Le Scaphandre et le Papillon – O Escafandro e a Borboleta

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A memória e a imaginação. Estas são as únicas coisas que uma pessoa não perde quando continua vivendo, pensando, ainda que enclausurada em si mesma. E isso não é uma metáfora. Falo de estar enclausurada em si mesma literalmente. Lendo assim parece não significar muito, mas pensando a respeito, isso é maravilhoso. A descoberta que Jean-Dominique Bauby faz em determinado momento de sua vida deveria servir de farol para os demais seres viventes, como eu e você. Fiquei pensando sobre isso e sobre tudo que nos conta o filme Le Scaphandre et le Papillon e fiquei arrepiada. Eu diria que, ao lado de Into the Wild, este é o filme que mais está me fazendo pensar nos últimos tempos. E isso porque acabo de assistí-lo, ainda estou “imersa” em suas imagens. Impressionante.

A HISTÓRIA: O filme começa com um homem acordando em uma cama de hospital. Aos poucos ele vai enxergando as pessoas e o ambiente que o circunda, escuta a voz de uma enfermeira e de um outro homem, que pede para que ela chame ao Dr. Cocheton (Gérard Watkins). Descobrimos que o paciente se chama Mr. Bauby – depois saberemos seu nome completo, Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), e sua profissão… editor da Revista Elle francesa. O médico que entra no quarto explica que Bauby está no Hospital Naval de Berck-Sur-Mer, na costa de Calais, e que foi transferido para lá de Paris. Ele sofreu um derrame e ficou em coma por quase três semanas. Logo ele descobre, através do Dr. Lepage (Patrick Chesnais), que sofre de uma condição muito rara: a Síndrome do Encarceramento. Em outras palavras, ele está paralisado dos pés até a cabeça e não consegue falar. Aos poucos, contudo, ele vai conseguindo progredir com a ajuda da fonoaudióloga Henriette Durand (Marie-Josée Croze) e da fisioterapeuta Marie Lopez (Olatz López Garmendia).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Le Scaphandre et le Papillon): Enquanto assistia ao filme, me lembrei muito – e acho isso inevitável – de Mar Adentro. O filme estrelado por Javier Bardem e dirigido por Alejandro Amenábar é uma ode à liberdade individual, à escolha de uma pessoa em seguir vivendo – e em que condições ela faz isso. Le Scaphandre et le Papillon também é isso, mas o filme vai além. Ele consegue ser algo parecido a Mar Adentro e, ao mesmo tempo, o seu inverso. Parecido enquanto mostra uma história de privação total de movimentos, enquanto conta a tragédia de dois homens apaixonados pela vida. Mas as semelhanças terminam por aí. Porque Le Scaphandre et le Papillon mostra uma decisão totalmente contrária a de Ramón Sampedro, já que Jean-Dominique Bauby decide pela vida e não pela morte. Dentro de seu “escafandro” ele descobre uma outra maneira de sentir e refletir sobre a vida. E mais: decide mergulhar nela, aproveitá-la com ironia, sarcasmo e deixando um testemunho belíssimo e comovente. Esse testemunho foi publicado primeiro em livro e, depois, virou este filme igualmente belo e impressionante – o curioso é que Sampedro também publicou um livro sobre sua experiência e seu ponto de vida sobre continuar ou não a viver.

A primeira característica que me chamou a atenção de Le Scaphandre et le Papillon foi a narrativa em primeiríssima pessoa no início. Literalmente nos colocamos por “detrás” dos olhos do protagonista, escutando o que seus pensamentos lhe diziam enquanto sua voz não saia, assim como presenciando tudo que lhe ocorria ao redor. Impressionante, nesta parte do filme, a direção de fotografia extremamente técnica e bem-feita de Janusz Kaminski (este polonês talentosíssimo que trabalhou em muitos filmes com Steven Spielberg) e o trabalho do diretor Julian Schnabel. Só bem depois é que a câmera sai da posição de “olhos-do-protagonista” para mostrar outros ângulos da realidade – e transportar-se também no tempo e no espaço. Muito interessante esta narrativa – aliás, o roteiro de Ronald Harwood baseada na obra homônima de Bauby é outro ponto forte do filme.

Além da narrativa em primeira pessoa, o filme ganha muitos pontos por seu elenco afinado e regular. Ninguém se desponta muito, mas todos fazem um trabalho inspirado. Além de Mathieu Amalric como Bauby, destaco Marie-Josée Croze e Olatz López Garmendia como as belíssimas e competentes médicas Henriette e Marie, respectivamente. Merece um capítulo a parte a interpretação de Emmanuelle Seigner como Céline Desmoulins, a ex-mulher de Bauby e mãe de seus três filhos. Ela está estupenda em seu papel, como uma mulher devotada ao homem que amou (e continua amando, ainda que de maneira distinta), que tenta controlar seus sentimentos mas que, ainda assim, demonstra os ciúmes que tem de Inès (Agathe de la Fontaine), a mulher que se tornou a paixão na vida de Bauby. Muito interessante a complexidade de Céline e, ao mesmo tempo, sua simplicidade. Merece uma menção especial também a comovente interpretação de Max von Sydow como Papinou, o pai um tanto “esclerosado” de Bauby.

Além de contar uma nova maneira de encarar a vida e, ainda assim, de sentí-la plenamente, Le Scaphandre et le Papillon é como uma minibiografia de Bauby, que conta seus amores – além de Céline e Inès, também o de Joséphine (Marina Hands) -, sua relação com a família – incluindo seus três filhos, Théophile (Théo Sampaio), Céleste (Fiorella Campanella) e Hortense (Talina Boyaci) – e com amigos, como Laurent (Isaach De Bankolé). A interpretação de Anne Consigny como Claude Mendibil, a mulher que possibilita que o livro de Bauby seja publicado, interpretando o que ele diz através de suas piscadas, também merece destaque. Ela consegue equilibrar no tom exato dedicação e apaixonamento pelo que ele consegue fazer, por seu testemunho de vida e coragem de enfrentar as limitações do que lhe aconteceu.

