La Voz Dormida – A Voz Adormecida

Tem histórias que são muito pesadas. Frente a elas, como fazer um filme? La Voz Dormida trata de uma das maiores chagas na história da Espanha de forma dura, parcial e dramática. Por tudo isso, precisa. Certamente há quem dirá que o filme é injusto, porque só conta uma parte da história. A questão é que, justamente, o que o filme aborda foi pouco contado. Quase esquecido. Suprimido, sem dúvida. Mas pouco a pouco, especialmente nos últimos anos, relembrado. Ainda bem.

A HISTÓRIA: Começa no final de abril de 1939, focando a Espanha logo após o final da Guerra Civil Espanhola e o início da ditadura do general Francisco Franco e seu regime nacionalista-católico. O texto de abertura do filme dá o tom do que o espectador verá a seguir: “Foram três longos anos de horror e morte. Mas com o fim da guerra, não chegou a paz ou a reconciliação”. A história das irmãs Hortensia (Inma Cuesta) e Pepita (María León), a primeira presa em Madrid, começa em novembro de 1940, no “segundo ano da vitória”. O clima na prisão é da espera constante pela morte, enquanto fora, pessoas como Pepita lutam pela liberdade de seus familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a La Voz Dormida): Este é um dramalhão. Sim senhores e senhoras. Mas o que faz essa produção ser boa, apesar de ser intensa em drama e de, obviamente, ignorar os argumentos “do outro lado” – leia-se da Igreja e do regime que matou e reprimiu em nome de “manter a ordem”?

Basicamente, dois elementos: a dedicação do roteiro para mostrar o drama por uma ótica diferenciada, das mulheres, e por não economizar na dureza de algumas cenas; e pelo talento das atrizes principais, especialmente daquelas que vivem as irmãs, tão diferentes uma da outra, mas muito amorosas e apegadas.

Também admito, antes que alguém diga que sou incoerente, que este filme me afetou em especial por causa das minhas origens. Sou neta de espanhóis. Meus avós nasceram na Espanha, e meus bisavós viveram lá até imigrar para o Brasil com os seus filhos. Morei em Madrid, onde esse filme se passa, por três anos. Conheci o espírito “aguerrido” e teimoso dos espanhóis. Tive a sorte de fazer amizade com pessoas guerreiras, batalhadoras e que pensavam primeiro em seu país e em sua gente antes de pensar em ganhar dinheiro ou ter sucesso – bem ao estilo de Hortensia e os demais “rojos” deste filme.

Por isso, compreendo muito bem a atitude de Hortensia e dos demais. Até hoje ecoa, nas ruas de Madrid, aquele espírito de punhos erguidos, de olhar fulminante contra a repressão. A resistência segue, mesmo tanto tempo depois, e após tanto esforço da ditadura e da maioria dos governos democráticos que vieram depois, direitistas, de que enterrar a repressão, as torturas e as mortes daqueles anos duros.

O filme é claro em suas intenções desde o princípio, com aquele texto de abertura da produção. Vale citar um trecho: “Este filme quer homenagear todas as mulheres que choraram em silêncio nas portas e nas lápides dos cemitérios. Para as mulheres que se sacrificaram pelos presos e pelos perseguidos. Para todas as mulheres que morreram nas delegacias, nas prisões ou na frente dos pelotões de execução”.

La Voz Dormida não tem nenhuma sombra de dúvida sobre que lado tomar como seu para argumentar. O roteiro do diretor Benito Zambrano, escrito junto com Ignacio del Moral e baseado no livro de Dulce Chacón quer falar daquelas mulheres valentes que se uniam nos presídios e fora deles para resistir. Bate forte na Igreja, que ficou ao lado de Franco e de seus absurdos. Algumas das cenas mais fortes do filme, aliás, mostra representantes da Igreja Católica fazendo qualquer fiel coerente sentir vergonha.

A Espanha, nos últimos anos, tem feito um esforço para resgatar os esquecidos e as vítimas da ditadura de Franco. Inclusive esse gesto, do socialista Zapatero, foi bastante combatido pela oposição dele, agora no poder, dos direitistas comandados pelo Rajoy. E assim a vida segue… alguns governos entram, resgatam parte da história que “os vitoriosos” gostam que fiquem bem enterradas, até que os “vitoriosos” e/ou seus herdeiros voltam ao comando e cuidam para voltar a esquecer ou, pelo menos, continuar tornando desimportantes estes temas.

