Pour Une Femme – For A Woman – Por Uma Mulher

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Procurar entender o próprio passado é uma demonstração de respeito. Não apenas com a própria história, mas principalmente com quem construiu os alicerces dela antes de você. Pour Une Femme narra uma busca destas, e a recriação histórica possível quando as fontes de informação não estão acessíveis. Um filme bem contado e que faz um resgate interessante da França do momento da Segunda Guerra Mundial e após esse período. Mas mesmo tendo elementos históricos, este filme se debruça mesmo é nos fatos particulares de uma família. Ganha e perde pontos por isso.

A HISTÓRIA: França, nos anos 1980. Um homem serve o café com as mãos trêmulas, perto de uma cesta com remédios. Ele abre a porta e deixa o cão sair. Na rádio, informações sobre a crise do Greenpeace e o risco ao governo Mitterrand. Anne (Sylvie Testud) comenta que a mãe dela e de Tania (Julie Ferrier) havia morrido três meses antes, deixando mais uma vez o pai das garotas, Michel (Benoît Magimel). As irmãs conferem as fotos antigas dos pais, e recordam da relação um bocado distante que tiveram com a mãe, Léna (Mélanie Thierry), depois que ela se divorciou do marido. Anne se surpreende com um anel de homem encontrado entre os pertences da mãe. A partir daí, ela resolve revisitar a história dos pais, e reconta tudo o que teria acontecido com eles, baseada na história real e em um bocado de imaginação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Por Une Femme): Demorei para entender a pegada deste filme. O cartaz e o início sinalizam para uma história de amor. Não deixa de ser, mas Pour Une Femme não é apenas isso. A parte que o filme não aparenta ser é o que ele tem de mais interessante. Assim como a mensagem da história intrínseca ao triângulo amoroso.

O primeiro elemento bacana desta produção, como eu comentei lá no início, é a forma com que ela faz uma homenagem de uma filha para os seus pais. Quando Anne a irmã perdem a mãe e, (SPOILER – não leia se você não viu o filme), poucos meses depois, o pai, Anne percebe que há um vazio de histórias nunca contadas, de conversas que não foram estabelecidas por ela ou pelos pais com ela e a irmã. Neste vazio, ela começa a pesquisar e a recriar o que aconteceu.

O admirável é essa vontade de Anne em reencontrar os pais, em entender pelo que eles passaram e o que eles sentiram. Humanizar os nossos antepassados não é algo tão comum quanto deveria ser. Mas é bonito, necessário e uma forma de entender a gente mesmo. Além, evidentemente, de homenagear a quem veio antes. Quando Anne faz o exercício de tentar compreender a história dos próprios pais sem a “paixão” condicionada de uma filha que cresceu respeitando, temendo e considerando os pais como modelos, ela consegue ver que eles tiveram qualidades, defeitos, fraquezas e valores muito nobres que lhes aproximam dela mesma e de tantas outras pessoas.

Não é o exercício mais simples do mundo, mas é muito enriquecedor quando percebemos as pessoas que amamos sem filtros, tirando o sentimento que temos por elas de lado e apenas observando suas histórias com suavidade e generosidade. Daí é possível perceber que somos humano, demasiado humanos e, por isso mesmo, tão parecidos uns com os outros – mais do que muitas vezes nos damos conta. Esta é a parte bacana do filme, aquilo que faz Por Une Femme ser diferenciado em relação a outras produções.

Mas e a história propriamente dita? O roteiro de Diane Kurys, que também dirige o filme, vai dos anos 1980, na França, para a cidade francesa de Lyon em 1945. O primeiro tempo é vivido pelas irmãs Anne e Tania, que começam a formar as próprias famílias enquanto elas começam a se despedir dos pais. E o segundo, é o tempo de alguns dos principais acontecimentos envolvendo os pais das garotas, Michel e Léna. Na narrativa de Kurys, esses dois tempos vão se intercalando, com a história indo e vindo entre os anos 1980 e 1945.

O recurso narrativo desta quebra temporal não é novo, e não incomoda aqui – porque é bem ordenado. Ainda assim, a retomada do tempo “presente” das irmãs na convivência com o pai idoso pouco contribui para a narrativa. Apenas reforça a falta de diálogo entre eles, e a busca das irmãs por conseguir preservar um pouco daquele relacionamento que muitas vezes foi atribulado. Mas grande parte da narrativa está mesmo no tempo transcorrido logo após a Segunda Guerra Mundial.

