Star Wars: Episode VIII -The Last Jedi – Star Wars: Os Últimos Jedi

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O que realmente vale a pena ser ensinado e aprendido não pode ser encontrado em um conjunto de livros. Aprendemos com o exemplo, com a experiência e a sabedoria de quem já viveu um bocado, com suas histórias de sucesso e, principalmente, de fracasso. É o mestre Yoda que nos ensina em Star Wars Episode VIII: The Last Jedi que o fracasso é o nosso grande mestre. Que belo filme esse, aliás! Bom saber que a saga Star Wars voltou a encontrar o seu bom caminho, resgatando personagens fundamentais e nos apresentando uma nova geração interessante. A essência dos filmes originais está aqui, e avançando ainda mais na explicação da Força e do equilíbrio que é preciso ter no Universo.

A HISTÓRIA: Começa com a famosa trilha sonora que arrepia qualquer fã de Star Wars. Na sequência, os também famosos letreiros que introduzem a história explicam que a Primeira Ordem está dominando o Universo. Logo depois de dizimar a pacífica República, o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) mandou as suas tropas para assumir o “controle militar” da Galáxia. Apenas a General Leia Organa (Carrie Fisher) e o seu grupo de combatentes da Resistência se opõem à “crescente tirania”, acreditando que o Mestre Jedi Luke Skywalker (Mark Hamill) regressará e ajudará a reacender a luz de esperança de dias mais justos. O problema é que a Resistência foi descoberta, e enquanto a Primeira Ordem se dirige para acabar com a base dos rebeldes, um grupo de heróis organiza a fuga dos sobreviventes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VIII): A primeira grata surpresa desse filme: o diretor Rian Johnson não começou pelo óbvio. Digo isso porque como o filme anterior terminou com o encontro da nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), com o até então “sumido” Luke Skywalker (o grande Mark Hamill), a expectativa “óbvia” dos fãs era que o novo filme começasse justamente desenvolvendo este encontro com expectativa alimentada durante o filme anterior.

Mas não. Johnson começa Star Wars Episode VIII de forma diferente. A espera pela primeira troca de palavras entre Rey e Luke acaba levando mais alguns minutos no novo filme. Antes, assistimos a algumas cenas de batalha e perseguição no Espaço, algo sempre muito celebrado pelos fãs da saga criada há exatos 40 anos – o primeiro filme, que virou Star Wars Episode IV, comentei há alguns meses aqui no blog.

Então o Episode VIII começa com a tentativa de fuga dos sobreviventes da Resistência, perseguidos pela Primeira Ordem – sistema que surgiu após a queda do Império Galáctico. Como a “fórmula” Star Wars pede – e que é seguida à risca nesta nova produção com roteiro de Johnson, baseado nos personagens criados por George Lucas -, o novo episódio da saga equilibra nas doses certas o humor, a ação, a adrenalina, o drama e a emoção.

O primeiro elemento que aparece em cena é o humor, com o piloto da Resistência Poe Dameron (Oscar Isaac) enganando o General Hux (Domhnall Gleeson), que está liderando o “cerco” contra as naves que tentam fugir. Em seguida, surge a ação, a adrenalina e a emoção, com a mobilização de parte das forças da Resistência para acabar com um encouraçado da Primeira Ordem.

Nessa operação, a Resistência registra muitas baixas e surge a primeira heroína desta produção – Paige Tico (Veronica Ngo), que se sacrifica para que a tentativa do grupo tenha êxito. O protagonismo das mulheres nesta produção, tão celebrada pelo retorno do personagem Luke Skywalker, que marcou a trilogia original da saga, chama a atenção, aliás.

Os fãs da série já esperavam um certo protagonismo das personagens Rey e Leia Organa (a maravilhosa Carrie Fisher) que, no Episode VII (com crítica neste link), já tinham mostrado bastante relevância na “nova trilogia”. Mas, tudo indicava, elas teriam ainda mais importância no Episode VIII. E isso, de fato, acontece. Mas elas não são as únicas mulheres que brilham em seus papéis e que acabam sendo decisivas no filme.

A personagem de Paige Tico aparece rapidamente na produção, mas ela acaba sendo lembrada por Rose Tico (Kelly Marie Tran) durante o restante do filme. A própria Rose, assim como a Almirante Holdo (Laura Dern) e Maz Kanata (com voz de Lupita Nyong’o), além de Rey e Leia Organa, são fundamentais para os acontecimentos desta história. Então sim, o Episode VIII mostra diversas mulheres corajosas, determinadas, valentes e que são as donas de seus destinos – e que influenciam, desta forma, diversas outras pessoas.

Assim, esse novo Star Wars está afinado com o nosso tempo, uma era em que (ainda bem!) cada vez mais mulheres assumem as suas opiniões e desejos sem ter que pedir licença para ninguém. O famoso “empoderamento feminino” está presente nesta nova produção da saga Star Wars. Mas isso não é tudo que chama atenção neste filme.

Gostei muito do equilíbrio que a produção busca (e consegue alcançar) dos elementos fundamentais que comentei anteriormente, assim como apreciei muito o lado mais “filosófico” desta história – se compararmos, por exemplo, com o Episode VII – e os encontros especiais que o filme promove. A verdade é que o Episode VIII é emotivo, desde o início, por sabermos que estamos vendo, na nossa frente, ao último filme estrelado pela atriz Carrie Fisher.

Essa atriz foi – e eternamente será – importante para a saga Star Wars, e quando vemos ela em cena neste seu último filme, cada “aparição” dela se torna especial. Como no Episode VII tivemos encontros emocionantes, como o de Leia Organa com Han Solo (Harrison Ford), neste novo episódio temos o memorável encontro de Leia com o seu irmão, Luke. Pessoalmente, achei até mais marcante e tocante o encontro do Episode VIII do que o ocorrido no episódio anterior. De arrepiar, por exemplo, quando Luke diz para Leia que alguém, quando morre, realmente não desaparece – impossível não pensar na atriz nesse momento.

Aliás, algo que gostei muito nesta produção é o avanço do filme na parte “filosófica” e de princípios da saga Star Wars. Quando Rey insiste e consegue vencer a resistência de Luke em ensiná-la sobre a Força, vemos a alguns minutos preciosos sobre a interpretação do personagem sobre a essência que perpassa todas as histórias da saga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com uma narrativa muito bem pensada e planejada, Johnson nos mostra a essência sobre a Força que, nada mais é, que a energia que perpassa todos os seres e que busca o equilíbrio constante.

Assim, como diversas religiões – inclusive o catolicismo – ensinam, nunca teremos realmente apenas a luz e/ou o bem no Universo. Como existe a luz, existe a treva, e como existe o bem, também existe o mal. Nunca teremos apenas luz ou apenas o bem, mas o equilíbrio entre estes elementos e a escuridão e o mal. Este é o ponto. No fim das contas, Star Wars e todos os seus filmes tratam desta busca constante pelo equilíbrio e sobre os problemas que surgem quando um destes elementos – mais notadamente o mal – prevalece.

Achei muito bacana a forma com que Johnson apresenta a explicação de Luke sobre a Força e como o próprio Luke questiona a existência dos Jedi. Talvez nesta parte que alguns fãs tenham se sentido “traídos” ou tenham ficado insatisfeitos com a história. Luke diz com todas as letras que os Jedi não são os únicos detentores da Força e nem os únicos que podem utilizá-la para o bem. Ele realmente “diminui” a importância dos Jedi e questiona como a arrogância deles – ou de parte deles, para ser mais precisa – acabou provocando mais danos do que ajudando para o equilíbrio do Universo.

Os super fãs da saga podem até não ter gostado disso, mas eu achei muito positiva esta ponderação. Afinal, podemos perceber isso em várias partes… como os detentores da “verdade” acabam se perdendo na sua arrogância e, apesar de terem qualidades e muito conhecimento, acabam indo contra tudo aquilo que acreditam e provocando mais mal do que bem. Esse comentário importante de Luke, que vivenciou a Força muito bem e que viu como ela podia ser mal utilizada – como muitas religiões, diga-se de passagem -, ajuda a explicar a cena final do Episode VIII.

Na sequência final, um grupo de crianças que são escravas está animado com a passagem das pessoas da Resistência por onde elas viviam e sonham com um futuro em que elas possam ser livres. Nessa cena, fica evidente o que Luke nos disse antes. Todos têm a Força dentro de si, basta acreditarem nela e a utilizarem da melhor forma possível para atingir os seus objetivos – e, preferencialmente, causas maiores que beneficiem mais pessoas. Aquelas crianças no final simbolizam a esperança e como a Força realmente está presente em todos. O que importa é o que fazemos com ela.

Ah sim, e antes de terminar estes comentários e avaliação sobre o Episode VIII, vale citar outro encontro mais que marcante nesta produção: o que acontece entre o mestre Yoda (voz de Frank Oz) e Luke. Para mim, uma das grandes sequências do filme – assim como o encontro entre Leia e Luke e a batalha “lado a lado” de Rey e Kylo Ren (Adam Driver).

No encontro entre o mestre Yoda e Luke, o mestre mostra toda a sua sabedoria ao dizer que Luke não deve se preocupar com a destruição dos “livro sagrados” e do primeiro tempo Jedi. Porque o que importa mesmo é o que aprendemos nas nossas trajetórias e em como repassamos isso para a frente – valendo as histórias de sucesso e, especialmente, as de fracasso. Uma grande lição, e que vale para todos nós. Para mim, um dos melhores filmes da saga.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti a esse filme em sua versão 3D. A exemplo do Episode VII, achei que este novo filme da saga merece ser visto na versão 3D, ainda que ele não tenha realmente um grande ganho, digamos assim, nesta versão. Mas a qualidade do 3D, especialmente na profundidade de cada plano e nos detalhes de alguma cena, tornam a experiência do filme ainda mais interessante. Recomendo.

Três personagens dos filmes originais voltam com tudo nesta nova produção. Dois deles, claro, com um protagonismo maior, e o terceiro em apenas uma sequência muito marcante. Me refiro aos personagens de Luke Skywalker, Leia Organa e Mestre Yoda, nesta ordem de importância para o Episode VIII. Luke aparece um bocado, e sempre com uma interpretação marcante de Mark Hamill. O ator mostra, agora de forma amadurecida, porque gostamos tanto dele no passado. Ele está ótimo. Carrie Fisher arrepia em cada cena em que aparece pela presença marcante e pelo talento da atriz e também por aquela questão “nostálgica” e de despedida que eu comentei anteriormente. E o Mestre Yoda tem algumas das falas mais importantes da história. Então estes três personagens “clássicos” retornando neste filme fazem qualquer fã arrepiar e delirar – ao menos isso aconteceu comigo.

Outros personagens da “velha guarda” aparecem nesta produção, mas com uma presença menos importante. Vale citar o C-3PO de Anthony Daniels; o maravilhoso Chewbacca de Joonas Suotamo – eu admito que quase tive um “ataque”, no bom sentido, cada vez que o Chewbacca apareceu em cena nesse novo filme; e o R2-D2 de Jimmy Vee. Bacana ver esses personagens marcantes novamente no cinema – mesmo que em participações menores, como é o caso do C-3PO e do R2-D2.

