La Vénus à la Fourrure – Venus in Fur – A Pele de Vênus

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Jogos de dominação sempre fizeram e continuam fazendo parte das relações humanas. Sejam elas individuais ou coletivas. La Vénus à la Fourrure (ou, no mercado global, Venus in Fur) trata do núcleo base destas relações, em um jogo individual entre um homem e uma mulher. De quebra, o filme de Roman Polanski se debruça sobre a criação artística, o “jogo em cena” de uma atriz e um diretor e sobre o fascínio que as mulheres despertam nos homens desde sempre. Um filme extremamente bem escrito, com dois ótimos atores e que se passa inteiro em um teatro. Mais uma grande obra de Polanski.

A HISTÓRIA: A câmera percorre uma rua molhada pela chuva no final da tarde. Após passar no meio de uma fileira de árvores, ela vira à direita e foca em um teatro. Entramos. Na porta interna, um cartaz informa que ali estão sendo feitos os testes para a peça “A Pele de Vênus”. No palco, Thomas Novachek (Mathieu Amalric) reclama por telefone que não conseguiu encontrar ninguém para o papel. Uma atriz atrasada entra no teatro, conta sobre o dia trágico e cheio de acidentes que teve. Ela se apresenta como Vanda Jourdain (Emmanuelle Seigner) e pede para fazer a audição. No início, ele resiste, mas acaba aceitando após a insistência dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Venus in Fur): Não é a primeira vez e não será a última que um diretor escolhe apenas um ambiente para contar uma história. Quando isso acontece, é ainda mais vital dois pontos: que o roteiro e os diálogos sejam ótimos e que os atores envolvidos na cena saibam não apenas repassar verdade sobre aquilo que estão falando e fazendo, mas que também tenham sintonia para fazer o jogo em cena acontecer como se deve. Isso acontece em La Vénus à la Fourrure.

O roteiro de Roman Polanski e David Ives é baseado na peça de teatro de Ives que, por sua vez, bebe na fonte do livro de Leopold von Sacher-Masoch. Tenho certeza que quem leu a obra original austríaca de 1870 e/ou viu a peça de Ives terá uma visão diferente e mais completa da minha. Como eu não bebi em nenhuma destas fontes, fiquei totalmente fascinada e entregue para o trabalho apresentado pelo texto de Polanski e Ives.

O começo é singelo, com um protagonista insatisfeito pelo “dia jogado fora” com diversas meninas dos tempos atuais sem conteúdo ou charme algum – algo essencial para a personagem que ele está procurando – e uma mulher chegando super atrasada e, aparentemente, bastante fora do tom. Mas naquele cenário, como na vida fora daquele teatro e deste blog, as aparências enganam. Pouco a pouco o filme vai se complicando e envolvendo o espectador e percebemos que nem Thomas é exatamente o que ele diz ser e nem Vanda é o que ela inicialmente demonstrou.

Primeira lição deste filme e da história: ninguém é aquilo que diz ser inicialmente. Apenas com o tempo e com a dinâmica certa é que percebemos quem somos de fato e quem são as pessoas com quem nos relacionamos. Pois bem, meio que por “acidente”, ao falar com a noiva no celular e dar a entender a Vanda que lhe dará a oportunidade de fazer uma audição, Thomas abre as portas para a desconhecida e se revela.

Logo que o teste começa, Vanda deixa para trás aquela imagem de aparente vulgaridade e ignorância e assume completamente a postura da personagem do romance A Pele de Vênus, de Leopold von Sacher-Masoch e a qual Thomas adaptou para o teatro. Forçado a dar uma oportunidade para aquela atriz aparentemente decadente, Thomas fica fascinado logo na primeira troca. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A partir daí, ele será enredado cada vez por aquela experiente mulher que sabe, na hora certa, agir da maneira adequada para envolver o seu nada inocente interlocutor.

Achei fascinante como Polanski e Ives misturam a interpretação do romance de Sacher-Masoch com a história contemporânea de Thomas e Vanda. Não por acaso, desde o princípio, aquela atriz em busca de uma oportunidade questiona o autor e diretor de teatro sobre as suas motivações. Desta forma, a história tem uma dupla leitura e os roteiristas abordam também a própria criação artística. Que autor não coloca um pouco de si ou dos seus em suas obras? Quem não deixa a sua identidade de alguma forma transparecer em sua criação?

O diretor Roman Polanski é um destes casos. E, para mim, é impossível não pensar, se não durante, pelo menos após o filme terminar, em quanto daquele jogo de dominação e de submissão entre um homem e uma mulher, com a mulher levando a melhor no final, não é uma própria reflexão/ponderação do autor sobre a sua própria história. Para quem não lembra, Polanski segue refugiado fora dos Estados Unidos após ter sido condenado por estuprar uma garota de 13 anos em 1977. Dá para ler uma entrevista com Samantha Geimer, que lançou o livro A Menina, aonde conta a sua história, neste link.

Pois bem, naquele teatro de La Vénus à la Fourrure, aquela atriz misteriosa – seria verdade a história dela que ela é meio atriz e meio detetive? – desconstrói não apenas o trabalho de Thomas, mas também joga em um holofote os próprios desejos e fraquezas do autor e diretor de teatro. Ela encarna Vênus e a Vanda de Sacher-Masoch ao mesmo tempo. Poderosa, implacável, ela envolve a presa como ela deseja e depois o deixa exposto. A história vai crescendo neste sentido desde o princípio em um jogo de cena poderoso entre os sempre ótimos Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric.

