Cutie and the Boxer

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Há pessoas que fazem sucesso no mundo da arte, ganhando notoriedade e rios de dinheiro. Para cada pessoa que atinge este patamar, centenas ou até milhares de outros artistas apenas lutam para pagar as próprias contas. Cutie and the Boxer é um documentário que abre mão de focar no primeiro perfil para abraçar a história de vida e o cotidiano de um casal de artistas que, depois de décadas juntos, continuam se esforçando para ter o que colocar na mesa todos os dias. Um filme sensível e que não deixa nenhuma ponta solta.

A HISTÓRIA: Noriko Shinohara penteia os longos cabelos brancos e se olha no espelho. Depois, ela faz tranças com os fios, pacientemente. Pinta os lábios. Prepara o café e chama Ushio Shinohara, lembrando a ele que o seu aniversário chegou. Ele levanta, escova os dentes, e comenta que está fazendo 80 anos de idade. Ela presenteia o marido com duas pantufas, e depois eles comemoram a data comendo dois bolinhos individuais. Noriko comenta que ele está todo lambuzado com o bolo, e Ushio responde que não está escutando ela – e que esta é a fórmula para os dois estarem juntos há tanto tempo. Este é o começo do mergulho na história do casal de artistas que luta para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Cutie and the Boxer): Este é um filme que leva um bocado de tempo para responder àquela pergunta fundamental: afinal, sobre o que trata esta história? Ele parece algo no início, se transforma em outro tema na sequência e, no final, revela que há pelo menos dois assuntos principais na mira do diretor e roteirista Zachary Heinzerling.

Se você, como eu, não gosta de ver a trailer e de saber muito sobre os filmes antes de assisti-los, acredito que também levou um tempo para entender Cutie and the Boxer. E isso é um recurso interessante do filme de Heinzerling. Diferente de outras produções que estão concorrendo ao Oscar deste ano, este filme não tem pressa de dizer a que veio, ou sobre o que vai tratar essencialmente.

Desta forma, no início, parece que vamos mergulhar no cotidiano simples de um casal de japoneses que mora em Nova York e que trabalha com arte. De fato, Cutie and the Boxer trata deste mercado e de tudo que ele significa. Há desde a “crise” artística – no filme, na verdade, acompanhamos mais alguns minutos de insegurança de Ushio do que a uma crise propriamente – até as negociações com quem decide o que vai ser exposto nas galerias.

Como comentei lá no início, o mercado exposto em Cutie and the Boxer não é nada fácil. E ao assistir, logo nos primeiros minutos do filme, o trabalho de Ushio socando uma tela com certo sacrifício, pensamos no que é considerado arte. Desde o final do século passado há quem questione o valor artístico – há muitos que seguem não entendendo esta arte moderna do século 21 e/ou pós-moderna – do que as galerias vêem valorizando nos principais centros de cultura do mundo nos últimos 20 ou 30 anos.

A percepção da arte, seja ela da manifestação que for, é algo muito, muito particular. E ainda que eu acredite nisso – inclusive para o cinema -, assistindo Ushio pintando aquela enorme tela acreditando no que estava fazendo, pensei: esta arte que não é acadêmica e nem previsível e que predomina nos museus pelo mundo nos obriga a sair de nós mesmos. Sim, porque para entender o que Ushio apresenta, é necessário saber sobre ele. E o que vemos por aí exige esse movimento da gente. De não apenas entendermos o que o artista pensa, sente e quer dizer, mas também o que aquilo pode nos significar.

Cutie and the Boxer trata do fazer artístico, desta dura missão que todos nós temos – ou deveríamos ter – de valorizar as nossas vocações, independente do quanto é difícil ou fácil seguir no caminho que elas nos exigem. Ushio vive da arte e pela arte, e chega até a lamentar isso em certo momento do filme. Heinzerling não tem dúvidas em mostrar o cotidiano complicado de Ushio e da mulher, Noriko, que vivem de aluguel e que tem dificuldades de manter as contas em dia.

Aos poucos fica claro que Ushio é um artista conhecido e que ele tem um certo prestígio no meio. De acordo com a própria página dele na internet, que pode ser acessada aqui, o artista de quase 82 anos segue a linha neo-dadaísta e teve trabalhos expostos no Hara Museum of Contemporary Art, no Centre Georges Pompidou (Paris), no Guggenheim Museum Soho (Nova York), na Japan Society (Nova York), no The National Museum of Modern Art (Tóquio), na Leo Castelli Gallery (Nova York), na Galerie Oko (Berlim), no The Museum of Contemporary Art Los Angeles, no The Metropolitan Museum of Art (Seoul), entre outros.

Apesar deste currículo, e de ter desembarcado em Nova York em 1969, Ushio fala, basicamente, japonês. Natural ele dialogar com a esposa, em casa, no idioma materno de ambos. Mas chama a atenção em Cutie and the Boxer que o casal destila o japonês com praticamente todos os interlocutores – só em poucas ocasiões percebi que Noriko fala inglês.

Achei este aspecto interessante porque ele demonstra o quanto os Shinohara seguiram em sua pequena “bolha” cultural, preservando a língua, a culinária e os costumes japoneses mesmo após viver por décadas nos Estados Unidos. Este tema é curioso porque há muitos “guetos” culturais mundo afora. Encontrei alguns deles na Espanha, quando vivi em Madrid, mas sei que eles existem na Alemanha, nos Estados Unidos e em todas as partes.

Fica “fácil” para os estrangeiros se reunirem, ainda mais em tempos de redes sociais, em países estrangeiros onde passaram a viver por distintas razões. Posso falar, por vivência própria, que manter laços com a cultura original é algo interessante, especialmente quando você vai para um lugar sem nenhuma convivência com amigos ou familiares, mas que é igualmente fundamental sair deste “gueto” e conviver com pessoas da cultura onde você está imerso. Do contrário, você não aprende com o diferente e nem se dá o prazer de descobrir outras formas de viver e pensar que podem lhe trazer bons ensinamentos.

O detalhe do idioma japonês é um de tantos outros do cotidiano dos Shinohara que chama a atenção. Talvez essa falta de imersão do casal na cultura dos Estados Unidos tenha contribuído para que Ushio e Noriko não ganhassem uma projeção maior no país. Afinal, por mais cosmopolita que Nova York seja, ela é mais receptiva com estrangeiros que são turistas ou que ficam um breve período por ali, mas aqueles que permanecem por mais tempo devem, pelo menos, falar o inglês e imergir um pouco no “way of life” local. Característica esta que move qualquer cidade, seja ela menos ou mais cosmopolita.

Desta forma, não é complicado entender porque, apesar de conhecido, Ushio não conseguiu, após décadas em Nova York, de fato emplacar na cidade ou no mercado das artes. Em certo momento, quando a curadora do Guggenheim pede por uma tela antiga do artista e a mulher dele explica que aquele trabalho está indisponível porque ele foi prometido para um amigo do casal, fica evidente a diferença cultura entre os interlocutores.

Além disso, alguém pode defender a ideia que Ushio não se tornou um artista vital ou de grande referência simplesmente pelo fato de que o que ele fazia não era tão bom assim ou mesmo tão original. De fato, em certo momento do filme, quando a produção apresenta informações práticas da trajetória do artista, fica evidente a relação dele com a pop art e Basquiat, para citar apenas duas referências. Mesmo com estas referências, me pareceu claro que Ushio tem um estilo próprio. E afirmar que o que ele faz é ruim… bem, isso depende da ótica de cada um.

Algo que achei fundamental, neste filme, é que ele desbrava de forma muito consciente o meio artístico, revelando as negociações e as dificuldades para cada exposição na mesma medida em que mostra a expectativa e a frustração dos artistas. Mas o interessante desta história é que ela vai, pouco a pouco, mostrando como o filme também trata de outro grande assunto: o casamento. A união de décadas entre duas pessoas que tem muitas semelhanças e diversas diferenças.

Fiquei fascinada como, conforme o trabalho de Zachary Heinzerling ia se desenvolvendo, a personagem de Noriko ganhava cada vez mais importância e de como a relação dela e de Ushio ganhava protagonismo. Não é fácil compartilhar uma vida por muito tempo, ainda mais quando há tanta frustração em jogo – e além de Ushio não conseguir decolar na carreira como o casal gostaria, ele ainda viveu boa parte da vida sofrendo com o alcoolismo.

É linda a forma com que o diretor aposta na animação de desenhos de Noriko para contar uma parte importante da história. Parte esta que revela não apenas a intimidade do casal, mas como a arte pode ser libertadora porque não apenas fala de sentimentos que não são verbalizados, mas porque concretiza desejos que nunca poderão ser efetivados por outro meio. Belíssima sacada de Heinzerling que, claramente, deseja que Noriko tenha no filme o protagonismo que não conseguiu com a própria arte. E ela parece conseguir essa libertação.

De forma muito honesta e até singela, Cutie and the Boxer trata, na mesma medida, dos desafios, tropeços e pequenas alegrias da vida compartilhada de um casal que, além de dividir a vida, também divide o amor pela arte. É preciso paciência, perseverança, compaixão e uma dose de “foda-se” para insistir nos dois caminhos – do casamento e da materialização das nossas vocações. Estes são alguns dos ensinamentos de Cutie and the Boxer.

O filme só não é melhor, para o meu gosto, porque perde uma boa oportunidade de cercar os personagens principais com uma leitura mais ampla. Senti falta de ouvir especialistas de arte ou mesmo amigos/familiares de Noriko e Ushio sobre o trabalho e a vida do casal. Essa contextualização ficou faltando. Mas dá para entender a escolha de Heinzerling em fazer um filme intimista e centrado no cotidiano dos artistas. Ainda assim, senti falta de um foco mais amplo.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Noriko e Ushio são dois personagens. Como praticamente toda e qualquer pessoa. E descobrimos as nuances de cada um deles graças ao excelente trabalho do diretor Zachary Heinzerling, que conseguiu entrar bem no cotidiano dos artistas e, com a ajuda da própria arte que eles produzem – especialmente o trabalho de Noriko -, desbravar a intimidade deles.

