Geu-Hu – The Day After- O Dia Depois

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Um dia na vida de uma pessoa pode parecer um período muito curto de tempo. Mas um dia pode ser decisivo. O interessante da vida é que, quanto mais você vive, mais você percebe que aquele dia “decisivo” também pode ser superado. E aí vem uma produção como Geu-Hu para nos mostrar isso. A vida é feita de decisões, e cada uma delas nos leva para determinados caminhos. E ainda que não seja todo dia que nos questionamos sobre questões essenciais da nossa vida, em algum momento devemos fazer isso. Esse filme aborda estas e outras questões.

A HISTÓRIA: Uma música dramática e a imagem de um apartamento. Kim Bongwan (Hae-hyo Kwon) sai do banheiro e caminha pela casa. Ele ascende a luz da cozinha, olha o que há para comer e volta por onde veio. O relógio marca quase 4h30. Kim está na mesa, comendo. Song Haejoo (Yunhee Cho) pergunta para ele se a comida está boa. Ele diz que sim. Então ela pergunta porque ele está indo tão cedo trabalhar.

Kim diz que não vai sair imediatamente, mas que não consegue dormir. Song pergunta se ele está tendo um caso, e afirma que ele está estranho ultimamente. Ela insiste sobre o caso, e ele não responde a pergunta. Em breve ele vai sair para o trabalho, onde uma parte importante da vida dele acontece.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Geu-Hu): Logo de cara, gostei da fotografia em preto e branco desse filme e da trilha sonora dramática e vigorosa dos primeiros segundos. Também gostei muito da expressividade do protagonista, interpretado por Hae-hyo Kwon, e do filme dirigido e com roteiro de Sang-soo Hong ter um foco tão grande nos diálogos, na interação dos personagens e na vida comum.

Esses são os pontos positivos de Geu-Hu que qualquer espectador percebe logo de cara. Depois, surge algo interessante: uma narrativa não linear que nos deixa com uma certa dúvida por algum tempo. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme ainda). Da sequência na cozinha da casa do casal Kim e Song, partimos para a saída de Kim de casa para o trabalho e, logo depois, para uma sequência dele – ou de alguém muito semelhante a ele – caminhando bêbado com uma garota, que vamos descobrir, depois, ser Lee Changsook (Sae-byeok Kim).

Nesse momento, fiquei pensando: “De duas uma, ou estamos vendo a trechos de Kim em momentos diferentes, ou seja, temos narrativas paralelas e não lineares se entrelaçando, ou o personagem de Kim tem um irmão gêmeo ou um sósia”. Algo do gênero. Conforme a história vai avançando, descobrimos que Sang-soo Hong nos apresenta uma narrativa que vai e vem no tempo, conforme o protagonista – assim me pareceu – vai se lembrando dos fatos.

Song perguntou na lata para o marido se ele estava tendo um caso. E o faro dela não poderia estar mais apurado. De fato, Kim começou a namorar com Lee, a funcionária que ele tinha na editora na qual ele é o chefe. Mas como eles acabam brigando, Kim acaba contratando uma funcionária nova. E aí que entra em cena Song Areum (Min-hee Kim).

Grande parte do filme se passa mostrando o primeiro dia de trabalho de Song Areum, que tem um dia bastante agitado e controverso. Sou honesta em dizer que fora o começo interessante e esse “mistério” da narrativa que logo é resolvido, Geu-hu apresenta pouca novidade. Na verdade, o filme se caracteriza por uma narrativa bastante lenta, cheia de diálogos e focada em um “dia comum” na vida de pessoas comuns. Ainda sendo franca, admito que eu assisti a esse filme tarde da noite e que ele me deu muito, muito sono.

Venci a vontade de dormir e consegui assistir ele até o final. Mas essa não foi uma tarefa realmente fácil. Geu-hu tem uma narrativa um tanto “entediante” – e eu acho que isso é proposital – e que pode dar sono, mas que também nos faz refletir. Afinal, em um dia comum qualquer, podemos nos questionar sobre o sentido da vida, sobre o que andamos fazendo e sobre ter ou não fé – e no que. Pode parecer incrível, mas Geu-hu coloca tudo isso em cena de maneira muito natural e despretensiosa.

E foi isso que eu gostei no filme. Como ele nos faz pensar como a rotina pode nos “engolir” e nos fazer tomar atitudes impensadas. Sobre como é importante, algumas vezes, parar e fazer algumas das perguntas fundamentais. Como algumas das questões que Song Areum apresenta para o seu chefe. Os melhores diálogos do filme, aliás, estão em uma das refeições que os dois fazem juntos, durante a qual Song Areum pergunta para Kim pelo que ele está vivendo.

Aí o protagonista começa a fazer todo um discurso sobre a diferença entre a realidade, o dia a dia, e esse tipo de “sentido” das coisas. Ele defende que existe um descolamento entre esses dois cenários. Song Areum não concorda, e fala sobre a importância de acreditar em algo. Enfim, diálogos bastante interessantes. Depois, Kim revela toda a sua falta de coerência quando insiste para Song Areum continuar a trabalhar com ele até que a amante aparece em cena.

Enfim, o protagonista desse filme é um “cara comum”, como tantos outros com os quais a gente cruza todos os dias. Quantas pessoas você conhece que são coerentes? Quantas se perguntam, de tempos em tempos, pelo que estão vivendo? Você e eu, o quanto fazemos isso? Assim, sem mais, em um dia comum como tantos outros, o protagonista desta história tem alguns dilemas importantes sobre os quais refletir. E, de quebra, Sang-soo Hong nos faz refletir junto através de seu singelo (e um tanto “sonolento”) Geu-hu.

Algo que eu achei interessante nesse filme é que ele não se concentra apenas naquele dia longo e um tanto caótico em que King Bongwan deve lidar com três mulheres – a esposa, a amante e a nova e interessante nova funcionária. O filme poderia ter terminado ali, naquela atitude “covarde” do protagonista de mudar tudo (dispensar Song Areum) para deixar tudo como estava (seguir com a amante e enganando a esposa).

Achei bacana como Geu-hu mostra o “dia seguinte” (dito de forma figurativa, é claro) daquela situação. O tempo passa, e Song Areum volta à editora depois que Kim Bongwan recebe um prêmio. Novamente o filme desperta a nossa curiosidade, porque parece que estamos vendo ao primeiro dia de Song Areum com algumas pequenas diferenças… estaria a história se repetindo, mas de outra forma? Estaríamos vendo uma “realidade paralela” que não aconteceu?

Logo essa dúvida é respondida. Não se trata de uma “realidade paralela”, mas da simples falta de memória do protagonista. Ele repete várias perguntas que fez para Song Areum da primeira vez e sem se dar conta, até que ela fala sobre isso com ele. Daí descobrimos que, no fim das contas, King Bongwan acabou se confrontando com aquela pergunta sobre “para que” ele vivia. Confrontado pela esposa e pela filha, ele optou por viver pela filha, abandonando a amante e, com isso, encontrando o seu próprio “centro”, talento, paz e harmonia.

Sim, nesse aspecto o filme acaba sendo um tanto “moralista”. Mas, mais que isso, eu encaro esse filme como uma reflexão sobre o que fazemos das nossas vidas. Por que escolhemos determinados caminhos e não outros? Até que ponto deixamos “a vida nos levar”? E o quanto isso pode nos fazer sentido ou nos deixar felizes?

Enfim, achei um filme “ordinário” com algumas pegadas interessantes. O único porém é que ele realmente dá sono. 😉 Mas vencendo esse desafio, encontramos no cinema de Sang-soo Hong alguns princípios não muito comuns e, por isso mesmo, interessantes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estava com saudade de assistir a um filme da Coreia do Sul. Sim, verdade que andei focada nas produções que concorreram ao Oscar. Depois, com alguns filmes que estrearam nos cinemas do Brasil. Mas estava já com vontade de me lançar em algumas formas de fazer cinema diferentes. Gosto do cinema sul-coreano – além do segmento mais famoso, dos filmes de suspense e de terror. Gostei de retomar esse cinema, ainda que esse filme não seja do tipo “excepcional”. Mas vale para conhecer outras formas de fazer cinema.

Geu-hu tem poucos personagens e, consequentemente, poucos atores em cena. A explicação principal para isso é aquela que eu comentei antes: essa produção está focada nos diálogos e na interação dos personagens, procurando se aprofundar em poucos deles. Todos os atores em cena estão bem, mas eu fiquei especialmente encantada por Min-hee Kim, que interpreta a Song Areum, e com a expressividade de Hae-hyo Kwon, que interpreta Kim Bongwan. Eles são ótimos.

Gostei do estilo do diretor e roteirista Sang-soo Hong. A direção dele é bastante tradicional, com muitos momentos de câmera parada para filmar os diálogos e interações dos atores, mas o roteiro dele é algo mais interessante. Ele mistura diálogos “banais” com verdadeiras peças de reflexão e interações interessantes e instigantes. Com perspicácia, ele nos faz refletir sobre os nossos dias comuns, e como em alguns dias desses decidimos boa parte da nossa vida.

