The American – Um Homem Misterioso

O grande dilema de um vilão guia este filme cheio de estilo: como ter uma vida privada quando o perigo ronda cada esquina, cada rua estreita? The American, uma produção cuidadosa e com cenas belíssimas e bem planejadas, coloca do mesmo lado o ótimo diretor Anton Corbijn e o ator-estrela George Clooney. No melhor estilo dos filmes de James Bond, aqui não faltam tiros, ternos alinhados, perseguições e belas mulheres. Para muitos apostadores, The American estará entre os principais indicados ao próximo Oscar. O filme tem qualidades para isto, mas não o suficiente para embolsar os principais prêmios.

A HISTÓRIA: Um cenário de paisagem gelada e, em meio a ela, uma cabana. A câmera se aproxima lentamente, a música começa a tocar e vemos que há luzes lá dentro. Ingrid (Irina Björklund) molha os dedos no whisky de Jack (George Clooney) e experimenta a bebida. Ela está completamente nua, na cama, e ele sentado, relaxado. Na manhã seguinte, o casal caminha pela neve com as mãos dadas. Até que Mathilde repara em pegadas e Jack puxa a mulher pela mão e começa a correr. Eles se protegem em uma pedra, ele saca a arma e encontra o atirador. Após matar os perseguidores, ele foge para a Itália e busca proteção de seu chefe. Iniciando uma fase neurótica de sobrevivência e de busca por uma saída.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The American): O começo de The American é perfeito. Em cinco minutos, Anton Corbijn consegue resumir o estilo de vida de seu protagonista. Jack ou Edward, personagem com identidade múltipla interpretado por George Clooney, vive sob tensão. Especialista em armas, ele é perseguido por inimigos e não deve, em teoria, ter relações pessoais. Mulheres, para ele, são sempre sinônimo de perigo – pelo menos é isso o que o seu chefe, Pavel (Johan Leysen), sempre faz questão de frisar.

O interessante dos primeiros minutos de The American é que eles também resumem tudo o que o espectador verá na próxima uma hora e meia: sequencias contemplativas, muitas delas sem diálogos, que valorizam as paisagens; um roteiro tenso, com alguns trechos de puro “deleite dos momentos” contrastando com perseguições e estratégias de defesa/sobrevivência; e uma busca incansável por tornar os personagens mais profundos e complexos – especialmente o protagonista.

Como o título sugere, The American se centra no personagem principal. Tudo gira ao redor de Jack/Edward. Com uma fina ironia, o filme mostra o estranhamento constante do personagem – em um estilo de vida que serviu para pagar as suas contas, por muito tempo, que lhe fez ser destaque na “profissão” de especialista em armamentos mas que, ao mesmo tempo, lhe impediu de ter a tão sonhada e desejada “vida comum”, com amores e alegrias.

Exilado no interior da Itália, ele se aproxima do Padre Benedetto (Paolo Bonacelli) e percebe, através dele, que mesmo o homem “mais santo” sobre a terra não está salvo de cometer deslizes. A explicação para a relação que eles acabam desenvolvendo, para mim, é a busca de um fio de “esperança” por parte de Jack para o perdão de seus próprios “pecados”. Sem contar, claro, que o protagonista não poderia evitar a curiosidade do verdadeiro “xerife” do pedaço, Padre Benedetto, que buscava saber sobre tudo e sobre todos.

O pano de fundo do filme é algo especialmente curioso. O estilo de vida do interior da Itália, as ruelas estreitas e a paisagem com certo bucolismo tornam a produção ao mesmo tempo “familiar” e estranhamente perigosa. Junto com o protagonista, nos sentimos estranhos naquele meio em que todos sabem sobre a vida de todos. Uma bela paisagem pode ser ao mesmo tempo inspiradora ou assustadora – esta é uma brincadeira que o filme faz conosco o tempo todo.

O roteiro de Rowan Joffe, baseado no livro A Very Private Gentleman, de Martin Booth, permanentemente brinca com as ideias de familiaridade e busca pelo conforto, pelo afeto, versus a inquietude de uma vida perigosa, de mentiras e mistérios. Para alguns, a direção contemplativa de Anton Corbijn e a falta de diálogos do roteiro de Joffe podem levar a um certo “tédio”. Certamente este não é um filme clássico de espionagem ou perseguições. Mais que um filme de ação, The American é uma produção que se debruça sobre o comportamento de um homem que vive em permanente risco – real e/ou aparente.

Para mim, o holandês Corbijn acertou em não abrir mão de seu próprio estilo como diretor. Mestre das imagens bem planejadas e do visual predominando sobre os demais elementos de uma narrativa fílmica, Corbijn planeja cada elemento que entra no foco de suas lentes. Nada sobra e nada falta para as mensagens que ele quer passar. Há sequências verdadeiramente impecáveis nesta produção – ainda que, uma ou outra vez, o diretor realmente exagera na repetição de ideias e na marcha lenta de parte da narrativa – como algumas cenas de perseguições nas ruelas da cidade italiana Castel del Monte e nos momentos em que o protagonista mostra a sua aptidão para as armas.

O roteiro de The American tem dois ou três momentos surpreendentes. Mas o texto de Rowan Joffe escapa de ser perfeito por apostar em um jogo de “desconfiança” um tanto fajuto envolvendo Jack/Edward, Clara (a bela Violante Placido) e o Padre Benedetto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certo que o protagonista se sente permanentemente ameaçado e acuado – o que o torna um bocado neurótico. Mas a forma com que a tensão entre ele, a nova namorada e o padre é engendrada, torna esta desconfiança um bocado “falsa” ou forçada. A dúvida é se o problema reside no roteiro de Joffe ou na interpretação dos atores. A borboleta que voa no final é um toque “poético” de despedida mas que, como os pontos anteriores, pareceu um tanto deslocada do restante da narrativa. Ainda assim, toda a sequencia final é algo brilhante. Como o início. Pena que no meio o filme perca um pouco deste ritmo interessante.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como era de se esperar em um filme que tem o George Clooney interpretando um James Bond “realista” e com os pés no chão – além de neurótico – The American é uma produção com estilo. Visual, principalmente. E o mérito para isto, além do bom gosto do ator e também produtor, sem dúvida se deve ao diretor Anton Corbijn (que dirigiu, anteriormente, a Control e uma série de documentários musicais para U2 e Depeche Mode, além de clipes para estas duas bandas e mais o Metallica) e ao diretor de fotografia Martin Ruhe. Com eu disse anteriormente, Corbijn tem um apuro visual típico de um diretor que soube forjar a sua marca própria em produtos “pop” como foram videoclipes de U2, Metallica e Depeche Mode. Ele sabe o que faz.

