The Florida Project – Projeto Flórida

 

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Existem realidades sobre as quais ninguém quer saber. E mesmo que em algum momento da vida nos deparemos com essa realidade, assumimos a postura de resistência. Alguns torcem o nariz. Outros, optam pela condenação, mesmo que velada. Mas nada disso fará com que essa realidade deixe de existir. The Florida Project é mais um filme dessa temporada do Oscar 2018 que nos dá umas boas bofetadas na cara – ou socos no estômago, para quem preferir. Os golpes são duros, e mexem com os nossos pré-conceitos. The Florida Project é um desses filmes sobre os quais é bom pensar por um bom tempo depois dos créditos passarem. Até para, finalmente, termos algo para dizer a respeito.

A HISTÓRIA: Duas crianças estão sentadas no chão. Logo, elas se olham e tentam ouvir o chamado de Dicky (Aiden Malik). Ele está gritando o nome de Moonee (Brooklyn Prince) e de Scooty (Christopher Rivera). Eles gritam muito, até que Dicky chega até os amigos e diz que há gente nova em Futureland. Eles ficam empolgados e saem correndo para fazer um “campeonato de cuspe” sobre o carro da nova inquilina da pousada Futureland. Stacy (Josie Olivo) fica indignada com as crianças e vai atrás dos responsáveis, encontrando Halley (Bria Vinaite), a mãe “alternativa” de Moonee.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Florida Project): Fiquei um pouco perplexa com esse filme, eu admito. Primeiro, com o chocante que é ver crianças ainda pequenas com um vocabulário tão baixo e uma atitude tão equivocada, de afronta dos demais e de falta de respeito.

Depois, conforme o roteiro de Chris Bergoch e do diretor Sean Baker vai avançando, fica ainda mais claro que aquelas crianças vivem em uma situação séria de vulnerabilidade social. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme) Elas – especialmente Moonee – não aprenderam o valor das coisas, que tudo custa dinheiro e qual deve ser a melhor forma de conseguir esse dinheiro. Então elas sim, começaram pedindo trocados para desconhecidos… mas no que mais elas podem embarcar para conseguir dinheiro para comprar sorvete ou algum doce/guloseima?

Aos poucos, e sem nenhuma pressa, o roteiro de Bergoch e de Baker se debruça sobre a realidade daquelas crianças. Acabamos sabendo que elas são fruto de lares desfeitos – repararam que nenhuma das crianças tem pai e mãe, ao menos “aparentes”? Ou vemos em cena um pai ou uma mãe, nunca os dois juntos. Com isso, não quero dizer que os frutos de casamentos com pai e mãe estão isentos de problema. Não, muito pelo contrário.

Mas não deixa de ser marcante que temos apenas uma parte de um casal como “responsável” de cada uma daquelas crianças. Esse é apenas um detalhe daquela realidade. Mas um outra parte fundamental é que esta história se passa ao lado de um parque Disneyland. Ou seja, existe muita pobreza, fragilidade social e desigualdade social.

Enquanto alguns gastam pequenas fortunas viajando para se divertir com a família – e muitas crianças incluídas – em um parque com os atrativos da Disney, muitas crianças estão pedindo trocados para comprar um sorvete e com seus pais em casa preocupados porque não conseguem emprego.

The Florida Project é um filme que mira com tudo na desigualdade social e de oportunidades. Mostra dois Estados Unidos muito diferentes: aquele da Flórida ensolarada e cheia de alegria dos parques da Disney e o da mesma Flórida ensolarada habitado por pessoas que vivem contando os seus dólares e cents para pagar todas as contas a cada semana e mês. Alguns, sem emprego, inseguros sobre o que pode acontecer com eles e seus filhos a curto prazo.

Mas isso não é tudo. Essa produção não trata apenas de desigualdade social. Também trata sobre as escolhas que as pessoas fazem nas suas vidas e os seus efeitos. E é nesse ponto que The Florida Project realmente nos desafia. Porque eu acredito que a maioria das pessoas que assistem a esse filme não devem concordar com a forma com que Halley “educa” a sua filha, não é mesmo?

Mas e aí, o que fazemos com o nosso julgamento? O que fazemos com a nossa discordância? Acho que essa é a problemática que faz esse filme ser interessante. Como eu disse lá no princípio, por mais que a gente tenha empatia, por mais que tentemos compreender aos outros, acho quase impossível, ao assistir The Florida Project, em algum momento você não ficar mexido(a) com as sequências de Moonee em um longo “banho de banheira” sozinha.

Não sei vocês, mas eu já tinha matado a “charada” muito antes das cartas serem colocadas sobre a mesa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na verdade, na primeira longa sequência do banho de banheira de Moonee sozinha, eu já tinha desconfiado que a mãe estava do lado de fora, no quarto, se prostituindo. E cada cena que veio depois, só mexia mais comigo.

Sim, antes alguém que se preocupa sobre a educação de uma criança e pensa que uma mulher só deveria ser mãe quando realmente está preparada para isso, já teria se “incomodado” ao menos um pouco com a forma com que Halley deixava Moonee extremamente “solta” por aí. E se a garota fosse atropelada? E se ela fosse convidada por um cara para entrar no carro dele porque ele iria levar ela para tomar todos os sorvetes que ela quisesse e, no lugar disso, ela fosse abusada?

Pessoas que se preocupam minimamente com a segurança, com a educação e com ensinar bons valores e princípios para uma criança não conseguem assistir a The Florida Project sem um grande incômodo. Mas a questão é: não importa o seu julgamento, casos como o de Halley e o Moonee realmente existem. Estão ocorrendo nesse exato momento, enquanto eu escrevo essas linhas e você lê essas palavras. Ignorar essas realidades ou reprovar essas situações, na real, não mudam nada.

Então o que fazemos a respeito? Durante o desenrolar de The Florida Project, com tantas cenas um tanto “repetidas” daqueles dias de pura “curtição” das crianças de férias enquanto o mundo se revelava agreste ao redor deles sem as crianças realmente perceberem, eu me perguntava isso. O grande personagem de Bobby (Willem Dafoe), o gerente da pousada que rebola todos os dias para tentar deixar tudo em ordem e para apaziguar todos os ânimos, nos dá alguns bons indícios sobre isso.

De sua forma muito discreta e cuidadosa, Bobby não julga as pessoas. Mas ele também não as ignora. Bobby está sempre de olho nas crianças, mas não para repreendê-las sempre. Apenas para, dentro do possível, zelar por elas. Enquanto Halley se revelava mais uma espécie de garota despirocada crescida, quase uma irmã de Moonee ao invés de sua mãe, eu me perguntava: como lidar com aquela situação, com aquela garota que não tem maturidade para ser mãe?

Daí eu fiz um “mea culpa” sobre o que eu penso e sobre os meus próprios critérios sobre maternidade e paternidade. Eu já escrevi aqui antes, comentando sobre outro filme, que eu acho que tem mulheres e homens que não deveriam ser mães ou pais. Mais que nada, porque eles não tem maturidade emocional para isso. E, ainda que eu não tenha mudado a minha opinião a respeito, The Florida Project me fez olhar sobre esse assunto de uma forma mais ampla.

Casos como o de Halley realmente existem, e em diversas partes, culturas e classes sociais – assistentes sociais, advogados e juízes da Vara da Criança e da Juventude que o digam. Mas e aí, se aquela mulher que não tem maturidade para ser mãe, possivelmente não tem condições nem de cuidar direito de si mesma já tem uma filha, o que fazer a respeito? Certamente a melhor saída não é apenas fechar as portas para essa pessoa.

E é isso, esse tipo de exclusão, que também vemos nesse filme. Halley não é apenas excluída financeiramente, por não ter um emprego e por ter que “se virar” vendendo com um pouco de superávit em bairros ricos perfumes baratos que ela comprou em um mercadinho. Tatuada, com cabelo colorido e/ou desbotado, desbocada e um bocado “encrenqueira”, pouco a pouco ela vai sendo excluída pelas pessoas.

Conforme ela “ensina” a filha dela a ser uma mini-Halley, ela também começa a ser excluída pelos pais dos amiguinhos da filha. Primeiro, o pai (Edward Pagan) de Dicky proíbe o filho dele brincar com os “encrenqueiros” da vizinhança – e, consequentemente, excluí Halley. Depois, ao ver como o filho estava indo para o caminho errado por influência de Moonee, a mãe de Scooty, Ashley (Mela Murder), amiga de Halley até então, também afasta o filho de Moonee e se afasta da mãe da garota.

Então, conforme o competente roteiro de Baker e de Bergoch avança, vemos a Halley ser cada vez mais excluída. Por tudo (falta de oportunidades de emprego e de rendimento, principalmente) e por todos (especialmente o afastamento de Ashley a machuca). E aí, enquanto você vê isso, você pensa: ok, ela buscou tudo isso. Ela colheu o que plantou. Mas e aí, a melhor saída mesmo é aquela que vemos no filme? Uma criança tendo que ser “resgatada” dos braços da mãe por que ela estaria mais segura e melhor sendo criada por outras pessoas?

Por mais que Moonee fosse para um lar adotivo com ótimas pessoas, ela jamais esqueceria da mãe dela ou teria tudo que ela passou até então apagado e resolvido. Sim, ela ainda poderia ser muito feliz. Mas será mesmo que um olhar um pouco mais generoso e compassivo, como o de Bobby, não poderia provocar uma mudança maior para aquela mãe e filha? Será que se alguém olhasse com carinho e cuidado para Halley, lhe desse uma oportunidade de emprego e etc., aquela garota mesmo não poderia dar um rumo melhor para si e para Moonee?

Sei que o debate é longo. E sei que essas minhas perguntas não tem apenas uma resposta. Mas o bacana de The Florida Project é que o filme nos provoca a fazer exatamente isso. Olhar para uma realidade para a qual não gostaríamos de olhar, pensar sobre a ótica dos nossos preconceitos e das nossas “medidas” do que é certo e justo e, após fazer isso, desconstruir um pouco esse olhar. Olha, um filme fazer isso não é fácil. Mas The Florida Project consegue fazer isso muito bem.

Acho que é impossível não assistir a esse filme e ficar mexido com ele. Por vários aspectos e em vários sentidos – aqui citei apenas os mais evidentes e óbvios, mas existem outros. Enquanto assistia ao filme, eu também pensava como Moonee e Halley não viviam apenas “uma vida”, linear e facilmente “classificável”.

Por exemplo, ainda que Moonee vivesse em um certo risco e fragilidade social, ela também tinha uma realidade cheia de brincadeiras, de fantasia, de amizade. Ela tinha, até um certo ponto, uma certa “infância”. Mas aí, em outros momentos, ela agia como uma mini-Halley, provocando, desrespeitando e confrontando os outros. Mesmo sem entender direito o que fazia, ela também acompanhava a mãe em suas peripécias para vender perfume – sem saber que, ao acompanhar Halley, estava sendo usada por ela para “sensibilizar” os endinheirados.

The Florida Project nos mostra, assim, de forma muito eloquente, que as crianças são pessoas em formação e que estão, mesmo quando não nos damos conta, nos “emulando”. Repetem os nossos gestos, a forma com que falamos, as nossas atitudes e tudo o mais. Daí a necessidade de bons exemplos, de ensinar o que é certo e o que é errado. Mostrar que as coisas custam dinheiro e que existem formas corretas de conseguir esses recursos.

Em The Florida Project isso se torna muito evidente na forma com que Moonee repete os traquejos, a forma de falar e agir da mãe, Halley. Mas, ainda assim, ela tem espaço para ser ela mesma – quando está brincando com os amigos, essencialmente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas, no final, quando tudo acontece daquela forma sofrida, deixamos de ver a mini-Halley na nossa frente. Moonee se revela, em seu choro desesperado, apenas uma criança.

E aí o diretor Sean Baker termina o filme daquela forma genial. Em uma espécie de “grito da Independência” da infância, Moonee e Jancey (Valeria Cotto) se lançam para o lugar mais cheio de fantasia do Planeta, o parque da Disney. Ainda que questione a desigualdade social e o abismo entre as oportunidades que as pessoas tem, Baker está, com aquela sequência final, meio que nos dizendo que todas as crianças deveriam ter o direito de serem crianças. Nada mais. De correrem por atrações cheias de fantasia e de diversão sem ter que se preocupar com mais nada.

Sem dúvida alguma, uma forma potente de terminar um filme que tem uma coluna vertebral alternativa. The Florida Project é um filme no estilo que Hollywood não está muito acostumado a fazer, mas no qual se sai muito bem quando aposta nele. Uma produção que parece arrastada em alguns momentos, mas que tem um crescimento narrativo muito interessante e que, claro, tem um “grand finale” inesquecível. Além de tudo isso, ele faz pensar. E um bocado.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Olha gente, vou ser sincera com vocês. Eu defendo o direito das pessoas que quiserem ser “porra louca” a vida inteira, fazerem isso. Bem de boa. Até porque acho que adultos podem fazer o que bem entenderem desde que estejam preparados para as consequências de seus atos. Agora, as coisas mudam bastante de figura quando colocamos uma criança nessa equação. Aí, por mais que eu respeite a liberdade das pessoas de escolherem as suas próprias vidas, eu não posso me eximir do incômodo de ver uma criança sendo exposta a situações absurdas e nada indicadas. Por isso, respeito a minha indignação a ver a algumas cenas desse filme. Mas também sei que essa indignação não leva a nada.

Além disso, no final de contas, tudo o que queremos é que as crianças sejam crianças. Todas crianças deveriam ter esse direito – mas muitas não tem, infelizmente, e por várias razões. Agora, além de terem o direito de serem crianças, elas também devem, dentro das indicações de idade, aprenderem responsabilidades. Saberem que o que elas fazem tem repercussões e que as coisas materiais, ainda que não sejam as mais importantes, tem o seu custo. E que esse custo deve ser sempre ponderado. Enfim, uma boa dose de bom senso é sempre uma boa pedida para pais e mães.

The Florida Project tem algumas qualidades bem interessantes. Primeiro, o roteiro de Chris Bergoch e de Sean Baker que vai, aos poucos, se desdobrando em uma realidade que parece simples, no princípio, mas que não tem nada de simplicidade no fim das contas. A dinâmica do diretor Sean Baker é de quase um documentário.

Um filme que acompanha os personagens – especialmente as crianças – com a câmera muito próxima e que gasta boa parte do tempo mostrando os “dias comuns” de algumas famílias. Através dessas histórias, observamos uma complexidade dos nossos tempos que precisa ser discutida e para a qual precisamos encontrar respostas e saídas. O que não podemos é deixar que tudo corra como um carrinho de montanha-russa desgovernado.

