Fay Grim

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Existem alguns filmes de espionagem interessantes por aí, assim como produções que tratam de “gênios” desprezados, mas um filme que aborde estes dois temas ao mesmo tempo com bom humor e sacadas perfeitas não se encontra facilmente. Fay Grim consegue fazer isso com perfeição. Admito que não assisti ao primeiro filme com os personagens que aparecem neste novo filme: Henry Fool (que ganhou o título no Brasil de As Confissões de Henry Fool). Mas mesmo sem ter assistido ao filme “inicial” da grife com o personagem misterioso, adorei esta continuação. O diretor e roteirista tem estilo e linguagem afiada. Os atores conseguem interpretações frescas, a direção de fotografia é equilibrada e a edição criativa. Uma boa surpresa.

A HISTÓRIA: Fay Grim (Parker Posey) vive sozinha desde que o pai de seu filho desapareceu. Gari misterioso, Henry Fool (Thomas Jay Ryan) fugiu do país se passando pelo irmão de Fay, o admirado escritor Simon (James Urbaniak). Julgado como cúmplice no crime de falsidade ideológica, Simon desde então ficou preso. Fay considera a ausência de uma figura paterna em casa como a principal razão do filho adolescente Ned (Liam Aiken) caminhar fora da linha. Quando o garoto é expulso do colégio, ela se preocupa em tirar Simon da prisão, aceitando para isso colaborar com a CIA na busca pelos cadernos que registram “as confissões” de Henry – apontado como um possível espião com informações importantes do governo estadunidense.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fay Grim): Uma mulher comum, preocupada com o filho adolescente, acaba se envolvendo em um complicado enredo à la James Bond. A CIA desconfia que o ex-marido dela, desaparecido, seja um ex-agente com informações privilegiadas que pode colocar em risco a defesa dos Estados Unidos.

Inicialmente, os agentes Fullbright (Jeff Goldblum) e Carl Fogg (Leo Fitzpatrick) argumentam com Fay Grim que Henry Fool está morto. Se a informação é verdadeira, ela pode pedir dois dos oito cadernos escritos por ele como “confissões” de volta – eles estão com o governo francês. Aos poucos Simon e o agente literário dele, Angus James (Chuck Montgomery), descobrem que a literatura intragável de Henry Fool é, na verdade, um intricado texto criptografado com informações importantes para o governo norte-americano.

Fay Grim acaba viajando para Paris para resgatar os cadernos e, na viagem, vira alvo de diferentes espiões e terroristas internacionais. Todos estão de olho nas “confissões” de Henry Fool. Seu texto, disfarçado de literatura pornográfica, revela a localização de uma base de mísseis nucleares israelenses e de três satélites dos Estados Unidos. Informações estratégicas por parte dos norte-americanos e de violação de um tratado internacional por parte dos israelenses – o que poderia criar uma potente crise mundial.

Gostei de todos os personagens do filme, bem construídos e retratados. Especialmente os de Fay Grim e Simon Grim. Gostei também da aeromoça interesseira e que virou amante de Henry Fool, Bebe (Elina Löwensohn); dos espiões Juliet (Saffron Burrows), Amin (Nikolai Kinski) e Andre (Harald Schrott).

Achei bem interessante o recurso dos “cortes narrativos” serem marcados, a maioria das vezes, pelas ligações para o celular de Fay Grim. Além disso, o filme tem várias tiradas bacanas, como a do banheiro em Paris e as alusões ao meio literário – com uma engraçada “homenagem” a O Paraíso Perdido, de John Milton. A alusão à obra nos leva a traçar um paralelo entre o livro de Milton, que narra a derrocada do “homem”, com Fay Grim, que mostra a decadência do país mais poderoso do mundo, que utiliza parte de sua riqueza em sistemas de estratégia e espionagem com o único objetivo de controlar e modificar a dinâmica de países mundo afora conforme os seus interesses econômicos.

Gostei também do vídeo erótico que o padre Lang (D.J. Mendel) acaba sendo obrigado a assistir… ele e vários outros religiosos. Esse tipo de piada no filme acaba valendo cada minuto dele. Outros detalhes do filme é a citação de nomes como Herzog (que lembra a pessoa de Vladimir Herzog) e a alusão a um trabalho de espionagem de Henry Fool na América Latina, ajudando a derrubar governos como o do Chile, que não eram do interesse dos Estados Unidos. Ou seja: uma visão bem cínica do país do Tio Sam.