A fotografia de The American é um deleite. Um prato cheio, tenho certeza, pelos fãs e os curiosos pelas paisagens e a forma de vida do interior da Itália.

O roteiro de Rowan Joffe é preciso e conciso. Há muitos silêncios e diálogos pontuais – justamente o oposto do recentemente comentado The Social Network. E a trilha sonora de Herbert Grönemeyer caminha no mesmo sentido. Não há exageros. As músicas aparecem para embalar momentos específicos, de forma bastante específica, diferente da maioria das produções de Hollywood.

O trabalho não é acelerado. E nem muito evidente. Mas a edição de The American, geralmente suave, acabou sendo vital para que o diretor conseguisse a lógica matemática perfeita de seu trabalho com momentos bastante simbólicos – como na sequência do túnel. Por isso, é necessário citar o nome do editor, Andrew Hulme.

Ok, eu sou obrigada a admitir. Corbijn é o diretor de três dos meus clipes favoritos do U2. Vale citar: One, Electrical Storm e Please. O que todos eles tem em comum? Além de um estilo bastante cinematográfico, uma direção de fotografia impecável. O cara sabe o que faz.

The American estreou no dia 1º de setembro no Canadá, nos Estados Unidos e no Cazaquistão. Participou, até agora, de dois festivais: o desconhecido Sea Film Festival, na Holanda – terra do diretor – e no festival do Rio. Na Argentina, ganhou o curioso título de El Ocaso de un Asesino.

Até o dia 31 de outubro, o filme tinha acumulado uma bilheteria de US$ 35,6 milhões nos Estados Unidos. Pouco, levando em conta o chamariz que é um filme estrelado por George Clooney. Sem contar que o cartaz dele, no melhor estilo James Bond, deveria atrair mais pessoas para o cinema. O fato da produção não ter decolado como poderia pode afetar o seu desempenho no próximo Oscar.

Para os curiosos de plantão, The American foi realmente filmado nos locais em que a história se desenvolve. Ou seja: nas cidades de Castel del Monte, Roma e Sulmona, na Itália, e em Östersund, na Suécia.

Uma curiosidade sobre a produção: ela não apenas tem a aura de James Bond, mas também “faz uma homenagem” a sequência de filmes do espião inglês ao fazer com que o seu protagonista utilize a mesma arma que Bond, ou seja, uma pistola Walther PPK.

Outra curiosidade: a população do vilarejo Castel del Monte, com 129 habitantes, mais do que duplicou com a chegada do elenco e da equipe de produção do filme.

Achei bastante curiosa – e interessante – a citação e/ou homenagem que The American faz para o clássico dos faroestes C’era Una Volta Il West, dirigido pelo italiano Sergio Leone em 1968 – e estrelado pelo indefectível Henry Fonda.

Os usuários do site IMDb deram uma nota relativamente baixa para a produção: 6,6. Curioso que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes seguiram esta tendência, dedicando 126 críticas positivas e 68 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 65%.

Os marmanjos devem ficar felizes, pelo menos, com as beldades que desfilam nesta produção. Para começar, Irina Björklund. Mesmo que a atriz sueca apareça pouco na produção, sua presença é de fazer as pessoas babarem. Depois, surge a figura misteriosa e, principalmente, calculista de Mathilde, interpretada pela holandesa Thekla Reuten – que, também, convenhamos, é muito bonita. E, para fechar o quadro que não faria nenhum filme de James Bond ficar com inveja, a bela e “caliente” italiana Violante Placido interpretando Clara.

CONCLUSÃO: Um filme que mergulha nos dilemas de um especialista em armas. Equilibrando ação e romance, The American aposta na densidade de seu personagem principal e na tensão de seus conflitos – com ameaças reais, físicas, e outras psicológicas, provocadas pelo conflito de desejos e lembranças amargas. No lugar de saraivadas constantes de balas e perseguições sem fim, o espectador encontrará nesta produção a tentativa de um vilão em buscar uma alternativa para a sua vida. Neurótico, o protagonista sente-se permanentemente ameaçado – e ele tem motivos para isto. Com uma direção inspirada do holandês Anton Corbijn, The American tem a alma de um filme europeu, e os trajes (ou aparência) de uma produção de espionagem made in United States of America. Deve agradar ao público que gosta de um texto conciso, apurado, com algumas boas surpresas no caminho – méritos do roteirista Rowan Joffe -, e que aprecia, ao mesmo tempo, o casamento perfeito entre trilha sonora (pontual e também concisa) e direção de fotografia. Uma bela produção, que começa e termina muito bem, mas que perde muita força no meio do caminho. Poderia ser melhor mas, pelo menos, tem estilo.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: The American está sendo apontado como um dos favoritos para o próximo prêmio da Academia. E a verdade é que o filme tem grandes trunfos para chegar bem na disputa. Primeiro, porque ele é realmente bom. Depois, porque tem um astro de peso como protagonista e como produtor: George Clooney. Não será de admirar se ele for indicado, mais uma vez, na categoria de Melhor Ator. A força de Clooney, assim como a qualidade do filme, provavelmente colocarão The American entre os 10 concorrentes na categoria principal.

