Good – Um Homem Bom

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De tempos em tempos, uma temática parece dominar uma série de produções no cinema. Uma certa tendência leva diferentes países, diretores, roteiristas e produtores a investirem suas fichas em uma época da nossa história, enfocando certos acontecimentos que foram importantes e que continuam tendo eco na atualidade. Recentemente, a Alemanha da época do nazismo rendeu – e continua rendendo – uma série de produções importantes. Entre elas, a indicada ao Oscar 2009 de Melhor Filme, The Reader. Mas outra produção, infinitamente menos comentada e debatida, deveria merecer a nossa atenção: Good, dirigida pelo austríaco radicado no Brasil, Vicente Amorim. Filme complexo, difícil de ser entendido – mais do que o (também) nada óbvio The Reader -, Good toca de forma sutil algumas chagas que parecem nunca cicatrizar na história da Alemanha. Bem dirigido, com atuações exemplares de Viggo Mortensen e de Jason Isaacs, ele é um destes poucos filmes que explora a fundo o conceito de “bondade” que muitos de nós temos – assim como a nossa idéia de beleza. Não é um filme fácil de entender e, talvez por isso mesmo, ele seja tão interessante.

A HISTÓRIA: O professor John Halder (Viggo Mortensen) é chamado, em abril de 1937, para comparecer à Chancelaria do Führer, em Berlim. Uma obra escrita por ele alguns anos antes chama a atenção do Comitê do Reich para Registro Científico de Doenças Hereditárias Graves. Melhor amigo do psicanalista judeu Maurice (Jason Isaacs), Halder tinha conseguido manter-se distante do avanço do nacional-socialismo alemão, liderado por Adolf Hitler, até aquele momento. Mas a história mostra como os conceitos de Halder foram mudando gradativamente, desde o aparentemente distante maio de 1933, quando ele começou a escrever a obra que chamou a atenção dos nazistas. Agora, em 1937, Halder aceita fazer parte do governo do qual anteriormente fazia piadas – e com sua história, conhecemos um pouco mais sobre o papel que a intelectualidade alemã assumiu naqueles anos de regime nazista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Good): Fazia tempo que um filme não me provocava o efeito de dúvida que este filme provocou. Como disse anteriormente, Good não é uma produção fácil de ser entendida. Não senhor, não senhora! Tanto que quando terminei de assistí-lo, fiquei pensando sobre o significado do título original e, mais que isso, sobre o papel daquela maldita música clássica que tocava em momentos marcantes para o personagem principal. Caramba, afinal de contas, o que queriam dizer aquelas peças de Mahler jogadas aqui e ali?

As respostas para estas perguntas fui conseguindo pouco a pouco, ao relembrar momentos importantes do filme. E quero deixar claro que vou comentar por aqui sobre as conclusões as quais eu cheguei sozinha, antes mesmo de ler as notas da produção e entrevistas que estão disponíveis em um pressbook que tenho no computador. Até porque, fui descobrir depois, as conclusões as quais eu cheguei são diferentes das intenções, talvez mais simples, das pessoas envolvidas nesta produção.

Primeiramente, vamos falar sobre as interrupções na narrativa com aquelas peças de música clássica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira impressão que alguém pode ter é que o filme tenta tornar especialmente belos determinados momentos. Mas essa idéia chega a ser quase uma afronta, especialmente com a sequência final do filme. Então, essa alternativa está fora de cogitação. A primeira vez que Halder ouve a Mahler é quando ele é tentado por Anne Hartman (Jodie Whittaker), uma estudante que frequenta as aulas de literatura dele como ouvinte. Maurice ressalta que o compositor era judeu – o que poderia significar que o “fantasma” deste grupo acompanharia, através da música, os momentos em que a moral do protagonista é colocada à prova. Mas, ainda assim, apenas esta conclusão parece não se encaixar.

Também parece faltar algo na constatação de Maurice de que o amigo escuta essa música quando está perturbado. Mahler serviria como uma anestesia, uma forma de alienar o personagem da realidade. Certo. Ainda assim, parecia que algo estava faltando nesta explicação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas um tempo depois do filme ter terminado, tentando buscar sentido nesta trilha sonora que parecia “invadir” o filme e interromper a narrativa sem uma explicação justa, é que eu acho que consegui compreender. Lembrando de um comentário de Helen (Anastasia Hille), ex-mulher de Halder, tudo pareceu se encaixar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o filme passa um pouco de uma hora, e Halder acaba de enterrar a sua mãe (Gemma Jones), ele comenta com Helen que acredita que a falecida não tenha sido grata o suficiente com ela. E aí Helen solta uma das frases emblemáticas do filme, dizendo como, muitas vezes, tocava música no piano que tinha em casa a todo o volume para não escutar os gritos da ex-sogra. Voilà! Acredito que Mahler aparece em cena para demonstrar esta necessidade de Halder e de todos os intelectuais da época, pelo menos aqueles que apoiaram Hitler, em silenciar a própria consciência. Permitindo que uma música irreal tocasse a todo volume, eles ignoravam os absurdos que eram feitos pelo regime nazista. Muitos buscavam em diferentes manifestações artísticas a beleza que deveria cegá-los e ensurdecê-los, impedindo que eles pudessem ouvir os gritos daqueles que sofriam o pior castigo daquele regime. A música que ouvimos quer mostrar essa escolha voluntária dos intelectuais e de tanta “gente de bem” de serem surdos por um longo período – e de ignorarem o quanto seus próprios atos contribuíram para aqueles absurdos.

Acredito que, com esta leitura, encontrei uma das principais e mais importantes críticas do filme. Mas o mais fácil, me parece, é que as pessoas terminem de assistir a Good e não entendam este e outros questionamentos de seu roteiro. Esta produção, como tantas outras, pode ser vista de uma maneira bastante “rasa” – e isso não é culpa do espectador mas, na maioria das vezes, dos próprios realizadores, que deixam a maior parte da história em um nível muito raso de interpretação. Para alguns, Good narra apenas a história “ordinária” de um professor universitário que vai mudando sua conduta como resposta ao que acontece ao seu redor. Ele é praticamente “levado” a tomar determinadas atitudes. Certo, se você acredita que as pessoas são produtos (apenas) das circunstâncias. Mas algo me diz que o título do filme, Good, não está ali por acaso.

Afinal, qual é o conceito de bem ou de bom nesta história? Como é possível reconhecer o bem no meio de tantos atos absurdos? Certamente não encontramos esta definição no caminho escolhido pelo protagonista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E não deixa de ser bastante incômoda a cena em que a mãe de Halder olha para ele e faz uma declaração de amor para o filho, dizendo que ele é um bom menino, justamente no momento em que ele a esta abandonando. Cruel, eu diria. Assim como várias outras cenas do filme. Este mesmo bom menino é o que vira as costas para o melhor amigo, a mãe, a ex-mulher e os filhos, para se lançar em uma vida de falso prestígio entre os nazistas e de redescoberta amorosa com a ex-aluna. Esta crítica a corrupção moral daquela época é um dos pontos fortes do filme. Mas não é o único.

Outra leitura para o título desta produção tem como base algumas frases da personagem Anne, lá pelo início do filme – mais precisamente, pelo minuto 24 da produção. Neste trecho da história, Anne defende a idéia de que bastam umas “pessoas boas” para dar a direção correta para o regime nazista. Segundo ela, intelectuais corretos como Halder não devem ficar à margem do novo regime. As pessoas que tem algo para contribuir devem aderir ao governo e auxiliar para que tudo vá pelo caminho certo. Santa ingenuidade – ou pura estratégia de quem busca a ascensão a qualquer custo. Com Good fica ainda mais claro como a idéia de “boas intenções” é apenas uma desculpa para os maiores absurdos. Os fins, meus caros, não justificam os meios. Nem com os nazistas, nem com os atuais governos populistas que, no fim das contas, querem apenas se manter no poder até o infinito.

Por estas e por tantas outras idéias corajosas – e perigosas – escritas quase nas entrelinhas, o roteiro de Good, escrito por John Wrathall, baseado na peça de C.P. Taylor, merece aplausos. Ainda que, eu admita, a dificuldade em entender tudo o que suas linhas querem dizer, não torna o filme tão acessível quanto seria necessário. Tanto “obscurantismo” na apresentação de suas idéias torna o filme próximo do desperdício. Mas com um pouco de esforço, vale a pena se debruçar sobre esta que é uma das mais interessantes reflexões sobre aqueles dias do regime nazista. Junto com The Reader, Good é um dos filmes mais interessantes da última leva sobre este tema.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Poucas pessoas falaram do trabalho do diretor Vicente Amorim com este filme. O austríaco com “alma” brasileira, filho do diplomata Celso Amorim, inexplicavelmente vem sendo ignorado pela crítica brasileira. Seu filme anterior, o simpático O Caminho das Nuvens, já tinha sido bastante desprezado. Agora, Good. Acho que Amorim faz um trabalho competente nos dois filmes. Nesta produção inglesa e alemã com Viggo Mortensen, ele acerta em uma condução clássica da história, previlegiando a interpretação dos atores. Certo que ele não ousa em enquadramentos ou no ritmo do filme – não é um entusiasta das inovações como Fernando Meirelles. Mas, pelo estilo da história, sua escolha pelo tradicional se justifica. Vicente Amorim, para resumir, não faz pirotecnia, apenas executa bem a sua função. Cada um, com seu estilo.

Achei curiosa a crítica do filme à “intelligentsia” alemã daquela época. Uma intelligentsia que, como explica a definição deste artigo, nunca se concretizou em sua definição exata. Afinal, os personagens retratados em Good e representados por John Halder, nunca assumiram o papel de militância contra o regime opressivo que se consolidava naquela época. Quem conseguiu fugir daquele país, conseguiu manter uma postura crítica. Mas muitos se juntaram ao regime nazista e anularam a sua posição como parte da intelligentsia da época. Uma lástima – mas que precisa ser retratada.

Viggo Mortensen tem uma grande interpretação neste filme. Ele consegue o tom exato de um personagem complexo, que perfeitamente poderia cair na simplificação de um “traidor” em outras mãos. Mas pela interpretação de Mortensen, John Halder ganha contornos contraditórios, variáveis, que em alguns momentos chegam a despertar piedade, em outros, raiva e desprezo. Humano, demasiado humano. Interessante. Também merecem aplausos o trabalho de Jason Isaacs que, ainda que tenha com Maurice um papel mais “fácil” e constante, consegue emocionar em muitos momentos – e sem cair no estereótipo do judeu alemão daquela época.

Merece ser citado ainda o trabalho do ator Mark Strong como o comandante Bouhler, presidente do Comitê de Censura do partido nacional-socialista, responsável por trazer Halder para perto do regime nazista; de Steven Mackintosh como Freddie, um major que acaba “alistando” o professor universitário para a Schutzstaffel de Hitler – mais conhecida como SS; Steven Elder em uma rápida aparição como Eichmann, que foi nomeado chefe da Seção de Assuntos Judeus no Departamento de Segurança de Hitler; e Adrian Schiller como Goebbels.