Curiosa a parte em que a CIA tenta encontrar Henry Fool para chegar ao terrorista Jallal (Anatole Taubman). Nesta parte o personagem do escritor/gari/ex-agente da CIA fica ainda mais interessante quando revela que foi praticamente o mentor de Jallal – da mesma forma com que “inspirou” o Simon Grim.

Algo interessante de Fay Grim em relação a outros filmes do gênero espionagem é que praticamente todos os protagonistas do filme seriam, na verdade, os chamados “coadjuvantes” no “cinemão” tradicional. De Fay Grim até Angus James, passando por Bebe, o padre Lang e outros personagens saborosos que acabaram ganhando aqui um destaque maior do que seria o usual. Afinal, a história “gira” em torno do nome de Henry Fool que na prática quase não aparece. Para nosso deleite.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Interessante que o diretor e roteirista Hal Hartley assina ainda a trilha sonora e a edição do filme. Devo dizer que ele acerta em cheio em todos os quesitos. Realmente interessante o trabalho dele nas diferentes frentes – por isso, talvez, o filme tenha ficado tão “autoral”. Também vale a pena destacar a direção de fotografia afinada de Sarah Cawley.

Fay Grim foi lançado nos cinemas em 2006, nove anos depois de Henry Fool. O novo filme com os personagens é uma co-produção dos Estados Unidos com a Alemanha.

O filme foi indicado a três prêmios, tendo ganho um até agora: o de melhor narrativa pela escolha do público no Festival Internacional de Cinema RiverRun, na Carolina do Norte (Estados Unidos).

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,5 para Fay Grim, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 47 textos negativos e 36 positivos para o filme.

Quero dizer que o filme tem uma carga considerável de ironia, o que significa que ele brinca bastante com os estereótipos do gênero. Os fãs dos filmes de espionagem não devem levá-lo à ferro e fogo porque, realmente, é uma perda de tempo assistí-lo tão a sério.

Com uma distribuição praticamente independente, Fay Grim conseguiu uma bilheteria ínfima nos Estados Unidos: pouco mais de US$ 126 mil.

Destaque no filme também para o figurino, assinado por Anette Guther e Daniela Selig.

CONCLUSÃO: Um filme sobre espionagem que destaca os personagens coadjuvantes, colocando-os em primeiro plano, para contar uma história um bocado cínica sobre manobras de espionagem dos Estados Unidos. Com um humor afinado, o filme acerta nos quesitos técnicos – especialmente edição e direção de fotografia – e nos quesitos narrativos. Uma boa surpresa dentro da carreira independente do diretor Hal Hartley (um dos principais nomes do gênero nos Estados Unidos).

ATUALIZAÇÃO (em 4/1/2009): Para quem leu esse texto antes e agora viu que eu baixei a nota dele, vou me justificar: depois que eu assisti a Milk e resolvi dar para ele a note 9,5, pensei que outros filmes comentados aqui antes estavam supervalorizados, como este Fay Grim. Por isso resolvi dar uma nota que eu achei mais justa para ele e os demais filmes que haviam ganho uma nota bem elevada nos últimos tempos.

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Irresistible – Identidade Roubada

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Tem filmes que realmente não me convencem. Este Irresistible caiu no meu colo porque era um lançamento deste mês fácil de conseguir… depois acabei me animando, nos créditos iniciais, ao ver os nomes de Susan Sarandon e Sam Neill. E até que o filme começa bem, mas depois ele se perde de uma maneira… com títulos assim, fico pensando: Será que a diretora realmente perdeu a mão no meio do caminho ou os atores bacanas que fazem parte dele simplesmente fizeram uma escolha ruim?

A HISTÓRIA: Sophie (Susan Sarandon) é uma premiada ilustradora de livros infantis. Casada com Craig (Sam Neill), ela tem duas filhas: Elly (Joanna Hunt-Prokhovnik) e Ruby (Lauren Mikkor). Enquanto tenta trabalhar na produção de uma nova obra, Sophie enfrenta a dor de ter perdido recentemente a mãe. Pressionada para cumprir o prazo do livro, sentindo-se frágil com a perda da mãe e tendo que administrar a família, ela começa a desconfiar que alguém está entrando na casa deles. Quando Mara (Emily Blunt) se aproxima da família do chefe, Craig, os problemas só aumentam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Irresistible): Basicamente este filme segue a seguinte fórmula: tudo o que ele parece querer fazer o espectador acreditar é, na verdade, o contrário. Por isso mesmo achei o roteiro da também diretora Ann Turner tão fraquinho.

