Mary and Max – Mary e Max

Um gosto pelos detalhes impressionante, uma história linda contada de forma satírica e desenhada especialmente para adultos. Mary and Max, a animação criada pelo australiano Adam Elliot é destas peças de cinema para serem colecionadas. Profundo e ao mesmo tempo divertido, engraçado e simultaneamente trágico, este filme surge com um novo conceito de animação para adultos. Muito diferente das obras produzidas por Disney, Pixar ou DreamWorks, Mary and Max comprova como temas sérios e a realidade dura/cheia de esperança da vida como ela é podem ser refletidas em um filme do gênero. Um trabalho brilhante que pode chegar ao Oscar – mas que dificilmente conseguirá vencer a “grande indústria” em uma quebra de braços inevitável.

A HISTÓRIA: Primeiro em um plano geral e, depois, em closes de objetos espalhados por ruas e casas, vamos acompanhando o estilo de vida de Monte Waverley, a cidade australiana onde vive Mary Daisy Dinkle (quando criança, com a voz de Bethany Whitmore; adulta, com a de Toni Collette). A garota de 8 anos quer, acima de tudo, fazer alguma amizade, segundo nos conta o narrador desta história (voz de Barry Humphries). Ao mesmo tempo em que conhecemos um pouco da vida das pessoas que cercam a Mary, incluindo seus pais, Noel e Vera (voz de Renée Geyer), seus animais de estimação e vizinhos, somos apresentados a peculiar educação que ela recebeu. Mary adorava passar seus dias assistindo ao desenho Os Noblets na TV. Enquanto isso, em Nova York, o quarentão solteiro e solitário Max Jerry Horovitz (voz de Philip Seymour Hoffman)  também assistia Os Noblets. Pela iniciativa de Mary, que encontra em uma lista de Nova York o nome de Max, os dois vão começar a trocar correspondências, mantendo uma amizade através de cartas pelo tempo e apesar da distância.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mary and Max): O primeiro recurso lançado por este filme para “fisgar” o seu público é a deliciosa e envolvente trilha sonora de Dale Cornelius. Um grande trabalho do compositor, que imprime o tom exato de lirismo ou de suspense/ação conforme a história de Mary and Max vai pedindo. Envolvidos no clima proposto por Cornelius, os espectadores são lançados na técnica da “clayography” (em uma tradução livre, “argilografia”), termo lançado pelo diretor e roteirista Adam Elliot para definir o seu trabalho.

Utilizando a técnica da animação fundamentada em bonecos e objetos feitos de argila, conhecida também como “stop motion”, Elliot consegue um diferencial ao narrar as suas histórias com a preocupação de um trabalho “biográfico” – de aí surge a palavra “clayography”, uma junção de “clay” (argila) e “biography” (biografia). Os primeiros minutos de Mary and Max evidenciam esta característica do diretor, que foca, com uma câmera bastante dinâmica, detalhes das vidas dos protagonistas e das pessoas que os cercam. Não é por acaso, mas de forma muito planejada, que este filme se debruce tanto sobre as realidades muito diversas de uma moradora do subúrbio de Melbourne e de um residente de Nova York.

Mary and Max é uma animação única, totalmente singular. Não lembro de ter assistido antes a uma produção do gênero que se lançasse tanto nos destalhes cômicos e trágicos da vida de uma criança e de um adulto, ambos “inocentes” dentro de suas particulariedades. Talvez apenas Persepolis, outra animação incrível, equilibrasse de forma tão poética os dramas, alegrias e demais elementos da complexidade de uma vida.

Mas diferente do filme francês de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud (comentado aqui no blog), Mary and Max segue uma veia cômica inusitada que, algumas vezes, beira o infame. Por isso mesmo ele é dirigido ao público adulto. Não que as crianças ou os jovens não possam assistir a este filme – mas eles dificilmente conseguirão entender toda a gama de ironias da história. Por exemplo, qualquer criança se pergunta “da onde surgem os bebês”. Mary e Max trocam, em sua primeira correspondência, informações a respeito – explicações absurdas que receberam de seus próprios pais. Na versão de Mary, os bebês na Austrália são “achados em copos de cerveja”. Na de Max, os bebês da América vem de “ovos colocados por rabinos” (ou por freiras católicas, ou por prostitutas sujas e solitárias). 😉 Vamos combinar que estas explicaçõe são geniais – e que, evidentemente, tem seu fundamento/origem nas respectivas origens e hábitos dos progenitores de Mary e Max. Enquanto os adultos um pouquinho informados podem ligar os pontos e chegar as suas conclusões, dificilmente uma criança terá essa leitura.

Não faltam, neste filme, situações em que crianças e adultos “socialmente marginalizados” recebem o seu troco ruim por serem “diferentes” dos demais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mary é sacaneada na escola. Max, visto como o “esquisitão” do bairro. Os dois compartilham uma série de dúvidas, solidão e, mesmo quando Mary se torna adulta, uma certa inocência latente que perdura com o tempo. Temas como solidão, alcoolismo, traumas, fobias de diferentes tipos, distúrbios mentais, abandono do lar, tentativa de suicídio e obesidade fazem parte do repertório desta animação. Assuntos muito pesados, certamente. Mas que tornam o filme ainda mais realista e interessante.

Claro que Mary teve muita sorte em encontrar a Max em Nova York. Se sua carta caisse na mão de qualquer outra pessoa, provavelmente esta história não teria acabado bem. Primeiro, porque muitos nem responderiam a sua carta. Depois, porque outros homens adultos poderiam se aproveitar da situação – como bem suspeitou a mãe da menina. Mas Mary and Max lança outra reflexão: afinal, quem é o estranho neste mundo de “normais”? Como bem observa Max, em uma de suas andanças por Nova York, chega a ser cômico que lhe apontem como um cara “louco” ou sinistro levando em conta cada figura considerada “normal” pela sociedade e que parece, realmente, ter muito menos lógica do que ele.

Ainda que os temas “pesados” comentados anteriormente estejam presentes no filme, sua idéia central não é obscura, e sim luminosa: a beleza e o poder de uma amizade. E mesmo contra todas as ameaças, dificuldades e adversidades da vida mesma, esta relação potente entre Mary e Max perdura. Enchendo de alegria e emoção aos espectadores deste filme brilhante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Honestamente, espero que ninguém se sinta muito frustrado ou triste com o final da produção. Pensem que um “final feliz” clássico a la Hollywood fugiria totalmente do estilo de Adam Elliot – e também, convenhamos, de boa parte da realidade. Quantas histórias não existem, por aí, de pessoas que, por muito pouco, não conseguiram se encontrar? Então paciência, porque Mary e Max vivenciaram uma relação única e bela, eterna enquanto ela durou (me desculpe, poeta, por roubar sua conhecida expressão). E isso, meus caros, é tudo o que alguém pode querer, levando em conta a nossa finitude.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor e roteirista Adam Elliot carrega em seu currículo pelo menos 31 prêmios e um Oscar. Pois sim. Em 2004 Elliot levou para casa uma cobiçada estatueta dourada por seu trabalho de animação Harvie Krumpet. O curta, que tem uma duração de 23 minutos, conta a história de um homem que sofre com a Síndrome de Tourette e que imigra para a Austrália, onde passa por uma série de trabalhos braçais até parar em um lar para idosos. Tudo indica – ainda não assisti ao curta, que está disponível neste link do Youtube – que em Harvie Krumpet o diretor australiano já mostrava todo o seu estilo, contando uma história dura sem aliviar no realismo. E misturando, claro, uma biografia com a técnica da animação feita com argila.

Falando em vida dura, logo que Max surge na tela deste primeiro longa-metragem do currículo de Adam Elliot, eu pensei: “Vem cá, este homem tem algum distúrbio mental, não pode ser…”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Realmente. Inicialmente, nem Max sabe que tem uma doença. Mesmo consultando o psiquiatra Bernard Hazelhof e frequentando um grupo de apoio a pessoas com distúrbios alimentares, Max não sabe que sua inestabilidade emocional, suas “variadas manias” e sua dificuldade em se relacionar com os demais são frutos da Síndrome de Asperger com a qual ele sofre. Esta síndrome teria relação com o autismo – para saber mais, recomendo este site. Curioso que Elliot já havia tratado sobre outro distúrbio psiquiátrico anteriormente, em Harvie Krumpet. Sem dúvida lhe interessa contar histórias de pessoas com uma vida diferenciada.

Muitas vezes Mary and Max pode resultar como “politicamente incorreto” para alguns gostos. A verdade é que se trata de um filme que não faz concessões. Ele pode mostrar, ao mesmo tempo, dois cães tentando copular, como uma mãe displicente e alcóolatra ou a crueldade de crianças com pessoas que “não se enquadram”. Alguns podem ficar incomodados com isso. Mas, francamente, eu acho esta franqueza um dos princípios mais interessantes da forma de trabalhar de Adam Elliot. Ele está interessado em fazer um trabalho que se assemelha a de um cronista, de um observador do cotidiano. E transformar isso em arte, em desenho feito de bonecos e cenários nascidos da criatividade, torna seu trabalho ainda mais incrível.

Como resume de forma bastante precisa a sinopse do filme divulgada pelos produtores, Mary and Max é uma crônica da viagem de Mary da adolescência (eu diria, inclusive, infância) para a vida adulta, e a passagem de Max da meia idade para a idade avançada, revelando como os laços de amizade deles puderam durar muito mais do que a média das relações do gênero, apesar dos altos e baixos pelos quais eles passaram.

Bem lembrado também que, além da Síndrome de Asperger, este filme trata de cleptomania e agorafobia, para dar o exemplo de outros dois transtornos psiquiátricos abordados por esta animação.

Buscando as notas de produção sobre o filme, encontrei um texto interessante de Adam Elliot sobre este seu quarto trabalho de “clayography”. Como o diretor revela, em cada um de seus projetos ele explora a vida particular de uma pessoa. Neste seu primeiro longa, seu foco são dois protagonistas. Para Elliot, Mary and Max marca o “terceiro maior salto artístico” pelo qual ele passou na última década. “A triologia Uncle, Cousin e Brother (traz filmes que) são muito similares em estilo, estrutura e forma de entrega. Meu objetivo com estes filmes era contar histórias muito engraçadas, minimalistas e estáticas, curats “mini” biográficos que convidam a audiência para ver e celebrar as qualidades únicas de pessoas comuns”, comenta o diretor. Lembrando que os filmes que ele comenta tinham, respectivamente, 6, 4 e 8 minutos de duração e foram produzidos entre 1996 e 1999.

Seguindo o texto de Adam Elliot, o diretor comenta que sua carreira passou por um outro momento com Harvie Krumpet, que ele classifica como uma produção que revela uma “mais longa e exaustiva exploração da vida de uma pessoa”. “Os valores da produção eram muito maiores, a animação mais dinâmica, e a estrutura do enredo mais complexa. Com Harvie, eu novamente tive como objetivo manter a simplicidade no meu estilo visual e, outra vez, escolhi deliberadamente manter um único narrador conduzindo a história. E mais uma vez, a história explorava temas como o diferente, a aceitação e a solidão”, define o diretor.