Entre os aspectos técnicos do filme, o destaque vai para a direção de fotografia de Hyung-ku Kim e para a trilha sonora pontual, dramática e potente. Também vale comentar a competente edição de Sung-Won Hahm.

Geu-hu estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros 20 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros 13. Os prêmios que ele recebeu foram o Grande Prêmio para Sang-soo Hong e o de Melhor Ator para Hae-hyo Kwon conferidos pela Associação de Críticos de Cinema de Busan; o de Melhor Filme que não foi lançado em 2017 e o de Melhor Atriz para Min-hee Kim conferidos pelo International Cinephile Society Awards.

O diretor Sang-soo Hong tem 26 produções no currículo como diretor. Geu-Hu foi o penúltimo filme que ele dirigiu – o último, lançado nesse ano, se chama Grass. Sang-soo Hong tem nada menos que 42 prêmios no currículo, incluindo um prêmio Un Certain Regard no Festival de Cinema de Cannes pelo filme Hahaha, de 2010. Procurei aqui no blog, e encontrei outro filme dele que eu assisti antes: Right Now, Wrong Them (com crítica por aqui). Mas fiquei com vontade de assistir a outras produções dele. Acho que ele merece ser acompanhado. Tem um cinema autoral interessante – e que fala bastante sobre as escolhas que fazemos e que nos definem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para Geu-hu, enquanto que os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas positivas e cinco negativas para a produção, o que significa uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3 para essa produção. O site Metacritic registra um metascore para o filme de 67, com cinco críticas positivas e duas medianas.

CONCLUSÃO: Esse não é um filme nada óbvio. Muito pelo contrário. Ainda que ele nos pareça um tanto “entediante” e que ele realmente dê sono em alguns momentos, Geu-Hu é um desses filmes “despretensiosos” que exigem que estejamos atentos a cada diálogo, a cada movimento. Porque, como na vida mesmo, é nos momentos mais imprevistos em que colhemos os melhores ensinamentos.

Filme com uma boa carga filosófica que termina nos deixando em dúvida sobre o que pensamos a respeito dele. Isso é natural, porque Geu-Hu só vai fazendo sentido aos poucos. Filme interessante e diferente do que estamos acostumados a assistir. Vale conferir se você gosta de produções diferenciadas e não se importa com narrativas lentas e aparentemente “comuns”. Só não achei melhor porque ele realmente acaba sendo bastante entediante em muitas partes. Mas vencido o sono, depois que o filme termina, percebemos que valeu a experiência.

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A Quiet Place – Um Lugar Silencioso

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Vivemos em sociedades cheias de barulho, de ruídos, de verborragia. É difícil encontrar o silêncio, muitas vezes, mesmo quando ele é tão necessário. Agora imagine uma sociedade em que o silêncio impera. E, mais que por qualquer outra razão, por uma questão de sobrevivência – e de poucos. Esse é o pano de fundo do interessante A Quiet Place. O filme assusta menos do que o esperado, mas tem alguns insights bastante interessantes. Ele também faz pensar, especialmente sobre um ou dois pontos que não ficam tão claros na história – mas estão subentendidos.

A HISTÓRIA: Dia 89. Vemos a uma cidade deserta, com ruas vazias, e dentro de uma venda, encontramos uma parede cheia de fotos de pessoas desaparecidas. Nesse local, abandonado, mas com muitos produtos – incluindo medicamentos – dentro, uma criança caminha ligeiro e na ponta dos pés. Em seguida, vemos a uma menina maior caminhando no local, e um garoto sentado no chão.

A mãe das crianças, Evelyn Abbott (Emily Blunt), surge em seguida e começa a buscar um remédio específico entre os medicamentos que estão em uma prateleira. Em seguida, ela dá o remédio para o filho maior, Marcus (Noah Jupe). Eles falam pela língua de sinais, e o garoto diz que está bem. O filho menor, Beau (Cade Woodward), desenha uma nave no chão e mostra para a irmã, Regan (Millicent Simmonds). Ele diz que é assim que eles vão fugir. A obsessão do garoto pelas espaçonaves acaba colocando a família em risco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Quiet Place): Que filme interessante! Uma produção que, como tantas outras de qualidade, tem mais de uma camada de leitura e de interpretação. A Quiet Place tem uma pegada curiosa desde o princípio. Para começar, pela coragem do filme ser todo baseado no silêncio. Hoje, na sociedade em que vivemos, incluindo a cultura de filmes cheios de som e de efeitos especiais, investir em uma história com essa pegada é realmente algo corajoso.

Apenas por isso, o filme já merece os parabéns. Porque ele vai contra a corrente dos blockbusters dos anos 2000 e apresenta uma outra forma de fazer cinema tão interessante quanto – cada uma com o seu propósito, é preciso ponderar. Além disso, o diretor, roteirista e protagonista desta história, John Krasinski, acerta ao apostar em um cinema sensorial e que resgata alguns dos princípios do cinema do grande Alfred Hitchcock.

Aqui não interessa tanto as razões do que estamos assistindo. Não sabemos como tudo começou – apenas por alguma pincelada aqui e ali – ou como a família que conduz essa história sobreviveu. O que importa em A Quiet Place é o tempo atual, os desafios dos personagens e, principalmente, o perigo que eles enfrentam a todo momento. Apesar das regras do perigo serem claras – você deve evitar fazer barulho o tempo todo -, o filme ganha pontos ao mostrar que as pessoas se acostumam com tudo, até com aquele estado de atenção constante.

A Quiet Place consegue equilibrar, assim, momentos de pura tensão e adrenalina por causa do perigo que ronda os personagens com cenas de um “cotidiano” já esquecido por aquele contexto. Algumas das cenas que eu mais gostei do filme tem a ver com isso. Além do desejo de brincar do pequeno Beau, logo no início do filme, até a bela cena em que Evelyn procura o marido, Lee, para os dois dançarem juntos – ouvindo a música com fones de ouvido, é claro.

Graças a essas escolhas, o filme de Krasinski não se resume apenas a um compêndio de cenas tensas. As sequências de “vida real”, de pais tentando fazer o melhor possível para criar, educar e proteger os seus filhos em um ambiente totalmente perigoso e tenso, é o que torna essa produção interessante e passível de empatia. Não é difícil se colocar no lugar dos personagens – tanto adultos quanto das crianças. E isso é algo mágico no cinema.

A Quiet Place acerta, assim, no tom e na narrativa. Além disso, ele nos faz pensar em pontos essenciais sobre a visão de mundo das pessoas e sobre cenários “pós-apocalípticos”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos primeiros pensamentos que veio na minha mente, quando o tempo passa e o filme salta daquele começo para o dia 473, quando vemos a protagonista grávida, foi: “Claro, você vive em uma realidade em que você não pode fazer barulho, ou falar, ou gritar, e qual é a melhor alternativa nesse cenário? Engravidar e ter um filho que já vai nascer chorando”.

Mas aí você pensa: “Ok, estou em um cenário pós-matança geral das sociedades. Como eu vou continuar com a civilização se eu não tiver filhos?”. Algo estilo Noé. Por isso eu falava sobre as várias camadas dessa produção. Certamente o casal de protagonistas tinha essa convicção de que eles deveriam continuar a ter filhos para “preservar a espécie”. E, também, possivelmente, porque eles são casados e, segundo algumas crenças, são isso que os casais fazem, certo? Eles têm filhos.

Essas são as únicas justificativas para aceitarmos que um casal continue a ter filhos naquele cenário mostrado por A Quiet Place. Então, assim meio sem querer, esse filme nos coloca em questão a reflexão lógica e o sentido de sobrevivência versus a questão das crenças, da fé e afins. Porque realmente não faz o mínimo sentido os Abbott pensarem em ter um filho naquela realidade em que o silêncio é fundamental.

Por causa dessa ideia, que nos desafia a lógica e também a nossa capacidade de aceitar as escolhas diferentes dos demais, é que A Quiet Place começa a revelar os seus pequenos defeitos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, é interessante que o casal Abbott tenha pensado em um “quarto” quase à prova de som onde, em teoria, o filho deles iria nascer. Mas as coisas saem mal – e isso sempre rende bons momentos em filmes de suspense e terror – e Evelyn acaba tendo o filho no banheiro que não é à prova de som.

Ora, eis o primeiro problema da história – talvez até tenham tido outros antes, mas esse me pareceu o mais gritante. Se alguns tiros despertam a atenção de vários “bichos estranhos” no final do filme, o nascimento de uma criança não iria fazer o mesmo? Para que aquela cena do banheiro se justifique, a criança teria que ter nascido em pleno silêncio. Alguém realmente acredita nisso? Que a mãe tenha se esforçado ao máximo e não tenha gritado de dor, tudo bem, mas a criança ter nascido sem abrir o berreiro… não é impossível, mas é extremamente improvável.

Além disso, me pareceu um tanto forçado o fim de Lee. Ok, Regan poderia não ser muito “esperta” ou ter pensamento rápido, mas realmente, além do aparelho dela a incomodar, ela não reparou que ele afastava o perigo? Na cena da caminhonete, foi a segunda vez que ela passou por aquilo. E o que ela faz? Ao invés de afastar o perigo, ela desliga o aparelho e deixa todos vulneráveis. E aí o pai das crianças, claro, assume a responsabilidade de protegê-las de qualquer forma.

