Invictus

Poucos diretores conseguem extrair o máximo de emoção de uma história aparentemente simples. Clint Eastwood é um dos “mestres” neste sentido. Seu último filme, Invictus, mistura duas grandes paixões da África do Sul: rugby e Nelson Mandela. Titulado inicialmente como The Human Factor, esta nova produção dirigida por Eastwood reflete como a força de uma paixão e de uma causa pode mudar a história de uma pessoa, de uma sociedade e, em determinados momentos históricos, de uma nação. Claro que a mudança na África do Sul não pode ser explicada apenas pelo investimento de Mandela em unir a nação sob a torcida para que seu país vencesse um mundial de rugby, mas o exemplo que o líder político deu neste episódio – e em tantos outros – é o que torna Invictus um filme tão especial. Ainda que o rugby esteja na ponta de mira do roteiro de Invictus, não consegui deixar de fazer um paralelo com o futebol e a força que o esporte tem no Brasil e, claro, não pude deixar de pensar na Copa do Mundo do próximo ano (que será celebrada, justamente, na África do Sul).

A HISTÓRIA: Um grupo de rapazes brancos fortes e bem uniformizados treina rugby de um lado da rua, protegidos por uma cerca bem construída, enquanto do outro lado da avenida um grupo de rapazes negros, magros e mal vestidos joga futebol em um campo precário cercado por uma frágil cerca de arame. Desta forma simbólica, através de duas cenas esportivas, o filme revela parte da realidade da África do Sul em fevereiro de 1990. Os negros que jogam futebol páram sua brincadeira para saudar, animados, a escolta que leva o recém-libertado Nelson Mandela (Morgan Freeman). Do outro lado da rua, os jogadores de rugby assistem a tudo desconfiados e com certo menosprezo. O país, mais dividido do que nunca entre brancos e negros – mesmo com o fim do apartheid – vê Mandela ser consagrado, poucos anos depois, presidente. O líder surge com atitudes que surpreendem a todos, trazendo uma visão única para unir os sul-africanos. Suas idéias passam por conquistas no esporte, mais especificamente por uma campanha surpreendente do presidente para que o South Africa Springboks, liderado pelo capitão François Pienaar (Matt Damon), ganhe a Copa do Mundo de Rugby sediada no país em 1995.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continua a ler esta seção quem já assistiu a Invictus): Curiosa a escolha de Clint Eastwood e sua equipe em contar uma parte decisiva da vida de Nelson Mandela menos conhecida do “grande público”. Todos conhecem a luta de resistência do líder africano em seus quase 30 anos de cárcere. Mas Eastwood e o roteirista Anthony Peckham resolveram se debruçar sobre o início de seu governo de reconciliação entre brancos e negros, mais especificamente na aposta do líder político em valorizar um esporte até então quase que exclusivo dos brancos: o rugby.

Quem busca informações sobre a história da África do Sul ou de Nelson Mandela, em diferentes resumos em enciclopédias, livros ou pela internet, poucas vezes encontra alguma menção sobre a campanha do presidente para engrandecer o Springboks. Mas este gesto, que valorizava e resgatava o “fator humano” em uma mudança social, ganhou protagonismo através do livro de John Carlin, Playing the Enemy – Nelson Mandela and the Game That Made a Nation (que no Brasil recebeu o título de Conquistando o Inimigo – Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul). Sabendo que ter chegado à presidência era apenas um passo no dificílimo processo de criar uma nação, Mandela viu no esporte – e na paixão que ele pode despertar – o recurso necessário para promover a mudança que tanto sonhava.

Invictus é a história desta aposta de Mandela. O grande destaque do filme, sem dúvida, é a direção de Eastwood (como sempre, aliás). Ele comprova porque é um dos grandes diretores vivos da atualidade. Utilizando diferentes câmeras e lentes, o diretor simula imagens de TV “da época” e orquestra cenas impecáveis de jogos de rugby. Acredito que mesmo as pessoas que não gostam do esporte – ou que nunca assistiram a uma partida inteira, como é o meu caso – ficarão empolgadas com a forma com que o diretor narra esta história. Não é qualquer um que tranformar o rugby em algo interessante de ser visto. 😉 O mérito, claro está, é de Eastwood e de seus editores, Joel Cox e Gary Roach. O uso da câmera e da lente certa para cada momento passou ainda pelo trabalho decisivo do diretor de fotografia Tom Stern.

O filme, inspirado no livro de John Carlin, segue uma narrativa linear tradicional, utilizando alguns dos recursos mais básicos das produções que contam a “grandeza” de um esporte para inspirar/emocionar as pessoas. Há um bocado de política e de “realidade” no filme, como não poderia deixar de ser. Ainda que o foco de Eastwood e equipe seja a crônica da vitória do Springboks e de Mandela neste episódio, há tempo para mostrar os constrastes sociais da África do Sul (com especial atenção para as favelas e seus barracos) e parte da filosofia do líder político ganhador do Nobel da Paz em 1993.

O trabalho envolvendo este filme, seja nas cenas de “reprodução histórica” (leia-se imagens de TV) ou nas complicadas sequências em estádios superlotados, foi dos grandes. Algumas das melhores linhas do roteiro Peckham caíram, como era de se esperar, na boca de Morgan Freeman. Em mais um de seus grandes momentos no cinema, o ator dá o tom exato de sabedoria, clareza de objetivos, obstinação e grandeza do líder Nelson Mandela. Mas o “coração” desta história, ou seja, a parte emocional do filme passa mesmo pelas cenas de rugby. Eastwood mostra que pode transformar este esporte, desinteressante para muitos, em um espetáculo de gladiadores – em algumas cenas que valorizam os atores em closes e sequências lentas, o som dos choques de corpos e gemidos ganha protagonismo e valoriza a “batalha” pela vitória.

Segundo notas de produção de Invictus, seu diretor é fã do esporte. Como outros cineastas fizeram antes com o futebol americano, Eastwood quis dar a sua contribuição para “engrandecer” o rugby ao filmar com inspiração cenas da competição – algumas vezes as sequências que mostram a disputa e a “brutalidade aparente” do rugby lembram coreografias de dança, dando um sentido de arte para o esporte. Clint Eastwood mostra, mais uma vez, que domina a arte do cinema, valorizando a plasticidade de algumas cenas nos momentos adequados, assim como a trilha sonora e, quando necessário, abrindo espaço para os momentos mais “filosóficos” e/ou de discursos dos personagens principais – notavelmente de Mandela.

Mesmo sendo considerada uma “cinebiografia” por muitos, Invictus é um pequeno extrato da trajetória de Nelson Mandela. Ainda assim, apenas com esta produção, é possível ter uma amostra de seu exemplo de superação e de grandeza, ao deixar para trás qualquer sentimento de revolta e de vingança para abraçar a causa de unir uma nação através do perdão dos crimes praticados por uma minoria no passado. O maior exemplo visto em Invictus é o da busca da união de um povo, através da superação dos anseios individuais pela busca do bem de uma maioria.

As intenções do filme são as melhores. E ainda que algumas das sequências mais impressionantes/marcantes tenham sido filmadas em um estádio como o Ellis Park, um dos mais tradicionais e importantes do país, senti falta do filme explorar melhor a história de Mandela. O ponto positivo desta história, e que serve para nós, se considerarmos o futebol, ou para outros países, levando em conta seus esportes de destaque, é o de mostrar a capacidade dos atletas em se superarem e, com sua luta, inspirarem e emocionarem aos demais. Só que o filme acaba cansando um pouco por algumas sequências de rugby longas demais – que, provavelmente, irão agradar completamente apenas aos fãs do esporte. Por buscar este equilíbrio entre o “heroísmo” de um líder político e o ato de bravura dos atletas que souberam refletir a sua busca pela união de um país, Invictus divide suas forças em duas frentes e, infelizmente, se torna menos potente do que poderia se escolhesse apenas um lado da moeda (preferencialmente Mandela).

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme emociona e prende a atenção do espectador, mas a nota acima tem mais a ver com o trabalho de Clint Eastwood do que com o resultado final de Invictus. A produção convence, mas se coloca, em termos de qualidade, abaixo dos filmes anteriores do diretor.

Impossível assistir aos jogos mostrados no filme, com aquela participação belíssima da torcida sul-africana, e não pensar na Copa do Mundo de futebol do próximo ano. Os Bafana Bafana (como são conhecidos os torcedores da seleção da África do Sul) vão fazer muito barulho e sua força pode empurrar os jogadores para a frente de forma decisiva. Não sei se da mesma forma com que os sul-africanos fizeram com a seleção de rugby mostrada em Invictus – afinal, era uma outra época e outro momento político/social -, mas é algo a se considerar.

Encontrei neste link do site da Fifa (muito bom, aliás) algumas informações históricas do Estádio Ellis Park, situado na cidade de Johanessburgo. Na Copa 2010, o Brasil jogará ali na partida contra a Coréia do Sul. Esperamos que os sul-africanos fiquem do nosso lado. 😉

Não sei vocês, mas eu me sinto uma ignorante no quesito “entender sobre futebol americano e/ou rugby”. Honestamente, eu não sabia a diferença entre estes dois esportes até que encontrei esta página da Wikipédia. Mesmo que o artigo, aparentemente, carece de contexto e da  citação de fontes, achei um documento interessante para que os “não-iniciados” nas duas modalidades esportivas tenham uma idéia de suas diferenças.

Falando em futebol americano, para mim foi inevitável ver as cenas de rugby filmadas por Clint Eastwood em Invictus e não lembrar do trabalho do diretor Oliver Stone em Any Given Sunday ou, em uma proporção menor, o de Boaz Yakin com seu Remember the Titans. Lembrando que o filme de Stone completou, em 2009, exatos 10 anos de seu lançamento. Estas duas produções foram homenagens de seus diretores ao futebol americano.

Para os que ficaram interessados em saber um pouco mais sobre a África do Sul, o apartheid e Nelson Mandelo, recomendo a visita a alguns sites que fazem um resumo instrutivo sobre estes temas. Para começar, esta página com vários links sobre a história da África do Sul, mantida pela Embaixada da República da África do Sul no Brasil. Depois, este link da TV Cultura sobre o país, com alguns fatos importantes de sua história – como o apartheid – e ainda esta página com um resumo de um livro biográfico de Mandela. Vale a pena para dar a contextualizada que o filme não proporciona aos espectadores.

Fiquei sabendo, através de um destes links, por exemplo, que as leis de segregação racial na África do Sul eram anteriores a Segunda Guerra Mundial, mas que ganharam mais força com a vitória do Partido Nacional em 1948. Esse partido, conhecido como dos “afrikaners”, trouxe mecanismos de “repressão mais eficientes” para reforçar o apartheid. Ele, basicamente, estabelecia a existência de quatro grupos distintos na sociedade: brancos, negros, mulatos e asiáticos. Cada um deles tinha, pelo apartheid, direito a viver em um local determinado, todos separados entre si, e com lugares muito definidos na sociedade – para a maioria negra lhes restava trabalhos forçados e condições de vida precárias.