Para os interessados na parte técnica do filme, a direção de fotografia é assinada por Andrew Dunn; a trilha sonora é de Simon Lacey e a edição, de John Wilson. Estes e os outros profissionais envolvidos no filme fazem um trabalho competente, mas nada fora do comum. Talvez apenas o trabalho da figurinista húngara Györgyi Szakács mereça uma menção especial. A pesquisa que ela fez, de época, ficou realmente perfeita – equilibrando o antigo com o tom “contemporâneo” desejado pelo diretor e pelos produtores.

Uma curiosidade: Good foi todo filmado em Budapeste, na Hungria.

A produção dirigida por Vicente Amorim não foi bem na avaliação do público e da crítica. Ela conseguiu apenas a nota 6,6 pela votação dos usuários do site IMDb. E teve um desempenho ainda pior entre os críticos, que publicaram 43 críticas negativas e apenas 21 positivas para o filme no Rotten Tomatoes – o que lhe deu uma aprovação de 33%.

As notas de produção do filme comentam que Good se “serve do declínio moral de um homem para contar o destino de toda uma nação”. O texto ainda afirma que a obra narra como um homem bom, que passa por problemas pessoais e profissionais, acaba percorrendo o caminho “fácil” de conseguir recompensas depois de prestar pequenos favores. Interessante que neste material repassado para a imprensa espanhola, Amorim é descrito como um “aclamado diretor brasileiro”.

Good estreou no Festival de Toronto do ano passado. O filme teria custado aproximadamente US$ 15 milhões.

A obra que originou Good estreou no Donmar Warehouse de Londres em 1981, com um elenco encabeçado por Alan Howard. O texto de C.P. Taylor foi escolhido pela National Review como uma das “100 melhores obras do século” (passado, é claro). Depois do sucesso entre o público londrino, Good estreou na Broadway em 1982. Curioso que esta peça foi a última de uma obra de quase 70 textos escritos por Taylor, que morreu aos 52 anos de idade apenas uma semana depois da estréia de Good em Londres. Na época, a revista Time afirmou que Good era “um pesadelo de um antiherói sonâmbulo”.

O trabalho de adaptação de Good para os cinemas começou naquele distante anos 1980, quando a produtora Miriam Segal, na época uma estudante universitária, ficou maravilhada com o que viu. Mas ela conseguiria comprar os direitos da obra apenas em 2003, e demorou outros quatro anos para conseguir negociá-la e chegar até uma equipe adequada para o projeto. O ator Jason Isaacs, apaixonado pela peça e amigo da produtora, já havia se comprometido com o filme muito antes dele ser viabilizado.

Curioso que o ator Viggo Mortensen também era um antigo admirador da obra de C.P. Taylor. “Há 25 anos, quando eu começava minha carreira profissional, eu estava em Londres para fazer uma prova e conseguir o que deveria ser o meu segundo papel. Eles não me deram aquele papel, mas eu aproveitei para ver uma peça de teatro, e era Good, com Alan Howard, que me impressionou muito. Quando tive a oportunidade de interpretar o papel no cinema, pareceu interessante para mim fechar esse círculo aberto há um quarto de século”, comentou o ator no material de divulgação do filme.

Segundo esse mesmo material, a adaptação do teatro para o cinema foi bastante complicada. “Vi a obra em Londres. Ela era muito teatral, usava todos os recursos que oferece um cenário. Os atores começavam a cantar de golpe e havia grandes saltos no tempo”, comenta o roteirista John Wrathall. No teatro, por exemplo, o protagonista se dirigia diretamente ao público, um recurso que foi cortado na adaptação da peça para o cinema. “O desafio consistia em dramatizar o que acontece na cabeça do personagem sem que ele se dirija diretamente ao espectador”, comentou o roteirista. Acho que ele consegue isso, mas apenas em parte. Se bem que, francamente, prefiro a maneira com que o filme foi feito do que imaginar o protagonista a todo momento olhando para a câmera e “divagando” conosco.

O diretor Vicente Amorim comenta, neste material de divulgação do filme, que ele foi inspirado pelos filmes Il Conformista, do italiano Bernardo Bertolucci, e por Mephisto, do húngaro István Szabó. Seguindo o exemplo destes dois filmes, Amorim teria enfatizado os “elementos visuais, a decoração, o vestuário e a iluminação para ressaltar que se trata de uma história simbólica, uma parábola sobre a consciência, os atos e suas consequências”. O próprio diretor teria dito que “Good é um olhar muito particular sobre a vida de um homem, através do qual se conta uma história universal”.

Propositalmente a equipe técnica do filme escolheu um tom um tanto “contemporâneo” para Good, ainda que ele se trate de uma produção de época. A exemplo do filme de Bertolucci, que usa a claridade da arquitetura da era fascista para descrever a dicotomia entre as elevadas ambições do protagonista e sua baixeza moral, Good se apóia no “gosto de Hitler pelo estilo neoclássico para ressaltar a dupla personalidade de toda uma sociedade. As linhas limpas das superfícies de mármore e pedra escondem uma alma corrupta”, esclarece o material de divulgação do filme.

Achei interessante a leitura da produtora Miriam Segal sobre o significado desta obra: “C.P. Taylor queria encontrar uma metáfora da consciência e ilustrar a idéia de que vivemos sem explorar e nem entender o que existe ao nosso redor. As necessidades pessoais são as que nos empurram. E, como se pode ver em Good, se nos afastamos do comportamento dos outros, criamos uma sociedade sem coração, sem compaixão, na qual podem ser feitas coisas terríveis”.

Não sabia, até ler um resumo da trajetória de Viggo Mortensen, que o ator tinha nascido em Nova York e morado, antes de regressar para sua terra natal e estudar teatro, na Venezuela, Argentina e Dinamarca. Interessante. Assim como é interessante que ele também é poeta, fotógrafo e pintor. Isso que eu chamo de partidão. 😉

O ator Jason Isaacs ressalta a importância de que seu papel não cai no lugar-comum do “judeu vítima” perseguido durante o regime nazista. E ressalta que Good é um filme que faz pensar. “Ele nos obriga a refletir sobre como somos, se não nos traímos, se somos “bons” atualmente. É muito difícil, realmente difícil, sermos a pessoa que desejamos ser no mundo atual. Qualquer ajuda, pode ser boa”.

Amorim fala, em sua entrevista divulgada para a imprensa, de pontos importantes para o filme. Como a submissão do protagonista ao partido nazista: “Pedem que ele escreva um informe sobre a eutanásia e, posteriormente, percebemos de que ele não deveria ter feito isso. Mas se alguém se coloca no lugar de Halder, a verdade é que se acredita que ele não tem escolha. Esta será a primeira decisão que leva a outra, a dele se unir ao partido nazista, e que o faz se converter não apenas em um fiscal do programa de eutanásia, mas também dos campos de concentração. Dito desta maneira, parece uma grande mudança, de professor de literatura a fiscal de campos de concentração, mas se qualquer um se coloca na história, no filme, inclusive isso se torna compreensível. E é isso o que dá medo. Sabemos que ele não escolheu bem. Mas dentro da história, cada uma das suas decisões é aceitável, o que nos faz examinar as decisões que tomamos na nossa própria vida”.

Agora, um comentário importante: as escolhas do protagonista de Good devem servir de alerta para todas as pessoas que fizeram ou fazem algo inovador na sociedade. Como aprendi em algumas aulas do meu doutorado, um científico, seja da área de conhecimento que for, deve ter muito clara a responsabilidade por aquilo que investiga, por suas pesquisas e descobertas. Afinal, qualquer idéia nova ou interessante pode ser usada de forma equivocada, como bem nos exemplifica este filme. Cada pessoa deveria ter consciência de suas responsabilidades, sejam cientistas, pesquisadores, jornalistas, políticos ou quem mais for.

Vicente Amorim também fala, no material para a imprensa, do papel da música em Good: “No filme, Halder tem visões, alucinações, vê coisas, como se queira chamar. Na verdade, seu subconsciente tenta despertar-lhe para que ele veja o que está acontecendo ao seu redor. Mas ele não desperta. A música que ele escuta são canções de Mahler interpretadas por personagens do filme. São um modo bastante original de se questionar algumas perguntas para Halder e, de quebra, para o público. No final, com a última canção, Halder e o espectador deveriam ter uma revelação. Isso é o que eu espero. Então eles entenderão porque deveriam ter escutado antes, mas não o fizeram. Acredito que isto é uma das coisas que mais originalidade traz para o filme”. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Good). Levando em conta esse comentário do diretor, percebi que a música tem uma função muito mais “teatral” do que eu tinha notado antes. Acabei achando outros sentidos para as músicas de Mahler que, pelo visto, tinham uma função muito mais simples: a de marcar pontos da história que deveriam servir como marco para o protagonista e para nós, espectadores. Marcos de situações importantes que deveriam ter exigido mais atenção e mais reflexão. O “é real” do final é como se, pela primeira vez, Halder e os espectadores percebessem o fundo do poço em que a Alemanha havia chegado. Mas isso é algo que todos nós já sabíamos muito antes.

Assim como Die Welle, The Reader e outros filmes, Good tenta se inserir entre as produções que procuram refletir sobre como aquela realidade do nazismo e de suas idéias podem se repetir hoje em dia. Amorim ressalta essa intenção: “Good se passa na Alemanha dos anos 30, mas eu não acredito… Bem, espero que o espectador, ao ver este filme, não volte atrás no tempo. Espero que ele sinta que aquilo está ocorrendo atualmente. E isto não se consegue sendo moderno de forma abusiva, contemporânea, e sim destacando a modernidade da época através do desenho artístico e da fotografia, mas sobretudo pela relevância atual de sua história. Ela podia estar ocorrendo hoje. Em nenhum momento quisemos escondê-la em uma infinidade de detalhes de época porque isso parecia que iria enterrar e esconder a sua importância aos olhos do público moderno. Além disso, não temos desculpa para fazer algo assim, já que a Alemanha dos anos 30 era incrivelmente moderna, muito próxima do que vivemos atualmente. Me refiro a tudo, não apenas a história, mas visual, artística  e emocionalmente”.