Aquela sequência me pareceu um tanto forçada por causa disso. Também me pareceu um tanto forçado que a solução para aquele problema tivesse sido descoberto daquela forma, acidental, e por uma pré-adolescente, enquanto exércitos e cientistas antes forma exterminados sem terem pensado naquela mesma ideia. Para mim, esses são os problemas da produção, junto com a sequência em que Evelyn escapa com o bebê mesmo tendo ficado frente a frente com o inimigo quando a “sala segura” é inundada.

Mas descontados esses pequenos problemas do roteiro, esse filme se apresentar muito potente e interessante. Ele realmente envolve o espectador e nos faz, com bastante facilidade, nos sentirmos “na pele” dos personagens. Apesar disso, desse resgate salutar de filmes que alimentavam a nossa tensão explorando muito mais as fragilidades humanas do que os “perigos inexplicáveis” – vide Hitchcock -, eu esperava me assustar mais.

A Quiet Place é um filme muito eficaz em nos deixar tensos. Em esperarmos o pior a qualquer momento. Mas ele não nos apavora ou nos assusta como outras produções já conseguiram antes. Eu procuro não ler sobre os filmes antes de assisti-los, mas acabei vendo, aqui e ali, em portais de notícias, que alguns consideravam esse filme o mais inovador em muito tempo. Sim, A Quiet Place tem uma pegada interessante e criativa, mas não acho ele tão surpreendente quanto Get Out (comentado aqui), por exemplo.

Assim, para resumir, A Quiet Place é um filme interessante, com uma proposta diferenciada em meio a tantos filmes cheios de som e de efeitos especiais, mas que acaba caindo em alguns lugares-comum. Por exemplo, as características da ameça que a família Abbott enfrenta. Será mesmo que não vamos conseguir abandonar aquele perfil de “alien” que já conhecemos? Não fica evidente se a ameaça veio de fora da Terra ou se é produto de uma mutação, mas isso pouco importa. Impossível não lembrar dos filmes Alien ou Predator.

Então esse certo “lugar-comum” do perfil da ameaça enfrentada pelos personagens me incomodou um pouquinho. Por outro lado, achei interessante outra leitura que surge após o filme terminar. Você pararam para pensar em quem era a pessoa mais preparada para enfrentar aquele cenário? Alguém que nasceu no silêncio e que não teria dificuldade alguma em conviver com ele até o final? Sim, justamente a personagem surda-muda de Regan.

Isso me fez pensar. O que é, afinal, uma pessoa “menos preparada” para o mundo? Já tivemos imbecis na história da nossa civilização que acreditavam em desenvolver uma “super raça” de pessoas perfeitas e em eliminar todos aqueles que tinham alguma “imperfeição” – até hoje há imbecis que defendem esse equívoco. E aí vem um filme como A Quiet Place para nos mostrar, como com um tapa na cara, que talvez essas pessoas “imperfeitas” – e quem não é? – sejam just

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de A Quiet Place é que a história é centrada em poucos personagens. Assim, fica mais fácil do público “se aproximar” deles e de desenvolver a empatia necessária para “sofrer” e sentir a tensão junto com eles. Sem dúvida alguma, uma escolha acertada para essa produção funcionar.

Fiquei especialmente feliz em ver a John Krasinski novamente. Primeiro, estrelando um filme que caiu na graça do público e da crítica. E, depois, ao saber que ele é o grande responsável por A Quiet Place. Krasinski escreveu o roteiro ao lado de Bryan Woods e Scott Beck, a dupla que teve a ideia original de A Quiet Place, e também dirigiu o filme. Eu gosto muito dele desde a época de The Office – uma grande série, aliás. Se você ainda não assistiu à versão americana da série inglesa, versão essa que conta com Krasinski, vá atrás. Vale muito a pena.

Além de Krasinski, que faz um belo trabalho como o protagonista dessa história, estão muito bem em seus papéis também as atrizes Emily Blunt e Millicent Simmonds e o jovens atores Noah Jupe e Cade Woodward. Toda a história gira em torno da família formada por eles, mas algumas outras figuras aparecem rapidamente em cena. Como o casal de idosos que aparece na floresta e que é interpretado por Leon Russom e Doris McCarthy.

Entre os elementos técnicos do filme, vale destacar a ótima fotografia de Charlotte Bruus Christensen; a trilha sonora fundamental de Marco Beltrami; a edição precisa de Christopher Tellefsen; o design de produção de Jeffrey Beecroft; a direção de arte de Sebastian Schroeder; a decoração de set de Heather Loeffler; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone; o fundamental trabalho dos 20 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e o trabalho dos 42 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Agora, estava pensando em um ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu não li ainda vários textos sobre esse filme. Mas consigo imaginar que ele pode suscitar uma série de debates e questionamentos. Por exemplo, imagine você ficando grávida – se for mulher, claro. E se for marido dessa mulher, imagine você sabendo que a sua mulher está grávida em um cenário em que vocês não podem nem conversar. O que você faria?

Da minha parte, eu procuraria um bunker ou um lugar similar, já planejado para ter uma super proteção e que fosse à prova de som. Então porque os Abbott não procuraram um bunker? Claro, você vai dizer, porque aí esse filme não existiria. Até pode ser, ou ele existiria com um pouco mais de inteligência e outros desafios a serem vencidos. 😉 Mas que faria mais lógica uma busca dessa, certamente.

Digam o que disserem, mas em um cenário pré-apocalipse de “invasão alienígena” – ou do que for -, os jornais ainda seguiam importantes. 😉 Vide os recortes guardados por Lee e o jornal da banca que já nos falava no início do filme sobre a grande questão naquele momento. A manchete dizia, simplesmente: “É o som”. Interessante.

Achei muito interessante uma sacada dessa produção. Como em um jogo de videogame “modernete”, a história muda conforme “varia” a perspectiva dos personagens. Assim, ouvimos sons normalmente quando estamos vendo a realidade sob a ótica de Evelyn, Lee ou Marcus, mas não escutamos nada quando estamos sob a ótica de Regan. Sacada bacana essa. Funciona muito bem e dá outra perspectiva para o filme e os espectadores.

A Quiet Place estreou no dia 9 de março no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou de apenas mais um festival de cinema, o Blood Window Fest. No Brasil, o filme estreou no dia 5 de abril. Assisti ele há uma semana e gostei do que eu vi – apesar das considerações que eu fiz acima.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. A atriz Millicent Simmonds é surda desde a infância por causa de uma overdose de medicamentos. A Quiet Place foi o segundo filme que ela fez. Achei a atriz muito talentosa e com grande expressividade. Torço para que ela tenha outros filmes interessantes para fazer.

O roteiro original de Bryan Woods e de Scott Beck tinha apenas uma linha de diálogo. Curioso. O roteiro deles foi eleito um dos 10 melhores do ano segundo o Tracking Board, uma eleição anual feita por profissionais da indústria do cinema nos Estados Unidos.

Os atores John Krasinski e Emily Blunt são casados na vida real. Inicialmente, Woods e Beck escreveram o roteiro para a Paramont, que enviou o material para Krasinski, que já tinha sido escolhido para estrelar o filme. Quando a esposa dele leu o roteiro, ela também quis participar. E foi assim que os dois estrelaram essa produção. E, cá entre nós, eles SÃO o filme. Estão ótimos e muito, muito convincentes.

Por pouco a Paramount não colocou A Quiet Place como um filme da franquia Cloverfield. Mas os realizadores – especialmente os roteiristas – ficaram aliviados por conseguirem fazer um filme independente. Honestamente, não assisti aos filmes Cloverfield. Por isso, pergunto para quem já os viu: faria sentido A Quiet Place entrar nessa franquia? Mesmo sem esse conhecimento de causa, essa ideia me pareceu um tanto estranha.

Algo importante para a história – e algo que me fez pensar enquanto eu assistia ao filme: o dispositivo que Reagan utiliza é um implante coclear e não um aparelho auditivo simples. E a explicação para isso: “A deficiência auditiva geralmente envolve danos ou subdesenvolvimento da cóclea, que traduz vibrações no ar para impulsos nervosos que o cérebro percebe como som”. Ou seja, a personagem não tinha apenas um aparelhinho colocado no ouvido, mas um implante que provavelmente lhe causava uma dor muito maior quando entrava em “conflito” com a “sintonia” das criaturas.

A Quiet Place foi filmado em 36 dias. Essa produção, segundo o site Box Office Mojo, teria custado cerca de US$ 17 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 67 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez quase US$ 25,7 milhões. Ou seja, no total, até o dia 12 de abril, A Quiet Place tinha faturado US$ 92,7 milhões. Alguma dúvida que ele está rendendo um belo lucro para os produtores e o estúdio? Fico feliz por esse resultado, porque ele pode incentivar os estúdios a apostarem cada vez mais em produção não muito óbvias. E nós, que amamos cinema, ganhamos com isso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 222 críticas positivas e 11 negativas para esse filme, o que garante para A Quiet Place um nível de aprovação de 95% e uma nota média de 8,2.