Agora, se o trabalho dos atores é soberbo e se a dinâmica em cena é perfeitamente comandada por Polanski, o que falar da história propriamente dita? Não li o romance de Sacher-Masoch, volto a ponderar, mas como o filme fala da releitura desta obra, os comentários serão baseadas na produção com roteiro de Polanski e Ives. Há três camadas de leitura aqui: temos um filme que fala de um peça de teatro que, por sua vez, interpreta uma obra literária clássica. Todas estas camadas analisam a motivação de um homem por uma mulher e vice-versa.

Neste sentido, e como na vida em que vivemos, há desejos e motivações, caráter e imagens que querem ser “vendidas” para os outros. Daí o outro grande sentido desta produção: nem sempre aquele que parece estar dominando é quem tem, realmente, o poder sobre o outro. Muitas vezes aquele que se diz subjugado ou “inferior” é quem desempenha o papel de dominação. Por sua posição natural como diretor e autor da peça de teatro, Thomas é quem domina, é quem tem poder. Mas conforme a história vai se desenvolvendo e conforme ele cede aos encantos de Vanda, aparentemente é ele quem está sendo dominado.

Mas isso, só aparentemente. Afinal, através daquele jogo de cena com a atriz, ele está conseguindo exatamente o que ele quer. Primeiro, ele cede ao próprio orgulho. Conforme Vanda vai elogiando o texto e o trabalho dele, Thomas vai abrindo cada vez mais o flanco. Seu ego está acariciado.

Depois, ela entra na vida particular dele, “desbravando” a sua realidade atual e aquilo que ele gostaria que acontecesse, mas não acontece. Isso fascina Thomas e o deixa ainda mais enredado. Mas ele sabe, e nós vamos saber só depois, que no fim quem vai dominar como Kushemski é ele, e não Vanda.

E aí vem o grande golpe da atriz: após envolvê-lo pelo que ela já fez e pelo que ela deixou no ar como promessa, ela vira o jogo dos papéis, deixando Thomas novamente no papel subjugado – aqui, não de forma inteligente e prevendo a “volta por cima depois”, como agia Kushemski, mas como a personagem feminina que vivia a ilusão da dominação enquanto estava sendo enredada.

Desde o princípio Vanda questiona a obra e os sentimentos de Thomas e, no final, ela desmascara o autor e diretor. Na vida fora das telas nós temos também casos de pessoas que se esforçam muito para parecer o que elas não são. Mentem – muitas vezes para si mesmas -, iludem e se fazem de vítimas apenas para conseguir dominar. Não tem coragem de falar claramente sobre os seus verdadeiros desejos e motivações. Mas, no fundo, querem dominar e subjugar, mostrar que são superiores e que tem o poder – ainda que digam o contrário.

Neste filme, Thomas em diversos momentos perde a calma. Hora porque acha todas as atrizes/mulheres ignorante. Hora porque “não é compreendido”. Nestes momentos ele deixa para trás o politicamente correto e a postura que ele deve ter frente aos outros para mostrar um pouco de sua personalidade real. No fundo ele é tudo aquilo que Vanda comenta sempre que pode, enquanto vai enredando a Thomas: um machista, talvez até misógino, que não é sincero no agir e no falar mas que, no fundo, acha que toda mulher deve se submeter a um homem.

Nas aparências, contudo, ele diz o contrário: que é fascinado pelas mulheres. Muitos homens falam e agem desta forma, com certa “reverência” e fascínio mas, no fundo, se submetem apenas para dominar. É sobre isso que esse filme trata. No fim, Vênus representa a beleza e o poder feminino, algo que fascina e que atemoriza Polanski. A inteligência de Vanda faz ela reverter o jogo e “desgraçar” a vida de Thomas. De forma simbólica, é claro. No fim, o rei está nu e a “punição” veio através de uma mulher. Quem dera que isso fosse mais aplicado na vida real. 😉

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Devo admitir que, inicialmente, eu tinha dado uma nota até maior para esse filme. Originalmente, daria um 9,5, porque este filme realmente é muito bem escrito, interpretado e acabado. Mas ao pensar um pouco sobre a história de Polanski, não consigo dar uma nota maior do que 9. Afinal, por mais que a mídia tenha exagerado na época e depois sobre o caso e que a vítima diga perdoar o estuprador, não consigo aceitar que uma menina de 13 anos seja dopada e tenha relações com um homem bem mais velho. Ele realmente não poderia ter escolhido uma garota mais velha, mais consciente de seus próprios atos? Ok, o filme não é sobre isso. Mas também não deixa de ser sobre isso.

Volta e meia eu falo por aqui, e você que me acompanha há muito tempo já sabe disso, que um ótimo roteiro com a entrega adequada dos atores é suficiente para presenciarmos um grande filme. Há quem goste de pirotecnia, muitos efeitos especiais e adrenalina. Entendo. E devo dizer que não acho que um filme é ruim só por apresentar isso. Mas me fascinam os filmes que apostam no essencial, como este. Um ótimo roteiro e dois ótimos atores bastam para nos envolver, fazer o tempo passar suave e, de quebra, questionar valores e atitudes da vida real. É preciso mais?

