Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

The Founder – Fome de Poder

Persistência, ambição e falta de escrúpulos. Esta pode ser a fórmula de “sucesso” de muitos homens. The Founder conta uma destas histórias. Mostra como um conglomerado global foi criado e como ele teve como uma figura chave do processo justamente um sujeito que seguiu esta fórmula. Com um ótimo roteiro, um grande elenco e uma direção afinada de John Lee Hancock, temos neste filme a história da rede de lanchonetes McDonald’s. Querendo uma não, uma “bela” história da cultura americana.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que este filme é baseado em uma história real. Ray Kroc (Michael Keaton) lança o seu discurso para mais um potencial comprador. Ele fala que o cliente vai vender muito mais milk-shake se ele comprar a máquina que ele está vendendo. Aumentando a oferta, ele também vai aumentar a demanda, seguindo a lógica do ovo e da galinha, garante Kroc. Ele vive visitando drive-thrus tentando vender a sua máquina de cinco eixos para acelerar o processamento de milk-shakes, mas sem sucesso.

A história começa em Saint Louis, cidade do Missouri, em 1954. Kroc não tem sucesso em suas investidas, até que fica sabendo de uma empresa que ligou para o escritório dele pedindo seis máquinas. Ele não acredita, liga para o local, e acaba falando com Dick McDonald (Nick Offerman). Curioso para saber quem teria “bala na agulha” para comprar tantas máquinas de uma vez, Kroc viaja até San Bernardino, na Califórnia, para ver de perto o negócio dos McDonald’s.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Founder): Eu fui assistir a este filme sem muitas expectativas. Bem, eu sabia que se tratava da história do McDonald’s, claro. Mas eu não sonhava que The Founder seria uma crônica mordaz sobre o pior lado do “sonho americano”. O filme se debruça como poucos nos desdobramentos de um homem que é ambicioso e que passa como uma patrola sobre todos para conseguir tudo o que deseja.

Como o bom cinema pede para qualquer realizador, The Founder vai crescendo em narrativa e em interesse pouco a pouco. Francamente, eu não sabia nada sobre a história do conglomerado McDonald’s até assistir ao filme. Acredito que a impressão sobre esta produção será diferente para pessoas que já conheciam bastante a história. Para mim, foi uma grande surpresa tudo que The Founder revelou.

Não há dúvidas que o protagonista Ray Kroc (Michael Keaton) teve muita ousadia. Para começo de história, claro. Ao mesmo tempo, Dick (Nick Offerman) e Mac McDonald (John Carroll Lynch) eram o contrário dele. Pessoas simples, daquelas que acreditam na palavra dos outros e não tem malícia, eles contavam para quem quisesse ouvir como eles haviam revolucionado o setor de lanchonetes nos anos 1950 – o filme começa em 1954, para ser mais exata. E foi assim que, encontrando um “espertalhão” como Kroc pela frente, eles se deram mal.

O roteiro de Robert D. Siegel é um primor. Como o cartaz mesmo do filme sugere, esta produção conta a história de Kroc, sob a perspectiva dele. É assim que o acompanhamos desde que ele vendia máquinas de milkshake e até ele encontrar os irmãos McDonald e o seu modelo revolucionário de fazer e vender hambúrgueres, batatas fritas e refrigerantes. Como a narrativa de Siegel é bem construída, no início você pode até pensar, como eu, que sem Kroc nós jamais teríamos um McDonald’s a cada esquina.

Ele realmente soube construir e encarnar muito bem o “espírito americano” ao negócio, fazendo o McDonald’s ser tão ianque e colonizador quanto o próprio país. A sacada dele foi realmente preciosa. Sem dúvida alguma o McDonald’s original jamais teria se tornado o que se tornou sem esta figura. Até aí, tudo bem, se ele tivesse feito tudo com respeito aos criadores do conceito e proprietários do nome. Mas não, ele não teve respeito nenhum por eles.

Conforme foi ganhando dinheiro e espalhando lanchonetes do McDonald’s pelos Estados Unidos, os “olhos” de Kroc “cresceram”. Com o ego bem alimentado e se sentindo poderoso, inteligente, capaz de tudo, ele foi passando como uma patrola sobre quem aparecesse pela frente. Este é o problema da ambição, do gosto pelo poder e pelo dinheiro. As pessoas que se deixam “encantar” por todos estes ingredientes ou por um deles se perdem.

Claro que Kroc não teria conseguido tudo o que conseguiu se ele não tivesse cruzado com Harry J. Sonneborn (B.J. Novak). Foi ele que mostrou de onde, realmente, sairia o dinheiro da companhia. Não seria de uma pequena porcentagem da vendas de combos baratos, mas da compra de terrenos que dariam depois renda permanente através da cobrança dos franqueados. E foi assim que a rede McDonald’s cresceu e multiplicou resultados.

Até um certo momento do filme, você fica admirado(a) pela história dos irmãos McDonald e pela ousadia de Kroc em abraçar aquela ideia e crescer com ela. Mas depois, quando percebemos como ele vai mudando de postura conforme ganha fama e dinheiro, logo presumimos que essa história não pode acabar bem. E não acaba, realmente. Ao menos para os irmãos que criaram todo o conceito do negócio. Por tudo isso, o trabalho de Siegel e de Hancock é exemplar.