Quando era um jovem estudante de direito, Mandela começou a se envolver com a oposição ao regime do apartheid. Ele criou, junto com outros, a Liga Jovem do Congresso Nacional Africano. Partidário da política da não-violência, ele acabou se rendendo às armas depois de um massacre contra negros promovido pelo governo em 1960. Mandela ajudou a fundar o “braço armado” do Congresso Nacional Africano e, com ele, coordenava ações de sabotagem contra alvos militares e do governo. Ele foi preso em 1962 com a ajuda da CIA – mais informações, para os interessados, neste link.

Como comentei rapidamente no início deste texto, Invictus é inspirado no livro Playing the Enemy, de John Carlin. Encontrei dois links que falam um pouco mais sobre o livro: este, bem resumido, e este outro, que é uma crítica de Bill Keller escrita para o The New York Times. Segundo o texto de Keller, o livro de Carlin descreve o “trabalho metódico, a campanha improvável e brilhante de Mandela para reconciliar os negros ressentidos e os brancos temerosos ao redor de um evento esportivo”.

O rugby é descrito como uma espécie de “religião secular dos afrikaners, a tribo de brancos que inventou e reforçou o apartheid” por Keller, que afirma ainda que o esporte era considerado, pelos negros, um exemplo da brutalidade de um povo estranho. Lendo o artigo do jornalista fica realmente clara a jogada de mestre de Mandela, que conseguiu afagar os brancos do país em um momento decisivo – emprestando a sua imagem para atrair a simpatia da maioria negra para apoiar o símbolo esportivo antes rechaçado. Invictus mostra esta façanha, ainda que a produção gaste tempo demais mostrando belas imagens do esporte e contextualize pouco a paixão dos brancos pelo Springboks e, por outro lado, a repulsa dos negros a esse antigo símbolo dos inventores do apartheid.

Achei interessante também que Bill Keller comenta que é um “exagero romântico” de John Carlin acreditar que apenas um jogo decisivo de rugby foi capaz de curar as feridas deixadas por três séculos de divisões raciais. Este mesmo pensamento me acompanhou durante todo o filme – ok, a história é bonita e emocionante, o exemplo de Mandela é revigorante, mas é exagero colocar a sua campanha em favor da união de brancos e negros em torno do campeonato mundial de rugby como a solução para uma nação dividida. Mesmo fazendo a consideração anterior, Keller comenta que o episódio de 1995 foi considerado, por muitos, um lance decisivo para impedir uma guerra civil na África do Sul. Lendo a crítica do jornalista do The New York Times, a impressão que eu tenho é que Invictus foi bastante fiel ao livro de Carlin.

O último filme de Clint Eastwood tem uma “carreira curta” nos cinemas. Ele teve sua premiere no dia 3 de dezembro em Beverly Hills, e entrou no circuito comercial dos Estados Unidos, do Canadá e da África do Sul apenas no dia 11. Em janeiro de 2010 ele chega a outros países, inclusive ao Brasil. Até o dia 25 de dezembro, apenas nos Estados Unidos, o filme tinha arrecadado pouco mais de US$ 23 milhões – pouco, muito pouco, levando em conta os astros, o diretor e o personagem principal desta história.

O poema Invictus, que acabou dando nome ao filme, foi escrito por William Ernest Henley, um poeta britânico, durante o período em que ele ficou internado em um hospital – quando teve um de seus pés amputado. Parte de seu poema é citado por Mandela no filme.

Uma curiosidade da produção: o próprio Nelson Mandela disse que apenas Morgan Freeman poderia interpretá-lo – e, por isso, seu nome foi considerado certo pelos produtores desde o início. Interessante que Freeman e a produtora Lori McCreary tinham interesse de fazer um filme sobre Mandela há muitos anos. Inicialmente, eles queriam filmar a autobiografia do líder político, Long Walk to Freedom mas, como ela se desenvolve durante muitas décadas, o projeto acabou sendo visto como inviável de ser lançado como um único longa-metragem – uma pena, diga-se. Freeman e McCreary viajaram à África do Sul para pedir a benção de Mandela para a produção, e antes mesmo de terminarem de contar sobre o projeto, o líder político sabia que eles iriam comentar sobre o episódio da Copa do Mundo de Rugby.

Morgan Freeman, como sempre, consegue uma interpretação única. Ele mimetiza, com perfeição, o jeito de falar e os gestos típicos de Mandela. Impecável o seu trabalho.

Um dos momentos mais surreais do filme, quando a seleção de rugby da Nova Zelândia, o All Blacks, faz a coreografia de uma dança esquisita para “amedrontar” seus adversários antes de um jogo, imita com perfeição a realidade. Os jogadores de rugby daquele país realmente fazem uma dança como aquela antes de um jogo decisivo. Curioso…

A produção de Invictus foi facilitada com a mágica da computação gráfica. As cenas no Estádio Ellis Park contaram com a participação de 2 mil figurantes que, com a tecnologia da captação de movimentos, depois foram transformados em 62 mil.

Outra curiosidade da produção: a banda preferida de Nelson Mandela, a Soweto String Quartet, foi contratada pelos produtores de Invictus para participar da trilha sonora do filme.

A parte técnica de Invictus funciona muito bem. Merecem destaque o trabalho dos editores, já citados anteriormente, a excelente direção de fotografia de Tom Stern; a trilha sonora de Kyle Eastwood (filho do diretor) e Michael Stevens; o desing de produção de James J. Murakami e a direção de arte de Tom Hannam e Jonathan Hely-Hutchinson.

Até o momento, este filme de Clint Eastwood ganhou três prêmios e foi indicado a mais oito. Os três que recebeu foram dados pela respeitada National Board of Review: melhor diretor, melhor ator para Morgan Freeman e ainda o Prêmio de Liberdade de Expressão.

Público e crítica aprovaram o filme, mas não se renderam a ele como alguns esperavam. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Invictus, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 125 críticas positivas e 39 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 76%.

Acredito que ninguém questiona o talento de Clint Eastwood, mas nunca é demais relembrar que o ator, produtor, compositor e diretor ostenta, aos 79 anos, 104 prêmios – incluindo quatro Oscar.

CONCLUSÃO: Mais um grande exercício de direção de Clint Eastwood, Invictus resgata um episódio marcante do início do governo de Nelson Mandela na África do Sul. Misturando uma pequena dose de política, uma boa quantidade de idealismo e, principalmente, muitas cenas de rugby, este filme prende a atenção do espectador com um bom ritmo narrativo e, principalmente, uma carga emotiva cuidadosamente manejada pelo “mestre” Easwood. Não chega a ter a força de uma cinebiografia real de Mandela – e nem dos filmes anteriores do diretor -, mas chega perto do público brasileiro se pensarmos no futebol em lugar do rugby. Um exemplo interessante de como o cinema pode captar a emoção e a capacidade de congraçamento do esporte – para unir raças, credos, distintas realidades sociais e, assim, uma nação. Claro que o filme sofre do mesmo “exagero romântico” do livro no qual ele é inspirado – ao acreditar que todas as diferenças e desigualdades históricas puderam ser resolvidas graças a um determinado evento esportivo. Mas o importante é o exemplo que a história pode propiciar – e as cenas magistralmente captadas por Eastwood. Entretenimento com emoção e alguma carga de idealismo – o que nunca faz mal à ninguém, ainda que, francamente, ele poderia ser melhor.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Não vejo, francamente, muita esperança para este filme sair vencedor do próximo Oscar. O primeiro termômetro para isto são as indicações que ele recebeu para o Globo de Ouro: melhor diretor, melhor ator (drama) para Morgan Freeman e melhor ator coadjuvante para Matt Damon. Não chegou a ser indicado nem como melhor filme (drama) e nem como roteiro adaptado. Talvez Invictus chegue a ser indicado no Oscar nas categorias de melhor diretor, melhor ator e alguma outra técnica – como melhor edição de som ou melhor edição. Mas acho difícil que ele chegue a levar algum Oscar para casa – se derem uma estatueta para Clint Eastwood, será mais para corrigir erros do passado do que por seu trabalho com Invictus.

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Precious: Based on the Novel Push by Sapphire – Preciosa: Uma História de Esperança

Imagine a pior história possível envolvendo uma adolescente de 16 anos. Precious: Based on the Novel Push by Sapphire conta uma destas histórias duras, que criam espanto quando pensamos que elas realmente poderiam ter acontecido (e talvez tenham ocorrido, mas com outros nomes no lugar daqueles do filme). Mas diferente de outras produções que seguem a linha do “dramalhão”, este filme dirigido por Lee Daniels não cai em recursos fáceis, prefere uma narrativa que mistura nas mesmas proporções o realismo e a fantasia escapista/de alívio da protagonista. Mérito do diretor, do roteirista e, principalmente, da escritora que viveu parte de sua vida no Harlem e que escreveu a obra que inspirou este filme. Potente, impressionante, impactante. Precious mereceu os prêmios que recebeu e, sem dúvida, fez “por onde” para estar indicado em várias categorias do Globo de Ouro e, possivelmente, em algumas do próximo Oscar. Com pelo menos três interpretações de tirar o chapéu, é destes filmes “pesados” que cairá no gosto de quem procura lições de vida também no cinema – e que não busca apenas por entretenimento.

A HISTÓRIA: Imagens de uma cidade cinza tem a sua rotina quebrada por uma fita vermelha que faz parte de um sonho de uma adolescente. No Harlem (bairro de Nova York) em 1987, uma garota negra, obesa, se apresenta: ela se chama Claireece Precious Jones (Gabourey “Gabby” Sidibe). Ela fala de seus desejos e sonhos enquanto os espectadores mergulham em sua duríssima realidade. Sentada no fundão da sala do colégio público onde tem aulas, ela tenta se concentrar no que o professor de matemática fala quando recebe um chamado para ir até a direção. A Sra. Lichtenstein (Nealla Gordon), diretora da instituição de ensino, confirma com Precious que a garota, aos 16 anos, está grávida pela segunda vez. Ela então se oferece para ir até a casa da adolescente para conversar com a mãe de Precious, Mary (Mo’nique) sobre as possibilidades da estudante, sem saber que a vida dela é um verdadeiro inferno. Mesmo expulsa do colégio, Precious acaba sendo encaminhada para uma instituição de ensino alternativo e, conforme vai evoluindo com seu aprendizado, ela vai também desvelando suas agruras e, simultaneamente, vai conseguindo mudar os rumos de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Precious): Desde que o filme baseado no livro de Sapphire saiu consagrado do Festival de Sundance, em janeiro deste ano, eu queria assistí-lo. Precious entrou na minha lista de “filmes-para-assistir-logo-que-possível”, mas precisei esperar até quase os últimos dias do ano para realizar este meu desejo. Ainda que a espera tenha sido longa, valeu a pena. Alguns podem considerar este filme “deprimente”, outros, pesado demais. A verdade é que muitos não tem o mínimo interesse de “saber da desgraça alheia”. Como eu respeito a tudo e a todos, também respeito a estas pessoas. Mas se você é uma delas, passe longe de Precious.

Por outro lado, se você tem o mesmo desejo que eu de conhecer todas as histórias possíveis, especialmente de personagens que passaram por situações absurdas e conseguiram dar a volta por cima, superando tudo e todos e dando verdadeiras lições de vida, este é seu filme. Mas que ninguém se engane: há temas muito fortes em jogo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu lembrava que Precious tratava da história de uma garota que tinha sido estuprada pelo pai. Mas além do incesto, estão em jogo, nesta história, o abuso sexual praticado por um pai (e uma mãe) contra a filha, gravidez na adolescência, violência doméstica (física e psicológica), discriminação racial e por aparência física, evasão/exclusão escolar e uma doença sexualmente transmissível. O filme é barra, sim senhores(as).