A intenção de Elliot com Mary and Max, segundo seu texto, era a de manter o seu estilo visual, mas desta vez produzindo uma história de forma mais dinâmica para que o público mantivesse o seu interesse em um filme com uma duração mais longa. “Este filme, mais uma vez, explora o nosso desejo de aceitação e amor, não importa o quanto somos diferentes! Há ainda um narrador, o maravilhoso Barry Humphries, mas desta vez eu acrescentei as vozes de dois protagonistas, Mary e Max. Eu sempre evitei fazer muitas auto-análises com medo de tornar meu trabalho muito prescritivo e construído. Eu escrevo com o meu coração, com o desejo de uma conexão compassiva com as audiências. Eu não escrevo para um nicho específico de público, mas tento contar histórias universais. Eu imagino que estou contando a história da vida de alguém para um grupo muito grande de pessoas diferentes de muitos países em torno de uma fogueira enorme. Tento manter todos concentrados temperando a história com momentos de humor e melancolia. Eu tento misturar em equilíbrio comédia e tragédia, humor e emoção de uma forma rítmica e potente. A cada filme eu tento despertar todos os sentidos, não apenas os ouvidos e os olhos! Vejo que meu trabalho é o de alimentar a platéia em um composta de estimulação sensorial”. Não sei, francamente, se ele consegue despertar todos os sentidos do público, mas certamente o diretor consegue envolver os espectadores equilibrando os diferentes elementos que ele citou.

Para o diretor, é difícil comparar Mary and Max com outros filmes. Adam Elliot percebe, por exemplo, que sua última produção consegue um certo paralelo com filmes de “live action” (ou seja, produções filmadas com atores, que não são de animação) como 84 Charing Cross Road e About Schmidt. Sobre suas inspirações, Elliot comenta que elas surgem de outros tipos de arte, como por exemplo o trabalho da fotógrafa especializada em retratos Diane Arbus. Ele cita ainda, como referências, o artista performático Barry Humphries e o cartunista e filósofo Michael Leunig.

Sobre Mary and Max, Elliot comenta que o filme apresenta muitos momentos sombrios. “Temos dois mundos simultaneamente representados: o mundo australiano suburbano de Mary, e o mundo urbano de Nova York de Max. O mundo de Mary é representado por uma paleta de cores marrom e o de Max por tons de negro, branco e cinza. Nos dois mundos usamos vermelhos pontuais para tornar certos objetos mais simbólicos. Eu sempre tento manter a variedade de cores no mínimo; o que garante um estilo visual forte e age como um ponto de diferença em relação ao “maluco”, “bobo”, “colorido” mundo da maioria dos filmes animados”.

O realizador de Mary and Max destaca ainda que este seu novo trabalho se destaca dos demais por ter “movimentos de câmera muito mais dinâmicos” que seus predecessores. Esta característica foi resultado do trabalho com o diretor de fotografia Gerald Thompson, “um especialista em controle de movimentos”. “Gerald fez um filme mais potente agora com seus movimentos de câmera muito fluídos e sem costura, com um design de iluminação que torna o mundo muito mais realista do que um filme de animação convencional. Ele aplicou os princípio de ação ao vivo para criar uma estética original”, ressalta Elliot. Eu destacaria ainda o excelente trabalho do editor Bill Murphy que teve um trabalho gigantesco para executar.

Sobre o roteiro de Mary and Max, Adam Elliot comenta que o personagem de Max foi inspirado em um interlocutor que ele mantêm em Nova York há mais de 20 anos. “Ele é uma pessoa muito interessante e a criação deste filme servirá como testemunho para ele e os arquétipos oprimidos que as audiências ao redor do mundo ficarão engajadas. Ele, como Max, tem Asperger, e passei bastente tempo investigando a respeito desta síndrome. Meu objetivo não é apenas iluminar o mundo dos “aspies” (portadores da síndrome), mas também desmistificar os vários conceitos errados que outros tem sobre estas pessoas (mesmo os que são chamados peritos)”.

No mesmo material de divulgação do filme, o diretor faz um emocionante desabafo: “Muitas pessoas dizem que se sentem muitas vezes diferente; que não sentem que se encaixam. Eu sou uma destas pessoas. Mesmo com todo o sucesso, reconhecimento e aceitação que eu obtive com os meus filmes, eu muitas vezes ainda me sinto sozinho e sem sintonizar-me com o resto do mundo. Muitas vezes eu me sinto triste, perseguido e com dúvidas sobre as coisas, eu acho o mundo tantas vezes injusto. Eu realmente sinto empatia com os perdidos e os ignorados, marginalizados e melancólicos. Eu sou atraído por estas pessoas e suas histórias, mas não posso ajudá-los. Eu acho as pessoas tão fascinantes, a partir do normal para o verdadeiramente ímpar. Estas são as pessoas que eu respeito; estas são as pessoas cujas histórias eu quero ouvir e quer ver na tela grande.”

Para Adam Elliot, esse seu gosto pelo diferente também é compartilhado por boa parte do público. “Eu sei que o público também quer ouvir as histórias da diferença, milhares de pessoas no mundo todo me disseram isso na última década. Eu tenho uma caixa no meu corredor que contêm centenas de recortes da imprensa, e-mails e as cartas que recebi sobre o meu trabalho. Recebemos cartas de pessoas com a Síndrome de Tourette, Alzheimer e depressão. Cartas de jovens e adultos, da Suécia até Tóquio. De pessoas que viram os meus filmes na tela grande, em uma companhia aérea, em um festival de cinema, na internet e até mesmo em seus telefones. Todos dizem coisas semelhantes, de que foram afetados de alguma forma por assistir a meus filmes. Para alguns, isso os tem levado a uma mudança de vida, para outros eles simplesmente adicionaram um pouco de alívio para o seu dia”.

Como poucos cineastas que eu já tive o prazer de ler um texto pessoal antes, Adam Elliot tem a consciência de como seu trabalho pode afetar a vida das pessoas para o bem, fazendo a diferença em seu cotidiano. No mesmo material de divulgação, depois de afirmar que tem plena consciência do efeito dos seus filmes – após citar a uma mulher que quis assistir a Harvie Krumpet antes de morrer -, o diretor comenta: “Costumo dizer que, se eu pudesse, gostaria de fazer meus filmes gratuitamente. Nenhuma quantidade de dinheiro jamais poderia comprar a sensação de estar com uma audiência assistindo algo para o qual você tenha dado o seu coração e alma, sabendo que isto não é apenas entretenimento para eles, mas que também os vai nutrir e mover”. Que homem maravilhoso, não? Fiquei fã dele.

Achei interessante (e conciso) o texto da produtora Melanie Coombs, que ressalta a capacidade do roteirista e diretor Adam Elliot em falar sobre a aceitação das diferenças. Ela comenta que os filmes de Elliot mostram como as pessoas vão se abrindo para as diferenças e aceitando, mesmo com alguma dificuldade, diferenças que antes pareciam confusas e difíceis de aceitar. Ela ressalta ainda a maneira peculiar com que o artista trata deficiências físicas e mentais, como um menino que aponta o dedo para dizer que uma pessoa não tem suas pernas, tratando o tema de forma honesta e sem julgamentos.

Adam Elliot, além de diretor e roteirista do filme, também trabalhou como designer da produção e desenhando todos os seus caracteres. Ele foi inspirado por vários retratos em preto-e-branco da fotógrava nova-iorquina Diane Arbus. Um de seus retratos inspirou um dos personagens do filme – que aparece brevemente olhando por uma janela em um ônibus na sequência de abertura sobre Nova York.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: ela levou aproximadamente cinco anos para ser realizada, contando o momento em que o roteiro foi escrito. Se trata da segunda animação feita em stop-motion na história da Austrália – Mary and Max foi precedido, antes, por $ 9,99, lançado em 2008.

As filmagens foram feitas durante 57 semanas – ou seja, pouco mais de um ano e dois meses -, com um equipe de produção envolvendo 50 pessoas. Elas produziam, em média, por semana, dois minutos e meio de animação. Cada um dos seis animadores envolvidos no projeto produzia, diariamente, quatro segundos de filme  – que loucura, não? Um trabalho homérico.

Mais números: Mary and Max abriga aproximadamente 132.480 quadros (“frames”) individuais que foram registrados por seis câmeras de alta resolução digitais da Canon. Para o filme foram produzidos 212 bonecos feitos de uma variedade de polímeros, argila, plásticos e metais. Foram construídos ainda 133 “sets diferenciados” (ou ambientes) para esta produção. Foram produzidos ainda 475 adereços em miniatura – a máquina Underwood, por exemplo, levou 9 semanas para ser projetada e construída.

Para que os personagens pudessem ter a expressão exata no momento de falarem, foram produzidas 1.026 bocas que eram substituídas a cada frame (quadro). Max, por exemplo, tinha 30 bocas diferentes para que ele pudesse expressar sua emoções e falar. Foram fabricadas ainda 886 mãos para os personagens; 394 pupilas e 147 trajes diferentes para os personagens. Impressionante! Ah, e os “figurinos” tiveram inspirações ilustres: a roupa utilizada por Mary em seu casamento teve como inspiração Lady Diana e a roupa de Ivy foi idealizada seguindo um traje utilizado pela mãe da fotógrafa Annie Leibovitz (aqui uma retrospectiva da artista).

Mary and Max estrou em em janeiro deste ano como o filme de abertura do Festival de Sundance – uma bela (e merecida) honraria. No mês seguinte, ele participou do Festival de Berlim. Depois, participou ainda de outros 15 festivais – o último deles, na Polônia, agora em novembro. Até o momento, o filme ganhou pelo menos sete prêmios. Entre eles, o Urso de Cristal de Menção Honrosa ao Cinema Juvenil Generation 14+ no Festival de Berlim; o Grande Prêmio do Festival de Animação de Stuttgart; o de melhor roteiro no Prêmio Queensland Premier’s Literary; e o Grand Cristal no Festival de Animação de Annecy.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para o filme. Por sua vez, o site Rotten Tomatoes disponibiliza os links para 24 críticas positivas e duas negativas para Mary and Max – o que lhe garante uma aprovação entre os críticos de 92%.

Além dos atores já citados, vale mencionar a participação de Eric Bana que, no filme, empresta a sua voz para o personagem de Damien, um vizinho gago de Mary que vira a sua paixão.