Eles tem a ousadia de fazer um retrato mordaz sobre o homem que fez o conceito McDonald virar um conglomerado global. Não é para poucos. É preciso coragem e talento para contar uma história como esta sem querer tapar o sol com uma peneira. Em The Founder não temos isso. Somos apresentados a uma história interessante, com muitas lições sobre empreendedorismo e sobre como um negócio pode ser deturpado pelas mãos de alguém que tem pouco ou nenhum escrúpulo.

Como eu disse antes, The Founder acaba sendo um retrato impressionante sobre muitas e muitas empresas gigantes e que são vistas como “importantes” pelo mundo. Certamente em quase todos esses casos alguma história obscura sobre tanto poder e dinheiro foi escondida. Pois bem, The Founder nos revela uma destas histórias escondidas, ajudando a lançar luz também sobre o pior lado da ambição e do capitalismo como sistema que permite a premiação deste tipo de gente sem escrúpulos.

Quer dizer, a Humanidade ainda não criou um sistema econômico em que os valores estão no centro das trocas e das relações. Infelizmente. O capitalismo fomenta histórias bacanas e histórias podres como esta contada por este filme. Ainda não inventamos nada melhor, possivelmente porque nós, como coletivo, também não sejamos melhores. Afinal, quantas pessoas, após assistir a este filme, farão escolhas melhor de consumo? Imagino que pouquíssimas. Quantas abririam mão de fortuna e de sucesso para manter os seus valores éticos? Este filme nos levanta todas estas questões. Por tudo isso, achei ele brilhante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fascinante a reconstrução de época orquestrada pela equipe do diretor John Lee Hancock. Voltamos realmente aos anos 1950 nos Estados Unidos. Além da direção muito bem feita de Hancock, que sabe valorizar os ambientes e as interpretações de seus atores, este filme se destaca pelo excelente roteiro de Robert D. Siegel e, claro, pelo elenco escolhido à dedo. Cada elemento técnico do filme funciona à perfeição, junto com o roteiro, a direção e o elenco. Nada a criticar negativamente.

Algo que eu gostei neste filme é como ele mostra a genialidade dos irmãos McDonald’s. Eles realmente revolucionaram o setor das lanchonetes. Muito interessante como The Founder mostra como eles chegaram lá e de que forma eles construíram o conceito de lanchonete enxuta e eficiente. Ray Kroc teve ousadia, sem dúvida, mas não foi ele que teve nenhuma sacada para o negócio propriamente dito.

Tive curiosidade de saber o quanto o filme foi fidedigno com a história original, e ao ler este texto da Time, eu diria que a grande sacada de Kroc foi de marketing. Afinal, ele soube explorar o nome McDonald’s e criar a figura de Ronald McDonald para vender muito para um público fundamental para a marca, as crianças. No mais, ele foi tudo o que esta produção conta. Fui obrigada também a pesquisar como o próprio McDonald’s hoje conta a sua história. Lendo esta explicação fica claro que a empresa incluiu uma linha sobre os grandes responsáveis pelo modelo da empresa mas que tudo o mais gira em torno de Kroc. Acho que nem preciso dizer mais nada, não é mesmo?

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de John Schwartzman, muito coerente com a época e elemento importante para nos situar nos anos 1950; a ótima edição de Robert Frazen; a música bem pontual e bacana de Carter Burwell; o design de produção de Michael Corenblith; a decoração de set de Susan Benjamin; os figurinos de Daniel Orlandi; e o ótimo trabalho dos 34 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis desde a construção de cenários e até o design gráfico da produção.

O elenco é fantástico. Outro ponto fortíssimo do filme – eu diria que tão fundamental quanto o roteiro e a direção. Michael Keaton está soberbo. Ele convence em cada cena e humaniza a figura sem escrúpulos que vemos em cena. Apenas perto do final conseguimos ter “ódio” dele. 😉 Os atores Nick Offerman e John Carroll Lynch, que vivem os irmãos McDonald, também estão soberbos. Fazem um grande trabalho. O filme não seria o mesmo sem eles.

Além deste trio de atores soberbo, vale citar o elenco de coadjuvantes que também faz um grande trabalho: B.J. Novak se sai muito bem como Harry J. Sonneborn; Laura Dern está bem como Ethel Kroc, esposa do protagonista; Patrick Wilson como Rollie Smith, dono de restaurante que acaba virando um dos franqueados da rede; Linda Cardellini como Joan Smith, mulher de Rollie; Justin Randell Brooke como Fred Turner, funcionário de Kroc e que acaba se transformando em um dos seus sócios; Kate Kneeland como June Martino, secretária de Kroc; e Adam Rosenberg como o funcionário do McDonald’s original que rouba a cena quando atende Kroc. Há vários outros coadjuvantes, mas nenhum sem grande destaque para a narrativa.

No texto da Time que eu citei, eles falam sobre o livro que Kroc escreveu e sobre a matéria que a própria Time fez sobre ele. No texto, eles comentam que diferente do que o filme mostra, os irmãos McDonald’s já tinham algumas franquias antes de Kroc aparecer na vida deles. Ora, o filme fala sobre isso. Eles deixam claro que os McDonald’s já tinham franquias, mas que não queriam mais seguir com este modelo de negócios porque achavam complicado garantir a mesmo qualidade que eles queriam em franquias que não estivessem próximas. Kroc acaba os convencendo, mas o filme é bastante preciso nesta informação.

O diretor texano John Lee Hancock tem oito filmes em seu currículo. Antes, eu assisti dele The Blind Side (comentado aqui) e Saving Mr. Banks (com crítica neste link). Não tenho dúvida alguma ao afirmar que The Founder é o melhor filme do diretor até agora.