Mas na mesma medida em que há muita tensão, violência e, aparentemente, uma notícia pior que a outra na vida de Precious, há nesta garota uma vontade inabalável de dar certo, de sacudir a poeira e sair por cima. Impressionante o seu exemplo. E junto com ele, o exemplo da única mulher que lhe extendeu a mão e que acabou sendo fundamental para que a adolescente superasse seus problemas através da educação: a professora Miss Rain (a encantadora Paula Patton). Sei que parece conversa vencida ou utopia, mas sempre que vejo/escuto uma história como esta fica cada vez mais forte a minha convicção que só através da educação e da cultura as pessoas podem se sentir realmente inseridas na sociedade. Podem, em outras palavras, perceberem todo o seu potencial e almejarem algo melhor para suas vidas.

Esta é, sem dúvida, uma das lições do filme. Outra é que, não importa o quanto um pai ou uma mãe podem ter trabalhado de forma costumaz para destruir o seu filho ou filha, este indivíduo pode exorcizar os maus tratos, os abusos e a maldade paterna para seguir em frente. Fazer, a duras penas e com sacrifício, o seu próprio caminho. O exemplo desta produção é maravilhoso neste sentido. Precious, fruto de um casal pelo qual é difícil listar adjetivos, resolve dar o exemplo com a sua maternidade, formando uma família real da melhor forma possível.

Impressionante também o desprendimento da garota em não querer se vingar e, aparentemente, não nutrir nem mesmo ódio pelas pessoas que praticaram todos aqueles atos desumanos contra ela. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em uma das sequências finais e mais impressionantes do filme, quando a assistente social Sra. Weiss (Mariah Carey) junta, frente à frente, Precious e Mary, o que a adolescente parece sentir pela mãe é uma mescla de pena e desprezo. Mas para ela, o importante é que as duas mantivessem distância suficiente para que, finalmente, Precious conseguisse ter a sua própria vida – com valores muito maiores do que os seus progenitores um dia tiveram.

O roteiro deste filme funciona com perfeição. Mérito de Geoffrey Fletcher, que fez uma adaptação inspiradíssima do livro de Sapphire. Inicialmente, a história de Precious se assemelha a de tantas outras garotas norte-americanas que sonha com o estrelato, com a fama, o sucesso e em ser desejadas. Mas não demora muito para que o espectador mergulhe em sua trágica realidade. Primeiro, o assunto da gravidez. Depois, as cenas de violência praticadas pelo pai (misteriosamente desaparecido) e a mãe (que compete com a filha e quer sempre diminuir a garota).

Para acompanhar este texto matematicamente planejado para ir surpreendendo pouco a pouco o espectador, está o trabalho decisivo do diretor Lee Daniels. Ele privilegia, o tempo todo, a interpretação dos atores. Com isso, Daniels valoriza cada detalhe da impressionante estréia de Gabourey Sidibe nos cinemas, valorizando cada aspecto de sua revolta, estado letárgico e dedicação amorosa aos filhos. Outros atores também passam pelo mesmo destaque, merecendo uma atenção especial, pela forma com que roubam a cena cada vez que aparecem, Mo’Nique e Paula Patton.

Algumas vezes, contudo, esta tentativa frequente do diretor em tornar-se “invisível” durante o trabalho dos atores, acaba resultando em câmeras trêmulas e/ou um pouco descontroladas (vide a conversa de Precious com a diretora do colégio do qual ela será expulsa) ou closes um pouco rápidos demais. Mas estes são apenas detalhes de um trabalho que, no geral, teve um resultado muito bom – especialmente no que se refere a captar o melhor das interpretações essencialmente femininas da história. Daniels também consegue a dinâmica e o tom exatos nos flashbacks e nas sequências de fantasia/sonhos da protagonista. Tudo se justifica e nada parece sobrar nesta história que, no fim das contas, é uma grande, bem escrita e emocionada crônica da realidade dura e cruel de uma adolescente que resolveu dar a volta por cima e buscar uma vida nova, apesar de tudo.

Um aspecto do filme me pareceu muito interessante: como Precious, assim como tantas outras garotas da sua idade, não conseguiam a devida atenção dos professores nas escolas. Elas eram marginalizadas em todos os graus possíveis. Algumas, pela cor de sua pele. Outras, por serem imigrantes, falarem diferente ou serem obesas. E apenas através do trabalho dedicado de uma professora, Srta. Rain, e do ambiente “propício” – composto por pessoas com as mesmas dificuldades – é que aquele grupo conseguiu avançar. Aprendeu a ler, a escrever e, pouco a pouco, foi conseguindo avançar nos estudos. Um grande exemplo – e que, certamente, pode ser aplicado em muitos lugares, porque esta realidade, infelizmente, ainda acontece.

Outro aspecto curioso tem a ver com o tipo de idéias preconceituosas que uma criança ou um jovem podem aprender com seus pais – e o efeito que elas tem na sociedade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Precious foi educada para temer e abominar aos casais homossexuais. Mas quando ela percebe o amor, o respeito e o carinho que existem entre a Srta. Rain e sua companheira, Katherine (Kimberly Russell) e, também, em relação a ela, Precious reve seus conceitos. Exercício esse que deveria ser mais fácil das pessoas, algumas vezes criadas cheias de preconceito e de forma absurda, fazerem. No mais, não deixa de surpreender como a história de Precious, já complicada, ainda se mostra mais trágica quando ela descobre que está com Aids – doença transmitida por seu pai, que a estuprou por muitos anos. Ainda assim, ela foi capaz de escrever um livro sobre a sua história e, com isso, alertar a milhares (ou milhões, através do filme inspirado em sua obra) sobre a capacidade de alguns em buscar a destruição de inocentes aos quais eles deveriam se ocupar em proteger. Sua história, mais que “depressiva ou deprimente”, é um libelo de luta, coragem e capacidade de superação. Uma luz no fim do túnel, talvez, para alguns.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há tempos eu não assistia em um filme dois momentos tão emocionantes quanto os que Precious nos traz neste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, quando a protagonista revela para sua professora e para suas colegas de classe que descobriu ser portadora do vírus HIV. Depois, quando a assistente social Sra. Weiss coloca, frente à frente, Precious e a mãe e, de quebra, questiona a mulher sobre os abusos sexuais sofridos pela filha. Impressionante, nestes dois momentos – os pontos altos da história -, a intepretação das atrizes, o texto e a forma com que o diretor se posicionou para exprimir o melhor de cada cena. Lee Daniels capricha nos closes neste filme – o que ressalta o seu desejo de potencializar as emoções dos atores.

Além de Mariah Carey, outro nome forte do showbizz norte-americano faz um papel secundário – ainda que importante – neste filme. Ele é Lenny Kravitz, que interpreta o enfermeiro John. Tanto Carey quanto Kravitz se saem bem em seus papéis, o que, admito, me surpreendeu positivamente.

Aspectos técnicos que funcionam muito bem neste filme: a edição de Joe Klotz; a direção de fotografia de Andrew Dunn (que faz um importante trabalho com lentes e saturação para diferenciar tempos, situações e realidade/sonho); a direção de arte de Matteo De Cosmo; a decoração de cenários de Kelley Burney e a trilha sonora de Mario Grigorov.

Precious estreou no Festival de Sundance, como eu disse antes, em janeiro deste ano. No festival, um dos mais importantes do cinema alternativo nos Estados Unidos, o filme se consagrou embolsando o Grande Prêmio do Júri, o Prêmio do Público como melhor filme e ainda um prêmio especial do júri para a interpretação de Mo’nique. Merecedíssimo. Especialmente porque Precious teria custado apenas US$ 10 milhões (um orçamento baixíssimo para os padrões de Hollywood).

Ainda falando em prêmios, até o momento, Precious acumulou 19 – além de ter sido indicado a outros 26 prêmios. Além dos três conquistados no Festival de Sundance, merecem destaque os prêmios de Melhor Performance de Estréia para Gabourey Sidibe entregue pela respeitada National Board of Review; os prêmios do público dos festivais de San Sebastián e de Toronto; o prêmio de Novo Talento para Gabourey Sidibe no Satellite Awards; o prêmio de melhor atriz para Mo’nique e uma menção honrosa no Prêmio FIPRESCI do Festival de Cinema de Estocolmo; assim como os prêmios de melhor atriz coadjuvante para Mo’nique segundo as associações de críticos de Washington, Southeastern, Nova York, Los Angeles e Boston.

O livro que conta a história da “Precious real” teve a sua primeira edição publicada em 1996. O título original da obra era Push: A Novel. Este ano, com o lançamento do filme, uma nova edição foi lançada, agora com o título Precious: Based on the Novel Push by Sapphire, ainda que se trate, claro está, do romance Push – e não de uma adaptação dele como o título sugere.

Precious foi filmado em apenas cinco semanas. Inicialmente, havia sido escalada para interpretar a personagem da Sra. Weiss a atriz Helen Mirren. Para a escolha da garota que interpretaria Precious foram entrevistadas pouco mais de 400 adolescentes em diferentes partes dos Estados Unidos. Gabourey Sidibe se apresentou para os testes apenas seis semanas antes do filme começar a ser rodado. E uma baita coincidência: a garota havia lido o livro Push anos antes porque sua mãe, a cantora Alice Tan Ridley, havia sido cotada para interpretar o papel de Mary no filme – em um projeto que nunca se concretizou.

Outra curiosidade do filme: na sequência em que Precious dá um tapa em Consuelo (Angelic Zambrana) depois que ela a chama de gorda, a reação das demais jovens em cena foi realmente improvisada. É que o diretor Lee Daniels havia dado a instrução para que Gabourey Sidibe desse o tapa mais forte que pudesse na companheira de cena sem que as demais soubessem. Típica ação de quem busca realismo em cena.

Falando das garotas que dividem a sala com Precious, vale citar o nome de suas atrizes: Chyna Layne interpreta a Rhonda, uma jamaicana que procura aprender bem o idioma inglês; Stephanie Andujar interpreta a Rita, uma garota que nasceu no Harlem e que era viciada em drogas antes de recomeçar a estudar; Amina Robinson interpreta a Jermaine, uma jovem do Bronx que buscou a escola alternativa para “fugir dos problemas” de seu bairro; e Xosha Roquemore interpreta a figuraça Joann, uma garota que mantêm a panca de estrela todo o tempo.

Como comentei anteriormente, Precious teria custado aproximadamente US$ 10 milhões. Até o dia 20 de dezembro deste ano, o filme havia arrecadado pouco mais de US$ 40 milhões apenas nos Estados Unidos – conseguiu um belo lucro.

Este filme, aparentemente, parece ter agradado muito mais aos críticos que ao público. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram apenas a nota 7,6 para a produção. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 137 críticas positivas e apenas 14 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 91%. Um dos textos que elogia Precious é o de Lisa Kennedy, do Denver Post. Ela ressalta como Lee Daniels é “destemido” e como ele se aproxima do escritor Toni Morrison ao trabalhar o realismo de forma mágica. A crítica ressalta, por exemplo, como o diretor é sutil ao apresentar idéias como a de que, ao ser chamada para a sala de aula da escola alternativa, Precious parece estar caminhando lentamente para a luz – o que, de fato e simbolicamente, ela está fazendo.