O início desse filme já diz muito sobre o que virá depois. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A atriz que chega atrasada e que parece uma intérprete de filmes pornô pela roupa que está usando diz ter o mesmo nome da personagem a adaptação de Thomas. Ora, quanta coincidência! Só que tudo, e vamos percebendo isso depois, tem um sentido e um porquê. Ainda que não saibamos, de fato, quem é Vanda, ou mesmos se esse é o nome dela, é fascinante vê-la em ação.

Ela sabe usar os recursos e armas que tem para conseguir o que quer, e isso mostra toda a força de Vênus – ela é a encarnação perfeita da deusa mitológica romana. Thomas, por outro lado, representa um reles mortal, perdido em seus próprios desejos e enredos particulares que, no fim das contas, não tem condições de enfrentar aquela deusa. Vanda é como um camaleão e se transfigura conforme o seu interesse. Mas ela, desde o minuto que entra naquele teatro, tem uma missão: desmascarar Thomas e mostrar-lhe a sua própria mortalidade. Fascinante.

Da minha parte, eu não poderia bater mais palmas para Vanda. É ótimo ver quando uma mulher assume as rédeas da situação e faz aquilo que é o correto, privilegiando a verdade sobre a mentira.

Alguns diálogos são verdadeiras pérolas. Esse filme, além de envolvente, tem alguns momentos muito engraçados. Logo no início, quando Vanda pergunta se a obra de Thomas é inspirada em uma música de Lou Reed, é um destes momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na sequência, vamos descobrir que ela sabe muito mais do que quer admitir. Além de ter o texto completo da peça, ela sabe todos os diálogos de cor, tem uma cópia do livro no qual Thomas se inspirou e sabe bastante sobre a vida do autor/diretor. Sem dúvida ela está no controle – e faz sentido a versão que ela diz, de ter sido contratada pela noiva dele. Ainda que, se isso for mentira, também é igualmente crível. Afinal, o papel dela é fascinar e enredar. Pouco importa a fonte daquela “justiça feminina”.

O principal destaque do filme, além do já bastante elogiado roteiro com diversas camadas de interpretação e autorreferências, e o excelente trabalho dos atores Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric, é a direção de Polanski. Ele tem uma dinâmica muito boa em cena, privilegiando sempre o trabalho da dupla de atores e jogando, com a sua câmera, o papel fundamental de provocador do espectador. Ele utiliza bem o palco, a frente daquele espaço e o corredor do teatro para “variar” o ambiente na dinâmica dos atores. Chega a avançar na coxia, mas em poucos momentos. Explora bem o ambiente e, com o diretor de fotografia Pawel Edelman, valoriza os recursos presentes para evidenciar as emoções e a dinâmica dos intérpretes. Muito bom.

Outro elemento interessante do filme, ainda que relativamente pouco usado, é a trilha sonora assinada pelo veterano e premiado Alexandre Desplat. Especialmente a trilha inicial, que acompanha o longo plano de entrada no teatro, revela um pouco do tom “rocambolesco” da produção. Da parte técnica do filme, vale ainda destacar o competente trabalho dos editores Hervé de Luze e Margot Meynier; a direção de arte de Bruno Via; a decoração de set de Philippe Cord’homme; os figurinos de Dinah Collin e a maquiagem de Anais Lavergne (especialmente importante para Emmanuelle Seigner).

Os dois atores são excepcionais, mas o que dizer do trabalho de Emmanuelle Seigner? Que atriz! E que interpretação! Ela dá um verdadeiro show em cena. É fascinante e um privilégio assisti-la.

Interessante como esse filme demorou para chegar aos cinemas brasileiros. La Vénus à la Fourrure foi lançado no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2013. Depois, o filme participaria ainda por outros 15 festivais. O último país de uma longa lista em que esta produção estreou no cinema comercial foi o Brasil. Neste ano, a produção desembarcou atrasada também na Argentina e no Chile (e, neste último, ainda de forma limitada).

Não há informações sobre os custos de La Vénus à la Fourrure, mas acredito que eles tenham sido baixos. Nos Estados Unidos o filme teve uma arrecadação pífia, pouco mais de US$ 373 mil. No resto do mundo, acumulou pouco mais de US$ 7,4 milhões. Ainda assim, pouco. Uma pena.

Esta produção foi totalmente rodada em Paris, utilizando dois teatros. As cenas externas focaram o Théâtre Hébertot, que fica na 78 bis Boulevard des Batignolles, em Paris 17. As cenas internas foram rodadas no Théâtre Récamier, na 3 Rue Récamier, em Paris 7. Caso um dia, por acaso, vocês tenham tempo em Paris e queiram conferir estes locais. 😉 Afinal, em Paris não faltam teatros.

Agora, algumas poucas curiosidades sobre esta produção. O ator Louis Garrel foi considerado para o papel de Thomas antes de ser substituído por Mathieu Amalric. Este é o primeiro filme de Polanski que não é falado em inglês em 51 anos.

O filme é inspirado, como comentei antes, na peça de teatro Venus in Fur, de David Ives. Na peça, tanto Vanda Jordan quanto a personagem de Wanda von Dunayev tem 24 anos de idade. As linhas que fazem referência à idade das personagens foram cortadas do filme – até porque Emmanuelle Seigner tinha 47 anos quando o filme foi lançado.

