La Villa – The House by the Sea – Uma Casa à Beira-Mar

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Um local que ainda abriga resquícios de um sonho. Ao mesmo tempo belíssimo, esse local também exala um certo tom de tristeza, saudosismo e, por que não, esperança. La Villa é mais um filme com aquela bela característica do cinema francês. Uma produção linda, que trata de gente como a gente, e que nos faz refletir sobre temas atemporais e, ao mesmo tempo, e sem contradições nisso, temas bem típicos do nosso tempo. Uma bela produção, que nos mostra que o tempo passa e que é preciso saber-se levar por esse tempo.

A HISTÓRIA: Antes de ver qualquer cena, ouvimos o som do mar. A primeira imagem que surge é de uma casa muito ensolarada. Na varanda, Maurice (Fred Ulysse) olha para frente, para a imensidão do mar. Ele tem olhos azuis, está contemplando o horizonte e diz “Que pena”. Após essa frase, ele acende um cigarro. Fuma, mas acaba passando mal. Ele se agarra na mesa, e fica parado, sentado. Em seguida, só vemos ao céu azul. Corta. Em um quarto, várias caixas de remédio. Na cama, Maurice recebe soro e está paralisado. Em breve, os filhos dele vão se encontrar após um longo período sem que todos estivessem no mesmo local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Villa): Esse foi o segundo filme francês que eu vi na sequência. Tive a sorte de vê-lo, assim como Le Brio (comentado aqui), no cinema. Fico especialmente feliz quando cinemas que antes eram essencialmente “comerciais” começam a abrir cada vez mais espaço para filmes não tão óbvios – ao menos em relação ao sucesso que eles terão nas bilheterias.

Esta produção é interessante porque ela fala de lugares, tempos e pessoas. Elementos que fazem parte da vida da humanidade e que fazem realmente mais sentido para a gente – nem tanto para a natureza, os animais e os demais organismos que vivem sobre a Terra, por exemplo. Eu não sei quantos filmes eu já assisti sobre famílias e suas pessoas. O cinema está recheado deles – e os franceses, em particular, gostam destas histórias.

Em La Villa, uma família volta a se reunir quando o patriarca fica doente. Maurice (Fred Ulysse) tem um derrame e passa a depender de cuidados constantes. Armand (Gérard Meylan) é o filho que está sempre próximo. O que ficou na vila na costa francesa que inspirou o nome desta produção para cuidar da propriedade da família, do pai e do restaurante que, para ele, simboliza os sonhos, ideais e exemplo paterno.

Depois de Maurice passar mal, os outros dois filhos dele, Angèle Barberini (Ariane Ascaride) e Joseph (Jean-Pierre Darroussin), voltam para a vila para passar um tempo com o pai e Armand. Nesse momento é que começamos a acompanhar esta produção. A reunião deles acaba tratando sobre o passado e o presente do local – e, na reta final do filme, também sobre possíveis desdobramentos para o futuro.

De forma muito simples e natural, os roteiristas Robert Guédiguian e Serge Valletti pegam aquela história familiar como “desculpa” para tratar sobre diversos temas atemporais e sobre alguns assuntos muito relevantes para os nossos dias. Entre os temas atemporais, vale destacar a influência e exemplo dos pais nas trajetórias dos filhos; a diferença entre o sonho que se tem quando é jovem de mudar o mundo para melhor e o que acontece na prática quando a idade mais avançada chega; e o “envelhecimento” ou “saída de moda” dos ideais hippies e de maior compartilhamento e coletivismo para uma sociedade da “insegurança” e do individualismo que surgiu com a pós-modernidade.

Mais de um personagem nesse filme, mas com um destaque especial para o personagem de Joseph, que tem como uma interessante “antítese” de suas ideias a jovem namorada Bérangère (Anaïs Demoustier), reflete sobre a questão do “sonho acabou” sobre a qual John Lennon já nos falava em 1970. O roteiro de Guédiguian e de Valletti tem alguns bons momentos e sacadas. Mas um dos melhores, para mim, é quando Joseph conversa com Bérangère.

É como se estivéssemos o tempo todo em uma dialética entre a geração de Joseph, que procurou pensar o mundo de uma maneira diferente, mais comunitária e igualitária, e a geração de Bérangère, que pensa de forma prática, funcionalista e que tem pressa de “vencer”. Uma das melhores frases do filme, para mim, é quando Joseph brinca com Bérangère que ela é comunista no coração e capitalista na mente, como todos os demais – ou seja, que ela nem consegue ser original nisso. Achei genial!

Uma questão que perpassa todo o filme é a reflexão sobre como era a vida na vila antigamente e ao que ela se reduziu a atualidade. No passado, quando a comunidade local vivia o ideal de pessoas como Maurice, todas as pessoas, não importa se com mais ou menos recursos, conviviam tranquilamente compartilhando o que tinham e o que podiam fazer para ajudar aos demais. Todos “pegavam junto” e construíram a vila desta forma. Cada um contribuindo com os seus talentos.

Passadas algumas décadas daquele momento, o local tinha se esvaziado. Os moradores, sem grandes “perspectivas” de crescer, estudar ou trabalhar, foram optando por outros locais para viver. Passaram a vender as suas casas – provavelmente para turistas de outras partes, especialmente estrangeiros, que vão para lá apenas no Verão. Alguns não venderam, mas acabaram partindo e passando as propriedades para os filhos.

E aí que nos deparamos com uma história específica deste filme, paralela à da família de Maurice, e que é de cortar o coração. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Martin (Jacques Boudet) e Suzanne (Geneviève Mnich) viviam há décadas na vila, pagando um aluguel baixo para os proprietários. Mas quando os donos da casa morreram, os herdeiros resolveram reajustar o aluguel para “preços de mercado”. Mas os idosos não podiam pagar esse novo valor, e aí cria-se toda uma situação de angústia e de noites sem dormir para eles.

O filho do casal, Yvan (Yann Trégouët), é bem-sucedido e se oferece para pagar as despesas dos pais. Para ele, isso será um prazer e não lhe custa nada. Mas Martin e Suzanne não aceitam. Muitos podem pensar: mas por que tanto orgulho? Por que eles não podiam aceitar a ajuda do filho? Mas a questão é que o buraco é mais embaixo.

Para Martin e Suzanne o que está em jogo é o próprio mundo em que eles vivem – e no qual eles gostariam de viver. Eles tem saudade do tempo em que as pessoas tinham palavra, e de quando uns pensavam nos outros e não apenas em si mesmos. A decepção deles com o novo cenário é tão grande que eles se perguntam se eles ainda tem espaço nesse “novo mundo”.

A inquietude deles é compreensível, e ainda que eu não concorde com a ação final do casal, admito que é lindo o testemunho deles sobre o amor. A carta que eles deixam para o filho é um dos pontos altos do filme – e de cortar o coração. Assim, La Villa nos fala sobre a triste constatação de sonhos e de um mundo melhor que foi deixado para trás, que envelheceu e que não parece mais ter vez.

Mas o que é mais bacana no filme, é que ele trata sobre a questão de que “o novo sempre vem”. Então, ainda que não possamos mais ter aqueles ideais hippies de todos compartilhando tudo com todos, podemos sim decidir, no dia a dia, como fazer diferente em relação ao mundo egoísta, individualista e baseado no produtivismo.

Assim, quando Armand e Joseph encontram três irmãos refugiados (interpretados por Haylana Bechir, Ayob Oaued e Giani Roux), eles, juntamente com Angèle, devem decidir o que fazer. Que mundo eles querem preservar ou ajudar a formar? Como eles vão honrar a memória do pai, de Martin e Suzanne e de tantos outros que viveram naquela vila antes? Certamente não será entregando os irmãos para os soldados. E é isso que eles fazem.

Sem esperar, Angèle, que volta com dor para a vila em que perdeu uma filha, descobre através das três crianças e do “inusitado” e surpreendente amor do pescador e ator amador Benjamin (Robinson Stévenin), uma nova família. Ela redescobre o amor, as cores e a alegria de viver. E outros três irmãos, Angèle, Joseph e Armand, também redescobrem os seus pontos em comum e o amor que eles não compartilhavam mais no dia a dia.

Este é um filme interessante, com poucos personagens e algumas reflexões salutares. Só achei que algumas relações na produção poderiam ter sido melhor exploradas. Achei um tanto “pueril” e exagerada a coletânea de investidas de Benjamin em relação a Angèle. Também achei um tanto mal desenvolvida a busca dos refugiados por parte dos soldados e o “desfecho” de Yvan com Bérangère. Apenas detalhes de desenvolvimento de história que não atrapalham La Villa, mas que não a tornam perfeita.

Ah sim, e já ia me esquecendo de falar dos temas mais contemporâneos da produção. Entre outros, a questão dos refugiados que estão chegando na Europa a cada dia; as vilas e vilarejos “abandonados” de diversos países europeus com a queda da natalidade e com o envelhecimento da população; e o “choque” cultural e de filosofia de vida entre as gerações anteriores e essas que nasceram após os anos 2000.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco deste filme funciona muito bem. Ainda que todos os atores façam um bom trabalho, ninguém realmente me “encantou” – talvez apenas Robinson Stévenin com o seu interessante Benjamin.

Além dele, vale comentar o belo trabalho de Ariane Ascaride como Angèle; de Jean-Pierre Darroussin como Joseph; de Gérard Meylan como Armand; de Anaïs Demoustier como Bérangère; da carismática Geneviève Mnich como Suzanne; de Jacques Boudet como Martin; e de Yann Trégouët como Yvan.