The Founder teria custado US$ 7 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 12,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase US$ 7,6 milhões. Ou seja, no acumulado, tem pouco mais de US$ 20 milhões. Já se pagou e está obtendo lucro. Ainda que pequeno, comparado com outros filmes. Como ele não tem uma propaganda massiva, certamente fará sucesso na propaganda boca a boca.

Até o momento The Founder ganhou um prêmio e foi indicado a outros três. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Ator para Michael Keaton no Capri – ele dividiu o prêmio com Andrew Garfield por seu trabalho Hacksaw Ridge (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 150 críticas positivas e 32 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Os dois níveis de avaliação são bons, mas para o meu gosto eles poderiam ser um pouco maiores. Talvez o pessoal que gosta do McDonald’s não gostou muito de saber a história por trás da marca. 😉

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso ela entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que mostra bem o “espírito americano”. Uma sociedade baseada no ideário do sucesso, da persistência que leva o homem ou a mulher até o êxito que, geralmente, significa dinheiro. The Founder nos conta a impressionante e pouco comentada história por trás da rede McDonald’s. Como as pessoas que realmente criaram a fórmula foram passadas para trás. Um grande filme sobre o pior lado do capitalismo e da ambição humana. Este é um “case” do gênero famoso, mas quantos mais do mesmo tipo não teremos por aí? Certamente muitos. E o que tudo o que o protagonista desta história lhe garantiu? Certamente não a vida eterna. Grande filme. Muito bem realizado e que nos faz pensar.

Logan

Para muitos, ele pode estar velho. Para mim, ele está em sua melhor forma. Logan resgata algumas das melhores características do personagem que todos conheceram como Wolverine. O filme é bastante violento e vai direto ao ponto em muitos momentos. Mesmo sendo uma produção de ação e com um desenrolar um bocado previsível, esta produção tem alguns grandes momentos. Há uma velha parceria bem interessante em cena, mas em outro estágio. Porque o tempo passou. Logan nos fala muito sobre o tempo e sobre a passagem dele. Também trata de novas descobertas. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Música alta e a voz de um grupo de latinos falando alto. Dentro do carro, Logan (Hugh Jackman) acorda quando o veículo começa a ser levantado. Ele sai da limusine e pede para os bandidos irem embora sem prejudicarem o carro, que é alugado. Ele logo leva um tiro no peito. Quando os bandidos dão as costas para ele, Logan começa a se levantar. Cansado e um pouco bêbado, ele não tem mais o vigor que tinha quando era jovem. Apanha, mas também mata parte do grupo. Logan trabalha como motorista para conseguir juntar dinheiro e comprar um barco. Mas logo os planos dele serão interrompidos pelo pedido de socorro de uma mulher desconhecida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan): Eu não assisti a todos os filmes da Marvel e demais produções baseadas em personagens de HQ. Mas conheço o suficiente deste universo para poder comentar sobre um filme sobre o Wolverine. Antes de Hugh Jackman estrear nos cinemas com este personagem, eu já conhecia bem o Logan/Wolverine das HQs.

Soube, antes de assistir a este filme, que ele seria inspirado na série Old Logan. Li a HQ antes de assistir ao filme e, por isso, posso dizer com toda a convicção que o filme não tem praticamente nada a ver com os quadrinhos. Os únicos elos de ligação são o fato de Logan estar envelhecido no filme e na HQ e das duas obras serem um tipo de “road trip”. E isso é tudo. A HQ tem uma história mais interessante e complexa que o filme, além de ter outros personagens e uma questão central: o velho Logan não quer mais usar as suas garras. Ele está “aposentado”.

Nada disso nós assistimos em Logan. Logo no início o personagem de Jackman utiliza as suas garras para matar, sem ter qualquer questionamento sobre isso. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Outra diferença fundamental é que no filme, ainda que esta questão não esteja totalmente clara, mas apenas “sugerida”, o culpado pela morte de parte dos X-Men foi o professor Xavier (chamado apenas de Charles no filme, interpretado pelo ótimo Patrick Stewart). Na HQ, que nem tem o professor Xavier na história, o culpado pela morte de todos os X-Men foi Logan – manipulado por um inimigo.

Então, para resumir, o HQ é sim melhor que o filme. Especialmente porque a produção Logan tem um roteiro previsível demais. A premissa criada pelo diretor James Mangold e que acabou resultando no roteiro assinado por ele junto com Scott Frank e Michael Green deveria ser muito boa. Um envelhecido Wolverine batalha para sobreviver em um mundo sem novos mutantes e no qual ele, o professor Xavier e Caliban (Stephen Merchant) estão envelhecidos e sem grande perspectiva de viver um longo tempo.

Neste contexto, aparece em cena uma nova mutante. Logan acaba sendo impelido a ajudar ela a escapar dos bandidos que a estão caçando – a exemplo de como ele próprio já foi tantas outras vezes. A premissa é boa, não é mesmo? O problema é que o desenvolvimento do filme acaba sendo um tanto previsível demais. Quando Laura (Dafne Keen) aparece em cena junto com Gabriela (Elizabeth Rodriguez) fica evidente que teremos um tipo de “caçada sem fim” e que vai resultar com a garota sendo salva de alguma maneira.

