The Shallows – Águas Rasas

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Alguns filmes tem um propósito e uma história muito bem definidos. Eles sabem o que querem mostrar, focar e a sensação que querem passar e não complicam a história. Este é o caso de The Shallows. O roteiro do filme é bem simples, se formos analisar, mas ele acerta ao manter o foco bem definido e, especialmente, em alguns pequenos detalhes e sacadas que acabam fazendo toda a diferença. Mudando um pouco a “chave” dos últimos filmes que eu assisti e comentei por aqui, desta vez optei por uma produção que mergulha com gosto no suspense. Sem dúvida ao simplificar e ter muito claro o que queria passar, The Shallows mais acerta do que erra.

A HISTÓRIA: Em uma praia, no amanhecer, um garoto brinca com uma bola. Perto dele, aparece um capacete com uma câmera. O garoto deixa a bola e vai conferir o material que está dando sopa na praia. Ele começa a ver os vídeos, e assisti à cenas de dois amigos surfando. Até que um deles começa a pedir socorro. O garoto corre. Corta. Uma caminhonete vai percorrendo uma estrada enquanto Nancy (Blake Lively) olha no celular belas imagens. O motorista, Carlos (Óscar Jaenada), pergunta se a garota já esteve naquela praia.

Ela diz que não, que apenas a mãe dela esteve, quando estava grávida de Nancy. O motorista comenta que ela deve deixar de olhar as fotos e apreciar a Natureza que está ao redor deles. Os dois estão seguindo para uma praia remota e bastante desconhecida. Nancy comenta com Carlos que a amiga dela não vai aparecer porque está de ressaca no hotel. Ela está sozinha na aventura que será bem diferente do que ela poderia imaginar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Shallows): Algumas histórias já foram contadas. Ataques de tubarões na praia são conhecidos do público do cinema desde que Steven Spielberg resolveu tornar este animal marítimo como o terror dos sete mares com Jaws, de 1975. Então ter um tubarão infernizando alguém não é exatamente novo e, nem por isso, este The Shallows é previsibilidade pura.

O diretor Jaume Collet-Serra demonstra talento e uma boa percepção para os detalhes que, estes sim, acabam fazendo toda a diferença nesta produção. Para começar, o roteiro de Anthony Jaswinski acerta ao apostar em poucos personagens e colocar quase toda a história “nas costas” da protagonista Nancy. A primeira isca do roteirista para despertar a atenção e o interesse do público é recorrer àquele lugar-comum bastante utilizado no cinema das últimas décadas que é começar com um acontecimento e, na sequência, voltar no tempo para retomar a história que explica aquela sequência inicial.

Logo nos primeiros minutos do filme sabemos que algo de muito ruim aconteceu com dois surfistas. Quando Nancy cai na água e encontra estes surfistas, fica claro que um deles será atacado – ou os dois, isso não fica tão claro no início. Bem, sabemos que isso irá acontecer, mas aquelas cenas iniciais não adiantam nada sobre o destino de Nancy. Logo na sequência inicial do menino na praia percebemos que o diretor tem bom gosto para cenas de beleza pura. Mas mais elementos interessantes virão na sequência.

Após aquela pequena introdução, mergulhamos direto na história de Nancy e o seu encontro afetivo com a praia inesquecível da mãe dela. E aí surge a primeira boa sacada de Jaume Collet-Serra. Em tempos em que todos estão super conectados durante todo o dia e muitas vezes “assistem” o que acontecem no mundo e no seu próprio redor através da tela de um celular, o diretor utiliza o recurso de várias telas sobrepostas à imagem principal do que está acontecendo para revelar o que Nancy está vendo e fazendo com o smartphone.

Na primeira sequência, quando ela está chegando à praia com a ajuda de Carlos, que mora perto daquele paraíso natural, vemos imagens dinâmicas de fotos e troca de mensagens em uma parte da tela. Uma sacada bem bacana, aparentemente simples, mas que funciona muito bem. Boa sacada do diretor. A partir do momento em que Nancy se encontra com a praia onde a mãe dela esteve quando estava grávida da garota, vemos apenas exuberância.

Jaume Collet-Serra sabe valorizar muito bem a bela atriz Blake Lively e todo o carisma que a jovem atriz tem. Mas a paisagem também não fica para trás. O local é maravilhoso e isso fica bastante evidente neste filme. Os espectadores mais atentos vão perceber logo que não são apenas os jovens surfistas nativos que acabam sendo vítimas do tubarão, mas também a própria Nancy – e isso bem antes dela ser de fato atacada. O detalhe está no plano que mostra a prancha dela por baixo – na sequência inicial vemos aquela prancha na praia, então é sinal de que a garota foi alvo de um ataque.