Entre os coadjuvantes, vale citar Diouc Koma como o soldado que volta e meia aparece no restaurante da família para falar sobre os refugiados; e dos três garotos que interpretam aos irmãos refugiados: Haylana Bechir, Ayoub Oaued e Giani Roux.

La Villa tem um bom roteiro, mérito do diretor Robert Guédiguian e de Serge Valletti. Ainda que a história tenha bons momentos, alguns diálogos realmente interessantes e um bom equilíbrio entre drama, discursos políticos, reflexões filosóficas, homenagem para a arte e algumas pitadas de comédia, acho que algumas cenas ficaram deslocadas na produção. Mas, no geral, o trabalho da dupla funciona muito bem. Gostei também da direção de Guédiguian, que soube explorar muito bem a parte mais “evidente” da vila e os seus trechos menos evidentes – mas que eram bem conhecidos dos moradores. Ele também sabe valorizar, além da beleza do local, o trabalho competente dos atores.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a ótima e bela direção de fotografia de Pierre Milon; a edição de Bernard Sasia; o design de produção de Michel Vandestien; e os figurinos de Anne-Marie Giacalone.

La Villa estreou em setembro de 2017 no Festival du Film Français d’Helvétie-Bienne. Depois, o filme passaria, na sequência, por três festivais de cinema importantes: o de Veneza, o de Toronto e o de San Sebastián. Além destes, La Villa fez uma incursão por outros oito festivais em diversos países.

Nesta trajetória de festivais, La Villa conquistou dois prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que ele recebeu foram no Festival de Cinema de Veneza: o Prêmio SIGNIS e o Prêmio UNIMED, ambos para o diretor Robert Guédiguian.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas para o filme – e nenhuma negativa. Essa avaliação dos críticos do Rotten Tomatoes dá para este filme um nível de aprovação raro de 100% – e uma nota média de 7,2. O site Metacritic, por sua vez, registra o metascore 64 para La Villa – fruto de duas críticas positivas e de duas críticas medianas.

La Villa é uma produção 100% francesa. De acordo com o site IMDb, esse filme teria custado cerca de 3,2 milhões de euros – me parece um custo baixo. Não consegui informações sobre o resultado do filmes nas bilheterias francesas e de outros países, mas acho que esta produção não terá muitas dificuldades em conseguir registrar lucro.

CONCLUSÃO: Três irmãos com características diferentes e complementares se encontram depois de um longo período separados no lugar em que eles cresceram. Eis uma história sobre família e sobre escolhas. Que trata de um sonho que se materializou por algum tempo mas que não resistiu à mudança trazida pelo passar do tempo. Um filme que fala sobre como alguns lugares incríveis foram se esvaziando de pessoas incríveis, mas que os herdeiros de tudo aquilo ainda podem ser atores de gestos belos. No fim das contas, o que interessa são as mãos grudadas e o amor. Sempre. Mais um belo filme do cinema francês. Bem contado, com ótimos atores e o foco em alguns valores importantes.

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Le Brio – O Orgulho

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A excelência não se conquista com elogios e com palavras suaves. O orgulho não se vence com insultos, mas com a comprovação de que algumas das nossas ideias estavam equivocadas e com a constatação de que outros podem ser tão bons (ou melhores) do que a gente. Le Brio é um filme maravilhoso, cheio de retórica, de reflexões sobre os nossos dias, de atitude e de ensinamentos. Como é bom, depois de tanto tempo, encontrar um filme que fale sobre a importância de ótimos professores. Estamos precisando disso. Hoje, mais do que nunca.

A HISTÓRIA: Diversos vídeos com entrevistas se sucedem. Em um, ouvimos que o que mais chama a atenção da pessoas são “as calamidades constantes”. Em outro, escutamos que “as palavras são os veículos das ideias”. Uma terceira pessoa comenta que tanto ódio e tanto rancor só é possível na França. E ainda ouvimos o argumento de que a estupidez é ter preguiça, e que diferentes tempos revelam diferentes angústias.

Após diversos depoimentos, vemos a uma mulher com traços árabes no ônibus. Ela está com fone de ouvido e faz um longo trajeto até chegar ao seu destino final. Neïla Salah (Camélia Jordana) corre para chegar até ao auditório onde terá a sua primeira aula na faculdade. Mas logo que chega, apressada, ela recebe uma bronca do professor Pierre Mazard (Daniel Auteuil). Para muitos colegas da classe, ele foi racista e um cretino. Em breve, professor e aluna ficarão mais próximos do que eles poderiam imaginar nesse primeiro encontro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Le Brio): Quando eu vou ao cinema, ou quando assisto a um filme em casa, eu sempre espero, em algum momento, ser surpreendida. Do nada, me deparar com uma história incrível, surpreendente ou inspiradora. Então que grata surpresa ir ao cinema e encontrar um filme da qualidade deste Le Brio! Era justamente de algo assim que eu estava precisando.

Como tento fazer sempre, fui assistir a esta produção sem ter lido nada a respeito antes. Também tive a sorte de não assistir ao trailer de Le Brio – porque, depois de ter visto ao filme, me deparei com o trailer dele e percebi como o trailer estraga alguns dos grandes momentos da produção. Por tudo isso, eu não sabia o que esperar da história. E, possivelmente muito por causa disso, esse filme tenha me surpreendido e agradado tanto.

A homenagem que os roteiristas Victor Saint Macary, Yaël Langmann, Yvan Attal e Noé Debré fazem para a retórica e o poder da palavra fica evidente desde os primeiros minutos do filme. Primeiro, com o pout-pourri de filósofos, escritores e afins comentando sobre questões diversas de interesse coletivo e individual. O que todos eles tinham em comum? A eloquência, a retórica e a argumentação. Depois, assistimos a uma história que terá todos esses elementos.

Entre as qualidades desta produção, além de um roteiro muito bem construído e que nos “leva pela mão” durante toda a narrativa, temos o excelente trabalho dos protagonistas. Le Brio não teria metade da sua graça se não tivéssemos os talentosíssimos Daniel Auteuil e Camélia Jordana como os nomes principais da história.

Eles são carismáticos, talentosos, sabem conduzir os seus personagens muito bem e, de quebra, nos envolver na trama sem que um ou outro nos pareça realmente “estranho”. Muito pelo contrário. Com as suas entregas precisas e inspiradas, esses atores levam o público a desenvolver uma empatia fundamental para que o filme atinja os objetivos propostos.

Então sim, os atores que interpretam o professor Pierre Mazard e a aluna Neïla Salah são peças fundamentais para esse filme ser tão bom – e acima da média. Mas apenas eles não fariam o “verão” acontecer. Para um filme ser excepcional, ele deve ter um roteiro com essa qualidade. E é exatamente isso que Le Brio tem. Um roteiro maravilhoso.

Mérito do quarteto Attal, Debré, Macary e Langmann, que contou com a colaboração de Bryan Marciano. A história narrada por eles e dirigida por Yvan Attal com muita precisão acertou em cheio em focar uma narrativa aparentemente “simples” mas que traz diversas “inquietudes” e desafios dos nossos dias.

Na Europa, em especial, eles vivem muito essas questões das novas “ondas” migratórias e dos efeitos que o “choque civilizatório” – mais especificamente, os “estranhamentos” entre os ocidentais autóctones e os “imigrantes/invasores” muçulmanos – está provocando nos diferentes países.

A França, onde se passa essa história, é um dos países com a maior miscigenação entre os países daquele continente – e onde, de tempos em tempos, pululam histórias de conflitos provocados por xenofobia, preconceito, medo por ataques terroristas e pelas diferenças culturais exacerbadas.

Ao mesmo tempo, aquele é o país do Iluminismo e do lema “igualdade, liberdade, fraternidade”. É um país de grandes pensadores e artistas, uma nação orgulhosa de sua história e de seus feitos. Ao mesmo tempo, parte da população tem dificuldade em aceitar tanta miscigenação e a “perda” do que eles consideram o “espírito francês”. Somado a tudo isso, temos ali um país onde o elogio nunca vem fácil, e onde existem grandes escolas e universidades.

Nesse contexto, vemos a uma garota que mora no subúrbio e que transcorre, todos os dias, longos trajetos para ir e vir da universidade. Apenas o fato dela chegar lá, no ensino superior, já é uma vitória – ela é a única do grupo de amigos de origem árabe que chega tão longe. Mas na universidade, logo no primeiro dia de aula, ela ganha um protagonismo que ela não desejava ao entrar na sala do professor Pierre Mazard (o ótimo Daniel Auteuil) com alguns minutos de atraso.

No Brasil, onde temos muito esculhambada, normalmente, a noção de civilidade, alguém chegar atrasado é considerado “normal” ou, pelo menos, não ofensivo. Em outros países, onde o outro importa tanto – ou mais – do que o indivíduo em si, chegar atrasado em um compromisso é uma grande demonstração de desrespeito. Não raras vezes alguém leva uma bela bronca ou perde um negócio/oportunidade porque chegou atrasado.

Então o “achincalhe” de Mazard contra Neïla Salah (a também ótima Camélia Jordana) não é exatamente surpreendente. Mas na era dos celulares grudados nas palmas das mãos, a bronca de Mazard e o diálogo que se segue entre ele e Neïla é registrada por diversos alunos – grande parte deles encarando a reprimenda e as ironias de Mazard como preconceituosas e/ou ofensivas.

Se ele tivesse feito o mesmo com um aluno branco e de classe média, será que as pessoas levariam pelo mesmo lado? O personagem de Benjamin de Segonzac (Jean-Baptiste Lafarge), que também considerou a atitude de Mazard como preconceituosa, dá a entender que ele, Benjamin, foi o alvo dos deboches, críticas e “perseguição” no ano anterior do curso. Por ele ser homem e branco, essa constatação no filme dá a entender que, no fim das contas, Mazard não era realmente preconceituoso. Ele só era, como muitos e muitos professores experientes, pouco paciente com as “babaquices” e falhas dos mais jovens.