E aí que o filme ganha outro elemento de interesse. Pouco a pouco o roteiro vai nos mostrando os conflitos que perduraram no ambiente pós-guerra. Desde a resistência comunista que começava a ganhar força, inclusive na Europa, com o desejo de estabelecer a “ditadura do proletariado” em diversos países, até as cicatrizes e o desejo de vingança dos descentes de judeus mortos. Neste último elemento é que surge a outra ponta do triângulo amoroso: Jean (Nicolas Duvauchelle), irmão há muito desaparecido de Michel.

Logo que ele aparece em cena, é inevitável não desconfiar do personagem. É evidente que ele está escondendo algo. A primeira impressão é que ele está mentindo, e que pode não ser quem diz ser – o irmão de Michel. Mas conforme o tempo vai passando, a impressão crescente é que ele está ali por algum motivo, provavelmente para usar o irmão de “fachada” para que ele possa se vingar de alguém. E não dá outra. Jean, junto com Sacha (Clément Sibony), fazem parte de um grupo de judeus que busca vingar-se dos inimigos nazistas eliminando-os do mapa.

São poucos os filmes que já mostraram essa “força-tarefa” de descendentes de judeus que buscaram na violência e na represália de mortes um pouco de justiça após o massacre de milhões de judeus, homossexuais, inimigos políticos dos nazistas e outras minorias feito durante a Segunda Guerra Mundial. E não lembro de outra produção que tenha contado esta história a partir de uma ótica tão pessoal e familiar quanto este Pour Une Femme.

Até agora, falei apenas dos pontos positivos deste filme. Mas, infelizmente, ele não tem apenas qualidades. Pour Une Femme gasta bastante tempo nas “sutilezas” do relacionamento do casal Michel e Léna e na aproximação que Jean faz da mulher do irmão. Para mim, o filme perde força e ritmo sempre que a diretora e roteirista Diane Kurys gasta momentos preciosos da narrativa no tradicional “cortejo” do homem que busca seduzir uma mulher compromissada – item fundamental em um triângulo amoroso que se preze.

Claro que o distanciamento de Léna do marido e a aproximação que ela faz do irmão dele não se justifica apenas por uma atração física. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo sendo mais jovem e bonito – isso vai depender dos gostos de cada uma -, vejo que esta não é a questão principal em jogo. Léna, como tantas outras mulheres, se casa com Michel não por amor, mas por gratidão – ele ajudou a salvá-la da morte. Mas conforme a história se desenvolve, fica evidente as diferenças entre o casal – incluindo o desejo dela de ter liberdade e fazer as próprias escolhas e o estilo machista dele que torna esse desejo quase impossível.

Como acontece em tantas outras histórias, a motivação para a traição tem elementos de interesse pelo “novo partido”, mas vale mais aqui a promessa que aquela transgressão poderia resultar na vida da protagonista. Ela quer se libertar da vida cheia de “privações” do marido. Claro que ela poderia conseguir isso de outras formas, mas acaba cedendo para um caminho transgressor. O melhor ator do elenco, Benoît Magimel, que interpreta Michel, dá um show de interpretação durante todo o filme, mas especialmente quando ele se dá conta da traição da mulher.

Diferente de Léna, que provavelmente gostou de Michel, mas não o amou como ele amou ela, Michel tinha uma verdadeira devoção pela esposa. Não por acaso o filme tem o título que tem e Anne encontra a “relíquia” que simbolizava o cuidado do pai dela com a mãe preservada após tanto tempo. Não importa se Léna o traiu e se eles se separaram. Michel de fato amava a mulher. Pena que nem sempre esse sentimento é, de fato, correspondido. Isso não acontece neste filme, e daí vem outro ponto interessante desta produção: uma história pode ser bonita e bacana, mesmo imperfeita.