Por sua vez, o site Metacritic registra um metascore de 82 para essa produção, com um raro registro de 54 críticas positivas para o filme (e nenhuma negativa ou mediana). Essas notas, altas para os padrões dos sites, e o nível de críticas positivas demonstra como esse filme caiu no gosto do público e da crítica de uma maneira especial.

Esse é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um filme interessante, com algumas ideias bacanas e bem desenvolvido. Mas sou franca em dizer que eu esperava mais, até porque A Quiet Place recebeu muitos elogios – que eu vi bem por cima, mas que foram suficientes para aumentar a minha expectativa. Essa produção se destaca pelo trabalho dos atores, pela angústia e pelo suspense bem construídos, mas se torna um pouco óbvia e previsível em algumas partes. Não é tão surpreendente quanto Get Out, por exemplo. Mas vale ser visto, especialmente pelo que nos faz refletir depois que a projeção termina e que passamos a refletir sobre detalhes da história.

Icarus – Ícaro

icarus

Um documentário que pretende ser algo e que muda totalmente de direção conforme os fatos se desenrolam. Uma história com requintes de suspense e de ação inesperados. Icarus é um filme que dificilmente vai deixar você incólume sobre os Jogos Olímpicos e grande parte do esporte profissional no mundo.

Da minha parte, de quem sempre admitiu ser uma grande fã das Olimpíadas, certamente eu não vou ver mais essa competição da mesma forma. Um documentário diferente e muito interessante que nos desvela teorias que apenas tínhamos esboçadas, mas sem nenhuma prova ou enredo para realmente comprovar as nossas suspeitas.

A HISTÓRIA: Começa apresentando a frase “Em uma época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”, de George Orwell. Em seguida, ouvimos a vários trechos de áudios de vários atletas falando sobre doping, geralmente alegando a própria inocência. Em meio a eles, surge uma narração sobre a vontade de Lance Armstrong em vencer a Volta da França. Junho de 2014, em Boulder, Colorado. O diretor Bryan Fogel comenta que está se preparando para a prova para ciclistas amadores mais difícil do mundo.

Ele comenta que essa prova é uma mini Volta da França “para loucos” – ou seja, tem alguns dos mais difíceis trechos da competição para profissionais. O diretor explica que é ciclista amador há 28 anos, e que recorda de LeMond ganhando a Volta da França quando ele estava na sétima série – LeMond foi o primeiro americano a conseguir isso, o que incentivou Fogel. Amante do ciclismo, ele ficou fascinado por Armstrong, até que o herói se revelou falho ao admitir doping. E aí o diretor resolveu fazer um documentário sobre isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Icarus): Estava com vontade de assistir a esse documentário desde o início do ano, quando vi que Icarus era um dos candidatos fortes ao Oscar 2018 de Melhor Documentário. Foi então que eu soube, de leve, que ele tratava sobre doping, mas isso foi tudo.

Quem me acompanha há algum tempo aqui no blog sabe que eu não gosto de ler sobre os filmes antes de assisti-los. Justamente para não ter a minha leitura afetada por outras análises. Mas foi impossível não saber sobre o tema de Icarus. Isso, no fim das contas, não afetou a minha experiência sobre o filme. Até porque eu não sabia o que esperar, exatamente, sobre uma produção com essa temática.

Por isso mesmo, achei Icarus surpreendente. Primeiro, porque o filme tem uma pegada de suspense e de “intriga policial” que não é muito comum em documentários. Na verdade, Icarus se assemelha mais a um filme de suspense ou policial, em alguns momentos, do que de um filme tradicional de documentário.

Isso acontece por causa da reviravolta que acontece na história. Como eu comentei no resumo da produção, inicialmente a intenção do diretor e ciclista apaixonado Bryan Fogel era demonstrar nele próprio como o doping é feito por atletas sem que eles sejam pegos por isso em exames antidoping. Por ter essa característica, este filme entra na lista de produções do tipo “diretor que faz um experimento” – a exemplo de Super Size Me, de Morgan Spurlock, e de vários outros documentários.

Bem, ao menos essa era a intenção de Fogel. Icarus começa desta forma, com o diretor explicando o seu fascínio sobre o ciclismo, comentando que ele pedala de forma amadora há 28 anos e que ele, após ficar chocado com a história do doping do ídolo Lance Armstrong, resolveu comprovar na prática como os exames antidoping são falhos.

Para isso, ele vai procurar um dos maiores especialistas nesta área, o americano Don Catlin – que aparece em uma das imagens em que Armstrong falou sobre o escândalo do doping envolvendo os ciclistas americanos. Inicialmente, Catlin dá entrevista para Fogel e fala categoricamente que todos os atletas daquela equipe se dopavam. Como ele mesmo diz, “Infelizmente as drogas funcionam”. E complementa afirmando que, com certo conhecimento, dá para passar pelos exames antidoping tranquilamente.

Uma prova disso é que o próprio Armstrong, apesar de tomar substâncias proibidas segundo a Wada (Agência Internacional Anti-Doping), nunca foi pego em cerca de 500 exames antidoping em sua carreira. O próprio Catlin fez cerca de 50 exames desse tipo com amostras da urina de Armstrong e nunca detectou nada. E olha que ele é um grande especialista no assunto. Por isso ele falou de maneira tão franca com Fogel que o antidoping não funciona.

Inicialmente, segundo o diretor, Catlin tinha topado ajudar o diretor em seu plano de fazer um doping controlado que visava melhorar o seu desempenho como atleta e, de quebra, passar nos exames antidoping. Assim, Icarus começa com Fogel falando do seu plano e participando, pela primeira vez, da Haute Route, a prova para ciclistas amadores mais difícil do mundo – ela reproduz, basicamente, os sete dias mais difíceis da prova Volta da França.

Pois bem, sem usar doping, Fogel participa da prova em 2014 e consegue um resultado excelente: o 14º lugar entre “440 masoquistas”, como ele mesmo chamou os participantes da disputa. Ele ficou, basicamente, atrás do pelotão de elite desse tipo de competição. Em seguida, a ideia dele era começar o “tratamento” de doping para, no ano seguinte, melhorar ainda mais o seu resultado na Haute Route.

Mas antes de começar a se encher de injeções e de começar a sua programação de doping, o diretor recebe um e-mail e algumas mensagens de Catlin afirmando que ele estava preocupado com o seu legado. Em outras palavras, ele pulou fora do projeto. Mas indicou uma pessoa que poderia ajudar o diretor nesse “plano de doping”: o russo Grigory Rodchenkov. Segundo Catlin, ele era um “velho amigo” e alguém que poderia auxiliar Fogel com conhecimento.

Justamente essa mudança de planos é o que acaba mudando totalmente essa produção. Quando Fogel começa a conversar com Rodchenkov, ele ainda está em Moscou, e vivendo tranquilamente. Mas tudo isso vai mudar de figura conforme o escândalo do doping russo começa a ser revelado. Como o diretor mesmo diz no filme, quando Catlin desembarcou do projeto e indicou Rodchenkov, essa ação “desencadeou toda uma cadeia de eventos”.

E foi verdade. Se, por um lado, as denúncias sobre o doping de atletas russos não foi provocada por Fogel, por outro lado o diretor teve um papel importante no desenrolar dos fatos envolvendo Rodchenkov. Assim, o filme do diretor acaba seguindo dois caminhos diferentes após todo o escândalo russo vir à tona.

Mas, antes, acompanhamos como Fogel trabalha em parceria com Rodchenkov para passar por um programa de doping e melhorar o seu desempenho físico em cerca de 20%. Ele chega também a participar do segundo ano da Haute Route, mas acaba tendo alguns problemas com a bicicleta – algo que não fica bem explicado no filme, na verdade -, o que lhe faz ter um desempenho bem pior do que no ano sem o programa de doping.

O importante, contudo, não era tanto ele se sair melhor na prova, mas apesar de fazer todo o programa de doping, não ser pego por isso. Realmente ele sai ileso. Mas logo estoura a bomba do doping russo. E aí sim o filme passa a ter dois caminhos totalmente diferentes daquele previsto inicialmente pelo diretor.

Por um lado, ele vira uma testemunha privilegiada dos acontecimentos envolvendo as investigações da trama governamental russa em favor do doping – ao menos conhecendo de perto a leitura dos fatos feita por Rodchenkov. Por outro lado, ele acaba sendo um personagem dos fatos a partir do momento que oferece “guarita” para o “amigo” que está se sentindo perseguido e ameaçado. E, assim, Fogel se torna personagem da trama do doping russo ao trazer para os Estados Unidos o controverso Rodchenkov.

Esses são alguns elementos que tornam Icarus tão interessante. Afinal, nunca poderíamos imaginar, no início do documentário, que ele trilharia caminhos tão diferentes. Questões sobre as quais só tínhamos ouvido falar e que pareciam um tanto “fantasiosas” e/ou parte de “teorias da conspiração”, como eram os rumores sobre estratégias de doping orquestradas por países para transformarem os seus atletas em “super-atletas”, a eliminação de desafetos orquestrado pelo governo russo e a vigilância estratégica do FBI sobre tudo que acontece nos Estados Unidos, são confirmadas nesse filme. E quem poderia esperar por isso?

