Roma

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Um filme simples com diversas camadas de interpretação e pequenas pérolas de informações espalhadas aqui e ali. Roma, por muitos considerado como um dos fortes concorrentes do Oscar 2019 – ao menos na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira -, realmente tem muitas qualidades. Mas eu não sei… ao término da produção, fiquei com aquele gostinho de que falaram tanto do filme e que ele entrega menos do que eu esperava. Grandes expectativas costumam resultar nessa conclusão. Mas uma obra-prima, realmente, teria satisfeito e superado as expectativas. Esse não é o caso de Roma.

A HISTÓRIA: Sobre um piso, alguns baldes de água são derramados. O reflexo que a água faz mostra em parte o céu, por onde passa um avião. Depois de limpar o piso, Cleo (Yalitza Aparicio) recolhe o material utilizado e conversa com o cachorro, Borras. Ela vai até um banheiro, colocado do lado externo da casa, e entra na residência dos patrões. No piso superior, ela recolhe as roupas de cama utilizadas e coloca as novas. Faz tudo com agilidade, levando o fiel rádio consigo em cada cômodo.

Em seguida, Adela (Nancy García García) chama a atenção de Cleo de que é quase 13h e que ela precisa se apressar. Cleo corre pela calçada e vai até o colégio para buscar o caçula dos patrões. Na volta, Adela comenta que Fermín (Jorge Antonio Guerrero) está ao telefone para falar com Cleo. As duas falam no dialeto mixteco, idioma que Pepe (Marco Graf) desconhece. Aos poucos, vamos acompanhando as histórias dessa família e de seus empregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Roma): Eu gosto muito do Sr. Alfonso Cuarón. E não é de hoje. Gosto do estilo do diretor muito antes dele ser reconhecido pelo trabalho extremamente técnico de Gravity (comentado por aqui). Eu acompanho o trabalho desde há exatos 20 anos, desde Great Expectations, filme com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow e anterior a Y Tu Mamá También – que o tornou mais conhecido e admirado.

Dito isso, comento que fiquei feliz que um filme dele, Roma, é considerado um dos favoritos – se não o maior favorito – para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Como quem acompanha o blog há mais tempo sabe, essa é a minha categoria preferida do Oscar. Especialmente pelas obras interessantes e diversificadas que esta categoria me apresenta a cada ano da premiação.

Assim, devo admitir, fui assistir a Roma com grandes expectativas. Não apenas por seu favoritismo, mas porque conheço o talento de Cuarón. Nascido na Cidade do México em 1961, Cuarón fez uma releitura muito particular sobre os anos de 1970 e 1971 – quando se passa a história desse filme. Pensando na produção, me parece que o personagem de Pepe, interpretado pelo carismático Marco Graf, representa o pequeno Cuarón.

Assim, nos debruçamos sobre a realidade do México naqueles anos conturbados. Para isso, Cuarón nos apresenta uma visão bastante intimista e próxima de uma família da classe média, onde duas realidades muito diferentes são retratadas. A das pessoas com recursos e que podem se dar ao luxo de ter até três empregados – o que é o caso da família de Sofía (Marina de Tavira) e de Antonio (Fernando Grediaga).

Enquanto o casal, que vive uma crise no matrimônio, tem condições de viver bem, educar os quatro filhos em bons colégios e ter uma empregada, uma cozinheira e um motorista à sua disposição, os empregados da família vivem em função dos chefes e à espera de uma folga para ir namorar no cinema – ao menos Cleo e Adela.

A narrativa desta produção, linear e focada no cotidiano da família e de seus empregados, apresenta diversas sutilezas e temas que fazem pensar. Mas sem grandes “choques” narrativos ou inovações na forma de contar essa história. Cuarón faz um excelente trabalho na direção, valorizando o trabalho dos atores, focando no cotidiano da Cidade do México no início dos anos 1970 e com planos de câmera que valorizam os movimentos contínuos.

De forma acertada, ele foca em poucos personagens e foca a narrativa sob a ótica da empregada da família, Cleo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela é uma garota simples, que não tem contato com a própria família (ouvimos falar apenas da mãe dela, na realidade) e que dedica a sua vida para os patrões – especialmente para os filhos de Sofía. Ela é especialmente apegada aos menores, Pepe e Sofi (Daniela Demesa).

A principal reflexão de Roma, para mim, é justamente as desigualdades sociais e de oportunidades que marcaram o México e outros países latinos nos anos 1970 e até hoje. No fundo, Cleo abre mão da própria vida para dedicar-se 100% à família dos patrões. No momento mais angustiante do filme, quando Cleo salva Paco (Carlos Peralta) e Sofi na praia, ela confessa que não queria que a filha que teve com Fermín nascesse.

Em outro momento importante do filme, Sofía comenta que não importa o que digam para elas, mas as mulheres estão sempre sozinhas. Esse é outro aspecto muito interessante e relevante do filme. Como mulheres com histórias tão diferentes, níveis de educação e oportunidades tão diversas, no fundo, podem ser vítimas da mesma sociedade machista. O México, assim como o Brasil e outros países, sofre com esta cultura em que todas as decisões e as principais oportunidades são decididas pelos homens.

Assim, com bastante facilidade, Antonio abandona a família ao mesmo tempo em que Fermín não assume o seu compromisso com Cleo. Para eles, fazer isso é muito fácil. Ninguém os questiona, ninguém acha absurdo o abandono e desprezo que eles promovem. Ao mesmo tempo, Cuarón revela uma fase da história em que as mulheres começam a assumir o controle de suas próprias vidas.

Desta forma, Roma também nos mostra o início de um maior “empoderamento” feminino na sociedade mexicana. Seja com Sofía mudando o foco de sua atividade para conseguir um emprego que lhe ajude a pagar as contas e sustentar a sua família, seja com Cleo revelando abertamente que não gostaria de ter a sua filha. Claro, podemos debater as razões dela não querer a sua própria filha. Seria por que ela está focada demais em ajudar a criar e cuidar das filhas da patroa ou será mesmo que, a exemplo de outras mulheres, ela não sente a necessidade em ter uma herdeira e colocar uma criança à mais no mundo?

As respostas para estas questões não são simples e nem devem ser dadas com base no que acreditamos ou fazemos. As questões sociais são complexas mesmo, seja no México do início dos anos 1970, seja nos dias atuais. Roma nos apresenta histórias muito humanas e com um olhar sensível e muito cuidadoso de Cuarón – além de dirigir o filme, ele é o responsável pelo roteiro de Roma.

Além destas questões muito particulares e humanas de Roma, o filme trata, em pequenas pérolas espalhadas aqui e ali, questões sociais importantes para o México daquela época. Como no início do filme Paco narra uma cena em que um menino foi morto por um militar por ter jogado um balão cheio de água nele, inicialmente eu achei que o México também vivia uma fase de regime militar – como era o caso do Brasil, na mesma época. Mas não. Buscando mais informações sobre o período, descobri que quem governava o México na época era o PRI (Partido Revolucionário Institucional).

Ainda assim, mesmo que o regime na época no México não fosse ditatorial, o exército e a polícia desempenharam um papel decisivo no que alguns chamaram de “guerra suja” contra a oposição ao PRI nos anos 1960 e 1970. Isso é o que vemos em cena em dois momentos contundentes da produção. Primeiro, no “treinamento” de Fermín, que acaba sendo flagrado por Cleo – que, inocente, acredita que o ex-namorado está treinando para as Olimpíadas.

