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Capharnaüm – Capernaum – Cafarnaum

A miséria é complicada e triste. Nem tanto a miséria que significa ausência de dinheiro e de oportunidades. Mas a miséria humana. Para esta, dificilmente há cura. Capernaum é um filme duro, que mostra uma boa parte da miséria e da crueldade que existe neste mundão mas com as quais, geralmente, não temos que lidar. Que filme, minha gente! Um verdadeiro soco no estômago. Um filme para ficar na memória por muito tempo. Capernaum arrepia, emociona, nos deixa com o coração na mão. Por tudo isso e muito mais, é um filme imperdível.

A HISTÓRIA: Um garoto, magro, apenas de cueca e camiseta, espera entre duas mesas. Depois, ele têm a boca examinada. O médico diz que por ele não ter mais dentes de leite, ele deve ter entre 12 e 13 anos de idade. Em seguida, vemos a muitas mulheres juntas. Alguém chama por Michelle, filipina. Pergunta qual é o sobrenome dela. Ela responde que é Sedad.

O interlocutor pergunta se ela tem passaporte ou visto de entrada. Michelle diz que está com o chefe dela. Em seguida, ele pergunta por Lama, que confirma que está grávida de sete meses. Ele diz que a Caritas vai procurá-la. A terceira mulher a ser questionada é Tigest Ailo (Yordanos Shiferaw), etíope. Assim começa a história de Zain (Zain Al Rafeea) e de Tigest/Rahil, duas pessoas que vivem na miséria e que são esquecidas pela lei, até que eles acabam presos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Capernaum): Desde antes do Oscar, quando saiu a lista dos filmes indicados e, depois, finalistas à premiação, eu queria assistir a Capernaum. Mas eu não sonhava que veria a um filme tão impactante. Não apenas por sua história, mas pela escolha das imagens e de todo o significado que esta produção nos passa. Um filme raro, sem dúvida.

Antes de falar dele, quero deixar claro que este não é um filme “passatempo”. Quem assistir a essa produção terá que mergulhar em realidades realmente complicadas e que vão deixar marcas no espectador. O filme roteirizado por Nadine Labaki, Jihad Hojeily e Michelle Keserwany começa potente e segue assim até o final. Se você está procurando um filme leve, quer algo para “descontrair” você e não ter que pensar muito, passe longe de Capernaum. Agora, se você não tem problemas em encarar de frente problemas que, de fato, existem mundo afora, questões que envolvem o essencial do ser humano, incluindo a sua face mais cruel, esta é uma grande pedida.

O que achei mais impressionante neste filme são as cenas cuidadosamente orquestradas pela diretora Nadine Labaki. Cada imagem é potente, seja ela próxima dos atores ou mostrando a “arquitetura” das cidades a partir de vistas aéreas. Tudo parece impressionar em Capernaum. E o que dizer daquele começo do filme? Impactante, preciso e um belo cartão de visitas do que veremos pela frente. Ah, e como sempre, indico que você assista ao filme sem saber praticamente nada dele antes – esse é o melhor caminho para experimentar ao máximo essa produção.

Nas primeiras cenas de Capernaum vemos a um menino sendo examinado. Ele não fala, mas não pode ser algo bom um médico ter que examiná-lo para dizer a idade que ele tem. Algo de errado aconteceu ali. Depois, vemos a uma mulher muito emocionada, com muitas lágrimas nos olhos, no que parece ser um grupo de refugiados. Essa introdução abre lugar para uma trilha sonora fantástica e uma edição incrível de um grupo de crianças brincando com armas feitas de madeira e pedaços de plástico ou latas.

Vemos na nossa frente um bando de garotos. Eles parecem estar extravasando a sua energia – talvez a sua raiva. A câmera de Nadine Labaki vai se afastando e vemos uma cidade que parece um tanto caótica. Mas a cena seguinte é ainda mais impactante. Vemos a uma criança algemada. Isso não é fácil de ser visto. Sob circunstância alguma. Perto um do outro estão Zain e Tigest, ambos algemados. O que poderia fazer uma criança ser algemada? Que crime ele pode ter praticado?

Em seguida, descobrimos que todos estão reunidos frente a um juiz porque Zaid, que nunca foi registrado e que teria, segundo um médico, cerca de 12 anos, está acusando os pais. Ele foi condenado a cinco anos por ter esfaqueado “um filho da puta”, segundo as suas palavras, mas agora acusa os pais por ele ter nascido. Não consigo imaginar um começo de filme mais impactante que esse. Mas o mais impressionante desta produção é que não é apenas o seu início que nos impacta, mas todo o seu desenrolar.

O que vemos em cena é muita, muita miséria. Pessoas que vivem de favores, de pequenos crimes e de muito trabalho informal. As crianças não podem ser crianças. Logo que tem tamanho suficiente para carregar peso, elas são colocadas para trabalhar. Os menores, são expostos a situações de risco porque, geralmente, acompanham os irmãos maiores. Capernaum começa com a mãe de Zain, Souad (Kawsar Al Haddad), fazendo o filho comprar remédios com uma prescrição médica em diversos lugares para, depois, envolvê-lo em uma operação de colocar a droga disfarçada em roupas para o irmão mais velho dele, que está preso. E isso é só o começo.

Os pais de Zain, Souad e Selim (Fadi Yosef) estão cercados de filhos e vivem em um local pequeno cedido pelo comerciante Assaad (Nour El Husseini). Em troca do local, os filhos do casal trabalham para Assaad – especialmente Zain. Também está “subentendido” no “contrato” entre eles que, quando a irmã de Zaid, Sahar (Haita “Cedra” Izzam) for grande o suficiente, ela irá se casar com Assaad. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descobrimos, no final da produção, que esse “grande o suficiente” ocorreu quando ela tinha 11 anos de idade.

Em resumo, Souad e Selim não param de ter filhos, mesmo vivendo em uma condição de miséria. Eles não registram nenhum dos filhos, nem se preocupam em colocá-los na escola. Parece que o único propósito dos filhos do casal é ajudá-los a sobreviver. Com tantos filhos, Souad parece passar os dias em função deles – não para lhe dar carinho, mas para alimentá-los e para dar ordem para os maiores trabalharem. Selim, ninguém sabe o que faz da vida.

Capernaum acompanha, de forma muito inteligente, as crianças. O narrador da história é Zain. Assim, vemos como ele trabalha e é utilizado pelos pais para fazer o que eles desejam. Também acompanhamos o amor que ele tem pelos irmãos, especialmente por Sahar, que é a pessoa mais próxima dele. Quando ela menstrua, Zain procura esconder esse fato para que a garota não seja vendida para Assaad. Mas toda a proteção dele resulta ineficiente.

É de cortar o coração quando Sahar é levada contra a sua vontade e os irmãos são separados. Isso acontece pouco antes de Zain conseguir levar a irmã para uma viagem em busca da avó. Após a irmã ser vendida, Zain resolve fazer a viagem por conta própria. Mas no ônibus, ao encontrar Harout, vestido de Homem Barata (Joseph Jimbazian), que desce em um parque de diversões, Zain muda de ideia e resolve seguir o senhor idoso.

Por causa dessa decisão, somos apresentados a um outro cenário de miséria. Zain acaba conhecendo, durante a sua aventura, Tigest, uma mãe que está ilegal no país e que precisa conseguir bastante dinheiro para arrumar novos papéis e ficar mais tempo sem ser presa ou deportada. A exemplo de Zain e de seus outros irmãos, Tigest também não registrou a filha Yonas (Boluwatife Treasure Bankole). Mas as semelhanças terminam por aí.

Para mim, este é uma das grandes “sacadas” do roteiro de Nadine Labaki, Jihad Hojeily e Michelle Keserwany, que contaram com a colaboração de Georges Khabbaz e Khaled Mouzanar. Capernaum nos apresentam dois cenários de pura miséria. Tanto a família de Zain quanto Tigest e a filha vivem em realidades em que parece que falta tudo que pode significar segurança, qualidade de vida e dignidade humana.

Falta água encanada, banheiro decente, local confortável para dormir e, muitas vezes, comida. Também faltam registros, documentos básicos que deem ciência para a sociedade que aquelas crianças existem. Consequentemente, elas não tem acesso à saúde ou à educação. Ainda que em uma análise rápida parece que tanto a família de Zain quanto Tigest e Yonas vivam na mesma miséria, com Capernaum aprendemos que existem dois tipos de miséria.

Temos sim a miséria material, toda a falta de recursos que comentei antes e muito mais. Essa miséria pode ser resolvida com uma distribuição de renda mais justa ou com mais oportunidades de estudo e de trabalho para as pessoas. A miséria material pode ser resolvida com a inclusão social. Mas existe a miséria humana, que é muito mais difícil de resolver. Essa miséria é vista na família de Zaid, na falta de consciência, compaixão e amor que os pais dele tem com os seus próprios filhos. O mesmo não pode ser dito da realidade de Tigest e Yonas.

Ainda que Souad diz que ninguém pode julgá-la, e longe de mim fazer isso, mas ela e o marido veem nos filhos sim moeda de troca. Eles não pensam duas vezes em vender a própria filha para Assaad. Para buscar perdão da própria consciência, Selim diz que fez isso para “livrar” a filha da miséria. Ele diz que a culpa é de todos que lhe disseram que, por ele ser um homem, ele deveria ter filhos. Mas ele considera que foi justamente essa decisão, ter casado e ter tido filhos, que lhe “fudeu” a vida.

Curioso como os inescrupulosos e os cruéis, aqueles que machucam os outros e veem nos demais apenas pessoas que eles podem usar para algum proveito próprio, sempre encontram uma desculpa nos “outros”, não? A culpa é sempre do outro, ou da sociedade. Eles nunca percebem a própria responsabilidade. Ninguém colocou uma arma na cabeça de Selim e o obrigou a casar. Ninguém ameaçou Selim e Souad e os obrigou a ter filhos sem parar.