Aparentemente Heinzerling teve um grande respeito pelos personagens centrais de seu documentário. A ponto de não “forçar uma barra” para conseguir alguns depoimentos. Comento isso porque achei curioso como o filho do casal, Alex Shinohara, aparece na produção e praticamente não abre a boca. Teria sido interessante escutar a versão dele dos fatos, mas pareceu que Heinzerling quis, muito mais que levantar depoimentos, ser uma “testemunha ocular” do cotidiano dos artistas.

Algo que chama muito a atenção neste filme é a excelente trilha sonora de Yasuki Shimizu. As músicas dela valorizam a produção e nos embalam em diversos momentos, dando ritmo para a história. Muito bom também o trabalho de Heinzerling na direção de fotografia e o de David Teague na edição.

Um trabalho importante para a história é o do animador Chris Monaco. É ele que, junto com o assistente Jeffrey Hsu, dá vida para a arte de Noriko.

Cutie and the Boxer estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2013. De lá para cá, a produção participou de outros 12 festivais, incluindo os de Tribeca, Karlovy Vary, de Londres e de Estocolmo. Nesta trajetória, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros quatro (incluindo um Oscar).

Entre os prêmios que recebeu, estão o Charles E. Guggenheim para artistas emergentes no Full Frame Documentary Film Festival, o Prêmio Grierson – Menção Especial no Festival de Cinema de Londres, o prêmio de Melhor Diretor de Documentários no Festival de Sundance e o segundo lugar no prêmio da audiência na categoria Documentário do Festival de Cinema de Tribeca.

De acordo com o site Box Office Mojo, Cutie and the Boxer conseguiu pouco mais de US$ 197 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho pífio. Pelo visto o filme não conseguiu ainda uma boa distribuição – o que diminui, ainda mais, as chances dele de emplacar em premiações.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos. Eles dedicaram 66 textos positivos e três negativos para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,8.

Para quem ficou interessado no neo-dadaísmo, achei esse texto interessante que fala de Jasper Johns, um dos expoentes do movimento e, através dele, sobre esta vertente artística. Bem interessante para situar o casal Shinohara no seu contexto artístico específico.

Cutie and the Boxer é uma produção 100% dos Estados Unidos. Desta forma, esta crítica entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog e que pediu por uma série de críticas daquele país.

CONCLUSÃO: A arte e o casamento são vistos aqui sem tintas falsas. Se o objetivo deste filme era desbravar a relação de um homem e de uma mulher que vivem da arte e que construíram uma vida juntos, este objetivo é alcançado com perfeição. O cotidiano do casal é revelado desde sua faceta mais ordinária até o lado da moeda em que eles falam de suas aspirações e desejos.

A ótica dos artistas é valorizada do primeiro até o último minuto, com Cutie ganhando certo protagonismo no processo. Mas a escolha por ficar centrado apenas nos dois artistas faz o filme perder outros aspectos que poderiam explicar a trajetória de cada um deles. A história perde um pouco com isso, mas nada que tire a beleza e a capacidade de fazer pensar que a produção tem.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Este é um ano forte para a categoria de Melhor Documentário da maior premiação de Hollywood. Não há filme ruim na disputa. Apenas a questão de gosto diferencia uns dos outros, mas a qualidade de cada produção concorrente é bastante alta.

Com Cutie and the Boxer fecho a lista dos cinco concorrentes deste ano. Além deles, assisti a dois grandes filmes que ficaram de fora da disputa e os quais eu recomendo sem medo de errar: Stories We Tell (comentado aqui) e Blackfish (com crítica neste link).

Entre os filmes que concorrem, minha preferência está entre The Square (comentado aqui) e Dirty Wars (com texto neste link). O primeiro, parece, tem muito mais chances que o segundo. Cutie and the Boxer corre por fora. Antes dele, tem maiores chances o divertido e interessante 20 Feet from Stardom (comentado aqui). E mesmo não gostando tanto da produção, até The Act of Killing (com crítica neste link) parece ter chances maiores que Cutie and the Boxer.

Ainda assim, mesmo com poucas chances de levar a estatueta dourada, Cutie and the Boxer deve ser valorizado porque chegou até a lista final dos concorrentes. Ele merece ser visto, especialmente por quem gosta de artes plásticas. Mas apesar de ser bom, acho que tanto ele quanto The Act of Killing poderiam ter dado lugar para Stories We Tell e Blackfish. Questão de gosto.

Dirty Wars – Guerras Sujas

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Algumas teorias da conspiração sempre sugerem que os Estados Unidos estão por trás de matanças mundo afora. Inclusive em países onde a guerra não é declarada. O repórter investigativo acostumado a acompanhar guerras Jeremy Scahill não se conformou de fazer matérias que todos estavam fazendo no Afeganistão. Investigando o que escapava da cobertura normal dos meios de comunicação, ele foi destrinchando uma sequência de assassinatos com o aval do governo dos Estados Unidos. Dirty Wars revela o pior lado destas ordens obscuras e faz perguntas incômodas.

A HISTÓRIA: Ruas escuras e desertas. A voz do repórter Jeremy Scahill nos avisa que estamos assistindo a cenas de Kabul, no Afeganistão, às 4h. Dentro do veículo, vemos a Scahill, que se identifica como um jornalista norte-americano acostumado a escrever histórias no meio da noite. Ainda assim, ele sempre achava estranho dirigir por ruas desertas.

Em uma cidade de três milhões de habitantes, apenas uma luz estava acesa – a do veículo em que ele estava. Ele fala da rotina familiar de sua equipe em iluminar a noite para que ele pudesse fazer o seu trabalho. Mas Scahill decide fugir do comum, e a investigação que ele vai fazer lançará luz a um dos grupos mais secretos e mortíferos mantidos pelo governo dos Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a Dirty Wars): Sempre é interessante para mim ver o trabalho de um colega em ação. Especialmente quando ele faz algo tão diferente do que eu já fiz na vida. Jeremy Scahill é um destes corajosos jornalistas que viaja de guerra em guerra para nos contar parte da verdade de zonas em conflito.

Diferente de outras produções que revelaram lados obscuros de guerras recentes, como a do Iraque e a do Afeganistão, Dirty Wars é um trabalho investigativo de Scahill que começa em uma zona de guerra, mas que ultrapassa aquele cenário para revelar que a matança vai muito mais além.

Fiquei impressionada com este filme por dois motivos, essencialmente. Primeiro, pela forma interessante com que Scahill vai destrinchando o assunto ao escolher apenas alguns exemplos – entre centenas ou mesmo milhares – para ilustrar a investigação que ele leva a cabo. Depois, pela forma com que ele se expõe na produção, deixando claro não apenas o medo que sente em ruas escuras e desertas, mas em outras situações que vive, e da mesma forma ele transparece vergonha, indignação e tristeza conforme os acontecimentos vão se desenvolvendo.

Scahill apenas comprova algo que qualquer jornalista com alguma bagagem já sabe: não existe isenção quando uma pessoa conta uma história. Sempre ela vai se “contaminar” com o que vai descobrindo e, normalmente, por mais que dê vozes para os distintos lados, ela defende uma linha de raciocínio. Não por acaso o jornalismo de qualidade é, cada vez mais, interpretativo. Após conseguir muitas informações e dados, através de distintas entrevistas, o jornalista pondera tudo e apresenta para o público o resultado de um trabalho que deve primar pela seriedade.

Dirty Wars deixa muito claro, começando pelo título, qual é a argumentação final do jornalista e roteirista Jeremy Scahill e de seu parceiro no roteiro, David Riker. Eles querem destrinchar as mortes de inocentes feitas pelo governo dos Estados Unidos.

A busca inicia após o jornalista citar um ataque dos militares dos EUA na província afegã de Zabul, onde “quatro talibãs” teriam sido mortos segundo relatório da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no dia 14 de dezembro. Scahill afirma que estes relatórios proliferam apesar da estratégia oficial dizer que o principal trabalho dos militares por lá é o de furar poços e tomar chá com líderes locais.

Não acreditando naquela história, Scahill resolve conferir de perto as mortes que aparecem em poucas linhas nos relatórios da Otan. É desta forma que ele se aventura por Gardez, cidade da província de Paktia, que fica fora da zona considerada segura pelos militares para a imprensa. Lá ele fica sabendo da morte de Mohammed Daoud no dia 12 de dezembro de 2010.

A primeira entrevista é com o ancião que perdeu dois filhos, uma nora e uma neta no ataque. Uma outra mulher também foi morta. E um detalhe fundamental: duas destas mulheres estavam grávidas. Absurda a ação, e de cortar o coração os depoimentos. Scahill não esconde a surpresa ao saber de algumas revelações, e resolve levar esta história até o Comitê Judiciário do Congresso em Washington.

Ele é solenemente ignorado. E volta para a “vida ordinária”, fora da zona de guerra, o que chega a ser assustadoramente entediante – conforme a expressão do jornalista. Nesta hora, ele me fez lembrar ao genial filme The Hurt Locker (comentado aqui). Só que Scahill não fica cômodo naquela posição, especialmente após ter encontrado aquela história em Gardez.

Sem se intimidar com a ignorada que os congressistas dão para ele, o jornalista segue o próprio faro e resolve ir atrás daquela figura que aparece na foto que registra um estranho “pedido de desculpas” pelas mortes em Gardez. Seguindo a figura do vice-almirante William McCraven, ele descobre que em 2008 ele foi designado para liderar a “obscura unidade militar” conhecida pela sigla J-SOC (Joint Special Operations Command, ou algo como Comando de Operações Especiais Conjuntas).

A curiosidade do jornalista sobre esta quase desconhecida unidade faz com que ele siga atrás de mais informações, o que acaba levando ele e sua equipe para o Iêmen, onde cinco ataques mataram mais de 150 pessoas em dezembro de 2009. Novamente Scahill foca a atenção em um exemplo, o da matança em Al-Majalah, onde 46 pessoas foram mortas – sendo 14 delas mulheres e 21 crianças.

