The Men Who Stare at Goats – Homens que Encaravam Cabras

Hollywood tem, basicamente, duas formas de encarar o Exército dos Estados Unidos: de maneira muito séria, quase como uma homenagem, ou através da paródia e da crítica satírica. The Men Who Stare at Goats explora o segundo segmento ainda que, por mais absurda que seja a história que está sendo contada, fica clara uma certa “preocupação” em respeitar os seus personagens. Por mais exagerados e caricatos que algumas vezes eles podem ser vistos, cada personagem da história tem suas motivações bem explicadas pelo roteiro. O elenco estelar é, sem dúvida, o principal chamariz do filme. E o produto final se mostra interessante, engraçado e questionador ao mesmo tempo, em uma das raras ocasiões em que um presidente, uma instituição e algumas guerras são satirizadas de forma tão evidente.

A HISTÓRIA: O general Dean Hopgood (Stephen Lang) olha para a frente de forma obstinada. Ele não pisca, e sua concentração lhe faz suar. O ano é 1983 e o local, o Forte Bragg, na Carolina do Norte. Hopgood avisa para outro militar que vai para a sala ao lado. Ele se levanta e sai correndo em direção à parede. Não conseguiu atravessá-la, como os homens liderados por Bill Django (Jeff Bridges) acreditavam ser capazes de fazer. Quem nos conta esta história, sobre os bastidores de algumas das ações mais inusitadas do Exército dos Estados Unidos, é o jornalista Bob Wilton (Ewan McGregor). Em 2002 ele entrevistou a Gus Lacey (Stephen Root) na cidade de Ann Arbor, no Michigan. O homem, um ex-militar, lhe contou histórias sobre visão remota e experimentos militares. Tempos depois, ao se encontrar com Lyn Cassady (George Clooney), Wilton investigaria sem querer as histórias contadas por Lacey e ficaria estarrecido com os “jedis” do Exército.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Men Who Stare at Goats): O primeiro chamariz deste filme, sem dúvida, é o seu elenco. A reunião de George Clooney, Jeff Bridges, Ewan McGregor, Kevin Spacey, entre outros, não é para qualquer um. No caso deste projeto, este grupo de astros foi atraído, mais que por outros elementos, pelo livro de Jon Ronson. O escritor e documentarista lançou o bestseller The Men Who Stare at Goats em 2004, revelando uma história perturbadora para o público dos Estados Unidos.

Em seu livro, Ronson investiga o uso de “técnicas sobrenaturais” por parte dos militares na chamada Guerra ao Terror, impulsionada por George W. Bush, e faz um levantamento sobre os investimentos nesta área na história do Exército. O livro deixa claro que conta “uma história real”, mas o filme não chega ao ponto de fazer esta afirmação. Apenas há uma frase no início dizendo que “há mais verdade nisso (na história) do que você poderia acreditar”. Fiquei curiosa para saber o quanto daquilo seria verdade – ainda que, pela forma com que o roteiro de Peter Straughan se desenvolve, parece que muito daquele absurdo pode ter realmente acontecido.

Procurei mais informações a respeito e achei este artigo de Sharon Weinberger, do Aol News, sobre a “realidade” por trás do filme (e do livro). Segundo o coronel aposentado do Exército John Alexander, que teria sido um personagem-chave do livro, boa parte da história contada por Jon Ronson é verdade. O que ele não concorda é com a idéia de que um militar tenha sido capaz de matar uma cabra apenas por encará-la, com a “força do pensamento”. Segundo Alexander, um militar realmente matou uma cabra, mas utilizando a técnica do “dim mak” (ou “toque mortal”, uma técnica de artes marciais).

O filme de Grant Heslov resume as histórias apresentadas por Ronson ao centrar-se na relação que acaba se desenvolvendo entre o jornalista Bob Wilton e o militar Lyn Cassady. Gostei muito do trabalho dos dois atores, mas gostei especialmente do desempenho de George Clooney. Seus olhares fixos e seus trejeitos convencem o espectador e imprimem um humor ajustado, impedindo que o filme caia diretamente na caricatura. Jeff Bridges também está muito à vontade em seu papel, mas Kevin Spacey acaba sendo eclipsado pelos demais.

The Men Who Stare at Goats é uma legítima comédia do absurdo. Impossível não dar risadas com a paranóia que cerca os militares retratados pelo filme. Sobram piadas para todos os lados, inclusive para o jornalista curioso e frustrado que comenta que só lhe restava uma alternativa: seguir os passos de tantos “homens na história” que tiveram os seus corações partidos por uma mulher e se mandar para a guerra. O filme deve ser encarado como uma comédia com algumas pitadas de crítica irônica, mas não como uma produção desrespeitosa com a “instituição” do Exército. Isso porque boa parte do que é mostrado no filme realmente aconteceu.

Segundo John Alexander, o Pentágono realmente criou um programa de investigação para “espiões psíquicos” que trabalhavam com o conceito de Visão Remota (mas aparentemente este programa nunca foi operacionalizado); idéias defendidas pelo Batalhão da Nova Era mostrado no filme realmente influenciaram pessoas importantes de vários círculos do Exército (ainda que um “batalhão” operacional como aquele nunca tenha realmente sido formado); e os militares e a própria CIA fizeram, de verdade, experimentos com LSD.

