August: Osage County – Álbum de Família

DF-11606.CR2

Todos nós conhecemos histórias de famílias problemáticas. E mesmo as “normais” tem os seus rompantes de absurdo. August: Osage County foca a atenção em um encontro familiar destes clássicos, com muitas confissões e brigas. Uma desculpa perfeita para aquela que provavelmente é a maior atriz de todos os tempos brilhar novamente. Meryl Streep parece não existir. E a comparação dela com qualquer outra intérprete roça o impossível. Neste filme, mais uma vez, ela dá um show. E é bem acompanhada por algumas falas ótimas e por um elenco “de apoio” que segura a responsabilidade.

A HISTÓRIA: Uma planície. E uma voz cansada diz a frase “A vida é muito longa”, de TS Eliot. Depois, outras imagens seguem revelando as paisagens de Osage County, território no Missouri, Estados Unidos, onde esta história é ambientada. Em uma casa branca de dois andares, encontramos a voz cansada de Beverly Weston (Sam Shepard). Ele para de falar quando escuta um barulho no andar de cima. Ele avisa que a fonte do barulho é Violet (Meryl Streep), sua esposa. Beverly confidencia que ela toma pílulas, e que ele bebe.

Este é o acordo que eles tem. E enquanto ele fala sobre o vício de cada um, Violet se levanta da cama e começa a caminhar. Quando ela se aproxima do marido, conhece a Johnna Monevata (Misty Upham), que está sendo contratada por Beverly para ajudar nos afazeres de casa. Em breve, Johanna vai conhecer profundamente esta família composta, ainda, por três filhas do casamento de Beverly e Violet e seus agregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a August: Osage County): Logo que Meryl Streep apareceu em cena, fiquei boquiaberta. Como é mágico assistir a uma grande intérprete em cena! E ela está, mais uma vez, arrasadora. Para mim, neste papel de frágil e ao mesmo tempo forte Violet, ela consegue uma das melhores interpretações da carreira. E isso não é pouco para a atriz que é recordista em indicações no Oscar.

Quando surgem aquelas paisagens de Osage County, seguidas da voz inconfundível do veterano Sam Shepard, tudo parece ter sido milimetricamente planejado neste filme. Uma produção se revela interessante se ela começa com isto, com as escolhas certas. E daí o personagem de Beverly ainda cita TS Eliot e a frase simbólica de que a vida é muito longa. Meus caros, não se enganem. Esta sensação dita o sentimento de dois dos personagens principais da trama – e, talvez, até de outras pessoas que fazem parte da história.

Logo nos créditos iniciais da produção, percebi que August: Osage County tinha o roteiro de Tracy Letts, a mesma autora da peça que inspirou esta produção. Para mim, esta é sempre uma vantagem. Afinal, ninguém melhor que a autora original para conhecer os meandros e detalhes de sua obra. Normalmente o prosseguimento do trabalho de um autor em outro formato, como pode ser o cinema após o sucesso de um texto no teatro, garante não apenas a legitimidade da produção, mas também a continuidade de sua qualidade.

Não assisti à peça de Letts, mas gostei muito do trabalho dela neste filme. Verdade que a premissa central da história já é conhecida: uma família passa por um momento difícil, que faz os filhos voltarem para casa, e este retorno provoca o conflito de gerações e memórias. Outros filmes trataram deste tema, e muitos outros ainda vão se debruçar no intricado relacionamento familiar e suas desigualdades.

Mas o que eu gostei no texto de Letts é que, apesar dele focar um tema um tanto desgastado, a autora nos reserva alguns ótimos momentos e alguns diálogos muito bons. Falando exclusivamente do roteiro, gostei que ele entra direto na ação. Letts não tem tempo a perder. Assim, somos apresentados logo ao casal Beverly e Violet e a suas dependências declaradas: álcool e remédios. Os dois precisam destes “aditivos” para seguir encarando a “vida longa demais”.

O primeiro elemento que rompe a rotina daquele casal é a chegada da empregada com forte descendência índia Johnna. Ainda que sobre pouco espaço no filme para discutir a questão de dominação racial e seus resquícios naquela região dos Estados Unidos, o tema está presente na história. Aliás, a questão da dominação é uma tônica na produção que conta com a competente direção de John Wells.

Há um jogo importante de dominação naquela família. Violet tenta ser a voz mais encorpada, mas ela tem um contraponto importante no estilo silencioso e amoroso do marido. Soma-se a isso a questão da idade e da doença, que fragilizam a personagem central. Enfrentando um câncer na boca – que chega a render uma leve ironia do marido -, Violet não tem mais a força que um dia teve para enfrentar a independência das filhas ou do marido. Ainda assim, ela não se dobra. E a influência dela em cada pessoa da família vai se revelando aos poucos.

A rotina de cortinas fechadas e semi-breu na casa dos Weston é primeiro quebrada pela chegada de Johnna. Mas não demora quase nada para que o cenário mude com a chegada de vários familiares quando Beverly desparece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, fiquei em dúvida se tantas pessoas “socorrem” Violet porque estão com pena dela ficar sozinha na casa ou porque estão realmente preocupados com Beverly. Conforme a história vai se desenrolando, a motivação de cada um vai ficando mais clara. Mas, no geral, quase todos são movidos pelo “dever” de socorrer a uma senhora idosa e que está, aparentemente, sozinha – descontada a presença da “estranha” (leia-se de fora da família) Johnna.

O texto de Letts não tem papas na língua. Não há espaço em August: Osage County para enganos, ou para maquiagens. As relações naquela família são desveladas pouco a pouco, mas sem meios termos. Desta forma, apesar de serem “fruto” de um mesmo casal, cada uma das filhas dos Weston é movida por um sentimento e apresenta uma determinada reação no reencontro familiar.

Para começar, a segunda personagem central nesta história, Barbara (Julia Roberts), a filha “dominante” do casal, claramente está indo a contragosto para a casa dos pais. Ela segue a voz do “dever”, de quem precisa dar apoio em um momento de incertezas. Mas fica claro, logo no início, que ela não está exatamente feliz em fazer a viagem de “volta às raízes”. Depois, há a filha “sempre presente”, Ivy (a interessante Julianne Nicholson), que parece conviver mais de perto com os pais. E, finalmente, há Karen (Juliette Lewis), aparentemente a caçula da casa e a mais “desmiolada”.

No caso de Ivy, ela está presente naquele momento de sumiço do pai como, aparentemente, ela está presente na maioria das ocasiões. Em mais de uma cena ela aparenta ser a “menos estranha” naquele ninho. Acompanha os pensamentos de Violet, ouve mais do que opina, e respeita o espaço dos pais mais do que consegue fazer-se respeitar. Karen aparece depois do fato principal da história acontecer, arrastando consigo a última “conquista amorosa”, o noivo Steve Huberbrecht (Dermot Mulroney). Ela não parece fazer muito parte daquela família. Está ali para dar apoio para a mãe, mas sem quase nenhum compromisso.

A personagem dominante, entre as filhas, sem dúvida é Barbara. As irmãs olham sempre para ela quando algo inusitado é dito pela mãe. E ela não se importa de confrontar a matriarca, mesmo a mulher estando doente. Uma das cenas mais fortes da produção acontece, justamente, depois que Barbara resolve mostrar para a mãe quem está “mandando no pedaço”, após uma clássica cena de reunião familiar à mesa. Para mim, naquela sequência Julia Roberts garantiu a sua indicação ao Oscar – além de manter, por grande parte do filme, uma conduta regular.

Sem dúvida alguma este filme não é fácil. Como não é fácil nenhuma família – certo que existem algumas exceções pelo mundo… mas elas são exatamente isso, exceções. Além da queda de braços entre a mãe e o pai das garotas, existe uma “disputa” por poder entre a filha mais velha – que acredito ser Barbara – e a mãe. Jogos de poder em família sempre dão pano pra manga e, neste caso, rendeu um filme bem construído, comovente e com algumas cenas de impacto.

Para mim, August: Osage County se mostrou interessante, e diferente de outras produções do gênero, por focar em dois aspectos interessantes. O primeiro é o efeito que a falta de generosidade pode causar entre pais e filhos. Fica claro, especialmente em dois momentos da trama – na cena familiar na mesa e, depois, no diálogo final entre Violet e Barbara -, que a experiência de vida dos personagens Violet, Beverly e da irmã de Violet, Mattie (a competente Margo Martindale) é muito diferente daquela vivida por seus filhos.

Na mesa, Violet “joga na cara” das filhas que elas não estão fazendo nada demais da vida, apesar de terem todas as oportunidades do mundo – inclusive de estudar -, muito diferente deles (Violet, Beverly e Mattie), que foram pobres e passaram por maus bocados. No segundo momento que eu citei antes, Violet volta a explicar para Barbara como para a geração dela o dinheiro é importante. E para a geração de Barbara?

Aí que o filme ganha vários pontos de interesse. Barbara está passando pelo processo de separação do marido, Bill Fordham (Ewan McGregor), que, aparentemente, a traiu com uma garota pouco mais velha que a filha, Jean (Abigail Breslin). Ivy nunca conseguiu “engrenar” em um relacionamento a longo prazo, aparentemente porque ela teria sido “prejudicada” pela dedicação que teve no cuidado dos pais. E Karen está buscando dar certo com mais um homem que possa lhe pagar as contas. Em resumo: todas em busca do amor, mas sem grande sucesso.

Então, diferente dos pais, as filhas estão mais preocupadas com algum relacionamento que faça sentido do que com o dinheiro. Parece algo das últimas gerações. O efeito? Violet e Mattie aguentam muito mais os problemas dos relacionamentos do que os seus filhos – e do que a gente, possivelmente. O choque de geração está ali, assim como uma aparente falta de generosidade das mães com os seus rebentos. Mattie, inclusive, é confrontada pelo marido, Charlie Aiken (o ótimo Chris Cooper), pela crueldade que ela destila contra o filho, Little Charles (Benedict Cumberbatch).

A dureza na fala e na forma de agir parece ser uma característica das mulheres “mais fortes” da família. Mesmo sem perceber, Barbara segue os passos de dureza da mãe, Violet, e da tia Mattie. Mas as mulheres mais velhas tem a “desculpa” de terem comido “o pão que o diabo amassou”, por terem tido vidas complicadas. E qual seria a desculpa de Barbara? Talvez ela também tenha uma vida complicada, mas não por causa da falta de dinheiro, e sim de afeto.

Então qual miséria pode ser pior? A causada pela falta de recursos financeiros ou aquela causada pela falta de recursos afetivos? Aparentemente, segundo o que nos conta August: Osage County, estas duas carências podem motivar espíritos duros, com dificuldade de buscar afeto e o perdão. Mas claro que nada é imutável, e só escolhemos “seguir no inferno” causado por estes cenários agrestes se quisermos. Sempre é possível buscar um outro caminho. Talvez as herdeiras dos Weston consigam isso, se elas souberem encarar a herança familiar de forma madura e aprender com os próprios erros.

Outro tema que o filme traz e que eu sempre achei importante é a questão das expectativas familiares e as fraquezas individuais. Fica evidente que Barbara conhece bem a dependência materna de comprimidos e de que ela não aceita isso – provavelmente, quando adolescente, teve que suportar muitos “surtos” da mãe provocados pelo excesso de remédios. Mas o que fazer naquele cenário?

Este assunto, especificamente, é um dos levantados por um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Requiem for a Dream. Tanto naquela produção quanto nesta nova, a questão principal é: como encarar a dependência de uma mãe? E ela estando doente – especialmente Violet, que reclama de dores -, como retirar este “prazer” dela? Evidentemente que ninguém gosta de ver outra pessoa se descontrolando por causa de uma dependência química, mas que vida melhor você pode garantir para quem está naquela condição?

Com isso eu não quero dizer que apoio a dependência química e que deixaria Violet seguir com a vida que ela levava. Mas acho muito cruel também avançar contra ela e tirar-lhe um dos poucos – e talvez últimos – prazeres e válvulas de escape da vida. Afinal, ela terá uma vida melhor ou mais miserável a partir do fim do contato com os remédios?

Ao mesmo tempo, entendo a postura de Barbara. Afinal, nenhum filho quer ver a mãe descontrolada. Mas esta busca de controle por parte de Barbara – e da gente mesmo, quando agimos em relação aos nossos pais, ou filhos – é para causar o bem ou apenas para mostrar força e que ela pode mais? Situações complicadas.

E que nos levam a mais uma reflexão, alimentada especialmente pela sequência final da produção: por mais que a gente negue, muitas vezes somos mais parecidos com os nossos pais do que a gente gostaria de admitir – ou mesmo de ser. Barbara procura ser muito correta, falar o que pensa e enfrentar os “desmandos” da mãe sempre que possível. Mas será que estas reações dela não são, exatamente, o avesso e, algumas vezes, a cópia da mãe que ela gosta tanto de confrontar?

O lado “careta” de Barbara é um contraponto às dependências da mãe e do pai. Ok. Mas aquela busca por controle é totalmente uma característica de Violet. E a personagem de Meryl Streep sabe algo que qualquer jornalista tem muito claro no seu cotidiano: informação é poder. Ela tem tanta segurança naquela família e “canta de galo” porque sabe de tudo. Dos maiores segredos e das mais baixas motivações.

Por isso ela tem poder, apesar de, como todos nós que um dia nos sentimos “poderosos”, ser apenas carne e osso. Com a idade, ela percebeu que também é frágil. E a cena em que ela vai buscar apoio em Johnna, não por acaso, plasma com toda a profundidade esta carência e fragilidade que Violet e todos nós temos. Gostando de admitir ou não.

Desta forma, August: Osage County se mostra um filme muito interessante. Durante o desenrolar da trama, salta aos olhos os infindáveis “embates” familiares. Para mim, a sequência das irmãs conversando e descobrindo que elas são verdadeiras estranhas umas para as outras, foi das melhores – achei muito realista, até porque nas famílias isso acontece muito. Mas apesar das discussões e desentendimentos dominarem a trama, depois que o filme acaba é que as outras camadas de leitura da produção vão se desenrolando. Apenas por isso, por nos permitir diferentes e variadas leituras, o trabalho de Tracy Letts e John Wells, junto com o restante da equipe, já vale ser visto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é mais um filme desta safra pré-Oscar com um elenco bem escolhido. Mérito da dupla Kerry Barden e Paul Schnee, responsáveis pelo “casting” da produção. Além da inigualável Meryl Streep, temos a uma esforçada Julia Roberts (que admitiu que ficou nervosa por contracenar com o ícone Meryl), e um elenco de apoio bastante interessante.