O interessante da história é que o que acontece com Bauby é a privação extrema da liberdade. Afinal, ele não pode se mexer e nem falar, não pode ir para onde tem vontade, nem tocar as pessoas que ama, nem sentir nada com os dedos ou a ponta dos pés. Consegue apenas raciocinar e, mais tarde, expressar o que sente e pensa através dos olhos. Apaixonado pela vida, ele prefere continuar respirando e existindo desta maneira, fazendo uso principalmente da sua imaginação e da sua memória, para continuar curtindo cada minuto que tem a seu dispor. É um exemplo maravilhoso. A memória e a imaginação, que instrumentos incríveis. Além deles, eu adicionaria ao exemplo de Bauby algumas doses de sarcasmo e de senso de humor. Acho que só através desta última ferramenta ele consegue suportar a sua condição após o derrame.

Como disse antes, Le Scaphandre et le Papillon é o contrário de Mar Adentro. Lembro que quando vi o filme de Amenábar, adorei a história. Especialmente porque ela tratou com “distanciamento” e, ao mesmo tempo, uma aproximação inevitável o drama de Sampedro que, diferente de Bauby, podia falar. Ele decidiu que preferia morrer a continuar vivendo em sua condição de paralisia. Gostei do filme porque ele trata com respeito a decisão de uma pessoa em querer morrer – afinal, se alguém não suporta a vida como está tendo, por que não pode decidir terminar com ela? Sei que sempre se deve ter esperança e que a vida está cheia de boas surpresas, mas quem pode condenar alguém que decidiu que prefere que tudo termine? Eu não posso julgar uma pessoa como Sampedro. Ainda assim, devo admitir, que gostei muito mais do exemplo de Bauby, até porque ele mostra que até na pior condição humana imaginável é possível sacar proveito, aprendizado.

Sobre a memória e a imaginação… realmente, acho que por pior que esteja a vida de alguém ou por maior que seja a sua privação de liberdade – de escolha, por exemplo -, sempre lhe resta a capacidade de lembrar do passado com orgulho, com fantasia. Sempre é bom olhar pra trás e ver tudo que uma pessoa já caminhou para chegar até determinado lugar. Recordar todas as dificuldades que passou e as quais conseguiu superar, lembrar de todos os amores e pessoas especiais que fizeram a sua vida até ali… lembrar é importante para se saber a pessoa que somos e o porquê de sermos desta maneira. E a imaginação… até a memória fica interessante com um pouco de imaginação, de cores absurdas. E a vida atual também. Fantasiar faz bem, imaginar uma realidade distinta abre horizontes. Memória e imaginação podem nos libertar, nos prender, nos firmar no chão ou nos dar asas. Tudo depende do uso que se faz das duas.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Devo comentar que o filme talvez não caia no gosto popular e nem se mostre interessante para todos. Digo isso porque ele é, até uma grande parte e em um certo sentido, bem experimental. Especialmente pela narrativa em primeira pessoa que está em grande parte da produção. Sendo assim, são frequentes as imagens sem foco, os ângulos de câmera que mudam conforme o “humor” do protagonista, dentre outros jogos de imagem que não obedece ao padrão de Hollywood. O que, para mim, é uma qualidade – claro! Quem não sofrer de vertigens e nem passar “mal” com algumas cenas – como a do olho sendo costurado – pode gostar do filme.

Algo de bom aconteceu no lançamento desta produção francesa mundo afora: o título original foi preservado. Sendo assim, nos Estados Unidos e nos demais países de língua inglesa, o filme recebeu o nome de The Diving Bell and the Butterfly, enquanto no Brasil ele recebeu o nome de O Escafandro e a Borboleta.

O filme ganhou, até agora, 26 prêmios, com destaque para o de melhor roteiro no BAFTA (versão inglesa do Oscar); melhor diretor no Festival de Cannes (onde o diretor de fotografia Janusz Kaminski recebeu também, de forma muito merecida, um importante prêmio técnico); melhor diretor e melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro; entre outros. Além destes prêmios, Le Scaphandre et le Papillon foi indicado a outros 30.

Sei que os filmes são muito diferentes – em temática e estilo -, mas comparado com 4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile, Le Scaphandre et le Papillon me parece um filme muito mais “inovador”, ousado e interessante. O mesmo digo de Persepolis – que me pareceu mais interessante que a obra de Cristian Mungiu -, ainda que o filme ganhador da Palma de Ouro seja muito bom, é claro. Mas gostos são gostos…

Voltando a Le Scaphandre et le Papillon… o filme de Schnabel registra a nota 8,3 no site IMDb, assim como acumula 129 críticas positivas e apenas 9 negativas no site Rotten Tomatoes – agradou mais aos críticos que ao público.

E por falar em público, o filme arrecadou, até 10 de fevereiro, pouco mais de US$ 4,3 milhões nos Estados Unidos. Pouco, levando em conta que ele estava presente em 213 salas de cinema – pelo menos nesta última semana, quando conseguiu pouco mais de US$ 433 mil em todas estas salas.

Julian Schnabel não é um diretor muito prolífero. Tanto que desde a sua estréia na direção em 1996 com Basquiat – um filme delicioso! -, ele só havia dirigido um filme antes deste Le Scaphandre et le Papillon: Before Night Falls, outro filme interesantíssimo com Javier Bardem e datado do ano 2000. Ou seja: em 11 anos ele só fez dois filmes. Mas os dois de qualidade, diga-se.

Este filme é uma co-produção da França e dos Estados Unidos.

