Tully

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Ser mãe é uma tarefa complicada. Claro que todas as noites insones, as mudanças no corpo, as preocupações e a correria maior do dia a dia são compensadas pelo amor recebido pelos filhos. Mas nada disso apaga a dureza e o desafio da jornada. Acredito que Tully seja um dos melhores – senão o melhor – filme que eu já assisti sobre a maternidade. Uma história interessante e que faz pensar sobre como as mães são cobradas atualmente. Mais um belo trabalho da roteirista Diablo Cody – e do restante da equipe que faz parte desta produção.

A HISTÓRIA: Pela escada que dá acesso a um quarto, Marlo (Charlize Theron) desce com cuidado. Ela está grávida, e caminha com cuidado para o quarto do filho, Jonah (Asher Miles Fallica), um garoto que exige cuidados especiais. Marlo coloca uma música, pega uma escova e começa a escovar os braços e as costas do menino. Quando chega a hora das crianças irem para a escola, a mãe lembra Sarah (Lia Frankland) que ela não deve esquecer a sua bombinha. Na escola, Marlo fica sabendo que provavelmente terá que escolher outro local para o filho estudar. Os desafios dessa mãe estão apenas começando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tully): Eita que o tempo está passando muito rápido! Assisti esse filme há algumas semanas, então peço perdão pelo atraso nessa publicação. Mas é que logo depois saí de férias por 15 dias – folga esta que está terminando, que pena! -, e aí me dediquei a outros afazeres. Desculpem a demora.

Apesar do tempo transcorrido desde que eu vi esse filme e de ter assistido a duas produções depois – já comecei a escrever sobre elas também, logo vocês verão as críticas por aqui -, me lembro bem da produção dirigida por Jason Reitman e com roteiro da sempre interessante Diablo Cody.

A roteirista natural de Chicago e com 40 anos recém completados – ela faz aniversário no dia 14 de junho – tem 14 trabalhos no currículo e um Oscar. Ela ganhou o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood por Juno (filme comentado por aqui) e que é uma das produções mais interessantes sobre a adolescência “atual” (e sobre maternidade também).

Então Tully já começa com a ótima qualidade de ter o roteiro escrito por Diablo Cody. Como é típico de seu trabalho, encontramos nesse filme diálogos interessantes e ágeis e uma preocupação em manter o foco da história nas pessoas e nas suas relações. Cody não tem papas na língua e procura mostrar uma história que reflita os tempos atuais – sem muito lirismo e com muita franqueza.

E é exatamente isso que vemos em cena. Esqueça a maternidade vista de maneira idealizada ou “pueril”. Cody coloca o dedo na ferida na parte “hardcore” da maternidade – especialmente no caso de mulheres que tem mais de um filho. A protagonista deste filme, muito bem interpretada por Charlize Theron, está justamente na fase da terceira gravidez. Ela está com um barrigão enorme, muito trabalho dentro de casa e ainda a responsabilidade de dar conta de dois filhos – sendo um deles um bocado “problemático” e/ou com necessidades especiais.

A rapadura é doce, mas não é mole não. E é sobre isso Tully. Sobre como uma mulher, linda e que já está deixando a beleza da juventude para trás, deve se desdobrar e se reinventar para conseguir dar conta de um casamento e de três filhos. Nesse contexto, surge a ideia de Craig (Mark Duplass), irmão descolado – e não muito “querido” – de Marlo. Ele é pai de duas crianças mas parece muito tranquilo sobre isso – assim como a esposa dele, Elyse (Elaine Tan).

Toda essa “tranquilidade” de Craig e de Elyse parecem irritar um pouco Marlo e Drew (Ron Livingston), que parece terem que ralar muito mais do que o irmão “endinheirado” dela. Mas é Craig quem acaba oferecendo um presente interessante – e um pouco inusitado – para a irmã: um tipo de babá noturna que pode ajudá-la a dormir e a relaxar. E ela está precisando muito, muito relaxar – como ninguém poderia sequer imaginar.