Além do roteiro de Bergoch e de Baker, a direção “naturalista” de Baker é um pouco de destaque dessa produção. Da parte técnica do filme, também vale destacar a ótima direção de fotografia de Alexis Zabe; a edição cuidadosa de Sean Baker; a trilha sonora potente e que dá um bom ritmo para o filme de Lorne Balfe; os figurinos de Fernando Rodriguez; o design de produção de Stephonik Youth; e a decoração de set de Kurt Thoresen.

Esse filme depende muito do trabalho dos atores em cena. E, nesse sentido, se destacam dois atores, mais que os outros: Brooklynn Prince como a agitada, desbocada e sensível Moonee; e Willem Dafoe como o sensível e competente Bobby. Para mim, eles roubam a cena cada vez que aparecem, passando muita legitimidade em seus papéis. Além deles, vale destacar o competente trabalho de Bria Vinaite como Halley; de Christopher Rivera como Scooty; o de Valeria Cotto como Jancey e o de Mela Murder como Ashley. Digamos que esse é o “time de elite” do filme.

Mas, além desse grupo de atores, que estão muito bem, vale comentar o bom trabalho de Aiden Malik como Dicky; o de Josie Olivo como Stacy; o de Sandy Kane como Gloria, mulher “exótica” que gosta de fazer topless na piscina; o de Caleb Landry Jones como Jack, filho de Bobby; e Carl Bradfield como Charlie, um sujeito suspeito que parecia um pedófilo à espreita das crianças.

The Florida Project estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2017. Depois o filme participou, ainda, de outros 34 festivais em diversos países do mundo. Nessa trajetória, o filme abocanhou 50 prêmios e foi indicado a outros 81 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Willem Dafoe. Entre os prêmios que recebeu, metade deles – ou seja, 25 – foram dados para Willem Dafoe por seu trabalho nessa produção. Outros destaques, entre as premiações recebidas, foram os nove prêmios dados para Brooklynn Prince, normalmente como Melhor Atriz Jovem ou Atriz Revelação; os quatro prêmios que a produção recebeu como Melhor Filme; e os cinco prêmios dados para o diretor Sean Baker.

Em uma entrevista dada para a rádio BBC em 2017, Sean Baker comentou que rodou The Florida Project em pousadas e motéis reais. Esses locais continuaram operando normalmente durante as filmagens, e alguns moradores e funcionários que circulam nestes locais acabaram aparecendo no filme.

O ator Willem Dafoe passou uma semana nos locais de filmagens para “mergulhar” na vida dos personagens e para pegar o sotaque das pessoas que vivem na região.

No roteiro original do filme, o personagem de Bobby teria um irmão que o ajudaria a fazer alguns trabalhos na pousada que ele administra. Mas durante as filmagens a relação de “pai e filho” progrediu e apareceu com mais clareza, e então Bobby acabou “ganhando” um filho e não um irmão.

E agora, uma curiosidade sobre essa produção: ainda que grande parte do filme foi rodado em 35mm, o diretor Sean Baker admitiu que retornou para o seu modo de filmar com “técnicas de guerrilha” na sequência final da produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ou seja, a cena das crianças correndo pelo parque da Disney foi feita com o iPhone do diretor e sem o consentimento do parque ou das pessoas que aparecem como “coadjuvantes” daquela sequência.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 219 textos positivos e apenas 10 negativos para o filme, o que garante para The Florida Project uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,8. Especialmente a nota dada pelos críticos chama a atenção. Muito, mas muito acima do que é normal para o padrão do Rotten Tomatoes.

The Florida Project fez pouco mais de US$ 5,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Ainda que o filme seja um bocado independente, acho que essa bilheteria ainda está baixa para as expectativas dos produtores. O filme precisa faturar mais para ser considerado um sucesso comercial.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ele entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Toda criança deveria ter o direito de ser criança. Ponto. Mas, além disso, ela deve aprender que as suas ações tem consequências, e que dinheiro não dá em árvore. Apenas para começar. Além disso, de forma singela, ela deve aprender que onde termina o direito dela, começa o do outro. Respeito, empatia, saber que tudo custa algo – e não estou falando apenas de questões materiais.

The Florida Project abana na nossa cara uma realidade que poucos gostam de ver. Estando perto de um parque da Disney ou não. O que vemos em tela, se repete, com pequenas variações, em diversos lugares – quem sabe, inclusive, na nossa vizinhança. E o que vamos fazer a respeito disso? Esse filme mostra, com todas as letras, que fechar os olhos para o problema não faz com que ele despareça. E, afinal de contas, quem realmente se preocupa com aquelas e tantas outras crianças? Um filme que incomoda, que mexe com o espectador e que faz pensar. E por um bom tempo.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: The Florida Project não foi esquecido pelo Oscar. A produção recebeu uma indicação, a de Melhor Ator Coadjuvante para Willem Dafoe. De fato, o ator é um dos destaques dessa produção. Essa é a terceira indicação de Dafoe a um Oscar. E, tudo indica, ele vai ficar esperando mais uma vez para ganhar uma estatueta dourada.

O favoritíssimo desse ano para levar o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante é Sam Rockwell, um dos destaques do filme Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Essa é a primeira vez que Rockwell é indicado ao Oscar e, pelos prêmios que ele recebeu nessa temporada, deve levar o prêmio para casa. Assim, tudo indica que The Florida Project não foi ignorado totalmente pelo Oscar, mas que sairá da premiação de mãos abanando. Acho que o filme foi indicado realmente ao que merecia e que, apesar de ser interessante, não chegou ao ponto de merecer um Oscar.

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Indicados ao Oscar 2018 – Lista Completa e Avaliações

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Saudações, amigos e amigas do blog!

Hoje, diferente de anos anteriores, eu não consegui publicar aqui mais cedo a lista de todos os indicados para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas agora sim, vou fazer isso. Retomar a nossa tradição de publicar a lista e de comentar quem são os favoritos e os meus palpites para cada categoria.

Os indicados ao Oscar 2018 foram divulgados hoje, no dia 23 de janeiro de 2018, antes do meio-dia no horário de Brasília. Quem fez as honras da divulgação, dividida em duas partes, como ocorreu no ano passado, foram os atores Tiffany Haddish e Andy Serkis. Primeiro, a dupla de apresentadores divulgou as 11 categorias mais técnicas e, depois, as 13 categorias consideradas principais.

O anúncio dos indicados foi feito no Teatro Samuel Goldwyn, de propriedade da Academia, e transmitido ao vivo por diversos canais, inclusive os dois sites ligados à premiação e à Academia. A primeira leva de indicados foi precedida sempre por um vídeo curto de “apresentação” de cada uma das categorias técnicas.

Estrelaram esses vídeos os seguintes membros da Academia: Priyanka Chopra, Rosario Dawson, Gal Gadot, Salma Hayek, Michelle Rodriguez, Zoe Saldana, Molly Shannon, Rebel Wilson e Michelle Yeoh. Se você ficou curioso(a) para ver o anúncio dos indicados, deixo o vídeo com a transmissão mais abaixo. 😉

A lista de indicados em quase todas as categorias foi definida pelos respectivos pares que fazem parte da Academia. Ou seja, os membros que são editores apontaram os cinco indicados em Melhor Edição; os diretores apontaram os cinco finalistas na categoria Melhor Diretor; e assim por diante. As categorias Melhor Animação e Melhor Filme em Língua Estrangeira foram definidas por dois comitês formados por profissionais de diferentes áreas e que fazem parte da Academia. E a categoria Melhor Filme foi definida pelo voto de todos.

Passada essa fase das indicações, entre os dias 20 e 27 de fevereiro, todos os membros da Academia votam em naqueles que eles consideram os melhores em cada uma das 24 categorias do Oscar 2018. O resultado dessa votação será conhecido por todos nós no dia 4 de março na cerimônia de premiação no Dolby Theatre at Hollywood & Highland Center, em Hollywood, com transmissão para o Brasil e outros 224 países.

Feito esse preâmbulo e essa explicação sobre o que aconteceu hoje e o que irá suceder até a entrega das estatuetas douradas, vamos falar um pouco sobre o saldo dos indicados para o prêmio da Academia. Olha, foram poucas as surpresas. Praticamente todos os favoritos foram lembrados. Mas, admito, me chamou a atenção, duas grandes ausências entre os indicados.

Dois filmes considerados favoritos ficaram de fora de suas respectivas categorias. Me refiro ao filme In the Fade, do grande Fatih Akin, que foi esnobado e ficou de fora da disputa na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira; e ao documentário Fade, vencedor do Producers Guild Awards e de várias outras premiações. Os dois filmes, aliás, vinham se destacando por estarem papando boa parte dos prêmios dessa temporada e, apesar disso, foram esnobados pela Academia. Curioso, no mínimo.

Sem In the Fade na disputa, francamente, sou honesta em dizer que não me surpreenderia se o Chile papasse o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira nesse ano. Logo mais, veremos. No mais, a grande disputa do ano parece estar entre Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado aqui) e The Shape of Water. Ah sim, e chamou um pouco a atenção as esnobadas para Steven Spielberg e The Big Sick (que foi lembrado apenas em Roteiro Original) e o crescimento do filme Phantom Thread, do sempre interessante Paul Thomas Anderson.

Declaro, junto com esse post, aberta a temporada de “correr atrás” do máximo de filmes indicados esse ano ao Oscar. 😉 Como vocês sabem, eu já comecei essa busca – prova disso é que seis dos nove filmes indicados na categoria principal já foram comentados aqui no blog. Mas, agora, está na hora de ir colocando o “check” em cada uma das produções que ainda me faltam. Abaixo, deixo a lista de todos os indicados, conforme a divulgação da Academia, e uma breve avaliação sobre os finalistas em cada categoria.

E bons filmes para todos nós! Algo é certo: essa temporada tem uma safra bem interessante e diversificada. O público, agradece.

CONFIRA A LISTA DE TODOS OS INDICADOS AO OSCAR 2018:

Melhor Ator:

Avaliação: Essa categoria, assim como as outras envolvendo os astros e estrelas de Hollywood, não teve surpresas nesse ano. Todos esses nomes já eram esperados. Não assisti ainda ao trabalho de Denzel Washington e de Daniel Day-Lewis, mas conhecendo o histórico desses dois grandes atores e o talento de ambos, imagino que eles mereceram as suas indicações. Timothée Chalamet está em alta por causa de Call Me By Your Name e por seu trabalho como coadjuvante em Lady Bird (para esse, ele não foi indicado). Daniel Kaluuya estrela um dos grandes filmes do ano, Get Out.

Então sim, todos os que estão concorrendo tem talento e trabalho de destaque esse ano para ter justificado as suas indicações. Daniel Day-Lewis conseguiu a quinta vaga nessa categoria desbancando James Franco, de The Disaster Artist (ele foi indicado por esse papel ao Globo de Ouro, mas ficou de fora do Oscar). Faz parte. Sempre a quinta vaga pode ser conquistada por dois ou até três atores. Não falei antes de Gary Oldman porque ele está simplesmente impecável e espetacular em Darkest Hour. Ele faz o filme. É o favoritíssimo nessa categoria, até porque vem “papando tudo” nessa temporada.

Melhor Ator Coadjuvante:

Avaliação: Outra categoria sem surpresas. Todos os nomes acima estavam muito bem cotados. Willem Dafoe está ótimo em The Florida Project (o próximo filme que eu vou comentar aqui no blog) e, certamente, mereceu essa indicação. Woody Harrelson e Sam Rockwell fazem um excelente trabalho em Three Billboards, assim como Frances McDormand – eles são os grandes nomes do filme. Richard Jenkins, que é sempre ótimo, estava também bem cotado por The Shape of Water, e Christopher Plummer conquistou a quinta vaga.

Os veteranos Christopher Plummer e Richard Jenkins não precisam ser apresentados. Eles são ótimos e muitas vezes não recebem os prêmios que mereciam. Nesse ano, eles também correm totalmente por fora. Woody Harrelson e Willem Dafoe também não precisam de apresentações. Ambos conquistaram as suas vagas com belos trabalhos. Mas o favoritíssimo nessa categoria, inclusive porque ganhou o Globo de Ouro – e boa parte dos outros prêmios dessa temporada -, é Sam Rockwell. Dificilmente ele não vai levar esse prêmio. E será merecido.

Melhor Atriz:

Avaliação: Mais uma categoria repleta de gente talentosa e com a “escalação” praticamente definida com antecedência. Frances McDormand é a grande favorita, seguida a partir de uma certa distância por Saoirse Ronan e Sally Hawkins. Elas estrelam três dos filmes mais badalados e comentados do ano. Então é fácil de entender que as estrelas desses filmes sejam indicadas. Fiquei particularmente feliz por Margot Robbie ter conseguido a sua indicação – ela está simplesmente incrível em I, Tonya.

E a quinta vaga foi conquistada por ninguém mais, ninguém menos que a recordista absoluta de indicações no Oscar, a gigante e inesquecível Meryl Streep. Difícil um ano em que a atriz não é indicado ao Oscar. De 2010 para cá, ela só não foi indicada em três anos. De 1979 para cá, Meryl Streep ganhou três estatuetas do Oscar e foi indicada outras 18 vezes. Ou seja, no total, o nome dela foi citado 21 vezes em uma premiação do Oscar. Incrível. Mas, mais uma vez, ela ficará apenas entre as indicadas. Essa grande atriz conquistou a quinta vaga desse ano deixando outra veterana de fora da disputa: Judi Dench.

Melhor Atriz Coadjuvante:

Avaliação: Nomes bem cotados nessa categoria também. Mas aqui, se compararmos as indicações do Oscar com o Screen Actors Guild Award, é onde tivemos as maiores mudanças. Allison Janney e Laurie Metcalf, as mais fortes concorrentes nessa categoria, repetiram no Oscar a indicação junto com Mary J. Blige. As outras duas atrizes conquistaram as suas indicações deixando para trás Hong Chau (Downsizing) e Holly Hunter (The Big Sick). Ainda assim, não dá para dizer, exatamente que foi uma surpresa ver as indicações de Octavia Spencer e Lesley Manville.

Especialmente Octavia Spencer estava bem cotada para essa categoria. E como o filme Phantom Thread cresceu bastante na campanha do Oscar, Lesley Manville conquistou a quinta vaga – no lugar de Hong Chau, especialmente. A atriz inglesa, que tem 10 prêmios no currículo e que recebeu, esse ano, a sua primeira indicação ao Oscar, talvez seja a única “surpresa” entre os atores e atrizes indicados. As chances dela de ganhar, são zero. A favorita é Allison Janney, mas não seria uma grande zebra se Laurie Metcalf levasse a estatueta para casa. Pessoalmente, torço por Janney.

