E o Oscar 2011 foi para… (avaliação online dos premiados deste ano)

Boa noite.

Ufa! Por pouco não chego atrasada para assistir e comentar sobre os premiados deste ano.

Diferente do Oscar de 2010, desta vez eu estava trabalhando… ganhando o pão de cada dia. No ano passado, me dava ao luxo de estar apenas estudando. Desta vez, é diferente. Mas estou feliz, inclusive, por esta mudança na minha vida. Certamente minha alegria atualmente é maior do que em 2010. Mas vamos falar do Oscar, e não de mim. 😉

A expectativa para este Oscar, como eu disse no texto anterior, sobre os indicados, é de que tenhamos poucas surpresas nesta noite. Acredito que teremos dois ou três filmes com quatro estatuetas cada um. A grande dúvida é se Hollywood vai se render a The Social Network ou The King’s Speech. Nas demais categorias, os premiados são bastante previsíveis. Quer dizer, surpresas sempre podem acontecer… logo veremos.

Como fiz no ano passado, conforme os premiados forem sendo anunciados, vou comentando sobre os resultados por aqui. No Twitter também farei alguns comentários esporádicos. Este é o segundo ano em que o Oscar abraça 10 filmes na disputa pelo prêmio principal. Uma forma da Academia abrir o leque para agradar aos que gostam de filmes conceituais, mais alternativos, com o gosto do grande público, que prefere os filmes mais comerciais. Na prática, contudo, tanto neste ano como em 2010, a lista de produções que realmente tiveram alguma chance na premiação não passou de cinco. Natural.

Se a escolha de hoje à noite dependesse dos leitores deste blog, sem dúvida Black Swan seria a surpresa da noite. Não é algo impossível, mas improvável. De qualquer forma, concordo com a maioria dos leitores que votaram por aqui: o filme merecia. Mas, cá entre nós, ele é muito ousado para os padrões de Hollywood – ainda. Quem sabe mais alguns anos de evolução da indústria e um filme como este possa sair consagrado? Quem sabe…

No Brasil, 22h30, começou a cerimônia de premiação com o já tradicional vídeo de tiração de sarro com os principais concorrentes deste ano. Algumas boas tiradas, outras meio sem graça… como nos últimos anos. Sem novidades. Quer dizer, quase… os melhores trechos foram de The King’s Speech e Black Swan, ainda que a melhor tirada foi mesmo colocar Back to the Future no meio do enredo.

Em seguida, James Franco e Anne Hathaway no palco, engraçadinhos e elegantérrimos. Os dois à altura de Hugh Jackman no ano passado – ainda que eu preferia ele se esforçando um monte com aquele número musical, vocês se lembram?

Bacaníssima a dinâmica do cenário este ano. Começando com a homenagem para …E o Vento Levou e Titanic.

E o primeiro premiado, bastante esperado. Em Direção de Arte, deu Alice in Wonderland na cabeça. Merecidíssimo – e olha que nem assisti ao filme, mas opino apenas por ter visto ao trailer e ao trabalho de desenvolvimento dos cenários. Fantástico. Claro que a dupla que foi receber a estatueta agradeceu ao diretor – e fez gracinha e tudo, brincando com a “careca” da estatueta.

Estava na torcida por Black Swan em Melhor Fotografia, mas deu na cabeça Inception. Merecido também. Na verdade, o filme dirigido por Nolan deve levar quase todos os prêmios técnicos. Não é por acaso que o diretor de fotografia agradeceu a Nolan, com quem fez vários filmes antes – inclusive dois Batman.

“Um dos atores mais transcendentes de todos os tempos”… e aparece o Kirk Douglas, aplaudidíssimo. Bacana. E ele, ótimo, pergunta onde estava Anne Hathaway quando ele estava fazendo filmes. 😉 O ator veterano apresenta as indicadas na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Expectativa… Melissa Leo vestida para matar.

Kirk Douglas, mega engraçado, até agora, o melhor da noite. Quebrando o protocolo, ele jogou com as expectativas da plateia e das indicadas, em especial. Depois de abrir o envelope e jogá-lo no chão, ele brincou por ter sido indicado três vezes ao Oscar e por sempre ter perdido. Brincou com as pessoas que estavam rindo – e com Colin Firth que, por ser inglês, não estava.

E o Oscar foi para… Melissa Leo. Linda. E apesar daquela ideia infeliz dos anúncios nos jornais e revistas, ela merecia. Muito bem entregue esta estatueta. Melissa Leo agradeceu a todos os atores que dividiram a cena com ela em The Fighter. Algo justo também, porque um dos pontos fortes da produção é, realmente, o trabalho dos atores.

Justin Timberlake e Mila Kunis em cena. Ela foi injustiçada. Deveria ter sido indicada este ano na categoria anterior, de Melhor Atriz Coadjuvante. Mas ok, todo ano alguém que merece fica de fora. Os dois apresentaram os indicados a Melhor Curta de Animação. The Lost Thing surpreende e ganha de outros que eram favoritos. Primeira “zebra” da noite. Mas, por isso mesmo, bacana. Bom ver uma produção mais independente ganhando um prêmio que é importante para o fomento de jovens talentos. Os premiados agradeceram à família e a música começou a subir… mas foram bastante aplaudidos.

Em seguida, Melhor Filme de Animação. Desta vez, sem surpresas. Levou a estatueta Toy Story 3. Muito, muito merecido. O diretor Lee Unkrich agradece a uma imensa lista que ajudou a produzir o filme – justificando aquela grana toda investida, claro. Até a “avozinha” ele agradeceu. Sem muita emoção, mas bonitinho. Até agora, apenas uma pequena surpresa: em Melhor Curta de Animação. O restante, previsto.

Como vocês bem sabem, logo mais, vou ampliar este texto. Por agora, apenas os primeiros comentários de cada premiação. Depois amplio com outros detalhes sobre os vencedores, os derrotados e algum possível injustiçado. E seguimos… (Adendo no dia 12 de março: estou aqui, revisando este texto e colocando novas fotos e, francamente, acho que vou acrescentar pouco. Prefiro logo me lançar a outro filme e crítica do que acrescentar muito mais por aqui).

Entra em cena o ótimo (em vários sentidos) Javier Bardem. E agora sim, uma prévia do que virá na noite com a categoria Melhor Roteiro Adaptado: The Social Network levou a estatueta. O que só aumenta as possibilidades deste filme levar na categoria principal. Merecido, muito merecido este Oscar. Porque o roteiro é corajoso e muito bem escrito – difícil traduzir para a tela a complexidade da história do criador do Facebook sem que a produção fosse óbvia ou chata. O discurso do Sorkin chatinho, mas tudo bem. A gente dá um desconto.

Em seguida, Melhor Roteiro Original. A expectativa é que ganhe The King’s Speech. E deu o esperado. Grande vitória. Merecidíssima. Grande roteiro de David Seidler, que foi mais divertido no discurso.

Ele brincou que era uma das pessoas que ganhou o Oscar com mais idade na história. E que isso era uma coisa boa, que deveria acontecer com uma frequência maior. Brincou que ele sempre foi um “pouco atrasado” e agradeceu pela Rainha da Inglaterra não ter fechados as portas para esta história.

Disse que muitas pessoas no mundo gaguejam, e encerrou falando: “Sim, nós temos uma voz. E sim, nós fomos escutados”. Bacana. Possivelmente o melhor discurso da noite até agora. (Adendo no dia 12/3: e, francamente, foi um dos melhores discursos de toda a noite. Muito simpático o velhinho roteirista genial.)

Anne Hathaway volta soltando a voz. Mandando ver muito, muito bem. E, claro, tirando um sarrinho do Hugh Jackman – que teve que fazer uma cena sozinho no ano passado. E o palhaço do James Franco aparece como Marilyn Monroe. Só que menos engraçado.

Perderam “o ponto”, digamos. E aparece em cena a fantástica Helen Mirren, falando em francês. E tirando sarro do desempenho de Colin Firth como rei. Dizendo que ela foi superior como rainha. 😉 Genial.

Melhor Filme Estrangeiro para Haevnen, da genial, fantástica Susanne Bier. Fiquei feliz. Ainda que goste muito de Iñarritu, e queira assistir a Biutiful, mas Bier merecia há tempos levar uma estatueta. Bacana.

E agora, deve dar Christian Bale. Ainda que tenhamos outros grandes intérpretes em cena, está na hora de Bale ser reconhecido na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

John Hawkes e Geoffrey Rush também mereciam, é fato, mas Christian Bale estava matador – ainda que ele tivesse feito algo bem parecido antes. Mas era hora dele ganhar.

Após ser anunciado como vencedor, Bale foi bastante generoso e agradeceu a todos os envolvidos em The Fighter, do diretor até os atores, assim como o personagem real figuraça em quem ele se inspirou – e que estava no Kodak Theater. Agradeceu também à esposa, que enfrentou “vendavais” ao lado dele, lembrando também da filha que os dois tiveram. Um dos bons discursos da noite também.

Hugh Jackman e Nicole Kidman juntos… há um tempo, isso seria motivo para fofocas. Desta vez, não.

E antes, a Academia agradecendo a parceria com a ABC. Definitivamente, uma emissora melhor que a Globo, que preferiu o Carnaval em 2010 e o BBB, este ano, do que o Oscar na transmissão. Meu gosto não bate com o deles, certamente. 🙂

Em seguida, um show da orquestra interpretando algumas das trilhas sonoras clássicas do cinema. De arrepiar, para quem acompanha essa história há um tempinho.

Na categoria Melhor Trilha Sonora, grandes concorrentes. Muitos veteranos e premiados na disputa. E ganha Trent Reznor, que fez um grande trabalho em The Social Network. E ainda que eu goste muito de outras trilhas na disputa, Reznor e equipe mereceram a estatueta. Entre outros agradecimentos, ele falou de David Fincher, claro, que deve receber, logo mais, a estatueta como Melhor Diretor.

Agora, nas categorias técnicas de som, aposto em Inception. Em Melhor Mixagem de Som, claro, Inception levou a estatueta. Nem preciso dizer que extremamente merecido, não?