Mas falemos de La Voz Dormida. O foco principal do roteiro é o drama das irmãs e, por meio delas, as relações de suspense, conflito, perseguições políticas e ideológicas que cercavam aquele tempo. Há espaço para romance também, claro, afinal, os rebeldes lutam e também amam.

Um ponto positivo do filme é que ele é bem contundente. Logo no início, assistimos ao desespero de presas que vem suas companheiras sendo selecionadas e levadas para o fuzilamento. Assim, a produção entra dando rasteira. Não segue com esta força todo o tempo, mas nos apresenta alguns outros momentos muito duros. Bela e necessária aposta do diretor que, para passar a mensagem que gostaria, acerta ao explorar algumas sequencias de brutalidade.

Mas claro, La Voz Dormida não é apenas isso. Além dos momentos de violência e tensão, há romance, como dito antes, suspense (sobre o que vai acontecer na próxima tentativa de Pepita em ajudar a irmã ainda que, desde o princípio, já desconfiamos sobre o que acontecerá com Hortensia) e drama, muito drama. E esse excesso de drama só não faz o filme ficar ruim por causa das atrizes, que levam os seus respectivos papéis com seriedade, sem forçar a dose e com bastante convicção.

O diretor acerta ao focar no trabalho dos atores, sem ignorar os lugares, mas deixando claro que a interpretação é o que ganharia o jogo. Uma delícia assistí-los emocionados, brigando – aliás, as únicas cenas um pouco cômicas da produção se resumem no inevitável embate amoroso entre Pepita e Paulino (Marc Clotet). Muito engraçado ouvir o sotaque andaluz, especialmente de Pepita. Uma delícia. Aliás, muito bom ver os estilos tão diferentes de falar dos atores/personagens.

Por pouco, não dou a nota 10 para esta produção. Na verdade, estava dando, até que fiz uma análise um pouco menos “passional” e percebi que, realmente, incomoda um pouco o lado dos rebeldes ser mostrado de forma tão amistosa. Não vemos o grupo de Paulino ou Felipe (Daniel Holguín) matando ninguém, mesmo para se defender. Claro que eles provocaram muitos dramas, mas nada disso é revelado pela produção, o que os torna quase mártires perseguidos injustamente – e, assim, quase santos. Claro que a história real não foi essa. Como em outras ocasiões, em que um filme ignorou completamente – e de forma proposital – o outro lado da história, não posso dar a nota máxima para esta produção. Mas pelo demais, ela merece aplausos.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A guerra civil espanhola foi uma desgraça. Até hoje aquele conflito interno assombra e repercute no país. Mesmo que novas gerações estejam mais preocupadas com o futuro, incerto com o desemprego e a crise, e que imigrantes tenham renovado o cotidiano do país, aquelas chagas parecem difíceis demais de cicatrizar.

Como La Voz Dormida faz uma crítica importante para aquele período, nada melhor que relembrar um pouco sobre aquela guerra. Como explica este texto, o conflito começou em 1936 e durou até 1939. A origem dele foi a substituição da monarquia por um regime republicano de levada socialista. Nada mais contrário ao que estava estabelecido, pois. Contra o novo regime, houve um levante de falangistas, como ficaram conhecidos os resistentes à mudança e que eram partidários do nazi-facismo, liderados pelo general Francisco Franco.

Os falangistas, claro, tiveram o apoio dos governos totalitários e fascistas da Alemanha e da Itália. Essa foi a escolha da Europa na época, impedir que as ideias socialistas se consolidassem. Para isso, utilizaram os piores recursos para abafar e eliminar os descontentes – que não eram poucos. A maravilhosa obra Guernica, de Pablo Picasso, é a mais sublime e conhecida produção artística que representa a violência, o absurdo e as mortes daquela guerra.