Melhor Animação:

Avaliação: Sem surpresas nessa categoria. O que é algo bastante positivo em um ano com filmes menos interessantes “na disputa” – e que, ainda bem, ficaram de fora da lista final. Acredito que realmente os melhores do ano foram indicados. Vale uma menção especial, aqui, para a indicação do brasileiro Carlos Saldanha como diretor de Ferdinand. Esta é a segunda indicação desse “orgulho nacional” no Oscar – antes, ele concorreu por Gone Nutty. As chances dele vencer são nulas.

O favoritíssimo desse ano é o filme Coco, uma produção do estúdio Walt Disney. Dificilmente, mas muito dificilmente mesmo, esse filme não vai levar a estatueta para casa. Os produtores Lee Unkrich e Darla K. Anderson, vencedores de um Oscar por Toy Story 3, tem tudo para levarem o segundo Oscar para casa. Da minha parte, fiquei especialmente feliz pela indicação de Loving Vincent. Belo filme que mereceu muito essa indicação!

Melhor Direção de Fotografia:

Avaliação: Aqui as bolsas de apostas acertaram em cheio. Esses cinco filmes já eram esperados na disputa por Melhor Fotografia. Fiquei especialmente feliz pela indicação de Blade Runner 2049 – aqui e em todas as demais categorias em que o filme está concorrendo. Ainda que ele não leve nenhuma estatueta para casa, só fato dele não ter sido esnobado já me deixou bem contente. Dos três filmes da lista que eu assisti (Blade Runner 2049, Darkest Hour e Dunkirk), sou honesta em dizer que eu fico dividida entre Blade Runner 2049 e Dunkirk.

Os dois trabalhos são excepcionais, mas se eu pudesse votar, votaria em Blade Runner 2049. Eu não assisti ainda a The Shape of Water e a Mudbound, mas eu acho que a disputa está mesmo entre Blade Runner 2049 e Dunkirk. A bolsa de apostas aponta para o primeiro. Veremos se a maioria acerta. Como eu gostei muito de Blade Runner 2049, espero que o filme não saia de mãos abanando do Oscar 2018.

Melhor Figurino:

Avaliação: Essa categoria, tão interessante e tão pouco falada a cada Oscar, estava bem disputada esse ano. Tanto que dois filmes que estavam bem cotados para concorrer ao Oscar ficaram de fora da disputa: The Greatest Showman e Murder of the Orient Express. Eu não posso falar muito sobre Melhor Figurino porque eu só vi dois filmes dos cinco indicados – e dos sete bem cotados. Mas… pelo trailer que eu assisti e pelas fotografias que eu vi de The Greatest Showman, me parece que esse filme foi um tanto “injustiçado” por ficar de fora da disputa.

Como não assisti a três dos indicados, não me sinto preparada para avaliar de quem é a maior chance ainda. Nas bolsas de apostas, aparecem na liderança Phantom Thread e Beauty and the Beast. Honestamente, pelo sucesso que o filme teve no ano passado, acho que Beauty and the Beast pode levar a melhor. Algo a chamar a atenção é que a veterana Jacqueline Durran, vencedora de um Oscar por Anna Karenina, de 2012, está concorrendo duplamente nesse ano: por Beauty and the Beast e por Darkest Hour.

Melhor Diretor:

Avaliação: Três dos indicados nessa categoria eram “bolas cantadas”, mas duas vagas foram conquistadas na reta final da campanha dos estúdios pelas indicações ao Oscar. Guillermo del Toro, Christopher Nolan e Jordan Peele tinham as suas cadeiras reservadas na disputa por causa do trabalho excelente que eles fizeram em seus respectivos filmes – eu não assisti ainda a The Shape of Water, mas conheço bem o talento de del Toro para saber que ele merece qualquer indicação.

Eu sou fã de Paul Thomas Anderson. Gosto muito de seu estilo e trajetória. Ainda assim, preciso admitir que ele foi o nome que conquistou a quinta vaga nessa categoria, desbancando nomes fortíssimos como Steven Spielberg (por The Post) e o diretor de um dos filmes mais badalados do ano, Three Billboards, Martin McDonagh. Greta Gerwig, que escreveu e dirigiu o filme queridinho da crítica nessa temporada, Lady Bird, foi menos surpreendente ao conquistar o quarto posto. Entre os nomes na disputa, acredito que a grande rivalidade está entre Guillermo del Toro e Christopher Nolan. Um dos dois deve levar a estatueta – mesmo sem ter assistido ainda a The Shape of Water, admito que eu torço por del Toro.

Melhor Documentário:

  • Abacus: Small Enough to Jail
  • Faces Places
  • Icarus
  • Last Men in Aleppo
  • Strong Island

Avaliação: Essa categoria logo me chamou a atenção, assim como a de Melhor Filme em Língua Estrangeira. E a razão para isso é simples: ficou de fora da disputa um dos filmes favoritos do ano, Jane. Essa produção ganhou o Producers Guild Awards e vários outros prêmios da temporada. Realmente fiquei surpresa de não ver ela entre os finalistas. Jane também liderava, e com uma ampla vantagem, as bolsas de apostas.

Não assisti ainda a nenhum desses documentários. Mas pela premissa de cada filme, acho que Last Men in Aleppo e Icarus tem boas chances. Segundo as bolsas de apostas, contudo, Faces Places teria vantagem na disputa, seguido de Icarus. Essa é uma categoria sobre a qual eu prefiro opinar no futuro a curto prazo, quando eu começar a assistir aos filmes que estão na disputa.

Melhor Curta Documentário:

  • Edith+Eddie
  • Heaven Is a Traffic Jam on the 405
  • Heroin(e)
  • Knife Skills
  • Traffic Stop

Avaliação: Aqui, mais uma vez, o favorito das bolsas de apostas ficou de fora da disputa. Alone não foi indicado, mas o segundo colocado, Heroin(e), sim. Novamente, prefiro opinar sobre essa categoria depois de assistir aos concorrentes.

Melhor Edição:

Avaliação: Um dos fenômenos desse ano, Baby Driver, conseguiu a sua primeira indicação no Oscar 2018 nessa categoria. Na verdade, essa categoria é toda composta de “filmes sensação” do ano. Não necessariamente eles foram bem nas bilheterias, mas se deram bem na opinião do público e da crítica.

Da lista acima, ainda preciso conferir Baby Driver e The Shape of Water. Entre os demais, as bolsas de apostas apontam como franco favorito Dunkirk. Ainda que eu goste muito de I, Tonya e prefira esse filme, admito que Dunkirk dá um show de edição. Não seria nem um pouco injusto que ele se sangrasse o vencedor como Melhor Edição.

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

Avaliação: Essa foi outra categoria que me chamou muito a atenção por causa de uma grande ausência. Quem acompanha o blog há bastante tempo, acho que sabe que a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira é uma das minhas favoritas a cada Oscar. Esse ano, não é diferente. Alguns filmes dos quais eu tinha gostado já tinham ficado pelo caminho, e ainda que eu não tenha assistido a In the Fade, eu considerava esse o favorito. Não apenas por ele ter vencido ao Globo de Ouro e a vários outros prêmios, mas porque conheço bem o trabalho do diretor Fatih Akin.

Então sim, foi uma surpresa não ver In the Fade entre os finalistas. Por outro lado, não foi surpresa alguma ver ao chileno A Fantastic Woman – um dos meus próximos filmes a ser comentado por aqui – e ao russo Loveless na lista dos cinco indicados. Os outros dois, The Square e On Body and Soul, também se credenciaram como fortes candidatos nessa temporada por causa dos prêmios que receberam. Segundo as bolsas de apostas, A Fantastic Woman seria o favorito. Da minha parte, de quem não assistiu a todos os indicados ainda, eu diria que The Square ou On Body and Soul tem boas chances também. Essa categoria, até por In the Fade ter ficado de fora, está entre as mais difíceis de acertar nesse ano.

Melhor Maquiagem e Cabelo:

Avaliação: Categoria curiosa que, nos últimos anos, tem indicado apenas três filmes. Não é por falta de candidatos, mas porque a Academia prefere indicar apenas as “unanimidades”, digamos assim, em Maquiagem e Cabelo. Para mim, surpresa alguma nessas indicações. Realmente esses três filmes tem trabalhos excepcionais de Maquiagem e Cabelo – mas Star Wars: The Last Jedi, que nem ficou na lista dos pré-indicados, Guardians of the Galaxy Vol. 2 e outros filmes também tem. Vai entender porque outros títulos não foram indicados…

Desses três trabalhos que acabaram figurando na lista dos indicados, a escolha é difícil – especialmente entre Darkest Hour e Wonder. Os dois trabalhos de Maquiagem e Cabelo são incríveis. Mas… as bolsas de apostas apontam para uma vitória de Darkest Hour. A transformação de Gary Oldman em Winston Churchill realmente é algo impressionante e digno de um Oscar. Eu votaria, provavelmente, por Darkest Hour também.

Melhor Trilha Sonora:

Avaliação: Outros indicados de peso em uma categoria difícil que parece estar bem disputada nesse ano. Por trás dessas produções, grandes nomes da música e das trilhas sonoras no cinema. Pessoas que fizeram – e continuam fazendo – história, como os veteranos e mestres John Williams, Hans Zimmer e Alexandre Desplat.

Segundo as bolsas de apostas, The Shape of Water levaria uma certa vantagem sobre Dunkirk. Se avaliarmos os prêmios entregues nessa temporada, de fato Desplat parece levar uma certa vantagem sobre Zimmer. Mas qualquer um deles vencendo, será merecido. Não assisti a Phantom Thread e The Shape of Water, então ainda não me sinto totalmente “informada” para poder opinar. Mas, entre os outros três filmes, acredito que eu ficaria com Dunkirk. A trilha sonora da produção, que muitas vezes apresenta ausência de diálogos, realmente é marcante.

Melhor Canção Original:

  • “Mighty River” (Mudbound)
  • “Mystery Of Love” (Call Me By Your Name)
  • “Remember Me” (Coco)
  • “Stand Up For Something” (Marshall)
  • “This Is Me” (The Greatest Showman)

Avaliação: A grande ausência dessa categoria foi a música “Evermore”, do filme Beauty and the Beast. No lugar dela, entrou uma outra forte candidata, “Mighty River”. Canção Original é algo complicado de julgar. O filme Detroit, por exemplo, de algumas canções originais bastante marcantes. Entre os concorrentes, assisti apenas a Call Me By Your Name. Então fica difícil julgar com propriedade.

Pelo histórico do Oscar, que gosta de premiar canções de filmes de animação, me parece que “Remember Me” leva uma certa vantagem. As bolsas de apostas também apontam para essa direção. Pessoalmente, gosto muito da força de “This Is Me”. Essa pode ser a melhor chance de The Greatest Showman não sair de mãos vazias do Oscar. Mais uma categoria difícil e na qual pode pintar uma certa zebra.

Melhor Filme:

Avaliação: Tive sorte nesse ano. Dos nove filmes indicados na categoria principal do Oscar, eu já assisti a seis. 😉 Falta conferir, ainda, Phantom Thread, The Post e The Shape of Water. Produções dirigidas por três diretores de quem eu gosto muito. Sobre esses filmes, que eu ainda não assisti, não tenho como comentar. Dos outros seis, posso dizer que concordo com quase todas as indicações. Apenas Darkest Hour eu acho que não é tãooo bom a o ponto de ser indicado a Melhor Filme. No lugar dele, sem dúvida alguma, eu iria preferir I, Tonya, Blade Runner 2049 (que eu já sabia que estava fora da disputa) ou mesmo The Florida Project – que será o próximo filme comentado aqui no blog.

Entre os indicados, me parece que a grande queda de braço está entre Three Billboards Outside Ebbing, Missouri e The Shape of Water. Dunkirk viria na terceira posição. Preciso assistir ao filme do del Toro, mas entre os indicados que eu já assisti, sem dúvida eu ficaria com Three Billboards. Em segundo lugar, com Get Out. Mas isso pode mudar depois que eu ver aos filmes de Paul Thomas Anderson, Guillermo del Toro ou Steven Spielberg. Três gênios de quem eu gosto muito. Veremos. Logo falaremos sobre essas produções e eu baterei o meu martelo definitivamente. 😉

Melhor Design de Produção:

Avaliação: Aqui as bolsas de apostas acertaram em cheio. Os cinco filmes mais cotados foram, justamente, os que conseguiram uma indicação ao Oscar. Design de Produção é algo magnífico. Não vi a dois desses filmes – Beauty and the Beast e The Shape of Water -, mas pelas imagens dos filmes que eu vi, especialmente em fotografias, concordo com as indicações. Os cinco filmes são incríveis. Mas essa é uma categoria disputada.

Acredito, por exemplo, que The Greatest Showman também mereceria ser indicado. Mas não sobrou uma vaga para ele. Entre os filmes que eu vi até agora, não tenho como não considerar Blade Runner 2049 o mais incrível. Mas… segundo as bolsas de apostas, The Shape of Water seria o favorito. Tenho que ver aos dois filmes que faltam para poder realmente bater o martelo. Ah sim, depois do filme do del Toro, Blade Runner 2049 seria o segundo mais visado pelas bolsas de apostas.

Melhor Curta Animação:

  • Dear Basketball
  • Garden Party
  • Lou
  • Negative Space
  • Revolting Rhymes

Avaliação: Categoria sobre a qual eu gosto de comentar aqui no blog. Em breve, tenham certeza, farei blog posts sobre as três categorias de curtas. Mas, como ainda não assisti aos concorrentes, prefiro comentar sobre eles depois. Na bolsa de apostas, o filme que liderava, e de disparada, In a Heartbeat, ficou de fora da lista dos indicados. O segundo mais apostado é Dear Basketball.

Melhor Curta:

  • DeKalb Elementary
  • The Eleven O’Clock
  • My Nephew Emmett
  • The Silent Child
  • Watu Wote (All of Us)

Avaliação: Nessa categoria, por muito pouco as bolsas de apostas não acertaram em cheio. Apenas o curta Icebox, que era apontado na quinta posição entre os favoritos, ficou de fora, cedendo a sua vaga para My Nephew Emmett. Ainda preciso assistir a essas produções, mas segundo os apostadores, teria uma vantagem considerável na disputa o curta DeKalb Elementary.

Melhor Edição de Som:

Avaliação: Mais uma categoria que junta a alguns dos filmes “fenômeno” da temporada e sobre a qual os apostadores acertaram em cheio. Os cinco favoritos conseguiram, de fato, ser indicados. Mais uma categoria em que a concorrência é das boas, porque temos apenas grandes trabalhos lutando por uma estatueta dourada. Da lista, não assisti a Baby Driver e a The Shape of Water. Mas entre os que eu assisti, fico honestamente em dúvida.