Não me venham com a desculpa de “ah, mas a religião deles diz isso e aquilo”. Me desculpem, mas não importa o que a religião diz. A fim e a cabo, você é responsável pelos seus atos. E você deve sim se perguntar se tem condições de colocar um filho no mundo. E quando digo condições, principalmente as afetivas. Mas também as materiais. Colocar um filho no mundo para que ele não receba amor, afeto, atenção e condições básicas de desenvolvimento, a meu ver, é um crime. Ou, ao menos, um grande, grande erro.

Zain, na altura dos seus 12 anos de idade, mas já tendo visto e sentido mais do que muito adulto que vive 90 anos, está coberto de razão ao dizer que os seus pais deveriam ser proibidos de ter filhos. Eles não deveriam ter esse direito, de gerarem uma vida que depois será jogada na mais profunda miséria – incluindo a pior de todas, de ter pais incapazes de ensinar valores ou algo de bom que seja.

Um grande achado de Capernaum é mostrar que a miséria material não significa, necessariamente, miséria humana. Muito pelo contrário. Tigest, igualmente vivendo em um cenário de grande precariedade, jamais queria abandonar a filha Yonas. Tigest faria tudo para ficar com ela. Quando o “comerciante”, falsificador e traficante de pessoas Aspro (Alaa Chouchnieh) oferece dinheiro para Tigest vender Yonas, ela fica indignada. E mesmo tendo dificuldade de pagar aluguel, levar comida para casa e conseguir o dinheiro exigido por Aspro para ele falsificar os papéis dela, Tigest tem a generosidade de acolher Zain em casa.

Verdade que ela aproveita a chegada do garoto para ele ajudar a cuidar da sua filha. Mas, em troca disso, ela lhe dá abrigo e comida. Claramente Tigest se sacrifica por amor. Palavra essa que parece não fazer parte do vocabulário ou da realidade dos pais de Zain. Então a miséria material pode ser contornada, mas a miséria humana… essa é muito complicada de ser tratada ou resolvida. Zain, mesmo tendo crescido em uma casa tão disfuncional, é um garoto sensível, carinhoso e responsável.

O filme, que já vinha sendo complicado até então, ganha uma outra carga de dramaticidade quando Tigest é presa. Zain, sozinho para cuidar de Yonas, tenta ao máximo ficar e cuidar da menina. Mas para um garoto como ele, sozinho em um local no qual ele não conhece praticamente ninguém, essa vontade se torna praticamente impossível. É de cortar o coração quando Zain deixa Yonas para ver se alguém se apresenta para cuidar da menina, mas ninguém faz isso. Ignoram completamente a criança e Zain acaba deixando ela com Aspro.

Mas ele não faz isso sem ficar com o coração partido. Momentos difíceis do filme, sem dúvida. Sonhando em deixar o país e tudo o mais para trás, Zain volta para casa atrás de seus documentos. Daí ocorre o desespero que faz ele cometer o crime que o leva a ser condenado. Zain não precisa nem saber exatamente o que aconteceu. Mas ele sabe perfeitamente quem é o culpado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, Assaad foi o culpado direto pela morte de Sahar, mas tiveram a sua parcela de culpa os pais da menina. Ela poderia ter sobrevivido a vários estupros – porque evidentemente não foi outra coisa que ela teve com Assaad – e a uma gravidez aos 11 anos de idade? Poderia. Mas como ela, muitas meninas que são “vendidas” por seus pais com essa idade, pouco menos ou pouco mais, acabam morrendo por causa dos estupros e da gravidez em idade tão baixa. Um verdadeiro absurdo.

Pode parecer incrível, mas depois de tanta crueldade, de tanta miséria e de tantos absurdos, podemos dizer que Capernaum tem um final feliz. Aspro é preso e as pessoas que ele mantinha em cativeiro foram resgatadas. Inclusive Yonas. Assim, Tigest consegue se reencontrar com a sua filha, e Zain consegue, finalmente, ter uma identidade. No fim, ambos, mesmo com todos os desafios que eles terão pela frente, ganham perspectivas. Isso é, sem dúvida, um final feliz para essa história. Um filme incrível, portanto. Dos melhores que eu assisti nesse ano, até o momento.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nadine Labaki, diretora deste filme, é mais conhecida por seu trabalho como atriz. Ela tem 14 trabalhos como intérprete e quatro como diretora. Mas fiquei tão impressionada com o roteiro e a direção dela nesse Capernaum que eu penso e assistir aos outros filmes que ela dirigiu. Ela estreou como diretor em 2007 com o filme Sukkar Banat, que recebeu cinco prêmios. Depois, em 2011, ela dirigiu Et Maintenant on Va Où?, que recebeu oito prêmios. O terceiro trabalho dela na direção foi o segmento “O Milagre”, no filme Rio, Eu Te Amor. Acho que ela merece ser acompanhada. Eu vou atrás dos filmes anteriores dela, com certeza.

Impressionante o trabalho de Nadine Labaki tanto na direção quanto no roteiro. Ela esteve sempre atenta ao excelente trabalho dos atores, além de focar muito bem a realidade em que eles viviam. Parece até que estamos assistindo a um documentário e não a uma produção que segue um roteiro. Essa sensação é fruto de um ritmo muito bem planejado pela realizadora, que acerta em cada escolha e em cada detalhe da produção que nos envolve, nos angustia e nos emociona.

A cada filme que eu vejo neste ano e que tinha uma chance de ganhar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mais eu fico indignada com a decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Não vejo problema deles quererem bajular e mega premiar o diretor Alfonso Cuarón. Mas é simplesmente injusto um filme como Roma ganhar de uma produção como Capernaum ou como Shoplifters (comentado aqui). Simplesmente injusto. Esses dois filmes, a exemplo de Cold War (com crítica neste link), são muito mais interessantes e inovadores do que Roma. Me desculpem os filmes de Cuarón, mas é isso que eu penso.

Além de uma direção inspirada e de um roteiro magistral, Capernaum se destaca por sua direção de fotografia, assinada por Christopher Aoun; pela excelente edição de Konstantin Bock e Laure Gardette; e pela maravilhosa trilha sonora de Khaled Mouzanar. A trilha sonora, por si só, é uma peça de arte. Colocada em momentos precisos, ela ajuda a contar essa história e a fazer os espectadores mergulharem nela.

Da parte técnica do filme, vale comentar também o bom trabalho de Hussein Baydoun no design de produção; de Toufic Khreich como diretor assistente; de Nizar Nassar na direção de arte; e da equipe de Ghina El Hachem no Departamento de Casting. Perfeito o trabalho que foi feito com o elenco, boa parte dele formado por crianças.

Todo o elenco está ótimo, aliás. Mas é inevitável não destacar o trabalho de algumas das crianças, com destaque para Zain Al Rafeea como Zain; de Boluwatife Treasure Bankole como Yonas; e de Haita “Cedra” Izzam como Sahar. Alguns adultos também merecem aplausos, especialmente Yordanos Shiferaw como Tigest/Rahil. Outros que merecem ser citados por fazerem um belo trabalho são Kawsar Al Haddad como Souad; Fadi Yousef como Selim; Alaa Chouchnieh como Aspro; Nadine Labaki como Nadine, advogada de Zain; Elias Khoury como o juiz; Nour El Husseini como Assaad; Joseph Jimbazian como o Homem Barata/Harout; Farah Hasno como Maysoun, a menina que ajuda Zain a abrir um refrigerante e se torna uma “amiga” dele na cidade.

Capernaum estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até março de 2019, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais de cinema e mostras em diversos países. Nessa trajetória, o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo uma indicação ao Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para três conferidos pelo Festival de Cinema de Cannes: o Prêmio do Júri para Nadine Labaki, o Prêmio do Júri Ecumênico para a diretora e o Prix de la Citoyenneté para Nadine Labaki e Mooz Films. A produção também ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Ficção Estrangeira no Festival Internacional de Cinema de São Paulo. Vale citar ainda 12 prêmios recebidos como Melhor Filme e 3 recebidos por Melhor Jovem Ator/Melhor Ator/Melhor Estreia para Zain Al Rafeea. O filme e o garoto realmente mereceram.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O menino que interpreta Zain, Zain Al Rafeea é, na verdade, um refugiado sírio. Ele viveu no Líbano por oito anos e tinha 12 quando interpretou Zain em Capernaum. A escolha do nome do personagem no filme foi feita após a escolha de Zain para interpretar o protagonista.

Todos os atores que fazem parte de Capernaum são pessoas que tem histórias parecidas com a dos personagens que aparecem no filme. Assim, a vida de Zain se assemelha, até certo ponto, à do seu personagem, assim como a de Rahil/Tigest, que era uma “indocumentada”. Para escrever o papel da mãe de Zain, Nadine Labaki se inspirou em uma mulher que ela conheceu, que tinha 16 filhos em condições semelhantes ao dos personagens de Capernaum. Seis dos filhos dessa mulher morreram, e vários outros estão em orfanatos por falta de cuidados dos pais.

Capernaum é uma ficção baseada em elementos e fatos que Nadine Labaki realmente viu enquanto fazia o trabalho de pesquisa de campo para esta produção. De acordo com a diretora e roteirista, nada no filme foi fantasiado ou imaginado. Pelo contrário, ela gosta de enfatizar, tudo que vemos em cena é resultado do que a diretora/roteirista observou em visita a bairros desfavorecidos, em centros de detenção e prisões juvenis onde ela foi sozinha. Ou seja, o que a gente só pensava ser possível, vendo o filme, se confirma como a mais pura realidade.

Esse mundão é muito grande e muito desigual. E há muita miséria material e humana por aí sim. Ainda que a gente normalmente não conviva com ela, mas não dá para ignorar de que ela existe. Capernaum nos mostra bem isso.

As filmagens de Capernaum duraram seis meses e resultaram em 12 horas de filme. O trabalho de edição, para condensar tudo isso em cerca de duas horas, demoraram dois anos.

