Avengers: Infinity War – Vingadores: Guerra Infinita

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Tudo o que os fãs dos super heróis esperam para um filme estrelado por eles encontramos em Avengers: Infinity War. Para começar, o que há de melhor em efeitos visuais e virtuais. As imagens mais incríveis criadas por artistas com a ajuda da tecnologia vemos em cena. Depois, temos alguns dos personagens mais amados das HQs reunidos e um super vilão – possivelmente o mais temido de todos os tempos – para ser combatido. Embalando tudo isso, um roteiro recheado de cenas de ação, de algumas piadas perspicazes e de certo drama pincelado aqui e ali.

A HISTÓRIA: Uma nave de refugiados está sendo atacada. Famílias de asgardianos estão sendo mortas, e um pedido de socorro percorre o Universo. Dentro da nave, Ebony Maw (Tom Vaughn-Lawlor), um dos mais fieis seguidores e aliados de Thanos (Josh Brolin), diz para as vítimas que elas devem se alegrar, porque elas serão sacrificadas em nome do equilíbrio do Universo. Thanos, por sua vez, diz que o destino sempre chega, e exige que Loki (Tom Hiddleston) lhe entregue o cubo de Tesseract para que Thor (Chris Hemsworth) não seja morto.

Thor diz que não adianta Thanos pedir por Tessaract porque ele foi destruído em Asgard. Mas Loki mostra o cubo e entrega uma das Joias do Infinito que Thanos tanto queria. Apesar de ceder, Loki diz que eles continuarão a ver a luz do dia, e afirma que eles tem o Hulk (Mark Ruffalo). Ele ataca Thanos, mas acaba sendo vencido. Antes de Hulk ser morto, contudo, Heimdall (Idris Elba), que está caído no chão, consegue enviar o gigante verde para a Terra. Agora, Thanos tem duas Joias do Infinito. Em breve, ele seguirá atrás das outras quatro, incluindo duas que estão na Terra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Avengers: Infinity War): Eu prometo tentar não escrever um texto gigante sobre esse filme, beleza? 😉 Como já comentei antes em algum texto aqui no blog, eu sempre fui uma grande fã de HQs. Li bastante, especialmente na adolescência. Hoje, leio mais The Walking Dead, apenas – e, eventualmente, alguma outra HQ mais antiga.

Dito isso, claro que eu já tinha visto os principais heróis da Marvel em ação antes. Dos vários filmes da grife lançados no cinema, assisti a alguns – mas a maioria, acredito, eu perdi. Dito isso, quero dizer sim que eu me lembrei de todos os personagens principais desse filme – exceto Thanos e seus aliados, dos quais eu não tinha lembrança.

Acho importante para você que, como eu, talvez não tenha assistido a todos os filmes de heróis da Marvel dos últimos 10 ou 15 anos, dar uma olhada nessa matéria do jornal O Globo. Nela, são citados os sete filmes mais importantes que você deveria assistir antes de conferir Avengers: Infinity War. O quarto e o sétimo filme da lista me parecem os mais importantes – os demais são bacanas também, mas para quem conhece bem os personagens dos quadrinhos, talvez eles não sejam tãoooo fundamentais assim.

Dito isso, comento que sim é possível assistir a Avengers: Infinity War sem ter visto aos sete filmes listados pelo O Globo ou mesmo às outras produções da Marvel que envolvem Os Vingadores e que não estão na lista. O importante mesmo é você conhecer relativamente bem os personagens, as suas personalidades e a importância de cada um naquela constelação de heróis. Fui assistir ao filme em um cinema 3D logo na primeira sessão de sábado, e qual a minha surpresa em conseguir um dos últimos ingressos para a sessão.

O cinema estava praticamente lotado – exceto pelas fileiras bem na frente, que ninguém quer. Tive sorte em consegui entrar. E gostei muito do que eu vi. Para começar, Avengers: Infinity War tem aquela pegada de uma nave no espaço sendo atacada que faz os fãs de cinema e da cultura nerd lembrarem imediatamente de Star Wars. Logo essa impressão desaparece quando vemos ao vilão Thanos, a Loki e Thor, o que nos faz “cair” rapidamente no universo da Marvel.

O começo de Avengers: Infinity War é ótimo. Com bons diálogos e uma luta bacana entre Hulk e Thanos que serve como um “cartão de visitas” do que veremos depois. Essa qualidade inicial do filme também acaba sendo um problema depois. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso porque você acaba esperando um filme cheio de cenas de ação, de disputas e de muita adrenalina, mas temos várias partes da história com “cenas emotivas” entre dois ou mais personagens.

Sim, há cenas de ação que todo fã espera, mas talvez em menor número do que gostaríamos. No fim das contas, a narrativa mostra Thanos, que acredita que tem como “missão” exterminar metade da vida no Universo para que o equilíbrio seja reestabelecido, em busca das cinco Joias do Infinito que lhe faltam – ele começa a narrativa já com a Joia do Poder. Se Thanos conseguir o seu objetivo, ele se tornará onipotente e poderá, com um estralar de dedos, exterminar metade da vida nos planetas Universo afora.

Sobrevivem àquela cena inicial do filme os heróis Thor e Hulk. Cada um deles parte em uma direção para buscar aliados para tentar impedir Thanos. E aí que a narrativa se fragmenta, com um núcleo na Terra liderado por Hulk, Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e Peter Parker/Homem Aranha (Tom Holland) tentando proteger a Joia do Tempo que está com o Doutor Estranho, enquanto outro grupo, liderado por Thor e os Guardiões da Galáxia busca atacar Thanos em duas frentes.

Mesmo o grupo da Terra também acaba se dividindo. Depois de Doutor Estranho ser atacado por Ebony Maw e sequestrado por ele, o Homem de Ferro e o Homem Aranha conseguem embarcar na nave e seguir o vilão para tentar resgatar o Doutor Estranho, enquanto o Hulk, que ficou na Terra, entra em contato com Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans).

Quando o Visão (Paul Bettany), que tem a Joia da Mente, passa a ser o novo alvo dos aliados de Thanos, o herói e a sua companheira Wanda Maximoff/Feiticeira Escalate (Elizabeth Olsen) acabam sendo socorridos por Steve Rogers, Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson). Enfim, isso tudo vocês sabem, vendo o filme.

Mas fiz questão de contar toda essa fragmentação da narrativa para comentar como a história, que é linear e parece bastante “simples” no direcionamento da narrativa, acaba ganhando em velocidade e em fragmentação ao se dividir em algumas linhas de ação. Não temos apenas a Thanos perseguindo Joia por Joia. O tempo dos heróis fica mais curto porque enquanto Thanos persegue algumas Joias, os seus comparsas atacam outras frentes para conquistar as demais.

O objetivo dos heróis, por outro lado, é tentar preservar as Joias que estão no poder de dois membros desse grupo: Doutor Estranho e Visão. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto isso, boa parte da turma dos Guardiões da Galáxia – com exceção de Groot (voz de Vin Diesel) e de Rocket (voz de Bradley Cooper), que acabam seguindo a direção de ajudar Thor a forjar um novo martelo para combater Thanos -, incluindo a “filha adotiva” do vilão, Gamora (Zoe Saldana), tentam impedir Thanos de conseguir as duas Joias que estão em outros lugares do Universo.

Como os fãs dos heróis da Marvel sempre esperam dos filmes que buscam honrar os personagens das HQs, Avengers: Infinity War tem ação, humor e suspense nas doses certas. Essa produção rende algumas boas risadas, em tiradas um tanto sarcásticas com as quais estamos acostumados. As cenas de ação são ótimas, mas talvez o filme poderia ter um pouco mais desse elemento.

A narrativa, que na maior parte do tempo se apresenta bem envolvente e ágil, tem algumas desaceleradas importantes – e, algumas vezes, elas me pareceram um tanto forçadas – para explorar o lado “sentimental” dos personagens. Sim, é bacana ver a tantos personagens importantes em cena. Também faz sentido que o roteiro de Christopher Markus e de Stephen McFeely explorasse as relações entre os personagens, mas algumas sequências entre eles me pareceram um tanto previsíveis e exageradas – especialmente as sequências entre Visão e Wanda Maximoff e entre Thanos, Gamora e Nebulosa (Karen Gillan).

Mas ok, nem sempre dá para um filme tão complexo como esse, com tantos personagens e tanta narrativa contada em diversos HQs e resumida em apenas uma produção, ser totalmente coerente ou equilibrado. O que importa, no fim das contas, é que Avengers: Infinity War atende a grande parte da expectativa dos fãs do gênero. Para começar, o filme é impecável nos efeitos especiais e visuais. Depois, para os fãs, é inegável o efeito de êxtase que uma produção com tantos astros e estrelas juntos, interpretando os seus personagens preferidos, desperta.

Também são importantes – e os pontos altos do filme – as cenas de batalha, luta e as de humor. Para arrematar tudo isso, ainda temos o final dessa produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim como um dos arcos narrativos do HQ conta, em uma das realidades possíveis – o Doutor Estranho viu pouco mais de 4 milhões de alternativas ao viajar “no tempo” -, Thanos consegue todas as Joias do Infinito e faz realmente a limpa que ele gostaria no Universo.

Não deixa de ser emocionante e até de nos arrepiar quando vemos, no final de Avengers: Infinity War, diversos heróis sumindo na nossa frente após o sucesso de Thanos. É de doer o coração ver a T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman), o Homem-Aranha, Doutor Estranho, Peter Quill/Senhor das Estrelas (Chris Pratt) e tantos outros partirem tão repentinamente. Quando o filme acaba, a plateia fica se perguntando se aquilo realmente aconteceu.

Bem, avaliando as HQs que tratam sobre esse assunto, sim, em um dos arcos narrativos Thanos conseguiu exatamente o que queria. E se metade da população do Universo foi exterminada com o estrelar de dedos dele, é de se presumir que metade – ou um pouco menos – dos heróis também passaria pelo mesmo, não é?