As bolsas de apostas apontam para Dunkirk como o favorito, seguindo muito, mas muito atrás por Blade Runner 2049. Pessoalmente, prefiro Blade Runner 2049. Mas sou capaz de admitir, também, que o trabalho de edição de som de Dunkirk é exemplar e de tirar o chapéu. Acredito que qualquer filme que vencer nessa categoria será merecedor.

Melhor Mixagem de Som:

Avaliação: Sim, a lista em Mixagem de Som é exatamente a mesmo da lista de Edição de Som. Isso se explica pelo trabalho excepcional dos cinco filmes nesses quesitos. Os apostadores, aqui, mais uma vez, acertaram em cheio. As minhas considerações e opinião são praticamente as mesmas da categoria anterior. Acho excepcional o trabalho de mixagem de som em todos os filmes que eu assisti dessa lista, e acho que Dunkirk deve levar a estatueta para casa.

Melhores Efeitos Visuais:

Avaliação: Na lista, cinco filmes que investiram pesado em efeitos visuais. Como sempre, essa é uma das categorias que eu menos acompanho a cada Oscar – especialmente porque ela é formada, geralmente, por “blockbusters” que, como os leitores fieis dessa blog sabem, não são muito a minha “praia” – ou, para dizer de outra forma, não são muito o meu foco. Entre os indicados, assisti apenas a Blade Runner 2049 e a Star Wars: The Last Jedi. Francamente? Eu acharia bacana qualquer um desses dois filmes vencer.

Mas, segundo as bolsas de apostas, o favorito nessa disputa, e com uma certa vantagem, é War for the Planet of the Apes. Realmente preciso assistir aos outros três concorrentes para poder opinar, mas tenho certeza que não será feita injustiça nessa categoria porque todos os concorrentes capricharam nos efeitos visuais.

Melhor Roteiro Adaptado:

Avaliação: Que legal ver um filme baseado em uma HQ ser indicado a Melhor Roteiro Adaptado. Puxa, muito legal mesmo! Eu sou uma grande fã de HQs – mas admito que, nem sempre, estou super no “barato” de ver a uma adaptação delas no cinema. Ainda assim, eu assisti a Logan e acho que o filme mereceu sim essa indicação. Bacana. Dito isso, comento também que me falta conhecimento para opinar sobre essa categoria nesse momento.

Essa minha “mea culpa” é porque eu assisti apenas a Logan e a Call Me By Your Name da lista aí acima. Tenho que ver aos outros filmes para poder opinar. Entre os dois que eu vi, sem dúvidas o meu voto iria para Call Me By Your Name, uma adaptação muito bem feita e comovente de uma obra que me parece ser complicada de adaptar. Nas bolsas de apostas, o filme dirigido por Luca Guadagnino, com roteiro de James Ivory e com o brasileiro Rodrigo Teixeira entre os produtores é apontado, também, como o favorito nessa categoria. Honestamente? Estou torcendo por ele (até prova em contrário). Ah sim, e as bolsas de apostas acertaram em cheio na lista dos cinco indicados. Sem surpresas, portanto.

Melhor Roteiro Original:

Avaliação: Gosto muito das duas categorias de roteiros no Oscar. Afinal, para mim, um grande filme deve ter um grande roteiro como base. Sempre. Mesmo comentando isso, devo dizer que eu tenho uma certa “predileção” por essa categoria, a de Melhor Roteiro Original. Nela que, geralmente, encontramos os filmes mais interessantes a cada ano. Novamente, em 2018, isso não é diferente.

Eu não assisti, ainda, a The Shape of Water e a The Big Sick, mas sei do “burburinho” que os dois filmes causaram por causa dos seus roteiros. Gostei muito também do roteiro de I, Tonya, mas entendo que tendo apenas cinco vagas, não dá para entrar todos os filmes bons dessa temporada. Entre as produções que eu assisti, acho que o meu voto iria para Get Out pelo ineditismo da história e pelas ótimas sacadas do diretor e roteirista Jordan Peele. Mas, para ser franca, eu não acharia injusto Three Billboards também levar o título – afinal, o roteiro do filme é ótimo também. Escolha difícil. Nas bolsas de apostas, Lady Bird é o favorito, seguido de Get Out. Bueno, gosto é gosto, mas eu não gostaria de ver Lady Bird vencedor nessa categoria.

 

Darkest Hour – O Destino de Uma Nação

darkest-hour

Foi por pouco, por muito pouco que não vimos o terror dominar a Europa e o mundo de uma forma irreversível. Darkest Hour se debruça sobre um período complicadíssimo e decisivo da nossa história. Com uma reconstituição de época impecável, um roteiro que faz jus ao personagem principal retratado e uma caracterização e interpretação desse personagem que não precisam de retoques, esse filme nos mostra uma ótica mais intimista do tão falado e conhecido Winston Churchill. Não por acaso o ator Gary Oldman está colecionando prêmios pelo seu trabalho nesse filme. Ele realmente nos dá uma aula de interpretação e é um dos principais trunfos desta produção.

A HISTÓRIA: Imagens históricas de soldados, armas, Adolf Hitler e tanques. A história começa no dia 9 de maio de 1940, quando a Alemanha tinha acabo de invadir mais quatro países europeus e 3 milhões de pessoas se deslocavam tentando fugir do terror. Enquanto isso, no Parlamento britânico, rejeitavam a postura “compassiva” de Neville Chamberlain (Ronald Pickup). A oposição dizia que ele era “despreparado para enfrentar Hitler” e pedia mudanças na polícia do Reino Unido.

Do Parlamento em alvoroço, seguimos para um jantar em que Chamberlain adianta que irá renunciar como Primeiro Ministro no dia seguinte, mas que queria comunicar aos amigos do seu Partido Conservador antes. Ele pede para o grupo indicar um novo nome, e o mais citado é o Visconde Halifax (Stephen Dillane), que não aceita a indicação porque afirma que apenas um nome será aceito pela oposição. Todos resistem a esse nome, mas Winston Churchill (Gary Oldman) acaba sendo indicado no final.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Darkest Hour): Winston Churchill é um dos nomes mais conhecidos da História. Ele tornou-se tão famoso por sua posição firme contra Hitler na Segunda Guerra Mundial, pelos seus discursos inspirados e por, com tudo isso, ter sido um personagem decisivo no conflito que poderia ter mudado para sempre o destino de diversas nações.

O interessante desse Darkest Hour é que o filme faz o que Lincoln (comentado por aqui), dirigido por Steven Spielberg e que deu um Oscar de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis, fez antes por Abrahm Lincoln, outro nome sempre citado pelos livros de História. Novamente vemos a um personagem histórico sob uma ótica muito mais próxima, reparando nas suas oscilações de humor, manias, relações próximas, jogos de poder e conhecendo melhor os momentos decisivos que antecederam as escolhas que lhe tornaram uma figura importante na trajetória civilizatória.

Algo positivo no roteiro de Anthony McCarten é que ele não apenas “humaniza” o personagem histórico, atendendo a uma necessidade cada vez maior das pessoas conhecerem a História como ela realmente aconteceu, mas ele também dá a devida atenção e importância para as pessoas que cercaram Churchill naqueles dias decisivos de 1940.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Então sim, se é verdade que Churchill era um grande orador e um homem genial no uso das palavras, também é verdade que ele precisou de alguns apoios fundamentais para conseguir o que desejava: confrontar Hitler sem mostrar o mínimo de dúvida ou fraqueza no processo. Darkest Hour revela muito bem, por exemplo, como o Rei George VI (Ben Mendelsohn) foi uma figura fundamental por ter, horas antes da grande decisão de Churchill, visitado o Primeiro Ministro e dito que o apoiava inteiramente.

Se ele não tivesse feito isso e tivesse percorrido o outro caminho possível, que era, naquele momento, apoiar Halifax, certamente a história teria se desenrolado de forma muito diferente. Interessante como Darkest Hour mostra que apesar do Reino Unido e da Europa viverem dias decisivos, a classe política daquele país não abandonou em momento alguns os seus jogos políticos. Ou seja, isso não é uma questão apenas do Brasil ou dos “dias atuais”.

Jogos de poder, intrigas e a defesa de ilusórios e fugazes “interesses próprios” acima do bem comum, mesmo que por alguns minutos, horas ou dias, é algo que parece fazer parte da nossa História desde sempre – e possivelmente, para sempre. Temos que perceber isso, estarmos atentos e fazermos como o povo que Churchill ouviu em uma das sequências menos críveis dessa produção: marcar posição e dizermos com todas as letras o que queremos ou não como coletivo de cidadãos. E, preferencialmente, pensando no bem da maioria – ou de todos que forem possíveis abarcar.

Falando nessa sequência um tanto “difícil de acreditar” do filme… (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, o diretor Joe Wright consegue um “grande momento” naquela sequência decisiva em que Churchill segue o conselho do Rei e vai até o “povão” no metrô de Londres para ouvir a opinião deles sobre empreender uma guerra ou buscar um acordo de paz com Hitler. A cena é muito bem feita e bacana, especialmente pelo trabalho de Gary Oldman. Mas, cá entre nós, mesmo quando ela estava acontecendo, ela me incomodou um pouco.

Realmente Churchill teria descido até o metrô para ouvir o povo? Me pareceu um tanto inverossímil. Além disso, enquanto a cena está rolando, eu pensei: “Nossa, como o metrô demorava séculos para ir de uma estação para a outra naquele tempo, não?”. 😉 Digo isso porque, afinal de contas, Churchill só precisava de uma estação para chegar ao seu destino, mas passam vários e vários minutos no trajeto para ele conseguir falar com o povo.

Fui procurar informações a respeito, e achei esse texto do Steve Pond, do The Wrap, em que ele comenta o assunto. Pond conversou com McCarten, que escreveu um livro sobre os fatos que ocorreram em maio de 1940 – e na obra o roteirista de Darkest Hour não cita o episódio do metrô. McCarten admite que provavelmente a cena do metrô nunca aconteceu, mas afirma que poderia ter acontecido, já que Churchill ficou famoso por dar algumas “sumidas” para falar com o povo para saber o que as pessoas realmente pensavam.

O roteirista também admite que usou de “licença poética” com o tempo “flexível” da sequência do metrô – que dura, evidentemente, muito mais tempo do que seria uma viagem normal de metrô entre duas estações, mesmo para aquela época. Claro que uma sequência do filme não estraga tudo que Darkest Hour nos entrega – e o maior destaque da produção é, sem dúvida, a interpretação impecável de Gary Oldman -, mas, admito, aquela “forçada de barra” diminuiu um pouco a nota do filme que eu vou dar abaixo.

Mas voltando para a história e sobre o que ela nos apresenta. Quem gosta do episódio da Segunda Guerra Mundial, certamente já ouviu a pelo menos alguns dos discursos famosos que Churchill fez na época – tanto para toda a população, através de uma transmissão no rádio, quanto no momento em que marcou a posição do Reino Unido na guerra ao falar para os seus pares no Parlamento – representantes do povo, no fim das contas.

Esses discursos famosos são vistos em uma telona agora, e na íntegra, por causa de Darkest Hour. Realmente é um deleite ouvir o talento de Churchill com as palavras. E é bom um filme como esse valorizar isso em uma época em que tem uma parte da população que acha que escrever e falar errado não importa “tanto”. Afinal, o que interessa é escrever de forma “telegráfica” nas redes sociais e no WhatsApp e “manjar” de tecnologia e afins, não é?

Só que não. Darkest Hour e a nossa História estão aí para mostrar como falar, escrever e, quase como condição “sine qua non” disso, pensar de forma lógica e inspirada pode sim mudar uma realidade de forma definitiva. Porque as pessoas gostam de serem inspiradas, gostam de grandes líderes. E por mais que, hoje, parece que estas figuras estão em falta, nunca elas foram tão necessárias.

Não que as pessoas não possam pensar por sua própria conta. Muito pelo contrário. Todos podem. Mas, certamente, somos movidos a grandes histórias. E essas histórias são feitas, sempre, por pessoas. Então quando temos pessoas inspiradoras para admirar e com quem aprender, tanto melhor. Podemos, assim, também encurtar caminhos e nos tornarmos melhores. Churchill, como esse filme bem revela, teve a coragem de não trilhar o caminho mais fácil ou cômodo, mas de ter uma posição firme e de “nadar contra a maré” sabendo escutar a população.

No fim das contas, isso que um grande líder deveria fazer sempre, não é mesmo? Não se esquecer que ele(a) está ali para servir e não para ser servido. Um grande líder – e hoje carecemos dele justamente por essa falta de compromisso público – deveria sempre colocar o interesse da maioria em primeiro plano, e não a sua própria busca por poder ou dinheiro. Claro que Darkest Hour tem o cuidado de não “endeusar” Churchill. E isso é uma qualidade do filme.

Assim, vemos em cena um sujeito cheio de manias, de dúvidas, que gostava de beber com frequência e que nem sempre sabia tratar as pessoas da forma mais recomendada ou adequada possível. Muito pelo contrário. Quando ele estava em um dia um tanto “atravessado”, ele gritava com os outros e afastava as pessoas sem pestanejar. Ele faz isso Elizabeth Layton (Lily James), a sua nova secretária, logo no primeiro dia de trabalho da moça. Mas, depois, ela acaba voltando e os dois se tornam próximos.

Ninguém é simples, no fim das contas – e nem podemos colocar as pessoas em uma caixa ou lhes dar uma ou duas etiquetas. E se Churchill era capaz de ter rompantes de grosseria, ele era também capaz de lançar o olhar mais atento para as pessoas comuns. Ele sabia que não era um sujeito comum.

Como ele mesmo comenta em um determinado momento do filme, ele nunca teve que andar de transporte público, e não passou por várias situações que as pessoas para quem ele governava passavam cotidianamente. Ao ter consciência disso, ele não se sentia melhor, apenas privilegiado. Tanto que sempre que ia para o seu dever, ele observava, do lado de fora da janela do carro, aquelas pessoas para quem ele tinha dedicado grande parte da sua vida.

Nesse sentido, sim, a sequência do metrô incomoda um pouco. Mas também dá para entender as razões da “liberdade poética” do roteirista McCarten. De fato, Churchill ouvia as pessoas comuns, e as observava atentamente. Que ele não tenha feito uma conversa com eles decisiva antes de seu discurso histórico, tudo bem. Mas ele nunca deixou de estar “antenado” com as demandas das pessoas comuns.

Darkest Hour explora muito bem, dessa forma, as facetas do personagem, assim como a angústia e as dúvidas que circundaram tão poucos dias daquele maio decisivo de 1940. Verdade que a Segunda Guerra teve outros momentos decisivos, mas aquele foi um dos grandes. Se a França tivesse caído, realmente, ou se o Exército inglês não tivesse sido quase todo resgatado em Dunquerque, certamente o restante da História teria sido muito diferente.