Agora, Melhor Edição de Som. Deve dar Inception também… e deu. O filme levou a maior parte das estatuetas nas categorias técnicas até agora, como previsto também. Sem grandes surpresas até o momento.

Voltando para a apresentação, devo dizer que o James Franco está me dando um pouco nos nervos. Tenta ser engraçado todo o tempo mas, algumas vezes, parece apenas exagerado – e/ou fake.

E depois de Marisa Tomei falar sobre os prêmios técnicos, Franco solta: “Ok, parabéns, nerds”. Tá, deu pra ti.

Cate Blanchett, super elegante, apresenta a categoria Melhor Maquiagem, que teve como vencedor The Wolfman, certamente um trabalho muito difícil e que ficou excelente – não assisti ao filme, ainda, mas pelas fotos e trailer, foi merecido. Na categoria Melhor Figurino, o excelente trabalho de pesquisa e o resultado criativo de Alice in Wonderland.

Depois, o momento musical que é uma tradição do Oscar. As apresentações de Melhor Música foram feitas de uma forma bacana, no melhor estilo “nós temos classe”. A interpretação de Tangled foi das mais bacanas. Amy Adams e Jake Gyllenhaal aparecem em seguida para falar dos curtas, destacando que muitos grandes diretores fizeram, antes, este tipo de produções. Gyllenhaal brinca que estes também são os erros mais comuns dos bolões, por isso ele recomenda que as pessoas passem a assistí-los para ter mais chances de acertar os palpites.

Veremos se acertei no meu chute deste ano… Em Melhor Documentário em Curta-Metragem, ganhou Strangers no More. Fiquei feliz. Não assisti, mas achei que ele tinha a melhor premissa entre os concorrentes. Como Melhor Curta-Metragem, uma surpresa: God of Love, que levou para o palco a figura mais engraçada (visualmente) da noite. Ele brincou que deveria ter cortado o cabelo… sinal que nem ele acreditava que iria ganhar. Boa. Agora sim, faço questão de ir atrás deste curta. Dos dois, aliás. E sim, vale muito a pena assistir aos curtas que são indicados, a cada ano, para o Oscar.

Depois, antes do novo prêmio, uma das melhores tirações de sarro da noite. Brincaram com remixes comédia dos filmes, lembrando um dos videos da internet que mais fez sucesso em 2010. O Oscar dando a devida importância para a internet – independente de The Social Network levar a melhor da noite ou não. E James Franco com aquela cara de pateta engraçadinho que cansou. Anne Hathaway, por outro lado, se deu bem até sendo palhaça.

Oprah Winfrey apresenta os filmes indicados como Melhor Documentário. Minha torcida para o filme do Banksy, claro. Mas quem levou foi Inside Job. E o diretor começa colocando o dedo na ferida, dizendo que mesmo três anos depois da bancarrota, nenhum dos executivos culpados foi preso. Momento político tradicional do Oscar também. Fiquei curiosa para assistir ao filme agora. E conferir se ele realmente mereceu ter vencido a Banksy, que é genial.

Na volta da cerimônia, Billy Crystal aparece em cena, após uma homenagem de Anne Hathaway – dèja vu total, já que ele apresentou a cerimônia por muitos anos.

Ele fala do primeiro Oscar que passou na televisão. Crystal homenageia ainda ao grande Bob Hope, que apresentou o Oscar durante mais tempo que nenhum outro.

Robert Downey Jr. e Jude Law apresentam Melhores Efeitos Especiais que, como era mais que esperado, foi ganho por Inception. Um trabalho de primeiríssima, sem dúvida. Nos agradecimentos, claro, os realizadores e familiares.

Depois, como Melhor Edição, grandes indicados e um vencedor: The Social Network. Como eu tinha cantado antes. A disputa foi boa, mas o trabalho da dupla de premiados, imprescindível e bastante inspirado. Merecido pois – ainda que outros também mereciam.

Um empate técnico, se ele fosse possível, teria sido a melhor solução (Adendo no dia 12/3: o empate técnico ao que me referia seria perfeito acrescentando Black Swan). Até agora, uma premiação quase sem surpresas. A maior, para mim, foi mesmo em Melhor Curta de Animação e Melhor Documentário. Mas também porque não assisti a todos os indicados este ano. Depois que conferir a todos eles, poderei falar melhor se houve alguma injustiça.

Agora, cá entre nós, parece que dividiram a dupla de apresentação do Oscar deste ano entre dois anões: Anne-Feliz e James-Rabugento. As caras, gestos e reações ficaram muito segmentadas. Exageradamente, eu diria.

Depois, novas canções sendo apresentadas. Gwyneth Paltrow, mais cantora que atriz – há tempos – em uma versão bastante “terral” e/ou dourada – e quase sem maquiagem.

Ganhou como Melhor Canção Original, a música de Randy Newman, We Belong Together, por Toy Story 3. Acertei esse. 😉 E merecidíssimo o Sr. Newman levar, porque ele é um dos grandes compositores de Hollywood nas últimas três décadas, no mínimo. Em seu currículo, nada menos que 106 trilhas sonoras.

Depois do intervalo, Celine Dion canta enquanto aparecem as imagens das pessoas que morreram ano passado. Um momento “carga emocional mil” que poderia ter sido vivido de outra forma. Celine Dion, me desculpem os fãs, aumentou a carga “piegas” de uma maneira desnecessária. Mas ok, bom rever grandes nomes, ainda que a música não tenha ajudado.

Uma das mais bonitas da noite, Hilary Swank, entrou em cena para dar passagem para a ótima Kathryn Bigelow, que apresentou o Oscar de Melhor Diretor. Ainda que eu torça sempre para Aronofsky, esta será a noite de David Fincher.

Ou não… para a minha surpresa, o grande trabalho de Tom Hooper em The King’s Speech ganhou do favorito David Fincher. Bacana. E isso adianta que o grande filme com roteiro de David Seidler, direção de Hooper e interpretação incrível de Colin Firth pode levar o grande prêmio da noite.

Poucas surpresas até aqui. E todas positivas. Quando isso acontece, vale a pena assistir ao Oscar, mesmo em um ano com tanta enrolação e xaropice como está sendo a apresentação de 2011.

Seguindo a linha “intimista” da apresentação dos indicados em Melhor Atriz e Melhor Ator trilhada no ano passado, Jeff Bridges começou os trabalhos com Annette Bening.

Depois, seguiu uma homenagem bacana para Nicole Kidman.

Em seguida, a bela Jennifer Lawrence, muito diferente da aparência que teve em Winter’s Bone.

E Natalie Portman… ah, minha favorita. Curioso que escolheram uma cena em que ela dá um show mas que não foi a mais difícil em Black Swan.

Fechando a lista, Michelle Williams, que ainda vai levar um Oscar, um dia destes – porque é uma ótima atriz, pouco valorizada até agora.

E deu Natalie, como mais que esperado. Ela soltou algumas lágrimas sinceras e fez um discurso justo. Disse que a grande sorte que ela teve foi trabalhar com uma grande equipe, fazer o que ela gosta – interpretar – e agradeceu muito o exemplo que recebeu dos pais.

Fez uma homenagem muito bacana ao Aronofsky, chamando ele de visionário. Muito justo. Ele é dos grandes.

Agradeceu a uma lista enorme de pessoas, dos amigos até aqueles que deram a oportunidade para ela trabalhar anteriormente. O melhor discurso até o momento. Agradeceu inclusive quem assinou o trabalho de maquiagem, vestuário… não esqueceu ninguém. Generosa, bacana.

Sandra Bullock apareceu em seguida para apresentar a categoria Melhor Ator.

Começou com Javier Bardem e um “Hola”.

Jeff Bridges saiu rapidinho do palco e foi o citado seguinte. Bullock tentou ser engraçada, dizendo que ele ganhou no ano passado e que deveria dar uma chance para os demais mas, claro, não foi engraçada coisa alguma. Mas ok, um dia, quem sabe… 😉

O fantástico Jesse Eisenberg foi o terceiro da lista. Bullock, mais uma vez, fez uma gracinha dizendo que estava esperando que ele aceitasse ela no Facebook. Ok, vamos adiante.

Bacana que ele foi muito aplaudido após o tradicional trecho da interpretação dele.

E então o favorito Colin Firth. Deslumbrante, relaxado, merecedor.

Nos bastidores, James Franco, o último indicado.

Venceu Colin Firth, como era o esperado. Ele brinca que este deve ser o momento alto de sua carreira e que agora precisa descobrir o que virá depois. Ameaçou dançar no palco e citou os outros concorrentes – mas não nominalmente.

Agradeceu os companheiros de cena, o roteirista e o diretor. Agradeceu as pessoas que fizeram parte da carreira dele, especialmente Tom Ford – que dirigiu A Single Man, filme pelo qual ele concorreu ao Oscar no ano passado e que, para muitos, perdeu injustamente.

Finalmente, o prêmio principal da noite, apresentado por Steven Spielberg. Bacana que ele citou grandes produções que venceram na categoria, na história da premiação, e outras grandes produções que não receberam o prêmio principal.

Uma apresentação bastante equilibrada dos 10 indicados deste ano. Ficou bacana o painel com os filmes, vários deles muito bons, realmente.

E o Oscar de Melhor Filme foi para… The King’s Speech.

Opaaaaaa. Legal. Como vocês, que me acompanham, sabem, era o meu preferido, levando em conta que apenas ele e The Social Network tinham chances reais este ano.

Claro que se eu pudesse escolher, eu colocaria do lado de The King’s Speech a Black Swan mas, infelizmente, ainda vai levar um tempo para a Academia premiar um filme como este do Aronovsky. Entre os favoritos, The King’s Speech, sem dúvidas. Vivaaaaaa.

Obrigada aos leitores e leitoras que me acompanharam esta noite. Amanhã ou na quarta, no mais tardar, prometo deixar esta página mais bonitinha, com a publicação de fotos e mais alguma curiosidade dos premiados. (Adendo do dia 12/3: como vocês puderam observar, demorei mais tempo para colocar as tais fotos… hehehehe. Sorry.)