E aí temos em cena um dos vários pontos de reflexão desta produção: o choque entre gerações. Mazard acha muitos elementos dos dias atuais como “absurdos” ou “sem sentido”. Com certa frequência, sente-se um pouco “saudosista” dos tempos transcorridos, quando parece que as pessoas eram mais crítica, mais sensatas, mais inteligentes e mais atentas aos outros, às convenções e aos contextos.

Com certa frequência, conforme o tempo passa, as pessoas que vão ficando mais velhas e se vêem “sucedidas” pelos mais jovens acabam olhando para o tempo transcorrido, ou seja, para o passado, como algo melhor. O saudosismo faz parte da vida, mas é preciso olhar para ele com cuidado. E sobre isso Le Brio também nos fala. Mazard está correto em questionar alguns pontos dos “dias atuais”, mas ele nem sempre está certo em só ver qualidades no passado.

Aos poucos, ele vai reformando a sua própria visão do que está acontecendo ao seu redor e sobre os jovens – especialmente os filhos de imigrantes, como Neïla, que vive no subúrbio e que, apesar das diferenças culturais e oportunidades na vida, apresenta um grande potencial, talento e vontade de aprender e de crescer. Mazard acaba assim repensando as suas próprias ideias e ganha um novo “ânimo” em ensinar. Afinal, ele percebe o talento florescer em uma garota em quem muitos talvez não apostariam, a priori.

E aí vem o ponto fundamental desta produção, a meu ver: a beleza que é presenciar um talento florescer! E esse fenômeno não acontece apenas pelo mérito e pela vontade de Neïla, mas também pela aposta nela e pela dedicação que Mazard começa a ter em ensinar e inspirar, de fato, aquela aluna.

A exemplo do clássico Deads Poets Society, lançado no “longínquo” ano de 1989 (se você não assistiu a esse filme, assista! corra atrás dele agora mesmo!), Le Brio também nos fascina por nos contar sobre a força do bom exemplo. De como quando encontramos um verdadeiro mestre na nossa frente, alguém que nos inspira e nos motiva, podemos ser capazes dos feitos mais sensacionais.

Gostei tanto, mas tanto mesmo deste filme porque eu acho que precisamos de mais histórias como Le Brio. Histórias que nos lembrem sobre a força da inspiração e do exemplo. Que nos mostrem como um mestre não deve fazer o que queremos, mas nos mostrar os caminhos e as possibilidades. Que aperte os nossos “botões” nos momentos certos e que saiba nos criticar tão bem quanto nos mostrar quando estamos acertando.

Porque o mundo precisa de mestres e de pessoas que inspirem e motivem quem quer crescer, aprender, fazer mais e melhor. E talvez as pessoas deviam ter menos pressa em julgar e em colocar os outros em “caixinhas” e dedicar-lhes rótulos, correndo para classificar professores como racistas ou preconceituosos.

Certo, que os professores nem sempre acertam. Mas talvez porque eles sejam humanos, não é mesmo? Apesar de uma falha e outra, eles são indivíduos que se prepararam – e continuam se aperfeiçoando – para ensinar e inspirar. Merecem respeito e merecem ser ouvidos.

A partir desses mestres, deveríamos ter mais atenção para o que outras pessoas nos dizem antes de sairmos hostilizando elas com as nossas gravações e julgamentos. Sair do nosso “esquadro” e entender o modo de pensar e de agir dos outros exige esforço, mas vale muito a pena.

Para mim, Le Brio me falou sobre isso. Resgatou, essencialmente, essa beleza do aprendizado, da força da palavra, do exemplo e da motivação. Ensinar com exemplos e com a vida mesma. E estar aberto a perceber os próprios pensamentos e julgamentos para, a exemplo de Mazard, revê-los sempre que necessário. Porque ninguém está isento de “julgar” os demais. Fazemos isso, muitas vezes, sem perceber. Mas podemos sim sempre rever estes julgamentos e buscar um pouco mais de generosidade no processo.

Gostei muito desse filme por este conjunto de reflexões, pela história que ele nos apresenta e por falar de temas tão atuais. Especialmente por mostrar os “choques civilizatórios”, que incluem não apenas a diversidade de origens e de culturas, mas também de acesso à educação, ao emprego, e aos demais elementos que podem fazer alguém ter uma progressão na vida. Tudo está em cena, mas com uma levada muito natural e que nos convence por materializar parte da realidade que está acontecendo nas ruas e bairros das grandes cidades.

Isso tudo e mais um excelente trabalho dos atores principais fazem deste filme uma das grandes pedidas deste ano. Ao menos para os meus parâmetros, é claro. Porque a percepção sobre o cinema, como vocês bem sabem, depende de uma série gigante de fatores. Background cultural, visão de mundo, expectativas em relação ao filme, fase da vida, entre outros elementos. Da minha parte, espero que você tenha gostado do filme tanto quanto eu – ou que, após ler essa crítica, veja ele sob novas perspectivas. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Cada vez mais eu me convenço que um filme, para que ele fique acima da média, deve ter um número reduzido de personagens. Fica muito mais fácil entendermos a vida, o contexto, os desejos e anseios de um grupo pequeno de pessoas e desenvolvermos empatia – ou compreensão mesmo, quando a empatia não se torna tão fácil de alcançar – em relação a eles. Por isso mesmo, apesar de termos vários personagens que aparecem aqui e ali nessa trama, os roteiristas acertam em colocar o centro da história em poucos personagens. Assim, todos tem espaço de serem desenvolvidos de forma satisfatória.

O primeiro grande mérito de Le Brio é o roteiro de Victor Saint Macary, Yaël Langmann, Yvan Attal e Noé Debré, quarteto que contou com a colaboração de Bryan Marciano. Eles acertam no ritmo da história, na imersão que fazem em diferentes ambientes da cidade e no equilíbrio entre drama e comédia. A vida mesma é feita deste equilíbrio – quando temos percepção para perceber isso e conseguimos dar a “leveza” que a vida nos pede entre os seus diferentes elementos. Então é bacana ver uma história que não evita o amargo e o difícil, mas que também sabe focar no bonito, no divertido e no emocionante. Acho que os roteiristas conseguem o equilíbrio perfeito nesta produção.

Além do roteiro de Le Brio, o grande destaque deste filme são os atores. Tiro o meu chapéu para o veterano Daniel Auteuil e para a jovem Camélia Jordana. Os dois convencem, individualmente, em seus papéis e conseguem, juntos, fazer um dueto interessante e inspirador. Gostei muito do trabalho deles. Além dos dois, vale destacar o trabalho de Yasin Houicha como Mounir, o jovem amigo – e depois, namorado – da protagonista. Houicha vai emplacando no filme pouco a pouco, e acaba tendo um papel fundamental – sem ser exagerado, mas convincente – perto do final.

Outros atores coadjuvantes também fazem um bom trabalho. Vale destacar a atuação de Nozha Khouadra como a mãe de Neïla; Nicolas Vaude como Grégoire Viviani, o presidente da universidade em que Mazard dá aula; Jean-Baptiste Lafarge como Benjamin de Segonzac, o estudante que foi “perseguido” no ano anterior por Mazard e que se sente “solidário” a Neïla; e Zohra Benali como a avó de Neïla. Fazem um bom trabalho também os atores que aparecem como concorrentes no concurso de oratório, assim como os amigos de Neïla e de Mounir – ainda que nenhum deles mereça realmente uma menção especial.

Sempre que um filme vai muito bem, eu admito, tenho um certo “medo” com o final da produção. Afinal, não são poucos os exemplos de filme que “derrapam” na reta final. Não é fácil, em uma produção que consegue um bom crescimento narrativo, fechar a história com “chave de ouro”. Com Le Brio, passei pelo mesmo.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas fiquei aliviada com o caminho que os roteiristas escolheram para esta produção. Mounir é quem “mata a charada” para Neïla. Sim, inicialmente Mazard ajudou a estudante por interesse próprio. Ele estava mais preocupado com o “perdão” que receberia do conselho de ética da universidade. Mas, como Mounir mesmo pondera, se Neïla foi “utilizada” por Mazard para este fim, ela também “utilizou-se” de Mazard. Tirou dele o “melhor proveito” para aprender e para crescer.

As relações são assim. Cada um se doa ao outro e cada um absorve o que desejar para crescer e melhorar. O que vai nos diferenciar é o quanto conseguimos multiplicar a partir desta doação. Além disso, ainda que seja verdade que Mazard começou o projeto pensando em si, depois fica evidente como ele começa a acreditar e a se orgulhar da pupila. Então ele faz o que faz por ela também. Aí está a grandeza da doação. Você pode até começar a fazer um pouco por egoísmo, mas depois se vê realmente pensando apenas no outro.

Entre os aspectos técnicos desse filme, o destaque vai para a direção de Yvan Attal. Ele sabe equilibrar bem os elementos internos e externos de um ambiente, aparentemente, pouco cinematográfico, como pode ser o da universidade. Então “passeamos” por diferentes locais da cidade, indo do subúrbio, passando pelo transporte público, e chegando nos auditórios e salas de aula da universidade. A cidade é um elemento interessante, assim como os personagens, e Attal acerta na forma com que se “apropria” e aproveita de cada um destes elementos. Um belo trabalho, com ritmo e com cadência interessante.