Algo que achei positivo nesse filme, volto a dizer, foi como, apesar de Darkest Hour ser uma “cinebiografia” de Churchill em seus dias decisivos, a história não render reverências apenas a ele. Como eu disse, o Rei George VI foi fundamental ao apoiar Churchill em um momento em que ele próprio estava com medo e cercado de dúvidas. Depois, mesmo tendo sido equivocado em grande parte do tempo, Chamberlain teve um gesto decisivo perto do final de apoio a Churchill e à sua resistência contra os nazistas.

Estas são as pessoas da esfera pública que foram decisivas no episódio de maio de 1940. Mas, além deles, o apoio constante e amoroso de Clemmie (a sempre ótima Kristin Scott Thomas), esposa de Churchill, também foi fundamental para que o Primeiro Ministro pudesse centrar-se no que realmente era importante naquele momento.

E, claro, todos os pescadores e marinheiros civis voluntários que fizeram a ideia “maluca” de Churchill dar certo em Dunquerque – aliás, enquanto assistia a esse filme, eu pensei: nada mas indicado do que, após assistir Darkest Hour, alguém emendar a experiência assistindo ao marcante e eletrizante filme Dunkirk, comentado nesse link, outro forte concorrente ao Oscar desse ano.

Para ter uma dimensão mais precisa do que foi aquele resgate no litoral francês, sem dúvida alguma é uma boa pedida assistir ao filme dirigido por Christopher Nolan. Enfim, Darkest Hour é um filme interessante, bem conduzido, que conta um pouco mais sobre este capítulo já bastante explorado pelo cinema, que é a Segunda Guerra Mundial. Bacana avançarmos mais nas cinebiografias que “humanizam” personagens históricos. E claro, Gary Oldman volta a fazer uma das grandes interpretações da sua vida. Ele, sem dúvida, merece a experiência de assistir a esse filme.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A caracterização do personagem de Winston Churchill nesse filme é, realmente, algo impressionante. Até porque basta comparar as diferenças físicas entre o personagem histórico e o ator Gary Oldman para percebermos que foi preciso um grande trabalho de caracterização para deixá-los parecidos. Então, evidentemente, os grandes destaques desse filme são o trabalho da equipe envolvida em Maquiagem e Cabelo e a interpretação inspirada, cuidadosa e muito convincente de Gary Oldman.

Não por acaso, o filme é favorito no Oscar nessas duas categorias: Melhor Ator e Melhor Maquiagem e Cabelo. Falarei mais sobre isso logo abaixo.

Acho, e não é de hoje, Gary Oldman um ótimo ator. Mas, como outros ótimos atores, ele tem entregas irregulares. Porque, talvez, nem sempre escolha ótimos papéis ou filmes. Perto de completar 60 anos de idade – ele faz aniversário no dia 21 de março -, Oldman é um ator que não tem preguiça de trabalhar. Ele tem, no currículo, 92 trabalhos, incluindo projetos para o cinema e a TV.

Até hoje, Oldman recebeu apenas uma indicação ao Oscar – e nunca ganhou o prêmio -, por Tinker Tailor Soldier Spy. Ele fez vários papéis interessantes, nessa longa trajetória, mas um dos que mais me marcaram foi, sem dúvida, o que ele realizou em Dracula, de 1992, dirigido por Francis Ford Coppola.

A estrela de Darkest Hour, disparado, é Gary Oldman. Mas temos alguns atores competentes e que fazem um belo trabalho como coadjuvantes. Vale citar, nesse sentido, Kristin Scott Thomas como Clemmie, esposa de Churchill; Ben Mendelson como Rei George VI; Lily James como Elizabeth Layton, secretária do Primeiro Ministro inglês; Ronald Pickup como Neville Chamberlain, líder do Partido Conservador e ex-Primeiro Ministro; Stephen Dillane como o Visconde Halifax, um sujeito que quer assumir como Primeiro Ministro mas que, antes, quer “queimar” Churchill; Samuel West como Sir Anthony Eden, embaixador; David Schofield como Clement Atlee e Hilton McRae como Arthur Greenwood, os representantes do Partido Trabalhista no Gabinete de Guerra; e Demetri Goritsas como o secretário de gabinete Bridges.

Assim como o trabalho de Maquiagem e Cabelo é excepcional nesse filme, outros aspectos técnicos que ajudaram na reconstituição de época acabaram sendo vitais para a produção. Destaco, nesse sentido, o trabalho excepcional dos 18 profissionais envolvidos com o Departamento de Maquiagem; a direção de fotografia de Bruno Delbonnel; os figurinos de Jacqueline Durran; o design de produção de Sarah Greenwood; a direção de arte de Oliver Goodier, Nick Gottschalk e Joe Howard; a edição de Valerio Bonelli; e a trilha sonora de Dario Marianelli. Belo trabalho de equipe.

O roteiro de Darkest Hour é bom e cumpre bem o seu trabalho de “humanizar” o personagem histórico de Winston Churchill. Mas, cá entre nós, o filme não apresenta nenhuma graaaande novidade em relação ao que os um pouco mais informados já sabiam. Talvez seja um bocado marcante, apenas, como tantos fatos marcantes aconteceram em um período tão curto de tempo. Mas até isso, convenhamos, é esperado durante um grande conflito como foi a Segunda Guerra Mundial. Então sim, o filme tem todas as qualidades que eu falei, mas ele realmente não apresenta uma novidade para quem já conhece um pouco sobre a história de Churchill e os bastidores da Segunda Guerra Mundial.

Eu não precisei procurar muito para tirar a minha pequena – porque eu já tinha quase certeza sobre a resposta – dúvida sobre a tal cena de Churchill no metrô. Vários textos tratam do assunto. O que eu citei antes, pegou mais leve. Mas se você quer uma crítica mais ácida, recomendo essa aqui de Owen Gleiberman publicada pela Variety. 😉

Darkest Hour estreou em setembro de 2017 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou, ainda, de outros 15 festivais. Até o momento, essa produção ganhou 27 prêmios, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama para Gary Oldman, e foi indicado a outros 52 prêmios. A maior parte dos prêmios, 22 no total, foram dados para Gary Oldman. Mas há prêmios também pela maquiagem, figurino e um para o diretor Joe Wright.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. De acordo com os produtores do filme, Gary Oldman gastou mais de 200 horas na maquiagem para conseguir se transformar em Churchill. Um trabalho impressionante, não apenas dele, mas da equipe de técnicos envolvida no processo, que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gosta de valorizar – seja com indicações, seja com estatuetas.

Ainda de acordo com os produtores, Churchill “frequentemente” desaparecia de Downing Street ou do gabinete de guerra para aparecer em outros pontos de Londres para ouvir o que as pessoas pensavam sobre o que estava acontecendo. Apesar disso, nunca foi documentado que ele tivesse andado de metrô naquele período.

Nos créditos finais do filme, esqueceram de mencionar que, apesar de realmente ter perdido as eleições em 1945, Churchill voltou a ser eleito Primeiro Ministro em 1951 porque o Partido Trabalhista ganhou mais votos, mas o Partido Conservador tinha mais assentos no Parlamento.

Apenas o orçamento do filme para charutos consumiu cerca de US$ 30 mil. O ator Gary Oldman chegou no final das filmagens com uma intoxicação por nicotina – ele teria fumado ou começado a fumar 400 charutos – e teve que passar por uma colonoscopia.

Outra licença poética de Darkest Hour: o filme todo se passa em maio de 1940, mas na vida real Elizabeth Layton não se tornou secretária de Churchill antes de 1941.

O ator Gary Oldman passou um ano estudando Churchill e suas manias antes de fazer Darkest Hour. Ele e os demais atores também puderam desenvolver melhor o seu trabalho tendo quatro semanas de tempo para ensaiar a produção – algo um tanto incomum em Hollywood.

Darkest Hour faturou pouco mais de US$ 41 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 19,9 milhões nos outros mercados em que já estreou. No total, o filme arrecadou cerca de US$ 61 milhões. Considero uma bilheteria muito boa, especialmente nos Estados Unidos, e para um filme histórico sobre um personagem que não é daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 189 textos positivos e 32 negativos para o filme, o que garante para Darkest Hour uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,4. Chama a atenção, mais do que nada, a boa nota dos dois sites – especialmente se levarmos em conta a média deles.

Esse filme é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Esse filme segue na trilha de outras produções recentes que buscam “humanizar” e ter um olhar um pouco mais “pé no chão” de grandes personagens da nossa história. Dessa vez o escolhido foi Winston Churchill, em um trabalho primoroso e digno dos prêmios que está recebendo de Gary Oldman. Um filme bem contado, com uma bela reconstituição de época, mas que não foge da cartilha que já conhecemos bem.

História linear, que faz as pausas adequadas para nos aproximarmos mais do protagonista e das pessoas que lhe cercaram naqueles dias decisivos de maio de 1940. Essa produção não vai mudar a sua vida, mas se você se interessa pela História, por personagens marcantes e pela força que as palavras e as escolhas certas podem ter como inspiração para pessoas, nações e o mundo, essa será uma boa pedida. É um filme competente, sem dúvida.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Duas indicações são “batata” para esse filme: Melhor Ator para Gary Oldman e Melhor Maquiagem e Cabelo. Essa produção também é a favorita para vencer nessas duas categorias. Mas o que mais podemos esperar para Darkest Hour no Oscar?

O filme está cotado para ser indicado também em Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora. Ele tem alguma chance, ainda que não tão grande, de ser indicado a Melhor Filme; Melhor Diretor para Joe Wright; Melhor Roteiro Original e Melhor Edição.

Ou seja, Darkest Hour pode receber, facilmente, seis indicações ao Oscar e chegar até o número de 10 indicações. O filme merece tanto? Bem, as indicações técnicas por causa da caracterização de época – nas categorias Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção -, certamente que sim. Assim como a indicação para Oldman. As demais… bem, vai depender do lobby e da “paixão” das pessoas pelo filme.

Da minha parte, acho sim que a produção merece receber cerca de seis indicações e ganhar como Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Ator – e comento isso sem ter assistido, ainda, a todos os concorrentes. Nas demais categorias, ainda preciso ver a outros filmes para poder “bater o martelo”, mas a minha tendência seria de dar apenas esses dois Oscar’s para Darkest Hour. Afinal, esse é um bom filme, com um grande ator, mas nada muito além disso.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – Três Anúncios para Um Crime

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Quando um crime brutal e absurdo acontece, as pessoas mais próximas exigem e querem justiça. Mas de que justiça, exatamente, estamos falando? Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, parece repassar todos os filmes sobre familiares que buscam vingança e produções que trataram sobre a algumas vezes questionável polícia de algumas partes dos Estados Unidos.

Não deixa de ser um tanto irônico que este filme seja estrelado por Frances McDormand, a ótima atriz que fez história por viver justamente uma policial do interior no ótimo e já um tanto distante Fargo, de 1996. Essa nova produção é um filme bem escrito, com atuações condizentes e com um e outro questionamento que é muito bem-vindo nos dias de hoje em que tantas pessoas continuam acreditando que a vingança pode ser uma boa solução para a dor.

A HISTÓRIA: Três outdoors que há muito tempo não vêem a um anúncio novo. Grande parte de cada uma das publicidades, de décadas atrás, já desapareceu. Ninguém dá bola para aqueles outdoors porque ninguém dá bola para aquela estrada. Mas é por ela que Mildred (Frances McDormand) passa todos os dias. Em um destes dias, ela olha para aqueles outdoors de uma maneira diferente. E aí ela tem a grande ideia. Após dar uma ré, Mildred vê que os responsáveis pelos outdoors são da Companhia de Publicidade de Ebbing. E é para lá que ela vai. Mildred gasta as economias que tem para reservar por um ano aqueles outdoors e paga o primeiro mês adiantado. Tudo para denunciar o descaso da polícia local com a morte brutal de sua filha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Three Billboards Outside Ebbing, Missouri): Eis um filme no estilo “gente como a gente”. Afinal, quem nunca se colocou no lugar de alguém que perdeu uma pessoa próxima de forma brutal e que ficou indignado com a falta de uma resposta por parte das autoridades? Todos nós podemos entender essa indignação. Porque por mais que a pessoa “aceite” o que aconteceu com o passar do tempo, o desejo por um “mínimo de justiça” faz parte do desejo de qualquer pessoa.

Então sim, dá para entender a personagem principal desse filme e colocar-se no lugar dela. A indignação de Mildred com a falta de respostas a faz colocar o dedo na ferida da polícia local. E esse é outro ponto marcante do filme dirigido e escrito por Martin McDonagh. Ele sabe explorar muito bem algumas questões que estão arraigadas nos recônditos mais profundos da “alma americana”. Three Billboards se debruça sobre o “cowboy” típico do interior, questiona a ineficiência da polícia nesses locais e alguns comportamentos que ainda não foram expurgados daquela sociedade, como o preconceito racial.

Mas a boa sacada do filme não termina por aí. Three Billboards surfa a onda da indignação cívica muito bem. Esta produção tem a cara do nosso tempo. Afinal, a protagonista corajosa dessa produção, motivada por toda a sua indignação, resolve fazer algo a respeito. Primeiro, ela usa da sua inteligência. Sabe que a “propaganda é a alma do negócio” e que, muitas vezes, a polícia se incomoda mais com a imagem que ela tem do que com o número de casos resolvidos. Depois, claro, ela acaba radicalizando um pouco demais, e ultrapassando a fronteira do bom senso.

Mas, para fazer isso, ela tem um grande incentivo: o ótimo personagem do policial Dixon (Sam Rockwell). Ele incorpora, até um certo ponto de forma um tanto caricatural, todos os defeitos de um policial do interior americano metido a macho e a problemático. E o pior é que sabemos que existem policiais assim, e não apenas por aquelas altitudes. São homens com problemas sérios que utilizam uma farda para poder dar vazão para toda a sua insatisfação com a vida e com os outros. Tudo o que eles tem reprimido, a sua raiva e indignação, acaba sendo utilizada através de sua “autoridade” para colocar terror na cidade.

Esse personagem, que só não fica realmente caricatural por causa do talento de Rockwell e do ótimo texto de McDonagh, só coloca gasolina na até então pequena fogueira criada pela protagonista de Three Billboards. Enquanto o sujeito que tem o seu nome colocado no último outdoor, o chefe de polícia Willoughby (Woody Harrelson) mantém a cabeça no lugar e tem sensibilidade, inteligência e bom humor para lidar com a situação com elegância, Dixon mete os pés pelas mãos – especialmente quando Willoughby faz a sua “saída” magistral do cenário motivado por outras razões que não a publicidade indignada de Mildred.