CONCLUSÃO: Uma animação muito diferente do que estamos acostumados a assistir. Carregada de ironia e protagonizada por duas pessoas muito diferentes que tem visões extremamente particulares de mundo/da realidade, Mary and Max nos revela uma tocante história de amizade e de aceitação de diferenças. Uma criança e um adulto, ambos “inocentes” em suas solidões, passam a compartilhar suas vidas através de cartas. Acompanhando suas histórias, o espectador passa a conhecer também um pouco do cotidiano de um subúrbio australiano e de uma Nova York urbana e um bocado obscura. Produzido com esmero nos detalhes, utilizando a técnica do stop-motion e dos bonecos feitos em argila e outros materiais, Mary and Max é um filme ideal para adultos porque toca em temas sérios e densos, ao mesmo tempo em que apresenta muitos momentos de leveza, simplicidade e humor. Emocionante, profundo, divertido, perfeito.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: O primeiro longa-metragem do brilhante Adam Elliot figura na lista dos 20 filmes de animação pré-selecionados para o próximo Oscar. Mary and Max deve se engalfinhar com os demais para figurar entre os cinco indicados ao prêmio que dá a maior visibilidade para um filme na indústria do cinema. Francamente, mesmo não tendo assistido ainda a nenhum dos outros concorrentes, eu acho que seria uma injustiça que Mary and Max não estivesse entre os finalistas. Simplesmente porque ele é uma das melhores animações que eu vi nos últimos anos – junto com Persepolis e Wall-E, produções muito diferentes entre si.

Ainda é cedo para que eu possa dar uma opinião decisiva, mas acho que ele tem qualidades de sobra também para ganhar o prêmio. A verdade, contudo, é que será quase impossível que a Academia dê uma estatueta para Mary and Max. Não que ele não mereça. Mas o Oscar não está preparado para ser tão “ousado”. Além do mais, nunca a Academia premiaria uma produção australiana alternativa como esta em lugar de um filme comercial como Up, por exemplo, que deve ser o premiado do Oscar 2010. Esta é a minha primeira avaliação – mas surpresas sempre podem ocorrer, e eu posso mudar de idéia ao assistir a outros filmes na disputa nesta categoria.

SUGESTÕES DE LEITORES: Mary and Max estava na minha lista para ser assistido quando eu deixasse de lado a categoria de Melhor Filme Estrangeiro para o próximo Oscar. Ainda assim, eu não iria assistí-lo antes de Up ou Coraline, por exemplo – produções das quais eu já tinha ouvido falar. Só que quando vi uma sugestão do Mangabeira por aqui, comentando que eu deveria assistir a Mary and Max, não tive dúvidas: ele passou a figurar no topo da minha lista. Grande, grande filme, não é mesmo, Mangabeira? Eu o adorei.

Primeiro, pelo humor peculiar do roteiro de Elliot. Depois, pela qualidade técnica da animação, seu apreço por cada mínimo detalhe. Em terceiro lugar, porque esta é uma belíssima história sobre amizade (sem dúvida a melhor das relações) e sobre a compreensão de diferentes distúrbios psicológicos. Enfim, uma animação que trata da vida mesma, sem censuras, sem meias-palavras. Belíssimo, honesto, emocionante, potente. Fiquei fã do diretor e, certamente, estarei atenta a todo e qualquer trabalho que ele fizer no futuro. Muito obrigada, Mangabeira, por mais esta dica e por ter colocado este filme no topo da minha lista.

Agora, como não estou tendo sucesso para continuar assistindo aos filmes da lista de filmes estrangeiros pré-candidatos ao Oscar, vou me lançar a assistir as animações e os documentários que estão na disputa em suas respectivas categorias. Logo mais, outras novidades por aqui – e grandes filmes, certamente.

Julie and Julia – Julie & Julia

Uma história embebida no amor de duas mulheres por cozinhar, por escrever e por seus maridos. Junte a isto duas grandes atrizes, ambas indicadas ao último Oscar. O resultado, que poderia ser excepcional, não deixa de ser um bocado sem sal e morno. A receita, em algum momento, desandou. Julie & Julia (aqui o site oficial em português) novo filme dirigido e escrito por Nora Ephron, surgiu com grandes expectativas – a ponto de muitos lhe apontarem como possível candidato ao Oscar 2010. Mas Julie & Julia, infelizmente, não convence como muitos gostariam. Mesmo que a espectadora também adore cozinhar, escrever e que tenha um grande amor em sua vida. Provavelmente esta história funcione melhor em livro que como filme.

A HISTÓRIA: O diplomata Paul Child (Stanley Tucci) ensina algumas expressões francesas básicas para a esposa, Julia (Meryl Streep). O ano é 1949, e o casal está mudando-se para Paris. Não demora nada para que Julia comece a se deliciar com os encantos da culinária francesa. Pouco depois, o espectador acompanha a outra mudança: desta vez, a vivida pelo casal Julie (Amy Adams) e Eric Powell (Chris Messina). Eles deixam o Brooklyn para viverem no Queens, em Nova York, no ano 2002. Para enfrentar a mudança de casa indesejada e a sua própria frustração como escritora, Julie estipula para si um enorme desafio: escrever sua experiência na cozinha ao tentar reproduzir as 524 receitas publicadas por Julia Child em seu livro “Mastering Art of French Cook”. Ela deve preparar as receitas em um prazo de 365 dias. Enquanto sua aventura é contada, o espectador acompanha também a vida de Julia na França e a epopéia que ela deve enfrentar para conseguir publicar o seu livro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Julie & Julia): Duas grandes atrizes, recentemente indicadas ao Oscar por seus excelentes desempenhos no drama Doubt (comentado aqui no blog), voltam a se encontrar em um filme aguardado. Não apenas por se tratar do novo projeto da diretora e roteirista Nora Ephron, conhecida por sua vocação em retratar belas histórias de amor, mas principalmente porque ele mistura ingredientes em moda na literatura dos últimos anos: culinária e romance. Baseado no livro homônimo publicado por Julie Powell em 2005, Julie & Julia sofre por uma simplificação da história absurda. O tempero da obra de Julie se perde em uma adaptação quadrada, longa demais e que peca justamente por falta de condimentos/sal.

Para mim, este é um dos grandes exemplos de como nem todo livro pode (ou deveria) ser adaptado para o cinema. Francamente, não li a obra que inspirou a Nora Ephron, mas apenas o primeiro capítulo do livro (disponível nesta reportagem da Folha Online) demonstra que o texto de Julie Powell era muito mais interessante do que todo o roteiro da diretora. Francamente, Ephron parece ter se preocupado demais em aproveitar o talento de Meryl Streep. Ainda que ela esteja ótima – como sempre -, sua jornada por publicar o livro que escreveu em parceria com Simone Beck (Linda Emond) e Louisette Bertholle (Helen Carey) é menos interessante do que as dúvidas e a rotina de uma mulher prestes a completar 30 anos e que vive uma crise existencial na Nova York dos anos 2000.

O problema do filme, também, é que ele explora pouco a densidade de suas personagens. Honestamente, não sei se Julia era mais complexa do que a “dona-de-casa-eternamente-feliz” que assistimos através da história de Ephron. Mas é fato que Julie sim era uma garota complexa – como qualquer uma de suas contemporâneas que vive em uma grande cidade. E o espectador simplesmente percebe pouquíssimo disso neste filme. Narrada de forma muito tradicional, com seus 123 minutos sendo divididos sempre pela história de Julia e Julie contadas de forma linear, esta produção provoca a sensação de ser longa demais. Para alguns, talvez, arrastada. A verdade é que o filme resulta em um produto um bocado repetitivo e com pouca complexidade. Para contar a história de duas mulheres apaixonadas pela boa comida e por seus maridos, não precisávamos de tanta enrolação.

Mas para não dizer que nada funciona nesta produção, é preciso admitir que todos os seus atores estão bem em cena – ainda que, ninguém, excepcional. A verdade é que nem Meryl Streep pode fazer milagre com um roteiro tão fraquinho. Outra qualidade da história é a sua reflexão sobre a “era dos blogs”. Afinal, hoje em dia, é muito mais fácil alguém se tornar famoso, “virar uma celebridade” escrevendo um blog do que um livro. A “democratização” da informação e a facilidade de acesso do público e dos escritores a este meio torna muito mais fácil o caminho de quem quer se lançar no mercado editorial – por mais que os que condenam a “pirataria” e a “liberdade na internet” promulguem o contrário. Os blogs também acabam sendo, para quem tem talento, um dos canais possíveis para conseguir, no futuro, publicar um livro. Esse foi o caso de Julie Powell – e de tantas outras pessoas.

Interessante também como o blog desperta na protagonista o seu desejo de reconhecimento. Ela começa a acreditar no próprio talento como escritora quando seus textos vão ganhando, pouco a pouco, comentários de internautas. Como a maioria dos blogs pessoais, Julie acaba se expondo um bocado em seus textos – o que acaba sendo um dos fatores de seu êxito. O curioso é que, muito dedicada para cumprir o próprio desafio e fazer um bom trabalho com seu blog, Julie termina por descuidar do próprio casamento – efeitos colaterais indesejados por quem se lança além do ideal neste “universo cibernético”. Por este lado, Julie & Julia lança uma interessante reflexão – ainda que, com seu eterno tom alegre, o roteiro não deixe muito espaço para reflexões.

Também não deixa de ser interessante conhecer a história de um dos ícones da literatura e dos programas de TV de culinária dos Estados Unidos. Julia Child mudou, realmente, a maneira com que o norte-americano encarava a sua própria cozinha e o prazer de comer bem. Primeiro Julia e, depois Julie, ao reproduzir as receitas da sua “diva” em uma simplérrima cozinha do Queens, provaram que não é preciso sofisticação para reproduzir os melhores pratos da culinária francesa. Basta, para isso, ter boa vontade e, principalmente, amor. (Pena que estas lições de Julia não tenham resistido por muito tempo, afinal, nunca na história dos Estados Unidos tanta gente comeu mal, preferindo o fast-food do que um prato elaborado e caseiro).

Impossível, claro, não lembrar da Ofélia, a nossa “prata da casa”. Autora de livros e apresentadora do melhor programa de culinária que a TV brasileira já teve, Ofélia Ramos Anunciato começou a fazer história antes mesmo de Julia Child. Ofélia estreou na TV Santos em 1958, passando para a TV Tupi no mesmo ano. Julia Child estreou seu programa na televisão apenas em 1963. As duas guardavam grandes semelhanças entre si. A principal delas, além do talento e do amor que tinham pela boa culinária, certamente, era a simpatia/carisma. Honestamente, eu preferiria assistir a um filme sobre a Ofélia. 😉

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelo filme, não há dúvidas de que Julia é muito mais interessante do que Julie. Como personagens, me refiro – porque, afinal, por esta produção ficamos sabendo apenas sobre uma pequena parte de suas histórias. Vejamos: para Julia nunca há tempo feio. Ela adota a França como poucos estadunidenses um dia ousaram adotar a terra de Voltaire. Contradizendo a média dos estrangeiros – inclusive a opinião do próprio marido – que consideram os franceses esnobes, Julia adorava bater papo com os feirantes das ruas parisienses.