Aprecio muito as trilhas sonoras dos filmes. Muitas vezes, especialmente nas histórias de ação ou ficção científica, estas trilhas são um tanto óbvias – ou até “preguiçosas”. Mas volta e meia a gente se depara com uma trilha sonora realmente interessante, pensada como parte da narrativa do filme – com personalidade própria, portanto, e complementar à história. Esse é o caso da trilha sonora de Le Brio. Mérito de Michael Brook.

Além da trilha sonora de Le Brio, vale destacar, entre os aspectos técnicos desta produção, a bela e competente direção de fotografia de Rémy Chevrin e a edição competente de Célia Lafitedupont. Também comento o design de produção de Michèle Abbé-Vannier e os figurinos de Carine Sarfati – elementos que ajudam a contextualizar os personagens e a apresentar as suas realidades.

Le Brio estreou em outubro de 2017 no Festival de Cinema Mediterrâneo de Montpellier. Depois, o filme participou de outro festival apenas, o Biografilm Festival. Em sua trajetória, o filme ganhou dois prêmios e foi indicado a outros quatro. Os prêmios que ele recebeu foram o Biografilm Europa conferido pela audiência do Biografilm Festival e o de Mais Promissora Atriz para Camélia Jordana no Prêmio César, uma espécie de “Oscar do cinema francês”.

Vale citar uma curiosidade desta produção: Le Brio teve uma parte importante da sua história filmada nas instalações da Universidade Pantheon-Assas, conhecida como Sorbonne, que fica em um local destacado de Paris, próxima do Panteão. Outras cenas foram rodadas na Biblioteca Sainte-Geneviève. Paris… é sempre maravilhosa de ser vista. Seja pessoalmente, seja através de filmes como esse.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram quatro críticas positivas e uma negativa para Le Brio – o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,7. Vendo essas notas, em especial, eu percebo que realmente eu me “encantei” muito mais com a homenagem que este filme faz para os mestres, o ensino, o aprendizado, a superação e o poder da palavra do que a maioria. 😉

De acordo com o site IMDb, Le Brio teria custado cerca de 9,7 milhões de euros. Não encontrei informações sobre o resultado que o filme consegui nas bilheterias.

Relendo agora o que eu escrevi sobre esta produção, quero fazer apenas um parêntesis sobre um dos trechos da crítica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando comentei antes que devemos ter mais cuidado antes de classificar as pessoas com rótulos ou colocá-las em caixinhas, não quero dizer com isso que devemos “perdoar tudo” e que devemos, por exemplo, aceitar manifestações de racismo, xenofobia, preconceito ou machismo. Não, não. Devemos estar atentos a tudo isso e combater essas manifestações de ignorância que podem resultar em violência verbal ou física. Mas o que digo e repito é que devemos ter cuidado ao classificar as pessoas. E combater, sempre que situações absurdas se apresentam na nossa frente, os comportamentos que não queremos mais ver nas nossas sociedades.

Le Brio é uma coprodução da França e da Bélgica. Fiquei feliz de encontrar, logo na sequência, dois filmes franceses no cinema que eu frequento em Florianópolis. Quem acompanha o blog há algum tempo sabe o quanto eu admiro o cinema francês. Eles realmente tem uma sensibilidade única e uma forma de contar as suas histórias muito envolvente.

Pensando aqui com os meus botões, acho que esse filme me tocou tanto porque eu tive a sorte de ter encontrado no caminho um ou dois professores realmente inspiradores. Pessoas que, em diferentes momentos da minha vida, me ajudaram a fazer mais do que eu me considerava capaz. Para quem já teve essa sorte, alguma vez na vida, saberá apreciar ainda mais as mensagens que vemos em Le Brio. De verdade, gostaria que todos tivessem essa sorte.

CONCLUSÃO: Os conflitos nas nossas sociedades por causa de diferentes origens, credos e línguas sempre existiram – e, pelo visto, sempre vão existir. Somado a isso, temos questões igualmente atemporais, como os conflitos internos e entre gerações. Le Brio nos mostra que ter estes conflitos não é um problema, mas pode ser um problema como procuramos solucioná-los (ou não). Além de homenagear os grandes mestres, Le Brio nos mostra que todos podem sim ser “grandes”, superarem os seus limites e origens. Se assim desejarem e se encontrarem o incentivo certo. Um grande filme, que tem conteúdo e emoção na medida certa. Das belas surpresas desse ano, sem dúvida.

Ant-Man and the Wasp – Homem-Formiga e a Vespa

 

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O filme mais família do Universo Marvel. Pelo menos, analisando as produções deste universo que eu já vi. Ant-Man and the Wasp é um filme divertidinho, com belas cenas de ação e efeitos especiais e uma narrativa que valoriza a família. Do início ao fim. Alguma surpresa? Se você já assistiu a pelo menos um filme do gênero, nenhuma. O roteiro é um bocado previsível e tem alguns “repetecos” narrativos, mas também apresenta alguns bons momentos. O mais fraco entre os filmes recentes da Marvel, mas se você é fã dos personagens ou desse gêmero, isso pouco vai importar.

A HISTÓRIA: Começa com uma narrativa feita pelo Dr. Hank Pym (Michael Douglas). Ele comenta que, às vezes, pensa na noite em que ele e a esposa, Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer) tiveram que deixar a filha. Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) era uma criança, e viu os pais saírem mais uma vez para uma “viagem de negócios inesperada”. Hank e Janet tem pena de deixar a filha, mas eles tem uma missão a cumprir como Ant-Man e Wasp. Desta vez, eles agem para desarmar um míssil que pode ser mortífero para centenas de pessoas.

O problema é que o casal, mesmo em tamanho diminuto, não consegue chegar no local correto para desarmar o míssil. A única saída é que um deles utilize o regulador para diminuir até o nível subatômico e, desta forma, acessar o núcleo do míssil. Janet é mais rápida que Hank e entra no “mundo subatômico”, de onde ela não conseguirá sair mais. Mas quando Scott Lang (Paul Rudd) conseguiu ir e voltar desse mundo subatômico, Dr. Hank Pym volta a acreditar que pode ser possível resgatar a mulher desse local. Para isso, ele vai construir um túnel subquântico que atrairá o interesse de muitas outras pessoas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ant-Man and the Wasp): Eis um filme sobre o qual eu não tenho muito o que falar. Ou, melhor dizendo, eis um filme sobre o qual não precisamos falar muito. Lembro bem de ler as HQs dos Vingadores e dos Heróis Marvel. Em meio a tantos heróis interessantes, o Homem-Formiga e a Vespa apareciam sempre como uma espécie de “personagens de apoio”.

Eles nunca me chamaram muito a atenção, para ser franca. E, novamente, nesse filme dedicado a eles, eu tive a mesma impressão. Ok, eles são graciosos, bonitinhos e tem uma história de fundo focada na família e no valor dos laços familiares bacaninha, mas é só isso. Em um ano em que vimos Black Panther, fica difícil a comparação. Claro, o personagem do Pantera Negra, especialmente pela forma com que ele foi desenvolvido no cinema, se apresenta muito mais completo em termos de temas subjacentes do que Ant-Man and the Wasp.

Importante observar isso antes de assistir a essa produção. Porque Black Panther – e, antes, Logan – elevaram tanto o nível dos roteiros dos filmes da Marvel, que é preciso reajustar as expectativas para assistir a esse Ant-Man and the Wasp. Admito que eu fui para o cinema assistir a esse filme sem grandes expectativas. Fui “desarmada” e para receber bem o que viesse. Achei, assim, o filme bacaninha, com um roteiro previsível e com algumas sequências interessantes. Os atores estão bem, mas a história em si é bastante fraquinha.

Vejamos. Tudo se resume à busca do Dr. Hank e de sua filha, Hope, pela figura materna desaparecida décadas antes. Contra essa busca deles estão os interesses de um mercenário, Sonny Burch (Walton Goggins), e do FBI e da polícia – que tem o Dr. Hank e Hope como foragidos. Para ajudar pai e filha a encontrarem a esposa/mãe desaparecida, entra em cena Scott Lang/Homem-Formiga. Antigo “discípulo” do Dr. Hank, Scott se sente em dívida com eles.

Esse é o filme. Junto com essa narrativa, com dinâmica previsível, temos o lado “fofinho” da história que é a relação de Scott com a filha Cassie (Abby Ryder Fortson). A relação entre pai e filha, no núcleo do Homem-Formiga, e de pais e filha, no núcleo da Vespa, fazem desta produção algo tão família. Ah sim, e outra ameaça importante para os “heróis” vem de uma menina que sofre justamente com o que? Com a falta da família! Estou me referindo a Ava (chamada também de Ghost/Fantasma), interpretada por Hannah John-Kamen.

O roteiro de Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari busca, desta forma, equilibrar os elementos conhecidos das HQs para agradar a todas as faixas etárias de público. Mas vejo Ant-Man and the Wasp agradando, em especial, aos mais jovens, já que este filme abre mão das cenas mais violentas e da “complexidade” dos personagens e narrativa de Black Panther e Logan para centrar-se mais na parte “divertida” e familiar dos personagens.

O roteiro feito a 10 mãos segue uma narrativa linear e com um contínuo “rouba” e “recupera” do laboratório do Dr. Hank e da peça que faltava para o invento dele e de Hope funcionar. No fim das contas, como previsto, eles conseguem terminar com o experimento e a história tem um final feliz.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Todos conseguem se sair bem, até Scott em sua incansável quebra-de-braços com o FBI e a polícia. Mas é importante assistir ao filme até depois dos créditos, para assistir a uma cena final que nos remete a Avengers: Infinity War. A família Van Dyne desaparece após a vitória de Thanos, e aí fica a pergunta de quem irá resgatar Ant-Man do “mundo subatômico”.