Algo bacana nesta nova trilogia que dá sequência para a saga Star Wars é encontrar novos personagens que seguem a essência dos personagens que deram início à série nos anos 1970 e 1980. Então é bacana “reencontrar” os personagens apresentados no Episode VII e se aprofundar um pouco mais nas suas histórias e, principalmente, personalidades. Dos novos personagens, o destaque vai, sem dúvida, para a Rey interpretada por Daisy Ridley; para o Finn do ótimo John Boyega – muito bons o ator e o personagem, aliás; e para o Kylo Ren de Adam Driver. Como na trilogia original existia o duelo entre o bem e o mal entre Luke e Darth Vader, agora o mesmo duelo é vivenciado por Rey e Kylo Ren.

Além destes três personagens centrais da nova trilogia, vale destacar o bom trabalho de Oscar Isaac como Poe Dameron e de Andy Serkis como Snoke. Outros personagens relevantes neste novo episódio e que foram bem interpretados por seus atores são a Maz Kanata de Lupita Nyong’o; o General Hux de Domhnall Gleeson; a Rose Tico de Kelly Marie Tran; e a Almirante Holdo de Laura Dern. O personagem DJ, interpretado por Benicio Del Toro, também tem relevância na história, mas achei ele o mais forçado de todos e o menos interessante da turma.

Entre os coadjuvantes do Episode VIII, vale ainda comentar o bom trabalho de Gwendoline Christie como a Capitã Phasma; de Billie Lourd como a Tenente Connix; de Amanda Lawrence como a Comandante D’Acy; e de Brian Herring e Dave Chapman como BB-8 (a nova “mascote” da trilogia).

Gostei tanto da direção quanto do roteiro de Rian Johnson. Acho que o diretor americano, que tinha pouco mais de três anos de idade quando o primeiro Star Wars estreou em 1977, encarnou bem o espírito dos filmes criados por George Lucas e soube resgatar a essência da saga no Episode VIII. Antes de fazer este filme, Johnson dirigiu a outras nove produções, incluindo quatro curtas, três longas e duas séries – 1 episódio de Terriers e 3 episódios da ótima Breaking Bad. A estreia dele em longas foi com Brick, em 2005. Depois viriam os longas The Brothers Bloom (2008) e Looper (2012) – esse último comentado aqui no blog.

Claro que um filme de ficção científica tem em seus aspectos técnicos alguns de seus principais trunfos. Isso sempre foi uma característica de Star Wars e continua sendo neste novo filme da saga. Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a sempre marcante trilha sonora do mestre John Williams; para a direção de fotografia de Steve Yedlin; para a edição de Bob Ducsay; para o design de produção de Rick Heinrichs; para a direção de arte que envolveu 10 profissionais; para a decoração de set de Richard Roberts; para os figurinos de Michael Kaplan; para o Departamento de Maquiagem com 36 profissionais; para o Departamento de Arte com 180 profissionais – incluindo artistas conceituais e construtores de maquetes e afins; para os Efeitos Especiais criados por 63 profissionais; e para os Efeitos Visuais criados por cerca de 600 profissionais – admito que eu me cansei de contar e parei perto dos 300 artistas, mas a lista deve ser quase o dobro disso. Números impressionantes e que mostram o tamanho gigantesco desta produção. Sem essa turma, que não ganha os holofotes de outros nomes, o Episode VIII não existiria.

Star Wars Episode VIII estreou em première em Los Angeles no dia 9 de dezembro. Depois, no dia 12, ele fez première em Londres e, no dia seguinte, estreou no Festival Internacional de Cinema de Dubai e em 17 países – incluindo o Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars: The Last Jedi já figurava, no dia 27 de dezembro, como o segundo filme com a maior bilheteria de 2017, somando US$ 445,2 milhões apenas nos Estados Unidos – ficando atrás, apenas, de Beauty and the Beast. Olhando para os restante do mundo, no acumulado do ano, Star Wars já figurava em quarto lugar no ranking de 2017, com US$ 892,1 milhões até o dia 27 – atrás de Beauty and the Beast, Fate of the Furious e Despicable Me 3. Certamente o filme vai passar a marca de US$ 1 bilhão em breve.

Star Wars Episode VIII foi filmado em quatro países: Croácia, Irlanda, Bolívia e Reino Unido. Entre as cidades em que a produção passou, vale citar Dubrovnik, na Croácia, que fez as vezes de Cidade do Canto Bright; Skellig Michael e Brow Head, na Irlanda, que fez as vezes do Planeta Ahch-To; Salar de Uyuni, na Bolívia, cenário das cenas da batalha final; e muitas e muitas cenas rodadas no Pinewood Studios, em Iver Hearth, Reino Unido.

Eu vou abrir mão, dessa vez, de citar curiosidades sobre a produção, beleza? É que apenas o site IMDb traz nada menos que 129 tópicos sobre o filme… quem estiver muito curioso(a) em fazer essa imersão nas curiosidades de Star Wars Episode VII, sugiro visitar a página específica do IMDb.

Por falar em site IMDb, vale comentar que Star Wars Episode VIII registra a nota 7,6 no site que registra a opinião do público – menos que o seu antecessor, que registra a nota 8,0. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 textos positivos e apenas 31 negativos para o Episode VIII, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,1. O nível de aprovação e a nota do Episode VIII também estão ligeiramente menores que o do Episode VII no Rotten Tomatoes. Gostei mais do Episode VIII, pelas razões que comentei, e acho que estou mais próxima dos críticos, em relação a este filme, do que do público em geral.

Até o momento, Star Wars: The Last Jedi ganhou um prêmio e foi indicado a outros três – acredito que o filme será indicado em uma ou mais categorias técnicas do Oscar 2018. O único prêmio que o filme recebeu, até o momento, foi o Golden Trailer de Melhor Poster Fantasia/Aventura no Golden Trailer Awards.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Eis um filme com o coração e o espírito nos lugares certos. Muito bom ver a saga Star Wars voltando aos seus grandes momentos. Este filme, mais até que o anterior da grife, nos apresenta a alguns dos elementos que fazem os fãs delirarem. Muitas batalhas no ar e algumas bem marcantes sobre a terra. Grandes personagens que voltam a se encontrar e uma nova geração que volta a formar a disputa clássica entre o Bem e o Mal, naquele jogo constante entre as forças contrárias em busca do equilíbrio. Aliás, Star Wars VIII avança um bocado sobre a explicação da Força e de como a lógica por trás da saga funciona. Além de todas as suas qualidades técnicas, que são variadas, este filme vale por alguns reencontros realmente marcantes e especiais. Para quem gosta de Star Wars, não dá para perder.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Star Wars Episode VIII tem grandes chances de fechar o ano como a maior bilheteria dos cinemas americanos. E isso com menos de um mês de tempo nos cinemas. Esse é um elemento importante que pode ajudar o filme a ser indicado a alguns Oscar’s. Acredito na indicação do filme em algumas categorias técnicas.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood inovou ao divulgar, no final de 2017, mais notícias sobre os filmes que foram, pouco a pouco, avançando na disputa por uma indicação. Até o final do ano, Star Wars seguia na disputa por uma vaga na categoria de Melhores Efeitos Visuais com outros nove títulos. Acho que o filme deve chegar na lista dos cinco indicados nessa categoria, assim como vejo chances dele ser indicado nas categorias Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Talvez o filme até possa emplacar indicações nas categorias Melhor Trilha Sonora e Melhor Design de Produção, mas com chances menores de emplacar indicação e de ganhar uma estatueta. Na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo o filme já ficou de fora da disputa – a Academia divulgou sete produções que seguem na disputa por uma das vagas de finalistas, e Star Wars não está no meio. Resumindo, esse filme pode até conseguir algumas indicações, mas possivelmente sairá de mãos vazias do Oscar – talvez vencendo apenas como Melhores Efeitos Visuais, e olha lá.

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Star Wars: Episode VII – The Force Awakens – Star Wars: O Despertar da Força

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O que é bom, o que nos traz ótimas lembranças, deveria ser sempre revisitado. Assim como é bom, depois de quatro décadas do início de uma das grifes mais famosas do cinema, retomar alguns personagens que foram lançados há tanto tempo. E é exatamente isso que Star Wars Episode VII: The Force Awakens faz. Alguns de vocês podem estar achando estranho eu comentar este filme agora, mas é que eu perdi de assisti-lo quando ele estreou nos cinemas. E como eu quis assistir, nesse final de ano, ao segundo filme da nova trilogia da saga, segui o conselho de um amigo e vi a este filme primeiro. Star Wars VII é realmente um deleite, especialmente para quem ainda tem a saga original (relativamente) fresca na memória.

A HISTÓRIA: Inicia com a frase clássica “Há muito tempo em uma galáxia muito, muito distante…” e a música de início da saga que marcou o cinema há exatos 40 anos. Episode VII inicia comentando que Luke Skywalker (Mark Hamill) desapareceu, e que na ausência dele, a sinistra Primeira Ordem surgiu das cinzas do Império. Esse grupo procura por Skywalker e não descansará até que o “último Jedi” seja destruído. Com o apoio da República, a General Leia Organa (Carrie Fisher) lidera a Resistência que, por sua vez, também procura por Luke. Na missão de encontrar o seu irmão, Leia envia para uma missão secreta o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac), que busca no planeta Jakku informações sobre o paradeiro de Luke.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VII): O meu amigo, o Félix, estava certo. Eu realmente precisava assistir a esse Episode VII antes de conferir, nos cinemas, ao novo Episode VIII. Desta vez, aqui no blog, eu também fiz diferente. Assisti a este filme, comecei a escrever sobre ele, mas só terminei o texto cerca de duas semanas depois… nesse meio tempo, conferi ao Episode VIII nos cinemas e também escrevi sobre ele, começando o texto sobre o novo filme logo depois de assisti-lo e terminando o seu conteúdo apenas hoje.

Ou seja, pela primeira vez na história desse blog – ao menos pelo que eu tenho lembrança -, eu termino agora de escrever sobre um filme que foi o penúltimo que eu assisti e com uma crítica escrita posteriormente ao do blog post que eu ainda vou publicar. Eita! Espero não ter dado um nó na cabeça de alguém, mas tenho que ser sincera sobre a ordem dos fatos. Assim, assisti ao Episode VII um dia antes de ver nos cinemas ao Episode VIII, mas finalizei o texto do Episode VIII antes de terminar este texto aqui do Episode VII.

A escolha pela ordem dos fatos tem a ver com o “frescor” das lembranças na minha mente. Em casa, estou escrevendo este texto e vendo novamente ao Episode VII, enquanto que para escrever a crítica do Episode VIII eu contei apenas com as lembranças do que eu vi no cinema. Comentado isso, vamos ao que realmente interessa: as minhas impressões sobre este primeiro filme da nova trilogia da saga Star Wars.