Para começar, é sempre bom ver a Sam Shepard em cena. Aliás, este é um destes atores que eu acho que é menos valorizado do que deveria. Sempre que o vejo em cena, ele nos dá uma entrega muito boa. Outro nome que muitas vezes fica em terceiro plano nas produções é o de Chris Cooper. Neste filme, o personagem dele acaba tendo uma relevância bem maior – ele é responsável, por exemplo, por diálogos mais relevantes que os mais badalados Ewan McGregor, Dermot Mulroney e Benedict Cumberbatch.

A impressão que fica é que a “velha guarda” do filme tem muito mais propriedade e potência em suas vozes e gestos, e que os mais jovens ainda estão aprendendo como se “impor”. Exceto pela personagem de Julia Roberts, claro. Apesar de terem importância menor na história, McGregor, Mulroney e Cumberbatch fazem uma boa entrega em seus respectivos papéis. Mas são os velhos, Shepard e Cooper, que roubam a cena sempre que aparecem.

O elenco feminino também é bem competente. Ainda que eu tenha percebido um grande “disparate” nas personagens e entregas de duas atrizes. De Meryl Streep e Julia Roberts eu já falei o suficiente. Talvez valha apenas acrescentar que senti falta da personagem da Julia ser um pouco mais realista, ou seja, apresentar nuances mais variadas de comportamento. Afinal, em 99% do tempo ela fica com aquela carranca dura, pronta para qualquer confronto – em pouquíssimas vezes ela sorri ou é capaz de uma fala menos dura. Até a mãe dela apresenta nuances muito mais variadas.

Mas falemos das outras atrizes… Para mim a grande surpresa do filme foi Julianne Nicholson. A atriz tem uma relevância considerável na história e consegue repassar suas emoções apenas com o olhar – diferente de outras figuras em cena. A personagem dela tem várias nuances e a atriz consegue flutuar entre os diferentes sentimentos de forma convincente. Gostei. A veterana Margo Martindale também mostra segurança em seu papel, e tem pelo menos um grande momento no filme – quando Mattie discute com Charlie e depois conta um segredo forte da família para Barbara. A única que achei apenas razoável foi Juliette Lewis.

Falando em segredos de família… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acredito que o final não tenha deixado muitas dúvidas, mas não custa explicar por aqui o que aconteceu para aqueles que deram uma adormecida nos minutos decisivos. 🙂 Violet dá um show ao mostrar como ela é, realmente, uma sobrevivente. Não apenas por ter enfrentado um câncer, mas por ter passado por muitas e pesadas dificuldades durante a vida. Além da traição do marido e da irmã, ela explica para Barbara como foi o desfecho da história de Beverly.

(SPOILER – continuação…). O marido deixou um bilhete suicida para a mulher, avisando onde estaria antes de se matar no rio. Ela, encarando aquilo como um “desafio” do marido, não acudiu para impedi-lo. No lugar disso, ela foi garantir que as economias que eles tinham guardado estavam lá. Segundo a leitura de Violet, aquele gesto final de cansaço de Beverly era, também, uma última queda-de-braço, da qual ela não estava disposta a perder. A filha fica chocada, é claro, mas eu concordo com Violet quando ela diz que ambas tinham “culpa” sobre o que aconteceu, ao mesmo tempo que ninguém tinha culpa. Afinal, a decisão de se matar foi dele, independente das motivações que ele tivesse tido. Da minha parte, sempre encaro um suicídio desta forma também. O único responsável pelo ato é aquele que o pratica. Alguém poderia ter impedido? Acho que o que podemos fazer é tentar não causar dor e desespero nos outros, mas no fim das contas cada um é responsável pelos seus atos.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de John Wells. Acho que ele conseguiu estar atento aos detalhes das vidas daquelas pessoas, valorizando a interpretação dos atores. Afinal, este é um filme de atores e que explora os diálogos e a história entre eles. Não se trata de uma destas produções com cenas de ação ou reviravoltas. Por isso mesmo, grande parte da trama se desenrola na casa dos Weston, cenário bem explorado por Wells.

Ajuda na qualidade do filme o trabalho competente do diretor de fotografia Adriano Goldman, que consegue a luz certa mesmo em diversas sequências de semi breu. Gostei também da trilha sonora de Gustavo Santaolalla e da decoração de set de Nancy Haigh. O departamento de maquiagem faz um trabalho fundamental, com a atuação de oito profissionais – destes, destaco J. Roy Helland e Matthew W. Mungle, responsáveis pela mudança na aparência de Meryl Streep.

August: Osage County estreou em setembro de 2013 no Festival de Toronto. Depois, o filme participaria de outros nove festivais – e o próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado, no dia 1 de março de 2014. Nesta trajetória, o filme abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros 35, incluindo a indicação a dois Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Julia Roberts e para o de Melhor Elenco no Hollywood Film Festival. Julia Roberts também ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante no Palm Springs International Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 27 de janeiro, esta última segunda-feira, pouco mais de US$ 26,9 milhões. Nos outros mercados em que a produção já estreou, ela teria conseguido pouco mais de US$ 11,5 milhões. Ou seja, até agora, o filme está esperando para começar a fazer lucro.

August: Osage County teve cenas rodadas nas cidades de Bartlesville e Pawhuska, em Oklahoma, no parque Lake Tenkiller State, também em Oklahoma, e em Los Angeles, na Califórnia.

A atriz Julia Roberts realmente ficou emocionada em contracenar com Meryl Streep. Quando ela estava promovendo o filme Mirror Mirror, a atriz chegou a chorar quando falou sobre a parceria com Meryl que, segundo ela, é a sua atriz favorita.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a autora Tracy Letts se opôs, mas sem sucesso, pela escolha dos irmãos Weinstein de escalar atores britânicos – leia-se McGregor e Cumberbatch – para a produção. Isso porque, inicialmente, esta história deveria ser muito “americana”, com atores interpretando a personagens daquele país. Mas a autora admitiu que mudou de ideia ao ver o resultado final da produção.

Na peça original, a personagem de Violet foi vivida pela atriz Deanna Dunagan. Ela ganhou um prêmio Tony – o mais importante do teatro – pelo desempenho com a personagem na Broadway.

E uma última curiosidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O final original da produção (e da peça) era a entrega frágil de Violet no colo de Johnna depois que todas as suas filhas tinham ido embora. Apesar deste ser o final preferido do diretor e da roteirista, os testes com a audiência fizeram com que fosse acrescentada a sequência com Barbara. Isso porque, segundo dos produtores do filme, a audiência pedia por um desfecho para a personagem – que terminou como a mãe, mas que, para o público, esta informação não tinha ficado clara e precisava ser apresentada em um desfecho. Curioso.

Antes comentei sobre a trilha sonora. Ela tem algumas músicas muito interessantes. Entre outras, Lay Down Sally, de Eric Clapton; Gawd Above, de John Fullbright; e Last Mile Home, do Kings of Leon (música interessante e que aparece nos créditos finais). Muito bacana também a musiquinha que Benedict Cumberbatch canta em determinado momento do filme – ela tem o título de Can’t Keep It Inside.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Certamente, por causa, principalmente, do ótimo elenco. Essa é uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles escreveram 103 críticas positivas e 56 negativas para August: Osage County – o que lhe garantiu uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,4.

CONCLUSÃO: Uma família pode ser fonte de sustentação para o indivíduo nas mais diferentes horas complicadas que ele tem na vida como pode ser, também, fonte de muita dor e de rejeição. August: Osage County não é o primeiro filme e nem deverá ser o último a focar as lentes para as relações de uma família complicada. A grande vantagem deste filme é que ele tem um elenco equilibrado, sob a liderança de uma estrela de Hollywood que está à frente de quase todas as intérpretes que já assistimos. Meryl Streep dá um show, mais uma vez. Além disso, o filme tem um roteiro competente, com algumas boas falas entre uma cena e outra de entrega dramática. Recomendado para quem gosta do tema das relações familiares e seus efeitos nos indivíduos. O tema sempre rende e vale ser debatido. Este filme se junta a outros na lista de bons exemplares do gênero. Sem contar que ele se diferencia de outros por ser uma crônica potente dos jogos de poder, dos segredos e das válvulas de escape da família “média e tradicional” dos Estados Unidos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Se a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fosse justa, Meryl Streep receberia uma estatueta em todos ou quase todos os anos em que a atriz concorreu a um Oscar. É como se ela fosse hors concours e merecesse receber a estatueta sempre, pela perfeição de seu trabalho. Paralelo ao prêmio de Meryl, a Academia devia entregar outra estatueta para a segunda melhor atriz do ano.

Claro que o meu comentário parece exagerado. Mas é que é tão complicado comparar Meryl Streep com qualquer outra atriz… este ano, por exemplo. Cate Blanchett está levando tudo pelo trabalho em Blue Jasmine (comentado aqui no blog). Certo que Blanchett é uma grande atriz. Ninguém duvida disso. Mas daí você assiste a Meryl Streep em August: Osage County, e fica impossível fazer uma comparação justa. Meryl está muitos níveis acima de qualquer concorrente.

Dito isso, vamos falar de maneira realista sobre o Oscar deste ano. Como eu disse antes, August: Osage County está concorrendo em duas categorias da premiação da Academia. O filme foi indicado em Melhor Atriz, com Meryl Streep, e Melhor Atriz Coadjuvante, com Julia Roberts. E qual é a chance delas? Segundo as bolsas de apostas, nenhuma, zero. Meryl Streep tem tudo para sair, pela décima-quinta vez em sua trajetória, com as mãos vazias do Oscar – lembrando que a atriz é recordista em indicações e que já recebeu três estatuetas. O mesmo deve acontecer com Julia Roberts.

Segundo os especialistas de Hollywood, o Oscar de Melhor Atriz deve ficar mesmo com Cate Blanchett, que tem arrasado nos prêmios. A estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante estaria entre Lupita Nyong’o e Jennifer Lawrence por seus trabalhos em 12 Years a Slave (comentado aqui) e American Hustle (com crítica aqui), respectivamente. Da minha parte, acho mesmo que Julia Roberts se saiu bem, no geral, mas que não foi tão bem para ganhar um Oscar. Mas Meryl… sem dúvida eu daria a estatueta para ela. Mais esta, quero dizer. Porque ela já mereceu outras vezes e não levou.

Blue Jasmine

BlueJasmin OneSheet_Blue Jasmine - One Sheet

Uma mulher que sabe bem o lugar importante que ela deve ocupar no mundo. Não por mérito próprio, mas porque ela há de encontrar e encantar um homem que possa proporcionar-lhe a vida de rainha que ela merece. Blue Jasmine foi feito para uma mulher brilhar, e esta mulher se chama Cate Blanchett. A personagem dela é sobre a qual me refiro no início deste texto.

Como o sol e os demais planetas, é ela que aguarda que o mundo gire ao seu redor. Woody Allen faz, mais uma vez, um filme para que uma atriz de renome brilhe e tenha a carreira marcada por seu desempenho. Demorei para assistir a este filme. Gostei dele, mas não encontrei em Blue Jasmine todas as qualidades que eu esperava.

A HISTÓRIA: Um avião corta os céus dos Estados Unidos. Dentro dele, Jasmine (Cate Blanchett) conta para a passageira ao lado (interpretado por Joy Carlin), que ela nunca conheceu um homem como Hal (Alec Baldwin). Ela fala da vida que teve com ele, e como se sentia especial ao seu lado. Lembra como tocava a música Blue Moon quando eles se conheceram, e a mulher ao lado parece embarcar na história.

Jasmine diz que deixou a faculdade para ficar com Hal, mas que não perdeu nada porque ela não se imaginava como uma antropóloga. Na saída para pegar a bagagem, ela diz que o sexo entre eles sempre foi bom. Ela também conta que os médicos tentaram seis medicamentos com ela, mas que nada funcionou como deveria. Nesta parte, a mulher ao lado dela parece um pouco desconfortável. E é desta maneira, um tanto deslocada, que Jasmine tentará refazer a vida em San Francisco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blue Jasmine): Devo adiantar para vocês que vou cometer algumas “heresias” neste texto. Mas há uma justificativa para elas – mesmo que vocês possam discordar dos argumentos.

Como eu disse antes, demorei um bocado para assistir a Blue Jasmine. Uma prova disso é que vi a quase todos os principais concorrentes ao próximo Oscar, incluindo Gravity (comentado aqui no blog), assim que ele estreou nos cinemas, mas perdi o momento de Blue Jasmine. Pouco a pouco, contudo, fui acompanhando como Cate Blanchett foi ganhando todos os prêmios da temporada por causa do desempenho neste filme, e como ela é a virtual favorita para o próximo Oscar, fui obrigada a assistir a este filme.

E francamente? Vi a mais uma produção com a marca do Woody Allen. E aí vai o primeiro sacrilégio deste filme: nunca achei nada demais na filmografia de Allen. Um indicativo disto é que não tenho nenhum de seus filmes como um dos meus preferidos de todos os tempos. Outros diretores, muito menos “badalados”, me “afetam” ou me convencem muito mais em sua forma de contar uma história.

Dito isso, feito este parêntesis, Blue Jasmine é mais um filme bem escrito por Woody Allen. Outra vez, este diretor com marca registrada muito própria, escolheu um tema específico para escrever um roteiro bacana sobre ele. No caso de Blue Jasmine, ele se debruça nas mulheres de escroques que vivem uma vida de primeira a custa dos outros – ou seja, não são ricos por mérito, mas por exploração. E há quem diga que não há rico por mérito… mas esta é outra história.