Entre as qualidades de Ant-Man and the Wasp está o bom trabalho dos atores principais, os efeitos especiais e algumas sequências realmente engraçadas – ainda que estas últimas possam ser contatas nos dedos. Por incrível que pareça, a melhor sequência do filme não conta nem com Paul Rudd e nem com Evangeline Lilly em cena. Para mim, o grande momento de Ant-Man and the Wasp é quando o amigo de Scott, Luis (Michael Peña) é obrigado a toma uma injeção da verdade e acaba contando a história da amizade dele com Scott.

Luis não para de falar e volta para o momento em que os dois se conheceram. Ele conta tudo rápido até chegar ao “esconderijo” atual do amigo. Achei essa sequência genial e o ponto forte da produção. Apesar de todos do elenco estarem bem, achei que faltou um pouco de “química” entre Rudd e Lilly. Não vi neles toda aquela sintonia que esperamos de personagens que vão trabalhar como casal.

A grande surpresa da produção foi mesmo ver nomes do quilate de Michael Douglas e Michelle Pfeiffer em um filme baseado em HQ. Uma grata surpresa. No mais, nada de novo. Você verá tudo que já viu – e algumas vezes melhor – em outras produções do gênero. Mas vale assistir, é claro. Assim como valia assistir a muitos filmes da Sessão da Tarde. 😉

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ant-Man and the Wasp é um filme “divertidinho” da Marvel. Ele não tem o humor ácido de Deadpool e nem a profundidade dos personagens de Logan, Black Panther e alguns filmes do X-Men, mas ele tem a pegada de humor e de ação que marcam os filmes da grife. Como eu disse, nada que você já não tenha visto antes. Mas até por isso vale conferi-lo.

Afinal, quem é fã das HQs e de seus personagens, sabe que nem sempre todos os personagens são relevantes. Alguns nasceram para ser protagonista, como Homem de Ferro e Wolverine, enquanto outros nasceram para ser coadjuvantes – a exemplo do Homem-Formiga e da Vespa. Mas todos, mesmo os coadjuvantes, merecem ter as suas histórias contadas, e é isso que esse Ant-Man and the Wasp nos demonstra.

Essa produção é uma bela deixa para vermos ótimos atores em cena. Tiro o meu chapéu, em especial, para Michael Douglas e Michelle Pfeiffer – ainda que ela faça quase uma ponta nesta produção. Douglas rouba a cena cada vez que aparece. Paul Rudd manda bem. Ele tem carisma e humaniza muito bem o personagem. Evangeline Lilly… tenho um problema ao vê-la em cena porque sempre me lembro de Lost – quando a atriz viveu a sua grande fase. Ela está bem em Ant-Man and the Wasp, mas acho, sinceramente, que ela não tem toda aquela química desejada com Rudd. Mas faz parte. De qualquer forma, foi bom vê-la novamente em cena.

Além desses atores, que sempre valem serem acompanhados, um coadjuvante que rouba a cena é Michael Peña. Para mim, ele tem algumas da principais cenas e falas da produção – como disse antes, o momento alto do filme é quando ele está em cena, e sem contracenar com nenhum dos protagonistas. Ele está muito bem.

Entre os coadjuvantes, vale citar também o bom trabalho de Walton Goggins como Sonny Burch, um dos “vilões” da produção; de Bobby Cannavale como Paxton, novo marido da ex-mulher de Scott; Judy Greer como Maggie, a ex-mulher de Scott, mulher interessante que não perde a oportunidade para marcar posição; T.I. como Dave, um dos funcionários de Luis e Scott; David Dastmalchian como Kurt, outro funcionário da dupla; Hannah John-Kamen como Ava/Ghost, a garota que busca desesperadamente para uma solução para a sua morte iminente; Abby Ryder Fortson ótima como Cassie, filha de Scott; Divian Ladwa como Uzman, o homem do “soro da verdade” e funcionário de Sonny; Laurence Fishburne como Dr. Bill Foster, ex-colega de Dr. Hank Pym e protetor de Ava; e Randall Park como Jimmy Woo, o sujeito do FBI que tenta flagrar Scott em suas “estripulias”, mas que nunca consegue pegá-lo no flagra.

Como sempre, um detalhe muito interessante é vermos Stan Lee em uma das cenas da produção – no melhor estilo das aparições Alfred Hitchcock. Desta vez, ele aparece como um motorista que acaba tendo o seu carro miniaturizado. A fala dele é divertida, brincando com os “velhos tempos”. Eu babo e tiro o meu chapéu para Stan Lee. Grande sujeito!

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para os efeitos especiais e visuais da produção, assim como a maquiagem. Essa é a velha magia dos filmes da Marvel – e volta a funcionar em Ant-Man and the Wasp. Além disso, vale citar a direção de fotografia de Dante Spinotti e a edição de Dan Lebental e Craig Wood; assim como a trilha sonora de Christophe Beck; o design de produção de Shepherd Frankel; a direção de arte de Rachel Block, Michael E. Goldman, Kiel Gookin, Calla Klessig, Jay Pelissier, Domenic Silvestri e Clint Wallace; a decoração de set de Gene Serdena e Christopher J. Wood; e os figurinos de Louise Frogley.

Ant-Man and the Wasp estreou no dia 25 de junho de 2018 em uma première em Los Angeles. Depois, no dia 4 de julho, o filme estreou em 12 países, incluindo Dinamarca e Espanha. No Brasil o filme estreou no dia seguinte, dia 5 de julho.

Esse é nada menos que o vigésimo filme da Marvel dentro do “Marvel Cinematic Universe”. Uau! Para uma fã antiga de quadrinhos, eu jamais poderia imaginar que a Marvel chegaria tão longe. Acho bacana, especialmente pelo incentivo que isso dá para as HQs continuarem em evidência. Leiam quadrinhos! Garanto que é algo maravilhoso! 😉

E pensando aqui, que já são 20 filmes “made in” Marvel, certamente tenho que concluir que uma boa parte deles eu não assisti. Então não posso me considerar uma “especialista” da grife – ao menos nos cinemas. Um dos filmes que eu percebi agora que eu perdi foi o Ant-Man que lançou os personagens no cinema. Puff!!

Agora, uma curiosidade sobre essa produção. Nos quadrinhos, Ghost nunca lutou contra Ant-Man. Ou seja, eis uma “licença poética” desta produção.

Esse filme é dirigido por Peyton Reed. Nem lembrei de citar o nome dele antes porque, francamente, acho que ele faz um trabalho mediano e dentro do esperado – nada além disso.

Para quem é super fã do universo Marvel e tem certinho na mente a evolução dos personagens, vale citar: Ant-Man and the Wasp é ambientado no “capítulo oito da fase três do Universo Cinematográfico Marvel”.

Esse é o segundo filme da grife Marvel que estreia em 2018 tendo o ator protagonista como um dos roteiristas. O anterior foi Deadpool 2, onde Ryan Reynolds aparece nesses créditos – como Paul Rudd em Ant-Man and the Wasp.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Ant-Man and the Wasp, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 224 críticas positivas e 34 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,9. Por sua vez, o site Metacritic apresenta um “metascore” 70 para o filme, fruto de 38 avaliações positivas e 13 medianas. Ou seja, o filme caiu no gosto de público e de crítica.

De acordo com o site IMDB, Ant-Man and the Wasp teria custado cerca de US$ 162 milhões – uma pequena fortuna, não? E conforme o site Box Office Mojo, o filme faturou US$ 164,6 milhões apenas nos Estados Unidos e outros US$ 188,9 milhões nos outros mercados em que o filme já estreou. Ou seja, no total, até o dia 22 de julho, o filme teria faturado cerca de US$ 353,5 milhões. Está no caminho de começar a dar lucro. E deve seguir nessa levada.

Ant-Man and the Wasp é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem “Sessão da Tarde”. Ant-Man and the Wasp nos entrega o básico do que é previsto para um filme de super-heróis. Ou seja, equilíbrio entre ação, drama, romance e comédia, diversas sequências ótimas de conflito e efeitos especiais, um bom grupo de atores e nada mais. A diferença desta produção para outras recentes da Marvel é que este filme foca na família e nas amizades, deixando para lá outros assuntos mais complexos – tratados em filmes como Black Panther e Avengers: Infinity War. Se você assiste a todos os filmes da Marvel, esse será apenas mais um no seu currículo. Se você está começando a ver a esse tipo de filmes, comece com algum outro – como Black Panther. Há filmes melhores do gênero. Mas para completar uma figurinha do álbum, esse filme é ok.

Disobedience – Desobediência

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Um dos filmes mais contundentes sobre liberdade de escolha que eu já vi. Disobedience trata, com um bocado de coragem e uma boa dose de espaço para discussão, temas tão importantes e controversos quanto a liberdade individual, a religião, o senso de comunidade, a constituição familiar e a sexualidade. Bem, com todos esses elementos misturados, vocês já podem ter uma ideia da potência desta produção.

Mais um belo trabalho do diretor Sebastián Lelio, que vem se consolidando, pouco a pouco, filme a filme, como um dos nomes mais interessantes do “novo cinema” chileno – e, quem sabe, até mundial. Excelentes interpretações também dos protagonistas. Se você não tem muitas amarras ideológicas – ou uma “religiosidade” exacerbada/extremista -, assista. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Um rabino, Rav Krushka (Anton Lesser), fala para um grupo de homens sobre os seres que foram criados por Deus. Os anjos, que procuram fazer tudo o que Deus deseja; os animais, que seguem apenas os seus desejos; e os homens, que foram criados após seis dias da Criação. Segundo a Torá, comenta Krushka, Deus pegou um punhado de terra e criou o homem e a mulher, os únicos seres que são capazes de desobedecer. Como homens e mulheres tem ao mesmo tempo a clareza dos anjos e o desejo dos animais, Deus deu como um fardo e um privilégio a estes seres o livre-arbítrio, ou seja, o poder de escolher.