Inicialmente, como tantas mães que vestem a roupa de “super mãe” (aquela ideia antiga de que as “mães de verdade” devem sofrer e dar conta de tudo sozinhas), Marlo resiste à essa ideia. Afinal, onde já se viu entregar a filha recém nascida para os cuidados de uma “desconhecida”? Mas depois de algum tempo ela cede à tentação e acaba topando. E aí que ela conhece a Tully (Mackenzie Davis).

A partir daí, o filme se desenrola em uma relação interessante, provocante e um tanto “apimentada” – cheia de entrelinhas – entre Marlo, Tully e até o marido da protagonista, Drew. Tudo flui de maneira interessante e sugestiva, envolvendo o espectador em relações que algumas vezes parecem um tanto estranhas, mas que não vemos a hora do novelo se desenrolar. E ele se desenrola com uma certa “surpresa”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Dificilmente Diablo Cody escreve um roteiro sem alguma surpresa aqui e ali. E, novamente, ela nos apresenta isso em Tully. No fim das contas, esse filme se revela uma bela reflexão sobre o amadurecimento de uma mãe e sobre como uma mulher pode se dar conta de que viveu várias vidas dentro de uma mesma vida. Sim, é maravilhoso ter um marido e filhos, mas também é inevitável, algumas vezes, olhar para trás e não ter saudade sobre um tempo em que tudo era mais “fácil” e mais libertário.

A vida tem diversas fases e etapas. Cada uma delas com as suas dificuldades, riquezas, alegrias e aprendizados. Para viver bem e não “enlouquecer” é preciso ver a beleza de cada fase e não querer voltar ou avançar demais no tempo. O único tempo que existe, de fato, é o presente, já disseram. E isso é bem verdade. No mais, passado e futuro valem para reminiscências, para um e outro soluço e para sonhar. Mas nunca para viver.

Tully nos fala um pouco sobre isso. Sobre as dificuldades da amizade e sobre as diversas vidas de uma mulher. Ter filhos é maravilhoso, mas também exige muito de uma mulher – mais do que do homem que vira pai. Por isso mesmo, é preciso ter mais compaixão e paciência com as mães, especialmente com as que tem vários filhos “pequenos”. A vida é dura para elas, e não é difícil de imaginar como elas gostariam de sair correndo ou de fugir às vezes.

Claro que, como todo dia ruim na vida de qualquer pessoa, esses dias de “desespero” ou de vontade intensa de fugir passam. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas próximas podem se dar conta dessa aflição e ajudar – mesmo que demorem um pouco, como é o caso do marido de Marlo. O importante é saber que tudo passa – o que é bom e o que é ruim – e que cada fase da vida deve ser aproveitada ao máximo. De tudo podemos tirar aprendizado, se assim desejarmos.

Assim, Tully nos fala sobre a vida mesma. Sobre as nossas escolhas, sobre os prazeres e dores colhidos a partir dos caminhos trilhados. A vida é bela, é nosso maior presente, mas também é dura em diversos momentos. Tully nos ensina que é possível vencer a tudo isso, seja com amor, seja com alguma dose de loucura. O importante mesmo é buscarmos fazer sempre o melhor e, dentro do possível, olhar com atenção para quem está do lado. Isso e um pouco de sorte pode fazer toda a diferença.

Além de apresentar uma pegada bastante “humana”, o que eu gostei nesse filme foi da “surpresa” envolvendo a relação entre Marlo e Tully. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Perto da “revelação”, eu achava que podia estar rolando um interesse de Tully por Marlo, por isso o desejo dela de não “cuidar” mais de Marlo e de sua família. Mas quando sabemos que Tully era Marlo jovem, tudo faz sentido. No fim das contas, Marlo estava se desdobrando em duas – algo muito real para mães naquela situação – e acaba meio que “pirando” por causa disso.

Bela sacada de Cody para demonstrar não apenas como uma mãe de três filhos realmente pode perder os sentidos se não tiver o apoio mais adequado como também foi um recurso interessante para mostrar como a “mãezona Marlo” poderia, finalmente, com um bocado de boa vontade, fazer as pazes com a sua versão mais jovem. Bastante cobrada – inclusive pela vaidade -, a mãe que deixa a leveza da juventude para trás não precisa fazer isso com amargura. Basta saber que cada fase tem a sua graça e que ser mãe de três filhos também é algo incrível. Belo filme.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A grande qualidade desse filme, para mim, é o roteiro de Diablo Cody. Por todas as razões que eu comentei antes. Mas vale resumir por aqui também: o texto humano, cheio de diálogos interessantes – e uma “pimenta” aqui e ali – e que equilibra bem humor e drama, o foco na história dos personagens e em suas relações. Esse é o ponto forte de Tully. Mas é preciso dizer também que outro destaque da produção é o trabalho de Charlize Theron. Mais uma vez a atriz procura um papel de “gente como a gente” e faz uma entrega impecável.