Ele diz que foi “salvo” pelas artes marciais, mas de que tipo de salvação ele está falando? Órfão de mãe ainda criança e criado em uma favela, Fermín acredita que não caiu na criminalidade por causa das artes marciais. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas, depois, ele acaba sendo utilizado como um criminoso pelo próprio regime para matar estudantes que protestavam contra o governo. Ele não atira em Cleo, apesar de ter tido vontade, mas o efeito que ele causa naquela situação é o mesmo praticamente se ele tivesse realmente apertado o gatilho.

Apenas jogando os “fatos” na nossa frente, Cuarón nos faz refletir sobre os efeitos daninhos da desigualdade de oportunidades e de acesso à educação. No fundo, Cleo e Fermín fazem parte de um mesmo sistema injusto no qual eles não tem perspectiva praticamente nenhuma de sair de seus “destinos”. A ignorância faz Cleo engravidar sem ao menos saber como poderia ter evitado aquilo, enquanto Fermín serve de massa de manobra para crimes sem que ele realmente tenha percebido alguma outra alternativa para si mesmo.

Com isso, claro, não estou dizendo que todos são produto apenas do seu meio. Claro que, no final das contas, somos responsáveis pelos nossos atos e podemos escolher o que fazer dos nossos dias, mesmo que alguns tenham mais opções do que outros – e isso não pode ser ignorado. De forma muito direta, Cuarón nos fala sobre isso nessa produção. Um filme bastante humano, intimista, mas também com uma grande carga de debate social.

Algumas pérolas espalhadas pelo diretor aqui e ali também nos fazem refletir sobre outra questão. Seja pela narrativa de Paco sobre o garoto que levou um tiro do militar por jogar um balão cheio de água, seja pela criança que morre empalada em uma incubadora no hospital, Roma parece nos sugerir que as crianças são as principais vítimas de uma sociedade injusta e que apresenta diversos riscos que nem sempre podem ser calculados. Isso também nos faz pensar sobre a finitude da vida e sobre a falta de controle que temos sobre diversos fatos.

O momento alto da produção, sem dúvida alguma, é a sequência derradeira na praia. Extremamente angustiante a forma com que Cleo não pensa na própria vida e se entrega para salvar as crianças que ela ama – e que não são dela. Ela tem um altruísmo e uma entrega que impressionam. Naquele momento, impossível não pensar no pior cenário da situação, e justamente isso que cria a angústia muito bem planejada pelo diretor/roteirista. Sequência brilhante – especialmente por nos mostrar apenas parte do que está acontecendo, o que aumenta a angústia.

Cleo vai continuar dedicando a sua vida para aquela família. Apesar disso, ela nunca realmente vai fazer parte daquela realidade. Isso talvez seja o incômodo que perdura mais após o fim dessa produção. Um filme bem planejado, interessante e delicado mas que, apesar de todas as suas qualidades, não cria realmente um grande impacto.

Roma não surpreende ou provoca o desconforto que outras produções mais “potentes” deste ano e que buscavam uma vaga entre os finalistas do Oscar causam. É um belo filme, mas não o considero o melhor desta categoria neste ano. Ainda assim, algo eu tenho que admitir: o filme faz uma bela apresentação da cultura e dos valores mexicanos – inclusive a força de vontade das mulheres, as desigualdades sociais e algumas superstições e costumes. Mas acho que a produção poderia ser um pouco mais curta. Acho que Roma tem trechos realmente dispensáveis – como o incêndio aparentemente provocado após a festa de Réveillon e a cantoria que se segue. Alguns minutos a menos, retirados daqui e dali, fariam bem para a produção.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de Roma, sem dúvida alguma, é a direção de fotografia de Alfonso Cuarón. Além de ter uma direção primorosa, Cuarón também teve um trabalho irretocável na fotografia – valorizada pelo preto e branco. Entre os aspectos técnicos da produção, vale destacar também a edição de Alfonso Cuarón e Adam Gough. Outro item importante para o sucesso de Roma.

Certamente existem diversos textos e materiais que falam sobre o cenário político e social do México no início dos anos 1970. Mas para quem deseja uma leitura rápida, recomendo este texto do site Público e esse artigo sobre o papel dos intelectuais frente àquele cenário repressivo do regime do PRI.

A grande estrela desta produção, sem dúvida alguma, é a atriz Yalitza Aparicio. Ela está perfeita como a protagonista Cleo, uma garota simples, singela, mas muito amorosa e dedicada. Ela simboliza muito bem a mulher “comum” do México. Está perfeita. E o mais interessante: segundo o site IMDb, Roma marca a estreia de Yalitza Aparicio no cinema. Um belo, belo achado do diretor Cuarón, sem dúvida. Ela simboliza muito bem a delicadeza, a simplicidade e a origem indígena de uma parte considerável das mulheres mexicanas.

Além dela, fazem um bom trabalho nesta produção a “patroa” de Cleo, interpretada por Marina de Tavira; a colega de Cleo, responsável pela cozinha da família, interpretada por Nancy García García; o elenco infanto-juvenil que dá vida para os filhos de Sofía, interpretados por Diego Cortina Autrey (Toño), Carlos Peralta (Paco), Marco Graf (Pepe) e Daniela Demesa (Sofi); e a atriz Verónica García, que interpreta à Teresa, mãe de Sofía.

Outros atores fazem papéis menores, mas que também tem a sua relevância – ainda que eles, a meu ver, ficam em um nível de entrega menor que o dos outros atores. Integram esse grupo os atores Fernando Grediaga, que interpreta a Antonio, chefe da família que emprega Cleo; Jorge Antonio Guerrero, que interpreta ao “desajustado” Fermín; José Manuel Guerrero Mendoza como Ramón, “namoradinho” de Adela e parente de Fermín; e Latin Lover como o Profesor Zovek – uma figura que simboliza alguns ídolos mexicanos mas que, francamente, não sei se precisaria estar nesta produção. Talvez a razão dele estar lá é de nos questionarmos quem são os nossos “ídolos” e o que eles representam ou significam.

Roma estreou no final de agosto no Festival de Cinema de Veneza. Depois, até novembro, o filme participou de outros 28 festivais em diversos países antes de estrear na internet em dezembro – Roma é distribuído pela Netflix.

Fiquei me perguntando, por um bom tempo, o porquê do nome Roma para esta produção. Depois é que eu fui descobrir que a história se passa, predominantemente, na vizinhança da “colônia” Roma, na Cidade do México. Aí sim, faz sentido. 😉

Roma é dedicado a Libo, que era a empregada doméstica da família do diretor e na qual ele se baseou para escrever a protagonista desta produção.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. A razão de vários aviões serem vistos na produção é que Cuarón decidiu filmar na Cidade do México e não em um estúdio – e, atualmente, segundo o diretor, um avião passa a cada cinco minutos pelo céu da cidade.

Vale citar algumas falas de Cuarón sobre Roma: “Há períodos na história que cicatrizam as sociedades e momentos na vida que nos transformam como indivíduos. O tempo e o espaço podem nos constranger, mas também nos definem, criando vínculos inexplicáveis com os outros que fluem junto conosco no mesmo tempo e nos mesmos lugares. Roma é uma tentativa de capturar a memória de eventos que eu experimentei há quase cinquenta anos. É uma exploração da hierarquia social do México, onde classe e etnia foram perversamente entrelaçadas nesta data, acima de tudo. Tudo é um retrato íntimo de duas mulheres que me criaram em um reconhecimento do amor como um mistério que transcende o espaço, a memória e o tempo”.