PALPITE PARA O OSCAR: Le Scaphandre et le Papillon foi indicado aos prêmios de Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição. Sinceramente? Ainda que ele mereça ganhar prêmios nestas três categorias, acho que na verdade ele sairá de “mãos abanando” deste Oscar 2008. Digo isso porque acho que apenas as indicações do filme francês já serão consideradas “uma vitória” pelos membros da Academia. Duvido muito que eles deixem de dar o Oscar de direção para os irmãos Coen ou para Paul Thomas Anderson, todos “na crista da onda”, para premiar o menos conhecido e menos “produtivo” nova-iorquino Julian Schnabel. Também duvido muito que vão premiar o roteiro deste filme em lugar de No Country for Old Men, Atonement ou There Will Be Blood. A verdade é que em cada categoria em que Le Scaphandre et le Papillon concorre este ano existe um outro “medalhão” interessante para a indústria que está correndo na frente.

CONCLUSÃO: Autobiografia do editor de moda Jean-Dominique Bauby a partir do momento em que ele fica totalmente paralisado após um derrame. Interessante narrativa de um homem “sem comunicação” tradicional com o meio exterior em primeira pessoa – ainda que as “inovações” de câmera podem deixar alguns com vertigem. Uma antítese de Mar Adentro, um belo retrato da possibilidade humana de superação mesmo com a maior das adversidades.

P.S., I Love You – P.S. Eu Te Amo

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Eu juro que foi totalmente sem querer o lance de escrever esse comentário justo hoje, no Valentine´s Day (ou Dia dos Namorados em muitos países mundo afora, exceto pelo Brasil, que o celebra em 12 de junho). Até porque eu sempre me “perco” nesta data… Geralmente não lembro dela até que alguém me faça recordar. hahahahahahaha. Bem, tudo isso para dizer que devo alertar aos possíveis casais que querem assistir a esse filme porque ele parece romântico e tal. Ok, ele é um filme “água-com-açúcar” e que tenta ser um lindo, mas um lindo mesmo filme sobre o amor. Mas minha opinião a respeito é bem outra. Achei P.S., I Love You um filme chatíssimo, destes que tu tens que fazer um esforço para terminar de ver. Eu poderia fazer uma lista de pelo menos outras 30 histórias de amor no cinema melhor contadas que esta. De verdade, se puderes evitar esse filme, o evite. Para ser beeeeeeeeeem franca, ele só vale a pena para ver gente bonita. No caso das mulheres, para ver os gostosíssimos Gerard Butler (ainda que ele pareça um retardado no filme) e Jeffrey Dean Morgan. E, no caso dos homens, para ver Hilary Swank com roupas íntimas… Mas nada mais. Fora a curiosidade por partes anatômicas das pessoas, o filme não vale o seu tempo gasto. E já que para mim essa curiosidade é totalmente supérflua, o filme realmente não vale a pena.

A HISTÓRIA: O casal Holly (Hilary Swank) e Gerry Kennedy (Gerard Butler) chegam em casa brigando. Em mais essa discussão se percebe a carência de Holly por se sentir segura – ela tem no passado o histórico do abandono do pai – e a luta de Gerry de tornar o casamento deles possível. No caso específico da noite que dá início ao filme, eles brigam por algo que Gerry falou para a mãe de Holly, Patricia (Kathy Bates) e pela indecisão deles de que rumo dar para suas vidas. Pouco depois acompanhamos como Holly deve encarar a separação de Gerry com a ajuda das amigas Denise Hennessey (Lisa Kudrow) e Sharon McCarthy (Gina Gershon), do novo amigo Daniel Connelly (Harry Connick Jr.) e com, para surpresa de todos, uma ajuda do próprio Gerry.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a P.S., I Love You): A verdade sobre esse filme é a seguinte: se você consegue aguentar os primeiros 12 minutos dele, ou seja, aquela chata e irritante e infantil briga do casal da história antes dos créditos iniciais do filme, você é capaz de assistí-lo até o final. Não lembro a última vez que eu vi um começo de filme tão irritante. O pior é que depois o filme não melhora muito mas, pelo menos, não piora. hahahahahahahahaha. A cena do streap-tease de Gerry também é deprimente. Não sei, talvez tem gente que ache graça, mas eu achei ridícula (e antes que alguém me diga que a idéia era essa, quero comentar que existe diferença entre você fazer algo querendo ser ridículo e você realmente conseguir ser ridículo querendo fazer algo ridículo – a segunda opção é o caso do filme). Fora estes dois pontos e quase todas as aparições da personagem de Lisa Kudrow, o filme até que não te dá muitas ânsias de vômito. hahahahahahaha. Ok, eu sei que fui meio chata agora, mas tudo bem.

Mas vejamos com um pouco mais de atenção a sequencia inicial do filme. Holly caminha para casa visivelmente irritada, enquanto Gerry corre atrás em seu encalço. Quando passam da porta do prédio para dentro, ele começa a querer saber o que deixou ela tão irritada – usando a velha tática de dizer que sim, ela deve estar certa em estar assim porque ele “deve” ter feito algo errado. Os 12 primeiros minutos do filme são isso, uma briga de casal chata. Ela diz que não gostou do que ele falou para a mãe sobre ter filhos, porque ela não sabe para onde vai a relação deles, porque ele pode querer ir embora e tal… ele joga na cara dela que ela não sabe ter estabilidade, que não fica nos trabalhos dela e nem se sente confortável estando casada – algo, em teoria, para “toda a vida”. Ok, percebemos que ela é carente, que ela teve algum problema com o pai dela. Também percebemos que ele a conhece muito bem, a ponto de fazer o seu joguinho… Para resumir: chato. Não achei nem graça e nem comovente essa introdução. Achei um tédio, na verdade.