Além destas duas – Melhor Filme e Ator -, The American tem boas chances ainda na disputa de Melhor Diretor (Corbijn merece), Roteiro Adaptado e Direção de Fotografia. Quer dizer, boas chances de receber indicações. Porque quanto a ganhar… para opinar sobre possíveis êxitos ou fracassos, preciso assistir aos demais concorrentes que lideram as bolsas de apostas. Em breve, outras críticas por aqui. 🙂

Anúncios

The Social Network – A Rede Social

Como transformar a história de um nerd, cheia de termos técnicos de informática, em um filme interessante? O primeiro passo é convocar um ótimo roteirista que adota uma estratégia que parece, como o protagonista, pouco popular: um texto rápido, com muitas linhas por minuto. Depois, adicione uma ótima trilha sonora, uma direção de fotografia precisa, bons atores e um diretor para dar a unidade perfeita para tudo isso – e que ainda apresente, aqui e ali, minutos inspirados e de pura sugestão de sentidos. The Social Network transforma a história dos bastidores da criação do Facebook, a mais importante e badalada rede social do mundo, em um filme interessante que brinca com velhos estereótipos dos nerds recriando estes elementos. Quase perfeito por conseguir um ótimo resultado mesmo com muitos elementos que nadam contra a corrente dos filmes produzidos para as grandes audiências, The Social Network falha apenas ao simplificar algumas partes da história – tornando, no final, a vida do jovem bilionário Mark Zuckerberg pouco mais que uma obsessão por computadores e uma garota em especial.

A HISTÓRIA: Um garoto de fala rápida comenta com uma garota, na mesa de um bar, entre um gole e outro de cerveja, que existem mais pessoas com QI elevado na China do que habitantes nos Estados Unidos. Ela duvida, e a conversa segue em um troca constante de farpas e de conflitos de opinião. Para Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) esta é mais uma das várias conversas sem fim com a sua namorada e diva Erica Albright (Rooney Mara). Só que a garota, farta da falta de modéstia e de percepção “da realidade” do rapaz, decide dar um fim no relacionamento. Ele, indignado, vai para casa e detona Erica em seu blog pessoal. Por diversão, começa a fazer um ranking das garotas mais interessantes das principais “casas” (e/ou irmandades) que compõe Harvard. Esta brincadeira cria um colapso na internet da universidade. Zuckerberg ganha evidência e, nesta noite, começa a história que levaria o rapaz a criar o Facebook e se tornar, assim, um dos jovens mais ricos e conhecidos do mundo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Social Network): Verborrágico. Esta é a primeira característica evidente de The Social Network. É preciso ter atenção e conhecer um bocado dos termos/jargões da internet e/ou tecnológicos para acompanhar o roteiro de Aaron Sorkin. O filme é adaptado do livro de Ben Mezrich intitulado The Accidental Billionaires – antes que alguém me pergunte, ainda não li a obra, mas pretendo fazer isso em breve.

Sorkin foi ousado. Não abriu mão de ser fiel aos “personagens” (reais, diga-se) e ao seu modo de falar e agir. Com isso, ganhou pontos na minha análise. Mas, seguramente, perderá pontos entre o grande público. Especialmente porque não é todo mundo que conhece os termos “técnicos” usados na história. Essa ousadia, juntamente com o texto farto e veloz, diferenciam The Social Network de um filme “puramente” comercial. Se ele quisesse ser realmente popular, simplificaria muito mais o texto. Em outras palavras, parabéns ao roteirista por sua preocupação em ser fiel a uma versão da história – sim, porque mesmo o livro de Mezrich é considerado apenas uma “parte” de vários lances que compõe os bastidores que envolveram a criação do Facebook.

O roteiro de The Social Network é, sem dúvida, um de seus pontos fortes. Juntamente com a trilha sonora e a direção. Diria que este triângulo é decisivo por tornar o filme interessante, denso em conteúdo e leituras. O trabalho de Sorkin merece elogios não apenas por sua preocupação em tentar ser fiel aos personagens e ao que teria acontecido com eles. Mas também porque ele faz mágica com a história. Equilibra de forma exata momentos “cerebrais” com sequências que lembram os clássicos de festas em universidades estadunidenses vistas em tantos filmes “juvenis”, como Porky’s e Cia.

As festas regadas a bebidas, a homarada tentando se dar bem com as meninas, os caras que ficavam à margem de tudo isso… tudo está lá. Claro que em uma versão “repaginada”. Afinal, não estamos vendo uma história ambientada nos anos 1980, mas um enredo dos anos 2000, no qual gênios da informática poderiam se tornar celebridades mesmo tendo dificuldade em se relacionar pessoalmente. Esta, aliás, é uma das principais mensagens do filme… de como a informática ajudou a pessoas antes “marginalizadas” por falta de dotes físicos a conseguir uma certa evidência por apresentarem outros predicados.

O diretor David Fincher aproveita todas as “brechas” do roteiro para dar ritmo a esta história. E consegue. Acompanhos a história de Mark Zuckerberg do outono de 2003 em diante. Entre um momento e outro de verborragia do personagem – seja em diálogos com alguns interlocutores ou através de elocubrações de seus próprios pensamentos “compartilhada” conosco, espectadores -, Fincher destila cenas que mostram o contraste entre as diferentes faunas que compõe o compus de Harvard. E, mais tarde, o ambiente de desenvolvedores de produtos tecnológicos.

O roteiro e a direção bem feitos acabam tornando uma história cheia de termos técnicos e fidelidade a personagens “não muito interessantes” em algo bastante atrativo – pelo menos para quem se interessa por estes “bastidores” do mundo tecnológico. A história do surgimento do Facebook acaba sendo apresentada como uma disputa pela inovação que terminou nos tribunais. Parcerias e amizades foram alteradas com a velocidade de uma banda larga quando a proximidade com a fama e a oportunidade de tornar o experimento global foram se consolidando.

Só fico em dúvida sobre o interesse deste roteiro para os “não iniciados” com a tecnologia. Ou entre as pessoas que não se interessam tanto assim pelo mundo “dos nerds”. Acho que o grande público, os “não familiarizados”, podem ficar boiando boa parte do tempo. Daí o roteiro de Sorkin introduz outros elementos, como bebidas, flertes, disputas em tribunais e bastidores de Harvard para tentar agradar um pouco mais este público não muito familiarizado com a tecnologia. Talvez funcione, mas não acho que o filme se tornará tão popular quanto outras produções menos “técnicas”.