O diretor e roteirista era a única pessoa que conhecia todo o roteiro e a direção que o filme teria. A cada dia ele chegava nas filmagens para entregar para o elenco as linhas do roteiro que seriam filmadas naquele dia. A intenção de Cuarón era surpreender os atores e provocar choque e emoção em cada um deles. Além disso, cada ator recebia orientações e explicações contraditórias, para que houvesse algum “caos” no set a cada dia. Essa ação de Cuarón é explicada com a seguinte frase do diretor: “A vida é exatamente assim: caótica, e você não pode realmente planejar como reagirá sempre em cada situação que ela apresenta”.

Segundo Cuarón, 90% das cenas de Roma representam imagens que ele guardou na sua própria memória. Ou seja, um filme bastante “autobiográfico” ou bastante inspirado nas memórias do diretor, bem ao gosto de Fellini.

Ao apresentar Roma no Festival de Cinema de Nova York, o diretor Guillermo Del Toro disse que o filme de Cuarón é um de seus cinco filmes favoritos de todos os tempos. Deve influenciar bastante para isso o fato de Del Toro ser mexicano também – certamente o filme “bate” diferente para quem nasceu naquele país. Esse mesmo efeito, guardada as devidas proporções, Benzinho (comentado aqui) causou em mim neste ano.

O distrito Roma fica localizado na região Oeste a partir do centro histórico da Cidade do México – caso alguém um dia for para lá e quiser conhecer o local. 😉

Para o filme, Cuarón reuniu 70% dos móveis da sua casa e da residência de familiares para que esses objetivos aparecessem em cena.

De acordo com Cuarón, Roma é o filme “mais essencial” da sua carreira. Cada cena do filme foi gravada no local onde os eventos aconteceram ou em sets que procuraram reproduzir os locais com o maior grau de exatidão possível.

Nos créditos finais do filme, além de agradecer a membros de sua família, Cuarón agradece a nomes do cinema de origem mexicana, como Gael García Bernal, Guillermo Del Toro, Alejandro G. Inãrritu e Emmanuel Lubezki.

Parte da linguagem do filme está no dialeto mixtec. Curioso que o dialeto é falado, essencialmente, pelas mulheres que aparecem na produção – não apenas as empregadas, mas também Sofía.

Pedro Almodòvar considerou Roma como o melhor filme de 2018. A revista TIME também escolheu Roma como o melhor filme do ano, descrevendo ele como “uma ode ao poder da memória, tão íntimo quanto um sussurro e tão vital quanto o rugido do mar”.

De acordo com o roteiro de Roma, a história transcorre entre os dias 3 de setembro de 1970 e 28 de junho de 1971.

Segundo Cuarón, a simbologia de abrir o filme com um avião refletido na água era o de tratar da situação transitória da vida, declarando também que o universo é mais amplo que a vida que os personagens da produção apresentam.

A atriz Yalitza Aparicio, a exemplo de sua personagem Cleo – e da empregada na qual ela é inspirada -, também não sabia nadar.

Dos aspectos técnicos do filme, além da maravilhosa direção de fotografia de Cuarón e da edição dele e de Gough, vale destacar o design de produção de Eugenio Caballero; a direção de arte de Carlos Benassini e Oscar Tello; a decoração de set de Barbara Enriquez; os figurinos de Anna Terrazas e o Departamento de Arte formado por Marcela Arenas, Gabriel Cortes, Ziuhtei Erdmann, Eliud López, Ana Carolina Sánchez Mendoza, Raisa Torres e Marcos Demián Vargas.

Até o momento, Roma ganhou 90 prêmios e foi indicado a outros 122 prêmios – números realmente impressionantes. Entre as indicações, estão incluídas as indicações aos Globos de Ouro de Melhor Roteiro, Melhor Diretor e Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que o filme já recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme e o SIGNIS Award para Alfonso Cuarón no Festival de Cinema de Veneza; e para 34 prêmios de Melhor Filme ou de Melhor Filme em Língua Estrangeira e 20 de Melhor Diretor para Alfonso Cuarón conferidos por diferentes círculos e associações de críticos de cinema dos Estados Unidos e de outros países. Ou seja, esse filme chega super premiado já tanto para o Globo de Ouro quanto para o Oscar em 2019.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Roma, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 287 críticas positivas e 13 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 9,1. As notas dos dois sites para o filme são altas se considerarmos o padrão dos sites. O site Metacritic apresenta o “metascore” 96 para esta produção – fruto de 50 críticas positivas -, assim como o selo “Metacritic Must-see”.

Roma é uma coprodução do México com os Estados Unidos.

No caso de vencer em uma ou mais categorias do Oscar, será que Cuarón fará um discurso político? Com os Estados Unidos sendo governado, atualmente, por um senhor que deseja erguer um muro entre o México e o seu país, acredito que sim. De qualquer forma, seria interessante ver a mais um latino sendo consagrado pelo Oscar. Veremos.

Última crítica de 2018, aproveito esse post para desejar um maravilhoso 2019 para todos vocês, meus queridos leitores e minhas queridas leitoras aqui do blog. Espero que vocês tenham um ano incrível, com muitas alegrias, ótimos filmes e realizações! Abraços e até as críticas de 2019! 😉

CONCLUSÃO: Um filme que nos apresenta duas realidades muito diferentes e que, ao mesmo tempo, se mostram similares em diversos pontos. Roma traz no seu pano de fundo questões fortes do período de ditadura no México, ao mesmo tempo em que retrata com muito cuidado e atenção a intimidade de pessoas de classes sociais muito diferentes que convivem sob o mesmo teto. Essa produção acerta ao retratar uma época de início de empoderamento feminino, assim como de mudança de comportamentos, mas acaba sendo menos impactante ou inovador do que eu esperava.

Uma bela produção, mas que me pareceu um tanto longa demais e sem a carga de novidade de outros filmes que disputam com ela uma vaga no Oscar. Não achei o melhor filme desta categoria até o momento. Está entre as boas pedidas do ano, mas não me impactou como outras produções que buscavam (ou ainda buscam) uma vaga entre os finalistas da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Cinema, para mim, é mais que competência técnica. Um filme tem que apresentar emoção, mexer com o espectador ou inovar. Roma apresenta o primeiro elemento, mas com uma carga menor do que o esperado. Bom, competente, interessante e belo, mas não é excepcional.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Roma parece ter uma forte campanha para chegar forte no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Sim, o filme tem muitas qualidades, mas não acho ele poderoso ou inovador o suficiente para ser considerado o favorito deste ano – que é como ele tem sido apontado até agora.

Dos filmes pré-indicados que eu assisti até o momento, sem dúvida alguma eu achei The Guilty (comentado aqui) mais impactante e inovador. É o meu preferido na disputa, até agora. Burning (com crítica neste link) é menos detalhista e bem acabado que Roma, mas também me pareceu mais impactante e inovador. Apenas Cold War (comentado aqui) pode ser comparado com o filme de Cuarón – não apenas pela fotografia em preto-e-branco mas, em especial, pela história central um tanto “conservadora”.

Conforme comentei neste artigo sobre os filmes que avançaram em nove categorias do Oscar 2019, estou especialmente curiosa para assistir aos filmes da Colômbia, da Alemanha e do Líbano. Quem sabe alguma destas produções ou mesmo o filme dinamarquês na disputa não surpreenda e ganhe do “favorito” Roma? O filme de Cuarón tem o seu valor, mas não me conquistou como eu esperava.

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Finalistas em nove categorias do Oscar 2019 – Confira as listas

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O tempo passa, o tempo voa… E já chegamos nos últimos dias de 2018. 😉 Há algumas semanas, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood surpreendeu ao divulgar a lista de longas e de curtas-metragens que avançaram na busca por uma vaga em nove categorias do Oscar 2019.