Bem, depois disto, os créditos do filme. E depois… (AVISO: realmente não continue a ler o texto se você ainda não viu o filme – depois não diz que eu não avisei)… Gerry morre. Ok, daí começa toda uma história de Holly não cair na realidade e nem querer saber da vida. Até que Gerry volta a fazer parte de sua história, agora através de cartas e demais surpresas. Hummmmm… acho que já vi isso em algum lugar. A idéia de que a pessoa que morreu deixa uma mensagem final para o ser amado não é nada original. Muitos filmes já trataram disso. Só que P.S., I Love You leva esta idéia ao extremo, transformando Holly praticamente em uma marionete das idéias de Gerry. Ok que para ela é difícil superar a perda do marido – ainda que eu fique em dúvida sobre o quanto ela realmente o amava, porque lá pelas tantas no filme parece mais que ele era quase “algo para ela se agarrar” na vida, mais do que um amor legítimo. Ok que para ela é difícil administrar o seu complexo de abandono e a sua carência afetiva. Mas o roteiro do diretor Richard LaGravenese e de Steven Rogers, baseado no livro de Cecelia Ahern, exagera na dose. Realmente meio difícil de acreditar que uma mulher adulta seja tão carente a ponto de se “deixar levar” mais pelas mensagens e surpresas do marido morto – ao qual ela não dava tantos ouvidos quando estava vivo – do que pelas pessoas vivas que a rodeiam, como suas amigas ou sua mãe.

Enfim, para mim o filme é um desfile de situações óbvias e pouco críveis. Assim como uma coletânea de idéias já utilizadas em outros filmes – com melhor resultado. E dentro das caricaturas e das obviedades, merece um capítulo a parte a personagem de Denise Hennessey, interpretada por Lisa Kudrow. No fundo eu tenho pena dessa atriz. Parece que ela eternamente terá que interpretar papéis de mulheres meio “descontroladas”, “exóticas” ou “descerebradas” – um legado que sua Phoebe Buffay, de Friends, parece ter-lhe deixado. Em P.S., I Love You ela vive uma mulher “feminista” ao extremo, ou melhor, uma caricatura especialmente exagerada de uma feminista moderna. Tanto que a cena em que ela testa os possíveis “ficantes” é de chorar. Muito mecânica, muito irreal. Talvez alguém ache graça. Eu só achei ridículo.

No fim das contas, o caminho de Holly vai se abrindo como um “conto-de-fadas”, com ela seguindo os conselhos de seu amor morto para que consiga achar o seu caminho. Assim até parece bonito, mas o resultado é medíocre. Para não dizer que nada vale a pena no filme, como comentei antes, ele pode ser visto como uma boa oportunidade de ver o físico e a interpretação (ainda que está último meio capenga) dos atores Gerard Butler e Jeffrey Dean Morgan. O primeiro me fascinou com o filme 300, e o segundo com uma participação em Grey´s Anatomy. O problema é que os dois, com um roteiro tão ruim nas mãos, acabam ficando medianos também. Coitados. Hilary Swank, tadinha, escolheu mal ter entrado nesse filme… e pensar que um dia ela já trabalhou com Clint Eastwood e fez Million Dollar Baby… nossa, parece ser outra realidade e/ou outra pessoa. No fundo o filme serve para algo: para demonstrar, mais uma vez, que bons atores também erram em se meter em alguns filmes…

NOTA: 4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estava em dúvida entre dar um 5 ou um 4 para o filme. Mas eu acho, realmente, que ele merece este 4 – e só não dou menos em respeito aos atores principais do elenco.

O diretor Richard LaGravenese dirigiu, também em 2007, o filme Freedom Writers. Ainda não o assisti – e depois de P.S., I Love You eu fico um pouco com o “pé atrás” em vê-lo, na verdade -, mas o curioso é que é outra produção encabeçada por Hilary Swank e com Patrick Dempsey no elenco. Antes destes dois filmes, ele tinha dirigido, em 2003, ao documentário A Decade Under the Influence, examinando a produção cinematográfica nos Estados Unidos nos anos 70. Sobre esse filme eu fiquei mais interessada. E antes deste, LaGravenese havia dirigido a Living Out Loud (ou Volta por Cima), sua estréia na direção em 1998.

No site IMDb o filme registra a nota 6,9, enquanto no Rotten Tomatoes ele abriga 68 críticas negativas e 18 positivas. Ainda fico surpresa que ele tenha conseguido 18 positivas. 🙂

Apenas nos Estados Unidos o filme faturou quase US$ 52,5 milhões. Realmente deve ter sido uma alegria para os produtores – levando em conta a qualidade do filme.

Gerard Butler poderá ser visto, este ano, estrelando Nim´s Island, uma aventura com Jodie Foster no elenco. Ele também estrela o novo filme de Guy Ritchie, RocknRolla. Acho que vale a pena dar a ele mais algumas chances… hehehehehehehe. O interessante Jeffrey Dean Morgan poderá ser visto, em breve, no filme The Accidental Husband – que tem toda a pinta para ser outra porcaria. No filme ele faz um “triângulo amoroso” com Uma Thurman e Colin Firth. Por outro lado, ele está no elenco de Watchmen, a adaptação para o cinema dos quadrinhos arrepiantes e maravilhosos de Alan Moore e Dave Gibbons. No filme ele viverá Edward Blake/O Comediante. Esse filme promete!