Algo fundamental, neste filme, é a trilha sonora. Um trabalho incrível, preciso, ponderado e provocante de Trent Reznor e Atticus Ross. Sem a trilha desta dupla, The Social Network perderia, pelo menos, 25% do ritmo e da graça. Vale destacar ainda a direção de fotografia de Jeff Cronenweth. Ele ajuda a colocar em prática as ideias de Fincher. As cenas noturnas e diurnas, como as que mostram festas e competição de canoagem, respectivamente, ganham plasticidade por esta parceria.

Sem dúvida o filme tem mais acertos do que erros. A aposta em intercalar o tradicional “suspense de tribunais” com uma narração do que é debatido entre os interessados nos processos, promove as quebras salutares na produção. A preocupação em reproduzir o jeito de falar do protagonista e de seus amigos, assim como em mostrar o contraponto entre os diferentes “jeitos de ser” das tribos de Harvard e das outras universidades também dá o “caldo” necessário para a história. Mas nem tudo são flores.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na sua preocupação em ser, ao mesmo tempo, “fiel” à realidade vivida pelos “personagens reais” e fazer-se interessante para um público maior do que o de “iniciados” naquele entorno de alta tecnologia, The Social Network acaba simplificando alguns aspectos da realidade. Torna muito evidente a fronteira de Zuckerberg como a de um sujeito isolado, quase um “loser” entre os bem-sucedidos da universidade. Segue uma trilha bastante perseguida, neste sentido, por outros filmes ambientados no mesmo universo de universidades de ponta dos Estados Unidos.

Não que Zuckerberg não fosse um nerd. Mas não acredito que ele fosse tão “isolado” quanto este filme e, aparentemente, o livro de Mezrich, sugerem. Com esta ideia, reforça-se o estigma de que os gênios da informática são sujeitos com dificuldade de se relacionar. E mesmo que isso aconteça, não deve ser visto como regra. Acho que é uma simplificação muito grande – e que já ocorreu antes com outros gênios de outras áreas do conhecimento. É fato que pessoas inteligentes demais não conseguem encontrar muito “eco” entre os demais mortais. Mas daí a mostrar-lhes como sujeitos isolados… acho uma simplificação um tanto burra.

De qualquer forma, para mim, esta simplificação até era esperada. Mas algo me surpreendeu – e negativamente. (SPOILER – não leia, realmente, se você não assistiu ao filme). Não gostei do final. Ele dá a entender que tudo que o criador de Facebook fez foi por causa de uma garota. Saída típica, e boba, eu diria. Por que tudo, sempre que possível, tem que se resumir a “um cara que não se conforma por ter perdido uma garota”? Não acho que esta seja a história de Zuckerberg. Posso até concordar que ele quis se tornar um sujeito excepcional. E que, obstinado e realmente com uma inteligência acima da média, batalhou para conseguir isso. E conseguiu. Mas resumir todo o seu trabalho e conquista a uma dor de cotovelo… menos, bem menos!

O criador do Facebook foi (ou é?) um gênio desta era recente por captar, como ninguém, o que as pessoas queriam. Utilizou tendências da alta tecnologia, criou ferramentas para isso e manteve o hábito mais que saudável de adaptar-se de forma contínua. Seja a ideias novas – de forma inteligente ele atuou como uma “parabólica” de sugestões dos que lhe cercavam – e/ou a desafios impostos pelos concorrentes e pelo mercado. Criou um produto novo, juntou uma equipe de gente talentosa para trabalhar nele – grupo esse pouco explorado pela história, aliás – e continuou modificando-o até torná-lo um fenômeno global.

Ainda que The Social Network sofra com aquelas simplificações que eu comentei acima, algo positivo este filme tem: ele não toma partido. Tenta contar a história sob as diversas óticas conflitantes e o espectador, em geral, fica livre para tirar as suas próprias conclusões. Ainda assim, como 99% dos filmes de Hollywood, ele meio que “encaminha” o público em uma direção.

E há uma sequência emblemática neste sentido. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A partir de uma hora e 20 minutos da produção, Fincher e Sorkin brincam com duas realidades que jogam com um mesmo conceito/objetivo: a superação/fama. Primeiro, vemos os olhos do Zuckerberg de Jesse Eisenberg brilharem com as promessas de sucesso de Sean Parker (o criador do Napster, interpretado por Justin Timberlake). Em seguida, assistimos a uma competição disputadíssima de canoagem. O paralelo é evidente: todos aqueles jovens buscam a superação, ultrapassar os próprios limites, apenas para… conseguir a fama. Ser popular, diferenciar-se dos demais, era o objetivo final. De uns e de outros. Esta reflexão do filme, que reflete de forma tão evidente a nossa era, torna-o especial. Apesar de suas simplificações aqui e acolá. “Fraquezas” menores frente a um trabalho diferenciado.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não falei antes deles, mas os atores merecem um comentário à parte. Jesse Eisenberg se destaca entre todos os outros nomes. O ator nova-iorquino de 27 anos imita o jeito de falar e os trejeitos de Zuckerberg com perfeição. Um desempenho que, sem dúvida, merece uma indicação ao Oscar. Além dele, mostram talento Andrew Garfield no papel do brasileiro Eduardo Saverin; Armie Hammer no papel duplo dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss (em algumas cenas Tyler foi interpretado também por Josh Pence) e Max Minghella como Divya Narendra. Além deles, vale comentar que os já citados Rooney Mara, como Erica Albright, e Justin Timberlake como Sean Parker fazem um bom trabalho. Em papéis menores, se saem bem Patrick Mapel como Chris Hughes; Brenda Song como a engraçada e “deslumbrada” Christy; e Rashida Jones como a advogada “solidária” a Zuckerberg.

A história real de Zuckerberg é realmente impressionante. Encontrei muitas matérias sobre ele. Para os interessados, vale citar esta, que revela que o patrimônio do criador do Facebook está estimado em US$ 6,9 bilhões e que ele passou a figurar na 35ª posição entre os homens mais ricos dos Estados Unidos da revista Forbes. Detalhe: aos 26 anos de idade!! Um fenômeno, sem dúvida. Neste novo ranking da Forbes, Zuckerberg ultrapassou Steve Jobs, da Apple. Mas fica atrás de Bill Gates, que continua sendo o número 1, com uma fortuna de US$ 54 bilhões; e da dupla Larry Page e Sergey Brin, criadores do Google, com uma fortuna de US$ 15 bilhões cada um.