Esta é outra lição de Pour Une Femme. O filme gasta tempo depois no cortejo de Jean com Léna e vice-versa, tem nos atores que interpretam estes personagens outro de seu ponto fraco, mas apesar dos problemas, este é um bom filme. Porque tem um ótimo ator para segurar as pontas e pelo menos duas reflexões paralelas ao triângulo amoroso que valem a pena ser feitas. Entra para a lista de produções com toque bastante autoral que não tiveram uma grande divulgação ou importância para o país de origem, mas que se revela digna de ser conferida.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco deste filme é reduzido e esforçado. Mas não são todos os atores que conseguem apresentar um ótimo trabalho. O destaque, para mim, fica com Benoît Magimel, que convence como o correto, político, empreendedor e apaixonado Michel. Nicolas Duvauchelle é bonito, mas fraquinho na interpretação, e Mélanie Thierry se esforça, mas não consegue demonstrar a força que a personagem dela exige. Os últimos dois atores prejudicam um pouco o filme, assim como as atrizes que interpretam as filhas de Michel e Léna.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Gilles Henry, que acerta na escolha de cores em cada momento histórico, e da trilha sonora de Armand Amar, essencialmente romântica, e que tem um papel importante durante a narração da história.

Por ser um filme de época, Pour Une Femme investe em elementos que ajudam a situar o espectador no passado. Destaque para os figurinos assinados por Eric Perron, pelo design de produção de Tony Egry e para a direção de arte de Maxime Rebière. Um outro elemento que acaba tendo um pouco de relevância, especialmente no envelhecimento do personagem Michel, é a maquiagem, liderada por Thi Thanh Tu Nguyen. Que, na minha opinião, é um pouco exagerada.

Pour Une Femme estreou em junho de 2013 no Festival de Cinema de Cabourg. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais, entre eles o do Rio de Janeiro em setembro deste ano. Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a um outro. O que recebeu foi o de Menção Honrosa para Diane Kurys pela “excelência na direção” no Festival Internacional de Cinema de Santa Barbara.

Esta produção foi totalmente rodada na França, em Lyon e em outros lugares da província de Rhône-Alpes.

De acordo com o site BoxOffice, Pour Une Femme teria arrecadado pouco mais de US$ 32,6 mil nos Estados Unidos. Nos outros mercados do mundo, a produção teria acumulado pouco mais de US$ 1,23 milhão.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem as suas críticas linkadas no Rotten Tomatoes dedicaram 8 textos positivos e um negativo para a produção, o que garante aprovação de 89% para o filme e uma nota média de 6,6.

Esta é uma produção 100% francesa.

CONCLUSÃO: Esse é um filme simpático. Narra uma história de amor em meio a uma realidade de paz aparente. Porque nos bastidores, havia uma guerra sendo travada. Pour Une Femme ganha pontos ao explorar a história de uma família e a busca de uma das descendentes do casal de protagonistas para conhecer melhor as suas próprias origens. A proposta é bacana, mas o filme acaba perdendo pontos e um bocado do potencial por centrar-se demais em um triângulo amoroso. De qualquer forma, ele cumpre bem o papel dos resgates históricos e da reflexão sobre os “sonhos perdidos” – seja políticos, seja pessoais. É interessante, mas nada fenomenal ou que possa marcar a sua vida para sempre.

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The Immigrant – Era Uma Vez em Nova York

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A vida nos leva, muitas vezes, por caminhos complicados. E a solução que conseguimos após cada pedra é o que nos define. Mas algumas vezes, mesmo passos errados podem ser corrigidos. The Immigrant narra a história complicada de uma mulher que acaba cedendo em alguns de seus princípios para sobreviver. A história é dura, e há momentos em que o roteiro mexe com o espectador. A maior qualidade, contudo, está nas interpretações, especialmente na de Marion Cotillard.

A HISTÓRIA: A Estátua da Liberdade aparece de costas, e a câmera vai lentamente se afastando em um dia cinza. Aos poucos, vai aparecendo a silhueta de um homem, de chapéu, que vê ao longe a chegada de mais um navio. As pessoas se preparam para desembarcar. O local é Ellis Island, em Nova York. E o momento histórico, janeiro de 1921. No local cheio de imigrantes, Ewa Cybulska (Marion Cotillard) conversa com a irmã, Magda (Angela Sarafyan).