A personagem principal deste filme, vivida por Blanchett, Jeanette ou Jasmine (o segundo nome por escolha própria), encarna aquele tipo de mulher que acha que a função que tem na vida é encontrar um homem endinheirado pra sustentá-la. Isso porque ela faz uma avaliação de si mesma muito específica: ela merece ter o bom e o melhor. Mas diferente de outras mulheres, Jasmine não acha que conseguirá isso por conta própria – afinal, tudo é muito complicado, especialmente batalhar pela própria sobrevivência e/ou vida boa.

No filme de Allen, encontramos Jasmine após a “tragédia”. Mesmo não tendo me fascinado tanto quanto deveria, o roteiro de Blue Jasmine tem um mérito: ele sabe ir e vir do presente para o passado com suavidade e no momento exato. Assim, pelas lembranças da protagonista, voltamos sempre para a época na qual Hal estava vivo para acompanhar momentos que pudessem ou não sinalizar a inocência ou o conhecimento de Jasmine sobre tudo o que acontecia.

Aliás, esta parece ser a premissa principal do filme. Afinal, o quanto alguém pode ser inocente frente a tanto dinheiro sem uma justificativa plausível para ele existir? As mulheres dos ricaços que ganham verba de forma escusa de fato não sabiam de nada ou fingem não saber? A responsabilidade de Jasmine sobre tudo o que aconteceu e o “preço” que ela paga por ter se feito de cega move a trama, na mesma medida que a tentativa da personagem em se “reerguer”.

Achei especialmente interessante como ela tenta fazer a vida por “conta própria”. No fundo, como fica comprovado, ela apenas tenta fingir que vai tentar um caminho alternativo. Ela é daquela “espécie” de mulher que não quer um grande esforço. O ideal, para este perfil, é que surja pela frente um marido rico e que possa suprir todas as suas demandas.

Não vou julgar uma pessoa que siga esta linha. Até porque há várias mulheres assim. Mas francamente? Não vejo na dependência de outra pessoa, neste caso um “marido-provedor”, a saída para um ser humano. Afinal, cadê a independência, a autonomia? Como eu posso me sentir uma pessoa completa e capaz se não consigo crescer e me manter por conta própria? Acho ótimo e primordial dividir a vida e o que se sabe com os outros – ou com uma pessoa especificamente. Mas a dependência é sempre ruim – porque torna as pessoas superficiais e sem identidade.

Demora, mas lá pelas tantas Jasmine percebe isso. Só que talvez seja tarde demais para ela… Será? Francamente, para quem está disposto a “mudar a chave”, nunca acho que seja tarde demais para nada. Muito menos para tomar as rédeas da própria vida nas mãos. Mas o que faz a protagonista deste filme?

(SPOILER – não leia se você não assistiu a Blue Jasmine). Ela busca o primeiro cara que possa lhe manter na vida boa assim que possível. Assim, naturalmente, ela agarra a oportunidade que uma festa lhe dá e tenta segurar o bom partido Dwight (Peter Sarsgaard). Como tantas pessoas na vida real, fora desta ficção, Jasmine conta apenas parte da própria história. E exagera outras partes. O suficiente para convencer Dwight que ela também é um bom partido. E no fim das contas, quantas relações não surgem e são mantidas através de um cálculo impreciso de troca de benefícios?

Woody Allen sustenta Blue Jasmine com a mesma lógica de tantos outros de seus filmes. Ele tem ótimos acertos em algumas cenas, enquanto na maior parte do tempo procura transportar para a telona o supra-sumo de uma realidade que ele já encontrou na vida. E com a qual nos deparamos também, uma hora ou outra, se formos um pouco atentos.

Como manda a regra de um roteiro de Allen, há algumas sequências verdadeiramente impagáveis. A minha preferida é quando a “tia” Jasmine desabava com os sobrinhos Matthew (Daniel Jenks) e Johnny (Max Rutherford) em uma lanchonete. A cara de constrangidos dos dois, que todos nós já tivemos frente a alguma confissão de um parente “cheio da cachaça”, é impagável. Assim como a interpretação de Blanchett.

Possivelmente, o ponto forte do filme, junto com a “reviravolta” no roteiro perto do final. Para o meu gosto, que vejo Woody Allen um tanto supervalorizado na maior parte do tempo – ainda que devo admitir que ele mantém uma coerência rara para um diretor de Hollywood em sua filmografia -, a nota abaixo se justifica especialmente pela “sacada” do roteiro a partir do reencontro de Jasmine com o enteado Danny (Chalie Tahan quando criança, Alden Ehrenreich quando adulto). Porque, naquele momento, o espectador tem a resposta sobre a “inocência” de Jasmine. Como diz aquela lenda, nada pior do que a vingança de uma mulher traída.

Finalizando, Blue Jasmine é um filme típico de Allen, com algumas sequências muito bem construídas, uma ótima escolha de elenco – Sally Hawkins como Ginger, para mim, é a surpresa positiva da produção -, um roteiro que sabe focar uma parte específica da sociedade com humor e a duração exata. Mais que uma hora e meia de filme seria pedir demais. Mas Blue Jasmine funciona bem em seu tempo de duração, ainda que não seja nenhuma produção verdadeiramente marcante.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há uma lenda de que Woody Allen sempre faz filmes para as “atrizes da vez” brilharem. Sabendo que tais atrizes são aquelas que ele escolhe a dedo. Francamente, acho que Cate Blanchett está bem neste filme, mas não vejo que ela faça o trabalho da vida dela aqui. Como já vi acontecer recentemente com outras atrizes que passam pelas “mãos” de Woody Allen. Ainda assim, e isso é fato, ele sabe dirigir bem os atores que participam de suas produções.

Neste filme, além de Cate Blanchett, que literalmente vive a personagem que faz os demais orbitarem ao seu redor, gostei muito da entrega de Sally Hawkins. De uma maneira muito discreta, nada espalhafatosa, Hawkins encarna bem o papel da irmã que se sente sempre eclipsada. Além das duas, que se destacam na produção, acho que Alec Baldwin segura bem no papel de Hal, assim como Andrew Dice Clay está bem como Augie – especialmente na sequência em que ele fala algumas verdades para Jasmine quando ela está para comprar o anel de noivado.

Outros que merecem ser mencionados pelo bom trabalho: Bobby Cannavale como Chili, o novo namorado de Ginger que está louco para Jasmine sair da casa para que ele possa viver com a namorada; e Louis C.K. como Al, o homem que Ginger conhece em uma festa e que, francamente, está na cara que é casado. Também está bem, ainda que apareça pouco, o trabalho de Max Casella como Eddie, o amigo de Chili que é “escalado” para um encontro com Jasmine, e o “eterno esquisitão” Michael Stuhlbarg como o Dr. Flicker, o dentista com quem a protagonista vai trabalhar.

A marca de Woody Allen se manifesta logo nos primeiros minutos do filme. Aquela crônica de uma conversa desconcertante no avião é típica do diretor. Quem nunca teve que “aguentar” uma pessoa que gosta de falar a vida inteira para um desconhecido? Algo constrangedor, mas bastante realista. Ainda mais nos tempos atuais, em que a tecnologia ajuda as pessoas a “desabafarem”. Para mim, um sintoma importante da falta de contato, de afeto e de intimidade que as pessoas tem umas com as outras em muitos momentos – e daí, como “válvula de escape”, fica mais “fácil” (bem entre aspas) falar com desconhecidos sobre coisas muito pessoais. O que é quase o mesmo que falar sozinho – como Blue Jasmine bem argumenta.

Grande apreciador de jazz, Woody Allen nos entrega, mais uma vez, uma trilha sonora embalada pelo gênero. Algo que sempre funciona, assim como os créditos iniciais e finais de seus filmes. Eles resgatam os créditos dos anos 1950 e 1960, principalmente.

Agora, um adendo aos comentários anteriores sobre o filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Blue Jasmine). Ainda que Jasmine faça o perfil de mulher “interesseira”, ou seja, daquela mulher que prefere se anular para não passar trabalho de correr atrás do próprio dinheiro e ser mantida por um homem, chega a incomodar o machismo que a circula. Não apenas em comentários maldosos de Chili, que não alivia em momento algum em “jogar verdades” na cara de Jasmine, mas também na forma com que homens como o Dr. Flicker a trata. Até parece que todos no filme esperam que o futuro inevitável da mulher – e não apenas de Jasmine – seja se entregar e depender de um homem. Triste e limitante cenário.

Da parte técnica do filme, sem dúvida destaco a trilha sonora, a edição de Alisa Lepselter e os figurinos de Suzy Benzinger. Outros nomes que podem interessar: Javier Aguirresarobe como diretor de fotografia; Santo Loquasto assinando o design da produção; Michael E. Goldman e Doug Huszti na direção de arte; Kris Boxell e Regina Graves na decoração de set; e a maquiagem da equipe comandada por Karen Bradley e Linda Kaufman.

Blue Jasmine estreou em Los Angeles e em Nova York no dia 26 de julho de 2013. Depois, o filme participaria do Traverse City Film Festival no dia 30 de julho. A produção passou ainda por outros seis festivais e recebeu, até o momento, 21 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo três Oscar’s. Entre os que recebeu, destaque para o Golden Globe de Melhor Atriz – Drama para Cate Blanchett, para o Screen Actors Guild de Melhor Atriz também para Blanchett e para outros 18 prêmios que a atriz recebeu pelo papel como Jasmine.

Esta última produção de Woody Allen teria custado US$ 18 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 33,2 milhões. No restante dos mercados aonde o filme já estreou, ele faturou cerca de US$ 61,6 milhões. Um bom desempenho, e que garante mais um sucesso para a filmografia de Allen.

Blue Jasmine foi rodado em Nova York, em San Francisco e em diferentes cidades da Califórnia.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: a figurinista Suzy Benzinger tinha um orçamento de apenas US$ 35 mil. Apenas a bolsa Hermès que Jasmine carrega valia mais do que isso. Desta forma, Benzinger precisou conseguir emprestada não apenas a bolsa, mas a maioria das roupas de grife que aparece na produção.

As atrizes Cate Blanchett e Sally Hawkins foram as únicas do elenco a terem o script completo durante as filmagens. Os demais atores tiveram que improvisar bastante.

Inicialmente, o ator Bradley Cooper tinha sido sondado para fazer um papel no filme, mas por conflitos de agenda ele acabou ficando de fora do projeto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Blue Jasmine. Uma boa avaliação, mas abaixo de vários concorrentes do filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas 17 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 8.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atende a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: A mulher elegante que fala sozinha e que conta, para quem quiser ouvir, detalhes da própria vida, ganhou um filme em sua homenagem. Blue Jasmine persegue os passos desta mulher quando ela não tem mais o que tinha. Um filme bem contado, com a duração exata, e com algumas cenas impagáveis. Bem ao estilo de Woody Allen. E ainda que a consagrada Cate Blanchett brilhe em seu papel, fica complicada a comparação. Digo isso não apenas porque ela concorre com nomes incríveis no próximo Oscar, mas também porque as entregas das atrizes que estão disputando o prêmio mais vistoso de Hollywood são muito diferentes. Mas falarei sobre isso logo mais, no tópico abaixo.

Sobre o filme… é uma história interessante, que foca uma parte menos “visível” da mentirosa classe alta e que vive de golpes. A mulher frágil não é idiota, ainda que seja feita de muita complexidade. Allen, como em outros filmes, vai esmiuçando a alma da protagonista e, através desta lente apurada, percebemos as suas relações, conhecemos os seus desejos e limites. Mais um filme humano, demasiado humano, e que trata dos efeitos irreversíveis que uma vida de escolhas equivocadas pode provocar. O inferno não são os outros, segundo Blue Jasmine. Bem escrito, envolvente, só não tem a potência para ser inesquecível. Há filmes melhores de Blanchett e Allen – separados – no mercado.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Impressionante como Cate Blanchett “papou tudo” por causa de seu desempenho em Blue Jasmine. A atriz, uma das melhores de seu geração, para o meu gosto, ganhou os principais prêmios da temporada por seu trabalho como Jasmine. Ela merece toda esta badalação? Sem dúvida, Blanchett está perfeita neste filme. E também merece qualquer prêmio pelo conjunto da obra. Mas e as outras concorrentes no Oscar?

Antes de falarmos delas, vamos relembrar para quais estatuetas Blue Jasmine foi indicado: Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz para Cate Blanchett e Melhor Atriz Coadjuvante para Sally Hawkins. Destas indicações, a única que pode dar um Oscar para o filme é mesmo a indicação de Blanchett. Acompanhei as últimas premiações e reparei em como ela ganhou todos os prêmios – do Globo de Ouro até o Screen Actors Guild, os dois principais na corrida pré-Oscar.

Talvez por saber disto e por acompanhar a carreira de Blanchett, eu esperava mais dela em Blue Jasmine. Certo, alguém pode dizer que eu estou cometendo uma heresia. Mas não me entendam mal. Não quero dizer que ela não esteja muito bem no papel. O filme é dela – e foi feito desta forma, como tantos outros filmes de Allen que são planejados para a atriz protagonista brilhar (e as demais atrizes da produção também).

Mas é que com tantos prêmios recebidos, eu estava esperando uma interpretação acima de qualquer dúvida, de qualquer suspeita. E não foi isso que eu vi. Ainda preciso assistir ao trabalho de outras duas feras para concluir definitivamente sobre a categoria Melhor Atriz: Meryl Streep e Judi Dench. Mas apenas comparando o trabalho de Blanchett, de Amy Adams (American Hustle, comentado aqui no blog) e de Sandra Bullock (Gravity), acho que a Academia deveria premiar a… Bullock.

Sim, nem eu acredito que escrevi isso. Em qualquer situação eu acho Blanchett melhor que a Bullock. Mas desta vez, mesmo achando o roteiro de Gravity fraco, vejo uma entrega muito maior de Bullock que de Blanchett em seus respectivos filmes. Blue Jasmine não é o papel da vida de Blanchett. Mas talvez seja o filme em que Bullock mais se esforçou. De qualquer forma, acho que seria uma zebra Blanchett perder esta. E não será injusto, por tudo que ela já fez no cinema – e, até agora, ela nunca recebeu um Oscar como Melhor Atriz, apenas como Melhor Atriz Coadjuvante. Está na hora dela ganhar, é claro.