Boa noite para quem esteve assistindo ao vivo, como eu. E bom dia e boa tarde para quem chegar por aqui depois. 🙂

E viva ao Oscar, esta premiação que é uma festa do cinema. Comercial, principalmente, cheio de lobby e negociações de bastidores, mas também com muitos filmes de arte, independentes e uma boa salada mista do que se produz por aí. Até o próximo!

Kynodontas – Dogtooth – Dente Canino

Um filme perturbador sobre gente perturbada. Francamente, Kynodontas é um dos filmes mais impactantes que eu assisti nos últimos tempos. Tanto que demorei um bom tempo para concluir se eu tinha gostado ou não dele. E se tinha gostado, o quanto. Demorei, em outras palavras, para chegar a uma nota. Kynodontas chegou ao Oscar surpreendendo muita gente e, após assistí-lo, me encaixo neste grupo. Porque esta não é uma produção com “cara” de Oscar. O que só comprova como a premiação mais badalada de Hollywood anda mudando gradativamente – mas de forma decisiva – nos últimos anos. Kynodontas é uma produção rara, complicada de assistir, e com algumas ideias realmente inéditas em jogo.

A HISTÓRIA: Alguém coloca uma fita cassete em um gravador e aperta o play. Na gravação, uma voz ensina as “novas palavras do dia”: mar, estrada, excursão e carabina. Um rapaz (Hristos Passalis) escuta as definições, totalmente equivocadas. Perto dele, no banheiro, sua irmã mais velha (Aggeliki Papoulia) e a mais nova (Mary Tsoni), escutam com atenção os “ensinmentos”. Quando a gravação termina, a garota mais jovem propõe um jogo de resistência. Corta a cena. Em um carro, uma mulher vendada com roupa de segurança é levada pelo pai (Christos Stergioglou) dos garotos para a casa de sua família. Christina (Anna Kalaitzidou) é conduzida para fazer o programa de sempre: sexo com o único filho homem do casal proprietário da casa. Sem sair daquela propriedade, os três jovens são desafiados, cotidianamente, a participar de jogos de competição entre si. Aprisionados pelo medo e por ensinamentos deturpados, eles são reféns dos próprios pais.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Kynodontas): Como manda o figurino, assisti a Kynodontas sem saber nada a respeito do filme. Mas logo no início, ao perceber aquele trio no banheiro escutando definições equivocadas de palavras que eles desconheciam, percebi que algo de muito errado estava acontecendo com aquela família. Quando a única personagem que tem nome nesta produção aparece em cena, como uma caça que é trazida para alimentar o filhote de leão mais faminto, fica claro que aquelas pessoas tem um problema sério para entender o que pode ser um relacionamento saudável.

Kynodontas leva ao extremo os efeitos negativos que uma educação limitadora pode provocar em uma família. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Sem dar nome aos personagens principais, este filme reflete sobre os equívocos que vão se acumulando e tornando a vida dos filhos de um casal insuportável. Os pais dos irmãos que vemos em cena acreditam piamente que estão fazendo bem aos herdeiros ao isolá-los da “sordidez” do mundo e dos ensinamentos equivocados da sociedade moderna. Alienados do convívio social, os irmãos vivem cercados de regras e de repressão.

Drama com alta carga psicológica, este filme não deverá cair no gosto de muita gente. Especialmente porque ele chega a alguns dos degraus mais baixos já mostrados pelo cinema sobre a manipulação, controle e terrorismo de inocentes. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Mesmo adultos, os irmãos que assistimos nesta produção tem, na verdade, comportamento de crianças. Na melhor das hipóteses. Sem conhecer o mundo ou ter acesso a alguma realidade que não seja aquela criada pelos pais, eles vivem sob vigilância constante e tendo parâmetros equivocados como molde para os seus cotidianos.

Mas como diriam os nossos antepassados, a mentira tem perna curta. A série de mudanças, provocações e descobertas que a irmã mais velha da família vai passando em pouco tempo faz com que aquele círculo de mentiras e de realidade criada seja rompido. (SPOILER). Interpretada de forma visceral e impressionante pela atriz Aggeliki Papoulia, a irmã mais velha passa por todo tipo de abuso – psicológico e sexual, principalmente – antes de começar a descobrir as mentiras da família (como o telefone escondido pela mãe no quarto) e a adotar uma medida radical para tentar se livrar daquela prisão domiciliar.

Impressiona a violência desta produção. Especialmente porque ela segue uma linha de narração naturalista. Além do terror psicológico criado pelos pais daquela família, assistimos a uma escalada de violência física. (SPOILER). Aposto que muitos psicólogos e inclusive sociólogos serão capazes de escrever alguns estudos sobre este filme. Especialmente porque ele aborda o processo de formação do indivíduo sem que ele tenha contato com o consenso social e com os preceitos de uma cultura. Todas as informações que os três irmãos recebem são restritas aos seus pais, claramente desequilibrados. E mesmo a intervenção de Christina é controlada. Bem, pelo menos até certo ponto. Quando a interação dela com a irmã mais velha começam a mudar sem o conhecimento dos pais, a história começa a mudar de curso.

Certamente muitas pessoas ficarão indignadas com esta produção. Especialmente aquelas que defendem uma alternativa para o sistema de educação vigente. Aqueles que argumentam que os pais podem dar uma educação melhor para os seus filhos do que muitos colégios – ou, em outras palavras, que o próprio Estado e/ou suas alternativas de ensino particular. Evidente que a socialização propiciada pelas escolas é mais do que salutar. Com isso não quero dizer que não existam pais que não possam educar bem os seus filhos. Mas Kynodontas está aí para mostrar, com uma contundência bastante difícil de ser encontrada no cinema, o que pode acontecer quando a educação dos filhos é assumida por um casal desequilibrado.

O roteiro do diretor Giorgos Lanthimos, escrito junto com Efthymis Filippou, incomoda. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Especialmente porque ele mostra alguns dos piores desvios de caráter e tipos de exploração psicológica, sexual e de controle humano imagináveis. Kynodontas revolta. E este, sem dúvida, é um de seus principais objetivos. Além de provocar impacto e espanto, este filme chega a incomodar um pouco pelo ritmo. Algumas vezes, cá entre nós, ele é lento demais. O que só aumenta a angústia e o mal-estar. Feito para incomodar, esta produção ainda termina de uma forma que, certamente, irá desagradar a muitos espectadores. Mas cá entre nós, a falta de uma resposta para o drama que assistimos realmente faz diferença? Saber se a garota se salvou ou se ela acabou morrendo após sangrar por horas e horas no porta-malas muda alguma coisa? Talvez aí esteja uma das grandes reflexões desta produção: pouco importa se alguém é salvo no final. Porque os abusos e absurdos que aquelas pessoas sofreram na mão de um casal de loucos jamais poderão ser, verdadeiramente, solucionados.

Definimos o nosso mundo através das palavras. Kynodontas ajuda os espectadores a refletirem sobre o que pode acontecer quando fazemos relações equivocadas de conceitos e palavras – ainda que, o verdadeiro “confronto” do mundo fabricado por aqueles pais com os conceitos socialmente aceitos acaba não ocorrendo, de fato (o que teria sido interessante). Mas mais que palavras, o filme revela os estragos que valores equivocados podem fazer na vida de adultos. A competição constante para obtenção de prêmios absurdos é apenas uma forma de controle. Mas há várias outras em cena, a maioria moldada pelo medo. O que não deixa de ser uma reflexão interessante sobre os recursos utilizados por distintos governos para o controle social – ainda que este tema não seja evidente na produção. A família mostrada em Kynodontas seria uma alegoria a uma sociedade doente? Talvez. Ou apenas estou querendo enxergar mais valor do que o que realmente existe nesta produção.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Em vários momentos, Kynodontas lembra uma peça de teatro. Não apenas pela alegoria e pelas interpretações um tanto “forçadas” dos atores em um ou outro momento (o que, aliás, é bastante justificado pelo enredo). Mas principalmente pela demarcação bastante planejada de cada cena e do uso do “espaço” fílmico. Curioso como, ao mesmo tempo, esta produção segue tons naturalistas e quase mecanizados de interpretação. Parece, constantemente, que estamos refletindo sobre a naturalidade e a superficialidade dos atos que, nós mesmos, adotamos. Quando estamos representando papéis? Quando estamos sendo verdadeiros? Perguntas que não são fáceis de responder na vida real e nem nesta produção.

A equipe técnica envolvida em Kynodontas faz um belo trabalho. Com destaque especial para a direção de Giorgos Lanthimos, esse maluco que consegue arrancar interpretações impressionantes do diminuto elenco e fazer com que a narrativa seja envolvente apesar da sensação desagradável que permeia toda a história – e que só vai aumentando conforme a produção avança no drama. Merecem destaque, também, o diretor de fotografia Thimios Bakatakis; a edição de Yorgos Mavropsaridis; e o trabalho “acumulativo” de Elli Papageorgakopoulou, que assumiu a direção de arte, os figurinos e a decoração dos sets.

Comentei rapidamente antes, mas vale uma nova citação por aqui: impressionante o trabalho da atriz Aggeliki Papoulia como a irmã mais velha da família doentia retratada por Kynodontas. Vale também citar a atriz Michele Valley, que interpreta a mãe “das crianças”.

Não consegui informações sobre o custo de produção de Kynodontas mas, sem dúvida, este filme grego custou pouquíssimo perto dos padrões do cinema mundial – para não citar Hollywood. Até o momento, a produção conseguiu pouco mais de US$ 105 mil nas bilheterias dos Estados Unidos e quase US$ 274 mil no resto do mundo. Ou seja: quase US$ 380 mil no total. Pouquíssimo, quase nada. E, ainda assim, ele chegou a ser indicado para o Oscar. Mas, francamente, não deve se beneficiar muito com esta indicação. Kynodontas é destes filmes que não conseguirá decolar. Será visto apenas por alguns poucos e, no máximo, virará “cult” (produção cultuada) por este pequeno grupo. Na melhor das hipóteses, claro.