Daí outra sacada interessante de McDonagh. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A protagonista desta produção descobriu algo que os mais atentos já perceberam nos dias de hoje: mais importante do que a ética e a consciência, para muitos, nos dias de reinado das redes sociais, o que interessa é a reputação, o que os outros pensam ou dizem sobre você. Claro que essa interpretação da realidade está distorcida e é equivocada, mas quantos, realmente, tem coragem e condições de pensar por conta própria?

Assim, para as pessoas daquela cidade do interior dos Estados Unidos, onde Mildred denuncia a ineficiência do chefe de polícia e de sua equipe em três outdoors, o que realmente importa é como ela colocou em dúvida toda a reputação da “encarnação” da segurança da cidade. Ora, ela não deveria ter feito isso com um cara “gente fina” como Willoughby, especialmente quando ele estava tão doente. Então as pessoas se compadecem do chefe de polícia, mas não da mulher que tem poucos amigos e que não adula ninguém e que apenas deseja uma resposta para a morte da filha?

Sim, é bem esse “senso de justiça” que vemos em muitas ruas e cidades mundo afora. As pessoas gostam de ter dois pesos e duas medidas, mesmo não admitindo isso. De que outra forma a figura de Willoughby pode ser considerada mais importante que Mildred na cidade de Ebbing, no Missouri, ou em qualquer outra parte? Com uma certa facilidade as pessoas “escolhem i, lado” e conseguem classificar umas pessoas como sendo melhores que outras. Mas quem, realmente, se importa em conhecer a história, os sentimentos e o que pensa a tal pessoa que eles gostam de atacar?

Vivemos em tempos complicados, em que muitas pessoas gostam de fazer esse tipo de classificação e de acabar com alguém apenas porque aquela pessoa não se enquadra no seu “modelo ideal”. Dessa forma, Three Billboards coloca o dedo em mais essa ferida exposta, em como a nossa sociedade – e não apenas a “do interior”, onde estão os “caipiras”, os “retrógrados” e outros tipos de classificação utilizadas para atacar e estigmatizar determinados grupos que não são homogêneos – acaba excluindo e julgando uma mulher “divorciada”, que não conseguiu “segurar o seu marido” e que criou os filhos sem o pulso firme que deveria.

Esse é o tipo de julgamento que se faz de uma pessoa como Mildred. Como ela não tem a preocupação de ser a pessoa que agrada a todos, muito pelo contrário, quase toda a cidade fica contra ela quando ela cobra uma atitude da polícia local. A forma com que ela faz isso e chama a atenção da imprensa para o caso da filha é genial, mas rapidamente todos se voltam contra ela por causa da condição de saúde de Willoughby.

Tudo teria acontecido com uma relativa “calma” e controle se Mildred não tivesse uma figura como Dixon e como o ex-marido dela, o também policial Charlie (John Hawkes), do lado oposto de sua busca por justiça. Dixon é um policial racista e violento que, quando não está ameaçando os outros, está na delegacia lendo gibi, comendo salgadinhos e fazendo nada. Ele tem uma mãe “típica” (interpretada por Sandy Martin) que lhe ajuda a ter as ideias mais imbecis e reprováveis possíveis.

Da sua parte, Willoughby parece ser o único sujeito centrado da história. Não por acaso ele tem tantos “fãs”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Claro que ele fica incomodado com a provocação de Mildred, mas, mais que isso, ele está incomodado por não ter como avançar na investigação da morte de Angela Hayes (Kathryn Newton). Ele encara por um bom tempo a luta contra um câncer agressivo, até que resolve terminar com a própria história por sua própria conta. Aí sim Dixon entra em parafuso e desperta uma reação de Mildred tão maluca quanto.

Dessa forma, e de maneira muito sutil, McDonagh mostra que a ciranda da violência nunca tem fim. E que pessoas boas acabam pagando caro apenas por entrar no caminho de pessoas cheias de raiva. Ainda que Mildred e Dixon pareçam tão diferentes, a violência que eles acabam alimentando e a busca por extravasar a própria insatisfação com as suas vidas e realidades os torna igualmente agentes do caos. McDonagh revela, para os mais atentos, como a violência apenas gera mais violência e que, no final, não importa quem seja punido, porque o que foi perdido nunca será recuperado.

Então volto a perguntar: será a vingança e a busca pela justiça sem medidas realmente o melhor caminho? Mildred até começou essa história cheia de razão, mas será que ela terminou da mesma forma? (SPOILER – não leia… bem você já sabe). O final desse filme não é conclusivo. E há, basicamente, duas formas de cada um “terminar” essa história. Ou Mildred e Dixon acabam perseguindo o suspeito que sabemos que não foi culpado pela morte de Angela e o matam porque, afinal, ele parece ter estuprado alguma menina em algum momento, como Dixon comentou, ou eles chegam até o endereço do alvo e simplesmente o deixam em paz. Voltam para a casa após uma viagem de busca, de redenção e de perdão.

A escolha pelo que acontece após a última cena terminar é de cada espectador. Da minha parte, acredito na segunda versão. Acho que Mildred e Dixon já gastaram boa parte da raiva que tinham e, depois de terem feito o que fizeram, de terem sentido a dor como sentiram e de provocarem o caos que causaram, eles estão em outro momento. Estão na fase de redenção, resignação e de perdão um do outro e dos demais. O processo de cura, me parece, para os dois, apenas começou, mas acho que eles vão seguir adiante. Sim, eu tenho uma tendência de pensar sempre positivo.

Mas mesmo que o final não tenha sido esse, mas aquela primeira opção… Three Billboards já serviu ao seu propósito de nos fazer pensar. Afinal, matar uma pessoa apenas por achar que ela fez algo errado com alguém em algum momento é realmente “buscar justiça” e/ou vingança? Se a resposta for sim, é porque no fundo o que as pessoas querem é cair na barbárie também. Matar alguém para dar vazão para a própria raiva e insatisfação. Isso, para mim, nunca será nem uma sombra de justiça. Será apenas a queda civilizatória, mais uma vez, na barbárie.

Three Billboards trata de tudo isso de forma magistral, com ação, emoção, humor, um belo roteiro, direção e atores inspirados. Sim, outros filmes, inclusive dos irmãos Coen, já trataram daquele mesmo cenário e de alguns desses mesmos personagens. Mas acho que o filme de McDonagh consegue avançar com um passo a mais em relação à maioria das produções do gênero. E isso não é pouca coisa. Para a nossa sorte.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: É fácil de perceber quando um filme é bem escrito. Quando ele tem dois “lados” muito bem delineados na história e quando esses dois lados provocam empatia e compreensão. Não é difícil entender a indignação, a revolta e o desespero que movem a protagonista de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, assim como não é difícil de entender os argumentos do seu “rival” inicial na trama, o chefe de polícia Willoughby. Quem nunca se colocou no lugar de uma mãe que perdeu um filho de forma brutal e que percebe que o crime não será resolvido? E quem não consegue compreender que existem limites para a lei e para a busca da justiça? Three Billboards apresenta estas duas realidades muito bem.

Apesar do filme ser tão cheio de qualidades, impossível não pensar em diversas outras produções, inclusive algumas dos irmãos Coen, que já pisaram exatamente aquelas terras. O interior dos Estados Unidos, com todas as suas particularidades, preconceitos e conflitos, volta e meia é bem explorado pelos realizadores de Hollywood. Sendo assim, apesar de ser muito bem escrito e realizado, esse Three Billboards não é, exatamente, inovador.

Mas, ainda que esta produção não “inventa a roda”, ela traz uma brisa nova para um gênero que já conhecemos. Então, o primeiro que merece o nosso aplauso é o diretor e roteirista Martin McDonagh. O trabalho dele é um dos principais trunfos dessa produção. Seja pelo texto inteligente, que equilibra diversos elementos muito bem, seja pela direção que privilegia o trabalho dos atores e que explora muito bem a paisagem interiorana.

Curioso que este é apenas o quarto filme dirigido por McDonagh. Ele estreou na direção com o curta Six Shooter, em 2004. Depois, estreou em longas com o interessante In Bruges, em 2008, comentado por aqui. E o terceiro filme dirigido por ele foi Seven Psychopaths. Como ele mistura uma pegada Tarantino, com uns toques de Soderbergh e dos irmãos Coen, acredito que ele apenas está começando a despontar. Deve nos surpreender muito ainda daqui para a frente.

Falando nos destaques dessa produção, impossível pensar esse filme sem a estrela de Frances McDormand. Essa atriz, tão valente e interessante na escolha de seus papéis, faz uma entrega incrível em Three Billboards. Aos 60 anos de idade, McDormand tem a chance de ganhar com Three Billboards o seu segundo Oscar.

Curioso que o primeiro foi ganho justamente por Fargo, um filme que tem muita relação com essa nova produção. É como se a policial de Fargo evoluísse para a versão de mulher mais empoderada, realista e anarquista de Three Billboards. Inclusive, sou franca, me deu vontade de rever Fargo… afinal, se passaram 21 anos desde aquela experiência de assistir a um dos filmes que fizeram a fama de McDormand e dos irmãos Coen. Por essa evolução da figura feminina e da atriz, sou franca em dizer, estou na torcida por Frances McDormand nesse Oscar. E, claro, pelo excelente trabalho dela nesse Three Billboards. Ela realmente é a alma do filme.

Ainda que Frances McDormand esteja perfeita em Three Billboards, ela não é o único nome de destaque da produção. Dois atores também estão ótimos e mostram como amadureceram com o passar do tempo. Destaco, claro, Sam Rockwell como o aloprado e bastante representativo Dixon, e Woody Harrelson como Willoughby. Eles interpretam dois perfis muito diferentes de policiais, mas que se completam, no fim das contas. Bonito como Willoughby acredita em Dixon de uma maneira que o próprio aprendiz de policial não acredita. Essa crença mostra como qualquer pessoa, por mais “torta” ou “errada” que seja, pode mudar de atitude se receber a confiança e a aposta necessária.

Os três atores roubam a cena cada vez que aparecem. Estão muito bem, realmente. Mas tem outros atores em papéis secundários que também fazem um bom trabalho. Destaque, nesse sentido, para Caleb Landry Jones como Red Welby, o gerente da empresa de publicidade que aceita a encomenda de Mildred; Kerry Condon em quase uma ponta como Pamela, secretária de Red; Lucas Hedges como Robbie, filho de Mildred que encara a indignação da cidade com o que a mãe fez na escola; Darrel Britt-Gibson como Jerome, um negro que já sentiu na pele a ignorância de Dixon e que ajuda Mildred com os outdoors; Zeljko Ivanek como o sargento que é o braço direito de Willoughby; Amanda Warren como Denise, amiga e colega de Mildred e uma de suas poucas aliadas; Abbie Cornish como a linda Anne, esposa de Willoughby; Sandy Martin muito bem como a mãe de Dixon; e Peter Dinklage como James, um amigo de Mildred que quer ser mais que um amigo.

Além deles, vale citar o trabalho de outros coadjuvantes: Jerry Winsett como Geoffrey, o “dentista gordo” que faz questão de dizer que é aliado de Willoughby; Kathryn Newton em uma super ponta como Angela Hayes; John Hawkes como o odioso Charlie, ex-marido violento e cretino de Mildred; Samara Weaving como Penelope, a namorada de 20 e poucos anos de Charlie; Clarke Peters como Abercrombie, o novo chefe de polícia que acaba colocando a casa em ordem; e Brendan Sexton III como o sujeito esquisito e ameaçador que vira o suspeito nº 1 de Dixon.

Entre os elementos técnicos desse filme, sem dúvida alguma o destaque vai para o roteiro e a direção competentes de Martin McDonagh. Depois, vale citar a boa direção de fotografia de Ben Davis; a trilha sonora de Carter Burwell; a ótima edição de John Gregory; o design de produção de Inbal Weinberg; a direção de arte de Jesse Rosenthal; a decoração de set de Merissa Lombardo; os figurinos de Melissa Toth; e a maquiagem de Susan Buffington, Leo Corey Castellano, Cydney Cornell, Jorie Mars Malan, Lindsay McAllister e Meghan Reilly.

Three Billboards estreou em setembro de 2017 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 31 festivais. Uma verdadeira maratona. Em sua trajetória, até agora, o filme colecionou 68 prêmios, sendo quatro deles no Globo de Ouro, e foi indicado ainda a outros 152 prêmios. Números impressionantes. No Globo de Ouro, o filme concorreu a seis prêmios, e ganhou os de Melhor Filme – Drama; Melhor Roteiro; Melhor Atriz para Frances McDormand; e Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell.

Um pequeno comentário sobre algumas cenas na reta final dessa produção. (SPOILER – realmente não leia se você ainda não assistiu ao filme). O diretor McDonagh deixa algumas imagens que podem nos fazer pensar na reta final de Three Billboards. Deixo claro aqui que são apenas suposições minhas, ok? Vocês não precisam concordar com elas. Tudo começa na ligação de Dixon para Mildred dizendo que o cara que ele tinha como suspeito não era o culpado. A impressão que eu tive é que Dixon estava prestes a estourar os próprios miolos quando Mildred deu a ideia deles viajarem no dia seguinte. E a mãe dele, afinal, estava viva ou morta? Pergunta que ficou sem resposta. A forma com que Mildred se despede do filho também dá a entender que ela pretende matar o cara que eles vão encontrar. Mas… por outro lado, ela diz que ela e Dixon devem decidir sobre o que farão no caminho. Sacadas interessantes do diretor, de deixar as motivações e a realidade dos dois personagens mais em aberto.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. No início, a atriz Frances McDormand estava relutante em aceitar o papel de Mildred, mas ela acabou sendo convencida pelo seu marido, o diretor Joel Coen. Segundo a atriz, quando ela recebeu o convite para fazer Mildred, ela tinha 58 anos de idade. Daí ela pensou: “Mas mulheres do estrato socioeconômico de Mildred não esperam até os 38 anos para ter o primeiro filho”. Ela estava relutante, portanto, por causa da idade que ela tinha e para que a personagem não parecesse “forçada”. Mas aí o marido dela disse “Cale-se e faça o filme!”. Por causa dela ter ouvido o conselho, a atriz já coleciona 16 prêmios por seu desempenho como Mildred e tem sérias chances de ganhar o Oscar.

O diretor Martin McDonagh escreveu o papel de Mildred tendo a atriz Frances McDormand na cabeça. Realmente, o papel parece cair como uma luva para a atriz, que honra também a personagem. Um casamento perfeito.

Esta produção foi rodada em uma pequena cidade que fica nas montanhas do Estado da Carolina do Norte. O nome da cidade é Sylva. Muitos moradores locais aproveitavam os intervalos para tirar fotos e pedir autógrafo do ator Woody Harrelson, que atendia a todos de forma muito simpática – inclusive tocando uma guitarra de forma improvisada em uma pequena loja para alegria do povão local.