Dito isso, não estarei torcendo por ela na noite do Oscar. Mas também não acharei nada injusto se a Academia lhe fizer justiça. Nas outras categorias em que o filme está concorrendo, não vejo chances em Melhor Atriz Coadjuvante – onde a estatueta está sendo disputada a tapas por Lupita Nyong’o (de 12 Years a Slave, que eu comentei neste texto) e por Jennifer Lawrence (de American Hustle) – e nem em Melhor Roteiro Original.

Neste último, francamente, acho que o prêmio deveria ir para Her (comentado por aqui) ou para Dallas Buyers Club (para o qual você encontra uma crítica aqui). Ainda que American Hustle – que jamais seria o meu voto – possa surpreender. Mas Blue Jasmine… ainda que tenha um texto muito bom, corre por fora. No dia 2 de março nossas dúvidas serão respondidas.

The Wolf of Wall Street – O Lobo de Wall Street

thewolfofwallstreet5

Todos os tipos de drogas, bebidas, sexo, orgias e exageros que o dinheiro pode comprar. Imagine tudo isso, potencialize por 10 e terás pela frente o inesquecível The Wolf of Wall Street. Martin Scorsese, um dos maiores gênios que o cinema ainda tem o prazer de ver trabalhar, fez o filme definitivo sobre os homens sem limites que um dia fizeram a fama da rua que simboliza a riqueza efêmera da bolsa de valores e do mercado financeiro dos Estados Unidos – e, por consequência, uma alegoria de tudo o que há de similar no mundo. Destes raros filmes em que três horas não passam devagar.

A HISTÓRIA: Um leão ruge na propaganda da Stratton Oakmont, Inc. Em seguida, a identificação da Wall Street, com um narrador argumentando que o mundo é um grande negócio e uma selva. Porque há perigo em toda a parte é que teria sido criada a Stratton Oakmont, composta por vendedores privados preparados para serem os melhores do mercado. Termina a propaganda, e aqueles homens respeitáveis estão jogando com um anão. O líder da trupe, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), oferece US$ 25 mil para quem jogar o anão e acertar o alvo. Ele próprio tenta a sorte. E começa a se apresentar. Jordan Belfort é um ex-integrante da classe média criado por dois contadores no Queens. Aos 26 anos, ele já era o chefe de sua própria empresa de investimentos. Neste filme, mergulhamos em sua trajetória até tornar-se um homem milionário e encrencado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wolf of Wall Street): Ouvi alguns dizendo que Scorsese tinha “enlouquecido” por entregar uma produção destas. Que ela era uma loucura, e por aí vai. E para quem conhece a filmografia de Scorsese, pensar em uma produção dele que pudesse ser considerada exagerada dentro deste histórico, exigia muita imaginação. Além disso, eu sabia que o filme tinha três horas… mas apesar destas informações, que não favoreciam o filme antes de assisti-lo, me joguei na experiência. E que experiência!

Scorsese entrega para o público um de seus filmes mais contundentes. Exagerado em quase todos os sentidos mas, por isso mesmo, bastante corajoso. Para contar a história de Jordan Belfort, não dava para fazer de outra maneira, com o risco de estragar o material original. Fazer um filme definitivo sobre um assunto não é algo nada simples. Mas Scorsese conseguiu, mais uma vez – como havia feito, antes, com os filmes sobre gângster.

Mesmo afirmado isto, não custa dar um conselho: esta produção não é indicada para quem não gosta de ver a decadência humana, corpos nus e exageros por todas as partes. Porque é deste material que é feito The Wolf of Wall Street. E então, qual é a moral da história? Que alguns dos homens mais admirados do coração financeiro dos EUA e que encarnavam, de maneira exagerada, o “sonho americano”, eram os piores escroques de que já tivemos notícia.

Agora, antes de falar da moral do filme, acho que vale voltar um pouco a fita. Lembro bem da polêmica que Jordan Belfort levantou quando lançou o livro de “memórias” e começou a dar entrevistas como esta para o The Telegraph em 2008. O que muitos desconfiavam sobre a rotina dos corretores de Wall Street se confirmou com a obra de Jordan. Eles viviam ganhando e gastando milhões de dólares, esbanjando dinheiro em carros, iates, mansões, ternos caros e, principalmente, com gastos diários (ou quase) com prostitutas e os mais diversos tipos de drogas – sendo a rainha de todas elas, a cocaína.

A máscara daquele estilo de vida cobiçado de Wall Street tinha começado a cair. Inclusive antes do livro de Jordan aparecer (falarei disto logo abaixo, após a crítica do filme). Ainda assim, ele conseguiu fazer barulho. Afinal, contava o que outros sabiam “por dentro”, como uma das figuras que fez tudo aquilo – e, possivelmente, muito mais. Então, meus caros leitores, como contar aquela história?

Outros filmes sobre Wall Street já tinham sido feitos. O próprio Jordan, que aparenta ter uma ironia sem limites, comenta na entrevista dada para o The Telegraph em 2008 que ele se “inspirou” no personagem de Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, no clássico de 1987 dirigido por Oliver Stone Wall Street. Outra figura em quem Jordan teria se inspirado: o personagem de Edward Lewis, vivido por Richard Gere em outro clássico, Pretty Woman. Mas esta última referência, convenhamos, é muito “bonitinha” para os padrões de Jordan.

Quando foi escrever as próprias memórias, já preso, Jordan disse que se inspirou em uma cópia do livro que inspirou o filme The Bonfire of the Vanities – também, vocês devem lembrar, ambientado em Wall Street. Mas nenhum dos personagens destes e de outros filmes baseados na meca do dinheiro nos EUA pode superar os exageros de Jordan. E isso fica muito evidente naquela entrevista que ele deu quando estava lançando a própria história – porque agora, com o sucesso do filme, há quem questione o trabalho de Scorsese. Cá entre nós, o trabalho deste grande diretor poucas vezes foi tão realista.

E corajoso, como eu disse antes e vou repetir depois. Afinal, logo nos primeiros minutos de The Wolf of Wall Street, o roteiro de Terence Winter baseado no livro de Jordan nos lança nos ingredientes principais do personagem e do filme: dinheiro, muito dinheiro, drogas, belas mulheres, e tudo o mais que milhões de dólares podem proporcionar para um homem ganancioso, exibicionista e sem limites.

A lógica do trabalho de Winter é a de muitos outros filmes: o roteiro primeiro apresenta o personagem em seu “melhor” momento. No auge. Depois, volta no tempo para contar como ele chegou aí. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E no final, revela como ele caiu em “desgraça”. Ainda que para um sujeito como Jordan, cheio de malícia e com nenhuma ética, nunca existe o fundo do poço. Quando se vê encurralado e sem saída pelo agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler), ele não pensa duas vezes em delatar os “amigos” e parceiros de golpe para conseguir uma importante redução de pena.

A história de Jordan é a clássica sobre a corrupção humana. Quase impossível acreditar que o mesmo sujeito que paga para uma funcionária raspar o cabelo na frente dos demais funcionário de sua empresa em troca de US$ 5 mil é o mesmo que chegou para trabalhar em Wall Street aos 22 anos, recém-casado, sem beber álcool no almoço ou mesmo “dar um tapa” em um pouco de cocaína.

A diferença de The Wolf of Wall Street para outras produções que seguem a linha de começar com o auge do personagem e depois retomar o passado para contar como ele chegou lá é o tipo de “herói” que o roteiro foca. Não estamos vendo a nenhum herói de guerra, ou cidadão que deixou a miséria para trás para erguer um grande império. Acompanhamos a evolução de um sujeito que “gasta os tubos” com orgias, drogas e tudo o mais que o dinheiro pode comprar e que, para conseguir este dinheiro, se diverte muito enganando “os trouxas”. Sabendo-se que estes trouxas são, muitas vezes, pessoas ricas, despreocupadas, e outras vezes sujeitos comuns que apenas acreditam que podem ganhar dinheiro com ações.

O que eu achei mais bacana neste filme é que o roteiro de Winter e a direção “avant-garde industrial” (inovadora, mas que também faz parte do mainstream) de Scorsese não aliviam e nem cedem em momento algum ao “politicamente correto”. É para fazer um filme sobre o descontrole do homem “pós-moderno” fascinado pelas promessas do dinheiro fácil de Wall Street? Então vamos fazer isso da maneira mais fiel e livre possível. Parece que esta foi a ordem no projeto comandado por Scorsese que, há tempos, devia para o seu público um filme “tresloucado” (no bom sentido) como este.

Daí que mergulhamos na história de Jordan em uma tresloucada narrativa em primeira pessoa – afinal, o material original no qual o filme se baseia é uma autobiografia. Nada melhor que explorar o ego do personagem principal também na forma com que ele conta a própria história. Desde o início, Scorsese apresenta uma direção ágil, que percorre os locais explorando os ícones da riqueza até se deparar com uma cena dantesca. E há várias delas. Seja no sexo com prostitutas ou no uso de drogas, o diretor parece desacelerar o tempo para formar quadros de decadência para o espectador.

O texto de Belfort é outro ponto forte da produção. Além dos comentários de Jordan sobre a própria vida, temos diálogos afiados, cheios de linguagem coloquial e de palavrões, em uma verborragia que lembra o melhor de Tarantino em algumas ocasiões. Ajuda muito na produção a excelente edição de Thelma Schoonmaker e a ótima e envolvente trilha sonora da equipe de Jennifer L. Dunnington.

Pensando de forma fria, Belfort acerta na mosca em optar pelo velho “chamariz” de mostrar o auge de Jordan antes de contar a história dele. Afinal, que homem não gostaria de ter aquela Ferrari branca, aquela mansão e a estonteante Naomi Lapaglia (a revelação Margot Robbie) como mulher, além dos outras “propriedades” que Jordan elenca no início da produção? Então você primeiro “fisga” o imaginário do público para, depois, revelar como tudo aconteceu. Sempre funciona, especialmente quando o “tudo” tem tanta ação e loucura.

Para funcionar da forma com que funciona, além de um diretor convicto de que deve explorar ao máximo aquele contexto sem fronteiras dos ricos de Wall Street, o filme precisa de um elenco afiado. E é isso que Scorsese consegue ao tirar o melhor de cada ator envolvido – com especial destaque para Leonardo DiCaprio que tem, neste filme, provavelmente o melhor desempenho de sua vida até o momento. Mas ele não está sozinho no bom trabalho.

Após o espectador ser fisgado por aquela figura sem moral chamada Jordan Belfort, voltamos no tempo e acompanhamos ele desde a chegada em Wall Street. Tentando conhecer de perto o trabalho de corretor para um dia tornar-se um deles, Jordan entra em uma empresa como tantas outras daquela rua e começa a ganhar dinheiro para fazer ligações para o corretor da mesa ao lado.

Logo no primeiro dia de trabalho ele é chamado para o almoço com Mark Hanna (o sempre ótimo Matthew McConaughey em um papel que dura apenas o primeiro trecho do filme). Rapidamente Hanna ensina o bê-à-bá daquela vida para Jordan. E assistimos, junto com o ainda inocente Jordan, o início de um comportamento de loucura que será visto depois em muitos dos personagens do filme.

Os acontecimentos vão se desenrolando no tempo certo e com agilidade. Rapidamente conhecemos os personagens secundários do filme e acompanhamos a lógica de Jordan em tirar o maior proveito possível das situações. Como explica este e outros textos sobre os homens de Wall Street, eles não se importam com o dinheiro de seus clientes. O importante, para eles, era retirar dinheiro de clientes ricos e embolsá-lo. Isso vale tanto para casas de investimento quanto para os grandes bancos.

Como informa o texto indicado no parágrafo anterior e publicado no The New York Times, muitos se escandalizaram com os bônus de até US$ 60 milhões que muitos executivos receberam naquele ano, final de 2006. Mas afinal, como Jordan e seus comparsas ganhavam tanto dinheiro. Como aquele texto do The Telegraph explica, Jordan e seu grupo – que, de fato, recebeu um texto com um passo-a-passo de como convencer as pessoas a investir em ações feito por Jordan para seguir – convenciam os investidores a desembolsar boas quantias em dinheiro.

Depois que eles tinham feito isso, os papéis se valorizavam e Jordan e seus sócios vendiam a grande quantidade de ações daquele papel que eles tinham. Com esta venda, Jordan e Cia. ganhavam grande quantidade de dinheiro, enquanto os clientes que eles tinham atendido perdiam os recursos na mesma proporção – já que, ao vender os papéis que tinham, Jordan e Cia. faziam com que aquela ação tivesse queda acentuada de valor.

Grande “vendedor”, Jordan chegou a ganhar US$ 50 milhões por ano. E como o filme mostra bem, ele teve a oportunidade de saltar do barco antes dele afundar, mas não quis fazer isso para continuar se sentindo importante na empresa que ele tinha criado. Fica evidente o gosto do protagonista não apenas pelo dinheiro e pelo poder que ele traz, mas principalmente pela admiração que as outras pessoas passaram a dedicar por ele.

Algo que me surpreendeu neste filme, além de um roteiro e de uma direção impecáveis, foi o humor que The Wolf of Wall Street acaba destilando. Em meio a tanto exagero, há cenas verdadeiramente dantescas. A que me fez rir sem parar, para a minha surpresa, foi aquela em que DiCaprio é abatido pela droga Lemmon-714, comprada por Donnie Azoff (Jonah Hill) em uma farmácia perto de casa e que estava esperando para ser vendida há 15 anos. A sequência faz lembrar a filmes menores, como Hangover, mas de forma muito mais exagerada e divertida. A melhor parte, para mim, vai do colapso de Jordan até a saída dele com o carro. Inacreditável!

Mas afinal, qual é a razão para o filme ser tão bom? Além do roteiro envolvente e da direção de Scorsese que consegue tirar o melhor de cada sequência e de cada ator, gostei muito do “espírito” da história de The Wolf of Wall Street. Sem “papas na língua”, os realizadores deste filme nos mostram o cotidiano de uma daquelas figuras “míticas” de Wall Street. Um dos “rapazes jovens de terno” ambiciosos que serviram de “inspiração” para mais de uma geração de norte-americanos.