Capernaum recebeu uma ovação de 15 minutos após a sua estreia no Festival de Cinema de Cannes. Se eu estivesse lá, certamente aplaudiria também.

Muitos dos atores escolhidos para Capernaum estrearam no cinema com o filme. Nadine Labaki disse que isso era necessário para que ela visse uma “verdadeira luta” na telona. Realmente cada um deles passa muita verdade nos seus papeis.

Capernaum significa “caos”, em árabe. O nome também faz alusão a uma cidade bíblica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 131 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,83. As duas notas bem acima da média que costumamos ver nesses sites. O Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” 75 para Capernaum, fruto de 27 críticas positivas, cinco medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Capernaum faturou US$ 1,57 milhão nos Estados Unidos. Não existe informação sobre o resultado do filme em outros mercados.

Capernaum é uma coprodução do Líbano, da França e dos Estados Unidos. Ele teria custado cerca de US$ 4 milhões.

CONCLUSÃO: Pensem em um filme punk. Destes que vai criar desconforto e que vai te deixar “mal” por um tempo. Ainda assim, Capernaum é um filme que, podemos dizer, tem um final feliz. Mas com tudo nessa vida, o que importa é a trajetória, o caminho e o que ele nos ensina. Um filme duro, mas muito necessário. A miséria material não é uma escolha, mas a miséria humana sim. Importar-se com o outro ou ser indiferente, exceto se você sofre de algum transtorno mental, é uma escolha. Crianças deveriam ter o direito de serem crianças. Mas nem sempre é isso que acontece. Mas elas tem muito a nos ensinar. Um filme incrível, potente e imperdível. Um dos melhores do ano.

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Ben Is Back – O Retorno de Ben

As mães, aquelas com M maiúsculo (que, acredito, são a maioria), são capazes do que há de melhor na humanidade. O amor delas não tem limite, não tem fim. Elas não desistem, não esmorecem, não deixam nunca de esperar que os seus filhos fiquem bem, sejam felizes. Ben Is Back fala de uma dessas mães. E fala de um tema que é fundamental, ainda mais nos dias de hoje: como as pessoas e as famílias lidam com os seus vícios? Quem cai nessa sempre vai sair queimado ou chamuscado, como mínimo. Nada é simples, nesse universo, e Ben Is Back trata disso com muita sabedoria e de forma interessante.

A HISTÓRIA: Em uma cidade tranquila, em um cenário com neve, dentro de uma Igreja, um coral ensaia. Na plateia, uma mãe orgulhosa, Holly Burns (Julia Roberts). Entre os cantores, Ivy (Kathryn Newton), não se contêm ao ver a mãe e sorri. Holly pede ela se manter firme, com postura. Crianças entram pela lateral. Correm de perto do grupo Lacey (Mia Fowler) e Liam (Jakari Fraser), filhos de Holly e integrantes do grupo que vai encenar a apresentação de Natal. Enquanto eles estão lá, um rapaz chega na casa trancada e com vigilância. Em breve, ao voltar para casa, Holly terá uma grande surpresa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ben Is Back): O primeiro atrativo para mim nesse filme foram os atores envolvidos na produção. Admito que eu sou fã da Julia Roberts. Adoro o trabalho dela, como ela se entrega em cada papel. E como outras mulheres/atrizes que eu admiro, como Julianne Moore, eu acho que ela fica melhor a cada ano que passa.

Além dela, outro atrativo de Ben Is Back era ver Julia Roberts em cena com Lucas Hedges. Um ator que merece ser visto e acompanhado. Um jovem talento que vem acertando nas suas escolhas. Mas o que mais me surpreendeu nesse filme foi a honestidade do roteiro e do trabalho do diretor Peter Hedges. Ben Is Back surpreende por seu tom realista e honesto. A franqueza é um de seus elementos principais.

O tema do filme é pesado. Mas eu não sabia nada sobre a história antes de começar a assistir a Ben Is Back – o  que, como vocês bem sabem, é o que eu sempre indico e é como eu faço em relação aos filmes. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme ainda). Esta produção mergulha à fundo na questão do vício nas drogas. E tudo sob a perspectiva de uma mãe e de uma família que precisa lidar com esse problema. Também temos uma visão privilegiada da ótica do garoto que sofre com o vício e que não consegue se livrar realmente dele.

Acho incrível como o roteiro de Peter Hedges mostra todo o caldeirão de elementos e de emoções que cercam uma situação como essa. Sem filtros e com muita franqueza, o que sempre tem um excelente efeito no cinema. Hedges não enfeita ou embeleza a pílula. Devemos agradecer por isso. Ben Is Back tem a qualidade que tem justamente por essa franqueza e pelo diretor explorar muito bem o efeito abrangente que o vício pode trazer para uma família e uma comunidade inteira.

Para passar toda a verdade do roteiro de Hedges, o diretor conta com excelentes atores. Nesse sentido, claro, destaque para os protagonistas. Julia Roberts e Lucas Hedges estão ótimos em seus papéis. Em ótimos desempenhos – acredito que dos melhores que eles apresentaram nos últimos tempos. Mas os atores coadjuvantes também estão muito bem. O ritmo do filme é intenso e emocional desde o início e até o final. Não há momentos de “barriga” ou de tédio. Algo importante para Ben Is Back também.

O roteiro tem uma forte carga dramática mas, como acontece com toda família, também tem os seus momentos de leveza e engraçados. Em resumo, um dos maiores destaques da produção é o texto de Hedges. O filme acerta também nos momentos de tensão e de suspense. Não tem como você esperar que a história termine bem, em muitos momentos, mas mesmo quando ela parece terminar como você temia, isso não deixa de surpreender.

Envolvente, Ben Is Back nos faz refletir e nos colocar no lugar dos personagens. Isso é fundamental em uma produção que trata da dependência das drogas. Afinal, ainda estamos muito cercados de julgamentos e de preconceitos sobre esse assunto. Mas esse filme estimula as pessoas a terem empatia, a ver que todos sofrem com uma situação como essa. Não apenas a família de Ben, neste caso, mas ele próprio.

O que eu mais gostei no filme é como ficamos centrados em duas visões muito diferentes nessa história. Por um lado, o lado amoroso e generoso da mãe. De fato, apenas as mães com M maiúsculo podem entender toda a generosidade e a doação que é tão típico das mães. É algo impressionante, maravilhoso e exemplar. Outras pessoas, que não são mães, podem se colocar no lugar delas e aprender com elas. Admirá-las.

A outra ótica muito bem explorada nesse filme é a de Ben. Outro lado fascinante da história. O garoto, como descobrimos no decorrer do filme, começou a ficar viciado após se machucar esquiando e receber “painkillers” (analgésicos fortes) de um médico. Segundo Holly, mãe de Ben, quando o médico Dr. Crane (Jack Davidson) começou a aumentar a dosagem de painkillers, foi aí que o filho dela começou a ficar viciado.

Isso é algo interessante em Ben Is Back. O alerta de que, às vezes, pessoas “confiáveis” e que deveriam ter cuidado com os jovens, como médicos e professores, podem ajudá-los a se afundar. Isso é visto não apenas na falta de compromisso e de ética do médico que receita painkillers viciantes para Ben, quando ele era jovem, mas também o professor Mr. Richman (Henry Stram), que Ben vai visitar, ao procurar o cachorro da família, e que era fornecedor de drogas/medicamentos para o garoto.

A verdade é que a tentação e a queda estão próximas de crianças e de jovens a todo o momento. Os pais podem orientar bem os seus filhos para as tentações e para os problemas que podem acontecer caso eles optarem por alguns caminhos tortos, mas nenhuma mãe ou pai pode realmente evitar que o pior aconteça. Eles podem torcer, orientar e até rezar. Mas, no final das contas, as escolhas sempre serão de seus filhos – que, além de tudo, são indivíduos independentes e que pensam e sentem por sua própria conta.

Ben Is Back explora muito bem esse sentimento de preocupação e de comprometimento que os pais tem com os seus filhos. Holly está preocupada e deseja cuidar de cada um de seus filhos, mas sabe que deve lutar e não desistir de Ben, em especial. O marido dela, Neal Beeby (Courtney B. Vance), está mais preocupado com os seus próprios filhos, Lacey e Liam. Claramente ele está preocupado com a “influência negativa” e com o risco que a proximidade de Ben pode ter em relação a eles.

O quanto ele está errado? Natural que os pais procurem proteger e defender os seus filhos. Assim, natural que Neal se preocupe com a presença de Ben. Mas realmente é justo e ajuda o jovem que está buscando se recuperar toda a desconfiança e “pé atrás” que Neal e até Holly têm em relação ao jovem? Talvez não ajude ele, mas faz parte do processo. Afinal, como Ben mesmo diz para a mãe, em certa parte do filme, ele é especialista em mentir, em enganar e em dissimular para conseguir o que deseja. E, muitas vezes, o que fala mais alto é o vício.

Outro elemento importante que vemos em cena é a questão da culpa e a dificuldade que o protagonista tem de se perdoar. Esses talvez sejam os principais desafios e empecilhos para que alguém que é viciado consiga se livrar do vício. Ben não se perdoa por todo o sofrimento, dor e problemas que ele causou para a sua família, especialmente para a sua mãe. Ele também se sente culpado pela morte da filha de Beth Conyers (Rachel Bay Jones). Mais que um viciado, Ben se tornou traficante e levou várias pessoas para o vício também.

Quando alguém entra nessa, pode ter a sorte de superar e sobreviver. Mas quantos ficam pelo caminho? Quantos morrem por causa de seu vício? Apesar de aparecer pouco no filme, Beth tem uma das cenas mais importantes da história quando Holly vai procurá-la pedindo ajuda.