O crítico Peter Howell, do The Star.com, considerou Precious um dos melhores filmes de 2009. Nesta sua crítica, Howell classifica o filme como implacável e comenta que, ainda que a história pareça “insuportavelmente triste”, ela também parece “completamente honesta”. Uma bela definição, eu diria. O crítico ainda ressalta o uso de ângulos de câmera “únicos” pelo diretor de Precious que, por essas escolhas, ressalta a “melancolia urbana, fazendo com que sua lente às vezes pareça uma criança olhando com admiração para o mundo”.

Achei interessante algumas reflexões da crítica de Colin Covert do Star Tribune. Ela comenta, por exemplo, como este filme consegue mostra um pouco de humanidade no “monstro” chamado Mary, uma mulher que tenta reinar em seu apartamento sujo e pequeno e que sente um ciúmes doentio da filha. Ao mesmo tempo, segundo Covert, o filme se recusa a vestir a personagem de Precious com um manto de “nobreza trágica”. Em outras palavras, a adolescente que sofre abusos sexuais e psicológicos dos pais é a mesma que rouba mercadorias quando está com fome e que, por grande parte do filme, se mostra uma vítima passiva.

Para quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre a história que inspirou este filme, sugiro esta entrevista de Sapphire, que escreveu o livro Push. Ela revela, por exemplo, que a personagem central de sua obra não é inspirada em uma pessoa específica. Trata-se, sim, de uma composição de histórias reais. Sapphire comenta, por exemplo, que conheceu, enquanto lecionava, uma garota que teve um filho do próprio pai quando tinha 12 anos de idade. Essa mesma estudante, posteriormente, revelou que tinha Aids e que queria escrever a sua história. Mas Sapphire, em seu lugar, escreveu um livro que mescla a história daquela estudante e de tantas outras adolescentes excluídas da sociedade. Esta outra reportagem traz mais informações sobre Sapphire e seu livro. Nela, por exemplo, fiquei sabendo que a autora começou a escrever Push em 1993, quando ela estava prestes a deixar o seu trabalho como professora de leitura corretiva no Harlem. A autora recusou repetidamente as propostas para adaptar o seu livro para os cinemas, até que ela assistiu aos filmes anteriores de Lee Daniels e resolveu voltar atrás.

A apresentadora Oprah Winfrey e o diretor, roteirista e produtor Tyler Perry sairam em defesa do filme e ajudara a promovê-lo – especialmente quando muitos começaram a atacá-lo por “explorar” a pobreza e a questão da discriminação racial.

CONCLUSÃO: A história de uma adolescente marginalizada por distintas razões e de diferentes maneiras e que, mesmo assim, batalha por um lugar ao sol. Com algumas das sequencias dramáticas mais impactantes do ano, Precious coloca à prova o espectador com uma história duríssima. O roteiro (e aparentemente o livro no qual ele é inspirado) não alivia em momento algum. O diretor, Lee Daniels, equilibra o realismo extremo – com algumas cenas de violência bastente fortes – com a fantasia e o lirismo. Uma grande peça de cinema, destinada para pessoas que não temem o mergulho em uma das realidades mais difíceis já imaginadas. Misturando histórias reais e ficção, Precious traz interpretações arrebatadoras, um roteiro e uma direção inteligentes e, porque não, uma história edificante – no melhor exemplo “uma luz em meio às trevas”.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Precious tem boas chances de emplacar algumas indicações na maior premiação da indústria do cinema de Hollywood. Um indicativo disto, além das premiações de diferentes associações de críticos dos Estados Unidos, foram as suas três indicações no Globo de Ouro. Precious concorre na conhecida “prévia do Oscar” nas categorias de Melhor Filme – Drama, Melhor Atriz para Gabourey Sidibe e Melhor Atriz Coadjuvante para Mo’nique. Não considero o filme uma “carta fora do baralho” na categoria principal do Globo de Ouro, mas acho que ele não terá a força suficiente para derrubar a outros fortes candidatos. Por outro lado, acho quase certa a vitória de Mo’nique na categoria de atriz coadjuvante – ainda que, honestamente, ela terá que enfrentar pesos-pesados para levar o prêmio para casa. Gabourey Sidibe terá uma parada igualmente dura, tendo que derrotar a veterana Helen Mirren e a revelação Carey Mulligan. Em outras palavras, Precious pode surpreender com um, dois ou três prêmios no Globo de Ouro – assim como pode sair da premiação de mãos vazias.

Por outro lado, ao assistí-lo, acho que as chances do filme em chegar a uma indicação no próximo Oscar são muito grandes. Como este ano serão 10 filmes na disputa pela estatueta de melhor produção do ano, eu não me surpreenderia se Precious aparecesse ao lado de Avatar, Invictus, The Hurt Locker e outros. A indicação de Mo’nique, para mim, é certa. Gabourey Sidibe também pode ser indicada – mas suas chances são menores. O texto de Geoffrey Fletcher perfeitamente poderia ser indicado na categoria Melhor Roteiro Adaptado. De todas estas possíveis indicações, eu diria que apenas Mo’nique teria alguma chance real de levar um Oscar para casa.

District 9 – Distrito 9

Eu não poderia fechar o ano de 2009 sem assistir a um dos principais fenômenos do cinema deste ano. Para ser franca, alguns “fenômenos” eu devo dispensar – ou deveria, como The Hangover. Outros, como Precious, Paranormal Activity e um curto etcétera, devo assistir nas próximas semanas. Mas District 9, este sim, não poderia ser adiado por muito mais tempo. Antes de assistí-lo, ouvi falar muito a seu respeito. Para alguns, ele revolucionou o filme sobre alienígenas. Para outros, ele é o melhor filme do ano. Mesmo com toda a expectativa que este tipo de argumentos pode despertar, gostei muito do filme. Ele realmente traz um roteiro muito criativo e que transforma o que o cinema tinha feito até agora sobre o tema “invasões alienígenas”. De quebra, District 9 não deixa de ser uma alegoria sobre segregação social, racial (ou, neste caso, de espécies) e sobre a exploração dos mais “fracos” por pessoas que querem tirar proveito deles e/ou corrompê-los.

A HISTÓRIA: Wikus van de Merwe (Sharlto Copley), funcionário da empresa MNU que trabalha no departamento de relacionamento de humanos com alienígenas, se prepara para falar para as câmeras. Até então um funcionário como outro qualquer, Wikus acaba ganhando uma importante missão da noite para o dia: comandar o processo de notificação dos alienígenas que vivem no chamado Distrito 9. Esse local foi criado de forma provisória, 20 anos antes, no subúrbio de Johanesburgo, para servir de abrigo e local de atendimento emergencial de um grupo de alienígenas que foram encontrados em uma nave parada sobre parte da cidade. Como não apareceu nenhuma missão de resgate dos alienígenas e nenhum governo da cidade encontrou uma saída melhor para este problema, o grupo de extraterrestres ficou no local. Mas depois de duas décadas e uma série de problemas – inclusive crescentes enfrentamentos entre humanos e aliens -, a MNU é designada para a missão de transferir os extraterrestres para outro local, mais retirado, na cidade. Wikus fica responsável por essa missão e acaba se contaminando no processo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a District 9): A grande qualidade deste filme, sem dúvida, é o roteiro incrível que o diretor Neill Blomkamp escreveu ao lado de Terri Tatchell. Quem, além deles, poderia imaginar uma “invasão” alienígena tão diferente de tudo que já havíamos visto no cinema? Ao invés de chegarem à Terra com planos mirabolantes de conquista, dominação e/ou extermínio da raça humana, os aliens chamados perjorativamente de “camarões” de District 9 aportaram por aqui por uma falha mecânica. Tudo o que Christopher Johnson e outros aliens querem é sobreviver e, preferencialmente, conseguirem alguma maneira de voltarem para “casa” deixand os humanos e suas vidas para trás. Ainda assim, e isso é uma qualidade do roteiro, os alienígenas não são completamente um grupo de vítimas.

District 9 torna a chegada de uma nave de outro planeta um problemão social, científico e militar. E para a sorte de nós, espectadores, o roteiro de Blomkamp e Tatchell foge do “lugar-comum” dos filmes do gênero que, sempre, tornavam os aliens o símbolo da maldade ou da inocência. Em District 9, a exemplo dos humanos, eles são capazes de praticamente tudo. Do bem, do mal, dos atos mais degradantes ou dos gestos mais heróicos. Por serem tão parecidos com os humanos – provavelmente por mimetismo – no comportamento e, na aparência, tão diferentes, eles passam a ser cada vez mais desprezados pelas pessoas que, com o passar do tempo, vê a presença deles como uma ameaça na medida em que os aliens passam a “competir” com os terráqueos pelas ajudas de governos e organizações não-governamentais.

Neste ponto, District 9 também se mostra um filme capaz de levantar reflexões e debates muito interessantes. Como ocorre com grupos de imigrantes/refugiados em diferentes partes do mundo, o que incomoda mais aos habitantes dos lugares “invadidos” é a disputa que os “intrusos” despertam por saúde, assistência social, educação, segurança pública e todas as ajudas possíveis que podem surgir de governos e ONGs. Para alguns, District 9 seria uma alegoria do apartheid vivido pelos negros na África do Sul (inclusive pelo fato da história do filme “ironicamente” se passar no mesmo país). Certamente o assunto está inserido na história, mas o roteiro acaba ampliando este tema para um campo muito mais amplo, tanto no campo territorial quanto no histórico. As segregações por credo, raça, origem social ou territorial continuam sendo feitas hoje em dia, enquanto escrevo estas linhas, em diversos países pelo mundo.

Por isso mesmo, os temas de District 9 se mostram tão atuais. Outro deles é o debate sobre o sentimento que uma pessoa tem de pertencer a um grupo ou outro da sociedade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, Wikus tem muito claro que ele faz parte dos “donos da terra”, os humanos superiores que fazem “a caridade” de aceitar os alienígenas em sua cidade. Desastrado, arrogante, sedento por aparecer bem frente às câmeras, ele provoca um ato de imperícia com um artefato extraterrestre que lhe vai custar caro. E assim, ele entra em uma crise de identidade que tem tanto a ver com a nossa época, dos habitantes do planeta Terra do século 21. Sem saber o quanto ele ainda era humano ou alienígena, Wikus toma medidas desesperadas e passa a ser visto também com desconfiança por seus “pares” (humanos, claro). Afinal, mesmo antes do final (e apesar dele), Wikus era mais humano ou alienígena? A falta de definição clara sobre a própria identidade parece ser uma constante nos dias atuais.

Mas a série de reflexões do filme não termina por aí. Wikus acaba sendo objeto de cobiça de governos, exércitos, poderosos “letrados” e iletrados. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vide os poderosos envolvidos com a empresa MNU e o “comandante dos nigerianos criminosos” que acredita que, ao comer pedaços dos alienígenas, conseguirá “os seus poderes”. Todos buscam, através de Wikus, o único “exemplar” de uma mutação humana/alienígena, poder – conseguido através do manejo das armas trazidas pela nave extraterrestre. Como sempre, a corrida armamentista e os bilhões de dólares que ela movimenta está por trás de torturas, abusos de poder e mortes.