Quando descobriu que seu gosto pela comida poderia levar-lhe muito mais longe, ela enfrentou a resistência de uma mulher intragável – a única francesa que não cai nas graças da protagonista – da conceituada escola de culinária Cordon Bleu e se infiltrou em uma classe cheia de homens. Tudo para conquistar o seu sonho de dominar a cozinha francesa. Depois, mais por acaso que por planejamento, ela vestiu a causa de Simone Beck e Louisette Bertholle de publicar um livro em inglês com receitas da França. Perfeccionista, batalhadora, amorosa e sempre alegre, Julia pode ser considerada um exemplo a ser seguido. Ainda que todas estas suas qualidades não lhe ajudaram a, durante todo o período em que viveu na França, conseguir com que ela falasse razoavelmente o idioma daquele país – o que apenas reforça a lenda de que os estadunidenses são terríveis com outros idiomas, especialmente o francês. Como muitas imigrantes, Julia acaba sucumbindo, assim, a uma convivência com seus “pares” estadunidenses/ingleses. Interessante também como Julia marca época ao ousar, de forma criativa, através de detalhes simples, como fotos sensuais que estampavam postais dela e do marido. Depois, ao apresentar um programa para a TV, ela mostrou, mais uma vez, como era uma mulher inovadora e perspicaz.

Por outro lado, Julie (pelo menos a que vemos no filme) não deixa de ser uma garota que está prestes a completar 30 anos e que, mesmo bem casada, se sente muito distante do local em que gostaria de estar com a sua idade. Ridicularizada pelas amigas – que, convenhamos, de amigas elas não tem nada – e sentindo-se frustrada por não estar seguindo a sua vocação de escritora, Julie entra na “onda” dos blogs mais pela vontade de competir com a “amiga” Annabelle (Jillian Bach) do que por convicção em si mesma ou no formato.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Insegura, mesmo depois de receber inúmeros convites para reportagens e a publicação de livros, ela se sente deprimida porque Julia não parece ter gostado da sua iniciativa. E convenhamos, pelo que o filme nos apresenta, Julie mais se aproveitou da fama de Julia do que fez um trabalho realmente inovador. Só que algo me diz que a história não é bem essa – volto a exemplificar com o capítulo disponibilizado pela Folha. Tudo indica que as receitas de Julia eram uma desculpa para Julie falar de tudo da sua vida – e, de quebra, do relacionamento entre um homem e uma mulher, sobre o cotidiano de quem trabalha em um cubículo atendendo telefones o dia inteiro e, claro, sobre a vida em Nova York. Pena que o filme não mostre isso. Porque assistindo a Julie & Julia, sem dúvida Julie parece uma garota insegura, com humor muito variável e que, francamente, não consegue promover nenhuma mudança real em sua vida – nem deixar o pequeno apartamento no Queens e nem sair de seu emprego frustrante. A parte fraca do roteiro, sem dúvida – ainda que Amy Adams seja uma gracinha.

Como muitos livros que acabam sendo adaptados para o cinema, os editores de Julie & Julia não perderam tempo em lançar a versão em português da obra aqui no Brasil. Com 352 páginas e publicado pela Editora Record, a obra de Julie Powell pode ser encontrada por um preço médio de R$ 31,90. Quem ler (ou já tiver lido), por favor, comente aqui, depois, sobre o livro – e compare com o filme, se possível.

Francamente, eu prefiro outros filmes que falam de amor e de culinária. Para começar, o “clássico” mexicano Como Agua para Chocolate.

Não sei se todos que assistiram ao filme pensaram o mesmo, mas aqui, com meus botões, eu questionei: “Como Julie não engordou ao preparar e, principalmente, comer, 524 receitas, muitas delas exageradamente cheias de manteiga, em um ano?”. O mesmo vale para o marido dela… pelo filme, nenhum dos dois engordou. Mas que pessoa, na vida real, não teria saído da dieta com aquela comilança? 😉

Para os interessados em conhecer de perto o trabalho de Julie Powell, não deixa de ser interessante que o seu blog, o The Julie/Julia Project continue online – ele pode ser acessado através deste link. Em inglês, para os interessados em acompanhar na íntegra a aventura de Julie – que inclui, ainda, um texto dela sobre a morte de Julia, ocorrida em 2004. Agora, com um formato bem “antiguinho” e simples, é preciso um bocado de paciência para ir voltando no calendário, localizado no canto superior direito do site e voltar, pouco a pouco, até as receitas que Julie testou. Paciência, navegadores! Mesmo assim, bacana que o blog foi preservado. Atualmente, Julie Powell mantêm em dia outro blog – What Could Happen?. Achei especialmente interessantes os seus comentários do dia 10 de agosto deste ano, quando Julie comenta sobre o fato de Julia não ter gostado de seu blog-homenagem e, principalmente, quando ela justifica o uso de palavrões em seu livro. hahahahaha. Engraçado ela dizer que os “palavrões são partes vitais” de uma língua. Ela é espirituosa e, como mérito, tira sarro dos republicanos. 🙂

Talvez muitos de vocês, meus caros leitores, se lembrem de alguém específico ao assistir a este filme. Eu, francamente, me lembrei de uma querida amiga, a Bianca, uma pessoa que tem um talento especial para cozinhar – e que, como Julie e Julia, adorava preparar pratos deliciosos para o seu marido e para os amigos.

Para os interessados em saber um pouco mais sobre a Julia Child verdadeira, aqui é possível encontrar uma reportagem (ou seria obituário?) bem resumida sobre a sua história e importância para o público dos Estados Unidos. Interessante saber, por exemplo, que Julia estrou seu programa televisivo The French Chef em 1963, justamente a época em que os norte-americanos estavam se abrindo para as viagens (e a culinária proveniente do) ao Exterior. O presidente da época, John F. Kennedy, e sua esposa, a refinada Jacqueline, tinham contratado, por exemplo, o chef francês Rene Verdon para a Casa Branca. Neste cenário, Julia caiu no gosto popular como uma luva.

Outra curiosidade no texto do San Francisco Chronicle é que Julia, nascida em uma família com dinheiro de Pasadena em 1912, acabou se mudando para Nova York, mesma cidade de Julie, para trabalhar em uma loja de departamentos. Julie e Julia viveram na mesma cidade, mas em épocas muito diferentes, é claro – algo que o filme nem sugere. Pelo texto é que fiquei sabendo, também, que o marido de Julia, Paul, era 10 anos mais velho que ela e que ele sim, muito antes da esposa, era fascinado (e considerado um especialista) pela culinária e por bons vinhos. Ele que a introduziu “neste mundo” do sabor. Julia e Paul viajaram juntos para o Sri Lanka e para a China antes de se casarem, nos Estados Unidos, em 1946. Por estas e por outras que Julia era uma mulher liberal e à frente de seu tempo. Ela acabou publicando mais de um livro e estrelando dois programas televisivos – o The French Chef e o Cooking With Master Chefs.

Outra curiosidade sobre Julia Child: no dia 23 de julho de 2003 ela ganhou, do então presidente George W. Bush, a honraria da Medalha da Liberdade. Ela também se envolveu em duas entidades de culinária, a American Institute of Wine and Food (ao qual ela participou dando suporte) e a International Association of Culinary Professionals (do qual ela foi co-fundadora).

Agora, um fato curioso sobre o filme: a diretora Nora Ephron teve que utilizar uma série de “truques” para tornar Meryl Streep mais alta do que ela realmente é. Isso porque a Julia real era um mulher muito alta. Por isso, algumas partes dos cenários foram reduzidas, para que a atriz parecesse maior, assim como Meryl Streep sempre utilizava saltos altos – e Nora Ephron esbanjou o uso de filmagens em perspectiva.

A trilha sonora do filme é bem gostosinha – mérito do compositor francês Alexandre Desplat. Destaque especial para algumas músicas conhecidas no repertório, entre elas Psycho Killer, interpretado pelo Talking Heads, e o saudosismo de A Bushel and a Peck, por Doris Day – sem contar Time After Time, interpretada por Margaret Whiting.

Tecnicamente, o filme é muito bem feito. Para começar, funciona a fotografia luminosa e com cores geralmente “alegres” de Stephen Goldblatt. Merece destaque ainda o trabalho de direção de arte de Ben Barraud e a decoração de set de Susan Bode, que cuidam de cada detalhe/objeto que aparece em cena. Como sempre, os figurinos de Ann Roth trabalham em função do roteiro para ressaltar épocas e estilos – e diferenciar, especialmente, as protagonistas. Ann Roth, aliás, é um exemplo a ser seguido – ela continua trabalhando, aparentemente de forma incansável, aos 78 anos.

O filme Julie & Julia é uma adaptação da diretora Nora Ephron de dois livros: o homônimo, publicado por Julie Powell, e o autobiográfico My Life in France, de Julie Child com o jornalista Alex Produ’homme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Julie & Julia. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 143 textos positivos e 48 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 75%. Um empate entre a opinião de público e de crítica extremamente incomum.

Nas bilheterias o filme foi bem, muito bem, até o momento. Julie & Julia, que teria custado aproximadamente US$ 40 milhões, arrecadou, apenas até o dia 15 de novembro, na terra do Tio Sam, pouco mais de US$ 93,7 milhões. Ele se pagou e ainda lucrou um bocado. O público foi atraído, certamente, pelo sucesso da bloguera e escritora e, o principal, pela dupla de protagonistas da produção.

Julie & Julia fez sua premiere no dia 30 de julho em Nova York. Depois, o filme estreou no circuito comercial dos Estados Unidos e do Canadá no início de agosto. A produção participou de sete festivais – nenhum de suma importância – até o momento, incluindo os do Rio e de São Paulo.

Para os interessados em saber um pouco mais sobre a “nossa” Ofélia, aqui é possível acessar um texto sobre sua vida e carreira. Saudade da Ofélia!

Ah, e um P.S. final: tenho certeza que a mulherada, em especial, vai discordar de mim sobre este filme. Mas meninas, eu vou avisando: tenham paciência. Mais do que achar um filme bonitinho ou não, eu analiso o contexto em que ele foi feito, seu potencial, e naquilo que ele se tornou. Como este Julie & Julia… pelo que a história rendia, esta produção poderia ter sido bem melhor. Entenderam? Se não entenderem, tudo bem. Só não me joguem pedras. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme que tinha tudo para ser incrível e que, nas mãos da diretora e roteirista Nora Ephron se tornou apenas mediano. Para os interessados em histórias de amor que envolvem culinária, pode ser um passatempo curioso – especialmente por trazer a uma Meryl Streep eternamente afiada. Uma pena que o texto irônico e afiado da Julie original ficou de fora do roteiro que exagera no “politicamente correto”. Até mesmo a personagem de Julia foi simplificada. Para meu gosto, com toda a sua simplificação, Julie & Julia acaba se revelando longo demais e, em alguns momentos, um tanto arrastado. Ainda assim, pode valer por curiosidade, especialmente por revelar o êxito de uma garota que morava em Nova York e que se tornou mundialmente conhecida através de seu blog.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Francamente, acho quase impossível esse filme ser indicado a algum prêmio. Mesmo os de melhor atriz ou melhor atriz coadjuvante, serão difíceis de emplacar. Só se os votantes da Academia acharam o ano muito fraco em interpretações para descolar alguma vaguinha para Meryl Streep ou Amy Adams – pelo menos por este filme. As duas atrizes estão simpáticas em seus respectivos papéis, mas não fazem nenhum esforço acima da média – até porque a adaptação de Meryl Streep para um sotaque diferenciado deixou de ser novidade há muito tempo. Julie & Julia está longe de ser indicado como melhor filme ou roteiro adaptado. Para mim, chances zero de indicação. Bem, talvez o filme consiga alguma indicação em categorias técnicas, como direção de arte ou figurino.