Os atores Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner fizeram uma dobradinha anterior, em um dos meus filmes preferidos de todos os tempos: Le Scaphandre et le Papillon, de 2007, de Julian Schnabel. Se você ainda não assistiu a esse filme (que tem crítica aqui no blog), eu recomendo.

Na peça original de Ives a história se passa em Nova York – mas par ao filme ela foi ambientada em Paris, até porque Polanski não pode pisar em solo americano sem ser preso.

La Vénus à la Fourrure ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor no Prêmio César; o de Melhor Roteiro no Prêmio Lumiere; o de Melhor Filme Francês no Prix Saint-Germain; e para o de Melhor Atriz para Emmanuelle Seigner no International Cinephile Society Award entregue durante o Festival de Cannes. Falando no principal festival de cinema francês, La Vénus à la Fourrure concorreu à Palma de Ouro, mas perdeu o prêmio em 2013 para La Vie d’Adèle.

Me interesse em buscar um pouco mais sobre Roman Polanski. E foi na página dele no IMDb que eu vi que desde 1989 ele é casado com Emmanuelle Seigner. Com ela, ele teve dois filhos. Em certo momento deste último filme, fica subentendido que o que fascina o homem é ele ter uma “diva”, uma mulher que lhe inspira. Não seria de admirar que esse é o caso de Seigner. Sorte a dele. Agora, fica evidente que ele sempre gostou de mulheres jovens. Ele se casou com Seigner quando ela tinha 23 anos; com Sharon Tate quando ela tinha 24; e com Barbara Lass quando ela tinha 19. No primeiro casamento, com Lass, ele tinha 26; no segundo, com Tate, 34 e, com Seigner, 56. Ou seja, ele sempre mais velho que as garotas com quem ele se casou – sem contar a relação com Samantha Geimer e que lhe rendeu uma condenação por estupro, já que ele tinha 44 anos e ela, 13.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para este filme – uma boa avaliação se levarmos em conta a média de avaliações do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 92 críticas positivas e apenas 10 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7 – boas avaliações também, especialmente pelo nível de aprovação.

CONCLUSÃO: Para ser bom, um filme não precisa muito mais que um ótimo roteiro e atores afinadíssimos. Venus in Fur tem estes dois elementos. Como foi feito antes, a produção inteira se passa em apenas um ambiente. Para quem gosta de milhões gastos em efeitos especiais e de adrenalina, certamente este não é um filme para ser visto. Mas se você aprecia literatura, história, mitos, teatro e o cinema na sua essência – que é a de contar histórias -, esta é uma ótima pedida. Envolvente, com um texto ótimo, como comentei lá no início, Venus in Fur nos faz refletir sobre os nossos desejos e atitudes como indivíduos e coletivos. Roman Polanski sendo ele mesmo, provocador e inteligente. E não dá para ignorar a história pessoal dele por trás deste filme. Recomendo.

Southpaw – Nocaute

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Tem filmes que você procura por causa das pessoas envolvidas – o diretor, os atores, ou todo o conjunto da obra. Outros, pela temática. Southpaw me interessou pelo primeiro caso. Gosto do ator Jake Gyllenhaal. Venho acompanhando a carreira dele desde Donnie Darko. Depois, descobri que se tratava de um filme sobre boxe. Pois bem, se você gosta de boxe, do ator e do diretor, há grandes chances de gostar deste filme, mesmo ele tendo uma história bastante previsível. Agora, se você não gosta destes elementos ou de parte deles, avalie bem o risco de assistir a Southpaw e não gostar do que você vai ver. Porque aqui não há surpresas, ou inovação. Apenas uma narrativa conhecida mas bem contada.

A HISTÓRIA: Sonzeira no fone de ouvido e para os espectadores escutarem enquanto a mão de Billy Hope (Jake Gyllenhaal) é enfaixada. Os juízes se certificam que tudo está sendo feito dentro das regras. Diversas pessoas estão ao redor de Billy e do comitê da luta, incluindo o agenciador Jordan Mains (50 Cent). Depois dele ser preparado e de tudo ser conferido, entra no local Maureen Hope (Rachel McAdams), mulher de Billy. Ela diz que ele está preparado e pede para que o marido não seja muito atingido. Corta. Com bastante sangue no rosto e um bom corte no olho, vemos Billy em ação. Ele não se defende muito, mas bate bem e acaba vencendo Jones (Cedric D. Jones) por nocaute. Na volta para casa, Maureen diz para o marido que ele deve se preparar para parar de lutar. Eles não sabem, mas em breve todos os planos da família vão mudar radicalmente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Southpaw): Sempre tive um fraco pelo boxe. Sou do tempo em que este esporte passava na TV e mobilizava uma massa considerável de pessoas para assistir figuras como Mike Tyson e Evander Holyfield. Importante comentar isso para explicar porque Southpaw me interessou. Filme com diversos lugares-comum, é verdade, mas que vale pelo trabalho do diretor e, principalmente, se você é fã de Jake Gyllenhaal.

Esta produção, como comentei antes, não inova. Ela segue aquela velha fórmula de filmes do gênero desde Rocky Balboa de um lutador de boxe que veio do zero, que era pobre, mas que se fez na vida pela própria garra e determinação. Até que ele tem um revés importante na vida, perde tudo, e tem que provar novamente que consegue se reerguer. Sim, meus caros, tudo isso está neste filme também.