Esta é uma leitura “ligeira” sobre o que aconteceu. Recomendo também este texto, que dá mais detalhes sobre a Espanha antes da eclosão da guerra e dos fatores que levaram o pais às armas e a uma divisão histórica que perdura. Interessante, em especial, como sempre que um país está atrasado e há uma forte resistência de quem está no poder a mudar, se instalam as condições perfeitas para a catástrofe. Chamo a atenção para a parte em que o texto comenta como as pessoas saíram às ruas para defender as mudanças em Madrid e em Barcelona, antes da repressão com apoio nazi-facista começar a vigorar.

La Voz Dormida é um filme de sucesso. Ele conseguiu, até o momento, cinco prêmios e ser indicado a outros 17. Entre as estatuetas que recebeu, estão três prêmios Goya: melhor atriz revelação para María León; melhor canção original para a música compartilhada pelas irmãs, “Nana de la hierbabuena”, de Carmen Agredano; e melhor atriz coadjuvante para Ana Wagener. Os outros dois prêmios que o filme recebeu foram dados na Espanha: o de melhor atriz para María León no Festival Internacional de San Sabastián; e o de melhor atriz revelação para María León no Prêmio do Círculo de Roteiristas de Cinema. Sem dúvida um dos melhores filmes da última temporada.

O diretor andaluz Benito Zambrano é um vencedor. Ele tem, no currículo, apenas cinco produções, sendo uma delas a série de TV Padre Coraje. Mas acumula respeitáveis 26 prêmios e outras 16 indicações. Antes de La Voz Dormida, ele dirigiu a Habana Blues, comentado aqui no blog, e Solas, de 1999, sua estreia nos longas.

Para quem gosta de saber sobre as locações do filme, como a própria história sugere, La Voz Dormida foi filmado em Madrid e na cidade de Huelva, na Andalucía.

La Voz Dormida estreou em setembro de 2011 no Festival San Sebastián. Em outubro, o filme participou dos festivais de Ourense e de Londres e, em março deste ano, no de Miami.

Não há informações sobre o desempenho do filme nas bilheterias. Mas segundo o IMDb, a produção teria custado cerca de 3,5 milhões de euros.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para La Voz Dormida. Não é uma cotação ruim, levando em conta a tradição do site.

CONCLUSÃO: Resistir, mesmo quando isso parece impossível. Lutar, mesmo quando isso não vá muito além de manter-se convicto. La Voz Dormida trata de um tempo e de uma gente difíceis. Os anos que seguiram o fim da Guerra Civil espanhola foram dos piores já vividos por aquele país. E aquela gente não teria descanso porque, afinal, logo mais a Europa estaria imersa na Segunda Guerra Mundial. La Voz Dormida é um dramalhão, sob a ótica feminina. E apenas essa escolha, de focar nas mulheres que foram presas políticas e o drama de suas famílias, já faz o filme ser diferenciado. Para a sorte dos espectadores, se o roteiro alguma vezes falha ao pesar muito no drama, as atrizes principais cuidam para dar o tom de firmeza necessário para as suas personagens. História forte, necessária, e com atuações que valem o ingresso.

Get the Gringo – Plano de Fuga

Mel Gibson tem cara e jeito de pessoa louca. E eu gosto dele por isso. Sei que ele faz besteiras, especialmente fora da telona, mas eu gosto de acompanhá-lo no cinema. Get the Gringo, seu último filme, segue esta convicção meio torta que o astro tem adotado nos últimos tempos. O filme não leva à parte alguma, está cheio de estereótipos e absurdos mas, apesar de tudo isso, tem algumas sequências divertidas. No melhor estilo “ame ou odeie”, bem ao gosto do próprio Mel Gibson.

A HISTÓRIA: Um cão caminha, enquanto um homem em uma carroça avança. Na estrada perto deles, um carro com dois homens vestidos de palhaços corre veloz tentando escapar da polícia. Enquanto o palhaço que está de carona pede um médico e o motorista manda ele calar a boca, a polícia avisa a localização dos bandidos e informa que eles estão seguindo para a fronteira. O bandido que está dirigindo o carro (Mel Gibson) consegue sair da estrada e, em uma manobra planejada, faz o carro voar para o território mexicano. A partir daí, ele é preso, roubado por policiais e perseguido pelos capangas do dono da fortuna roubada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte dos textos à seguir contam momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Get the Gringo): Cinema, e vocês todos sabem disso, é algo muito, muito pessoal. Como o jornalismo, exige uma análise subjetiva. Sim, por mais que se apregoe a objetividade da minha profissão, todos nós, que conhecemos o jornalismo muito de perto, sabemos que a subjetividade está presente – nas milhares de escolhas que um profissional faz ao longo de sua carreira.