O bom dessa lista ter saído assim, com antecedência, é facilitar o nosso “trabalho” (e que trabalho bom, diga-se) de conferir a algumas das melhores produções desse ano e que buscam uma estatueta dourada na premiação de 2019. Então que tal dar uma conferida nessa lista e buscar essas produções? Segue a lista e um breve comentário sobre cada uma das produções que avançaram na busca por uma indicação ao Oscar 2019.

Lista dos filmes que avançaram na busca por uma vaga no Oscar 2019

Melhor Documentário:

Inicialmente, 166 longas de documentário foram inscritos e habilitados para buscar uma vaga entre os finalistas nessa categoria no Oscar 2019. Essa lista foi reduzida para 15 filmes na disputa. Os membros da Academia na categoria Documentário foram os responsáveis por fazer essa lista avançar – e eles também serão os responsáveis por apontar os cinco finalistas dessa categoria. Confira quem avançou na disputa:

  • Charm City

Dirigido por Marilyn Ness, Charm City faz um retrato “inesperadamente sincero e observador” sobre as pessoa que ficaram na linha de frente dos três anos de grande violência que marcaram a cidade de Baltimore, nos Estados Unidos. “Com coragem, fúria e compaixão”, um grupo de policiais, cidadãos e funcionários públicos lida com a violência na cidade e buscam uma saída que aponte para o futuro da cidade. Filme com 1h48min de duração.

  • Communion

Fiquei em dúvida sobre esse título porque o único documentário recente com este título é Komunia, filme dirigido por Anna Zamecka e que tem 10 prêmios no currículo. A sinopse do filme é um pouco vaga. Ela comenta que Communion “revela a beleza do rejeitado, a força dos fracos e a necessidade de mudança quando essa mudança parece impossível”. Aparentemente, a produção trata sobre a adoção de crianças e de como nenhuma “falha” é impossível de ser contornada quando o amor faz parte da equação. Interessante. Esse documentário tem 1h12min de duração.

  • Crime + Punishment

Dirigido por Stephen Maing, esse documentário conta a história de um grupo de policiais do Departamento de Polícia de Nova York que “arrisca tudo para expor a verdade sobre as práticas ilegais no departamento de polícia”. Produzido pelo serviço de streaming Hulu, o filme tem uma temática interessante. Esse documentário já conta com nove prêmios no currículo e tem 1h52min de duração.

  • Dark Money

Dirigido por Kimberly Reed, esse documentário tem dois prêmios no currículo e tem uma temática interessante. Autodenominado um “thriller político”, o filme “examina uma das maiores ameaças atuais à democracia americana: a influência do dinheiro corporativo que não pode ser rastreado nas eleições e nas autoridades eleitas”. O documentário busca expor “a verdade chocante e vital de como as eleições americanas são compradas e vendidas”. Gostei da temática – válida para diversos países, diga-se. O filme tem 1h39min de duração.

  • The Distant Barking of Dogs

Dirigido por Simon Lereng Wilmont, este documentário com 1h30min de duração foca a linha de frente da guerra travada no leste da Ucrânia. Mais especificamente, o filme acompanha a vida do garoto ucraniano Oleg, um menino com 10 anos de idade e que vai, pouco a pouco, perdendo a sua inocência por causa das pressões da guerra. Uma história interessante e que, me parece, tem bem o estilo do Oscar. Até o momento, o filme ganhou oito prêmios.

  • Free Solo

Dirigido por Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi, esse filme com 1h40min de duração e 10 prêmios no currículo acompanha de perto Alex Honnold, o homem que se torna a primeira pessoa a escalar sempre sozinha a parede El Capitan, com 3.000 pés de altura, em Yosemite. Sem cordas ou equipamentos de segurança, Honnold completou, segundo os especialistas, o maior feito da escalada.

  • Hale County This Morning, This Evening

Documentário dirigido por RaMell Ross e com 1h16min de duração, esse filme com 11 prêmios se define como uma produção que é “composta por momentos íntimos e sem impedimentos de pessoas de uma comunidade” do Sul histórico dos Estados Unidos. A proposta da produção é produzir uma “impressão emotiva” que valoriza a beleza e as consequências da construção social do Sul americano, com todas as suas questões que envolvem a questão racial desta parte do país. Interessante, especialmente por se tratar de um assunto tão atual e importante.

  • Minding the Gap

Dirigido por Bing Liu, esse documentário com 1h33min de duração e impressionantes 46 prêmios no currículo conta a história de três jovens que se unem para “escapar de famílias voláteis em sua cidade natal, Rust-Belt”. Enquanto esses jovens começam a enfrentar as responsabilidades de adultos, “revelações inesperadas” ameaçam a amizade que eles construíram na última década. Parece uma bela pedida, tanto pela temática quanto pelo número muito relevante de prêmios que essa produção já recebeu.

  • Of Fathers and Sons

Com título original de Kinder Des Kalifats, essa produção com 1h39min de duração é dirigida por Talal Derki, que consegue uma narrativa muito particular ao retornar para a sua terra natal, onde ele ganha a confiança de uma família radical islâmica que, a partir de então, compartilha com o diretor a sua vida diária durante dois anos. Ao conseguir essa proximidade, o realizador consegue uma “visão extremamente rara” sobre o que significa, na prática, crescer em um califado islâmico. Mais uma produção que chama a minha atenção nessa lista. Até o momento, esse filme conta com 13 prêmios no currículo.

  • On Her Shoulders

Filme dirigido por Alexandria Bombach, esse documentário com 1h35min de duração e nove prêmios no currículo conta a história de Nadia Murad, uma Yazidi de 23 anos que sobreviveu ao genocídio e à escravidão sexual praticados pelo Estado Islâmico. Ao contar a sua história, Nadia Murad se sente como a porta-voz do seu povo. Depois que esse documentário foi feito, a ativista dos direitos humanos foi reconhecida como uma das ganhadoras do Prêmio Nobel da Paz de 2018. O filme sobre a sua história é outra boa pedida deste ano.

  • RBG

Dirigido por Julie Cohen e por Betsy West, este documentário com 1h38min de duração e nove prêmios no currículo narra a vida e a carreira da “excepcional Ruth Bader Ginsburg, uma juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos que desenvolveu um legado de tirar o fôlego quando se tornou um ícone inesperado da cultura pop”. Outro filme curioso e que pode servir para uma reflexão interessante para os brasileiros – que tem uma Suprema Corte também bastante atípica.

  • Shirkers

Dirigido por Sandi Tan, esse documentário com duração de 1h36min e cinco prêmios recebidos até o momento tem uma narrativa bastante “intimista”. De acordo com os produtores, o filme conta a história de uma mulher que explora os acontecimentos em torno de uma produção que ela e suas amigas começaram a fazer junto com um “estranho misterioso” há algumas décadas.

  • The Silence of Others

Com o título original de El Silencio de Otros, esse documentário dirigido por Robert Bahar e Almudena Carracedo tem 1h36min de duração e nove prêmios no currículo. O filme revela “a luta épica das vítimas da ditadura que durou 40 anos na Espanha, sob o comando do general Franco, em busca da verdade até hoje”. Filmado ao longo de seis anos, o documentário acompanha os sobreviventes do regime ditatorial em busca de respostas em um país ainda dividido sobre o assunto. Outra produção que parece bastante interessante.