Mas antes do drama começar a tomar conta da telona, temos a parte divertida da produção. Ela não se restringe apenas ao diálogo divertido entre Nancy e Carlos, mas também na conversa dela com os dois surfistas. De forma inteligente, o roteiro de Anthony Jaswinski não cai direto na ação, mas após uma sequência bem feita com cenas de surfe, a protagonista sai da água e temos um pouco mais de contextualização sobre a história dela. Não apenas para entender as nuances da relação dela com a família, que agora se resume ao pai dela e à irmã mais nova; a saudade que ela tem da mãe, que morreu de câncer; mas também e especialmente importante para a história, sabemos que ela começou a faculdade de Medicina.

Esse último ponto será fundamental para o que virá depois. Nancy sai da água, conversa com a irmã e, um pouco a contragosto, com o pai, caminha um pouco, reflete e sente bastante “a presença/ausência” da mãe, e depois volta para a água. Ela quer dar apenas mais uma “curtida” antes que escureça. Afinal, é preciso aproveitar ao máximo. Algo bastante normal e realista – aliás, o filme parece ter, o tempo todo, esta preocupação de ser bastante realista.

O diretor sabe bem valorizar a atriz e o local, dois elementos-chave nesta produção. E quase tudo tem uma lógica, o que ajuda a não irritar o público um pouco mais exigente. Depois que volta para o mar, ficamos na expectativa pelo ataque – até pela dinâmica que o diretor dá para as sequências abaixo da água. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o ataque parece inevitável, Nancy é surpreendida por golfinhos. Ela fica maravilhada com a cena e resolve “remar” atrás deles. Neste momento ela se encontra com uma baleia morta e em decomposição que foi atacada. Sem saber, ela está invadindo o espaço de “alimentação” do tubarão.

É como alguém que se aproximasse do potinho de ração de um cachorro com fome. Se fosse um cachorro, escutaria latido, rosnado e talvez fosse atacado. Na versão de The Shallows o tubarão não rosna nem late, mas persegue a presa com obstinação. O mesmo acontece no clássico de Spielberg, ainda que sabemos que nenhum tubarão tem realmente esta postura e reação. Os tubarões podem atacar pessoas que “invadem” os seus territórios, é verdade, mas jamais terão a “sina vingadora” e vão perseguir uma pessoa como podemos ver neste filme.

Enfim, descontado este detalhe, que é sempre inevitável em um filme com esta proposta, podemos seguir em frente. Quando chega perto da baleia, Nancy vira alvo do tubarão malvadão. Jaume Collet-Serra é esperto ao mostrar o primeiro ataque, com o tubarão se aproximando na onda e acertando a prancha da surfista, e não revelar em detalhes o segundo golpe, quando o tubarão morde a perna de Nancy e a puxa para baixo. Muitas vezes, e Hitchcock foi um dos mestres em nos ensinar isso, vale muito mais sugerir algo do que nos mostrar a cena.

Seria muito complicado mostrar em detalhes o ataque e justificar, por exemplo, porque a perna de Nancy não foi simplesmente arrancada. O diretor de The Shallows correria um grande risco em fazer uma sequência tosca. Então ele acerta em apenas mostrar a reação e a angústia da protagonista e não o detalhe do ataque propriamente. Aliás, ele faz isso em diversos momentos, e sempre é uma boa escolha. Afinal, este é um filme de suspense, e o requisito clássico do gênero é não mostrar tudo, mas alimentar a expectativa e sugerir muita coisa.

Como eu disse antes, acaba sendo fundamental aquela informação de que Nancy estava estudando Medicina e deixou a faculdade momentaneamente. Depois de ser atacada pelo tubarão, ela acaba utilizando os seus conhecimentos para salvar a própria vida. É dura a cena em que ela utiliza os brincos e o pingente para “costurar” a própria perna, mas certamente ela precisava fazer aquilo para não se esvair em sangue na pedra em que ela acaba se protegendo durante a maré baixa. O conhecimento dela também em manter a perna irrigada no momento certo e com torniquete na maior parte do tempo acaba sendo vital.

Claro que nem tudo funciona com perfeição neste filme. E nem daria para esperarmos isso de uma produção despretensiosa e que, claro, não tem a pretensão de ser um documentário sobre ataques de tubarões contra surfistas, né? A primeira questão que não tem lógica é que apenas o uso dos brincos e do pingente na perna teria a capacidade de estancar o sangue de Nancy. Se ela ao menos tivesse usado a corrente para costurar a perna, seria mais fácil de acreditar que aquela ação dela teria ajudado a estancar o sangue.