O ritmo do filme é condizente com o volume de informações da história. O roteiro de Peter Straughan se equilibra entre duas linhas narrativas: aquela que explora a trajetória do jornalista e sua relação com Lyn Cassady, e a outra que conta a história do projeto de Bill Django e os “frutos” de seu trabalho em desenvolver militares-Jedi habilitados com “superpoderes”. Alguns podem ficar incomodados com o “excesso de informações”, mas a verdade é que o filme exige aquela quantidade de diálogos e dados para contextualizar a história.

Com bom ritmo, um texto bem escrito e interpretações convincentes, é destas comédias sobre o Exército que valem pela curiosidade e reflexão que pode provocar. The Men Who Stare at Goats, contudo, não reinventa o gênero e nem se destaca entre as produções recentes envolvendo as incursões dos Estados Unidos no Oriente Médio – o país teria enviado “assassinos psíquicos” para aquela região com a missão de “caçar suspeitos do Al Qaeda”.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Men Who Stare at Goats pode servir como mais um bom exemplo de como a conturbada Guerra Fria resultou em programas tresloucados dos Exércitos dos Estados Unidos e da União Soviética. Segundo o personagem de Dean Hopgood, os russos haviam começado a desenvolver pesquisas sobre a aplicação da paranormalidade pelos militares porque eles acreditaram em uma “cortina de fumaça” lançada por franceses que sugeria que os estadunidenses haviam começado uma investigação similar.

Na época, a espionagem e a contra-espionagem muitas vezes assumia uma postura realmente paranóica, com uma “mania de perseguição” que fazia parte do jogo. E muitas vezes programas duvidosos e que nunca tiverem resultados realmente promissores ganhavam recursos e investimentos apenas pela preocupação de um dos países/sistemas não ficarem “defasados” na corrida armamentista e de técnicas militares. Hilário no caso dos “militares-Jedi”.

Antes que algum defensor da paranormalidade venha até aqui irado pelos comentários, quero deixar claro que não questiono a capacidade do ser humano em conseguir feitos incríveis através do pensamento ou de outras técnicas envolvendo energia e concentração. O que eu achei hilário no filme e o que ele “discute” é que uma instituição como o Exército possa investir pesado nisto sem ter qualquer exemplo prático de sua aplicabilidade para fins estratégicos. E que em uma era de “desespero” como foi a conclamada Guerra ao Terror impulsionada por George W. Bush programas antigos e sem grand eficácia acabaram sendo ressuscitados como um passe de mágica.

Existem controvérsias sobre os fatos retratados por Jon Ronson e refletidos no roteiro de Peter Straughan. Se militares como John Alexander afirmam que nenhuma cabra foi morta pela “força do pensamento” e sim por técnicas de artes marciais, outros afirmam que o experimento narrado no livro realmente aconteceu. Encontrei neste artigo informações curiosas do sargento Glenn Wheaton, no qual o personagem de Clooney teria sido inspirado. Para quem tem tempo, vale uma leitura – até como exemplo das “elocubrações” que parte do Exército chegou a fazer sobre o tema da paranormalidade.

Algumas idéias do 1º Batalhão da Terra, criado em 1979 pelo Exército dos Estados Unidos, acabou resultando em ações práticas posteriormente. Segundo o comentário da Publishers Weekly sobre o livro de Jon Ronson que pode ser consultada de forma resumida aqui, idéias daquele batalhão inspiraram técnicas de tortura como aquela que submetia prisioneiros da Guerra contra o Terror a 24 horas escutando a música I Love You do Dinossauro Barney. Outro produto originário daquele experimento militar foi o aparato chamado de Predator, capaz de infligir dores fortíssimas de diferentes maneiras – o “brinquedo de tortura” teria sido desenhado por Pete Brusso, mestre de artes marciais militares.

Antes de dirigir The Men Who Stare at Goats, Grant Heslov tinha uma experiência relativamente pequena como diretor. Seu currículo pesa muito mais como ator. Um curta dirigido e escrito por ele em 1998 lhe rendeu três prêmios e uma relação importante com o ator George Clooney. Depois de Waiting for Woody, Heslov dirigiu o longa Par 6 e o curta Tony. Sua trajetória atrás das câmeras acaba resultando em um trabalho correto, mas pouco inventivo, declaradamente voltado para destacar o trabalho dos atores.

The Men Who Stare at Goats estreou no Festival de Veneza em setembro de 2009. Depois, passou por outros 11 festivais em diferentes países – incluíndo os de Toronto e de Londres. A produção em si não venceu nenhum prêmio, mas indiretamente foi lembrada com a eleição de George Clooney como o “ator do ano” no Prêmio COFCA conferido pela Associação de Críticos de Cinema de Ohio Central.

Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu faturar US$ 32,4 milhões. Nada mal, especialmente se levarmos em conta o tema espinhoso e “pouco atrativo” da história – filmes sobre guerra andam em baixa no mercado norte-americano. Mas a bilheteria é justificada pelos astros em seu elenco.

Achei especialmente interessantes os momentos em que Ewan McGregor questiona a “capacidade Jedi” dos militares como Lyn Cassady. Quem lembra do ator nos novos filmes de George Lucas da saga Star Wars sentirá toda a carga cômica e irônica que alguns diálogos ditos por ele em The Men Who Stare at Goats podem despertar.