CONCLUSÃO: Good é um filme que pode (ou não) ser entendido de maneiras diferentes. Ele caminha, como outros filmes recentes, no terreno do debate moral sobre uma época e, principalmente, sobre as pessoas que contribuiram para que ela acontecesse. E mais, ele tenta nos alertar de como aqueles fatos poderiam, perfeitamente, se repetir hoje em dia. Esta produção funciona em muitos aspectos mas, infelizmente, não deixa muito acessível para o espectador comum muitas de suas mensagens. Com boas atuações e uma direção correta do austríaco-brasileiro Vicente Amorim, Good pode ser visto sem medo – mas é preciso levar em conta que ele não é um filme arrebatador. Sem grandes discursos inflamados, ele se mostra mais uma narrativa do acúmulo trágico que escolhas erradas podem fazer na vida de uma pessoa e, principalmente, em uma sociedade. Os homens bons não tem voz para direcionar nada e nem ninguém para o caminho do bem quando eles próprios perdem a noção do que isso significa. Apenas por essa reflexão o filme, que pode parecer um pouco entediante para alguns, vale a pena.

13B

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Imagine um filme de terror que é “interrompido”, duas vezes, por uma espécie de clipe musical. Da primeira vez que isso acontece, o tal clipe é romântico. Da segunda, alegre. Para você parece que “clipes musicais românticos e alegres” não casam com um filme de terror? Mas isso porque você, como eu, até agora não tinha assistido a um filme do gênero feito em Bollywood, a meca do cinema indiano. A senha para assistir a esse filme é uma só: dar risada. Sim, leve 13B na esportiva. Como o nome mesmo do filme sugere, pense nele como uma produção de filme B. Só que no lugar dos litros de sangue e da produção econômica que marcam a maioria dos filmes B, pense em uma trilha sonora dramática e fundamental e em um roteiro que mistura em iguais proporções um tipo de humor familiar e um suspense quase televisivo. Desta mistura – incluídos os tradicionais “videoclipes musicais” das produções bollywoodianas – surge 13B, um filme de terror engraçado de tão diferente do que estamos acostumados. E que, de quebra, nos mostra uma Índia diferente da novela das oito.

A HISTÓRIA: Manohar, mais conhecido como Mannu (o astro indiano R. Madhavan) acaba de passar a primeira noite no apartamento novo que comprou para a família. Ele e o irmão pediram um financiamento para pagar a nova casa em 20 anos, e estão animados. Mas pouco a pouco, alguns sinais de mau agouro, como o leite coalhar e o quarto de orações não ficar pronto, preocupam a mãe deles (interpretada pela veterana, aparentemente superconhecida Poonam Dhillon). O que poderia ser apenas uma casualidade torna-se um fato quando Mannu percebe que o programa que as mulheres de sua casa adoram assistir, transmitido sempre as 13h, conta a história de sua própria família, adiantando alguns eventos trágicos. Fica evidente assim que aquele lugar tem algum mistério que Mannu precisa descobrir para proteger a sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 13B): Eu queria assistir a um bom filme de terror. Para dar uma “quebra” na sequência de filmes sérios que eu vinha assistindo. Daí tive a oportunidade de assistir a esse filme indiano e pensei: por que não? Há algum tempo eu queria assistir um legítimo filme feito em Bollywood, e se fosse um terror, melhor ainda. Tinha curiosidade de saber o que pode apavorar um indiano – além da morte da vaca sagrada. Mas fiquei a ver navios – ou melhor, sáris -, meus amigos, porque de terror não vi nada. 😉

Todas as lendas que eu tinha escutado sobre o cinema de Bollywood e alguns dos costumes e hábitos dos indianos que li em diferentes reportagens se confirmaram com 13B. Para começar, vamos falar do cinema bollywoodiano. Aquela história de que os filmes são “interrompidos” por clipes musicais é bem verdadeira. E fica engraçado em um filme de terror. Acredito que os espectadores acostumados com essas “pílulas musicais” devem esperar ansiosos por esse “grande momento” do filme. Eu, que não estou acostumada, apenas levei um susto. WTF???? 😉 Essa foi a minha expressão quando começou o primeiro vídeo musical de 13B, algo totalmente deslocado da história. Ok, com um pouco de imaginação, você até “encaixa” o clipe romântico entre Mannu e sua bela mulher, Priya (a estrela ascendente bollywoodiana Neetu Chandra), na história.

O casal está ali, falando do “livro de culinária” – leia-se Kama Sutra -, começando a se “aproximar demais” (para a cultura indiana) quando… corta! Inserimos aqui o clipe musical lírico e romântico. Como a cultura indiana não é (mais) adepta de amassos, beijos e etcéteras explícitos, no lugar de um orgasmo temos o tal clipe romântico. Aaaaahhhhh tá. E o que isso tem a ver com o clima de “terror” do filme? Nada, claro. Mas não interessa, porque em Bollywood o que dá audiência são esses clipes maravilhosamente dirigidos e cativantes. E antes do “grand finale” e do superproduzido clipe dos créditos finais, ainda temos um outro “momento musical” em 13B. Mas este segundo, pelo menos, está meio que “imerso” na história. Ele mostra a família feliz, aproveitando um dia de sol na praia e seu cotidiano caseiro.

O tema da televisão está muito presente nesta história. Bem, digamos que ele é fundamental. Este aparato realmente tem uma grande importância no cotidiano das famílias indianas. Mas vamos falar dos usos e costumes depois. O que interessa agora é comentar que 13B se parece demais com um produto televisivo. Na verdade, ele me lembrou uma novela, pela dinâmica da história e por sua, digamos assim, “complexidade”. Tudo é explicado nos míiiiiiiiinimos detalhes neste filme. Sem contar o trabalho de câmera comandado pelo diretor Vikram K. Kumar – que é também o roteirista – e pelo diretor de fotografia P. C. Sreeram. Os planos escolhidos pela dupla são bem tradicionais – exceto, talvez, pelo início do filme, quando os personagens da família nos são apresentados. Aquele começo, aliás, é bastante promissor… pena que, depois, o filme descambe para um jeito muito tradicional (pelo menos para a Índia) de fazer cinema.

Mas voltando à direção do filme: Kumar e Sreeram estão em busca sempre dos rostos dos protagonistas. O que interessa, em 13B, é exprimir ao máximo as emoções – pena que isso só funcione graças a trilha sonora, porque os atores são muito fraquinhos. Então dá-lhe primeiros planos! Outra característica é a busca por uma “agilidade” narrativa que se resume, basicamente, a um movimento contínuo da câmera um tanto superficial. Muitas vezes, quando o “clima” pediria apenas uma câmera estática, mostrando o diálogo entre dois atores, o equipamento acaba tendo uma tremida aqui, outra acolá, ou mesmo um zoom de profundida que busca criar suspense. Pena que, para pessoas menos “impressionáveis”, por assim dizer, este “jogo de câmera” parece apenas artificial. Ainda assim, não deixa de ser engraçado.

Não consegui saber o quanto esse filme custou (se alguém souber, comente), mas tudo indica que 13B deve ter tido uma produção de custo, pelo menos, mediano. Eles capricham nos “efeitos especiais” – especialmente no clima de “raios e trovões” que aparece em algumas das cenas de “maior tensão”. Também investiram um pouco em computação gráfica e no trabalho da fotografia com lentes diferenciadas para diferenciar a época de Mannu e sua família daquela vivida pelos “personagens mortos” da TV. Tecnicamente o filme é bem acabado.

Ainda na parte técnica, 13B trás um roteiro que peca pelo excesso de explicações – e, em alguns momentos, pelo exagero. Kumar não deixa ninguém na dúvida sobre o que está acontecendo. Além de usar o recurso do flashback em muitos pontos, Kumar mostra Mannu e seu amigo policial, Shiva (Murali Sharma), explicando cada passo dessa história para o espectador nos míiiinimos detalhes. Esqueça o clima de suspense e a tensão. Neste filme, isso não existe – ou quase, porque apenas a trilha sonora cria, outra vez de forma artificial, alguma tensão. Talvez o público indiano esteja habituado a um roteiro como esse. Mas os “olhos atentos” de quem está acostumado a filmes de suspense e terror mais “hardcore”, por assim dizer, matam as “charadas” muito antes do protagonista, Mannu. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aquela sequência “decisiva” em que aparecem dois martelos, por exemplo. Eu tinha percebido isso logo de cara, mas cheguei até a pensar que fosse um erro de continuista. hehehehehehehe. Mas não, eram dois “criminosos” diferentes mesmo. Uma piada!

Antes de falarmos dos “usos e maneiras” dos indianos que o roteiro nos apresenta, devo comentar a trilha sonora de Shankar Mahadevan, Loy Mendonsa e Ehsaan Noorani. Mais do que nunca fica evidente que a música para o cinema indiano é tão fundamental quanto as cenas românticas. Impressionante!! Muitas vezes, ao assistir a 13B, eu pensei: “O que seria deste filme sem a trilha sonora?”. Nada, certamente. O trabalho do trio listado anteriormente é a coluna dorsal deste filme de suspense/terror. Como disse anteriormente sobre o “jogo de câmera” impaciente e em permenente estado de agitação, o recurso da música é o que provoca tensão no espectador – já que o roteiro e o trabalho dos atores não consegue isso.

Mas vamos lá, 13B deve ser assistido com humor. Para mim, ele é mais uma comédia do que outra coisa. E, para ser franca, ele me interessou especialmente por confirmar algumas idéias sobre a Índia real que não aparecem na novela das oito e sobre o cinema de Bollywood. Por exemplo: como as mulheres são subjugadas naquele país. Vamos combinar que todas as mulheres em 13B são umas tontas. Elas assistem o mesmo programa que Mannu e não percebem o que o “gênio” (leia-se isso com extrema ironia) da família percebe: que aquele programa das 13h está narrando – e algumas vezes antecipando – a vida deles. Tudo que a televisão mostra, acontece ou aconteceu com os familiares de Mannu. Mas elas não percebem nada disso, é claro. Porque são mulheres, oras! Na Índia elas não tem vez. São quase seres de segunda categoria.

Algo que li na revista Superinteressante deste mês, sobre o cotidiano indiano, também se confirmou neste filme: de que as mulheres “reclusas” em casa são uma questão de “moral e status para a família”. Todas as mulheres do filme – exceto a “morta” Chitra e a jovem estudante da casa de Mannu – passam seus dias em casa, praticamente sem sair. Como passar o tempo? Com trabalhos caseiros e com a televisão. A mãe de Mannu, Priya e a cunhada do protagonista passam várias horas do dia assistindo novelas e séries de TV. Até por isso a trama de 13B deve interessar muito aos indianos, que vão se reconhecer na telona.

Outro costume do qual falei um pouco antes é o de não mostrar ou mesmo deixar claro o contato sexual ou erótico entre homens e mulheres. Mesmo os casados. No filme inteiro, por exemplo, não vemos sequer um beijo na boca. Muito menos, é claro, uma cena disfarçada de sexo. O máximo que ocorre é uma “dança” de acasalamento, por assim dizer. A sugestão de que o casal de protagonistas faz sexo. hehehehehehe. Algo muito interessante para o país que inventou o sexo tântrico e onde foi publicado o Kama Sutra – fatos do passado que foram renegados após a invasão muçulmana e inglesa na Índia. A partir do século 16, como nos conta a reportagem da Superinteressante, o que era considerado uma libertinagem sexual no país foi atacada pelos estrangeiros, ao ponto de que hoje é proibido (pelo costume) demonstrações públicas de afeto. Isso se percebe também em 13B, onde tudo é, no máximo, sugerido.