O representante grego no Oscar fez uma longa carreira em festivais espalhados pelo mundo desde que estreou, no dia 18 de maio de 2009, no Festival de Cannes. A produção passou, após aquela data, por outros 26 festivais. Um número impressionante. Nesta sua trajetória, Kynodontas acumulou nove prêmios e outras cinco indicações. Entre os troféus que levou para casa, destaque para o prêmio Un Certain Regard entregue por Cannes; um prêmio especial do júri do Festival de Cinema de Sarajevo; e três prêmios como melhor diretor e diretor revelação para Giorgos Lanthimos entregues nos festivais de Montreal, Dublin e no Sitges.

E uma curiosidade: Kynodontas é o quinto filme grego a ser indicado a um Oscar na história da premiação. O representante anterior da Grécia na premiação havia sido Ifigeneia, produção de 1977.

Fiquei curiosa sobre o tema que serve de pano de fundo desta produção. Procurando notícias a respeito, encontrei esta, do Estadão, sobre uma família do Paraná que ganhou o direito de educar os seus filhos em casa – e não na escola, como determina a legislação brasileira. Curioso. Eis um tema que vale o debate – e que, certamente, tem bons e maus exemplos para servirem de ingredientes para o caldeirão.

Kynodontas tem alguns cartazes bastante interessantes. A versão original, grega, achei um tanto sem graça – ainda que bastante simbólica e sugestiva. Mas há algumas opções interessantes, especialmente nas versões francesas e para o mercado dos Estados Unidos. Só não concordo com uma das classificações utilizadas em um destes cartazes: “hilário”. Não sei se o problema sou eu, mas não achei Kynodontas hilário em momento algum. Ok que algumas situações são tão, mas tão absurdas que acabamos soltando um riso nervoso. Mas não passa disso, um riso nervoso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Kynodontas. Nada mal, especialmente porque esta não é uma produção fácil de ser digerida. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos: publicaram 52 críticas positivas e apenas quatro negativas para Kynodontas, o que lhe garante uma aprovação de 93% – e uma nota média de 7,8.

(OBS: Ainda vou acrescentar algo nesta crítica… agora, talvez amanhã.)

CONCLUSÃO: Um filme pesado, tenso e violento que mergulha fundo e de maneira bastante calculada – e tranquila – na loucura de um casal que resolve criar seus três filhos longe da sociedade. Kynodontas explora um dos piores tipos de realidade que podem ser criados no âmago de uma família. O roteiro de Efthymis Filippou e Giorgos Lanthimos impressiona pela crueza e pela forma inédita com que uma realidade de terror psicológico é explorada. Não é uma produção fácil de ser digerida. Pelo contrário. Mas conforme a realidade daquela família vai se tornando cada vez mais absurda, somos desafiados a continuar assistindo. Uma forma eficaz, sem dúvida, de criar repulsa e indignação. E de questionar o controle familiar e a falta de interesse de algumas comunidades desenvolvidas pela “vida alheia”. O que para alguns pode ser sinônimo de privacidade, neste filme se revela um indicativo de “conivência” com realidades absurdas. Sem dúvida, um filme que faz pensar sobre os limites do que pode ser considerado aceitável em relação a vida comunitária ou privada. Seguindo algumas escolas europeias de cinema, Kynodontas se mostra um filme de narrativa lenta, mas que preserva o suspense sempre na ordem das cenas. A violência da história, assim como a sua dinâmica bastante lenta e um final “sem amarras” pode desagradar a maioria das pessoas. E torna esta produção uma das indicações mais surpreendentes da história do Oscar. Sem dúvida, é um filme para pouquíssima gente. Mas descontadas algumas partes cansativas, Kynodontas revela-se interessante, principalmente, pela forma corajosa e inovadora de tratar um tema espinhoso e, sem dúvida, polêmico.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Após assistir a este filme, admito que fiquei surpresa por Kynodontas ter conseguido figurar entre os cinco indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Há pouco tempo, eu consideraria impossível uma produção como esta chegar tão longe. Mas a indicação do filme mostra como a mais badalada premiação do cinema dos Estados Unidos está mudando e evoluindo. Não porque Kynodontas seja um filme fantástico e incompreendido, mas porque ele é ousado e totalmente fora dos padrões comerciais de Hollywood.

A indicação de Kynodontas este ano mostra como, para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, tão importante quanto ter espaço para o cinemão comercial, é ter cada vez mais espaço para o cinema alternativo. Parece que, finalmente, o Oscar tenta equilibrar, para valer, as “artes” e as “ciências”. O cinema conceitual e ousado com o cinema de mercado, técnico, que prima pela qualidade. Ver Kynodontas entre os indicados é interessante pela ousadia. E apenas por isto.

Sem dúvidas Kynodontas deixou produções melhores de fora da disputa este ano. Ainda não assisti a muitos filmes que estavam na lista original, mas para citar apenas a duas outras produções, achei Carancho e Kray melhores que este filme que representa a Grécia. Mas ok, estas “injustiças” acontecem. Faz parte da premiação. E mesmo sem ter assistido aos outros filmes que estão na disputa final, posso dizer, com certeza, que Biutiful e Haevnen continuam liderando a corrida pelo Oscar deste ano. Resta saber qual dos dois levará a melhor. Qualquer outra produção que sair com a estatueta poderá ser considerada uma zebra. Veremos.

Exit Through the Gift Shop

Afinal, qual é o sentido da arte? E a arte, afinal, precisa ter um sentido? Há tempos os artistas deixaram de fazer obras simples de entender. Ou melhor, há tempos a arte é um reflexo – ou adianto – de nossa própria sociedade: multicultural, multifacetada, múltipla em interpretações e sentidos – e, algumas vezes, inclusive sem sentido (pelo menos, aparente). Exit Through the Gift Shop não trata apenas de arte urbana, arte moderna, conceitual ou essencialmente da arte. É um documentário sobre fama, loucura, obstinação e as pessoas que produzem obras que movimentam fortunas a cada ano. Sem evitar a polêmica e sem papas na língua, este documentário conta a história de um fenômeno artístico que deturpa o próprio processo dos artistas. Em outra palavra, conta a história de um mestre em copiar a arte alheia. E que se deu muito bem fazendo isso. No fim das contas, deveriam agradecer por ele ter apostado em uma câmera e não em uma arma. Outros fizeram isso antes e mataram figuras como John Lennon.

A HISTÓRIA: Grafite, tintas, rolos e rolos de papel. Gente andando, se pendurando, correndo, pintando e colando suas mensagens em paredes pelo mundo. Uma figura se senta, com voz distorcida, e conta qual é a proposta do documentário. Esta pessoa, sem mostrar o rosto e mantendo a identidade camuflada, é Banksy, um dos artistas do grafite mais consagrados no mundo. Suas obras foram vendidas por milhões de dólares em leilões, depois que ele ganhou notoriedade. Banksy é também o diretor do documentário que, inicialmente, era para ser sobre ele e as demais pessoas que dão vida para a arte urbana. Mas o artista nos explica que, na verdade, Exit Through the Gift Shop conta a história de Thierry Guetta, um francês maluco que deixou a família em casa, na maior parte do tempo durante vários anos, para filmar os artistas do grafite. Através da história de Thierry, conhecemos um pouco da rotina e do processo artístico de Banksy, Shepard Fairey, Space Invaders, e tantos outros nomes do cenário da arte underground – que acabou sendo absorvida pelo “mainstream”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Exit Through the Gift Shop): A piada deste documentário começa logo no início. Banksy assume a melhor aura de mistério possível, com imagem camuflada e voz a la Darth Vader e brinca que o documentário que veremos, na verdade, não deveria ter saído daquele jeito. Mas que “há uma moral” nisso. E eis o primeiro achado do filme: brincar com a própria noção de arte, com a expectativa do público e com o improviso que tanto caracteriza o trabalho dos grafiteiros. Nem sempre o resultado final era o que se imaginava mas, certamente, era o que se planejava dentro do contexto. Está na alma do grafiteiro não apenas o risco (afinal, o que eles fazem é “ilegal”) mas, essencialmente, o improviso após a pesquisa e o planejamento. Cada local urbano é único e, muitas vezes, o artista não tem tempo de estudá-lo e planejar cada detalhe de sua obra em detalhes. Daí que o resultado sempre é o melhor dentro do contexto – diferente de quem faz uma tela em casa, com tempo de planejar cada detalhe e ter o controle exato do resultado final.

Algo interessante nesta história é que Banksy não esperava ter que assinar Exit Through the Gift Shop como diretor. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de embarcar na onda de Thierry Guetta, ele esperava aparecer, no máximo, como um dos personagens do tal documentário do francês. Mas ele descobriu o que nós também levamos um tempo para perceber: que Thierry é um louco de pedra. Quer dizer, para ser franca, eu notei isso meio que cedo. Pelo documentário, nós temos a vantagem de conhecer a história do francês quase desde o início – pelo menos a sua relação tresloucada com as câmeras. Não demora muito para notarmos que ele tem uns parafusos a menos – afinal, quem em sã consciência passa todo o tempo do dia filmando tudo que lhe acontece? Hoje criticam as pessoas que, no Twitter, publicam qualquer besteira que estejam fazendo. Mas imagina fazer isso, só que com uma câmera? Pois é, sinônimo de loucura. Claro que os motivos que fazem Thierry aderir de forma tão enlouquecida ao vídeo são explicados na produção – ou, pelo menos, é esboçada uma explicação.

Mas voltando para a essência da produção… Thierry convenceu artistas de diferentes nacionalidades a filmá-los porque estaria, segundo ele, produzindo um documentário sobre a arte feita nas ruas – o grafite e as demais variáveis. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O problema é que eles não sabiam o que nós ficamos sabendo meio que cedo durante a produção: Thierry filma tudo, sem critério ou seleção, e depois simplesmente guarda as fitas em enormes caixas. E isso é tudo. Ele não tem foco, ideias claras. É apenas um sujeito que não tem muito o que fazer e que se sente “viciado” com qualquer novidade que signifique “colocá-lo na eternidade”. Sim, porque no fundo, a grande obsessão do francês é tornar-se um sujeito digno de ser “revisto” por outras pessoas no futuro. Seja através dos intermináveis vídeos que registram a sua vida privada e de todos que um dia cruzaram o seu caminho, seja através de sua “nova onda”, a arte.