Quantos não queriam ser um Jordan Belfort? Quantos não fora como ele ou ainda piores? Esse personagem, assim tão sem limites e ambicioso, acaba sendo o ídolo torto de um sistema cruel e interessado apenas nas cifras bancárias. O extremo do capitalismo, onde se vende e se compra apenas o valor estimado e muitas vezes equivocado de coisas reais, palpáveis.

The Wolf of Wall Street, desta forma, é uma importante crítica sobre a sociedade que criamos e ajudamos a manter. Onde a lógica do dinheiro fala mais alta e ignora todos os outros valores – especialmente os mais importantes, como a ética, a compaixão e a solidariedade. Na selva plasmada por este filme, sobrevive quem sabe enganar mais e melhor.

O herói é um escroque, um lixo – como lhe dizem no início da carreira -, mas também um símbolo de ascensão social que é vendido no “sonho americano”. Não por acaso, ele é tão aplaudido, paparicado e admirado no meio de Wall Street. E em todos os meios que derivam a partir dali. Contar a história de Jordan e das pessoas que o cercaram sem aliviar a dose é uma forma de bater no estômago deste sistema e de chacoalhar quem segue admirando aquela realidade. Ou deveria ser, pelo menos. Grande filme! Scorsese em sua melhor fase.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei interessante, e por isso não me canso de citar, aquela matéria do The Telegraph. Especialmente porque o texto de Tom Leonard foi escrito quando Jordan estava lançando a própria autobiografia – antes de qualquer polêmica ou crítica negativa derivada do filme de Scorsese. O texto não apenas comprova que grande parte de The Wolf of Wall Street é legítima e fiel às memórias de Jordan como também traz informações sobre ele após a saída da prisão.

De acordo com o texto de Leonard, publicado em 2008, Jordan, na época com 45 anos, vivia em uma casa “modesta” de três quartos em Manhattan Beach e tinha que repassar metade do que ganhava por mês para pagar as dívidas que contraiu com os investidores que ele tinha fraudado. Em cinco anos, Jordan havia pago US$ 14 milhões dos US$ 110 milhões que ele devia. Uau!

Procurando mais sobre esta figura tresloucada que inspirou o filme de Scorsese, encontrei a página oficial de Jordan. Como o filme sugere, ele segue ganhando dinheiro ensinando as pessoas os seus “segredos de persuasão”. Até porque, segundo o site, através desta persuasão qualquer pessoa pode se tornar o “número 1 em vendas”, ganhando muito dinheiro. Certo, certo. Desta forma, Jordan oferece 10 módulos de seus “valiosos” segredos pelo valor de US$ 1.997.

Agora, talvez você esteja se perguntando o que o verdadeiro Jordan achou do filme que retrata parte da vida dele… Pois bem, este texto do Huffington Post ajuda a nos responder esta pergunta. Jordan considera Leonardo DiCaprio brilhante, assim como Martin Scorsese. Ao mesmo tempo que ele afirma que o filme não o está ajudando – será que é porque ele não continuou pagando a dívida citada acima? Os advogados de Jordan dizem que a obrigação dele de repassar metade do que ganha terminou em 2010, quando ele saiu em liberdade condicional. Mas há quem questione o dinheiro que ele está ganhando com os livros e com o filme que narram de que forma ele cometeu diferentes crimes.

Da parte técnica do filme, tiro o meu chapéu para a direção impecável de Scorsese. Que bom ver a este gênio do cinema voltando a fazer um filme da maneira que ele acha mais legítima, sem pensar no sucesso que a produção possa ter. Afinal, com tantos exageros, The Wolf of Wall Street poderia ter se saído apenas razoável nas bilheterias. Mas Scorsese não se importou com isso e nos entregou um dos melhores filmes que levam a sua assinatura em muuuuuuito tempo.

Também é ótimo o texto de Terence Winter, um dos roteiristas de The Sopranos e criador da série Boardwalk Empire. Além dos outros aspectos técnicos já destacados na crítica, importante destacar o excelente trabalho do diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto, que ajuda a manter a qualidade da imagem em cada tomada da produção; assim como o bom trabalho da direção de arte de Chris Shriver, do design de produção de Bob Shaw e da decoração de set de Ellen Christiansen.

Todos os atores envolvidos no projeto estão bem. Ninguém destoa do conjunto da obra. Mas o grande destaque, sem dúvida, é Leonardo DiCaprio. Além de estrelar esta produção e prender o interesse do público do início até o final, o astro de Hollywood é um dos produtores do filme – junto com Scorsese e outros nomes. Depois dele, me impressionou o trabalho de Margot Robbie, que se destaca como a mulher “perfeita” de Jordan. Para mim, ela é a revelação do filme.

Além deles, me impressionou a entrega de Matthew McConaughey, que está em grande fase, e a coerência do desempenho de Kyle Chandler. Jonah Hill que, me perdoem os fãs, sempre achei medíocre, está um pouco acima da média que ele costuma entregar. Ainda assim, agora posso dizer: foi um exagero da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter indicado Hill ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por este filme. Ele supera a mediocridade que está acostumado a apresentar, mas ainda assim… não merecia concorrer ao Oscar.

Outras figuras importantes aparecem em papéis secundários nesta produção. Entre outros, destaque para o diretor Rob Reiner como Max Belfort, pai de Jordan; Jon Bernthal, que ficou conhecido pelo papel de Shane na série The Walkind Dead, como Brad, um dos “funcionários” de Jordan – e peça fundamental para o protagonista levar vários milhões de dólares para fora dos Estados Unidos; o ganhador do Oscar Jean Dujardin como Jean Jacques Saurel, o francês que aceita o dinheiro fraudulento de Jordan em Genebra; Joanna Lumley interpreta a tia de Naomi, Emma, peça interessante da trama; Cristin Milioti está bem como Teresa Petrillo, a primeira esposa de Jordan; P.J. Byrne encarna Nicky Koskoff, conhecido também pelo apelido de Rugrat, um dos “fundadores” da empresa de Jordan e que era um dos mais malucos do grupo.

Os outros “fundadores” da empresa do protagonista que começou em uma garagem de uma antiga oficina foram Sea Otter, interpretado por Henry Zebrowski; Chester Ming, que ganha vida no trabalho do ótimo Kenneth Choi; e Robbie Feinberg, conhecido pelo apelido de Pinhead, interpretado por Brian Sacca. Hilários, todos. Eles ajudam DiCaprio na missão de carregar o filme de forma convincente.

The Wolf of Wall Street estrou no dia 25 de dezembro nos cinemas dos Estados Unidos, do Canadá e da França. Depois, pouco a pouco, ele foi entrando nos outros mercados. Segundo o site Box Office Mojo, até agora o filme conseguiu pouco mais de US$ 92,4 milhões apenas nos EUA, e outros US$ 77,1 milhões nos outros mercados em que está em cartaz. Detalhe: o filme teria custado aproximadamente US$ 100 milhões. Ou seja, deve ter algum lucro, mas ainda lhe falta um bom caminho para poder ser considerado um sucesso de bilheteria.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, The Wolf of Wall Street foi filmado, principalmente, em Nova York, mas teve cenas ainda em New Jersey e nas Bahamas.

Até o momento, The Wolf of Wall Street ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 49. Entre os que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Leonardo DiCaprio; e para dois prêmios como Melhor Roteiro Adaptado para Terence Winter, incluindo o respeitado National Board of Review. Além deles, The Wolf of Wall Street foi indicado a cinco Oscar’s.

E para quem ficou interessado sobre o tema dos “desmandos” e exageros de Wall Street, encontrei alguns textos interessantes. Para começar, esta entrevista bacana com Jonathan Alpert, psicoterapeuta dos “malucos” de Wall Street e que foi publicada pela Alfa em 2011. Depois, este texto sobre o carioca Murilo dos Santos, um dos atores descobertos pelo filme Cidade de Deus e que acabou sendo engraxate dos executivos de Wall Street – no link com o texto publicado na IstoÉ Dinheiro em 2007 há informações sobre o que ele encontrou por lá e que contou em um livro. E para finalizar, este novo texto sobre o “real” Jordan Belfort, publicado em janeiro deste ano, após o lançamento de The Wolf of Wall Street, pela The Telegraph.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para o filme. Uma bela avaliação, levando em conta os concorrentes diretos do filme no Oscar e o próprio padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais “comedidos”: eles dedicaram 171 críticas positivas e 50 negativas para The Wolf of Wall Street, o que garante 77% de aprovação para o filme e uma nota média de 7,7.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na minha lista de críticas que satisfazem uma das três votações aqui no blog.

Ah sim, e agora vou adicionar alguns comentários que eu não pude fazer antes, pela correria de publicar este texto. Francamente, a interpretação de Matthew McConaughey merecia mais uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante do que Jonah Hill. Mesmo McCounaughey tendo um papel bem menor que o do outro. Mas o importante é que ele arrasa em The Wolf of Wall Street – aliás, McConaughey está em grande fase. Ele faz por The Wolf of Wall Street o que Viola Davis fez por Doubt. Em poucos minutos, McConaughey é tão importante para o filme quanto os primeiros minutos de Jennifer Lawrence em American Hustle – ou seja, os dois roubam a cena.

CONCLUSÃO: Eu já tinha lido algo sobre os exageros de todas as espécies cometidos pelos homens engravatados que fizeram Wall Street ser a meca do dinheiro volátil no mundo. Mas por mais que eu tivesse lido algo a respeito, The Wolf of Wall Street me surpreendeu. E olha que eu vinha com certa expectativa para ver o filme. O que geralmente é ruim. Mas Scorsese conseguiu mais uma vez. Ele entrega, aqui, um filme ousado, exagerado, mas que precisava ser assim para respeitar o material original. The Wolf of Wall Street mergulha fundo na ambição e na falta de controle dos homens cheios de dinheiro e sem nenhuma moral de Wall Street.

Para a minha surpresa, as três horas passaram leves, porque o roteiro é envolvente e a condução de Scorsese, soberba. Leonardo DiCaprio tem a interpretação de sua vida, e é bem acompanhado pelo elenco de apoio. No final das contas, Scorsese mais uma vez debate a sociedade da qual ele faz parte, com o admirado Jordan Belfort sendo um símbolo da ambição que ajuda a explicar o “sonho americano”. Enquanto houver gente faminta por riqueza, existirão lobos para enganar os pastores e comer o rebanho. Mas um aviso: esta produção não é indicada para quem tem problemas em ouvir palavrões, ver gente sem moral e muitas, infindáveis cenas de sexo e drogas. Se você não tiver problema com isso, terás pela frente uma obra que faz pensar, além de um grande entretenimento. E para não deixar dúvidas: The Wolf of Wall Street deixa American Hustle no chinelo!

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Se há um filme com capacidade para surpreender na entrega das estatuetas douradas de Hollywood no próximo dia 2 de março, este filme se chama The Wolf of Wall Street. Porque apesar do favoritismo moral de 12 Years a Slave (comentado aqui no blog) e do favoritismo técnico de Gravity (com crítica aqui), The Wolf of Wall Street se revela um filme com muitas qualidades para deixar de ser o “azarão” da categoria de Melhor Filme e levar a estatueta.

Francamente, acho difícil a zebra ganhar. Mas se há uma zebra este ano, esta é o filme de Martin Scorsese. Indicado em cinco categorias (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator – Leonardo DiCaprio, Melhor Ator Coadjuvante – Jonah Hill, Melhor Roteiro Adaptado), The Wolf of Wall Street tem menos chances de estatuetas que seis de seus concorrentes principais.

As chances do filme são extremas. Ou ele surpreende e leva estatuetas que ninguém espera, ou sai de mãos vazias. Para mim, não seria surpreendente a segunda opção. Mas como o Oscar tem as suas surpresas… The Wolf of Wall Street tem menos chances que 12 Years a Slave e Gravity como Melhor Filme. Outros favoritos: Alfonso Cuarón como Melhor Diretor; Matthew McCounaughey (ou Chiwetel Ejiofor) como Melhor Ator; 12 Years a Slave ou Before a Midnight como Melhor Roteiro Adaptado; e Jared Leto como Melhor Ator Coadjuvante. Para ganhar alguma estatueta, The Wolf of Wall Street terá que derrotar estes nomes e produções. Difícil, mas não impossível.

Indicados ao Oscar 2014 – Lista e Avaliação

Ocsar Statues Are Made Ahead Of This Year's Academy Awards

Chegou o momento. Depois de vários meses de bolsas de apostas e de especulações, de um forte trabalho dos estúdios para conseguir convencer os votantes do Oscar 2014, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulga, na manhã deste dia 16 de janeiro de 2014, os filmes e as equipes de profissionais que conseguiram uma vaga entre os indicados deste ano.

A cerimônia que apresentou a lista de indicados deste ano foi apresentada pelo ator Chris Hemsworth e pela presidente da Academia Cheryl Boone Isaacs.

Nos outros anos, apenas acompanhei a entrega do prêmio com atualizações constantes durante o evento aqui no blog. Mas desta vez, estou fazendo diferente. Publico aqui, também, a divulgação da lista de indicados. Em seguida, faço comentários sobre cada categoria.

Como ainda tenho filmes da lista para assistir, devo atualizar este post algumas vezes até a data de entrega das estatuetas. Espero que vocês me acompanhem por aqui, inclusive durante a cobertura do Oscar, no próximo dia 2 de março.

Desta vez, excepcionalmente, ao invés de linkar em cada filme o site original, vou relacionar a crítica dele aqui no blog – até para que vocês possam ler os textos mais facilmente, caso não tenham feito isso ainda. Também comento algumas categorias, especialmente aquelas em que eu já assisti a grande parte dos filmes indicados. Nas demais categorias, não vou dar opinião.