Mas mesmo sendo bastante previsível – afinal, alguém duvida que o protagonista dará a “volta por cima” depois da tragédia? – este filme funciona. Por que? Primeiro, por causa da entrega de Jake Gyllenhaal. Sem dúvida alguma o ator é o melhor da produção. Depois, porque o diretor Antoine Fuqua entende bastante do seu ofício. Ele preza por uma direção próxima dos atores e o mais “naturalista” possível. As cenas de boxe são realistas – muito mais do que as do tempo de Rocky Balboa. Nos sentimos como audiência de lutas para valer.

Depois, o roteiro de Kurt Sutter, ainda que cheio de lugares-comum, não alivia em mostrar as dificuldades do protagonista para manter a cabeça no lugar. De fato, e isso ele vai aprender só quando começa a treinar com Tick Wills (o sempre ótimo Forest Whitaker), o que ele precisa dominar é a sua própria explosão. Um ensinamento válido para todos nós. Conhecer-se a si mesmo e saber como controlar-se é um dos grandes desafios para a vida.

Este é um dos acertos do filme. Outro é mostrar como a noção de família persiste apesar das perdas e do desespero. A filha de Billy Hope não sabe lidar com tudo que está acontecendo e passa a ter raiva do pai depois que ele perde o controle e a guarda dela. Dá para entender a reação da menina, assim como parece crível o que ele pensa como saída. Ele só conhece o boxe e procura em um novo confronto se reerguer. Não só não há caminho fácil para essa “redenção” como o cenário ao redor dele segue agreste – prova disso é o menino Hoppy (Skylan Brooks).

A referência de vida e de segurança de Billy é a mulher Maureen. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele fica perdido quando ela morre. E ainda que, em algum momento, a própria filha lembra ele com palavras duras de que ela também perdeu a mãe, ele não tem equilíbrio para saber lidar com aquela ausência. Depois de ser afastado da filha é que ele começa a correr atrás do prejuízo. O restante… bem, já sabemos por onde a banda vai tocar. Mesmo assim, devo admitir que o final é emocionante. Não pelo resultado da luta mais que esperado, mas pela manifestação de amor que ele tem por Maureen após a redenção. São histórias de amor assim que alimentam o cinema.

Além da história de amor e de recomeço que perpassa todo o filme, o que me agradou nesta produção foi o trabalho dos atores e do diretor, além da busca por um certo tom “realista” da produção. A vida é agreste, para muita gente, mas sempre há espaço para buscar o lugar ao sol. O boxe e outros esportes são prodigiosos em exemplos assim, de pessoas que dão o sangue e a vida para se superarem e vencerem. Isso me emociona e me agrada. Mesmo em um filme que parece carecer, muitas vezes, de um pouco mais de inovação.

Essa avaliação, claro, leva em conta que já assisti a vários filmes de boxe. Para as novas gerações e para quem não cresceu com produções de cinema sobre este tema e nem vendo o esporte na televisão, talvez esta produção seja mais surpreendente e inovadora. De qualquer forma, seja por uma ótica ou outra, o fato é que este filme é bem acabado e realista. Qualidades importantes para produções do gênero.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Talvez você, caro(a) leitor(a), pode estar estranhando eu falar de Southpaw apenas agora. O filme estreou há algum tempo no Brasil é verdade. Eu assisti a essa produção há duas ou três semanas, mas só agora consegui parar para escrever sobre ele. Por isso essa demora. Não lembro com toda a perfeição da história, como se a tivesse assistido hoje, ontem ou nos últimos dias, mas a lembrança principal ficou.

O roteirista Kurt Sutter faz um trabalho apenas mediano se levarmos em conta os outros filmes que tem o boxe como pano de fundo principal. Mas ele acerta ao dedicar tempo para revelar a personalidade e um pouco da origem do protagonista, além de contar um pouco da história dos outros personagens. Há espaço para ótimas cenas de ação, ainda que o grosso da história seja o drama particular de Billy Hope. O roteiro é morno, mas o trabalho do diretor Antoine Fuqua não deixa o espectador ficar com sono.

Se Southpaw tem ritmo, parte do mérito é de Fuqua, e a outra parte do editor John Refoua. Os dois juntos registram com precisão os bastidores do boxe e da vida de quem vive do esporte, imprimindo o ritmo correto com a ajuda da trilha sonora marcante e bem planejada por James Horner.

A direção de fotografia de Mauro Fiore é outro elemento importante para a construção da identidade deste filme. Durante boa parte do tempo as imagens são um bocado escuras, com os momentos mais iluminados restritos ao ringue e a festa de arrecadação de fundos para a instituição em que o protagonista cresceu. Desta forma, é como se os realizadores deixassem claro o contraste entre a aridez da vida real e a superficialidade iluminada do circo que se monta ao redor do esporte. Interessante.

Para mim, o nome forte deste filme é o de Jake Gyllenhaal. Ainda que, admito, acho que algumas vezes ele exagera na cara perturbada, mas acho que ele realmente se esforçou em encarnar o personagem, dando legitimidade para a história. Além dele, merecem destaque o sempre excelente Forest Whitaker que, aqui, imprime a dignidade e o espírito de “não ser comprado” na medida certa; Rachel McAdams que, mesmo não aparecendo tanto na história, deixa as suas digitais logo no início e “paira” durante todo o filme na memória não apenas do personagem de Billy, mas também na do espectador; e a jovem Oona Laurence se sai bem como Leila Hope, filha de Billy e Maureen. A garota parece uma pequena prodígio e reage da maneira certa nos diferentes momentos da produção. Belas escolhas.