Beth diz claramente uma grande verdade: Holly não poderá salvar Ben, por mais que ela tente. Talvez ele consiga sair do fundo do poço, se tiver muita força de vontade, se conseguir se perdoar – e aos demais – e se tiver um pouco de sorte. Mas ninguém salva ninguém, e é importante que isso esteja colocado de forma tão clara e franca nesta produção. Ainda assim, como Beth diz, Holly precisa tentar até o final. Isso é algo muito de mãezona.

Sorte de todos aqueles que tem uma excelente mãe. Elas fazem toda a diferença na vida das pessoas e, consequentemente, da sociedade. Ben Is Back faz uma bela homenagem para uma destas mães e se debruça com muita propriedade em um grande drama que temos na sociedade atualmente.

A vida é feita de vários problemas, frustrações e tentações. Alguns tem sorte de passar por tudo isso e ter uma vida longa. Outros, infelizmente, ficam pelo caminho. Ninguém deve se sentir culpado por isso, mas sermos solidários e termos compaixão pelas pessoas que tem mais dificuldade de passar por estas questões. Ben Is Back é um belo exemplo sobre isso.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não falei antes, mas a personagem de Ivy Burns (Kathryn Newton) também é bastante interessante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela faz a “irmã clássica” de um garoto que tem problema com os vícios. Ela é toda “certinha”, quase perfeita. Por isso, tem dificuldades de lidar com o irmão “encrenqueiro”. Inicialmente, ela não gosta e resiste à presença de Ben no Natal. Afinal, ele já “estragou” outros Natais e ela está “cheia” disso. Mas, depois, Ben “quebra” a resistência da irmã e ela resgata o amor que sente por ele. Da raiva/resistência inicial, a personagem passa para a acolhida e para a compaixão, até que a casa é invadida por um funcionário de um traficante para quem Ben trabalhava e Ivy passa ter medo do que pode acontecer. Ainda assim, claramente ela se importa com o irmão, e isso é muito “a vida como ela é”.

Praticamente todos os personagens de Ben Is Back são um pouco egoístas e um pouco generosos. Como a gente mesmo. Isso que eu achei mais bacana no roteiro de Peter Hedges. Cada um de nós, assim como os personagens do filme, não somos apenas “bons” ou “maus”. Até podemos nos esforçar em acertarmos mais do que errarmos, mas ninguém consegue acertar sempre. Quanto antes nos tocarmos disso, melhor seremos capaz de olharmos para os outros com a mesma compreensão. Sermos mais empáticos e generosos, portanto.

Falei bastante sobre isso já, mas sem dúvida alguma dois destaques de Ben Is Back são o roteiro e a direção de Peter Hedges. Ele faz um belo trabalho na construção da história, construindo diálogos e sequências que convencem e que prendem a nossa atenção. Tudo nesse filme faz sentido. Não há sobras ou exageros. Isso não é tão fácil de achar, por isso agradecemos pelo roteiro desta produção. Ele também faz um trabalho, na direção, que foca nos atores, no talento deles e na forma com que eles abraçam os personagens. Ainda assim, ele não esquece o entorno da cidade em que eles vivem. Isso dá propriedade e profundidade para a produção.

Entre os atores, o destaque fica para o excelente trabalho de Julia Roberts e de Lucas Hedges. Os dois se entregam para os seus personagens de forma exemplar. Convencem em cada linha de diálogo e em cada cena. Também estão muito bem os coadjuvantes Kathryn Newton, como Ivy, irmã de Ben; Courtney B. Vance como Neal, segundo marido de Holly; Rachel Bay Jones como Beth, mãe de uma amiga de Ben que morreu por causa do vício das drogas; David Zaldivar como Spencer “Spider” Webbs, amigo de infância de Ben e viciado em drogas também; Mia Fowler como Lacey Burns-Beeby e Jakari Fraser como Liam Burns-Beeby.

Esses são os coadjuvantes que tem uma relevância maior na história, mas vale citar também o trabalho de Alexandra Park como Cara K., uma garota que Ben e Holly encontram em um encontro de adictos e que era cliente de Ben quando ele era traficante; Michael Esper como Clayton, traficante que “sequestra” o cachorro da família de Ben; Tim Guinee como Phil, outro participante do grupo que está tentando ficar longe das drogas; Kristin Griffith como Mrs. Crane, esposa do médico que é confrontado por Holly no shopping; Jeff Auer como o pai de Maggie, a garota que morre após ter sido viciada por intermédio de Ben; e Henry Stram como o antigo professor de História de Ben, Mr. Richman.

Da parte técnica do filme, vale destacar o trabalho de Stuart Dryburgh na direção de fotografia e de Ian Blume na edição. Além deles, cito o bom trabalho de Dickon Hinchliffe na trilha sonora; de Ford Wheeler no design de produção; de Andy Eklund na direção de arte; de Chryss Hionis na decoração de set; e de Melissa Toth nos figurinos.

Ben Is Back estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros nove festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros oito. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Performance de um Ator com 23 anos ou Menos, concedido para Lucas Hedges pelo Los Angeles Online Film Critics Society Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Quando estava desenvolvendo o filme, o diretor e roteirista Peter Hedges não estava pensando em escalar o filho, Lucas Hedges, para o papel principal. O diretor tinha feito uma lista de atores que ele estava considerando para o papel, mas foi Julia Roberts que insistiu para que Lucas Hedges fizesse o papel após assisti-lo em Manchester by the Sea (comentado aqui no blog).

Antes de começarem a filmar Ben Is Back, os atores Lucas Hedges e Kathryn Newton passaram o feriado de Ação de Graças como convidados na casa da atriz Julia Roberts. Eles fizeram parte da mesa de convidados da atriz, que reuniu 22 pessoas. Uma maneira interessante deles se integrarem antes do início das filmagens.

A escolha do Natal para ambientar a história de Ben Is Back foi para tornar o filme mais emocional, é claro. Mas isso fez com que a equipe tivesse alguns desafios. Todos enfrentaram condições climáticas bem complicada em um dos piores invernos que Nova York e Yonkers, cidades em que o filme foi rodado, já viveram. Julia Roberts, que mora há 18 anos em Nova York, disse que nunca experimentou um inverno tão complicado quanto aquele de quando eles fizeram Ben Is Back.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 155 críticas positivas e 36 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 6,85. O site Metacritic apresenta um “metascore” 66 para Ben Is Back, fruto de 28 críticas positivas e de 11 medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Ben Is Back faturou pouco mais de US$ 3,7 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, especialmente se pensamos que o filme é estrelado pelos atores Julia Roberts e Lucas Hedges, bem conhecidos do público. Acho que o filme deixou a desejar nas bilheterias.

Ben Is Back é uma produção 100% dos Estados Unidos. Como esse país foi o mais votado em uma enquete aqui no blog, esse filme passa a fazer parte da lista de produções que atenderam a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme que não é simples. E que bom que Ben Is Back é assim. Por ser duro mas humano, demasiado humano (como diria Nietzsche), Ben Is Back é necessário. Nos mostra uma realidade complicada, que é vivida por muitas famílias. Mais que nada, é preciso compaixão. E admirar mães como a protagonista desta história, que não desisti nunca de resgatar e ajudar o seu próprio filho. Em outras palavras, não desiste nunca de amar. Quem cai no vício deveria achar uma saída, mas isso nem sempre acontece. A culpa e a dificuldade em se perdoar são dois dos principais impedimentos. Ben Is Back trata do tema com profundidade e compaixão. Uma bela produção, que merece ser vista, comentada e compartilhada.

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Manbiki Kazoku – Shoplifters – Assunto de Família

Afinal, o que é uma família? O que define a figura de pai, mãe e filhos? Essas questões podem parecer óbvias, mas não o são. E o filme Shoplifters nos mostra isso de forma muito contundente e interessante. Mas o filme não para de nos questionar sobre alguns conceitos que temos estabelecidos não apenas na questão familiar. Ele também nos faz pensar sobre quem nos dá bons ou maus exemplos, e sobre o que podemos verdadeiramente ensinar para os outros. Um filme especial, sem dúvidas. Para mim, melhor do que o tão premiado e badalado Roma. #prontofalei

A HISTÓRIA: Em um mercado, primeiro chega Shota Shibata (Jyo Kairi). Em seguida, aparece ao lado dele, Osamu Shibata (Lily Franky). Com uma cesta no braço, ele pega algumas frutas e passa uma para Shota. Os dois começam a caminhar no mercado, e Osamu come a fruta com tranquilidade. Ele pega uma mercadoria, coloca na cesta, cumprimenta Shota e os dois se separam. Eles tem tudo coordenado e programado. Shota faz o seu ritual com os dedos e beija a mão antes de pegar algumas mercadorias e colocar na mochila. Osamu encobre o garoto para que ele pegue mais mercadorias. Logo vamos conhecer mais de perto Shota, Osamu e sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Shoplifters): Esse é um daqueles filmes sobre os quais quanto menos você souber sobre ele, melhor. Shoplifters no surpreende nos momentos certos, e nos faz pensar sobre como as aparências enganam.

Na verdade, esse filme, como comentei antes, nos faz refletir sobre vários conceitos que temos na nossa sociedade atualmente. Para começar, nos faz pensar sobre o conceito de família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quem pode ser considerado um pai e uma mãe? Aqueles que geraram uma criança e a colocaram no mundo ou aqueles que são capazes de amar e de cuidar dela?

Os pais de Yuri maltratam a garota e afirmam que não gostariam de tê-la gerado. Por outro lado, Osamu e Nobuyo Shibata (Sakura Andô) sequestram a menina e passam a cuidar dela, juntamente com a “avó” Hatsue Shibata (Kirin Kiki) e com Aki Shibata (Mayu Matsuoka). Inicialmente, o ótimo roteiro do diretor Hirokazu Koreeda nos faz acreditar que Yuri foi “adotada” por uma família simples e que vive da pensão de Hatsue e do salário de Nobuyo e de Osamu.