No cinema e nas demais formas de arte, a regra é a mesma. Como na vida mesma, não é verdade? Toda escolha leva a um resultado diferente. Algumas decisões tentam ser “objetivas” mas, no fundo, passam pela subjetividade – entendida como capacidade individual de escolha. Get the Gringo é um destes exemplos de subjetividade do exercício de assistir a filmes.

Se eu não gostasse tanto do Mel Gibson e de sua cara de louco, dificilmente assistiria a este filme. Afinal, a história é manjadíssima: ladrão esperto e veterano made in USA vai parar no México, um país totalmente “corrupto e bagunçado”. Ali, ele vai dominando o seu entorno com a ajuda de um garotinho esperto e órfão – seguindo a velha lógica de “tal pai, tal filho”, ainda que o bandido e o garoto não tenham parentesco. Mas a ideia do protagonista adotar o garoto é tudo o que o filme precisa para ter a sua própria dose de drama e “moral” para não ser, afinal, apenas uma desculpa para pancadaria, tiros e mortes.

Não preciso nem dizer que a leitura sobre a fronteira entre USA e México e, principalmente, sobre a realidade mexicana é absurda, não é mesmo? Porque, apesar do México ter corrupção e crimes recorrentes, em algumas partes do país, as cenas de um prisão onde tudo pode ser feito e conseguido, cenário dominado por um criminoso que não se impõe pelo físico, pelos crimes ou pela violência, mas pelo dinheiro, me parece bastante exagerado.

Chega até a ser pueril. Afinal, o roteiro assinado por Mel Gibson, o diretor Adrian Grunberg e Stacy Perskie não apresenta muito conflito naquele cenário caótico. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gasta um bom tempo, isso sim, mostrando os bastidores de um local dominado por Javi (o espanhol Daniel Giménez Cacho), um criminoso em busca de um novo fígado e que cuida muito bem de seu novo alvo, o garoto (Kevin Hernandez) que vira amigo do protagonista.

Get the Gringo, até por ser um projeto de Gibson, segue a sua linha “anticonvencional”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, pela tiração de sarro dos palhaços, dos policiais e dos bandidos que são sacaneados uns pelos outros. Depois, porque o protagonista não é exemplo de nada – pelo contrário, especialmente nas cenas em que dá dicas para um garoto de como matar um homem.

A história inteira é previsível. Inclusive as sequências em que o nosso “herói” tira soluções da cartola para livrar-se dos desafetos e, claro, o “grand finale”. Get the Gringo não inova. É apenas uma desculpa para Gibson fazer mais um filme com cara de louco. Há muitas sequências improváveis, outras tantas previsíveis. A mãe (Dolores Heredia) do garoto ser interessante e estimular o “lado generoso” do personagem de Gibson também era algo básico.

E o cômico é que, apesar de tanta obviedade e lugares-comuns, este filme acaba sendo engraçado. Por ser bastante tosco. Recomendado para quem não tem problemas com isto e, claro, aos fãs de Gibson. Para todos os outros casos, este filme parecerá bastante bobo, previsível. O que não deixa, também, de ser verdade. 🙂 Mas o jeito louco de Gibson acaba superando todo o politicamente correto.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Desta vez demorei menos para escrever. Menos mal. Quero ver se reduzo o tempo entre assistir a um filme e comentar sobre ele. Get the Gringo eu vi no domingo passado.

Get the Gringo tem o tamanho exato. Para a nossa sorte, ele não dura duas horas, mas uma hora e meia. Justo. Mais que isso, seria forçar a barra. Afinal, essa é só mais uma desculpa para um filme de ação, para Gibson fazer suas caras de louco e destilar um pouco mais de sua postura “anti-politicamente correto”.