Eu gostei do início do filme, com aquela alusão clara da nave gigante de outras naves menores saindo dela relacionadas com o filme que inaugurou a saga e que foi lançado em 1977 – revisto por mim este ano e comentado neste texto. Mas admito que algo me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na parte inicial do Episode VII, fiquei me perguntando: o que separa uma história que faz diversas homenagens para o filme original daquela história que parece carecer de imaginação?

Acredito que boa parte dos fãs curtiu as várias “homenagens” feitas pelo roteiro de Lawrence Kasdan, J.J. Abrams e Michael Arndt, inspirados nos personagens de George Lucas, à história original que apresentou a saga para o mundo em 1977. Digo isso pelas ótimas avaliações que esse filme recebeu e por verificar que, apesar do Episode VIII ter me parecido mais criativo e interessante, ele ter uma avaliação menos positiva que esse Episode VII. Entendo os fãs, mas eu fiquei um pouco incomodada com toda aquela “repetição” de padrões.

Nesse Episode VII temos, novamente, uma mensagem importante sendo escondida em um pequeno robô que, de forma leal, passa por diversos mal bocados até chegar a alguém de confiança que possa ajudá-lo. Mais uma vez, o vilão da história captura a um dos personagens importantes para tentar arrancar informações dele. No lugar do R2-D2, o robô da vez é o ágil BB-8 (interpretado por Brian Herring e Dave Chapman), e ao invés de um Darth Vader torturando uma Princesa Leia, temos Kylo Ren (Adam Driver) interrogando e torturando Poe Dameron.

A exemplo de Luke Skywalker, que contemplava os dois sóis no Star Wars Episode III, temos agora a nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), também observando o anoitecer em sua cidade natal. Os dois personagens não foram criados por seus pais e tem curiosidade sobre as suas origens. Diversas semelhanças para um começo de história, não? Ao menos para o meu gosto, esse excesso de referências incomodou um pouco.

Mas descontado isso, devo dizer que esta história dirigida com esmero por J.J. Abrams cumpre totalmente o seu papel. Com um bom ritmo e resgatando a essência da trilogia original de George Lucas – aquela que encantou o público mundo afora nos anos 1970 e 1980 -, esse Episode VII volta a colocar a série de filmes com o selo Star Wars no caminho certo. Temos nesse Episode VII todos os elementos que encantaram as pessoas há algumas décadas.

O principal trunfo, possivelmente, destes filmes – e desse Episode VII – seja equilibrar os diversos elementos que fazem parte da vida de qualquer um de nós. Assim, nós temos drama, humor, ação, romance – ao menos sugerido – e suspense em um mesmo pacote. Um destaque deste filme, assim como do original de 1977, é a presença maior do humor e da ação na história. Esses elementos fazem com que esse Episode VII seja puro entretenimento. Um filme bem conduzido, com ritmo e que prende a atenção do público a cada segundo.

O interessante é que, ao mesmo tempo em que temos o resgate do “espírito” Star Wars nesse Episode VII e que vemos, literalmente, a personagens importantes da trilogia original voltando à tela, conferimos o protagonismo de novos personagens. São eles que trazem os elementos novos para a saga e que ajudam a renová-la, projetando um futuro interessante para Star Wars.

Os novos personagens apresentam várias semelhanças com os heróis que fizeram história na trilogia original ao mesmo tempo em que avançam na compreensão dos fãs sobre o significado da Força, dos Jedi e de tudo o mais que faz parte do universo de George Lucas. Rey resgata algumas características e valores da Princesa Leia, ao mesmo tempo em que ela se parece mais com o exemplo de mulher “empoderada” da atualidade.

O mesmo pode ser dito sobre Finn (John Boyega), personagem interessantíssimo que lembra um pouco o relutante e corajoso Han Solo da trilogia original. Poe Dameron recorda um pouco a Luke, mas apenas na parte da destreza como piloto – está claro que Poe não terá a importância de Luke para a história, não apenas pelo que vemos no Episode VII, mas especialmente pelo Episode VIII. E assim, de forma muito sutil, J.J. Abrams, George Lucas e companhia demonstram como a saga Star Wars tem muito para nos contar ainda e pode ser renovada com talento por muito tempo ainda.

As cenas de batalha aérea são o principal do filme em termos de sequências de ação neste Episode VII. Da minha parte, senti falta de mais disputas em solo, seja com sabres de luz ou não – isso eu fui ver mais apenas no Episode VIII. Os efeitos visuais e especiais, assim como o ritmo do filme, são impecáveis. Em relação à história, descontada a parte que comentei antes de um certo “excesso” de referências ao filme de 1977, gostei da forma com que o roteiro apresentou os novos personagens, resgatou o espírito dos filmes originais e promoveu reencontros importantes e emocionantes.

É muito marcante cada momento em que vemos em cena, novamente, personagens tão marcantes como Han Solo (Harrison Ford), Leia Organa (Carrie Fisher), Chewbacca (Peter Mayhew e Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels). Especialmente emocionante os momentos entre Han Solo e Leia Organa. O quanto não aconteceu entre os dois entre os episódios VI e VII? Espero que um dia esta história ainda seja contada. 😉

Este filme é mais concentrado na apresentação dos novos personagens e no início do embate entre a Primeira Ordem e a Resistência. É um filme também sobre a busca do herói – ou a ideia que temos dele – e sobre a busca particular de cada um sobre a sua essência e sobre o que lhe faz sentido. Alguns dos elementos fundamentais da saga original, pois, voltam à cena, mas de forma renovada e inteligente. Um filme divertido e que mostra, ao mesmo tempo, como sempre podemos escolher entre o bem e o mal. Ninguém nos leva por um caminho se não quisermos seguir aquela direção.

O novo vilão, neto de Darth Vader e filho de Han Solo e de Leia Organa, tem muitos elementos interessantes para tornar este um personagem forte na saga Star Wars. E para equilibrar com ele, que é um dos personagens centrais do “lado negro” da Força, temos personagens da estirpe de Rey, uma garota que percebe o “lado claro” da Força despertando em si neste Episode VII. Outros personagens como ela devem surgir, é claro, especialmente após o Episode VIII. Bom ver, neste dois novos episódios, como a saga Star Wars tem ainda muito gás para dar.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu disse antes, perdi esse filme quando ele passou nos cinemas. Mas, agora, prestes a ver ao Episode VIII, consegui uma versão em 3D do Episode VII para ver em casa. Realmente é um filme fascinante, muito bonito e que utiliza bem a tecnologia 3D a seu favor.

Han Solo e Leia Organa são os dois grandes retornos/presentes desse filme. Como é bom rever personagens tão “clássicos” e carismáticos novamente em cena! Os atores Harrison Ford e Carrie Fisher estão ótimos, tão bons e carismáticos como nos filmes originais – ou até melhores, após algumas décadas de experiência. Além deles, os destaques desta produção são os atores Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver e Oscar Isaac, as novas estrelas que apresentam os personagens da nova trilogia Star Wars. Todos estão muito bem, com protagonismo de Daisy Ridley e John Boyega.

Entre os atores coadjuvantes, vale citar o bom trabalho de Lupita Nyong’o como Maz Kanata; de Andy Serkis como o Supremo Líder Snoke; o de Domhnall Gleeson como General Hux; o de Gwendoline Christie como Capitã Phasma; e o de Ken Leung como Almirante Statura. Além deles, vale citar as participações pequenas, mas muito marcantes, de Max von Sydow como Lor San Tekka e de Mark Hamill como Luke Skywalker. J.J. Abrams sabe alimentar muito bem, aliás, a expectativa até revermos ao grande Mark Hamill em cena. A sequência final é muito marcante.

O diretor J.J. Abrams faz um belo trabalho na direção. Nada realmente inovador, mas ele segue bem a cartilha de George Lucas, de Irvin Keshner e de Richard Marquand, os diretores da trilogia original. Além do belo trabalho na direção, Episode VII se destaca, entre os aspectos técnicos, pela marcante e inesquecível trilha sonora de John Williams; pela direção de fotografia de Dan Mindel; pela edição de Maryann Brandon e de Mary Jo Markey; pelo design de produção de Rick Carter e de Darren Gilford; pela decoração de set de Lee Sandales; pelos figurinos de Michael Kaplan; e pelo trabalho decisivo e coletivo da equipe de 16 artistas responsáveis pela Direção de Arte; dos cerca de 170 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; dos cerca de 100 profissionais responsáveis pelos Efeitos Especiais e pelo trabalho do espantoso contingente de cerca de 1.250 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais desta produção.

Star Wars Episode VII estreou no dia 14 de dezembro de 2015 em uma première em Los Angeles. No dia seguinte, o filme teve première em Jakarta e, no dia 16 de dezembro, em Sydney. No Brasil, o Episode VII estreou no dia 17 de dezembro de 2015.

Vocês vão me perdoar, mas desta vez eu não vou citar curiosidades sobre esta produção. Até porque a lista é beeeeem grande. Quem quiser conferir curiosidades sobre o Episode VII, pode dar uma conferir em alguns (ou todos) dos 380 tópicos listados por aqui pelo site IMDb.

Star Wars Episode VII foi indicado em cinco categorias do Oscar, ganhou 57 prêmios e foi indicado a outros 123. O filme não ganhou nenhum Oscar, mas entre as premiações que levou para casa, destaque para a de Melhores Efeitos Visuais no Prêmio Bafta; o de Melhor Trilha Sonora para Mídia Visual para John Williams no Grammy; e o Trailer de Filme Mais Visto no YouTube em 24 horas no Guinness World Record Award.

Episode VII foi rodado na Irlanda, na Islândia, no Reino Unido, nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. Apesar de ser rodado em todos esses países, Star Wars The Force Awakens é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars Episode VII faturou quase US$ 936,7 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 1,13 bilhão nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, superou a marca de US$ 2 bilhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para Star Wars Episode VII, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 350 textos positivos e apenas 28 negativos para esse filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o patamar das notas chama a atenção – bem acima da média para os dois sites.

CONCLUSÃO: Um filme que coloca lado a lado ótimos personagens da trilogia anterior da saga e novos nomes que vão renovar Star Wars nesta nova fase de filmes. Como manda o figurino dos filmes Star Wars, este Episode VII tem muitas batalhas no ar e na terra, confrontos marcantes, equilíbrio entre ação, emoção e comédia e, claro, personagens interessantes. Novamente a disputa entre as forças do bem e do mal está no centro na narrativa, assim como o esperado reencontro de alguns personagens. Para os fãs, não há como não se arrepiar com algumas cenas. Para os demais mortais, este filme será, pelo menos, puro entretenimento. Sob uma ótica ou sob a outra, ele funciona muito bem. Um belo retorno da saga.