Ewa tenta disfarçar a tosse discreta, mas incessante, de Magda, mas um guarda percebe e tira a garota da fila. Só entram no país pessoas com plena saúde e que tenham, preferencialmente, uma família esperando – ou que estejam acompanhadas e com uma “conduta ilibada”. Ewa também tem a entrada negada, mas consegue ser resgatada da fila de extradição por Bruno Weiss (Joaquin Phoenix). Com este resgate, começa uma longa e complicada jornada para a imigrante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Immigrant): Gosto de filmes de época. Mas apenas a imersão no passado não garante o envolvimento do público. É preciso muito mais. Para começar, uma ótima história. E depois, uma forma eficaz de apresentar essa história de qualidade. The Immigrant consegue reunir um ótimo trio de protagonistas, mais um bom grupo de coadjuvantes, um bom roteiro e uma ótima direção ajudada por profissionais competentes de diversas áreas para nos apresentar um pacote bem acabado.

O primeiro destaque evidente da produção é o bom roteiro da dupla James Gray e Ric Menello. Eles se debruçam em uma Nova York do início dos anos 1920. Uma cidade carregada, um bocado sombria, no processo de construção de uma nação que muitos desconhecem – ou fazem questão de esquecer. Afinal, para os estadunidenses não deve ser fácil admitir que a construção de seu país tão virtuoso atualmente foi baseada em corrupção, exploração de mulheres e de imigrantes de todas as origens e, como já nos mostrou diversas obras em HQ, envolta em muita criminalidade.

Alguns filmes já exploraram um pouco desta “origem da nação” obscura. Talvez um dos títulos da filmografia recente dos Estados Unidos mais interessantes nesta linha seja Gangs of New York, dirigido pelo sempre competente Martin Scorsese. Naquela produção é possível conferir a “realidade das ruas”, bastante suja, violenta, corrupta e cheia de nuances – há mais cinza que “preto no branco” na história.

Além do mesmo tempo histórico – de formação da nação – e do tom cínico dos dois roteiros, uma outra semelhança entre Gangs e este novo The Immigrant é o ótimo elenco de protagonistas – ainda que haja uma “uniformidade” maior na entrega do filme dirigido por James Gray do que por Scorsese. Algo interessante em The Immigrant é que o filme não tem nenhuma sobra. Da primeira até a última cena, cada elemento que vemos tem um propósito.

Por exemplo, a imagem inicial desta produção. A Estátua da Liberdade estar de costas para aquele homem bem vestido e impassível, para mim, é bastante ilustrativa. É como se a liberdade, a justiça e o “país de oportunidades” estivesse voltado para o outro lado, com a corrupção, a cobiça e a exploração de homens e mulheres dominando o “background”, todo o cenário por trás da imagem bonita que aparece nas fotografias e na televisão.

No fundo, essa “história real relativa” simbolizada naquela primeira cena e apresentada depois, nos detalhes, no decorrer do filme, não é própria apenas dos Estados Unidos, como muitos que são contra o país gostam de apregoar. Não conheço país em que a propaganda dos governos não seja melhor que a realidade das ruas. E isso não apenas no início dos anos 1920, mas também agora, em pleno ano 14 do século 21.

The Immigrant é interessante por isso, por mostrar sem leveza – pelo contrário, com algumas cenas bem angustiantes – como a realidade de algumas pessoas que não tem, de verdade, as mesmas oportunidades que a maioria, pode ser cruel. Naquele tempo, naquele país, e hoje, em muitas e muitas partes (infelizmente), há muita gente sendo explorada porque “no tiene papeles”, porque são imigrantes ilegais ou porque não tiveram oportunidade de estudar, por exemplo.

O roteiro de Gray e Menello acerta o tom e não perde o foco da análise crítica daquele cenário, daquelas pessoas e, consequentemente, daquela sociedade. Mesmo sendo um filme de época, por ter um roteiro bem escrito, The Immigrant nos faz pensar também nos tempos atuais e nas demais formas de exploração humana. Junto com o roteiro, o grande mérito para tornar este filme instigante e impactante em algumas cenas é o trabalho do trio principal de atores.