Todas as crianças e jovens que fogem das garras da grande corporação manipuladora, uma evolução da mesma organização que injetou adamantium em Logan no passado, acabam combinando a mesma coordenada que viram em uma HQ do X-Men como ponto de encontro. Logan critica a versão dada por Gabriela e por Laura porque acha que elas estão sendo “iludida” pela HQ. Ao mesmo tempo, Mangold faz uma grande homenagem ao clássico de George Stevens de 1953, Shane, um dos grandes filmes de faroeste. Seria uma forma do diretor dizer que os filmes são mais importantes que as HQs?

Essa é uma questão menor. O importante é que Logan cumpre o seu papel de entreter. Bem diferente do recentemente comentado aqui The Great Wall, que dá sono, Logan deixa você bem acordado o tempo inteiro. Mérito do bom trabalho do diretor Mangold e, sem dúvida alguma, das ótimas interpretações de Hugh Jackman e Patrick Stewart, em especial. Quando os dois estão em cena, impossível não ficarmos com o nível de atenção no máximo. Cada detalhe da interpretação deles é preciosa.

O mesmo não pode ser dito de outros atores da produção. Achei a menina Dafne Keen esforçada, mas com um trabalho bastante raso. Boy Holbrook como Pierce, o capanga principal do Dr. Rice interpretado por Richard E. Grant também está mais ou menos. Mas o que nos “prende” a atenção é como a passagem do tempo cobra o seu preço até dos nossos heróis. Wolverine e o professor Xavier se esforçam em defender a nova geração que está chegando, mas eles são apenas “a sombra” de quem já foram.

Como acontece com os simples mortais, com os mutantes também o tempo é inexorável. Este é a parte mais interessante do filme, assim como a relação extremamente afetuosa e de respeito entre o professor e o discípulo. É muito bonita a forma com que Logan cuida do velho Xavier. É como a retribuição de um filho. Estes são os pontos fortes da produção, assim como diversas cenas de ação bem orquestradas.

Os pontos fracos estão na narrativa. Além da previsibilidade grande do desenrolar da história – ok, apenas o X-24 me pareceu surpreendente -, me incomodou um pouco algumas incongruências do filme. Certo que Logan precisava que Laura (ou X-23) sobrevivesse até o final e tudo o mais, mas qual, afinal, era a motivação do grupo liderado por Pierce? O que Dr. Rice e companhia queriam de verdade? Matar aquelas crianças mutantes que não serviam para o propósito deles, correto?

Então me parece um tanto sem sentido toda aquela perseguição sem fim de Laura e companhia se para os perseguidores bastava matá-los para resolver o “problema” que eles tinham. Ou, em outras palavras, me pareceu um pouco forçado o filme “poupar” tanto os personagens juvenis. Ninguém quer ver criança ou um jovem ser morto ou agredido, é claro, mas isso me parece ser mais condizente com a história.

Se Logan acerta no retrato sobre a personalidade do personagem-título, acho que o mesmo não pode ser dito sobre o retrato que eles fazem sobre a “nova geração” dos X-Men. Afinal, e isso fica claro para quem acompanhou os HQs dos X-Men, eles só eram realmente fortes e conseguiam vencer qualquer inimigo quando eles juntavam as suas forças e habilidades. Pois bem, na reta final do filme, eles até fazem isso na hora de combater Pierce, mas a ação não é a mesma para defender Laura ou Logan. Isso não parece um bocado sem sentido?

Quando um filme abre a mão de fazer sentido apenas para que a história tenha o fim que o realizador imaginou, todos os espectadores perdem. Afinal, podemos nos divertir com uma boa ação. Podemos achar bacana ver Hugh Jackman dando um fim digno para o seu personagem, assim como ver um pouco mais da relação “derradeira” dele com o professor Xavier, mas tudo isso acaba sendo insuficiente quando pensamos em todas as pequenas mancadas da história.

Por tudo isso, Logan é um bom filme. Não é uma produção excepcional. Provavelmente não é melhor filme baseado em um personagem de HQ que eu já vi. E, certamente, ficou aquém do que se poderia esperar de uma produção “inspirada” (será? acho que não) em Old Logan. No dia em que adaptarem o velho Batman de Cavaleiro das Trevas e fizerem isso bem, quem sabe eu não me sinta redimida? Agora, nos resta esperar o que mais vão nos contar dos X-Men. Esperamos que venha história boa por aí.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A direção de James Mangold é um dos pontos fortes do filme. Também merece menção a competente direção de fotografia de John Mathieson; a ótima e difícil edição de Michael McCusker e de Dirk Westervelt; o design de produção de François Audouy; a direção de arte de Chris Farmer, Jordan Ferrer, Luke Freeborn e Scott Plauche; a decoração de set de Peter Lando; o ótimo trabalho dos 27 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; e, claro, os 18 profissionais envolvidos com os efeitos visuais e os 145 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Sem dúvida algumas os efeitos do filme são também pontos fortes da produção.

Em termos de atuação, os nomes fortes desta produção são mesmo Hugh Jackman e Patrick Stewart. Jackman está bem, só me incomodou um pouco ele ficar mancando a produção inteira sem uma explicação aparente para isso. Stewart, por outro lado, está de arrepiar a cada aparição. Dos outros atores, gostei do esforço de Stephen Merchant como Caliban; de Eriq La Salle como o fazendeiro Will Munson; e de Richard E. Grant em quase uma ponta como Dr. Rice.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Elise Neal como Kathryn Munson, mulher do fazendeiro; e de Quincy Fouse como o filho do casal, Nate. A atriz Dafne Keen não faz um trabalho ruim, mas achei ela parecida com todas essas novas atrizes que emplacaram com o papel de “esquisitonas”. Também preferi a parte do filme em que ela não abre a boca. Porque com aquela voz estridente que ela solta quando começa a falar em espanhol e, depois, em inglês, chegou a me dar “um nervoso”. Calada ela era menos irritante.

