Loving

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Duas pessoas se amam para valer, mas elas acabam sendo foras-da-lei por causa disso. Não porque tenham cometido algum crime, mas simplesmente porque elas têm cor de pele diferente. Esta é a história de Loving, um filme singelo e com narrativa linear que nos conta mais um capítulo da vergonhosa história de racismo nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Após um longo silêncio, Mildred (Ruth Negga) diz para Richard (Joel Edgerton) que está grávida. Ele ri e diz “ótimo”. Fica feliz com a notícia, o que alivia a preocupação de Mildred. Corta. Em uma disputa entre dois motoristas, o carro preparado por Richard ganha a disputa. Ele comemora com Mildred e não se importa de destoar do grupo de negros sendo o único branco da turma. Do outro lado da pista, um grupo de brancos, que perdeu a disputa, olha torto para o casal. O preconceito contra eles mal começou a aparecer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving): O que me atraiu neste filme foi a indicação dele ao Oscar de Melhor Atriz para Ruth Negga. Simpatizei com a atriz na entrega do Oscar e senti a necessidade de conferir o seu trabalho nesta produção.

Ruth Negga faz um belo trabalho em Loving, mas achei o desempenho dela tão bom quanto do ator Joel Edgerton, protagonista da produção também. O diretor Jeff Nichols, que também escreveu o roteiro de Loving, acertou a mão ao tentar contar a história o mais fiel possível com a realidade. Porque sim, este é mais um filme desta temporada do Oscar baseado em uma história real.

Diferente até do que tem sido cada vez mais recorrente no cinema de Hollywood, de filmes recheados de histórias fragmentadas e/ou com um bocado de flashbacks, Loving investe em uma história linear. Vejo que esta foi uma boa escolha de Nichols. Apenas senti falta, na história, de saber um pouco como o casal Mildred e Richard se conheceu. Faltou um pouco de romance, para o meu gosto.

Mas algo bacana do filme é o retrato bem realista dos personagens. Mildred era uma mulher simples, assim como Richard era um operário típico dos Estados Unidos. Os atores que os interpretam e o roteiro de Nichols conseguem construir muito bem estes perfis. No geral, Richard é um cara silencioso e muito trabalhador. Ele tem um olhar carregado de amor e de cuidado para Mildred. Ela, que acaba segundo as pontas em casa, se revela uma mulher com consciência racial e de justiça muito interessante.

O casal foi esperto em seguir a ordem judicial por um tempo, indo morar em Washington de favor. Mas quando um dos filhos dele sofre um acidente, Mildred resolve dar um basta para aquela rotina. Ela nunca quis deixar o interior, tipo de vida que ela sempre conheceu. E é assim que eles vivem diversos anos como foras-da-lei e se escondendo não muito longe de onde moram os pais dos protagonistas.

A minha única dúvida é se eles não sofreram mais hostilidades do que aquele episódio de uma “mensagem velada” que Richard recebe no carro dele. Especialmente quando o casal acaba aparecendo mais na imprensa, acho difícil eles não terem sido alvo de mais problemas. Mas o filme não mostrou isso, então há que se respeitar a escolha de Nichols, ainda que eu gostaria de ver ainda mais realidade na tela.

Sobre a história, Loving mostra de forma simples e honesta como a legislação nos Estados Unidos demorou para se libertar dos tempos de escravidão. É um absurdo pensar que duas pessoas simplesmente não poderiam ficar juntas por causa da cor de suas peles. Não tem o mínimo cabimento. Por isso mesmo é ultrajante o comportamento racista do delegado que prende o casal e que penaliza mais a mulher. Não apenas por ela ser mulher, mas especialmente por ser negra, e sem se importar se ela estava grávida – muito pelo contrário.

Impossível não achar aquela sequência absurda. A sorte é que o protagonista era um sujeito simples, mas controlado. Alguém um pouco mais “latino” teria perdido o controle e colocado tudo a perder. De qualquer forma, revoltante o tratamento dado a Mildred e também revoltante a condenação deles. Justamente por esta história precisar ser contada que eu dei a nota abaixo para o filme.

Sobre a interpretação de Ruth Negga, acho que ela se sai muito bem no papel principal. Ela não exagera na interpretação e faz uma entrega muito coerente e que passa legitimidade. Agora, ela merecia uma indicação como Melhor Atriz no Oscar? Francamente, acho que merecia mais que ela estar lá a atriz Amy Adams por seu excelente trabalho em Arrival (com crítica neste link). Mas, em um ano em que Emma Stone ganha a estatueta no lugar de Natalie Portman e Isabelle Huppert, não é possível exigir muita coerência da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, não é mesmo?

No geral, a história de Loving é importante e merece ser conhecida. Só que por não explorar tanto o romance entre os protagonistas ou mesmo a relação deles com outros personagens, a história acaba sendo um tanto burocrática demais. Mas, no geral, vale ser visto, especialmente em casa.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia de Adam Stone e para a trilha sonora com bom resgate de época e bem pontual de David Wingo.

Além dos protagonistas já citados e que são os grandes responsáveis pela qualidade do filme, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Chris Greene como Percy, o amigo mais próximo de Richard; Sharon Blackwood como Lola, mãe do protagonista; Christopher Mann como Theoliver, pai de Mildred; Marton Csokas como o sheriff Brooks; Bill Camp como o advogado Frank Beazley; David Jensen como o juiz Bazile; Jevin Crochrell e Brenan Young interpretam Sidney, primeiro filho do casal de protagonistas; Jordan Williams Jr. e Dalyn Cleckley interpretam Donald, o segundo filho deles; Georgia Crawford e Quinn McPherson interpretam Peggy, a caçula do casal; Nick Kroll interpreta ao advogado Bernie Cohen, figura fundamental na causa dos protagonistas; Jon Bass interpreta ao advogado Phil Hirschkop; e Michael Shannon faz uma ponta como o fotógrafo da Life Grey Villet.

Este é apenas o quinto filme dirigido por Jeff Nichols. Ele estreou em 2007 com Shotgun Stories e, no ano passado, lançou Midnight Special. O diretor de 38 anos de idade já tem 21 prêmios no currículo. Dirigido por ele, antes de Loving, eu assisti a Mud (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 185 críticas positivas e 23 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,6.

Loving teria custado cerca de US$ 9 milhões e faturado, apenas nos cinemas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 7,7 milhões. Ou seja, até o momento, o filme está dando prejuízo.

Este filme, que até o momento tem 21 prêmios, é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Uma história importante para a evolução dos Estados Unidos e que é contada de maneira muito franca e singela. Uma das qualidades do filme é que ele não exagera em suas tintas e nem no sentimentalismo. Loving conta a saga do casal que foi proibido de ficar junto e que conseguiu permanecer unido apesar da lei e de diversas pessoas serem contra. Boa história, com atores afinados, bela fotografia, Loving só não tem força para entrar na lista das produções inesquecíveis.

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Manifesto sobre um novo blog

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Boa noite, meus caros e estimados amigos e amigas deste blog.

Hoje, dia 28 de fevereiro de 2017, faltando exatamente seis meses para o blog Crítica (non)Sense da 7Arte completar 10 anos de existência, resolvo escrever e lançar um manifesto sobre um novo blog.

Para isso, gostaria de voltar um pouquinho nas origens deste espaço. Quando eu criei o blog eu estava morando fora do país e cursando um doutorado. Sentia a necessidade não apenas de voltar a escrever sobre cinema, algo que eu fazia antes como jornalista, mas também de experimentar aquela “novidade” dos blogs e da criação coletiva de conteúdos.

Pois bem, muito tempo passou desde então. Voltei para o Brasil, retornei a carreira de jornalista, e novas demandas surgiram no período. Mas não é apenas por isso que eu resolvi mudar este espaço.

Quando criei o blog, há nove anos e meio, a ideia dele era publicar algumas impressões sobre os filmes que eu ia assistindo, compartilhá-las em um ambiente aberto como a internet e interagir com as pessoas.

No início, vários leitores – espero que muitos deles ainda continuem visitando esta página – começaram a me incentivar a escrever mais. Isso porque os meus primeiros textos – e vocês podem confirmar isso acessando o primeiro mês de publicações – não eram tão extensos. Mas, com o tempo, e bastante por causa do incentivo dos leitores, fui fazendo textos cada vez mais longos.

Por causa disso, vocês podem imaginar, cada post com textos longos leva muito tempo para ser feito. Sinto hoje uma necessidade de rever isso. Também sinto a falta de conversar mais com vocês, de trocar mais ideias e de buscar filmes que vocês me indicam no caminho. Retomar a nossa interação.

Por tudo isso e porque realmente sinto a necessidade de dedicar mais tempo para outras atividades, inclusive seguir com a minha formação, resolvi rever as publicações do blog. Ah sim, e outra motivação para esta mudança é que eu pretendo publicar com mais frequência por aqui, procurando assistir a mais filmes, até para aproveitar os presentes do Cinespaço do Beiramar Shopping de Florianópolis e do Paradigma CineArte que me presentearam com cartões de fidelidade.