The Men Who Stare at Goats teve um desempenho mediano na opinião de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para a produção, enquanto que os críticos que tem textos linkados pelo Rotten Tomatoes dedicaram 97 críticas positivas e 86 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 53% e uma nota média de 5,7.

A maior parte dos críticos aclamados pelos leitores reprovou o filme. Kyle Smith, do New York Post, por exemplo, lembrou neste texto que o filme de Grant Heslov e seus atores foi inspirado em produções recentes, como The Informant! e Hot Rod. Smith também destaca as frases de McGregor sobre o poder da “Força” no âmbito dos miliares Jedi como um dos pontos fortes da produção. Ainda assim, o crítico bate duro no filme ao afirmar que o roteiro de Straughan jamais teria saído de uma gaveta se o texto não tivesse interessado a George Clooney e a seu amigo Grant Heslov. O principal pecado do filme, para Smith, é a sua falta de “significado” e, principalmente, a falta de concisão do texto de Straughan.

Neste texto, Ann Hornaday, do Washington Post, comenta que poucos prazeres “são tão cinematograficamente sublimes” como o de assistir George Clooney “em modo” Clark Gable como no filme The Men Who Stare at Goats. Depois de comentar a forma com que o ator se assemelha a um dos ícones do cinema estadunidense, Hornaday acaba criticando o filme ao classificá-lo como “frustrante” e raso. Mesmo elogiando inicialmente Clooney (para depois criticá-lo), Hornaday comenta que Jeff Bridges entrega, de longe, a interpretação mais envolvente e sincera da produção.

A crítica do Washington Post comenta ainda que Heslov mantêm o filme em um ritmo afável e amável, afirmando que a produção é “inteligente, picaresco, divertido”, com uma energia do gonzo de Hunter S. Thompson e Stanley Kubrick, mas sem a ferocidade e o “fogo” (intensidade) destes. Ela finaliza dizendo que The Men Who Stare at Goats tinha o conteúdo para ser brilhante, quando deveria ser afiado e sagaz ou, em suas palavras, tem o potencial para “rugir como um leão, mas acaba se mostrando prostrado como um cordeiro sob nossos pés”.

Para finalizar, cito este texto de Linda Barnard do The Star. Ela começa opinando que tanto o movimento da Nova Era quanto os militares dos Estados Unidos são igualmente cutucados com The Men Who Stare at Goats. Barnard também destaca a interpretação de Jeff Bridges entre os astros do filme. Concordo com ela quando Barnard afirma que a produção começa a perder força quando Lyn Cassady chega ao acampamento comandado por Larry Hooper. Realmente, ele perde um bocado de força e dá algumas deslizadas exageradas a partir deste momento.

A crítica também comenta que o diretor se sai melhor quando mantêm o seu forte elenco sob controle, o que ela afirma nem sempre acontecer neste filme. Ainda assim, Barnard afirma que o personagem de Hooper acaba salvando o final da produção em um momento em que ela está cambaleante.

Assistindo a Jeff Bridges e George Clooney neste filme entendi um pouco melhor o clima de “velhos amigos” que parece ter circundado os astros no último Oscar, quando os dois eram apontados como fortes concorrentes na categoria melhor ator – vencida, como a maioria deve saber, pelo primeiro.

CONCLUSÃO: Uma comédia que apresenta uma visão pouco ortodoxa sobre os investimentos do Exército dos Estados Unidos em um batalhão “paranormal” criado para ter efeitos decisivos e à distância. Com um elenco estelar, The Men Who Stare at Goats deve ser visto com bom humor e boa vontade. Carregado de ironia e informações, é um filme crítico e satírico ao mesmo tempo. Serve como passatempo, mas deve ser evitado pelas pessoas que esperam de um filme do gênero, essencialmente, “muita ação e pouco verbo”. O trabalho do diretor pouco experiente desperdiça um pouco a capacidade do material original, mas nem por isso o filme deixa de ser interessante. Ainda assim, lhe falta cuidado para se tornar uma produção acima da média. De qualquer forma, rende boas risadas e vale pela curiosidade de assistir a George Clooney e Jeff Bridges em um dueto inspirado.

Welcome – Bem-Vindo

Depois de assistir a um filme ruim, nada melhor do que ter o privilégio de conferir uma produção simplesmente brilhante. Welcome, um dos mais contundentes libelos ao amor, à liberdade, à fraternidade e ao espírito humano da superação que eu assisti nos últimos tempos, é destes filmes de encher os olhos e elevar o espírito. Certeza também de emoção. Lindo, impactante e ao mesmo tempo capaz de provocar reflexão e crítica, este filme comprova, mais uma vez, a sensibilidade e a qualidade do cinema francês.