A importância da TV na vida dos indianos – especialmente das mulheres – é uma das molas propulsoras do filme que, no fundo, procura “recriar” a velha história de fantasmas. Impossível não lembrar de Poltergeist, de 1982 e, principalmente, do (já) clássico Ringu, de 1998 – ou na versão hollywoodiana The Ring, de 2002. Todos fazem referência a fantasmas e, direta ou indiretamente, da “importância” da TV como canal de manifestação destes seres sobrenaturais. Então 13B não nos conta nada de novo. Pelo contrário. Ele parece um novelão de pouco mais de duas horas.

Mas antes de terminar, tenho que comentar os exageros do roteiro do Sr. Kumar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, por que razão tudo de ruim acontecia com o nosso “herói” Mannu? Ele era um tipo de iluminado? Porque os fantasminhas camaradas da TV ajudaram a quase todos da família, mas a Mannu eles ferravam. Faziam ele subir 13 andares quase sempre – exceto quando outra pessoa entrava no elevador maldito – e roubavam suas noites de sono ao adiantar fatos que iriam acontecer com sua família. Além das mulheres da casa serem umas burras e tontas, o irmão de Mannu parecia uma figura ausente. Poucas vezes ele aparece em casa. Agora, alguém pode me explicar porque os fantasmas da TV foram tão generosos com quase todas da família e provocaram aquele acidente que provocou um aborto em Priya? Tipo era uma forma de convencer Mannu a levá-los a sério? Estranho… muito estranho. E mais estranho ainda Mannu pedir ajuda justamente para o Dr. Shinde que, afinal, não era tão “íntimo” da família assim. Mas ok, se a maioria dos filmes de terror não tem muita lógica, parece que muito menos as produções do gênero vindas da Índia. 😉

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Talvez os fãs de filmes de terror vão achar que eu fui muito generosa com a nota acima. Mas acho que já me expliquei anteriormente. O filme interessa pelo que ele mostra do “jeito” de fazer cinema comercial na Índia e, na mesma medida, sobre o que ele nos revela do cotidiano daquele povo atualmente.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além dos atores já citados, vale citar o trabalho de Sachin Khedekar como o Dr. Shinde, o médico amigo da família que acaba se revelando o vilão desta história; Deepak Dobriyal como Ashok, o “louquinho” irritante que acaba sendo o único sobrevivente da família de Chitra e que termina sendo condenado pelo massacre de seus familiares; Amar Upadhayay como Mohan, o correspondente a Mannu na família de Chitra; Vinay Jain como o irmão de Mohan; Suhasini Mulay como a mãe de Chitra; Meera Vasudevan como a “prafrentrex” Chitra, uma garota disputada que trabalhava como jornalista em 1977 – e que vira alvo da loucura de um telespectador. Para ser franca, queria saber o nome dos outros atores, como do irmão do protagonista, mas não consegui ter certeza sobre eles, então deixo de fora desta crítica. Agora, francamente, todos eles são bem fraquinhos, não? R. Madhavan e Neetu Chandra podem até ser estrelas em Bollywood, mas eles são muito amadores, minha gente. Não dariam certo em outro mercado que não Bollywood ou em filmes B.

O cartaz do filme é bacaninha, fazendo referência a muitos filmes do gênero. E o site, em especial, traz muitas informações e recursos bacanas, inclusive a possibilidade de fazer o download de algumas músicas de 13B. O fato é que a produção rendeu bastante, inclusive videos e jogos. Os indianos realmente não perdem uma oportunidade de faturar. 😉 Outra curiosidade do site oficial é a seção “True Stories”, que conta “histórias reais” de fantasmas. Também há uma seção sobre a influência do número 13.

E não terminem de ver o filme sem conferir o clipe musical dos créditos finais, algo muito tradicional no cinema vindo de Bollywood – e que, para nossa sorte, foi a única parte “tradicional” utilizada em Slumdog Millionaire. R. Madhavan aparece encarnando o maldoso-malíssimo com todo o charme em uma dança “sexy, man!”. Engraçadíssimo.

Falando em “sexy, man!”, um detalhe me chamou a atenção durante o filme inteiro: por que, afinal de contas, eles mesclam tanto palavras em inglês enquanto falam? Desculpem a minha ignorância, ainda não viajei para a Índia… por isso, por favor, se alguém foi para lá e conviveu com indianos algum tempo, eles falam entre si desta maneira, mesclando o hindi com o inglês a cada minuto? Fiquei impressionada. E se isso não é comum no dia-a-dia dos indianos, fico pensando se o diretor e roteirista escolheu esta forma de falar para ser mais fácil de inserir o filme no mercado internacional – especialmente nos Estados Unidos. Ou isso que me parecia inglês era o Tamil, outro idioma citado como sendo o que é falado no filme? Se alguém puder esclarecer minhas dúvidas, agradeço.

13B conseguiu uma nota boazinha no IMDb: 6,8. Muuuuuuuito melhor que outros filmes mais razoáveis de Hollywood. Curioso que esta produção rendeu apenas quatro críticas no site Rotten Tomatoes – e todas elas positivas. Talvez, mesmo assistindo com bom humor este filme, para mim faltou um pouco mais de “boa onda”. 😉

CONCLUSÃO: Um clássica história de fantasmas repaginada para a Índia moderna. Produção originalmente bollywoodiana, 13B deve ser visto como um filme de terror B, ou seja, feito mais para rir do que para aterrorizar. Pelo menos, levando em conta a nossa ótica “ocidental”. Possivelmente para um indiano o filme seja assustador. Para os interessados em saber um pouco mais sobre a vida moderna indiana – que não aparece na novela das oito ou na versão inglesa do que são os indianos de Slumdog Millionaire. Também indicado para quem gosta de dar risada com filmes de terror e com produções que parecem de baixo orçamento – neste caso, só parece, porque o filme investe em recursos. Mas, no fim das contas, 13B nos lembra aqueles filmes para serem vistos na TV – isso para não chamá-lo de um “novelão de suspense”. Vale pela curiosidade e pelo humor. Mas fique longe se o que estás buscando é algo para assustar, dar medo, ou mesmo cenas violentas e perturbadoras. 13B não tem espaço para litros de sangue ou beijos na boca.

Julia

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Caso alguém ainda tivesse alguma dúvida sobre o mérito de Tilda Swinton como atriz, se alguém ainda duvidava que ela fosse merecedora de algum Oscar (a atriz levou para casa a estatueta no ano passado por sua atuação em Michael Clayton), todas estas dúvidas caem por terra com Julia. A atriz londrina de 48 anos dá uma lição de interpretação neste filme forte, duro, provavelmente uma das produções mais contundentes sobre o abismo que o alcoolismo pode representar para a vida de uma pessoa – e de quem está a sua volta. Não se trata de um filme fácil. Provavelmente ele vá desagradar a muitos por causa de algumas cenas fortes envolvendo o garoto Tom (maravilhosamente interpretado por Aidan Gould), sequestrado pela alcóolatra Julia. Mas não se enganem. Este filme é muito mais do que suas cenas violentas.

A HISTÓRIA: Julia (Tilda Swinton) é uma mulher sem limites. Liberada, independente, ela se encontra em um momento de sua vida em que não consegue se controlar com a bebida. Alcóolatra, ela se perde em noites de excessos, regadas por muita bebida e finalizadas com homens diferentes a cada turno. Depois de uma noitada destas, ela passa por um grande problema e, mesmo com a ajuda do amigo Mitch (o alemão Saul Rubinek), ela acaba perdendo o emprego. Em uma das seções do AA (Alcóolicos Anônimos) que ela passa a ser obrigada a frequentar, ela conhece a uma vizinha, Elena (a mexicana Kate del Castillo), que lhe convida para um plano audacioso. Nele, as duas vão sequestrar o filho de Elena, Tom (Aidan Gould), um garoto que passou a ser criado pelo avô depois que o pai morreu. Mas o plano acaba mudando de rumo graças ao descontrole de Julia, que tem outros planos para o desenrolar desta história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Julia): Tilda Swinton arrasa neste filme. Não assisti a toda a sua filmografia, mas de tudo que vi até agora, posso afirmar: é a sua melhor interpretação até o momento. Ela está matadora! Não sei o porquê, mas me lembrou os melhores momentos de Cate Blanchett. Apenas por Tilda Swinton, vale a pena assistir ao filme. Mas de quebra, ele ainda nos apresenta uma ótima direção, um roteiro bem escrito, outras belas interpretações e, sem dúvida, uma direção de fotografia que fecha o belo quadro.

Acredito que poucos filmes foram tão contundentes ao mostrar o cotidiano degradante de quem está vencido pelo alcoolismo e que não admite que está doente e precisa de ajuda quanto Julia. Talvez apenas Days of Wine and Roses, um clássico dirigido pelo talentoso Blake Edwards; e, em menor medida, Leaving Las Vegas e o recente Rachel Getting Married, com Anne Hathaway, toquem tão fundo no drama pessoal e familiar provocado pelo abuso e descontrole provocado pelo álcool. Ainda assim, por envolver a questão do sequestro de uma criança e outras cenas impactantes, acredito que Julia dê um passo a frente na questão da denúncia de situações assim.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é fácil assistir a Julia apontando uma arma com violência para Tom. Repetidas vezes. Ainda que, no fundo, acreditemos que ela não vai puxar o gatilho, é complicado ter certeza de algo, porque está demonstrado que, muitas vezes, alcóolatras e dependentes químicos de outras substâncias simplesmente perdem o controle. E Julia, ainda que não beba em 100% do filme, volta e meia está fora de controle – mesmo depois que sequestra o garoto. Mas se você for capaz de aguentar estas cenas de pura pressão psicológica – um tipo de violência muito diferente daquela direta, vista em filmes como Cidade de Deus -, serás capaz de assistir até o final este filme que é uma denúncia e ao mesmo uma declaração de esperança (quando mostra que, nem sempre, uma sequencia de decisões erradas acaba terminando em tragédia).