Ainda assim, segundo o próprio Doutor Estranho comentou ao viajar no tempo, havia uma possibilidade – entre mais de 4 milhões – dos heróis vencerem o vilão. Quem sabe essa possibilidade realmente não aconteceu em alguma realidade paralela e os heróis conseguem reverter o que sucedeu nas demais linhas narrativas?

Estou apenas fazendo uma especulação aqui. Mas mesmo que o final seja aquele mesmo, interessante ver a um filme da Marvel que não termina com os heróis se dando bem – afinal, nem sempre é isso que acontece. Uma outra possibilidade que vejo no desdobramento desse filme é que na próxima produção os Vingadores e os Guardiões da Galáxia que restaram realmente unam as forças (talvez até com a adição de outros heróis) e, ao derrotar Thanos, eles consigam “restabelecer” a vida com a Manopla do Universo e as suas Joias. Afinal, se um estralar de dedos mata metade da população do Universo, por que um novo estralar de dedos não poderia “reviver” as mesmas pessoas? A conferir, pois.

Pensando na cena que vemos após os créditos e que mostra Nick Fury (Samuel L. Jackson) também desaparecendo, mas, antes, enviando uma mensagem de Código Vermelho, podemos presumir que o alerta será respondido por alguém. Provavelmente pelos heróis que restaram – e que devem se reunir para enfrentar Thanos. Então muito mais virá pela frente ainda.

Finalizando essa crítica, comento que esse filme me agradou, mas que ele teve um impacto menor do que outra produção recente que assisti baseada em HQs: Black Panther (comentada por aqui). Se, por um lado, Avengers: Infinity War agradou pelos efeitos visuais e especiais e por fazer desfilar tantos astros e personagens legais na nossa frente, por outro lado essa quantidade de personagens torna a narrativa menos rica. Diferente de Black Panther, que teve muito mais espaço para desenvolver os personagens e suas relações.

Apesar disso, vale comentar como Avengers: Infinity War trata de um assunto que parece exagerado mas que já fez parte da nossa história no passado e que volta à tona agora, com o recrudescimento de posturas de direita extremista: o desejo de alguns de determinar quem deve viver ou morrer e de, movidos por essa ânsia, promover “limpas” e/ou genocídios de contingentes importantes em nome de um “equilíbrio” da sociedade.

Hitler, antes, defendia o extermínio de vários grupos que não eram da “raça superior”. Vários políticos, atualmente, querem fechar fronteiras para refugiados, tirar do próprio território pessoas que eles consideram “indignas” de estar no país e outros tipos de exclusão/extermínio por causa de raça ou credo.

Muitos, a exemplo de Thanos, defendem essas práticas em nome do “equilíbrio” e como solução para o crescimento da população e a diminuição dos recursos finitos da Terra. Assim, guardadas as devidas proporções de um filme de ficção e baseado em HQs, Avengers: Infinity War nos faz pensar sobre questões bastante reais e que fazem parte da nossa realidade – mesmo que não estejamos inseridos (ainda) em regimes de exceção. Mas vale o alerta – e a reflexão.

Dito isso, devo comentar que sim, Avengers: Infinity War e Black Panther são estilos de filmes bem diferentes, com propostas igualmente diferenciadas. Mas, inevitavelmente, sempre comparamos as nossas experiências com o cinema. Assim, sendo, gostei sim de Avengers: Infinity War, mas não tanto gostei de Black Panther. Dito isso, quero dizer que vale muito a pena assistir a Avengers: Infinity War em 3D e nos cinemas, é claro.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu li a algumas histórias de Thanos. Mas não sou nenhuma especialista no super vilão e em suas peripécias envolvendo Os Vingadores e demais heróis das HQs – como o Surfista Prateado. Mas do que eu conheço e do que eu li, me parece que Avengers: Infinity War toma diversas “licenças poéticas”, digamos assim. Parece que o filme não é muuuuito fiel aos quadrinhos. E beleza os realizadores produzirem algo diferente, mas fico me perguntando se o filme ficou melhor que o original. Se tiver algum especialista por aqui que puder comentar, agradeço.

Falando em Thanos e as suas peripécias, se você, como eu, não é um(a) especialista no assunto, sugiro dar uma conferida em dois sites que ajudam a nos situar sobre esse personagem e as suas narrativas na Marvel. A primeira leitura que eu recomendo é essa, do site Universo HQ, que dá uma bela resumida no personagem e em suas aparições em gibis da Marvel. Depois, sugiro a leitura desse texto do site Aficionados que traz um bom resumo sobre as Joias do Infinito, incluindo a função de cada um delas e os seus atuais e antigos detentores. Leituras bastante recomendadas e que ajudam a rememorar e/ou conhecer alguns fatos envolvendo Thanos e as Joias.

Enquanto eu via o vilão Thanos na minha frente, era impossível para mim não lembrar de personagens da mitologia grega como Thánatos e Hades. Quem já ouviu falar deles – quem sabe em uma música da Legião Urbana – sabe que eles estão ligados à morte e à destruição. Ou seja, faz muito sentido o nome de Thanos, que acredita que tem como “missão” matar para colocar equilíbrio no Universo. Quem quer saber um pouco mais sobre Thánatos e Hades, pode encontrar uma boa introdução nesse texto da Wikipédia.

O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely é inspirado em uma série de personagens criados por alguns dos grandes gênios da história das HQs. Vale citar toda a inspiração dos roteiristas: eles se inspiraram nos quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby; no personagem do Capitão América criado por Joe Simon e Jack Kirby; no Senhor das Estrelas (Star-Lord) criado por Steve Englehart e Steve Gan; no Rocket Raccoon criado por Bill Mantlo e por Keith Giffen; no Thanos, Gamora e Drax criados por Jim Starlin; no Groot criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby; e na Mantis criada por Steve Englehart e Don Heck.

Como comentei antes, um dos destaques de Avengers: Infinity War é o elenco estelar da produção. Entre os vários nomes em cena, destaco as atuações de Chris Hemsworth, de Mark Ruffalo, de Benedict Cumberbatch, de Zoe Saldana, de Josh Brolin e de Chris Pratt. Aparecem bastante na produção, mas achei que com um nível de interpretação um pouco menor, os atores Robert Downey Jr., Chris Evans, Scarlett Johansson e Tom Holland. Eles estão bem, mas acho que se destacam menos que os anteriores.

Além deles, vale citar o bom trabalho de Scarlett Johansson, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Karen Gillan, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Vin Diesel, Bradley Cooper, Benedict Wong e Letitia Wright. Eles aparecem um pouco menos que os atores citados anteriormente, mas fazem um bom trabalho. Estão bem no filme, mas em papéis ainda menos – quase de pontas – os atores Tom Hiddleston, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Idris Elba, Danai Gurira, Peter Dinklage, Pom Klementieff, Dave Bautista, Gwyneth Paltrow, Benicio Del Toro, Winston Duke e Florence Kasumba.

Os diretores Anthony Russo e Joe Russo fazem um belo trabalho com Avengers: Infinity War, especialmente nas cenas de ação. Pena que o roteiro não acompanhou tão bem o talento dos diretores.

Avengers: Infinity War teve a sua première em Los Angeles no dia 23 de abril de 2018. No dia 25, dois dias depois da première, o filme estreou nos cinemas de 25 países. No dia 26, estreou em outros 28 países, incluindo o Brasil. Assisti ao filme ontem, dia 28 de abril, em uma sessão praticamente lotada.

O filme deve consagrar-se com uma das grandes bilheterias de todos os tempos. Segundo o site Box Office Mojo, Avengers: Infinity War faturou, até o dia 29 de abril, US$ 250 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 380 milhões nos outros países em que o filme estreou até essa data. Ou seja, em poucos dias, ele faturou US$ 630 milhões. Se seguir nessa pegada, logo ele será um filme com faturamento bilionário. Impressionante. Quem mesmo disse que as pessoas não vão mais nos cinemas? Para determinados filmes, não faltará público e lucro.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. As filmagens de Avengers: Infinity War começou em janeiro de 2017 e terminou em janeiro de 2018. Essa produção foi rodada simultaneamente ao novo filme Avengers, que dá continuidade a Infinity War mas que ainda não tem o título definido e que deverá estrear nos cinemas em 2019.

De acordo com o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, a formação dos Vingadores vai mudar substancialmente entre esse filme lançado em 2018 e o próximo que será estrelado pelo grupo de heróis. Dá para entender o porquê disso assistindo a Avengers: Infinity War. 😉 Ainda segundo Feige, Avengers: Infinity War é o ponto alto de toda a saga dos super heróis da Marvel porque esta produção seria o “resultante” de todos os filmes anteriores.

Nesse filme, os atores Robert Downey Jr. e Chris Evans completam nove produções em que eles interpretam os personagens Homem de Ferro e Capitão América, respectivamente. Assim, eles empatam com Hugh Jackman, que também interpretou em nove filmes o personagem Wolverine. Mas tanto Downey Jr. quanto Evans demoraram muito menos tempo que Jackman para chegar a esse marco de nove produções interpretando o mesmo herói de HQ. Enquanto Jackman demorou 16 anos para somar esses nove filmes, Evans demorou sete anos e Downey Jr. demorou 10 anos.

Avengers: Infinity War é o primeiro filme – sem ser um documentário – totalmente filmado com câmeras IMAX.

O primeiro trailer de Avengers: Infinity War registrou 200 milhões de visualizações em 24 horas, o que estabeleceu um novo recorde para visualizações de um trailer em um único dia.

Quando eu estava no cinema, eu achei o filme um tanto longo… mas só agora eu me dei conta que Avengers: Infinity War tem 156 minutos de duração, ou seja, 2 horas e 36 minutos! Uau! No cinema, ele parece longo, mas não dá para perceber que ele tem mais de duas horas e meia. Por ter toda essa duração, Avengers: Infinity War é o filme baseado em HQs mais longo da história do cinema.