O roteiro é previsível, óbvio e cheio de lugares-comum. Apesar disto, a direção de Adrian Grunberg é muito boa. Ele faz o filme ter o ritmo adequado, focando detalhes dos lugares, dando espaço para Gibson destilar seu “veneno” e, com a ajuda do editor Steven Rosenblum, dando velocidade para a narrativa – mas sem esquecer a construção das relações entre o bandido-protagonista, o garoto e a mãe dele, no presídio, e a dos últimos dois com o “vilão” Javi.

Ajuda muito, para dar ritmo e “clima” para o filme, a trilha sonora do brasileiro Antonio Pinto. Ele fez uma bela pesquisa de músicas latinas, dando peso e “ginga” para a produção. Além dele, merece destaque o trabalho de fotografia de Benoît Debie.

Get the Gringo foi feito por e para Mel Gibson. O ator não é apenas o protagonista e um dos coroteiristas, mas também um dos produtores. Depois dele, a história é focada nos três atores já citados – o garoto, a mãe e o “dono do presídio”, Javi. Fora eles, merecem ser mencionados os trabalhos de Peter Stormare como Frank, o bandido perigoso que foi roubado pelo personagem de Mel Gibson e que busca vingança; Dean Norris em uma superponta como o policial Bill; Bob Gunton em outra superponta como o rico Mr. Kaufmann, peça importante para o desfecho da história; Jesús Ochoa no papel pequeno de Caracas, diretor do presídio. Há outros atores importantes, mas que não foram identificados pela produção.

Falando nos produtores desta história, eles dizem que enviaram uma pessoa da equipe, Alejandra Cuervo, para fazer pesquisa de histórias com ex-presidiários do El Pueblito original, um presídio que, dizem, teria muitas das liberdades e histórias narradas nesta produção. Boa história, para quem acredita…

Get the Gringo teria custado cerca de US$ 20 milhões. Não é um orçamento desprezível. Provavelmente muito disto foi gasto nas cenas de ação – carro voando e capotando, tiroteios, explosões. Nas bilheterias o filme não tem se saído bem, o que demonstra que a figura de Mel Gibson está meio apagada. Até o dia 3 de junho, nos países onde a produção estreou, ela fez pouco mais de US$ 4,2 milhões nas bilheterias. Esse resultado não conta com os Estados Unidos, onde Get the Gringo não será lançado nos cinemas, mas apenas no sistema VOD – video on demand.

Get the Gringo foi rodado em Brownsville, no Texas, e em San Diego, na Califórnia, ambas nos Estados Unidos, além de Veracruz, no México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção. É uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos, dedicando 32 textos positivos e oito negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,2.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela marca a estreia de Adrian Grunberg como diretor. Antes deste filme, ele tinha atuado como assistente de direção de outros 22 títulos, incluindo Apocalypto – certamente é dali que surgiu o interesse de Gibson para o trabalho dele.

CONCLUSÃO: Todos são corruptos ou corruptíveis. O México é uma bagunça, e o personagem de Mel Gibson, um criminoso. Essas duas frases resumem Get the Gringo, que também apela para o velho drama de um garotinho órfão esperto como “aliado” do protagonista. Nada, nesta história, inova. Você já viu a este filme antes – se não, literalmente, com todos estes elementos, mas com vários deles jogados aqui e ali. E apesar de tudo isto, Get the Gringo é um filme interessante. Principalmente pelo cinismo da história e pela interpretação de Gibson que, a cada novo filme, parece assumir ainda mais a sua vertente fora do convencional. Ele está louco? Possivelmente. Mas esta loucura que, muitas vezes, resume-se a uma forma diferente de tratar a carreira em Hollywood é, justamente, o que torna o ator digno de ser acompanhado. Filme sobre bandidos, Get the Gringo é absurdo, caricato e, apesar de tudo isso, estranhamente divertido. E, claro, recomendado apenas para quem gosta de Mel Gibson. Os demais devem odiar a produção. Até porque ela tem, realmente, muitas falhas. Mas quem se importa, quando há um astro que perdeu o manual de boas maneiras em cena?