Desde o ano passado eu aproveitei pouco os cartões, mas quero corrigir isso neste ano em que o blog completa uma década. Assim sendo, a partir de agora eu vou publicar textos extensos apenas sobre filmes que peçam por isso.

Ou seja, na maioria das vezes eu vou publicar por aqui textos mais curtos, objetivos. Apenas grandes filmes ou produções que sejam um tanto “confusas” e que exijam textos maiores terão posts mais generosos. Espero que vocês entendam este manifesto e continuem visitando o blog. Assim como espero poder, pouco a pouco, colocar a conversa com todos vocês em dia.

A partir do próximo post vocês já vão acompanhar o blog com esta nova proposta. Espero que vocês gostem. Obrigada a cada um de vocês que visita este espaço e ajuda ele a seguir vivo. Um grande abraço e vida longa para o Crítica (non)Sense da 7Arte!

E o Oscar 2017 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

Preparations continue Thursday, February 23, 2017 for the 89th Oscars® for outstanding film achievements of 2016 which will be presented on Sunday, February 26, 2017 at the Dolby® Theatre and televised live by the ABC Television Network.

 

Olá amigos e amigas do blog!

Mais uma vez estamos juntos em uma entrega do prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Este é um ano especial, com uma safra realmente excepcional de filmes.

Não há filme ruim na disputa. Cada um de nós tem a sua preferência e os seus gostos pessoais. Mas é fato que nenhum filme será premiado sem mérito. Isso é um grande avanço para o Oscar. A Academia também está dando alguns passos adiante ao indicar, depois de muitos anos de injustiça, uma série de filmes e de atores negros. Finalmente o Oscar deixou de ser “tão branco”.

A expectativa para esta noite é de consagração do musical La La Land. O filme deve ganhar em 10 categorias, aproximadamente, incluindo a de Melhor Filme. As razões para esta produção ser tão premiada vão além da questão pura e simples do cinema. Tem muito mais a ver com a conjuntura social e política em que os Estados Unidos e Hollywood estão imersos. Ao premiar La La Land, Hollywood está defendendo a sua indústria. Minha opinião sobre isso vocês podem encontrar por aqui, em um texto que produzi sobre o assunto para a revista Plural do jornal Notícias do Dia.

Como comentei no texto citado, o Oscar 2017 é marcado por diversos filmes baseados em histórias reais e/ou que tratam de temas muito contemporâneos e importantes nos nossos dias. Isso vale para quase todas as categorias em disputa, dos curtas até os longas estrangeiros e os documentários. Volto a dizer: a safra deste ano é excepcional.

A cobertura do tapete vermelho começou as 19h30, mas é a partir de agora, às 20h15, que começo a cobertura aqui pelo blog. Vou informando vocês sobre o que os astros e estrelas falaram no tapete vermelho e, quando a premiação começar, sobre todos os premiados da noite. Diferente dos dois últimos anos, em 2017 volto a fazer a cobertura pelo blog e também pelo Twitter @criticanonsense

No tapete vermelho do Oscar entrevistaram Saroo e os pais adotivos dele, John e Sue Brierley. A história real deles é contada no filme Lion. Para mim, a produção mais “fraca” na disputa de Melhor Filme. Ok, a história de Saroo é muito bacana, mas o filme não faz jus a ela. Acho que Lion só chegou a seis indicações ao Oscar porque tem como produtores os “reis do lobby”, os irmãos Weinstein.

O apresentador da vez, Jimmy Kimmel, deu uma entrevista para o canal E! antes da noite de premiações. De boa? Achei ele bem fraquinho. Vamos ver se na apresentação do Oscar ele se sai melhor. Esperamos que sim, até para que não seja um fiasco. Aliás, o que esperar da noite de premiação?

Certamente teremos muitos e muitos discursos políticos contra Donald Trump e a sua política restritiva aos imigrantes. Também espero uma premiação relativamente rápida, seguindo o padrão do Oscar dos últimos anos. Prevejo uma noite com menos espetáculo e mais “pano para manga” para a próxima semana, com discursos contundentes e talvez inflamados.

Este será um ano interessante porque grandes atores devem levar para casa uma estatueta dourada. São mais que esperados os prêmios para Denzel Washington, Viola Davis e Mahershala Ali. Todos são mais que merecedores neste ano. Pode estragar um pouco a festa se Casey Aflleck levar a estatueta de Melhor Ator. Não que ele esteja ruim em Manchester by the Sea, mas temos que convir que ele nunca terá o talento de Denzel.

Oscar® Nominee, Isabelle Huppert, arrives on the red carpet of The 89th Oscars® at the Dolby® Theatre in Hollywood, CA on Sunday, February 26, 2017.

Admito para vocês que, até agora, 20h37, o tapete vermelho está bem morno. Pelo visto os nomes mais interessante, com exceção da divina Isabelle Huppert, que já apareceu em cena, só vão chegar mais perto do horário da premiação começar.

Sting e John Legend vão se apresentar na noite. Eles são ótimos cantores e vão garantir momentos bacanas na premiação, não há dúvida, mas Legend em La La Land é uma ponta fraca do filme. Ele preenche bem a cena, mas quanto à interpretação… tem muito que aprender ainda.

Depois de Pharrell Williams, aparece em cena uma das estrelas de Hidden Figures, Taraji P. Henson. Honestamente? Ela está ótima no filme. Até merecia ter uma indicação na noite de hoje, mas realmente ficou complicado conseguir uma vaga em uma noite com grandes atrizes em cena. Mas não lhe faltou mérito. Ela realmente está surpreendente no filme. É um nome a ser acompanhado no cinema – na TV ela é mais conhecida, claro.

O jovem ator Andrew Garfield, um dos pontos fortes do excelente Hacksaw Ridge, está super feliz de receber a primeira indicação ao Oscar. Para marcar esta data, ele foi para a premiação com os pais e alguns amigos que são atores. Ele disse que se inspirou no exemplo dos veteranos de guerra para fazer o seu papel, especialmente pensando na realidade que todos eles têm de ir para a batalha sem saberem se irão voltar para casa.

Aliás, se esta deve ser a noite de dois veteranos – Denzel Washington e Viola Davis -, poderá ser também a noite de dois nomes com bem menos história no cinema, Emma Stone e Mahershala Ali. Mas, além deles, temos a genial Meryl Streep em sua 20ª indicação, algo histórico, e também jovens talentos despontando, a exemplo de Andrew Garfield e Lucas Hedges.

Em cena o ótimo Mahershala Ali, favoritíssimo da noite como Melhor Ator Coadjuvante. Ele comenta que já conhecia o trabalho do diretor Barry Jenkins e que ficou muito feliz quando surgiu o roteiro de Moonlight e a oportunidade de fazer o filme. Moonlight é mais que necessário e tem grandes atores em cena, inclusive Ali, que faz um ótimo trabalho.

Como comentei há pouco no Twitter, este ano estou menos “nervosa” com o Oscar. Talvez porque as bolas estejam quase todas cantadas, sem muita possibilidade de surpresa na noite, mas também deve contribuir para isso o fato de que em 2017 não deveremos ter nenhuma grande injustiça. Sim, aqui e ali podíamos ter um premiado “mais merecedor”, mas quem levar não terá vencido por lobby, mas porque tem as suas qualidades.

O maior exemplo disso é La La Land. O filme é ruim? Não, ele é muito bem acabado e, especialmente na parte técnica, impecável. Mas ele é o melhor filme do ano? Não, não é. Tem pelo menos quatro produções da lista que concorre a Melhor Filme que eu acho melhor que ele. Ainda assim, não será injusto ele levar a estatueta, seja pelo “conjunto da obra”, seja pelas razões políticas da Academia. Enfim, este está sendo um ano tranquilo.

Em menos de meia hora, agora, vai começar a premiação do Oscar. Que ninguém se surpreenda com La La Land acumulando prêmios logo no início. Isso porque o Oscar sempre tem uma boa sequência de prêmios técnicos, onde o filme deve papar quase tudo. Vale lembrar que o filme tem 14 indicações e 13 chances de vencer – afinal, ele tem duas indicações em Melhor Canção. Deve perder apenas em Melhor Ator, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição de Som. Exceto por esta última categoria, as derrotas do filme devem ficar mais para a reta final do prêmio.

Então vamos lá, minha gente. Na torcida para que Jimmy Kimmel não seja uma piada como apresentador (desculpem a piadinha tosca, mas é o nervosismo por achar que ele será um desastre).