Depois, é meio difícil de acreditar que aquele imenso tubarão teria conseguido atacar o mexicano bêbado que entra na água para pegar a prancha que está boiando – afinal, ele ainda estava no raso quando sofre o ataque. Finalmente, difícil de acreditar que a dupla de surfistas que volta para a praia e escuta Nancy alertando eles contra tubarões não tenha, nem por um segundo, duvidado da certeza que eles tinham até aquele momento de que naquela praia não tinham tubarões. Afinal, por que cargas d’água a garota estaria lá no meio do mar sobre uma pedra, sem a prancha e gritando desesperadamente se ela não estivesse falando a verdade?

Teria sido um pouco mais realista, neste ponto, se os surfistas ao menos tivessem tentado sair da água e daí tivessem sido pegos pelo tubarão. Mas beleza. Para não dizer que o roteiro de Anthony Jaswinski tem mais falhas que acertos, uma boa sacada dele foi colocar uma gaivota na pedra em que Nancy se refugia por boa parte do filme. A simpática ave acaba sendo para Nancy o que a bola Wilson é para Tom Hanks em Cast Away, um belo filme do ano 2000 estrelado pelo ator e dirigido por Robert Zemeckis.

Desta forma, ainda que The Shallows acabe tendo poucos diálogos por causa da situação que vive a protagonista, não ficamos em um silêncio completo por causa da interação de Nancy com a gaivota e por causa das outras interações – seja com o mexicano bêbado, com os surfistas que voltam para o mar ou seja na acertada sequência em que ela grava alguns vídeos para quem puder encontrar a câmera no capacete e para os seus familiares. Afinal, ela vai seguir tentando, mas as perspectivas para Nancy não são nada boas – e ela sabe disso.

Quando ela vai buscar o capacete com a câmera temos outro detalhe importante – aliás, esse filme é repleto deles, por isso é importante o espectador não se distrair ou “dormir no ponto”. Nancy percebe a reação ruim do tubarão quando ele vai atacar ela e acaba “comendo” parte de um recife. Como o refúgio dela ficará impossível após algum tempo, quando a maré começar a ficar alta, ela tem que procurar alternativas. A boia que está um pouco distante será a sua alternativa, e ela só consegue chegar lá porque simula uma certa tourada com o tubarão em meio a águas vivas. A sequência é fantástica, aliás, como várias outras realizadas por Jaume Collet-Serra.

Na reta final, não resta muito tempo para Nancy. Seja porque o tubarão “super do mal” está cada vez mais com raiva dela – isso é o que o roteiro aparenta quando ele não para de ataca-la na boia -, seja porque aquela perna dela sem tratamento não permitirá que ela viva por muito mais tempo. Quando ela alcança a boia, parece que as chances dela aumentam.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Tem uma sequência que vocês podem ter estranhado: quando ela utiliza a última bala do sinalizador para atacar o tubarão e uma corrente de fogo surge na água. Eu tenho uma explicação para isso: a baleia em decomposição, certamente, estava liberando na água o famoso “óleo de baleia”, aquele mesmo que os antigos utilizavam para acender lampiões. Ou seja, o óleo de baleia é bastante inflamável. A minha dúvida sincera é se isso acontece também quando ele se mistura com a água… bem, novamente vamos dar esse desconto para o roteiro de The Shallows. Agora, apesar do “sangue nos olhos” do tubarão, que fica cada vez mais obcecado por atacar Nancy, algo precisamos admitir: a sequência final do embate entre a protagonista e o vilão do filme é ótima.

Vale incluir no pacote deste “grand finale” todo o trecho do “fogo no mar”, a fúria insandecida do tubarão contra a boia em que estava Nancy e a tirada esperta da protagonista em encontrar uma alternativa para golpear definitivamente o seu algoz persistente. A parte que teve a ver com o salvamento dela é que achei um tanto forçada. Não custava o diretor incluir alguns segundos ou até um minuto mostrando como ela saiu do fundo do mar e chegou perto da orla – provavelmente ela teve que dar umas boas braçadas antes de ter as forças exauridas. E, claro, a reação do Carlos eu achei um bocado estranha… ele tirou ela da água e simplesmente ficou parado depois? Nem se deu ao trabalho de fazer alguma massagem para que ela expelisse a água dos pulmões? Achei estranho aquilo.