CONCLUSÃO: Um filme que pretende ser uma bela história de amor com vários toques irônicos e que, no fundo, se demonstra uma grande chatice. Totalmente dispensável. Só vale a pena para quem tem interesse de ver a Gerard Butler, Jeffrey Dean Morgan e Hilary Swank em cenas de pouca ou nenhuma roupa. hehehehehehehehe

There Will Be Blood – Sangue Negro

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Tem filmes que nascem épicos. No sentido não apenas do tema, mas do tipo de produção, pela qualidade e pela “idéia” de onde querem chegar. There Will Be Blood é um destes exemplos. Ao terminar de assistir ao filme, lembrei de algo que tinha lido antes de vê-lo: que o filme de Paul Thomas Anderson seria um Citizen Kane (Cidadão Kane) moderno. Realmente, a saga do magnata da imprensa retratado com perfeição pelo diretor Orson Welles parece se repetir aqui na pele do magnata do petróleo. Mas as comparações terminam por aí, porque o filme de Paul Thomas Anderson não consegue chegar nem perto da ousadia técnica e de estilo que Orson Welles conseguiu em seu filme de 1941. Ainda assim, There Will Be Blood é um grande filme, especialmente pela marcante e inesquecível interpretação de Daniel Day-Lewis como o ambicioso, trabalhador e enlouquecido Daniel Plainview. Mas ainda que o ator seja o grande nome do filme, existem outros elementos que fazem dele um épico: a direção de fotografia, a trilha sonora, o roteiro cuidadosamente denso e bem trabalhado e, claro, um grupo de atores que segura o espectador do início ao final – com especial destaque para Paul Dano e Dillon Freasier. O filme é um dos favoritos ao Oscar. E o merece ser. Ainda assim, a disputa está acirrada entre ele e No Country for Old Men – com uma certa vantagem para o último, na minha opinião.

A HISTÓRIA: O filme começa com Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) dando duro em uma mina atrás de prata e ouro em 1898. Depois de conseguir encontrar alguma prata, ele sofre um acidente grave. Mas vencendo todas as dificuldades, ele segue para ganhar o seu dinheiro. Poucos anos depois, em 1902, ele lidera um grupo de homens em um poço em busca de petróleo. Ambicioso, Plainview está em plena ascensão. Ele é um caçador de locais em que se pode extrair o precioso líquido negro. Conforme vai encontrando locais para a extração de petróleo, ele vai se tornando um homem conhecido. Depois de negociar com um grupo de proprietários de terra, acompanhado do filho e “sócio” H.W. Plainview (o ótimo garoto Dillon Freasier), ele recebe a visita de Paul Sunday (Paul Dano), o filho do dono de uma fazenda na cidade de Little Boston. Paul pede 500 dólares em troca de informar onde Plainview pode encontrar uma grande fonte de petróleo a baixo custo. Ele comenta que na propriedade de sua família o petróleo “brota da terra” e que seu pai lhe venderia barato as terras, já que ali não se dá para plantar nada e que eles sobrevivem apenas de criar cabras. Daniel viaja com H.W. para o local e realmente encontra o petróleo, tendo que suportar, contudo, uma certa “concorrência” entre a população local com o “messiânico” Eli Sunday (também interpretado por Paul Dano), o filho do dono da propriedade, Abel Sunday (David Willis), que quer construir uma igreja própria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a There Will Be Blood): Como eu disse na introdução deste comentário, There Will Be Blood quer ser um épico. E consegue sê-lo. Ainda assim, ele não pode ser comparado a Citizen Kane. Ele não chega a ter nem a qualidade e nem a ousadia técnica que, na sua época, o filme de Orson Welles teve. Dito isso, posso afirmar que se trata de um grande filme.

Primeira curiosidade: o filme começa arrebatador, com imagens cuidadosamente planejadas e uma trilha sonora marcadamente planejada, e segue assim, apenas com imagens e música, sem falas, por pelo menos 10 minutos. Sim, o primeiro diálogo só aparece depois. Interessante. E logo a primeira fala, claro, é a do nosso “herói” e “anti-herói” ao mesmo tempo, Daniel Plainview. O discurso dele para convencer uma comunidade de fazendeiros a explorar uma possível vertente de petróleo já diz muito do que este homem é ou é capaz de fazer. Seu discurso, baseado na idéia de “família”, comentando que seu filho H.W. Plainview é seu sócio e participa de tudo que ele faz – detalhe: o garoto é uma criança! – já demonstra que tipo de idéia ele quer “vender”. Com o tempo se percebe que isso é apenas mais um discurso cínico que ele utiliza para chegar onde quer.

Aliás, sua obstinação por tornar-se rico é impressionante. A ambição é um dos temas principais do filme. Mas não é apenas Daniel Plainview que possui ambição. O seu por um tempo “rival” e, depois, “aliado”, Eli Sunday também é motivado por uma ambição gigantesca. No caso de Daniel, o que lhe move é a vontade de ser rico, poderoso, invencível – ainda que ele tenha um certo “mérito” nisso, porque sempre deu duro para chegar onde quis (pena que apenas parte foi mérito, e o resto, manipulação de pessoas). Enquanto pelo lado de Eli a ambição se percebe no desejo de ser inquestionável, de ser um líder espiritual que move as pessoas cegamente. A moeda de Eli é a fé alheia, de pessoas simples e crentes. Os dois se utilizam de discursos muito bem montados – ainda que rivais – para mover “rebanhos” e para se tornarem poderosos. O interessante é que Eli, a princípio, parece querer apenas atenção, parece apenas ser “importante”. Mas depois se percebe que ele também quer poder e dinheiro. A corrupção humana também é um tema forte no filme, assim como a disputa entre as forças do dinheiro e da religião.

Como falei antes também – adoro me repetir! -, Daniel Day-Lewis é o nome do filme. Ele realmente está genial. Mas existem outros nomes importantes na produção. Me impressionou o trabalho do jovem Paul Dano. Este estadunidense nascido na cidade de Wilton, no Estado de Connecticut, e com atualmente 23 anos, faz um trabalho perfeito como os irmãos gêmeos Paul e Eli. Aliás, por algum tempo o filme nos deixa na dúvida se de verdade se trata de duas pessoas diferentes ou de um único garoto dissimulado que se fez passar por duas pessoas. Depois se acaba sabendo que se trata de dois irmãos realmente. Outro ator que me impressionou por sua atuação foi o garoto Dillon Freasier. Ele interpreta o filho do ambicioso Daniel Plainview na época mais marcante e definitória do filme. Por uma boa parte da história ele não tem falas, e justamente aí que ele se sai extremamente bem. Além destes atores, destaco a participação, ainda que pequena do ator Ciarán Hinds como Fletcher Hamilton, o amigo e ajudante de Daniel Plainview.