Aparentemente, como eles recebem pouco, a família “se vira” praticando pequenos furtos no mercado. Ao menos é isso que acreditamos, inicialmente. Também parece que Osamu ensinou o filho Shota a furtar para que ele tenha um “papel” na sobrevivência da família. Mas a história não é bem essa. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na verdade, Shota não é filho de Osamu e de Nobuyo. Ele é um garoto que também foi “pego” por Osamu e que passou a ser usado por ele para conseguir realizar os pequenos furtos.

O menino não consegue chamar Osamu de pai. Aparentemente, ele está aceitando ficar com aquela família, mas não parece exatamente confortável com eles. Mas isso começa a mudar com a chegada de Yuri e a convivência entre as duas crianças. Inicialmente, parece normal para Shota que Yuri também seja ensinada por Osamu a furtar. Mas, pouco a pouco, o garoto percebe que isso não é certo. E ele não quer que a menina seja levada a fazer o que é errado.

Essa questão levanta um ponto muito interessante nessa história. Afinal, quando uma criança perde a sua “inocência? Quando ela percebe que o que está fazendo é errado por que um adulto lhe ensinou assim? Quando ela descobre que os adultos mentem e que eles podem prejudicar a ela ou a outras pessoas? Quando uma criança aprende que deve começar a se proteger?

A atitude de Shota mostra que as crianças são sensíveis e que, quando tem a idade certa, elas próprias começam a tomar as suas decisões. Mesmo que sejam ensinadas a fazer o que é errado, elas podem, através da observação e dos comentários de outras pessoas, perceberem o que é certo e o que não é. Ainda assim, e isso é um dos pontos mais interessantes de Shoplifters, Osamu e Nobuyo não são apenas “vilões” da história.

Não tenho dúvidas que eles gostavam das crianças. Que eles queriam proteger, cuidar e amar, do jeito deles, Shota e Yuri. Eles formavam, de seu jeito “torto”, uma família junto com a avó Hatsue e com a neta dela, Aki. A questão é que Osamu e Nobuyo, por tudo que eles tinham vivido, já tinham perdido um pouco a noção dos limites e do que poderia ser razoável. Além disso, temos a própria limitação da vida deles.

No final do filme, quando perguntam porque Osamu ensinava Shota e Yuri a furtar, ele comenta que gostaria de ensinar-lhes algo, e que isso era tudo que ele poderia repassar para eles. Na verdade, só entregamos para os outros aquilos que podemos. Se temos uma boa educação, se tivemos acesso ao ensino, à cultura e a diferentes formas de aprendizado, temos repertório suficiente para passar isso adiante. Se não tivemos nada disso, fica difícil passarmos para a frente bons ensinamentos, cultura e tudo o mais, certo?

Com isso eu não quero dizer que tudo pode ser justificado. Não, é claro que não. Apenas comento isso porque mesmo os “brutos” e as pessoas que não tiveram as melhores condições podem também ser amáveis, amorosas e se preocuparem com os outros. Podem cuidar melhor de uma criança do que alguém que tem mais “condições”. O que diferencia uns e outros é a capacidade que cada um tem de se doar e de amar.

Então que realidade seria melhor para Shota e Yuri? Eles viverem em uma família que tinha que os manter escondidos, sem irem para a escola e sem que eles pudessem falar a verdade, ou sendo enviados para as suas famílias “verdadeiras” ou para um abrigo? Difícil dizer. As duas realidades pareciam igualmente complicadas. Claro que as crianças devem ter o direito de se sentirem seguras, amadas e de irem para a escola, estudar e se desenvolver. Mas nem sempre é isso que elas encontram em suas famílias de origem.

Algo que eu achei incrível, no trabalho de Koreeda, é como ele constrói essa história. Temos uma visão da família que mora com Hatsue até que um furto de Shota e Yuri dá errado. A partir daquele momento, a partir da cena forte e impressionante do garoto se jogando de um elevado para impedir que Yuri fosse pega, tudo muda.

Descobrimos que, de fato, Osamu e Nobuyo era um casal do crime. Eles tinham matado uma pessoa e tinham se “refugiado” na casa da viúva Hatsue, que resolveu adotar Nobuyo como uma filha. Aki era, de fato, neta de Hatsue. Mas ela não sonhava que a avó estava “tirando” dinheiro dos pais dela.

Inicialmente, Nobuyo resiste em ficar com Yuri. Mas quando ela percebe que a menina era rejeitada e que era agredida pelos pais, ela vê nela a sua própria história. Nobuyo também foi bastante maltratada, até que encontrou em Osamu alguém que lhe ajudasse a escapar daquela situação.

Os dois acabam matando o marido de Nobuyo e ela encontra Hatsue, um mulher que também tinha sido abandonada pelo marido – e que acaba conseguindo sempre algum dinheiro da situação, da família que “o roubou” dela. Todos ali tinham algum tipo de trauma e de maus-tratos, mas todos pareciam se ajudar e se entender muito bem. Descobrimos também que Hatsue não era, de fato, avó de Aki – apenas uma “avó adotiva”.

A tomada de consciência de Shota em relação ao que estava acontecendo é algo marcante. Um grande trabalho de narrativa de Koreeda. Essa passagem de uma criança para outra fase de consciência sempre impressiona. Poucos filmes retrataram tão bem esta questão quanto este Shoplifters. Muito interessante também como o filme nos mostra que nem sempre o que aparenta é, de fato, realidade.

No final, descobrimos o que realmente acontecia na casa de Hatsue e as relações que foram estabelecidas naquela família inusitada. Mas a produção não termina aí. Vemos o que acontece com Osamu, Nobuyo, Shota e Yuri depois que o sequestro das crianças é descoberto. No fim, Nobuyo acaba se sacrificando e assumindo tudo, praticamente inocentando Osamu. Ele quer ficar com o garoto, mas Nobuyo sabe que o melhor para Shota não é ficar com eles.

Assim, ela nos ensina como uma “criminosa” pode ter mais consciência e altruísmo do que muitas outras pessoas “de bem”. O filme termina de forma marcante, com Shota e Yuri buscando as suas próprias representações de família. Onde eles vão encontrar o carinho e o amor que tanto merecem? Em que endereço, em que parte? As respostas para estas questões nem sempre são tão simples ou fáceis de encontrar. Muita vezes, diferente do que os finais felizes gostam de nos mostrar, elas nem são possíveis ou viáveis.

Um filme que nos faça pensar em tudo isso e que, de quebra, nos apresente um roteiro muito bem construído, uma direção cuidadosa, atenta e envolvente e um grupo de atores carismáticos e muito competentes, não é fácil de encontrar. Mas Shoplifters é exatamente isso tudo em um único pacote. Uma excelente pedida nessa temporada do Oscar 2019. Para mim, o Melhor Filme em Língua Estrangeira do ano – pelo menos entre os concorrentes principais e entre os filmes que eu assisti até agora.

No final das contas, Shoplifters nos mostra como, no fim das contas, nós formamos e escolhemos a nossa própria família. Que muitos pais e filhos “verdadeiros” são bastante disfuncionais e fazem mal uns aos outros, e que a família que formamos na nossa vida, com amigos e outras pessoas, muitas vezes é que nos salvam.

Tomara que mais pessoas rediscutam a questão da família e a sua formação. Nem todas as pessoas que tem filhos deveriam ter entrado neste barco, enquanto que outros que não quiseram ou não puderam ter filhos podem ser mais amorosos do que quem gerou uma vida. Shoplifters vale para pensarmos, refletirmos e revermos nossos conceitos. Até porque, muitas vezes, as pessoas “só fazem” o melhor que elas podem. Se esforçam ao máximo, mas o “máximo” que elas podem ainda é pouco, é insuficiente. Uma pena.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona muito bem nessa produção. Talvez apenas algumas sequências do filme, como quando Osamu e Nobuyo resgatam o “fogo” de sua relação, ou pelo fato da polícia não procurar, aparentemente, nas casas próximas da família de Yuri pela menina, é que fazem o filme não receber a nota máxima. Mas é por pouco, como vocês puderam ver acima.

Shoplifters é o 23º filme da trajetória de Hirokazu Koreeda como diretor. Ele estreou na direção em 1989 com o documentário para a TV Nonfix. Depois, em 1991, lançou o documentário Shikashi – Fukushi Kirisute no Jidai Ni. O primeiro longa dele, sem ser documentário, foi Maboroshi No Hikari, lançado em 1995. Fiquei com vontade de ir atrás de seus filmes. Apenas avaliando Shoplifters, acho que ele é um diretor diferenciado. Vale ser mais conhecido.

Gostei muito do trabalho do diretor e roteirista Hirokazu Koreeda. A forma com que ele conduz essa história, nos aproximando pouco a pouco da rotina e da vida da “família”, nos apresentando as suas relações de forma gradativa e sem pressa e, depois, dando uma bela e marcante reviravolta na produção, é exemplar. Toda produção que consegue surpreender o público com uma história que parecia uma coisa e depois se mostrou outra, como acontece com Shoplifters, tem grandes chances de marcar os seus espectadores. Além disso, Shoplifters tem momentos graciosos, de “a vida como ela é”, e um ótimo equilíbrio entre drama e humor.

O roteiro é um diferencial e um ponto forte de Shoplifters. Mas a direção de Koreeda, sempre focada no ótimo trabalho dos atores, assim como em revelar a sua intimidade e sua realidade, também não fica atrás. O elenco também se destaca, com um trabalho bastante interessante e envolvente dos carismáticos Lily Franky, Sakura Andô, Kirin Kiki, Mayu Matsuoka e, em especial, das crianças Jyo Kairi e Miyu Sasaki. Eles são incríveis.

Além deles, vale citar os coadjuvantes, que aparecem praticamente em pontas, Yûki Yamada e Moemi Katayama, que interpreta os pais biológicos de Yuri; e Naoto Ogata e Yôko Moriguchi, que interpretam os pais de Aki. Gostaria de citar outros coadjuvantes, como o comerciante que pede para Shota não ensinar Yuri a furtar, mas não encontrei o crédito deles nas notas dos produtores.