Bem, o filme começa bem. Gostei daquela idéia de arte misturada com sanidade ou a falta dela no início. Devo admitir que contribuiu muito para essa minha primeira impressão positiva a presença da música Time After Time meio que no início da história. hehehehehehehehe. Além disso, admito, a direção de Ann Turner é muito cuidadosa e detalhista – ponto positivo.

O filme realmente tem um ritmo interessante no início, quando os personagens são apresentados para o espectador. Quando os primeiros acontecimentos “estranhos” ocorrem, Irresistible ainda segura um ritmo interessante. Afinal, seria normal uma dona-de-casa super atarefada e que perdeu a mãe recentemente esquecer de que desligou o ferro de passar ou a filha dela perder o bichinho de pelúcia que ninguém consegue encontrar. Mas a partir da festa em que Mara e o marido Jimmy (William McInnes) recebem vários convidados em casa, inclusive o casal Sophie e Craig, o filme parece desandar.

Primeiro que ele perde muito o ritmo, fica meio “sem ação” em vários momentos – ou, para ser mais justa, com uma ação morna, quase uma crise criativa resumida a um “deixar rolar” em uma visão contemplativa da vida da dona-de-casa Sophie. Chega a ficar chato, bem chato. Ao mesmo tempo, fica um pouco esquizofrênico, com a história de uma aproximação estranha da personagem da Mara. Se bem que, até um certo ponto, o roteiro até nos faz pensar se a visão desta aproximação estranha não seria uma “deturpada” da mente um tanto desequilibrada da provável narradora da história, que seria Sophie. Mas, na verdade, o filme não é nada conceitual ou complicado. Pelo contrário.

No final das contas, ele acaba sendo bem arrastado em muitos momentos, tentando imprimir um clima de tensão que muitas vezes não cola. Não convence. Como na maior parte das discussões do casal Sophie e Craig. Adoro os atores que interpretam os personagens. No fundo, eles até estão bem em seus papéis. Mas o roteiro realmente não ajuda. E fora os momentos de puro tédio – disfarçado de uma tensão mal fabricada durante o filme -, Irresistible força a barra em uma ou duas “reviravoltas” na história bastante estranhas. Vejamos:

1) Curioso que toda a vez que “alguém” entra na casa da família de Sophie, ninguém consegue flagrar esta pessoa – exceto uma vizinha um tanto velha e com uma memória “ruim” -, mas a primeira tentativa da personagem principal em entrar na casa de Mara termina em flagrante e no juizado. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E estranho, para dizer o mínimo, que Sophie tenha entrado na casa da família de Mara quando esta saiu para levar as filhas para o colégio e que, em seguida, a própria Mara tenha voltado para casa e flagrado a invasora. Achei uma forçada de barra desnecessária – afinal, bastava que Jimmy flagrasse a mulher na casa deles. Depois, quando Mara realmente se revela ao trancar Sophie no porão, algo não se encaixa na loucura da personagem: se ela fez tudo que fez para se aproximar da mãe que a rejeitou, qual era a lógica dela de querer matar a progenitora? Ou será que ela queria apenas “vingar-se”? Se fosse isso, uma vingança, porque ela não tentou dar o golpe certeiro antes? Ok, até que parece interessante a idéia dela de “enlouquecer” a mãe que a rejeitou primeiro para logo matá-la, mas tudo isso me parece meio sem lógica… Além do mais, não entendi exatamente quando Sophie teria “rejeitado” a filha. Lá pelas tantas a personagem de Susan Sarandon comenta que ela entende a raiva de Mara, porque ela (Sophie) teria sido covarde ao não querer conhecer a filha quando estaria grávida de Elly… mas em momento algum do filme, antes disso, sequer se dá uma pista desta rejeição. Ok, toda a parte dos “pesadelos” de Sophie com uma coruja atacando um bebê dão a idéia do “sacrifício” de um recém-nascido, mas nada aponta para uma rejeição de alguém já crescido. Para mim, mais um dos vários fios soltos da história.