Wonder – Extraordinário

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Este filme tem todos os elementos para fazer qualquer um chorar, mas o choro não é obrigatório. Mas ainda que você não chegue a verter lágrimas, algo é certo: Wonder vai te emocionar. Eu não chorei, mas fiquei tocada pela história, muito bem contada e conduzida, em mais de um momento. Isso porque este filme trata dos valores certos, do que realmente interessa no final de contas. Uma produção que dialoga com qualquer pessoa de qualquer idade porque tem uma proposta bastante universal. E por mais que a história não seja muito surpreendente, ela tem algumas ótimas sacadas que compensam a narrativa previsível por boa parte da duração do filme.

A HISTÓRIA: Em um céu estrelado, um astronauta flutua. Ele parece estar pulando e ergue os braços. Auggie (Jacob Tremblay) está pulando sobre a cama e comenta que ele sabe que não é uma criança como qualquer outra. Mas ele diz que faz coisas ordinárias, como tomar sorvete, andar de bicicleta, e fazer esportes no Xbox. Ele ama Minecraft, Ciências e, claro, Star Wars. Ele inclusive brinca de lutar com sabres de luz com o pai, Nate (Owen Wilson). Enquanto isso, ele deixa a irmã Via (Izabela Vidovic) maluca. Auggie também sonha em ir para o Espaço, como qualquer criança. Curioso que ele está sempre com um capacete.

Mas ele disse que o nascimento dele não foi ordinário e sim hilário. Mas quando Auggie nasce, todos percebem que tem algo errado. Desde então, ele fez 27 cirurgias para que ele pudesse fazer coisas básicas, como enxergar, respirar e tudo o mais. Mas, agora, ele terá um novo desafio pela frente. Em um certo dia, ele escuta a mãe Isabel (Julia Roberts) e o pai Nate falarem sobre ele ir para a escola. Aí começará o grande desafio de Auggie até o momento.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wonder): Eu não gosto de assistir a trailers de filmes. Mas, às vezes, quando vamos no cinema, meio que somos obrigados, não é mesmo? Assisti ao trailer de Wonder umas duas vezes antes de assistir ao filme. E que imagem aquele trailer me passou? Que Wonder seria um daqueles filmes “forçados”, literalmente planejados a cada milímetro para fazer o espectador chorar.

Então, serei franca, eu fui para o cinema com um certo “pezinho atrás”. Estava com esta expectativa de filme forçado quando comecei a ver o filme. E qual foi a minha surpresa quando eu percebi que não era nada daquilo? Verdade, como eu disse no princípio deste texto, que Wonder faz chorar com uma certa facilidade. Mas não porque ele apresenta uma carga melodramática exagerada e sim porque a história nos convence, ela parece real e ela faz a gente pensar em várias relações – especialmente de amizade – que nós mesmo temos. E o quanto tudo isso é fundamental.

Como eu disse, eu acabei não chorando. Mas foi por pouco. E o que exemplifica como o roteiro de Stephen Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne foi bem construído, é que a parte em que eu mais me “segurei” não teve a ver com o protagonista Auggie. Foi a parte em que Via canta para os pais e para as demais pessoas da plateia depois do gesto altruísta e de grande generosidade da “ex-amiga” Miranda (Danielle Rose Russell). Achei tanto o gesto da garota de uma grandeza imensa quanto me emocionei com a alegria e a entrega de Via no espetáculo sabendo que ela estaria orgulhando os seus pais.

Eis dois dos vários valores enaltecidos por esta produção que me cativaram. Primeiro, a amizade capaz dos gestos mais bonitos de Miranda, Jack Will (Noah Jupe), Summer (Millie Davis), Auggie e tantos outros. Depois, o desejo dos filhos em honrar e trazer alegria para os seus pais – com especial destaque, neste sentido, para a personagem de Via. Além disso, a história por si só de Auggie é inspiradora porque nos mostra que por mais difícil e/ou desafiadora que uma situação puder ou parecer, podemos superá-la se mantivermos o foco no que é certo e se tivermos os incentivos certos.

Algo que eu achei bacana neste filme é que ele não tem papas na língua. O roteiro do trio Chbosky, Conrad e Thorne, baseado no livro de R.J. Palacio, é bastante franco nas situações e nos diálogos de adultos, jovens e crianças. Desta forma, o trabalho do diretor Stephen Chbosky nos convence a cada minuto. Conseguimos nos lembrar do tempo do colégio – que, para muitos, foi realmente desafiador e uma tortura – e de tudo que aquela fase de encontro de diferenças e de nem sempre cuidado em tratar estas diferenças pode significar para uma criança e um jovem.

Sim, as crianças que aparecem em Wonder, quase na totalidade, são cruéis. Mas quem conhece o ambiente escolar sabe bem que boa parte do que vemos em cena realmente poderia acontecer em várias escolas mundo afora. Muitas crianças são perseguidas e viram chacota dos que, como Isabel bem define, tem problemas de autoestima.

Na vida real, e como acontece neste filme, as crianças que enfrentam este tipo de situação tem algumas formas de vencer isso. A primeira é elas se “impondo” de alguma maneira – pela força ou pela inteligência, muitas vezes. A segunda é elas resistindo ao máximo que elas podem e, pouco a pouco, ficando fortes com isso e ganhando a simpatia/amizade de algumas crianças. Isso sempre acontece, inevitavelmente. O papel dos adultos neste cenário, como Wonder também mostra com competência, é o de dar suporte, apoio e respostas para a criança que está sendo desafiada com bullying e com todas as suas práticas injustas.

Algo importante desta produção é que ela mostra que, infelizmente, em uma sociedade em que nem todos têm bom senso, educação ou respeito pelos outros, nunca poderemos evitar que as pessoas sofram. Os pais não podem evitar que os filhos sejam mal-tratados e desafiados, assim como as crianças que tem alguma particularidade que as distingue das demais não podem evitar de serem alvo de piadas e de grosserias. Mas se não podemos evitar algo, podemos aprender a lidar com isso, não é mesmo? Esta é a parte mais importante.

Wonder mostra tudo isso de forma muito franca e aberta, com sinceridade e delicadeza. E algo que eu achei importante no filme e que me surpreendeu é que Wonder não é centrado apenas no personagem de Auggie. Sim, é verdade que ele é o protagonista da história. Mas o filme é dividido em quatro “capítulos”, cada um com o nome de um personagem. O primeiro é dedicado a Auggie. O segundo, para Via, a irmã mais velha dele; o terceiro, para Jack Will, o menino que se torna o melhor amigo de Auggie; e o quarto, para Miranda, a “ex” melhor amiga de Via e uma personagem que, até aquele momento, você não esperava que tivesse um capítulo com o seu nome.

O interessante desta forma de narrativa é que cada “capítulo” do filme assume a ótica e a perspectiva daquele personagem. E isso é algo fundamental para o filme ter a qualidade que ele tem. Desta forma, Wonder nos mostra que uma mesma história e uma mesma realidade tem diversas perspectivas. Mesmo que às vezes não estejamos atentos para todas elas, todas são igualmente importantes e ricas de detalhes. Assim, entendemos não apenas o protagonista Auggie mas todas as pessoas da sua família e as outras pessoas mais próximas de forma mais completa com as diferentes perspectivas que aparecem em cena.

Por apresentar todas estas características, Wonder provoca apenas bons sentimentos, análises e perspectivas. O filme nos faz ter um olhar mais generoso e atento. Afinal, todas as pessoas vivem mundo próprios de experiências, sentimentos, expectativas, sucessos e fracassos, e deveríamos lembrar disso mais vezes no dia a dia em que encontramos pessoas nem sempre tão “adaptáveis” ou que fazem sentido para a gente. Wonder mostra que todos tem as suas perspectivas, e que todas estas perspectivas fazem sentido dentro de determinadas realidades lógicas e cheias de sentimento.

Ter um olhar mais atencioso, compreensivo e generoso para o outro é uma das mensagens centrais desta história. Todos tem as suas capacidades e talentos, e o que deveríamos fazer é ajudar, dentro das nossas possibilidades, para que todos consigam se expressar e se desenvolver como gostariam. Outras mensagens importantes que esta produção mostra e reforça a cada minuto é a importância da família e das amizades verdadeiras. Ou seja, grandes valores colocados em primeiro plano. Um belo filme, bem conduzido e desenvolvido, com um roteiro realista e que equilibra muito bem o drama e o humor. A variedade de perspectivas da história também ajuda muito Wonder a não ser o filme de um personagem só. Muito bacana.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei antes alguns dos grandes valores que Wonder destaca durante o seu desenvolvimento. Mas tem outras questões que a produção destaca e que achei igualmente inspiradoras. Por exemplo, a forma com que o filme mostra a importância de grandes professores na vida de todas as pessoas. Eles são fundamentais e, nesta produção, tratados de uma maneira bacana e inspiradora. Outro valor destacado por esta produção é a admiração que algumas pessoas provocam nas outras. Via poderia perceber a sua família como desigual e um tanto problemática, mas a perspectiva de Miranda era totalmente diferente. Às vezes deveríamos parar alguns minutos para pensar nestas diferentes perspectivas sobre a nossa vida e a nossa realidade.

Gostei também da viagem no tempo que Wonder me fez passar. Lembrar da época do colégio, de seus desafios e de seus prazeres. Das primeiras amizades verdadeiras, das amizades que se revelaram não ser tão sinceras assim ou tão duradouras, dos professores inspiradores e das situações que talvez pudessem ser classificadas hoje de bullying e que me tornaram mais forte. Ter bons valores e ter humor ajudam muito naquele período. E Wonder mostra isso de uma forma bacana e sem forçar a barra.

Além do roteiro bem escrito, equilibrado e da direção competente de Stephen Chbosky, há outros aspectos técnicos de Wonder que chamam a atenção. Para começar, a trilha sonora bem presente de Marcelo Zarvos; a edição competente de Mark Livolsi; a direção de fotografia de Don Burgess; o design de produção de Kalina Ivanov; a direção de arte de Kendelle Elliott e de Brad Goss; a decoração de set de Shannon Gottlieb; os figurinos de Monique Prudhomme; e os 19 profissionais envolvidos no trabalho do Departamento de Maquiagem.

Algo de tirar o chapéu neste filme: o desempenho do elenco. Todos os atores, sem exceção, estão ótimos e convincentes em seus papéis. Dá para perceber que todos realmente viveram os seus personagens e conseguiram, desta forma, nos passar os sentimentos e o realismo de cada situação. Isso nem sempre é comum, mas acontece com profusão neste filme.

O grande Jacob Tremblay, que todos descobrimos no filme Room (comentado por aqui), brilha novamente como protagonista de uma história. Este garoto realmente é ótimo e merece ser acompanhado. Além dele, estão ótimos também Julia Roberts e Owen Wilson, bastante convincentes como os pais dedicados, atenciosos e que não sobrecarregam os seus filhos. E ganha um destaque especial o trabalho de Izabela Vidovic. Ela rouba a cena cada vez que aparece como Via, irmã mais velha de Auggie. Foi ela que, por muito pouco, não me fez chorar com aquela significativa sequência no teatro. Mais um grande talento que merece ser acompanhado – espero que deem para ela papéis realmente bons daqui para a frente.