Para completar o quadro de pontos curiosos do filme, aparecem os nigerianos e seu comércio ilegal de comidas de gato (sim, o roteiro também tem umas mega ironias como esta), prostituição e demais recursos de “má índole” que são, no fundo, uma forma de exploração dos alienígenas isolados em um gueto. Sempre alguém que se acha um pouco superior a outro consegue subjugá-lo e explorá-lo – mesmo que, no caso dos nigerianos, eles sejam vistos como “inferiores” pelos demais humanos da região. Mas aquele que é explorado e humilhado, muitas vezes, apenas reflete em alguém mais fraco os mesmos mecanismos de dominação – algo que pode ser visto tanto no ceio de algumas famílias, com os papéis sendo desempenhados por pais e filhos, quanto por nações e governos.

Por tudo isso, District 9 é um filme excepcional. Muito criativo e cheio de nuances e detalhes curiosos. E o melhor: todos estes questionamentos e o belo arsenal de informações que contextualizam o filme são apresentados para o espectador de forma muito natural. Como tantos outros filmes produzidos nos últimos anos, District 9 joga com a complicada divisão entre ficção e realidade. Vídeos feitos pela MNU, noticiários de televisão, vídeos com depoimentos de especialistas e pessoas envolvidas com o caso de Wikus procuram dar uma sensação de realismo para a história. Assim como o uso constante de câmeras junto aos atores (muitas vezes, é utilizada a já conhecida “câmera tremida” que acompanha cenas de ação). Por tudo isso, tecnicamente falando, a direção de Neill Blomkamp apenas segue a tendência de filmes que brincam com esta noção de documentário/ficção.

Um ponto muito positivo do filme, também, é o de utilizar os efeitos especiais para complementar a história – e não para roubar a cena e o protagonismo do roteiro e dos atores. Os aliens em cena convencem e o uso de suas armas não parece exageradas. Tudo, basicamente, segue a idéia de “realismo” extremo. Mas para não dizer que tudo são flores… admito que não consigo dar um 10 para este filme por uma única razão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei uma boa forçada de barra aquele recurso do “herói-que-não-se-importa-com-nada-além-do-próprio-nariz” e que, na última hora, resolve ser magnânimo. Não acho que Wikus teria abandonado, de maneira tão displicente, a sua única chance de conseguir uma cura e, pouco depois, teria se dado conta que estava tornando um pequeno alienígena órfão. Achei uma forçadinha de barra desnecessária para um filme que estava indo tão bem. Mas, diante de todas as outras qualidades da história, este é apenas um detalhe.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acredito que tudo praticamente já foi dito sobre este filme. Sem dúvida, muitos comentaram sobre District 9 antes do que eu. Mas como perdi o momento da “estréia” deste filme, quis pelo menos parar de ignorá-lo até o final deste ano. Sei que a maioria de vocês, meus caros leitores, já devem tê-lo assistido. Gostaria de saber as suas impressões sobre esta produção – acertos, erros, surpresas, o quanto ele é entretenimento e o quanto provoca reflexões, e por aí vai.

District 9 começou a surpreender o mundo no dia 13 de agosto deste ano, quando estreou na Nova Zelândia, seu país de origem, e em outros seis países. No dia seguinte, ele chegou às salas de cinema dos Estados Unidos, país que co-financiou a produção, do Canadá e da Estônia. Depois, pouco a pouco, ele foi chegando a outras nações. Divulgado pela propaganda boca a boca e  por uma engenhosa fórmula de “propaganda viral”, District 9 conseguiu, até o dia 25 de outubro, a respeitável bilheteria de US$ 115,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Um belíssimo resultado para um filme que teria custado aproximadamente US$ 30 milhões.

Segundo esta reportagem do jornal espanhol El País, District 9 foi precedido, nos Estados Unidos, por uma interessante campanha publicitária que espalhou, por inúmeras ruas de diferentes cidades, cartazes que pediam a colaboração dos cidadãos para denunciar a presença de alienígenas. Como resultado, a Sony recebeu milhares de ligações telefônicas que davam informações sobre a aparição de extraterrestres. 😉 Na mesma matéria do El País, o diretor Neill Blomkamp comenta: “Essecialmente o filme salta da nossa história, que é obviamente fictícia, para uma espécie de modo ultrarealista”, disse o diretor, se referindo ao tom documental do filme.

O filme de Neill Blomkamp caiu no gosto de público e de crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para District 9, enquanto que os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e apenas 23 negativas para a produção (o que lhe garante uma aprovação de 90%).

Muitos filmes exploram com eficácia os recursos da internet para divulgar sua produção mas, honestamente, poucos me pareceram tão criativos e interessantes quanto o site oficial de District 9 (que pode ser acessado no início deste texto). Além da página dos Estados Unidos, os curiosos podem conferir a versão brasileira (infinitamente menos rica em detalhes, mas também bem feita visualmente).

Lendo as notas de produção do filme é que fiquei sabendo o significado da sigla MNU: União Multinacional, uma empresa privada que conseguiu o controle sobre o District 9 e a vida dos alienígenas.

Este filme, até o momento, ganhou quatro prêmios e foi indicado ainda a outros nove. Entre os que ganhou, destaque para aqueles entregues pelas associações de críticos de Boston e Austin que premiaram a estréia do novo cineasta Neill Blomkamp. O diretor nascido em Johanesburgo há exatos 30 anos teve experiência, anteriormente, apenas com curtas-metragens. Quatro deles marcaram a trajetória de Blomkamp antes deste seu primeiro longa.

Dos prêmios aos quais ele foi indicado – mas que ainda não apontaram seus vencedores -, sem dúvida, o Globo de Ouro é o mais importante. District 9 concorre na categoria de Melhor Roteiro. Diante dos concorrentes – até o momento, assisti apenas a Inglourious Basterds e The Hurt Locker -, eu acho que ele merece ganhar. Ainda que sejam melhores que ele, Inglourious Basterds e The Hurt Locker se destacam por seus roteiros, é claro, mas especialmente por suas respectivas direções. Por sua vez, District 9 tem como sua principal qualidade o roteiro – por isso mesmo, merece ganhar nesta categoria do Globo de Ouro. Bem, digo isso sem ter assistido, ainda, a Up in the Air e I’ts Complicated.

O sucesso deste filme deve muito a um sujeito chamado Peter Jackson. Ele produziu District 9 e foi o grande responsável por torná-lo tão conhecido. A parceria entre Jackson e o diretor Neill Blomkamp começou há dois anos, quando o diretor da trilogia The Lord of the Rings contratou Blomkamp para adaptar o game Halo para os cinemas. Como o projeto acabou naufragando, segundo esta reportagem, por problemas entre as produtores envolvidas, Jackson perguntou para seu contratado se ele teria outro projeto. Sim, ele tinha: a idéia amplificada de seu primeiro curta, Alive in Joburg, de 2005. Em outras palavras, District 9.

Tecnicamente o filme funciona muito bem. Destaque especial para a edição de Julian Clarke, a direção de fotografia de Trent Opaloch e os efeitos especiais da equipe liderada por David Barkes. Dos atores, destaque para o protagonista – Sharlto Copley faz um grande trabalho em cena, imprimindo toda a fragilidade, despreparo, coragem e determinação de seu personagem. Mas vale citar ainda o trabalho de apoio de Vanessa Haywood como Tania Van De Merwe, esposa de Wikus; Jason Cope como Gray Bradnam, o primeiro a dar um “depoimento” sobre a presença dos alienígenas em Johanesburgo (no filme ele desempenha o papel de correspondente da UKNR); Nathalie Boltt como a socióloga Sarah Livingstone; Marian Hooman em uma ponta como Sandra Van De Merwe, mãe do protagonista; Mandla Gaduka como Fundiswa Mhlanga, colega de Wikus que acompanha de perto toda a sua ação de campo no Distrito 9; Louis Minnaar como Piet Smit, chefe de Wikus e pai de Tania; e David James como Koobus Venter, o coronel do Exército sedento por eliminar alguns alienígenas – e que acaba perseguindo Wikus quando ele começa a se transformar.

CONCLUSÃO: Um filme que consegue equilibrar, de forma acertada e perfeita, entretenimento e reflexão. Com um dos melhores roteiros de ficção científica dos últimos anos, District 9 é um prato cheio para as pessoas que gostam de boas histórias. Concordo com todos que dizem que seu realizador, o diretor Neill Blomkamp, trouxe novos ares, subverteu e/ou reinventou o gênero de “invasão alienígena” da Terra. Nunca, tenham certeza, vocês viram os aliens desta maneira. 😉 De quebra, District 9 serve de alegoria para diversos processos de segregação que foram ou ainda são praticados pelo mundo. Um filme inteligente, divertido e contestador ao mesmo tempo. Cairá certamente no gosto de quem gosta de ficção científica e, talvez, dos curiosos de plantão. Tem suas cenas escatológicas, um bom grau de ironia/humor e, claro, muitos tiros e ação envolvendo alienígenas. Um filme do gênero bem acima da média.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Como a maior premiação de Hollywood este ano terá 10 filmes concorrendo na categoria de melhor produção do ano, não seria nada surpreendente se District 9 conseguisse uma vaguinha entre os indicados. Até o momento, levando os filmes que eu assisti e que tem boas chances de serem indicados, acredito que ele mereça chegar lá. Agora, sem dúvida, ele deverá ser finalistas na categoria Melhor Roteiro Original – na qual, francamente, ele seria um dos mais fortes candidatos. Ele pode ser indicado ainda em categorias técnicas como Melhor Maquiagem, Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Edição no Oscar 2010. Na categoria de Melhor Diretor, que seria outra possível, acho muito difícil o estreante Neill Blomkamp chegar – até porque, para isso, teria que deixar veteranos de fora. As melhores chances do filme, resumindo, são na categoria Melhor Roteiro Original e em algumas das categorias técnicas. Mas da mesma forma, District 9 pode sair de mãos abanando da premiação.

Up – Altas Aventuras

Um filme supercolorido, gostoso de assistir, divertido e que ensina bons valores. A Walt Disney volta a se candidatar a um Oscar com Up, filme dirigido e escrito por Pete Docter com a colaboração de Bob Peterson. Voltado especialmente para o público infantil, este novo produto do tradicional estúdio de animação estadunidense se saiu muito bem nas bilheterias em 2009 – mas não ganhou os prêmios necessários ainda para torná-lo favorito na disputa à cobiçada estatueta dourada, ainda que ele esteja no caminho para isto. Como o título para o mercado brasileiro muito bem define, Up explora a veia dinâmica das aventuras para prender a atenção do público. Como um plus desta história, o espectador recebe ainda algumas pílulas de aprendizado sobre a importância de se cumprir algumas promessas, a beleza em auxiliar ao próximo e em se ter respeito com a Natureza – assim como a de que as maiores aventuras, muitas vezes, residem nos difíceis atos diários que nos levam a sermos e fazermos outros felizes.