Ao mostrar as aventuras de Thierry em filmar os grafiteiros e demais artistas, Exit Through the Gift Shop deixa de ser um simples documentário sobre estas pessoas e este tipo de arte para transformar-se em uma grande reflexão sobre o processo artístico, as pessoas que “consomem” estes produtos e todos os demais que giram ao seu redor. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Há observações sobre o mercado propriamente dito, com cenas de leilões e um certo “mal estar” dos artistas que fazem arte urbana em perceber como os seus trabalhos passaram a alimentar o “mainstream” (sistema), assim como autocrítica de Banksy, principalmente, sobre os riscos do ego e do desejo de autopromoção-reconhecimento-vontade de ter sua obra entendida pela “posteridade”. Neste último termo, no fim das contas (e daí, talvez, a tal “moral da história” a qual se refere o diretor no início), Thierry e Banksy acabam se aproximando. Neste desejo que, aparentemente, resume a nossa época: o de tornar-se famoso, conhecido (nem sempre reconhecido) e, desta forma, menos “efêmero”. A eterna busca do homem para desviar de sua característica mais óbvia: a mortalidade.

Mas eu diria que este é apenas um de vários sentidos que podem ser captados com este documentário. (SPOILER). Outro deles é de que a inovação, por via de regra, sempre acaba sendo absorvida pelo mercado. E quando ela tem um caráter “subversivo” e/ou underground, claro está, tem o seu sentido modificado/deturpado. Na moda, “mauricinhos” sem nenhum ideal revolucionário ou de mudança real da sociedade para uma situação mais igualitária usam camisetas com uma imagem estilizada de Che Guevara coladas ao corpo enquanto tomam uma garrafa de champanhe que custou R$ 400 em uma balada rave cara qualquer. Na arte, leilões, galerias e colecionadores pagam milhões de dólares pela obra de Banksy que, claramente, defende que a arte esteja em todos os lugares, em todas as ruas, e não nas galerias, museus e casas de colecionadores. A mensagem, os objetivos e intenções dos artistas legítimos se perdem. Ou, por outra visão, são absorvidos pelo sistema que eles gostam de criticar. E assim gira a economia da arte – e o mundo. Exit Through the Gift Shop reflete e, de maneira muito própria, critica esta realidade.

Mas a reflexão mais interessante deste documentário reside mesmo na figura de seu “protagonista”: o francês Thierry Guetta. (SPOILER). Desde que ficou claro que esta figura era um louco com muito tempo livre – e dinheiro para comprar infindáveis fitas de vídeo que eu não sei da onde surgia (não podia ser só da tal loja de roupas usadas) -, eu pensei: “Ainda bem que ele escolheu uma câmera de vídeo e não uma arma”. Porque ele era um obcecado que não tinha muita dificuldade de mudar de “paixões”. E quem vive desta forma, sem muitos objetivos claros ou princípios, está sujeito a passar, de um momento a outro, do amor extremo para o ódio assassino. A figura acabou colocando esta sua loucura em fitas de vídeo, o que foi ótimo. Um dia, quem sabe, alguém tem paciência de pegar as milhares de fitas com gravações que ele fez e lançar um documentário só sobre os artistas que ele filmou. Parte deste material foi utilizado por Banksy aqui. Mas não era a intenção do artista falar apenas do grafite e da arte de rua mas, essencialmente, sobre figuras que cercam esta arte, com o louco Thierry e tantos outros que “seguem a onda” e acham tudo o máximo sem ao menos entender sobre o que o artista está falando. Consomem, nunca refletem.

Fina ironia também o nome que o doido Thierry escolhe para assumir no meio artístico: Mr. Brainwash (Senhor Lavagem Cerebral). (SPOILER). Fina ironia porque o próprio francês é um subproduto da lavagem cerebral. Um cara que passou uma década, praticamente, observando os melhores artistas que produzem arte nas ruas e que não soube perceber, por exemplo, a logística que eles utilizavam no processo. Tanto que ele se lança em uma exposição sem saber resolver problemas prático. Assim, Mr. Brainwash nada mais é que uma máquina que expele obras de arte sem reflexão (ou com pouquíssima reflexão), pesquisa de estilo ou aprimoramento de técnica. O que lhe interessa é produzir em grande escala e vender. Pouco importa se as intervenções no espaço urbano tem alguma mensagem, crítica ou sentido. O que lhe interessa é espalhar, sem medida, a sua logo, o seu nome, e tornar-se conhecido para fazer dinheiro. Uma verdadeira lavagem cerebral – e que comprova, mais uma vez, que os imitadores sempre são piores do que os artistas que os originaram.

Por tudo isso, Exit Through the Gift Shop é um documentário raro. Porque não apenas conta, com cenas incríveis, sobre o processo de um tipo de arte “marginal” e difícil de ser registrada, mas, principalmente, reflete de forma crítica sobre esta própria indústria e produção. Olha com critério para os “seguidores” dos artistas e consumidores desta arte. Questiona a própria postura de quem a produz. Enfim, uma grande obra que não apenas ajuda a contar a história de um movimento artístico fundamental a partir do final dos anos 1990, mas que também reflete sobre a nossa própria sociedade e nosso consumismo sem critério ou reflexão. Filmaço, em uma palavra.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como um bom filme feito por um artista, não sabemos até que ponto tudo o que assistimos é verdade. Afinal, Thierry Guetta realmente começou a filmar o Space Invader “por acidente”? Ele apenas teve a sorte de ser o primo de um dos ícones da “arte de rua”? Ou as filmagens de Thierry e tudo o mais que aconteceu a partir dali, inclusive aquela exposição maluca no final, fazia parte de um plano de outras pessoas? Se tudo que está na tela é realmente verdade, que sorte desse homem ser primo do Space Invader, não?

Uma delícia passar por tantos lugares dos Estados Unidos, de Londres, de Paris e de outras cidades junto dos grafiteiros e dos demais artistas de rua. Uma forma bem diferente, sem dúvida, de ver estas cidades. E isto, claro, é justamente um dos maiores objetivos destes artistas – ocupar, apropriar-se e recontar a história dos espaços urbanos. Me fez lembrar um pouco outro documentário excelente, e ganhador do Oscar, Man on Wire – que eu comentei por aqui.

Exit Through the Gift Shop estreou no Festival de Sundance há pouco mais de um ano, no dia 24 de janeiro de 2010. Depois, passou pelos festivais de Berlim, San Sebastian, Helsinki, e outros cinco festivais menos importantes. Até o momento, a produção ganhou sete prêmios e foi indicada a outros nove. Todos os que recebeu foram dados por sociedades de críticos nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Não há informações sobre o quanto este documentário teria custado. Mas há dados sobre o seu desempenho nas bilheterias. Apenas nos Estados Unidos o filme arrecadou quase US$ 3,3 milhões até o dia 31 de outubro de 2010, quando saiu de cartaz nos cinemas. No resto do mundo, ele teve um desempenho minguado: conseguiu pouco menos de US$ 1,7 milhão. Mas, caso ganhar o Oscar de documentário, certamente, irá melhorar estas marcas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a produção. Entre os documentários que estão concorrendo ao Oscar deste ano, é a melhor avaliação. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 96 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% – e uma nota média de 8,2. Um raro empate, devo dizer, entre a opinião do público – que vota no IMDb – e dos críticos.

Não sou a única com dúvidas sobre o quanto Exit Through the Gift Shop é realmente apenas um documentário ou, além disso, também “uma pegadinha”. Este texto da The Times trata justamente deste assunto. No texto, chegam a especular se Thierry não é o próprio Banksy. Neste outro texto, agora do The New York Times, Melena Ryzik questiona se Exit Through the Gift Shop é mesmo um documentário. Independente do quanto do filme foi simulado ou “forjado”, ouso dizer sim que ele é um documentário. Afinal, mesmo um documentário, todos nós sabemos, tem uma certa “manipulação”. Nenhum filme do gênero é um retrato fiel da realidade. Como qualquer trabalho jornalístico, eles são, também, escolhas de realidades dentro de várias óticas e formas de narrar um determinado fato, acontecimento ou “estado das coisas”. Sendo assim, Exit Through the Gift Shop é um documentário, mesmo que parte dele tenha sido inventado.

CONCLUSÃO: Brincando, brincando, Banksy fez um documentário que resume boa parte da cultura ocidental nos últimos 20 anos. Pelo menos, no que se refere à vida relacionada com a arte. Quem é o artista e quem é a fraude? Como as galerias e colecionadores definem quem é um e quem é o outro? Exit Through the Gift Shop não trata apenas de arte urbana, pop ou dos fenômenos artísticos instantâneos. Aborda temas como transgressão, apropriação de espaços urbanos, sede por fama, irmandade e competição entre artistas. A rua é pública, democrática, mas os gatos artísticos que por ela caminham são seletivos. Mas o mais interessante é que o trabalho de Bansky não ignora a autocrítica. Thierry Guetta é um louco e um especialista em copiar/modificar o trabalho alheio. Mas ele só chegou no “auge” em que chegou graças à vaidade de Bansky e boa parte dos nomes envolvidos nesta produção. Impulsionados pela repercussão que a sua arte urbana começou a ganhar com o tempo, os artistas “clandestinos” se renderam à vontade de querer “entrar para a história”, abrindo o flanco para serem registrados e, de quebra, copiados. E a grande reflexão deste filme, talvez, seja justamente esta: vivemos em um tempo tão confuso, tão aberto a que “toda interpretação é válida”, que ninguém mais consegue diferenciar um verdadeiro artista, alguém que seja realmente bom no que faz, de uma fraude. Mais um retrato, assim como outros filmes que concorrem ao Oscar deste ano, desse nosso tempo de confusões.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: A disputa deste ano está boa na categoria de Melhor Documentário. Diferente de outros anos, por mais que se fale muito de um título específico, não há um grande favorito. E sim dois ou três produções com reais chances de levar a estatueta. Dito isso, vale a pena comentar que Exit Through the Gift Shop parece estar na dianteira. Não apenas porque tem mais prêmios, até o momento, que seus concorrentes, ou porque tenha uma nota melhor entre o público – pelo menos pegando o site IMDb como termômetro. Mas porque todos falam de Exit Through the Gift Shop.