O Oscar 2017 com Justin Timberlake saindo dos corredores do Dolby Theatre para chegar no local da premiação cantando, no trajeto, “Can’t Stop the Feeling”, canção indicada na noite pelo filme Trolls. Achei bacana a sacada do começo. Primeiro, por ser inédita na premiação. Depois, por seguir um pouco a ideia de “vida real” invadindo o cenário de sonhos de Hollywood, algo muito coerente com a safra deste ano. Começamos bem.

Depois de um belo começo com Justin Timberlake, sobe ao palco Jimmy Kimmel. E ele começa com aquelas velhas piadas de “esta é a minha primeira vez no Oscar e possivelmente a última”. Ok. Mas depois ele faz uma boa piada com Mel Gibson, dizendo que só tem um “braveheart” na plateia e que ele não vai conseguir unir todo mundo. Começaram as piadas políticas. Em seguida ele faz a esperada piada com Matt Damon.

Kimmel faz uma piada agradecendo Donald Trump, dizendo que no ano passado o Oscar não indicou negros, mas que isso mudou desde então. Neste ano, os negros salvaram a NASA e os brancos salvaram o jazz – piada envolvendo Hidden Figures e La La Land. Ele seguiu fazendo várias piadas com indicados, nada demais. Mas foi legal ele citar Isabelle Huppert, apesar de fazer piadinha desnecessária com Elle dizendo que ninguém assistiu ao filme.

E, claro, não poderia faltar a tradicional piada com Meryl Streep. Mas ele acertou na piada, especialmente por tirar sarro da crítica de Donald Trump. Kimmel comentou que ela era superestimada e pediu para todos aplaudirem Meryl Streep apesar dela não merecer. Bela sacada, apesar de previsível. Mas a boa piada foi quando ele comentou da responsabilidade de todos que estavam indicados de fazerem discursos que depois seriam comentados pelo presidente pelo Twitter.

Bacana a ideia do Oscar deste ano de mostrar um vídeo com vários premiados em cada uma das categorias em anos anteriores. E o primeiro prêmio da noite, como já é tradição da premiação, foi o de Melhor Ator Coadjuvante. E o Oscar foi para… Mahershala Ali, de Moonlight. Ele era favoritíssimo e, apesar de ter outros nomes fortes na disputa, confirmou a predição. Ele mereceu. Está ótimo neste grande filme chamado Moonlight.

Em seu discurso, Mahershala começa agradecendo os seus professores. Depois diz que os atores são apenas o instrumento para dar voz para os personagens. Ele então fala dos personagens de Moonlight e do elenco do filme. Muito calmo, sereno, homenageou também a esposa e demonstrou toda a sua religiosidade, pedindo bênçãos para todos. Se eu já era fã dele, fiquei ainda mais.

Mahershala Ali poses backstage with the Oscar® for Performance by an actor in a supporting role, for work on “Moonlight” during the live ABC Telecast of The 89th Oscars® at the Dolby® Theatre in Hollywood, CA on Sunday, February 26, 2016.

Na volta do intervalo, Kimmel segue com as piadas com toques políticos. Ok, até agora ele tem conseguido ser razoável. Veremos até o final da noite. Na sequência, foram apresentados os três indicados na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo. E o Oscar foi para… Suicide Squad. Uma das grandes bilheterias do ano passado, ele derrota o mais apontado na bolsa de apostas Star Trek Beyond. Para os fãs do filme deve ter sido uma boa surpresa.

Na sequência, os indicados na categoria Melhor Figurino. E o Oscar foi para… Fantastic Beasts and Where to Find Them. E eis que surge a segunda “zebra” da noite, vencendo os apostadores. La La Land perdeu em uma categoria em que os apostadores tinham apostado nele. Olha, quem sabe não tenhamos mais surpresas nesta noite? Eu iria adorar uma surpresa em Melhor Filme. 😉 Interessante que foram premiados dois filmes que foram destaque em bilheteria. Bom para os fãs de ambos.

No retorno do intervalo, as deslumbrantes e super talentosas Janelle Monáe, Taraji P. Henson e Octavia Spencer sobem ao palco para apresentarem o filme Hidden Figures. E então sobe ao palco Katherine G. Johnson, que é aplaudida de pé pelos astros e estrelas. Ela é a única das três homenageadas em Hidden Figures que está viva – a personagem dela é interpretada por Taraji P. Henson.

Na sequência, foram apresentados os indicados na categoria Melhor Documentário. E o Oscar foi para… O.J.: Made in America. Bola cantadíssima. O filme é interessante, verdade, mas não era o meu favorito. Se não assistiram ainda, assistam ao premiado e também a 13th. Especialmente este último é uma peça de arte. Fundamental.

Depois de mais uma aparição dispensável de Kimmel, sobe ao palco The Rock para chamar para o cenário a jovem Auli’i Cravalho para cantar a música da animação Moana que está concorrendo em Melhor Canção, “How Far I’ll Go”. Muito bonita, Auli’i surpreende bela bela voz, potente e muito límpida. Natural do Hawaii, Auli’i tem apenas 16 anos de idade e respirou aliviada após a linda apresentação. Um momento bacana do Oscar até então. Aliás, as apresentações musicais, até agora, surpreenderam.

Retornando do intervalo, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs sobre no palco para falar da comunidade do qual todos os presentes fazem parte. Ela comenta que esta comunidade é global e que está mais inclusiva.

Cheryl Boone Isaacs foi a grande responsável pela “revolução” que aconteceu na Academia no último ano e por, finalmente, a Academia reconhecer o talento, não importando a cor de pele. Por isso, com muito mérito, tantos negros foram indicados neste ano. Estava mais que na hora disso acontecer. Segundo Cheryl Boone, é a magia do cinema que todos estão celebrando nesta noite.

Na sequência, começam as categorias de som. E o Oscar de Melhor Edição de Som foi para… Arrival. Que legal! Fico muito feliz que Arrival saia da noite de hoje ao menos com um prêmio. O filme merece, sem dúvidas! E eis que La La Land perde o seu segundo prêmio. Também fico feliz por isso, admito. Arrival é ótimo. Quem não assista, vá atrás!

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Na sequência, o Oscar de Melhor Mixagem de Som. E o Oscar foi para… Hacksaw Ridge. Opa, outra surpresa! Novamente fico bem feliz que um filme que tinha chances de sair da noite sem nada tenha ganhado ao menos um Oscar. Hacksaw Ridge é um grande filme. Merece vencer o preconceito contra filmes de guerra porque esta é uma produção muito diferente do gênero.

Vejam que curioso. Segundo as bolsas de apostas, Melhor Edição de Som iria para Hacksaw Ridge e Melhor Mixagem de Som iria para La La Land. Hacksaw acabou levando, na categoria contrária a das apostas, e La La Land perdeu mais uma. Sim, o musical é ótimo na técnica, mas francamente acho que ele não merece levar um grande número de estatuetas. Fiquei feliz por Arrival e Hacksaw Ridge.

No retorno de mais um intervalo, o ator Vince Vaughn apresenta as premiações especiais do Oscar deste ano. Os homenageados deste ano foram Lynn Stalmaster, Anne V. Coates, Frederick Wiseman e Jackie Chan. Quatro grandes nomes, sem dúvida, pena que deram um espaço minúsculo para cada um deles falar. Poderiam ter dado um espaço maior, sem dúvida.

Na sequência, um “remember” de atrizes que receberam o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. E o Oscar 2017 de Melhor Atriz Coadjuvante foi para… Viola Davis. Oh yeah! Finalmente! Esta era a terceira indicação de Viola Davis, e foi a primeira vez que ela levou a estatueta para casa. Essa atriz maravilhosa merece, e não é de hoje, este prêmio. Bacana. Segundo Oscar super cantado da noite e muito merecido.

Em seu discurso, Viola Davis fala sobre como as pessoas geniais se encontram no cemitério. E que é preciso exorcizar as suas histórias. Ela disse: “Nós somos a única profissão que celebra o que significa viver uma vida”. Maravilhoso o discurso dela. Celebrou a vida, as histórias de pessoas comuns e de perdão (algo que Fences faz com maestria), a arte, o esforço e o talento. Viola incrível. Especial também quando ela agradeceu Denzel Washington. Torço por ele nesta noite. E espero que Viola Davis ganhe não apenas esta, mas também outras estatuetas do Oscar.

Viola Davis poses backstage with the Oscar® for Performance by an actress in a supporting role, for work on “Fences” during the live ABC Telecast of The 89th Oscars® at the Dolby® Theatre in Hollywood, CA on Sunday, February 26, 2016.

No retorno de mais um intervalo, Kimmel ainda não consegue decolar. Na sequência, uma outra inovação do Oscar: trazer astros e estrelas para falar de filmes e atuações que lhe inspiraram. Charlize Theron fala de The Apartment e da maravilhosa interpretação de Shirley MacLaine. As duas sobem ao palco juntas e Shirley MacLaine é aplaudida por todos de pé.

