e, em especial, pelo trabalho dos atores. O destaque evidente vai para Sareum Srey Moch, a jovem atriz estreante nesta produção e que interpreta a Loung Ung. O trabalho dela é impressionante. Ela nos deixa enfeitiçados pela história – boa parte do seu trabalho, certamente, é mérito da diretora e das demais pessoas envolvidas no trabalho de preparo do elenco. Mas Sareum Srey Moch dá um show, em um trabalho difícil mas que é feito com maestria e com muita naturalidade por ela.

Os outros atores em cena também estão muito bem, com destaque para os pais da protagonista, interpretados por Phoeung Kompheak e por Sveng Socheata, respectivamente o pai e a mãe de Loung Ung. Também temos os atores que fazem os irmãos dela: Mun Kimhak como Kim; Heng Dara como Meng; Khoun Sothea como Khouy; Sarun Nika como Geak; Run Malyna como Chaou; e Oun Srey Neang como Keav. Todos estão ótimos, sem exceção.

Impossível não assistir a esta história e não querer saber mais sobre o que realmente aconteceu no Camboja. Acho interessante, para começar, conhecer alguns textos sobre a protagonista deste filme, Loung Ung. Temos desde o artigo da Wikipédia sobre ela até esta matéria da People sobre a história dela e como ela ficou amiga de Angelina Jolie. Também vale dar uma olhada nesta reportagem do Huffpost que traz comentários de Angelina Jolie sobre o filme.

Sobre os absurdos que o filme narra, vale dar uma lida em alguns conteúdos. Para começar, indico textos básicos como este do portal Mundo Educação e o artigo relacionado com o genocídio cambojano que está na Wikipédia. É de arrepiar. Que bom que Angelina Jolie e Loung Ung nos apresentaram um filme contundente sobre o assunto. Este genocídio, assim como outros ocorridos na nossa História, infelizmente são pouco lembrados. Mas está na hora de falarmos a respeito.

First They Killed My Father estreou em fevereiro de 2017 em première no Camboja. Depois, apenas em setembro, o filme estreou em um festival, no Festival de Cinema de Telluride. No mesmo mês, First They Killed My Father participou do Festival Internacional de Cinema de Toronto. A partir do dia 15 de setembro, o filme estreou no Netflix em alguns países, como Argentina, Índia, Holanda e Estados Unidos. Até o momento, esta produção não ganhou nenhum prêmio.

Como a história do filme sugere, First They Killed My Father foi totalmente rodado no Camboja. Para quem um dia quiser visitar o local, o filme foi totalmente rodado em Battambang. Ah, e todo o elenco que vemos em cena é formado por cambojanos.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Quatro pessoas produziram First They Killed My Father: Angelina Jolie, Rithy Panh, Ted Sarandos e Michael Vieira. Rithy Panh, por sua vez, é, ele próprio, um sobrevivente do genocídio cambojano. Ele tem, no currículo, nada menos que 38 prêmios, 20 trabalhos como diretor, 14 como roteirista e 12 como produtor. Ou seja, conhece bem a história que está sendo contada aqui.

O Khrmer Vermelho que vemos em cena, movimento comunista “revolucionário” (mais bem assassino, não?) liderado por Pol Pot, matou cerca de 25% da população do Camboja entre 1975 e 1979. Essa parte considerável da população foi morta assassinada, por desnutrição ou por causa de trabalhos forçados. Uma dureza que vemos bem em cena – inclusive com crianças sendo mortas. De arrepiar.

First They Killed My Father foi rodado em 60 dias com um orçamento de US$ 24 milhões. Um orçamento baixo para os padrões de Hollywood mas, até o lançamento do filme, First They Killed My Father era a produção mais cara feita no Camboja. Mais um exemplo da diferença gigantesca das realidades que vivemos neste mundão…

Alguns números do filme: mais de 500 pessoas, entre técnicos e pessoas de apoio, foram envolvidas nas filmagens de First They Killed My Father. O filme também contou com 3,5 mil figurantes e extras para algumas cenas específicas – certamente aquelas dos deslocamentos humanos. Muitos dos atores envolvidos com esta produção eram sobreviventes ou filhos de sobreviventes do genocídio cambojano. Talvez por isso tenhamos tanta “verdade” em cena.