No mais, achei que o filme foi muito bem feito. Com uma história simples, mas narrada de forma bastante eficiente, com diversos aspectos técnicos (que vou comentar abaixo) jogando um papel-chave e com um trabalho do diretor sem retoques para fazer. Apenas o roteiro teve alguns detalhes um pouco estranhos, já comentados, mas nada que desmereça o filme. Pelo contrário, aliás.

Antigamente – e nem tão antigamente assim – belas atrizes eram colocadas no mar apenas para virar “comida de tubarão”, literalmente. Não sabíamos praticamente nada sobre elas. Era quase pré-requisito elas serem “meio burras” ou “meio tontas” para, digamos assim, morrerem mais facilmente nos filmes. Sendo assim, elas precisavam ser apenas lindas, não precisavam ser boas intérpretes. Para nosso alívio, em The Shallows, a atriz Blake Lively faz um grande trabalho – ela é uma das principais qualidades do filme. Ela é uma intérprete com qualidade, além de ser linda. Então ela leva as atrizes deste perfil de filmes para um outro nível.

Além disso, o roteiro de Anthony Jaswinski acerta em não apenas alimentar a nossa expectativa e adrenalina, mas também em contextualizar a história da personagem e em nos ensinar bastante sobre “como sobreviver a um ataque de tubarão tendo as condições quase perfeitas ao nosso redor”. Como eu disse, este filme não é um documentário. Então, para um filme de ficção sobre o tema, ele tem muito mais acertos do que erros. Sem dúvida alguma é um ótimo entretenimento e, de quebra, a meu ver, rejuvenesce um estilo de filme que já parecia meio desgastado. Não é pouco.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Diversos aspectos técnicos contribuem para que The Shallows funcione bem. Para começar, a direção cuidadosa e atenta aos detalhes do espanhol Jaume Collet-Serra. O diretor sabe acelerar nos momentos certos, criar suspense utilizando a câmera em planos sugestivos e, principalmente, ficar muito próximo dos atores, especialmente da protagonista, para valorizar a ótima interpretação deles (e dela, em especial). Um dos recursos bastante utilizado por ele é o slow motion, bem empregado em diversas cenas – especialmente de surfe e em outras em que ele quer valorizar o trabalho de Blake Lively ou alguma sequência de ação. Ainda que alguns recursos sejam bem repetidos, não vi exagero no emprego das técnicas de filmagem. Achei um belo trabalho do diretor.

Um outro aspecto fundamental deste filme é a trilha sonora. Elemento-chave de diversos filmes de suspense e ação, ela dita o ritmo em muitos momentos de The Shallows. Um excelente trabalho do compositor Marco Beltrami. Outro elemento fundamental é a direção de fotografia, um trabalho impecável de Flavio Martínez Labiano. Ele faz um trabalho impecável de valorizar as paisagens e os detalhes da história mesmo quando ela mergulha na noite. O terceiro elemento crucial para o filme funcionar é a edição de Joel Negron. Ele faz um excelente trabalho em um filme com bastante complexidade na montagem e ajuda o diretor e o restante da equipe a dar um bom ritmo para a história.

Agora, queria fazer algumas ponderações sobre três tópicos da história que eu não citei antes. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Primeiro, a questão de ninguém falar o nome da praia. Para mim, esta escolha tem duas razões de ser: ao não revelar o nome da praia este “segredo” torna a aura sobre o local ainda mais misterioso e, depois, quando você não cita um nome fica mais fácil de “esconder” um determinado lugar, não é mesmo? Uma escolha totalmente proposital. Depois, queria citar dois aspectos do finalzinho da produção. Achei um barato a gaivota ser mostrada no final. É como se ficássemos com a mensagem “no final, todos foram salvos”. Bonitinho. 😉 E pode haver uma explicação para Carlos ter ficado apenas olhando para Nancy no final. Como ele não fez nenhuma massagem na garota para expelir a água dos pulmões e, na sequência, aparece a mãe de Nancy em cena, isso pode deixar a entender que a garota teve uma “ajuda” fundamental da mãe para se salvar. Eu acredito que isso seja possível, então achei um toque interessante da história no final.

Fiquei muito surpresa com o trabalho de Blake Lively. Achei o trabalho da atriz realmente impecável, irretocável. Acho que vale acompanharmos este nome e ver o que mais ela fará daqui para a frente. Buscando saber um pouco mais sobre ela, descobri que este é o 18º trabalho dela como atriz e que ela já ostenta sete prêmios no currículo. A estreia dela como atriz foi em Sandman, em 1998. O trabalho seguinte demorou sete anos para sair, foi em 2005, The Sisterhood of the Traveling Pants. A partir daí ela não parou mais. Ela participou das séries de TV Saturday Night Live e Gossip Girl e dos filmes Green Lantern, Hick, Savages, The Age of Adaline e do recente filme de Woody Allen, Café Society. O próximo filme dela que vai estrear é All I See Is You, dirigido por Marc Foster. Ficaremos de olho!