  • Three Identical Strangers

Dirigido por Tim Wardle e com 1h36min de duração, esse filme conta a história de três jovens que são adotados por uma família, nos anos 1980. Eles descobrem, após serem adotados, que eles são, na verdade, trigêmeos que foram separados ao nascer. Procurando respostas sobre as suas origens, eles descobrem a razão de terem sido separados. Até o momento, a produção já recebeu 10 prêmios.

Dirigido por Morgan Neville e com 1h34min de duração, esse documentário é apontado, por muitos, como o favorito na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2019. Até o momento, esse filme ganhou impressionantes 30 prêmios. A produção explora a “vida, as lições e o legado do apresentador icônico da televisão infantil norte-americana Fred Rogers”. A conferir porque essa produção é considerada uma forte concorrente no Oscar 2019.

Melhor Curta Documentário:

Inicialmente, 140 curtas do gênero documentário se qualificaram para concorrer nessa categoria. Desta lista original, os membros da Academia que votam nas categorias de Documentário escolheram 10 curtas que avançaram na disputa – destes, cinco serão selecionados para disputar uma estatueta dourada. Ainda vou fazer um post sobre os curtas que chegarem na reta final da disputa, então deixarei para falar sobre eles mais para a frente. Nesse primeiro momento, vou comentar um pouco mais apenas dos longas.

  • Black Sheep
  • End Game
  • Lifeboat
  • Los Comandos
  • My Dead Dad’s Porno Tapes
  • A Night at the Garden
  • Period. End of Sentence
  • 63 Boycott
  • Women of the Gulag
  • Zion

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

Inicialmente, 87 filmes foram considerados para essa categoria. De acordo com a Academia, os seus membros sediados em Los Angeles primeiro selecionam as inscrições originais entre meados de outubro e o dia 10 de dezembro. Em seguida, as seis melhores escolhas do grupo, acrescidas de três escolhas adicionais feitas pelo Comitê Executivo do Prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira da Academia, formam a lista dos nove filmes que avançam na disputa. Depois desta escolha ter sido feita, os membros da Academia qualificados para participar da rodada de nomeações de votação assistirão aos filmes pré-selecionados. Antes de votar, esses membros devem assistir aos nove filmes “finalistas”. Confira a lista das produções que avançaram na disputa:

  • Birds of Passage (Colômbia)

Com título original de Pájaros de Verano, essa produção made in Colombia é dirigida por Cristina Gallego e por Ciro Guerra. O filme, do gênero Drama, é ambientado durante o período da “bonança da maconha” no país, uma década violenta e na qual a história fica focada em uma família específica: a de Rapayet. Ela e a sua família indígena se envolvem em uma guerra para controlar o negócio da maconha e, nesta tentativa, acabam tendo as suas vidas e a sua cultura destruídas pela violência. A temática e o fato de ser um filme latino chamam muito a atenção. Sem dúvida, vou querer assistir. 😉 Esta produção conta já com 10 prêmios.

Filme bastante interessante que já foi comentado aqui no blog. Como sempre, recomendo que vocês primeiro assistam ao filme antes de ler a crítica. Mas algo posso garantir: esse filme vale o ingresso. Tanto pela temática quanto pela narrativa e o trabalho do protagonista. Com título original de Den Skyldige, esse é um belo trabalho do diretor Gustav Möller. Acredito que o filme tem grandes chances de avançar e ficar entre os cinco finalistas nesta categoria. Estou torcendo para ele chegar lá. Até o momento, o filme ostenta 23 prêmios.

  • Never Look Away (Alemanha)

E a Alemanha, como praticamente em todos os anos, emplacou mais um finalista no Oscar. Isso só demonstra a qualidade do cinema alemão. Com título original de Werk Ohne Autor, esse filme dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck tem três prêmios no currículo e foi indicado ao Globo de Ouro 2019. Considerado um filme dos gêneros Drama, Thriller e Histórico, essa produção foca na história do artista alemão Kurt Barnert. Ele escapou da Alemanha Oriental e, durante a narrativa da produção, vive na Alemanha Ocidental, onde é “atormentado por sua infância vivida sob o regime nazista e a RDA”. Mais uma vez o cinema alemão se debruça sobre temas importantes e que ainda marcam a sua história. Vou querer assistir. 😉

  • Shoplifters (Japão)

Produção japonesa dirigida por Hirokazu Koreeda e com o título original de Manbiki Kazoku, esse filme tem 18 prêmios no currículo e foi indicado ao Globo de Ouro 2019. De acordo com os produtores, a produção dos gêneros Drama e Crime conta a história de “uma família de bandidos de pequeno porte que adota uma criança que eles encontram do lado de fora da casa, no frio”. Parece interessante também. 😉

  • Ayka (Cazaquistão)

Dirigido por Sergei Dvortsevoy, esse Drama com cinco prêmios conquistados até aqui conta a história de “uma mulher pobre e sem emprego que luta para criar o seu filho”. Sim, os produtores do filme foram comedidos e econômicos nas palavras. Mas para um país sem tradição no cinema, como o Cazaquistão, avançar na disputa e deixar outras “escolas” para trás, é porque o filme deve ter muitas qualidades. A conferir.

  • Capernaum (Líbano)

Para muitos, considerado um dos fortes concorrentes deste ano, este filme dirigido por Nadine Labaki já tem 19 prêmios conquistados e ainda foi indicado ao Globo de Ouro. Pertencente à categoria Drama, essa produção, com título original de Capharnaüm, conta a história de um menino de 12 anos que cumpre uma sentença de cinco anos de condenação por causa de um crime violento. Enquanto cumpre a sua pena, o garoto processa os pais por negligência. Vamos combinar que a sinopse é matadora. Estou bem curiosa para assistir a esse filme. E, aparentemente, ele realmente deve chegar entre os cinco finalistas. A conferir se merece a estatueta.

Outro fortíssimo candidato deste ano. Dirigido pelo excelente Alfonso Cuarón, esse Drama ostenta nada menos que 90 prêmios e foi indicado em três categorias do Globo do Ouro – Melhor Roteiro, Melhor Diretor e Melhor Filme em Língua Estrangeira. Se existe um filme que saiu na dianteira na disputa, sem dúvida alguma, é este. A produção foca em um ano da vida de uma empregada doméstica de uma família de classe média da Cidade do México no início dos anos 1970. Será o meu próximo filme. Logo mais conto sobre ele aqui no blog. 😉

Filme recém comentado aqui no blog, essa produção, com título original de Zimna Wojna, marca o retorno à direção do interessante cineasta Pawel Pawlikowski. Muito bonito, com uma direção de fotografia primorosa e com um resgate cultura do folclore polonês muito interessante, esse filme carece apenas de uma história um pouco mais original. Sim, ele é um clássico filme de romance, mas tem uma pegada histórica e crítica interessantes. Dos gêneros Drama, Musical e Romance, essa produção já acumula 21 prêmios – e tem boas chances de chegar entre os cinco finalistas. Mais uma vez, recomendo que assistam ao filme antes de ler a minha crítica – mas nela, vocês encontram tudo que eu achei sobre a produção.

Último filme da lista de pré-finalistas desta categoria do Oscar 2019, esse filme sul-coreano também é um dos mais “diferentões” na disputa – pelo menos entre os que eu assisti até agora. Ele não é óbvio, o que é algo interessante a citar da produção dirigida por Chang-dong Lee. O filme é comentado nesta crítica aqui no blog – veja o filme primeiro e leia a crítica depois. Por ser mais “diferentão”, não sei se este filme terá força para chegar entre os finalistas. Com título original de Beoning, esse filme já ostenta 26 prêmios.