Charlize Theron e Shirley MacLaine sobem ao palco para apresentar os indicados a Melhor Filme em Língua Estrangeira. E o Oscar foi para… Forushande (ou The Salesman). O grande Asghar Farhadi não foi para a noite de premiação, mas mandou uma mensagem contundente. Disse que não foi lá receber o seu segundo Oscar em respeito às pessoas de seu país e de outros 60 países que foram desrespeitados pela legislação excludente de Donald Trump. Em sua mensagem, Farhadi pede por mais empatia.

O filme de Farhadi é excepcional. Era o melhor filme em disputa. Por isso fico feliz que ele tenha sido reconhecido hoje. E a mensagem dele também foi muito acertada. Bacana. Na sequência, Sting apresentou “The Empty Chair” que concorre a Melhor Canção e que está no filme Jim: The James Foley Story. Bela canção. Mais uma mensagem importante.

No retorno do intervalo, a sequência de indicados nas categorias curta-metragens. E a primeira a ser apresentada foi a categoria Melhor Curta de Animação. E o Oscar foi para… Piper. Era realmente uma boal bem cantada. Veremos as próximas duas, se os apostadores também acertaram… Piper é lindo. Recomendo.

Na sequência, o apresentador Gael Garcia Bernal fura o script e fala que por ser um imigrante ele é contra qualquer divisão. Depois vieram os indicados na categoria Melhor Animação, e o Oscar foi para… Zootopia. Outra estatueta super cantada. E o filme merece. Ele é bacana e tem uma mensagem ótima de inclusão. Algo fundamental nestes dias.

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A dupla de atores de Fifty Shades Darker, Dakota Johnson e Jamie Dornan sobrem ao palco para apresentar os indicados em Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… La La Land. Primeiro prêmio da noite para o filme. Sem dúvida a produção era a favorita na disputa e, desta vez, confirmou o seu favoritismo.

E nesta ideia de “vida real” invadindo o cenário de sonhos de Hollywood, um grupo de “turistas” é convidado a entrar no Dolby Theatre no meio da cerimônia do Oscar. Uma boa esfriada na cerimônia, mas tudo bem. Realmente acho difícil esse Kimmel apresentar mais um Oscar.

No retorno do intervalo, os indicados em Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… The Jungle Book. Mais um Oscar que era previsto. Outro grande sucesso nas bilheterias do ano passado e que foi reconhecida com uma estatueta dourada. Na sequência, mais um depoimento sobre um filme que marcou um ator. Desta vez o ator Seth Rogen homenageia Michael J. Fox e o filme Back to the Future.

Os dois atores sobem no palco, saindo de um DeLorean. Bem bacana essa sacada do Oscar deste ano. E o Oscar de Melhor Edição foi para… Hacksaw Ridge. Puxa, que bacana! A edição deste filme é realmente algo incrível. Sou suspeita para falar, porque gostei muito desta produção. E, assim, La La Land perde mais uma. 😉 Novamente a maioria dos apostadores perdeu o seu dinheiro. Nesta categoria o favorito era La La Land.

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No retorno de mais um intervalo, os indicados a Melhor Curta Documentário. E o Oscar foi para… The White Helmets. O curta realmente parece muito interessante, e marca a primeira vitória da Netflix. O tema da Síria precisa ser bem tratado e ganhar evidência, até para que alguém achei uma solução para aquele drama humano.

E o Oscar de Melhor Curta foi para… Sing. Esta sim uma surpresa na noite. Ele não estava cotado entre os favoritos. O curta é bacana, tem uma mensagem bonita, mas a minha torcida ia para o espanhol Timecode. Na sequência foram apresentados os Prêmios Técnicos e Científicos do Oscar, premiação paralela feita pela Academia. No total, foram entregues 18 prêmios para estas pessoas que tornam a fábrica do cinema sempre avançar e fascinar plateias mundo afora.

No retorno, Javier Bardem homenageia Meryl Streep e a sua interpretação em The Bridges of Madison County. Ver isso vale qualquer premiação do Oscar. Até agora, para mim, estas homenagens e os discursos de Viola Davis e Mahershala Ali foram os pontos fortes da noite. Javier Bardem e Meryl Streep apresentam os indicados em Melhor Fotografia. E o Oscar foi para… La La Land. Sem dúvida alguma a fotografia do musical é um dos pontos fortes da produção. Mereceu levar a estatueta.

Achei interessante a parte em que tweets raivosos foram lidos pelos próprios atores que são citados por eles. Quem sabe este tapa na cara não ajude as pessoas a pensarem um pouco sobre o que escrevem por aí? As pessoas poderiam evitar de serem tão idiotas, não é verdade?

Seguindo a premiação, Ryan Gosling e Emma Stone aparecem em cena para apresentar as duas indicações de La La Land na categoria Melhor Canção. Apresentando as duas músicas, John Legend. Pena. Eu ia gostar muito dos atores que realmente cantam estas músicas poderem interpretá-las no Oscar. Mas entendo que a Academia precisava de um artista para seguir a sequência de apresentações do tipo. E assim o público viu Legend interpretando a “City of Stars” e “Audition (The Fools Who Dream)”. A primeira é a favorita nesta categoria.

No retorno do intervalo, o ator Samuel L. Jackson apresentou os indicados a Melhor Trilha Sonora. E o Oscar foi para… La La Land. Mais que esperado. Nesta categoria, em 2017, apenas grandes trabalhos. La La Land merece, claro. Justin Hurwitz é um dos grandes responsáveis pelo sucesso do filme.

Na sequência, Scarlett Johansson apresenta os indicados em Melhor Canção. E o Oscar foi para… “City of Stars”, de La La Land. Merecido, bem merecido. A música estourou mundo afora, inclusive aparecendo em diversas listas de mais tocadas quando o filme estreou.

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Depois de um momento de alegria com os últimos premiados, a atriz Jennifer Aniston sobe ao palco para chamar a linda homenagem aos falecidos no último ano, incluindo o ator Bill Paxton, que morreu na véspera da premiação do Oscar 2017. Bela homenagem, sem dúvida. Muita gente super competente já nos deixou. Neste e em vários outros anos.

No retorno do intervalo, Jimmy Kimmel tira sarro de uma das inovações do Oscar deste ano, as homenagens para grandes atores e atrizes e seus filmes e ironiza o trabalho de Matt Damon. Então sobem ao palco Matt Damon e Ben Affleck. Os dois apresentam a categoria Melhor Roteiro Original. E o Oscar foi para… Manchester by the Sea.

Bacana. Manchester era o melhor na disputa, sem dúvida. Na sequência, Amy Adams sobe ao palco para apresentar os indicados a Melhor Roteiro Adaptado. E o Oscar foi para… Moonlight. Aí, agora sim! Esta era uma categoria disputadíssima, com grandes roteiros na disputa, mas eu estava torcendo por Moonlight. Grande filme e grande roteiro. Super merecido. A Academia acertou nas duas entregas em roteiro. Vejam os filmes, se ainda não o fizeram.

No retorno de mais um intervalo – como tem intervalo essa premiação, my God! -, a atriz Halle Berry apresenta os indicados a Melhor Diretor. E o Oscar foi para… Damien Chazelle, de La La Land. Aqui existia chance quase zero de outro resultado. Em seu discurso, Chazelle agradeceu a várias pessoas da equipe de produção e aos atores.

Na reta final da premiação, a atriz Brie Larson apresenta os indicados na categoria Melhor Ator. E o Oscar foi para… Casey Affleck, de Manchester by the Sea. Bueno, o que dizer? Eu não tenho dúvidas de que Denzel Washington merecia a estatueta. Não apenas por estar em um nível muito acima da maioria, mas porque Denzel realmente está melhor que os outros por seu papel em Fences. Mas… Casey Affleck não está mal. Realmente Manchester é o filme da vida dele até agora. Então ok.

Depois de mais uma sequência de atrizes premiadas aparecer na telona do Dolby Theatre em um revival da premiação, Leonardo DiCaprio aparece em cena para apresentar as indicadas em Melhor Atriz. E o Oscar foi para… Emma Stone, de La La Land. O musical é o filme da vida dela até o momento. Pelo visto a Academia resolveu premiar este tipo de interpretação neste ano – mais uma vez.

Super respeito a decisão da Academia de premiar jovens talentos que estão no “auge” de suas carreiras, nos papéis de suas vidas, mas é complicado achar que é justo uma premiação dar estatuetas para Emma Stone e Casey Affleck em um ano em que estão concorrendo Isabelle Huppert e Denzel Washington, não? Mas algo ao menos me consola: os premiados deram o sangue em seus respectivos filmes.

Agora só falta um prêmio, o principal da noite. Todos os prognósticos apontam para La La Land. Os grandes atores e veteranos Faye Dunaway e Warren Beatty subiram ao palco para apresentar os concorrentes deste ano em Melhor Filme. Volto a repetir: eis uma grande safra. Tentem assistir a todos os indicados, caso ainda não fizeram isso.