The Shallows estreou em première em Nova York no dia 21 de junho. A partir desta data ele começou a se espalhar pelo mundo sem participar de nenhum festival de cinema até agora. Nem é muito o perfil do filme. Mesmo não tendo uma “carreira de festivais”, esta produção foi indicada na categoria Choice Summer Movie Star: Female no Teen Choice Awards. Sem dúvida nenhuma esta é uma produção bem ao estilo “filme de verão” e com cara de adolescentes. Ou seja, o filme está bem entre o seu público. 😉

Antes citei a atriz Blake Lively como um dos pontos fundamentais para o êxito desta produção. Mas vale também citar alguns dos atores coadjuvantes que ajudam a protagonista a brilhar – até porque eles não tem, digamos assim, um graaaaande desempenho: Óscar Jaenada está bem nas duas ocasiões em que ele aparece como Carlos, morador local da praia agreste; Brett Cullen interpreta o pai de Nancy; Sedona Legge interpreta a Chloe, irmã mais nova da protagonista; Pablo Calva é o filho de Carlos, o garoto que está brincando na praia e que acaba ajudando a salvar Nancy; Diego Espejel é o homem bêbado que só faz besteira na praia; Janelle Bailey interpreta a mãe de Nancy; e quatro pessoas interpretam os surfistas que aparecem em cena (pois sim): Angelo Jose, Lozano Corzo, Jose Manual e Trujillo Salas.

The Shallows teria custado US$ 17 milhões – certamente boa parte desta grana foi gasta nos efeitos especiais envolvendo o tubarão, dinheiro muito bem empregado, aliás – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 54,5 milhões. No restante dos países em que o filme já estrou ele teria feito outros US$ 38,5 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 93 milhões. Um verdadeiro sucesso. E merecido. É bom ver um filme feito para “as férias americanas” e que joga uma nova brisa sobre um gênero desgastado.

O filme, segundo o roteiro de Anthony Jaswinski, se passa em uma das praias da cidade de Tijuana, no México. Mas, na verdade, The Shallows foi totalmente rodado na Austrália. Pois sim! Muitas das cenas da produção foram feitas nos Village Roadshow Studios, em Queensland, enquanto parte das cenas externas foram rodadas em Mount Tamborine (as imagens do caminho pela “floresta”) e em Lord Howe Island, esta última em New South Wales.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: a versão de The Shallows no México altera a localização da praia para o Brasil e os diálogos entre os personagens “locais” que, no original, são ditas em espanhol, na versão mexicana são ditas em português.

O apelido que Nancy dá para a gaivota, o de Steven Seagull (gaivota Steve) é uma brincadeira com o nome do ator Steven Seagal.

Um ponto fundamental desta produção é o trabalho também com o grande tubarão branco – que é uma fêmea, aliás, normalmente maior que os machos. Nove profissionais trabalharam nos efeitos especiais do filme e o número impressionante de 257 profissionais trabalharam nos efeitos visuais da produção. Certamente para estes aspectos foi grande parte do orçamento do filme. Os 14 profissionais envolvidos no departamento de som também merecem elogios, porque o trabalho deles, assim como dos demais, garante a qualidade técnica da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Uma boa avaliação se formos levar em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 128 críticas positivas e 39 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,5.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de países votados aqui no blog. 😉

CONCLUSÃO: Você não precisa ter uma grande ideia para fazer um filme interessante. Basta ter um propósito muito claro e, mesmo que o assunto já tenha sido tratado, não ficar na zona cômoda e tentar apresentar algum diferencial. Pois é exatamente isso que The Shallows faz. Este não é o primeiro e provavelmente não será o último filme que trata sobre o “perigo dos mares” mais aterrorizante de todos, mas certamente ajuda a revigorar o gênero. Com uma atriz bonita e talentosa como protagonista, este filme tem uma dinâmica bem planejada e envolvente, equilibrando na medida certa suspense, drama e alguma pitada de humor. É uma boa pedida bem ao estilo “Sessão da Tarde”. Simples, mas eficaz como entretenimento.