Nos quesitos técnicos o filme funciona muito bem. Trilha sonora do inglês Jonny Greenwood maravilhosa, direção de fotografia de Robert Elswit perfeita (antes deste filme ele já tinha sido indicado ao Oscar por seu trabalho em Good Night, and Good Luck), edição de Dylan Tichenor muito bem feita e planejada. Pessoalmente, fazia tempo que eu queria ver um filme de Paul Thomas Anderson de qualidade. Não escondo que adoro Magnólia – acho que está na minha lista de filmes preferidos de todos os tempos. E depois de assistí-lo, fui atrás do que o diretor tinha feito antes e, claro, esperei o que ele faria depois. E tudo que vi foi lixo. Daí pensei: “Bem, mais um diretor que só fez um filme decente na vida e o resto nada!”. Até esse There Will Be Blood. Com esse filme, novamente, Paul Thomas Anderson demonstra que é um grande diretor e roteirista, ainda que eu ache que lhe faltou ousadia nesta história. Acho, realmente, que ele poderia ter feito algo melhor, com técnica mais apurada ou ousada. Até um certo ponto o seu estilo me lembrou um pouco o “naturalismo” de parte do Cinema Novo brasileiro, com planos que me lembraram um pouco Glauber Rocha, por exemplo. Mas isso, para mim, é passado. Ou, melhor, pode ser um presente ou futuro, mas com novos elementos para acrescentar. Se não, parece mais do mesmo e não algo original. Faltou mais ousadia para o filme realmente me conquistar.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma outra curiosidade: dei para este filme a mesma nota que para No Country for Old Men. Ambos filmes me conquistaram, mas nos dois eu vi elementos que faltaram ou problemas. Nenhum deles é perfeito, redondo.

Falando em problemas, um detalhe sobre a interpretação de Daniel Day-Lewis: para não dizer que ela é perfeita, eu reparei em uma falha. Depois da cena inicial do filme, em que vemos Daniel Plainview sofrendo um grave acidente, ele volta e meia aparece mancando com a perna que ele quebrou em sua queda. Muito bem. O problema é que o ator, algumas vezes, se esquece de mancar… Um exemplo? Quando o filho dele volta para casa, depois de ter ficado um tempo fora por ordens do pai, ele briga com Daniel. Nesta cena o ator “esquece” de mancar, por exemplo. É um detalhe, eu sei. Algo que não tira nem um pouco o mérito de Daniel Day-Lewis e nem o seu direito de ganhar o Oscar.

E falando em prêmios, There Will Be Blood acumula, até o momento, nada menos que 31 prêmios e 33 nomeações – incluindo oito para o Oscar. A maioria dos prêmios que ele ganhou foi de associações de críticos. E entre os premiados estão o ator Daniel Day-Lewis (quase uma unanimidade), o diretor Paul Thomas Anderson e o filme.

Para quem não sabe, There Will Be Blood é baseado em um livro do escritor Upton Sinclair. Encontrei aqui uma breve biografia sobre ele. Mas é importante frisar que o filme é “livremente” inspirado na obra, ou seja, There Will Be Blood não pretende ser nada fiel ao texto original de Sinclair. Apenas utiliza boa parte das suas idéias, mas não obedece nem a sequencia da narrativa e nem segue todos os detalhes. Para quem lê espanhol, encontrei aqui um texto interessante sobre a obra original.

O filme mantêm prestígio entre público e crítica. Exemplo disso é a nota 8,9 que There Will Be Blood preserva no site IMDb e as 143 críticas positivas e apenas 15 negativas que o filme recebeu de comentaristas que tem seus textos linkados pelo site Rotten Tomatoes.

Para quem, como eu, gosta de saber sobre as locações dos filmes, There Will Be Blood foi filmado nas cidades de Marfa, no Texas; Santa Clarita e Los Angeles, na Califórnia; e no lago El Mirage Dry, na Califórnia também.

O filme, que teria custado aproximadamente US$ 25 milhões, não foi tão bem nas bilheterias quanto os produtores gostariam. Em pouco menos de um mês ele arrecadou, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 8,6 milhões.

Agora no dia 7 de fevereiro o filme participará do Festival de Berlin. No Brasil ele tem data de estréia para 15 de fevereiro – data em que ele chega à maioria dos países.

PALPITE PARA O OSCAR: Acho que o filme têm reais chances de ganhar vários prêmios. Para mim é certo que Daniel Day-Lewis ganhará o Oscar de melhor ator – o único que pode ganhar dele, mas acho que dificilmente, é Johnny Depp por seu papel em Sweeney Todd. Nenhum dos outros concorrentes tem chance ou performance tão boa quanto a de Day-Lewis para vencer dele, na minha opinião. Ele pode levar a estatueta como melhor filme, ainda que eu ache que tem mais chances nesta categoria No Country for Old Men (meu voto) ou Atonement (que tem mais lobby que qualidade). Paul Thomas Anderson pode também ganhar como diretor, ainda que eu ache que os irmãos Coen (meu voto) ou o diretor Julian Schnabel tem mais chances de ganhar. Na categoria de roteiro adaptado ele têm fortes concorrentes a bater, especialmente Atonement e No Country for Old Men. Para mim, Atonement deve levar na categoria de roteiro. O filme concorre em direção de fotografia, um páreo duro em que deve ganhar de Atonement (neste quesito o filme é muito bom) e de The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford. Em direção de arte There Will Be Blood terá uma disputa acirrada com American Gangster, Atonement, The Golden Compass (meu voto) e Sweeney Todd – todos muito bons. Em edição ele concorre com Into the Wild (que tem uma edição muito boa) e The Bourne Ultimatum (meu voto). Em edição de som ele terá que bater a The Bourne Ultimatum (meu voto atual) e Transformers (para mim, quem deve ganhar). Para resumir: ele pode ganhar muitos prêmios ou, também, sair quase de mãos abanando. Tudo vai depender do humor dos membros da Academia.