A diretora, co-roteirista e produtora Angelina Jolie é uma cidadã cambojana desde 2005.

Quase todos os artistas, atores e profissionais do cinema cambojanos foram mortos durante o regime do Khmer Vermelho. Apenas alguns diretores conseguiram fugir do país naqueles anos de massacre. A história do nascimento e da destruição do cinema cambojano é contada no documentário Le Sommeil D’Or. Fiquei com vontade de assistir a esta produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 47 críticas positivas e seis negativas para este filme, o que garante para First They Killed My Father uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,8. Ainda que as notas sejam boas para os padrões dos dois sites, acho que as avaliações poderiam ter sido melhores. Para o meu gosto, ao menos, este filme é excelente.

Este filme é uma coprodução do Camboja e dos Estados Unidos.

Eu admito: eu já gostava da Angelina Jolie. Como mulher e como artista. Mas depois deste filme… gosto ainda mais. Posso até me classificar como fão. 😉 Ela merece. Tem opinião, talento e algumas posturas dignas de aplausos. Alguém que sabe utilizar para o bem a própria fama. Está de parabéns!

CONCLUSÃO: Vocês sabem que nem sempre um 10 aqui quer dizer que o filme é o meu favorito em alguma “disputa”, com o Oscar, por exemplo, certo? O 10 aqui sempre quer dizer que eu acho que o filme cumpriu à perfeição o seu papel, a sua proposta. Pode não ser o filme mais brilhante do mundo, mas ele fez o que pretendia sem necessitar de retoques. E é isso que eu acho deste First They Killed My Father. Um filme que apresenta uma grande história e que a respeita a cada segundo, deixando claro o seu discurso pacifista e nos dando um tapa na cara sobre o que a Humanidade já foi capaz de fazer – e ainda é, em algumas partes? Para mim, uma produção irretocável. Um belo começo de iniciar a “corrida” pelo Oscar 2018. Assistam!

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Oba! Começou a temporada de palpites para o Oscar! 😉 E não sou apenas eu, evidentemente, que começo a dar estes palpites. Especialmente os jornalistas e críticos americanos já começaram a fazer as suas listas. Da minha parte, de quem não se considera tão especialista, o que eu vou fazendo é o de sempre: vou assistindo aos filmes “habilitados” para conquistar uma vaga no Oscar e comentando o que eu achei sobre eles e que chances eu acredito que eles tem para a grande disputa do cinema mundial.

Até segunda ordem, First They Killed My Father está habilitado para concorrer a uma das cinco vagas na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Como este é o primeiro filme dos 92 que estão na disputa que eu assisto, fica difícil falar, realmente, das chances dele na premiação. Mas… francamente, por todos os predicados do filme que eu falei antes, acho, desde já, que ele tem grandes chances de chegar lá.

Há muitos críticos americanos que acreditam, inclusive, que First They Killed My Father poderia ser indicado em várias categorias, não apenas na de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Olha, realmente isso pode acontecer. Na pior das hipóteses, vejo o filme concorrendo sim ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Aí ele terá pela frente uma disputa difícil com outros filmes de grandes cineastas, como as mais recentes produções de Fatih Akin ou de Ruben Östlund. Mas acho que ele pode levar a melhor.

Isso se, claro, ele realmente não emplacar em várias outras categorias. Aí ele perderia chances em Melhor Filme de Língua Estrangeira. Há quem diga que First They Killed My Father pode concorrer como Melhor Filme, Melhor Diretora, Melhor Roteiro Adaptado e, com menos chances, até como Melhor Atriz. Realmente eu acho que ele pode chegar lá, mas vai depender muito da vontade dos votantes da Academia.

De qualquer forma, esta produção tem qualidades para tanto. Mas… por ser bem independente, eu acho mais seguro apostar nela chegando entre as cinco indicadas em Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ganhar já é outros 500. Vou me arriscar a dar este palpite depois de ter assistido aos concorrentes.

Detroit – Detroit em Rebelião

detroit

É impressionante quando a pressão extrapola qualquer barreira e a convulsão social acontece. Para tudo nessa vida existe limite. Ao assistir a Detroit, percebemos um exemplo contundente de reação contra décadas, séculos de abusos, preconceito racial e violência. E o que impacta tanto quanto assistir ao que aconteceu nesta cidade norte-americana há 50 anos, é pensar que hoje em dia, tanto tempo depois, muito da motivação do “levante popular” continua válido. Sim, nós avançamos alguns milímetros em algumas direções, mas em outras… parece que custamos a sair do lugar.