E o Oscar de Melhor Filme foi para… La La Land. Era o preferido por ser uma ode ao cinema, justamente. Com este prêmio, La La Land fecha a noite com sete estatuetas. Conquistou, assim, metade das estatuetas pelas quais concorria. Nada mal. Me pareceu mais justo o Oscar 2017 espalhar parte de suas categorias entre tantos filmes merecedores este ano.

Esqueçam o que foi dito acima. De forma inacreditável e pela primeira vez na história do Oscar eles conseguiram entregar o prêmio principal para o filme errado. Pois sim. Warren Beatty entregou o Oscar de Melhor Filme para La La Land, mas não era ele que estava no cartão de premiado. Uma das pessoas que subiu ao palco para fazer o discurso de agradecimento é que viu o erro e entregou o Oscar de Melhor Filme para Moonlight.

Olha, fora o choque geral do povo, devo admitir que eu gostei do resultado final. Pelo segundo ano consecutivo o favorito da noite perde o Oscar principal para outro concorrente. E, nas duas vezes, eu considero que o melhor filme venceu. Boa noite e obrigada aos que seguiram a entrega do Oscar mais uma vez por aqui. Até o próximo!

Barry Jenkins and Adele Romanski accept the Oscar® for Best motion picture of the year, for work on “Moonlight” during the live ABC Telecast of The 89th Oscars® at the Dolby® Theatre in Hollywood, CA on Sunday, February 26, 2017.

Confiram a lista com todos os premiados do Oscar 2017:

Melhor Filme: Moonlight

Melhor Ator: Casey Affleck (Manchester by the Sea)

Melhor Atriz: Emma Stone (La La Land)

Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali (Moonlight)

Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis (Fences)

Melhor Animação: Zootopia

Melhor Fotografia: La La Land

Melhor Figurino: Fantastic Beasts and Where to Find Them

Melhor Diretor: Damien Chazelle (La La Land)

Melhor Documentário: O.J.: Made in America

Melhor Curta Documentário: The White Helmets

Melhor Edição: Hacksaw Ridge

Melhor Filme em Língua Estrangeira: The Salesman (Forushande)

Melhor Maquiagem e Cabelo: Suicide Squad

Melhor Trilha Sonora: La La Land

Melhor Canção Original: “City of Stars” (La La Land)

Melhor Design de Produção: La La Land

Melhor Curta de Animação: Piper

Melhor Curta: Sing

Melhor Edição de Som: Arrival

Melhor Mixagem de Som: Hacksaw Ridge

Melhores Efeitos Visuais: The Jungle Book

Melhor Roteiro Adaptado: Moonlight

Melhor Roteiro Original: Manchester by the Sea

 

Forushande – The Salesman – O Apartamento

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Um filme surpreendente, sutil e contundente ao mesmo tempo. Forushande é surpreende na história, sutil na narrativa e contundente na mensagem. Mais um trabalho excepcional do diretor Asghar Farhadi. O ideal é que você, como eu, procure saber o menos que puder do filme antes de assisti-lo. Só assim Forushande terá o impacto em você da forma correta e como o diretor imaginou.

A HISTÓRIA: Começa mostrando uma cama. Luzes de teatro. A iluminação é ajustada para mostrar não apenas um sofá, mas também uma mesa e cadeira. Depois, a luz ilumina duas camas. Enquanto o cenário da peça está sendo finalizado, ouvimos os atores aquecendo a voz. Corta. Emad (Shahab Hosseini) é acordado pelos vizinhos, que evacuam o prédio porque ele está ruindo. Do lado de fora, um trator trabalha no solo e prejudica a estrutura do prédio em que Emad morava com Rana (Taraneh Alidoosti).

Os dois, que são atores de teatro e encenam juntos a peça que começamos a ver no início da produção, acabam ficando sem casa. Eles procuram um lugar para ficar, e o colega deles da peça, Babak (Babak Karimi), afirma que pode ajudá-los. É assim que eles se mudam para o apartamento que Babak tem disponível para alugar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Forushande): Alguns filmes, pelos nomes envolvidos na produção e/ou pelo número de prêmios que os cercam, criam uma grande expectativa. Eu tinha uma grande expectativa sobre Forushande. E vocês sabem, quanto maior a expectativa, maior a possibilidade da gente se frustrar com o que vamos assistir.

Mas não foi isso que aconteceu com este filme com roteiro e direção de Asghar Farhadi. O realizador já tem trabalhos brilhantes no currículo, mas este Forushande é, mesmo no contexto dele, um ponto fora da curva. Cada palavra do roteiro tem um propósito, está ali a serviço da narrativa. E o próprio desenrolar da história é muito interessante.

Primeiro o filme nos prega algumas “peças”. Forushande é surpreendente em mais de uma ocasião. Além disso, ele tem a qualidade de tratar o espectador com respeito, valorizando a inteligência e a atenção de quem está assistindo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, não é evidente quando Emad encontra o dinheiro no apartamento que foi invadido de que o bandido que fez isso estava “pagando” pelos “serviços” da inocente Rana. Essa interpretação terá que ser feita pelo espectador.

Algo que eu acho impressionante neste filme é como ele joga com as simbologias e com os pequenos detalhes significativos todo o tempo. Por exemplo, o filme começa com um prédio sendo destruído pela ambição de alguém. Ora, a história que virá em seguida mostra, na prática, como um lar pode ir às ruínas por causa da atitude e das escolhas das pessoas.

A alegoria do lar em ruínas é um ponto fundamental nesta narrativa. Emad, fruto de sua cultura machista e patriarcal, onde a função do homem é proteger a sua mulher e ser o “provedor” da casa, faz tudo errado depois que a nova casa deles é invadida. Ao invés de ter um olhar de cuidado e de compreensão para a mulher, Rana, vítima de violência gratuita, ele se prende à ideia que a sociedade faz do “macho” da casa e empreende uma busca por vingança angustiante.

Desta forma, Forushande se revela brilhante em dois sentidos. Primeiro, ao fazer o paralelo inevitável entre a vida real de Emad e Rana e das demais pessoas que fazem parte da vida deles e a peça que o casal protagoniza, A Morte de um Caixeiro-Viajante, do dramaturgo Arthur Miller.

Qual é a essência da peça de Miller? Ele trata de um vendedor que não é bem-sucedido em sua vida profissional e que, desta forma, não importando as suas relações pessoais ou valores, ele é considerado um fracassado. E nada pior para uma sociedade que mede as pessoas pelo seu sucesso do que alguém ser fracassado. Miller escancara, assim, os valores do “sonho americano” e a sua hipocrisia.

Pois bem, agora vamos pensar na história central deste filme. Emad, apesar de ser um sujeito inteligente e “culto” – afinal, ele é professor e ator de teatro -, reproduz exatamente o que a sociedade dele exige. Quando a casa dele é invadida e Rana é agredida, Emad assume para si a posição de fracassado. Afinal, segundo a sociedade em que ele vive, a sua função primordial é dar segurança para a mulher e prover a casa em que eles vivem.

O filme não deixa totalmente claro, assim como outros pontos da história em que vários fatos são sugeridos e não enfatizados, mas tudo indica que Rana foi, mais que agredida, também estuprada. O estupro fica mais que sugerido por três pontos: primeiro, a vergonha da vítima de falar sobre isso, ao ponto dela se recusar a prestar queixa na delegacia; depois pelo fato do crápula deixar dinheiro na casa como uma espécie de “pagamento” pelo sexo e, finalmente, isso fica intrínseco quando o criminoso diz para Emad que caiu em tentação – ora, isso não seria pela violência, não é mesmo? Sim, o crime é mais que ultrajante.

Frustrado por essa cobrança que ele mesmo sente que vem da sociedade, Emad acaba se deixando levar por uma vingança que o próprio coletivo parece “cobrar”. Ao fazer isso, ele não percebe que está virando as costas para a esposa e vítima da situação, Rana. É desta forma que a casa deles desmorona pra valer, não apenas de maneira figurada. Então sim, existe uma razão para termos o paralelo entre a história do casal e a peça de Miller.

Com essa ligação, Farhadi parece nos mostrar como a arte está sempre se apropriando da vida e como a vida, quando não é refletida, pode eternamente repetir a arte (especialmente quando esta reflete padrões sociais). O diretor também demonstra, de maneira muito franca, como pessoas inteligentes, “intelectuais”, pessoas que ajudam a formar outras pessoas e que inspiram muita gente podem também ter comportamentos tão sem reflexão como qualquer outra pessoa “menos culta”.

Para finalizar, algo que achei fantástico neste filme é a mensagem contundente que ele nos deixa no final. Sim, o crime praticado por Naser (Farid Sajjadi Hosseini) é abjeto, desprezível, digno de condenação. Buscar o culpado e saber a verdade é algo totalmente compreensível. Mas o que não dá para concordar é com a busca pela vingança de Emad. Afinal, tudo aquilo que ele fez e o que ele causou para Naser e sua família mudam alguma coisa?

