4. Festivais europeus


EPÍLOGO: Este é o quarto texto que produzi para o site DVD Magazine e que reproduzo aqui no blog. Este artigo sobre os festivais de cinema na Europa, assim como os demais artigos que você, caro leitor, poderá ler aqui, devem ser vistos – como sempre – levando em conta a data em que eles foram produzidos e publicados. Sempre que possível acrescentarei atualizações e comentários datados e posteriores, como faço com as críticas dos filmes.

DATA DE PUBLICAÇÃO: 22 de maio de 2008.

TÍTULO: O que nos contam os principais festivais de cinema da Europa

Festivais de cinema são, inevitavelmente, um oásis para as pessoas que gostam de bons filmes. Primeiro porque neles é possível assistir a produções que serão exibidas no cinema muitos meses depois – e, algumas vezes, a filmes que nem chegarão a ser exibidos em muitas cidades do Brasil ou mundo afora. Depois porque sempre é possível encontrar algum diretor, ator, atriz ou demais pessoas importantes no mundo da Sétima Arte circulando pela região como simples mortais, sem contar a oportunidade de ouvir discussões e palestras envolvendo realizadores importantes.

Na semana passada começou na França o Festival de Cannes, um dos mais concorridos, badalados e prestigiados festivais do mundo. Pelos holofotes da imprensa que faz a cobertura do festival já passaram este ano celebridades como Angelina Jolie, Clint Eastwood, Julianne Moore, Monica Bellucci, Cate Blanchett, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Benicio Del Toro, Harrison Ford, Steven Spielberg, George Lucas… a lista parece não terminar.

Ainda que seja o festival mais badalado da Europa, Cannes é apenas um de uma lista de bons exemplos do gênero que o Velho Continente oferece a cada ano. Pela lista da Federação Internacional de Associações de Produtores de Cinema (FIAPF), anualmente são promovidos 12 festivais importantes com mostras competitivas no mundo – seis deles ficam na Europa. A seguir, fique sabendo um pouco mais dos bastidores destes festivais e o que cada um deles promete mostrar de interessante para o mercado em 2008:

FESTIVAL DE CANNES, 61ª. Edição, França, de 14 a 25 de maio: O mais importante festival europeu termina no próximo domingo sob a batuta de Sean Penn, presidente do júri deste ano. Competindo pela cobiçada (e prestigiada) Palma de Ouro estão nomes reconhecidos como Clint Eastwood, Steven Soderbergh e Wim Wenders, até diretores “emergentes” no cenário competitivo do “cinemão-com-arte”, como Fernando Meirelles, Arnaud Desplechin, Nuri Bilge Ceylan, Ari Folman, Walter Salles e Daniela Thomas.

O filme Blindness, de Fernando Meirelles, teve a honra de abrir o Festival de Cannes no último dia 14. Ele não arrancou nenhuma unanimidade entre o público ou a crítica, mas conseguiu uma visibilidade importante antes de sua estréia comercial. A sessão para a imprensa, todos contam, foi um tanto fria, mas a sessão de gala, como é chamada a abertura do festival, rendeu mais de cinco minutos de aplausos para o trabalho de Meirelles. Ainda assim, o filme não tem chances reais de ganhar a tão cobiçada Palma de Ouro.

Entre as produções importantes que estão competindo ao prêmio principal de Cannes está A Troca (Changeling), o novo trabalho do diretor Clint Eastwood; e Che, de Steven Soderbergh. O filme de Eastwood se passa na Los Angeles dos anos 20 e conta a história de uma mãe desesperada por encontrar seu filho desaparecido – e por provar que o garoto que tentam colocar em seu lugar não é quem ele diz que é. Che, como o nome mesmo indica, é a cinebiografia do guerrilheiro revolucionário símbolo da resistência na América Latina. O projeto de Soderbergh é composto, na verdade, por “dois filmes em um”, ou seja, pelos longas Guerrilla e El Argentino que compõe Che. Outro “veterano” na disputa é o alemão Wim Wenders com seu Palermo Shooting, um filme sobre um fotógrafo de sucesso que se muda de Düsseldorf para Palermo e que acaba sendo perseguido por um misterioso atirador.

Dos Estados Unidos, interessa a estréia na direção do roteirista Charlie Kaufman – o responsável por histórias interessantes como Being John Malkovich, Adaptation e Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Kaufman compete em Cannes com Synecdoche, New York, que conta a história de um diretor de teatro – interpretado pelo genial Philip Seymour Hoffman – que resolve montar um épico autobiográfico. Outra estréia importante no festival é do filme brasileiro Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. A produção recebeu muitos comentários e textos positivos da crítica especializada – mais do que Blindness – e, a exemplo do filme de Meirelles, também concorre por fora na disputa.