Ainda que Charlize Theron seja o grande destaque desta produção, existe uma turma de “coadjuvantes” que fazem uma entrega condizente com os seus personagens – o que ajuda o filme a manter o alto nível. Nesse sentido, vale destacar, em especial, o trabalho interessante e o carisma de Mackenzie Davis como Tully. Além dela, vale citar o bom trabalho – mas nada acima da média – de Mark Duplass como o irmão de Marlo, Craig; Ron Livingston como o marido da protagonista, Drew; Elaine Tan como Elyse, mulher de Craig; Lia Frankland muito bem como Sarah, filha mais velha do casal Marlo e Drew; e Asher Miles Fallica como o “desafiador” Jonah, segundo filho do casal.

Entre os aspectos técnicos do filme, uma salva de palmas especial para a trilha sonora interessantíssima – e escolhida a dedo – de Rob Simonsen. O diretor Jason Reitman faz um bom trabalho, acompanhando sempre de perto os atores e valorizando também os seus “habitats”, mas não achei a sua direção realmente impactante – ou inovadora. Mas ele está bem. Também vale destacar o bom trabalho do diretor de fotografia Eric Steelberg; a ótima edição de Stefan Grube; o design de produção de Anastasia Masaro; a direção de arte de Craig Humphries e de Maki Takenouchi; a decoração de set de Louise Roper e de Karin Wiesel; e os figurinos de Aieisha Li.

Tully estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participou, ainda, de outros cinco festivais de cinema, todos nos Estados Unidos. Nessa trajetória, o filme foi indicado a apenas um prêmio, mas não saiu vencedor.

Agora, algumas curiosidades sobre Tully. A atriz Charlize Theron ganhou 22,7 quilos – ou 50 libras – para fazer o papel principal desta produção. Para engordar dessa maneira, ela fez uma dieta de “junk food”, o que incluiu muitos “burger’s” com tudo dentro, milkshakes e alimentos processados. Para “manter o peso” conquistado, a atriz também se habituou a comer macarrão com queijo na madrugada. A atriz disse que o filho mais novo dela achou que ela estava grávida por causa da mudança no seu corpo. Após fazer Tully, a atriz demorou um ano e meio para voltar para a forma antiga. Isso que é vontade de “entrar” no papel, hein?

O sacrifício de Charlize Theron acabou cobrando um preço alto da atriz. Segundo as notas da produção, pela primeira vez Charlize Theron sofreu depressão enquanto participava dessa produção – um pouco por causa do ganho de peso e da pressão para perder ele depois que o filme fosse rodado.

O filme rendeu uma certa discussão – e polêmica – por tratar do tema da depressão pós-parto. Alguns acham que isso não ficou tão claro, assim como os tratamentos disponíveis para o problema, enquanto outros consideraram que o filme acerta ao não deixar o tema claro – já que a depressão pós-parto muitas vezes não é diagnosticada. Da minha parte, acho que o filme vai além desse tema. Não vejo que o foco seja só a depressão pós-parto, mas outras questões envolvendo a maternidade e que vão além desta “condição” momentânea.

Tully faturou, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais de US$ 9,2 milhões nos Estados Unidos. Um resultado bom para um filme alternativo, mas não muito expressiva para uma produção com os nomes envolvidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Tully, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 189 críticas positivas e 29 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,7. No site Metacritic o filme ostenta um metascore de 75, fruto de 46 críticas positivas e seis medianas. Ou seja, o filme se saiu muito bem segundo a crítica do público e da crítica.

Tully é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme atende a uma votação feita por aqui há tempos.