El Traspatio – Backyard

Há histórias simplesmente incríveis. Como bem afirmam alguns, em certas ocasiões, a realidade consegue ser mais impressionante que a ficção. Por isso mesmo, quando uma história destas rende o roteiro de um filme, ela deve ser contada de forma igualmente extraordinária. Do contrário, ler reportagens em um jornal acaba sendo mais curioso que assistir a dita produção. Este é o caso de El Traspatio (ou Backyard, seu nome no mercado internacional), representante do México na disputa por uma vaga no Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro. Inspirado no escandaloso caso das “mortas de Juárez”, como ficou conhecido o assassinato expressivo de mulheres na cidade mexicana fronteiriça com os Estados Unidos, El Traspatio sofre com um roteiro que tenta se aprofundar em diferentes aspectos da realidade daquela região mas que, no fim das contas, consegue pouco mais que uma narrativa policial.

A HISTÓRIA: Em um campo seco, policiais fazem uma ronda próximos a cena de um crime. A policial Blanca Bravo (Ana de la Reguera) reconhece que se trata de uma mulher, entre 16 e 25 anos, que foi mutilada e morta por estrangulamento. Ela era trabalhadora da fábrica Kikay e tinha um dente com a letra K. O policial Fierro (Marco Pérez) revela, para o jornalista que está acompanhando o reconhecimento, que esta é a 29ª vítima do ano (no caso, 1996). Mas ele se recusa a responder quantos corpos de mulheres foram encontrados nos últimos 10 anos. Depois, no carro, ele revela para a recém-chegada Blanca que os números chegam a 65 (pela conta da polícia) ou 83 (pela conta dos jornalistas), registradas apenas nos últimos três anos. O número de mulheres desaparecidas também é bastante varíavel: para alguns, cerca de 100, para outros, 350. Com a ajuda da voluntária Sara (Carolina Polili), que reconhece a última vítima e que arquiva por sua conta todas as informações das mulheres mortas e desaparecidas, Blanca começará a investigar os crimes e a encontrar culpados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue lendo quem já assistiu a El Traspatio): Este filme não deixa margem à dúvidas desde o princípio: sim, ele se baseia em histórias reais. Tudo indica também, pelos primeiros minutos da produção dirigida por Carlos Carrera, que o espectador assistirá a uma intricada trama policial. Mas o roteiro de Sabina Berman tenta “problematizar” a história, focando diferentes aspectos que compõe o cenário de Juárez: desde as questões políticas e os interesses de multinacionais, até a chegada de migrantes de outras partes do país e o desprezo dos homens locais pelas mulheres em geral. Se por um lado é interessante esta preocupação da roteirista em “contextualizar” a história, por outro algumas de suas escolhas acabam apenas diluindo a força do material que ela tem em mãos.

Para resumir, há muitas histórias paralelas para um único filme. Para dar um exemplo, a aparição de Numasaki em duas ocasiões, para exemplificar a pressão das multinacionais sobre o governador de Chihuahua (Enoc Leaño), acaba sendo desnecessária. Afinal, esse tipo de pressão de empresas – e depois de um senador dos Estados Unidos – justifica a postura do governador frente ao problema? Acredito que não. E esta vontade de Sabina Berman em involucrar a quase todos como co-responsáveis pelas mortes das mulheres de Juárez acaba desviando o foco da história.

A grande questão deste filme é uma só: o desprezo dos homens (de parte deles, claro, apenas os machistas) pelas mulheres. El Traspatio é um filme sobre mulheres subjugadas e maltratadas. Tanto pelas empresas multinacionais instaladas na cidade e que buscam cada vez mais trabalhadores que ganhem menos e que não se queixem nunca, quanto por namorados e maridos que se sentem com a liberdade de matar suas mulheres por traições ou simplesmente por não obedecê-los (inclusive em questões simples, como fazer algum serviço doméstico). Há ainda os serial killers tradicionais, que pensam que Juárez é uma terra sem lei e que, ali, eles terão a liberdade para cometer seus crimes sem passarem por investigação – muito menos uma punição.

A sociedade mexicana é muito machista. E posso dizer isso com base em conversas que tive com amigos mexicanos, que conheci em Madrid. Eles mesmos admitem que não é fácil a vida de uma mulher em seu país. Mas ainda que trate de uma realidade muito específica, El Traspatio pretende, com sua história particular, abraçar uma causa universal. Tanto isso é verdade que, no final da produção, são listados vários números de assassinatos de mulheres em crimes sexuais em diferentes países – incluindo Espanha e Estados Unidos. Por esta razão, pelo tema que El Traspatio coloca na mira das atenções, ele merece a nota abaixo.

Mas o filme, propriamente dito, infelizmente não consegue passar do lugar-comum. Ele se assemelha a tantas outras produções medianas que focam a resolução de vários crimes e que buscam “problematizar” uma história sem convencer totalmente ao espectador. El Traspatio não consegue surpreender ao seu público em momento algum. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, alguém realmente poderia duvidar que a personagem de Juana (Asur Zágada) iria morrer na mão de algum dos homens que a cercavam? Também ficou evidente, desde a prisão do Sutão (Sayed Badreya) que o empresário Mickey Santos (Jimmy Smits) não poderia ser completamente inocente. Estes dois casos, os mais “bombásticos” do filme, não surpreendem ninguém – mas, claro está, não deixam de ser ultrajantes.

Entendo a escolha de Sabina Berman por dividir o filme em duas narrativas paralelas: a de Blanca e seus esforços em parar com a matança de mulheres em Suárez e a da jovem Juana. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história desta segunda, uma menina “inocente” que descobre na cidade fronteiriça a liberdade que não tinha sob a vigilância do pai em Cintalapa, cidade que pertence a Chiapas, tenta dar mais cores e um rosto simbólico para as vítimas dos crimes sexuais. Diferente de tantas reportagens publicadas em distintos jornais que destacam mais os números que as pessoas, El Traspatio busca com Juana demonstrar como todos aqueles números significam o fim da existência de pessoas reais, com passado, família, trabalho, paixões e sonhos.

A intenção é boa, mas pena que para um filme ela acabe servindo apenas para dividir as atenções e tirar a força da história central. Também me pareceu duvidosa a forma com que a história de Juana foi contada. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Seu comportamento, talvez “libertino” demais, pode levar a uma justificação do crime praticado por seu ex-namorado, Culberto (Iván Cortés), quando, evidentemente, comportamento algum pode justificar um assassinato com vários requintes de crueldade.

A questão da corrupção policial também é pouco abordada pelo filme, se comparado, por exemplo, com a “pressão” de algumas multinacionais contra políticos como o governador de Chihuahua. Um erro, claro, porque a corrupção policial jogou um papel fundamental para que os crimes continuassem ocorrendo. El Traspatio ainda explora o papel da imprensa na divulgação dos crimes e para jogar com a pressão popular por uma resolução dos problemas. O destaque, neste quesito, fica por conta do radialista Víctor Peralta (Joaquín Cosio), o homem que faz o resumo exato da realidade de sua cidade, dos crimes que estão ocorrendo e do trabalho da polícia.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Importante comentar que El Traspatio começa em 1996, três anos depois que as primeiras mulheres começaram a ser encontradas mortas em Juárez. Segundo esta reportagem da BBC Mundo (em espanhol), em 10 anos os crimes na cidade não haviam ainda sido totalmente resolvidos. Para o governo, até 2006, as mortes chegariam a 93. Organismos não-governamentais, por sua vez, apontariam para um número muito maior: 300. Este outro texto, do portal mexicano Univision, afirma que a Procuradoria Geral da República mexicana apontava para 258 mortes no período de 1993 e 2003, enquanto que um informe do Instituto Chihuahuense da Mulher reporta 321 mortes e a Anistia Internacional, por sua vez, 370.

A reportagem do Univision traz ainda um comentário de Isabel Vericat, da ONG mexicana Epiqueia, que revela que muitas mortes de Juárez seguem um padrão: suas vítimas são meninas “entre 13 e 18 anos, estupradas, mutiladas e estranguladas. Algumas apresentavam cortes nos peitos, lábios ou marcas parecidas a um X nos braços, rostos ou nas costas. Outras tinham o rosto destroçado, foram esquartejadas, queimadas, e se supõe que todas, sem exceção, morreram aterrorizadas”. Um verdadeiro absurdo, não? Estas características é o que diferenciaria os crimes praticados na cidade de outros em distintas cidades mexicanas e de outros países.

Segundo a mesma reportagem, o Ministério Público do Estado de Chihuahua revelou que pelo menos 91 dos crimes registrados contra mulheres na cidade seguem outro padrão: “em sua maioria são jovens de pele morena, desempregadas, trabalhadoras de indústria ou estudantes que foram sequestradas, estupradas repetidas vezes por mais de uma pessoa, torturadas, mutiladas e assassinadas. Seus corpos são jogados em terrenos baldios”.

Até a data de publicação da reportagem da Univision, dia 15 de janeiro de 2004, apenas uma pessoa havia sido condenada por alguns destes crimes: o egípcio Abdel Latif Sharif Sharif, que foi preso em 1995 sob a acusação de ter cometido, pessoalmente, nove homicídios e de ter, ainda, sido o autor intelectual de outra dúzia deles. Em 2004, outros 16 acusados estavam presos a espera de um julgamento.

Para os interessados neste tema, deixo aqui este portal especial do Terra mexicano, que inclusive traz uma cronologia dos principais fatos envolvendo as mortes em Juárez; assim como volto a indicar a série de reportagens da Univision que podem ser acessadas a partir deste link (ao total, são sete páginas que exploram as diferentes hipóteses sobre os crimes, incluindo a de pornografia “snuff”, envolvimento de narcotraficantes ou do tráfico de orgãos).

O município mexicano de Juárez faz fronteira com a cidade de El Paso, pertencente ao Estado do Texas, nos Estados Unidos. Segundo a mesma reportagem comentada anteriormente, da BBC Mundo, o FBI criou na cidade de El Paso o serviço de uma linha telefônica específica para denúncias relacionadas com homicídios de mulheres.