Logan teria custado cerca de US$ 97 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até ontem, dia 9 de março, pouco mais de US$ 114,8 milhões. Essa é a terceira melhor bilheteria no país em 2017 – atrás apenas de The Lego Batman Movie, com US$ 151,2 milhões, e de Split, com US$ 134,6 milhões. Como Logan estreou há menos tempo, tem tudo para ultrapassar estes dois concorrentes. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase outros US$ 190,8 milhões. Ou seja, a bilheteria acumulado do filme chega a quase US$ 305,6 milhões. Sucesso completo e que não deve parar de faturar tão cedo.

Infelizmente eu não pude assistir a Logan em 3D porque o filme não estreou nesta versão na minha cidade. Esperei uma semana para assisti-lo por causa disso, mas eu não iria esperar mais tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 243 críticas positivas e 21 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 7,8. Para os padrões dos dois sites, especialmente do IMDb, a nota do filme está muito boa.

Logan é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esta crítica entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: A passagem do tempo traz pontos positivos e negativos. Para qualquer pessoa e, segundo esta produção, também para qualquer mutante. Logan nos apresenta um filme que trata sobre este assunto da mesma forma com que ele revela a importância da renovação. Novas gerações surgem enquanto outras se despedem. É assim a vida. Gostei do tom algumas vezes amargo, muitas vezes violento e em certos momentos afetivo desta produção.

É um belo filme, apesar dele ser bastante previsível. Até demais, se pararmos para pensar. Mas você até esquece disso enquanto assiste a produção, que é bastante envolvente. Uma bela despedida de Hugh Jackman do personagem que o levou ao estrelato e com o qual ele está eternizado no cinema. O filme, contudo, não tem nada a ver com o HQ Old Logan. O que não deixa de ser uma pena. Apesar de ser bom, Logan acaba falhando em algumas escolhas do roteiro. Ainda assim, é um bom entretenimento.

Captain Fantastic – Capitão Fantástico

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Uma história para dar bastante pano para manga. Na verdade, algumas teses poderiam ser escritas sobre Captain Fantastic. Mas eu vou me eximir desta tarefa e fazer apenas alguns comentários sobre o filme. Com um roteiro corajoso, que leva uma ideia até o extremo em alguns momentos ao mesmo tempo em que nos apresenta uma proposta bastante realista sobre um conceito, este filme é uma aula de cinema. Primeiro, pelo roteiro. Depois, pelo elenco escolhido a dedo e com ótimo desempenho e, finalmente, com algumas mensagens que a produção deixa no ar.

A HISTÓRIA: Uma imensa e linda floresta com belas árvores. Em meio à mata, vemos um cervo. Ele está tranquilo, perto de um riacho. O animal se alimenta de flores. Ele olha para um lado e vemos a uma pessoa camuflada. O cervo não se assusta. Bo (George MacKay) espera ele chegar perto e ataca. Ele corta a garganta do animal. Lentamente os irmãos dele chegam perto, e Ben (Viggo Mortensen) marca o filho mais velho com sangue e lhe dá uma parte do animal para comer. Esse foi o rito de passagem do garoto. Em seguida, a família tira a camuflagem no riacho e leva a caça para casa. Todos sabem o que fazer na sequência. A família vive em meio à floresta e tem o seu próprio modo de vida alternativo à civilização.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Captain Fantastic): Uma característica importante para assistir a este filme é desarmar-se. Deixar em segundo plano as suas opiniões, crenças e valores e acompanhar essa história e seus argumentos sem julgar. Ben e os seus filhos tem uma maneira de encarar a vida e a realidade muito diferente da maioria.

Alguns podem achar a história utópica, ou exagerada. Sem dúvida a forma de pensar de Ben e dos filhos é utópica. Eles acreditam em uma sociedade diferente da que os cerca e daquela que nos rodeia. Captain Fantastic também é um pouco exagerado, sem dúvida. O roteirista e diretor Matt Ross exagera em algumas cores para justamente comprovar os seus argumentos. Um recurso bem conhecido na literatura e nas artes e um tanto em “desuso” no cinema, que anda bastante padronizado.

Não vou mentir que alguns exageros da história me pareceram um tanto desnecessários. A forma com que Ben tenta tocar a vida de forma “normal” após a perda da esposa e mãe de seus filhos me pareceu um tanto exagerada. Certo que ele parecia estar um pouco em choque também e que era um grande defensor do estilo “sobrevivência”, mas me pareceu um pouco forçada a frieza dele tanto na hora de contar para os filhos sobre a morte da mãe deles quanto o episódio seguinte de treinamento na montanha.

Também achei um tanto infantil a sequência da “missão libertar comida”, que nada mais foi do que roubar alimentos de um supermercado. Ora, se a filosofia de Ben e da esposa era criar os filhos tendo como base a verdade acima de tudo, parece um tanto incoerente ensinar para eles a manipulação de um ataque cardíaco fictício para cometer um crime, não? (sem contar a sequência do cemitério, que por mais que fosse cheia de “boas intenções”, novamente se trata de um crime e de um grande desrespeito aos pais da mãe dos garotos). Mas ok, Ross exagera nas tintas para mostrar uma família anti-sistema, alternativa ao extremo.