De forma muito sincera e contundente Forushande mostra que a violência só gera violência e não traz nenhum conforto ou alento. Pior do que o crime de Naser foi o que fez Emad. Afinal, se Naser fez o que fez de forma intempestiva – o que não lhe exime de culpa, claro -, Emad sequestrou e foi responsável indiretamente pela morte dele de caso pensado. Então quem tem mais culpa?

Sim, perdoar é algo complicado. Muitas vezes exige grande esforço e tempo. Mas sem dúvida alguma traz um efeito muito mais benéfico do que buscar a vingança ou exigir que o outro pague por um erro praticando um erro ainda maior. Nós não somos ninguém para julgar os outros. Se temos o mínimo de fé, deveríamos deixar o julgamento para quem é de direito julgar.

Forushande, para mim, é um grande exemplo de que apenas o amor e o perdão nos fazem ir para a frente. O restante nos joga para trás e não nos leva a lugar nenhum. A vingança é o caminho certo para a destruição. Seja de uma pessoa, de várias pessoas, ou de um lar. Grande filme, sob todas as óticas. Sem dúvida merece cada um dos prêmios que recebeu e vai receber.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Asghar Farhadi é uma aula de cinema. Assim como a direção dele. O diretor iraniano, possivelmente o mais conhecido e brilhante de seu país, já tinha feitos ótimos filmes – cito os já comentados por aqui Le Passé e Jodaeiye Nader az Simin -, mas este Forushande realmente é especial. Ele é marcante em todos os sentidos, tanto pela história quanto pela narrativa e por cada um dos seus elementos que funcionam de forma magistral.

Acredito que os bons cineastas são como um bom vinho, vão ficando cada vez melhores com o tempo. Isso parece acontecer com Asghar Farhadi. O diretor, que tem 76 prêmios no currículo, tem a possibilidade, com Forushande, de conquistar o seu segundo Oscar. Outro filme feito por ele antes a conquistar uma estatueta dourada foi Jodaeiye Nader az Simin, vencedor em 2012 como Melhor Filme em Língua Estrangeira. Agora, sem dúvida, ele merece levar mais uma estatueta para casa.

Fico pensando sobre como Farhadi é brilhante ao fazer um paralelo entre a hipocrisia das sociedades americana e muçulmana. Esse é um paralelo muito corajoso nos tempos atuais, de extremismo das duas partes. Afinal, a essência da crítica e dos atos abjetos dos extremistas que viram, muitas vezes, terroristas, é de que o Ocidente é uma sociedade pecadora e corrupta, hipócrita, condenável. Mas Forushande mostra como tanto a sociedade americana quanto a retratada neste filme estão doentes.

Onde está a hipocrisia das duas sociedades? Bem, sobre a americana eu acredito que nem preciso dizer. Sobre a mostrada no filme, essa hipocrisia fica clara na falta de transparência e verdade nas relações. Pouco a pouco Emad descobre que todos sabiam que no apartamento no qual ele e a mulher vão viver morava uma prostituta.

Ou seja, eles são colocados em uma situação de risco de forma inocente e por pessoas que eles tinham como amigas, como é o caso de Babak – que era “cliente” da mulher a exemplo do criminoso. Outra característica da hipocrisia da sociedade é que diversos homens casados, a exemplo de Naser, eram clientes da mulher que a sociedade inteira, inclusive eles, falam da boca para fora que é “louca” e que não é digna de qualquer respeito.

Ou seja, como Emad parece sugerir com Rana, a mulher é sempre culpada de tudo, como se o homem que a usa ou condena não fosse parte fundamental do problema ou, muitas vezes, ator fundamental da história. Desta forma, com Forushande, Farhadi deixa muito claro que a sociedade muçulmana não é melhor que a ocidental. Tudo depende das escolhas individuais das pessoas. Os indivíduos podem ser melhores. Se eles buscarem isso, quem sabe as sociedades comecem a melhorar também.

Bem no início do filme, temos uma fala que parece “solta no ar”, mas que não é. Um dos alunos de Emad pergunta para o professor, em uma aula, como alguém pode se transformar em uma vaca – a pergunta surge por causa de um livro que a turma está lendo. O professor responde: gradualmente. Pois bem, uma pessoa culta e “bacana” pode se transformar em um algoz e em um criminoso gradualmente. Para isso, basta ela querer e se deixar levar por “sugestões” da sociedade e pelos seus próprios instintos destrutivos.

O roteiro de Farhadi é a grande qualidade desta produção. A direção dele também é uma aula de cinema. Afinal, ele está sempre valorizando a interpretação dos atores, ponto fundamental desta história. A dinâmica entre eles é um ponto fundamental no filme.

Da parte técnica da produção, vale destacar também a direção de fotografia de Hossein Jafarian, a edição de Hayedeh Safiyari, os figurinos de Sara Samiee, a maquiagem de Mehrdad Mirkiani e a direção de arte de Keyvan Moghaddam.

Como em todos os filmes de Farhadi, onde a interação entre os personagens joga um papel fundamental, em Forushande, mais uma vez, o trabalho dos atores é fundamental. Por isso mesmo o diretor escolhe eles a dedo. Nesta produção, vale destacar, especialmente, o excelente trabalho dos atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini. Eles estão fantásticos. Tanto nos momentos de “rompante” quanto nos mínimos detalhes da interpretação. Também faz um belo trabalho em um papel difícil o ator Farid Sajjadi Hosseini. Eles são os destaques do filme.

Outros atores com papéis menores, praticamente pontas, que merecem ser citados são Motjaba Pirzadeh como Majid, genro de Naser; Mina Sadati como Sanam, mulher de Naser; e Sam Valipour como Sadra, filha de Naser.

Algo me incomodou bem no início do filme. Antes de Forushande começar a me surpreender. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apesar de serem pessoas cultas e “do bem”, Emad e Rana não se importam de tirar todos os pertences da inquilina anterior e colocá-los do lado de fora da casa. Depois dos objetos pegarem chuva, eles resolvem colocá-los novamente para dentro do apartamento. Mas o que me incomodou é que independente de quem era a inquilina anterior ou as razões que a faziam não tirar os objetos da casa logo, realmente eles precisavam fazer aquilo?

Eles não deveriam ter se colocado no lugar da antiga inquilina e terem se perguntado se eles gostariam que aquilo fosse feito com eles na mesma situação? Enfim, quando você para de pensar no que é certo para pensar apenas no que é mais conveniente sem se colocar no lugar do outro é que tudo desanda. Claro que nada disso justifica o que acontece com Rana, mas realmente a nossa sociedade tem problemas porque nós mesmos agimos de forma equivocada com mais frequência do que deveríamos fazer ou aceitar. Está mais que na hora de um exame de consciência individual e coletivo. Aqui em todas a partes.

Sobre a peça de Arthur Miller, existem muitos textos disponíveis na internet. Achei interessante e recomendo este trabalho escrito por Antonius Gerardus Maria Poppelaars e Sandra Amélia Luna Cirne de Azevedo e publicado na Revista Estudos Anglo-Americanos. O bacana do texto é que ele faz um paralelo do trabalho de Miller e a ilusão do sonho americano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a Forushande, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 95 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,1. As duas avaliações são bastante positivas se levarmos em conta os padrões do site. O filme merece.

Forushande é uma coprodução do Irã e da França.

Esta produção estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois o filme participou de outros 28 festivais em diversos países. Nesta trajetória o filme ganhou sete prêmios e foi indicado a outros 18, incluindo uma indicação para o Oscar como Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Ator para Shahab Hosseini e de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Filme em Língua Estrangeira no National Board of Review; para o Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique; para o de Melhor Filme Internacional no Satellite Awards; e para o de Melhor Filme segundo escolha do público no World Cinema Amsterdam.

Não encontrei informações sobre o quanto Forushande custou, mas apenas nos Estados Unidos o filme fez uma bilheteria de pouco mais de US$ 1,25 milhão. Nada mal para um filme estrangeiro no país.

Forushande foi totalmente rodado na cidade iraniana de Tehran.

Agora, duas curiosidades sobre esta produção. Forushande quebrou o recorde de um final de semana de estreia no Irã. Sucesso total de público, pois.

As rodagens do filme foram interrompidas devido a morte súbita de Yadollah Najafi, famoso gravador de som que atuou na produção.

Meus bons amigos e amigas do blog, este é último texto que eu publico por aqui neste formato que vocês conhecem há bastante tempo. Hoje à noite eu farei por aqui mais uma cobertura do Oscar e, a partir da semana que vem, vou mudar o formato das publicações aqui no blog. Logo mais conto todos os detalhes para vocês. Beijos e abraços e até mais!