Por tudo isso, Icarus acaba se transformando naquele estilo de filme que eu comentei antes, uma mescla de documentário com trama policial e de suspense. É assustador como Fogel destrincha os bastidores do esporte profissional manchado e corrompido pelo doping, assim como o envolvimento do governo russo no caso desvelado daquele país. Inevitável não imaginar que diversos outros países recorrem àquela mesma estratégia.

E aí sim, chego à reflexão principal que Icarus me despertou. Quem nos garante que grande parte dos resultados que vemos a cada quatro anos nos Jogos Olímpicos não acontecem porque os atletas estão “modificados” pelo doping? Como seguir acreditando na “superação humana” que as Olimpíadas simbolizam se boa parte dos resultados são obtidos através de fraude? Porque não existe outro nome para o doping. Esse é um tipo de corrupção, um tipo de fraude que termina com o princípio da igualdade entre todos.

Francamente, Icarus abalou o meu fascínio sobre as Olimpíadas. Porque desconfio que eu não vi e me emocionei apenas com medalhas fraudulentas de atletas russos, mas que isso ocorreu também com vários atletas de diferentes países. E isso não se restringe apenas às Olimpíadas, mas a diversas outras competições esportivas com atletas profissionais. Quem nos garante que boa parte daquelas pessoas não está atingindo novas marcas e recordes não por mérito e por superação das “limitações” humanas, mas por causa de drogas que não são permitidas pelos esportes?

Por tudo isso, esse filme mereceu o Oscar de Melhor Documentário. Porque apesar de termos muitos filmes importantes e que mexem em temas muito atuais, há tempos eu não assistia a um documentário que mexeu com toda uma estrutura de crenças sobre um determinado tema. Da minha parte, certamente eu vou assistir às Olimpíadas e a outras competições esportivas com outros olhos. Certamente, com muito mais desconfiança.

No geral, Fogel revelou um grande talento como narrador de um história. Ele conduz muito bem esse filme e envolve o espectador em todo o momento – especialmente quando a trama ganha aqueles requintes de filme policial. Muito bem editado, com uma trilha sonora envolvente e uma narrativa bem planejada, Icarus é um documentário que não cansa, apesar do tema um tanto árido.

Serve também de reflexão para o público, já que ele revela, mais do que outros filmes do gênero, o quanto o diretor pode interferir na realidade – todo documentarista faz isso, mas nem todos deixam esta questão tão clara como Fogel. Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que Fogel falha em dois pontos. Primeiro, por não explicar e mostrar as negociações que ele teve com Catlin e, depois, com Rodchenkov, para que eles lhe ajudassem no projeto de fazer um programa de doping.

Depois, como fica evidente no filme, Fogel acaba ajudando Rodchenkov a fugir da Rússia e a se “esconder” nos Estados Unidos. O quanto ele gastou com isso? Fica apenas sugerido, mas não é exatamente explicado no filme, a proximidade que Fogel acabou tendo de Rodchenkov. Tudo indica que eles se tornaram amigos, mas essa foi realmente a única motivação do diretor para ajudar Rodchenkov? Foi por uma questão humanitária, já que realmente havia risco do russo ser morto pelo seu próprio governo?

Acho que o diretor deixa alguns fios soltos importantes. As negociações dele com os especialistas em doping é uma delas. A grana que ele gastou nesse projeto – e deixar claro se havia algum interesse por trás disso, além do interesse pessoal do diretor -, também é outro fator que poderia ter sido explicado.

Também senti falta de Icarus explorar um pouco mais outros casos e denúncias de doping, e não ficar restrito aos bastidores da denúncia da campanha de doping russa. Enfim, o filme é bem feito, tem um propósito bem claro e é corajoso, mas deixa algumas pontas soltas de forma desnecessária.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nesse ano, infelizmente, eu não consegui assistir a todos os filmes que concorreram na categoria Melhor Documentário do Oscar. Assisti apenas a Visages Villages (comentado aqui) e a esse Icarus. Os dois filmes são interessantes. E muito, muito diferentes entre si. Ainda que eu tenha gostado dos dois e veja que ambos tem a sua importância, sem dúvida alguma Icarus me surpreendeu mais e me pareceu mais relevante pela denúncia que ele faz do que o filme de Agnes Varda e JR.

Falando em filmes que eu vi, devo pedir desculpas para vocês. Na correria das últimas semanas, eu consegui atualizar pouco o blog. Tenho tido menos tempo para ver filmes e para escrever sobre eles. Mas nessa semana eu prometo publicar pelo menos duas críticas por aqui. Essa e mais uma. 😉 E quero ver se consigo voltar a essa boa prática de pelo menos duas publicações por semana. Não desistam de mim, viram? Grazzie!

Gostei da direção de Bryan Fogel. Ele soube conduzir bem a história e tornar a narrativa envolvente do início ao fim. Muda a direção do filme de maneira natural, sem parecer que foi uma mudança forçada. Fogel é um dos roteiristas da produção, que contou, ainda, para essa tarefa, com Jon Bertain, Mark Monroe e Timothy Rode.

Os destaques no filme vão para Fogel e Grigory Rodchenkov. Eles são os “personagens” principais dessa história. Mas também vemos em cena figuras conhecidas, que aparecem em imagens de TV, como Vladimir Putin, Thomas Bach, entre outros. Espero que Fogel ou outro(a) diretor(a) ainda façam um novo filme que mostre o doping de vários países – afinal, duvido muito que a Rússia seja o único a ter uma “política pública” de doping entre os atletas que representam o país nas Olimpíadas e em outras competições internacionais.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco a excelente edição de Jon Bertain, Kevin Klauber e Timothy Rode, e a trilha sonora envolvente e marcante em diversos momentos de Adam Peters. Também vale destacar a direção de fotografia de Timothy Rode e de Jake Swantko; e a direção de arte de Jon Bertain.

Icarus estreou em janeiro de 2017 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, participou de outros quatro eventos e festivais de cinema. Em sua trajetória, o filme ganhou seis prêmios. Vale citar todos: Oscar de Melhor Documentário; prêmio Cinema Eye Honors na categoria The Unforgettables para Grigory Rodchenkov; Melhor Documentário Esportivo no Critic’s Choice Documentary Awards; Prêmio da Audiência no SummerDocs do Festival Internacional de Cinema de Hamptons; Prêmio Especial do Júri como Melhor Documentário no Festival de Cinema de Sundance; e Melhor Documentário dos Estados Unidos pela escolha do público no Festival de Cinema de Sundance em Londres.

Icarus foi o primeiro documentário que ganhou um Oscar e que foi distribuído exclusivamente por um serviço streaming. No caso, a Netflix, que comprou o filme após ele ter sido exibido no Festival de Cinema de Sundance.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 críticas positivas e apenas três negativas para essa produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,2. Os dois níveis de avaliação são muito bons – e acima da média dos dois sites. O site Metacritic apresenta para este filme um “metascore” de 68, com 14 críticas positivas, uma negativa e uma intermediária.

Icarus é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita por aqui há um bocado de tempo.

CONCLUSÃO: A verdade muitas vezes é mais difícil de acreditar do que a ficção. Mas é preciso ter coragem para enfrentar essa verdade. Icarus é um filme potente, que nasce com uma proposta e que depois vira totalmente o foco para não perder a força de uma história que o acaso apresentou para o diretor. Um filme que nasceu com uma proposta particular de mostrar como o antidoping não é confiável, muda para uma intricada trama real de denúncias, negações e ameaças – veladas e subentendidas. Produção potente, dificilmente ela não vai mudar a perspectiva do espectador sobre os atletas profissionais. Merece ser visto e debatido. Bastante debatido.

Tomb Raider – Tomb Raider: A Origem

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Alguns filmes não conseguem fugir do óbvio. E pela proposta que eles têm, isso é meio que previsto. Esse é o caso de Tomb Raider, o novo filme sobre a personagem conhecida dos games e que retoma a origem de Lara Croft. Como um filme com esse perfil não terá exageros e “cenas impossíveis”? Como alguém que conhece a história da personagem não sentirá que está vendo, muitas vezes, trechos dos games na sua frente? Sim, Tom Raider é óbvio. Mas nem por isso ele deixa de ser um bom entretenimento.

A HISTÓRIA: Dia 17 de maio de 2009. Lord Richard Croft (Dominic West) conta a história de Himiko, uma “divindade” do Japão que ficou conhecida por usar magia negra e por matar exércitos com apenas um toque. Ela provocou muita desgraça, até que o seu próprio Exército a levou para uma ilha no Mar do Diabo para que ela fosse aprisionada lá. Mas Croft está obcecado em encontrá-la, e apenas lamenta ter que deixar a sua Lara para trás. Fim da animação que introduziu a lenda.