Uma semana depois daquelas mortes, o governo do Iêmen tratou de outro ataque. Um dos alvos seria o americano perseguido pelo próprio país, Anwar Al-Awlaki. O direito dos EUA procurarem ele mesmo sem que ele tenha sido julgado ou formalmente acusado de algum crime é o que motiva a parte final de Dirty Wars. Os questionamentos do filme não são apenas pertinentes, mas vitais para qualquer país soberano e que se diz democrático e defensor de direitos fundamentais para os seus cidadãos. Faz pensar.

Pouco a pouco Scahill vai tornando o J-SOC menos obscuro. Mas a tarefa do jornalista se torna especialmente complicada após a “euforia” causada pela morte de Osama Bin Laden. Este acontecimento faz parte do filme, que vai além daquele ataque “cirúrgico” e destrincha as práticas cruéis dos Estados Unidos mundo afora. Até porque a própria ação do J-SOC mudou após o “bem-sucedido” ataque contra Bin Laden. 

Dirty Wars revela o que está por trás dos panos, explicando o que mudou e como. Assusta quando o jornalista mostra o mapa mundi com vários pontos destacados onde as forças especiais estavam atuando – inclusive há um ponto identificado no Brasil. Entre todos aqueles locais para investigar, Scahill se lança para a Somália.

Esta é a parte do filme em que ele sente mais medo, não há dúvidas, e onde as regras descobertas são das mais cruéis. E o que dizer no final? Sem dúvida de que estas ações patrocinadas pelo governo dos EUA apenas alimentam o ódio e ataques de represália. Ou, na “melhor das hipóteses”, deixam muitos órfãos, pessoas enlutadas, dor e lágrimas pelo caminho.

Dirty Wars tem um ótimo texto e uma direção competente de Rick Rowley. O filme é envolvente e revela uma lógica que precisava ser denunciada. Como em qualquer grande trabalho jornalístico, mais que narrar uma história, este filme nos faz refletir ao fazer as perguntas certas. Infelizmente, nestas horas, é difícil pensar em um futuro de paz ou justiça. Tempos complicados parece que despontam no horizonte.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito da introdução deste filme, quando Jeremy Scahill comenta que ele iria atrás do que estava se escondendo atrás das histórias da guerra no Afeganistão que todos estavam contando. Porque há sempre o jornalismo “padrão”, que praticamente qualquer um pode fazer, e há aquele que não é feito por gente preguiçosa. Atuar nesta área fazendo a diferença é difícil, significa muito trabalho, suor e, não raras vezes, um bocado de perigo. Mas aí está figuras como Scahill para nos mostrar que vale a pena insistir no caminho difícil.

Por falar no jornalista, Scahill trabalha como repórter de guerras há 10 anos – quando ele fez Dirty Wars. Primeiro ele cobriu os fatos da guerra da Iugoslávia. Depois, atuou na cobertura das guerras do Iraque e do Afeganistão.

Algo louvável no trabalho de Dirty Wars são as imagens de arquivo das vítimas que Scahill consegue, assim como alguns depoimentos marcantes – seja de quem perdeu parentes ou amigos por causa dos ataques norte-americanos, seja de quem poderia ajudar a elucidar aquelas ações militares.

Da parte técnica do filme, além de uma competente e segura direção de Rick Rowley – responsável também pela excelente direção de fotografia do filme -, destaco a ótima edição de Rowley e David Riker. Muito bem pensada a mistura que eles fazem de imagens de arquivo de emissoras de TV, vídeos pessoais de algumas vítimas e novas imagens produzidas exclusivamente para este documentário. Eis uma lição de como usar diferentes recursos para contar uma história.

A trilha sonora de David Harrington aparece apenas em alguns momentos, estrategicamente estudados pelos realizadores. Por isso mesmo ela não se torna um personagem central da história, o que ajuda o filme a destacar o texto do jornalista, mas ao mesmo tempo ajuda a dar um contexto mais sensível em uma produção tão dura.

Ainda que Scahill não revele todo o passo-a-passo que seguiu para conseguir fazer este filme, ele deixa evidente grande parte de sua técnica de apuração. Uma verdadeira aula para os repórteres que seguem ou que gostariam de seguir a linha de jornalismo investigativo. Uma parte que ele deixa de fora é a que explicaria como ele conseguiu negociar algumas das entrevistas que aparecem no filme. Mas dá para entender esta escolha. Afinal, se ele contasse tudo, algumas de suas fontes poderiam ser expostas – algo que nenhum jornalista sério faria.

Gosto quando um documentário tem um discurso bem claro a defender. O estilo de Scahill me lembrou o de Michael Moore, ainda que sem o humor e os exageros dele. Mas o bacana é que ele defende um ponto de vista, tem um argumento muito claro na frente e segue com ele até o final.

Este filme só não é perfeito, na minha opinião, porque eu gostaria de ter mergulhado ainda mais nestas histórias. Quem sabe se Scahill tivesse se lançado na investigação de outras operações… ou se tivesse conseguido outras fontes do governo dos Estados Unidos para “rebater” o que ele havia descoberto… Claro que nada disso tira a força do filme, mas senti que lhe faltou um pouco mais de conteúdo para que ele se tornasse irretocável. Também me incomodou um pouco alguns momentos em que os fatos parecem perder um pouco de espaço para o personagem de Scahill – talvez se ele tivesse “desaparecido” um pouco mais da cena o efeito final teria sido melhor.

Procurei saber um pouco mais sobre Scahill. Daí que eu soube, através desta matéria do The Guardian, que Dirty Wars começou a ser filmado no início de 2010, quando o jornalista e o diretor do documentário Richard Rowley viajaram para o Afeganistão. Rowley é amigo e um colega com quem Scahill já havia trabalhado em Bagdá. Interessante como os dois foram para lá com uma ideia na cabeça e, sem querer, chegaram a um outro projeto em que ambos quiseram trabalhar.

Interessante também, na matéria do The Guardian – que eu recomendo a leitura – , o depoimento de Scahill sobre a decisão dele aparecer tanto em cena. Houve um verdadeiro embate entre ele como repórter e Rowley como diretor interessado em um protagonista. Na mesma reportagem dá para saber mais sobre a trajetória de Scahill. E foi aí que eu soube que ele, de fato, tem uma ligação com Michael Moore. 🙂 No final dos anos 1990, Scahill trabalhou com Moore em programas de TV.

Além do filme, Scahill lançou um livro com o título Dirty Wars. O livro anterior dele foi Blackwater – A Ascensão do Exército Mercenário mais Poderoso do Mundo, que tem o resumo disponível neste link da editora Companhia das Letras. Fiquei com vontade de ler a ambos.

Acho que este jornalista vale ser acompanhado. Para quem ficou interessado no trabalho de Scahill, divulgo aqui a página dele no Twitter e neste link a página do jornalista na revista The Nation.

Dirty Wars entrou em première no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, o filme participaria ainda de oito festivais. Nesta trajetória a produção recebeu oito prêmios e foi indicada a outros dois, além de receber a indicação para o Oscar de Melhor Documentário. Entre os prêmios que levou para casa, destaque para o de Melhor Direção de Fotografia – Documentário entregue pelo Festival de Sudance e para o de Melhor Documentário no Warsaw International Film Festival.

Não há informações sobre o quanto Dirty Wars teria custado, mas segundo o site Box Office Mojo o filme teria conseguido pouco mais de US$ 384 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. Pelo jeito o filme está tendo dificuldades de distribuição. Espero que uma indicação ao Oscar possa ajudar a mudar um pouco este cenário – afinal de contas Dirty Wars merece chegar a um número maior de pessoas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Dirty Wars. Achei uma boa avaliação, mas acho que ela poderia ser melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 53 textos positivos e 10 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,4.

Dirty Wars é uma coprodução dos Estados Unidos, Afeganistão, Iraque, Quênia, Somália e do Iêmen. Interessante como um filme como este conseguiu recursos de países que aparecem tão pouco na produção de filmes – talvez a contribuição deles tenha sido quase simbólica ou de apoio logístico. De qualquer forma, acredito que o “grosso” do dinheiro veio dos EUA, por isso vou incluir este filme na lista de críticas que tem aquele país como origem – e que segue uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: A campanha e o discurso político seguem em uma direção, mas a prática é exatamente o oposto. Dirty Wars revela, através do excelente trabalho do jornalista Jeremy Scahill, que a “luta contra o terror” dos Estados Unidos apenas piorou no governo de Barack Obama. Os ataques contra alvos civis que vitimam famílias inteiras – incluindo mulheres e crianças – se espalham pelo mundo em países com ou sem guerra civil ou oficial. Este documentário se destaca pela coragem e por uma linha clara de argumentação que não deixa dúvidas sobre as intenções de seu realizador. Um filme importante e que nos aponta para um futuro preocupante.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: É surpreendente ver como Dirty Wars conseguiu uma vaga no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Digo isso porque este é o filme mais “incômodo” entre os cinco indicados deste ano. Cheguei, inclusive, a temer pela vida de Jeremy Scahill. Afinal, ele revela um dos lados podres do governo de Barack Obama. E isso não é algo simples de fazer.

Pelas razões que eu comentei anteriormente na crítica, Dirty Wars é um filme corajoso e que vai ganhar ainda mais evidência ao ser indicado ao Oscar. Uma decisão igualmente valente da Academia, que não pensou em alguma reação negativa direta ou indireta que poderia ser feita pelo governo dos Estados Unidos contra a indicação do filme.

Claro que The Act of Killing (comentado aqui) também é uma produção corajosa e que rompe com um silêncio de décadas sobre a matança feita com apoio do governo na Indonésia – governo daquele país, diga-se para esclarecer. Um exemplo desta quebra da “cortina de ferro” é que um dos diretores do filme segue no anonimato – para não sofrer represálias. Então sim, The Act of Killing e Dirty Wars são as produções mais corajosas deste ano.

Dito isso, ainda vejo Dirty Wars à frente de The Act of Killing porque o trabalho de Scahill vai direto no ponto, segue uma linha de raciocínio muito clara e limpa e mexe em feridas de um governo que parece onipresente e quase “todo-poderoso” – a ponto de matar gente que lhe desagrade em qualquer parte do mundo.