O criador do Facebook tem uma forma interessante de pensar. Segundo esta matéria, no início do ano, Zuckerberg comentou que as pessoas não “esperam” mais ter privacidade. Curioso. Uma forma diferente de ver a realidade. Certamente as pessoas abriram bastante mão de suas privacidades nos últimos tempos mas, como efeito seguinte a esta exposição, começaram a perceber os riscos de tanta exposição. Tanto que passaram a reagir a isso e “voltar atrás”, em certa medida. Há fases e flutuações, é claro, mas passou a primeira fase da “inocência” nas exposições e eu diria que, agora, as pessoas estão mais “ligadas” em tudo de bom e de ruim que uma grande exposição, inclusive para desconhecidos, pode trazer.

Agora, uma certa ironia da vida real… (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Lá pelas tantas, The Social Network brinca com o “fascínio” dos nerds com as garotas asiáticas. No final, a produção deixa a entender que Zuckerberg fez tudo o que fez por causa de um amor “mal resolvido” com Erica Albright. Pois bem, não deixou de ser engraçado ver a este comentário no blog Somos Mulheres Reais e a foto que ela traz. Zuckerberg atualmente namora Priscilla Chan, uma estadunidense de origem chinesa que estuda Medicina. Como era de se esperar, eles se conheceram em uma festa em Harvard… hehehehehe. Uma ironia interessante, pois.

Em julho deste ano, o Facebook atingiu a marca de 500 milhões de usuários. No início, Zuckerberg tentou ignorar The Social Network e disse que não assistiria ao filme. Depois, acabou cedendo. Ao comentar sobre a produção, Zuckerberg afirmou que os produtores não entenderam como alguém pode ter construído algo simplesmente pelo gosto de “construir coisas”, referindo-se ao Facebook – afirmando, ainda, que não produziu a rede social pela fama ou para se tornar um bilionário. Ele teria afirmado também que “Cada camiseta e cada casaco que eu tinha no filme era de fato uma camiseta ou casaco que eu tenho”.

Fiquei curiosa sobre o atual paradeiro de Eduardo Saverin e sobre o que ele poderia ter dito sobre o filme. Aparentemente, ele está “ausente” de comentários a respeito e de entrevistas. Nesta matéria, falam um pouco a respeito disto. Nesta outra, um rápido resumo sobre a trajetória de Saverin.

Como comentei anteriormente, The Social Network sofre um pouco pela simplificação que ele faz da história. Também pelo fato do filme se basear no livro de Ben Mezrich que, declaradamente, “toma partido” de Eduardo Saverin e dá pouco – ou nenhum espaço – para a versão de Zuckerberg da história. Por isso mesmo, claro, a produção é um tanto “partidária” – ainda que, pelo visto, menos que o livro – o que é um acerto, pois. Neste link, uma entrevista de Mezrich sobre a forma com que Saverin se sentiu “traído” pelo ex-amigo e parceiro.

Uma curiosidade da produção: aquela verborragia inicial entre Zuckerberg e Erica Albright, que abre The Social Network, ocupou oito páginas de roteiro e 99 tomadas das filmagens. Impressionante.

Outro fato curioso: em certo momento do próprio julgamento, Zuckerberg afirma que sua invenção foi o fato mais importante de Harvard, incluindo 19 prêmios Nobel, 15 ganhadores do prêmio Pulitzer, dois futuros atletas olímpicos e uma estrela de cinema. Ainda que ele não cite quem seria esta estrela, ela é Natalie Portman, que estou em Harvard entre 1999 e 2003 e que ajudou o roteirista de The Social Network com algumas informações sobre os bastidores da universidade naqueles anos. A atriz, aliás, é a mais cotada a ganhar o Oscar 2011 por seu desempenho em Black Swan – filme dirigido por Darren Aronofsky que estou louca para assistir.

A atriz Rooney Mara impressionou David Fincher. A ponto dele convidá-la para seu próximo filme, The Girl with the Dragon Tatoo.

The Social Network estreou no dia 24 de setembro no Festival de Cinema de Nova York. Entrou, no dia 1º de outubro, no circuito comercial dos Estados Unidos e do Canadá. Esteve também em festivais de cinema na Rússia, em Tóquio e em São Paulo. Deve estrear no Brasil, no circuito comercial, dia 3 de dezembro.

Segundo os produtores do filme, The Social Network teria custado US$ 50 milhões. Faturou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 14 de novembro, US$ 87,8 milhões. Contabilizadas as bilheterias mundiais, especialmente se o filme for indicado e, quem sabe, ganhar alguns Oscar’s, certamente ele faturará mais que o dobro em relação aos custos.

O filme tem tido uma bela recepção de público e, especialmente, como já era esperado, de crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para a produção. O site Rotten Tomatoes, por sua vez, abriga links para 245 críticas positivas e apenas oito negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação impressionante de 97%. Sem dúvida ele está cotadíssimo para o Oscar e para outras premiações – como o Globo de Ouro e afins.

Me perdoem por ter demorado tanto para escrever este texto. Assisti o filme há mais de 10 dias e só agora consegui parar para escrever sobre ele. Tenho outro já na ponta da “agulha” para soltar por aqui. Forte candidato ao Oscar também. Pretendo publicá-lo mais rapidamente, deste vez. Obrigada a todos aqueles que não desistem de acompanhar o blog, mesmo quando demoro, como agora, para publicar algo por aqui. Abraços!!

Ah sim, e muitos vão perguntar: mas afinal, o quanto do filme é verdade? Bem, uma boa parte, certamente, é verdade. Mas uma certa parte, não. Afinal, o filme se baseia em um livro que, basicamente, escuta os críticos de Zuckerberg. Ele não é ouvido. Sua versão não está no livro e nem no filme. Ou seja: nem toda a verdade está aí. O criador do Facebook disse, recentemente, que sua vida foi menos dramática do que é mostrado na produção. Naturalmente. Sempre um filme irá dramatizar mais do que a realidade. Para tornar-se interessante, claro.