2) E quando tudo parece ter sentido – ou seja, que Mara quis se aproximar à força, até mesmo tentando se vingar da mãe que havia lhe havia rejeitado duas vezes, descobrimos que na verdade Mara não é a verdadeira filha de Sophie. Ela assumiu, na prática, a identidade da amiga Kate Crotic, filha da escritora. Achei um problema a forma com que esta segunda “reviravolta” é jogada no colo do espectador. Digo isso porque ela aparece nos minutos finais e se resume a “explicar” a troca de identidades através da semelhança física da filha de Sophie deixada no orfanato no passado com as filhas dela com o atual marido. No mínimo algo um pouco “forçado” por parte da diretora/roteirista, não é mesmo? E essa “reviravolta” não explica algo: se Mara assumiu a identidade da amiga morta no incêndio para fazer cumprir a promessa dela de que a garota poderia ter tudo da amiga, porque ela quis ter tudo da vida de Sophie? Afinal, não seria mais lógico ela virar uma fotógrafa, ajudar crianças em campos de refugiados e, de quebra, exigir espaço na vida de Sophie em lugar de querer enlouquecê-la ou ter tudo que a mãe da amiga tinha?

Sei que os filmes não precisam ter muita lógica, especialmente os de suspense e/ou terror. Mas me incomoda quando um filme tenta ser “sério”, procura surpreender o espectador e contar uma história “complexa” e, no final, apenas deixa muitos fios soltos e não convence. Isso aconteceu com este Irresistible. Um filme que poderia ser interessante mas que, na prática, na maior parte do tempo se mostra chato, arrastado, inverossímel.

Fora os problemas no roteiro e na direção, o filme conta com interpretações competentes de todos os atores envolvidos, com especial destaque para o trio principal e as filhas de Sophie. Gostei também da trilha sonora. Muito, aliás.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Depois de ver o filme, fiquei curiosa para saber mais sobre a diretora e roteirista. Ann Turner nasceu na cidade de Adelaide, na Austrália – o filme, aliás, foi produzido por aquele país. Ela estava 12 anos sem dirigir um longa-metragem. O filme anterior dela foi Dallas Doll, de 1994, com (a feia) Sandra Bernhard, Roy Billing e Melissa Thomas. Antes ela dirigiu a Russell Crowe (quando este ainda não havia estourado como ator) e Charlotte Rampling no filme Hammers Over the Anvil (de 1993). Nada que realmente tenha chamado tanto a atenção até hoje.

Vale a pena destacar o trabalho do diretor de fotografia Martin McGrath – que faz um trabalho realmente competente, especialmente nas cenas de interior – e do responsável pela trilha sonora do filme, David Hirschfelder.

Para variar, não entendi muito bem a “tradução” do título original para o brasileiro… verdade que Identidade Roubada revela mais do filme do que o Irresistible original. Ainda assim, não entendi muito bem as razões de ambos. O que deram para o Brasil acaba “estragando” a segunda reviravolta da história, e o primeiro, Irresistible, não sei a quem se refere…

Fora as derrapadas do filme e o ritmo lento do meio da história, a verdade é que Irresistible acaba tocando em temas interessantes, como a criação artística, o desafio de uma mulher administrar carreira e vida familiar, a neurose que pode surgir depois de uma perda importante – como a de uma mãe, etc. Especialmente interessante todas as atitudes de “defesa” de Sophie durante a fase em que não sabemos se acreditamos nela ou nas demais pessoas da história. A sequência dos “palitinhos” nas portas, em especial, é de matar.

Produzido na Austrália, o filme também foi todo filmado no país “dos cangurus”. Basicamente, todas as cenas foram rodadas na cidade de Melbourne. Na parte técnica, a maioria dos nomes envolvidos na produção também são de australianos.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 5,7 para o filme, enquanto que os críticos que têm textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram apenas duas críticas positivas e uma negativa para o filme.

Curioso que Irresistible é um filme de 2006 que chegou só agora em DVD – nem passando nos cinemas daqui.

E vamos combinar que o cartaz também é bem previsível e feinho??

CONCLUSÃO: Um filme que começa bem, sobre o desequilíbrio que acomete uma premiada ilustradora de livros infantis, mas que depois cai de ritmo e que deixa muitos fios soltos na história. Tem interpretações bem competentes de Susan Sarandon, Sam Neill, Emily Blunt e do elenco em geral, mas desperdiça temas interessantes ao tentar surpreender o espectador com duas reviravoltas pouco convincentes na história. Faltou ousadia no roteiro e um pouco mais de mão firme na direção para que ele valesse realmente a pena.