De acordo com os produtores do filme, Avengers: Infinity War está inspirado em três marcos narrativos das HQs da Marvel: The Infinity Gauntlet, The Thanos Imperative e Infinity. O enredo Civil War das HQs da Marvel, contudo, não tem nada a ver com a narrativa do filme. Que bom que esclareceram isso, porque realmente me pareceu estranho as HQs e o filme terem o mesmo nome mas não terem nada a ver uns com os outros.

Os usuários do site IMDb deram a nota 9,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 226 críticas positivas e 42 negativas para o filme, o que lhe garante um nível de aprovação de 84% e uma nota média de 7,5. Especialmente o público está amando essa produção – mais do que os críticos. Reação mais que compreensível dos super fãs do Universo Marvel. No site Metacritic, Avengers: Infinity War apresenta um metascore de 68. Esse indicador resume 38 críticas positivas, 13 medianas e uma negativa.

Avengers: Infinity War é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há bastante tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Todos esperavam pela estreia de Avengers: Infinity War. Os fãs de HQ “raiz”, os fãs dos filmes que estão arrasando as bilheterias a cada nova estreia e mesmo aqueles que não são tão fãs assim desse gênero. Afinal, tanto se falou dessa produção… Como filmes do gênero competentes foram lançados recentemente, ficou difícil para esse filme superar toda essa expectativa. Então sim, Avengers: Infinity War é uma bela experiência de cinema. Um show de efeitos especiais e um belo desfile de astros e estrelas. O filme também agrada por não acabar de maneira óbvia, mas está longe de ser uma produção inesquecível. Vale pelo entretenimento e pelo visual. Mas isso é tudo.

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Un Beau Soleil Intérieur – Let the Sunshine In – Deixe a Luz do Sol Entrar

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Não é fácil para quem tem 40 anos ou mais continuar em busca do amor. E as razões são variadas. Mas uma das principais é porque após os 40 muita gente boa já está comprometida ou está tão perdida que não vale investir para acabar se perdendo junto. Ainda assim, muitas mulheres – e homens – não desistem nunca de encontrarem o seu “grande amor”, mesmo que isso signifique dor, lágrimas, tristeza e um bocado de situações no estilo “cilada”. Un Beau Soleil Intérieur fala sobre isso e sobre outras questões relacionadas com quem já passou da juventude mas segue dando as suas topadas em diversas pedras pelo caminho.

A HISTÓRIA: Isabelle (Juliette Binoche) está esparramada na cama. Nua, ela parece estar se deliciando com algo. Logo, aparece sobre ela Vincent (Xavier Beauvois). Durante o sexo, Vincent pergunta se ela não vai gozar. Ela diz que ele pode gozar, sem problemas se ela não “chegou lá” ainda. A troca de diálogos na cama parece denotar que aquele casal está na rotina e um tanto cansado um do outro. Eles prometem fazer algo no final de semana, mas ele dá uma certa sumida. Depois, Isabelle vai cobrar isso dele. O desengano dos dois é apenas o começo de uma sequência de tentativas e erros da protagonista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Un Beau Soleil Intérieur): Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Na verdade, o título me chamou a atenção, assim como a sempre talentosa atriz Juliette Binoche. Entre as produções em cartaz no cinema há duas semanas, também esse me pareceu o filme mais interessante a conferir.

De cara, eu gostei do cartaz da produção. E o que ele me transmitiu? Não sei para vocês, mas para mim ele me passou a ideia de liberdade, de mulher independente, segura de si e/ou que tivesse se libertado de questões importantes após uma certa luta. O título do filme dirigido por Claire Denis e com roteiro de Denis e de Christine Angot, baseado em livro de Roland Barthes, também me passou essa impressão de “liberação” da mulher.

Mas e aí qual foi a minha surpresa ao assistir ao filme propriamente dito? Honestamente, grande parte das minhas expectativas foi frustrada. Primeiro, que essa história foca em uma personagem de meia idade que segue buscando incessantemente o “grande amor”. Até o final ela fica nessa busca cheia de altos e baixos e de uma boa dose de angústia e expectativas. Ou seja, não existe um momento realmente de “completude” como o cartaz e o título podem sugerir para os mais desavisados.

Feito esse comentário e essa ponderação sobre o abismo entre as expectativas e a entrega que esse filme produz, vamos falar sobre a produção propriamente dita. Para não dizer que Un Beau Soleil Intérieur é um grande desperdício, o filme acerta ao focar as atenções para uma personagem que o cinema ignora praticamente por completo: a mulher de meia idade que é divorciada e que vive em busca do amor sem esmorecer jamais – apesar das frustrações das relações sem futuro e com diferentes razões para essa impossibilidade ser algo concreto.

Importante o cinema olhar para esse público e para esse perfil. Porque, de fato, como eu disse no início desse texto, não é fácil para quem tem mais de 40 anos seguir insistindo na busca por um amor. Como Un Beau Soleil Intérieur mostra bem, ou a mulher nessa posição acaba encontrando apenas bons (ou até maus) partidos casados, ou encontra figuras indecisas sobre o que querem da vida ou, ainda, pessoas que não lhe atraem o mínimo possível.

Isso é o que vemos em cena nesse Un Beau Soleil Intérieur. Primeiro, a protagonista está imersa em um caso com Vincent (Xavier Beauvois), um sujeito casado e que faz o estilo boçal – ou, para os mais sensíveis, um sujeito um tanto sem noção e que não respeita muito as mulheres, dando realmente importância apenas para aquilo que ele quer ou pensa. Quando a história começa, Isabelle está na cama justamente com esse cretino.

Logo ela se enche do amante um bocado babaca e começa a investir em um ator (Nicolas Duvauchelle) que também é casado, mas que diz que está passando por uma grande crise no casamento. Não demora muito, ouvindo o papo do ator, para o espectador perceber que ele está perdido. Ou está jogando um “perdido” para a protagonista para conquistá-la e deixá-la em um permanente estado de “espera” enquanto ele, por sua parte, não pretende mudar nada do status atual de sua vida ou relacionamento.

Além desses, orbitam ao redor da protagonista dois ou três homens para os quais ela não dá muita atenção. Assim, esse filme conta algumas histórias de encontros e de desencontros. Mas não vemos grande “suavidade” em cena. Não temos em Un Beau Soleil Intérieur uma história lúdica, um tanto pueril ou bonitinha sobre os “desenganos do amor”. Não, não. O que temos é um certo “amargor” e uma boa dose de frustração na nossa frente.

Toda a busca, experiência e frustração vivida pela protagonista acaba cobrando dela sofrimento, angústia, desesperança, dor. Ela quer ser amada, valorizada, mas encontra uma grande dificuldade nos homens que encontra pelo caminho em conseguir isso. No final, Isabelle procura um vidente, Denis (Gérard Depardieu), em busca de respostas e de “encaminhamentos” para as suas dúvidas e angústias.

Respeitando as crenças diferentes da minha e as opiniões contrárias, que sempre vão existir, devo dizer que eu achei aquela longa sequência de Isabelle com Denis, enquanto os créditos finais do filme já estão rodando, um grande, imenso compêndio de obviedades e lugares-comum. E no fim das contas, o que a maioria dos “videntes” fazem além de um compêndio de lugares-comum que são jogados ao vento e que, em parte, sempre tem pontos que são identificados por cada cliente?

Assim, diferente do que o cartaz ou o nome desse filme podem sugerir, Un Beau Soleil Intérieur não é uma produção bonitinha que fala de empoderamento, liberdade conquistada ou “encontrar-se a si mesma”. Esse filme tem muito menos luz do que poderíamos imaginar, além de apresentar um sabor mais amargo e um tom cínico no final.

Apesar da várias obviedades, o vidente fala duas coisas que, possivelmente, são as mais importantes do filme inteiro: que Isabelle deve olhar mais para si mesma, valorizar-se, ao mesmo tempo que não deve se fechar para os outros e para o que vier de novo.

Assim, é claro que cada um pensa o que quiser, mas me parece que faz muito mais sentido uma mulher, com mais de 40 ou menos que isso, procurar conhecer-se bem e aprimorar-se, amando aos outros o máximo possível, aprendendo de todas as partes, mas tornando-se independente a cada passo e coerente com a própria trajetória, do que uma mulher com 40 ou menos buscando desesperadamente por alguém que “lhe complete”.

Honestamente, eu não acho que ninguém completa ninguém. Não acredito em uma tampa para cada panela, em duas metades da mesma laranja ou lugares-comum do tipo. Cada indivíduo é independente e dono de si mesmo – se tiver capacidade e coragem de desenvolver tudo o que isso significa. Que as pessoas se apaixonem e que escolham viver “várias vidas” dentro de uma juntos, evoluindo e aprendendo de forma permanente, sabendo que o casal que começou a história nunca será o mesmo que vai prosseguir com ela e terminá-la no fim da vida, dá para entender.

Mas, quando isso é feito da forma correta, as pessoas estão juntando as suas perfeições e imperfeições com o objetivo de caminharem juntas. Ninguém está completando ninguém. Ninguém deveria ser “usado” para preencher as carências e atender as necessidades do outro. Esse tipo de lógica nunca dá certo. Porque ninguém vai fazer por você o que só você pode fazer. E isso é tudo.

O final de Un Beau Soleil Intérieur eu achei um tanto cínico justamente por isso. Apesar de estarem frente à frente e de participarem de uma conversa, Isabelle não estava, de verdade, escutando o que Denis dizia. Ela tinha uma escuta seletiva, prestando a atenção e guardando apenas o que lhe era interessante. O restante, ela ignorava solenemente. Assim, apesar de Denis dizer algumas obviedades, ele sinalizou para ela o melhor caminho que ela deveria seguir: de autovalorização e de abertura para o outro sem grandes expectativas.

Mas ela realmente estava em busca do que? De que Denis confirmasse que o ator iria voltar para ela e que eles seriam felizes para sempre. No fundo, ela não queria sair daquele círculo vicioso em que ela estava imersa. Ela não queria passar pelo desafio que era achar respostas para ela seguir aqueles padrões e conseguir, com esforço, romper aquele ciclo e buscar uma nova realidade que lhe fizesse mais sentido e mais feliz.