Francamente, a grande história do filme e que deve ter ocorrido na vida real é a seguinte: Zuckerberg é um cara inteligente acima da média. Soube criar um produto interessante e se aliar a pessoas fundamentais. Mas, ainda assim, não tinha a menor ideia do caminho que seu produto iria seguir no futuro. Ele teve sorte, bons contatos e uma boa dose de talento para conseguir o que conseguiu. Sem planejar cada passo, mas conseguindo tirar o melhor proveito de cada etapa. Isso também lhe torna genial. Basta saber até quando o Facebook dominará o mercado. E como Zuckerberg irá reagir quando não for mais o “dono” do pedaço. Questões para o futuro.

Só agora assisti ao trailer do filme. Simplesmente, genial. Perfeito. Ele resume The Social Network de forma perfeita. Afinal, “todos querem ser especiais”. De alguma forma.

CONCLUSÃO: O filme que trata dos bastidores da criação do Facebook não facilita o trabalho para os espectadores. Com a maior proporção de diálogos por minutos dos últimos tempos, The Social Network mergulha na vida do “nerd” Mark Zuckerberg, o criador da rede social, e mostra como o seu “invento” foi parar nos tribunais. Até um certo ponto, esta produção recria história de grupos universitários e irmandades já contadas por outras produções. Por outro lado, tem o cuidado de refletir sobre uma era diferente, caracterizada pelas comunicações por intermédio do computador. Este olhar cuidadoso – ainda que um pouco simplificado – sobre a geração Y (que nasceu com um mouse nas mãos) é o que diferencia The Social Network de outras produções. Assim como a sua evidente “crítica” a esta era de busca pela fama, pelo reconhecimento público. O roteiro de Aaron Sorkin é um dos pontos fortes da produção. Desafia o público com linhas rápidas e inteligentes a acompanhar o que está sendo dito. Ao mesmo tempo, junto com o trabalho preciso do diretor David Fincher, intercala cenas de tribunal e a narrativa dos fatos de forma cadenciada e envolvente. Os atores principais também ajudam, com destaque para Jesse Eisenberg. Talvez ele seja menos interessante para os “não iniciados” nas redes sociais. The Social Network será entendido, em sua plenitude, por quem acompanha a tecnologia. Talvez isso prejudique um pouco o filme. Ainda que, sem dúvida, ele mereça estar na lista das produções mais importantes de 2010 – com vaga garantida no Oscar, basta saber em quais e quantas categorias.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Ninguém duvida que The Social Network será indicado ao Oscar. Agora, resta saber, além das bolsas de apostas, em quais e quantas categorias ele estará. Pessoalmente, acredito que a produção deverá ser indicada na categoria de Melhor Filme, especialmente porque ela continuará com 10 produções na disputa, garantindo a vaga de The Social Network mesmo que o filme não se torne tão “popular” quanto os produtores gostariam. Também acho inevitável – se houver justiça – uma indicação de Aaron Sorkin para a categoria de Melhor Roteiro Adaptado. Ele merece. Fora estes dois, que são óbvios, com um bom lobby a produção pode ainda ser indicada a Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Ator para Jesse Eisenberg e Melhor Diretor para David Fincher. Estas duas últimas indicações, realmente, vão depender de um bom trabalho dos produtores para convencer os votantes. Mas é possível. Sobre levar a estatueta para casa, acho que ele tem boas chances em Melhor Filme, roteiro, trilha sonora e diretor. Veremos…

Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier – Se Eu Quiser Assobiar, Eu Assobio

Um filme para ser interessante não precisa ser complicado. Mas o excesso de simplicidade pode, por outro lado, esvaziar uma boa história. Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier, filme dirigido por Florin Serban e que representa a Romênia no próximo Oscar, fica no meio do caminho entre estes dois extremos. Bastante simples, ele se mostra interessante, envolvente e, ao mesmo tempo, não deslancha como poderia. Nada recomendado para as pessoas que gostam de finais bem acabados e com histórias que tenham uma “razão” de ser. Se o cinema para você só tem sentido se tiver começo-meio-fim e um propósito bem definido, especialmente se trouxer finais claros, fique longe deste filme.

A HISTÓRIA: Um grupo de jovens espera sentado em um banco sob a vigilância de dois guardas. Um deles sai de um prédio, algemado, e se senta em meio aos demais. Ele olha para um amigo e sorri. Depois os jovens vão para a “hora do banho” e para o trabalho, até que aquele jovem sorridente, Silviu (Pistireanu George) é chamado porque lhe espera uma visita. O irmão mais novo surge com a novidade de que a mãe dos garotos (Clara Voda) voltou e quer levá-lo para a Itália. Silviu sairá em liberdade em 15 dias, mas a mãe pretende voltar para a Itália em uma semana. A perspectiva de perder o irmão e a chegada de um grupo de pesquisadores, incluindo a bela Ana (Ada Condeescu) tiram a paz do jovem com perspectivas de sair em liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier): Eis um filme sem começo, com um largo meio e, literalmente, sem fim. Não necessariamente um filme assim é ruim. Afinal, a falta de explicação sobre as razões que fizeram o protagonista ser preso não é algo que tire o mérito da história. Assim como um final aberto pode ser inspirador, curioso, crítico… o problema de ECVSFF (vou abreviá-lo assim) é que mesmo o “miolo” da história se apresenta morno demais.

Concordo que vivemos em uma sociedade violenta. Que os filmes, normalmente, pegam pesado em cenas de agressões – físicas e psicológicas – e que somos condicionados a “esperarmos” por ação em uma história que foca as atenções para um ambiente assim. O sistema prisional, incluído nele os locais que “abrigam” adolescentes, são fundados em princípios de controle, de autoridade, de posições muito marcadas de domínio de uns contra os outros. Falta liberdade, opções de futuro e educação nestes locais.

ECVSFF trata de um local assim e de um momento delicado na vida de um adolescente em particular. Silviu está prestes a deixar aquele local de pressão e abusos – praticados especialmente de uns jovens contra outros – para ganha a liberdade novamente. Inteligente, atento a detalhes, bonito, o garoto tem todos os elementos para conseguir dar a volta por cima. O problema surge quando o irmão menor vai visitá-lo e comenta sobre a chegada da mãe.