CONCLUSÃO: Um filme sobre como uma casa pode ruir de maneira figurativa e na prática. Forushande trata desse e de vários outros temas, mas com uma atenção maior para os efeitos nocivos e permanentes que a vingança traz para uma casa – ou mais de uma. Como é comum nos filmes do diretor Asghar Farhadi, em Forushande refletimos obrigatoriamente sobre uma sociedade patriarcal, onde as mulheres tem claramente menos direitos do que os homens, por mais que nas aparências não pareça assim.

Este filme certamente fará sentido de forma diferente para cada pessoa. Para mim, além de tratar de vingança e de perdão, de violência e da escolha ou não pela perpetuação dela, Forushande trata sobre algo muito importante: que pessoas cultas não são sinônimo de boas ações, ou atitudes certas. Enfim, um filme que faz pensar em muitos pontos da nossa sociedade ou de tantas outras mundo afora. Com um roteiro incrível, um ritmo cadenciado, boas surpresas e atores afinados, eis mais uma grande produção de uma safra realmente diferenciada do Oscar.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: A disputa deste ano na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira tem dois grandes competidores e três filmes que concorrem por fora. A maior queda-de-braço será feita entre o alemão Toni Erdmann (comentado aqui) e o iraniano Forushande.

Quem acompanha sempre o blog já matou a charada sobre a minha preferência, não é mesmo? Sem dúvida alguma eu acho Forushande mais merecedor da estatueta dourada do que Toni Erdmann. Não que o filme alemão seja ruim. Mas acho ele muito menos interessante e bem acabado do que o filme de Asghar Farhadi.

Se eu fosse votar nesta categoria do Oscar, nenhuma dúvida sobre o voto para Forushande. Nas bolsas de apostas Toni Erdmann estava à frente boa parte do tempo, mas nas últimas semanas Forushande ganhou a dianteira. Eu espero que os apostadores e especialistas estejam certos.

Entre os outros concorrentes deste ano, acho inclusive A Man Called Ove (com crítica neste link) e Land of Mine (comentado aqui) mais interessantes, bem acabados e/ou surpreendentes que Toni Erdmann. O filme que realmente corre por fora e atrás é Tanna (com crítica aqui). Resumindo, espero que na noite deste domingo a Academia faça justiça e dê mais um Oscar para Farhadi e o seu Forushande.

Curtas Documentário Indicados ao Oscar 2017 – Avaliação

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Finalizo a sequência de três posts sobre os curtas-metragens que estão concorrendo ao Oscar 2017 com este texto sobre os curtas de documentário que estão na disputa de uma estatueta dourada neste ano.

Agora falta pouco para a grande premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Devo começar a cobertura sobre a premiação acompanhando o tapete vermelho da premiação neste domingo, dia 26 de fevereiro, a partir das 20h.

Diferente dos dois últimos anos, quando cobri a entrega do prêmio pelo jornal em que eu trabalho, o Notícias do Dia, neste ano volto a fazer a cobertura exclusivamente pelo blog. Sem querer, será um presente bacana para todos nós, que estamos juntos por aqui há quase 10 anos – em agosto o blog celebra uma década de publicações.

Como vocês bem sabem, eu defendo a produção de curtas. Apesar das três categorias de curtas do Oscar serem as menos badaladas e conhecidas da premiação, sempre vale acompanhar este tipo de produção porque elas não apenas apresentam histórias interessante como também introduzem grandes nomes que vamos acompanhar depois como “novos diretores” de longas.

Após comentar sobre os curtas de animação e sobre os curtas de ficção que vão concorrer ao Oscar deste ano, chegou a hora de falar dos curtas de documentário na disputa. Confiram:

1. Extremis

O diretor Dan Krauss chega à sua segunda indicação ao Oscar com o curta Extremis, uma produção americana que se aprofunda na dor e nas outras emoções que acompanham cada decisão de colocar o fim na vida de um familiar ou amigo no hospital.

A produção acompanha a rotina de médicos, pacientes e de seus familiares em uma UTI hospitalar na fase final da vida de diversas pessoas. Assistindo ao trailer do curta, que está logo abaixo, percebi o quanto o tema é importante e forte. A produção da Netflix está ambientada no Highland Hospital e mostra a realidade complicada que envolve a morte.

É fato que todos nós vamos morrer. Esta é a única certeza que temos na vida. Mas encarar a morte de um familiar querido nunca é fácil. Dizer adeus e deixar a pessoa partir é complicado, mas necessário. Achei muito interessante e importante o tema de Extremis, produção que tem 24 minutos de duração.

Antes de dirigir este curta, Dan Krauss tinha apenas um outro curta documentário no currículo, The Life of Kevin Carter, de 2004, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2006. Depois ele fez dois documentários para a TV e mais o documentário The Kill Team. Por aqui, por enquanto, há uma versão do curta na íntegra.

Depois de assistir ao trailer, consegui ver a produção na íntegra. Realmente é um curta muito bem feito. O diretor se debruça em um punhado de histórias, como as de Donna, Selena, um morador de rua que não tem ninguém próximo para ajudar a tomar decisões, e outros pacientes que acabam não sendo identificados por créditos no curta.

Acompanhamos médicos e enfermeiros, alguns deles questionando o quanto estão ajudando ou apenas prolongando a dor de pacientes que vão morrer de qualquer forma. Na parte das famílias, vemos pessoas mais preparadas para darem o melhor “final” possível para os seus familiares e aqueles que estão esperando por um milagre.

A trilha sonora de Justin Melland é bastante pontual, mas entra em uma parte fundamental do curta, com muitas história se intercalando. Delicado e muito bem feito, Extremis merece estar no Oscar.

 

2. 4.1 Miles

Este curta com 26 minutos de duração e dirigido por Daphne Matziaraki conta a história de um capitão da guarda costeira grega que trabalha em uma pequena ilha e que acaba tendo a vida mudada quando se depara com centenas de refugiados que caíram no mar. A produção americana mostra como ele atua para salvar o máximo de pessoas que ele consegue.

A temática é mais do que atual, porque o mundo vive este drama humano sem precedentes. Enquanto escrevo estas linhas, milhões de refugiados estão tentando sobreviver em diversas partes do mundo, obrigados a sair de suas terras natais para buscar uma alternativa longe de casa. Muitos morrem nesta busca.

Assistindo ao trailer de 4.1 Miles, achei forte tanto as imagens quanto a premissa. A trilha sonora de William Ryan Fritch é vigorosa, e o ritmo do filme parece ser bastante interessante, mostrando tanto a vida do vilarejo quanto das pessoas que, da noite para o dia, se vêem frente a um drama humano sem paralelo.

Também consegui assistir ao curta completo. O filme tem uma direção primorosa de Daphne Matziaraki. Ela tem um olhar diferenciado sobre tudo o que acontece ao redor dela. Depois de um resgate de refugiados, o protagonista desta história fala sobre o primeiro resgate que eles fizeram, em 2001, e como aquilo marcou uma mudança definitiva na história dele e de todos daquela ilha grega.

Ele comenta como, em 2015, quando o curta é rodado, a realidade deles é muito diferente. Chama a atenção a grande quantidade de mulheres e crianças entre os refugiados tirados da água. De forma muito sensível, a diretora mostra como a vida daqueles pessoas é tranquila, mas que 10 deles trabalham para resgatar 200. Algo impressionante, realmente.

No segundo resgate mostrado no curta, é de cortar o coração o desespero das pessoas, a maioria com filhos pequenos. Um dos socorristas, mesmo não tendo conhecimento médico, batalha para salvar pessoas que caíram no mar e que precisam de primeiros socorros. A diretora mostra ele fazendo isso com duas crianças. É angustiante.

Acho bacana que um filme como este, diferenciado e mais que necessário, chegue até o Oscar. Mas apesar dele ter sido indicado, os especialistas e as bolsas de apostam colocam 4.1 Miles como a zebra na disputa. Ele estaria correndo totalmente por fora para conquistar a estatueta. Uma pena.

No final do curta, a diretora nos informa que entre 2015 e 2016 nada menos que 600 mil imigrantes cruzaram as 4,1 milhas (daí o nome do curta), equivalente a 6,6 quilômetros, de mar que separam a Turquia da ilha grega de Lesbos.

 

3. Joe’s Violin

O curta americano Joe’s Violin tem 24 minutos de duração e conta a história de um sobrevivente do Holocausto que aos 91 anos de idade resolve doar o seu violino para uma escola de música do Bronx. Esta doação acaba mudando a vida de uma estudante e, de forma inesperada, a do próprio Joseph Feingold.

A produção é dirigida por Kahane Cooperman, praticamente uma estreante. Antes deste curta ela tinha dirigido apenas Making ‘Dazed”, um documentário em vídeo de 50 minutos sobre os bastidores de Dazed and Confused. Ou seja, ela estreia na direção de Joe’s Violin sendo, segundo especialistas e bolsas de apostas, a favorita para o Oscar de Melhor Curta Documentário.