Assim, por mais que o título e o cartaz são bacanas e cheios de esperança, o que vemos em cena é uma mulher que está afundando e que não sabe identificar que está em meio a um redemoinho – e que há maneiras de sair dele. É a velha história de que para resolver um problema, você primeiro tem que admitir que ele existe.

Un Beau Soleil Intérieur não nos mostra apenas uma mulher de meia idade que não desistiu de buscar o amor apesar de várias frustrações. Esse filme é sincero ao mostrar como essa mulher não vive uma procura feliz. Muito pelo contrário. Ela sofre, se angustia, chega até a roçar um princípio de depressão e/ou de isolamento por causa das histórias malfadadas. Então, no final das contas, será que é realmente bacana a ideia dela seguir “buscando o amor”, de forma incessante e um tanto irracional, já que essa busca lhe causa tanto sofrimento?

Durante a experiência do filme, ele parece um tanto longo e cansativo. E isso acontece por causa da confusão dos personagens – inclusive da protagonista – e da verborragia bem acima da média que vemos em cena. Esse filme é uma produção cheia de diálogos. Mas os pontos positivos é que o filme valoriza uma personagem pouco abordada pelo cinema e com um certo tom de cinismo e de descrença que também não é muito comum.

Por tudo isso, posso dizer com toda a segurança que o filme parece mais interessante e faz mais sentido depois de algum tempo que as luzes do cinema são acesas. Durante a exibição de Un Beau Soleil Intérieur, muitas vezes é difícil manter o interesse na produção – tanto isso é verdade que algumas pessoas saíram da sala de cinema onde eu estava bem antes do filme acabar. Mas, depois, ela acaba fazendo mais sentido e mostrando mais valor. Por isso também a nota abaixo. Poderia ser um filme melhor, mas ele também não é um desastre.

NOTA: 6,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vixe, agora que eu vi que escrevi demais, né? Mais uma vez. 😉 Me desculpem por isso. Quero ver se volto com aquela intenção de escrever menos sobre os filmes. Mesmo não tendo gostado taaaanto assim de Un Beau Soleil Intérieur, a verdade é que ao pensar sobre essa produção eu me senti “compelida” a escrever bastante sobre o filme. Mas prometo tentar ser mais direta, objetiva e “sucinta” a partir da próxima crítica, viu?

Achei esse filme um tanto sonolento demais. Não por ele ter uma narrativa fundamentada em diálogos e em pouca ação, mas porque o roteiro em si de Christine Angot e Claire Denis me pareceu um tanto “pobrinho” e cheio de obviedades. Já ouvimos boa parte daqueles diálogos algumas vezes, e se é para ver no cinema o que vemos em uma conversa comum e banal do dia a dia, nem precisamos ir no cinema, não é mesmo? Sei lá, me pareceu que faltou um pouco de “tempero” e de graça nesse filme.

Ainda que o filme tenha esses “probleminhas”, foi muito bom ver Juliette Binoche mais uma vez sendo perfeita em cena. Apesar da personagem dela ser bastante linear e pouco diversificada, a atriz está muito bem e consegue nos convencer sobre a sua personagem o tempo inteiro. Gosto da atriz, e foi bom revê-la na telona. Também foi interessante “reencontrar” Gérard Depardieu depois de uma longa temporada sem ver nada do ator. Pena que ele aparece quase em uma ponta bem na reta final do filme e em um papel um tanto “bobo”.

Do elenco, além de Juliette Binoche, destaco o belo trabalho de Nicolas Duvauchelle como o ator que fascina a protagonista e Xavier Beauvois como o machista clássico Vincent. Além deles, vale citar o bom trabalho de Philippe Katerine como Mathieu, o sujeito que gosta de Isabelle e vive a convidando para eles passarem um tempo juntos; e Alex Descas como Marc, o affair mais recente de Isabelle.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale citar a trilha sonora de Stuart A. Staples; a direção de fotografia de Agnès Godard; a edição de Guy Lecorne e o design de produção de Arnaud de Moleron.

Un Beau Soleil Intérieur estreou no Directors Fortnight do Festival de Cinema de Cannes no dia 18 de maio de 2017. Depois, a produção passou por outros 34 festivais em diversos países do mundo. Nessa trajetória, o filme ganhou dois prêmios e foi indicado a outros cinco. Os prêmios que ele recebeu foram o SACD Prize para Claire Denis no Festival de Cinema de Cannes e o de Melhor Filme que não foi lançado em 2017 no International Cinephile Society Awards.

A diretora francesa Claire Denis é uma veterana. Ela tem 29 filmes, curtas e séries de TV no currículo como diretora e nove prêmios. Os filmes mais premiados dela são Beau Travail, de 1999, e 35 Rhums, de 2008. Procurando sobre ela aqui no blog, não encontrei nenhum filme da diretora que eu tenha assistido antes. Então não posso comparar essa produção com outras feitas por ela. Mas se alguém acompanha a sua carreira, agradeço se puder contextualizar esse filme em relação aos demais.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 54 críticas positivas e cinco negativas para Un Beau Soleil Intérieur – o que garante para o filme uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,4. O site Metacritic registra um metascore de 78, com 16 críticas positivas e duas medianas.

Un Beau Soleil Intérieur é uma coprodução da França e da Bélgica.

CONCLUSÃO: Um filme com muitos, muitos diálogos. E uma busca incessante – e um pouco angustiante – de uma mulher de meia idade pelo amor que lhe “preencha”. Uma crônica de uma vida comum, mas pouco explorada pelo cinema. Durante a exibição de Un Beau Soleil Intérieur, o filme parece um tanto longo e/ou cansativo demais. Mas, passada a experiência, o filme vai fazendo mais sentido. É interessante, valoriza uma personagem pouco vista nos cinemas, mas está longe de ser um grande filme. Vale conferir se você gosta muito da atriz, da diretora ou de produções que fogem do lugar-comum – apesar de estarem recheadas de obviedades.

Geu-Hu – The Day After- O Dia Depois

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Um dia na vida de uma pessoa pode parecer um período muito curto de tempo. Mas um dia pode ser decisivo. O interessante da vida é que, quanto mais você vive, mais você percebe que aquele dia “decisivo” também pode ser superado. E aí vem uma produção como Geu-Hu para nos mostrar isso. A vida é feita de decisões, e cada uma delas nos leva para determinados caminhos. E ainda que não seja todo dia que nos questionamos sobre questões essenciais da nossa vida, em algum momento devemos fazer isso. Esse filme aborda estas e outras questões.

A HISTÓRIA: Uma música dramática e a imagem de um apartamento. Kim Bongwan (Hae-hyo Kwon) sai do banheiro e caminha pela casa. Ele ascende a luz da cozinha, olha o que há para comer e volta por onde veio. O relógio marca quase 4h30. Kim está na mesa, comendo. Song Haejoo (Yunhee Cho) pergunta para ele se a comida está boa. Ele diz que sim. Então ela pergunta porque ele está indo tão cedo trabalhar.

Kim diz que não vai sair imediatamente, mas que não consegue dormir. Song pergunta se ele está tendo um caso, e afirma que ele está estranho ultimamente. Ela insiste sobre o caso, e ele não responde a pergunta. Em breve ele vai sair para o trabalho, onde uma parte importante da vida dele acontece.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Geu-Hu): Logo de cara, gostei da fotografia em preto e branco desse filme e da trilha sonora dramática e vigorosa dos primeiros segundos. Também gostei muito da expressividade do protagonista, interpretado por Hae-hyo Kwon, e do filme dirigido e com roteiro de Sang-soo Hong ter um foco tão grande nos diálogos, na interação dos personagens e na vida comum.

Esses são os pontos positivos de Geu-Hu que qualquer espectador percebe logo de cara. Depois, surge algo interessante: uma narrativa não linear que nos deixa com uma certa dúvida por algum tempo. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme ainda). Da sequência na cozinha da casa do casal Kim e Song, partimos para a saída de Kim de casa para o trabalho e, logo depois, para uma sequência dele – ou de alguém muito semelhante a ele – caminhando bêbado com uma garota, que vamos descobrir, depois, ser Lee Changsook (Sae-byeok Kim).

Nesse momento, fiquei pensando: “De duas uma, ou estamos vendo a trechos de Kim em momentos diferentes, ou seja, temos narrativas paralelas e não lineares se entrelaçando, ou o personagem de Kim tem um irmão gêmeo ou um sósia”. Algo do gênero. Conforme a história vai avançando, descobrimos que Sang-soo Hong nos apresenta uma narrativa que vai e vem no tempo, conforme o protagonista – assim me pareceu – vai se lembrando dos fatos.

Song perguntou na lata para o marido se ele estava tendo um caso. E o faro dela não poderia estar mais apurado. De fato, Kim começou a namorar com Lee, a funcionária que ele tinha na editora na qual ele é o chefe. Mas como eles acabam brigando, Kim acaba contratando uma funcionária nova. E aí que entra em cena Song Areum (Min-hee Kim).

Grande parte do filme se passa mostrando o primeiro dia de trabalho de Song Areum, que tem um dia bastante agitado e controverso. Sou honesta em dizer que fora o começo interessante e esse “mistério” da narrativa que logo é resolvido, Geu-hu apresenta pouca novidade. Na verdade, o filme se caracteriza por uma narrativa bastante lenta, cheia de diálogos e focada em um “dia comum” na vida de pessoas comuns. Ainda sendo franca, admito que eu assisti a esse filme tarde da noite e que ele me deu muito, muito sono.

Venci a vontade de dormir e consegui assistir ele até o final. Mas essa não foi uma tarefa realmente fácil. Geu-hu tem uma narrativa um tanto “entediante” – e eu acho que isso é proposital – e que pode dar sono, mas que também nos faz refletir. Afinal, em um dia comum qualquer, podemos nos questionar sobre o sentido da vida, sobre o que andamos fazendo e sobre ter ou não fé – e no que. Pode parecer incrível, mas Geu-hu coloca tudo isso em cena de maneira muito natural e despretensiosa.