O espectador caiu de paraquedas na história e continuará “sobrevoando” os sentimentos e a vida dos personagens até o final. No caminho, ganhamos uma luneta que nos permite ver algum detalhe aqui e acolá. Sabemos, por exemplo, que Silviu guarda um caminhã de rancores da mãe, que teria usado ele como “muleta” enquanto não conseguiu um novo homem para sustentá-la – financeiramente e, principalmente, saciasse a sua carência afetiva.

Os encontros de mãe e filho são alguns dos pontos fortes do filme. São duros, secos, legítimos. Mas o restante da história mostra essencialmente a aflição de Silviu para impedir que o irmão passe pelo mesmo sofrimento que ele. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste quesito, o filme tem o seu mérito. Afinal, conta uma história diferenciada de um jovem que se sacrifica pelo irmão. Que tem a visão clara sobre o que irá acontecer com o garoto caso a mãe consiga vencer essa queda de braços. Só a forma com que o personagem faz isso é um bocado vazia.

As intenções, alguns podem dizer, é o que interessam. E, na verdade, geralmente esta premissa é verdadeira. Especialmente quando falamos das relações humanas. Uma única pessoa não controla toda a comunicação e/ou toda a relação. Ela pode fazer o melhor, se sacrificar e, ainda assim, não conseguir fazer o bem para a outra pessoa. Interagimos, logo nos comunicamos ou não. Ajudamos uns aos outros ou não fazemos diferença alguma – ou quase nenhuma. Estes são os fatos. Ainda assim, claro, as tentativas são importantes – e, muitas vezes, o que realmente interessam, mais que os resultados.

Talvez esta seja a grande mensagem de ECVSFF. As intenções de Silviu são o que interessa, mais do que os resultados práticos de seus atos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Afinal, quem pode garantir que, depois de todo o drama, do “teatro” que ele arma com guardas e a Ana sequestrada, a mãe dele cumprirá a promessa? Ele ficará preso por um longo tempo. Ela pode simplesmente levar o filho mais novo com ela e acabou-se.

A outra relação importante nesta história é aquela desenvolvida pelo protagonista e Ana. (SPOILER – não leia se você não assistiu o filme). A menina, impossível para ele por várias razões, representa tudo que ele gostaria e não pode ter. Neste ponto, o filme toca fundo e se torna mais sensível, cuidadoso. Histórias de amor impossíveis sempre são tocantes. Especialmente porque, neste caso, não se trata apenas de um romance, mas porque Ana simboliza uma vida diferente que o garoto não poderá tocar. Pelo menos não em um futuro próximo – e, se ele não acreditar na possibilidade diferente, talvez para sempre.

Acreditar em si mesmo e em uma vida diferente. Estas são algumas reflexões e mensagens que este filme deixa para o espectador. A ideia é boa, só achei a execução bastante abaixo do potencial do filme. Em outras palavras, o roteiro de Catalin Mitulescu, Andreea Valean e do diretor Florin Serban conseguem representar uma história legítima, que se assemelha à realidade, ainda que não chegue a um propósito claro.

O maior problema reside na direção de Serban, que se torna arrastada na maior parte do tempo – ainda que o diretor consiga alguns bons momentos, como os já comentados encontros do protagonista com a mãe, o “clima” de permanente atenção e apreensão do ambiente prisional e a relação do protagonista com Ana. Uma lástima que estes momentos estejam espalhados pela história e não se configurem como a tônica dominante.

Uma qualidade da produção, por outro lado, é a direção de fotografia de Marius Panduru. Um trabalho simples, cru e ao mesmo tempo condizente com a história, valorizando os locais e os personagens. Os atores tem um desempenho bastante irregular, especialmente no momento mais “tenso” da produção. Algumas vezes, não convencem – em certas cenas, esperei “cair o pano”, como sinônimo de evidente teatro sem imersão.

De qualquer forma, pela fragilidade das relações focadas – das familiares, de colegas de detenção até entre os jovens infratores e as autoridades – e pela dedicação em tratar de “realidades possíveis e impossíveis” com delicadeza, este é um filme interessante. Mas incomoda porque deixa claro que poderia ser melhor. Também acho que, ainda que não seja algo inevitável, um pouco de contextualização teria feito bem para a produção. Como sabermos, por exemplo, o que levou Silviu a ser preso.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dos atores principais, além dos já citados, vale comentar o desempenho centrado de Mihai Constantin como o diretor da penitenciária. Aliás, aqui vale um comentário específico. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei até que ponto o filme representa o sistema de prisões na Romênia mas, certamente, ele não chega nem perto do sistema que funciona no Brasil. Os banhos frios e os dormitórios que servem de local de pressão entre os garotos podem até ser similares, mas a forma com que o diretor do presídio e os guardas tratam os rapazes, certamente não. Jamais um diretor brasileiro permitiria que o garoto saísse de carro e com uma refém. Assim como duvido muito que um guarda tivesse segurado a onda por tanto tempo e não desse uns tabefes ou sopetões naquela rapaziada. Infelizmente o mais comum por aqui é a violência – alimentada pelas duas partes, é claro.

Interessante que este é um filme sem trilha sonora. Um espectador mais atento acaba sentindo falta do elemento música na produção. O que apenas deixa ainda mais claro como os diferentes artistas que integram a indústria tem a sua relevância específica para tornar uma peça de cinema a junção de muitas artes. Sem um destes elementos com os quais estamos acostumados, como a música, neste caso, parece que sempre está faltando algo.

ECVSFF estreou em fevereiro no Festival de Berlim. Depois, a produção passou ainda por outros oito festivais, incluindo o de São Paulo. Hoje, dia 6 de novembro, ele estréia no último da lista, o Festival de Cinema Arras, na França. Em sua trajetória, ganhou dois prêmios no Festival de Berlim: o Urso de Prata e o Alfred Bauer. O primeiro é classificado como o “grande prêmio do júri” do festival – e o segundo mais importante, perdendo apenas para aquele que leva o Urso de Ouro. O segundo é entregue para filmes que “abrem novas perspectivas para a arte cinematográfica”.

Francamente, por mais diferenciado que ECVSFF possa ser – pela ausência de música, pelo tom “realista” e a naturalidade da história -, não vejo nele elementos tão inovadores assim.