O filme que a mãe de Dixon está assistindo na TV, com Donald Sutherland, é Don’t Look Now, que foi comentado aqui no blog nesse texto. Essa mesma produção foi “homenageada” por McDonagh em In Bruges. Realmente, o filme dirigido por Nicolas Roeg é um verdadeiro clássico dos filmes de suspense/ação. Merece ser visto e revisto – fiquei com vontade de revê-lo, aliás.

A bandana que Mildred usa no filme é uma homenagem a outra grande produção, The Deer Hunter – de quem McDonagh e Sam Rockwell são grandes fãs.

McDonagh se inspirou a escrever o roteiro de Three Billboards após ver alguns cartazes sobre um crime não solucionado em uma viagem que fez na região do Alabama.

Three Billboards arrecadou pouco mais de US$ 30,6 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 11,7 milhões nos outros países em que já estreou. Ou seja, até o momento, fez pouco mais de US$ 42,3 milhões. Uma boa bilheteria, mas nada extraordinário também.

Esse filme é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido – esse último, o país natal de Martin McDonagh. Por ser um filme dos Estados Unidos, também, Three Billboards atende a uma votação feita há tempos aqui no blog e que pedia produções desse país por aqui.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 textos positivos e 19 negativos para Three Billboards, o que garante para o filme uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6. Tanto a nota do IMDb quanto a do Rottent Tomatoes estão excelentes para o nível de exigência dos dois sites. O que demonstra como Three Billboards caiu no gosto popular e da crítica.

CONCLUSÃO: Quantos filmes em que um personagem foi buscar a justiça pelas próprias mãos você já assistiu? Será, realmente, que é esse tipo de filme que ainda faz sentido para a gente? Three Billboards Outside Ebbing, Missouri parece desarmar algumas bombas e mostrar que, apesar da indignação e da raiva serem combustíveis que podem ser bem utilizados, em algumas situações, é o perdão e a busca da compreensão do outro que realmente podem fazer a diferença. Um filme inteligente, com belas interpretações e com um final em aberto que deixa o desfecho ao gosto do freguês. Produção importante que caminha por trilhas já conhecidas mas que desvirtua alguns conceitos para fazer o público pensar.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, é um dos filmes favoritos para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Pelas indicações que já recebeu, em diferentes premiações, esse filme tem grandes chances de ser indicado em pelo cinco categorias das principais do Oscar 2018: Melhor Filme; Melhor Diretor, para Martin McDonagh; Melhor Atriz, para Frances McDormand; Melhor Ator Coadjuvante, para Sam Rockwell; e Melhor Roteiro Original.

Além destas categorias, o filme poderá concorrer ainda em outras mais “técnicas”, como Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora. Ou seja, se o filme tiver um bom lobby, ele pode concorrer em até sete categorias. Mas em quantas ele realmente tem chances de ganhar? Essa pergunta já é um pouco mais difícil, porque tudo vai depender do potencial vencedor que cada um dos principais concorrentes desse filme terá na reta final da disputa.

Sem dúvida alguma os adversários a serem batidos são The Shape of Water, Dunkirk, Get Out e Lady Bird, com destaque para o primeiro e o último, que parecem estar crescendo nessa reta final para o Oscar. As maiores chances de Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, parecem estar nas categorias Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e, correndo um pouco atrás nestas outras duas, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Só espero que o filme não saia da premiação de mãos abanando, porque ele merecia ao menos algum reconhecimento.

Entre os filmes que eu já vi, sem dúvida prefiro Three Billboards Ouside Ebbing, Missouri do que o “badalado” pela crítica Lady Bird. Ainda preciso ver The Shape of Water, mas entre os filmes que eu já assisti, eu não me incomodaria de I, Tonya ou Get Out surpreenderem, junto com esse Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Para o meu gosto, estes foram os melhores filmes que eu vi nessa temporada do Oscar.

Agora, levando em conta as bolsas de apostas e o meu gosto, eu diria que Three Billboards é o filme que está despontando como o meu favorito. Pelo andar da carruagem, apenas o filme do Guillermo del Toro pode desbancar a minha preferência pela produção de McDonagh. Estou curiosa para assistir a The Shape of Water e, em menor grau, aos outros filmes cotados para o Oscar. Veremos se algum deles vai mudar a minha preferência. 😉

Call Me By Your Name – Me Chame pelo Seu Nome

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Quando somos jovens, o amor flui mais naturalmente. Com o passar do tempo, pensamos um pouco demais, sentimos um pouco menos. Colocamos cada vez mais dúvidas no que deveríamos fazer ou sentir. Mas quando somos jovens, não nos importamos tanto em nos equivocarmos. Sobre isso tudo é que Call Me By Your Name trata. E não apenas sobre isso. Essa produção conta uma bela história de amor. E não qualquer amor, mas o primeiro realmente grande para um jovem – e possivelmente para o seu par também. Um filme sensível, interessante, como há algum tempo a gente não via.

A HISTÓRIA: Verão de 1983. Elio (Timothée Chalamet) joga algumas roupas suas na cama em que está a amiga Marzia (Esther Garrel) quando ele escuta um carro chegando. Elio fala que está chegando “o usurpador”. A história se passa “em algum lugar ao Norte da Itália”. Quando o carro estaciona, os pais de Elio, Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar), recepcionam o novo hóspede da família, Oliver (Armie Hammer). Mr. Perlman e Oliver já tinham trabalhado juntos, mas essa é a primeira vez que Oliver encontra a esposa e o filho do professor.

Elio tira as roupas e o violão da cama, e Oliver logo se joga para dormir. Ele está exausto. Enquanto Oliver ocupa o quarto de Elio, o jovem fica no quarto ao lado, com eles dividindo o banheiro. A relação deles vai se tornando cada vez mais próxima com o passar do tempo, em uma visível admiração que um sente pelo outro desde o princípio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Call Me By Your Name): Depois de Moonlight (comentado aqui) ter vencido em três categorias do Oscar no ano passado, incluindo a de Melhor Filme, é bacana ver um outro filme tratando sobre a descoberta do amor e como ele pode transformar as pessoas. E, evidentemente, é bom que essas histórias de amor foquem um casal de homens, para variar um pouco.

Afinal, já estamos acostumados a muitas histórias de amor entre homens e mulheres. O cinema está recheado destas histórias. Mas é bem menos frequente vermos belas histórias de amor de casais de homens ou de mulheres. Homossexuais com belas histórias de amor sempre existiram na História, mas nem sempre as sociedades estiveram preparadas para falar abertamente sobre isso. Que bom que vivemos novos tempos, em que cada vez mais sociedades aprendem a observar estas histórias de amor como tão belas quanto as clássicas histórias de amor entre homens e mulheres.

Dito isso, no Globo de Ouro desse ano, vi o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, um dos responsáveis por Call Me By Your Name, comentar sobre isso, de como é importante, depois de Moonlight, um filme tratar de forma bela e sensível uma bela história de amor entre dois homens. Afinal, Moonlight mostra a transformação de um garoto que passou por diversas situações difíceis, até que encontrou o amor e uma forma de redenção.

Em Call Me By Your Name temos outra pegada. Um filme sobre o primeiro amor que não segue a cartilha de uma garota e um garoto que se apaixonam pela primeira vez. Ou então de uma mulher mais velha que ensina tudo o que sabe para um garoto inexperiente. Não. Dessa vez, temos um jovem com grande vocação artística que, aos 17 anos, descobre o amor para valer na relação com um universitário sete anos mais velho que ele que está concluindo o seu doutorado.

Essas histórias acontecem, não apenas na década de 1980, mas atualmente, na década de 2010. E antes disso, e seguirão existindo depois. Bacana ver uma história dessas ser contada com tanta naturalidade e com tanta paixão pelas pessoas envolvidas. E se você não “concorda” com nada disso, acha que as relações homossexuais são “erradas” e não deveriam ser retratadas com a mesma beleza que uma relação heterossexual, deixa eu te dizer uma coisa. Essas relações e essas formas de amar vão continuar existindo, independente da sua opinião. E quanto antes você perceber que as coisas no mundo não precisam da sua opinião ou da sua concordância para existir, melhor para você.

Dito isso, vamos ao que interessa. Falar sobre Call Me By Your Name. Essa produção segue um pouco a cartilha de um romance clássico. Ou seja, primeiro temos a aproximação entre os futuros amantes, nesse caso, Elio e Oliver. Especialmente o filho do casal de anfitriões observa cada gesto do hóspede da família. Mas ele também é observado – mesmo que não perceba. O cortejo entre os dois é cheio de provocações, de aproximações e de disfarces, como acontece (ou aconteceu) com qualquer um de nós em algum momento da vida.

Você e eu, provavelmente, já passamos por isso. Pelos “jogos” do amor. Por provocações, dissimulações, uma aproximação seguida de um disfarce. Tudo isso faz parte do cortejo, do encantamento, de tudo aquilo que é prometido mas ainda não realizado. Por grande parte de Call Me By Your Name, vemos a esse cortejo em cena. E, claro, como nem tudo acontece como Elio ou Oliver deseja, temos pequenos “desvios no caminho”, como quando Elio avança o sinal na amizade com Marzia e eles acabam transando para o jovem colocar para fora todo o tesão que, na verdade, tem por Oliver.

Claramente Oliver e Elio, e especialmente o primeiro, tem um grande apreço pelas belas feições humanas, tão bem plasmadas pela arte clássica e/ou greco-romana, que é a especialidade de Mr. Perlman. O hedonismo, aliás, está presente nesse filme desde as imagens de abertura e até o último minuto. A busca pelo prazer e a vivência dele acabam sendo um elemento vital nessa produção. Algo que toda a família de Elio entende muito bem – e isso é algo realmente raro. Mas vamos falar sobre a família dele na sequência.

Antes, falando sobre a dinâmica do roteiro de James Ivory, que teve contribuição do diretor Luca Guadagnino e que foi baseado no romance de André Aciman, vale ressaltar que Call Me By Your Name segue essa narrativa romântica tradicional. Depois dos “jogos” de aproximação e afastamento que Elio e Oliver fazem, o que apenas alimenta a expectativa dos espectadores para o momento em que eles realmente coloquem em prática todo o desejo que sentem um pelo outro, temos finalmente o grande encontro amoroso dos personagens.

Até lá, a história explora o amadurecimento da atração que Elio vai sentindo em relação a Oliver, a ponto de sentir o cheiro de suas roupas e de buscar sempre por onde anda o ser amado. Mais maduro, com 24 anos de idade, Oliver sabe bem alimentar esse desejo do jovem “pupilo”, ficando ausente o suficiente para que Elio se sinta incomodado e para que manifeste o seu desejo de maneira mais clara. Finalmente, os dois se encontram e vivem o seu romance, depois de terem “perdido” um bom tempo naquele tradicional jogo de “gato e rato”.

Interessante como os pais de Elio são sensíveis e inteligentes. Mesmo não deixando claro, eles estão cientes de tudo que está passando com Elio e em sua casa de veraneio. Não tenho dúvidas que a mãe dele, ao sugerir que Elio acompanhe Oliver em sua última estadia na Itália antes de voltar para casa, nos Estados Unidos, sabia exatamente o que estava fazendo. Diferente de outros pais, que tolhem as experiências dos filhos porque querem evitar que eles sofram com a decepção do fim do romance depois, Annella quer que Elio vivencie o amor o máximo possível.

Que a decepção, a tristeza e a dor venham depois, isso não deve impedir Elio de viver o que deseja. Isso tudo fica subentendido nos gestos de Annella e é declarado com quase todas as letras no diálogo que Mr. Perlman tem com o filho quando ele retorna da viagem com Oliver. Aliás, para mim, essa é uma das melhores partes de Call Me By Your Name. Até então, tínhamos visto a uma narrativa praticamente clássica de um romance. Mas é na análise sobre tudo o que aconteceu e na espécie de “mea-culpa” que Mr. Perlman faz que o filme ganha uma outra dimensão.

Na verdade, para ser justa, existem dois grandes momentos no roteiro do experiente James Ivory. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O primeiro ocorre quando a produção praticamente chega à sua metade, quando Elio e Oliver vão até a cidade e, em um monumento em homenagem aos que morreram na 2ª Guerra Mundial, ocorre um dos melhores diálogos da produção. Oliver elogia como Elio sabe de tudo, ao passo que o jovem diz que Oliver nem sonha como ele não sabe de nada do que realmente interessa. O outro grande momento da produção é a conversa entre Mr. Perlman e o filho após o jovem voltar da sua viagem amorosa.

Mr. Perlman faz questão de dizer para Elio que ele deve ter a dimensão sobre o que ele viveu. Que foi algo muito especial, único, e que ele deve aproveitar isso enquanto é jovem, porque depois dos 30 anos parece que nos esvaziamos um pouco por termos dado tanto de nós antes. E nessa conversa ele fala grandes verdades. Admite, também, que teve algumas oportunidades na vida para vivenciar o que o filho viveu com Oliver, mas que acabou não se entregando para esse amor e que a oportunidade passou.

Nesse momento, de reflexão sobre o romance “clássico” que vimos, é que Call Me By Your Name consegue ser diferenciado. De fato, como eu disse no início desse texto, quando somos mais jovens, até os 20 e tantos anos, vivemos tudo mais intensamente. Nos soltamos mais e temos mais coragem em experimentar, em vivenciar o que queremos e desejamos. Depois dos 30 anos e após várias experiências amorosas, pensamos mais, analisamos, e abrimos mão de experiências que podem nos trazer dor e sofrimento. Com isso, consequentemente, deixamos de viver tudo que poderíamos.

No fim das contas, é sobre isso que se trata Call Me By Your Name. Sobre a nossa capacidade de vivenciar o amor de forma livre, solta, sem amarras ou julgamentos, e sobre a nossa capacidade de deixar de vivenciar isso depois de uma certa idade. Como eu acredito que tudo na vida é uma questão de decisão, de vontade e de escolha, acho sim que podemos vivenciar diversas fases e “vidas” dentro de uma mesma vida.

Assim, podemos ter as fases de amor platônico, de amor livre e de amor pleno, assim como as fases de tentar fugir das decepções amorosas e de seus joguinhos. Tudo é válido, desde que não percamos nunca a capacidade de amar. Porque existem diversas formas de amor e maneiras de manifestá-lo. Mesmo que abramos mão do amor apaixonado por um tempo, podemos canalizar o nosso amor para outras manifestações amorosas. E como Call Me By Your Name nos demonstra, o importante mesmo é que nunca nos deixemos embrutecer, não importa quantas desilusões amorosas vivenciemos.