Depois de fazer esta pregação, Krushka cai no chão, sendo imediatamente socorrido por Dovid Kuperman (Alessandro Nivola) e por outros homens que estavam ouvindo o que ele falava. Corta. Em outra cidade, Ronit Krushka (Rachel Weisz) faz fotos de um senhor já com certa idade e cheio de tatuagens. Ela insiste nos cliques, esperando pela melhor foto. No meio da sessão, uma garota que faz parte da sua equipe lhe chama para falar com um homem. A fotógrafa para a sessão, sai dali e, na sequência, vemos a várias cenas dela que demonstram como ela parece estar um tanto “perdida”. Em breve, ela voltará para a cidade que deixou para trás para se despedir do pai.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Disobedience): Um filme que começa com a pregação e a reflexão que Disobedience apresenta não pode ser ruim. Sem delongas, o diretor e roteirista Sebastián Lelio – que escreveu o roteiro desse filme ao lado de Rebecca Lenkiewicz, ambos inspirados no livro de Naomi Alderman – nos introduz o tema da liberdade de escolha (ou livre-arbítrio, como alguns gostam de chamar).

Esse tema, evidentemente, é a espinha dorsal desta produção. Mas que ninguém se engane que a narrativa que veremos depois se torna menos potente ou provocativa porque temos esta leve “introdução” nos primeiros minutos do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que seja verdade que o cartaz de Disobedience já entregue parte do “segredo” dessa produção, aquele beijo que vemos no cartaz poderia ser explicado de muitas maneiras diferentes. Então o que veremos depois não perde a potência por causa desse “spoiler”.

Algo que gostei muito no roteiro de Lelio e de Lenkiewicz é que eles sabem, muito, mas muito bem, valorizar as palavras e o silêncio. Ah, como isso faz diferença em um filme! Disobedience tem muitos momentos de silêncio em cena, ou de poucos diálogos ditos em voz baixa. E isso tem um efeito maravilhoso na narrativa. Fora os gemidos de prazer de uma Rachel McAdams em grande momento, não temos nada que “suba o tom” nesta produção. E isso já nos diz muito sobre Disobedience.

Esse filme trata de maneira muito interessante a questão da fé, da família, do contexto em que nascemos e somos criados e das escolhas que fazemos ao longo da nossa vida. Afinal de contas, o quanto as pessoas com muita fé estão realmente dispostas a abrir mão de suas “convicções”, dos dogmas ou da “tradição” da sua religião para encontrar a parte realmente essencial da fé que elas professam – ou delas mesmas?

Isso não é simples, e nem eu e nem Disobedience temos todas as respostas para estas e outras perguntas. Como eu já disse em outras ocasiões aqui no blog, esse espaço não é destinado para discutir a religião ou a fé das pessoas. Não, não. Se você quer fazer isso por aqui, este não é o espaço. Mas por este ser um blog sobre cinema, e por eu falar sobre os filmes conforme eu os vou vendo, inevitável falar sobre estes temas quando eles fazem parte da narrativa da produção comentada.

Além disso, especificamente em Disobedience, não tem como eu falar sobre o filme sem tratar de temas nevrálgicos apresentados pelo roteiro. E as questões citadas antes fazem parte destes temas. Então vamos lá. Disobedience trata de uma comunidade judaica mas, certamente, poderia tratar de várias outras religiões – inclusive as cristãs. A maioria delas, ao menos as que professam um único Deus “criador”, tratam sobre questões essenciais envolvendo esse Deus.

Estas religiões afirmam que Deus criou tudo que existe e que Ele nos deu como maior presente a liberdade de escolha – o tal livre-arbítrio. Não foi abordado muito nesse filme, mas estas mesmas religiões também falam que Deus é misericordioso e amoroso. Essas questões centrais são abordadas em Disobedience, assim como outras leituras sobre o papel do ser humano no mundo – casar e ter filhos – e outras regras que devem ser respeitadas segundo a tradição judaica.

A grande questão levantada por Disobedience é: quais são as questões fundamentais da fé? Será, por exemplo, que a recomendação de que todas as mulheres deveriam se casar com bons homens e ter filhos não vai de encontro à questão da liberdade de escolha? Quantas regras os judeus e os cristãos seguem e que foram “impostas” com o passar do tempo e com as interpretações dos seus respectivos livros sagrados? Na essência, o que realmente importa em uma crença ou em outra?

Se Deus é misericordioso e amoroso, quem é o ser humano para julgar um semelhante? Podemos nos encher de regras e interpretar os livros sagrados como bem entendermos mas, no final, para quem tem fé, não é realmente Deus que irá nos julgar? Então por que não respeitar um de seus melhores – e maiores – presentes para o ser humano, que foi o poder de escolher o seu próprio caminho? Nesse sentido, achei esse filme muito potente.

Agora, claro, Disobedience não é apenas discurso e reflexão. O filme envolve o espectador em um jogo intenso de desejo e de dilemas vividos pelos personagens principais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como eu disse antes, o beijo entre as personagens das duas Rachel poderia ter diversas interpretações e contextos. No início, achamos sim que poderia existir algo entre elas. Mas aos poucos descobrimos que o que existe ali não é “algo”, mas muito.

Esti Kuperman quase enlouqueceu quando Ronit Krushka abandonou a comunidade deles e partiu para Nova York. E agora, que ela conseguiu que Ronit voltasse para se despedir do pai recém-falecido, o desejo pela amiga e “primeiro amor” volta a ser irrefreável. Quando elas finalmente ficam juntas, no filme, eu pensei: “Como Esti vai conseguir viver a sua vida normalmente depois disso?”.

Claro que voltar para a “vida normal” com o marido Dovid era impossível. Gostei muito do roteiro, que inicialmente deixa muitos elementos “no ar” e, depois, nos atropela com os sentimentos das duas protagonistas – especialmente da personagem Esti. As duas Rachel estão de parabéns, assim como o diretor, por nos fazer embarcar na história delas de forma tão intensa. Basta um pouco de empatia para conseguir colocar-se no lugar delas.

O que eu achei muito interessante em Disobedience é que esse filme fala, com todas as letras, que ninguém deveria ser obrigado a ser – ou fingir ser – o que não é. Se Deus realmente nos deu a liberdade da escolha, ninguém mais nos deveria obrigar a nada. Quem, afinal, criou tantas caixinhas para as pessoas entrarem dentro? Isso realmente faz sentido? No fim das contas, nada é mais potente – e difícil – do que ser um “espírito livre”, como diria Nietzsche. Mas nada também é mais prazeroso.

Até perto do final, Disobedience nos fala muito bem sobre isso. Achei muito potentes as trocas entre os três atores principais – e uma das cenas mais fortes da produção é quando Esti fala com Dovid na cozinha. Falar a verdade pode ser duríssimo, mas também é muito libertador. O filme ia muito bem nestas discussões e na forma com que ele abordou a busca de liberdade e de realização de Esti até que os realizadores optaram por aquela reviravolta no final.

Francamente, eu não esperava por aquilo. Verdade que nem sempre as histórias terminam bem, mas a decisão de Esti de ficar não fez muito sentido por tudo que tínhamos visto antes. Ela era muito intensa e estava “perdidamente” apaixonada por Ronit.

Mesmo sabendo da gravidez, pediu pela liberdade para Dovid – alegando, de forma inteligente, que o filho (ou filha) deles deveria nascer em outro local, onde poderia ter a liberdade de ser quem gostaria de ser, diferente dela. E aí, na reta final, aparentemente incentivada pela questão da gravidez, ela decide não partir para ter uma vida com Ronit?

Não sei, para mim esse final foi bastante frustrante. Especialmente porque ele voltou a privilegiar a “família tradicional” e a segurança de Esti criar o seu filho (ou filha) naquela comunidade judaica e não tudo o que ela tinha defendido até então. Pela narrativa que vimos antes, nunca Esti conseguiria ser feliz realmente com Dovid – mesmo ela dormindo no sofá. Ela também não se sentiria plena vivendo naquela comunidade que não daria escolha para o filho (ou filha) dela.

Claro que eu entendo essa “reviravolta” final da produção. Com ela, os roteiristas quiseram nos dizer que o poder de escolha pode, muitas vezes, fazer a pessoa decidir pela segurança e pelo tradicional ao invés de optar pelo risco. Sim, isso é verdade. Mesmo que a gente torça pelo “final feliz”, no final das contas vai prevalecer a escolha do indivíduo – e não o que um ou outro deseja para ele. A nossa capacidade de escolher é então novamente valorizada pela produção, ainda que o desfecho aponte para uma certa frustração de expectativas.

Um outro ponto muito relevante desta produção e sobre o qual eu gostei muito é a questão da presença potente dos “pais” nesse história. Por um lado, Ronit quer honrar e demonstrar o amor que tinha pelo pai, um rabino tradicional que não aceitava que a filha fosse uma “ovelha negra”. Por outro lado, Ronit, Esti e Dovid, entre outros, vivem o dilema de fazer a vontade do “Pai”, ou seja, de fazer o que é bom para os “olhos de Deus”.

Assim, Disobedience fala sobre esses dois sentimentos que muitas vezes dividem as pessoas que tem fé: fazer as escolhas certas segundo os seus próprios critérios, valores, pensamentos e desejos, e fazer as escolhas certas segundo o “desejo de Deus” – que, muitas vezes, é tão difícil de “adivinhar”. Por termos toda esse complexidade e dualidade, que eu acho – e defendo – que deveríamos ser muito mais generosos uns com os outros. E deixar o julgamento, o senso de justiça e o “tira-teima” sobre o que é bom e verdadeiro para Deus – e mais ninguém.