Para o filme, todos os nomes dos envolvidos nos casos reais de Juárez foram modificados pela roteirista.

Segundo esta reportagem do jornal El Siglo de Torreón, a equipe envolvida em El Traspatio foi ameaçada de diferentes maneiras. Segundo o produtor Epigmenio Ibarra, as mulheres da equipe receberam ameaças telefônicas. O diretor Carlos Carrera afirmou que diariamente apareciam pessoas assassinadas nos lugares em que a produção era filmada. Deve ter sido hiper estressante tirar este filme do papel.

Carlos Carrera, que ficou conhecido por dirigir El Crimen del Padre Amaro, afirma nesta reportagem que El Traspatio é uma “radiografia do México, a partir da atmosfera tensa das investigações dos assassinatos de mulheres na Cidade Juárez: a corrupção política e policial, a falta de administração da justiça…”, define o diretor.

No mesmo material, a roteirista Sabina Berman defende o seu trabalho: “Primeiro pensei em contar os fatos relacionados com os assassinatos das mulheres. Logo, disse a mim mesma: “Isso já foi feito por alguns documentários e livros”. Então eu percebi que o que eu queria contar era, além destes fatos, o que rodeia aos assassinatos. Uma sociedade multicultural, que deriva o seu fatalismo para a indiferença. Um Estado que falha nos seus deveres mais elementares. Uma economia neoliberal e globalizada. E a vizinhança com o país mais rico do mundo, os Estados Unidos. Pensei que esta é uma história do nosso tempo, não de outro, que deve ser contada de forma complexa e com espírito jornalístico. A realidade é interessante demais. Além disso, disse a mim mesma, a história deve possuir um coração sensível para o centro. Quero tornar emocionante o real, para que o espectador sinta, sinta e sinta, e nem por isso deixe de pensar e conhecer”.

El Traspatio tenta, a sua maneira, ressaltar a importância das pessoas não se acostumarem a absurdos como aqueles que envolvem as mortes cruéis de mulheres em Juárez. Pena que esta “denúncia” fique tão diluída no desejo da roteirista em mostrar “todos os aspectos” que envolvem a realidade daquela cidade fronteiriça.

O filme conseguiu, até o momento, a nota 7,4 pela votação dos usuários do site IMDb.

No México o filme foi lançado e amplamente divulgado com o título internacional, Backyard, que significa “quintal” – fazendo alusão ao fato da cidade de Juárez ser o “quintal” do desenvolvido Estados Unidos.

El Traspatio estreou no México em fevereiro deste ano. A partir de setembro ele começou a se lançar em festivais internacionais, como o de Toronto, o de Vancouver, o de Pusan e o de São Paulo.

Além dos atores já citados, vale a pena citar o trabalho de Alejandro Calva como o comandante da polícia obcecado por uma promoção – e, consequentemente, por deixar a cidade de Juárez; e Amorita Rasgado como Márgara, prima de Juana que hospeda a menina em casa e cuida para que ela seja empregada na indústria local.

CONCLUSÃO: Um filme que tenta equilibrar os gêneros policial e de drama para resgatar a história do “femicídio” registrado a partir de 1993 na cidade mexicana de Juárez, que faz fronteira com os Estados Unidos. Dirigido de forma tradicional e com um roteiro que peca pelo excesso de elementos e personagens, este é um filme que trata de um tema fundamental. Ainda assim, ele perde a sua “moral da história”, que defende a busca pela justiça e a indignação pública contra a indiferença justamente por ter esta idéia diluída entre tantas outras. Com um roteiro bastante óbvio e previsível, El Traspatio se mostra interessante apenas pelo fato de trazer à tona uma série de crimes absurdos e que, por incrível que pareça, continuam ocorrendo – inclusive, muitos deles, sem solução. Tecnicamente correto, ele fica na média dos filmes policiais, mostrando-se, inclusive, um pouco longo demais.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Mesmo tendo uma boa recepção no México, El Traspatio dificilmente terá alguma chance no próximo Oscar. Comparado com os filmes que assisti até o momento – todos podem ser consultados aqui no blog na categoria “Oscar 2010” -, ele é o mais fraco na disputa, até o momento. Não deve chegar aos cinco finalistas e, muito menos, levar o prêmio para casa.

Oorlogswinter – Winter in Wartime

Em 2008 e 2009 uma série de filmes relembraram histórias e aspectos da 2ª Guerra Mundial. Diferentes países se lançaram em produções próprias para contar, aparentemente, seu próprio “quinhão” daquele evento. Por isso mesmo, o espectador que começa a assistir Oorlogswinter pensa que assistirá apenas “mais uma história” sobre a guerra, desta vez com as cores da bandeira holandesa. Verdade que o filme dirigido por Martin Koolhoven trata sobre a fase final da guerra em território holandês, mas a história vai muito além do foco dos conflitos e intrigas envolvendo nazistas e a resistência do país invadido. Representante da Holanda para o próximo Oscar, Oorlogswinter tem todos os elementos para se colocar entre os favoritos.

A HISTÓRIA: Em janeiro de 1945, em uma certa noite, o garoto Michiel (Martijn Lakemeier) acorda e, ao levantar-se, pega a sua pequena lanterna da cabeceira da cama. Ele escuta, ao longe, a disparos. Olhando pela janela, Michiel vê a um avião em chamas em trajetória de queda. Um soldado alemão chega próximo ao local de bicicleta. Ao fazer sua ronda de reconhecimento, ele encontra sangue, mas não é rápido o suficiente. Preso com o paraquedas em uma árvore, o soldado inglês Jack (Jamie Campbell Bower) atira no nazista. No dia seguinte, Michiel e seu melhor amigo, Theo (Jesse van Driel) se aproximam do avião para conseguir algum “brinquedinho” de guerra. O que Michiel não sabe é que logo ele deixará de brincar e, sem querer, se aproximará perigosamente do “inimigo” dos invasores de seu país, o soldado Jack.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Oorlogswinter): O filme dirigido com cuidado e atenção aos detalhes por Martin Koolhoven começa muito bem. Ainda assim, serei honesta, fiquei pensando em todos os “lugares-comum” que a história começava a abrigar. Primeiro, identifiquei o uso fundamental de uma trilha sonora potente, muitas vezes dramática, para ressaltar o drama da produção. Depois, a história baseada fundamentalmente em um personagem infanto-juvenil – ingredientes que normalmente funcionam bem juntos e garantem o apelo necessário para que uma produção agrade a público e abocanhe alguns prêmios.

Como este ano assisti a muitos filmes ambientados no período da 2ª Guerra Mundial, também admito que pensei, inicialmente, que este seria apenas “mais um”, desta vez com o olhar dos holandeses. Mas Oorlogswinter tem tantas qualidades que, pouco a pouco, vai derrubando estas idéias pré-concebidas e vai conseguindo arrebatar o espectador.

No início do filme, pensei que esta seria uma história da “guerra contada pela ótica de dois meninos”. Garotos que viam o conflito como uma aventura, na qual a tarefa mais difícil era conseguir algumas peças para suas coleções particulares. Chega a ser um pouco irritante o exagero da sequência de “fuga e perseguição” entre Michiel, Theo e os soldados alemães que estão fazendo o reconhecimento do avião inglês. Neste momento o espectador pode pensar que o filme será isso, uma “aventura” supervalorizada pela música e com pouca importância real. Ledo engano.

Michiel é um personagem muito interessante. Filho do prefeito Johan van Beusekom (Raymond Thiry), ele abomina a presença dos nazistas em seu país. Por isso, não aceita que o pai mantenha uma convivência pacífica e um tanto simpática com os invasores. Como contraponto, o garoto idolatra ao tio Ben (Yorick van Wageningen), que participaria da resistência holandesa contra os nazistas.

Observador e inteligente, Michiel fica excitado quando o irmão mais velho de Theo, Dirk (Mees Peijnenburg), lhe procura para pedir-lhe um favor. Ele pede que, se não voltar em breve, o vizinho entregue um envelope para o ferreiro Bertus (Tygo Gernandt). Michiel nem sonha o que abriga aquele envelope pardo, mas ele o guarda como se fosse o objeto mais valioso da Holanda naqueles dias.

Quando Bertus é preso e sua família ameaçada pelos nazistas, Michiel tenta entregar o envelope para Bertus. Sem conseguir, ele mesmo resolve resolver o enigma. Assim é que ele se aproxima de Jack, o soldado inglês ferido que tenta fugir daquela área de domínio nazista. Corajoso e esperto, Michiel assume o risco de ajudar a um soldado inimigo – sabendo que esta sua atitude pode ter resultados terríveis. Mas descontente com a presença alemã no país, ele sente que esta é a sua oportunidade de fazer algo contra a guerra.

Eis aí o primeiro aspecto interessante do filme: ele não apenas mostra a guerra pela ótica de um jovem garoto de família importante, mas revela o desejo de muitos holandeses (que representam simbolicamente todas as demais nacionalidades invadidas durante a guerra) em se livrar do odiado invasor.

Alguns buscavam resistir lutando em países ainda não invadidos. Outros, através de movimentos de resistência dentro de seu próprio país – essencialmente praticando atos terroristas contra arsenais de armas e meios de transporte. Mas havia uma parte considerável que apenas convivia com o invasor, tentando resistir através de um ato de sobrevivência.

O jovem Michiel admirava apenas os que lutavam diretamente, seja na guerra ou através de movimentos de resistência. Não entendia o próprio pai, que sabia que um dia o conflito iria terminar e que era necessário que o maior número de holandeses estivesse vivo para reconstruir e retomar o crescimento do país.

E neste ponto, entramos no aspecto mais interessante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Oorlogswinter). Esta produção holandesa discute, como poucas – e de forma muito natural e emocional – como era difícil, na época da 2ª Guerra Mundial, determinar quem eram os “mocinhos” e os “bandidos” da história. Michiel tem claro em sua cabeça as pessoas que admira e as que tem vergonha de conhecer. Só que conforme o filme se desenrola, o garoto vai aprender que sua noção de realidade estava muito distorcida. Os papéis de heróis e bandidos trocam de lado, e esta surpresa do roteiro é o que provoca a mudança fundamental na história – deixando para trás a sua carga de “dramalhão” para transformá-la no rito clássico de perda da inocência e da passagem da infância para a vida adulta.

Essa reflexão pontual do filme pode ser extendida para um terreno muito mais amplo do que o da guerra – e daquele conflito, em particular. Atualmente, muitas pessoas correm para esquematizar o mundo em “heróis” e “bandidos”, determinando quem é do bem ou do mal. O problema é que esta noção está cada vez mais difusa. E as pessoas que jogam de um lado hoje podem jogar de outro amanhã. O ser humano é complexo. Com isso, não quero (e nem pretendo) relativizar todos os acontecimentos, tirando as responsabilidades das pessoas. Não. Só quero dizer que é cada vez mais difícil colocar alguém em um papel e deixá-lo ali permanentemente.