Melhor Maquiagem e Cabelo:

Uma das categorias de menor “relevância” do Oscar, ao menos para o grande público, a categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo teve sete filmes pré-selecionados para a disputa em 2019. De acordo com a Academia, todos os membros que votam nesta categoria, ou seja, maquiadores e cabeleireiros que trabalham para a indústria do cinema, serão convidados a assistir a trechos de 10 minutos dos filmes concorrentes no dia 5 de janeiro de 2019. Depois de conferirem o trabalho dos pré-selecionados, eles vão escolher os três finalistas nesta categoria. Não vou comentar cada filme, mas apenas trazer a relação dos filmes que avançaram nessa disputa. Confira:

  • Black Panther
  • Bohemian Rhapsosy
  • Border
  • Mary Queen of Scots
  • Stan & Ollie
  • Suspira
  • Vice

Melhor Trilha Sonora:

Segundo a Academia, 156 trilhas sonoras estavam elegíveis para esta categoria, mas 15 delas foram selecionadas para avançar na disputa. Os membros que fazem parte do “ramo” Música da Academia votaram para determinar a lista dos finalistas – e eles também vão escolher os cinco que irão realmente disputar a estatueta dourada no ano que vem. Confira os filmes que avançaram na disputa:

Melhor Música Original:

Aqui nós temas a um dos filmes que estão em uma batalha muito pessoal pela consagração no Oscar 2019. Sim, estou me referindo ao “conturbado” (por dividir opiniões) A Star is Born. O filme que, para mim, deveria ser forte concorrente apenas nesta categoria e em Melhor Trilha Sonora – para a qual, para o meu espanto, ele nem chegou a ser indicado -, pode emplacar diversas indicações nas categorias principais. De acordo com a Academia, 90 músicas podiam ser votadas pelos membros participantes do “ramo” Música, mas apenas 15 chegaram a ser pré-finalistas. Os membros da Academia que fazem parte do grupo que vota em Música escolheram essa lista e também vão votar nos cinco finalistas. Confira quem avançou na disputa:

  • “When A Cowboy Trades His Spurs For Wings” (The Ballad of Buster Scruggs)
  • “Treasure” (Beautiful Boy)
  • “All The Stars” (Black Panther)
  • “Revelation” (Boy Erased)
  • “Girl In The Movies” (Dumplin)
  • “We Won’t Move” (The Hate U Give)
  • “The Place Where Lost Things Go” (Mary Poppins Returns)
  • “Trip A Little Light Fantastic” (Mary Poppins Returns)
  • “Keep Reachin” (Quincy)
  • “I’ll Fight” (RBG)
  • “A Place Called Slaughter Race” (Ralph Breaks the Internet)
  • “OYAHYTT” (Sorry to Bother You)
  • “Shallow” (A Star Is Born)
  • “Suspirium” (Suspiria)
  • “The Big Unknown” (Widows)

Melhor Curta de Animação:

Inicialmente, essa categoria tinha 81 curtas de animação classificados para concorrer entre si. Desta lista, restaram 10 filmes que avançaram na disputa. Os membros das “seções” de curtas-metragens e de animação votaram tanto para escolher essa lista quanto a dos finalistas na categoria. A exemplo da outra categoria de curtas, vou produzir um post sobre os concorrentes depois deles terem sido anunciados. Por enquanto, confira quem avançou na disputa:

  • Age of Sail
  • Animal Behaviour
  • Bao
  • Bilby
  • Bird Karma
  • Late Afternoon
  • Lost & Found
  • One Small Step
  • Pépé le Morse
  • Weekends

Melhor Curta:

No início, 140 curtas foram qualificados para concorrer nessa categoria. Desta lista, 10 avançaram na disputa. Tanto os membros das “seções” curtas-metragens quanto longas de animação votaram para determinar essa lista e também para escolher as produções que farão parte da lista final dos indicados. Confira as produções que avançaram:

  • Caroline
  • Chuchotage
  • Detainment
  • Fauve
  • Icare
  • Marguerite
  • May Day
  • Mother
  • Skin
  • Wale

Melhores Efeitos Visuais:

Fechando a lista das nove categorias que tiveram produções divulgadas como pré-finalistas, chegamos a essa relação. De acordo com a Academia, o Comitê Executivo do Ramo de Efeitos Visuais determinou a lista de finalistas. Agora, no dia 5 de janeiro de 2019, todos os membros desse “ramo” serão convidados a assistir a trechos de 10 minutos dos filmes pré-selecionados para, após as exibições, escolher os cinco filmes que realmente serão votados nessa categoria do Oscar. Eu assisti a alguns dos concorrentes, como vocês podem ver abaixo, e é natural que os filmes de super-heróis dominem nessa categoria, mas acho que tanto First Man quanto Solo deveriam avançar na lista dos finalistas. Veremos. Confira quem avançou na disputa:

A votação dos indicados ao Oscar 2019 começa no dia 7 de janeiro de 2019 e termina no dia 14 do mesmo mês. Os indicados ao Oscar serão anunciados no dia 22 de janeiro. Até lá, bóra ver ao máximo de filmes destas listas – ao menos nas categorias Documentário e Filme em Língua Estrangeira. Até breve. 😉

Zimna Wojna – Cold War – Guerra Fria

cold-war

Um filme belíssimo, com uma fotografia incrível, muita música e uma história triste. Cold War mostra a beleza e a profundidade da fotografia preto e branco e valoriza a música como poucos filmes recentes. Mas a história em si não é exatamente inovadora ou surpreendente. Na verdade, tanta beleza contrasta com uma história de um amor impossível que é um bocado previsível. Mas o amantes não querem saber disso, e persistem. Uma história necessária sobre um tempo já ultrapassado – mas sobre o qual, alguns, parecem ter saudade.

A HISTÓRIA: Começa com a câmera focada em uma gaita. Em seguida, a câmera sobe até focar o rosto do homem que está tocando o instrumento. Ele começa a cantar. A canção é sobre uma frustração amorosa. Ao lado dele, um outro músico toca um violino e ajuda a fazer o dueto. Enquanto eles cantam, vemos o frio se plasmando no ar conforme cada palavra é pronunciada. Corta.

Em um furgão, o motorista e empresário Kaczmarek (Borys Szyc) pergunta para Irena (Agata Kulesza) se ela não se preocupa que a música que eles ouviram seja muito “monótona e primitiva”. Ela diz que não, e pergunta o porquê daquela indagação. Kaczmarek diz que de onde ele vem, todos os bêbados cantam daquele jeito. Irena e Wiktor (Tomasz Kot) não se importam com o que o acompanhante deles acha. A missão deles é registrar e resgatar a música típica e cada vez mais esquecida de seu país. A história começa na Polônia em 1949 e segue por diversos anos para adentrar nos bastidores da Guerra Fria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cold War): Sim, amigos e amigas do blog, muito tempo passou desde que eu estive por aqui pela última vez. Correria de final de ano, vocês podem imaginar. Primeiro, finaleira do trabalho. Depois, preparativos para o Natal. Mas agora, perto do final do ano, finalmente consigo voltar a escrever uma crítica aqui no blog.

Assisti à Cold War há várias semanas. Antes mesmo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgar a lista dos nove filmes que avançaram na disputa do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2019 – falo mais sobre isso no final desse texto. Algo que impressiona nesse filme, em primeiríssimo lugar, é a beleza da produção. Esse parece ser o ano das direções de fotografia em preto e branco. Além de Cold War, temos a Roma, outro forte concorrente do Oscar 2019, que também tem uma fotografia em preto e branco.