An American Crime – Um Crime Americano

A violência doméstica é um tema que virou amorfo na mídia atual. Se escuta falar de absurdos como se eles fossem comuns, corriqueiros, quase “normais”. É a velha história de que algo super exposto – em quantidade, não em qualidade – acaba se transformando em algo praticamente banal. Espancamentos de mulheres, abusos contra filhos, terrorismo psicológico, diferentes formas de tortura, entre outras violências praticadas entre quatro paredes viraram um “sub-tema” da editoria de Polícia nos jornais. Na TV, as histórias escabrosas precedem o resultado do futebol ou alguma curiosidade do “mundo animal”. Mas o que parece “banal” se transforma em um soco no estômago quando as histórias passam a ser contadas em detalhes – e ainda mais na forma crua de imagens. An American Crime, filme estrelado por Ellen Page e Catherine Keener, resgata uma história de violência doméstica que abalou os Estados Unidos na década de 60 para nos fazer refletir sobre a capacidade de alguns humanos – ou seriam todos? – em atuarem no extremo da crueldade.

A HISTÓRIA: As adolescentes Sylvia (Ellen Page) e Jennifer Faye Likens – conhecida como Jennie (Hayley McFarland) vivem de forma itinerante. Filhas de Lester (Nick Searcy) e Betty (Romy Rosemont), elas viajam junto com os pais pelos Estados Unidos porque eles vivem da venda de guloseimas em feiras e excursões circenses. Depois de vários anos de um casamento um tanto problemático, o casal se separa. Betty acaba vivendo com as filhas em Indianópolis. Mas Lester se reaproxima da mulher e, ao conhecer a família de Gertrude Baniszewski (Catherine Keener), mãe de seis filhos desempregada que diz passar por problemas de saúde, ele propõe que a mulher cuide de suas filhas durante um curto período. A idéia é que elas fiquem na casa de Gertrude enquanto ele e Betty viajam a trabalho – uma forma de reatar o casamento. O problema é que Gertrude se descontrola e passa a agredir as novas “protegidas”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que grande parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a An American Crime): Ellen Page trabalhou em An American Crime antes de estrelar Juno – o filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz este ano e que lhe tornaria definitivamente conhecida mundo afora. Em An American Crime, mais uma vez, ela mostra porque virou a “garota da vez” – ou uma das “garotas da vez” – em Hollywood. Realmente ela é ótima. Claro que a personagem de Sylvia Likens é muito mais “reta” – ou seja, sem muitas nuances ou complexidade – do que Juno mas, ainda assim, a garota manda ver.

O filme realmente é duro de assistir, em vários momentos. O terror psicológico e depois a tortura e violência física expostos realmente são de revoltar, de fazer o sangue ferver. Algo positivo no filme é que o início nos deixa em dúvida. Exceto se você leu algum texto antes e sabe do que realmente se trata a história, o filme deixa o início em aberto. Da maneira com a qual o diretor Tommy O’Haver começa a filmar, não se tem certeza de quem é a pessoa que está sendo julgada. Só depois, conforme a história vai se desenvolvendo, é que sabemos quem é a vilã da história.

Como eu disse anteriormente em outro texto, tem pessoas que realmente não deveriam ser pais. Neste filme, em especial, existem dois casais que realmente deveriam ser proibidos de ter ou de cuidar de crianças e jovens. Primeiramente, Lester e Betty. Está claro desde o início do filme que Lester acredita – se não durante todo o tempo, mas em parte dele – que as filhas atrapalham o seu casamento com Betty. Afinal, seria muito melhor a vida deles sem elas – que apenas dividem a atenção da mulher com ele. Se isto não era realmente o que ele pensava, é o que o roteiro escrito pelo diretor com Irene Turner sugere. Betty, por sua vez, parece mais carinhosa com as filhas, mas acaba concordando com o marido em deixá-las com uma praticamente desconhecida para que eles possam seguir em “férias conjugais” – com a desculpa de trabalhar.