A HISTÓRIA: Começa com uma animação que explica parte das mudanças na sociedade americana. Eles comentam, por exemplo, como houve uma grande migração antes da 1ª Guerra Mundial, com muitos negros indo da região Sul para o Norte dos Estados Unidos. Eles acabam morando nas periferias das cidades, onde começam a dividir espaço com brancos que trabalham nas fábricas.

Nos anos 1960, a tensão racial atinge o seu auge, especialmente porque os negros percebem que a ideia de igualdade de oportunidades entre eles e os brancos não passa de ilusão. A mudança então parece ser inevitável. A única questão é quando e como ela vai acontecer. A partir daí, a história mostra como a panela de pressão estoura e o que acontece a partir de então em um Detroit convulsionada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Detroit): Eu gosto muito da diretora Kathryn Bigelow. Ela é um (ainda) raro caso de diretora que conseguiu conquistar com muito talento e obstinação o seu espaço de respeito em Hollywood, um local dominado por homens na direção. Kathryn conhece muito bem o seu ofício, e a cada filme ela demonstra isso com suavidade e competência, sem apostar em pirotecnia ou em exibicionismos.

Desde que lançou o ótimo The Hurt Locker, filme comentado aqui e que garantiu para ela duas estatuetas do Oscar na prateleira – uma como Melhor Filme, já que ela foi uma das produtoras da produção, e outro como Melhor Diretora -, Kathryn parece ter abraçado temas importantes para os Estados Unidos e para boa parte do mundo. The Hurt Locker fala sobre os efeitos nocivos de uma guerra “contra o terror” que parecem um tanto invisíveis e menos óbvios.

Depois, ela nos apresentou o interessante e denso Zero Dark Thirty, comentado neste texto aqui no blog. Novamente o tema era importante, o combate ao terrorismo, os seus personagens e os seus efeitos. Ou seja, entre 2010 e 2012, Kathryn nos apresentou dois filmes marcantes, ambos caracterizados por um estilo um tanto “documentarista”. De 2012 e até agora, ela havia dirigido apenas a dois curtas. Até que em 2017 ela nos apresenta Detroit, um filme que curiosamente trata sobre conflitos, mas totalmente de outra espécie.

Desta vez os inimigos não estão fora dos Estados Unidos. O perigo, o medo, a repressão e a covardia não estão longe, mas “dentro de casa”. O estilo de direção, contudo, segue o mesmo. Kathryn dá mais uma demonstração de que entende muito de cinema ao transformar a reconstituição de fatos reais em uma narrativa que lembra a de um documentário. A câmera dela se movimenta com bastante frequência, buscando reproduzir a agitação daqueles dias de convulsão social.

O tema do filme é interessante, especialmente porque os Estados Unidos tem dificuldade, na maioria das vezes, em falar de seus próprios demônios. Com muita frequência vemos ao cinema de Hollywood tratando dos “inimigos estrangeiros”, dos “bárbaros” que precisam ser combatidos de forma heroica longe de casa. Também vemos a alguns filmes humanos, demasiados humanos, sobre conflitos e dramas pessoais – mas menos do que podemos conferir no cinema europeu.

Agora, não são tão frequentes, ao menos nas últimas duas décadas, os filmes que tratam sobre os próprios problemas criados nos Estados Unidos. Sem, existem exceções à regra. Mas, no geral, o cinema de Hollywood não gosta muito de olhar para dentro de suas fronteiras. Talvez Kathryn tenha percebido isso e tenha pensado e se perguntado, diante de uma nova onda de violência policial contra negros dentro do país e a consequente revolta que isso despertou, que tipo de história ela poderia contar?

Sim, ela poderia ter focado em algum caso recente de violência policial e de morte de negros inocentes. Mas mais forte do que contar uma história recente, ainda passível de discussões e de interpretações, foi a escolha dela por voltar atrás espantosos 50 anos e mostrar que pouco avançamos desde então. A narrativa é bem feita, e algumas cenas são de arrepiar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira vítima do policial Krauss (Will Poulter), o cidadão que foi fazer compras, que corre quando vê policiais brancos armados vindo na direção dele e que é acertado pelas costas, é um grande exemplo do que acontecia na cidade convulsionada de Detroit em 1967.