Os outros dois filmes na disputa – The Square (com crítica neste link) e 20 Feet from Stardom (comentado aqui) – seguem linhas bem diferentes. E o mais interessante: todos com excelente qualidade. Sem contar os filmes que ficaram de fora da lista de cinco finalistas… Sinal de que a categoria Documentário vem se aperfeiçoando a cada ano.

A disputa no Oscar está acirrada e é difícil escolher a melhor produção. Depende, acredito, basicamente do gosto pessoal do votante. Da minha parte, acho que mudaria o meu voto para Dirty Wars pela coragem demonstrada e pela relevância do assunto – que afeta a todos, não importa em que parte do mundo você viva. Ainda que meu voto fica um pouco dividido com The Square. Qualquer um destes ganhando, acho que ganha o espectador e o cinema.

20 Feet from Stardom – A Um Passo do Estrelato

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Algumas das vozes mais marcantes do rock, do soul e do rhythm and blues (R&B) finalmente saem do papel de coadjuvantes e assumem o protagonismo. 20 Feet from Stardom resgata a história de backing vocals (vocais de apoio) marcantes da história da música e revela novos talentos que estão em busca de reconhecimento. Um filme delicioso, que acaba sendo também um repasse interessante por ótima música e uma desculpa para reunir gente boa para falar sobre a sua profissão.

A HISTÓRIA: A câmera acompanha uma mulher caminhando pelas ruas, de costas. Em seguida, aparece Bruce Springsteen comentando que é uma bela caminhada aquela que se faz do baterista até a frente do palco. Ao mesmo tempo, ele explica, estes passos são complicados. Cantar atrás, na opinião de Springsteen, ainda é uma posição que não é notada. Por isso, muitas pessoas dão aquele salto entre as duas posições.

Enquanto ele fala, várias cantoras aparecem em cena. E Springsteen explica que este salto é mais mental que o ato mesmo de cantar. Esse salto conceitual foi feito por algumas backing vocals, mas elas são minoria. O desafio da carreira destas grandes cantoras e a história da evolução delas na música é o foco deste documentário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a 20 Feet from Stardom): O diretor Morgan Neville soube como poucos começar bem um filme. Primeiro, ele deu uma palhinha de algumas das backing vocals mais interessantes que ele conseguiu reunir para 20 Feet from Stardom. E antes mesmo delas aparecerem juntas, está lá o grande Bruce Springsteen fazendo uma avaliação precisa sobre algumas das qualidades que separam aquele tipo de cantora daquela que assume o vocal principal e grava seus próprios discos.

Inicialmente, achei que este documentário tratava de aspirantes ao sucesso. Cantoras que buscam um lugar ao sol de diferentes formas – inclusive participando de concursos como o The Voice. Mas para a minha surpresa, 20 Feet from Stardom faz muito mais que isso. Ele resgata a figura histórica da backing vocal, revelando não apenas como elas ganharam “corpo” na história da música, mas como elas foram usadas e souberam usar esta máquina de fazer dinheiro.

Springsteen é um dos principais entrevistados do filme. Por isso foi inteligente o diretor colocá-lo logo no início. Mas ele não é o único. Depois, teremos o grande Mick Jagger fazendo comentários engraçados e interessantes, além de ídolos como Stevie Wonder, Sting e Bette Midler. Sheryl Crow também aparece, mas muito pouco. Outro nome de destaque que dá o seu depoimento é o produtor Lou Adler, que ganhou um Grammy. De qualquer forma, apenas citando estes entrevistados, fica evidente como as personagens principais, as backing vocals, foram e são importantes para todos os gêneros musicais.

Este resgate delas e das canções que elas ajudaram a consagrar é o que diferencia 20 Feet from Stardom de outros documentários que focaram a música como tema central. Muito bom rever alguns rostos conhecidos e conhecer tantos outros que fizeram parte da música e que há muito tempo não ganhavam destaque. Entre os destaques, estão Darlene Love, Merry Clayton, Claudia Lennear, Gloria Jones, Lisa Fischer, Táta Vega, The Waters Family, Edna Wright e Judith Hill (esta última, uma promessa mais recente, e que participou também do The Voice USA).

O bacana de filmes assim é que eles voltam no passado musical de muita gente e nos fazem viajar pelo tempo, revisitando canções que embalaram (e muitas seguem embalando) muitas gerações de diferentes nacionalidades. Da minha parte, gostei em especial de rever sucessos do rock, especialmente do Rolling Stones e de David Bowie. Mas há exemplares de canções com marcante presença das backing vocals de quase todos os gêneros.

Depois da música de Lou Reed e dos primeiros depoimentos, o filme mergulha no ambiente dos corais das igrejas, a origem de tudo. Neville opta por um recorrido histórico, com uma narrativa linear pontuada de diversos depoimentos. Darlene Love explica, por exemplo, como no início elas eram dubladas e de como as primeiras backing vocals se restringiam a ler as canções. Só depois elas começaram a se soltar e a interpretar as emoções das músicas.

Entre os resgates estão o grupo vocal The Blossoms, um dos mais prolíficos dos anos 1960. Neville acaba reunindo, novamente, as integrantes do grupo, que escutam músicas que elas gravaram no passado – entre outras, a That’s Life, de Frank Sinatra.

20 Feet from Stardom saca da cartola histórias importantes. Entre as mais surpreendentes, ao menos para mim, foi a de como um dos produtores musicais mais importantes dos anos 1960, Phil Spector, não apenas ajudou muitas backing vocals a serem descobertas, como principalmente as explorou – fazendo, por exemplo, que os nomes delas nunca aparecessem ou ganhassem destaque.

A história de Darlene Love, “presa” por Phil Spector e eclipsada por ele, acaba sendo uma das mais fascinantes da produção. O filme ganha pontos por, além de fazer este recorrido histórico, também dar voz para aquelas artistas com vozes impressionantes falarem sobre os seus sonhos, frustrações e anseios. E a história segue acontecendo em figuras como Judith Hill – ainda que, como bem pondera a produção, muitos acreditem que a tecnologia pode, atualmente, substituir as vozes das backing vocals.

Agora, devo dizer que mesmo o filme tendo muitos acertos – incluindo a duração excelente de 1h30min -, senti falta de um pouco mais de profundidade. Acho que Neville deixa alguns fios soltos. Por exemplo: senti falta das cantoras que tiveram mais experiência de estrada falarem sobre os bastidores das turnês e gravações. Quanto havia de flerte com as estrelas e os demais músicos? Que intrigas este meio guarda? Também senti falta de saber um pouco mais sobre a rotina delas… de como conseguem um trabalho novo, se a grana que recebem é suficiente para pagar as contas, o quanto este mercado é concorrido e por aí vai.

20 Feet from Stardom é um filme necessário, que precisava ser feito. Narrado de forma elegante, ele faz qualquer pessoa viajar por algumas das músicas mais marcantes de todos os tempos. Ao mesmo tempo, ele perde uma boa oportunidade de se aprofundar um pouco mais na vida destas artistas fascinantes. De qualquer forma, vale ser visto.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A abertura do filme é uma sacada à parte. Os realizadores de 20 Feet from Stardom resgataram imagens antigas e taparam os rostos e/ou apagaram os astros para valorizar as backing vocals enquanto rolava uma canção em homenagem à elas feita por Lou Reed. Sacada esperta e que dá o recado sobre o que o espectador verá na sequência.

Além dos nomes já citados, vale comentar outros que ganham um bom destaque na produção com depoimentos que ajudam a explicar o trabalho das backing vocals: Janice Pendarvis (que cantou com Sting, David Bowie, Blondie, Laurie Anderson, Donovan), Lynn Mabry (Talking Heads), Jo Lawry (Sting), Cindy Mizelle (Bruce Springsteen, Steely Dan), Charlotte Crossley (Luther Vandross, Bette Midler), David Lasley (James Taylor, Bonnie Raitt, Todd Rundgren, Chic, Neil Diamond), Patti Austin (Paul Simon, Steely Dan, Quincy Jones, Michael Jackson, Cat Stevens) e Susaye Greene (The Raelettes, The Supremes, Stevie Wonder, Dionne Warwick). Como se pode ver, há um predomínio total de mulheres em detrimento de vozes masculinas.

Gostei muito do estilo de 20 Feet from Stardom. Acho que o diretor soube escolher bem a forma de narrar esta história. Contribui muito para o resultado satisfatório do filme o trabalho dos editores Douglas Blush, Kevin Klauber e Jason Zeldes. Eles conseguem dar um bom ritmo para a produção, envolvendo o espectador. Muito bom também o trabalho dos diretores de fotografia Nicola Marsh e Graham Willoughby. A dupla destila algumas cenas incríveis, especialmente ao focar Lisa Fischer – aparentemente, a preferida deles. 🙂

20 Feet from Stardom fez a sua première no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, o filme participaria de outros 12 festivais. Este ano, ele vai ser exibido no Festival de Cinema de Glasgow a partir do próximo dia 22 e, a partir de 8 de março, no Festival de Documentários Tempo.

Na trajetória que fez até aqui, este documentário ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 13, além de ter recebido uma indicação ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Documentário dados pela audiência do Festival Internacional de Cinema de San Francisco e para o júri do Festival Internacional de Cinema de Seattle. Ele também foi considerado o Melhor Documentário do ano pelas associações de críticos de Dallas-Fort Worth e de Phoenix. Mas no Festival de Sundance, por exemplo, o filme perdeu o prêmio de Melhor Documentário para Blood Brother.

Vejam como um orçamento baixo pode render um filme ótimo. 20 Feet from Stardom teria custado cerca de US$ 1 milhão. O filme faturou até ontem, dia 17 de fevereiro, pouco mais de US$ 4,8 milhões apenas nos Estados Unidos. Estreando nos outros mercados, não tenho dúvida de que ele dará lucro para os produtores.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para a produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 88 textos positivos e apenas um negativo para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média 8,1. Excelente desempenho.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme entra na minha lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog e que pedia por uma série de críticas de filmes daquele país.