E foi isso que eu gostei no filme. Como ele nos faz pensar como a rotina pode nos “engolir” e nos fazer tomar atitudes impensadas. Sobre como é importante, algumas vezes, parar e fazer algumas das perguntas fundamentais. Como algumas das questões que Song Areum apresenta para o seu chefe. Os melhores diálogos do filme, aliás, estão em uma das refeições que os dois fazem juntos, durante a qual Song Areum pergunta para Kim pelo que ele está vivendo.

Aí o protagonista começa a fazer todo um discurso sobre a diferença entre a realidade, o dia a dia, e esse tipo de “sentido” das coisas. Ele defende que existe um descolamento entre esses dois cenários. Song Areum não concorda, e fala sobre a importância de acreditar em algo. Enfim, diálogos bastante interessantes. Depois, Kim revela toda a sua falta de coerência quando insiste para Song Areum continuar a trabalhar com ele até que a amante aparece em cena.

Enfim, o protagonista desse filme é um “cara comum”, como tantos outros com os quais a gente cruza todos os dias. Quantas pessoas você conhece que são coerentes? Quantas se perguntam, de tempos em tempos, pelo que estão vivendo? Você e eu, o quanto fazemos isso? Assim, sem mais, em um dia comum como tantos outros, o protagonista desta história tem alguns dilemas importantes sobre os quais refletir. E, de quebra, Sang-soo Hong nos faz refletir junto através de seu singelo (e um tanto “sonolento”) Geu-hu.

Algo que eu achei interessante nesse filme é que ele não se concentra apenas naquele dia longo e um tanto caótico em que King Bongwan deve lidar com três mulheres – a esposa, a amante e a nova e interessante nova funcionária. O filme poderia ter terminado ali, naquela atitude “covarde” do protagonista de mudar tudo (dispensar Song Areum) para deixar tudo como estava (seguir com a amante e enganando a esposa).

Achei bacana como Geu-hu mostra o “dia seguinte” (dito de forma figurativa, é claro) daquela situação. O tempo passa, e Song Areum volta à editora depois que Kim Bongwan recebe um prêmio. Novamente o filme desperta a nossa curiosidade, porque parece que estamos vendo ao primeiro dia de Song Areum com algumas pequenas diferenças… estaria a história se repetindo, mas de outra forma? Estaríamos vendo uma “realidade paralela” que não aconteceu?

Logo essa dúvida é respondida. Não se trata de uma “realidade paralela”, mas da simples falta de memória do protagonista. Ele repete várias perguntas que fez para Song Areum da primeira vez e sem se dar conta, até que ela fala sobre isso com ele. Daí descobrimos que, no fim das contas, King Bongwan acabou se confrontando com aquela pergunta sobre “para que” ele vivia. Confrontado pela esposa e pela filha, ele optou por viver pela filha, abandonando a amante e, com isso, encontrando o seu próprio “centro”, talento, paz e harmonia.

Sim, nesse aspecto o filme acaba sendo um tanto “moralista”. Mas, mais que isso, eu encaro esse filme como uma reflexão sobre o que fazemos das nossas vidas. Por que escolhemos determinados caminhos e não outros? Até que ponto deixamos “a vida nos levar”? E o quanto isso pode nos fazer sentido ou nos deixar felizes?

Enfim, achei um filme “ordinário” com algumas pegadas interessantes. O único porém é que ele realmente dá sono. 😉 Mas vencendo esse desafio, encontramos no cinema de Sang-soo Hong alguns princípios não muito comuns e, por isso mesmo, interessantes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estava com saudade de assistir a um filme da Coreia do Sul. Sim, verdade que andei focada nas produções que concorreram ao Oscar. Depois, com alguns filmes que estrearam nos cinemas do Brasil. Mas estava já com vontade de me lançar em algumas formas de fazer cinema diferentes. Gosto do cinema sul-coreano – além do segmento mais famoso, dos filmes de suspense e de terror. Gostei de retomar esse cinema, ainda que esse filme não seja do tipo “excepcional”. Mas vale para conhecer outras formas de fazer cinema.

Geu-hu tem poucos personagens e, consequentemente, poucos atores em cena. A explicação principal para isso é aquela que eu comentei antes: essa produção está focada nos diálogos e na interação dos personagens, procurando se aprofundar em poucos deles. Todos os atores em cena estão bem, mas eu fiquei especialmente encantada por Min-hee Kim, que interpreta a Song Areum, e com a expressividade de Hae-hyo Kwon, que interpreta Kim Bongwan. Eles são ótimos.

Gostei do estilo do diretor e roteirista Sang-soo Hong. A direção dele é bastante tradicional, com muitos momentos de câmera parada para filmar os diálogos e interações dos atores, mas o roteiro dele é algo mais interessante. Ele mistura diálogos “banais” com verdadeiras peças de reflexão e interações interessantes e instigantes. Com perspicácia, ele nos faz refletir sobre os nossos dias comuns, e como em alguns dias desses decidimos boa parte da nossa vida.

Entre os aspectos técnicos do filme, o destaque vai para a direção de fotografia de Hyung-ku Kim e para a trilha sonora pontual, dramática e potente. Também vale comentar a competente edição de Sung-Won Hahm.

Geu-hu estreou em maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros 20 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros 13. Os prêmios que ele recebeu foram o Grande Prêmio para Sang-soo Hong e o de Melhor Ator para Hae-hyo Kwon conferidos pela Associação de Críticos de Cinema de Busan; o de Melhor Filme que não foi lançado em 2017 e o de Melhor Atriz para Min-hee Kim conferidos pelo International Cinephile Society Awards.

O diretor Sang-soo Hong tem 26 produções no currículo como diretor. Geu-Hu foi o penúltimo filme que ele dirigiu – o último, lançado nesse ano, se chama Grass. Sang-soo Hong tem nada menos que 42 prêmios no currículo, incluindo um prêmio Un Certain Regard no Festival de Cinema de Cannes pelo filme Hahaha, de 2010. Procurei aqui no blog, e encontrei outro filme dele que eu assisti antes: Right Now, Wrong Them (com crítica por aqui). Mas fiquei com vontade de assistir a outras produções dele. Acho que ele merece ser acompanhado. Tem um cinema autoral interessante – e que fala bastante sobre as escolhas que fazemos e que nos definem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para Geu-hu, enquanto que os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas positivas e cinco negativas para a produção, o que significa uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3 para essa produção. O site Metacritic registra um metascore para o filme de 67, com cinco críticas positivas e duas medianas.

CONCLUSÃO: Esse não é um filme nada óbvio. Muito pelo contrário. Ainda que ele nos pareça um tanto “entediante” e que ele realmente dê sono em alguns momentos, Geu-Hu é um desses filmes “despretensiosos” que exigem que estejamos atentos a cada diálogo, a cada movimento. Porque, como na vida mesmo, é nos momentos mais imprevistos em que colhemos os melhores ensinamentos.

Filme com uma boa carga filosófica que termina nos deixando em dúvida sobre o que pensamos a respeito dele. Isso é natural, porque Geu-Hu só vai fazendo sentido aos poucos. Filme interessante e diferente do que estamos acostumados a assistir. Vale conferir se você gosta de produções diferenciadas e não se importa com narrativas lentas e aparentemente “comuns”. Só não achei melhor porque ele realmente acaba sendo bastante entediante em muitas partes. Mas vencido o sono, depois que o filme termina, percebemos que valeu a experiência.

A Quiet Place – Um Lugar Silencioso

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Vivemos em sociedades cheias de barulho, de ruídos, de verborragia. É difícil encontrar o silêncio, muitas vezes, mesmo quando ele é tão necessário. Agora imagine uma sociedade em que o silêncio impera. E, mais que por qualquer outra razão, por uma questão de sobrevivência – e de poucos. Esse é o pano de fundo do interessante A Quiet Place. O filme assusta menos do que o esperado, mas tem alguns insights bastante interessantes. Ele também faz pensar, especialmente sobre um ou dois pontos que não ficam tão claros na história – mas estão subentendidos.

A HISTÓRIA: Dia 89. Vemos a uma cidade deserta, com ruas vazias, e dentro de uma venda, encontramos uma parede cheia de fotos de pessoas desaparecidas. Nesse local, abandonado, mas com muitos produtos – incluindo medicamentos – dentro, uma criança caminha ligeiro e na ponta dos pés. Em seguida, vemos a uma menina maior caminhando no local, e um garoto sentado no chão.

A mãe das crianças, Evelyn Abbott (Emily Blunt), surge em seguida e começa a buscar um remédio específico entre os medicamentos que estão em uma prateleira. Em seguida, ela dá o remédio para o filho maior, Marcus (Noah Jupe). Eles falam pela língua de sinais, e o garoto diz que está bem. O filho menor, Beau (Cade Woodward), desenha uma nave no chão e mostra para a irmã, Regan (Millicent Simmonds). Ele diz que é assim que eles vão fugir. A obsessão do garoto pelas espaçonaves acaba colocando a família em risco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Quiet Place): Que filme interessante! Uma produção que, como tantas outras de qualidade, tem mais de uma camada de leitura e de interpretação. A Quiet Place tem uma pegada curiosa desde o princípio. Para começar, pela coragem do filme ser todo baseado no silêncio. Hoje, na sociedade em que vivemos, incluindo a cultura de filmes cheios de som e de efeitos especiais, investir em uma história com essa pegada é realmente algo corajoso.

Apenas por isso, o filme já merece os parabéns. Porque ele vai contra a corrente dos blockbusters dos anos 2000 e apresenta uma outra forma de fazer cinema tão interessante quanto – cada uma com o seu propósito, é preciso ponderar. Além disso, o diretor, roteirista e protagonista desta história, John Krasinski, acerta ao apostar em um cinema sensorial e que resgata alguns dos princípios do cinema do grande Alfred Hitchcock.