Assistindo ao trailer, realmente achei muito interessante a produção. Ela mistura a história sempre forte do Holocausto, tema caro para os votantes da Academia e fundamental na vida do protagonista do curta, com a realidade da garota que acaba recebendo a doação do violino e que tem, por sua própria conta, outros desafios.

Depois do trailer, consegui assistir também ao curta. Foi aí que eu vi a bela direção e as grandes sacadas de Kahane Cooperman neste curta. Ela conta a história do sobrevivente do Holocausto mas, também, da cidade em que ele mora atualmente, Nova York, fazendo paralelo com as suas origens e trajetória. A edição de Amira Dughri e Andrew Saunderson é ótima.

E a trilha sonora, claro, é um dos destaques de Joe’s Violin. Aplausos para o trabalho de Gary Meister, nessa trilha, e também para o diretor de fotografia Robert Richman. Joe’s Violin realmente tem um ritmo exemplar, e a história de Joseph, com ele contando sobre como a música era importante para a sua família, é de arrepiar.

Ele comenta que tocou violino até a Segunda Guerra Mundial começar. E depois segue a narrativa do que aconteceu com ele e a família durante o conflito. Junto com o pai, Joseph fugiu para a área ocupada pelos russos e, ao lado de outros jovens, foi enviado por trem para a Sibéria. Nesta parte, o resgate histórico do curta é muito preciso e bem feito.

Mas ele não leva muito tempo. Logo Joe’s Violin parte para contar a história de como o violino doado por Joseph teve um destino especial. Ele foi para uma escola só de meninas que são filhas de imigrantes. Como bem define uma das entrevistadas da produção, todas aquelas meninas são sobreviventes, assim como o próprio Joseph.

O violino dele acaba sendo doado para Brianna, uma menina que tem a história contada neste curta. De forma inteligente a diretora mescla as duas histórias e promove, como esperado, o encontro dos dois. Um dos grandes ganhos de Joe’s Violin, para mim, não foi apenas apresentar a história de dois sobreviventes, mas mostrar como um gesto simples quanto doar algo que você não está usando mais pode modificar para melhor a vida de outra pessoa.

E, o que é mais bonito em tudo isso, doar algo ou a si mesmo não muda apenas a vida de quem ganha/recebe o que se está oferecendo, mas também muda a vida de quem faz este gesto. Uma bela mensagem, sem dúvida. E um belo curta. Mais uma boa escolha dos votantes da Academia.

 

4. Watani: My Homeland

Este curta inglês dirigido por Marcel Mettelsiefen tem 40 minutos de duração e conta a história da luta de uma família para sobreviver em meio à guerra na Síria. Após perder o marido, a mãe de família acaba decidindo deixar o seu lar para tentar, com este gesto doloroso, buscar um local melhor e mais seguro para os seus filhos.

Filmado no decorrer de três anos, Watani: My Homeland segue a trajetória desta família desde Aleppo e até uma pequena cidade na Alemanha. De acordo com as notas da produção, “escapar do caos e do terror de sua pátria destruída pela guerra acaba sendo um catalisador para um outro tipo de luta, aquela de compreender o próprio passado e de aceitar o presente, elementos fundamentais para a adaptação a uma nova vida, para manter a esperança e a ideia de pertencer a um lugar”.

Vamos combinar que apenas essa sinopse já dá arrepios, não? Afinal, a guerra na Síria e os milhares (ou milhões?) de refugiados que ela já provocou é o grande tema dos nossos tempos. Achei fundamental o diretor ter dedicado três anos de sua vida para contar essa história. Afinal, se queremos conhecer a fundo o que passa uma família de imigrantes que tem que deixar a sua terra e buscar oportunidades muito longe de casa, é preciso tempo, calma, e acompanhá-los de perto por um bom período.

O trailer de Watani: My Homeland mostra Faraha, uma das componentes da família que busca uma oportunidade de sobreviver longe de casa caminhando pelas ruas de Goslar, na Alemanha. Vemos ela no colégio, claramente tentando se adaptar ao local. Daquela sequência tranquila em terra alemã, voltamos para um cenário de caos, tiros e destruição. É impactante ver as crianças com fuzis nas mãos caminhando com eles como se fosse algo normal.

Eu gostaria de assistir ao curta inteiro, mas apenas o trailer me deixou arrepiada. Para mim, entre as produções na disputa que eu vi até agora, este parece ser o curta mais impactante. Antes de filmar este curta, Marcel Mettelsiefen tinha dirigido a cinco filmes e episódios de séries documentários para a TV. Quase todos “subprodutos” desta produção.

O primeiro documentário para a TV que ele lançou foi Syria: Children on the Frontline, que foi ao ar em 2014. Depois ele lançou Dancing in the Danger Zone, episódio da série de TV Unreported World, também em 2014; Children of Syria e Syria’s Second Front/Children of Aleppo, dois episódios da série de TV Frontline; o filme para a TV Children on the Frontline: The Escape, lançado em 2016, e Slum Britain: 50 Years On, documentário para a TV que foi lançado também em 2016. Com Watani: My Homeland ele recebe a primeira indicação da carreira em um Oscar.

 

5. The White Helmets

O curta inglês com direção de Orlando von Einsiedel tem 41 minutos de duração e conta a história do grupo de socorristas “indomável” que todos os dias arriscam as suas vidas para tentar salvar civis nos escombros dos ataques aéreos que destroem a Síria.

The White Helmets é mais uma produção na disputa neste ano com o selo do Netflix. Assisti a duas matérias que falam sobre o curta. Esta questiona a produção e também o trabalho dos “white helmets”. Mas, por se tratar de uma reportagem russa, é preciso ter um pezinho atrás com ela, não?

Por exemplo, neste material um participante do grupo diz que ele se inscreveu para ajudar civis mas que, ultimamente, está trabalhando como “ator” para o grupo em sequências fake. Mas quem nos garante que este depoimento dele é legítimo, dado por espontânea vontade e não sob tortura e cheio de mentiras? Guardo o meu direito de sempre desconfiar dos russos.

Também há uma confusão envolvendo outro curta, que se chama Syria’s White Helmets, dirigido por Nagieb Khaja. Acho que é deste curta que a matéria russa está falando. O curta de Khaja realmente parece um tanto fake. Mas não é este curta que está concorrendo ao Oscar, e sim o filme de Orlando von Einsiedel. Esta é a segunda indicação dele ao Oscar. Com 15 produções no currículo como diretor, von Einsiedel concorreu, em 2015, ao Oscar com o documentário Virunga.

Ele é um documentarista. Tem no currículo sete curtas documentário, três documentários feitos para a TV e dois documentários feitos para o cinema, além de dois episódios de uma série de TV e um curta de ficção. Assistindo ao trailer do curta, gostei do estilo do diretor, do cuidado dele com os detalhes, assim como gostei da trilha sonora de Patrick Jonsson. A direção de fotografia de Franklin Dow, Fadi Al Halabi, Hassan Kattan e Khaled Khateeb também é um ponto fundamental da produção.

Não assisti ao curta, então não é o mesmo que falar de um dos outros que eu assisti inteiro. Mas me parece que esta produção trata de um tema fundamental e teve muito risco para ser feita. Apenas por isso The White Helmets já merece os parabéns e a indicação ao Oscar. É mais uma história fundamental sobre toda esta tragédia humanitária envolvendo a Síria que precisava ser contada.

 

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Grande safra de curtas documentário em disputa. Fiquei impressionada. Nenhuma das histórias acima parece forçada ou deslocada do lugar. Três das cinco produções eu consegui assistir na íntegra, e mesmo as duas que eu não consegui ver me impressionaram com os seus trailers.

As bolsas de apostas apontam para um favoritismo de Joe’s Violin. Na sequência aparece The White Helmets. A primeira história, é verdade, toca em um tema que a Academia costuma amar, que é a dos sobreviventes do Holocausto. O segundo curta narra a história de “heróis modernos” e reais, algo que o Oscar também ama. Então, de fato, parece que estes dois curtas levam vantagem na disputa.

Ainda que eu entenda as razões deles serem favoritos e de eu achar que as duas produções tem diversos méritos para ganhar, admito que eu fiquei especialmente impressionada com Watani: My Homeland, pela força das imagens e da história e pela dificuldade do curta ser feito; e por 4.1 Miles e a delicadeza de sua narrativa e o olhar diferenciado de sua diretora.

Não assisti a todos os concorrentes na íntegra mas, até o momento, admito que a minha torcida seria por Watani: My Homeland. Acho que a narrativa desta produção é fundamental e lança uma luz diferenciada para um tema urgente e muito, muito atual. De qualquer forma, esta me parece ser uma categoria que não importa quem ganhar, qualquer vencedor entre os cinco na disputa vai levar o Oscar para casa com justiça. Grande safra.