E neste sentido, mais uma vez, quem rouba a cena é a atriz Marion Cotillard. Eu já tinha achado ela brilhante em outras produções – com especial destaque para o comentado aqui De Rouille et D’Os -, mas neste filme ela carrega a história. Sem dúvida é a forma com que ela “veste” a personagem, desde o sotaque que simula um inglês mal falado, até a permanente expressão de dor e de força que ela consegue expressar por meio de Ewa que torna este filme tão interessante.

Mesmo Cotillard roubando a cena, não dá para desprezar o grande esforço que Joaquin Phoenix faz para dar profundidade para o vilão Bruno Weiss. O ator se sai tão bem no desafio que passamos a compartilhar, junto com Ewa, uma certa pena do personagem nos minutos finais da produção. Afinal de contas, ele é um desgraçado – em todos os sentidos. Compadecemos dele, da mesma forma que a vítima do algoz, em uma mescla de ódio e pena. Interessante quando um filme consegue não apenas repassar estas emoções, mas provocá-las também no espectador.

Quando isso acontece, preciso tirar o chapéu para o trabalho do diretor e da equipe envolvida. Outro que está bem na produção, além de Cotillard e Phoenix, é o ator Jeremy Renner. Muito diferente vê-lo aqui – sim, ainda tenho na lembrança a interpretação do ator em The Hurt Locker (comentado aqui). Renner está bem, e convence – aqui com muito mais sutileza e até com um bocado de charme. Mas ele fica um pouco ofuscado pelos outros dois protagonistas.

Para não dizer que o filme é perfeito, personagens secundários acabam não acompanhando os papéis principais nem na qualidade do roteiro, nem na interpretação dos atores. A família de Ewa é um elemento importante da história – o resgate da irmã dela, Magda, é o ponto central para tudo que ela acaba fazendo na América contra os próprios princípios. Mas a atriz Angela Sarafyan além de aparecer pouco – por razões bem justificadas pelo roteiro – , não convence tanto quanto deveria.

O mesmo podemos falar sobre os personagens de Edyta Bistricky (Maja Wampuszyc) e Wojtek Bistricky (Ilia Volok), tios de Ewa. Lá pelas tantas, a protagonista decide ir atrás deles, e tem as expectativas mais uma vez frustradas. Apesar da cena ser bem conduzida, apesar de um pouco previsível, e de causar impacto, parece faltar um pouco mais de qualidade para os coadjuvantes. Nada que tire o brilho do filme, mas querendo ou não, esse é um elemento que prejudica um pouco o resultado final.

De qualquer forma, e isso é o que importa, The Immigrant faz um resgate histórico muito bem feito, tanto na qualidade da história, no cuidado com cada detalhe em cena da reconstituição de época, quanto na interpretação dos atores principais. A produção faz pensar, não apenas sobre a construção de cada nação, mas também sobre problemas de marginalização, preconceito, violência e estigmatização social que seguem válidos até hoje.

Para mim, a parte mais importante do filme, além do citado anteriormente, foi nos mostrar como pessoas corretas podem ser levadas por caminhos tortuosos, mas que o importante é nunca perder o foco no caminho certo e, quando restar a mínima chance de trilhá-lo novamente, persistir no acerto. No fim, desta forma, The Immigrant nos transmite uma mensagem cheia de esperança, e de que vale a pena tentar caminhar certo. E mesmo que alguma vez isso não seja possível, não é necessário desistir. A qualquer momento uma luz pode surgir no “fim do túnel” e isso é tudo que você pode precisar.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há muitos elementos técnicos deste filme que merecem ser mencionados. Além do roteiro de qualidade, bastante abordado anteriormente nesta crítica, devo destacar o excelente trabalho do diretor James Gray. Fica evidente como ele pensou em cada cena, planejou cada take, sem sobrar nenhum elemento em cena que não tenha importância narrativa. Além disso, ele trabalha bem com a equipe envolvida no projeto para valorizar tanto o trabalho dos atores quanto o excelente trabalho de contextualização histórica. Funciona.

Além da direção de Gray, chama muito a atenção o trabalho do diretor de fotografia Darius Khondji. O iraniano de 58 anos – e que fará 59 no próximo dia 21 de outubro – sabe valorizar como poucos a luz e a ausência dela. Desta forma, ele consegue valorizar os atores e o contexto das cenas, nos remetendo para aquele estilo de filme que predominou nos anos 1950 e 1960 e que não exagerava nos recursos artificiais para contar uma história, e sim apostando, essencialmente, nos elementos simples do cinema.