Mesmo que ele seja mais comentado que os outros filmes, é importante dizer que Waste Land conseguiu a proeza de ter uma aprovação de 100% entre os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes. No total, ele recebeu 47 críticas positivas. Está na frente de Exit Through the Gift Shop, que não é uma unanimidade. GasLand, que também está na disputa, conseguiu o mesmo feito: 100% de críticas positivas (34, no total).

Exit Through the Gift Shop sai na frente dos demais por ter conquistado, até agora, mais prêmios: sete em diferentes festivais e premiações de associações de críticos. Waste Land e Restrepo levaram menos, quatro prêmios cada um. Mas os documentários ganharam em disputas importantes. Waste Land ganhou dois prêmios no Festival de Berlim e um prêmio em Sundance. Restrepo levou para casa também um prêmio em Sundance e mais outro da cobiçada National Board of Review. A disputa está boa.

Existe ainda uma aura curiosa sobre a possibilidade de Exit Through the Gift Shop ganhar o Oscar. Banksy não apareceu nos almoços e confraternizações feitas pela Academia até agora. Na dúvida se, no caso de ganhar a estatueta, o artista subiria ao palco com uma máscara de macaco, os produtores do Oscar já avisaram que o melhor seria que o produtor Jaimie D’Cruz receba a estatueta por ele. Ou, no fim das contas, que Banksy se apresente para o mundo justamente na entrega de cerimônia do prêmio. O mais provável é que seja o produtor a subir no palco, caso o filme vença. Tudo o que a Academia não quer é que a premiação seja utilizada por Banksy para mais uma de suas grandes cenas. Veremos. Até os bastidores estão interessantes este ano. 🙂

Toy Story 3

O tema de “fundo” desta vez não é adulto ou filosófico. Ainda assim, Toy Story 3 tem um argumento essencial que interessa e emociona aqueles que já passaram da adolescência e deixaram de brincar com os seus “velhos companheiros” de infância. Mais uma vez, a união da Pixar com a Disney produziu uma pequena obra-prima. Um filme impecável na realização e nas mensagens. Toy Story 3 une a agilidade de argumento da Pixar, que ajudou a modificar a indústria, com a preocupação em “belas mensagens” da Disney. Não foi por acaso, claro, que o filme dirigido por Lee Unkrich foi nomeado para cinco Oscar, incluindo a dobradinha de Melhor Filme e Melhor Filme de Animação. Certamente ele ganhará o segundo.

A HISTÓRIA: Um trem corre rápido. Surge da explosão de um de seus vagões, o vilão Mr. Potato Head (com voz de Don Rickles), carregando sacos de dinheiro. Em seguida, o destemido caubói Woody (voz de Tom Hanks) aparece para intimidá-lo. Mas a ameaça dura pouco, porque aparece para defender o marido a Mrs. Potato Head (voz de Estelle Harris). Quando Woody parece ter sido vencido, surge o apoio de Jessie (voz de Joan Cusack) e do fiel cavalo do caubói. Para evitar ser pego, Mr. Potato explode uma ponte e ameaça derrubar o trem cheia de órfãos. A aventura prossegue, com a entrada em cena de Buzz Lightyear (voz de Tim Allen) e de outros personagens. As sequências de aventura fazem parte de uma de tantas outras tardes de brincadeiras de Andy (voz de John Morris). O garoto, agora prestes a ir para a faculdade, deve fazer uma limpa em seu quarto, a pedido da mãe. Neste processo, por acidente, seus brinquedos acabam parando em um orfanato. E a aventura deles recomeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Toy Story 3): Impressionante como a aventura neste filme não para. Diferente dos filmes que antecederam Toy Story 3 nas edições anteriores do Oscar, que tinham muitas qualidades, mas também vários “altos e baixos” narrativos, nesta produção não existem momentos de “baixa”.

Méritos do excelente roteiro de Michael Arndt, baseado em uma história do trio John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich. Mérito também, claro, da direção precisa de Lee Unkrich. Assim, como pede a nova “ordem” dos filmes de animação, Toy Story 3 consegue uma proeza cada vez mais difícil: agradar a crianças de diferentes idades, jovens e adultos. Os menores devem ficar encantados com o colorido e com a ação constante. Os adolescentes devem se identificar com Andy, divididos entre o desafio da vida adulta e suas responsabilidade e as boas lembranças dos velhos companheiros de brincadeiras. E os adultos sentirão um certo saudosismo daquela época em que “tudo era mais fácil” ao mesmo tempo em que celebrarão o cinema bem feito e as mensagens de valorização da amizade e das boas lembranças.

Falando assim, pode até parecer fácil conseguir fazer um filme de animação deste jeito. Mas, claro está, não é uma tarefa nada simples aliar estas diferentes linhas de encantamento e leitura de uma mesma história, qualidade técnica e narrativa. Se fosse simples, teríamos vários Toy Story 3 por ano, mas não é isso o que acontece. Normalmente, um filme de animação consegue agradar apenas a um determinado segmento. Ou consegue ser muito bom tecnicamente, mas falhar em algum ponto da narrativa. Não é isso o que acontece por aqui.

Toy Story 3 consegue ser completo e simples, ao mesmo tempo. Não faz manobras mirabolantes para contar uma boa história. Não tira coelhos da cartola, para dizer de uma outra forma. Não. Unindo o melhor da Disney e da Pixar, o filme tem muita ação, aventura, diálogos que podem ser entendidos por qualquer pessoa, um roteiro bem escrito e que, ainda que linear na maior parte do tempo – com poucas “voltas ao passado” -, nem por isso previsível. Há invenção por aqui. E como explicam os mestres em seus grandes filmes – vide Hitchcock, um dos ícones do cinema -, não importa tanto se o final for surpreendente ou previsível, desde que a “aventura” que o cinema propicia até lá for divertido, emocionante, prender a nossa atenção, como espectadores, todo o tempo. Claro que reviravoltas e finais surpreendentes também são bacanas. Mas de pouco valem se o resto do “corpo” do filme não for convincente e de qualidade.

Então temos ação, drama, romance, comédia, faroeste e um pouco de suspense nesta produção. E os gêneros fluem e mudam com naturalidade e certa rapidez. Não há grandes pausas para reflexão ou para que o espectador puxe o lenço e seque as lágrimas. Isso pode até acontecer, mais perto do final, mas sem interromper o que interessa: a história. Em outras palavras, diferentes de outras produções – sejam elas de animação ou não -, Toy Story 3 não faz pirotecnia e nem deixa evidente a manipulação dos sentimentos e do tempo do espectador. Somos conduzidos pela história com maestria, sem ver o truque dos mágicos.

Não lembro se assisti a Toy Story 2. Mas vi o primeiro. E não há dúvidas que houve uma evolução na grife. Esta terceira parte da saga é muito, mas muito superior à primeira. Não apenas Andy chegou à puberdade, mas a história conduzida pelos brinquedos também. Além de entretenimento, Toy Story 3 trata de valores – como pede o bom e velho estilo da Disney, quando ela não se perde em produções bobas e sem qualidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No roteiro, há espaço para vilões, porque a vida é feita deles. E o filme não mostra um vilão qualquer, alguém estereotipado. Não. O que o espectador tem pela frente é Lotso (com voz do veterano Ned Beatty), um ursinho fofinho que era o melhor dos brinquedos, até que ele fica amargo e vingativo. Uma reflexão interessante sobre a própria essência das pessoas, capazes de guardar, dentro de si, protótipos de “anjos e demônios” – e escolhemos, diariamente, a quem alimentar e deixar pulsar.

Além desta ponderação, Toy Story 3 nos reserva outras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como aquela que perdura toda a produção: a força e a beleza da doação, da generosidade. É triste ver brinquedos acumulando pó e sendo comidos por traças. O filme mostra como o grande objetivo destes objetos, que ganham vida na nossa imaginação e nesta série de filmes, é a de serem brinquedos. Ou, em outras palavras, interagirem com as crianças e seus sonhos e fantasias. Sem isso, eles não tem sentido. O desprendimento é outra das lições deste filme. Assim como a força da amizade e da união, simbolizada pela grande aventura de Woody, Buzz Lightyear e toda a sua turma em retornar para a casa de Andy – eles não conseguiriam aquele feito se não estivessem sempre unidos e se sacrificando uns pelos outros.

Finalmente, Toy Story 3 nos mostra que cada fase da vida tem as suas preciosidades e que, mesmo adultos, não precisamos deixar de ser crianças ou adolescentes. Na verdade, um dos grandes desafios – e uma lição mais difícil de ser aprendida – é entender que carregamos todas as nossas “versões” anteriores conosco. E que não é preciso ser saudosista ou viver no passado para fazer a conexão com estas nossas outras versões, anteriores. Basta dar o devido peso e resgatar os melhores valores de cada época. Para mim, estas foram algumas das reflexões de Toy Story 3. E quantos filmes fazem você pensar em temas como estes, e desta forma? Pois palmas para os responsáveis por este grande filme. Pelo entretenimento e pela arte que ele significa.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há um desfile de personagens interessantes nesta produção. E, claro, “por trás” das vozes deles, outro desfile de ótimos intérpretes. Além dos nomes já citados, vale a pena comentar o bom trabalho de Michael Keaton com o personagem de Ken; Wallace Shawn como Rex; John Ratzenberger como Hamm; Jodi Benson como Barbie; Emily Hahn como Bonnie; Blake Clark como Slinky Dog; Javier Fernandez Pena na divertida versão espanhola de Buzz; Timothy Dalton se dando bem como Mr. Pricklepants; Kristen Schaal como a “ligada na internet” Trixie; e Jeff Garlin como Buttercup, fechando a lista de novos brinquedos apresentados por Bonnie.