Aqui não interessa tanto as razões do que estamos assistindo. Não sabemos como tudo começou – apenas por alguma pincelada aqui e ali – ou como a família que conduz essa história sobreviveu. O que importa em A Quiet Place é o tempo atual, os desafios dos personagens e, principalmente, o perigo que eles enfrentam a todo momento. Apesar das regras do perigo serem claras – você deve evitar fazer barulho o tempo todo -, o filme ganha pontos ao mostrar que as pessoas se acostumam com tudo, até com aquele estado de atenção constante.

A Quiet Place consegue equilibrar, assim, momentos de pura tensão e adrenalina por causa do perigo que ronda os personagens com cenas de um “cotidiano” já esquecido por aquele contexto. Algumas das cenas que eu mais gostei do filme tem a ver com isso. Além do desejo de brincar do pequeno Beau, logo no início do filme, até a bela cena em que Evelyn procura o marido, Lee, para os dois dançarem juntos – ouvindo a música com fones de ouvido, é claro.

Graças a essas escolhas, o filme de Krasinski não se resume apenas a um compêndio de cenas tensas. As sequências de “vida real”, de pais tentando fazer o melhor possível para criar, educar e proteger os seus filhos em um ambiente totalmente perigoso e tenso, é o que torna essa produção interessante e passível de empatia. Não é difícil se colocar no lugar dos personagens – tanto adultos quanto das crianças. E isso é algo mágico no cinema.

A Quiet Place acerta, assim, no tom e na narrativa. Além disso, ele nos faz pensar em pontos essenciais sobre a visão de mundo das pessoas e sobre cenários “pós-apocalípticos”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos primeiros pensamentos que veio na minha mente, quando o tempo passa e o filme salta daquele começo para o dia 473, quando vemos a protagonista grávida, foi: “Claro, você vive em uma realidade em que você não pode fazer barulho, ou falar, ou gritar, e qual é a melhor alternativa nesse cenário? Engravidar e ter um filho que já vai nascer chorando”.

Mas aí você pensa: “Ok, estou em um cenário pós-matança geral das sociedades. Como eu vou continuar com a civilização se eu não tiver filhos?”. Algo estilo Noé. Por isso eu falava sobre as várias camadas dessa produção. Certamente o casal de protagonistas tinha essa convicção de que eles deveriam continuar a ter filhos para “preservar a espécie”. E, também, possivelmente, porque eles são casados e, segundo algumas crenças, são isso que os casais fazem, certo? Eles têm filhos.

Essas são as únicas justificativas para aceitarmos que um casal continue a ter filhos naquele cenário mostrado por A Quiet Place. Então, assim meio sem querer, esse filme nos coloca em questão a reflexão lógica e o sentido de sobrevivência versus a questão das crenças, da fé e afins. Porque realmente não faz o mínimo sentido os Abbott pensarem em ter um filho naquela realidade em que o silêncio é fundamental.

Por causa dessa ideia, que nos desafia a lógica e também a nossa capacidade de aceitar as escolhas diferentes dos demais, é que A Quiet Place começa a revelar os seus pequenos defeitos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, é interessante que o casal Abbott tenha pensado em um “quarto” quase à prova de som onde, em teoria, o filho deles iria nascer. Mas as coisas saem mal – e isso sempre rende bons momentos em filmes de suspense e terror – e Evelyn acaba tendo o filho no banheiro que não é à prova de som.

Ora, eis o primeiro problema da história – talvez até tenham tido outros antes, mas esse me pareceu o mais gritante. Se alguns tiros despertam a atenção de vários “bichos estranhos” no final do filme, o nascimento de uma criança não iria fazer o mesmo? Para que aquela cena do banheiro se justifique, a criança teria que ter nascido em pleno silêncio. Alguém realmente acredita nisso? Que a mãe tenha se esforçado ao máximo e não tenha gritado de dor, tudo bem, mas a criança ter nascido sem abrir o berreiro… não é impossível, mas é extremamente improvável.

Além disso, me pareceu um tanto forçado o fim de Lee. Ok, Regan poderia não ser muito “esperta” ou ter pensamento rápido, mas realmente, além do aparelho dela a incomodar, ela não reparou que ele afastava o perigo? Na cena da caminhonete, foi a segunda vez que ela passou por aquilo. E o que ela faz? Ao invés de afastar o perigo, ela desliga o aparelho e deixa todos vulneráveis. E aí o pai das crianças, claro, assume a responsabilidade de protegê-las de qualquer forma.

Aquela sequência me pareceu um tanto forçada por causa disso. Também me pareceu um tanto forçado que a solução para aquele problema tivesse sido descoberto daquela forma, acidental, e por uma pré-adolescente, enquanto exércitos e cientistas antes forma exterminados sem terem pensado naquela mesma ideia. Para mim, esses são os problemas da produção, junto com a sequência em que Evelyn escapa com o bebê mesmo tendo ficado frente a frente com o inimigo quando a “sala segura” é inundada.

Mas descontados esses pequenos problemas do roteiro, esse filme se apresentar muito potente e interessante. Ele realmente envolve o espectador e nos faz, com bastante facilidade, nos sentirmos “na pele” dos personagens. Apesar disso, desse resgate salutar de filmes que alimentavam a nossa tensão explorando muito mais as fragilidades humanas do que os “perigos inexplicáveis” – vide Hitchcock -, eu esperava me assustar mais.

A Quiet Place é um filme muito eficaz em nos deixar tensos. Em esperarmos o pior a qualquer momento. Mas ele não nos apavora ou nos assusta como outras produções já conseguiram antes. Eu procuro não ler sobre os filmes antes de assisti-los, mas acabei vendo, aqui e ali, em portais de notícias, que alguns consideravam esse filme o mais inovador em muito tempo. Sim, A Quiet Place tem uma pegada interessante e criativa, mas não acho ele tão surpreendente quanto Get Out (comentado aqui), por exemplo.

Assim, para resumir, A Quiet Place é um filme interessante, com uma proposta diferenciada em meio a tantos filmes cheios de som e de efeitos especiais, mas que acaba caindo em alguns lugares-comum. Por exemplo, as características da ameça que a família Abbott enfrenta. Será mesmo que não vamos conseguir abandonar aquele perfil de “alien” que já conhecemos? Não fica evidente se a ameaça veio de fora da Terra ou se é produto de uma mutação, mas isso pouco importa. Impossível não lembrar dos filmes Alien ou Predator.

Então esse certo “lugar-comum” do perfil da ameaça enfrentada pelos personagens me incomodou um pouquinho. Por outro lado, achei interessante outra leitura que surge após o filme terminar. Você pararam para pensar em quem era a pessoa mais preparada para enfrentar aquele cenário? Alguém que nasceu no silêncio e que não teria dificuldade alguma em conviver com ele até o final? Sim, justamente a personagem surda-muda de Regan.

Isso me fez pensar. O que é, afinal, uma pessoa “menos preparada” para o mundo? Já tivemos imbecis na história da nossa civilização que acreditavam em desenvolver uma “super raça” de pessoas perfeitas e em eliminar todos aqueles que tinham alguma “imperfeição” – até hoje há imbecis que defendem esse equívoco. E aí vem um filme como A Quiet Place para nos mostrar, como com um tapa na cara, que talvez essas pessoas “imperfeitas” – e quem não é? – sejam just

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de A Quiet Place é que a história é centrada em poucos personagens. Assim, fica mais fácil do público “se aproximar” deles e de desenvolver a empatia necessária para “sofrer” e sentir a tensão junto com eles. Sem dúvida alguma, uma escolha acertada para essa produção funcionar.

Fiquei especialmente feliz em ver a John Krasinski novamente. Primeiro, estrelando um filme que caiu na graça do público e da crítica. E, depois, ao saber que ele é o grande responsável por A Quiet Place. Krasinski escreveu o roteiro ao lado de Bryan Woods e Scott Beck, a dupla que teve a ideia original de A Quiet Place, e também dirigiu o filme. Eu gosto muito dele desde a época de The Office – uma grande série, aliás. Se você ainda não assistiu à versão americana da série inglesa, versão essa que conta com Krasinski, vá atrás. Vale muito a pena.

Além de Krasinski, que faz um belo trabalho como o protagonista dessa história, estão muito bem em seus papéis também as atrizes Emily Blunt e Millicent Simmonds e o jovens atores Noah Jupe e Cade Woodward. Toda a história gira em torno da família formada por eles, mas algumas outras figuras aparecem rapidamente em cena. Como o casal de idosos que aparece na floresta e que é interpretado por Leon Russom e Doris McCarthy.

Entre os elementos técnicos do filme, vale destacar a ótima fotografia de Charlotte Bruus Christensen; a trilha sonora fundamental de Marco Beltrami; a edição precisa de Christopher Tellefsen; o design de produção de Jeffrey Beecroft; a direção de arte de Sebastian Schroeder; a decoração de set de Heather Loeffler; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone; o fundamental trabalho dos 20 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e o trabalho dos 42 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Agora, estava pensando em um ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu não li ainda vários textos sobre esse filme. Mas consigo imaginar que ele pode suscitar uma série de debates e questionamentos. Por exemplo, imagine você ficando grávida – se for mulher, claro. E se for marido dessa mulher, imagine você sabendo que a sua mulher está grávida em um cenário em que vocês não podem nem conversar. O que você faria?

Da minha parte, eu procuraria um bunker ou um lugar similar, já planejado para ter uma super proteção e que fosse à prova de som. Então porque os Abbott não procuraram um bunker? Claro, você vai dizer, porque aí esse filme não existiria. Até pode ser, ou ele existiria com um pouco mais de inteligência e outros desafios a serem vencidos. 😉 Mas que faria mais lógica uma busca dessa, certamente.

Digam o que disserem, mas em um cenário pré-apocalipse de “invasão alienígena” – ou do que for -, os jornais ainda seguiam importantes. 😉 Vide os recortes guardados por Lee e o jornal da banca que já nos falava no início do filme sobre a grande questão naquele momento. A manchete dizia, simplesmente: “É o som”. Interessante.