Da parte técnica do filme, vale destacar também o bom trabalho dos editores John Axelrad e Kayla Emter, o design de produção de Happy Massee, a direção de arte de Pete Zumba, a decoração de set de David Schlesinger e os figurinos de Patricia Norris. Também funciona muito bem e ajuda neste trabalho com personagens que precisam de bastante caracterização o trabalho de maquiagem e cabelo feito por Natalie Young, Evelyne Noraz, Rachel Geary e Stanley Tines.

O departamento de arte, um dos grandes “culpados” pela ambientação de época, tem nada menos que 30 profissionais envolvidos. Eles fizeram um belo trabalho.

Além dos atores coadjuvantes já citados, vale comentar o bom trabalho de Elena Solovey como Rosie Hertz, a mulher que comanda o “show” das meninas que também são prostitutas. Outra que acaba ganhando relevância na história, mas que achei um tanto fraquinha na interpretação, é a atriz Dagmara Dominczyk como Belva, a mulher que gosta de Bruno e que morre de ciúme quando entra em cena Ewa – até porque fica evidente, desde o princípio, que Bruno tem um interesse pessoal pela “nova aquisição”. Inveja sempre tem, em histórias como esta, e The Immigrant não foge à regra, uma relevância importante para o desencadear dos fatos.

Esta produção estreou no Festival de Cannes em maio de 2013. Depois, o filme participaria de outros 23 festivais. Um número impressionante, devo dizer! Nesta trajetória, a produção conseguiu abocanhar cinco prêmios e ser indicada a outros cinco. Entre os que recebeu, nenhum prêmio de grande relevância, mas vale citar os de excelência de interpretação de elenco para Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner e o de excelência em direção para James Gray no Newport Beach Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 16,5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 2 de julho, pouco mais de US$ 2 milhões. Muito pouco. No restante do mundo, o filme teria feito quase US$ 6 milhões. Muito longe de apresentar lucro. Uma pena.

Para quem gosta, como eu, de saber onde os filmes foram rodados, comento que The Immigrant foi todo rodado em Nova York.

Agora uma curiosidade sobre a produção: o roteiro, que tem uma mulher como protagonista, foi especialmente idealizado por Gray tendo Marion Cotillard como alvo para o papel principal. A vontade de escrever uma história focada em uma mulher surgiu depois que ele se emocionou com Il Trittico, baseada na ópera de Giacomo Puccini e dirigida por William Friedkin em 2008. Depois de assistir à ópera, ele comentou com a esposa que faltavam produções, nos dias atuais, focadas na interpretação feminina. Foi aí que ele perguntou porque ele não fazia algo do gênero, e ele teve a ideia de escrever algo para Cotillard. Para Gray, este é o melhor filme de sua carreira.

Este foi o último roteiro de Ric Menello, que morreu de um ataque cardíaco no dia 1 de março de 2013, antes mesmo do filme ser lançado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 88 críticas positivas e 13 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,5. Achei a avaliação dos críticos, desta vez, muito mais justas do que do “público” que vota no site IMDb. Não sei se as pessoas estão acostumadas com outro tipo de narrativa e não estão muito propensas a aceitar bem filmes de época, mas acho que The Immigrant poderia ser melhor avaliado.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo, ela entra na lista de filmes assistidos por aqui e que satisfazem a uma das votações do blog.

CONCLUSÃO: A vida de qualquer imigrante é sofrida. Deixar o país de origem para buscar melhor oportunidades em outro país é um gesto transformador e corajoso. Mas nem sempre as condições são as mais convidativas. The Immigrant narra a história de uma de tantas mulheres que foram exploradas no início do século 20 na chegada aos Estados Unidos. Corrupção, mentiras e exploração fazem parte desta trama. Mas também há um grande exemplo de altruísmo, bondade, coragem e de princípios. A colisão destes ingredientes torna o filme interessante, assim como a interpretação dos atores. Bela história, bem conduzida e envolvente. E que resgata, ainda, um estilo de filme que estava ausente dos cinemas há bastante tempo. Por tudo isso, The Immigrant vale o ingresso, sem dúvidas.