CONCLUSÃO: Este filme me surpreendeu. Inicialmente achei que, pelo título e pelo pôster do filme, ele tratasse da trajetória de jovens talentos ao estrelato. Mas não. Este documentário mistura história e talento para mergulhar na vida de algumas das vozes mais conhecidas da música. Acompanhamos backing vocals que viraram referência para aqueles que acompanham a música além das estrelas que aparecem na frente dos palcos.

Desta forma, 20 Feet from Stardom revela-se uma viagem interessante pela música, com depoimentos importantes e um mergulho relativo nas aspirações destas pessoas que marcaram a vida mesmo dos desatentos. Só faltou um pouco mais de profundidade no resgate da história dos backing vocals, explorando, por exemplo, melhor a vida privada e o envolvimento das cantoras com as estrelas da música. Ainda assim, altamente recomendado para quem gosta de boa música.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: A categoria em que 20 Feet from Stardom está concorrendo no prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é sempre uma caixinha de surpresas. Inicialmente, fiquei decepcionada por Stories We Tell (comentado aqui) e Blackfish (com crítica neste link) terem ficado de fora da lista dos cinco finalistas. E ainda que eu ache que estas duas produções deveriam ter chegado lá, admito que gostei de 20 Feet from Stardom e The Square (comentado aqui).

Acho que uma lista em que estes quatro filmes aparecessem seria ótima. Mas só posso afirmar isto com toda a convicção após assistir aos documentários que estão faltando. Outro que assisti, da lista final do Oscar, foi The Act of Killing (comentado aqui). E ainda que muitos apontem esta última produção como a favorita para a estatueta do Oscar, acho ela a menos interessante das quatro – incluindo os dois filmes que ficaram de fora da lista.

Se meu voto valesse alguma coisa – o que não é o caso 🙂 -, provavelmente optaria por The Square. Ainda que 20 Feet from Stardom fique um pouco atrás na minha preferência. Em outras palavras, qualquer um dos dois ganhando, seria uma boa escolha. Mas não devemos nos surpreender com outro resultado. Melhor Documentário sempre guarda surpresas.

Philomena

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Não existe paralelo ao amor de mãe. Pelo menos este é o caso de quem nasceu para isso, para dar uma nova vida. Philomena trata deste amor materno, e da busca incansável de uma mulher por encontrar o filho que foi retirado dela quando ele era muito criança. Mesmo com uma atuação de qualidade de Judi Dench, este filme é o mais fraco entre os concorrentes ao próximo Oscar. Assista apenas se gostar muito do tema ou se já tiver visto a todos os demais.

A HISTÓRIA: Logo no início avisa que o que veremos é baseado em fatos reais. Em seguida, vemos a Martin Sixsmith (Steve Coogan) ouvindo de seu médico, Dr. Robert (Nicholas Jones), de que todos os exames que ele fez estão ok. Mas no final o médico comenta que a mulher de Martin, Kate (Simone Lahbib) comentou que ele estaria levemente deprimido.

Martin diz que ele tem razões para isso, já que foi demitido e está desempregado, mesmo tendo sido acusado injustamente por dizer algo que não havia dito. O médico recomenda que ele comece a correr, e pergunta no que ele está trabalhando agora. Martin afirma que está querendo escrever um livro sobre a história da Rússia. Mas para a surpresa de Martin, em breve ele vai começar a trabalhar na história de Philomena (Judi Dench).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Philomena): A primeira ideia que passou pela minha cabeça quando comecei a assistir a Philomena: mais um filme baseado em fatos reais? Sério? Este ano, nada menos que seis das 10 produções indicadas na categoria Melhor Filme no Oscar estão inspiradas em fatos que realmente aconteceram.

Passada esta “perplexidade” por este gênero estar predominando na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, me joguei na história de Philomena. E apesar de dois detalhes interessantes e complementários, é justamente o roteiro do filme, escrito pelo ator e produtor Steve Coogan e por Jeff Pope, que trabalharam tendo o livro The Lost Child of Philomena Lee de Martin Sixsmith como base, que enfraquece a produção.

Respeito muito o trabalho do diretor Stephen Frears. Mas em Philomena ele apenas segue o básico do cinema. Tanto o diretor quanto os roteiristas apostam na fórmula básica para a plateia acompanhar a história. Mas o filme carece de profundidade, seja na dinâmica da produção (lhe falta uma boa reviravolta, por exemplo), seja na narrativa (não existe, verdadeiramente, nenhum momento de “fisgada” do espectador, para que ele possa se sentir identificado com os personagens ou realmente emocionado com a história).

Para começar, o protagonista desta produção, o jornalista envolvido com política Martin Sixsmith, não é exatamente um sujeito “adorável”. Esta qualidade, necessária para que a plateia torça por algum personagem, não está presente no trabalho do ator, roteirista e produtor Steve Coogan. Ele é sarcástico, desconfiado, sem fé, como “manda” o estereótipo de qualquer jornalista.

O personagem “adorável” fica com a outra protagonista da história, interpretada por Judi Dench. Mas daí que o filme sofre um pouco com esta protagonista. Primeiro, porque a atriz é fantástica, mas a personagem não ajuda com uma conduta fácil de conseguir aprovação. Vejamos.

Para começar, Philomena não pode ser considerada, exatamente, uma mulher corajosa. Por 50 anos ela escondeu o fato de que teve um filho na adolescência e que ele foi separado dela com a ajuda das freiras do local em que ela vivia. Se ela fosse uma “brava mulher”, não teria ido atrás do filho antes? Depois que ela viveu uma situação que muitas mulheres (e homens também?) podem considerar absurda.

Afinal, ela engravidou de um sujeito que conheceu em uma feira, com quem ela aparentemente nem chegou a namorar, e se submeteu às regras duras da Igreja após ter sido abandonada pela família mesmo sabendo que provavelmente perderia o primeiro filho. Há inúmeras histórias de mulheres que acharam uma alternativa para situações como esta, sem que elas tivessem que se “engolir” a perda de um filho que elas gostariam de criar. Outra situação, evidentemente, é daquelas mulheres que não gostariam de ficar com o primogênito.

Evidentemente que há que se dar um “desconto” para Philomena porque ela era muito jovem quando tudo aconteceu. Não quero, com os comentários até aqui, julgá-la. Afinal, ela foi uma vítima. Mas o que eu quero argumentar é que ela não é uma protagonista que facilmente sensibilize o espectador. E o mesmo acontece com Martin.

O roteiro de Coogan e Pope decidiu apresentar, primeiro, o personagem de Martin. Ex-assessor de imprensa do ministro de Transportes Stephen Byers, ele surge para o espectador em um momento delicado. Aparentemente, ele foi demitido após ser acusado por ter dito o que não disse. Mas o motivo de Martin aparecer logo e da forma com que é apresentado na história é mostrar como ele é um homem sem fé. Como ele mesmo diz, ele não acredita em Deus, e desconfia que Ele sabe disso.

Em seguida, somos apresentados à Philomena. Apesar dela ter bons motivos para “odiar” a Igreja, ela segue acendendo velas, rezando e com a sua fé inabalável. Em pouco tempo, o homem “descrente” e a mulher com fé inquebrantável vão começar a conviver. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Agora, esqueça o mundo de um alterando o do outro. Mesmo com as novas informações que vão surgindo, e que tornam o papel das freiras ainda pior, Philomena segue com fé e seguindo os ensinamentos cristãos, enquanto Martin permanece “indignado” e sem conseguir perdoar aqueles que cometeram os crimes focados nesta produção.

Como jornalista, achei curiosa a ironia de Martin sobre as “histórias de interesse humano”. Para ele, este tipo de história, que tratam da vida de pessoas que passaram por dificuldades e que podem ter esta vivência identificada por outros indivíduos são histórias sobre “pessoas de cabeça fraca, vulneráveis e ignorantes” escritas para serem lidas por pessoas com o mesmo perfil.

Evidentemente que eu não concordo com esta avaliação dele. Histórias de interesse humano são as melhores, aquelas que normalmente valem ser contadas. O restante é o “factual”, como chamamos, ou seja, notícias que registram fatos de relevância momentânea – ou até de interesse histórico, mas que será visto assim com o passar do tempo. Ainda que o “factual” também possa render histórias com uma pegada humanizada… Inicialmente, Martin olha para Philomena com superioridade. E ainda que ele não perca aquela postura, o protagonista acaba aprendendo um bocado com a simplicidade daquela mulher que segue atrás do filho 50 anos depois dele ter nascido.

Fora esta ironia, o filme parece uma história como outra qualquer que você já viu. A Igreja católica teve, aqui e ali, várias ações absurdas? Certamente. E não precisamos voltar para a Idade Média para saber disso. Claro que há gente pouco católica entre freiras e padres – afinal, como uma freira como Hildegarde (Barbara Jefford) pode achar justificável o que ela e suas contemporâneas fizeram?

Um dos ensinamentos básicos de Jesus é o amor e o perdão, então como julgar uma jovem que engravidou sem pensar na responsabilidade deste ato e puni-la daquela forma? Certamente aquelas ações não seguiram o exemplo de Jesus. Mas a Igreja, como todas as outras instituições que já foram criadas pela Humanidade, é feita de pessoas. E elas são falhas. Assim de simples.

Uma religião e uma instituição como a Igreja não pode ser julgada pelas falhas de alguns de seus participantes, por mais que estes erros sejam absurdos e que joguem contra os ensinamentos essenciais que ela prega. Isso é algo que Philomena é capaz de compreender, mas Martin, tão inteligente, sagaz e “respeitável”, não. Uma pena.

De qualquer forma, e para quem ninguém tenha dúvida, a freira Hildegarde deixa claro a sua motivação em ser cruel com aquelas jovens décadas passadas. Se ela se manteve virgem, sacrificando “os prazeres da carne”, por que as demais não foram capazes do mesmo sacrifício?

Esta “inveja” disfarçada de rigidez de princípios resume não apenas os atos daquela freira, mas de tantas outras que repassam as próprias frustrações para frente castigando diferentes perfis de pessoas – de estudantes em colégios de freiras até jovens que buscam pela santidade e convivem com elas.