Carnage – Deus da Carnificina

Todos são muito civilizados. Até que cada um começa a ser contratariado. Esta não é a história apenas dos personagens principais do ótimo Carnage. Mas de cada um de nós. Como lidamos com o contrário, com o diverso, com a quebra de nossas certezas, diz muito sobre quem somos. Este filme de atores, que ganha força pelo ótimo roteiro e pelo trabalho dos protagonistas, expõe as fragilidades, contradições e a violência domada pela sociedade que, volta e meia, vem à tona quando as pessoas perdem o controle e as barreiras da civilização. Altamente recomendado se você não tem problemas com um filme rodado, totalmente, em um ambiente, e que abre mão das cenas de ação para apostar em uma outra forma de cinema.

A HISTÓRIA: Um grupo de crianças conversa e brinca em um parque. Enquanto alguns meninos jogam bola uns para os outros, outros começam a caminhar, até que um garoto parece desagradar aos demais. Ele é empurrado, e também empurra. O garoto parece levar um galho antigo em uma das mãos, e o utiliza para bater em um desafeto, no rosto. Na saída, ele responde a outros garotos e derruba uma bicicleta. Corta. Uma mulher escreve, no computador, uma declaração sobre o que aconteceu. Ela é Penelope Longstreet (Jodie Foster), mãe do garoto que foi golpeado, e chamou os pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz) para uma espécie de “acordo amigável”. O que começa bem vai se transformando conforme Penelope e o marido, Michael (John C. Reilly) vão interagindo com Nancy e Alan.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Carnage): Eis um filme fascinante, que mostra como grandes atores interpretando um roteiro impecável podem entreter tanto ou mais que milhões investidos em efeitos especiais. Uma ode a ótimos intérpretes que retratam a ironia da nossa civilização, que gasta tanta energia para educar-se e ascender socialmente, mas que segue rastejando em sentimentos e reações de cólera e que nos lembram aos animais mais irracionais.

O diretor e roteirista Roman Polanski faz mais um grande trabalho aqui. Talvez, um dos melhores de sua carreira. Produção universal, e que não deverá perder valor com o tempo. Carnage é um roteiro do diretor, que contou com o trabalho do tradutor Michael Katims para reproduzir todas as peculariedades da peça Le Dieu du Carnage, escrita por Yasmina Reza. Imagino que no teatro, com grandes atores, este texto também provoque um grande impacto.

Muito bom ver Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly, grandes atores que já demonstraram, em mais de uma ocasião, os seus respectivos talentos, reunidos em um mesmo jogo de cena. A mudança que ocorre dentro daquelas quatro paredes da casa dos Longstreet, inicialmente “tão corretos”, “tão civilizados” e, especialmente, a alteração das expressões e dos comportamentos do casal vivido por Foster e Reilly é de arrepiar. E lembra a transformação que tantas outras pessoas passam em diferentes situações.

Há quem se transforme quando está em grupo – como na abertura do filme, quando vários garotos enfrentam um outro, que está sozinho, mas “armado”. Há quem mude quando sobe de posto, ganha poder e dinheiro. E há também os que se transformam na intimidade de seus lares, assumindo uma postura dominante e repressiva na família enquanto na rua esta pessoa utiliza a máscar do “bom/boa cidadão/ã”.

Mas as situações mais frequentes, talvez, sejam aquelas que envolvem a alteração da personalidade quando a pessoa é contrariada. Como diria um certo sábio, infelizmente há muitas certezas para poucas dúvidas neste mundo. E quanto mais as pessoas guardam as suas convicções e não dão espaço para a contrariedade, mais elas deixam aberta a porta para o confronto, a discórdia, a cólera e a violência.

Eis apenas algumas das reflexões que Carnage nos propicia. Mas há muitas outras, que podem ser retiradas desta história saborosa. Como as relações de poder entre homens e mulheres. A facilidade com que eles se unem contra elas, enquanto as mulheres parecem mais propensas a assumir suas brigas individualmente. O filme também demonstra como alta erudição – no caso de Penelope – ou alta posição social – especialmente no caso de Alan – não significam, necessariamente, boas maneiras, generosidade, altruísmo ou senso comum.