CONCLUSÃO: Um épico sobre ambição, luta pelo poder e pelo controle de corações e mentes nos Estados Unidos do início do século 20. O filme conta a ascensão do magnata do petróleo Daniel Plainview, assim como parte da história do crescimento do país com base na exploração do líquido negro que até hoje domina o mundo. Interessante reflexão sobre a busca do poder e da relação entre dinheiro e religião – além do “aparente” embate entre o capitalismo e a fé. Outro tema interessante é o de manipulação das pessoas e da importância (ou não) da família para uma pessoa.

Juno

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A idéia de fazer um filme sobre uma gravidez inesperada não é, claro, original. Mas o que diferencia Juno de filmes como Where the Heart Is (Onde Mora o Coração, com Natalie Portman) ou Knocked Up (Ligeiramente Grávidos) é, por irônico que isso pode parecer, a originalidade do seu roteiro. Sabe aquela velha história de reinventar a roda? Quase isso. Claro que o filme não chega a tanto, a “reinventar a roda” (fazendo-a quadrada, por exemplo), mas não é totalmente à toa que ele chegou a ser indicado como melhor filme para o Oscar 2008. Se bem que, na minha opinião, ele teve mesmo é um bom lobby para chegar ali. O filme é divertido, criativo, tem grandes interpretações, mas é uma “zebra” na premiação. Como antes já foi Little Miss Sunshine. O que eu acho bacana, até. Gosto quando filmes “menos usuais” chegam lá, ainda que não tenham chances de ganhar. E ao menos uma coisa é certa: Juno trata o tema da gravidez na adolescência sem falsos argumentos, “moral da história”, hipocrisia ou xaropice. Fala a linguagem da garotada e enfoca as reações que uma garota inteligente, especial e “esquisita” como Juno provavelmente teria na vida real. Só por isso e pelas risadas que nos propicia, ele merece ser visto.

A HISTÓRIA: Juno MacGuff (Ellen Page) encara uma poltrona jogada no gramado de uma propriedade. Toma litros e litros de suco de laranja e revela que tudo começou com essa poltrona. Pouco depois, ela vai até a loja de conveniência do bairro para comprar mais um teste de gravidez. O vendedor Rollo (Rainn Wilson em uma “ponta” toda especial) já a conhece. Novamente ela faz o teste ali mesmo, na loja de conveniência, e mais uma vez o resultado é positivo. Realmente ela está grávida do amigo, colega de aula e participante da equipe de corrida da escola Paulie Bleeker (Michael Cera). Chegando em casa, ela liga para a melhor amiga, Leah (Olivia Thirlby) para contar a novidade. A família, o pai Mac (J.K. Simmons) e a madrasta Bren (Allison Janney), assim como as demais pessoas da escola e da vida de Juno, só saberão da novidade depois.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir contas trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à Juno): Não há uma pessoa no filme que não esteja muito bem em seu papel. Fiquei impressionada até com Jennifer Garner, que para mim parece conseguir outro “nível” de interpretação com a mulher “sedenta” por ter um filho Vanessa Loring. Não que eu ache ela uma má atriz, mas até esse filme ela não tinha me convencido que chegou onde chegou por algo além da sua beleza. Em Juno, contudo, ela realmente faz um papel maduro, perfeito enquanto representa uma mulher que está desesperada para ter adotar uma criança mas que faz de tudo para não demonstrar isso, afinal, ela tem que fazer parte de uma “família perfeita”. Executiva bem-sucedida, que se dedica muito para o trabalho e que se casou com um homem tão “perfeito” quanto ela – o músico Mark Loring (Jason Bateman, também muito bem em seu papel cheio de “dúvidas”), Vanessa Loring não sabe muito bem como controlar a ansiedade para adotar o filho de Juno e, assim, não colocar mais uma chance de ser mãe a perder. Os dois me lembram demais esses casais “perfeitos” que todos invejam e que, ninguém sabe o quanto, tem problemas.

O interessante do filme é que ele realmente vai a fundo nas características e sentimentos de cada personagem. Além do casal Vanessa e Mark, muito bem retratados, acompanhamos a personalidade dos responsáveis por Juno, seu pai Mac e sua madrasta Bren. Aqui, mais uma vez, os atores J.K. Simmons e Allison Janney conseguem o tom perfeito de seus personagens. A amiga de Juno, interpretada por Olivia Thirlby é um “tempero” à parte. A reação dela ao saber que a amiga está grávida ou quando sabe de quem, é muito cômica. Aliás, não existe aparição da personagem Leah que não seja muito engraçada e parecida com a vida real de uma adolescente.

Juno, contudo, é uma personagem que deveria entrar na lista dos grandes do cinema nos últimos tempos. Especialmente porque é muito difícil ver um bom roteiro ser escrito para uma jovem intérprete tratando de contar uma história de adolescentes. Normalmente os jovens no cinema ou são “eternos inconformados” ou são “nerds”, esportistas sem cérebro ou algo do gênero. Dificilmente são personagens que podemos encontrar na esquina. Juno é uma delícia de personagem porque mostra uma garota considerada um pouco “esquisitona” pelos seus iguais e que, no fundo, tem muita personalidade. Tanto que, quando descobre que está grávida, primeiro pensa em abortar. Depois, com a mesma naturalidade com que tinha buscado a clínica de abortos, decide ter a criança. Impressionante a maneira com que ela encara o que está acontecendo. E muito realista quando ela demonstra ter tanta coragem para ter o filho e, ao mesmo tempo, nenhuma para assumir um romance com Paulie. Afinal, ele é um “loser” e ela, claro, é influenciada pela opinião das pessoas.