Quando vemos aquela cena, maravilhosamente conduzida por Kathryn, ficamos chocados e arrepiados. E outras sequências produzem o mesmo efeito. Sim, dá para entender a revolta dos negros que vemos em cena, mas também nos perguntamos sobre como pode terminar uma situação como aquela. O caos reinante pode ter fim sem a geração de mais violência? Eu acredito que sim. Mas que nada se resolve com mais repressão e mais violência. Impressionante a cena, por exemplo, de um tanque de guerra patrulhando as ruas e disparando contra um prédio.

Detroit tem várias cenas marcantes. Estas duas que eu citei são dois bons exemplos da força a história contada pela diretora Kathryn Bigelow e com roteiro de Mark Boal. Mas… um dos problemas da produção é que ela é longa demais. Detroit tem 2h23min de duração. Hoje, mais do que antes, acho que poucos filmes merecem ter mais de 2h… a maioria poderia ter, inclusive, 1h30min de duração. Sendo assim, não. Não há necessidade de Detroit ser tão longo. Existem alguns elementos da produção que poderiam ser perfeitamente “enxugados” para tornar a narrativa mais cadenciada.

Entre várias outras sequências e fatos narrados na produção, sem dúvida o que ocupa o maior espaço no roteiro e no tempo do que vemos em tela é a sequência envolvendo o Motel Algiers em que parte dos amigos cantores do grupo The Dramatics vai se refugiar após mais uma noite tensa em Detroit. Aquele parecia ser um lugar seguro para eles ficarem até o toque de recolher passar, mas eles não sabiam que, ali, encontrariam pessoas sem noção do perigo como Carl (Jason Mitchell) que, com uma arma sem poder letal, acaba fazendo um disparo que desencadeia uma série de fatos trágicos.

Aquela sequência do motel é longa demais e parece não ter fim. A narrativa é contada em detalhes. Imagino que esta foi a intenção da diretora e do roteirista, contar os fatos minuciosamente e fazer o espectador vivenciar aquela sensação de terror sem fim. A sequência provoca angústia e indignação. Então sim, os realizadores conseguiram o efeito desejado. Mas, da minha parte, de quem gosta de uma narrativa menos redundante, eu preferia um pouco menos de repetição nesta parte do filme.

Cada um dos seis garotos e garotas que é torturado pelos policiais passa pelo mesmo “modus operandi”. Eles são questionados de forma violenta e ameaçadora quando estão em grupo e, depois, levados individualmente para um cômodo do motel para passarem por uma simulação de morte. (SPOILER – não leia se… bem, você já sabe). O problema é que um deles realmente é morto por um policial menos “ligado” na “psicologia” que está sendo usada naquela noite. Mas este não é o problema principal.

O policial Krauss, que realmente não se acha racista e acredita que apenas está “fazendo o seu trabalho”, não pensa duas vezes em matar duas pessoas desarmadas naquela noite. Logo na chegada dos policiais, ele atira para matar – e mais uma vez pelas costas – Carl. Depois, e esta é a uma das sequências mais cruéis do filme, ele mata o jovem Fred (Jacob Latimore), o último a ser solto e o único que não concorda em ficar quieto frente ao absurdo que ele presenciou. Krauss mata ele como se eliminasse a um inseto. É de arrepiar.

Então sim, Detroit tem ótimas sequências e uma narrativa franca que faz qualquer um ficar perplexo com a força que um absurdo como o racismo pode tomar tendo as condições certas para existir e se proliferar. Por outro lado, o filme tem algumas sequências repetitivas e outras que não agregam grande valor para a história – como o “chá de cadeira” que Krauss leva após fazer a sua primeira vítima, algumas sequências dele com outros policiais e, principalmente, grandes sequências que mostram The Dramatics e aquela cena musical da época.

Para mim, as melhores sequências do filme são aquelas que mostram a cidade de Detroit convulsionada, assim como a impactante ação da polícia e do Exército para reprimir o que está acontecendo. Também são marcantes as cenas dos crimes cometidos pelos policiais – representados, neste filme, pela figura de Krauss. Mas esta produção tem alguns pequenos defeitos que incomodam um pouco.