Em um ringue, Lara (Alicia Vikander) está dando o melhor de sim em um treinamento feroz. No fim, ela acaba sendo vencida. Falando com uma amiga, que diz que ela foi derrotada – ou massacrada -, Lara responde que não foi nada disso. O treinador lembra ela que ela está devendo, e que ninguém treina se não pagar. Saindo dali, Lara vai trabalhar como entregadora. Em uma entrega, fica sabendo de uma corrida de bikes. Como “lebre”, se ela escapar da perseguição, vai ganhar um dinheiro que lhe faz falta. Depois de se acidentar, ela é levada pela polícia, onde Ana Miller (Kristin Scott Thomas) lhe encontra. Em breve, a discussão sobre o pai de Lara a levará para locais distantes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tomb Raider): Inicialmente, esse filme não teria muitos atrativos para me chamar a atenção. Mas, entre os filmes que estavam em cartaz na semana passada, esse me pareceu o segundo mais atrativo – o primeiro foi o recentemente comentado por aqui Aus Dem Nichts. Depois, veio Tomb Raider.

Eu conheço e já joguei alguma das aventuras da senhorita Lara Croft. Então sim, conheço a personagem na sua versão original, dos games. Depois, assisti ao primeiro – e possivelmente ao segundo, mas não tenho certeza – filme da personagem estrelado por Angelina Jolie. Então sim, a história de Croft não é uma novidade para mim.

Esse filme, acredito, pode ser analisado sob duas óticas distintas: de pessoas com eu, que já conhecem a história da personagem tanto nos games quanto nos filmes anteriores; e a de pessoas que não tem esse conhecimento. Para o primeiro grupo, o filme é de uma obviedade gritante. Sim, não há nada realmente novo em cena.

O que temos, então, para destacar da produção? A competência nos efeitos especiais, o começo da história realmente bem feito e os ótimos atores em cena – com destaque especial para Alicia Vikander, uma Lara Croft bem mais interessante que Angelina Jolie. Gostei da pegada inicial da produção, em especial. O roteiro de Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons e a direção de Roar Uthaug rejuvenesceram a personagem.

Assim, especialmente a Lara Croft que vemos em cena no início da história, parece conversar muito bem com os jovens da atualidade. Ela procura fazer o seu “caminho por sua própria conta”, trabalha como entregadora, participa de um “racha” de bikes, treina em uma academia e tem todos os predicados para ser uma jovem mulher com opinião forte e a clareza do que deseja ou não para si. Ou seja, o perfil de garota tão em alta nos nossos dias.

Por isso, aquele começo de Tomb Raider me pareceu bastante interessante. Especialmente a direção ágil e atenta aos detalhes de Uthaug. Depois, o filme mergulha um pouco demais no estilo Indiana Jones. Em vários momentos eu me senti assistindo a um filme estrelado por Harrison Ford no papel do arqueologista mais famoso do cinema. Além disso, claro, há cenas de ação “absurdas”, mas que são bastante típicas da personagem nos games.

Agora, o filme também pode ser assistido sob aquela segunda ótica, de quem não está familiarizado com a personagem. Para esse grupo, Tomb Raider é um filme atraente, movimentado, que apresenta algumas ideias já conhecidas de “aventura com requintes de arqueologia” e, principalmente, a velha busca da autoafirmação e das “pazes” com os pais – nesse caso, com o pai, porque nunca ouvimos falar da mãe de Lara Croft.

Então sim, assistimos a uma velha fórmula da menina que busca a admiração do pai – que, não por acaso, é uma figura ausente mas que vive no imaginário da “eterna criança” como alguém sempre marcante. Essa busca de Lara pela figura paterna, é um dos motes principais da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim, ela encontra algumas respostas para as perguntas que tem, conhece um pouco mais de suas origens para, em seguida, e de forma muito rápida, ela logo romper o cordão umbilical.

Existe uma razão para isso acontecer. A personagem precisa ter aquela ausência do pai como uma motivação para os passos seguintes, assim como o compromisso de manter e preservar o legado do pai ausente. Tomb Raider foca na origem da personagem ao mesmo tempo que deixa claro que esta é apenas a primeira das muitas aventuras de Lara Croft.

O filme também apresenta uma “organização secreta” e que está espalhada por diversas partes do mundo. Ou seja, o típico elemento de “teoria da conspiração” que será importante para essa história despertar certo interesse no futuro. Tomb Raider, assim, cumpre bem o seu papel, seja por apresentar bem a personagem e as suas motivações originais como “aventureira”, seja por preservar boa parte da essência dos games.

Pena que Robertson-Dworet, Siddons e Uthaug tenham optado apenas por caminhos seguros e por referências que já conhecemos bem. Desta forma, eles tornaram Tomb Raider um filme seguro mas, ao mesmo tempo, nada ousado. Eles poderiam ter inovado mais, seja na forma, seja no conteúdo, para nos surpreender. Mas não.

Nada do que vemos em cena nos surpreende de fato. Apenas, talvez, a confirmação de algo que já suspeitávamos: que Alicia Vikander tem muito mais a ver com o papel do que outras atrizes que poderiam ter encarnado Lara Croft. Esse, ao menos, foi um belo acerto. Agora, é esperar os próximos filmes da grife para saber se alguém nos apresentará ao menos algo além do óbvio ou se seguiremos tendo “mais do mesmo” pela frente.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelas características desta produção, um elemento que Tomb Raider deveria ter de destaque são os efeitos especiais e visuais. E, de fato, o filme atende bem as expectativas nesses quesitos. Como em praticamente todos os outros quesitos desta produção, os profissionais envolvidos nesses aspectos fazem um bom trabalho, mas nada além do esperado – e nada próximo de algo excepcional. Assisti ao filme na versão 3D e, como tantas outras produções recentes nesse formato, Tomb Raider não aproveita ao máximo esse recurso. Ou seja, você não perderá grande coisa se assistir ao filme em 2D mesmo.

Entre os aspectos técnicos dessa produção, vale então destacar os efeitos especiais que envolveram nove profissionais; a lista gigantesca que – chuto – deve ter contado com mais de 300 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais de Tomb Raider. Sem esses efeitos, certamente não teríamos um filme frente aos nossos olhos – grande parte da produção depende dos efeitos visuais e especiais.

Além desses elementos, vale destacar a direção de fotografia de George Richmond; a edição de Stuart Baird, Tom Harrison-Read e Michael Tronick; a trilha sonora de Junkie XL; o design de produção de Gary Freeman; a direção de arte de Tom Brown, Anthony Caron-Delion, Claire Fleming, Simon Lamont, Tamara Marini, Tom Still e Alessandro TRoso; e os figurinos de Colleen Atwood e Timothy A. Wonsik; e a decoração de set de Raffaella Giovannetti e Maria Labuschagne.

Do elenco, o nome a destacar é realmente da atriz Alicia Vikander. Ela cai como uma luva para a personagem. Ela tem o estilo, o físico e a atitude perfeita para viver Lara Croft. Está muito bem em cena. Além dela, os destaques, pela importância dos personagens na história, são Dominic West como Lord Richard Croft, pai de Lara; Walton Goggins como Mathias Vogel, o chefe da missão escalada para encontrar a tumba de Himiko; Daniel Wu como Lu Ren, o piloto da embarcação que leva Lara para o seu desejado destino – e que acaba virando também o braço direito dela nessa missão; e Kristin Scott Thomas como uma esquisita Ana Miller, tipo de “gerentona” dos negócios do pai Croft.

Além deles, o veterano Derek Jacobi faz uma ponta como Mr. Yaffe, advogado da família Croft. Também vale citar a participação de Maisy De Freitas como a Lara Croft aos 7 anos de idade e de Emily Carey como a Lara aos 14 anos.

Tomb Raider estreou em première no dia 2 de março de 2018 em Berlim. No Brasil, assim como em grande parte do mundo, o filme estreou no dia 15 de março.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Tomb Raider é baseado na “reinicialização” da saga de Lara Croft feita nos jogos e lançada em 2013.

A atriz Alicia Vikander fez um grande esforço físico nessa produção porque ela queria que a sua interpretação fosse a mais realista possível da personagem. Entre outros detalhes, ela realmente estrela todas as cenas de ação e que exigem esforço físico. A atriz também era fã da história de Lara Croft nos games.

Especialmente a crítica não gostou muito de Tomb Raider. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. O que, para os padrões do site, não está ruim. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 110 críticas positivas e 110 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de apenas 50% e uma nota média de 5,4. Os dois critérios são bastante baixos.

O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” de 48 para Tomb Raider, utilizando 53 críticas para chegar nessa média. O “user score” do site está um pouco melhor, registrando 6,7 de média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Tomb Raider teria custado cerca de US$ 94 milhões e faturado, nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 41,7 milhões até o dia 16 de março. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele teria feito outros US$ 170 milhões. Ou seja, até o momento, teria faturado cerca de US$ 211,7 milhões. Está conseguindo pagar as contas, tanto de produção quanto de distribuição, mas não está conseguindo aquele resultado maravilhoso que os realizadores idealizaram, certamente.

Tomb Raider é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A história do surgimento da aventureira Lara Croft contada com alguns requintes de “modernidade”. Nesse filme, você não vai encontrar nada de original. Encontrará a essência da personagem, a sua origem, e lembrará, se tiver “bagagem” para isso, bastante dos filmes de Indiana Jones.

Se você conhece os games da personagem, também se sentirá em um deles, algumas vezes. No mais, tudo aquilo que já esperamos de um filme do gênero, mas com uma atriz que combina muito mais com o papel do que a anterior que encarnou o personagem. Um bom entretenimento, que só poderia ter aproveitado melhor o 3D para ficar um pouco melhor.