Achei muito interessante uma sacada dessa produção. Como em um jogo de videogame “modernete”, a história muda conforme “varia” a perspectiva dos personagens. Assim, ouvimos sons normalmente quando estamos vendo a realidade sob a ótica de Evelyn, Lee ou Marcus, mas não escutamos nada quando estamos sob a ótica de Regan. Sacada bacana essa. Funciona muito bem e dá outra perspectiva para o filme e os espectadores.

A Quiet Place estreou no dia 9 de março no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou de apenas mais um festival de cinema, o Blood Window Fest. No Brasil, o filme estreou no dia 5 de abril. Assisti ele há uma semana e gostei do que eu vi – apesar das considerações que eu fiz acima.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. A atriz Millicent Simmonds é surda desde a infância por causa de uma overdose de medicamentos. A Quiet Place foi o segundo filme que ela fez. Achei a atriz muito talentosa e com grande expressividade. Torço para que ela tenha outros filmes interessantes para fazer.

O roteiro original de Bryan Woods e de Scott Beck tinha apenas uma linha de diálogo. Curioso. O roteiro deles foi eleito um dos 10 melhores do ano segundo o Tracking Board, uma eleição anual feita por profissionais da indústria do cinema nos Estados Unidos.

Os atores John Krasinski e Emily Blunt são casados na vida real. Inicialmente, Woods e Beck escreveram o roteiro para a Paramont, que enviou o material para Krasinski, que já tinha sido escolhido para estrelar o filme. Quando a esposa dele leu o roteiro, ela também quis participar. E foi assim que os dois estrelaram essa produção. E, cá entre nós, eles SÃO o filme. Estão ótimos e muito, muito convincentes.

Por pouco a Paramount não colocou A Quiet Place como um filme da franquia Cloverfield. Mas os realizadores – especialmente os roteiristas – ficaram aliviados por conseguirem fazer um filme independente. Honestamente, não assisti aos filmes Cloverfield. Por isso, pergunto para quem já os viu: faria sentido A Quiet Place entrar nessa franquia? Mesmo sem esse conhecimento de causa, essa ideia me pareceu um tanto estranha.

Algo importante para a história – e algo que me fez pensar enquanto eu assistia ao filme: o dispositivo que Reagan utiliza é um implante coclear e não um aparelho auditivo simples. E a explicação para isso: “A deficiência auditiva geralmente envolve danos ou subdesenvolvimento da cóclea, que traduz vibrações no ar para impulsos nervosos que o cérebro percebe como som”. Ou seja, a personagem não tinha apenas um aparelhinho colocado no ouvido, mas um implante que provavelmente lhe causava uma dor muito maior quando entrava em “conflito” com a “sintonia” das criaturas.

A Quiet Place foi filmado em 36 dias. Essa produção, segundo o site Box Office Mojo, teria custado cerca de US$ 17 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 67 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez quase US$ 25,7 milhões. Ou seja, no total, até o dia 12 de abril, A Quiet Place tinha faturado US$ 92,7 milhões. Alguma dúvida que ele está rendendo um belo lucro para os produtores e o estúdio? Fico feliz por esse resultado, porque ele pode incentivar os estúdios a apostarem cada vez mais em produção não muito óbvias. E nós, que amamos cinema, ganhamos com isso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 222 críticas positivas e 11 negativas para esse filme, o que garante para A Quiet Place um nível de aprovação de 95% e uma nota média de 8,2.

Por sua vez, o site Metacritic registra um metascore de 82 para essa produção, com um raro registro de 54 críticas positivas para o filme (e nenhuma negativa ou mediana). Essas notas, altas para os padrões dos sites, e o nível de críticas positivas demonstra como esse filme caiu no gosto do público e da crítica de uma maneira especial.

Esse é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um filme interessante, com algumas ideias bacanas e bem desenvolvido. Mas sou franca em dizer que eu esperava mais, até porque A Quiet Place recebeu muitos elogios – que eu vi bem por cima, mas que foram suficientes para aumentar a minha expectativa. Essa produção se destaca pelo trabalho dos atores, pela angústia e pelo suspense bem construídos, mas se torna um pouco óbvia e previsível em algumas partes. Não é tão surpreendente quanto Get Out, por exemplo. Mas vale ser visto, especialmente pelo que nos faz refletir depois que a projeção termina e que passamos a refletir sobre detalhes da história.

Icarus – Ícaro

icarus

Um documentário que pretende ser algo e que muda totalmente de direção conforme os fatos se desenrolam. Uma história com requintes de suspense e de ação inesperados. Icarus é um filme que dificilmente vai deixar você incólume sobre os Jogos Olímpicos e grande parte do esporte profissional no mundo.

Da minha parte, de quem sempre admitiu ser uma grande fã das Olimpíadas, certamente eu não vou ver mais essa competição da mesma forma. Um documentário diferente e muito interessante que nos desvela teorias que apenas tínhamos esboçadas, mas sem nenhuma prova ou enredo para realmente comprovar as nossas suspeitas.

A HISTÓRIA: Começa apresentando a frase “Em uma época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”, de George Orwell. Em seguida, ouvimos a vários trechos de áudios de vários atletas falando sobre doping, geralmente alegando a própria inocência. Em meio a eles, surge uma narração sobre a vontade de Lance Armstrong em vencer a Volta da França. Junho de 2014, em Boulder, Colorado. O diretor Bryan Fogel comenta que está se preparando para a prova para ciclistas amadores mais difícil do mundo.

Ele comenta que essa prova é uma mini Volta da França “para loucos” – ou seja, tem alguns dos mais difíceis trechos da competição para profissionais. O diretor explica que é ciclista amador há 28 anos, e que recorda de LeMond ganhando a Volta da França quando ele estava na sétima série – LeMond foi o primeiro americano a conseguir isso, o que incentivou Fogel. Amante do ciclismo, ele ficou fascinado por Armstrong, até que o herói se revelou falho ao admitir doping. E aí o diretor resolveu fazer um documentário sobre isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Icarus): Estava com vontade de assistir a esse documentário desde o início do ano, quando vi que Icarus era um dos candidatos fortes ao Oscar 2018 de Melhor Documentário. Foi então que eu soube, de leve, que ele tratava sobre doping, mas isso foi tudo.

Quem me acompanha há algum tempo aqui no blog sabe que eu não gosto de ler sobre os filmes antes de assisti-los. Justamente para não ter a minha leitura afetada por outras análises. Mas foi impossível não saber sobre o tema de Icarus. Isso, no fim das contas, não afetou a minha experiência sobre o filme. Até porque eu não sabia o que esperar, exatamente, sobre uma produção com essa temática.

Por isso mesmo, achei Icarus surpreendente. Primeiro, porque o filme tem uma pegada de suspense e de “intriga policial” que não é muito comum em documentários. Na verdade, Icarus se assemelha mais a um filme de suspense ou policial, em alguns momentos, do que de um filme tradicional de documentário.

Isso acontece por causa da reviravolta que acontece na história. Como eu comentei no resumo da produção, inicialmente a intenção do diretor e ciclista apaixonado Bryan Fogel era demonstrar nele próprio como o doping é feito por atletas sem que eles sejam pegos por isso em exames antidoping. Por ter essa característica, este filme entra na lista de produções do tipo “diretor que faz um experimento” – a exemplo de Super Size Me, de Morgan Spurlock, e de vários outros documentários.

Bem, ao menos essa era a intenção de Fogel. Icarus começa desta forma, com o diretor explicando o seu fascínio sobre o ciclismo, comentando que ele pedala de forma amadora há 28 anos e que ele, após ficar chocado com a história do doping do ídolo Lance Armstrong, resolveu comprovar na prática como os exames antidoping são falhos.

Para isso, ele vai procurar um dos maiores especialistas nesta área, o americano Don Catlin – que aparece em uma das imagens em que Armstrong falou sobre o escândalo do doping envolvendo os ciclistas americanos. Inicialmente, Catlin dá entrevista para Fogel e fala categoricamente que todos os atletas daquela equipe se dopavam. Como ele mesmo diz, “Infelizmente as drogas funcionam”. E complementa afirmando que, com certo conhecimento, dá para passar pelos exames antidoping tranquilamente.

Uma prova disso é que o próprio Armstrong, apesar de tomar substâncias proibidas segundo a Wada (Agência Internacional Anti-Doping), nunca foi pego em cerca de 500 exames antidoping em sua carreira. O próprio Catlin fez cerca de 50 exames desse tipo com amostras da urina de Armstrong e nunca detectou nada. E olha que ele é um grande especialista no assunto. Por isso ele falou de maneira tão franca com Fogel que o antidoping não funciona.

Inicialmente, segundo o diretor, Catlin tinha topado ajudar o diretor em seu plano de fazer um doping controlado que visava melhorar o seu desempenho como atleta e, de quebra, passar nos exames antidoping. Assim, Icarus começa com Fogel falando do seu plano e participando, pela primeira vez, da Haute Route, a prova para ciclistas amadores mais difícil do mundo – ela reproduz, basicamente, os sete dias mais difíceis da prova Volta da França.

Pois bem, sem usar doping, Fogel participa da prova em 2014 e consegue um resultado excelente: o 14º lugar entre “440 masoquistas”, como ele mesmo chamou os participantes da disputa. Ele ficou, basicamente, atrás do pelotão de elite desse tipo de competição. Em seguida, a ideia dele era começar o “tratamento” de doping para, no ano seguinte, melhorar ainda mais o seu resultado na Haute Route.

Mas antes de começar a se encher de injeções e de começar a sua programação de doping, o diretor recebe um e-mail e algumas mensagens de Catlin afirmando que ele estava preocupado com o seu legado. Em outras palavras, ele pulou fora do projeto. Mas indicou uma pessoa que poderia ajudar o diretor nesse “plano de doping”: o russo Grigory Rodchenkov. Segundo Catlin, ele era um “velho amigo” e alguém que poderia auxiliar Fogel com conhecimento.