A HISTÓRIA: Na sala de um cinema qualquer, Carl Fredricksen (voz de Jeremy Leary, quando criança, e de Edward Asner na fase adulta) acompanha um informe noticioso sobre a última viagem de exploração de seu ídolo, o famoso aviador Charles Muntz (voz de Christopher Plummer). O garoto que usa óculos e alguns aparatos de aviador, imitando Muntz, fica maravilhado com as imagens das Cataratas do Paraíso, situadas no “mundo perdido” da América do Sul. Quando está voltando para casa, Carl escuta a voz de uma outra criança, em um casa abandonada, que simula a narração de mais um informe sobre Muntz e seu dirigível Espírito Aventureiro. Entrando na residência, ele conhece a Ellie (voz de Elie Docter quando criança), uma garotinha extrovertida com quem ele irá se casar no futuro. Os dois vivem uma vida juntos, até que Carl fica sozinho e, finalmente, resolve cumprir a sua promessa de “levá-los” até as Cataratas do Paraíso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Up): Este filme pode se enquadrar na categoria de produções “excesivamente” coloridas comentada pelo diretor Adam Elliot no material de divulgação do excelente Mary and Max (comentado aqui no blog). Em Up, praticamente todos os momentos são repletos de cores e de “diversão”. Somem a isso um enredo que prima pela simplicidade, o que garante que ele possa ser entendido por pessoas de qualquer idade, e temos a fórmula perfeita para agradar às crianças. Como sempre nos filmes da Disney – ou quase sempre, vai – Up teve um grande período de preparação e pesquisa e, claro, prima pela qualidade técnica. Com algumas cópias produzidas  para cinemas em 3D, o filme dirigido por Pete Docter abriga as principais técnicas do cinema de animação moderno. Mas mais importante que as técnicas utilizadas para fazer o filme, o que interessa para o público é a sua história e a forma com que ela é contada.

Logo de largada, Up trata de um tema cada vez mais presente no cotidiano de crianças (e de alguns adultos): a admiração “cega” por determinado ídolo. Para alguns, o exemplo máximo de admiração é encarnado pelo pai ou pela mãe. Para outros, esta figura do ídolo é representada por um artista ou por um atleta. O importante é que esta pessoa parece abrigar todas as qualidade de um ser humano digno de admiração – e nenhum defeito. Claro que, para muitos, o ídolo um dia apresenta os seus “pés de barro”. Ou, em outra palavras, um adulto com os pés no chão descobre, mais cedo ou mais tarde, que não existem indivíduos que devem ser idolatrados – porque, afinal, todos são passíveis de erros e de equívocos.

Carl, por exemplo, acaba descobrindo isso quando tinha idade para ser vovô. A reflexão sobre o “erro” que a mídia gosta de alimentar, de criar “ídolos perfeitos”, salvos de defeitos, é apenas um dos pontos interessantes do roteiro de Up. Outro é sobre a importância dos sonhos na vida das pessoas. Para a sorte de Carl, ele não focou todas as suas energias em uma idealizada viagem para as Cataratas do Paraíso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele e a esposa viveram uma vida feliz e compartilharam este desejo mas, Carl descobrirá quase no final do filme, o fato dele não ter cumprido a promessa de levar Ellie até as cataratas não tornou a vida dela menos interessante ou “cheia de aventuras”. Para ele, sem dúvida, foi importante cumprir a sua promessa e viajar até o local anteriormente explorado por Muntz. Com isso, ele fechou um ciclo de sua vida e, naquele lugar selvagem e multicolorido, pôde começar outro – desta vez acompanhado do peralta Russell (voz de Jordan Nagai).

Uma grande lição que Up nos ensina é que, mesmo quando perdemos o “grande amor da nossa vida” – para a inevitável morte -, a vida sempre pode nos surpreender e recriar novos caminhos. O filme talvez funcione como um importante incentivo para vovôs e vovós que tem dúvidas sobre se a vida continua valendo a pena depois que eles perderam os seus companheiros de uma existência inteira. Muito interessante, aliás, a escolha de um vovô como protagonista desta história. Não é todos os dias – ainda mais em filmes de animação – que um senhor de idade avançada protagoniza um conto de aventura. Mas sabemos, especialmente em países em que boa parte da população passou dos 60, que a chamada “melhor idade” movimenta economias e “faz acontecer”.

Outra qualidade de Up é que ele valoriza os trabalhos voluntários e o respeito pela Natureza. Ainda que, convenhamos, os dois podem ser questionados pela visão que assumem no filme. Para começar, inicialmente, Russell parece estar mais interessados na insígnia que vai ganhar de seu grupo de escoteiros do que em realmente ajudar a Carl em alguma atividade. O que não deixa de ser uma “alfinetada” interessante no “assistencialismo” de muitos grupos – e no recurso de “premiações” por belos atos de algumas organizações. Se esse tipo de sistema funciona como no filme, apenas para “dar a partida” para um relacionamento de comprometimento verdadeiro, maravilha.

Outra alfinetada pode ser vista na questão do “respeito” pela Natureza. Se por um lado Russell parece maravilhado com a ave exótica que ele e Carl encontram no país distante e a trata como um “souvenir”, por outro Muntz trata seus cães como verdadeiros “escravos” de sua segurança pessoal. Isso tudo acontece no filme ao mesmo tempo em que Carl e Russell passam, pouco a pouco, a admirar e respeitar a Natureza verdadeiramente. O retrato que os diretores fazem da vida selvagem na América do Sul, aliás, é digno de admiração. As paisagens são deslumbrantes e ricas em detalhes. Um belo trabalho, sem dúvida.

E, para finalizar, Carl ensina outra grande lição: o desprendimento de “coisas materiais”. Ele não se importa em perder a casa que comprou e reformou com Ellie para salvar Russell e seu novos amigos. Afinal, como ele mesmo disse, ela era “apenas uma casa”. Seria uma revolução social se todos se dessem conta disso, que o que realmente levamos pela vida (e além dela) são os bons sentimentos e lembranças, o amor, a amizade e o respeito pelos demais – pessoas e Natureza. O restante é apenas a materialização de sonhos e conquistas que vão desaparecer, mais cedo ou mais tarde. Por tudo isso, Up é um filme carregado de belas mensagens, que conta com dois protagonistas/heróis bastante incomuns – um avozinho inicialmente ranzinza e um garotinho escoteiro gordinho – e, como pede o merchandising, um animal de estimação perfeito para virar diferentes objetos de colecionador (o cão Dug, com voz do diretor Bob Peterson).

Mas para não dizer que tudo em Up funciona à perfeição, achei uma forçada de barra o vilão da história e seus “cúmplices”. Nem tanto pelo aparato tecnológico que permite que os cães verbalizem as suas emoções e inteligência, mas especialmente pela falta de clareza dos objetivos de Muntz. Como ele poderia estar décadas naquele ambiente selvagem, orquestrando rondas diárias de busca da ave rara, e não ter encontrado o seu alvo? E a troco de quê ele silenciava todo e qualquer explorador que chegava na região? Estaria louco? Esta alternativa talvez seja a única que não transforma o personagem em um completo desastre. Mas ainda que a insanidade justifique os seus atos, o personagem de Muntz é um tanto raso demais para o filme. Se bem que, verdade seja dita, Up foi feito para ser simples, colorido e divertido. Ele não chega nem perto da profundidade de filmes como Mary and Max ou o premiado com o Oscar Wall-E.

NOTA: 8,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de criar a história, escrever o roteiro e co-dirigir Up, Pete Docter foi responsável pelo texto genial do premiado Wall-E. Além disso, Docter dirigiu Monsters, Inc e dois curtas: Winter (em 1988, seu primeiro filme) e Mike’s New Car. Seu colega na direção de Up, Bob Peterson, está estreando nesta função com a história de Carl e Russell. A experiência maior de Peterson vem da carreira de roteirista e, especialmente, por seu trabalho como intérprete dos personagens dos filmes de animação. Ele escreveu os roteiros de Finding Nemo, Ratatouille e do curta Exploring the Reef, além de ter emprestado a sua voz (em diferentes nuances) para personagens de 12 produções (incluindo Up).

O departamento de arte do filme contou com oito profissionais. O grupo foi liderado pelo coordenador de produção Erik Langley. O departamento de efeitos visuais, contudo, tem uma lista de integrantes muito mais extensa. No total, 68 profissionais foram envolvidos no trabalho de produzir toda a complexidade de efeitos visuais de Up.

Up estreou em maio deste ano no Festival de Cannes. Três dias depois, ele entrou em cartaz nos Estados Unidos e, em junho e julho, chegou a dezenas de países pelo mundo. Até o momento, o filme esbanja uma bilheteria acumulada de quase US$ 293 milhões apenas nos Estados Unidos. Um lucro bastante bom para um filme que custou respeitáveis US$ 175 milhões.

O filme também se saiu muito bem na avaliação do público e da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para Up, enquanto que os críticos que tem seus textos linkados pelo Rotten Tomatoes dedicaram 244 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação espantosa de 98%.

Até o momento, Up recebeu oito prêmios – e foi indicado ainda a outros 21. Entre os que levou para casa, destaque para os de Melhor Filme de Animação entregues pelo National Board of Review e pelas associações de críticos de Boston, Washington DC, Austin e Southeastern. Em 2010, Up pode se consagrar ainda com o Globo de Ouro de Melhor Animação, assim como pode levar para casa boa parte das categorias entregues pelo Prêmio Annie (dedicado apenas aos filmes de animação) e um Grammy pela trilha sonora de Michael Giacchino. No Globo de Ouro, como comentei anteriormente aqui no blog, Up concorre ainda na categoria de Melhor Roteiro Original.

Lendo a sinopse de Up distribuída pelos produtores é que eu reparei que nada mais, nada menos que 70 anos de vida separam os protagonistas deste filme. Carl tem 78 anos e o jovem Explorador da Floresta Russell, oito.

Para o produtor executivo do filme, John Lasseter, é um orgulho para a Pixar ter Up como o seu décimo filme. “Acredito que este filme é o mais divertido que realizamos e, também, um dos mais bonitos”, opinou o produtor. Certo que Up é bem bonitinho e acabado, mas não acho o melhor filme da Pixar. Vale lembrar que Up conseguiu envolver em um mesmo projeto as “majors” Disney e Pixar.

Lasseter também resume a mensagem principal de Up: “Walt Disney sempre disse: ‘Para cada risada deveria haver uma lágrima’. E eu concordo com ele. Os cineastas puseram o coração em sua última aventura, descreveram o amor que tinham Carl e sua falecida esposa e a amizade que nasce entre Carl e Russell. De fato, Carl descobre que a verdadeira aventura da vida não se encontra na viagem ou nas grandes façanhas, e sim nos laços de união cotidianos com os nossos amigos e familiares”.

O diretor Pete Docter explicou, no material de divulgação de Up, como surgiu a idéia do filme: “Às vezes, depois de um destes dias duros de trabalho em que te sentes totalmente sufocado pelas pessoas e o caos do mundo, eu sonhava em ser um náufrago em uma ilha deserta do Pacífico. Bob (Peterson) e eu começamos a trabalhar esta idéia e fizemos o perfil deste simpático personagem de um ancião, como os dos quadrinhos de George Booth publicados no The New Yorker, ao estilo dos geniais Spencer Tracy e Walter Matthau, esses personagens resmungões que sempre se fazem ser queridos. Nos ocorreu esta imagem de uma casa que flutuava pelos ares presa por balões, e que refletia o que estávamos buscando: uma forma de escapar do mundo. Mas não demoramos para nos darmos conta de que o mundo estava baseado no contato humano, e também é isso o que acaba descobrindo Carl”.