Mas o pior exemplo mesmo, claro está, é mesmo o de Gertrude. O filme deixa nas entrelinhas que, além de desequilibrada, esta mulher sempre foi uma salafrária. Nem tanto por ela ter começado a ter filhos cedo e por ter tido um seguido do outro sem pensar se ela poderia criá-los – muita gente honesta e amorosa cae no mesmo erro -, mas especialmente pelo tipo de relação que ela mantêm com Andy (James Franco) e com todo e qualquer homem – ou adolescente – que entra na sua casa. Ela parece constantemente tentar “seduzir” os machos que pisam no seu terreno. Ok se ela tratasse os filhos bem, o que não é o caso.

(SPOILER – não leia se você não assistiu o filme ainda). Mas o bacana é que o filme não demora muito para ir ao absurdo das relações estabelecidas no ceio da família Baniszewski. Também não demoramos muito para esperar o pior e para saber que a pessoa que está sendo julgada é mesmo Gertrudes. O que aconteceu comigo – não sei quanto à você, caro leitor – é que eu esperava, até praticamente o final, que o julgamento fosse por maltratos, por abuso, violência doméstica e tudo o mais… achei que o caso não chegaria ao ponto de homicídio.

Normalmente eu tenho o pé atrás com filmes que carregam a frase “baseado em uma história real”. Mas admito, também, que há produções muito boas por aí com esta característica. E foi muito, realmente muito dolorido saber que o que se vê dramatizado em An American Crime, na verdade, aconteceu. Se não EXATAMENTE como ocorre na tela – afinal, os roteiristas e diretores sempre se dão o direito a ter alguma “licença poética-criativa” -, mas em grande parte. (SPOILER – não leia se você ainda não viu o filme). É duro pensar que Sylvia, que parecia ser incapaz de realmente se defender, levou mesmo tantas porradas, teve a pele queimada inúmeras vezes com cigarros, foi obrigada a introduzir uma garrafa de Coca-Cola na vagina (mais de uma vez, diga-se, ainda que no filme apareça só uma vez), entre outros absurdos expostos. E foi tudo verdade.

Mas além de falar do desequilibrio e da loucura em que pode chegar uma mulher por ciúmes, despeito, insegurança e crueldade – sim, porque para fazer o que Gertrude fez era preciso, mais que tudo, ser cruel -, o filme trata de muitos outros temas. Como a conivência da sociedade – representada pelos vizinhos, escola, etc. – com problemas que estão na esquina, ainda mais quando eles se tratam de envolver uma mulher com muitos filhos. Sim, porque uma mulher que foi abandonada, como Gertrude, e que tem tantos filhos para criar, vai na Igreja, faz cara de santa e acaba sendo vista como uma “lutadora”, uma mulher que pode perder o equilíbrio com “justificativas”. Resumindo: ela pode exagerar a dose aqui ou ali, afinal, pela vida que leva, se justifica. Não, não se justifica.

An American Crime também trata, por causa disso, da hipocrisia da sociedade estadunidense – e, sendo realista, de vários outros países. Nela, basta ter vários filhos, ser “pobre” e ir na Igreja para ser visto como quase “santa”. O que foge deste perfil de penúria pode ser debatido, questionado, até condenado. A hipocrisia está também na comunidade que se mete na vida dos demais ao ponto de falar uns dos outros mas que, na hora de realmente zelar pelo bem-estar das pessoas, respeita a “individualidade” tão defendida pelos norte-americanos. Relembrando um frei que ouvi há pouco tempo, ou somos uma comunidade ou não somos. Ou realmente as pessoas se preocupam e zelam umas pelas outras ou tudo não passa de discurso e de encenação.

Mas um dos pontos mais impressionantes do filme, para mim, foi o que trata da “brutalidade coletiva”. Incrível como Gertrude influenciou os filhos para que eles também repetissem e perpetuassem as suas crueldades contra Sylvia e, com a ajuda deles, que ela incentivasse jovens da comunidade para participar da ciranda de torturas e violência contra a adolescente. Lendo uma matéria na Superinteressante de novembro sobre a neuroeconomia eu vi essa frase de Isaac Newton: “Consigo calcular os movimentos dos corpos celestes, mas não a loucura dos homens”. Na reportagem, o neurologista Armando Rocha, da Fundação Getúlio Vargas, falou de algo muito curioso: os neurônios-espelho. “No cérebro dos humanos, assim como em outros animais, existem os chamados neurônios-espelho, que são ativados quando você vê uma pessoa fazendo alguma coisa. Em certos casos, se torna irresistível imitar o comportamento dela”, explicou o neurologista.