Entendo as intenções do diretor e roteirista, mas só acho algumas cenas um tanto “pesadas” demais. Ver crianças, algumas inclusive pequenas, agindo em conjunto para cometer crimes não me caiu bem. Descontada esta parte, acho bacana a forma com que Captain Fantastic mostra uma realidade possível de uma família que resolve apostar em uma forma alternativa de viver a vida. A exemplo de Into the Wild (comentado aqui), sempre é bacana ver um filme que questiona a realidade de “piloto-automático” e consumismo em que vivemos.

Mas, ainda que pareça bonita a ideia de procurar uma sociedade alternativa, não acredito que alguém se realize sozinho ou de forma isolada. Então ok, Ben e a esposa Leslie (Trin Miller) tentaram preparar os filhos da melhor forma possível. Conseguiram ensinar para eles não apenas técnica de sobrevivência, de luta, o valor de conhecer a origem do que nos alimenta e a pensar por sua própria conta e de argumentar cada pensamento e teoria, mas não ensinaram para eles a importância de viver em um coletivo. Acredito que a gente só aprenda para valer no contato com o outro, com o estranho e o diferente, e não vivendo em uma bolha e na realidade que nos parece mais conveniente.

De forma crítica o filme mostra a realidade das cidades e o seu consumismo e padrão de vida sem reflexão. As pessoas se alimentam sem nenhum contato com a origem do alimento e estão mais conectadas com os eletrônicos do que com o raciocínio lógico, a argumentação e o conhecimento. Esse é um extremo que não serve. E o extremo da família de Ben, que vê o mundo apenas de uma forma e sem contato com o diferente, também não serve.

O bacana deste filme é que ele vai expondo os seus argumentos de forma linear e crescente, com algumas surpresas no caminho, e termina mostrando que os extremos não deveriam nos servir. Tanto que no final Ben cede um pouco ao estilo de vida que eles vinham levando e percebe a importância de não isolar os filhos na educação que ele acredita ser certa.

Eles precisam ser integrados à sociedade e é isso que acontece. Certamente eles estarão muito bem preparados para enfrentar a vida pensando por conta própria, mas agora mais abertos a aprender também com os outros. Porque não basta apostar em uma forma diferente de enxergar o mundo e ensinar literatura e música de qualidade para os seus filhos. Tão importante quanto é ensiná-los a respeitar os outros, especialmente quem pensa diferente. O equilíbrio sempre é a resposta.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro e a direção de Matt Ross são exemplares. Especialmente o roteiro, que é inteligente e que exagera algumas tintas de forma proposital. Mas, descontados os pontos que eu já tratei antes, achei o trabalho dele exemplar. Soube apresentar essa história com muita competência e, o mais importante, não apenas com ótimas linhas de roteiro, mas valorizando o trabalho de cada ator.

Aliás, o elenco é outro ponto forte da produção. Viggo Mortensen lidera o grupo por ser o intérprete mais experiente em cena na maior parte do tempo, mas todos estão ótimos. Mortensen mereceu a indicação ao Oscar de Melhor Ator, mas acho que George MacKay merecia, também, uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. Ele realmente é um dos destaques desta produção.

Além deles, vale citar os outros atores que compõem a família e que se saem muito bem: Samantha Isler como Kielyr; Annalise Basso como Vespyr; Nicholas Hamilton como Rellian, o filho que se rebela contra o pai; Shree Crooks como a esperta Zaja; e Charlie Shotwell como Nai, uma fofa. A despedida da família de Leslie, bem perto do fim da produção, com as irmãs Kielyr e Vespyr soltando a voz, é um dos momentos mais especiais e bonitos do filme. Todos esses atores que interpretam os filhos de Ben e Leslie estão incríveis.

Completando o elenco, mas em papéis menores, estão Kathryn Hahn como Harper, irmã de Ben; Steve Zahn como Dave, marido de Harper; Elijah Stevenson como Justin, um dos filhos de Harper e Dave; Teddy Van Ee como Jackson, o outro filho do casal; Erin Moriarty como Claire, a primeira garota a beijar Bo; Missi Pyle em uma super ponta como Ellen, mãe de Claire; Frank Langella como Jack, pai de Leslie; e Ann Dowd como Abigail, mãe de Leslie.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Stéphane Fontaine; da trilha sonora bem pontual mas também bem bacana de Alex Somers; da edição cuidadosa de Joseph Krings; dos figurinos de Courtney Hoffman; do design de produção de Russell Barnes; da direção de arte de Erick Donaldson; e da decoração de set Tania Kupczak e Susan Magestro.

Captain Fantastic fez quase US$ 5,9 milhões nos Estados Unidos. É uma bilheteria baixa, mas não é um resultado ruim para um filme tão alternativo. Sem dúvida alguma este é um deste filmes que só vai ter público na propaganda boca-a-boca e, provavelmente, entre as pessoas com cabeça “mais aberta”. Afinal, esta não é uma produção simples. Nos outros mercados em que o filme estreou ele fez quase US$ 3 milhões.

Algo bacana neste filme é que os argumentos para defender a proposta de Ben e de Leslie estão certos, assim como os argumentos que criticam o que os dois fizeram. A reta final da produção demonstrou isso, e a saída equilibrada foi sem dúvida um dos grandes acertos de Matt Ross.