Citando os personagens do Ken e da Barbie, vale aqui um parênteses. A sequência em que Ken se exibe para a Barbie, mostrando o seu vasto guarda-roupas, é uma das melhores do filme. Enquanto ele se exibe – brincando com a vaidade que define a própria grife -, Barbie apenas pensa em como dará o passo estratégico seguinte. E no melhor estilo do humor da Pixar, genial a cena em que ela “tortura” Ken para conseguir ajudar os seus amigos em apuros. Sem apelar muito para o humor pesado, mas sem evitar a ironia, Toy Story 3 consegue equilibrar os diferentes níveis de leitura e agradar aos diferentes públicos.

Na parte técnica, o filme também é irretocável. Merece destaque, além do diretor Lee Unkrich, o departamento de arte com sete profissionais comandados por Susan Bradley; a trilha sonora rica e alegre de Randy Newman; a edição feita pelo diretor Unkrich e por Ken Schretzmann; a direção de arte de Daisuke Dice Tsutsumi; o departamento de animação com 63 profissionais (sim, 63!) comandados por Michael Stocker; o design de produção de Bob Pauley, e todas as outras dezenas de profissionais envolvidos.

Tanta gente envolvida em um mesmo projeto só poderia significar um custo alto de produção, certo? Pois sim. Toy Story 3 custou a fortuna de US$ 200 milhões. Algo espantoso, sem dúvida, e que poderia render algumas dezenas ou, inclusive, centenas de filmes “independentes”/baratos. E que não fossem de animação, é claro. Porque a verdade é que os filmes de animação atuais, utilizando alta tecnologia e um número tão grande de profissionais, só podem custar uma fortuna – com raras exceções que não passam por grandes estúdios. Mas para ser feito em tão “pouco” tempo e com olhos em ser um grande blockbuster, como é o caso desta produção, só com muito recurso mesmo.

Ainda que tenha custado a fortuna de US$ 200 milhões, Toy Story 3 saiu no lucro. Até o dia 21 de novembro do ano passado, quando saiu de cartaz nos Estados Unidos, a produção tinha arrecadado pouco mais de US$ 414,8 milhões. Mais que o dobro de seu custo inicial. E isso apenas nos Estados Unidos. Segundo o site Box Office Mojo, juntando a bilheteria conseguida nos demais países, Toy Story 3 superou a marca de US$ 1.063 milhões. Em outras palavras, arrecadou mais de 1 bilhão de dólares – cinco vezes o seu custo milionário. Incrível, não? E merecido, devo dizer. É a grande indústria do cinema gastando horrores, produzindo sonhos e lucrando ainda mais.

A trajetória de Toy Story 3 começou no dia 12 de junho de 2010, no desconhecido festival de cinema de Taormina. A produção passou ainda por outros dois festivais, sem grande relevância, e estreou em todas as partes do mundo até outubro do ano passado.

Antes de assumir a direção de Toy Story 3, Lee Unkrich havia editado os dois filmes anteriores da grife e co-dirigido a Toy Story 2. Unkrich também co-dirigiu a Monsters, Inc. e Finding Nemo. A estreia dele na direção ocorreu em 1995, com a série televisiva Silk Stalkings. Foi o próprio John Lasseter que escolheu Unkrich para dirigir a Toy Story 3.

Algumas curiosidades sobre esta produção: o roteiro de Toy Story 3 demorou dois anos e meio para ser finalizado e para ter o seu storyboard feito; este é o primeiro filme a utilizar o padrão de som Dolby Surround 7.1 que, além dos cinco canais já conhecidos, trabalha com dois extras (“back surround left” e “back surround right”). A sequência inicial do filme, no melhor estilo faroeste, tinha sido pensada para o primeiro Toy Story, mas acabou sendo cortada do original. Toy Story 3 foi o primeiro filme de animação a passar da barreira de US$ 1 bilhão conquistado na bilheteria mundial. A cena em que Buzz e Jessie dançam um tango conta com uma versão de You’ve Got a Friend in Me, do Gipsy Kings.

Até o momento, além de ter sido indicado em cinco categorias do Oscar, Toy Story 3 recebe 18 prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os 18 prêmios que levou para casa, 17 foram por Melhor Animação do ano. Além deles, ganhou como Melhor Filme Família pela avaliação da Sociedade de Críticos de Cinema de Las Vegas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para a produção. Até agora, a melhor nota para os filmes da grife. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 245 críticas positivas e apenas três negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 99% – e uma nota média de 8,8 – desempenho inferior ao dos dois filmes anteriores da saga dos brinquedos de Andy.

Ah, e importante observar: não assisti a Toy Story 3 na versão 3D. Mas imagino que, para quem assistiu, deve ter sido uma experiência incrível, certo? Aceito comentários nesta página. 🙂

CONCLUSÃO: Cinema é diversão, entretenimento. Especialmente o cinema de animação. Mas há algum tempo, este cinema não é apenas isto. Com esta premissa, Toy Story 3 cumpre as suas funções com perfeição. Antes de mais nada, é um filme movimentado, cheio de ação, do início até o fim. Depois, ele tem os seus momentos de “pausa para a emoção” – e, até, para leves reflexões/saudosismos. De quebra, a produção deixa uma ou duas mensagens para o espectador pensar. Primeiro, sobre a força e a importância da união, dos amigos, da família. Depois, deixa a mensagem de que honrar o passado, agradecer aos momentos bem vividos, é um dos gestos mais sábios que alguém pode ter. Olhar com carinho para os seus brinquedos preferidos não é render-se ao consumismo. Pelo contrário. É valorizar uma época de fantasia, de imaginação solta. E se a pessoa consegue fazer isso da forma correta, quem sabe, pode até manter aquela “criança” sempre viva. Ao roçar nestas ideias, Toy Story 3 é, sem dúvida, uma das melhores animações dos últimos tempos – para dizer o mínimo. E ganhará, com todo o mérito, o Oscar que lhe é devido. Assista, se você ainda não fez isso até agora. O filme merece – e a sua infância “esquecida”, também.

PALPITES PARA O OSCAR 2011: Como eu disse antes, Toy Story 3 foi indicado em cinco categorias do Oscar deste ano. Uma grande conquista. Mas ele não terá chances de fazer história e ganhar o Oscar principal, de Melhor Filme. Não sei se, um dia, Hollywood terá coragem de entregar um Oscar destes para uma animação mas, sem dúvida, isso não ocorrerá desta vez. Toy Story 3 vai ganhar sim na categoria de Melhor Animação. Mesmo que os outros concorrentes sejam muito bons – não posso falar a respeito porque ainda não os assisti -, não vejo concorrência para Toy Story 3. Não apenas pela grande bilheteria que o acompanha, mas porque o filme é muito bem feito mesmo.

E nas demais categorias, quais as chances de Toy Story 3? Acho que ele tem boas chances em Melhor Canção Original. Mas, para levar a estatueta para casa, ele terá que derrubar a forte concorrência de If I Rise, canção de Dido, A.R. Rahman e Rollo Armstrong. Acredito que eles sejam os favoritos na disputa. Mas eis uma categoria bastante aberta a surpresas. Na disputa de Melhor Edição de Som, por mais que o trabalho em Toy Story seja bem feito, não imagino ele ganhando de Inception, por exemplo. Ou mesmo de Unstoppable. Toy Story 3 corre por fora desta vez. E chegamos a Melhor Roteiro Adaptado: difícil, mais uma vez. Este parece ser o ano do ótimo texto de The Social Network. Sem ser o roteirista Aaron Sorkin ganhando a estatueta, vejo mais 127 Hours ou True Grit disputando as honras do que Toy Story 3. E não porque o roteiro do filme não seja bom. Pelo contrário. Mas os seus concorrentes são melhores.

Winter’s Bone – Inverno da Alma

A realidade de algumas pessoas é dura, difícil. E para alguns, nada pode ser tão ruim que não possa piorar. Winter’s Bone conta uma destas histórias complicadas. E que piora. Mas por mais que o caldo engrosse e uma boa saída parece improvável, a protagonista desta história persiste. Para alguns, o trabalho da atriz Jennifer Lawrence vale o filme. E sim, ela está muito bem. Mas cá entre nós, achei a história de Winter’s Bone cansativa, arrastada, um retrato triste de uma parte da sociedade dos Estados Unidos da qual apenas ouvimos falar. Quer dizer, teve gente que teve a infelicidade de viver um tempo naquele território agreste, de pessoas duras, ríspidas, aparentemente incapazes de afeto. Mas talvez aí resida a faísca interessante desta produção: em revelar, sem pressa ou mesmo utilizando recursos baratos, a solidariedade e o afeto daquelas pessoas “brutas” em seu cotidiano. Um bom filme, mas muito abaixo dos concorrentes deste ano no Oscar.

A HISTÓRIA: Cenário de árvores sem folhas, de alguns carros antigos parados, um lugar aparentemente sem vida. Uma voz melodiosa, mas um bocado triste, começa a cantar. Duas crianças pulam e se divertem em uma cama elástica. Depois, brincam com dois filhotes de gatos e com um skate. As crianças são Sonny (Isaiah Stone) e Ashlee (Ashlee Thompson), irmãos mais novos de Ree (Jennifer Lawrence). A garota de 17 anos coloca as roupas no varal com a ajuda de Ashlee enquanto Sonny observa tudo deitado em uma rede. Ree é a responsável pela casa, na ausência do pai, que foi mandado para a prisão. Ela cuida não apenas dos irmãos menores, mas da mãe doente – e mentalmente ausente. A vida é de sacrifícios, mas tudo fica pior quando Ree recebe a visita do Sheriff Baskin (Garret Dillahunt). Ele comunica a garota que o pai dela, que saiu em condicional, está sumido e que, se ele não aparecer para a audiência marcada com o juiz, ela e a família poderão perder a casa e a propriedade em que moram. Desesperada com esta possibilidade, Ree empreende uma busca perigosa para descobrir o paradeiro do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Winter’s Bone): Algumas realidades são mais duras que outras. E alguns ambientes, mais hostis. Winter’s Bone foca a atenção do espectador para o interior dos Estados Unidos, um lugar onde costuma fazer frio. E não trato, com a linha anterior, apenas do clima, da temperatura, mas das relações humanas. Uma produção que revele um pouco mais sobre estes tipos de relações e, de certo modo, como o ambiente da prisão pode espalhar-se pela sociedade embrutecida, merece nossa atenção. Mas há um problema quando o filme que propõe esta e outras reflexões não consegue ir além da camada superficial. Até porque, convenhamos, há realidades mais duras do que aquela vista em Winter’s Bone.