Para começar, não achei positivo o filme mostrar apenas um grande “vilão”. Até parece que apenas um sujeito “fora da curva” como Krauss é que foi responsável por grande parte do drama que vemos em cena. Sabemos que não foi assim. Vários policiais em 1967 e vários policiais hoje em dia nos Estados Unidos seguem tratando negros de forma diferente do que tratam os brancos como eles. Então não acho que ajuda a narrativa “resumir” boa parte destas figuras em apenas um personagem.

Depois, como eu disse antes, acho que o filme dedica tempo demais para questões secundárias daquela época, como o cenário musical e o grupo The Dramatics. Ok mostrar um pouco disso para apresentar um quadro mais completo da época, mas acho que a narrativa gasta tempo demais nestas partes. Também acho que o filme poderia ter condensado algumas narrativas paralelas, como os “bastidores” da polícia e até mesmo a repetição de fatos que acontecem no hotel.

Detroit é um filme importante e necessário. Toca em um tema que vale ser mostrado e debatido. A direção é bem feita, mas o roteiro podia ser um pouco mais objetivo e envolvente. No fim das contas, apesar de nos apresentar alguns personagens interessantes, não nos aprofundamos na vida de nenhum deles, além da história se distrair com pontos que não são muito relevantes para a história. Um bom filme, mas abaixo dos últimos que vimos da diretora.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu já estou de olho no Oscar 2018, meus bons amigos e amigas do blog. Vocês que me acompanham há mais tempo, sabem que eu não acho o Oscar algo fundamental ou realmente o melhor critério para definir um filme que seja bom. Sabemos que tem um peso muito grande no Oscar o lobby e os interesses da indústria cinematográfica de Hollywood – que, afinal, promove esta “festa” e premiação. Mas o que eu acho importante no Oscar é a seleção que esta premiação nos apresenta – especialmente na fase atual, em que são divulgadas listas enormes de produções que estão “habilitadas” para chegar até a premiação.

Digo isso porque vocês vão ver, pouco a pouco, eu comentando bastante sobre produções que eu acho que tem ou não chance de serem indicados ao Oscar. Detroit é um filme que teria predicados para chegar lá – uma diretora que já ganhou uma estatueta, um roteirista que também já foi premiado -, mas que, francamente, acho que não terá fôlego para tanto. Quer dizer, tudo depende da qualidade dos concorrentes deste ano. Mas olhando de “longe” para a premiação, acho que Detroit não conseguirá ser indicado. Talvez consiga emplacar a indicação a alguma categoria técnica, como Melhor Design de Produção ou Melhor Edição. Veremos.

Gostei, em especial, dos cartazes de Detroit. Neles a gente lê “Detroit. This is America”. Soco no estômago. Importante e necessário. E que este filme sirva de tema de debate dentro e fora dos Estados Unidos. Já passou da hora. E serve para nós, no Brasil, que precisaríamos discutir o preconceito racial, contra as mulheres e tantas outras formas de abuso e violência cotidiana.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma a direção de Kathryn Bigelow e a reconstrução dos detalhes da época feito pela equipe que a diretora escolheu são os pontos fortes de Detroit. Merecem elogios o diretor de fotografia Barry Ackroyd; a edição de William Goldenberg e de Harry Yoon; o design de produção de Jeremy Hindle; a equipe de 63 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis por reconstruir a Detroit de 1967; os 22 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e os 43 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais do filme.

Do elenco, poucos nomes acabam tendo destaque porque Detroit tem, na verdade, uma profusão de personagens. O roteiro de Mark Boal realmente não se aprofunda na história de nenhum deles. Como não temos o contexto das vidas dos personagens, poucos realmente chamam a atenção. Assim, do elenco, chamam mais a atenção por terem mais espaço em cena para demonstrar o seu trabalho os atores John Boyega, que interpreta a Dismukes, um segurança negro que se vê envolvido na situação dos crimes no motel; Will Poulter como o policial branco racista e assassino Krauss; Algee Smith como Larry, uma das lideranças da banda The Dramatics e que muda radicalmente de vida após a noite no motel; e Jacob Latimore como Fred, uma das vítimas daquela noite no motel e que se destaca, realmente, ao confrontar ao personagem de Krauss.