O mais irônico – e interessante – é a forma como o filme sugere que, no final, somos todos bárbaros. Uma fina crítica de Polanski para esse esforço medíocre da sociedade em ser civilizada e dar as costas para o “Deus da Carnificina” que parece acompanhar-nos desde as cavernas. Interessante que a perda de tempo com este “Deus”, que significa a ânsia de devorar o outro, essencialmente, e pela destruição, no fim das contas, segue nos cercando. Em ambientes corporativos, nas redações, nas universidades, nas escolas, em diversos ambientes em que há gente que prefere “rezar” e fazer promessas para este “Deus” do que para o outro, mais conhecido, que representa justamente o contrário – amor, doação, comprometimento, etc.

Interessante a sutileza do texto e do jogo de cena. Desde as leves ironias da “supercivilizada” Penelope, desde o início, e seu desejo de aparentar alguém comprometido com a casa e os visitantes – ao comprar, por exemplo, um buquê de tulipas importadas que custa US$ 20 – até o desejo incontido de Alan em dizer que tudo aquilo era uma grande besteira, porque as crianças não tem a noção de civilização e todos os compromissos que surgem daí como os adultos. No que, francamente, em parte, ele está certo. Quem não se lembra de quando era criança ou pré-adolescente de como não enxergava todas as sutilezas das relações de poder e as demais como agora, já adulto? O que não justifica, nunca, claro, atos de violência. Mas é de se pensar.

E falando em pensar… outra questão bem levantada por Carnage é que tipo de ensinamentos os pais estão repassando para os filhos atualmente. Que tipo de lógica torta ou de valores corretos estão sendo transmitidos? Preocupante o ambiente das duas famílias retratadas e que refletem muitas outras mundo afora. Interessante também como cada linha de diálogo e expressão dos atores demonstra pré-julgamentos que uns tens dos outros e suas reprovações contidas. Um belo retrato desta necessidade que muitos tem – a maioria mas, acredito, não a totalidade – de estar sempre julgando e hierarquizando aos demais.

E impressionante a forma com que um casal fica medindo o outro, tentando ver quem está mais “ferrado” para, desta forma, sentir-se melhor com os próprios problemas. O descontrole vai crescendo, até que todos lavam as suas próprias roupas sujas. Uma catarse que pode ser lida, quase, como terapia. E no final, a cereja no bolo: a sugestão que os jovens problemáticos resolveram seus problemas de forma muito mais simples do que os seus pais.

Mas para não dizer que tudo é perfeito em Carnage, há algumas situações um bocado irreais que acabam atrapalhando todo aquele “excesso de realidade”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como, por exemplo, os pais do garoto agressor, que estavam loucos para sair dali o mais rápido possível, terem aceitado tomar café e água e, depois, terem comido bolo e se enredado, cada vez mais, em um embate verborrágico com o outro casal.

Então alguém pode dizer: “Mas se fosse assim, tudo tão lógico e racional, não teríamos um filme, porque o casal não voltaria para o apartamento do outro tantas vezes”. De fato, não teríamos filme. O que seria péssimo, claro. Mas talvez a forma com que o “convencimento” foi feito poderia ter sido outra do que o oferecimento de uma simples xícara de expresso. Além do mais, uma vez, tudo bem. Mas duas? Se bem que, da segunda vez, o reticente Alan já estava querendo embarcar em uma sessão de desmascarar aquela Penelope tão perfeita… As razões para os retornos eu ahcei o único porém desta produção.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Meus bons leitores, minhas desculpas por ficar tanto tempo sem escrever. Eu assisti a Carnage há quatro ou três semanas mas, só agora, consegui sentar para escrever estas linhas. A verdade é que entrei, mais uma vez, naquela fase de muito trabalho… mas prometo tentar, a partir de agora, atualizar o blog pelo menos uma vez por semana.

Outra leve ironia de Polanski foi colocar um de seus filhos, Elvis Polanski, no “papel” de Zachary Cowan, o garoto agressor da história. O próprio Polanski tem uma história bastante controversa. Nascido na França, ele fugiu dos guetos de um campo de concentração, foi para os Estados Unidos, perdeu a mulher Sharon Tate, que estava grávida, assassinada por Charles Manson e “família” e, mais tarde, foi acusado e condenado por ter estuprado uma garota de 13 anos. Para não ser preso, ele fugiu dos Estados Unidos e voltou a morar na França, até que, em 2009, foi preso em Zurique.