A Hologram for the King – Negócio das Arábias

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Alguns atores e diretores simplesmente nos atraem. Admiramos o trabalho deles e, por isso, optamos no cinema por assistir aos seus filmes e não a outros. Pois bem, eu assisti ao filme A Hologram for the King por causa de Tom Hanks. Gosto do ator, acompanho o trabalho dele há muito tempo, mas esta produção apenas serviu para voltar a me lembrar que nem sempre um bom intérprete abraça um filme de qualidade. Honestamente eu não sei o que fez Tom Hanks protagonizar A Hologram for the King. Filme um bocado sem pé nem cabeça que, se nos esforçarmos, até podemos entender. Mas, nem por isso, ele se torna um grande filme.

A HISTÓRIA: Cenas de uma grande cidade. Em uma vizinha “dos sonhos”, Alan (Tom Hanks) aparece fazendo um rap sobre como um sujeito que tinha aparentemente tudo pode se ver, de repente, sem nada daquilo. Depois, Alan está em uma montanha russa. As cores vão desaparecendo, e ele acorda em um avião com árabes rezando. Na sequência, ele chega na Arábia Saudita, onde foi enviado para fazer um “acordo crucial” para a empresa em que ele trabalha. Enquanto ele está dormindo no hotel, vemos a pressão que o circunda na conversa que ele teve com o chefe antes de viajar para a Arábia Saudita. Ele acorda atrasado e tem que arranjar uma maneira de ir até a Metrópole do Rei de Economia e do Comércio. Alan mal sabe que ali está apenas começando uma longa jornada para ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir comenta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu à produção A Hologram for the King): Como costumo fazer sempre que vou assistir a um filme, seleciono ele sem ler nada a respeito da história antes. Como já comentei aqui em outras ocasiões, algumas vezes sou atraída por um diretor ou diretora que eu admiro e de quem eu gosto. Outras vezes, pelo ator, pela atriz ou pelo elenco. Em algumas ocasiões, mais raras, pelo nome do roteirista. Outras vezes, pela avaliação positiva nos sites de referência que sempre cito aqui.

Assisti a este filme pela junção de dois destes fatores: gosto muito do trabalho de Tom Hanks e também vi notas razoáveis sobre esta produção nos sites que sempre monitoro. Até gostei do início do filme. Afinal, quem imaginaria o “certinho” Tom Hanks cantando um rap sobre o desassossego e a desilusão? Depois, achei o começo um tanto “desastrado” do personagem que ele interpreta também interessante. Até que surgiu em cena o motorista Yousef (Alexander Black). Ali acendeu pela primeira vez a minha luz de alerta.

Por que cargas d’água os roteiristas sempre recorrem a um tipo paspalhão para provocar risos fáceis em filmes que ou querem ser muito engraçados ou querem contrastar sempre o drama com a comédia? Enfim, Yousef é um destes personagens esquisitos de A Hologram for the King e que não diz muito ao que veio além de provocar algumas risadas com as suas esquisitices e um jeitão de quem parece estar sempre sob o efeito da maconha.

Depois de acompanharmos o encontro do protagonista com o motorista particular trapalhão, mergulhamos em uma sequência de fatos que fazem qualquer um perceber que Alan está sendo enrolado. Ele e sua equipe não conseguem a estrutura básica elementar para fazer a apresentação que desejam e muito menos conseguem se encontrar com a pessoa que deveriam. E aí começa o processo do “cachorro que persegue o próprio rabo”.

O personagem de Alan parece um tanto desastrado e, ainda assim, consegue se virar bem em terras estrangeiras. A primeira sorte dele é encontrar Hanne (Sidse Babett Knudsen), uma estrangeira como ele que lhe fornece algo que ele precisava muito e que não conseguiria por vias normais na Arábia Saudita: uma boa bebida alcoólica. Depois de beber um bocado, ele resolve fazer uma grande besteira e tentar tirar uma massa que tinha nas próprias costas.

É assim que ele tira a segunda “sorte grande”: conhece a médica Zahra (Sarita Choudhury). Enquanto ele não consegue se encontrar com o rei e apresentar a solução tecnológica oferecida pela empresa que ele representa, a Relyand, ele vais e divertindo com estas duas belas mulheres. Mas mais que o presente, Alan é atormentado pelo passado. Por não ter dado certo no casamento e nem por ter sido muito presente na vida da filha, Kit (Tracey Fairaway). O filme vive, aliás, nesta mescla de expectativa e de arrependimento.

O roteiro de Tom Tykwer baseado no livro de Dave Eggers acerta ao mergulhar no personagem principal mas, para o meu gosto, erra em todo o restante. Por exemplo, Alan realmente não mergulha na cultura alheia. Vemos uma série de estereótipos e simplificações. Muita maquiagem e pouca realidade. Quer dizer, até vemos um pouco do que seria a cultura árabe, mas tudo parece bastante forjado ao estilo “feito para Hollywood”.