Falando em Jake Gyllenhaal, fiquei impressionada com o físico do ator. Quanta diferença daquele magrelo de Donnie Darko! Para mim, o papel de pugilista caiu como uma luva para ele. E não sei vocês, mas acho que ele está cada vez melhor – como um vinho envelhecido. Vale acompanhá-lo!

Entre os coadjuvantes do filme, acho que Naomie Harris faz um bom papel como a assistente social Angela Rivera – ainda que aquela sequência dela acompanhando Leila nos bastidores da luta tenha sido forçada demais; Miguel Gomez como Miguel “Magic” Escobar, o grande adversário de Billy, cumpre o seu papel – ainda que ele seja beeeem fraquinho em termos de interpretação; e Beau Knapp como Jon Jon, um dos poucos amigos que não abandonam Billy quando ele está “na pior”, também faz o seu – sem grande destaque porque o próprio papel dele era assim.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já citados, vale comentar o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto de 11 profissionais e os figurinos acertados de David C. Robinson.

Southpaw estreou em junho no Festival Internacional de Cinema de Xangai, na China. Depois, em agosto, o filme participou do Festival de Cinema de Locarno. E isso foi tudo. O único roteiro de prêmios da produção. Cá entre nós, fica meio evidente o porque disso – extremamente comercial e sem inovação, o filme não foi feito para o circuito de festivais mesmo.

Esta produção teria custado cerca de US$ 30 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 51,8 milhões. Se juntar o desempenho em outros mercados, certamente o filme conseguiu registrar lucro.

Para quem gosta de saber sobre a locação das produções, Southpaw foi rodado em diferentes locais de Indiana, Pennsylvania (Pittsburgh e Washington) e em Las Vegas, Estado de Nevada. Ou seja, totalmente filmado nos Estados Unidos.

O MMA virou a última mania mundial de lutas. Mas, pessoalmente, eu achava muito mais interessante quando o boxe estava no auge. Ainda que, todos sabemos, e este filme acerta ao citar isso, o esporte decaiu justamente quando virou uma indústria e começou a ter o dinheiro como o verdadeiro juiz. Uma pena.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: como Antoine Fuqua tinha um dinheiro bem restrito para esta produção – ainda que eu não achei US$ 30 milhões insignificante -, ele acabou não tendo grana para pagar a trilha sonora de James Horner. Mas o compositor veterano gostou tanto da história que teria feito o trabalho “na faixa”. Esse foi o último filme feito por Horner antes dele morrer em um acidente de avião em junho deste ano.

No início, o papel principal deste filme seria feito por Eminem. O rapper aceitou e começou a estrelar o filme, mas como a produção foi “congelada” por um tempo, Eminem resolveu focar na carreira musical e quando o filme voltou a ser rodado ele foi substituído por Jake Gyllenhaal. Claro que Eminem, a exemplo de 50 Cent, daria um “tempero” para a história mas, francamente, Jake é muito mais ator – sorte do público que houve essa troca.

Jake Gyllenhaal estudou o estilo do pugilista Miguel Cotto para construir o seu personagem.

Este é o primeiro roteiro de Kurt Sutter. Muito se explica. Torcemos para que ele evolua e fique melhor com o tempo.

A Universidade da Pensilvânia foi utilizada para simular os ringues de Las Vegas e de Madison Square Garden.

A música que aparece na parte final do filme, Wise Man, de Frank Ocean, foi originalmente escrita para o filme Django Livre, de Quentin Tarantino, mas como o diretor não conseguiu encaixá-la naquele filme, ela entrou agora na produção dirigida por Fuqua.

O título do filme faz referência à posição de mesmo nome adotada por um pugilista canhoto. A mesma expressão é usada também para falar de um lutador canhoto. Curioso que Jake Gyllenhaal é destro e o seu personagem também luta desta forma, até a estratégia final da luta decisiva. Eminem, por outro lado, é canhoto – o que faria o título do filme fazer mais sentido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção. Acho que eles se empolgaram com o ator e a direção tanto quanto eu – dando um bom desconto para o roteirista estreante. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por outro lado, foram mais “honestos” com a produção, dedicando 111 textos positivos e 76 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 59% e uma nota média 6.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme com estilo, ainda que o roteiro seja fraco e previsível. Os pontos fortes são o trabalho dos atores e o estilo do diretor, que aposta em uma levada “realista”, seja nas cenas das lutas, seja na rotina do protagonista. O filme acerta ao mostrar os desafios de quem tenta viver do boxe e na origem de muitos pugilistas. O caminho é de pedras, mas com a motivação certa é possível superar cada uma delas. Southpaw nos lembra de valores importantes e entretém nas lutas ao mesmo tempo em que mergulha na história do protagonista. Se você gosta de boxe e de Jake Gyllenhaal, provavelmente vai apreciar esta produção.

Shaun The Sheep Movie – Shaun: O Carneiro

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A rotina cansa e tudo o que você quer é um dia de folga. Essa vontade estava interiorizada, mas se torna sólida quando aparece uma propaganda em um ônibus. Um dia de folga para aliviar a rotina pode ser negociado, mas essa tarefa não é tão fácil se você for uma ovelha (ou um carneiro). Mas aí entra a graça e a criatividade de Shaun The Sheep Movie, um filme leve, com um ótimo ritmo e que resgata alguns elementos clássicos do cinema.