Não lembro de ter assistido antes algum filme dirigido por Erick Zonca, este francês nascido em Orléans que estava sem filmar há nove anos. Gostei muito de seu trabalho. Ele mantêm a câmera ágil, a maior parte do tempo, parece que sempre na busca pelo melhor ângulo para registrar as emoções dos personagens desta história. E quando se torna fundamental para o roteiro mostrar o quanto eles estão perdidos, como em algumas cenas do deserto próximo da fronteira dos Estados Unidos com o México, essa mesma câmera se distancia. Previlegia, com a ajuda da batuta do diretor de fotografia Yorick Le Saux, a amplitude do cenário. A liberdade e, ao mesmo tempo, a solidão de uma paisagem com horizontes distantes. Le Saux e Zonca conseguem, seja nas cenas noturnas ou de dia, exprimir o máximo de claridade e de vivacidade das cenas. Em boa parte do filme, eles utilizam lentes que ressaltam as cores e a luminosidade das cenas, o que reforça a idéia de “ressaca” moral e física mesmo da personagem-título. Um trabalho realmente bem feito.

Mas nada disso funcionaria sem um bom texto. Esta história, escrita originalmente por Zonca e por Aude Py, foi adaptada para a forma de um roteiro por Michael Collins e Camille Natta. Cada linha de texto parece ter sido cuidadosamente planejada. Nada sobra e nada parece faltar. Uma qualidade deste trabalho é que ele não nos dá algumas certezas – o que pode incomodar algumas pessoas. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). No fim das contas, não sabemos ao certo se Julia realmente sequestrou o garoto para, depois de tirar dinheiro de seu avô rico, entregá-lo para a desesperada e um tanto desequilibrada mãe, ou se ela nunca pensou em fazer isso realmente. Mesmo que ela diga, no final, que vai levar Tom para sua mãe, temos dúvida disso. Afinal, ela mentiu tantas vezes antes – afirmando, por exemplo, que estava esperando por uma ligação de Elena. Ligação essa que nunca acontece.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Outro elemento que planta dúvidas sobre as intenções de Julia é a maneira com que ela entra no México. Não foi nada planejada aquela ida para o país vizinho. Também não sabemos o que realmente aconteceu com Elena depois que as duas discutem de forma agressiva quando Julia descobre que a mulher não tem o dinheiro que dizia ter. Afinal, Julia pode ter dado um fim em Elena? Ou a mulher de origem mexicana realmente se mandou para o México e confiou na “comparsa”? Difícil dizer. Para nossa sorte, o roteiro deixa esses fios soltos e não nos dá respostas mesmo no final. Sei que muitos odeiam filmes assim, que nos deixam sem respostas. Mas, pessoalmente, gosto deste recurso quando ele dá certo.

Afinal, para este filme, era realmente relevante saber se Julia acreditava verdadeiramente no discurso de que um garoto deve ficar com sua mãe? A resposta é sim e não, ao mesmo tempo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não acho importante saber se por trás da cobiça de Julia existia alguma boa intenção porque o filme, na verdade, não trata de fazer um julgamento entre mocinhos e bandidos. Para mim, ele quer, essencialmente, mostrar como existem variadas formas de descontrole e de dependência afetiva entre as pessoas. De como até mesmo um sequestro pode criar uma relação de afeto e de responsabilidade entre as pessoas – o que pode ser visto como uma manifestação da Síndrome de Estocolmo, mas que talvez não seja apenas isso. Acredito também que uma das mensagens do filme é que quando você está suscetível ao mal, ele realmente aparece e se alimenta do “acaso” que foi plantado. No caso de Julia, ela acaba sendo vítima do próprio veneno quando sofre um golpe de “profissionais” do crime mexicanos – que, no fundo, parecem tão amadores quanto ela.

Por outro lado, faz falta sim saber se por trás dos atos de Julia existe alguma “boa” intenção. (SPOILER – sei que estou cansando com isso, mas não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, seus erros não seriam justificados por isto, mas poderíamos entender melhor sobre sua personalidade se, no fim das contas, ela queria devolver Tom para os braços de Elena. Se realmente Julia queria fazer isso – além de ganhar uma fortuna através do avô do garoto -, o discurso final de Mitch, quando ele se encontra com Julia do lado de fora do aeroporto mexicano, estaria errado. Ela não teria, diferente de todos os outros que tinham escutado a história louca de Elena, embarcado nesta viagem alucinante apenas porque era uma alcóolatra descontrolada. Ela teria feito isso também por convicção, em um gesto um tanto feminista de quem acreditava que a mulher normalmente é subjugada. Então quando ficamos sem essas respostas, nos sentimos divididos. A motivação da personagem ganha cores cinzas, sem definição, e isso estraga um pouco o filme – ao mesmo tempo que deixa sua leitura em aberto, o que sempre é positivo, já que fica ao gosto do espectador decidir sobre o que pensar desta produção.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tilda Swinton faz um trabalho realmente soberbo em Julia. Mas ela não é a única. Gostei muito de cada aparição do ator Saul Rubinek em cena. Ele é, sem dúvida, o autor das melhores frases do filme – pelo menos no quesito de reflexão crítica sobre os efeitos do alcoolismo. Também achei muito correto o trabalho do jovem ator Aidan Gould. Ele consegue fazer um dueto afinado com Tilda Swinton, garantindo o tom exato de vulnerabilidade e de enfrentamento de seu personagem. Algumas cenas dele com a protagonista são, realmente, de tirar o chapeú. Kate del Castillo faz a outra grande interpretação feminina desta produção. Nunca fiz um curso de interpretação, mas imagino que seja bastante difícil atuar, todo o momento, atenta a uns tiques nervosos necessários para a personagem que, ainda por cima, deve ser vista como uma pessoa frágil, simpática e determinada.

Além dos atores comentados anteriormente, merecem menções especiais os trabalhos dos coadjuvantes Jude Ciccolella como Nick, um antigo caso de Julia que não embarca na proposta enlouquecida da protagonista; Bruno Bichir como Diego, o “conquistador mexicano” que, tudo indica, estava desde o começo interessado em dar um golpe em Julia; Horacio Garcia Rojas como Santos, o verdadeiro “bandidão” mexicano que acaba pregando uma peça na protagonista; e Eugene Byrd como Leon, o cara “descolado” que consegue arranjar uma arma para Julia executar o seu plano.

Da parte técnica do filme, vale a pena ainda citar o trabalho do editor Philippe Kotlarski e a trilha sonora assinada por Pollard Berrier e Darius Keeler.

O filme, que tem 144 minutos de duração, foi co-produzido pela França, pelos Estados Unidos, pelo México e pela Bélgica. Mas ele tem, basicamente, uma espinha dorsal francesa.

Em sua trajetória até agora, Julia foi indicado a quatro prêmios – e ganhou um deles. O filme estreou em fevereiro de 2008 no Festival de Berlim, onde concorria ao prêmio principal. Depois disso, passou por outros sete festivais, incluindo o Festival de Cinema do Rio. De todos os prêmios aos que foi indicado, recebeu apenas o de melhor atriz, para Tilda Swinton, no desconhecido Evening Standard British Film Awards.

Na opinião do público e da crítica, o filme tem tido um desempenho regular. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7 para a produção, enquanto que os críticos que tem seus textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 25 textos positivos e 13 negativos para o filme – o que lhe rendeu uma aprovação de 66%. Achei as avaliações de ambos (público e crítica) baixas demais.

Achei curioso que Julia seja uma homenagem ao filme Gloria, de 1980, dirigido por John Cassevetes. Esta é a informação que a crítica Lisa Schwartzbaum nos dá neste artigo da Entertainment Weekly. Mas mesmo elogiando o trabalho de Tilda Swinton como protagonista, a crítica dá apenas a nota B- para o filme. E acho importante ressaltar: Julia é uma homenagem, e não uma refilmagem de Gloria. Aí reside uma GRANDE diferença. Este outro texto, agora da jornalista Betsy Sharkey, do Los Angeles Times, destaca a escolha do diretor de Julia em tirar da protagonista qualquer “instinto materno”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E isso é bem verdade, porque na cena mais “intimista” ou “afetuosa” entre Tom e Julia no filme, quando eles se abraçam na cama em que ela passou a noite com Diego, existe ali uma incômoda sugestão de curiosidade sexual do garoto pela mulher que, até há pouco, ele sentia pavor – e, ao que tudo indica, também uma certa atração/admiração. Sem dúvida Julia é um destes filmes para fazer pensar – e que choca um bocado, em alguns pontos.

Julia custou pouco para os padrões mundiais: aproximadamente US$ 6 milhões. Talvez por isso ele tenha tido mais uma carreira de festivais do que comercial – tudo indica que o filme não conseguiu uma grande distribuidora para o mercado internacional. Quer dizer, nos Estados Unidos o filme está sendo lançado, este ano, pela Magnolia Pictures – que, normalmente, é sinônimo de qualidade e de bons filmes.

Lendo as notas de produção do filme é que eu descobri que a personagem de Julia teria 40 anos quando se passa a história. Nesse mesmo material, há uma entrevista com a atriz Tilda Swinton, que afirma que uma das cenas que ela “ama no filme” é aquela em que sua personagem, Julia, vai pedir ajuda para seu plano para Nick, seu ex-amante. Segundo a atriz, aquele é um dos únicos momentos da história em que Julia fala a verdade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nesta mesma entrevista com Tilda Swinton, temos mais uma pista sobre as verdadeiras intenções da personagem de Julia. Segundo a atriz, no final, ela conta, mais uma vez, uma mentira. Isso sinaliza para a hipótese de que ela jamais levará Tom para Elena.

Também achei interessante o trecho da entrevista em que Tilda Swinton fala do diretor, Erick Zonca: “O seu cinema se sente como algo emocional, mesmo espiritual. Os personagens de Zonca são uns sobreviventes. Tudo se refere a persistência do espírito humano. Ele é incrivelmente otimista. E o que o torna tão refrescante é que ele é verdadeiramente amoral”. Essa é uma bela leitura do trabalho do diretor.

Agora, o bacana mesmo das notas de produção – disponíveis em inglês no site oficial do filme – é a entrevista com Erick Zonca. Ele revela, em suas respostas, por exemplo, que a idéia inicial de Julia surgiu quando ele viu uma foto do grande Helmut Newton. Nesta foto, aparecia uma extravagente cabeleira ruiva dirigindo por Los Angeles em uma BMW. “Eu imediatamente quis confrontar esta imagem glamurosa com algo mais violento – como a degeneração causada pelo álcool, pelo confinamento, por mentiras, pela perda da própria pessoa e pela contaminação de seu relacionamento com outras pessoas – e por onde começa a desumanização de uma pessoa”. Ou seja: a origem de Julia não teve nada a ver com o filme Gloria. Além disso, achei impressionante a idéia conceitual do diretor – que conseguiu concretizar o que queria no filme.

Na entrevista de Zonca também é possível entender melhor o que ele quis com a personagem de Julia: “Ela se encontra correndo apavorada e neste ponto os eventos que acontecem lhe forçam a redescobrir a sua humanidade. Isso é o que me interessa – não uma personagem que tem consciência do que está fazendo, mas uma personagem que muda seu caráter conforme suas ações”. Acho que, com isso, temos algumas respostas para as nossas dúvidas. Zonca acrescenta ainda que, além da foto de Helmut Newton, ele foi inspirado por Cassavetes e por Nan Goldin.