Up é dedicado a Joe Grant e, através dele, a todos os “anciãos” reais que ajudaram a criar os clássicos da Disney. Joe Grant formou parte da equipe que, em 1937, foi responsável pelo clássico Snow White and the Seven Dwarfs – e que, aos 90 anos, se tornaria amigo de Docter.

Uma curiosidade da equipe de produção de Up. Parte dos realizadores do filme viajou para a América do Sul para pesquisar diferentes paisagens e ambientes que, posteriormente, seriam retratados/recriados na telona. Eles viajaram pelas fronteiras da Venezuela, do Brasil e da Guiana. O mesmo ambiente que serviu de inspiração para o filme da Disney/Pixar foi, segundo Docter, utilizado por Conan Doyle como material para sua obra The Lost World. Em sua aventura particular, os diretores do filme cruzaram seus caminhos com “formigas assassinas” (que, segundo as notas de produção do filme, podem matar uma pessoa em 24 horas), mosquitos, escorpiões, rãs minúsculas e cobras venenosas. Na Venezuela eles se depararam com o Salto do Anjo, a catarata mais alta do mundo – com 979 metros de altura. Detalhes da vegetação, como espécies de árvores, folhagens e flores foram inseridas em Up.

A estética do filme seguiu a trilha de clássicos da Disney, como Peter Pan e Cinderella, resgatando o “sentido do estilo e a caricatura que tinham os clássicos”, segundo Docter. “Fizemos um verdadeiro esforço para caricaturizar os personagens e seus entornos. Na maioria dos filmes, os personagens costumam ter 1,20 metro de altura. Nosso herói, Carl, não tem mais que cinquenta centímetros de altura!”, revela o diretor.

Os ilustradores se inspiraram em artistas como Mary Blair, George Booth e nas ilustrações dos livros de contos de Martin Provensen. A palavra de ordem dos desenhistas e da equipe de criação teria sido “simplicidade”. Tanto que, segundo as notas de produção de Up, o desenho de seys protagonistas teria sido reduzido às figuras básicas do círculo e do quadrado. O desenhador de produção Ricky Nierva conta que a idéia era reduzir as coisas a suas essências mais puras. “Um quadrado simboliza o passado; o círculo representa o futuro. Um quadrado é algo estático, como um muro de pedras. Algo que não se move, e Carl é uma pessoa que está presa nos seus costumes desde que Ellie faleceu. Na hora de desenhar a Carl, nos demos conta de que era a primeira vez que tínhamos um personagem que pasa da infância à velhice. Quando criança, ele é um personagem muito mais circular e redondo, com mais curvas. Ellie também apresenta um desenho circular. Mas à medida que Carl vai crescendo, ele se converte em mais rígido. O desenho de Russell, ao contrário, apresenta uma forma ovalada e de linhas curvas, com todo o simbolismo dinâmico que isto representa”, revela Nierva.

Foi criado um departamento especial, sob a tutela de Bob Whitehill, para criar os efeitos e a “profundidade” da experiência 3D em algumas das cópias do filme. Up, aliás, é a primeira produção do gênero dos estúdios Disney e Pixar.

CONCLUSÃO: Um filme divertido, movimentado e com protagonistas surpreendentes – por serem tão diferentes entre si e um bocado nada usuais no cinema de animação. Up prima pela simplicidade e por uma série de “pequenas lições”. Feito para cair no gosto das crianças – e para os adultos que apenas querem se divertir e soltar algumas risadas aqui e acolá. Bem produzido, com um belo trabalho de pesquisa feito na América do Sul, este filme marca uma nova era na parceria da Disney e da Pixar, dois dos maiores estúdios de animação do mundo. Perto de produções como Wall-E e Mary and Max, contudo, ele se revela um filme de menor complexidade e projeção. Ainda assim, para o grande público, deve ser sinônimo de entretenimento e diversão garantidos.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Up é, sem dúvida, o favorito para ganhar o prêmio de Melhor Animação do ano na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Pessoalmente, este ano, prefiro a Mary and Max mas, infelizmente, o filme do diretor e roteirista Adam Elliot não tem o perfil para ganhar o Oscar. A única produção que pode ameçar o favoritimos de Up é a elogiada The Princess and the Frog, da Disney. Ambas concorrem ao Globo de Ouro. A que vencer, certamente, sairá como “carta marcada” para o Oscar. Coraline, 9, Cloudy With a Chance of Meatballs e todas as demais que são pré-candidatas à premiação correm por fora.

Os indicados ao Globo de Ouro (e o que eles nos dizem sobre o Oscar)

Hoje de manhã foi divulgada a lista de filmes indicados ao Globo de Ouro 2010. A Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood confirmou alguns favoritos a prêmios do ano – e trouxe à tona produções que tem uma qualidade menor, mas que contam com um belo lobby. Para resumir, alguns filmes tem todos os méritos para estar na lista, outros aparecem como “tapa-buracos”. Mas vamos aos indicados – em cada categoria, vou comentando sobre os favoritos e os que correm por fora na disputa pelos prêmios.

Sempre vale dizer que o Globo de Ouro é um importante termômetro para o próximo Oscar. Acredito que alguns dos favoritos apontados pelos jornalistas estrangeiros em Hollywood serão também os favoritos no Oscar 2010 – como é o caso de Nine, Inglourious Basterds e, possivelmente, Up in the Air. Agora, senti a falta de Invictus como um dos concorrentes ao prêmio de Melhor Filme na categoria Drama. Estranho, muito estranho. Também achei injusto The Soloist ser totalmente ignorado (assim como Taking Woodstock). The Hurt Locker, um filme excelente e que foi pouco badalado pelo público, conseguiu chegar lá – assim como o fenômeno Avatar.

Vamos aos indicados (os filmes que já tem críticas aqui no blog terão um link para seu respectivo texto):

MELHOR FILME – DRAMA

Comentários: Precious tem boas chances de levar o prêmio. Sem dúvida, ele foi um dos filmes mais badalados do ano – e o Globo de Ouro, diferente do Oscar, tem a coragem de premiar uma história potente como esta. Ainda assim, Up in the Air se destaca por ter conseguido emplacar seis indicações e, assim, pode surpreender – sem contar que ele já conseguiu dois prêmios importantes na temporada, os do National Board of Review e o do Washington DC Area Film Critics Association. Avatar e Inglourious Basterds são dois fenômenos de bilheteria – mas tenho minhas dúvidas se conseguiram um prêmio entre os críticos. Acho difícil. E The Hurt Locker sim, pode surpreender. O ótimo filme de Kathryn Bigelow ganhou, até o momento, três prêmios de associações de críticos nos Estados Unidos (os de Boston, Nova York e Los Angeles). O duelo principal, aparentemente, ficará entre The Hurt Locker e Up in the Air.

MELHOR FILME – COMÉDIA OU MUSICAL

Comentários: Nine, sem dúvida, é o filme mais badalado nesta categoria e deve chegar com muita força ao próximo Oscar. Agora, é certo que ele vai ganhar o Globo de Ouro? Provavelmente. (500) Days of Summer é um filme excelente, que merece estar entre os indicados, mas provavelmente ele não terá a força para derrotar a superprodução dirigida por Rob Marshall. The Hangover foi um dos fenômenos do ano, por isso merece estar entre os indicados, mas dificilmente ganhará algum prêmio. Julie & Julia pode surpreender – ainda que, pessoalmente, eu ache ele muito fraco para enfrentar os demais. Entre (500) Days of Summer e Julie & Julia, sem dúvida prefiro o primeiro. Como os leitores deste blog devem saber, achei Julie & Julia bem fraquinho – ou, em outras palavras, abaixo do esperado. It’s Complicated, apesar de elogiado, corre por fora. O Globo de Ouro, resumindo, deve ser de Nine mesmo.

MELHOR DIRETOR

Comentários: Apenas feras estão nesta disputa – que será uma das mais acirradas do Globo de Ouro. Ainda assim, acredito que Clint Eastwood, Kathryn Bigelow e James Cameron sejam os favoritos ao prêmio. Nem preciso dizer que eu prefiro, praticamente em todas as ocasiões, a Clint Eastwood. Depois, a diretora Kathryn Bigelow mereceria também este reconhecimento. Quentin Tarantino, ainda que tenha feito um trabalho brilhante – mais um de sua carreira -, deve ter menos chances que os demais. Jason Reitman, se Up in the Air sair ganhando os outros prêmios, pode surpreender. Mas acredito que estes dois últimos diretores corram por fora. Dos indicados ao Globo de Ouro, devem ser nomeados para um Oscar Clint Eastwood, James Cameron e, possivelmente, Quentin Tarantino. Os outros dois, depende da força com que seus filmes chegarão até a disputa da Academia.

MELHOR ATRIZ – DRAMA

  • Emily Blunt, por The Young Victoria
  • Sandra Bullock, por The Blind Side
  • Helen Mirren, por The Last Station
  • Carey Mulligan, por An Education
  • Gabourey Sidibe, por Precious

Comentários: Se levarmos em conta as premiações dadas pelas associações de críticos dos Estados Unidos, Carey Mulligan leva vantagem na disputa pelo prêmio. Ainda assim, Hollywood muitas vezes pensa diferente. Neste caso, o Globo de Ouro pode premiar a um nome como Sandra Bullock, badalado por seu trabalho em três filmes em 2009 – o que seria um desastre, porque ela é o nome menos indicado a levar este prêmio. A disputa ganha em dificuldade com a presença da veterana e sempre competente Helen Mirren e pela elogiada e potente estréia de Gabourey Sidibe no filme Precious. Corre por fora Emily Blunt. O provável é que o prêmio fique entre Carey Mulligan, Gabourey Sidibe e Helen Mirren – com uma certa vantagem das duas jovens atrizes frente à veterana. Destes nomes, talvez Carey Mullinga e Helen Mirren cheguem com força até o Oscar. Seria interessante ver a Gabourey Sidibe ganhando uma das estatuetas – do Globo de Ouro ou do Oscar – mas, para isso, Precious precisa vencer alguns preconceitos e cair no gosto dos votantes.

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA OU MUSICAL

  • Sandra Bullock, por The Proposal
  • Marion Cotillard, por Nine
  • Julia Roberts, por Duplicity
  • Meryl Streep, por It’s Complicated
  • Meryl Streep, por Julie & Julia

Comentários: Duas indicações para Meryl Streep sinalizam que a atriz é a favorita nesta categoria. Se levarmos em conta também que ela recebeu dois dos cinco prêmios entregues até o momento pelas associações de críticos nos Estados Unidos (as de Nova York e de Los Angeles), está comprovado que ela deve receber o prêmio. Ainda assim, não é de se ignorar a presença de Marion Cotillard na disputa – pelo badalado Nine. Correm por fora Sandra Bullock e Julia Roberts – especialmente a segunda. De qualquer forma, esta categoria comprova como o Globo de Ouro e o Oscar de 2010 estarão repletos de alguns dos nomes mais badalados da grande indústria do cinema mundial. Falando em Oscar, podem sobreviver a peneirada e chegar até o principal prêmio de Hollywood Meryl Streep e Marion Cotillard. Agora, Sandra Bullock sobra.