A HISTÓRIA: Um filme antigo mostra o protagonista, Shaun, quando ainda era uma jovem ovelha que precisava ser alimentada com mamadeira. Ao lado dela, o fazendeiro, orgulhoso de seu trabalho. Em seguida, aparece Bitzer, o cão também jovem que cresce junto com Shaun. Nesse vídeo familiar, aparece a dinâmica da fazenda: as ovelhas interagindo com Bitzer e o fazendeiro, enquanto os porcos assistem a tudo e tiram sarro dos outros animais. No vídeo aparece também o filhote de búfalo, que ganha de Shaun e Bitzer em qualquer corrida. No final do vídeo, o fazendeiro faz uma foto de “família” – que, depois, seria importante para ele se encontrar na vida novamente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Shaun The Sheep Movie): Fazia tempo, mas muito tempo mesmo que eu não assistia a um filme de animação. Não me faltou vontade, mas sim prioridade – queria ter assistido aos concorrentes do último Oscar, pelo menos, mas quando tive que fazer uma escolha entre ver a um dos principais filmes na disputa e a uma das animações, o segundo grupo acabou ficando para trás.

Bem, depois de tanto tempo sem assistir a uma animação, que grata surpresa voltar a conferir um trabalho destes com Shaun the Sheep Movie. Gostei especialmente da “filosofia” dos realizadores, com destaque para a dupla de diretores e roteiristas Mark Burton e Richard Starzak, que escreveram esta história baseada nos personagens criados por Nick Park. Eu não tinha visto nunca a série inglesa Shaun the Sheep, então me perdoe se você é fã da série e vai achar esta crítica “perdida” ou desprovida de referências. Mas acho importante situar os leitores na minha compreensão da história – por não assistir a série, não sei maiores detalhes dos personagens ou da filosofia desta obra.

Dito isso, voltamos à linha de pensamento anterior. Gostei muito da filosofia dos realizadores porque eles resgatam a aura dos filmes mudos, do início do cinema, quando o desenrolar da história era mais importante do que os diálogos. Na verdade, e este filme demonstra isso, você pode perfeitamente entender as intenções e os sentimentos dos personagens sem que eles precisem falar. Consequentemente, a trilha sonora ganha um papel bastante relevante, porque é ela que ajuda o filme a ter dinâmica e emoção.

Esta é a pegada de Shaun the Sheep Movie. A história, segue aquela linha clássica de um problema que se instala e os personagens correndo atrás para solucioná-lo. O querido protagonista, Shaun, cansado da rotina na fazenda, resolve conquistar um dia de folga para ele e as demais ovelhas. Mas o plano sai mal, e todos acabam caindo na “cidade grande”. A história, assim, é um clássico, confrontando a tranquilidade, a paz e o amor do “interior”, da fazenda, com a falta de laços, de amor e a vida cheia de aparências da cidade grande.

Neste aspecto, o filme não é novo. Mas acaba apresentando, de uma forma diferente, uma história clássica para, quem sabe, novas gerações pensarem sobre este assunto. O velho confronto entre o campo e a cidade, a vida alternativa e mais legítima versus a rotina de repetições e de aparência aparece renovado. Uma das mensagens do filme, desta forma, é que a simplicidade e os laços afetivos são muito mais importantes do que as oportunidades de dinheiro e reconhecimento que uma cidade parece proporcionar.

Shaun the Sheep Movie também mostra o já conhecido argumento de um desmemoriado que precisa ser resgatado – além da revisão da consciência do protagonista que percebe que uma forma desonesta de conseguir algo positivo nunca termina bem. Esses diversos argumentos desta produção fazem ela ter um bom ritmo e dinâmica do início ao fim.

A motivação do grupo de ovelhas e carneiros, assim como de Bitzer, de resgatar o fazendeiro, faz com que a história tenha uma direção segura para perseguir. Para atrapalhar essa missão do grupo – e uma boa história sempre tem algum elemento para atrapalhar ou tornar o desafio mais difícil – aparece em cena A. Trumper, encarregado de fazer o controle animal da cidade grande.

Ele encarna as pessoas que assumem uma posição na vida e se tornam “firmes” em seus propósitos, custe o que custar. Como um trator, ele passa por cima de quem for preciso para fazer “o seu trabalho”. Alguém assim, e este filme fala a respeito, acaba sendo cruel, porque não consegue se colocar no lugar do outro – seja ele um indivíduo ou um animal. Mas como o cinema bem ensina, para as pessoas cruéis há sempre um final à altura. 😉

Além de ser divertido, de ter a duração e a dinâmica corretas, Shaun the Sheep Movie tem uma técnica impressionante e que deixa qualquer um maravilhado. Há tempos eu não via um filme de stop-motion tão perfeito, cheio de recursos e de detalhes. Certamente esta produção deu um trabalho incrível, mas o resultado é irretocável. Se você gosta de filmes de animação, independente da tua idade, vale a pena conferir esta produção. Um trabalho feito com esmero e que equilibra ação, momentos verdadeiramente engraçados e de emoção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante o trabalho com o stop-motion neste filme. Cada segundo é perfeito e, em diversos momentos, a produção é bastante complexa, com muito movimento e elementos em cena. Parabéns para os diretores Mark Burton e Richard Starzak. Desde já o filme entra para os bons exemplos do gênero.