Achei bacana que, na entrevista, perguntam para o diretor se existe alguma “moral da história”. Ele diz que não. E acrescenta: “Não existe uma redenção no final do filme. Ela (Julia) não está salva. Não temos idéia do que o futuro vai reservar para ela. Tudo o que sabemos é que ela finalmente se lembrou de que outras pessoas existem”. Palmas! Agora, com as coisas mais claras, acho que ele merece com mérito sua nota (que antes eu havia mudado, mas que achei melhor deixar 8,5 mesmo) pela ousadia ao deixar a moral de fora desta história.

CONCLUSÃO: Um filme forte, bem dirigido e bem escrito, que valoriza a interpretação da protagonista e de seus demais atores. Seco no retrato de uma alcóolatra ambiciosa e interesseira, Julia pode chocar alguns por suas cenas de violência contra uma criança. Ainda que não seja brutal como Cidade de Deus, ele é angustiante e longo – quase duas horas e meia de duração. Feito sob medida para Tilda Swinton brilhar, é destes filmes em que cada frase do roteiro se justifica. Ainda assim, ele deixa muitas questões em aberto, o que pode incomodar a algumas pessoas. Com várias surpresas e algumas reviravoltas no caminho, ele acaba se revelando um grande filme sobre as consequências de decisões erradas e da falta de controle que uma doença – ou mais de uma – podem provocar em pessoas que teriam uma grande oportunidade de dar certo. E mesmo que seja um filme bastante cru e direto, ele não deixa de sinalizar com o otimismo da mensagem de que, com sorte, algumas vezes até os mais desesperados e equivocados podem ter uma segunda chance.

PALPITES PARA O OSCAR: Sei que Julia deve estar fora da disputa para o próximo Oscar – levando em conta a data que ele está estreando nos Estados Unidos. Ainda assim, quero registrar que, para mim, ele deveria render uma indicação na categoria de Melhor Atriz para Tilda Swinton. Ela merecia. Talvez até poderia render outra indicação para Kate del Castillo, como coadjuvante. Agora, cá entre nós, estou falando de mérito, apenas. Porque, na prática, o filme não vai render indicação alguma.

SUGESTÕES DE LEITORES: Há meses o querido leitor deste blog Enzo me pediu para assistir a alguns filmes franceses. Bem, Enzo, Julia é “meio-francês”, mas me fez lembrar de ti. Por causa do teu pedido. Digo que ele é “meio-francês” porque, mesmo tendo sido produzido pela França (além de outros países) e ter um diretor francês no comando, ele é falado em inglês e espanhol. Então, estou no caminho de realizar teus pedidos. 😉 Agora, sério mesmo, tenho alguns filmes franceses para assistir em breve. Logo verás.

Die Brücke – A Ponte

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Um clássico ambientado na Segunda Guerra Mundial um bocado surpreendente. Primeiro, é preciso prestar atenção na data em que foi lançado Die Brücke: 1959. Depois, é necessário notar que este filme é um produto 100% alemão. Em outras palavras: idealizado e filmado com uma equipe de pessoas que tinham nascido antes ou durante o regime nazista. Ele virou um clássico não apenas por completar, justamente em 2009, 50 anos. Die Brücke se tornou um dos filmes fundamentais sobre a Segunda Guerra Mundial pela forma legítima e sensível com que tratou este tema. Não é nada fácil para as pessoas envolvidas em um conflito contarem uma história contrária ao que presenciaram de forma com que o discurso não fique carregado demais. Pois o diretor Bernhard Wicki, na época com 40 anos, quase conseguiu o tom exato em sua posição contrária à guerra. Digo quase porque hoje, passados 50 anos daquela época em que a Alemanha estava dividida em dois, o libelo pacifista de Wicki continua impressionando por ter sido filmado no berço do nazismo, mas deixa evidente um certo dramalhão que revela o envelhecimento desta produção.

A HISTÓRIA: Uma bomba cai perto de uma ponte que dá acesso a uma pequena cidade do interior da Alemanha. Rapidamente o assunto toma conta de todas as rodas de conversa do local. Para um grupo de jovens estudantes, esse acontecimento é motivo de pressa para sair da escola. Todos querem ver o local em que o artefato militar caiu. Entre os amigos, Jurgen Borchert (Frank Glaubrecht) está especialmente animado, porque espera uma resposta positiva do comandante local para que ele possa se alistar no Exército como voluntário. Depois de ir atrás do comandente e de conseguir o seu alistamento, ele é seguido pelos outros seis amigos. Todos abandonam a escola, suas famílias e sonhos para se lançarem à guerra. Com pena dos garotos inexperientes, o coronel responsável pelo batalhão no qual eles foram alistados resolve poupá-los e, ao invés de enviá-los para a linha de frente do confronto contra os estadunidenses, resolvei colocá-los para defender a ponte que dá acesso a sua cidade natal. Mas uma série de erros faz com que essa missão não seja das mais seguras ou das mais simples.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Die Brücke): Tentei contar o menos possível da história no resumo acima para não estragar as surpresas do filme. A verdade é que esta produção segue uma linha clássica de narrativa dramática, ou seja, vai da apresentação dos personagens centrais até um ápice da ação e do drama. No caso, os primeiros 40 minutos de Die Brücke mostram um pouco do cotidiano e da vida dos sete amigos que vão para a guerra como se essa atitude fosse uma grande aventura. O único que parece convicto em “servir a sua pátria” é o jovem Jurgen Borchert, que procura seguir os passos do pai. Os demais, seguem o mesmo caminho por diferentes razões.

Alguns, para fugir de casa, como é o caso de Karl Horber (Karl Michael Balzer), um garoto com um senso de humor um bocado estranho que acaba ficando chocado quando vê que o pai, viúvo (ou divorciado, não fica claro esse ponto) está tendo um caso com a cabelereira com a qual Karl tem uma fixação. Outros, simplesmente porque não tem suas convicções muito claras, como é o caso de Walter Forst (Michael Hinz), Filho de um político do partido nazista, ele fica revoltado porque a mãe foi mandada para longe dele sem que Walter tivesse tempo de se despedir. De quebra, ele desconfia que o pai mantem um caso com a empregada. Neste cenário sem grandes expectativas, ele resolve seguir os passos dos amigos.

Tomam a mesma atitude outros quatro garotos: Klaus Hager (Volker Lechtenbrink), um estudante mediano, mas encantador, que é apaixonado por Franziska (Cordula Trantow); Hans Scholten (Folker Bohnet), o melhor aluno das aulas de inglês da escola e amigo inseparável de Albert Mutz (Fritz Wepper), um garoto que sonha em ser maquinista quando crescer; e Sigi Bernhard (Günther Hoffmann), o garoto mais franzino do grupo. Para desespero e amargura do professor de inglês Sr. Stern (Wolfgang Stumpf), todos eles acabam se alistando e seguindo para uma guerra que, declaradamente, estava no fim – e com mais baixas do que vitórias naquela época. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Apenas nos créditos finais sabemos que a trama se passa em 1945, e que o ataque à ponte em que estavam os garotos ocorre no dia 27 de abril, pouco menos de cinco meses antes do final da guerra

Depois destes 40 minutos de “introdução”, na qual sabemos um pouco sobre cada um dos jovens protagonistas de Die Brücke, a trama focaliza a guerra e seus bastidores. Após um dia de treinamento, o grupo de amigos é acordado do sono na caserna para, junto aos demais veteranos do exército nazista, saber que eles devem partir para a batalha. Diferente de outros filmes da década anterior, os soldados são vistos como pessoas cansadas, com a moral baixa e, parte deles, um bocado mercenários. Pelo roteiro de Bernhard Wicki, Karl-Wilhelm Vivier e Michael Mansfeld, inspirado no livro de Manfred Gregor, os homens fardados do fim da guerra ameaçavam e atiravam antes de ter qualquer prova contra o oponente. E não importava se o alvo fosse inimigo ou alemão. Pelo menos é o que o filme mostra – e acho que, provavelmente, ele tem um bocado de ligação com o que foi a realidade.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). No fim das contas, os garotos acabam defendendo um alvo que será destruído de qualquer forma. Essa é a grande crítica do filme: a inutilidade da guerra. Tantas pessoas morrem para defender alvos que, logo mais, serão vendidos, destruídos, transformados em ítens de intercâmbio ou em montanhas de dinheiro para alguns líderes/políticos. Os jovens, sendo idealistas ou não, acabam servindo apenas como combustível para a fogueira de interesses de outras pessoas. Este argumento e esta idéia ser filmada hoje em dia é perfeitamente comum e recorrente. Mas ter sido filmada na Alemanha perdedora e dividida de 1959, ainda ferida pela ideologia nazista e por todos os erros que aquele regime praticou, foi realmente algo muito corajoso. E para a ironia suprema desta crítica, o primeiro jovem a morrer foi aquele que quis impressionar os amigos mostrando que tinha a coragem de ficar em pé sob fogo aéreo – vontade de impressionar os amigos que motivou muitos jovens daquela época? E o último a morrer foi, justamente, o melhor aluno da aula de inglês da escola, aquele que soube ler um texto romântico antes de se entregar em uma luta inglória.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento que me chamou a atenção em Die Brücke foi a sua trilha sonora. Bastante simples, um bocado repetitiva mas, talvez graças a estes elementos, eficazmente enfática. Ela aparece nos momentos exatos para tornar o clima deste drama de guerra ainda mais carregado de tensão. Mérito do compositor Hans-Martin Majewski.

Filmado em preto-e-branco, este filme conta com uma fotografia que prima pelo realismo. Exceto nas cenas noturnas, nas quais o diretor de fotografia Gerd von Bonin declaradamente preferiu destacar as interpretações dos atores, jogando luz artificial sobre suas expressões e suas interações. Nas filmagens noturnas o contexto da ação é desprezado, diferente do que ocorre nas cenas diurnas, quando Bernhard Wicki e Gerd von Bonin voltam suas lentes com o mesmo interesse para os atores e seu entorno.

Antes eu falei, basicamente, da história e de suas qualidades. Mas acabei não esclarecendo o que eu quis dizer com o comentário de que o filme acabou envelhecendo um pouco neste 50 anos que nos separam de sua estréia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, que fica evidente a falta de recursos da equipe técnica para elaborar uma sequência de ataques dos norte-americanos contra os rapazes que defendem a ponte mais convincente. Acredito que aquela parte do filme pode desagradar a muitos fãs do gênero – especialmente se levarmos em consideração que antes de 1959 já haviam sido produzidos vários filmes de guerra com sequências de batalhas muito melhor acabadas, como é o caso dos clássicos Paths of Glory (1957) e All Quiet on the Western Front (1930).