Outros atores que tem destaque nesta produção também estão ótimos. Noah Jupe faz uma entrega impressionante como Jack Will, o garoto que se “aventura” a se aproximar de Auggie e que realmente percebe o grande garoto que ele tem pela frente. Ele faz uma besteira, como vários outros de nós já fizemos em algum momento da vida, mas isso não lhe impede de continuar sendo bom caráter e de defender os valores certos.

Merecem ser citados, porque estão muito bem em seus papéis, Mandy Patinkin como o diretor do colégio Mr. Tushman; Bryce Gheisar como Julian, o mais cretino dos garotos da turma de Auggie – com os pais que ele tem, dá para entender porque ele é um imbecil; Elle McKinnon como Charlotte, a menina que, junto com Jack e Julian, apresenta o colégio para Auggie antes das aulas começarem; Daveed Diggs como Mr. Browne, um dos professores de Auggie; Ty Consiglio como Amos, um dos garotos “valentões” que acompanham Julian; Kyle Breitkopf como Miles, outro garoto que anda com Julian; Millie Davis como Summer, a primeira estudante que se aproxima de Auggie depois que ele rompe a relação com Jack; Ali Liebert como Ms. Petosa, professora de Ciências; Danielle Rose Russell como uma surpreendente Miranda, que ganha espaço mais perto do final e que tem uma interpretação interessantíssima; Nadji Jeter como Justin, o garoto que se aproxima de Via e que lhe incentiva a fazer teatro; e a nossa atriz brasileira Sonia Braga em uma super ponta como a avó de Via e Auggie. Sonia Braga aparece em apenas uma cena, mas é uma sequência bacaninha.

Em papéis realmente menores, mas com uma presença marcante quando aparecem em cena, temos ainda os atores Nicole Oliver como a mãe de Jack; Rachel Hayward, como a mãe de Miranda; Crystal Lowe e Steve Bacic como os pais cretinos de Julian – figuras odiosas que, infelizmente, existem no mundo real. Aliás, Wonder nos mostra bem, também, como bons pais são fundamentais para termos uma boa sociedade. Pais que ensinam os valores certos e que tem as atitudes adequadas são fundamentais para a formação de boas pessoas, enquanto que pais boçais e cretinos (e eles existem) provocam exatamente o contrário. Pensem nisso, se vocês são pais atualmente ou se pensam em ter filhos em algum momento da vida. Que tipo de pais vocês são e/ou vão ser?

Wonder estreou em première em Los Angeles no dia 14 de novembro. Na sequência, ele foi estreando em dezenas de países mundo afora, chegando aos cinemas do Brasil no dia 7 de dezembro. Até o momento, esta produção ganhou dois prêmios e foi indicada a outros seis. Os dois prêmios que o filme levou para casa foram o Humanitarian Award para Stephen Chbosky no Satellite Awards e o Truly Moving Picture Award no Heartland Film.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Jacob Tremblay e a família dele foram para o retiro da Associação Craniofacial Infantil, onde o ator e seus familiares puderem conhecer de perto a realidade de pessoas que tiveram a síndrome de Treacher Collins, a mesma que Auggie teve. Um outro nome para a síndrome de Auggie mostrada nesta produção é disostose mandibulofacial. Mais informações sobre esta síndrome neste artigo da Info Escola.

Olhem que interessante. Wonder é baseado no livro bestseller de R.J. Palacio. E sabem como o autor se inspirou para escrever a sua obra? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele pensou em escrever o livro depois que ele e o seu filho foram a uma sorveteria e encontraram lá um garoto com a síndrome de Treacher Collins. O filho de Palacio chorou ao ver o outro garoto. Essa cena, que realmente ocorreu, é citada em uma parte do filme como sendo algo vivenciado por Jack, sua mãe e irmão mais novo.

Miranda chama Auggie de Major Tom. Esta é uma referência à música Space Oddity, de David Bowie, que fala sobre o astronauta Major Tom.

Wonder foi rodado em diversas locações do Canadá e, nos Estados Unidos, em Manhattan e Coney Island, ambos em Nova York. No Canadá, o filme teve cenas rodadas no Heritage Woods Secondary School, na cidade de Port Moody; no Vancouver College e no Playland, na cidade de Vancouver.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 121 críticas positivas e 21 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média 7. Os dois níveis de avaliação são muito bons, mas ficou claro que o filme agradou mais ao público que à crítica, não é mesmo?

De acordo com o site Box Office Mojo, Wonder fez pouco mais de US$ 109,2 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 44,4 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Com isso, esta produção já ultrapassou a marca de US$ 153,6 milhões nas bilheterias. Nada mal, mas o filme poderia ter se saído melhor nas bilheterias de outros países fora os Estados Unidos.

Wonder é uma coprodução dos Estados Unidos e de Hong Kong.

CONCLUSÃO: Um filme que enaltece a família, a amizade, o respeito às diferenças, a inteligência e a gentileza. Tem como ser melhor? Wonder está cheio de belos valores. Sim, ele tem alguns discursos importantes. Mas o que enche os olhos dos espectadores são os belos exemplos que vemos em cena. Para conseguir a empatia tão desejada em qualquer obra, Wonder mergulha na realidade do ambiente escolar de dois filhos de um casal. Então além dos valores positivos, temos também um bocado de crueldade, bullying e contra-exemplos de adultos e crianças.

Mas a vida é assim mesmo, não é verdade? Cheia de desafios, de pessoas sem noção e de uma certa dose de maldade. O que Wonder nos lembra é que para cada história lamentável, existem vários exemplos positivos e de superação. A narrativa linear desta produção é um bocado previsível. Sabemos por onde a história vai caminhar. Ainda assim, são os belos acertos do caminho que nos encantam e que nos fazem sorrir. Como na vida mesmo. Com atores que emocionam em belas interpretações, este é um filme que acerta quase em cheio no alvo. Faltou pouco para o 10. Vale ser assistido, sem dúvida, especialmente pelos belos valores que o filme trata e que sempre merecem ser debatidos e relembrados.

 

Teströl és Lélekröl – On Body and Soul – Corpo e Alma

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Todos são capazes de amar, mesmo aqueles que não acreditam que tem (ainda) esta capacidade. On Body and Soul conta o interessante encontro e (re)descoberta de amar de duas pessoas que, aparentemente, não tem nada em comum. Este filme, ambientado em um local brutal – um matadouro – não poupa o espectador de diversas cenas fortes. Apesar da história ser interessante e marcante, recomendo que as pessoas quem tem certa sensibilidade para ver cortes, sangue e afins, pensem bem antes de assistir a esta produção. Mais um filme forte nesta temporada pré-Oscar 2018. Realmente este ano temos uma safra diferenciada, com sabores agridoces que há muito não tínhamos que engolir a seco e em profusão como neste filme.

A HISTÓRIA: Um campo cheio de neve, de árvores e com dois cervos. Os animais caminham lentamente e olham um para o outro. O macho se aproxima da fêmea e procura o contato, mas ela se afasta. Enquanto isso, a neve cai em seu compasso lento. Corta. Em um curral, diversos bois estão próximos uns dos outros. Um dos animais olha para fora e vê alguns funcionários uniformizados. Logo um destes animais vai para o abate. O sol desponta, e diversas pessoas notam a sua presença. O dia começa como qualquer outro no abatedouro, onde mais um animal é morto. Carcaças desfilam penduradas.

Em seu escritório, o diretor financeiro da empresa, Endre (Géza Morcsányi), escuta a reclamação de um funcionário sobre uma máquina que não pode ser consertada. Na sequência, ele olha para um grupo de funcionárias que está no pátio da empresa, quando então percebe uma pessoa diferente. Depois, no almoço, ele pergunta para o diretor de RH, Jenö (Zoltán Schneider), quem é a nova funcionária. Ele responde que ela não foi contratada, mas que se chama Mária (Alexandra Borbély) e que é a nova inspetora de qualidade. Eles vão se aproximar, apesar das estranhezas iniciais, porque descobrem que tem uma ligação difícil de explicar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a On Body and Soul): Este filme surpreende pela história bastante inusitada. Afinal, não é todo dia que você assiste a um filme em que boa parte da história se passa em um abatedouro/açougue e que tenha como protagonistas pessoas de perfis tão diferentes como Endre e Mária.

Além disso, eles acabam se aproximando não apenas pelo trabalho, mas principalmente por algo também bastante raro: eles descobrem que sonham o mesmo sonho noite após noite. Bem, e aí temos um grande campo para interpretações tanto de psicólogos quanto de pessoas que acreditam em vidas passadas e etcétera. Eu vou primeiro me ater ao filme propriamente dito e depois vou comentar sobre estes pontos “transcendentais”, tudo bem?

Algo que chama a atenção logo no começo deste filme é como a diretora e a roteirista húngara Ildikó Enyedi não tem puder algum em nos apresenta algumas cenas bastante duras. A exemplo de Spoor (comentado aqui), parece que em On Body and Soul a diretora também quer nos fazer pensar sobre as nossas escolhas. Impossível uma pessoa que come carne, como eu, não pensar sobre a crueldade do tratamento e da morte dos animais.

Afinal, ainda que as nossas sociedades modernas tenham nos tirado a necessidade de “matar a nossa caça”, alguém ganha a vida fazendo isso pela gente. E, muitas vezes, não queremos realmente ver como tudo é cruel e brutal, mas On Body and Soul nos mostra isso sem firulas. Então, logo no começo do filme, temos algumas cenas fortes. Mas nada que se assemelhe ao que veremos depois. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Sou honesta em dizer que fiquei impactada com toda a sequência em que Mária vai para o banheiro para fazer o seu “ritual” depois de levar um fora de Endre.

Como disse para alguns amigos, eu posso ver um filme de terror como Saw (um dos filmes da “grife” tem crítica aqui) sem me impactar tanto quanto com essa sequência da protagonista de On Body and Soul. Isso porque Saw e outros filmes do gênero são exagerados e sabemos que tudo não passa de uma grande fantasia. Mas com On Body and Soul é diferente. O competente roteiro e narrativa de Enyedi fazem o espectador se colocar no lugar de Mária e, assim, sentir toda a sua angústia, desesperança e dor dilacerante que fazem ela tomar aquela atitude extrema.

E aí, para mim, reside o aspecto mais marcante desta história. On Body and Soul mostra como um sujeito que acreditava que não amaria mais, Endre, volta a acreditar que pode amar e ser amado a partir dos sonhos que compartilha com Mária. E Mária, por sua conta, que é uma pessoa muito peculiar e que, aparentemente, até então nunca tinha amado um homem ou se aproximado amorosamente de alguém, descobre que também é capaz de amar. A parte potente da produção é quando essa capacidade de amar dos dois praticamente é jogada fora por medo, insegurança e incompreensão.