Isso me faz lembrar Fight Club (Clube da Luta) e a necessidade de muitas pessoas simplesmente se livrarem do seu desejo pela violência agredindo os outros. Daí fiquei pensando: será que todas aquelas pessoas, sem motivo algum para agredir Sylvia, fizeram o que fizeram porque simplesmente queriam extravasar uma violência contida ou porque foram incentivadas pelos tais neurônios-espelho e, ao ver a crueldade praticada, simplesmente sentiram uma vontade incontrolável de imitar a cena? Realmente algo inacreditável, para mim. Existem dezenas, talvez centenas de maneiras de extravasar a tensão, o estresse, a nossa veia “animal” para a violência. Praticá-la contra uma pessoa inocente e sem capacidade de defesa, como foi o caso de Sylvia, é simplesmente algo infame, absurdo, uma ignomínia.

Como denúncia, o filme é super recomendado. Acho que filmes como este deveriam ser produzidos de tempos em tempos para lembrar as pessoas do quão obscuro pode ser o espírito humano. E como todos nós temos um lado “obscuro”, esse tipo de filme serve para reafirmar a importância de controlarmos a nós mesmos e, mais, de nos envolvermos no que acontece na nossa comunidade, na vizinhança – impedindo abusos sem, claro, invadir demais a privacidade alheia.

No mais, An American Crime traz uma Catherine Keener simplesmente absurda, perfeita na interpretação de uma louca que busca ainda justificativas para seus atos. Ellen Page, ainda que interpretando um papel bastante uniforme – afinal, a Sylvia retratada é quase uma santa -, demonstra porque é um destaque entre a nova geração em Hollywood. Gostei também de Ari Graynor como Paula, a filha mais velha de Gertrude e a lenha que faltava na fogueira de insanidade e vaidade da mãe. A verdade é que toda a garotada do filme está muito bem. Vale citar: Scout Taylor-Compton como Stephanie (praticamente uma ponta no filme, assim como James Franco); Tristan Jarred como Johnny (especialmente cruel e maligno); Hannah Leigh Dworkin como Shirley; e Carlie Westerman como Marie.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda): O filme realmente me agradou. Ainda que ele seja “forte” e que possa desagradar as pessoas mais sensíveis, ele é duro como um filme assim tem que ser. Mas algo nele me incomodou: praticamente no final, achei desnecessária aquela “quase realidade” vivida por Sylvia. A fuga dela até encontrar os pais – algo que nunca aconteceu – vende a idéia de um “sonho” da garota mas, no fundo, acaba apenas confundindo as pessoas. Afinal, por pouco alguém pode chegar até este momento e realmente pensar se não foi isso que aconteceu.

Depois que vi o filme, fui atrás de mais informações sobre o caso. A verdade é que os textos que eu encontrei são todos em inglês (alguns bacanas são este, este e este). Para resumir o que eu achei, tudo que aparece na tela foi verdade – mas com umas nuances diferentes. Por exemplo, o casal Lester e Betty deixou as suas duas filhas – Sylvia com 16 e Jennie com 15 – aos cuidades de Gertrude porque eles pensavam que ela, tendo seis filhos para cuidar, seria uma boa mãe – e uma pessoa responsável. Eles realmente pagaram 20 dólares por semana para que ela ficasse com as adolescentes. Mas algo que o filme não mostra, por exemplo, é que Lester teria dito para Gertrudes que ela deveria ser dura com as meninas para pô-las um pouco “na linha”, porque para elas faltava “disciplina”. Para alguns pais a única maneira de fazer isso é via castigo e palmadas – algumas vezes um tanto pesadas. Um pai que bate uma vez, bate dezenas de vezes – e quem garante que ele não perde “a mão” algumas vezes?

Lendo mais a respeito também descobri que Sylvia realmente conseguiu empreender uma fuga da casa, mas quando já era tarde demais – ou seja, quando ela já estava bem debilitada. Desta maneira, ela foi facilmente capturada por um dos garotos que participava de suas seções de tortura. Também soube que quando Sylvia morreu, Gertrude alegou para a polícia que ela tinha sido atacada por uma gangue de rapazes – inclusive forjando uma carta da vítima sobre isto. A mulher, mais que louca, era realmente maligna.