Voltando para o que é, afinal de contas, essencial para qualquer religião, acredito que para os cristãos o essencial seria os dois mandamentos sobre os quais Jesus falou. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” ou o “próximo como Eu vos amei”. Se as pessoas realmente acreditassem nisso, elas até poderiam discordar uma das outras, mas jamais julgariam ou hostilizariam a um semelhante.

Porque, no final das contas, somos todos mortais, falhos, buscando o equilíbrio entre o comportamento de anjos e de animais e tendo apenas o poder de escolha como uma das nossas principais “armas” – para o bem e para o mal. Para quem tem fé, será inevitável buscar “agradar ao Pai”. Essa busca é válida mas, no fim das contas, apenas Ele poderá nos dizer o quanto acertamos ou erramos na tentativa. O que Disobedience nos mostra, por A+B, é que o amor não pode ser um erro nessa equação. Não importa o que algumas interpretações dos livros sagrados nos digam.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Francamente, eu estava muito perto de dar uma nota 10 para este filme. Sério mesmo. Só que aí aconteceu o que aconteceu… Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz resolveram dar uma reviravolta para o “tradicional” no final que eu achei um tanto “decepcionante”. Simplesmente porque eu acho que o que vemos nos últimos minutos de filme não casa com o restante da narrativa. Até entendo as razões deles fazerem isso – levar a compreensão do “livre-arbítrio” ao extremo -, mas, ainda assim, para mim, o filme perdeu um ponto por causa daquela escolha.

Disobedience tem muitas qualidades. Para começar, um roteiro quase irrepreensível. Apesar da reviravolta um tanto questionável no final, algo precisa ser dito: Lelio e Lenkiewicz souberam conduzir a história com maestria, seguindo alguns passos da cartilha do cinema com esmero.

O filme vai nos apresentando os personagens, seus gostos, valores e contexto social pouco a pouco, até que mergulhamos em uma realidade em que nem tudo pode ser dito ou demonstrado – muito pelo contrário. Esconder-se, manifestar o que se sente sem que outros possam ver, tudo isso é um belo gatilho de sensações e de angústia para os personagens e para quem assiste ao filme.

Adicionando a esse roteiro competente o belo trabalho do trio de protagonistas, como comentei antes, fica quase impossível o espectador não se colocar no lugar deles – e sempre que isso acontece o filme ganha em potência. Na direção, Sebastián Lelio demonstra, a exemplo do que vimos em Una Mujer Fantástica (comentado por aqui), pleno domínio do “jogo de cena”, uma bela e segura condução dos atores e um olhar atento para as nuances das suas interpretações. Mais um belo trabalho desse diretor que merece ser acompanhado.

Existe um momento bastante “duro” de assistir nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Ronit decide realmente ir embora. Claro que o que muitos podiam estar esperando é que ela ficasse, para ajudar Enit a se encontrar, ou que convidasse ela a ir embora junto. Mas não. Dá para entender Ronit, ainda que seja complicado, porque, afinal de contas, cada um deve ser “dono” de seus próprios caminhos. Enit tinha que decidir por conta própria o que fazer. Ainda assim, achei que Ronit foi um pouco “covarde” por simplesmente ir embora e deixar todo aquele “estrago” para Enit resolver sozinha. Quando vemos a Enit na farmácia, não é difícil imaginar que ela comprou um monte de remédio para suicidar-se em um quarto de hotel. Ainda bem que a história não foi para esse caminho – ainda que, na vida real, isso não seria difícil de acontecer naquele contexto. Infelizmente. Por isso, é preciso ter muito cuidado e zelo com aqueles que amamos e em quem despertarmos amor. Não adianta apenas virar as costas, muitas vezes, e sair de perto. É preciso encontrar outras saídas.

O nome que mais me chamou a atenção, nessa produção, inicialmente, foi o de Rachel Weisz. Ela é uma grande atriz, e sempre aprecio vê-la em cena. E ainda que seja verdade que ela está muito bem em Disobedience, quem me chamou mesmo a atenção foi Rachel McAdams. Para mim, ela faz um trabalho impecável e potente, nos apresentando uma personagem com maior complexidade do que o vivenciado por Rachel Weisz. A meu ver, o trabalho de Rachel McAdams está alguns degraus acima dos outros protagonistas desse filme. Ainda assim, é preciso tirar o chapéu para Rachel Weisz, Alessandro Nivola e Rachel McAdams da mesma forma. Eles estão excelentes nesse filme.

Disobedience é um grande filme por causa do roteiro, da direção e do trabalho dos protagonistas. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas vale comentar também o bom trabalho de um time relativamente pequeno de coadjuvantes. Entre outros nomes, vale destacar o belo trabalho de Anton Lesser como Rav Krushka, pai de Ronit; Allan Corduner como Moshe Hartog, tio de Ronit; Bernice Stegers como Fruma Hartog, tia de Ronit; Nicholas Woodeson como Rabbi Goldfarb; e Liza Sadovy como Rebbetzin Goldfarb. Todos estão muito bem.

Esse filme tem diversas sutilezas. Por exemplo, o diálogo entre Ronit e o homem tatuado que ela está fotografando no início da produção. O homem, com o corpo cheio de tatuagens, comenta que a primeira que ele, o rosto de Jesus, ele fez quando tinha 15 anos. “Essa doeu”, ele comenta. Para quem logo vai voltar a “mergulhar” em uma comunidade judaica, essa introdução não me parece desprovida de sentido. E o filme tem muito disso. Pequenas sutilezas.

Entre os aspectos técnicos do filme, além do roteiro e da direção muito acima da média já comentados, vale destacar a direção de fotografia de Danny Cohen; a edição de Nathan Nugent; a trilha sonora de Matthew Herbert; o design de produção de Sarah Finlay; os figurinos de Odile Dicks-Mireaux; e a direção de arte de Jimena Azula e Bobbie Cousins.

Disobedience estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois desta data, o filme participou de outros 12 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme foi indicado a cinco prêmios – mas não levou nenhum para casa.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Sebastián Lelio comentou sobre como foi trabalhar com as atrizes Rachel Weisz e Rachel McAdams, que são bastante diferentes entre si. Para ele, Weisz parece uma “força da natureza”, uma atriz com “personalidade vulcânica”. Por outro lado, McAdams é meticulosa, uma espécie de “especialista disfarçada” que se esconde atrás de uma peruca e de maquiagem. Para o diretor, os estilos diferentes das duas atrizes se encaixaram perfeitamente nas personagens principais do filme, que são também diferentes e, ao mesmo tempo, complementares. Faz sentido.

Segundo a história de Disobedience, as personagens de Weisz e McAdams tem a mesma idade, mas fora da tela Weisz é oito anos mais velha que McAdams.

Disobedience marca a estreia em filme falados em língua inglesa do diretor Sebastián Lelio. Para mim, foi uma bela estreia. Vejo muito futuro para ele – seja no cinema latino, seja no cinema dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 106 críticas positivas e 20 negativas para Disobedience – o que garante para o filme uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,3. O site Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” de 74 para esta produção – fruto de 32 críticas positivas e de quatro medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Disobedience faturou cerca de US$ 3,5 milhões nos Estados Unidos e US$ 2,4 milhões nos outros mercados em que estreou. Ou seja, no total, o filme fez cerca de US$ 5,9 milhões. Pouco, para os padrões de Hollywood, mas um resultado razoável para um filme “independente”. O problema é que, segundo o site IMDb, esse filme teria custado cerca de US$ 6 milhões para ser feito. Somando a isso os custos de produção e de divulgação, esse filme não está nem conseguindo se pagar. Uma pena.

Disobedience é uma coprodução do Reino Unido, da Irlanda e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme potente. Provocativo, instigante, sensual e que nos faz refletir sobre algumas questões fundamentais. Não é todo dia que a gente pode se deparar com um filme como Disobedience. Com um roteiro bem acima da média, uma direção cuidadosa e ótimas interpretações dos atores principais, esse filme só não é perfeito porque ele “cede” no final.

Ok, a vida nem sempre tem finais felizes. Mas nesta produção, em especial, a escolha de Sebastián Lelio e Rebecca Lenkiewicz para o desfecho do filme parece um tanto estranha – se levarmos em conta o restante da trama. Ainda assim, como comentei lá no início, se você está aberto(a) à novas ideias, esta pode ser uma produção bastante instigante. Vale pelo debate e pela reflexão que levanta. Um filme porreta, por assim dizer.

Ocean’s Eight – Ocean’s 8 – Oito Mulheres e um Segredo

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Sim, você já viu essa história antes. Não há novidade por aqui. Mas algo que não é tão comum de se ver é um elenco estelar e talentoso de atrizes desse naipe reunido em uma mesma produção. Assim, Ocean’s Eight se garante pelo seu elenco. Sem dúvida o ponto alto da produção. Mas não o único, como manda a cartilha da “grife” iniciada com Ocean’s Eleven – no já distante ano de 2001. Os figurinos, a edição ágil, a direção de fotografia e a direção também são pontos de destaque. O roteiro… bem, é mais do mesmo do gênero – e com menos criatividade que outros que o precederam.