Aus Dem Nichts – In the Fade – Em Pedaços

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A violência motivada pela ignorância é capaz de gerar os piores pesadelos. Temas atuais fazem parte de Aus Dem Nichts. Um filme potente, que nos faz pensar sobre o problema gigantesco que vem crescendo em diferentes países, que é o da intolerância e da incapacidade de muitas pessoas de aceitarem o que é diferente a elas. Quando alguém passa a se sentir superior a outra pessoa, quando se sente mais “merecedor” de viver do que um semelhante de carne e osso, vivemos dias de terror e uma era tenebrosa. E o efeito de tudo isso é um vazio sem fim.

A HISTÓRIA: Diversos começam a bater palmas. De uma cela, Nuri Sekerci (Numan Acar) surge vestido de terno branco e cumprimenta os colegas de cadeia. Ele está feliz e caminha em direção à saída do pavilhão. Quando ele passa pela pessoa que está filmando, ele diz que essa é a hora da verdade. Começamos a ouvir a música My Girl, e em uma sala próxima, Katja (Diane Kruger) está esperando ele para os dois casarem. Corta. Parte 1: A Família. O tempo passou, e agora Katja leva o filho Rocco (Rafael Santana) para passar um tempo com o pai no escritório. Os fatos que virão em seguida vão afetar para a sempre a vida dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Aus Dem Nichts): Eu estava “sedenta” para assistir a esse filme. Quem acompanha o blog com frequência, sabe que eu estava de olho no novo filme do ótimo diretor Fatih Akin porque essa produção tinha sido, por muito tempo, cotada como a favorita para levar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

No final das contas, para surpresa de muitos – e eu me incluo nesse grupo -, Aus Dem Nichts não chegou nem a figurar na lista dos cinco filmes finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2018. Fiquei surpresa pela “esnobada”, à princípio, mas ao assistir ao filme eu entendi um pouco as razões para isso. Aus Dem Nichts é um bom filme. Ele é bem conduzido e trata de questões muito importantes nos nossos dias. Mas ele também tem alguns probleminhas que fazem com que ele não seja tão bom quanto poderia ser.

Mas antes de falar desses “probleminhas”, vamos falar sobre a história em si. Interessante como Fatih Akin começa a sua história sobre uma Alemanha moderna e ao mesmo tempo tão antiga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, somos apresentados aos personagens principais: uma universitária que se apaixonou pelo cara que lhe vendia maconha e que, depois que ele foi preso, seguiu se relacionando com ele, ao ponto dos dois se casarem na prisão em que ele estava.

Passa o tempo, e o casal tem um filho de seis anos, o super esperto Rocco. Até aí, esse pequeno núcleo familiar é parecido com tantos outros. Eles devem batalhar diariamente por sobreviver e, no caso de Katja e Nuri, em dar uma vida confortável e uma boa educação para o filho, Rocco. O filme começa mostrando os fatos determinantes para essa família: o casamento de Katja e Nuri e, anos depois, o dia em que Katja levou Rocco para passar algumas horas com o pai no escritório. Até aí, tudo normal.

Mas esse filme não aborda a normalidade, e sim, fatos lamentáveis que não deveriam fazer parte da vida de ninguém. Mas que, infelizmente, fazem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto Katja vai tranquilamente passar um tempo com a irmã Birgit (Samia Muriel Chancrin) em uma sauna, o marido e o filho dela estão sendo mortos em um ataque terrorista cruel e absurdo.

Achei interessante como o roteiro de Fatih Akin e Hark Bohm divide a história em três capítulos. Após a introdução em que o casamento de Katja e Nuri é mostrado, nós temos pela frente os capítulos A Família, A Justiça e O Mar. O primeiro mostra rapidamente o núcleo familiar de Katja, Nuri e Rocco e, com o atentado, as demais pessoas que fazem parte daquela família – os pais de Katja e de Nuri e a irmã de Katja.

Essa rede de apoio, junto com o advogado Danilo Fava (Denis Moschitto), amigo de Katja e Nuri, tenta dar um certo conforto e sustentação para Katja depois da morte trágica do marido e do filho. Mas, claro, nada disso adianta. Logo após a confirmação das mortes, Katja se lembra de uma possível suspeita que deixou uma bicicleta sem cadeado na frente do escritório que foi bombardeado. É feito um retrato falado, mas a polícia primeiro pensa na possível culpabilidade da vítima, Nuri.

Isso incomoda, e muito, mas é uma coisa bastante comum nos dias atuais. Não apenas a polícia, mas muitas “pessoas de bem” – odeio esse termo, devo dizer – saem julgando a vítima apenas pelos equívocos que ela cometeu antes. Como se alguém “merecesse” morrer porque foi preso antes. Assim, ao invés do inspetor-chefe Gerrit Reetz (Henning Peker) realmente ir atrás da suspeita apontada por Katja ou buscar outras fontes de informação, como câmeras de segurança – eis uma das falhas do filme, ao meu ver – para encontrar os criminosos, ele resolveu investigar a vítima.

Sim, porque por ser de origem turca e por ter sido preso durante quatro anos como traficante, Nuri deveria ter alguma “culpa no cartório”. Como Reetz diz com todas as letras para a viúva, Nuri deveria estar fazendo algo de errado e deveria ter desagradado a alguma das “máfias” existentes na Alemanha. Que beleza, não? Tudo bem a polícia trabalhar com todas as possibilidades e ter diversas linhas de investigação, mas daí a presumir a culpa da vítima apenas por causa do seu passado, me parece um bocado injusto demais.

Da sua parte, Katja acredita que algum neonazista foi o culpado pelo atentado. Apesar daquele certo apoio da família, ela não suporta a dor dilacerante de ter perdido, de uma hora para a outra, toda a felicidade que tinha com o marido e o filho. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela não vê mais sentido em viver e, quando está quase morrendo, após cortar os pulsos na banheira, ela escuta uma mensagem do advogado Danilo que lhe acende alguma vontade de seguir em frente.

Ele comenta, na mensagem que deixou na secretária eletrônica, que Katja estava certa. Que tinham sido neonazistas os responsáveis pelo atentado. Aí entramos na segunda parte do filme, quando Akin e Bohm encaram o capítulo da justiça. Julgamentos sempre são interessantes, e esse se revela especialmente dolorido pelos detalhes que são narrados sobre o que aconteceu com as vítimas. Uma crueldade inacreditável. E os acusados, o casal Edda (Hanna Hilsdorf) e André Möller (Ulrich Brandhoff), impassíveis frente a tudo que foi dito.

Algo que me chamou muito a atenção é que o casal só foi “descoberto” por causa da denúncia do pai de André, Jürgen Möller (Ulrich Tukur). Ou seja, não foi porque a polícia fez um bom trabalho, mas porque um cidadão comum e consciente resolveu denunciar o próprio filho e nora por algo abjeto que eles fizeram. Mais um exemplo de como a busca pela justiça varia muito conforme a vítima.

Durante todo o filme eu me perguntei como teria sido o desenrolar daquela história se a vítima tivesse sido Katja. Se Nuri tivesse sobrevivido, teria feito alguma diferença? Duvido muito, porque o que estava em jogo ali, me parece, é o fato de que nem ela e nem ele eram os “cidadãos modelo”. E a polícia e a Justiça, aparentemente, não tem um tratamento igualitário para todos os cidadãos. Isso fica claro também com o fim do julgamento – e vamos convir que essa história de “falta de provas” ou de “dúvida pró réu” muitas vezes é pura babela para proteger alguns perfis de pessoas e não outras.

Passado tudo aquilo, e com a segunda violência que Katja sofria em relação à sua família – primeiro a morte deles, depois, a falta de justiça para o caso -, entramos na terceira parte da história: O Mar. Esse é a parte em que Katja busca a justiça pelas próprias mãos, viajando para a Grécia, onde se hospeda a uma certa distância do alvo do início da sua investigação, o empresário grego neonazista Nikolas Makaris (Yannis Economides).

No julgamento dos Möller, Makaris mentiu a favor deles. Katja tem certeza que os dois serão protegidos novamente por Makaris e vai atrás deles na Grécia. Lá, ela busca a justiça por sua conta. Depois de uma investida um tanto maluca no hotel de Makaris, ela tem a sorte do neonazista ser burro o suficiente para ir no esconderijo dos Möller para avisá-los sobre a presença dela na cidade. Isso era tudo que ela precisava, saber sobre a localização deles.

Aí temos a segunda “bobeira” do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, vemos aquela perseguição um tanto “ousada demais” da protagonista, que entra em uma estrada sinistra atrás de Makaris. Depois, e essa é a pisada na bola pior, a meu ver, ela acreditar que a forma mais interessante de matar o casal neonazista seria preparar uma bomba igual a que eles tinham feito para matar o marido e o filho dela.

Vamos lá. Falemos de vida real. Você localiza os dois canalhas que mataram a sua família. Qual seria a sua ideia de vingança? Certamente não seria preparar uma bomba caseira e levar ela em estradas de terra até o local do ataque, não é mesmo? Muito mais prática uma pistola ou até mesmo um fuzil. Tenho certeza que na Alemanha também existe um mercado ilegal de armas no qual ela poderia providenciar isso.