CONCLUSÃO: Um roteiro envolvente, bem ao estilo “A Vida Como Ela É”, que nos faz pensar e que nos presenteia com ótimos diálogos e atuações coerentes. Tudo parece funcionar em um compasso quase perfeito neste Tully. Uma produção bastante honesta sobre a maternidade, todos os seus desafios e aprendizados. O ideal é assistir a esse filme se deliciando com ele mas também refletindo sobre o que estamos vendo.

Quantas mães, muito cobradas por si mesmas e pelos outros, vivem por aí “à beira de um ataque de nervos”? Vale pensarmos sobre isso e sermos mais solidários. Mesmo que for apenas para deixá-las desabafar ou ajudar aqui e ali com pequenos gestos. Belo filme, com uma mensagem bem bacana e um bocado de reflexões deixadas no ar. Acima da média.

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Solo: A Star Wars Story – Han Solo: Uma História Star Wars

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Não é fácil contar a história de um personagem tão carismático e com tantos fãs como Han Solo. Honestamente, eu estava com a expectativa bastante baixa antes de assistir a Solo: A Star Wars Story. Primeiro, por causa do trailer do filme, que não me chamou muito a atenção. Depois, porque vi que as notas e o nível de avaliação do filme não tinham sido lá muito bons. Mesmo assim, fui conferir no cinema, e em 3D, mais essa produção com a marca Star Wars. O filme tem alguns problemas mas, no fim da contas, não é tão desastroso quanto eu esperava.

A HISTÓRIA: Começa com a frase clássica “Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante…”. Mas aí a tradicional música de Star Wars não surge na nossa frente. O que vemos é uma introdução para a história. Nela, comenta-se que aquela é uma época sem lei, na qual sindicatos de ladrões disputam entre si. Em Corella, a chefe de um destes sindicatos é Lady, uma criatura implacável e cruel. Diversos jovens lutam para sobreviver naquele ambiente agreste. Um deles é Han (Alden Ehrenreich), que surge fugindo de bandidos em uma perseguição ao retornar de uma missão. Ele se encontra com Qi’ra (Emilia Clarke), o seu affair, e comenta com ela que agora eles tem o necessário para fugir. Antes, ele deve enfrentar Lady Proxima (voz de Linda Hunt) e buscar uma rota de fuga que não mate o casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Solo: A Star Wars Story): Harrison Ford tem um carisma e um talento acima da média. Então comparar o ator que marcou mais de uma geração com o seu Han Solo e o trabalho de Alden Ehrenreich com o mesmo personagem não vai funcionar. Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que a comparação seja cruel por natureza. Evidentemente Harrison Ford é mais carismático e melhor ator.

Dito e superado isso, devo admitir que Alden Enrenreich até que encarna bem o personagem. Ao menos, conseguimos ver nele um Han Solo ainda mais “inocente” do que o personagem que conhecemos sob o talento de Ford. Uma das qualidades desse filme é justamente esta: conseguir transportar os fãs da saga Star Wars para o passado de alguns personagens importante da trilogia original sem que essa “viagem no tempo” pareça forçada ou descolada.

Para um filme como Solo: A Star Wars Story, que tem como objetivo introduzir o passado de um personagem importante para a saga, isso é fundamental. Então sim, os fãs não vão se sentir deslocados nesse filme dirigido por Ron Howard e com roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan. Para a história funcionar, evidentemente o protagonista mais jovem deve “dialogar” com o personagem clássico da saga. E isso acontece – para o alívio dos fãs.

O Han Solo de Alden Enrenreich apresenta algumas características que vamos encontrar, depois, no Han Solo de Harrison Ford. O estilo “bonachão” e aventureiro é um destes elementos que funciona nas duas fases do personagem. Vendo o que acontece com o protagonista neste seu “início” como mercenário, também podemos entender o lado desconfiado dele na trilogia original Star Wars.

Ele aprende bem, tanto com o mercenário e “mestre” na malandragem Beckett (Woody Harrelson em uma participação bastante interessante), quanto com a sua “apaixonite” Qi’ra, que o ideal é não confiar muito em ninguém. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Beckett tem muitas qualidades mas, no final das contas, ele ensina para Han que cada um vai defender sempre “o seu” antes de ajudar alguém. Qi’ra, por sua vez, apesar de ter gestos positivos pontilhados aqui e ali, também se deixa seduzir pelo poder – algo muito comum em vários personagens da saga, aliás.