MELHOR ATOR – DRAMA

  • Jeff Bridges, por Crazy Heart
  • George Clooney, por Up in the Air
  • Colin Firth, por A Single Man
  • Morgan Freeman, por Invictus
  • Tobey Maguire, por Brothers

Comentários: O grande nome da disputa é o de Morgan Freeman. Ainda assim, ele pode ser surpreendido por George Clooney, o ator que ganhou três dos cinco prêmios da crítica entregues até o momento. Outro nome forte é o de Jeff Bridges, que teve um desempenho bastante elogiado em Crazy Heart. Correm por fora, Colin Firth e Tobey Maguire. Até o Oscar, devem chegar com força Morgan Freeman, George Clooney e, possivelmente, Jeff Bridges. Sou suspeita para falar, porque ainda não assisti a nenhum dos filmes concorrentes, mas sou uma eterna “votante” por Freeman. 😉 Descontado o meu gosto pessoal, talvez este seja o ano de Clooney. Na verdade, os últimos anos tem sido do ator e diretor que, pouco a pouco, se consagra como um dos “homens fortes” de Hollywood. Mesmo “correndo por fora”, Colin Firth consegue se destacar como um dos nomes de 2009 por seu trabalho em A Single Man. Tobey Maguire também atingiu outro patamar na carreira com o drama Brothers, dirigido pelo ótimo Jim Sheridan. A disputa é uma das boas.

MELHOR ATOR – COMÉDIA OU MUSICAL

  • Matt Damon, por The Informant!
  • Daniel Day-Lewis, por Nine
  • Robert Downey Jr., por Sherlock Holmes
  • Joseph Gordon-Levitt, por (500) Days of Summer
  • Michael Stuhlbarg, por A Serious Man

Comentários: Diferente da categoria de Melhor Ator – Drama, aqui existe um equilíbrio real entre quase todos os concorrentes. Ainda assim, ganha vantagem na disputa Daniel Day-Lewis, elogiado por seu trabalho em Nine; Michael Stuhlbarg por A Serious Man e Matt Damon por The Informant! Correm um pouco por fora Robert Downey Jr. e Joseph Gordon-Levitt. De todos eles, acredito que tem mais chances de chegar com fôlego até uma indicação ao Oscar os atores Day-Lewis e Michael Stuhlbarg. A disputa será boa entre eles. Sherlock Holmes, filme aguardado pelo público, conseguiu com esta indicação a Robert Downey Jr. ser lembrado no Globo de Ouro. Joseph Gordon-Levitt, em ascendência em Hollywood, conquista com esta nomeação o respaldo com a crítica que o público já lhe havia dado com (500) Days of Summer. Indicações justas.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Comentários: Outra categoria bastante disputada. Mais que a de melhor atriz. Fica difícil apontar uma favorita, ainda que Penélope Cruz, Mo’nique e uma das duas atrizes de Up in the Air (Vera Farmiga, em especial) parecem ter uma certa vantagem. Em outras palavras, Julianne Moore corre um pouco por fora – ainda que A Single Man seja considerado, por muitos, um dos grandes títulos do ano. Até assistir a todos estas produções, não farei nenhum prognóstico. Mas acredito que tem grandes chances, além de levar o Globo de Ouro para casa, de chegar até o Oscar 2010 as atrizes Penélope Cruz e Mo’nique. Talvez Julianne Moore – o que, se ocorrer, só comprova como ela é uma das grandes intérpretes de sua geração.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

  • Matt Damon, por Invictus
  • Woody Harrelson, por The Messenger
  • Christopher Plummer, por The Last Station
  • Stanley Tucci, por The Lovely Bones
  • Christoph Waltz, por Inglourious Basterds

Comentários: Christoph Waltz é o grande nome da disputa. Ainda assim, difícil dizer quem será o ganhador – em mais uma categoria bastante concorrida. Além de Waltz, são nomes fortes Matt Damon (em sua segunda indicação no mesmo ano), Woody Harrelson por seu desempenho em The Messenger, e Christopher Plummer como Leo Tolstoy em The Last Station. Corre por fora, aparentemente, Stanley Tucci por seu papel no drama The Lovely Bones. Todos são fortes concorrentes para chegar também a uma indicação no Oscar – especialmente Damon, Waltz e Plummer. Pessoalmente, eu apostaria por Christoph Waltz e seu grande desempenho no filme do Tarantino.

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

  • Cloudy With a Chance of Meatballs (Está Chovendo Hamburguer)
  • Coraline
  • Fantastic Mr. Fox (O Fantástico Sr. Raposo)
  • The Princess and the Frog (A Princesa e o Sapo)
  • Up (Up – Altas Aventuras)

Comentários: A Walt Disney emplacou dois dos cinco indicados deste ano. E deve levar o prêmio para sua já bastante completa prateleira de prêmios. A dúvida é com qual dos dois títulos: o recente fenômeno (de público e crítica) The Princess and the Frog ou o badalado Up. Provavelmente o segundo. De qualquer forma, é certo que correm por fora Coraline, Fantastic Mr. Fox e Cloudy With a Chance of Meatballs. O único capaz de surpreender e vencer a Disney parece ser Coraline. Agora, será interessante se o Globo de Ouro for termômetro para o Oscar nesta categoria. Isso significaria que o excelente Mary and Max não chegaria até a disputa, assim como os bem comentados 9 e A Christimas Carol. Nesta categoria, mais que em outras, há pouco espaço para filmes ousados e/ou que fogem das grandes bilheterias. Todos os indicados foram bem no quesito comercial.

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Comentários: Aqui, quase todos os concorrentes são peso-pesados. Os favoritos, sem dúvida, são o francês Un Prophète e o alemão Das Weisse Band. Ainda assim, não dá para ignorar a presença dos badalados veteranos Giuseppe Tornatore (com Baarìa) e Pedro Almodóvar (com Los Abrazos Rotos). Os dois chegam até a disputa mais pelo prestígio de seus nomes entre os críticos estrangeiros do que pela força de seus últimos trabalhos. Corre por fora, ainda que seja uma presença importante, o chileno La Nana. De todos os concorrentes, apenas Un Prophète e Das Weisse Band podem (e devem) chegar até o Oscar. Pessoalmente, acho que a produção francesa leva uma certa vantagem. Ainda assim, por se tratar da crítica estrangeira presente em Hollywood, pode ocorrer alguma “zebra”, como uma premiação para Almodóvar.

MELHOR ROTEIRO

Comentários: Disputa acirrada, mais uma vez. De um lado, um dos grandes fenômenos do ano, District 9. De outro, os elogiados Up in the Air e The Hurt Locker. No meio, entre eles, o ótimo roteiro de Inglourious Basterds e, correndo por fora, It’s Complicated. Difícil fazer um prognóstico. The Hurt Locker é um filme excelente, mas District 9, na opinião de muitos, recriou uma fórmula. E Tarantino… bem, Tarantino fez um de seus grandes trabalhos com Inglourious Basterds. Se os críticos forem um pouco ousados, podem consagrar a District 9. Mas se escolherem The Hurt Locker ou Up in the Air, não estarão fazendo nenhuma injustiça. It’s Complicated, escrito e dirigido por Nancy Meyers, conseguiu representar as comédias românticas na disputa. De todos os concorrentes, talvez o texto afiado de Jason Reitman e Sheldon Turner, que escreveram Up in the Air baseando-se no livro de Walter Kim, ganhe uma certa dianteira. O maior problema é apontar quantos deles vão chegar até o Oscar. Aposto por The Hurt Locker, Up in the Air, Inglourious Basterds e, talvez, District 9.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

  • Up
  • The Informant!
  • Avatar
  • A Single Man
  • Where the Wild Things Are

Comentários: Evidente que nesta categoria a disputa é mais fraca que na anterior. Levam uma certa vantagem A Single Man, Up e The Informant! Correm por fora, Avatar e Where the Wild Things Are – dois fenômenos que não podem ser ignorados. Se os críticos deixarem de lado um certo preconceito que ronda um blockbuster como Avatar, o filme de James Cameron pode surpreender. Mas A Single Man, até o momento, seria a minha aposta. Devem chegar com força até o Oscar apenas A Single Man e The Informant! (pelo menos na categoria de melhor roteiro original). Talvez Avatar consiga uma vaguinha.

MELHOR MÚSICA ORIGINAL

  • Cinema Italiano, de Nine, por Maury Yeston
  • I Want to Come Home, de Everybody’s Fine, por Paul McCartney
  • I Will See You, de Avatar, por James Horner e Simon Franglen
  • The Weary Kind, de Crazy Heart, por Ryan Bingham e T Bone Burnett
  • Winter, de Brothers, por U2

Comentários: Independente de quem ganhar esta disputa, pelo menos duas presenças importantes estarão em cena: Paul McCartney e Bono, do U2. Francamente, não conheço as músicas e não sei que papel elas desempenham em seus respectivos filmes. Ainda assim, James Horner é um veterano em premiações e tem a força de Avatar para ajudá-lo a ganhar o prêmio. Nine, o musical mais forte do ano, também emplacou uma indicação. Acredito que a música de Crazy Heart seja a única “menos badalada” – corre por fora. Para o Oscar, devem sobreviver as músicas de Nine, Avatar e, talvez, a de Brothers.

Os demais indicados ao Globo de Ouro são referentes a produções para a TV – séries e filmes produzidos para a “telinha”. Concordo com muitos críticos que afirmam que, ultimamente, justamente a TV dos Estados Unidos (e da Europa, em alguns casos) tem produzido o que há de melhor no mercado. Ganhando, inclusive, nos quesitos criatividade e qualidade a respeito do cinema. Infelizmente, ainda não consegui tempo para criar aqui no blog uma seção específica sobre séries televisivas. Quem sabe um dia? De qualquer forma, comento a seguir os indicados apenas nas categorias principais:

MELHOR SÉRIE DE TV – DRAMA

  • Big Love
  • Dexter
  • House
  • Mad Men
  • True Blood

Comentários: Com a safra atual de grandes séries na TV, fica difícil até escolher as cinco finalistas de cada categoria. Pessoalmente, sou fã de House e Dexter. Não assisti a última temporada de Dexter ainda, mas todos comentam que é uma das melhores do seriado. House começou bem este último ano, mas depois caiu de qualidade. Mad Men, contudo, parece ser a favorita de muitos críticos. Correm por fora, aparentemente, o fenômeno True Blood e Big Love. Se fosse dar um palpite, diria que Mad Men deve ganhar. Mas meu voto, sem dúvida, seria para Dexter.

MELHOR SÉRIE DE TV – COMÉDIA OU MUSICAL

  • 30 Rock
  • Entourage
  • Glee
  • Modern Family
  • The Office

Comentários: Mais uma vez, uma disputa acirradíssima. Estou desatualizada sobre estas séries – não assisti a nenhuma delas até o momento. Mas sei que Glee foi uma das grandes estréias do ano, junto com Modern Family. Ambas fazem uma quebra-de-braços curiosa com as “sempre” indicadas The Office e 30 Rock. Parece correr por fora Entourage.

E o que vocês acharam das indicações? Quem são os favoritos? Quem terá forças de chegar até o próximo Oscar? A bolsa de apostas está aberta – e agora é correr atrás para conferir de perto cada um destes títulos. Até a próxima crítica!