A HISTÓRIA: Escutamos a transmissão de uma partida esportiva em uma residência de Londres no dia 13 de fevereiro de 2008. Um mulher cozinha e o telefone toca. Mirko (Murat Subasi) atende e escuta a voz de um amigo que há muito tempo não encontra, Bilal (Firat Ayverdi). Ele está ligando da cidade de Calais, na França, e gostaria de falar com a irmã de Mirko, Mina (Derya Ayverdi), por quem está apaixonado. Como Mina está na escola, Bilal pede para o amigo avisar-lhe que ele tentará chegar à Londres de navio no máximo até o dia seguinte. O rapaz de 17 anos nem sonha todas as dificuldades que terá para tentar entrar ilegalmente no Reino Unido. No final das contas a sua melhor alternativa, ele acredita, será a de aprender a nadar com o professor de natação Simon (Vincent Lindon) e atravessar o Canal da Mancha por sua conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Welcome): Impressionante como o talento de um diretor e de um quarteto de roteiristas pode transformar um assunto espinhoso e relativamente bastante debatido em um grande filme. Mais que isso, em uma produção que mais que tocar em temas de importância política e social, se converte em um manifesto ao amor, ao espírito humano da superação e da fraternidade.

Welcome é um filme que vai crescendo e se “complicando” pouco a pouco, como se deve. Inicialmente o espectador é apresentado a um rapaz simples que procura apenas falar com a garota de seus sonhos. Mas a realidade é muito mais complexa do que isso. Os roteiristas Philippe Lioret, Emmanuel Courcol e Olivier Adam, com a colaboração de Serge Frydman, vão desvelando gradativamente a história do protagonista. E logo, para dar ainda mais importância a esta história, ele dividirá a cena com outro personagem apaixonante e complexo.

Este é um filme em que todos os personagens são bem desenvolvidos e em que todos os atores conseguem belas interpretações, em um trabalho de entrega que apenas um grande diretor pode orquestrar. Mas, apesar disto, Welcome é uma produção que tem dois protagonistas: Bilal e Simon. O primeiro, vamos descobrir conforme ele se relaciona com o segundo, é um garoto de 17 anos do Curdistão que é considerado um craque do futebol em seu lugar de origem. Como outras pessoas de seu país, ele fugiu de seu território de origem por causa da guerra, para sobreviver, e também para conseguir dinheiro para ajudar sua família.

Mas sua vontade incansável de chegar até Londres tem uma razão muito mais específica: ele quer se casar com Mina, a irmã de um amigo que conheceu ainda no Curdistão. Ele demorou três meses, à pé, para sair do Iraque e chegar até Calais. Sua história fascina o professor de natação Simon que, por sua vez, também passa por um momento pessoal decisivo: ele está em vias de se separar oficialmente de sua mulher, Marion (Audrey Dana). O espectador é apresentado a estes fatos em pouco mais de meia hora de filme. Mas falemos um pouco sobre o que acontece antes.

Bilal, como dezenas de outros imigrantes ilegais na França, enfrenta o frio da noite para conseguir uma comida quente oferecida por voluntários perto do porto local. Não percebemos em um primeiro momento, mas Marion é uma das pessoas que faz esse trabalho voluntário. Em sua primeira noite na cidade, Bilal encontra a Zoran (Selim Akgul), um conhecido de Mossul, sua cidade natal. Sem demora sabemos, junto com o protagonista, que ele precisa pagar caro para um atravessador para deixar Calais e chegar ao Reino Unido.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com uma narrativa envolvente e uma direção precisa, acompanhamos a aventura angustiante e frustrada dos amigos para tentar mudar de país ilegalmente. Bilal acaba se dando realmente mal, inclusive sendo julgado pela côrte local. Logo assistimos a policiais sendo preconceituosos e, o pior, um juiz. Este é o primeiro grande choque – e crítica – sobre a forma com que os governos europeus vêem os imigrantes ilegais. Eles não devem ter direito a nada, nem ao estudo. Simplesmente não são bem-vindos.

Mas estas seriam apenas algumas de várias manifestações de preconceito e de exclusão social pura e simples vivida por Bilal e pelos outros imigrantes retratados no filme. Ainda assim, e isso é um dos fatores que torna Welcome tão especial, estas manifestações repugnantes e ultrajantes não servem como plataforma para discursos dos personagens. Apenas em um momento, e especificamente para dar profundidade à história – na verdade para demonstrar o abismo que separa a Simon e Marion -, é que a professora e voluntária solta um discurso rápido contra os preconceituosos e os omissos. Mas é algo rápido, totalmente justificado e coerente com o contexto do filme.

Em seguida, entra em cena Simon. Bilal o conhece em uma piscina de Calais aonde ele dá aulas de natação para pessoas de diferentes idades. O jovem curdo não sabe nadar e procura Simon para que ele lhe ensine. Inicialmente, como ocorre com 99% dos franceses, Simon insiste em falar em seu idioma para responder a perguntas feitas em inglês. Mas logo a “resistência” ao estrangeiro cede para dar-lhe informações. Começa, naquele dia, uma aproximação comovente entre homens de idades e realidades muito diferentes.

Uma das grandes qualidades do roteiro de Welcome é que ele vai adentrando na complexidade e na história dos personagens de forma natural – algo que não é prática corrente em Hollywood, por exemplo. Assim, quando Bilal explica para Zoran o porquê de não ter aguentado o saco na cabeça, não sentimos aquilo como um discurso com caráter artificial ou colocado ali para “comover” simplesmente. Quando ele conta que os soldados turcos lhe capturaram em sua saída do Iraque, percebemos a gravidade da situação e nos sentimos contextualizados em sua história, mas sem o caráter pedante de tantos outros filmes “simplórios”. E isto ocorre muitas vezes em Welcome.