Com essas pessoas, Han Solo aprende um bocado. Entre outros pontos, aprende a desconfiar e a ser mais “esperto”. Depois, veremos estas características no personagem já na fase Harrison Ford. A origem daquele “jeitão” do Han Solo vemos em Solo: A Star Wars Story. Esta é a principal vantagem do filme e o principal “ganho” que o filme poderá dar para os fãs Star Wars. Com tanto filme ruim ou mais ou menos sendo feito por aí, agradecemos quando uma obra “derivada” do original se mostra coerente e respeitando as características dos personagens.

Dito isso, vamos falar sobre alguns pontos que não funcionam tão bem em Solo: A Star Wars Story. Para começar, me incomodou um bocado e me chamou a atenção o estilo escuro demais do início do filme. Ok que Han e Qi’ra viviam em um local com poucos recursos e aquela coisa toda, mas realmente as imagens precisavam ser tão escuras? Eu não acho que isso funcionou muito bem. E há outros trechos também mais escuros do que o desejado.

Além disso, a história em si é um tanto “fraquinha”. Vejamos. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Han é um “rato de rua”, ladrãozinho que busca sobreviver, assim como Qi’ra, com quem ele tem um romance no início da produção, e outras pessoas da mesma “classe social”. Mas o rapaz é talentoso, especialmente como piloto, e deseja sair daquela miséria para viver com mais conforto e liberdade ao lado de Qi’ra. Logo no início do filme, eles tentam escapar, mas Qi’ra é recaptura e Han consegue se livrar do mesmo fim ao se juntar ao Império.

Até aí, tudo certo. Um começo interessante e promissor. Depois, vemos como Han Solo deixa o Império e vira um “fora da lei”. Isso acontece quando ele se encontra com Beckett e a sua turma: Val (Thandie Newton em quase uma super ponta) e Rio Durant (voz de Jon Favreau). Esse grupo de mercenários acaba formando Han e lhe apresentando para este universo – que ele abraçaria para sobreviver. Novamente, até aqui, tudo bem. Mas o filme depois trilha o caminho de uma história de “mercenário que se dá mal e se enrola em uma encrenca ainda maior para consertar o primeiro problema” que já cansamos um tanto de assistir.

Outro lugar comum e caminho um bocado batido foi Han encontrar a sua Qi’ra já bastante comprometida com o vilão da história, Dryden Vos (Paul Bettany). Aí seguimos a trilha conhecida de “mocinho tenta resgatar mocinha” só que em uma versão Star Wars – mais uma versão, diga-se. As partes mais bacanas do filme, na minha opinião, tem a ver com o aprendizado que Han te com Beckett e sua equipe e com o encontro e início da amizade do protagonista com Chewbacca (Joonas Suotamo).

Ainda que os atores não tenham tooooda aquela sintonia desejada, também é interessante a dinâmica entre os personagens de Han Solo e Qi’ra. Dá para entender um pouco a “descrença” do protagonista com o “amor” por causa dessa experiência que ele tem com o seu primeiro grande amor. Da minha parte, não deixei de pensar, quase a todo momento: calma, Han, você ainda vai encontrar uma Princesa bem mais legal pela frente. Lembrei do casamento dele com a Léia e aí pensei que Qi’ra não sabia de nada – muito menos do que ela estava perdendo no futuro. 😉

No geral, o filme funciona bem. A história respeita os personagens conhecidos de Star Wars agregando a eles alguns elementos que são do interesse dos fãs da saga e, apesar de ter uma dinâmica conhecida e um tanto batida, também consegue introduzir alguns novos personagens bastante interessantes. Não é um filme que vai revolucionar a sua vida ou mudar a compreensão que você tem de Star Wars, mas é uma produção envolvente, com algumas sequências – inclusive de perseguições – interessantes e com bons personagens. Vale ser visto.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esse filme está cheio de personagens. Temos o protagonista, que é bastante coerente com o Han Solo que já conhecemos. Alden Ehrenreich faz um bom trabalho, ainda que lhe falte um pouco mais de carisma – a comparação com Harrison Ford, quando ele fez o primeiro Star Wars, chega a ser cruel. Depois de alguns minutos do filme, o indicado mesmo é tentar esquecer da inevitável lembrança de Ford e prestar atenção na entrega coerente de Ehrenreich.