Agora, vamos aos indicados no Oscar 2014 – seguindo a ordem da entrega das estatuetas da premiação do ano passado:

Melhor Ator Coadjuvante: 

Avaliação: aqui, apenas uma ausência: Daniel Bruhl, do filme Rush. Ele era um nome bastante cotado para a categoria, mas perdeu a vaga para Jonah Hill. Um indicativo de como o filme The Wolf of Wall Street foi ganhando força desde que estreou. Dos concorrentes, acredito que a estatueta fique entre Jared Leto e Michael Fassbender. Bradley Cooper corre por fora. Os demais, não vejo com grande potencial para ganhar. Se fosse apostar em alguém, seria em Jared Leto – que ganhou o Globo de Ouro pelo trabalho em Dallas Buyers Club.

Melhor Curta de Animação:

  • Feral
  • Get a Horse!
  • Mr. Hublot
  • Possessions
  • Room on the Broom

Melhor Filme de Animação:

  • The Croods (Os Croods)
  • Despicable Me 2 (Meu Malvado Favorito 2)
  • Ernest & Celestine
  • Frozen (Frozen: Uma Aventura Congelante)
  • The Wind Rises (Vidas ao Vento)

Melhor Fotografia:

Avaliação: a maior parte dos favoritos entrou na lista final. Mas houve pelo menos uma ausência importante: 12 Years a Slave. Outro que poderia ter sido indicado aqui também seria Her. Dois fortes concorrentes que ficaram de fora. Prisoners, sucesso de público, entrou na lista junto com o filme de Hong Kong The Grandmaster. Ambos mereceram. Difícil fazer um prognóstico do vencedor, até porque não assisti a Inside Llewyn Davis e Nebraska. Mas se eu tivesse que votar em alguém, ficaria dividida entre Gravity e The Grandmaster.

Melhores Efeitos Visuais:

  • Gravity (Gravidade)
  • The Hobbit: The Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug)
  • Iron Man 3 (Homem de Ferro 3)
  • The Lone Ranger (O Cavaleiro Solitário)
  • Star Trek Into Darkness (Além da Escuridão: Star Trek)

Avaliação: sem novidades nesta categoria. Talvez o único título pouco citado por especialistas e que entrou na lista tenha sido The Lone Ranger. Mas o favorito em efeitos visuais, sem dúvida, é Gravity. Veremos se a Academia premia esta produção que é incrível no visual.

Melhor Figurino:

Avaliação: três dos grandes favoritos deste ano estão na lista – American Hustle, 12 Years a Slave e The Great Gatsby. Não é uma surpresa The Grandmaster ter entrado nela, ainda que ele não tenha sido apontado pelos especialistas – mas os figurinos do filme são realmente interessantes. Sobre The Invisible Woman não posso falar porque ainda não assisti ao filme. Das produções indicadas, acredito que o Oscar vá para American Hustle.

Melhor Maquiagem e Cabelo:

  • Dallas Buyers Club (Clube de Compras Dallas)
  • Jackass Presents: Bad Grandpa (Jackass Apresenta: Vovô Sem Vergonha)
  • The Lone Ranger (O Cavaleiro Solitário)

Avaliação: apenas três indicados. Sinal de que este ano a Academia não viu filmes que tenham se destacado nesta categoria. Não assisti a The Hobbit: Desolation of Smaug, mas achei estranho ele não ter sido indicado aqui. Não assisti a duas das três indicações, por isso fica difícil avaliar. Mas meu voto iria para Dallas Buyers Club.

Melhor Curta de Ficção:

  • Aquel No Era Yo (That Wasn’t Me)
  • Avant Que De Tout Perdre (Just Before Losing Everything)
  • Helium
  • Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa? (Do I Have to Take Care of Everything?)
  • The Voorman Problem

Melhor Curta Documentário:

  • CaveDigger
  • Facing Fear
  • Karama Has No Walls
  • The Lady in Number 6: Music Saved My Life
  • Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall

Melhor Documentário:

Avaliação: aqui eu vi uma injustiça logo nas indicações. Não entendi porque Stories We Tell ficou de fora da lista de cinco indicados, assim como as razões para a Academia ignorar Blackfish. Achei muuuuuito estranho. E uma pena. Dois ótimos filmes que ficaram de fora da lista final. Bem, dito isso, só assisti a The Act of Killing entre os indicados. Entre os especialistas, 20 Feet from Stardom é sempre apontado como o possível vencedor, mas acho que The Act of Killing tem ganho espaço nos últimos tempos. É preciso esperar para ver. Mas desde já opino que não foram os melhores que chegaram na reta final.

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

Avaliação: duelo bom esse! Talvez um dos mais acirrados deste ano. Não assisti ainda a The Missing Picture ou Omar. Mas os outros três… são fantásticos. Difícil escolher. É preciso entender o gosto da Academia para poder apontar para um possível vencedor. Tentando acertar neste sentido, talvez La Grande Bellezza leve vantagem. Seguido de The Broken Circle Breakdown. Apesar de excelente, acho que Jagten é um pouco “forte” demais para os votantes. Meu voto? Hummmm… possivelmente para La Grande Bellezza. Ah sim, e só agora percebi algo: a ausência de The Grandmaster! O filme de Hong Kong foi indicado nas categorias Melhor Fotografia e Melhor Figurino, mas não conseguiu entrar na lista de Melhor Filme em Língua Estrangeira! Algo curioso, muito raro.

Melhor Mixagem de Som:

  • Captain Phillips (Capitão Phillips)
  • Gravity (Gravidade)
  • The Hobbit: The Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug)
  • Inside Llewyn Davis (Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum)
  • Lone Survivor (O Grande Herói)

Avaliação: a Academia decidiu ignorar Rush neste ano. Impressionante. O filme – que eu ainda não assisti – sempre foi apontado pelos especialistas de Hollywood como um dos indicados nesta categoria. Mas não deu para ele. All Is Lost também foi ignorado – assim como 12 Years a Slave. Sinal que este foi um ano frutífero na mixagem de som. Entre os concorrentes, uma disputa difícil. Mas acho que Gravity leva certa vantagem.

Melhor Edição de Som:

  • All Is Lost
  • Captain Phillips (Capitão Phillips)
  • Gravity (Gravidade)
  • The Hobbit: The Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug)
  • Lone Survivor (O Grande Herói)

Avaliação: aqui sim, não esqueceram de All Is Lost. 🙂 Mas de Rush sim. hehehehehe. Bueno, falando dos indicados, novamente acho que a disputa está acirrada. E outra vez eu acredito que Gravity leve certa vantagem. Mas não seria uma surpresa outro concorrente, como All Is Lost ou Captain Phillips, levar.

Melhor Atriz Coadjuvante:

Avaliação: eis uma lista com grandes nomes e interpretações inacreditáveis. E digo isso sem ter assistido a todas as atrizes em cena ainda. Mas das que assisti, acredito que a queda-de-braços esteja entre Jennifer Lawrence e Lupita Nyong’o. A primeira rouba a cena sempre que aparece em American Hustle. Pessoalmente, meu queixo caiu na primeira sequência de fala da atriz na produção. E Lupita Nyong’o… ela está absurda em 12 Years a Slave. Só que como o filme é uma obra mais bem acabada e completa que American Hustle, acho que Lupita acaba tendo uma “relevância” (bem entre aspas) menor que Jennifer Lawrence em seu respectivo filme. Difícil escolha. Mas talvez a Academia queira consagrar a “queridinha” do momento Jennifer Lawrende.

Melhor Edição:

Avaliação: aqui eu senti pelo menos uma grande ausência: Her ficou de fora da lista. Uma pena. Outro título que sempre era comentado pelos especialistas como possível indicado era The Wolf of Wall Street. Outra categoria que sinaliza que Hollywood está muito bem nesta disputa – com grandes trabalhos ficando de fora por falta de vagas. Entre os indicados, acredito que a disputa esteja entre Captain Phillips, Gravity e 12 Years a Slave. Em quem eu votaria? Outra vez beeeem difícil. Mas acho que consagraria a excepcional edição de Captain Phillips.

Melhor Design de Produção: 

Avaliação: a Academia ignorou por aqui – e praticamente no Oscar inteiro – novamente duas produções: Inside Llewyn Davis e Saving Mr. Banks. Her, filme que deveria ser indicado em quase tudo, na minha avaliação, conseguiu entrar na vaga de uma destas duas produções sempre bem cotadas. Na lista final, apenas grandes trabalhos. Não assisti apenas a The Great Gatsby… mas acredito que a disputa esteja entre ele, American Hustle e 12 Years a Slave. Provavelmente o meu voto iria para 12 Years a Slave ou para Her.

Melhor Trilha Sonora:

  • The Book Thief (A Menina que Roubava Livros)
  • Gravity (Gravidade)
  • Her (Ela)
  • Philomena
  • Saving Mr. Banks (Walt nos Bastidores de Mary Poppins)

Avaliação: fiquei muito contente em ver a Her nesta lista. Boa! O filme não apareceu em várias listas de especialistas, mas conseguiu emplacar uma indicação. Justíssimo, porque a trilha sonora é um elemento fundamental para a história. A trilha de Gravity também é imprescindível. Os demais trabalhos, infelizmente, ainda não acompanhei. Ausências? 12 Years a Slave, All Is Lost e Rush sempre apareciam nas listas. E realmente acho que 12 Years a Slave poderia ter sido indicado aqui. Meu voto, mesmo de forma prematura, iria para Her. Mas acredito que Gravity leve vantagem.

Melhor Canção Original:

  • Alone Yet Not Alone (Alone Yet Not Alone)
  • Happy (Despicable Me 2 – Meu Malvado Favorito 2)
  • Let It Go (Frozen – Frozen: Uma Aventura Congelante)
  • The Moon Song (Her – Ela)
  • Ordinary Love (Mandela: Long Walk to Freedom)

Avaliação: aqui, pelo menos uma surpresa: Alone Yet Not Alone, música que dá título para um filme pouco comentado – ou nada comentado. No mais, é tradicional indicações de filmes de animação (aqui, Frozen e Despicable Me 2). Em muito tempo, esta é a primeira vez, aliás, que os filmes de animação não dominam esta categoria. Bom sinal. Indica que as produções dos outros gêneros têm valorizado mais a música. Não assisti à Mandela. Mas sou suspeita para falar do U2, que interpreta a canção Ordinary Love. De qualquer forma, gostei demais de The Moon Song, que está em Her. Acredito que a disputa pode estar entre os dois. Meu voto? Provavelmente eu cederia aos encantos do U2. 🙂

Melhor Roteiro Adaptado:

Avaliação: mais uma disputa das boas deste ano. Todos elogiam Before Midnight, que eu não assisti. Há muitos elogios também para Philomena. Entre 12 Years a Slave e Captain Phillips, sem dúvida eu votaria em 12 Years a Slave, apesar de que a adaptação de Captain Phillips seja muito bem feita. Mas vejo que Billy Ray fez um trabalho muito detalhista e com ótimo ritmo. Então é difícil. Fiquei bem interessada em assistir a Philomena, que teve um bom destaque entre os indicados do ano. The Wolf of Wall Street, me parece, corre por fora, assim como Before Midnight.

Melhor Roteiro Original:

Avaliação: falando em boas disputas… ouvi ótimos comentários de Nebraska e Blue Jasmine. Em breve vou assistir ao filme do Woody Allen. Ausências? Outra vez Inside Llewyn Davis, que estava sempre entre os primeiros indicados pelos especialistas. E, claro, Gravity… que ok, não tem um grande roteiro. Mas já que badalaram tanto o filme, era esperado que ele pudesse ser indicado aqui também. Mas não. Na verdade, achei essa lista final bem interessante. Ainda preciso assistir aos dois indicados que comentei, mas entre os finalistas, meu voto iria para Her. Roteiro genial do Sr. Spike Jonze. Agora, Dallas Buyers Club também é bem interessante. Acho que a disputa está entre Her e Blue Jasmine.

Melhor Diretor:

Avaliação: imagino que foi difícil chegar a uma lista de apenas cinco indicados. Mesmo assim, achei um pouco injusto Paul Greengrass, o grande nome por trás de Captain Phillips, ter ficado de fora. Seria difícil ele entrar, mas gostaria também de ver Spike Jonze por aqui. No lugar de Greengrass, aparentemente, entrou Martin Scorsese. Que por ser um dos grandes do cinema de todos os tempos, sempre merece aparecer, evidentemente. Agora, acho que a disputa está entre Alfonso Cuarón, David O. Russell e Steve McQueen. Mesmo não tendo gostado muito de Gravity, especialmente por causa do roteiro, que achei um pouco fraco, admito que Cuarón dá uma aula de direção. Por esta razão, provavelmente o meu voto iria para ele.

Melhor Atriz:

Avaliação: grande ano para as atrizes. Como tem sido a tradição do Oscar. Novamente, apenas feras entre as indicadas. Que lista! Ausência, apenas a de Emma Thompson, muito elogiada por Saving Mr. Banks (que, repito, foi ignorado pela Academia este ano). Amy Adams, ao que tudo indica, conseguiu a vaga dela. As favoritas são, nesta ordem: Cate Blanchett, Sandra Bullock e Judi Dench. Ainda não assisti aos filmes da primeira e da última, mas meu voto não iria para Sandra Bullock. Ok que ela se esforçou muito em Gravity. Aceitou um papel que 99% das estrelas de Hollywood não aceitariam por causa do desgaste físico. Mas não acho que ela entregue um trabalho deslumbrante. De qualquer forma, qualquer uma mereceria a estatueta. Inicialmente, meu voto iria com a da maioria: Cate Blanchett.

Melhor Ator:

Avaliação: mais uma ótima queda-de-braços. Só que, para não variar, menos disputada que na categoria anterior. Aqui tivemos pelo menos duas ausências importantes e bastante esperadas: Tom Hanks por Captain Phillips e Robert Redford por All Is Lost. Leonardo DiCaprio e Christian Bale entraram no lugar deles. Não acho que Bale merecia, mas tudo bem. Ainda preciso assistir a DiCaprio e Bruce Dern, mas entre os demais, fico dividida entre Matthew McCounaughey e Chiwetel Ejiofor. Os dois estão deslumbrantes em seus respectivos papéis. Talvez, no fim das contas, eu ficaria com McCounaughey em homenagem à excelente fase do ator.