O roteiro e a direção de Koreeda são os pontos mais destacáveis da parte técnica desta produção. Mas outros elementos também merecem ser citados. Como a ótima direção de fotografia de Ryûto Kondô; a edição de Hirokazu Koreeda; a trilha sonora bastante pontual de Haruomi Hosono; o design de produção de Keiko Mitsumatsu; a decoração de set de Akiko Matsuba; e os figurinos de Kazuko Kurosawa.

Shoplifters estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até março de 2019, o filme participou, ainda, de impressionantes 44 festivais em diversos países. Nessa sua trajetória, o filme ganhou 35 prêmios e foi indicado a outros 88 – inclusive uma indicação ao Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme no Asia Pacific Screen Awards; para oito prêmios, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Atriz para Sakura Andô, Melhor Diretor para Hirokazu Koreeda, Melhor Atriz Coadjuvante para Kirin Kiki e Melhor Roteiro dados pelo prêmio da Academia de Cinema Japonesa; para o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Prêmio César; para o prêmio de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique; e para a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cinema de Cannes.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor Hirokazu Koreeda disse que desenvolveu a história desta produção a partir da pergunta “O que faz uma família?”. Ele vinha pensando em fazer um filme com esta proposta de discutir a família há anos. Para o diretor, Shoplifter é “socialmente consciente”. O objetivo da produção, segundo o cineasta, não foi explorar uma história a partir do ponto de vista de alguns indivíduos, mas tentar capturar a ideia de “família dentro da sociedade”. Ambientada em Tóquio, Shoplifters foi influenciado pela recessão econômica japonesa. O diretor se inspirou em relatos que ele viu na mídia, dessa época, de pessoas que viviam na pobreza e do furto de lojas.

Outra fonte de inspiração para o diretor foi a notícia de que várias famílias viviam do dinheiro recebido, de forma ilegal, da aposentadoria de seus pais mortos há muito tempo. Realmente, esse contexto social está bem presente nesta produção, o que é um ponto de destaque do filme, sem dúvida.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 194 críticas positivas e apenas duas negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 8,82. Chama muito a atenção, em especial, as notas altas e bem acima da média dos dois sites. O site Metacritic apresenta um “metascore” 93 para esta produção, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, Shoplifters fez pouco mais de US$ 3,26 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Um resultado que pode ser considerado bom para um filme estrangeiro, ainda mais no idioma japonês, na terra do Tio Sam, onde costuma fazer sucesso apenas os filmes daquele país.

Shoplifters é uma filme 100% do Japão. Como esse país foi o mais votado há tempos para que rendesse críticas aqui no blog, essa crítica passa a fazer parte de uma lista de produções que atendem a votações feitas aqui.

Faz tempo que eu assisti a Shoplifters. Algumas semanas. Então me perdoem se eu esqueci de algum aspecto relevante ou não tenha tão “fresco” na minha memória os detalhes do impacto que esta produção teve em mim. Mas é fato que eu achei ela uma das melhores desta temporada.

CONCLUSÃO: Que filme interessante, meus amigos! Muito bem narrado, com uma direção cuidadosa e uma história humana e envolvente, essa produção nos acerta com golpes precisos e nos momentos certos. Shoplifters é daqueles filmes que ficarão na nossa memória por muito tempo. Não apenas pela construção cuidadosa da história e por causa do carisma dos seus atores, mas especialmente pela forma com que ele nos faz refletir sobre temas importantes e que, algumas vezes, consideramos como de leitura óbvia. Para mim, um dos melhores filmes desta temporada do Oscar. Se você ainda não o assistiu, faça isso. Tenho certeza que você não vai se arrepender.

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Free Solo

Um feito incrível para um indivíduo e uma filmagem delicada e extremamente técnica. Free Solo tem esses predicados. É um excelente documentário? Para o meu gosto, não. Afinal, o que realmente interessa nesse filme, a parte mais interessante, está no final. Sim, a vida de Alex Honnold é interessante. Ele busca a perfeição em cada nova subida no “free style”, sem cordas ou qualquer segurança que não aquela propiciada por seu treino intenso e constante. O melhor do documentário é o registro de seu maior feito até então, a escalada do El Captain, no parque Yosemite. Um filme muito bem feito, tecnicamente, mas que carece de uma história mais rica e/ou de uma abordagem mais completa do retratado.

A HISTÓRIA: Começa com uma cena incrível. Subindo à uma altura impressionante, Alex Honnold utiliza apenas as mãos, os braços e os pés como recursos para manter-se preso à rocha em uma altura que arrepiaria a coluna da maioria dos mortais. Pouco a pouco, pacientemente, ele coloca as mãos e os pés nos locais certos e estratégicos e segue subindo. Na sequência, o trecho de um programa de TV anuncia o personagem retratado por esse filme. A apresentadora introduz Alex Honnold dizendo que ele é “um fenômeno em escalada livre”. Ela logo comenta: “Isso que eu não entendo. Um pequeno erro, um pequeno deslize e você cai para a morte”. Honnold apenas responde: “Sim, sim, você parece entender bem”. Essa é a história de Honnold e de sua aparentemente impossível missão de subir sem equipamentos o pico El Captain, que tem 914,4 metros de altura e que fica no parque Yosemite.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Free Solo): Sem dúvida alguma este é um dos documentários mais bonitos que eu já vi. As cenas captadas pelos diretores Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi são realmente incríveis, maravilhosas, de encher os olhos. Para mim, esse é o maior mérito de Free Solo. As cenas captadas pelos diretores e pelos diretores de fotografia – somam-se ao trabalho de Chin, nesse quesito, os diretores de fotografia Clair Popkin e Mikey Schaefer.

Mais do que um documentário sobre um estilo de escalada e sobre um ícone desse método, Free Solo é um documentário sobre um grande feito. Alex Honnold já tinha subido picos com 2.000 feets de altura – correspondente a 609,6 metros. Pensar que ele faz isso apenas colocando as mãos e os pés em locais-chave já é algo incrível. Mas ele tinha um grande sonho, de escalar o dificílimo El Captain, um pico com 3.000 feets de altura – 914,4 metros – e com um grau de dificuldade altíssimo.

Desde 2009, ele comenta no documentário, ele pensa em escalar o El Captain. A cada ano, ele pensa que aquele será o ano. Mas ele precisa se preparar bem para isso e, como descobrimos em Free Solo, também sentir que o dia certo chegou. O documentário, portanto, é sobre este “namoro” de Honnold com este marco na sua carreira. Vemos em detalhes os seus preparativos para isso e as pessoas que o cercam.

O quanto Free Solo se aprofunda na personalidade e no retrato da trajetória e da vida de Honnold? Para o meu gosto, menos que o desejado. Ainda que tenhamos entrevistas com a namorada dele, Sanni McCandless, com um de seus grandes parceiros de escalada livre, Tommy Caldwell, que ajuda Honnold nos preparativos para El Captain, e com a mãe do retratado, no fundo não sabemos tanto sobre os gostos, as manias, a personalidade e a trajetória de Honnold. Muitos poderiam considerá-lo louco, por optar por um estilo de escalada extremamente mortal. Em algumas ocasiões ele explica a razão de fazer o que faz.

Para Honnold, aquele tipo de escalada, mais arriscada, cobra dele a perfeição. Ele deve ser exato, preciso, apresentar concentração e foco total naquele momento de subida. Isso traz satisfação para Honnold, assim como a sensação de estar realmente vivo naqueles momentos em que enfrenta o risco de subir em alturas impressionantes sem qualquer proteção de equipamentos de escalada.

Os diretores Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi tentam se aprofundar um pouco na vida e na personalidade de Honnold mas, para isso, basicamente, eles entrevistam o retratado. Evidentemente que sempre teremos um retrato limitado quando ouvimos a própria pessoa sobre a qual estamos tentando descobrir “algo mais”. Então sim, senti falta de um pouco mais de profundidade sobre a vida e a personalidade de Honnold. Mas se encararmos Free Solo como uma produção sobre um grande feito, esse documentário cumpre bem o seu papel.

O problema do filme, contudo, é justamente o seu foco e objetivo. A melhor parte de Free Solo começa quando Honnold realmente resolve voltar para El Captain e encarar o desafio para valer – um ano antes ele tinha pensado em fazer o mesmo, mas acabou desistindo, inseguro com a escalada e incomodado (aparentemente) com a presença das câmeras. Quando ele realmente vai subir o pico em Yosemite, o documentário entra em sua melhor parte. Realmente é impressionante assistir o feito dele, com todo o seu risco e perigo, beleza e perfeição. Aquelas sequências valem todo o tempo dedicado para assistir ao documentário.

Comento que isso também é o ponto débil da produção porque fora os momentos de preparação para a escalada, as tentativas dos diretores de adentrarem mais na vida e na personalidade de Honnold não surtem o efeito desejado. Assim, depois de um começo interessante, temos a um grande “meio” da produção um tanto desinteressante até que chegamos ao ponto alto do filme. Acho que o documentário poderia ser um pouco mais curto, retirando alguns trechos que não são realmente relevantes para a história, ou poderia até ter a duração que tem, ou um pouco mais, se os diretores conseguissem explicar um pouco mais do fenômeno Honnold.

De qualquer maneira, pelas cenas incríveis que apresenta e pela perfeição técnica das filmagens, especialmente nos momentos de escalada, Chin e Vasarhelyi estão de parabéns – assim como Popkin e Schaefer. Um “plus” interessante da produção é quando os realizadores e o próprio Honnold questionam o trabalho de filmar esses feitos. Até que ponto as câmeras podem atrapalhar uma escalada que pode terminar com um acidente fatal? Até que ponto vale a pena arriscar-se para ter o seu feito documentado? Esses são questionamentos que valem para muitos documentaristas mas, especialmente, para pessoas envolvidas em projetos tão ousados quanto os de Honnold. Acho esse questionamento bastante pertinente e é um ponto extra do filme interessante.