Procurando mais informações sobre a produção, soube que o diretor, Florin Serban, utilizou como atores secundários adolescentes que estavam presos ou tinham passado pelo sistema prisional. Ele disse, na época do Festival de Berlim, que tinha procurado jovens em escolas de interpretação e em colégios, mas que acabou fazendo oficinas em instituições penais e que ali encontrou o que procurava. Algo que diretores brasileiros fizeram em vários outros projetos anteriormente.

O diretor afirmou ainda que trabalhou bastante com o estreante protagonista e com os demais jovens que aparecem no filme, mas que nunca apresentou um roteiro totalmente acabado para eles. Em outras palavras, que incorporou muito das soluções e do linguajar dos jovens na produção. Bacana, mas também algo nada inédito.

Descobri, em uma entrevista do diretor no site oficial da produção, que ECVSFF é uma adaptação modificada de uma peça de mesmo nome escrita por Andreea Valean. Esse material original, contudo, foi bastante modificado pelo outro roteirista do filme, Catalin Mitulescu e, em especial, pelo próprio Serban que, ao entrar em contato com a realidade dos jovens infratores, passou a entendê-los melhor. Segundo o diretor, ele passou a perceber o quanto “de seus atos (destes jovens) são influenciadas pelas famílias, pelo ambiente do qual eles vem e, por último mas não menos importante, por todos nós, os que estão fora dos muros da prisão”.

Elementos que foram preservados da peça, segundo o diretor (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): o espírito corajoso e um tanto inconsequente dos jovens presos e o sequestro da garota. Por outro lado, eles mudaram aspectos como o personagem Silviu, que se tornou “mais humano, mais vulnerável”; e adicionaram os personagens da mãe e do irmão mais novo do protagonista – que acabam sendo a motivação de seus atos. A dinâmica da hierarquia dentro da prisão e o final também foram modificados.

Nesta entrevista, o diretor comenta ainda que trabalhou dois meses com os jovens atores em duas das menores penitenciárias da Romênia. Serban elogiou muito o talento dos jovens que ele escolheu e afirmou, no melhor estilo dos desejos de Babenco envolvendo o jovem ator de Pixote (Fernando Ramos da Silva, garoto que virou estrela com o filme de 1981 e que seria morto em 1987 por policiais), que espera que eles tenham a oportunidade de trabalharem como atores no futuro – a história sempre se repete, mesmo que nunca seja igual.

Interessante que o diretor afirma, em seguida, que foi muito modificado pela experiência e que pretende abrir uma escola de teatro e dar cursos para pessoas que nunca trabalharam com a arte dramática antes. Ele disse ter obtido “satisfação em muitos níveis, profissional e espiritual” com a experiência desenvolvida para o filme. Serban comenta ainda que ele percebeu que o que mais faltou para aqueles jovens foi “amor e atenção” e que eles devem merecer o respeito das pessoas como qualquer outro indivíduo.

Para ele, atuar pode significar um “processo de cura”, ajudando a recuperar a auto-estima e a resolver problemas que a pessoa pode carregar internamente. Além disso, o diretor comentou que pelo menos dois dos jovens com quem ele trabalhou em ECVSFF possam integrar também o próximo projeto dele, El Rumano.

Antes de dirigir ECVSFF, Serban havia filmado um curta-metragem, Mecano, em 2001, e o filme Emigrant, em 2009.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para o filme. Achei uma avaliação bastante justa. Era a minha nota original, mas eu melhorei ela um pouquinho ao saber que o diretor teve o “trabalho” de mergulhar um pouco na realidade que ele estava retratando. No site Rotten Tomatoes existem apenas dos comentários sobre o filme – um positivo e o outro negativo.

No primeiro, do Wall Street Journal, o crítico Joe Morgenstern comenta que ficou “muito impressionado” com o filme porque ele mostra um “herói” aparentemente explosivo e desarticulado mas que, na hora de seu maior estresse, se mostra surpreendentemente eloquente.

O outro texto, assinado por Tim Brayton, pode ser encontrado no blog Antagony & Ecstasy. Ele começa contextualizando a forma com a qual o cinema romeno se tornou um fenômeno de festivais. Depois, Brayton afirma que esta produção foi a primeira que lhe deixou realmente entediado. Mais do que seguir o padrão do “novo cinema” romeno, ECVSFF se mostra “um frustrante apanhado de clichês estilísticos e narrativos sustentados em nada em particular” e que, por isso, segundo o crítico, ele ganhou o Urso de Prata em Berlim. hahahaha. Engraçado – e um tanto verdadeiro.

Para Brayton, a única coisa realmente interessante do filme se resume ao trabalho que o diretor teve com não-atores. Ele termina avaliando que este não é pior exemplar da “atual onda euro-arte”, mas que ainda assim ele se mostra um bocado “velho estilo e estático”. Francamente? Ele tem razão.

Este é um filme com co-produção da Romênia e da Suécia.

CONCLUSÃO: Um filme que busca o realismo do sistema prisional de jovens na Romênia. Baseado em uma peça de teatro, mas com um roteiro que reformula boa parte da história original, Eu Cand Vreau Sa Fluier, Fluier narra uma história sem começo e sem fim. O espectador cai de paraquedas na vida de um jovem que está prestes a sair em liberdade e que resolve adotar atitudes extremas e desesperadas quando percebe que a sua história pode ser repetida pela trajetória do irmão mais velho. Ainda que tenha algumas cenas bem filmadas e conduzidas com precisão, na maior parte do tema esta produção se mostra “sem sal”, com uma argumentação que não convence. A intenção é boa, tanto do diretor quando do protagonista, mas ambos não atingem os seus propósitos como poderiam. Uma pena.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Francamente? Só mesmo uma decisão “política” e uma vontade de fazer um filme da “nova sensação” do cinema europeu, ou seja, da Romênia, vingar em Hollywood para justificar a escolha desta produção entre os finalistas do próximo Oscar. Como obra de cinema, peça artística, não acho que ele mereça. E isso porque assisti a apenas três candidatos da próxima disputa até o momento. Mas por tudo que eu falei antes, ECVSFF se mostra abaixo da média. Bem fraquinho. Não merece estar entre os cinco finalistas.