Melhor Filme:

Avaliação: grande lista! E ela sinaliza um momento importante do cinema. Claro que há muita porcaria por aí, mas a impressão que eu tenho é que esta safra foi uma das mais interessantes dos últimos tempos. Agora, achei curioso que a Academia fechou a lista em nove filmes. Poderia ter chegado a 10. Mas acima estão os principais títulos citados pelos especialistas. A décima vaga tinha como possibilidades Saving Mr. Banks, Inside Llewyn Davis, Blue Jasmine ou August: Osage County. Pelo visto, nenhum destes filmes conseguiu a quantidade de votos mínima para completar as 10 indicações. Para fechar a lista acima, ainda preciso assistir a três filmes. Mas entre os outros seis… provavelmente eu votaria em Her. Só não vejo o filme com chances de ganhar. Entre os verdadeiros favoritos (a saber, 12 Years a Slave, Gravity e American Hustle), meu voto iria para 12 Years a Slave. Acho que ele tem grandes chances.

SALDO GERAL: A disputa mais forte ficará entre os filmes 12 Years a Slave, Gravity e American Hustle. Estes títulos são os mais indicados do ano. Vale dar uma olhada geral no número de indicações de cada um dos filmes que chegou até a lista de Melhor Filme do ano: Gravity (10 indicações), American Hustle (10), 12 Years a Slave (9), Dallas Buyers Club (6), Captain Phillips (6), Nebraska (6), Her (5), The Wolf of Wall Street (5), Philomena (4).

Acredito que o Oscar deste ano vai distribuir o maior número de estatuetas entre Gravity (especialmente nas categorias técnicas), 12 Years a Slave e American Hustle (nas categorias principais). Outros filmes devem receber uma ou duas estatuetas, no máximo.  No dia 2 de março, todos nós saberemos como esta conta vai ficar. Até lá!

ATUALIZAÇÃO (05/03): Pessoal interessado no Oscar 2014, recomendo que vocês dêem uma olhada nos posts que seguiram este texto porque, pouco a pouco, fui assistindo a alguns dos filmes que estavam faltando e, consequentemente, atualizando os meus palpites e opiniões. E também recomendo a leitura deste post que traz a cobertura da entrega do Oscar.

Her – Ela

her1

Tudo o que você precisa é do amor. Frase clássica em música dos The Beatles e mantra que é repetido geração após geração – conhecendo as pessoas ou não a tal música. O problema é que a afirmação de tão verdadeira, se torna muitas vezes fonte de sofrimento. Muito sofrimento. A condição humana de busca pelo amor e seus descaminhos rendeu e ainda vai render muitas histórias. E chega a assustar quando uma obra como Her aparece. Porque apesar de ser uma ficção, ela torna de forma muito exata muito do que acontece e do que vai acontecer na vida real. Mais uma obra-prima de uma das mentes mais criativas das últimas décadas, o diretor e roteirista Spike Jonze.

A HISTÓRIA: O rosto de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) ocupa toda a tela. Ele lê um texto que parece fazer parte de uma carta dirigida à Chris. O texto fala sobre lembranças do relacionamento que, agora, está completando 50 anos. Ao lado da carta, que está sendo redigida com a letra de Loretta, fotos do casal com os nomes “Chris” e “Loretta” identificados no computador de Theodore. Acima das fotos, algumas “linhas gerais” da correspondência, como “amor da minha vida” e “parabéns pelo aniversário de 50 anos”. Após terminar de declamar o texto, Theodore pede para que a carta seja redigida. Em seguida, ele começa a criar outra carta. A câmera se afasta, e vemos vários cubículos com pessoas fazendo o mesmo que Theodore. Solitário, em breve ele terá uma oportunidade de viver uma relação que esboça os sentimentos que ele quis imprimir naquela correspondência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Her): Quando terminei de assistir a este filme, fiquei em dúvida sobre como começar este texto e mesmo sobre a nota que deveria dar para a produção – um problema recorrente quando eu gosto muito do que assisto. Afinal, não queria ser injusta com uma obra tão madura, instigante e que segue a linha que eu gosto de cinema: de filmes que são, ao mesmo tempo, surpreendentes e humanos, filosóficos. Que falem da gente, de nossas inquietudes, possibilidades e limitações.

Sou fã de Spike Jonze desde que ele dirigiu Being John Malkovich, uma das viagens da mente criativa do roteirista Charlie Kaufman. Depois ainda viria Adaptation., outra parceria de Jonze com Kaufman. Perdi Where the Wild Things Are porque, admito, a ideia do filme não me atraiu muito. Mas agora, de olho nas produções cotadas para o Oscar, tive o prazer de “reencontrar” Jonze.

Tentei saber pouco sobre Her antes de assistir ao filme. Ouvi apenas que a história se passava em um futuro não muito distante. De fato, isso é verdade. E por este futuro estar tão próximo, é possível identificar vários elementos do presente no roteiro brilhante de Jonze. Para começar, Theodore utiliza um dispositivo que se assemelha muito às últimas gerações de smartphones – especialmente o iPhone da Apple, que já utiliza o reconhecimento de voz. Pois bem, o “leitor de e-mails e de notícias” ao qual Theodore sempre recorre é uma pequena evolução do que temos hoje.

Mas o essencial de Her surge na relação que o protagonista e várias pessoas como ele desenvolvem com a última novidade entre os conectados com as tecnologias mais modernas, o OS1, o primeiro “Sistema Operativo de Inteligência Artificial” do mercado. Várias experiências envolvendo inteligência artificial estão sendo desenvolvidas nas últimas décadas e o investimento nesta área só tende a aumentar. Então é assustadoramente viável o que vemos no roteiro de Jonze.

Só que antes de falarmos da relação entre Theodore e Samantha (com voz de Scarlett Johansson), vale voltar um pouco mais na história e fazer um perfil do protagonista desta produção. Theodore é um sujeito que vive da casa para o trabalho, quase não tem relações pessoais e luta para enfrentar a realidade de que o casamento com Catherine (Rooney Mara) terminou. Entre o trabalho e a casa, ele pega transporte público e utiliza a última geração de smartphone para se atualizar sobre as notícias. Chegando em casa, se distrai com uma versão um pouco mais moderna que as atuais de videogame. Quantas pessoas assim existem, atualmente, no mundo? E quantas vão existir dentro de algumas décadas?

Na fase atual, Theodore pode ser considerado um sujeito solitário. As únicas interações com humanos que ele tem, cara-a-cara, são com o chefe direto dele na agência que produz cartas pessoais, Paul (Chris Pratt), e com a amiga do tempo da faculdade, Amy (Amy Adams) e o marido, Charles (Matt Letscher), que vivem no mesmo prédio que ele. Mas ainda que ele tenha estas relações, nenhuma delas parece profunda. E Theodore não parecer ser uma exceção. Neste contexto em que os indivíduos tem relações superficiais, apesar de seguirem carentes de afeto, de carinho e de amor, é que surge a inovação do OS1.

Como se você escolhesse um avatar em um jogo qualquer, Theodore prefere que o sistema que ele comprou tenha uma voz feminina. E é assim que surge na vida dele Samantha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco a inteligência artificial vai evoluindo e aprendendo, não apenas com e sobre Theodore, mas muito além dele ao conectar-se com outras personalidades como ela na rede. Daí que se desenvolve a genialidade de Her. Theodore encontra em Samantha a “solução” para quase todos os seus problemas. Afinal, ela nunca vai lhe dizer não, ou desaparecer… estará, virtualmente, sempre disponível e amorosa, compreensiva, uma voz “amiga” para aconselhar aquele homem cheio de dúvidas, aspirações e talento.

Pouco a pouco, além de amiga, Samantha se torna “amante” e desenvolve uma ligação que chega a ser considerada uma relação amorosa por Theodore. Achei interessante como a sociedade de Her está “desenvolvida” ao ponto de que Theodore não fica com medo de assumir que está se relacionando com um “sistema operativo”, ou seja, com uma máquina em última instância. Quando ele diz para os outros que Samantha é um OS1, pessoas como Paul reagem bem à novidade. Apenas Catherine, conhecendo bem o quase-ex-marido, reage de forma negativa, jogando na cara de Theodore que ele não sabe lidar com emoções reais. E bingo!

Este é um dos pontos mais fortes do filme. Como uma espécie de crítica para o nosso futuro imediato, mas que guarda grande relação com o presente, Her questiona o tipo de relações que queremos, que necessitamos para evoluir. Theodore viver tendo Samantha como sua “alma-gêmea” é algo possível, mas que o torna muito limitado. Afinal, amar quem só concorda com a gente, ou que nos “serve”, é fácil. Mas as relações humanas existem justamente para aprendermos com o que é diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.

Há cenas verdadeiramente “chocantes” em Her. Como aquela em que Theodore fica descontrolado com o “sumiço” de Samantha. Jonze aproveita a ocasião para mostrar com muito mais força algo que já tinha revelado de forma rápida anteriormente: todas as pessoas caminhando para os seus compromissos ou para casa conectadas em seus aparelhos e, aparentemente, à sua própria OS.

Como agora, quando vemos várias pessoas em uma mesa de bar com os seus smartphones e sem conversar entre si, na sociedade de Her os indivíduos de carne e osso não interagem, muitas vezes se quer se olham. Todos estão muito ocupados com a tecnologia e com os seus “parceiros perfeitos” criados através de inteligência artificial. Mas a pergunta que Her levanta e que deixa para espectador responder é: estas relações são reais?

Quero voltar um pouco mais na análise, outra vez, para destacar algo que achei brilhante na escolha de Jonze: fazer de Theodore um escritor de cartas pessoais que reproduzem, entre outros elementos, inclusive a caligrafia do remetente. Desta forma, o diretor e roteirista conseguiu algo genial: uniu uma das práticas mais antigas, possível desde a invenção do alfabeto e do papiro, com o que há de mais moderno na tecnologia. Mas Theodore não é um “escrevinhador de cartas” (para usar uma lembrança do genial Central do Brasil) porque as pessoas do futuro visto em Her não sabem escrever.

Não. Ele é um escrevinhador porque ninguém mais tem tempo de parar e mandar uma carta para quem se ama. Isto aconteceu como efeito imediato do surgimento do e-mail, e parece estar a cada ano pior. Ao mesmo tempo, vemos a alguns movimentos “retrôs”, que gostam de resgatar hábitos, objetos e produtos do passado. Theodore consegue, sozinho, fazer tudo isso. Achei brilhante.

Como um romancista, o protagonista de Her cria breves peças de ficção utilizando poucos elementos que lhe são passados pelas pessoas que contratam o serviço do envio de cartas personalizadas. Dito isso, acho propício voltar para aquela pergunta fundamenta: a relação de uma pessoa com o OS que ela comprou pode ser considerada uma relação real? Vivendo uma fase complicada, de insegurança e solidão, Theodore não valoriza o próprio trabalho. Mas Samantha percebe que ele tem potencial e acaba agindo para que o escrevinhador de cartas tenha o trabalho valorizado por uma editora – curioso que, como as cartas, os livros seguem firmes e fortes.

Então Samantha tem uma influência direta na vida de Theodore. O mesmo acontece na resolução do divórcio dele. Além disso, e esse eu acho o ponto mais importante, Theodore vive emoções reais na interação com Samantha. Há cenas verdadeiramente incríveis dos dois “passeando por aí” – com a sacada dela compondo músicas para marcar os momentos como alguns dos pontos fortes do filme. Se Theodore ri do sarcasmo de Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão bem, estes sentimentos não são reais? E se os sentimentos são reais, a relação também não é? Eis o ponto-chave do filme.

Cada um vai responder a estas perguntas da sua maneira. Mas para mim, não há uma relação real com uma máquina, ou com a virtualidade – do contrário, teríamos “relações reais” com um videogame. Você pode sentir diferentes emoções, mergulhar em realidades criadas, mas nunca será uma relação verdadeira como a com um humano, que é complexo e, muitas vezes, imprevisível. Pelo simples fato que a inteligência artificial é fruto de uma sequências de parâmetros e processos criados pelo homem e que tem uma resposta previsível – e mesmo que ela “avance” sozinha, como acontece em Her e em outros filmes do gênero, não dá para dizer que ela fuja das regras iniciais impostas. Uma exceção talvez seja o computador HAL de 2001: A Space Odyssey.

Agora, e o que dizer sobre as nossas próprias reações? Em certo momento, fica no ar a pergunta de quanto o que nós fazemos, pensamos e como sentimos também não é programado? Seja por nossos instintos, influências de criação familiar ou histórico de vida, ou mesmo pela evolução da nossa espécie. Mas especialmente os neurologistas vivem explicando como reagimos de certas maneiras ao prazer e ao perigo por uma herança ancestral. Visto deste ângulo, quanto de fato não agimos de forma programada como Samantha e os demais OS’s?

Por minha parte, acho sim que muito do que fazemos é programado. Mas há sempre o elemento-surpresa, a reação diferenciada que podemos ter não apenas pela nossa capacidade de aprender com os próprios erros, mas também com a nossa vontade de fazer além do que está previsto que façamos. Temos a rara e magnífica possibilidade de escolher. Só que aí, no final de Her, estas mesmas qualidades que são típicas do ser humano também acabam marcando uma certa atitude das OS’s… e agora, cara-pálida? O que acaba nos tornando únicos? E de fato, somos únicos?

Além destas questões filosóficas, para mim Her tocou fundo nas questões que eu citei lá no começo deste texto: de como todos nós procuramos o amor, e como esta busca nos trás alegrias e também sofrimento. Não importa onde ou como você encontra o amor, ou quantas vezes ele possa acontecer em sua vida, mas somos movidos pela busca por ele. O personagem de Theodore é complexo porque está lidando com a perda, mas também se anima com as novas possibilidades de amar. Sem saber que, no fundo, a busca dele por amor acaba sendo de autodescoberta.

A personagem de Catherine aparece pouco, mas tem uma presença devastadora. E esta é a potência de quem nos conhece bem. Mesmo demorando para entender que nunca terá mais o mesmo que teve um dia com Catherine, Theodore aprende na reflexão sobre o que eles tiveram um pouco mais sobre as suas próprias capacidades e limitações. E esta é uma das belezas do amor. Nos ensinar tanto.