Captain Fantastic é o segundo longa-metragem dirigido por Matt Ross. Mais conhecido por seu trabalho como ator, Ross estreou na direção em 1997 com o curta The Language of Love. Depois, ele voltaria a dirigir um curta apenas em 2009, Human Resources. O primeiro longa viria três anos depois, 28 Hotel Rooms. Acho que ele tem um trabalho bastante promissor. Tem talento para escrever e um feeling importante na direção.

Esta produção, 100% dos Estados Unidos, conquistou 12 prêmios e foi indicada a outros 40, inclusive a indicação de Viggo Mortensen na categoria Melhor Ator do Oscar 2017. Sim, ainda estou na onda do Oscar. 😉 Mas já estou atenta ao que está nos cinemas e estreando nas próximas semanas para acompanhar o que de melhor teremos pela frente neste ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 152 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,1.

Como este filme é 100% americano, ele entra na categoria de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Captain Fantastic, para mim, leva um pouco além a ideia de Into the Wild. Esta produção leva um pouco além a ideia de sociedade alternativa, mostrando de maneira bastante cruel, em alguns momentos, como é para uma família viver de forma totalmente independente. O bacana da produção é que, apesar dela exagerar em algumas tintas volta e meia, ela tenta ser franca com os conceitos e com a realidade e, no final das contas, busca o que é o ideal da vida: o equilíbrio. A saída é não ser totalmente alternativos, a ponto de viver isolado da sociedade, e nem seguir o pensamento mediano comum. Bem desenvolvido, é um filme que merece ser visto e discutido, certamente.

The Great Wall – A Grande Muralha

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Volta e meia Hollywood resolve gastar centenas de milhões de dólares em uma grande produção com “requintes” históricos. Certo que muita gente se interessa pelo cinema essencialmente pelos efeitos visuais e especiais que ele pode nos apresentar, mas um pouco de história para “rechear” o tempo gasto na sala escura não é má ideia, não é mesmo? Pois bem, é justamente história ao menos razoável que falta para The Great Wall. O filme é mais que previsível, ele dá sono.

A HISTÓRIA: Começa mostrando a Terra do espaço e afirma que a Grande Muralha foi, durante séculos, considerada uma das grandes maravilhas do mundo. A câmera lentamente se aproxima da gigantesca construção e aparecem mais informações sobre ela. A Muralha da China tem 5,5 mil milhas (cerca de 8,85 mil quilômetros) de extensão e demorou pouco mais de 1.700 anos para ser construída. A razão para a sua construção foi a China proteger-se de inúmeros perigos, alguns conhecidos, outros são lendas. A história contada neste filme é de uma destas lendas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Great Wall): Eu tinha curiosidade de assistir a este filme. Primeiro, porque eu gosto de filmes de ação, e achei que este poderia ter uma boa história por trás. Afinal, filmes de ação com um toque histórico sempre são interessantes. Depois porque eu achei ele um dos mais atrativos em cartaz no cinema atualmente e, terceiro, porque fiquei curiosa de ver a um fracasso comentado no Oscar.

Verdade que fui na sessão do cinema deste filme em 3D um tanto cansada. Mas pensei: “Bem, por ser um filme de ação, talvez ele tire o meu sono e me deixe bem desperta”. Ledo engano. A história super manjada no início e, principalmente, a perda de ritmo do filme da metade para a frente me deram mais sono do que qualquer outra coisa. Infelizmente o roteiro do trio Carlo Bernard, Doug Miro e Tony Gilroy, que trabalharam sobre a história original de Max Brooks, Edward Zwick e Marshall Herskovitz é muito fraco.

Entendo os produtores deste filme em colocar um astro mundialmente conhecido como Matt Damon como protagonista da produção. Afinal, o rosto dele ocupando grande parte do cartaz atrai um público considerável em diversos países. Mas, francamente, talvez The Great Wall funcionasse melhor se tivesse um elenco 100% chinês e, quem sabe, até um estilo um pouco mais “original” e de “raiz” do que o filme que nos apresentaram, muito preocupado com a audiência e pouco com a qualidade.

Para começar, vamos combinar que é um bocado manjado e forçado aquele começo do filme. Um grupo de “mercenários” foge de um grupo bem maior de maneira quase milagrosa. Depois, os “heróis” William (Matt Damon) e Tovar (Pedro Pascal) sobrevivem ao ataque de uma “figura não humana” novamente por milagre e, no dia seguinte, voltam a ser perseguidos pelo mesmo bando. Um tanto inverossímil isso, não? Pois bem, logo William e Tovar dão de cara com a Muralha da China. São tomados como prisioneiros pouco antes de um ataque esperado há 60 anos pelo Exército chinês acontecer.

O restante da história, depois desta introdução forçada, é bastante manjado. O Exército chinês com suas diferentes subdivisões enfrenta o inimigo com a ajuda dos “novos heróis” do pedaço, os “estrangeiros”. Mais do que simplesmente buscar sobrevida, William se mostra uma espécie de “cavaleiro da Távola Redonda”, defendendo a “mocinha” comandante Lin Mae (Tian Jing) que, evidentemente, não precisava da proteção dele. O roteiro dá uma forçada no personagem de William, fazendo dele quase um super-herói e o tornando “o queridinho” de Lin Mae de forma difícil de acreditar.