Talvez você, meu caro leitor e leitora, tenha sentido angústia ou apreensão com esta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Talvez vocês tenham ficado realmente preocupados com a protagonista e com sua família, acreditando no suspense sugerido pelo roteiro que a diretora Debra Granik escreveu ao lado de Anne Rosellini. Da minha parte, achei tudo bastante cinza, um bocado arrastado e menos “visceral” do que se podia imaginar. Ok que aquela permanente e aparente falta de “sentimento” faça parte do jogo, do enredo, da mensagem. Mas essa “sobriedade” disfarçada em “pessoas sem coração” também cansa. Certo, aquele mundo é cruel. Mas tantos outros mundo são tão ou mais cruéis que aquele e não rendem um filme vendido como digno de Oscar.

Em teoria, o suspense sobre o paradeiro do pai de Ree deve segurar o filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Winter’s Bone). Assim como a dúvida sobre o que irá acontecer com a garota persistente. Será que ela será silenciada, como o pai dela provavelmente foi? As dúvidas são legítimas, mas o suspense é fraco. Fica estabelecido sobre alicerces frágeis e isso faz com que o espectador, você e eu, tiremos conclusões muito antes do que deveríamos. Há pouca surpresa nesta história. E quando um filme não nos surpreende, espera-se que ele pelo menos nos envolva, nos emocione. Não sei vocês, mas fora uma ou outra cena de ternura com as crianças – especialmente a menininha Ashlee Thompson -, pouco de emoção eu senti com Winter’s Bone. Sei que alguns irão discordar de mim, mas não vi o apelo que fez certas pessoas ficarem encantadas com a produção.

Também acho que Winter’s Bone destoa muito do restante dos indicados deste ano na categoria de Melhor Filme no Oscar. Ok, ainda falta assistir a Toy Story 3. Mas algo me diz que a animação não irá me decepcionar. Afinal, tantas pessoas falam bem dela… A impressão que fica é que escolheram Winter’s Bone para integrar a lista dos 10 indicados com o objetivo de preencher uma possível “vaga para filme alternativo” da premiação. No ano passado, o Oscar equilibrou filmes de grandes estúdios e diretores com produções mais modestas. No orçamento, pelo menos. Não na qualidade. Vide Precious, District 9 e An Education.

Este ano, ao invés de indicar produções como Hereafter ou Somewhere, dirigidas por dois nomes conhecidos, o Oscar resolveu abrir espaço para Debra Granik e seu Winter’s Bone. Certo que o filme tem as suas qualidades, como o equilíbrio entre o elenco – ninguém se destaca muito, todos estão bem nas interpretações – e uma edição de fotografia competente. Sei que a trilha sonora também é bacana, com músicas feitas sob medida para reforçar a “aura” de Winter’s Bone. Mas, francamente, até as músicas rurais típicas do interior dos Estados Unidos, esse folk cheio de lamento, me cansou.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se fosse avaliar apenas a história narrada por Winter’s Bone, provavelmente a minha nota seria ainda menor. Mas gostei de alguns momentos do filme, assim como da interpretação de Jennifer Lawrence e de alguns dos coadjuvantes. Destaco, em especial, o ótimo trabalho de John Hawkes como Teardrop, o tio da protagonista; e de Dale Dickey como Merab, a mulher durona que protege o “chefão da máfia regional”, Thump Milton (Ronnie Hall).

Além dos atores já citados, vale a pena comentar o bom trabalho de Shelley Waggener como Sonya, a vizinha dos Dolly e que ajuda Ree e seus irmãos volta e meia – um exemplo bacana de solidariedade e compaixão; Lauren Sweetser como Gail, o braço direito de Ree em sua busca por respostas; e Cinnamon Schultz em uma super ponta como Victoria, mulher de Teardrop. Na parte técnica, vale citar a direção de fotografia de Michael McDonough, muito bem feita e planejada para imprimir a aura correta nesta história; a trilha sonora de Dickon Hinchliffe – ainda que é preciso gostar da típica música do interior dos Estados Unidos.

Para os interessados em saber sobre o local em que este filme foi rodado, Winter’s Bone foi todo filmado nas cidades de Branson e Forsyth, ambas no Missouri.

Winter’s Bone estrou em janeiro do ano passado no Festival de Sundance, nos Estados Unidos. Depois, passou pelo Festival de Berlim e em outros 23 festivais. Pois sim, no total, Winter’s Bone fez a sabatina em 25 eventos de cinema. Uma marca impressionante. E que foi fazendo o nome do filme, até o ponto dele ser indicado em quatro categorias do Oscar.

Passando por tantos festivais mundo afora, o filme de Debra Granik conseguiu embolsar 19 prêmios. No Festival de Berlim, a produção embolsou dois prêmios secundários: o C.I.C.A.E. e o Tagesspiegel. Festival de Cinema Independente de Boston, levou o prêmio entregue pela audiência e também um prêmio especial do júri. No Gotham Awards, premiação voltada para os filmes independentes (a exemplo de Sundance), levou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Elenco. No Festival de Sundance, Winter’s Bone levou o Grande Prêmio do Júri e o prêmio Waldo Salt como melhor roteiro. A atriz Jennifer Lawrence foi premiada oito vezes, em diferentes festivais e prêmios entregues por sociedades de críticos. Ela foi indicada ainda ao Globo de Ouro como Melhor Atriz, mas perdeu o prêmio para Natalie Portman, por Black Swan.

Winter’s Bone custou um ninharia para os padrões do cinema produzido dos Estados Unidos: US$ 2 milhões. Ou seja, independente até a medula. A produção estreou nos Estados Unidos em junho do ano passado e, até o dia 30 de janeiro, havia faturado pouco mais de US$ 6,3 milhões. Não apenas conseguiu um bom lucro, mas também emplacou vários prêmios e ocupou o espaço do cinema independente no Oscar deste ano.

Uma curiosidade sobre o filme: muitas das “estrelas” de Winter’s Bone, como as crianças que interpretam a Sonny e Ashlee, e William White, que interpreta a Blond Milton, assim com outros nomes da produção, são moradores de Forsyth e nunca haviam interpretado em suas vidas. Percebe-se esta “frescura” e legitimidade em cena – o que justifica também o baixíssimo orçamento da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 137 críticas positivas e apenas oito negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% – e uma nota média de 8,3. Eles gostaram mais do filme do que eu – o que é algo raro, diga-se.

O roteiro da diretora Debra Granik e de Anne Rosellini é baseado no livro homônimo de Daniel Woodrell, que foi elogiado por fazer um retrato interessante das comunidades rurais do Sul dos Estados Unidos que tem que conviver com sua inabalável fé contrastada com a realidade do consumo e produção de drogas. O livro parece bem interessante, especialmente porque Woodrell classifica a sua forma de escrever de “country noir”. Mas não achei que o filme acompanha este processo – seria interessante ver na tela um noir embebido em country. O que eu vi foi apenas um drama com música do gênero, nada mais.

Antes de filmar Winter’s Bone, Debra Granik havia dirigido o curta Snake Feed, em 1997, e o longa Down to the Bone, estrelado por Vera Farmiga, em 2004. Com Winter’s Bone ela foi premiada, pela segunda vez consecutiva, com dois longas em sua filmografia, no Festival de Sundance.

CONCLUSÃO: Uma família em crise, que vive com pouco dinheiro e contando com a ajuda de vizinhos e conhecidos, tem um desafio ainda maior pela frente. Lidar com o desaparecimento do pai da protagonista e de seus dois irmãos. Caso ele não volte a dar as caras, esta família poderá perder a casa e a propriedade em que vive. Winter’s Bone pega esta premissa, adiciona algumas colheradas de tensão, suspense e crime e nos apresenta um drama que veste as roupas do local em que a produção foi rodada, o Missouri. Embalado por músicas do mais puro folk, este filme é quase um estudo de caso sobre o fundo do poço da alma do interior dos Estados Unidos. Até um certo ponto, Winter’s Bone se mostra interessante por isso. E pelas boas interpretações do elenco. Mas por outro lado, o drama previsível acaba cansando. Entre os filmes concorrentes ao Oscar deste ano, sem dúvida, é o mais fraco da lista.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Surpresas sempre podem acontecer. Isso, todos nós, que acompanhamos ao Oscar, sabemos. Mas o meu palpite é que Winter’s Bone sairá de mãos abanando da premiação deste ano. Na categoria principal, como Melhor Filme, ele não tem nenhuma chance. A produção não tem qualidade ou mesmo lobby suficiente para derrubar os peso-pesados The Social Network, The King’s Speech, True Grit ou mesmo Black Swan. Por mais que John Hawkes esteja muito bem no papel de Teardrop, ele não será capaz de tirar a estatueta de Christian Bale. E mesmo Geoffrey Rush estaria em sua frente na disputa.

Jennifer Lawrence é a alma do filme e, muitas vezes, a única razão para continuar assistindo a história amarga e redundante de Winter’s Bone. Ainda assim, a garota talentosa não conseguirá bater a fantástica Natalie Portman de Black Swan, ou mesmo a precisa Annette Bening de The Kids Are All Right. Para Lawrence, o prêmio de ter sido indicada será suficiente este ano. E finalmente Winter’s Bone na categoria de Melhor Roteiro Adaptado: sem chances também. Os textos de The Social Network, 127 Hours e True Grit, nesta ordem, são melhores do que o roteiro de Winter’s Bone. Ainda não assisti a Toy Story 3, mas algo me diz que o filme de animação também deve ter um texto melhor – do contrário, não seria o favoritíssimo deste ano em sua categoria. Para resumir: apenas uma grande, enorme zebra faria Winter’s Bone ganhar algum Oscar este ano.