Mesmo Free Solo carecendo de um desenvolvimento melhor, algo é preciso ser dito: é admirável o trabalho e a postura de Alex Honnold. Um dos maiores atletas de todos os tempos em um esporte que tem muitos nomes memoráveis e que já fizeram história, chama a atenção a simplicidade dele.

Mesmo depois de fazer um dos grandes – ou o maior – feitos da sua carreira, Honnold não perdeu o foco de continuar o seu preparo físico, que é constante. O exemplo dele realmente pode inspirar qualquer pessoa a focar-se em fazer o melhor na sua área, mantendo o foco, a concentração e o trabalho árduo para exprimir o melhor de si. Honnold, em si, é um belo exemplo em vários sentidos. A história dele nos lembra, como diversas outras de homens que buscaram a excelência, como o ser humano é capaz dos maiores feitos sempre que consegue se superar e deixar para trás todas as suas limitações.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quem acompanha o blog há algum tempo sabe que, para mim, o melhor documentário do ano foi injustiçado no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Won’t You Be My Neighbor? (com crítica neste link) nem chegou a ficar entre os cinco finalistas ao Oscar de Melhor Documentário neste ano. Para o meu gosto, o filme sobre Fred Rogers é muito mais rico, interessante e aprofundado do que o documentário que acabou levando a estatueta para casa. Mas, como vocês também devem saber, o Oscar tem dessas injustiças. Dificilmente existe algum ano da premiação em que o melhor filme ou intérprete não acaba perdendo a estatueta para alguém não tão bom. A injustiça do ano, me parece, foi em Documentário mesmo.

Alguém pode dizer – e talvez você esteja pesando isso: “Ah, Alessandra, mas como você é chata! Olha o feito incrível que o Alex Honnold fez e que Chin e Vasarhelyi nos apresentaram. Algo exuberante, incrível, maravilhoso!”. De fato, o que Honnold faz é inacreditável e fantástico, mas eu não consigo olhar para Free Solo apenas pela ótica do registro da conquista de Honnold. Olho para este filme como o que ele é, um filme, um documentário. Analisando sob esta perspectiva, de obra de cinema, Free Solo deixa a desejar justamente no desenvolvimento, na construção e no aprofundamento da história. Mas tecnicamente falando, como eu disse antes, ele é perfeito.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o grande destaque de Free Solo é a direção de fotografia do trio Jimmy Chin, Clair Popkin e Mikey Schaefer. Eles fazem um trabalho realmente excepcional na captura das cenas envolvendo os treinos e escaladas de Alex Honnold. A direção de Chin e de Elizabeth Chai Vasarhelyi também é boa, mas acho que faltou um pouco mais de profundidade no trabalho deles de pesquisa.

Free Solo é apenas o segundo trabalho de Jimmy Chin como diretor. Antes, ele tinha dirigido a Meru, documentário de 2015 que mostra a jornada de três atletas que tem a obsessão de escalar o Monte Meru, no Himalaia. Ele fez o filme ao lado de Elizabeth Chai Vasarhelyi. Ela sim, com uma experiência maior na direção. Elizabeth estreou na direção em 2003 dirigindo o documentário A Normal Life. Além de Free Solo e Meru, ela dirigiu ainda Youssou Ndour: I Bring What I Love, Touba, Incorruptible e episódios das séries de documentário feitas para a TV Abstract: The Art of Design e Enhanced. Uma diretora a ser acompanhada.

Dá para destacar, deste filme, ainda, a trilha sonora de Marco Beltrami; a edição de Bob Eisenhardt; e o trabalho dos profissionais que integraram o Departamento de Câmera e Elétrica, formado por Chris Alstrin, Andrew Berends, Samuel Crossley, Greg Harriott, Jim Hurst, Matthew Irving, Keith Ladzinski, Cheyne Lempe e John Trapman.

Free Solo estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Telluride. Até março de 2019, o filme participou, ainda, de outros 11 festivais de cinema em diversos países. Nessa trajetória ele ganhou 19 prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Documentário, e foi indicado a outros 44 prêmios. Além de ganhar o Oscar, Free Solo levou para casa o BAFTA e 9 prêmios de Melhor Documentário (muitos deles conferidos pelo público dos festivais e não pelos críticos).

Vale comentar uma curiosidade sobre o trabalho de Alex Honnold. Ao escalar El Cap, ele conseguiu a “tripla coroa” do Parque Yosemite. Antes ele já tinha subido Half Dome e o Monte Watkins.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Free Solo, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 125 críticas positivas e duas negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota 8,22. O site Metacritic apresenta um “metascore” 83 para esse documentário, fruto de 24 críticas positivas e de 1 crítica mediana, além de conferir para ele o selo “Metacritic Must-see”.

Além de ser um sucesso de crítica, Free Solo é um sucesso nas bilheterias – especialmente para um documentário. De acordo com o site Box Office Mojo, o filme fez pouco mais de US$ 16,9 milhões nos cinemas americanos. Um resultado expressivo para um filme do gênero, o que mostra a popularidade de Honnold.

Free Solo é um documentário com produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, o filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem produzido, filmado com esmero e que mostra, de quebra, alguns dilemas de quem faz um documentário no estilo de Free Solo. Ninguém quer colocar em risco o “retratado” ao mesmo tempo em que todos querem seguir fazendo o que amam. Qual é a equação para que tudo dê certo? Exatamente o que vemos na tela. Treinos infindáveis de Alex Honnold e a confiança dele, em um certo dia, de que tudo daria certo. Free Solo tem imagens incríveis e um feito realmente extraordinário como foco central da história. Pena que o retrato de Honnold tenha sido prejudicado pela proximidade dos realizadores do personagem. O filme poderia ser mais completo sobre o free style ou sobre Honnold. Deixa um tanto a desejar na sua profundidade. Por outro lado, é um exemplo de técnica. Vale ser visto, mas não considero o melhor documentário desta temporada.

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If Beale Street Could Talk – Se A Rua Beale Falasse

Um dos filmes mais contundentes sobre a discriminação racial e a falta de igualdade de direitos nos Estados Unidos. If Beale Street Could Talk é uma história simples, mas muito bem escrita e com propósitos claros. Além de mostrar, sem meandros, como os negros nos Estados Unidos foram e continuam sendo tratados como seres inferiores, essa produção também foca em uma história de amor poderosa. Sem dúvida alguma, If Beale Street Could Talk tem muitas qualidades. Apesar disso, acho que ele poderia ser um pouco mais curto. Facilmente poderíamos tirar meia hora da produção sem que ela ficasse pior.

A HISTÓRIA: Começa com uma apresentação de James Baldwin sobre a Rua Beale: “A Rua Beale é uma rua em New Orleans onde o meu pai, Louis Armstrong e o jazz nasceram. Cada pessoa negra que nasceu na América nasceu na Rua Beale, nasceu no bairro negro de alguma cidade americana, seja em Jackson, Mississippi, ou no Harlem, New York. A Rua Beale é o nosso legado. Esse romance trata da impossibilidade e da possibilidade, a necessidade absoluta de dar expressão a esse legado. A Rua Beale é barulhenta. Deixo ao leitor a tarefa de discernir o sentido da batida”.

Na primeira sequência, o casal Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James) descem uma escada. Eles caminham de mãos dadas por um lugar tranquilo. Quando chegam próximos da avenida, eles se olham. Tish pergunta se ele está pronto. Fonny diz que ele nunca esteve tão pronto em sua vida. Eles se beijam. Na próxima cena eles se olham através de um vidro, porque Fonny está preso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a If Beale Street Could Talk): Esse é o típico exemplo de uma produção que começa muito, muito bem e que depois acaba diminuindo a sua força com o passar do tempo. O melhor de If Beale Street Could Talk é o seu começo, quando temos uma presença maior do texto de James Baldwin através da narrativa de Tish Rivers. Do meio para o final, o filme acaba ficando um tanto repetitivo com a evolução lenta do caso de Alonzo “Fonny” Hunt.

Isso não tira o mérito da produção, que tem outras qualidades. Além do texto de James Baldwin, presente em seu romance adaptado pelo roteirista e diretor Barry Jenkins, o filme tem como ponto alto o trabalho dos atores envolvidos no projeto. Todos estão muito bem, mas destaco o trabalho de duas atrizes: KiKi Layne como a protagonista e Regina King como Sharon Rivers, a mãe de Tish. Elas roubam a cena cada vez que aparecem, é algo impressionante.

A história começa muito bem, com a problemática do casal Tish e Fonny sendo apresentada de forma franca e direta. Fonny acaba de ser preso, e Tish apresenta a ele, à sua família e a nós, espectadores, a sua gravidez. Isso logo nos primeiros minutos da produção. A expectativa e o drama estão armados porque nós – e nem os personagens –  sabemos ainda por quanto tempo Fonny ficará preso. Todos desejam que ele saia logo da prisão. Afinal, ele foi injustamente acusado de estupro. Mas, como Tish nos fala logo no início de If Beale Street Could Talk, essa história se passa nos Estados Unidos, um país que se acostumou a tratar os negros de forma diferente e desigual.

Então a problemática está toda armada. De forma inteligente, Jenkins equilibra a narrativa no “tempo atual” com o retorno no tempo através de flashbacks para conhecermos melhor a história do relacionamento de Tish e Fonny. Um dos pontos altos do filme é quando a família de Tish convida a família de Fonny para contar-lhes a novidade da gravidez de Tish. Nesse momento, temos um exemplo contundente como o fanatismo envolvendo a “fé” pode provocar mais danos do que trazer soluções.

A reação da mãe de Fonny, a Sra. Hunt (Aunjanue Ellis), ao saber que Tish está grávida do filho, é estarrecedora. Mas tão típica de quem se acha superior aos demais e usa a “fé” como desculpa para a sua própria crueldade e maldade. Eu poderia escrever um tratado sobre isso, mas não vou. De qualquer forma, vale comentar que este é um dos pontos altos do filme, porque nos faz refletir sobre como as pessoas se dividem e rivalizam em momentos em que elas deveriam estar buscando a união e a empatia.