Muito mais difícil é ela tentar imitar uma bomba caseira só de saber os seus ingredientes e o seu “esquema”. Claro que Fatih Akin precisava dessa ideia de bomba para o seu “grand finale”. Mas vou dizer para vocês que essa “forçada de barra” me incomodou um pouquinho. Depois, achei no mínimo estranho aquela recuada dela antes do ato final. Ela desiste detonar a bomba na primeira vez. Daí eu pensei: “Ah, ela percebeu que matar eles não iria resolver nada. Que o marido dela e o filho continuariam mortos. Então o que ela vai fazer é terminar o que tinha começado na banheira”.

Pensei isso e achei que o título do terceiro capítulo, “O Mar”, tinha a ver com isso. Com a “solução final” que ela iria encontrar para aquele episódio sem solução satisfatória. Quando ela finalmente atende o telefonema do advogado, e meio que se despede dele, eu concluí que ela iria se matar. Mas aí temos o grande finale, em que tudo isso se junta – o desejo de morrer com o desejo de vingança e/ou “justiça”.

O filme é potente, e mostra que nenhuma violência ou extremismo leva a lugar algum. Apenas à morte e a mais destruição. Ninguém saiu melhor daquela história. Apenas diversas vidas foram jogadas fora e exterminadas por causa de ignorância, preconceito e um ódio reprimido que teve uma resolução desastrosa.

Quando eu penso nos títulos dos “capítulos” do filme, penso que Fatih Akin e Hark Bohm desconstruíram os três conceitos. A ideia de família, de justiça e a simbologia pacífica do mar são destruídas pelos acontecimentos que vemos em cena. Tudo que sobra no final é morte, destruição e sofrimento. Como eu disse antes, nada de bom. E tudo isso por qual razão mesmo? Porque alguns cretinos acreditam que são superiores a outras pessoas.

Infelizmente na Europa existem muitos grupos de xenófobos, preconceituosos e extremistas. Gente cretina que realmente provoca casos como o que vemos em Aus Dem Nichts. Por isso mesmo, esse filme é tão importante. Ele coloca o holofote nesta questão, e mostra com muita propriedade a dor insolúvel de quem fica – no caso, a personagem interpretada pela ótima Diane Kruger. Impossível não sentir a dor dela e se compadecer com o seu exemplo.

Antes, citei alguns pontos que me incomodaram na história. Sim, entendo as intenções de Fatih Akin. Mas ele poderia ter cuidado um pouco mais com alguns detalhes do roteiro – para que o filme não parecesse um tanto “largado” em alguns pontos. Vou citar as duas questões que mais me incomodaram. Uma das razões para Edda e André Möller terem sido absolvidos é porque não foi possível comprovar o depoimento de Katja que disse que viu Edda deixando a bicicleta na frente do escritório no bairro turco.

Gente, hoje em dia, que cidade de médio ou grande porte não está polvilhada de câmeras de segurança? E além dessas câmeras, o quanto não é frequente lojas, bancos e outros estabelecimentos terem câmeras que gravam, inclusive, parte das ruas? Então justamente na rua onde foi feito o ataque não havia uma santa câmera filmando que pudesse mostrar Edda ou alguém parecido com ela? Achei essa parte bem difícil de acreditar, mas entendo que Akin precisava disso para conseguir justificar o seu terceiro capítulo.

E aí o outro ponto que me incomodou foi a “solução criativa” que Katja deu para o seu plano de vingança. Sério mesmo que uma mãe que não tinha chegado a terminar a faculdade, que fazia uma carreira que não tinha nada a ver com eletrônica ou conhecimentos que pudessem lhe ajudar a fazer uma bomba poderia, com um bocado de facilidade, replicar uma bomba caseira como a que matou a sua família?

Para “justificar” o talento de Katja para os eletrônicos, ela foi mostrada em uma sequência do passado consertando um carrinho de controle remoto do filho. Novamente, achei exagerada a escolha de Fatih Akin para tornar o seu filme ainda mais potente. Não me parece que uma mulher com o perfil de Katja realmente faria aquilo – até porque, volto a dizer, seria muito mais fácil ela terminar com os neonazistas atirando neles, não é mesmo?

Então sim, o filme tem um belo propósito, é bem conduzido, faz o espectador se colocar no lugar da protagonista, mas ele poderia ter um roteiro um pouco mais bem cuidado. Aus Dem Nichts está entre os bons filmes dessa temporada, mas realmente eu não acho que ela era tão bom assim para ser um dos favoritos ao Oscar. Em outras palavras, não foi uma injustiça ele ficar de fora da disputa. Ainda assim, certamente ele merece ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pessoal, estou na correria e super cansada. Então eu vou parar a crítica por aqui e publicar ela hoje apesar de não ter feito essa parte das curiosidades sobre o filme. Prometo retomar essa parte logo que possível. Mas, agora mesmo, prefiro publicar a crítica do que ficar com ela semi-pronta. Espero que me entendam. 😉

Olá pessoal! Voltei. 😉 Então, vamos falar um pouco mais sobre Aus Dem Nichts. Entre os aspectos técnicos do filme que vale destacar, me chamou a atenção a direção de fotografia de Rainer Klausmann; a edição de Andrew Bird; os figurinos de Katrin Aschendorf; o design de produção de Tamo Kunz; e a direção de arte de Seth Aschenorf.

O diretor Fatih Akin faz um bom trabalho na direção, começando por um vídeo mais “amador”, naquela sequência no presídio – se passando, então, realmente por um cinegrafista amador -, e seguindo com uma câmera muito próxima dos atores e de suas entregas. O roteiro dele e de Hark Bohm também é bom, mas não é excepcional – ele tem algumas falhas já comentadas. Esse não é o melhor filme de Akin, mas também não deixa de ser bom.

Do elenco, sem dúvida alguma a grande estrela é Diane Kruger. Ela está excepcional no papel de Katja. Realmente a entrega dela é visceral, ao ponto de não deixar ninguém incólume ou sem passar ao menos alguns minutos na sua pele. Um belo trabalho, sem dúvida. Além dela, vale destacar o bom trabalho de Denis Moschitto como o advogado Danilo Fava; de Johannes Krisch como o “odioso” advogado de defesa do casal de neonazistas; de Numan Acar como Nuri – pena que o papel dele tenha sido tão pequeno; de Henning Peker como o inspetor-chefe Gerrit Reetz; e de Rafael Santana em praticamente uma ponta – mas com desempenho muito simpático – como Rocco.

Aus Dem Nichts estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 29 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme conquistou 10 prêmios e foi indicado a outros 14. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira; para o prêmio de Melhor Atriz para Diane Kruger no Bavarian Film Awards; para o prêmio de Melhor Atriz para Diane Kruger no Festival de Cinema de Cannes; para o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema Vukovar; para os prêmios de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz para Diane Kruger no Satellite Awards; e para três prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por associações de críticos.

Agora, uma curiosidade sobre essa produção. Como comentei antes, Aus Dem Nichts é dividido em três capítulos. Em cada uma dessas partes, o diretor de fotografia Rainer Klausmann usou um recurso diferente – justamente para diferenciar bem cada segmento. Na primeira parte do filme, ele filmou no modo “Super-16” com a intenção de obter um visual mais áspero. Na segunda parte, ele utilizou lentes anamórficas novas e filmou de uma maneira mais estática. E na terceira parte, ele utilizou lentes velhas vintage para conseguir imagens mais “suaves”. Os segmentos mais curtos de vídeos caseiros foram rodados com smartphones comuns.

De acordo com o site Box Office Mojo, Aus Dem Nichts faturou cerca de US$ 306 mil nos Estados Unidos. Uma bilheteria baixíssima e que revela o pouco interesse que o filme despertou no público daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma avaliação boa se considerarmos o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 76 críticas positivas e 28 negativas para o filme, o que garante para essa produção uma aprovação de 73% e uma nota média de 6,7. Enquanto isso, segundo o site Metacritic, Aus Dem Nichts registrou um score entre os críticos de 64 (22 avaliações positivas, 7 mescladas e 1 negativa) e um “user score” de 8,1. Ou seja, no geral, o filme foi bem avaliado.

Aus Dem Nichts é uma coprodução da Alemanha e da França. Há muito tempo, ao fazer uma consulta aqui no blog, as pessoas pediram filmes da Alemanha. Por isso, essa produção entra na lista de filmes que atendem o pedido de vocês.

CONCLUSÃO: Um filme potente, com uma atriz fantástica como protagonista e com uma história bastante atual. Infelizmente. Muitos problemas são gerados pela falta de memória história e pela falta de conhecimento, de educação e de humildade. Aus Dem Nichts nos mostra de maneira contundente os efeitos práticos de um ataque terrorista. Apesar de ser interessante e de jogar luz em questões importantes, esse filme peca por alguns detalhes de roteiro. Nada que o desmereça, mas sem dúvida ele não foi o melhor estrangeiro da temporada. Prefiro ainda o vencedor do Oscar nessa categoria, o chileno Una Mujer Fantástica (comentado aqui). Mas todos merecem ser vistos.