Nessa parte esta produção se diferencia de outras. É marcante perceber como, apesar de compartilharem sonhos à noite, quando se encontram como dois cervos em uma floresta gelada, Endre e Mária têm dificuldade de se comunicarem e de se entenderem de fato quando acordados. Endre nem sonha, por exemplo, em todo o esforço que Mária está empreendendo para conseguir lidar com aquela situação e para conseguir, pela primeira vez na vida, se preparar para ser tocada por alguém. O esforço dela é marcante e tocante. Sem dúvida alguma a atriz Alexandra Borbély é o ponto forte desta produção.

Mesmo reagindo de forma totalmente diferente, o personagem de Endre também tenta lidar da melhor forma possível com aquela situação que o tira do lugar-comum. O ator Géza Morcsányi também tem uma interpretação marcante e se destaca pelo olhar e pela forma de atuar em cada momento em que aparece em cena. Desta forma, On Body and Soul mostra de forma muito natural e convincente como o amor – e a crença nele – pode desestabilizar a rotina e os atos de duas pessoas com “backgrounds” tão diferentes.

Da mesma forma, a falta de diálogo e de compreensão do outro, que sempre será diferente de um dos indivíduos que ama, pode provocar a perda de todo esse potencial de aproximação e de contato e terminar, o que não é tão raro assim de acontecer, em uma tragédia. On Body and Soul mostra tudo isso com muito cuidado e atenção aos detalhes. Vamos entender todas as dimensões do filme quando ele termina, porque enquanto a história está se apresentando, as pequenas surpresas que ela vai guardando no caminho e a interpretação marcante dos protagonistas não nos deixa ver o quadro completo.

Depois, decorrido um tempo após o espectador ter enfrentado a dureza de algumas cenas deste filme, é que On Body and Soul vai mostrar toda a sua profundidade, beleza e franqueza. Há muitas pessoas no mundo como Endre e Mária, com as suas diferentes limitações para amar. A beleza deste filme é que ele mostra que não importa a limitação que um indivíduo tenha para se aproximar, se abrir e se entregar para outro, esses gestos sempre são possíveis se nos propomos a eles e se enfrentamos o nosso medo de nos expormos e de dar errado.

On Body and Soul é surpreendente por tudo isso. Um filme vigoroso e que consegue explorar muito bem a história de duas pessoas interessantes em suas “normalidades”. Uma parte significativa da história, que se refere a uma investigação sobre um furto ocorrido na empresa, só serve de desculpa para Endre e Mária descobrirem que sonham o mesmo sonho, noite após noite, e, com esta descoberta, os dois se aproximarem de forma amorosa.

A essência do filme é bastante interessante, por tudo que eu comentei, mas admito que alguns pontos da produção não permitiram que eu gostasse mais ainda de On Body and Soul. Para começar, apesar de entender a intenção da diretora de “chocar” para fazer pensar, eu achei um tanto pesadas demais e até exageradas as cenas dos abates – tanto dos animais quanto da protagonista. Sim, o mundo é cruel, mas talvez isso não precisasse ser tão jogado na nossa cara, não é mesmo? Claro que, desta forma, o filme faz pensar. Mas talvez ele não chegue a tantas pessoas porque nem todos estão preparados para ver a cenas tão duras.

Depois, entendo que Enyedi precisava de uma boa razão para aproximar pessoas tão diferentes quanto Endre e Mária. Mas será mesmo que uma desculpa um tanto “esotérica” como a dos sonhos em comum foi a melhor escolha? Digo isso porque não duvido que muitas pessoas vão usar On Body and Soul para discutir mais esta questão do sonho do que outros aspectos relevantes da produção. Abaixo eu vou comentar alguns textos que eu achei sobre o assunto, mas nada muito profundo na internet. Mas certamente alguns especialistas poderão vir aqui para nos ajudar a entender melhor esta questão dos sonhos em comum.

No geral, e para resumir, eu achei este filme interessante pela história realmente diferenciada que ele nos conta. A diretora e roteirista Ildikó Enyedi também soube fazer escolhas potentes e marcantes que farão On Body and Soul ficar na memória dos espectadores por um bom tempo. Este é um filme de “pegada”, que tem um belo “punch”.

Especialmente porque ele tem muitas sequências de “vida real”, que fazem o espectador se identificar com diferentes situações ou, mesmo quando não se sente “na pele” dos protagonistas, consegue ter empatia por eles. Bem conduzido, com ótimos atores principais, este filme acerta no foco e em boa parte de suas intenções. Pena que nem todos poderão aguentar o “punch” de algumas cenas desta produção. Mas faz parte. O cinema, assim como a vida, é feito de escolhas. Enyedi fez as suas e, com elas, está indo longe com On Body and Soul.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho meio difícil alguém assistir a On Body and Soul e não ficar curioso para saber se, de fato, tem pessoas que sonham os mesmos sonhos que outras pessoas. E com isso, claro, eu não quero dizer sonhar esporadicamente com cobras, lagartos e afins, mas compartilhar realmente um sonho com outro indivíduo sem que isso tenha sido “provocado”. Aguardo um especialista para nos “iluminar” sobre esse assunto. Mas cito este texto do site João Bidu que trata dos “sonhos simultâneos”. O texto apenas comenta que estes sonhos sinalizam para o fato de que existe “um grande vínculo entre os sonhadores”. Bem, isso é meio evidente, não? Mas o que explicaria esse “fenômeno” é que são os 500.

Um outro texto, do site da Revista Encontro, trata também sobre o assunto dos sonhos simultâneos. De acordo com o psiquiatra consultado pela reportagem, Dirceu Valladares, duas pessoas sonharem com a mesma coisa seria “como ganhar na Mega Sena”. Algo muito raro e difícil de comprovar. Ainda que, me parece, o método utilizado em On Body and Soul é o mais eficiente e lógico.

E sobre o significado de Endre e Mária sonharem, cada um, que são um cervo? Claro que a Psicologia tem toda uma corrente que estuda o assunto – vide Jung. Então há especialistas – muitos, imagino – no mercado que podem falar melhor do assunto do que eu. Mas pesquisando rapidamente pela internet, encontrei esta explicação no site Livro do Sonho sobre o que significa “sonhar com cervo”: “Ver um cervo em seu sonho simboliza graça, bondade e beleza natural. Também significa independência e virilidade. Para os homens, significa que você pode estar rejeitando o seu lado feminino. Sonhar que você mata um cervo simboliza que você está tentando suprimir o seu lado feminino”. A primeira parte desta interpretação, em especial, faz bastante sentido em relação a On Body and Soul, não é mesmo?

Acredito que este filme será um produto interessante, aliás, para quem estuda Psicologia. Os personagens são marcantes e, certamente, Mária, que é acompanhada desde a infância por um psicólogo, deve ter sido diagnosticada com algum distúrbio – que não é citado no filme, mas que fica evidente. Eu não sou uma especialista, mas fiquei pensando se ela teria TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) em um estágio um tanto avançado ou se ela teria algum grau de autismo. Um especialista que passe por aqui, novamente, poderá nos “esclarecer” melhor sobre isso. Mas acho fascinantes filmes que mostram o comportamento, as aspirações e a rotina de pessoas que são como nós, mas que tem algumas características especiais.

Como comentei antes, um aspecto marcante deste filme é a direção detalhista e muito bem planejada de Ildikó Enyedi. A diretora húngara de 62 anos e 14 prêmios no currículo também escreveu o roteiro e soube, desta forma, selecionar com precisa os momentos marcantes do seu filme. Um acerto dela foi centrar a narrativa em dois personagens e se aprofundar na vida, nas rotinas e nos desejos deles.

Desta forma, o filme não se perde em histórias desimportantes e acaba ampliando a capacidade da narrativa de tocar o público e de fazer cada espectador se sentir próximo dos protagonistas e das suas histórias. Muita gente com dificuldades, acredito, sentirá uma brisa de esperança com este filme, enquanto outros que não passaram por aquilo terão como se “colocar na pele” de alguém diferente e de desenvolver empatia. Importante sob as duas óticas.

Além da diretora e roteirista, o destaque desta produção é a dupla de atores que “carrega” a história nas costas. A atriz Alexandra Borbély, em especial, tem uma das interpretações mais marcantes do ano. É de tirar o chapéu para ela! Géza Morcsányi tem o difícil desafio de fazer um “dueto” com a atriz, e ele se sai muito bem também. Cada um com o seu estilo de interpretação e de personagem, mas ambos convencem em cada minuto que estão em cena. Isso é raro e potente. Eis um ponto forte da produção.

Ainda que o filme seja bem centrado nos personagens de Endre e Mária, On Body and Soul tem um pequeno grupo de personagens secundários e de atores coadjuvantes que também fazem um bom trabalho. Vale citar o nome de Zoltán Schneider, que interpreta a Jenö, amigo de Endre e responsável pelo RH da empresa em que ambos trabalham; Ervin Nagy como Sanyi, o sujeito “boa pinta”, um tanto mulherengo e “abusado” e que é um dos contratados recentes do abatedouro; Tamás Jordán como o psicólogo de Mária; Réka Tenki como Klára, a psicóloga que é contratada para ajudar na investigação do furto na empresa e que acaba ficando intrigada com os sonhos simultâneos dos protagonistas; e Itala Békés como Zsóka, a mulher da limpeza do abatedouro e que não tem muitas papas na língua.

Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar a bela direção de fotografia de Máté Herbai; a trilha sonora bastante pontual mas bem feita de Adam Balazs; a edição precisa de Károly Szalai; os figurinos de Judit Sinkovics; o design de produção de Imola Láng; e o Departamento de Maquiagem com nove profissionais que fazem um ótimo trabalho.

On Body and Soul estreou em fevereiro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Ou seja, o filme fez uma loooonga carreira em festivais mundo afora. Até o momento, a produção ganhou oito prêmios e foi indicada a outros sete. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Urso de Ouro como Melhor Filme e para outros três prêmios (incluindo o FIPRESCI Prize e o do Júri Ecumênico) no Festival de Berlim; para o Golden Frog para Máté Herbai no Camerimage; para o de Melhor Atriz Europeia para Alexandra Borbély no European Film Awards; para o Melhor Filme segundo a Escolha do Público no Festival de Cinema de Mumbai; e para o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Sydney.

E uma curiosidade sobre esta produção: On Body and Soul é o primeiro filme feito por Ildikó Enyedi em 18 anos. Uau! Realmente, olhando para a filmografia da diretora, o longa anterior que ela dirigiu foi Simon Mágus, lançado em 1999. Depois, ela dirigiu dois curtas e a série Terápia. E só. Belo retorno para os longas no cinema, não é mesmo? Ela está de parabéns!

Para os curiosos sobre os locais em que os filmes são rodados, On Body and Soul foi filmado em Budapeste e no Bükk National Park.

Este filme é uma produção 100% da Hungria – e o indicado pelo país ao Oscar 2018 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 35 textos positivos e apenas quatro negativos para este filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,3.