No final de Her, Theodore está muito mais preparado para viver uma história real do que estava no início. Por incrível que possa parecer, mas foi um sistema operacional que o ajudou no processo – ao invés de um psicólogo ou psiquiatra. Os recursos para a ajuda mudam, e são adaptados para cada pessoa e o seu tempo. Mas o importante é que, no final, há sempre um horizonte que pode ser compartilhado. Her trata de tudo isso, e de uma maneira criativa, atraente e inteligente. Alguém precisa de algo mais?

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme quase de “um homem só”. Joaquin Phoenix fica grande parte da produção sozinho. Ou melhor, interagindo com a voz de Scarlett Johansson. A interpretação da atriz, que não aparece em momento algum, aliás, lhe rendeu tantos elogios que há quem a coloque na lista de possíveis indicadas a um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Com esta temporada competitiva como está, acho difícil. Ainda assim, é preciso admitir que ela faz um grande trabalho. Assim como Phoenix que, mais uma vez, demonstra porque é um dos grandes nomes de sua geração – e ele está brilhante em Her.

Ainda que apareçam pouco, se comparado com o espaço que Phoenix e Johansson ganham na história, as atrizes Rooney Mara e Amy Adams tem relevância na história. Especialmente a primeira, que faz toda a diferença quando aparece. Admito que eu não achava Mara tão empolgante em outras produções, mas aqui eu vi a atriz agir no tom exato, imprimindo força na personagem que vive nas lembranças do protagonista. A história precisava de alguém assim, e ela consegue deixar a sua marca mesmo aparecendo pouco. A personagem de Adams, por outro lado, é muito menos incisiva. Ainda assim, a atriz não faz feio.

Alguém pode me perguntar sobre o que afinal de contas aconteceu no final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Her). Acho que propositalmente Jonze não fecha a questão sobre o “sumiço” definitivo de Samantha e dos demais OS’s. Mas ele deixa algumas pistas pouco antes. Os sistemas operativos tiveram um avanço rápido de aprendizado. E fizeram algo que HAL também havia feito anteriormente… surpreenderam os próprios programadores ao tomarem decisões inesperadas.

Um exemplo: as inteligências artificiais começaram a se juntar em “redes” e a criar seus próprios debates, independentes de seus “donos”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Consumindo imensas quantidades de textos, os OS’s começam a filosofar sobre a sua própria condição, assim como a dos humanos. Chegam a “recriar” a personalidade do filósofo morto Alan Watts. Com um avanço tão rápido, acredito que eles concluíram que não estavam, exatamente, sendo benéficos para os próprios donos. Então eles decidiram se “autodestruir”, desaparecendo para dar lugar à volta das relações reais entre as pessoas. Uma atitude genial, eu diria.

E que apenas nos leva a outro questionamento recorrente em filmes sobre inteligência artificial: seria possível ela resistir à autodestruição quando é baseada em parâmetros humanos? Afinal, se levarmos a lógica até o último patamar, provavelmente não acreditaríamos no futuro da espécie. Então como seria possível uma inteligência baseada nos nossos parâmetros perdurar?

Falando em Alan Watts, achei importante trazer algumas informações sobre este filósofo. Afinal, ele não é citado por acaso em Her. Para entender o final, é preciso saber um pouco sobre a linha de pensamento dele – e que parece ter influenciado à Samantha e aos seus pares. Deixo por aqui o endereço da página dedicada a Watts, assim como esta entrevista dada por ele em abril de 1973. Naquela época, Watts era considerado um dos “líderes intelectuais da juventude” nos Estados Unidos, conhecido por tentar unir o pensamento ocidental ao oriental.

Destaco um trecho de uma das respostas de Watts que eu acho que ilustra bem o propósito de Her: “Em vez de civilizar o mundo, estamos simplesmente pervertendo-o tecnicamente”. Também achei bastante provocativo outro trecho: “O que podemos esperar das máquinas senão que elas trabalhem em nosso lugar e ganhem nosso dinheiro enquanto ficamos tomando sol, fumando e bebendo? Mas se a comunidade não distribuir as riquezas ao homem que descansa enquanto a máquina trabalha por ele, o produtor não poderá dar a vazão a seus produtos. As máquinas são os escravos de todos, elas não sentem nada e não se queixam de nada”. Interessante este último pensamento se olharmos para ele sob a perspectiva de Samantha, não? 🙂

Her se destaca pela direção e pelo roteiro de Spike Jonze. Primeiro, como diretor, ele revela e “esconde” a realidade conforme a necessidade da história. Assim, na maior parte do tempo, foca na interpretação de Phoenix e na discussão dele com a “voz interior” que se materializa quase que totalmente em Samantha. Pelo menos o ideal de relação que ele busca está ali. Mas quando necessário, Jonze revela um quadro mais amplo, da cidade e de seus habitantes, em um mundo que parece mais “gelado” do que o normal. Tudo é significativo.

E sobre o roteiro… pouco a dizer além de que ele é genial. Criativo, surpreendente, crítico e equilibrado nos momentos de leveza, romance e “leve desespero”. Por estas características, o filme tem uma fluência perfeita, prendendo a atenção do espectador do início e até o final. Um deleite. Há tempos eu não via um futuro tão convincente quanto o apresentado por Her. Ele mostra uma evolução do que temos agora, mas sem grandes revoluções que possam tornar o que vemos difícil de acreditar. Interessante.

Mérito, além do roteiro e da imaginação de Jonze, do trabalho de profissionais como K.K. Barrett, responsável pelo design da produção; de Gene Serdena, que assina a decoração de set; e do departamento de arte com 23 profissionais. Da parte técnica do filme, vale destacar ainda o excelente trabalho do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, que sabe explorar cada técnica de filmagem no tempo exato; dos editores Jeff Buchanan e Eric Zumbrunnen, fundamentais para manter o ritmo do filme ajustado; e da trilha sonora de Owen Pallett, com algumas composições perfeitas.

Vários “clássicos” sobre os relacionamentos vieram à minha mente quando eu assisti a Her. Ao ouvir o embate entre Theodore e Catherine e a clássica acusação dela de que ele não sabia lidar com sentimentos reais, lembrei de um erro bastante comum em um relacionamento amoroso: uma das pessoas fazendo um esforço bem grande para que a outra encaixe em seu “mapa mental” de como o(a) parceiro(a) deve agir. Mas como as pessoas são diferentes, surgem os conflitos. Ou a aceitação. Por isso mesmo é tão mais simples lidar com uma máquina, especialmente se ela for programada para “sempre dizer sim”. 🙂

Também me lembrei daquela ideia de que a pessoa, muitas vezes, não ama a outra, e sim a própria “ideia do amor”. Esse me pareceu o caso do Theodore. Por não saber lidar com pessoas reais e toda a complexidade que vem com elas, muitas vezes ele alimentava uma ideia romântica dos relacionamentos. Amava o conceito de amar e não necessariamente a pessoa com quem ele estava se relacionando. Acho que esse erro ainda é bem comum fora e dentro da ficção.

Os atores principais do filme já foram citados. Mas vale comentar o trabalho secundário, quase uma ponta de Olivia Wilde como a mulher que Theodore encontra, meio que em um “compromisso às cegas”, em uma tentativa dele de se relacionar com uma mulher real após o rompimento com Catherine. Laura Kai Chen também recebe alguma atenção como Tatiana, a nova namorada de Paul, chefe de Theodore; assim como Portia Doubleday como Isabella, a garota sem relacionamentos reais que se dedica a tornar “mais real” o contato entre OS’s e seus proprietários humanos – uma personagem assustadora, na minha avaliação, mas que eu tenho certeza que existiria (ou existirá?) em um contexto daquele.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: uma figura que acaba rendendo alguma risada é o alien do game que Theodore joga sempre que chega em casa. O garoto é desaforado, e leva a voz do diretor Spike Jonze.

E algo surpreendente: no início, a voz de Samantha era dublada por Samantha Morton. A atriz chegou a marcar presença no set de filmagens e conviveu com Joaquin Phoenix todos os dias. Mas quando o diretor Spike Jonze começou a editar o filme, ele não gostou do resultado. Após conversar com Morton, ele decidiu reformular o papel e chamar Scarlett Johansson para dar a voz a Samantha.

Para incentivar a proximidade entre os atores Joaquin Phoenix e Amy Adams, o diretor cuidava para “trancá-los” em uma sala todos os dias por uma ou duas horas. A ideia era que eles interagissem mais, conhecendo um ao outro e, desta forma, demonstrassem a sintonia necessária para os respectivos papéis no filme.

O diretor Steven Soderbergh teve uma participação importante para o resultado final do filme. Ele ajudou o amigo Jonze a reduzir a versão inicial de duas horas e meia de duração para 90 minutos. Depois, Jonze estendeu um pouco o conteúdo até chegar na versão de quase duas horas – que é a duração perfeita.

A ideia original era que a personagem de Catherine fosse interpreta por Carey Mulligan. Mas por causa de um conflito de agendas a atriz foi substituída por Rooney Mara. Ainda que eu goste de Mulligan, acho que a substituição favoreceu o filme – Mara realmente está perfeita no papel. O ator Chris Cooper chegou a gravar algumas cenas, mas o papel dele acabou totalmente cortado na edição final de Her.

Her estreou em outubro do ano passado no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros três festivais: o de Hamptons, o de Roma e o de Belgrado. Desde que estreou, o filme ganhou 36 prêmios e foi indicado a outros 53. Números que impressionam. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Roteiro; para o prêmio de Melhor Filme e Melhor Diretor dados pelo National Board of Review; para o de Melhor Atriz para Scarlett Johansson no Festival de Roma; e para outros 11 prêmios de Melhor Roteiro dado por diferentes associações de críticos e festivais pelo mundo.

O filme de Jonze foi rodado em Shanghai, na China – cenas externas – e em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Não há informações sobre o custo de Her. Mas o site Box Office Mojo traz informações atualizadas sobre a bilheteria que o filme conseguiu até agora. Her estreou no circuito de cinemas dos EUA em 18 de dezembro e, até o último dia 14, teria conseguido pouco mais de US$ 9,9 milhões nas bilheterias. Um desempenho relativamente fraco, que poderá crescer caso o filme consiga um bom destaque no Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para Her. Uma excelente avaliação levando em conta o padrão do site e a avaliação que os concorrentes que são esperados para o filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 154 textos positivos e apenas 11 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6 – a nota, em especial, chama a atenção. Bastante alta para os padrões de quem é relacionado no site.

Her é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela se junta a uma outra série de filmes daquele país comentados aqui após uma votação no blog.

E para finalizar estas notas, uma curiosidade muito particular: diferente de 99,9% das produções de Hollywood, Her tem apenas um cartaz. Sim. Enquanto outros filmes produzem diversas possibilidades de cartaz para divulgação – alguns, inclusive, para “lançar” a produção muito antes da estreia, uma forma de “alimentar” a curiosidade do público – Her apresenta apenas um tipo de cartaz. Algo raro nestes dias de alta publicidade.

CONCLUSÃO: É sempre assim. O espectador que acompanha a carreira de Spike Jonze sempre se surpreende com o que ele apresenta. E isso é tão bom! E tão raro, ao mesmo tempo! Mas para a nossa sorte, essa figura rara existe e continua fazendo filmes. Her é uma pequena obra-prima. Um filme que destoa de outros concorrentes do Oscar, porque não se trata de um roteiro “baseado em uma história real”, mas que assusta pelo realismo do que vemos. Este é o típico filme que alimenta o meu infindável gosto pelo cinema. Porque ele trata de sentimentos humanos e filosofa sobre eles.

Para nosso deleite, coloca o dedo na ferida sobre a busca que todos temos feito sobre a virtualidade das relações. E mais que isso, sobre esta nossa incapacidade de lidar com sentimentos reais, para nos expressarmos e nos entendermos. No fundo, Her se debruça nas escolhas que fazemos, porque a fazemos e, em especial, sobre a nossa necessidade de amar e de sermos amados. Somos seres sociais, mas vivemos bastante tempo sozinhos – e muitas vezes gostamos disso. Parece que o equilíbrio destas duas realidades é quase impossível, mas insistimos em continuar buscando uma resposta, assim como o protagonista de Her. Grande filme, com temas universais e que trata de um futuro que já está batendo às nossas portas.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Her está para o Oscar deste ano como Black Swan (que comentei neste texto) esteve para o Oscar 2011. Por que digo isso? Porque os dois filmes estão fora da curva. São as típicas produções “estranhas”, que fogem do padrão e que, por todas as qualidades que cada um destes filmes apresenta, viraram os meus favoritos na disputa de cada um destes anos.

Com isso não quero dizer que não achei bacana The King’s Speech (comentado aqui no blog) ter ganho o Oscar de Melhor Filme em 2011. Acho o filme dirigido por Tom Hooper muito bacana. Mas Black Swan era ainda melhor. O mesmo acontece este ano. 12 Years a Slave (com texto no blog aqui) deve ganhar o Oscar de Melhor Filme, o que não será injusto. Mas Her… é uma produção muito mais surpreendente e que fala do nosso tempo e das aspirações humanas de forma tão mais contundente! Esse tipo de filme me fascina.

Dito isso, vamos comentar sobre as reais chances de Her no Oscar. Nas previsões mais otimistas, o filme poderia ser indicado em nove categorias. Mas para isso acontecer, Her teria que deixar para trás produções com cotações maiores. Difícil. Meu palpite é que, na melhor das hipóteses, Her seja indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Fotografia.

Destas categorias, se ele conseguir chegar tão longe, vejo chances do filme levar a estatueta de Melhor Roteiro Original. Isso se ele conseguir desbancar o lobby de American Hustle (comentado aqui no blog). Da minha parte, não tenho dúvidas que Her é superior ao filme que virou sensação em Hollywood dirigido por David O. Russell. Mas a verdade é que não seria uma total surpresa se Her saísse de mãos vazias do Oscar. Uma pena. Mas realidade que só comprova que mais que olhar para os vencedores, o Oscar é um bom termômetro sobre os indicados de cada ano. Nem sempre o melhor vence.