Mesmo com nomes badalados na disputa, os críticos de cinema estão apontando diretores menos conhecidos como os favoritos para a Palma de Ouro. Entre eles, o italiano Matteo Garrone com o seu Gomorra (que narra os bastidores violentos do crime organizado em Nápoles, baseado no livro de Roberto Saviano, ameaçado de morte pelos mafiosos da Camorra); o israelense Ari Folman com seu Valsa com Bashir (uma animação impressionante que conta a história da matança de refugiados palestinos em Sabra e Chatila); o francês Arnaud Desplechin com seu Um Conto de Natal (sobre uma família que se encontra no Natal cercada por uma perda importante e por muitos problemas); e o turco Nuri Bilge Ceylan com seu Três Macacos (em que um homem assume a culpa de um acidente fatal pelo chefe para, em seguida, viver a desestruturação da sua família).

Mas ainda que a crítica e o público façam as suas bolsas de apostas, quem decide realmente o premiado é o júri presidido por Sean Penn – formado por, entre outros, diretores como Alfonso Cuarón e Marjane Satrapi (do ótimo Persépolis) e por atrizes como Natalie Portman e Alexandra Maria Lara.

ATUALIZAÇÃO (30/06): No final das contas, o filme que saiu vencedor do Festival de Cannes 2008 foi mesmo Entre les Murs, do francês Laurent Cantet. O filme, baseado em uma história real, conta a luta de um professor para integrar seus alunos de várias origens culturais e de distintas nacionalidades em sua sala de aula. Um tema mais que atual na Europa que discute novas diretrizes sobre a imigração e, especialmente para a França, onde se viu nos últimos anos uma série de distúrbios causados pela xenofobia (resistência aos extranjeiros) e pelo preconceito racial e/ou religioso. O filme foi escolhido de forma unânime pelo júri presidido pelo ator Sean Penn. Mas uma das gratas surpresas do festival foi a premiação da atriz brasileira Sandra Corveloni como melhor atriz por seu papel no filme Linha de Passe. A atriz, com larga experiência no teatro, interpreta nesta produção de Walter Salles e Daniela Thomas uma mãe suburbana que sustenta quatro filhos com o salário de empregada doméstica. Brilhante.

FESTIVAL DE KARLOVY VARY, 43ª. edição, República Tcheca, de 4 a 12 de julho: O festival tcheco é menos conhecido fora da Europa, mas tem a sua importância e é valorizado pela Federação Internacional de Associações de Produtores de Cinema (FIAPF) – além de ter um bom histórico na exibição de filmes brasileiros. O evento deste ano, o primeiro importante no calendário dos festivais depois de Cannes, ainda não tem a lista completa dos filmes que serão exibidos ou que estarão concorrendo aos prêmios (o principal deles o Crystal Globe) – algo que se tornará público apenas duas semanas antes do festival começar. Uma mesma lógica funciona para este festival e para todos os outros: as notícias dos filmes que participarão da mostra competitiva começam a ser divulgadas depois que o festival anterior termina, já que em todos eles o critério de “não ter competido em outro festival antes” é fundamental.

Ainda assim, os organizadores do festival já divulgaram algumas produções interessantes que serão exibidas por ali. Entre elas, a estréia internacional de The Guitar, a estréia na direção da atriz Amy Redford. O filme conta a história de uma garota que descobre que tem um câncer terminal e que é abandonada por todos – inclusive o namorado. Sabendo que lhe restam dois meses de vida, ela resolve fazer tudo o que sempre quis (incluindo na lista aprender a tocar guitarra). A sinopse não parece muito interessante, mas o filme é um dos destaques na programação do festival.

Outro “chama público” será Nick Nolte: No Exit, um filme retrato-documentário do ator norte-americano dirigido por Tom Thurman. O protagonista de filmes como The Prince of Tides e Lorenzo’s Oil já confirmou a sua presença no festival.

FESTIVAL DE LOCARNO, 61ª. edição, Suíça, de 6 a 16 de agosto: Considerado o quarto festival em ordem de importância no mundo – depois de Cannes, Veneza e Berlim –, o festival de cinema de Locarno deste ano divulgou até agora poucas de suas atrações. Uma das estréias confirmadas e que marcará o festival por sua inovação – não necessariamente qualidade – será o filme Gaz’ of the Desert, o primeiro rodado totalmente no “mundo virtual”. O filme é “estrelado” por Gazira Babeli, a artista que nasceu e que vive no mundo de Second Life.
O festival é conhecido por valorizar as produções européias e também as provenientes da América Latina – dando atenção, especialmente, para filmes não muito comerciais. Outro ponto forte do festival são as projeções de filmes na Piazza Grande, uma imensa praça em que o público pode conferir grandes produções à céu aberto. Em 2007, um dos destaques do festival foi a presença de Anthony Hopkins para a exibição de seu filme Slipstream. O grande premiado do ano passado foi o filme japonês Ai no Yokan (O Renascimento), do cineasta Masahiro Kobayashi – que levou para casa o cobiçado Leopardo de Ouro.