O que podemos ver com clareza, e isso é uma verdade, é o recurso abundante que o rei árabe tem à sua disposição para transformar deserto em um local cheio de infraestrutura, moderno e luxuoso. Não falta dinheiro e nem visão para os árabes, disso não temos dúvida. A outra reflexão interessante do filme é como ele questiona, ainda que levemente, a armadilha que é o mundo inteiro apostar pela China como “o motor” ou “a fábrica” do mundo.

No passado, o protagonista deste filme levou a empresa que ele fundou para a China, desempregando muitos americanos, porque era mais “competitivo” e mais lógico, apenas pela ótica do dinheiro, levar a operação para o país asiático onde o custo da mão de obra era muito mais barato. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando ele vai procurar um acordo fundamental para a empresa que ele está trabalhando na Arábia Saudita, por ironia, são os chineses que ganham o contrato. Certamente porque apresentaram preços e condições melhores.

O mundo acaba se dilapidando quando todas as oportunidades acabam sendo chinesas. Para o bem de todos, seria bem mais interessante termos um equilíbrio melhor de forças, com vários países dividindo melhor o bolo. Esta talvez seja a única reflexão realmente interessante deste filme. Pena que ela fique tão em segundo plano.

A reflexão óbvia e evidente de A Hologram for the King é que quando uma pessoa se lança para o desconhecido, para um país distante, ela pode se distanciar o suficiente dos problemas e se surpreender com diversas oportunidades de recomeço. Isso acaba acontecendo com Alan. Ele tem muito claro o que quer e o que não quer e acaba apostando as suas fichas na médica Zahra – esbanjando as investidas de Hanne. É meio difícil de acreditar que aquela figura fosse “disputado”, no bom sentido, por duas mulheres. Mas é isso que acontece. Afinal, temos o famoso Tom Hanks no papel principal.

Como gostamos de Hanks, até acreditamos nesta história. Mas convenhamos que se esquecemos que o protagonista desta história é um ator querido e famoso, dificilmente o Alan “real” teria tanta concorrência. De qualquer forma, algo é certo: ele aproveita bem as oportunidades que aparecem pela frente e é feliz improvisando. Então ele não consegue o objetivo que o levou para a Arábia Saudita, mas atinge um objetivo muito mais importante para ele.

Recomeços são mágicos, e este filme trata de um deles. Ainda que a narrativa seja um bocado arrastada, em alguns momentos, e cheia de piadas sem graça e de simplificações, mas ela consegue provocar alguma reflexão e oferecer algumas cenas realmente muito bonitas – neste sentido eu destaco, em especial, a sequência do nado entre Alan e Zahra. Toda a sequência na casa da médica, aliás, pode ser considerada o ponto forte do filme. Um belo trabalho do diretor Tom Tykwer. Sem dúvida nenhuma ele entende de cinema e de como valorizar os atores e os cenários em seus respectivos momentos. Pena que a história não lhe ajudou muito para que este fosse um grande filme.

NOTA: 6,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre que vejo um filme que se passa em uma “terra estrangeira” muito diferente do habitat do protagonista e que deixa ele visivelmente desconcertado, impossível não lembrar de Lost in Translation. Se você está procurando um filme que trate de culturas diferentes em contato, sobre perder-se e encontrar-se, sobre descobrir algo de nós mesmos e dos outros que não esperávamos, sem dúvida alguma deves assistir a este filme de 2003 assinado pela diretora Sofia Coppola. Posso garantir que ele é muito melhor no intento que este A Hologram for the King. Lost in Translation se passa em outro ambiente e tem outra “pegada”, mas é muito mais eficaz em seu intento e mais inteligente em seus propósitos. Fica a dica.

Queria me desculpar com vocês pela longa ausência. Mas como expliquei na página do blog no Facebook, eu sou uma viciada em Olimpíadas. Então vocês terão que me perdoar, mas enquanto eu viver, a cada quatro anos, quando os Jogos Olímpicos forem realizados em alguma parte do mundo, estarei com a atenção totalmente voltada para este grande momento do esporte e da Humanidade seja onde ele acontecer. Neste período eu sempre terei que “abandonar” um pouco o blog. Mas como vocês sabem, posso demorar um pouco, mas sempre volto. 😉

A Hologram for the King é muito centrado no personagem principal interpretado por Tom Hanks. O ator está bem, ainda que eu o veja se “esforçando” demais em alguns momentos para nos convencer. Gosto de Hanks mas, serei franca com vocês, ele já esteve em filmes melhores e com desempenho bem melhor também. Ele está bem, mas certamente não será um filme inesquecível dele.