Outro aspecto incrível do caso, para mim, foi a idéia de “punição” da garota. Afinal, todas aquelas pessoas realmente se imaginavam melhor e, mais que isso, com algum “poder conferido por Deus” para maltratar a adolescente? Acho que esse tipo de pensamento é o mesmo que moveu grupos como a Ku Klux Klan por tanto tempo, colocando na cabeça de algumas pessoas que elas eram “superiores” e que tinham uma certa legitimidade para agredir ou matar quem eles acreditavam ser passíveis de “punição”.

Além de tudo que já comentei sobre o filme, outros dois aspectos me surpreenderam: por que diabos as irmãs Likens não fugiram daquela casa? Elas muito bem poderiam ter um dia, depois da escola, ter escapado e nunca mais ter aparecido. O outro aspecto foi a cumplicidade de Jennie com tudo que estava acontecendo. Ainda que ela tivesse sofrido poliomelite e fosse a mais frágil das irmãs, ela tinha 15 anos!! Ela e a irmã, se quisessem resistir aos maus tratos, muito bem poderiam enfrentar – ou tentar, pelo menos – a megera da dona da casa. Mas a passividade de ambas chega a ser assustadora. Algo que, para mim, só poderia mesmo ter ocorrido nos anos 60 ou antes – porque hoje em dia eu duvido que uma garota desta idade aceitaria submeter-se a tudo que Sylvia passou.

Os textos que falam do caso – em inglês – ressaltam que os vizinhos de Gertrude iam até a casa para praticar judô em Sylvia. Além das outras prácticas de tortura mostradas no filme, os jovens e Gertrudes davam banhos escaldantes na menina para “apagar os sinais” das violências que ela tinha sofrida. Quando ela morreu, contudo, a polícia identificou marcas antigas de tortura – o que desmascarou a versão da “agressão feita por uma gangue de meninos” que Gertrude havia tentado apresentar. Segundo os textos, apenas perto do final que Sylvia foi impedida de sair de casa. Nesta fase, ela era alimentada apenas com bolachas e não tinha a permissão de usar o banheiro.

Mas algo realmente revoltante é que 20 anos depois do crime a assassina Gertrudes conseguiu a liberdade. Ela saiu da cadeia em 1985, mudando o nome para Nadine Van Fossan. Ela foi então viver em Iowa e começou “vida nova”. Morreu de câncer em 1990. Paula, condenada por homicído em segundo grau, também foi libertada, se casou e foi morar em uma fazenda em Iowa. Esse tipo de permissividade da lei é o que, para mim, mais incentiva os dementes e cruéis a praticar crimes absurdos como este.

Uma curiosidade: o diretor Tommy O’Haver é natural de Indianapolis, cidade no Estado de Indiana onde ocorreu o crime. Sem dúvida a história, tão “familiar” para ele, lhe motivou a contar novamente esta história – porque o drama de Sylvia foi razão para o filme The Girl Next Door, também de 2007 (ao qual eu ainda não assisti, mas que parece menos “sério”).

An American Crime recebeu a nota 7,4 dos usuários do site IMDb. Por sua parte, os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram poucas resenhas para o filme: apenas sete. Destas, cinco negativas e apenas duas positivas.

O filme recebeu apenas uma indicação a prêmio até agora: para Catherine Keener no Emmy de 2008.

CONCLUSÃO: Baseado em uma história real, o filme mostra sem pudores os abusos e a tortura pela qual passaram duas irmãs na casa de uma mulher desequilibrada. Não indico o filme para pessoas “sensíveis”, que tem algum problema em assistir produções que abordam o terrorismo psicológico e a opressão física. Mas se você não tem problemas com isto, pode encontrar em An American Crime uma história realmente assustadora sobre o quão fundo uma pessoa pode chegar na crueldade contra outro ser humano. O filme também é interessante pelas atuações – especialmente de Catherine Keener – e pela reflexão que suscita sobre atitudes irracionais praticadas pela repetição de atos alheios.

ATUALIZAÇÃO (em 4/1/2009): Para quem leu esse texto antes e agora viu que eu baixei a nota dele, vou me justificar: depois que eu assisti a Milk e resolvi dar para ele a note 9,5, pensei que outros filmes comentados aqui antes estavam supervalorizados, como este An American Crime. Por isso resolvi dar uma nota que eu achei mais justa para ele e os demais filmes que haviam ganho uma nota bem elevada nos últimos tempos.