Em resumo, depois que os estrangeiros entram na jogada da guerra dos chineses contra os algozes alienígenas que aparecem de 60 em 60 anos – outro argumento forçado – eles viram os salvadores da pátria. Difícil acreditar que nenhum daqueles chineses que se prepararam há tanto tempo não tivessem a mesma capacidade de William de resolver tudo. Então The Great Wall decide trilhar o caminho besta e já conhecido do “herói bonitinho que salva a pátria” ao invés de contar uma história de lenda chinesa.

O desenrolar da história acaba sendo bem óbvio, com uma vitória dos chineses em uma primeira batalha e o retorno do inimigo depois para tentar reverter o jogo. Os alienígenas conseguem entrar na cidade, e a resolução do conflito é ainda mais forçado. Em resumo, o roteiro de The Great Wall é mais que fraco, previsível e forçado. Ele consegue a proeza de fazer um filme de ação ser monótono e dar sono. Mas outros elementos desta produção funcionam muito bem.

O que pode valer o seu tempo, mas eu recomendo que você espere para ver o filme em casa – não há necessidade de gastar com um ingresso no cinema -, são algumas cenas de ação, de luta e de batalha. Destaco, em especial, as cenas que envolvem a parceria de William e Tovar contra os alienígenas sobre uma das torres da muralha na primeira batalha e as cenas interessantes das chinesas que se lançam com cordas para enfrentar o inimigo na parte externa da muralha. São sequências realmente muito bacanas.

O 3D não vale muito a pena, exceto por algumas flechadas e alguns machados jogados contra os inimigos. Nada demais. Matt Damon se sai bem em diversos momentos, mas em outros ele parece estar em cena totalmente sem vontade. A interpretação dele é bem irregular. Os outros atores, especialmente os chineses, estão bem.

O diretor chinês Yimou Zhang faz um trabalho regular, mas o roteiro não lhe ajuda. Além disso, ele faz um trabalho previsível, sem grandes inovações de uso de câmera ou outros recursos. Talvez se ele tivesse mais liberdade criativa, poderia ter feito algo melhor. Em resumo, um filme bem feito tecnicamente, mas com roteiro ruim e interpretações ok, mas sem destaque nesta categoria.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme só recebeu a nota acima por causa de suas qualidades técnicas. Vale destacar, especialmente, a direção de fotografia de Stuart Dryburgh e Xiaoding Zhao; o design de produção de John Myhre; os belos figurinos de Mayes C. Rubeo; o trabalho do departamento de arte com 32 profissionais; o trabalho dos 19 profissionais envolvidos nos efeitos especiais; o resultado do trabalho do inacreditável time de 397 profissionais envolvidos com os efeitos visuais; a trilha sonora de Ramin Djawadi e a edição de Mary Jo Markey e de Craig Wood.

Impressionante o quanto este filme gastou com efeitos visuais. Certamente grande parte do orçamento da produção foi para pagar os quase 400 profissionais envolvidos com esta parte da produção. Por falar em custos, The Great Wall custou cerca de US$ 150 milhões. Quantos filmes independentes ou de orçamento mediano poderiam ser feitos com este orçamento? Incrível. Nos Estados Unidos o filme não foi bem nas bilheterias. Faturou quase US$ 38,7 milhões. Pouco para um filme que custou US$ 150 milhões. A sorte da produção é que no restante do mundo o filme não foi mal, faturou pouco mais de US$ 269,8 milhões. Ou seja, no acumulado, está com pouco mais de US$ 308,5 milhões. Não será um retumbante fracasso, mas também não pode ser chamado de sucesso.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho razoável do veterano Willem Dafoe como Ballard, o “mercenário prisioneiro” veterano da produção; Andy Lau como o estrategista Wang; Hanyu Zhang como o general Shao; Kenny Lin como o comandante Chen; Eddie Pen como o comandante Wu; Xuan Huang como o comandante Deng; Ryan Zheng como Shen, que acaba sendo protegido por William; Karry Wang como o imperador “bobalhão”; Pilou Asbaek como Bouchard e Numan Acar como Najid, mercenários que morrem logo no início da produção.

Mais até do que Matt Damon, chama a atenção neste filme a interpretação do chileno Pedro Pascal. Conhecido pelas séries Narcos e Game of Thrones, esse é um dos papéis de maior destaque dele no cinema dos Estados Unidos recentemente. Tem boas chances de decolar a partir de agora.

Este filme é uma coprodução da China e dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para The Great Wall, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 116 críticas negativas e 62 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 35% e uma nota média de 4,9. Devo admitir que concordo com as duas médias, tanto do IMDb quanto do Rotten Tomatoes. O filme poderia ganhar menos que o 6 que eu dei para ele, mas resolvi dar uma nota razoável para ele especialmente pelos efeitos visuais.

CONCLUSÃO: Roteiro não é apenas mais um elemento de um filme. Para mim, é parte central de uma grande produção. Então é chover no molhado dizer que a falta de um roteiro razoável, ao menos, é o principal problema de The Great Wall. Mas não é o único. Matt Damon se esforça para ser um herói na história, mas nem ele convence muito.

O que salva o filme e é por isso que eu dei a nota acima para ele são os efeitos especiais e alguma sequências de ação realmente muito boas. Pena que elas são poucas, levando em conta todo o tempo do filme. Ou seja, pense bem em investir o seu tempo nesta produção. Não achei o 3D tão fantástico, então talvez você possa esperar para fazer uma “sessão da tarde” com ele em casa.