Ainda que os temas da perseguição contra os curdos, os conflitos envolvendo povos perseguidos e a crítica política ao tratamento dos imigrantes ilegais na Europa (e em outros países) joguem papéis importantes no filme, eles são apenas o pano de fundo desta produção. O núcleo central da narrativa passa por questões muito mais profundas envolvendo a capacidade humana da superação e a de vivenciar a empatia.

Foi um grande achado do diretor e roteirista Philippe Lioret e de seus colaboradores o paralelo entre as histórias de Simon e Bilal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos pontos que mais me tocou na história foi a forma com que o professor de natação enxergou no jovem enamorado a sua própria chance de redenção. Depois de vivenciar a “derrota” de sua história de amor, Simon buscou ajudar de todas as formas o garoto lutador que não nasceu, como ele, em um país livre e democrático, onde uma pessoa é capaz de se desenvolver plenamente.

Linda e emocionante a relação que acaba se desenvolvendo entre os dois personagens. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Simon adota o rapaz como um filho e procura contribuir para que ele se realize de uma forma que ele não conseguiu. Se junta no complexo personagem do professor uma série de frustrações e a vontade de demonstrar, especialmente para Marion – e para ele próprio -, que sempre é possível dar uma guinada real em nossas vidas e atuar realmente para mudar a vida de pelo menos uma pessoa. Devemos somar a isso a admiração que Simon acaba sentindo por Bilal e, volto a dizer, a projeção que ele faz no rapaz para uma vida que ele não conseguiu realizar.

Bilal, por sua vez, é um garoto obstinado. Nenhum problema ou dificuldade parece ser capaz de fazê-lo esmorecer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Seu espírito livre não acredita nas previsões da maioria de que é impossível atravessar o Canal da Mancha. Uma das cenas mais comoventes, para mim, é de suas primeiras braçadas na piscina quando Simon está lhe ministrando a primeira aula de natação. Naquele momento eu percebi a entrega do jovem Firat Ayverdi para o papel. E a obstinação do personagem em conseguir o seu objetivo se mantêm firme e vai emocionar o espectador muitas vezes ainda.

Não existe espaço para dúvidas na mente e no coração de Bilal. Algo muito diferente acontece com Simon. Esta diferença entre eles é interessante porque mostra como pessoas que passaram por situações-limite, como pode ser uma guerra ou uma perseguição política, são muito mais capazes de ter claro seus propósitos e conseguirem se superar. Bilal acaba inspirando Simon em um momento em que ele estava se sentindo em conflito. Como em qualquer encontro profundo, os dois personagens se modificam um pouco em sua interação.

Marion serve de termômetro da história. Especialmente na medida em que revela sua perplexidade frente às mudanças de atitude de Simon. Aqui, o filme faz uma interessante reflexão. (SPOILER – não leia este e o próximo parágrafo se você não assistiu ao filme). Afinal, até que ponto as pessoas estão realmente interessadas em mudar as suas vidas e/ou se entregarem para ajudar alguém necessitado? Simon era o omisso e Marion a corajosa, até o momento em que ele começa a se envolver de maneira muito mais radical que ela e atua, verdadeiramente, para ajudar uma pessoa.

Welcome segue mostrando manifestações de incompreensão e preconceito, a ponto de alguns inclusive insinuarem que o professor poderia estar “explorando” sexualmente o jovem curdo em troca de proteção e ajuda. E como este é um filme francês e não estadunidense – para nossa sorte -, não existe a preocupação em desfechos “felizes” ou irreais. De arrepiar o momento em que o título da produção se justifica – na imagem simbólica do tapete do vizinho preconceituoso que manifesta, ironicamente, a forma de “recepção” dos imigrantes ilegais no país. Assim como verdadeiro, legítimo e emocionante o desfecho da história. Um filme perfeito, sensível e imprescindível.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para um filme ser “perfeito”, para mim, ele deve ter todos os seus diversos elementos funcionando como um relógio, sem descompassos ou desperdícios. Para isso, é preciso um grande roteiro, uma direção perfeita, atuações convincentes, aspectos técnicos como direção de fotografia e trilha sonora condizentes com a história e sua narrativa. Tudo isso (e o restante) funcina com perfeição em Welcome. Destaco, da parte técnica, a trilha sonora maravilhosa de Nicola Piovani e Wojciech Kilar. Delicada, clássica e baseada essencialmente no piano, a trilha do compositor acaba sendo fundamental para a história, criando o clima adequado para cada sequência. Também gostei muito da direção de fotografia de Laurent Dailland.

Como comentei na crítica do filme, Welcome aborda um tema que sempre rende debate (e por mesmo é tão interessante): afinal, o que é mais importante, mudar a vida de uma pessoa ou influenciar a de 100? Esta questão filosófica, na verdade, não tem uma resposta certa ou uma errada. E isso eu descobri com o passar do tempo. Quando comecei a me questionar a respeito e a questionar também pessoas de quem eu gosto, achei que era muito mais importante atuar definitivamente mudando a vida de uma pessoa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como faz Simon em relação à Bilal no filme. Se o professor de natação não tivesse agido como agiu, a realidade de Bilal teria sido outra. Sempre achei que esta ação de auxílio decisivo era mais importante do que a de “influenciar” as pessoas. Mas na verdade acho que isso é apenas uma forma de atuar que compete a cada um. O importante mesmo é que busquemos ajudar no sentido de uma mudança social positiva, seja diretamente sobre a vida de um sujeito ou indiretamente.