Agora, uma boa pergunta é: se eu gostei tanto do filme, por que a nota acima não foi maior? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vou esclarecer. Enquanto eu assistia ao filme, tudo certo. O stop-motion me deixou admirada, gostei da trilha sonora e dos personagens. Mas depois que a produção terminou, eu pensei: “Ok, muito boa, divertida, mas um pouco previsível demais”. Apesar de bom, o filme não é excelente. Poderia ter sido um pouco mais inovador. Não que resgatar velhos ícones de histórias de cinema seja ruim, mas ao renovar um gênero você não necessariamente coloca o filme entre os grandes. Ou, para resumir, este é um bom filme, e só.

Essa produção, ainda que não tenha falas, tem “vozes” que se comunicam sem palavras. Os destaques vão para Justin Fletcher, que dá a voz para Shaun e Timmy (uma das outras ovelhas); John Sparkes, que dá a voz para o fazendeiro e para Bitzer; e Omid Djalili, a voz de Trumper.

Da parte técnica do filme, o grande destaque é a trilha sonora de Ilan Eshkeri. Também vale destacar a ótima direção de fotografia de Charles Copping e Dave Alex Riddett. Outros aspectos técnicos relevantes são a edição de Sim Evan-Jones, o design de produção de Matt Perry, o departamento de arte com 58 profissionais, e o departamento de animação com 23 pessoas.

Shaun the Sheep Movie estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2015. Depois, o filme participaria ainda de outros sete festivais. Nesta trajetória a produção ganhou um prêmio e foi indicado a outros quatro. O prêmio que ele recebeu foi o segundo lugar como Melhor Produção no Festival de Cinema de Nantucket.

Não consegui encontrar informações sobre o custo desta produção, mas segundo o site BoxOfficeMojo, Shaun the Sheep Movie conseguiu pouco mais de US$ 17,65 milhões apenas nos Estados Unidos e US$ 64,1 milhões nos demais mercados em que ele já estreou. Desconfio que estes valores, somados, devem trazer um bom lucro para os produtores.

Mesmo que a história não é de todo original, algo é preciso dizer: grande escolha de personagens! As ovelhas são lindas e acabam despertando interesse e simpatia imediata. A empatia é fundamental em um filme assim.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: 20 animadores – daquela equipe de 23 pessoas do departamento de animação – trabalharam nesta produção. Cada um deles era capaz de produzir dois segundos de filmagem por dia. Ou seja, o filme demorou pouco mais de seis anos para ser totalmente animado.

Aquele cão que aparece preso no “departamento de controle animal” e com olhar fixo amedrontador é uma referência ao personal de Hannibal Lecter, de The Silence of the Lambs.

A história mostra, no total, oito ovelhas: Shaun, Timmy, a mãe de Timmy, Hazel, Shirley, Nuts e The Twins. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Mas temos uma falha em um cena. Quando as ovelhas comemoram o feito de terem colocado o fazendeiro para dormir em um carrinho de mão, aparecem nove ovelhas – a ovelha adicional parece ser uma segunda Hazel. Mas apenas naquela cena.

Como eu comentei antes, a trilha sonora é um dos pontos fortes desta produção. Faz parte da produção músicas interpretadas por Tim Wheeler, M People, Prima Scream, George Thorogood & The Destroyers, Foo Fighters, e Madness.

Como muitos outros filme, Shaun the Sheep Movie merece ser visto até o último minuto. Bem no final há brincadeiras dos animadores – nada que vá revolucionar a sua vida, mas se você gosta de curiosidades dos filmes, vale ir até o final para ver os personagens dizendo adeus.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com a França.

Shaun the Sheep Movie conseguiu uma ótima avaliação do público e da crítica. No site IMDb o filme atingiu a nota 7,4 – uma avaliação muito boa levando em conta a média do site. E no Rotten Tomatoes os críticos dedicaram 129 textos positivos e apenas um negativo para o filme, o que lhe garante um raro 99% de aprovação e uma nota média de 8,2. Muito bom!

Os diretores e roteiristas Mark Burton e Richard Starzak tem no currículo como roteiristas Chicken Run e The Curse of the Were-Rabbit. Faz sentido. Ao assistir a este novo filme roteirizado por ele eu vi claramente uma linha de “raciocínio” e/ou uma assinatura que liga estes três filmes. Curiosamente, contudo, Shaun the Sheep Movie marca a estreia de Mark Burton na direção. Starzak, por outro lado, tem outros oito títulos como diretor, incluindo séries para a TV como Shaun the Sheep – para a qual ele empresta a sua assinatura em 33 episódios entre 2003 e 2006.

CONCLUSÃO: Shaun the Sheep Movie é um filme sem diálogos e que resgata, de uma forma muito direta e singela, a tradição e a graça dos filmes mudos. Mas não pense que isso faz a produção ser arrastada. Muito pelo contrário. Como nos melhores filmes mudos, esta produção ganha dinâmica com a trilha sonora e, diferente das produções que deram origem ao cinema, com o adicional de expressões/falas que não expressam palavras, mas que dão sentido para os sentimentos dos personagens. Divertido, ágil e com uma boa reflexão sobre o estilo de vida que escolhemos para nós mesmos, Shaun the Sheep Movie é um bom programa para públicos de todas as idades.