CONCLUSÃO: Eis um filme que deixa você pensando sobre o que você achou sobre tudo o que você viu por algum tempo. On Body and Soul provoca, instiga e revela que, mesmo em cenários brutais, podemos encontrar uma certa poesia. Admito que algumas cenas desta produção me incomodaram. E não foi pouco. Mas, passado o impacto destas imagens, percebi que este é um filme diferenciado sobre o amor e sobre como as pessoas podem ser modificadas/redescobertas a partir deste sentimento.

Como eu disse no princípio, todos são capazes de amar. Mesmo os que nunca se imaginaram fazendo isso – ou aqueles que acreditavam que nunca mais iriam “cair nessa”. Um belo filme, ainda que eu ache que ele exagera um pouco nas tintas para “chocar”. Nem sempre isso é necessário. Mas o lado positivo é que as intenções aqui acabam justificando um pouco os meios. Não é um filme arrebatador, destes que você vai colocar na lista dos melhores de todos os tempos. Mas ele cumpre o seu papel. Mais um achado impactante desta safra 2017.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Olha, este ano está difícil de dar muitos palpites para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar. Digo isso porque uma coisa é o nosso gosto pessoal, outra muito diferente – às vezes – são os filmes que vão colecionando prêmios pelo mundo. Em outras palavras, muitas vezes esta categoria surpreende pelos filmes indicados/finalistas. Nem sempre o nosso gosto bate com o que os críticos e votantes das premiações percebem como as melhores obras de cinema.

Da minha parte, francamente, eu não votaria em On Body and Soul para uma das cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas este filme ganhou, entre outros prêmios, o Urso de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cinema de Berlim… então quem vai dizer para os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que eles estariam errados em indicar este filme no Oscar 2018?

Quem acompanha o blog sabe que este é o sétimo filme da lista de 92 produções que tem alguma chance de avançar na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Estou tentando ver a alguns dos mais fortes candidatos, segundo as predileções dos experts estrangeiros. Dos filmes que eu vi até agora, acho que o que tem mais chances em conseguir uma das cobiçadas cinco vagas de finalista é o filme First They Killed My Father (comentado por aqui). Depois, vejo alguma chance de indicação para The Divine Order (com texto neste link), Spoor (com crítica por aqui) e para Loveless (com comentário neste link).

Mas eu sei também que tem alguns filmes bem cotados que eu ainda não assisti – como In the Fade e The Square. Para resumir, a disputa este ano está das boas. Temos uma safra de filmes fortes, marcantes e com histórias realmente originais – seja pela história em si, seja pela narrativa. Neste cenário, acho que os prêmios recebidos por On Body and Soul e um bom lobby envolvendo o filme podem fazer ele chegar até os nove pré-indicados e, quem sabe, até a lista dos cinco finalistas ao prêmio.

Agora, acredito que mesmo que ele tenha todos os elementos jogando a seu favor, On Body and Soul conseguirá, no máximo, ficar entre os finalistas. Ele não conseguirá uma estatueta dourada. Mas se eu for falar do meu gosto pessoal, ele ficaria de fora. Da lista que eu já assisti, vejo mais chances para First They Killed My Father, para Loveless e para The Divine Order, nesta sequência.

ATUALIZAÇÃO (16/12): Comecei a escrever esta crítica há alguns dias. E aí, no dia 14/12, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood me surpreendeu divulgando a lista dos nove filmes que avançaram na disputa na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. On Body and Soul é um dos filmes que avançou – juntamente com Una Mujer Fantástica, In the Fade, Foxtrot, The Insult, Loveless, Félicité, The Wound e The Square.

Nessa lista, alguns favoritos foram confirmados, e outros ficaram de fora. On Body and Soul era apontado por muitos críticos como um forte candidato a figurar na lista de cinco finalistas. Ele confirmou a sua força, assim como Una Mujer Fantástica, In The Fade, Loveless e The Square. Só foi um tanto surpreendente o filme do Camboja, First They Killed My Father, e o filme francês BPM (Beats Per Minute) terem ficado de fora desta primeira peneirada em que nove produções avançaram.

Acho que On Body and Soul, assim como Loveless, tem boas chances de avançarem e de ficarem entre os cinco indicados nesta categoria do Oscar. Vejo também que outros filmes com grandes chances de fechar a lista são Una Mujer Fantástica, In the Fade (que parece ser o favorito) e The Square. Este, pelo menos, seria o palpite a partir da opinião dos críticos. Porque, como vocês que acompanham o blog sabem, ainda preciso assistir a sete dos nove filmes que avançaram na disputa. Tenho bastante dever de casa para fazer ainda. 😉

Loving Vincent – Com Amor, Van Gogh

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A cada novo frame, uma obra de arte. Sem exageros. Loving Vincent é uma obra estonteante, um verdadeiro deleite para quem já se pegou passando um longo tempo contemplando uma obra de arte. E se você é fã de Van Gogh, então… aposto que você vai ficar sem palavras com este filme. Honestamente, acho que este é um dos filmes mais bonitos que eu já assisti na vida. A história é envolvente, interessante, o filme têm dinâmica e movimento, apesar de ser todo feito a partir de um trabalho totalmente artesanal. Uma bela, belíssima homenagem ao artista que foi incompreendido no seu tempo e valorizado apenas após a sua morte.

A HISTÓRIA: Começa nos informando que o filme que vamos assistir foi totalmente pintado à mão por uma equipe de mais de 100 artistas. Em uma notícia ampliada de jornal, sabemos que em Auvers-Sur-Oise, no domingo dia 17 de julho, Van Gogh, com 37 anos, pintor holandês que estava com “estadia” em Auvers, atirou em si mesmo com um revólver nos campos, mas que ele acabou retornando para o quarto em que estava hospedado, onde morreu dois dias depois. Depois desta notícia, o filme informa que a história de Loving Vincent começa um ano após a morte de Vincent Van Gogh. A “jornada” começa em Aarles, no ano de 1891.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving Vincent): Este é um filme que preferencialmente, você deve assisti-lo em um cinema. Afinal, para curtir toda a beleza e o trabalho magnífico dos artistas envolvidos neste filme, só mesmo em frente a uma tela grande. Algo similar com ver uma obra de arte em um livro e/ou na tela do computador ou pessoalmente. A diferença entre as nossas leituras e impressões é gigantesca.

Eu não sou uma grande conhecedora da vida e da obra de Vincent Van Gogh. Eu já vi a algumas de suas obras pessoalmente, em museus de mais de uma latitude, mas eu sei o que quase todo mundo sabe sobre a vida dele. Antes de assistir a este filme, por exemplo, eu sabia sim que ele não tinha sido uma pessoa exatamente feliz em vida, que ele tinha alguns problemas psicológicos – a ponto de cortar a própria orelha em um dia de desespero. E era isso que eu sabia sobre a vida dele.

Sobre a obra… esta eu posso dizer que eu conhecia um pouco mais. Tinha visto a alguns de seus quadros pessoalmente e a vários outros em coleções e livros de arte que eu li há vários anos. A obra dele é realmente algo impressionante. E isso é o que me marcou logo nos primeiros segundos deste filme. Como a equipe dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, responsáveis pelo roteiro desta produção junto com Jacek Dehnel, conseguiram reproduzir com tanto esmero e talento a obra do mestre que eles estão homenageando.

Realmente o trabalho é incrível. Cada frame que vemos em cena, especialmente do “tempo presente” da narrativa, é algo impressionante. Obras de arte que tem os traços e as cores das obras de Van Gogh. Como vários outros filmes com atores reais que são dirigidos em longas que não são de animação, em Loving Vincent o passado é narrado em preto e branco. Um recurso bem conhecido do público para diferenciar dois momentos narrativos diferentes.

Então este é outro ponto marcante nesta produção. Como cada tempo narrativo tem uma técnica diferente de pintura desenho e de arte. Muito interessante como os estilos, tão diferentes, acabam se complementando. Honestamente, achei o trabalho técnico e artístico deste filme impecável. Os realizadores não apenas resgatam a história de Van Gogh, mas o homenageiam de forma espetacular ao reproduzir algumas de suas telas na nossa frente. E o que não foi pintado pelo mestre holandês se inspira na obra dele para preencher os espaços entre uma obra e outra de Van Gogh que vemos em cena. Um trabalho belíssimo.

Imagino que quem conhece com profundidade a vida de Van Gogh, não tenha se surpreendido tanto com esta história quanto eu. Possivelmente esta pessoa que tem mais conhecimento tenha também achado um e outro defeito da história que está sendo contada. Da minha parte, de quem não é uma especialista em Van Gogh, achei o roteiro de Kobiela, Welchman e Dehnel muito bem construído. A história segue uma linha um tanto “clássica”, intercalando o momento presente da narrativa e o passado que tenta explicar o que teria provocado a morte prematura do pintor holandês.

O protagonista desta produção, o jovem Armand Roulin (com voz de Douglas Booth), que foi retratado por Van Gogh e que era filho do carteiro que atendeu o artista por muitos anos, faz as vezes em Loving Vincent de um investigador. Enviado pelo pai, Joseph Roulin (Chris O’Dowd), para encontrar a última carta escrita por Van Gogh, Armand acaba indo atrás, primeiro, do irmão do pintor holandês, Theo van Gogh (Cezary Lukaszewicz). Afinal, ele era o destinatário da carta e parecia a pessoa certa a receber esta última correspondência.

Em Paris, Armand descobre que Theo não morreu muito depois do irmão. E a esposa e filhos dele já não estão morando mais ali. Então ele decide ir para Auvers, onde Van Gogh morreu, para tentar encontrar algumas respostas sobre o que aconteceu com o amigo de seu pai. Inicialmente, Armand tinha pouco interesse em realmente saber o que tinha acontecido com Van Gogh, até porque ele acreditava na versão oficial de que o pintor tinha se matado. Mas a certeza do pai dele de que isso não teria acontecido com o amigo Van Gogh, que estaria melhor de uma depressão, fazem com que Armand acabe investigando as relações e os últimos dias de Van Gogh.

No fim das contas, Armand acredita que se ele entregar a carta de Van Gogh para o Doutor Gachet (Jerome Flynn), ele poderá dar o destino correto para a correspondência. É desta forma que ele conhece algumas pessoas interessantes e que foram retratadas por Van Gogh em suas obras. O roteiro de Loving Vincent equilibra, desta forma, esta espécie de “investigação” sobre a morte de Van Gogh, o que imprime um pouco de suspense para o roteiro do filme, com um resgate de fatos da vida do artista que aparecem como pinceladas volta e meia na história.

Assim, sabemos um pouco sobre a infância dele, da relação conturbada com os pais, sobre a dependência e a proximidade de Vincent com o irmão Theo, assim como sabemos sobre as alegrias e os muitos desafios e fontes de tristeza que o artista teve na sua vida. Fica evidente, com este filme, que Van Gogh foi incompreendido em seu tempo. Ele não teve apoio de ninguém além do irmão, e não teve sucesso com a sua arte enquanto vivo. Também sabemos sobre o quanto ele escrevia – muito! – para o irmão e sobre como ele era admirado pelas pessoas que o conheceram mais de perto. Afinal, ele era um sujeito calmo, atencioso, educado, e que vivia por sua arte.