Welcome estreou no Festival de Berlim em fevereiro de 2009. De lá para cá, o filme francês participou de pelo menos outros 12 festivais, incluindo o Karlovy Vary, o de Viena e de Dubai. No Brasil, ele estrou nos cinemas em julho do ano passado – depois foi lançado em DVD.

Em sua trajetória pelos festivais e por distintas premiações, Welcome foi conquistando alguns prêmios importantes. Até o momento, ele levou sete para casa – além de ter sido indicado a outros 10. O filme me chamou a atenção por ter se consagrado como o melhor do ano no Prêmio Lumière – um dos principais da França. O diretor Philippe Lioret ainda ganhou o prêmio da audiência no Festival Internacional de Cinema de Warsaw; e o filme levou o prêmio de melhor roteiro e um prêmio especial do júri juvenil no Festival Internacional de Cinema de Gijón. No Festival de Berlim, Welcome conseguiu dois prêmios “secundários” – o Label Europa Cinemas e o prêmio do júri ecumênimo na subcategoria Panorama. Além disso, é muito significativo o fato que a produção concorreu em 10 categorias do Prêmio César deste ano – mas, infelizmente, não ganhou em nenhuma.

Para os interessados em saber mais detalhes do filme, recomendo o site oficial da produção – em francês – que, entre outros “extras”, tem um making off bem interessante de Welcome, assim como a ficha completa da produção.

Os usuários do site IMDb deram uma nota boa para Welcome: 7,7. Mas os críticos foram mais contundentes na aprovação que deram para o filme. O site Rotten Tomatoes abriga 12 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92%.

Entre as críticas positivas, destaco esta publicada pela revista Empire. O texto, que não é assinado, dá o veredicto de que Welcome é “realista no tom”, mas um pouco “melodramático” na essência. O texto afirma ainda que este é um filme “atraente”, especialmente por causa das atuações do elenco. A crítica Wendy Ide, do Times Online, escreveu aqui que, ainda que Welcome trate de um tema bastante explorado por outros diretores, sua história “traz um novo ângulo” da realidade. Ela define Welcome como uma produção de “compaixão e humanidade” e afirma que, enquanto ela não cai no clichê, se destaca pela interpretação dos dois protagonistas.

Como as críticas são bastante curtas, vou citar outras fontes. 😉 Xan Brooks, do The Guardian, classificou neste texto Welcome como um “conto sincero ambientado em uma Calais moderna”. Para o crítico, o que mantêm o filme sobre a superfície são as performances afiadas dos seus atores juntamente com um “pungente docu-retrato” da vida junto ao cais e aos estaleiros. Para finalizar, cito este texto de Allan Hunter do Daily Express. O crítico também destaca a capacidade envolvente do filme, o ótimo desempenho de seus intérpretes e um “ataque efetivo” contra a hostilidade da França a respeito dos imigrantes em suas cidades.

Não sei vocês, mas eu fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre a realidade no Curdistão. Para os interessados, achei este texto da Wikipédia a respeito do país. Descobri, consultando este material, que o Curdistão é uma região de 500 mil quilômetros quadrados distribuída entre a Turquia, o Iraque, a Síria, a Armênia e o Azerbeijão. Segundo o texto, atualmente os curdos são a mais numerosa “etnia sem Estado no mundo” – eles são aproximadamente 26 milhões de pessoas. Mossul, a cidade originária do personagem de Bilal, é uma das maiores do Curdistão. Recomendo ainda este texto da Aventuras na História sobre os conflitos envolvendo os curdos – incluindo genocídios e uma luta por independência que parece não ter fim – e este outro, de autoria de Ana Isabel Mineiro, publicada no blog Alma de Viajante. Muito interessante, ambos. Recomendo.

Sobre a travessia do Canal da Mancha encontrei este texto bastante esclarecedor publicado no blog Viagens & Imagens. Descobri, através dele, que realmente o trecho mais curto para a travessia do Canal é feito através das cidades de Calais (na França) e Dover (no Reino Unido). A extensão que separa pelo mar estas duas cidades é a de 30 quilômetros. Segundo o mesmo texto, a primeira travessia à nado deste trecho foi feita em 1875.

Curioso que Welcome acabou virando um “acontecimento social” na França. Segundo esta matéria do Estadão, o filme de Philippe Lioret criou um debate tão grande em seu país de origem que acabou provocando revisões políticas. A história motivou um pronunciamento do Ministro da Imigração, Eric Besson, e uma resposta por escrito, publicada no jornal Le Monde, pelo cineasta. O Partido Socialista, por sua vez, redigiu um projeto de lei batizado de Welcome com o objetivo de derrubar o chamado “delito da solidariedade”. Este “delito” prevê que franceses que ajudarem e/ou abrigarem imigrantes ilegais sejam multados em 30 mil euros e presos por um período de até cinco anos. Curioso como o cinema pode, algumas vezes, ajudar no processo de mudanças sociais – ou, pelo menos, criar debates importantes.