Gostei muito da direção de Martin Koolhoven – que é responsável, ainda, pelo roteiro de Oorlogswinter. Koolhoven adaptou o romance de Jan Terlouw para o cinema ao lado de Mieke de Jong e Paul Jan Nelissen. O trio faz um belo trabalho ainda que, admito, eles calculem um pouco demais cada recurso para emocionar o espectador. Alguma vezes, quando esta tentativa fica muito evidente, o efeito acaba sendo o contrário. Mas como a história original é muito boa, mesmo os “recursos fáceis” algumas vezes utilizados em Oorlogswinter não são suficientes para estragar a história.

Um bom filme deve ser capaz de levar o espectador “pela mão”. Ou, em outras palavras, conduzí-lo pela história de tal maneira com que ele se envolva, se emocione, e esqueça todos os recursos fáceis (ou difíceis) de narrativa planejados para este fim – o de emocionar. Inicialmente Oorlogswinter não consegue isso. Ficam evidente os fios soltos de seus recursos cuidadosamente planejados para fisgar o espectador. Mas depois, Koolhoven consegue o seu propósito e arrebata ao público.

Um dos principais trunfos do diretor – e eu me arrisco a dizer que o grande responsável pelo sucesso da produção – é o desempenho do ator Martijn Lakemeier. O garoto dá um show de interpretação. Seja nos momentos de “aventura” juvenil, nos em que deixa claro seus alvos de admiração ou desprezo, Lakemeier segura a complexidade de seu personagens nas inúmeras situações em que sua interpretação é feita sem palavras, no silêncio. Emocionante o trabalho do rapaz. Junto com ele, há outros atores muito bons (dos quais comentarei em seguida), mas é Lakemeier quem rouba as cenas.

Oorlogswinter é feito para emocionar, não há dúvida. Tudo no filme é pensado para isso – especialmente a trilha sonora “grandiloquente” (e nuito bonita, devo dizer) do italiano Pino Donaggio. Mas o importante de filmes planejados desta maneira é quando ele nos apresentam uma grande história e, principalmente, conseguem o seu objetivo. Oorlogswinter é um destes exemplos, em uma produção cara e de qualidade técnica e interpretativa.

E o melhor do filme é que, mesmo depois da reviravolta pela qual passa a história, há ainda uma grande outra mensagem para o espectador – além daquelas já citadas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando a guerra termina e a Holanda se vê livre do domínio nazista, Michiel parece ser a única pessoa no país a não comemorar este feito – certamente outros também não celebraram, mesmo tendo desejado tanto que os invasores fossem embora. E a cena final, é simplesmente deslumbrante. Quando o misteriosamente desaparecido Theo reaparece para falar com seu melhor amigo e lhe oferece aquela correia que havia pego no avião inglês para brincar, Michiel (e os espectadores) redescobrem algo fantástico: que ele é, afinal de contas, pouco mais que uma criança. E, mesmo marcado por fatos tão trágicos causados pela guerra, ele terá toda a esperança e a oportunidade da vida para divertir-se e descobrir seu próprio caminho. Cena maravilhosa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Jan Terlouw, o autor da obra Oorlogswinter que inspirou este filme, é um dos mais importantes e conhecidos escritores infanto-juvenis da Holanda. Apenas neste link é possível encontrar 24 livros publicados por ele. Cientista formado e especializado em física e matemática, Terlouw também seguiu a carreira política. Segundo este texto, o autor começou a sua trajetória na literatura infantil em 1970. Terlouw recebeu, em duas ocasiões, o prêmio literário Golden Slate Pencil. Teve seus livros traduzidos para 17 idiomas. Seu livro de maior êxito, Koning van Katoren (no Brasil, Sete Desafios para ser Rei) foi reimpresso na Holanda 54 vezes e vendeu, pelo menos, 350 mil cópias. Honestamente, fiquei curiosa para saber se a adaptação de Oorlogswinter é fiel e corresponde à qualidade da obra original de Terlouw.

E uma curiosidade sobre Oorlogswinter: a obra foi adaptada, anteriormente, para a televisão holandesa. Em 1975 ela foi lançada como uma minissérie, com direção de Aart Staartjes e com 5 horas e 41 minutos de duração.

Talvez motivados pelo aniversário de 70 anos do início da 2ª Guerra Mundial, muitos países que viveram o conflito direta ou indiretamente começaram a discutir distintos aspectos daquela época. Para os interessados, sugiro uma pesquisa aqui no blog mesmo. Há desde o alemão Das Weisse Band, que debate a formação da geração que iria permitir a ascensão nazista; até a visão “moderna” de Die Welle sobre o fascismo e os movimentos totalitaristas. Vale citar ainda Max Manus, outro concorrente a uma vaga no próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; Good, dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim; e o estadunidense Defiance. Todos comentados aqui no blog. 😉 O que interessa é que esta revisão histórica, com diferentes óticas contribuindo para o entendimento daquela época, são muito bem-vindos.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emocionante, nesta história, o fato de como Michiel não sabe, exatamente, aonde está se metendo. Ele não tem a idade ou a visão necessária, ainda, para entender a complexidade da guerra e de suas relações de poder, disputas e dos diferentes interesses que estão em jogo. Daí vem a perda de sua inocência, quando ele começa a se dar conta da complexidade da guerra. Impressionante, em especial, como ele descobre, perto do final, quem era realmente o seu pai. Alguém que ele não conhecia de fato, mesmo convivendo sob o mesmo teto com ele. Bonito isso. E mais realista do que muitas pessoas gostariam de admitir.

Todos os atores escalados para Oorlogswinter fazem um belo trabalho. Além do principal nome do elenco, o já comentado Martijn Lakemeier, merecem destaque: o trabalho afinadíssimo de Raymond Thiry como o pai do garoto; Melody Klaver como Erika, a irmã mais velha de Michiel que acaba, por ser enfermeira, se envolvendo com Jack; Anneke Blok como Lia, mãe do protagonista; Dan van Husen como o comandante nazista Auer; e Ad van Kempen como Schafter, o vizinho e “colaborador” nazista que simboliza o exemplo de “homem desprezível” para Michiel.

Para as pessoas mais atentas, o filme dá uma grande pista sobre o que acontecerá perto do final muito antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando os nazistas fazem uma emboscada para Michiel e Jack na tentativa da dupla em cruzar o rio pela balsa, o espectador se pegunta: “Mas quem poderia ter dedurado os dois? Quem sabia que eles iriam fazer este cruzamente naquele dia e horário?”. Naquele momento, cheguei a duvidar de Erika – ainda que, francamente, eu não percebesse o que lhe motivaria a tal ato. Talvez ela culpasse Jack pela morte de seu pai? De qualquer forma, este é o momento decisivo em que os mais atentos percebem que há algo de errado acontecendo – e que alguém está traindo a confiança de Michiel. Dificilmente seria Schafter porque, afinal, ele não sabia nada dos planos do garoto.

Oorlogswinter estrou em novembro de 2008 na Holanda. A partir de fevereiro deste ano ele entrou na feira de cinema européia e participou, em outubro, dos festivais de Roma e o Pusan. Até o momento, Oorlogswinter ganhou 11 prêmios e foi indicado ainda a outros cinco. Os de maior destaque foram entregues no Festival de Cinema Holandês este ano: melhor ator para Martijn Lakemeier, melhor ator coadjuvante para Raymond Thiry e melhor design de produção. A produção venceu na categoria de melhor filme em três premiações holandesas de menor porte: no Prêmio Rembrandt e no  Golden and Platin Film (que integram a programação do Festival de Cinema Holandês).

Falando em design de produção, é importante comentar que todo o filme, dos figurinos até os objetos escolhidos pela equipe da direção de arte, foi realizado com atenção aos detalhes. Da parte técnica, destaco a direção de fotografia de Guido van Gennep.

Oorlogswinter teria custado 4 milhões de euros para ser produzido. Apenas na Holanda, até abril de 2009, o filme tinha arrecadado pouco mais de 6,1 milhões de euros nas bilheterias. Mesmo sendo caro, para os padrões holandeses, o filme já conseguiu se pagar com a bilheteria apenas de seu próprio território.

Uma curiosidade sobre a produção: como fã do gênero “western spaghetti”, o diretor Martin Koolhoven fez questão de escalar o ator Dan van Husen para viver o papel do comandante nazista Auer. Foi uma forma do diretor homenagear ao ator, conhecido por participar de pouco mais de 20 produções de “western spaghetti”.

Em 2008, Oorlogswinter foi escolhido o melhor filme holandês do ano pela imprensa de seu país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. Até o momento, o Rotten Tomatoes não tem nenhuma crítica publicada sobre ele.

CONCLUSÃO: Baseado em um livro voltado para o público infanto-juvenil, este filme conta a aventura de um garoto de 13 anos para sobreviver à invasão alemão ao seu país, a Holanda. Protegido pelo pai, prefeito da cidade, ele tenta entender o comportamento das pessoas frente aos nazistas. Mais que uma história de guerra contada sob a ótica de uma criança, Oorlogswinter se revela um filme envolvente sobre a perda da inocência e a difícil missão de perceber quem são os “bandidos” ou os “vilões” em uma guerra. Contado de forma sensível, linear e com uma narrativa crescente – por isso, clássica -, este filme tem como um de seus principais trunfos o trabalho de seu protagonista. Envolvente e sensível – ainda que, especialmente no trecho inicial, carregado demais de lugares-comum -, sem dúvida este é um destes filmes que merece ser visto.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: A verdade é que Oorlogswinter tem a cara do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Por várias razões. Primeiro que a Academia é chegada em premiar produções envolvendo crianças. Depois, porque o tema da 2ª Guerra Mundial está muito presente no cinema atual – especialmente naquele feito por países europeus. E em terceiro lugar, Oorlogswinter abriga elementos “edificantes” e uma moral da história que Hollywood aprecia. Francamente, acho que o filme tem grandes chances de se colocar entre os cinco finalistas ao prêmio e, cá entre nós, não seria uma total surpresa se ele ganhasse o prêmio. Claro que ele é muito menos complexo que outras produções que estão na disputa. No fundo, Oorlogswinter reconstrói velhas fórmulas e conceitos envolvendo crianças e a guerra. Ainda assim, ele é um filme que convence e emociona – algo que o Oscar adora.

Frygtelig Lykkelig – Terribly Happy

Os policiais, ultimamente, não estão passando por seus melhores momentos no cinema. Depois dos filmes coreanos Chugyeogja e Madeo, recentemente comentados por aqui no blog, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig conta uma história em que as autoridades responsáveis pela segurança dos cidadãos derrapam em suas funções. Mas desta vez, em lugar da incompetência vista nas outras produções, nos deparamos com o descontrole e com uma rede de situações que vão piorando os primeiros erros do protagonista. Indicado pela Dinamarca para representar o país na próxima disputa por um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Frygtelig Lykkelig é um policial cheio de sarcasmo ambientado em uma comunidade do interior, onde predomina a “lei” alternativa de seus habitantes.