Para mim, a melhor parte do filme é justamente aquela que mostra a diferença essencial entre os personagens. Enquanto Martin se indigna com Hildegarde – e a indignação é algo importante -, Philomena diz para a freira que a perdoa. E dá uma lição de sabedoria para Martin. Afinal de contas, nós sempre podemos escolher o que fazer com a injustiça e o mal que praticaram contra nós. Podemos alimentar o ódio e o rancor ou optar pelo perdão e pela compaixão. Cada um é responsável por esta escolha. Esta reflexão do filme justifica a nota abaixo.

Assim como a escolha corajosa de Philomena em revelar a própria história – para que outras mulheres, como ela, se sentissem mais acolhidas, e para que outras mulheres passassem a valorizar os próprios filhos e a não abrirem mão deles por nada, nem mesmo por uma forte cobrança de culpa cristã. Agora, querendo ou não, fica nesta história a mensagem de que engravidar e ter um filho deveria ser uma escolha responsável, feita tendo o amor como base, mas levando em conta também as condições dos pais para darem uma vida de oportunidades para o seu herdeiro.

E o que falar do restante da produção? O roteiro segue a linha de ir e vir do presente para o passado de Philomena, incluindo a ótica do filho Anthony/Michael (Sean Mahon) para quebrar a linha tradicional de passagem do tempo. Apesar de algumas belas imagens, mérito do diretor de fotografia Robbie Ryan, Philomena carece de um texto melhor. E fora Judi Dench, que normalmente apresenta um desempenho acima da média, os demais atores apenas cumprem o seu papel, sem nenhum destaque em especial. Um filme fraco, comparado com os outros desta safra de indicados ao Oscar.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Philomena é um filme de dois atores. Judi Dench brilha em uma interpretação coerente com o perfil da protagonista. Mesmo afirmando isso, devo dizer que já vi a atriz em desempenhos melhores do que este. O outro nome forte da produção é o de Steve Coogan. Ele está bem, mas não chega a se destacar.

Além destes atores, vale citar o bom trabalho de Anna Maxwell Martin como Jane, a filha de Philomena que oferece a história da mãe para Martin; e o de Sophie Kennedy Clark como a protagonista quando adolescente. Outros atores tem papéis menores. Vale citar Peter Hermann como Pete Olsson, companheiro de Michael; Charlie Murphy como Kathleen, a melhor amiga de Philomena no período em que ela viveu com as freiras; Mare Winningham como Mary, menina que foi adotada junto com o filho de Philomena; e Michelle Fairley como Sally Mitchell, a editora que acompanha a investigação jornalística de Martin.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma a trilha sonora é o que se destaca. Um ótimo trabalho de Alexandre Desplat – mais um, aliás, para a longa lista de excelentes trabalhos deste compositor. O roteiro ganha alguns pontos com certos diálogos, mas a dinâmica da produção deixa a desejar. Muito eficiente o trabalho da equipe liderada por Jay Price e Rachael Tate na edição de som – há sequências que ganham outro ritmo com o ótimo trabalho feito por eles. O editor Valerio Bonelli também cumpre bem o seu papel.

Funciona muito bem, também, a reconstituição de época (Irlanda nos anos 1950) e a caracterização do “tempo atual”, uma diferenciação necessária para a história e bem realizada pelo design de produção de Alan MacDonald; pela direção de arte de Leslie McDonald, Rod McLean e Sarah Stuart; pela decoração de set de Barbara Herman-Skelding e pelos figurinos de Consolata Boyle.

O diretor Stephen Frears, que entende bem do seu ofício, conseguiu capturar bem os diferentes estilos de imagens necessários para contar esta história. Fica clara a diferença de granulação quando vemos a um filme caseiro de Anthony/Michael ou quando somos transportados para os anos 1950 na Irlanda. O diretor também valoriza o trabalho dos atores, focando nas expressões deles quando há silêncio e “descobertas” do roteiro. Mais um bom trabalho, ainda que ele não seja fora da média.

Indiretamente, Philomena aborda diversos temas “cabeludos”: a diáspora irlandesa (leia-se a forçada imigração de irlandeses para os Estados Unidos e a Grã-Bretanha a partir do século 19, o que causou a resistência de extensas camadas das populações que receberam estas pessoas), a rejeição de gays nas equipes dos republicados nos Estados Unidos; as mortes causadas pela AIDS; a venda de crianças de jovens que não tinham sido orientadas a prevenirem a gravidez pela Igreja; e o empurra-empurra das instituições que “fecharam os olhos” para o comércio ilegal de crianças para apenas citar os temas principais.

Não tenho dúvidas que muitos dos assuntos tratados no parágrafo acima devem cair fundo na memória de algumas pessoas. Especialmente porque não foram poucas as mulheres que foram separadas do seus filhos à revelia. E, infelizmente, parece que este comércio ilegal de pessoas segue acontecendo.

Sobre a diáspora irlandesa, recomendo este texto da História Viva bem didático sobre o assunto.

Philomena estreou no Festival de Veneza em agosto de 2013. Depois de participar daquele evento, o filme passaria por outros 14 festivais. O próximo a figurar na lista será o Festival de Cinema de Belgrado, que começa no próximo dia 8 de março. Nesta trajetória, o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 37, além de aparecer na lista do Oscar em quatro categorias.

Entre os prêmios abocanhados por Philomena, destaque para nove prêmios (!!) no Festival de Veneza, incluindo o de Melhor Roteiro; o de Atriz Britânica do Ano para Judi Dench entregue pelo Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Londres; e o de Melhor Narrativa pela escolha popular no Festival de Cinema de Virgínia. Daqueles prêmios em Veneza, oito foram para Stephen Frears em eventos paralelos ao festival. Ou seja, até o momento, esta produção não recebeu nenhum dos principais prêmios do cinema.

Não há informações sobre o custo de Philomena, mas o filme conseguiu, até a última sexta-feira, dia 14, quase US$ 29,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Nos outros mercados em que a produção já estreou o resultado está em cerca de US$ 46,7 milhões. Boas cifras para um filme que deve ter custado pouco.

Para quem gosta de saber sobre as locações, Philomena teve cenas rodadas em Rostrevor e Killyleagh, na Irlanda do Norte; em Potomac, Poolesville e em Washington, nos Estados Unidos; e em Londres, Oxfordshire e Harefield (cenas do convento), na Inglaterra. Dá até para fazer um roteiro de visitas para os interessados nas culturas inglesas e irlandesa. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para a produção. Enquanto isso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 155 textos positivos e 13 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 7,9. Desta vez, e isso é um pouco raro, a minha avaliação foi pior do que a média destes dois sites. De fato, esta produção não me envolveu e nem me tocou. E como cinema é interpretação e sentimento, deu no que deu. Que me perdoem os fãs desta história. 🙂

Philomena é uma coprodução do Reino Unidos, dos Estados Unidos e da França.

Com esta crítica, consigo um feito inédito aqui no blog: assistir a todos os indicados na categoria de Melhor Filme no Oscar antes da festa de premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Levei sorte, assim como todos os brasileiros, por ter todos estes filmes em cartaz ou nas videolocadoras antes do dia 2 de março. E agora, meus bons leitores, vou atacar a lista de documentários. E os convido para acompanhar a cobertura da premiação do Oscar aqui no blog no dia 2.

CONCLUSÃO: Este filme apresenta pelo menos duas histórias. A primeira, a busca da protagonista pelo filho depois de várias décadas de separação. Depois, as diferenças entre dois mundos: daqueles que acreditam em Deus e vivem a vida dentro desta fé e aqueles que não. Existe apenas um momento que faz o filme valer o tempo gasto. Mas cá entre nós, isso é muito pouco. Perto dos outros indicados deste ano ao Oscar, Philomena parece um filme menor.

Ele não surpreende e nem emociona como poderia e/ou gostaríamos. Se não houvesse expectativa a respeito dele, talvez eu tivesse achado ele um pouco melhor. Não é o caso, já que a produção foi indicada a quatro estatuetas. Algumas vezes aparecer no Oscar pode ser prejudicial para uma produção – ainda mais se ela é fraca, como é o caso de Philomena.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Não deixa de ser surpreendente Philomena ter chegado a quatro indicações no Oscar. Outros filmes poderiam ter ocupado, tranquilamente, o lugar desta produção. Para ficar em um exemplo apenas, e digo isso sem ter assistido ao filme ainda, este seria o caso de Inside Llewyn Davis – afirmo isso levando em conta a filmografia dos diretores, os irmãos Ethan e Joel Coen.

Mas ok, aparentemente a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gosta do produtor, roteirista e ator Steve Coogan. Talvez isso justificaria as quatro indicações de seu filme ao Oscar. Philomena concorre em Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz (Judi Dench) e Melhor Filme.

Não vejo muitas chances de Philomena ganhar qualquer uma destas estatuetas. Vale lembrar que o filme foi indicado em três categorias do Globo de Ouro e não levou nada. Mas vamos tratar de cada uma das quatro categorias em disputa no Oscar.

Em Melhor Trilha Sonora, ele tem fortes concorrentes pela frente. Gostei muito da trilha de Her (comentado aqui) e do trabalho feito em Gravity (com crítica neste link). Não sei como estão as bolsas de apostas, mas acho que Gravity deve levar uma certa vantagem, até porque a trilha do filme é excepcional e fundamental para a história… ainda que eu não tenha conferido os elogiados trabalhos das trilhas de The Book Thief e, com alguma distância de diferença nas preferências, de Saving Mr. Banks. Agora, sem dúvida, a indicação de Philomena nesta categoria me parece a mais justa entre as quatro.

Depois, vejamos Melhor Roteiro Adaptado. Sem dúvida The Wolf of Wall Street (com crítica aqui) e 12 Years a Slave (com comentários neste link) são roteiros mais elaborados, ousados e bem escritos que Philomena. Mesmo Captain Phillips (comentado aqui) eu acho melhor – e ainda há Before Midnight, que muitos elogiaram, mas que eu ainda não assisti.

Na categoria Melhor Atriz, a excelente Judi Dench também corre por fora. Cate Blanchett, segundo as bolsas de apostas, é a franca favorita. Da minha parte, acho que tanto ela quanto Sandra Bullock poderiam, facilmente, ganhar a estatueta. Agora, se a Academia quiser consagrar Amy Adams, não seria totalmente uma surpresa – especialmente se o filme dela, American Hustle (comentado aqui) for abocanhando muitas estatuetas conforme os prêmios são entregues. Meryl Streep, apesar de hors concours, infelizmente concorre tão por fora quanto Dench.