Até esse momento, o filme vai muito bem. Mas depois que a família de Fonny sai do apartamento, seguimos naquela mesma levada de tempo presente e flashbacks que acabam sendo um tanto repetitivos. Acho que o filme poderia ter uma duração ligeiramente menor e que alguns trechos poderiam ser um pouco condensados. Dou como exemplo toda a narrativa envolvendo Fonny e o seu amigo Daniel Carty (Brian Tyree Henry). Certo que é interessante termos a narrativa de Daniel sobre os terrores da prisão e como ele também foi preso injustamente. Mas os encontros e as interações entre os amigos poderiam ter sido resumidos sem prejuízo para a história.

O mesmo eu vejo em relação ao romance de Tish e Fonny. Algumas sequências poderiam ter sido suprimidas sem maiores problemas. Também acho que a viagem de Sharon Rivers atrás da pessoa que acusou Fonny, Victoria Rogers (Emily Rios) poderia ter aparecido antes na história. Em resumo, If Beale Street Could Talk poderia ter entre 20 e 30 minutos a menos de duração. Isso faria bem para a produção.

Mas, no geral, o filme é muito bem narrado, apresenta uma história envolvente e interessante que perde um pouco de força no meio da narrativa mas que tem alguns grandes momentos. O destaque vai para o texto de Baldwin, geralmente bem trabalhado por Jenkins, e para o trabalho dos atores, que estão muito bem em seus papéis. Todos, sem exceção. É um filme necessário, especialmente pela franqueza com que ele trata o tema da injustiça contra os negros nos Estados Unidos. Algo histórico e que continua acontecendo. Infelizmente.

Além da questão racial, que é algo fundamental nesta produção, algo que gostei em If Beale Street Could Talk é como, no fundo, esta é uma história de amor. Tish simboliza toda a abnegação e determinação de uma mulher que ama. Lembrando trechos da Bíblia, podemos dizer que esta produção resgata todo aquele conceito de que o amor é paciente, de que ele suporta tudo e espera tudo. Como falo na conclusão, inclusive. 😉

Sim, esse filme nos mostra a essência do amor. Não aquele construído sobre falsos preceitos, mas aquele verdadeiro, de uma pessoa que conhece a outra em sua profundidade. Nesses parâmetros, a espera é difícil, mas é suportável. Porque Tish e Fonny, apesar do vidro e das grades, nunca se separaram. Estando juntos, mesmo que não o tempo todo, eles conseguiram suportar a injustiça e o desprezo. Apenas o amor é capaz disso. Nesse sentido, este é um belo filme. Porque nos conta uma história necessária, bela e também inspiradora.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme não deixa claro quando essa história se passa. Mas procurando saber um pouco mais sobre a produção, descobri que a história de If Beale Street Could Talk se passa nos anos 1960. Infelizmente, naquela época, sem a tecnologia que temos hoje de câmeras espalhadas pelas ruas, em lojas e equipamentos de monitoramento, realmente a palavra de um policial que queria ferrar um negro podia valer mais que os fatos. Alguns reclamam do estilo “big brother” em que vivemos atualmente, mas é melhor assim do que antes, quando a perseguição contra uma pessoa podia ser viabilizada porque o ônus da prova é de quem é acusado.

Certo que Fonny estava apenas com a namorada e um amigo ex-presidiário na hora em que o crime de Victoria foi praticado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas nem Tish, a família deles ou o advogado Hayward (Finn Wittrock) poderiam ter conseguido alguma outra testemunha que tivesse visto Fonny entrando em casa e não saindo de lá ou alguém no local em que os fatos aconteceram com Victoria para dizer que um negro não saiu correndo em direção à Rua Beale depois do crime? Eles também poderia ter conseguido testemunhas para expor o preconceito do policial, não? Acho que alguns pontos faltaram ser explorados por essa história.

A grande surpresa desse filme, para mim, nem foi o ótimo trabalho de Regina King como Sharon Rivers, mãe de Tish. Depois dela ganhar todos os prêmios da temporada, inclusive o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, eu já esperava que ela tivesse grandes momentos em If Beale Street Could Talk. Mas quem me surpreendeu pelo excelente trabalho foi KiKi Layne como Tish. Não lembro de ter visto a atriz em outro trabalho, então ela foi uma revelação para mim. Pela característica do filme, como ela é a narradora e também pelo fato do personagem de Stephan James estar preso, é KiKi Layne que aparece na maior parte das cenas. E ela dá um show. Faz uma parceria ótima com James.

Pelo que eu vi, KiKi Layne tem uma trajetória realmente recente. Ela estreou em 2015 no curta Veracity. Depois, ela fez um trabalho na série Chicago Med e estrelou um filme televisivo chamado Untitled Lena Waithe Project antes de estrelar If Beale Street Could Talk. Ou seja, ela praticamente estreia nessa produção. Logo, a veremos em vários outros filmes, começando por Native Son e Captive State, duas produções de 2019 já finalizadas. Acho que vale ficar de olho nela.

Além de KiKi Layne e de Regina King, que se destacam nas suas interpretações, vale comentar o belo trabalho de Stephan James como Fonny; de Colman Domingo como Joseph Rivers, pai de Tish; de Teyonah Parris quase em uma ponta como Ernestine, irmã mais velha de Tish; de Michael Beach também em quase uma ponta como Frank Hunt, pai de Fonny; de Aunjanue Ellis em uma interpretação potente de apenas uma sequência como a mãe de Fonny; de Ebony Obsidian e Dominique Thorne como Adrianne e Sheila, respectivamente, irmãs de Fonny; de Diego Luna também em uma ponta como Pedrocito, amigo de Fonny; de Finn Wittrock como Hayward, advogado contratado para defender Fonny; de Ed Skrein como o policial Bell, que resolve se vingar de Fonny acusando-o de um crime que ele não cometeu; de Emily Rios como Victoria Rogers, a mulher que acusa Fonny; de Dave Franco como Levy, o primeiro sujeito que trata Tish e Fonny como pessoas normais; de Brian Tyree Henry como Daniel Carty, amigo de Fonny e que está com ele quando o crime de Victoria acontece; e de Kaden Byrd como Alonzo Jr, filho do casal. Todos estão bem em seus papéis, sejam eles pequenos ou um pouco maiores do que algumas cenas.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a ótima direção de fotografia de James Laxton e a trilha de sonora com uma pegada forte de jazz e muito presente durante a produção de Nicholas Britell. Também vale comentar a edição competente de Joi McMillon e Nat Sanders; o design de produção de Mark Friedberg; a direção de arte de Robert Pyzocha, Oliver Rivas Madera e Jessica Shorten; a decoração de set de Devynne Lauchner e Kris Moran e os figurinos de Caroline Eselin.

If Beale Street Could Talk estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, até março de 2019, de outros 13 festivais de cinema em diversos países. Na sua trajetória, o filme dirigido por Barry Jenkins ganhou 87 prêmios – incluindo o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Regina King – e foi indicado a outros 151 prêmios. Números impressionantes, realmente.

Além de ganhar o Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante, Regina King ganhou o Globo de Ouro na mesma categoria, assim como 39 outros prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante – impressionante! Destaque também para 8 prêmios de Melhor Filme, 3 prêmios de Melhor Diretor para Barry Jenkins, 13 prêmios de Melhor Trilha Sonora, 9 prêmios de Melhor Roteiro Adaptado e 2 de Melhor Atriz ou Melhor Performance para KiKi Layne. O filme foi indicado, no Oscar, ainda, para os prêmios de Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Adaptado.

Cliques de fotógrafos como Gordon Parks, Jack Garofalo e Paul Fusco foram fundamentais para que o diretor e o diretor de fotografia conseguissem restaurar o clima do final dos anos 1960 e do início dos anos 1970 de Nova York. As fotografias das prisões da cidade feitas por Bruce Davidson também foram usadas como referência. Para acertar na luz, Jenkins e o diretor de fotografia James Laxton analisaram o trabalho de Roy DeCarava. “Queríamos traduzir a linguagem de Baldwin e a energia limpa do Harlem também no visual e na fotografia”, comentaram os realizadores.

O primeiro trailer de If Beale Street Could Talk foi lançado no dia 2 de agosto de 2018, no aniversário de 94 anos do escritor James Baldwin.

If Beale Street Could Talk é dedicado para James Baldwin, que é o escritor preferido do diretor e roteirista Barry Jenkins. Publicado em 1974, o filme tinha rendido, antes, uma adaptação feita por Robert Guédiguian e lançada em 1998.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para If Beale Street Could Talk, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 289 críticas positivas e 17 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,62. O site Metacritic apresenta um “metascore” 87 para o filme, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana – o site ainda apresenta o selo “Metacritic Must-see” para If Beale Street Could Talk.

De acordo com o site Box Office Mojo, If Beale Street Could Talk faturou US$ 14,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é um super resultado, mas também não está mal.

If Beale Street Could Talk é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: O filme começa muito bem e tem trechos realmente preciosos. Ao mesmo tempo, If Beale Street Could Talk acaba sendo um tanto lento e longo demais. Apesar disso, achei a história bonita, muito bem conduzida e com ótimas atuações. Os maiores acertos do filme envolvem o seu discurso, bastante sincero sobre o preconceito racial que atinge negros de forma cruel e desumana nos Estados Unidos – e em outras partes, certamente. Está na hora de falarmos sobre isso com franqueza e de pararmos de fugir do assunto. Além disso, If Beale Street Could Talk nos mostra, de forma muito franca e honesta, como o amor tudo suporta, tudo espera. Ele é forte, ele resiste, ele perdura. Quando é verdadeiro. Um belo filme, com mensagens importantes e muito bem apresentadas.