Como esperado, outro personagem interessante deste filme é Chewbacca. Conhecemos um pouco mais também sobre a origem deste que é um dos personagens mais bacanas de Star Wars. Isso é importante. Dos personagens da trilogia original, outro sobre o qual conhecemos um pouco mais do passado é Lando Calrissian, interpretado aqui pelo talentoso Donald Glover. O ator faz um bom trabalho com o personagem de Lando. Assim, Solo: A Star Wars Story ajuda a explicar um pouco mais do “background” da amizade entre Han e Lando.

Ainda dos personagens conhecidos pelos fãs de Star Wars, vale destacar um outro com aparição relâmpago no final. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Bem nos “finalmentes” da produção, vemos a Maul (Ray Park, com voz de Sam Witwer), figurinha que ficaria conhecida na trilogia que explica a origem de Darth Vader – os filmes que viraram Star Wars I, II e III. Assim, fica subentendido que Qi’ra se tornará alguém importante para a saga de Darth Maul. Algo que poderá ser explorado em um próximo filme da saga.

Além dos três personagens importantes da saga Star Wars original já mencionados – Han, Lando e Chewbacca -, Solo: A Star Wars Story nos apresenta alguns personagens novos interessantes. A de maior destaque, sem dúvida, é a personagem Qi’ra, interpretada com carisma pela “deusa” Emilia Clarke – sim, eu sou fã de Game os Thrones. 😉 Ela está ótima no papel. Tem muito carisma e faz a “femme fatale” na segunda parte em que aparece na trama. Pena que não tenha muita química com Alden Ehrenreich. Mas, no geral, Emilia Clarke está muito bem, obrigada.

Dos personagens secundários, destaco o trabalho de Woody Harrelson como Beckett, e de Donald Glover como Lando Calrissian. Apesar de ser ótima atriz, Thandie Newton – da ótima série Westworld – acaba sendo um tanto desperdiçada em um papel menor e com pouca contextualização, o de Val, mulher de Beckett. O personagem de Rio Durant, que também “prometia”, acaba tendo uma participação menor que o desejado também. Mas Thandie e Jon Favreau, que dá a voz para Rio Durant, estão bem.

Gostei bastante da personagem L3-37, interpretada por Phoebe Waller-Bridge. Ela é como uma tia dos androides que depois encantariam os fãs de Star Wars. Além disso, ela segue esta nova fase de valorização do “girl power” e revela-se uma androide bem feminina e revolucionária. Uma espécie até de Joana D’Arc dos androides – sem muito exagero. A personagem é interessante e tem uma mensagem que combina com os nossos tempos – tanto de liderança feminina quanto de libertação dos explorados. Uma das figuras novas mais interessantes da trama.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de outros atores: Paul Bettany como Dryden Vos, o vilão da trama; Erin Kellyman como Enfys Nest, outra figura feminina forte e revolucionária; e Linda Hunt em uma super ponta dando a voz para Lady Proxima.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e para os efeitos visuais da produção. Eles são boa parte da “graça” de Solo: A Star Wars Story. A equipe técnica responsável por estas duas áreas é gigantesca. Além deles, vale comentar a ótima edição de Pietro Scalia e a direção bem conduzida de Ron Howard. O roteiro de Jonathan Kasdan e Lawrence Kasdan tem pontos positivos e negativos – como os já citados anteriormente. Basicamente, eles acertam ao respeitar o legado dos personagens criados por George Lucas, mas erram um pouco a mão ao optarem por uma história um bocado requentada e com desenrolar previsível. Na verdade, em momento algum, Solo: A Star Wars Story realmente te surpreende. Tudo que era previsto, é entregue – nada a mais.

A trilha sonora de John Powell achei um tanto morna. Ele acaba seguindo a cartilha de outras trilhas da saga, mas sem o brilhantismo de John Williams. Por outro lado, Bradford Young faz um bom trabalho na direção de fotografia, exceto por alguns trechos do filme que eu achei escuros demais. Vale ainda comentar o bom trabalho de Neil Lamont no design de produção; de Gary Tomkins e equipe na direção de arte; e de David Crossman e Glyn Dillon nos figurinos.