CONCLUSÃO: Um filme essencialmente humanista sobre um rapaz obcecado por se encontrar com a garota da sua vida. Mas longe de ser uma história “feliz da Disney”, Welcome é um drama denso e realista que se debruça em questões políticas e sociais. Em seu caldeirão de referências entra em cena preconceitos étnicos, perseguições políticas e uma política de imigração cruel pelo lado político. Pelo lado “humanitário”, o filme explora questões como fraternidade, amizade, capacidade de superação e empatia. Uma história filmada com muito esmero e cuidado pelo diretor Philippe Lioret – um dos responsáveis também pelo roteiro – e com atuações deslumbrantes, perfeitas. Emocionante, crítico e inspirador ao mesmo tempo, é destas produções arrepiantes que lançam um novo olhar sobre uma questão um tanto “batida”. Vale a pena especialmente por seu caráter humanista e reflexivo.

The Book of Eli – O Livro de Eli

Para alguns filmes seria perfeito se não existissem histórias similares que os precedessem. Este é o caso de The Book of Eli, uma produção instigante visualmente que sofre com o fato de terem sido lançadas, anteriormente, produções como as de Mad Max, Children of Men, Planet of the Apes (o original), entre outras. Perto delas, The Book of Eli se revela uma tentativa frustrada de reativar um gênero ao explorar uma história simplista e um bocado vazia. As intenções do filme até podem ser boas, e conta a seu favor um elenco com grandes atores, mas nada disso salva The Book of Eli de ser comparado com filmes com qualidade muito superior.

A HISTÓRIA: Folhas secas caem interminantemente enquanto a câmera percorre um cenário composto por um revólver, um morto e um animal selvagem que se aproxima. A certa distância, um homem imóvel com uma máscara se prepara para atirar uma flecha mortífera. Este mesmo homem caminha por cenários pós-apocalípticos acumulando objetos que podem ser trocados por artigos difíceis de serem encontrados, como água. Eli (Denzel Washington) se acostumou a viver sozinho e de forma errante, caminhando sempre para o Oeste. Ele acredita ter uma missão e, em seu caminho, conhecerá um homem determinado a encontrar um livro raro, o ambicioso Carnegie (Gary Oldman). Por acaso, tal livro está no poder de Eli, que se recusa a entregá-lo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Book of Eli): Certos filmes devem funcionar apenas para espectadores um tanto “desavisados”. Ou, em outras palavras, para aqueles que deixaram de assistir a filmes importantes. The Book of Eli é tão raso, fraco e cheio de referências mal empregadas que só mesmo quem perdeu várias produções anteriores para achá-lo algo criativo ou interessante.

Para começar, a sequência inicial do filme me fez lembrar, ao mesmo tempo, Antichrist e Nochnoy Dozor (ou mesmo The Matrix). O primeiro, pela sugestão do mal em uma floresta que parece ter saído de um sonho; o segundo/terceiro pela inevitável referência ao uso de câmera em slow motion para dar maior “plasticidade” a uma ação. Depois, quando Eli começa a andar por cenários de destruição, foi inevitável não lembrar dos bons tempos de Mad Max. O curioso é que todas estas referências poderiam ser desconsideradas com o tempo, na medida em que o filme com roteiro de Gary Whitta se mostrasse interessante e “sobrepusesse” todas as referências citadas. O problema de The Book of Eli é que isto não acontece.

A narrativa inicial mostrando nosso “herói solitário” é longa demais, para início da nossa conversa. Mesmo o momento “lírico” (e aqui estou sendo irônica) que lembra o filme Wall-E, em que Eli escuta uma música de “corações partidos”, não surte o efeito desejado. Ao invés de emocionar ou colocar o espectador em um clima propício para a história, ele parece apenas preencher um vazio narrativo. Mas ok, até o primeiro momento realmente Mad Max do filme você ainda espera que ele seja interessante. Afinal, a direção de fotografia de Don Burgess é maravilhosa e temos Denzel Washington no elenco! Normalmente isso significa algo.

O filme então passa por aquele momento de lutas encenadas – até que bem feitas e visualmente perfeitas – e de uma certa “reflexão” (mesmo?) sobre o “homem como lobo do homem”. Certo, as pessoas que sobraram após a destruição em massa da Humanidade são indivíduos desesperados, cheios de cobiça e com fome de sobrevivência. Mas isso tantos filmes já haviam mostrado… qual seria então a novidade de The Book of Eli? Logo mais falaremos disto. Antes, há uma cena que demonstra que o “herói” do filme não é nenhum kamikaze. Ele também está ocupado, basicamente, em sua sobrevivência – e não em salvar todo e qualquer pobre coitado em vias de ser massacrado.

Quando chega em uma cidadezinha em meio ao nada, Eli se encontra com um comerciante desconfiado – o sempre ótimo Tom Waits -, com o qual quer negociar a carga de um alimentador Phantom. Enquanto espera pelo serviço, Eli frequenta um bar aonde pede água (para levar) e acaba enfrentando Martz (Evan Jones), o líder de um bando de mercenários que seguem ordens de Carnegie (aqui alguém pode lembrar de Kill Bill). Agora sim, o filme coloca frente à frente o “bandidão” e o “herói” de sua história.