Mesmo o filme sendo bem centrado em Hanks, uma atriz ganha destaque na produção, especialmente na reta final: Sarita Choudhury. Ela é uma grande atriz, aliás! E está muito bem neste filme. Lembro dela se destacando em Homeland. É uma intérprete que sempre faz bem o seu trabalho. Vale acompanhá-la. Outros atores que tem destaque no filme já foram citados: Alexander Black como o chato chofer improvisado do protagonista – entendo se você tiver achado ele bom e engraçado, mas eu não compartilho desta visão e tanto você como eu estamos certos; e Sidse Babett Knudsen como Hanne.

Outros atores com papéis menores e que valem ser citados: Tom Skerritt em uma super ponta como o pai de Alan, Ron; Michael Baral também em uma super ponta como o jovem Alan; Eric Meyers como Eric Randall, chefe do protagonista; Atheer Adel como o príncipe Jalawi; Mohamed Attifi como O Rei; e Khalid Laith como Karim Al-Ahmad, o braço direito do rei e que é o primeiro alvo de Alan em sua jornada árabe.

Da parte técnica do filme, o principal destaque é a direção de fotografia de Frank Griebe. Afinal, se este filme tem alguma qualidade mais evidente, sem dúvida alguma são algumas cenas realmente muito bem feitas e com visual incrível. O diretor Tom Tykwer também tem, sem dúvida, um bom gosto para cenários e para a dinâmica da cena. Ajudam ele em sua missão ainda Uli Hanisch no design de produção; Abdellah Baadil, Daniel Chour, Kai Koch e Marco Trentini na direção de arte; Pierre-Yves Gayraud nos figurinos; Alexander Berner na edição; e Johnny Klimek e o próprio Tykwer na trilha sonora um tanto ausente, mas que ajuda a imprimir um tom dramático e um tanto “épico” para esta produção.

A Hologram for the King estreou no Festival de Cinema de Tribeca em abril deste ano. Depois, o filme passaria apenas pelo Festival Internacional de Cinema de Melbourne no início de agosto. Em sua trajetória, esta produção ganhou dois prêmios e foi indicada a um terceiro. Os prêmios que ele recebeu foram os de Melhor Edição para Alexander Berner e o de Melhor Som para Frank Kruse, Matthias Lempert e Roland Winke no German Film Awards.

Esta produção gastou cerca de US$ 30 milhões para ser feita. Só fico pensando quantos filmes alternativos e bacanas poderiam ter sido feitos com esta grana… mas ok. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme fez cerca de US$ 4,2 milhões. Ou seja, um grande fracasso de bilheteria até o momento. E me desculpem os fãs do filme, mas neste caso eu entendo as razões. Não consigo imaginar uma propaganda boca a boca muuuuuito positiva neste caso.

A Hologram for the King foi rodado em diversos países. Algumas cenas externas foram rodadas realmente na Arábia Saudita, enquanto outras foram feitas em Boston, nos Estados Unidos. As outras cenas, incluindo as de ambiente interno, foram rodadas no Marrocos, no Egito e na Alemanha, em cidades como Ouarzazate, Hurghada, Rabat, Casablanca, Düsseldorf e Berlim.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 88 críticas positivas e 37 negativas para este filme, o que lhe garante uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,2.

Ah sim, e vale comentar: assisti este filme antes mesmo das Olimpíadas começarem a pegar fogo. Então é claro que lembro do que o filme transmitiu para mim, mas sem dúvida não é o mesmo que comentar ele logo após tê-lo assistido. Acho que é válido citar isso.

Este filme é uma coprodução de diversos países, a saber: Reino Unido, França, Alemanha, Estados Unidos e México.

CONCLUSÃO: Outros filmes já falaram sobre a solidão em um lugar com cultura diferente e desconhecido. Produções melhores que esta trataram da busca de um indivíduo por encontrar a si mesmo e também a motivação para recomeçar. Ainda que A Hologram for the King tenha algumas boas intenções, ele não passa na avaliação mais criteriosa. Filme um tanto lento, um tanto enrolado, ele parece mais um cachorro perseguindo o próprio rabo. Perdemos muito tempo com a “confusão” dos árabes e pouco tempo entendendo os personagens principais. Um filme um bocado vazio, ainda que tenha alguns bons atores e algumas cenas realmente interessantes. Mas se você tiver outra opção para assistir, sugiro que opte pela alternativa a esta produção.