A HISTÓRIA: A lenda sobre uma vaca que afundou na lama e desapareceu ilustra as características do vilarejo de Skarrild, situado no interior da Dinamarca, local onde o policial Robert Hansen (Jakob Cedergren) vai parar. Levado pelo chefe de polícia de Tonder (Jens Jorn Spottag), Robert é logo recepcionado pelo Dr. Zerleng (Lars Brygmann), médico forasteiro que se adaptou ao sistema dos habitantes do pequeno vilarejo e que tenta dar alguns “conselhos” para o seu novo morador. Pouco depois, Robert conhece a Ingerlise (Lene Maria Christensen), uma mulher casada que tenta se divorciar do marido, o violento e briguento Jorgen Buhl (Kim Bodnia). Sem perceber, Robert é envolvido em um triângulo amoroso e em uma situação de prestação de contas do vilarejo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frygtelig Lykkelig): O conto ilustrativo que abre o filme do diretor Henrik Ruben Genz revela uma pequena parte de toda a ironia do texto original, a obra homônima de Erling Jepsen. Seu livro, Frygtelig Lykkelig, aparentemente teve menos êxito que o filme. Genz, ao lado de Dunja Gry Jensen, adaptou o livro para o cinema e conseguiram, com seu trabalho, um resultado irregular.

Na maior parte do tempo, Frygtelig Lykkelig é um filme intricado para o seu protagonista, com um texto que flutua sempre entre o terrível e o engraçado mas que, ainda assim, se revela bastante morno. Contada de forma linear, esta história explora as peculariedades de uma comunidade interiorana da mesma forma com que revela um conto moral. Nele, é defendida a idéia de que a prática de um erro e o encobrimento deste podem tornar a vida de uma pessoa cada vez mais complicada, de uma forma crescente como a de uma bola de neve que desliza por uma encosta.

O melhor da produção, sem dúvida, é a forma com que o roteiro explora as “manias” do vilarejo para onde Robert é transferido. Todas as pessoas que moram naquele local sabem de cor os códigos de conduta e jogam seus papéis com perfeição. A pessoa que passasse um dia em Skarrild já saberia que tipo de ocorrências ocorriam ali, quem poderia ser achado em que local e as razões que faziam a filha do casal Buhl, Dorthe (Mathilde Maack) levar um carrinho de bebê para passear em muitas noites. Mais do que em outras partes, em cidades pequenas como a explorada por esta história os hábitos repetidos cotidianamente são a regra local.

Depois do conto sobre a vaca e seu bezerro demoníaco, o espectador percebe que o policial esconde algum segredo importante em seu passado. Ele participou de algum evento trágico em Copenhagem, onde morava e trabalhava anteriormente. Esse segredo será usado contra ele no ambiente cercados de regras invisíveis do vilarejo. Bonito, jovem e “urbano”, Robert não se adapta ao local e, ao mesmo tempo em que tenta conviver com seu passado, ele deve entender como funciona a pequena cidade para a qual ele foi designado. Mas, pobre Robert, ele não tem muito tempo para pensar e agir racionalmente.

Não sei vocês, mas me irritou um pouco a “inocência” do protagonista. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, ele cai como um patinho nos jogos de Ingerlise e de outros moradores locais. Claro que o filme não tem espaço para nos contar como era Robert antes de sua aparição em cena. Não sabemos se ele era um bom policial ou um desastre em sua profissão. Segundo este texto (em dinamarquês, o qual eu traduzi no Google Tradutor para entender algo) sobre a obra original, escrita por Erling Jepsen, Robert era sim um desastre. Destes homens que não conseguem viver muito longe da barra da saia da mãe e que, ao ser exposto a situações de estresse em sua profissão, chegam a vomitar pelo nervosismo. Sendo assim, se justifica a falta de preparo para o que irá acontecer no vilarejo.

Como tantas outras histórias do gênero, a situação de Robert vai piorando continuamente, pouco a pouco. Os habitantes de Skarrild, aparentemente “liderados” pelo médico, pelo padre e pelo comerciante local, tentam ensinar-lhe seus métodos. Robert faz alguns esboços para resistir, para atuar dentro da lei, mas quando ele percebe, está totalmente envolvido na história de Ingerlise. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para se proteger, lentamente Robert vai se adequando ao sistema de vida local e, como sugere a melhor sequência do filme, a que envolve uma partida de cartas no final, o policial acaba vendendo sua alma ao “diabo” (representado pelo trio de jogadores). A cena em que Robert percebe que ele não passou de uma engrenagem no jogo dos outros, que ele caiu como um patinho em seus planos, é o melhor de Frygtelig Lykkelig. Até chegarmos a este ponto, o espectador deve aceitar algumas sequências pouco críveis (como a da morte de Ingerlise) e a uma produção correta, mas nada excepcional.

A lição moral de Frygtelig Lykkelig também poderia ser menos evidente. Afinal, fica escancarada a idéia do filme de que uma pessoa, para não “vender sua alma ao diabo”, não deve nunca sucumbir ao primeiro ato de maldade. Quando Robert se deixa levar por seu primeiro erro e, sem conseguir encontrar uma saída “adequada” para ele, assume uma mentira após a outra, fica impossível encontrar alguma saída para o personagem. Pouco a pouco, revela esta história, uma pessoa que sucumbe ao mal vai aceitando os atos mais absurdos (e, muitas vezes, participa deles). A reflexão sobre este tema não deixa de ser interessante, mas no roteiro de Frygtelig Lykkelig ela se apresenta de forma maniqueísta. Na vida real, normalmente, as escolhas não levam a resultados tão matemáticos.

Ainda sobre a parte interessante do filme, não deixa de ter uma grande dose de verdade toda aquela ironia com o “modo de ser” do povo do lugarejo. Em cidades pequenas, nas quais “todos se conhecem”, a vida geralmente se restringe a alguma regras bem estabelecidas e seguidas por moradores que desempenham com perfeição os seus papéis no grupo. Sempre haverá espaço para o “encrenqueiro”, para o “louco”, para o “líder”, e assim por diante. Nestas relações, claro, haverá espaço para gestos de bondade, de auxílio aos demais, mas também para bizarrices e para resoluções “coletivas” dos problemas locais. O retrato de uma comunidade assim do interior da Dinamarca é o que Frygtelig Lykkelig tem de melhor para oferecer.

NOTA: 8,1.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo no início, percebemos duas grandes qualidades deste filme: a sua direção de fotografia e trilha sonora. Elas funcionam em duo com perfeição durante toda a produção. Ajuda muito também, para o caso da primeira, a “beleza rural” das paisagens dinarmarquesas. O diretor de fotografia Jorgen Johansson imprime um tom azulado/acizentado durante toda a produção, o que ressalta o tom “obscuro” da história. A trilha sonora de Kaare Bjerko, presente em momentos muito pontuais, aposta em guitarras e em uma levada moderna.

O elenco de Frygtelig Lykkelig funciona bem. Além dos atores principais já citados, vale comentar o trabalho de Anders Hove como Kobmand Moos, o comerciante local que se diverte prendendo garotos que tentam furtar algo de seu estabelecimento; Henrik Lykkegaard como o padre que aparece pouco, mas que visivelmente contribui com o tom moralista do vilarejo; Bodil Jorgensen como a mulher do bar, onde as pessoas se encontram para “confabular” sobre a vida pública local (e onde ocorre o duelo etílico entre Robert e Jorgen); e Peter Hesse Overgaard como Helmuth, um dos líderes do grupo que sempre está no bar e que “suja as mãos” para resolver os conflitos do vilarejo.

Frygtelig Lykkelig estreou em julho de 2008 no Festival de Karlovy Vary. Daquele dia para cá, o filme participou ainda de pelo menos outros seis festivais. Nesta sua trajetória, ele acumulou 19 prêmios e outras 10 indicações. Entre os prêmios que levou para casa estão o de melhor filme, melhor ator para Jakob Cedergren, melhor atriz para Lene Maria Christensen, melhor ator coadjuvante para Kim Bodnia, melhor direção de fotografia e um prêmio especial para Kaare Bjerko no Prêmio Bodil, entregue em Copenhagem, na Dinamarca; melhor roteiro nos festivais internacionais de cinema de Tróia e de Valladolid; e os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor roteiro e melhor música (para Riders of the Freeway, de Kira Skov) no Robert Festival, o “Oscar do cinema dinamarquês”.

Praticamente nada comentado pela crítica internacional – o site Rotten Tomatoes, por exemplo, não abriga nenhuma crítica para o filme – Frygtelig Lykkelig registra a nota 7 pela votação dos usuários do site IMDb.

Li em algum lugar na internet – infelizmente não lembro em que site – uma comparação entre este filme e Fargo, dos irmãos Coen. A comparação tem sentido. Frygtelig Lykkelig lembra um pouco ao excelente Fargo, especialmente pelo humor “macabro” (e/ou trágico) de sua história. Mas, para o meu gosto, ele fica muito abaixo da premiada produção dos Coen.

O cartaz de Frygtelig Lykkelig sugere que o filme caminha pelo terreno das produções de suspense e/ou terror. Ainda que tenha algum crime e um clima um pouco macabro, esta produção dinamarquesa não chega nem perto do segmento de terror. Não custa alertar aos fãs do gênero que podem se interessar pelo filme graças ao seu cartaz.

CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre a tentativa de um policial em reconstruir a sua vida e que, ao se deparar com as regras muito peculiares de um pequeno vilarejo, se vê envolvido em uma intricada rede de interesses e disputas. Com uma direção de fotografia muito bonita e um roteiro que segura o interesse do espectador, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig se mostra um entretenimento de qualidade. Mesclando em uma proporção de dois para um a ironia/sátira com crimes e um clima mórbido, este filme trata de traições, adultério e violência doméstica como panos de fundo para uma história sobre adaptação e comprometimento de um indivíduo em uma comunidade estranha e com seus próprios atos.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Principal premiado em dois dos festivais mais importantes da Dinamarca, Frygtelig Lykkelig se credenciou para representar o país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2010. Mesmo tendo recebido tantos prêmios, não vejo nesta produção a qualidade e a força necessárias para que ela esteja entre as finalistas da mais conhecida premiação norte-americana. Seria um milagre Frygtelig Lykkelig aparecer na lista dos cinco finalistas – especialmente pelo fato de que a imprensa internacional praticamente ignorou a sua existência. De qualquer forma, mesmo que ele chegue até esta cobiçada lista de indicados, não acredito que ele possa ganhar de Un Prophète ou Das Weisse Band.