As escolhas do diretor e roteirista Pawel Pawlikowski, que criou a história de Cold War e escreveu esse roteiro com a ajuda de Janusz Glowacki e Piotr Borkowski, em relação à condução da trama, ao menos em relação às imagens, são perfeitas. Os ângulos das câmeras, a dinâmica das filmagens e, principalmente, a direção de fotografia Lukasz Zal realmente impressionam. Esses são os pontos fortes da produção. Assim como o trabalho dos atores principais, que fazem uma entrega muito coerente com o que a história nos apresenta.

Mas afinal, que história nos conta Pawlikowski? Cold War tem pelo menos duas narrativas centrais. A primeira, envolve a questão que fica mais evidente logo que ocorre o primeiro encontro entre os protagonistas. O professor, compositor e músico Wiktor fica fascinado por Zula (Joanna Kulig) logo que a vê. A garota é muito mais jovem que ele, mas parece saber muito bem o tipo de interesse que ela desperta nos homens – e no seu novo objeto de desejo.

O romance entre o professor e a aluna não demora muito para acontecer. Nesse sentido, o filme lembra um pouco ao clássico Lolita. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, a história entre eles se complica um pouco mais, especialmente quando ele foge do controle que eles sofrem no país conquistado pelos russos enquanto ela decide ficar. Muito mais tarde, eles conseguem se reencontrar e viver em paz e em liberdade por um período, mas a imaturidade de ambos – ou o orgulho, como quiserem – acaba colocando tudo a perder novamente.

Fora a história de amor entre o professor e a sua aluna, Cold War nos conta uma outra história importante. A manipulação que o regime comunista fazia da realidade para conquistar a sua “narrativa perfeita”. Assim, o projeto de resgate da arte folclórica feita com esmero e boas intenções pelos professores e especialistas Wiktor e Irena acaba sendo manipulado pelo burocrata interesseiro Kaczmarek.

Quando o “camarada” do governo pede que a Mazurka, o projeto cultural liderado por Wiktor e Irena “trabalhem” temas de interesse do regime comunista, como a reforma agrária, a paz mundial e os riscos para que ela aconteça e homenageie o líder do proletariado mundial (na época, Stalin), Irena afirma que estes temas não interessam às pessoas da comunidade rural e que a Mazurka tem como proposta resgatar o folclore legítimo. Mas isso não é prolema para Kaczmarek, que faz o grupo encarnar as músicas que o regime considera como convenientes.

Assim, durante a Guerra Fria, sabemos que os dois lado da disputa – tanto União Soviética/Rússia quanto Estados Unidos – manipulavam as informações e a realidade conforme era mais interessante para cada lado. Curioso que hoje, tanto tempo depois, alguns regimes “democráticos” e líderes de grandes países façam o mesmo – manipulam a verdade conforme o seu próprio interesse. E nem todos parece realmente se importarem com isso.

Nesse sentido, Cold War se revela um filme bastante interessante. Ele nos mostra os bastidores da disputa de poder da época e como o jogo de interesses acontecia. Essa é a parte mais interessante da história. O ir e vir do romance dos protagonistas traz um elemento pessoal e dramático para trama, mas não torna ela realmente mais interessante ou original. Na verdade, apesar dos romances sempre serem interessantes, no caso de Cold War esse elemento apenas enfraquece a produção.

Quem gosta de um sofrido e arrastado romance “clássico”, cheio de idas e vindas, certamente irá discordar de mim. Mas beleza. Como vocês bem sabem, o cinema é algo muito pessoal. Para mim, as pressões e as manipulações da guerra de versões daquela época acaba sendo mais interessante, assim como a parte artística do filme – seja na música, seja na fotografia -, do que o romance dramático e um bocado previsível dos protagonistas. Apesar do roteiro não caprichar tanto na trama entre eles, devo admitir que o trabalho dos atores é excelente.

Os protagonistas vivem uma relação conturbada, um amor que nem sempre pode ser considerado saudável. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela morre de ciúmes dele, enquanto ele não sabe lidar muito bem com o fato dos dois estarem juntos em uma Paris cheia de possibilidades. Parece que eles sofrem daquela síndrome clássica de quem “não consegue ser feliz”. Visivelmente eles se amam, mas acredito que ela não foge com ele da primeira vez porque ela não quer ser uma párea. Se for para ela escapar do regime totalitário, que seja por uma via que não pode ser contestada.

Depois que ela faz aquela besteira de voltar, após um breve período de felicidade com o amado em Paris, ele faz a besteira de ir atrás dela. O “destino” deles passa a ser selado a partir dali, já que ele é taxado como traidor – por ter abandonado o país e dado as costas para o regime comunista. Nessa parte, o filme parece fazer realmente sentido em suas duas histórias paralelas, já que partimos do coletivo para o individual e, nesse último aspecto, no romance impossível dos protagonistas, vemos de forma simbólica como a Guerra Fria contribuiu apenas para terminar com o amor. Seja de uma forma particular, seja em um contexto maior e coletivo.

Vendo sob este aspecto, este filme tem muito mais acertos do que erros. E ao fazer esta análise, eu vou aumentar a nota original que estava dando para esta produção – avaliação que estava abaixo de 9. Acho que o filme merece mais do que isso. Especialmente pelo seu começo, com aquela pegada de resgate do folclore original polonês. Um grande acerto de Pawlikowski ao fazer isso, sem dúvida. Um belo filme, recheado de boas intenções.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Pawel Pawlikowski e o diretor de fotografia Lukasz Zal são responsáveis por algumas cenas e sequências que são uma verdadeira pintura e/ou preciosidade. Essas imagens valem a experiência do filme e a narrativa um tanto “arrastada” de alguns momentos da produção. Os dois também estão sempre valorizando a beleza da protagonista, a sempre ótima Joanna Kulig. Com o holofote adequado, a atriz consegue magnetizar qualquer espectador. Em Cold War ela faz mais um trabalho exemplar.

Sem o charme ou a beleza de sua parceira de cena, Tomasz Kot acaba dando conta do recado por causa de seu talento. Ele encarna muito bem o homem mais maduro que não consegue lidar bem com o furacão com o qual ele está se relacionando. Os dois tem química e fazem uma bela parceria. Algo fundamental em um filme que é bem centrado em seus personagens.

A música e a fotografia roubam a cena nessa produção. A segunda, como comentei em mais de uma ocasião, é obra de Lukasz Zal. A segunda, a música, leva a assinatura, ao menos nos arranjos, de Marcin Masecki. Ele conta com um timaço que é responsável pelo Departamento de Música. Vale citá-los: Anna Bilicka, Piotr Domagalski, Maurycy Idzikowski, Piotr Knop, Luis Nubiola, Maciej Pawlowski e Jerzy Rogiewicz.

Gostei muito da direção de Pawel Pawlikowski. Ele constrói o filme, ao menos no apelo visual, com esmero e perfeição. Apenas o seu roteiro, a meu ver, começa muito bem e depois cai em um certo “lugar-comum” com o romance cheio de auto-sabotagem dos protagonistas. Ainda assim, ele faz um belo trabalho.

O filme é focado muito no talento e no trabalho de dois atores: Joanna Kulig e Tomasz Kot. Eles fazem uma bela parceria, como comentei antes, e conseguem convencer aos espectadores com perfeição. Além deles, vale citar o belo trabalho de Borys Szyc como Kaczmarek, o empresário manipulador (e um bocado canalha por se aproveitar de Zula) do grupo folclórico; Agata Kulesza como a idealizadora do grupo, Irena, que acaba pulando fora quando vê o seu projeto ser manipulado para favorecer aos interesses do regime comunista; Cédric Kahn como Michel, o diretor que acaba se aproveitando também de Zula; e Jeanne Balibar como Juliette, a poetisa e escritora que engata um romance com Wiktor antes de Zula voltar à cena.