Fiquei fascinada com o belo trabalho de Ellen Page. Em um ano em que as interpretações femininas variaram muito no nível e na qualidade – não há nenhuma grande “barbada” em cena, ainda que existam muitos elogios para Julie Christie e Marion Cotillard, por exemplo -, essa canadense de 20 anos parece realmente ter merecido uma indicação ao Oscar por seu papel no filme. Mas, como ocorre com a produção dirigida por Jason Reitman, considero que Ellen Page concorre “por fora” na disputa.

Como comentava na introdução deste comentário, um fato me deixou feliz com o filme: ele não tenta se resolver com um final “família” ou com uma moral da história. Não, ele realmente mostra o que uma garota como Juno provavelmente faria. E não porque não seja bacana uma adolescente ter e criar o seu filho, mas porque jovens com personalidade como a protagonista do filme não pensam em ter uma criança assim, sem que esteja preparada para isso. Uma coisa é parir, outra bem diferente é educar. E o filme acerta ao tratar tão abertamente esta questão. Acho que o mundo seria bem menos problemático se tantas pessoas que tiverem filhos sem estarem preparadas tivessem tido a coragem desta garota. O bom seria também, claro, prevenir, evitar um problemão assim. Com tanta informação e maneira de se controlar uma gravidez hoje em dia, eu realmente me surpreendo com o número de garotas que ficam grávidas sem realmente o desejar. Mas enfim, a verdade é que ninguém pode realmente julgar ninguém. Muito menos a decisão de ficar com uma criança que não se havia planejado para tê-la.

Michael Cera, que eu havia notado no xaropinho Superbad, aqui sim manda muito bem. O garoto está perfeito como o tímido, estudioso e apaixonado – ainda que contido – “namorado” de Juno. Escrevi namorado entre aspas porque o coitado do Paulie nem sonhava que o sexo com Juno poderia render um namoro ou, algo “pior”, uma gravidez. Tanto que ninguém sonhava que Juno tinha algo com o garoto – os pais dela nem sabiam muito bem de quem se tratava quando ela revelou o nome do “pai do seu futuro filho”. Muito bom! Super realista, mais uma vez.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Juno é um filme que surpreendeu muita gente. Tanto que ganhou, até agora, 24 prêmios. E foi nomeado a outros 21 – incluindo quatro Oscar. Entre os prêmios que ganhou, destaco como os mais importantes o de melhor filme no Festival de Roma, assim como o prêmio da audiência para o diretor Jason Reitman no Festival de Estocolmo; o de melhor atriz para Ellen Page pelo Satellite Awards, pelas associações de Cinema de Phoenix, Flórida, Ohio e Chicago, além do National Board of Review; além de vários outros prêmios para a roteirista Diablo Cody e para o diretor de Juno.

Além de agradar a crítica, o filme têm agradado ao público. Tanto que a produção que custou pouco mais de US$ 7,5 milhões já faturou, apenas nos Estados Unidos, mais de US$ 87 milhões.

No Brasil o filme tem data de estréia para 15 de fevereiro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para o filme – para mim, ele merece mais. Enquanto isso, os críticos que tem seus textos no site Rotten Tomatoes conferiram 155 críticas positivas para Juno e apenas 12 negativas. Estou mais do lado dos críticos, porque acho, realmente, que a crônico sobre os adolescente e suas relações com os pais, os amigos e demais pessoas do seu “meio” está muito mais realista e se apresenta muito mais interessante que muito filme “sério” que anda por aí.

Para quem não lembra, o diretor Jason Reitman fez antes um filme muito bom: Thank You for Smoking (Obrigado por Fumar) – para o qual também havia escrito o roteiro. Interessante que a ironia do anterior se mantêm nesta nova produção. A ironia ou o sarcasmo, não sei qual mais. hehehehehe

Uma curiosidade: o filme foi todo rodado no Canadá, em cidades como Vancouver, Burnaby, White Rock e Coquitlam.

Interessante que este é o primeiro roteiro para o cinema de Diablo Cody, uma ex-stripper que nasceu em Chicago há 29 anos e que ficou famosa por escrever um livro contando as suas experiências. O tal livro foi o único incluído na lista do apresentador David Letterman em seu programa, o Late Show, em 1993.

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos, Canadá e Hungria.

PALPITES PARA O OSCAR: Como comentei antes, acredito que Juno “corre por fora” na disputa deste ano. Não acredito que ele possa enfrentar filmes “fortes” como No Country for Old Men, There Will Be Blood ou mesmo Atonement. O mesmo digo sobre Ellen Page: ainda que ela tenha ganhado vários prêmios por seu papel como Juno, não acredito que ela vá ganhar de uma veterana como Julie Christie, de uma constantemente indicada Cate Blanchett ou de uma “bola da vez” como Marion Cotillard. O diretor Jason Reitman também deve ir para casa sem o prêmio, que este ano deve ir para os irmãos Coen (meu voto) ou mesmo para um dos veteranos Tony Gilroy ou Julian Schnabel. A única categoria em que o filme tem reais chances de ganhar, para mim, é a de roteiro original. Diablo Cody deveria ganhar o Oscar por seu delicioso texto. Acho seu trabalho melhor que o de Tony Gilroy por Michael Clayton, por exemplo. Mas não posso dar de todo o meu pitaco aqui porque não vi os outros três filmes concorrentes.

CONCLUSÃO: Uma divertida e realista comédia sobre os efeitos que uma gravidez inesperada causam na vida de uma adolescente do colegial e nas vidas das demais pessoas que a cercam. Roteiro inteligente, interpretações afinadas, risadas garantidas. Especialmente interessante por tratar sem “falsos argumentos” a realidade atual de famílias, colégios e demais círculos dos adolescentes de países com certo grau de desenvolvimento (e consumismo).