O que é dito e o que é comunicado apenas pelos olhares nesse filme são elementos preciosos. Vale assistir Call Me By Your Name com tempo, com atenção e sabendo que esta produção bebe muito mais das fontes do cinema europeu do que do cinema clássico americano. Um filme com estilo, com cadência própria e com tempo para valorizar os sentimentos e expectativas de seus personagens – especialmente do protagonista, de quem a câmera de Luca Guadagnino está sempre próxima.

Afinal, a descoberta do primeiro grande amor nunca é algo banal. E esse filme sabe valorizar isso muito bem. Uma produção de romance clássica mas com a coragem de mostrar um casal de homossexuais no centro da narrativa. Muito bacana. Espero que mais pessoas passem a respeitar todas as formas de amor após assistirem a esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Na transmissão do Globo de Ouro, o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira comentou sobre como é bom ver um filme sobre um romance homossexual com “final feliz”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E aí temos algo interessante nesse Call Me By Your Name: o filme realmente tem um final feliz? Isso vai depender tudo do que o espectador entende por final feliz. Admito que eu esperei que Elio e Oliver ficassem juntos. Ou seja, que Oliver iria aparecer novamente na propriedade italiana dos Perlman e assumir o seu romance com o jovem promissor. Isso não acontece mas, ainda assim, o filme deixa de ter um final feliz?

Para mim, não. E isso eu só percebi como o final do filme mesmo. Foi então que eu percebi que um “final feliz” não precisa, necessariamente, das pessoas ficando juntas “para sempre”. Até porque esse entendimento é relativo. Acredito sim que um “final feliz” acontece quando as pessoas se entregam totalmente ao que sentem e se elas foram honestas consigo mesmas, em primeiro lugar, e com o seu par, em segundo lugar. Se isso aconteceu, se o amor foi vivido intensamente, aí já temos um “final feliz”. O amor romântico geralmente provoca dor e termina.

Como já nos disse o sábio Vinicius de Moraes, que o “amor seja eterno enquanto dure”. Temos um “final feliz” quando vivemos essa eternidade e, quando o romance propriamente dito termina, saboreamos o que vivemos para o resto da nossa vida. Porque os laços continuam, e o amor também, mesmo que o contato físico não exista mais. Como bem disse Oliver perto do final, ele lembrava de tudo. E o quanto isso é imenso! Lembrar de tudo, ter apenas as lembranças boas do que passou, isso é amor e isso é ter um laço permanente com o ser amado, mesmo que nunca mais o vejamos na vida. Para mim, esse é um “final feliz” de uma história de amor. E temos isso em Call Me By Your Name.

Falando no nome do filme e do que ele representa. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Admito que, quando Oliver fala para Elio chamá-lo pelo seu nome e vice-versa, achei aquilo um pouco estranho. Me coloquei no lugar deles. Mas depois, conforme a história avança, é que tive a dimensão exata do que aquilo representava. Primeiro, que um chamar o outro pelo seu nome era algo que só eles sabiam, era algo que tinha um significado especial apenas para eles. Depois que, convenhamos, ninguém nos conhece – ou isso deveria ser sempre assim – melhor do que nós mesmos. Então você viver uma relação com alguém ao ponto de chamar essa outra pessoa pelo teu nome, porque você a conhece com toda essa profundidade, com toda essa intimidade… realmente é algo único. Interessante. E dá realmente a dimensão exata do que o romance que é retratado representa.

Quem acompanha esse blog há mais tempo pode estar estranhando as últimas notas que eu dei para os filmes. Mas, como comentei por aqui, na crítica de Lady Bird, resolvi ser um pouco mais “dura” e criteriosa com as notas que eu dou para as produções que eu assisto. Então, segundo o histórico do blog, pode parecer que a nota 9 não é muito boa. Mas convenhamos, lembrando da nossa época de colégio e tudo o mais, um 9 é uma nota ótima, não é mesmo? Estudávamos muito para tirar um 9 no colégio.

Então é isso. Call Me By Your Name é um filme bem feito, interessante, corajoso ao contar um romance clássico sob a ótica de um jovem que descobre que gosta de um doutorando mais velho. O primeiro amor, com toda a sua base narrativa que já conhecemos, ganha nova abordagem nesse filme. Por tudo isso, pelo belo trabalho dos atores e por dois grandes momentos dessa produção, acho que ela merece sim esse 9. Notas maiores que essa, só para filmes realmente mais marcantes e muito, muito bons, caminhando para excepcionais e excelentes. O que cada vez será mais raro por aqui.

Eu gostei das escolhas narrativas do diretor Luca Guadagnino. Ele pincela, aqui e ali na história, os seus momentos de pura arte – como em algumas sequências em que Elio está “maturando” o seu primeiro amor e na expectativa de realizar o encontro da “primeira vez” com Oliver. Nesses momentos, além da direção de fotografia de Sayombhu Mukdeeprom, é valorizada a trilha sonora que contou com Gerry Gershman como músico consultor, Lindsey Taylor como coordenadora musical e Robin Urdang como músico supervisor. Muito bons estes dois elementos na produção. Tanto a direção de fotografia quanto a música. Elementos importantes para a história e para os personagens.

Além desses aspectos técnicos que se destacam nesta produção, vale comentar o bom trabalho de edição de Walter Fasano; o design de produção de Samuel Deshors; a direção de arte de Roberta Federico; a decoração de set de Muriel Chinal, Sandro Piccarozzi e de Violante Visconti di Modrone; os figurinos de Giulia Piersanti; a maquiagem de Fernanda Perez; e os efeitos visuais que envolveram 16 profissionais.

O elenco é outro ponto a destacar nessa produção. Os atores centrais da história, Timothée Chalamet e Armie Hammer, estão realmente ótimos. Eles não forçam em suas interpretações e não parecem caricaturas de pessoas reais. Não. Ambos estão muito bem e convencem nas particularidades de seus personagens. Claro que é impossível não destacar, ainda assim, o trabalho de Chalamet. Afinal, ele está sendo focado pelas lentes de Luca Guadagnino praticamente o tempo inteiro do filme, e ele convence em cada momento. Sem dúvida, merece aplausos e o holofote que ele tem recebido. Hammer também está muito bem, carismático e provocativo na dose certa. Eles são o destaque da produção.

Além deles, é preciso comentar o bom trabalho dos coadjuvantes, com destaque, nesse sentido, para Michael Stuhlbarg e para Amira Casar. Os dois tem uma presença muito marcante no filme, nem tanto pelos diálogos – descontada a sequência da conversa de Mr. Perlman com o filho -, mas, principalmente, pela interpretação detalhista, com forte presença de olhares que dizem tudo. Especialmente Casar se destaca nesse sentido. Observem como ela percebe tudo sem dizer nada a respeito… muito interessante. E Stuhlbarg também segue essa linha, além de ter um diálogo decisivo na história. Outros coadjuvantes que merecem ser citados pelo bom trabalho são Esther Garrel como Marzia, amiga “colorida” de Elio; Victoire Du Bois como Chiara, garota “local” que fica fascinada por Oliver; Vanda Capriolo como Mafalda, empregada da família; e Antonio Rimoldi como Anchiese, outro funcionário da propriedade italiana dos Perlman.

Call Me By Your Name estreou em janeiro de 2017 no Festival de Cinema de Sundance. Ou seja, o filme já está completando um ano de trajetória em festivais pelo mundo. Ele participou, até o momento, além do Festival de Sundance, de 46 festivais – sendo o mais recente dele, iniciado no dia 12 de janeiro de 2018, o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. Realmente impressionante a maratona de festivais em que o filme participou. Algo muito bacana para os nomes envolvidos no projeto, inclusive o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira.

Aliás, vale comentar um pouco sobre a trajetória de Teixeira. Como produtor, ele tem 35 projetos no currículo. Começou em 2004 com o curta Desequilíbrio. Dois anos depois, ele produziria o seu primeiro longa, o brasileiro O Cheiro do Ralo. A primeira incursão internacional de destaque de Teixeira foi o elogiado e premiado Frances Ha – uma falha no meu currículo, eu admito -, lançado em 2012. Desde então, ele seguiu produzindo filmes brasileiros e internacionais. Entre outros títulos, vale citar The VVitch: A New-England Folktale, Love e Mistress America.

Nessa trajetória imensa de festivais pelo mundo, Call Me By Your Name recebeu 42 prêmios e foi indicado a outros 118 – incluindo indicações em três categorias do Globo de Ouro 2018: Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Timothée Chalamet e Melhor Ator Coadjuvante para Armie Hammer. Entre os prêmios que recebeu, destaque para 8 prêmios de Melhor Ator para Timothée Chalamet; para 9 prêmios de Melhor Roteiro Adaptado para James Ivory; para 5 prêmios de Melhor Filme; para 5 prêmios de Interpretação Arrebatadora para Timothée Chalamet; para 1 prêmio de Melhor Diretor para Luca Guadagnino e para 1 prêmio de Melhor Filme Internacional no St. Louis International Film Festival. Uma bela coleção de prêmios, sem dúvida.

Tem alguns detalhes da história de Call Me By Your Name que eu só descobri lendo a sinopse da produção – durante o filme estes pontos não ficaram claros para mim. Vale citar alguns deles. A história se passa em uma vila no Norte da Itália do século 17, onde a família Perlman passa as férias sempre recebendo um estudante como convidado(a). O protagonista Elio tem 17 anos e passa as férias lendo, tocando e estudando música clássica, nadando nos rios e lagos e flertando com a amiga Marzia. O pai de Elio é um eminente professor especializado na cultura greco-romana. A mãe do garoto é uma tradutora, que aprecia a natureza e a cultura tanto quanto o marido. Oliver é o “estudante” hóspede dessa temporada, que chega na propriedade para ajudar Perlman em seu trabalho. Ele tem 24 anos e está trabalhando em sua tese de doutorado quando vai visitar o professor Perlman e família.

Na estreia de Call Me By Your Name no Festival de Cinema de Nova York, o filme foi aplaudido por 10 minutos – a maior ovação que um filme recebeu no evento até hoje.

Agora, outras curiosidades sobre essa produção. Segundo a história do filme, Elio tinha 17 anos e Oliver 24 anos quando os dois se encontram. Os atores Timothée Chalamet tinha 20 anos e Armie Hammer 29 anos quando a produção foi rodada. Na Itália, a idade para uma relação sexual ser considerada legal e feita de forma consentida é de 14 anos.

O ator Timothée Chalamet aprendeu a falar italiano e a tocar violão para poder interpretar melhor Elio.

O filme tem várias cenas sensuais, mas a sequência que mais deixou o ator Armie Hammer sem graça foi aquela em que ele dança em uma pista comandada por um DJ.

Antes das filmagens começarem, os atores tiveram apenas um ensaio. Timothée e Armie chegaram para gravar uma cena, justamente a que os dois tem o primeiro contato amoroso após estarem deitados na grama. Eles encararam a cena e o diretor Luca Guadagnino pediu para eles demonstrarem mais paixão na cena. Então eles embarcaram nos personagens até que perceberam, após algum tempo, que o diretor já tinha se afastado. Esse foi o único ensaio – ou seja, praticamente todo o filme foi rodado pela primeira vez, com os atores sem praticar cada cena antes.

Call Me By Your Name é dedicado ao ator Bill Paxton, que morreu em fevereiro de 2017. Brian Swardson, marido de um dos produtores do filme, Peter Spears, era o melhor amigo e o agente de Bill Paxton. Ele também é o agente de Timothée Chalamet. Bill Paxton visitou o set em que o filme foi rodado, na Itália, e se tornou amigo de Luca Guadagnino antes de morrer.

O diretor Luca Guadagnino já comentou que pensa em fazer uma sequência para Call Me By Your Name. No romance original, de André Aciman, os personagens Elio e Oliver se reencontram 15 anos depois do que vemos nessa primeira produção. Realmente pode ser interessante mostrar o que acontece com os dois passado tanto tempo.

De acordo com o site Box Office Mojo, Call Me By Your Name faturou pouco mais de US$ 7,2 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Não é uma bilheteria ruim, mas está longe de ser um graaaande sucesso comercial. Especialmente porque a produção teria custado cerca de US$ 4 milhões – ou seja, precisa crescer ainda para começar a dar lucro. Veremos se o filme consegue decolar mais após as suas várias indicações e premiações.

Call Me By Your Name é uma coprodução da Itália, da França, do Brasil e dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e nove negativas para esta produção, o que garante para o filme um nível de aprovação de 96% e uma nota média de 8,8. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção. Estão bem acima da média dada pelo público e pelos críticos nas duas páginas.

CONCLUSÃO: O amor é sempre válido, mesmo quando ele nos machuca no final. Call Me By Your Name nos conta uma história de amor que, como tantas outras, surgiu por acaso, com o encontro de duas almas e a coragem delas de encarar o que sentiam. Um filme contado com a suavidade de uma produção europeia mas com algumas pitadas do bom cinema americano. Um tanto lento no início, Call Me By Your Name sabe alimentar a expectativa do público na cadência certa, até que na reta final o filme cresce. Nos faz pensar sobre o amor, nossas escolhas e tudo aquilo que deixamos de encarar por pensar demais. Uma bela produção, de uma safra do Oscar bastante diversa e interessante.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Esse filme tem tudo para emplacar diversas indicações no prêmio deste ano da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Pelos prêmios que o filme já recebeu e pelos quais ele já foi indicado, dá para nos arriscarmos a dizer que ele pode ser indicado no Oscar 2018 nas seguintes categorias: Melhor Filme; Melhor Ator, para Timothée Chalamet; Melhor Ator Coadjuvante, para Armie Hammer; Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original (podendo concorrer tanto com “The Mystery of Love” quanto com “Visions of Gideon”).

O filme ainda tem chances, se conseguir fazer um bom lobby, de emplacar indicações nas categorias de Melhor Diretor, para Luca Guadagnino; e Melhor Direção de Fotografia. Ou seja, acredito que Call Me By Your Name tem chances de emplacar entre 5 e 7 indicações para o Oscar. Um belo desempenho, sem dúvidas.

Mas em que categorias o filme tem reais chances de vencer? Pelo andar da carruagem das bolsas de apostas – mais do que das premiações, porque muitas das principais de Hollywood ainda estão para acontecer -, acredito que ele tenha chances mesmo só em Melhor Roteiro Adaptado. Nas demais categorias o filme corre um pouco “por fora”, tendo sempre um ou dois candidatos muito fortes para derrubar antes de chegar na estatueta dourada.

Ainda assim, se o filme emplacar cinco ou mais indicações, ele já terá bastante visibilidade e conseguirá ser visto por ainda mais pessoas. E isso é tudo que um filme e os seus realizadores desejam. Veremos as próximas premiações para fazer um prognóstico ainda mais ajustado.