Uma história interessante por si mesma, pois, e que foi muito bem explorada por esta produção. Claro que a vida de um artista como Van Gogh não pode ser resumida em 1h34 de filme, como é a duração desta produção, mas a homenagem que os realizadores fizeram para o artista aqui é impressionante e maravilhosa. Me apaixonei por esta produção. Achei uma grande experiência de cinema. Dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Por isso, recomendo a todos que assistam a Loving Vincent. Especialmente nos cinemas.

Além de todos os fatos que eu citei anteriormente e de todas as qualidades relacionadas, também pela história inspiradora de Vincent Van Gogh. Ele viveu em outro tempo e em outros locais do que a gente, mas algo que podemos aprender com a sua história é que quando nos dedicamos a um talento com o qual nascemos, maravilhas surgem do nosso trabalho. Mas que para chegarmos a um trabalho excepcional, precisamos sacrificar outras partes da nossa vida e realmente trabalhar muito. Van Gogh era um apaixonado pela arte e uma pessoa muito atenta e admiradora de tudo que o cercava. Características que deveriam nos inspirar e nos fazer pensar sobre como gastamos o nosso tempo, não é mesmo? Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei dos poucos momentos em que este filme citou trechos de cartas e, consequentemente, do pensamento de Vincent Van Gogh. Claro que o filme, com a duração que ele tem, já deu muitíssimo trabalho para os realizadores, mas eu não teria achado ruim mais 10 ou 15 minutos de filme e a citação de mais trechos de cartas de Van Gogh. Algo que esta produção desperta é o nosso interesse por saber mais sobre o artista, a sua vida, o que ele pensava e como ele produzia as suas obras de arte.

Falando no pensamento de Van Gogh, uma das frases dele que são citadas, logo no início do filme e que serve como uma espécie de cartão-de-visitas da produção é esta aqui: “Só podemos falar através das nossas pinturas”. De fato, Van Gogh acreditava nisso. Como ele não tinha muitas relações pessoais e pensava e conversava através de sua arte, é que entendemos o porquê dele ser tão talentoso.

Todos os atores que “interpretam” os personagens deste filme, ou seja, que dão vozes para eles, estão muito bem. O destaque inevitável, claro, pela presença dele em tela e por conduzir a narrativa, é para o ator Douglas Booth, que interpreta a Armand Roulin. Mas outros personagens e atores que ganham destaque neste filme são Eleanor Tomlinson, que interpreta Adeline Ravoux, filha dos proprietários do hotel em que Van Gogh ficou hospedado e onde morreu; Saoirse Ronan como Marguerite Gachet, filha do Doutor Gachet e uma grande admiradora do talento de Van Gogh; Jerome Flynn como Doutor Gachet, uma figura muito próxima de Van Gogh na temporada próxima de sua morte; Robert Gulaczyk como Vincent Van Gogh; Cezary Lukaszewicz como Theo van Gogh; Robin Hodges como o Lieutenant Milliet; Chris O’Dowd como o carteiro Joseph Roulin; John Sessions como Pere Tanguy, dono de galeria que tentava comercializar as obras de Van Gogh em Paris; Helen McCrory como Louise Chevalier, empregada dos Gachet; Aidan Turner como o barqueiro que conviveu com Van Gogh e que é procurado por Armand; Bill Thomas como o Doutor Mazery, que deu outra interpretação para o tiro que Van Gogh levou; e Piotr Pamula em uma ponta como Paul Gaugin.

Além da direção e do roteiro, já comentados antes, o grande mérito desta produção ser tão bela e perfeita são os artistas – mais de 100, como foi comentado na introdução deste filme – envolvidos nas pinturas que compõem este filme. O trabalho deles é que faz Loving Vincent ser tão diferenciado. Então todos os louros para os 20 nomes relacionados no Departamento de Arte deste filme e para os 111 nomes que trabalharam no Departamento de Animação. Eles são os grandes responsáveis por este filme ser tão especial. Parabéns a todos os envolvidos, pois!

Da parte técnica do filme, também vale destacar o ótimo – e fundamental – trabalho dos diretores de fotografia Tristan Oliver e Lukasz Zal; o belo e pontual trabalho de Clint Mansell com a trilha sonora; a edição cuidadosa e precisa de Dorota Kobiela e de Justyna Wierszynska; o design de produção de Matthew Button, Maria Duffek e Andrzej Rafal Waltenberger – os dois últimos envolvidos nas fotografias dos atores em Wroclaw, trabalho esse que depois influenciaria nas pinturas dos artistas que fizeram esta produção; a direção de arte de Daniela Faggio; os figurinos de Dorota Roqueplo; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – responsáveis, entre outros pontos, pela difícil sincronização das falas dos atores com o trabalho dos artistas envolvidos com as animações; e os 50 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Loving Vincent estreou em junho de 2017 no Annecy International Animation Film Festival. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 25 festivais em várias partes do mundo. Nesta trajetória, Loving Vincent ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme segundo a escolha do público no Annecy International Animation Film Festival; para o de Melhor Animação Estrangeira/Trailer Familiar e para o Melhores Gráficos Estrangeiros em um Trailer no Golden Trailer Awards; para o prêmio de Melhor Filme de Animação no Festival Internacional de Cinema de Shanghai; e para o prêmio Produção Internacional Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver. Loving Vincent também figura no Top 10 da lista do National Board of Review de Filmes Independentes. Ele é a única animação da lista, vale dizer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o site IMDb, Loving Vincent é o primeiro longa de animação totalmente pintado que já foi realizado pelo cinema mundial. Baita, não?

Segundo os produtores, cada um dos 65 mil frames que vemos em cena, nesta produção, são quadros de pinturas a óleo sobre tela. A parte do filme colorida utiliza a mesma técnica utilizada por Van Gogh; técnica esta reproduzida por pouco mais de 100 artistas.

Durante uma “masterclass” no Klik Amsterdam Animation Festival, os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman afirmaram que, se você olhar atentamente para cada cena desta produção, em uma delas você poderá notar uma mosca presa na pintura de um dos quadros. Quem se habilita a buscar a tal mosca? 😉

Loving Vincent foi totalmente rodado no Three Mills Studios, na cidade de Londres, no Reino Unidos.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido com a Polônia.

Claro que existem muitos outros textos melhores e mais profundos sobre a vida de Vincent Van Gogh. Mas vale, para os que ficaram curiosos para saber um “resumo” sobre a trajetória do artista, dar uma olhada nos textos dos sites InfoEscola; History; UOL Educação; e Huffpost Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Loving Vincent teria feito quase US$ 5,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Para um filme independente e com a proposta desta produção, acho que não está nada mal. Mas o principal concorrente dele no Oscar 2018 está em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos e conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 135,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Ou seja, uma comparação realmente brutal – e não fica difícil presumir para onde “pende” o pêndulo da indústria de Hollywood, não é mesmo?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e 21 negativas para este filme – o que garante para Loving Vincent uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Pelos prêmios que eu citei antes, já dá para perceber que este filme agradou mais ao público do que aos críticos, não é mesmo?

Procurando saber um pouco mais sobre os realizadores deste filme, achei interessante saber – e comentar com vocês – que Loving Vincent marca a estreia na direção do produtor Hugh Welchman. Por outro lado, este filme é o quarto trabalho na direção de Dorota Kobiela. Ela estreou na direção com o longa The Flying Machine, em 2011, e, depois, dirigiu a dois curtas antes de fazer com Welchman o filme Loving Vincent.

Ah sim, e você, como eu, deve ter se perguntado como os artistas trabalharam cada frame que vemos em cena, não é mesmo? Pesquisando sobre o filme e vendo fotos de bastidores, percebi que os diretores filmaram as cenas com os atores e que depois cada um daqueles 111 envolvidos com o trabalho do Departamento de Animação produziram as telas que reproduziram a ação em quadros que são verdadeiras obras de arte. Bem bacana!

CONCLUSÃO: Para quem é um profundo conhecedor da vida e da obra de Van Gogh, possivelmente a leitura deste filme será diferente da minha. Como eu não me enquadro neste perfil, me considero apenas uma pessoa com conhecido médio sobre o artista, achei Loving Vincent simplesmente divino. É um prazer passar pouco mais de uma hora e meia no cinema, frente a uma grande tela que desfila obras de arte a cada novo frame, como comentei lá na introdução deste texto.

Como animação, este filme é um dos melhores que eu já vi na vida. Enquanto história criada para o cinema, este filme cumpre bem o seu propósito, resgatando parte da vida, da obra e do pensamento do artista. Para mim, um trabalho irretocável. Merece ser visto com tempo e, quem sabe, até revisto. Este é um dos raros casos de peça de cinema que não cansa pela experiência prazerosa de cada cena. Não perca!

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Loving Vincent é um dos 26 filmes de animação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood informou que está concorrendo a uma vaga na disputa de Melhor Filme de Animação no próximo Oscar. Este filme a exemplo do que aconteceu em outros anos, foge do padrão “hollywoodiano” de filmes de animação. Especialmente pelo fato desta produção ser artística e mais “adulta”, diferente das produções que costumam ganhar o prêmio e que são feitas pela Disney ou pelo estúdio Pixar.

Francamente, este é o primeiro filme da lista de 26 que eu assisto. E mesmo sem poder compará-lo com os demais ainda, digo com toda a certeza que ele não deveria ficar fora da disputa do Oscar 2018 em sua categoria. Esta produção é brilhante, belíssima, muito bem narrada e com uma beleza ímpar. Como e disse antes, um dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Então, apesar de não ter o lobby dos grandes estúdios, Loving Vincent deveria sim estar entre os cinco finalistas desta categoria.

Agora, ele tem chances de ganhar o Oscar? O franco favorito, pelo que eu tenho lido, é o sucesso de público e de crítica Coco. Existem outros filmes que estariam na “dianteira” desta disputa, como The Breadwinner, Ferdinand e Birdboy: The Forgotten Children, além de outras produções que estariam correndo um pouco por fora mas com chances de chegar a uma das cinco indicações, como os filmes da grife The Lego Movie e The Boss Baby.

Para realmente opinar sobre esta categoria, eu preciso ver a outros concorrentes. Mas analisando apenas Loving Vincent, o meu foto seria, inicialmente, para ele. Seria muito injusto este filme não figurar entre os cinco finalistas ao Oscar. O grande desafio desta produção será vencer o grande lobby do filme Coco, uma coprodução das gigantes Disney e Pixar. Me parece que Coco leva vantagem, mas seria bacana ver a “zebra” Loving Vincent ganhar esta disputa.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro. Loving Vincent foi indicado na categoria Melhor Filme de Animação. Como esperado, o principal concorrente dele será Coco. Esperamos que este filme também consiga a sua vaga no Oscar. Eu estou na torcida desde já! 😉