Solo: A Star Wars Story estreou em première em Los Angeles no dia 10 de maio de 2018. No dia 15 de maio, o filme estreou no Festival de Cinema de Cannes. Até o momento, o filme não ganhou nenhum prêmio.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 244 críticas positivas e 100 negativas para o filme, o que garante para a produção uma aprovação de 71% e uma nota média de 6,4. No site Metacritic o filme apresenta um “metascore” de 62, resultado de 32 avaliações positivas, 21 medianas e 1 negativa.

Solo: A Star Wars Story foi bem nas bilheterias, mas não tão bem quantos outros filmes do gênero – ou mesmo da grife. Até o dia 10 de junho, segundo o site Box Office Mojo, a produção tinha feito cerca de US$ 176,1 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e cerca de US$ 136,1 milhões nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 312,2 milhões. Ainda que não saibamos o quanto o filme custou, certamente ele precisou de muita grana para sair do papel – e falta um bom caminho ainda para dar um bom lucro.

Agora, alguns adendos para citar curiosidades sobre esta produção. O ator Harrison Ford disse que assistiu ao filme e que achou ele “fenomenal”,  mas afirmou que não participou da première da produção junto com o elenco para não roubar as atenções que eram merecidas para Alden Ehrenreich. Isso que eu chamo de elegância.

O diretor Ron Howard foi chamado para terminar Solo: A Star Wars Story depois que Phil Lord e Christopher Miller foram demitidos devido à “diferenças criativas”. Ainda assim, Howard teria refilmado pouco mais de 80% da produção. Isso que eu chamo de praticamente começar do zero…

A data de lançamento de Solo: A Star Wars Story foi 25 de maio de 2018, o mesmo dia e mês em que Star Wars estreou em 1977.

A cena em abertura em Corellia e a cena de abertura de Rogue One acontecem exatamente 13 anos antes do primeiro Star Wars.

A cena do jogo de xadrez entre Beckett e Chewbacca é uma homenagem de Solo: A Star Wars Story a uma sequência de Star Wars (1977), quando vemos R2-D2 jogando com Chewbacca e deixando ele vencer por sugestão de Han Solo.

Algo importante nesse filme, para os fãs da saga, é descobrir como Han Solo faz o Kessel Run em apenas “12 parsecs” – quando o normal seria em 20 parsecs. Como o Kessel Run é uma rota que exige certa distância, Han Solo consegue fazer em menos tempo através de um “atalho”. Também interessante que nesse filme pela primeira vez, Chewbacca fala a sua idade: 190 anos.

Quem dá o sobrenome para Han é uma guarda em Corellia. Esse fato é uma referência do filme para The Godfather: Part II, produção na qual o personagem Vito Andolini é “rebatizado” como Vito Corleone por um guarda de Nova York em Ellis Island.

Solo: A Star Wars Story tem muitas referências a falas de filmes posteriores da saga – e objetos que também constroem essas referências. Exemplos disso são a fala de Han Solo sobre a Millennium Falcon antes de vê-la comentando que acredita que encontraria “um pedaço de lixo” – mesma expressão utilizada por Luke Skywalker ao ver a nave em Star Wars (1977), e os dados que Han dá para Qi’ra e que ela depois devolve para ele e que são vistos nos filmes de 1977 e 2017 da saga.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim sendo, ele atende a uma votação feita aqui no blog tempos atrás e na qual os leitores pediram filmes desse país. 😉

CONCLUSÃO: Um filme bem ao estilo de Star Wars mas que não tem o desenvolvimento de personagens e algumas das qualidades de outras produções da grife que precederam esta história. Com cenas competentes de perseguição e um roteiro que repete uma cartilha já conhecida, Solo: A Star Wars Story não surpreende, mas também não se revela uma grande decepção. O filme é morno, e falta química entre os protagonistas. Mas, individualmente – não nas trocas de bola – os atores estão bem. Esse filme não é fundamental para a saga Star Wars, mas ele ajuda a explicar o “background” de um de seus personagens mais interessante. Vale ser visto se você não for muito exigente com esse universo.