Além deles, vários outros atores fazem parte deste filme, mas em papéis menos expressivos. Ainda assim, vale citá-los. Até porque cada um deles tem algum momento de destaque na narrativa: Jason Mitchell como Carl; Hannah Murray como Julie; Jack Reynor como o policial Demens; Ben O’Toole como o policial Flynn; Kaitlyn Dever como Karen; John Krasinski como o advogado que defende os policiais Auerbach; Anthony Mackie como Greene; Nathan Davis Jr. como Aubrey; Gbenga Akinnagbe como Aubrey Pollard Sr.; Tyler James Williams como Leon; e Austin Hébert como o oficial Roberts.

Detroit estreou em première no dia 25 de julho na cidade que dá nome ao filme. Três dias depois o filme entrou em cartaz nos Estados Unidos, mas ainda em poucas cópias – um dia após o “aniversário” de 50 anos do início da revolta em Detroit -, estreando para valer no país e no Canadá no dia 4 de agosto. No Brasil, ele estreou no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, chegando ao circuito comercial apenas no dia 12 de agosto. Eu assisti ao filme há umas duas semanas, por isso não lembro de todos os detalhes dele. 😉 Mas do essencial eu me lembrei.

Esta produção custou uma pequena fortuna: US$ 34 milhões. Nos Estados Unidos, o filme fez pouco quase US$ 16,8 milhões até o dia 28 de julho. Pouco, hein? Ainda que a produção consiga uma bilheteria boa fora dos Estados Unidos, dificilmente o filme vai conseguir se pagar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Detroit foi filmado seguindo o estilo que Kathryn Bigelow adotou em The Hurt Locker. Ou seja, diversas sequências da produção tinham três ou quatro câmeras rodando ao mesmo tempo, e próximas dos atores, para dar aquela sensação de “história acontecendo sob nossos olhos”. A diretora gosta de trabalhar com atores que podem improvisar e não faz ensaios em que eles tenham pouca possibilidade de movimentação. Pelo contrário. Ela também prefere acompanhar os atores de perto, mas sem bloquear as suas possibilidades de movimento. E isso nós vemos bem em Detroit.

O ator John Boyega teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a um dos sobreviventes daquela cena do motel, Melvin Dismukes, que ele retrata nesta produção. Outro ator que está nesta produção, Algee Smith, que interpreta a Larry, da banda The Dramatics, compôs a canção Grow, que ouvimos no filme, e que é interpretada por Smith e Reed.

Grande parte da produção e toda a sequência de Argel foram rodadas em ordem cronológica.

Detroit foi rodado nas cidades de Mason, Detroit, ambas no Michigan; em Brockton, Lawrence, Boston e Lynn, todas em Massachusetts.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que garante para Detroit uma aprovação de 82% e uma nota média de 7,5. A nota dos dois sites é muito boa, levando em conta os padrões dos dois lugares que reúnem críticas do público e da crítica. Ou seja, Kathryn Bigelow agradou a ambos. Da minha parte, como disse antes, eu gostei, mas não tanto quanto eu achei que gostaria.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. Até o momento Detroit não recebeu nenhum prêmio.

Achei algumas reportagens interessantes que mostram o quanto o filme Detroit é ou não fiel ao que realmente aconteceu na cidade de Detroit em 1967. Entre outros artigos que vale conferir, destaco este do site History vs Hollywood; este outro da revista Time; mais este texto do site The Wrap e esta outra reportagem do The Detroit News. No fim das contas, o filme de Kathryn Bigelow adotou uma série de “licenças poéticas”, como se pode notar por estas reportagens. Mais um fator que deve tornar as chances desta produção no Oscar pequenas.

CONCLUSÃO: Eu gosto da diretora Kathryn Bigelow. Ela tem estilo, tem assinatura, e gosta de temas importantes/relevantes. Não é diferente com este Detroit. Novamente ela assume o seu estilo de direção um tanto “documentarista” para nos contar uma história importante para os americanos, em especial. O filme é bem feito, tecnicamente falando, e toca em temas importantes. Mas achei o desenvolvimento da história um tanto lento, em algumas partes, e a produção longa demais. Sim, a longa sequência no hotel, que parece não ter fim, é para nos causar angústia. Algo que a diretora consegue. Kathryn Bigelow entrega mais um bom filme, mas nada além do mediano. Não é o seu melhor trabalho, mas vale conferir.