E o que dizer da categoria Melhor Filme? Cada um com o seu gosto, devo ressaltar isso, mas francamente eu achei Philomena o último da lista para ser votado nesta categoria neste ano. Até American Hustle, do qual eu gostei menos que os demais, acho que tem mais detalhes técnicos e mereceria mais a estatueta pelo “conjunto da obra” do que Philomena.

Mas, sem dúvida, prefiro Her, The Wolf of Wall Street, 12 Years a Slave e até Gravity antes que Philomena – se fosse escolher um vencedor. Minhas preferências estão na ordem, com um certo empate técnico entre The Wolf of Wall Street e 12 Years a Slave na segunda posição. Entre os que correm por fora, acho Dallas Buyers Club (com crítica neste link), Nebraska (comentado aqui) e Captain Phillips também melhores. Além do meu gosto, acho impossível a Academia premiar Philomena – seja pela qualidade do filme, seja pelos outros concorrentes e a força maior de lobby deles. Se algo diferente acontecer, será a zebra do ano.

Nebraska

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Por mais que uma pessoa seja próxima, nunca vamos saber tudo a seu respeito. Isso vale para um casal na mesma medida que para pais e filhos. Nebraska conta a história de uma viagem de descobertas para a família do protagonista – especialmente para um dos filhos dele. Uma produção que, ao mesmo tempo, lembra um pouco os filmes dos irmãos Coen e aquela aura marcante de produções clássicas como Giant.

A HISTÓRIA: Às margens de uma rodovia qualquer dos Estados Unidos, Woody Grant (Bruce Dern) caminha lentamente sobre a neve. Passam por ele diferentes tipos de carros e caminhões, até que o acostamento termina, ele caminha sobre uma pista em uma elevado, e um policial o para. Um tempo depois, David (Will Forte), um dos filhos de Woody, vai até a delegacia para se encontrar com o pai.

Daí que ele descobre que o pai estava indo à pé da cidade deles, Billings, no Estado de Montana, até Nebraska. A justificativa: ele quer ganhar o US$ 1 milhão que uma carta que ele recebeu pelos Correios diz que ele tem direito. Com esta ideia fixa na cabeça, Woody empreende uma viagem acompanhado do filho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Nebraska): Esse é um filme de quebrar o coração. Desde o início. Como não sentir pena desta figura chamada Woody Grant. Um senhor de cabelos brancos como tantos outros que vivem nos Estados Unidos, no Brasil e em diversas outras partes. Uma das vantagens de Nebraska é que o filme não gasta tempo com o que não precisa. Logo nos primeiros minutos sabemos do que se trata, mas a história, ainda assim, vai nos surpreendendo conforme é contada.

Aliás, muito bom o roteiro de Bob Nelson. Ele consegue, ao mesmo tempo, falar de relações humanas, da ligação e admiração entre pais e filhos, da “instituição” família e também do estilo de vida de parte do interior dos Estados Unidos. Essa “salada mista” poderia se perder em uma história com vários altos e baixos, ou com alguns momentos de tédio seguido de rompantes, mas não. O texto de Nelson é bem cadenciado e, como eu disse antes, não demora para embalar.

Algo também um tanto raro de ver nos filmes de Hollywood está presente em Nebraska: o tempo necessário de pausas nos diálogos ou, se preferirem resumir de outra forma, os necessários momentos de silêncio. Há bastante espaço para eles nesta história, e o espectador vai perceber que todos estes momentos são essenciais para a dinâmica do filme.

Além deste aspecto do roteiro, algo que chama a atenção logo no início da produção é a excelente direção de fotografia. Um grande trabalho, digno de tirarmos o chapéu, de Phedon Papamichael. As imagens em preto e branco valorizam a aridez dos cenários e, por que não dizer, também das pessoas. Afinal, ainda que este filme tenha algumas cenas emocionantes, ele não tem o propósito de revelar os comoventes laços familiares dos protagonistas, e sim de mostrar como parentes e antigos “amigos” podem se revelar bem interesseiros quando o tema de alguém se tornar milionário entra em cena.

A fotografia preto e branco combina com aquelas pessoas. E paralelamente, a ausência de cores valoriza os cenários amplos deste road movie que gasta bastante tempo na cidade de origem dos Grant. Somado a estes dois aspectos vistos logo nos primeiros minutos do filme – ótimo roteiro e direção de fotografia -, pouco a pouco outras qualidades vão se revelando em Nebraska. Exemplos: a direção segura de Alexander Payne, que não carrega no tom de nenhuma cena, e a interpretação dos atores principais.

Dito isso, falemos um pouco sobre a história de Nebraska. Como eu disse antes, como não ter pena de Woody? Primeiro, percebemos que aquele homem já passou por muito, muito mesmo nesta vida. Agora, de cabelos brancos e uma saúde fragilizada, inclusive pela bebida, ele se agarra à esperança de que pode conseguir US$ 1 milhão. Logo de cara, a mulher dele, a irônica e reclamona Kate (June Squibb), proíbe o marido de seguir com aquela “tonteria”. Ela se recusa a levá-lo até Nebraska, mas Woody está com ideia fixa e passa a sair caminhando por aí em direção ao destino.

Neste momento, entra em cena David. Fica evidente, logo nos primeiros minutos, o afeto dele pelo pai. E pouco a pouco, percebe-se também a admiração dele para com seu velho, ainda que o que fica mais evidente nesta produção é que David desconhece muito sobre a vida do pai. Daí aquele meu início de texto. Por que afinal de contas, quem não desconhece muito sobre as pessoas que ama? Ainda que isso seja natural, não deixa de ser chocante para as pessoas quando as “verdades” e revelações familiares pipocam.

Hollywood já produziu muitos tipos de road movies, alguns, inclusive, no estilo de Nebraska, que aproveita uma longa viagem para aproximar pais e filhos. Outras produções, se especializaram em abordar os segredos e confrontos familiares, e há aquelas que mergulham no estilo de vida interiorano do país. August: Osage County, comentado por aqui, por exemplo, trata destes dois últimos aspectos.

Falando em referências… o humor de Nebraska, muitas vezes, me lembrou alguns “tiques” dos roteiros dos irmãos Joel e Ethan Coen. O humor ácido retirado de pessoas comuns visto aqui é a cara dos Oscarizados diretores de No Country for Old Men e Fargo. E a direção de fotografia em preto e branco me lembrou muitos filmes do passado – especialmente Giant pelas paisagens de campos abertos.

Mas o diferencial de Nebraska é que o filme não apenas fala de tudo isso, mas também da ligação que existe entre as pessoas de uma mesma família mesmo que elas não demonstrem todo o afeto que sentem umas pelas as outras de forma clara e transparente. Quando Kate encontra Woody e David na cidade de Hawthorne, cidade natal do casal e, depois, Ross (Bob Odenkirk) se encontra com eles, fica evidente que apesar das palavras ferinas e duras e dos longos silêncios pontilhados aqui e ali, todos se amam e se respeitam.

Algumas vezes você só percebe isso na forma de olhar de uns para os outros – especialmente no caso de Kate, que normalmente detona as pessoas, mas que olha de forma afetuosa para o marido, mesmo chamando-o de “grande idiota” no hospital. Não é fácil um filme captar esta idiossincrasia entre pessoas muito próximas. No caso de Nebraska, o mérito é tanto do roteirista quanto dos atores e do diretor. Excelente entrega de todos – e, diferente de August: Osage County, sem grandes rompantes de interpretação.

Em Nebraska, parece que a ordem é “menos é mais” o tempo todo. Bruce Dern, em especial, tem uma interpretação bastante contida. Ele não grita, não faz nenhuma revelação bombástica, mas interpreta os sentimentos do personagem com o olhar.

Um papel difícil, e bem interpretado – ainda que eu tenha dúvidas se ele merecia uma indicação ao Oscar, tirando a vaga de Tom Hanks que, conforme eu disse aqui, teve a melhor interpretação em muito tempo em Captain Phillips (comentado por aqui). De qualquer forma, não dá para achar injusta a indicação de Dern – só vi como um pouco “generosa” demais. Mas a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sempre tem destas.

Enquanto Dern tem uma interpretação comedida, Squibb tem todo o espaço para ser a “boca suja” da família. A mulher de voz um pouco irritante não para de ser irônica e fazer “leves” críticas para vivos e mortos. Sem dúvida, da boca dela saem algumas das frases mais engraçadas do filme. Outras surgem de cenas pós-bebedeira de Woody, que acaba levando o filho David a buscar “tesouros perdidos” como uma dentadura e a chave para a história.

Aliás, essa chave para a história é o “MacGuffin” de Nebraska. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como bem nos ensinou o mestre do suspense Alfred Hitchcock, algumas vezes tudo o que uma história precisa para envolver o espectador é um bom MacGuffin. E o que ele seria? Pouco importa, nos disse Hitchcock. MacGuffin pode ser uma bolsa de dinheiro, um tesouro escondido, ou no caso de Nebraska, a carta com números que poderiam dar US$ 1 milhão para o protagonista. O MacGuffin é o que os personagens buscam, sem fim, e o que acaba movimentando a história.

Todos sabem que o MacGuffin que motiva Woody é um “fisga-bobos”. Quem recebe aquele tipo de correspondência sabe que tudo o que as pessoas que a enviaram querem é que você faça a assinatura da revista. O prêmio? Não existe. Mas Woody está tão certo de que deve ir até Nebraska, tem tanta convicção que esta é a chance da vida dele, que até chegamos a duvidar, por alguns momentos, se o impossível não pode acontecer.

O bonito, nesta história, é a forma com que David é generoso com o pai. Mesmo sabendo que eles estão indo atrás de uma mentira, ele resolve empreender a viagem com Woody por duas razões: para impedir que o velho fosse à pé e se arriscando por aí pedindo carona até Nebraska; e também para passar mais tempo com o pai, aproveitando para conhecê-lo melhor. Assim, de forma muito discreta, David cuida do pai e também aprende algumas coisas sobre ele.