Outro elemento que vai contra Die Brücke é o seu “dramalhão”, ou seja, algumas cenas de drama um tanto simplórias e até um tanto “exageradas” ou em um tom acima do que seria adequado. O que lhe deixa muito atrás de outros clássicos do gênero anteriores a ele e muito mais “maduros”, como é o caso de The Bridge on the River Kwai (1957) ou Stalag 17 (1953).

Apesar destas ressalvas que eu tenho com o filme, é preciso levar em conta que ele foi filmado na Alemanha Ocidental e lançado como representante de um país então dividido. E, como falei na introdução deste texto, a data de 1959 foi importante para a Alemanha, como se pode observar lendo estes dois textos (texto 1 e texto 2) da Deutsche Welle. Para resumir: aquele foi o ano em que as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial se reuniram para debater e buscar um acordo, por três meses, naquela que foi uma das maiores crises da Guerra Fria. Em pauta, o futuro da Alemanha e a situação de Berlim, disputada pela União Soviética e pelos demais países – especialmente os Estados Unidos. Depois de trocas de ameaças e de ultimatos, nada foi decidido – o que levou a construção do muro de Berlim tempos depois. Então neste cenário de conflito e de disputa pelo território alemão foi filmado Die Brücke, um filme declaradamente pacifista e contrário aos absurdos do poder e da guerra.

Gostei do que afirmou o pesquisador Jorge Roldan, curador de um retrospectiva sobre o cinema alemão promovida em 2002, neste texto publicado pelo Caderno 2 do Estado de S. Paulo: “Em geral se conhece bem o cinema alemão dos anos 20 e 30, época do expressionismo. Depois, volta-se a falar dele com o novo cinema que surge nas décadas de 60 e 70 quando nomes como Fassbinder, Wenders e Herzog tornam-se familiares”. No meio, segundo o Roldan, existe um período obscuro para a maioria das pessoas que conhecem o cinema alemão no Brasil. Período esse que corresponde ao cinema feito na Alemanha antes da Segunda Guerra, durante e depois dela, com o país dividido entre ocidental e oriental. Entre os vários filmes que fizeram parte da mostra há sete anos, estava Die Brücke. Os outros títulos citados na reportagem merecem uma conferida – prometo fazer isso em um futuro a médio prazo.

Um aspecto importante do filme, que não comentei antes, é a importância que a história dá para a amizade entre os protagonistas. Esse valor, junto com a importância da família, se mostram mais importantes que o patriotismo ou o sentimento de “dever”. Afinal, como comentei anteriormente, a maioria dos garotos decide ir para a guerra como apoio aos demais – assim como pelo “gosto pela aventura” -, muito mais do que por um sentimento de que seu país deve sair vencedor da guerra. A valorização destes elementos, amizade e família, acaba perdendo para a brutalidade e a ignorância do conflito – o que resume a crítica do filme.

Die Brücke foi o filme que marcou definitivamente a carreira do austríaco radicado na Alemanha Bernhard Wicki. Depois deste filme, o diretor, que também trabalhava como ator, foi convidado para trabalhar em Hollywood. Na meca do cinema mundial, dirigiu dois filmes: The Visit, de 1964, com Ingrid Bergman e Anthony Quinn; e Morituri, de 1965, com Marlon Brando e Yul Brynner. Antes, participou da superprodução The Longest Day, de 1962, dirigindo as cenas do filme que se passavam na Alemanha.

O filme que lançou Wicki para a fama mundial ganhou 13 prêmios e ainda foi indicado ao Oscar de 1960 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas Die Brücke perdeu o Oscar para a produção francesa Orfeu Negro, dirigida por Marcel Camus e estrelada pelo gaúcho (sim, o brasileiro nascido no Rio Grande do Sul) Breno Mello. Entre os prêmios que Die Brücke levou para casa aquele ano estão o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro; os prêmios de melhor diretor, melhor trilha sonora, melhor atriz coadjuvante e melhor atriz coadjuvante mirim do German Film Awards, assim como o “Golden Bowl” daquele ano na premiação.

Falando em atores coadjuvantes, vale citar a interpretação de outros atores que eu não citei anteriormente: Günter Pfitzmann como Heilmann, o oficial que fica responsável pelos garotos quando eles são designados para “proteger” a ponte; a premiada Edith Schultze-Westrum como a mãe de Bernhard, a senhora que luta para que o filho não vá para a guerra – seu desespero realmente foi o que mais comoveu entre os familiares; Ruth Hausmeister como Mrs. Mutz, mãe de Albert; Eva Vaitl como Mrs. Borchert, mãe de Jurgen; Hans Elwenspoek como Mr. Forst, pai de Walter; e Klaus Hellmold como Mr. Horber, pai de Karl.

Importante não confundir este filme com o movimento de mesmo nome que começou o expressionismo na Alemanha há mais de 100 anos. Die Brücke era o nome do grupo artístico fundado em Dresden em 1905 que combatia o modelo artístico “de salão wilhelminiano” que dominava na época. Nenhuma relação, sendo assim, com o filme de 1959. Os interessados no movimento expressionista, encontrei aqui um texto bem explicativo.

Die Brücke registra a nota 7,9 na avaliação dos usuários do site IMDb.

E atenção: cuidado para não confundirem este Die Brücke, lançado em 1959, com outro filme homônimo – mas que dizem que tem uma história muito diferente – datado de 1949.

CONCLUSÃO: Um clássico dos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial produzido na Alemanha há exatos 50 anos, equilibra no tom certo a vida pessoal de jovens combatentes e a brutalidade dos conflitos. Um bocado ousado para a época, quando a Alemanha estava sendo disputada pelas potências da Guerra Fria, este filme explora a idéia da “calma antes da tormenta”, representada pela amizade e pela valorização das famílias dos adolescentes que vão para a guerra, na mesma proporção que defende a idéia da insignifcância dos propósitos da guerra. Bem filmada, mas com algumas cenas de ação um tanto “toscas” mesmo para a época, Die Brücke é uma produção filmada em preto-e-branco que valoriza o cenário do interior alemão e os sentimentos de patriotismo e medo que prevaleciam em 1945, perto do fim da guerra e época em que o filme ocorre. Vale ser visto como documento histórico, mas com poucas exceções, não deve emocionar tanto quanto na época – ele envelheceu com o tempo.

SUGESTÕES DE LEITORES: Com Die Brücke, mais um filme indicado pelo querido leitor deste blog, Leandro Soares, encerro minha sequência de filmes alemães assistidos a pedido de vocês. Relembrando que o cinema produzido na Alemanha foi o vencedor de uma enquete feita aqui no blog no início deste ano, antes da premiação do Oscar. Como estamos na metade de 2009, acho que é a hora de terminar com estas análises. Agora, volto a assistir produções de diferentes países como uma roleta russa. 😉 Sem muita lógica ou ordem… conforme vão aparecendo as oportunidades e conforme as circunstâncias. Ainda assim, volto a repetir: tenho ainda vários filmes sugeridos por vocês, meus bons leitores, para assistir. E vou colocando a tarefa em dia, pouco a pouco. Essa é uma promessa! Leandro, mais uma vez obrigada por tuas sugestões e dicas. Os outros filmes que comentaste – e que ainda não assisti – vou comentando conforme possível, ok? Inté…

W. – Bush

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A pessoa mais controvertida deste século 21 é a razão deste filme. Ele foi uma das figuras mais odiadas, achincalhadas, objeto de ataques verbais, escritos, filmados… assim como de manifestações públicas de repúdio e, até, de sapatadas. Do outro lado da balança – mas pesando ligeramente menos -, este mesmo homem foi motivo de orações, de defesas ferozes, foi amado e votado de forma massiva, o que lhe garantiu dois mandatos como presidente dos Estados Unidos. George W. Bush, essa figura que entrou para a história por tirar o posto do presidente dos Estados Unidos mais polêmico de todos os tempos, é o personagem central da “cinebiografia” W., dirigida por Oliver Stone. Eu estava sedenta para assistir a este filme, e finalmente o consegui. Josh Brolin é o nome da produção. E o grande responsável por seu êxito – suprindo parte das falhas de um roteiro que deixa personagens importantes isolados demais em um “canto da sala”, assim como ignora partes da história de seu protagonista.

A HISTÓRIA: W. narra a vida e a trajetória de George Walker Bush (Josh Brolin) desde o ano de 1966, quando se tornou popular em uma confraternização estudantil por lembrar o nome de muitos de seus participantes em uma sabatina etílica com os novatos, até o ano de 2003. A data em que o filme termina não fica totalmente clara, mas sabemos que a narrativa finaliza pouco depois da morte do embaixador Sérgio Vieira de Mello no Iraque e do governo dos Estados Unidos ter admitido que havia errado em algumas de suas acusações contra Saddam Hussein – fatos que ocorreram em 2003. Assumindo como verdades boa parte dos discursos oficiais da Casa Branca, o filme busca se aprofundar em partes menos conhecidas da vida do ex-presidente. Entre outros aspectos, o roteiro explora a idéia de que George W. Bush tinha uma relação bastante conflituosa com o pai, de quem sempre esperaria um reconhecimento nunca alcançado. A história ainda mostraria o carisma de Bush e suas ligações com diferentes colaboradores que lhe garantiam uma certa “blindagem” no poder.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a W.): O filme de Oliver Stone acabou sendo uma grande surpresa para mim. Especialmente porque eu esperava que ele fosse muito mais duro e implacável com o seu “retratado”. Mas não. Stone dirigiu uma cinebiografia escrita por Stanley Weiser bastante “suave” e irônica. Sutil talvez seja a definição mais ajustada. Algo surpreendente para o diretor responsável pelo polêmico JFK e pelo interessante Nixon. Eu esperava mais crítica ou ironia. Em seu lugar, encontrei um esboço até um bocado condescendente com esta figura tão odiada (e por alguns amada) no mundo todo.

Um dos problemas do filme, para mim, é que ele assume a versão oficial da Casa Branca em todo o momento. Ou seja, ele não questiona, nem por um segundo, que George W. Bush e seu governo apenas “reagiram” a um ataque terrorista contra sua nação empreendido por terroristas. Assistindo a um documentário de Dylan Avery intitulado Loose Change, ficou ainda mais claro, para mim, que muitas questões importantes daquele 11 de setembro de 2001 não foram respondidas satisfatoriamente até agora – e talvez nunca sejam. Então, em um cenário de dúvidas, o roteirista e o diretor de W. preferiram fazer um caminho diferente daquele adotado por Stone e Zachary Sklar em JFK. Eles aceitaram a versão oficial do governo dos Estados Unidos e esqueceram as “teorias da conspiração” e as muitas lacunas da versão oficial. Talvez Stone quis evitar a repetição. Preferiu fazer um filme que não seguisse os passos de JFK. Foi a melhor escolha? Impossível falar sobre uma hipótese jamais realizada. Pessoalmente, acho que teria gostado mais de um filme que primasse pela ousadia em lugar da sutileza.