Polanski ficou em prisão domiciliar, na Suíça, até que uma decisão da Justiça optou para que ele não fosse extraditado para os Estados Unidos.

E uma curiosidade sobre esta produção: a exemplo de Rope, de Alfred Hitchcock, Carnage também foi totalmente rodado em tempo real, de forma contínua e sem cortes. Diferente do clássico do mestre do suspense, Carnage só tem algumas cenas, as iniciais e finais, que transcorrem fora de um único ambiente – o apartamento e o corredor de acesso a ele.

Agora, uma curiosidade difícil de perceber: Polanski, a exemplo de Hitchcock, faz uma “ponta” no filme como o vizinho que olha pela porta entreaberta para ver o que está acontecendo no corredor, já que os atores estão falando alto. Curioso, no mínimo. O que reforça, também, como Carnage é uma homenagem de Polanski a Hitchcock.

A trilha sonora de Carnage está presente no início e no final. E mesmo que pouco presente, nela é possível ver o trabalho dinâmico e dramático do ótimo Alexandre Desplat.

Além da trilha sonora, importante destacar o belo trabalho do diretor de fotografia Pawel Edelman, que deu o tom exato para cada momento do filme – no parque e na casa – e a decoração de set de Franckie Diago. Precisos.

Carnage foi totalmente rodado na França, em dois estúdios, e na cidade de Paris – as cenas externas.

Este filme estreou no Festival de Veneza em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais. No Festival de Veneza, ele recebeu o Pequeno Leão de Ouro. Foi indicado, ainda, aos Globos de Ouro de Melhor Performance de Atriz em um Filme de Comédia ou Musical para Jodie Foster e Kate Winslet. Além daquele prêmio de Veneza, ele recebeu outros três: Melhor Elenco pela avaliação do prêmio da Boston Society of Film Critics; Melhor Roteiro Adaptado no prêmio do Cinema Writers Circle, da Espanha; e Melhor Roteiro Adaptado no prêmio César, da França.

Uma pena, mas este filme mal conseguiu pagar-se. Carnage teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais que isso nas bilheterias globais. Nos Estados Unidos, ele foi mal: conseguiu pouco mais de US$ 2,5 milhões. No restante dos países, mais US$ 25 milhões. No total, cerca de US$ 27,6 milhões, até o momento. Pouco. Mas dá para entender, pelo estilo de fime – não é o grande público que busca algo deste gênero. Infelizmente.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. É uma boa nota, para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram na mesma linha, dedicando 188 críticas positivas e 46 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,8.

Carnage é uma co-produção da França, Alemanha, Polônia e Espanha.

CONCLUSÃO: Este não é o primeiro filme que se passa em um único ambiente. Mas, sem dúvida, é um dos melhores. Diferente do clássico de Hitchcock, que aposta na tensão criada por um crime, Carnage investe na tensão do embate de argumentos e psicológico entre pessoas com olhares muito diferentes sobre boas maneiras. A própria civilização está em jogo naquela casa de pessoas, aparentemente, tão equilibradas e “compreensivas”. Pouco a pouco os quatro personagens vão mostrando as suas armas, ironias, hipocrisias. Quem descuidar e começar a preocupar-se mais em avaliar a pessoa próxima do que a si mesma, vai cair no embate. Na crítica, no confronto, na violência controlada por muitos anos de educação. Há muitas camadas de leitura deste filme. Só isso já o torna um artigo raro. Mais um excelente trabalho de Roman Polanski. E uma oportunidade única de ver ótimas interpretações de quatro grandes atores.

SUGESTÕES DE LEITORES: Demorei tanto para escrever sobre Carnage que o Mangabeira, um dos mais estimados leitores deste blog, foi mais rápido. 🙂 Mangabeira, tenho que citar a tua indicação, é claro. Tinha assistido ao filme antes de comentares, mas como não escrevi… está valendo a tua sugestão. O que é bacana, porque reforça ainda mais, para quem não assistiu, de que não sou a única que aprovou a produção. Muito obrigada, por mais esta dica. Como podes ver, eu também tinha adorado ao filme. Inteligente, irônico, com ótimas atuações e roteiro inspirador. Abraços e obrigada por sempre voltar aqui!