Entre os aspectos técnicos do filme, além dos elementos já comentados, vale destacar o belo trabalho de Jaroslaw Kaminski na edição; de Benoît Barouh, Marcel Slawinski e de Katarzyna Sobanska-Strzalkowska no design de produção; e de Ola Staszko nos figurinos.

Interessante como esta produção mostra as mudanças dos personagens e do contexto cultural e político da Guerra Fria entre o final dos anos 1940 e até os anos 1960. A falta de esperança que resume a reta final da produção pode ser encarada como uma certa crítica aos efeitos que aquela época provocaram nas pessoas e no mundo. De fazer pensar.

Cold War estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até novembro, o filme participaria, ainda, de outros 36 festivais de cinema em diferentes partes do mundo. Nessa trajetória, o filme ganhou 21 prêmios e foi indicado a outros 54. Números impressionantes. E que revelam a força desta produção. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Pawel Pawlikowski no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Editor Europeu, Melhor Atriz Europeia para Joanna Kulig, Melhor Diretor Europeu, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Filme Europeu conferidos no European Film Awards; o de Melhor Filme no FIPRESCI Prize do Festival de Cinema de Estocolmo; e o de Melhor Filme em Língua Estrangeira segundo a National Board of Review.

Agora, vale comentar uma ou duas curiosidades sobre Cold War. No final da produção, o diretor e roteirista Pawel Pawlikowski dedica o filme aos pais dele. Segundo as notas de produção do filme, o relacionamento “turbulento” dos protagonistas do filme foi inspirado na história real dos pais do diretor. Os pais de Pawlikowski se separaram e voltaram a se unir várias vezes, inclusive mudando de países em diversas ocasiões entre essas idas e vindas no romance. Curioso.

Cold War foi o primeiro filme falado em polonês a ser exibido na competição oficial do Festival de Cinema de Cannes desde o ano de 1990. Quando foi exibido no festival, o filme foi ovacionado por 18 minutos.

Dois dos personagens centras da trama foram inspirados em outras pessoas reais. Mais especificamente nos criadores, na vida real, do mundialmente famoso grupo de dança folclórica polonesa Zespól Piesni i Tanca Mazowsze. Os criadores desse grupo, Tadeusz Sygietynski e Mira Ziminska se casaram e, depois da Segunda Guerra Mundial, percorreram o interior da Polônia para buscar jovens talentos no canto e na dança. No filme, contudo, os criadores do grupo folclórico não eram casados – apenas eram parceiros de trabalho.

Depois de ter pensado nos protagonistas de Cold War, Pawlikowski buscou uma maneira de uni-los. E foi aí que surgiu a ideia dele “homenagear”, mesmo que livremente, ao grupo de dança folclórica polonês. A música, assim, passou a ser uma boa “desculpa” para unir aos personagens. Curioso que a história “nasceu” desta forma. Para mim, a homenagem ao grupo folclórico é o grande acerto desta produção – e o seu diferencial.

Pawlikowski e a atriz Joanna Kulig tiveram a atriz Lauren Bacall em mente para construírem a personagem Zula – especialmente na apresentação de seus diálogos mais cortantes e sarcásticos.

Procurei saber um pouco mais sobre Pawel Pawlikowski. O seu nome não me parecia estranho. Buscando sobre ele aqui no blog, descobri que eu já assisti a outros de seus filmes: Ida (comentado por aqui). Esse outro filme, também com uma fotografia maravilhosa em preto e branco, achei mais original e porreta. Ainda que ela não foi a protagonista de Ida, mas Joanna Kulig também está na outra produção – que, vejam que coincidência, foi também a última que rendeu uma crítica no blog em um determinado ano, no caso, em 2014. Curiosamente, Cold War é o primeiro trabalho de Pawlikowski na direção desde Ida. Ou seja, estou acompanhando ele bem desde então. 😉

Pawlikowski, é importante dizer, não é um diretor que lança muitos filmes. Desde 1987, ele dirigiu um episódio de uma série de documentários para a TV, quatro documentários feitos para a TV, um curta documentário para a TV e seis filmes longa-metragem para os cinemas – sendo Cold War o de número 6. A boa nova é que ele já está em pré-produção de seu novo filme, Limonov. Acho que o nome dele merece ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 textos positivos e nove textos negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o nível das notas dos dois sites chama a atenção por estarem acima da média. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 91 para o filme (fruto de 32 críticas positivas), assim como o selo “Metacritic Must-see” (ou seja, a recomendação do site para que o filme seja visto). Ou seja, Cold War caiu no gosto dos críticos e do público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Cold War teve um desempenho pífio nas bilheterias dos Estados Unidos: cerca de US$ 99 mil. Ou seja, até o momento, esse foi um filme essencialmente de festivais. Veremos se ele terá poder de “barganha” para chegar forte ao Oscar – para ganhar, me refiro, porque ele deve ser indicado entre os cinco finalistas.

CONCLUSÃO: Um filme sobre arte, amor e as limitações para estes dois elementos quando a política e os jogos de poder entram em cena. A maior qualidade de Cold War é resgatar a cultura do interior, das pessoas comuns e a sua poesia propositalmente relegada ao esquecimento. Um belo filme, pelo cuidado que o diretor tem com a fotografia, o trabalho dos atores e, em especial, o registro de pessoas comuns da Polônia.

O único porém da produção é que ela realmente não surpreende na narrativa, já que trata-se de uma história de amor impossível tanto por conta da perseguição política que alguns sofreram na Polônia comunista quanto pela falta de sintonia entre os personagens centrais. Como tantas histórias de amor, eles não souberam lidar com os seus próprios sentimentos e expectativas, e quando isso surge no filme, a história fica um tanto “comum”. Apesar disso, é um belo filme, sem dúvidas. Especialmente por seu visual e pelo resgate cultural que faz da cultura polonesa.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: No dia 17 de dezembro a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou uma lista mais curta de filmes “finalistas” em nove categorias do Oscar 2019. Uma das categorias contempladas com a “lista curta” de indicados foi a de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Cold War está entre os nove filmes que avançaram na disputa nesta categoria.

Junto com Cold War estão Birds of Passage; The Guilty; Never Look Away; Shoplifters; Ayka; Capernaum; Roma e Burning. Destes, assisti apenas a The Guilty (comentado por aqui) e a Burning (com crítica neste link). Me parece que Roma, Capernaum e Never Look Away são fortes concorrentes. Assim, em teoria, sobrariam apenas duas vagas para os demais filmes. Uma destas vagas deverá ser de Cold War. Mais que nada, pela beleza da produção – nem tanto pela força da história.

Para mim, não seria uma surpresa Cold War chegar até os cinco finalistas ao prêmio nesta categoria. Na verdade, acredito que ele tem méritos para chegar lá. Agora, ele levar a estatueta… entre os filmes que eu assisti, continuo preferindo a The Guilty. O próximo da lista, que vou assistir – já dou spoiler para vocês – será Roma que, para muitos, é o favoritíssimo nessa categoria no Oscar 2019. Veremos. Acho que Cold War chega entre os finalistas, mas dificilmente levará o prêmio. Ainda que a Academia ama um filme sobre guerra, não é mesmo? Veremos…