Neste aprendizado, é muito interessante como Bob Nelson explora esta característica de muitos homens do interior de falar pouco – e mesmo há alguns nas cidades com este perfil. Woody, o irmão Ray (Rance Howard) e todos os outros homens da família que encontramos em Hawthorne são de falar quase nada. E o papo, quando existe, normalmente é sobre carros. Apenas o sacana Ed Pegram (Stacy Keach) parece destoar deste perfil caladão.

Em contrapartida, e como acontece em muitas famílias, as mulheres deles é que se esforçam por falar. Percebemos isso não apenas em Kate, mas também na esposa de Ray, a esforçada Martha (Mary Louise Wilson). Parece até que elas, tendo tanto espaço para falar com o silêncio dos homens, capricham em preencher todo aquele “vazio”. Nem sempre falando coisas boas, diga-se. Um retrato bastante realista sobre diversas famílias por aí.

Todo mergulho que um filho ou filha fazem no passado dos pais gera frutos. Primeiro, porque passamos a entender melhor os nossos “velhos”. Depois, porque também entendemos um pouco mais sobre nossas origens e, de quebra, sobre nós mesmos. Nebraska trata disso, assim como da fragilidade das pessoas quando elas chegam na velhice e de como as máscaras caem quando o assunto é dinheiro. Quem era apenas conhecido passa a ser velho amigo, e quem era sacana passa a ser ainda mais sacana.

Agora, mesmo que o filme flua bem e que tenha uma ótima direção de fotografia e uma trilha sonora bacana, Nebraska foi me convencer mesmo perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo tentando se controlar, sendo paciente e generoso, lá pelas tantas David confronta o pai sobre a bobagem que é eles seguirem viagem – especialmente após mais uma “rateada” do velho senhor. Daí que ficamos sabendo a verdadeira motivação de Woody – e que não é ficar com o dinheiro, mas garantir um pouco de tranquilidade para o futuro dos filhos. E esta não é a preocupação de 99% dos pais? Linda homenagem para estes homens tão valentes.

Afinal de contas, não é nada fácil investir a vida nesta empreitada que é ter família e filhos. Quem faz isso de forma consciente é porque tem muito amor para dar e porque, quando tem filhos, coloca eles em primeiro lugar. Mesmo quando não pareça que é assim. E nisso Nebraska também acerta. Ele não coloca Woody em um pedestal. Pelo contrário. Ele é um personagem palpável, cheio de defeitos e de virtudes. Aliás, David resume bem o perfil do próprio pai para a atendente no escritório em Nebraska.

E daí surge a cereja do bolo. David nos mostra que o dinheiro só serve para uma coisa: para honrarmos e fazermos felizes quem a gente ama. O resto é bobagem, é consumismo. Desde já Nebraska entra para o rol dos road movies que valem a lição que deixam. Sem contar a emoção de um encontro bacana entre pessoas próximas e que talvez nunca tivessem se permitido o contato com tempo e peito aperto. Eis uma viagem que vale a pena.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nebraska tem algumas cenas impagáveis. Para mim, as melhores são as sequências no cemitério com Kate “soltando a franga”; a fuga de David e Ross na corrida para encontrar o carro guiado pela mãe; e, claro, a “desforra” final. Grandes momentos que vão ficar na memória. Por outro lado, e ainda que o filme não tenha grandes sobras, achei um tanto repetitivas algumas cenas familiares em Hawthorne e as ironias/sequências de puro interesse do povo de lá para com Woody.

Uma curiosidade sobre a história: a distância entre as cidades de Billings, no Estado de Montana, e Lincoln, em Nebraska, nos Estados Unidos, é de 850 milhas, o equivalente a 1.367,9 quilômetros. De acordo com o Google Maps, esta rota, se for feita sem interrupções, levaria cerca de 12 horas e 27 minutos.

Os atores Bruce Dern e June Squibb fazem uma ótima parceria neste filme e, graças as indicações ao Oscar, ficaram evidenciados em relação ao restante do elenco. Ainda assim, devo dizer, gostei muito do trabalho de Will Forte como David. Ele está perfeito e, na mesma medida que Dern, grande parte de sua interpretação é feita pelo olhar. Grande trabalho! Gostei também de ver Bob Odenkirk em ação fora de Breaking Bad – uma razão à mais para acompanhá-lo na nova série Better Call Saul.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Tim Driscoll como Bart e de Devin Ratray como Cole, os filhos de Ray e Martha e que estão muito interessados no dinheiro do “novo rico” tio Woody. A atriz Angela McEwan aparece pouco como Peg Nagy, ex-namorada de Woody, mas sempre que ela aparece, ajuda a enternecer a história. Presença marcante.

Da parte técnica do filme, além da impecável direção de fotografia de Phedon Papamichael e da direção segura de Alexander Payne, vale destacar a excelente trilha sonora de Mark Orton. Ele resgata músicas importantes daquele cenário e que ajudam a ambientar o público no ambiente que é quase um personagem da trama. Muito boa também a edição de Kevin Tent.

Nebraska estrou no Festival de Cannes em maio de 2013. Depois de participar de Cannes, o filme passou por outros 15 festivais. No próximo dia 3 de março ele vai participar do último da lista, o Festival de Cinema de Belgrado. Nesta trajetória, o filme ganhou 24 prêmios e foi indicado a outros 61 – números impressionantes. Além destas indicações, Nebraska está concorrendo em seis categorias do Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano entregue pela AFI Awards; Melhor Ator para Bruce Dern no Festival de Cannes; Melhor Ator para Bruce Dern, Melhor Ator Coadjuvante para Will Forte e ser escolhido para o Top Ten Films do ano pelo National Board of Review; Melhor Diretor pelo prêmio da audiência do Festival de Cinema Internacional de Roterdã; Melhor Filme no FIPRESCI Prize do Festival de Cinema de Estocolmo; e Melhor Elenco no Satellite Awards.

Para quem gosta de saber sobre os locais de filmagens das produções, Nebraska foi, de fato, rodado em diferentes cidades de Nebraska (incluindo a de Lincoln), e em Billings, Montana.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o ator Bryan Cranston fez o teste para o papel de David, mas o diretor Alexander Payne acabou opinando que ele não tinha o perfil adequado para o papel. Também acho que fazia falta um ator um pouco mais jovem que Cranston, ainda que ele seja genial. Outros nomes considerados para o papel: Matthew Modine, Paul Rudd e Casey Affleck.

Antes da definição por Bruce Dern, o papel de Woody foi cogitado para Gene Hackman, Robert Forster, Jack Nicholson e Robert Duvall.

Alexander Payne nasceu em Nebraska. Na cena do cemitério, a família dele ganhou uma referência com uma lápide com o nome Payne.

Nebraska teria custado cerca de US$ 12 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos, até ontem, dia 10 de fevereiro, o filme tinha acumulado um resultado de pouco mais de US$ 15 milhões. Ainda lhe falta uma boa estrada para conseguir garantir o lucro dos produtores. E pelo perfil do filme, bem independente, isso será difícil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Nebraska. Uma avaliação muito boa para o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 174 textos positivos e 16 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 8.

Nebraska é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de filmes daquele país que viraram foco de uma série de crítica por aqui após votação no blog.

CONCLUSÃO: A família ganha evidência nesta produção da mesma forma que em August: Osage County. Os dois filmes, aliás, guardam outras semelhanças, como um mergulho profundo e interessante na cultura e no estilo de vida de cidades do interior dos Estados Unidos e nas relações familiares que formam estes cenários. Mas diferente de August: Osage County, Nebraska tem mensagens redentoras e um final emocionante.

Esqueça as brigas e o filme liderado por mulheres. Nebraska tem muitos silêncios, observação e o predomínio das interpretações masculinas – em um tipo de filme cada vez mais raro em Hollywood. Além disso, Nebraska se destaca por fotografia maravilhosa e por uma trilha sonora envolvente. Grande trabalho, e que mereceu receber uma certa evidência ao ser indicado em seis categorias do Oscar. Assista sem moderação e sem pressa.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Filme de baixo orçamento, comparado a outras produções que estão bem indicadas ao Oscar, Nebraska deve comemorar as suas seis chances por uma estatueta dourada. Esta produção está na disputa por Melhor Filme, Melhor Ator (Bruce Dern), Melhor Atriz Codjuvante (June Squibb), Melhor Direção de Fotografia, Melhor Direção e Melhor Roteiro Original.

Francamente, mesmo que eu tenha gostado muito do filme, não achei que ele mereceu todas estas indicações. Certo que o roteiro é muito bom, assim como a direção de Alexander Payne e o trabalho dos atores. Mas não vejo que Bruce Dern ou June Squibb tenham qualquer chance frente aos concorrentes diretos.

Provavelmente a melhor chance do filme no Oscar seja na categoria Melhor Direção de Fotografia. De fato o trabalho de Phedon Papamichael é excepcional. Há cenas verdadeiramente impactantes em uma fotografia preto e branco marcante. Em Melhor Direção acho difícil Payne desbancar o favorito Alfonso Cuarón (pelo trabalho com Gravity, comentado aqui). E mesmo Martin Scorsese (de The Wolf of Wall Street, com crítica por aqui) de ou Steve McQueen (de 12 Years a Slave, comentado aqui) teriam o meu voto antes de Payne.

Na categoria de Melhor Roteiro Original a disputa está boa, forte. Meu voto iria para Her (comentado aqui), mas acredito que estejam liderando a disputa Blue Jasmine (com crítica por aqui) e American Hustle (comentado aqui). Para o meu gosto, nenhum destes favoritos é melhor roteiro que Her ou Dallas Buyers Club (com crítica por aqui). Mas a Academia deve pensar diferente. 🙂 Logo saberemos.

OBS: Vale lembrar que o filme foi indicado a cinco prêmios no Globo de Ouro e saiu da premiação de mãos vazias. O Globo de Ouro nunca foi um indicativo para o Oscar, especialmente nos últimos anos, mas este pode ser um sinal para o prêmio da Academia.