Justamente essa mudança de planos é o que acaba mudando totalmente essa produção. Quando Fogel começa a conversar com Rodchenkov, ele ainda está em Moscou, e vivendo tranquilamente. Mas tudo isso vai mudar de figura conforme o escândalo do doping russo começa a ser revelado. Como o diretor mesmo diz no filme, quando Catlin desembarcou do projeto e indicou Rodchenkov, essa ação “desencadeou toda uma cadeia de eventos”.

E foi verdade. Se, por um lado, as denúncias sobre o doping de atletas russos não foi provocada por Fogel, por outro lado o diretor teve um papel importante no desenrolar dos fatos envolvendo Rodchenkov. Assim, o filme do diretor acaba seguindo dois caminhos diferentes após todo o escândalo russo vir à tona.

Mas, antes, acompanhamos como Fogel trabalha em parceria com Rodchenkov para passar por um programa de doping e melhorar o seu desempenho físico em cerca de 20%. Ele chega também a participar do segundo ano da Haute Route, mas acaba tendo alguns problemas com a bicicleta – algo que não fica bem explicado no filme, na verdade -, o que lhe faz ter um desempenho bem pior do que no ano sem o programa de doping.

O importante, contudo, não era tanto ele se sair melhor na prova, mas apesar de fazer todo o programa de doping, não ser pego por isso. Realmente ele sai ileso. Mas logo estoura a bomba do doping russo. E aí sim o filme passa a ter dois caminhos totalmente diferentes daquele previsto inicialmente pelo diretor.

Por um lado, ele vira uma testemunha privilegiada dos acontecimentos envolvendo as investigações da trama governamental russa em favor do doping – ao menos conhecendo de perto a leitura dos fatos feita por Rodchenkov. Por outro lado, ele acaba sendo um personagem dos fatos a partir do momento que oferece “guarita” para o “amigo” que está se sentindo perseguido e ameaçado. E, assim, Fogel se torna personagem da trama do doping russo ao trazer para os Estados Unidos o controverso Rodchenkov.

Esses são alguns elementos que tornam Icarus tão interessante. Afinal, nunca poderíamos imaginar, no início do documentário, que ele trilharia caminhos tão diferentes. Questões sobre as quais só tínhamos ouvido falar e que pareciam um tanto “fantasiosas” e/ou parte de “teorias da conspiração”, como eram os rumores sobre estratégias de doping orquestradas por países para transformarem os seus atletas em “super-atletas”, a eliminação de desafetos orquestrado pelo governo russo e a vigilância estratégica do FBI sobre tudo que acontece nos Estados Unidos, são confirmadas nesse filme. E quem poderia esperar por isso?

Por tudo isso, Icarus acaba se transformando naquele estilo de filme que eu comentei antes, uma mescla de documentário com trama policial e de suspense. É assustador como Fogel destrincha os bastidores do esporte profissional manchado e corrompido pelo doping, assim como o envolvimento do governo russo no caso desvelado daquele país. Inevitável não imaginar que diversos outros países recorrem àquela mesma estratégia.

E aí sim, chego à reflexão principal que Icarus me despertou. Quem nos garante que grande parte dos resultados que vemos a cada quatro anos nos Jogos Olímpicos não acontecem porque os atletas estão “modificados” pelo doping? Como seguir acreditando na “superação humana” que as Olimpíadas simbolizam se boa parte dos resultados são obtidos através de fraude? Porque não existe outro nome para o doping. Esse é um tipo de corrupção, um tipo de fraude que termina com o princípio da igualdade entre todos.

Francamente, Icarus abalou o meu fascínio sobre as Olimpíadas. Porque desconfio que eu não vi e me emocionei apenas com medalhas fraudulentas de atletas russos, mas que isso ocorreu também com vários atletas de diferentes países. E isso não se restringe apenas às Olimpíadas, mas a diversas outras competições esportivas com atletas profissionais. Quem nos garante que boa parte daquelas pessoas não está atingindo novas marcas e recordes não por mérito e por superação das “limitações” humanas, mas por causa de drogas que não são permitidas pelos esportes?

Por tudo isso, esse filme mereceu o Oscar de Melhor Documentário. Porque apesar de termos muitos filmes importantes e que mexem em temas muito atuais, há tempos eu não assistia a um documentário que mexeu com toda uma estrutura de crenças sobre um determinado tema. Da minha parte, certamente eu vou assistir às Olimpíadas e a outras competições esportivas com outros olhos. Certamente, com muito mais desconfiança.

No geral, Fogel revelou um grande talento como narrador de um história. Ele conduz muito bem esse filme e envolve o espectador em todo o momento – especialmente quando a trama ganha aqueles requintes de filme policial. Muito bem editado, com uma trilha sonora envolvente e uma narrativa bem planejada, Icarus é um documentário que não cansa, apesar do tema um tanto árido.

Serve também de reflexão para o público, já que ele revela, mais do que outros filmes do gênero, o quanto o diretor pode interferir na realidade – todo documentarista faz isso, mas nem todos deixam esta questão tão clara como Fogel. Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que Fogel falha em dois pontos. Primeiro, por não explicar e mostrar as negociações que ele teve com Catlin e, depois, com Rodchenkov, para que eles lhe ajudassem no projeto de fazer um programa de doping.

Depois, como fica evidente no filme, Fogel acaba ajudando Rodchenkov a fugir da Rússia e a se “esconder” nos Estados Unidos. O quanto ele gastou com isso? Fica apenas sugerido, mas não é exatamente explicado no filme, a proximidade que Fogel acabou tendo de Rodchenkov. Tudo indica que eles se tornaram amigos, mas essa foi realmente a única motivação do diretor para ajudar Rodchenkov? Foi por uma questão humanitária, já que realmente havia risco do russo ser morto pelo seu próprio governo?

Acho que o diretor deixa alguns fios soltos importantes. As negociações dele com os especialistas em doping é uma delas. A grana que ele gastou nesse projeto – e deixar claro se havia algum interesse por trás disso, além do interesse pessoal do diretor -, também é outro fator que poderia ter sido explicado.

Também senti falta de Icarus explorar um pouco mais outros casos e denúncias de doping, e não ficar restrito aos bastidores da denúncia da campanha de doping russa. Enfim, o filme é bem feito, tem um propósito bem claro e é corajoso, mas deixa algumas pontas soltas de forma desnecessária.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nesse ano, infelizmente, eu não consegui assistir a todos os filmes que concorreram na categoria Melhor Documentário do Oscar. Assisti apenas a Visages Villages (comentado aqui) e a esse Icarus. Os dois filmes são interessantes. E muito, muito diferentes entre si. Ainda que eu tenha gostado dos dois e veja que ambos tem a sua importância, sem dúvida alguma Icarus me surpreendeu mais e me pareceu mais relevante pela denúncia que ele faz do que o filme de Agnes Varda e JR.

Falando em filmes que eu vi, devo pedir desculpas para vocês. Na correria das últimas semanas, eu consegui atualizar pouco o blog. Tenho tido menos tempo para ver filmes e para escrever sobre eles. Mas nessa semana eu prometo publicar pelo menos duas críticas por aqui. Essa e mais uma. 😉 E quero ver se consigo voltar a essa boa prática de pelo menos duas publicações por semana. Não desistam de mim, viram? Grazzie!

Gostei da direção de Bryan Fogel. Ele soube conduzir bem a história e tornar a narrativa envolvente do início ao fim. Muda a direção do filme de maneira natural, sem parecer que foi uma mudança forçada. Fogel é um dos roteiristas da produção, que contou, ainda, para essa tarefa, com Jon Bertain, Mark Monroe e Timothy Rode.

Os destaques no filme vão para Fogel e Grigory Rodchenkov. Eles são os “personagens” principais dessa história. Mas também vemos em cena figuras conhecidas, que aparecem em imagens de TV, como Vladimir Putin, Thomas Bach, entre outros. Espero que Fogel ou outro(a) diretor(a) ainda façam um novo filme que mostre o doping de vários países – afinal, duvido muito que a Rússia seja o único a ter uma “política pública” de doping entre os atletas que representam o país nas Olimpíadas e em outras competições internacionais.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco a excelente edição de Jon Bertain, Kevin Klauber e Timothy Rode, e a trilha sonora envolvente e marcante em diversos momentos de Adam Peters. Também vale destacar a direção de fotografia de Timothy Rode e de Jake Swantko; e a direção de arte de Jon Bertain.

Icarus estreou em janeiro de 2017 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, participou de outros quatro eventos e festivais de cinema. Em sua trajetória, o filme ganhou seis prêmios. Vale citar todos: Oscar de Melhor Documentário; prêmio Cinema Eye Honors na categoria The Unforgettables para Grigory Rodchenkov; Melhor Documentário Esportivo no Critic’s Choice Documentary Awards; Prêmio da Audiência no SummerDocs do Festival Internacional de Cinema de Hamptons; Prêmio Especial do Júri como Melhor Documentário no Festival de Cinema de Sundance; e Melhor Documentário dos Estados Unidos pela escolha do público no Festival de Cinema de Sundance em Londres.

Icarus foi o primeiro documentário que ganhou um Oscar e que foi distribuído exclusivamente por um serviço streaming. No caso, a Netflix, que comprou o filme após ele ter sido exibido no Festival de Cinema de Sundance.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 críticas positivas e apenas três negativas para essa produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,2. Os dois níveis de avaliação são muito bons – e acima da média dos dois sites. O site Metacritic apresenta para este filme um “metascore” de 68, com 14 críticas positivas, uma negativa e uma intermediária.

Icarus é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita por aqui há um bocado de tempo.

CONCLUSÃO: A verdade muitas vezes é mais difícil de acreditar do que a ficção. Mas é preciso ter coragem para enfrentar essa verdade. Icarus é um filme potente, que nasce com uma proposta e que depois vira totalmente o foco para não perder a força de uma história que o acaso apresentou para o diretor. Um filme que nasceu com uma proposta particular de mostrar como o antidoping não é confiável, muda para uma intricada trama real de denúncias, negações e ameaças – veladas e subentendidas. Produção potente, dificilmente ela não vai mudar a perspectiva do espectador sobre os atletas profissionais. Merece ser visto e debatido. Bastante debatido.