Ainda assim, gostei de W. Especialmente porque Josh Brolin nos apresenta o que talvez seja a melhor interpretação de sua carreira até então. Ele convence tanto como aquele caubói que busca abrigo na Igreja como forma de se defender de uma incurável carência do amor paterno que ganha o espectador. Carismático e, em vários momentos, “iluminado” em tela, Josh Brolin por alguns momentos nos faz esquecer que estamos acompanhando a trajetória de um dos homens mais equivocados da História moderna. Apenas por esta “mágica”, o filme merece ser visto. Brolin, para mim, merecia alguns prêmios por esta proeza – ele chegou a concorrer a três prêmios por sua interpretação, mas não ganhou nenhum deles.

Mas se W. tem um grande ator na linha de frente e um bocado de nomes importantes ao seu lado – com destaque para Richard Dreyfuss como o vice-presidente Dick Cheney -, por outro lado o filme ignora uma série de detalhes importantes da história. Como explicar, no final de contas, a primeira vitória de George W. Bush? O filme não mostra nada da campanha do político à presidência dos Estados Unidos. Passa de largo. Mostra o “antes”, em uma (de várias) discussões do “Bush filho” com o “Bush pai”, e logo mostra o depois, sem muitos detalhes do “durante”. Também não explica, por exemplo, a verdadeira razão de George W. Bush ter sido preso, na época da universidade. O personagem ironiza ao afirmar para o pai, por telefone, que provavelmente isso ocorreu porque ele era o “chefe da torcida” de Yale no território do adversário quando eles ganharam um campeonato. Mas nada fica exatamente esclarecido. Ainda mais porque outras versões, como esta, afirmam que sua prisão foi causada pelo porte de cocaína.

Certo que W. mostra um George W. Bush preguiçoso, um bocado “tonto” e manipulável. Aliás, bastante manipulável. Na versão de Stone da história recente dos Estados Unidos, Bush foi um verdadeiro fantoche, utilizado como um títere pelo mímico Dick Cheney – especialmente. Outro que teria manipulado bastante o nosso “herói” foi Karl Rove (Toby Jones), na época o vice-chefe da Casa Civil. Certo que o Bush retratado nessa cinebiografia estava muito longe de ser um bom estudante ou um cara trabalhador. Mas daí a colocá-lo como um verdadeiro tonto, um cara extremamente ignorante e manipulável… não sei. Para mim é o mesmo que dizer que o Lula não sabia de nada que acontecia embaixo do seu nariz durante o Mensalão e demais falcatruas que ocorreram no governo. É tirar a responsabilidade destas pessoas. Acho que ninguém chega a uma posição como o de presidente da República sendo tão “tonto” ou manipulável. E apenas “apelo público” entre as mulheres e os texanos, como sugere o filme de Stone, não convence. Bush tinha que ser mais “raposa” do que aparece no filme.

Além destes problemas conceituais, não gostei do fato do roteiro de Stanley Weiser dar tão pouca importância para pessoas que, sabemos, tiveram um papel fundamental na administração Bush. Especialmente Condoleezza Rice (Thandie Newton), que aparece de forma extremamente secundária – praticamente para decorar algumas cenas. Coitada! A sensação que o filme nos dá é que o governo de Bush era administrado por um grupinho de machões. A verdade é que poucas vezes antes um presidente dos Estados Unidos deu tantos poderes para uma mulher quanto Bush para Rice. Certo que ela se tornaria praticamente “toda-poderosa” apenas em janeiro de 2005, quando foi promovida a secretária de Estado – e quando saiu na lista da revista Forbes como a mulher mais poderosa do mundo – mas, ainda assim, todos sabemos que antes disto ela já era uma das principais “conselheiras” de Bush. Não é isso que o filme de Stone e Weiser mostra.

Também não gostei muito do tratamento do roteiro com a figura de Colin Powell (Jeffrey Wright), então secretário de Estado do governo Bush. Todos sabem que ele era um dos homens fortes daquele governo, mas no filme ele aparece como um homem permanentemente ignorado por Bush e, principalmente, por Cheney. Curioso. Não é isso que esta reportagem do Le Monde Diplomatique e outros textos apontam sobre aquela época. O perigo de filmes que tentam narrar momentos históricos é o de que eles recriem de tal maneira a história a ponto de modificá-la perigosamente. W. é um filme bem dirigido, com um grande ator liderando o elenco, mas ele corre o risco de estar sendo extremamente equivocado em sua narrativa, retirando o protagonismo de alguns para transformar outros personagens secundários nos verdadeiros “vilões” da história.

Talvez esta seja a idéia de Stone e Weiser… mudar as posições de maneira tão radical que, praticamente, eles nos dizem: “A História é algo que nunca poderá ser comprovado”. Ou, em outras palavras, que não importa quem seja apontado, sempre algum coadjuvante pode ter tido uma importância maior. Pode até ser. Mas este relativismo não nos leva a parte alguma. Pelo contrário. Ele é um bocado perigoso e irresponsável. As pessoas tem e tiveram determinada importância na história, e descubrir a dimensão de cada um deveria ser o trabalho de jornalistas, historiadores e, porque não, de alguns cineastas que brincam de fazer cinebiografias.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quero esclarecer que a nota acima é uma verdadeira reverência ao excepcional trabalho do ator Josh Brolin e, claro, a alguns acertos do roteiro e da direção de Weiser e Stone, respectivamente. Nem tudo é ruim no filme. Com certeza não. Ainda que eu tenha muitas reticências à história – acho que todas apontadas anteriormente -, devo admitir que o caminho escolhido pelos realizadores, de tentar entrar na “intimidade” do ex-presidente e mostrá-lo mais humano do que muitos poderiam esperar, foi um grande acerto. Gostei de ter visto um filme que foge do recurso fácil de “demonizar” o personagem de George W. Bush. Esse é, sem dúvida, um grande acerto de W. O problema é que ele sofre de vários erros quase  na mesma medida…

Acho necessário citar o trabalho de outros atores que fazem parte deste filme – e que acabam tendo um papel importante na história: James Cromwell faz as vezes de George H. W. Bush, pai do protagonista; a sempre ótima Ellen Burstyn interpreta Barbara Bush, mãe de George W. Bush; Elizabeth Banks veste a pele de Laura Bush (que milagrosamente não envelhece no filme), esposa do protagonista; Scott Glenn interpreta o polêmico Donald Rumsfeld, Secretário da Defesa que traçou uma nova estratégia militar estadunidense para este século (e que no filme ganha um papel bastante secundário); Bruce McGill interpreta a George Tenet, então diretor da CIA, que demorou apenas quatro dias para apresentar um plano antiterrorista para 80 países após o 11 de Setembro; Colin Hanks interpreta o escritor principal dos discursos do presidente; e Noah Wyle interpreta Don Evans, antigo amigo de Bush que acabou sendo nomeado como secretário de Comércio de sua administração.

Outra falha no roteiro, para mim, é a praticamente ausência do irmão de George, Jeb (interpretado por Jason Ritter), em cena. Ele tem uma rápida aparição no filme, na casa da família Bush, quando o futuro presidente dos Estados Unidos discute, mais uma vez, com o pai. Fora este momento, ele não aparece mais – e fica evidente, seja pela proclamada carência do protagonista ou seja pelos fatos históricos, que Jeb Bush teve mais importância do que esta cena na história da família. Mas ok, desisti de pedir lógica para a história contada por Stone e Weiser.

W. foi indicado a quatro prêmios em sua trajetória, mas não ganhou nenhum deles. Destas quatro indicações, três foram para a interpretação de Josh Brolin. A última, para Toby Jones, indicado como melhor ator coadjuvante por seu papel como Karl Rove na premiação do Círculo de Críticos de Cinema de Londres.

O filme não conseguiu agradar tanto os fãs ou os críticos quanto alguns executivos gostariam. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,7 para a produção, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 118 textos positivos e 79 negativos para W. – o que lhe garante uma aprovação de 60%.

Para completar o quadro que representa um resultado morno para o filme, ele conseguiu, até dezembro de 2008, pouco mais de US$ 25,5 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Pouco, muito pouco para um filme que tinha tudo para ser “polêmico” e para levar muitos curiosos para o cinema. W. teria custado aproximadamente US$ 25,1 milhões. Ou seja, mal se pagou.

Um esclarecimento: resolvi colocar como título deste post os dois nomes que o filme recebeu nos Estados Unidos e no mercado internacional. Originalmente, acredito que todos saibam, o filme foi intitulado apenas como W., com esse ponto e tudo. Mas na terra do Sr. Bush ele também recebeu o outro nome.

Interessante que W. contou com a ajuda de uma série de países. Ele foi co-produzido, segundo divulgam seus produtores, pelos Estados Unidos, por Hong Kong, pela Alemanha, pelo Reino Unido e pela Austrália. Quase uma ONU. 😉

Gostei da série de cartazes produzidos para divulgar e promover o filme. Na minha página do Flickr coloquei disponível para quem quiser todos eles – tem uns muito bons.

Uma curiosidade divulgada pelo site IMDb: antes de Josh Brolin, o papel do protagonista tinha sido dado para Christian Bale. Sinceramente? Não consigo imaginar Bale interpretando a Bush.

Para os interessados na parte técnica do filme: a direção de fotografia é assinada pelo grego Phedon Papamichael; a trilha sonora por Paul Cantelon e a edição por Joe Hutshing e Julie Monroe.

Alguns textos que acho interessante sobre o Sr. George W. Bush e sua administração: texto 1, texto 2, texto 3 e, principalmente, texto 4, texto 5 e texto 6.

CONCLUSÃO: A tão aguardada cinebiografia de George W. Bush capitaneada por Oliver Stone é muito mais sutil do que se podia imaginar. O que acaba sendo uma qualidade. O problema reside na perigosa brincadeira de dar maior ou menor importância para personagens que acompanharam o ex-presidente, transformando o roteiro em um alvo certo para muito debate e críticas. Sendo assim, o melhor mesmo é assistir a este filme como um divertido passatempo, deixando as questões políticas e históricas de lado para se lançar a contemplação de uma grande interpretação do ator Josh Brolin. Ele é o grande nome desta produção, carregando seu personagem de uma maneira carismática e divertida. Algumas vezes, até esquecemos em quem a sua interpretação está sendo baseada. Apenas por este prisma de fantasia este filme pode ser visto. Não leve ele a sério e, talvez, você não fique irritado. Eu fiz isso e me diverti. Afinal, as trabalhadas de George W. Bush acabam rendendo albumas boas risadas. Também sei separar muito bem a ficção da realidade – e continuo achando que Oliver Stone perdeu uma boa oportunidade de marcar época, como fez anteriormente com JFK.