FESTIVAL DE VENEZA, 65ª. edição, Itália, de 27 de agosto a 6 de setembro: O badalado festival de cinema de Veneza será marcado por uma grande estréia mundial este ano: o aguardado novo filme dos irmãos Coen, Burn After Reading, está confirmado para abrir o evento no dia 27 de agosto. Desta vez Ethan e Joel Coen filmam uma história de espiões recheada de ironia e estrelada por astros como John Malkovich, George Clooney, Frances McDormand, Tilda Swinton, Brad Pitt, entre outros.

Os demais filmes que serão exibidos ou mesmo a lista de competidores do festival ainda não foi divulgada. Mas é certo que o diretor italiano Ermanno Olmi receberá um Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra. Muito ligado à história do festival – no qual participou por vários anos -, Olmi é conhecido por dirigir filmes como La Leggenda del Santo Bevitore (A Lenda do Santo Beberrão) e L’Albero Degli Zoccoli (A Árvore dos Tamancos).

No ano passado o Festival de Veneza premiou o filme Lust, Caution do cineasta Ang Lee, com o Leão de Ouro. O diretor estadunidense Brian De Palma ficou com o Leão de Prata por seu Redacted. Prestigiado especialmente na Europa, o Festival de Veneza atrai para a cidade italiana alguns dos principais diretores e intérpretes do cinema mundial. Existe uma forte expectativa para a lista de concorrentes deste ano – especialmente porque se trata da 65ª. edição do festival.

FESTIVAL DE SAN SEBASTIÁN, 56ª. edição, Espanha, de 18 a 27 de setembro: O mais importante evento no calendário dos festivais de cinema espanhóis dará destaque este ano para a obra do diretor italiano Mario Monicelli e para os filmes “noir” japoneses. A exemplo dos festivais anteriores, o de San Sebastián ainda não divulgou títulos de filmes que participarão da mostra competitiva, mas já definiu as mostras paralelas comentadas anteriormente.

Segundo os organizadores do festival espanhol, a seleção de 41 longas-metragens e dois curtas dirigidos por Monicelli reafirma o interesse do evento em valorizar “um dos períodos mais gloriosos do cinema italiano”, que eles consideram o dos anos 50 e 60. Em 1998 e 1999 o mesmo festival já havia homenageado as comédias vindas da Itália com dois ciclos.

O outro destaque do festival fora de competição será a retrospectiva temática Japão em Negro, que exibirá 40 filmes com temática policial e de característica “noir” vindos do país do Sol Nascente. Dentro da seleção o público poderá conferir desde filmes de jogadores (bakuto) datadas da época do cinema mudo até o auge dos filmes de gângsteres ocorrida no Japão depois da II Guerra Mundial. No meio da salada mista feita pelo festival de San Sebastián será possível encontrar desde Nora Inu, de Akira Kurosawa, até Jingi no Hakaba, de Kinji Fukasaku.

Este ano 18 filmes ainda não divulgados pelos organizadores vão competir a Concha de Ouro, o prêmio máximo do festival. Em 2007 o festival foi presidido pelo escritor Paul Auster e premiou A Thousand Years of Good Prayers, de Wayne Wang, como o melhor filme.

O QUE JÁ ACONTECEU:

FESTIVAL DE BERLIM, 58ª. edição, Alemanha, de 7 a 17 de fevereiro: O terceiro mais importante festival de cinema mundial premiou em 2008 o filme brasileiro Tropa de Elite com o Urso de Ouro. Foi um grande feito para o cineasta José Padilha receber o prêmio das mãos do diretor Constantin Costa-Gavras, presidente do júri em Berlim. Também foi uma vitória impressionante porque Tropa de Elite ganhou o prêmio principal deixando para trás nomes como Paul Thomas Anderson e seu There Will Be Blood (Sangue Negro); Yoji Yamada e o japonês Kabei; Mike Leigh com Happy-Go-Lucky; Isabel Coixet com Elegy; entre outros.

Na página oficial do festival estão divulgando já algumas informações para o evento de 2009. Mas os filmes que participarão da próxima edição devem ser divulgados apenas em janeiro do próximo ano.

OS OUTROS FESTIVAIS COM CREDENCIAL DA FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE ASSOCIAÇÕES DE PRODUTORES DE CINEMA (FIAPF): Festival de Shangai (de 14 a 22 de junho); Festival de Moscou (de 19 a 28 de junho); Festival de Montreal (de 21 de agosto a 1 de setembro); Festival de Tokio (de 18 a 26 de outubro); Festival do Cairo (de 18 a 28 de novembro); Festival de Mar del Plata (de 4 a 14 de dezembro).

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