A HISTÓRIA: Em um presídio, Debbie Ocean (Sandra Bullock) é entrevistada antes de ter direito a sair em condicional. Ela admite que teve um irmão criminoso e que parte da sua família também aderiu à vida de crimes. Mas ela garante que não é assim, que apenas errou ao se apaixonar pela pessoa errada. Ela parece se emocionar, e diz que saindo da prisão, tudo que ela quer é uma vida normal. Mas essa “vida normal” para ela não é nada comum. Durante o tempo que ficou presa, tudo que ela fez foi planejar um roubo ousado. Para colocar ele em pé, ela procura grandes parceiras, começando por Lou (Cate Blanchett).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes desse filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ocean’s Eight): Ufa amigos e amigas! Finalmente coloco, com esta crítica, os meus comentários atrasados em dia! Assisti a Ocean’s Eight ainda em junho, mas como saí de férias por 15 dias e tive uns dias de correria pré e pós férias, estou conseguindo falar dele só agora. Depois desta crítica, bóra lá voltar ao cinema e retomar algumas pesquisas aqui para o blog. Bóra correr atrás porque já começamos o segundo semestre do ano!

Então, como eu disse antes, Ocean’s Eight é um filme divertido, com um grande elenco e bom ritmo. É puro entretenimento. Você se diverte, especialmente, com a entrega das atrizes e com as “embaixadinhas” e a troca de passes que elas fazem. Todas sabem dominar a bola muito bem, e entregam o que a audiência espera – viram que aproveite o último dia da Copa 2018 para usar umas “tiradas” futebolísticas, não é mesmo?

Mas a história em si, é bastante previsível. O roteiro de Gary Ross e Olivia Milch, que trabalharam sobre uma história de Ross e com base nos personagens criados por George Clayton Johnson e Jack Golden Russell, segue totalmente a cartilha dos outros filmes da grife. Ou seja, temos a uma protagonista – mulher, desta vez – que planeja um roubo incrível e que, para conseguir executá-lo, conta com vários outros especialistas – todas mulheres, nesse caso.

Então o início, o meio e o fim de Ocean’s Eight não fogem da cartilha e do que é previsto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mesmo a “surpresinha” no final, o roubo dentro do roubo, não é exatamente uma graaande surpresa. Isso já foi utilizado antes. O que surpreende sempre, nestes filmes com “crimes perfeitos”, é como a segurança de eventos/locais que deveriam ser quase impossíveis de serem ultrapassados podem falhar tanto.

No caso deste filme especificamente, parece um tanto difícil de engolir a trapalhada dos seguranças que acompanham Daphne Kluger (Anne Hathaway) e tudo que se segue após o sumiço e o “encontro” da joia mega valiosa. Ok, a edição ajuda, assim como o carisma das atrizes, mas é um tanto difícil de engolir todo aquele desenrolar envolvendo esse colar especificamente. Mas ok, ninguém quer ser muito exigente em um filme assim – até porque sabemos qual é a sua “pegada”.

Também achei um tanto “forçada” a aparição de Daphne no KG das mulheres e como todas aceitaram com tanta facilidade dividir a fortuna incluindo ela também. A pequena vingança particular de Debbie Ocean contra o ex, Claude Becker (Richard Armitage) também pareceu uma saída um tanto preguiçosa – afinal, praticamente elemento nenhum corroborava aquela teoria. Mas beleza, vamos acreditar que Debbie e Cia. são realmente geniais e conseguiram enganar a todo mundo.

Como este é um filme de puro entretenimento, o importante é nos focarmos menos na história – que, de fato, é fraquinha por ser previsível e com uns “exageros” para que tudo se encaixe e dê certo apesar de parte da história ser bastante improvável – e mais nos outros elementos que compõem uma produção do gênero. Assim, o elenco faz um ótimo trabalho; temos uma ótima e envolvente direção e edição; uma bela direção de fotografia e trilha sonora. Tudo isso junto nos entrega um filme tecnicamente bem acabado e que passa “rápido”.

Um outro ponto interessante e que não pode ser ignorado é que vivemos uma era de valorização crescente do talento feminino. Nesse cenário, Ocean’s Eight coloca em primeiro plano papéis que há tempos atrás eram masculinos. Hoje, mulheres estão cada vez mais filmes de ação como líderes da narrativa. E isso é muito bacana e interessante. Afinal, muitas vezes, elas tem um traquejo e uma sensualidade que não vemos nos homens.

Com isso, não defendo que todos os filmes de ação devam ser protagonizados por mulheres. Não, não! Mas quem sabe pode ser interessante termos mais um tipo de equilíbrio entre filmes estrelados por homens e mulheres nesse gênero? Isso pode ser bastante enriquecedor para o cinema – e fazer sentido para o público, cada vez mais preocupado com a questão da igualdade entre os gêneros.

O que podemos ver, com esse Ocean’s Eight, é que ótimas atrizes sim podem dedicar o seu talento para filmes mais descompromissados e que tem um propósito bastante específico. Filmes de ação, policiais e cheios de trama sempre são bem-vindos para “refrescar” o cinema – e dar uma pausa nas produções mais sérias e filosóficas.

Essa produção tem várias qualidades que fazem a experiência valer a pena. Só talvez poderia ter tido um roteiro um pouco mais inovador – as referências à grife foram bacanas, mas a história poderia ter tido alguns temperos e/ou surpresas mais interessantes ou convincentes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei antes, assisti a esse filme há cerca de um mês. Por isso me perdoem por não lembrar de todos os detalhes, mas apenas do essencial. Desconfio que o roteiro de Ocean’s Eight teve outros pontos frágeis que eu não lembrei agora, mas tentei passar o que me marcou mais desta produção. A partir de agora, prometo, pretendo escrever as próximas críticas mais próximas da minha experiência de ter visto aos filmes. 😉

Como disse antes e repito, o elenco desta filme é o seu ponto forte. Mulheres poderosas, talentosas, carismáticas e que todos tem interesse de ver na telona. O grande destaque vai para Sandra Bullock, Cate Blanchett e Sarah Paulson. Para mim, elas estão acima da média nesse filme – e as suas personagens, melhor exploradas pelos roteiristas, ajudam nisso. Sem contar os talentos das três, que realmente brilham em cena. Depois, em papéis ligeiramente menores, estão muito bem também Helena Bonham Carter, Rihanna, Mindy Kaling e Awkwafina. Destas quatro, gostei especialmente de Mindy Kaling e de Awkwafina. Para mim, elas tem personagens mais interessantes (e engraçadas).

A lista citada acima é apenas o “núcleo duro” da produção. A equipe formada pela personagem de Sandra Bullock para viabilizar o seu plano do grande roubo. Mas, além destas atrizes, vale ainda comentar o trabalho de Anne Hathaway, outra atriz com destaque na trama, assim como o papel um pouco mais relevante de Richard Armitage, e as quase “pontas” de outros nomes, como Elliott Gould, Dakota Fanning, Damian Young e Dana Ivey. Vários outros famosos aparecem apenas de relance, no tal baile de gala, mas sem nenhuma fala, nem considero interessante citá-los aqui.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a boa direção de Gary Ross. Ele segue a cartilha de Steven Soderbergh, mas não apresenta nada inovador. Ainda assim, faz um bom trabalho orquestrando todos os talentos em volta do filme. Também vale destacar a competente direção de fotografia de Eigil Bryld; a trilha sonora de Daniel Pemberton; a ótima edição de Juliette Welfling; os figurinos superinteressantes de Sarah Edwards; o design de produção de Alex DiGerlando; a decoração de set de Rena DeAngelo; e a direção de arte de Henry Dunn, Kim Jennings e Chris Shriver.

Ocean’s Eight foi exibido no dia 5 de junho em uma première em Nova York. Dois dias depois, o filme estreou em oito países – incluindo o Brasil. Até o momento, esta produção participou de apenas um festival, o Biografilm Festival, na Itália. Apesar de ter participado apenas deste festival, o filme ganhou dois prêmios e foi indicado a um terceiro no Golden Trailer Awards. Os prêmios que ele recebeu são o de Melhor Spot de Comédia para a TV e Melhor Teaser Poster.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Ocean’s Eight começa da mesma forma que Ocean’s Eleven, o filme que inaugurou a grife de produções dirigidas por Steven Soderbergh e estreladas, entre outros, por George Clooney. A exemplo do filme de 2001, no filme estrelado por mulheres uma Ocean – a personagem de Sandra Bullock é a irmã do personagem de Clooney – é questionada sobre o que ela fará após sair da prisão. O mesmo é feito com o Ocean interpretado por Clooney no filme de 2001.

Existe uma outra referência escancarada para a produção de 2001. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na cena final de Ocean’s Eight, a personagem de Sandra Bullock aparece na frente do túmulo do irmão vestindo um smoking preto e uma gravata borboleta aberta – a mesma roupa usada pelo irmão dela, Danny, na saída da prisão em Ocean’s Eleven.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 84 negativas para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 67%.

Ocean’s Eight teria custado cerca de US$ 70 milhões, segundo o site Box Office Mojo, e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 132,2 milhões. Nos outros países em que o filme estreou, ele faturou outros US$ 119,2 milhões. Ou seja, no total, faturou cerca de US$ 251,4 milhões – conseguiu, pelo visto, pagar os custos e ainda dar algum lucro para os produtores.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra para a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Elas são poderosas e são talentosas. E desfilam os seus carismas e talentos na nossa frente. Ocean’s Eight tem no “girl power” de um elenco escolhido à dedo o seu melhor trunfo. Esse filme, evidentemente, é puro entretenimento. Não dá para esperar muito dele e nem levar a história muito a sério. Comentado isso, é preciso dizer que Ocean’s Eight tem também uma ótima edição, trilha sonora e figurinos. Aqui e ali, ele também tem boas tiradas e algumas risadas. Para um dia qualquer no cinema, ele é diversão garantida. Sem você exigir muito da história, é claro.