(SPOILER – não leia este e os próximos parágrafso se você não assistiu ao filme). Curioso que o “bandidão” Carnegie, que não pensa duas vezes em mandar um bando de mercenários para conseguir livros à qualquer custo por aí, atue de forma tão “educada” e precavida com Eli. Primeiro, ele oferece sua “hospitalidade” para que o forasteiro passe uma noite em sua casa, recebendo a visita educada de sua mulher, Claudia (Jennifer Beals), e depois da filha dela, Solara (Mila Kunis). A primeira oferece apenas comida para o forasteiro; a segunda, o próprio corpo.

Mesmo que o “bandidão” não quisesse mais um morto em sua casa aparentemente sem motivos, fica evidente que seu objeto de desejo supremo está nas mãos de Eli quando Solara explica como era o livro que ela viu entre seus pertences. E ao invés de matar o protagonista de maneira cruel e sorrateira, Carnegie lhe dá a oportunidade de escapar. Além do ritmo lento do filme até este momento – lento demais, diga-se -, esta falta de coerência no roteiro acaba incomodando. Sem contar toda a falta de criatividade na forma de narrar os acontecimentos até então – volto a dizer, nada que filmes anteriores já não tivessem mostrado, e melhor.

Mas ok, vamos mostrar um pouco de boa vontade e esperar para que Gary Whitta nos revele o “grande achado” de The Book of Eli. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com muita paciência para aguentar o filme até aqui, não demora muito para entendermos que tudo gira em torno da Bíblia Sagrada. Ela teria sido acusada por provocar a tragédia que dizimou grande parte da Humanidade e, por isso, foi proibida e destruída em fogueiras que retorceram os tempos da Inquisição. Mas Eli foi “chamado” para preservar uma destas Bíblias. Ele ouviu uma voz que disse que ele deveria preservá-la e encaminhá-la para um lugar em que a obra fosse importante. Para conseguir isso, ele seria “protegido”.

Claro que em certo momento esta crença de Eli é colocada à prova. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E daí, para não dizer que o filme é um total desperdício, The Book of Eli faz um questionamento interessante: afinal, tudo aquilo que o protagonista acreditava era verdadeiro ou apenas uma “ilusão” de um homem que precisava se apegar em algo para continuar vivendo? Afinal, ele realmente tinha uma missão, um propósito, ou tudo aquilo não passava de um delírio? Pena que estes questionamentos são rapidamente respondidos pela interferência de Solara e o desfecho da história.

No fim das contas, The Book of Eli é apenas uma história sobre o poder da Bíblia – para o bem e para o mal. O filme dirigido pelos irmãos Albert e Allen Hughes mostra como este livro pode ser utilizado para unir ou destruir civilizações. Algo que já foi feito tantas vezes e de tantas formas na história da Humanidade que eu me pergunto para quê realmente projetar esta realidade para um cenário pós-apocalíptico. Ok, sempre existiram “defensores honrados” da Bíblia e pessoas que tentaram utilizá-la para benefício próprio. Então qual é mesmo o propósito do filme? Ah sim, contar uma história óbvia, sem nenhuma invenção, criatividade e que nos faz lembrar de tantos filmes melhores. Uma pena, realmente.

NOTA: 5,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Honestamente, se fosse avaliar apenas o roteiro deste filme, ele certamente ganharia uma nota ainda mais baixa. Mas não consigo desprezar a belíssima direção de fotografia e o trabalho do sempre adequado Denzel Washington. Estes dois pontos são os melhores do filme – e possivelmente o que lhe salva do total fracasso. Ainda assim, é pouco para fazer com que ele possa valer o ingresso. A direção dos Hughes tem alguns acertos, ainda que muitas vezes a insistência deles em sequências em câmera lenta me fizeram lembrar, basicamente, de cenas de comerciais – especialmente aquelas que mostram Eli e Solara caminhando pela estrada com seus óculos indefectíveis. 😉

Mesmo em um filme ruim, Denzel Washington consegue segurar o seu papel com dignidade. Aqui, mais uma vez, ele faz um bom trabalho. Gostei também da presença de Mila Kunis. Gary Oldman, coitado, está mais uma vez caricato – acho que ele, como outros veteranos de Hollywood, anda com preguiça de mostrar seu melhor trabalho e/ou está tendo azar de ser “premiado” apenas com papéis ruins. Fiquei com dó também de Jennifer Beals, subutilizada na história.

Além dos atores citados, outro que tem um certo papel de destaque nesta produção é o ator Ray Stevenson. Ele interpreta a Redridge, o “braço direito” do bandidão Carnegie. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com ele, mais uma vez, o filme cai no pecado de um argumento que não convence. Afinal, se ele era “apaixonado” por Solara, porque esperou justamente que ela fugisse para pedí-la como moeda de troca para Carnegie? Não era muito mais fácil ter conseguido ela antes? Por mais que Claudia protegesse a filha, Redridge já poderia ter algum caso com a garota. Sem contar que parece forçado o interesse dele por Solara – o filme não mostrou nenhum cortejo ou aproximação deles antes. Errinhos de narrativa que acabam incomodando. Faz uma ponta em The Book of Eli ainda Chris Browning como o líder dos ladrões rapidamente dizimados por Eli no início do filme.

Ah sim, ia esquecendo uma parte “engraçada” da história. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O momento do  “comer miolos” que qualquer filme de terror (? e esse é um filme de terror?) pede. Achei totalmente hilária a inserção dos “desprezíveis” canibais interpretados pelo simpático casal George (Michael Gambon) e Martha (Frances de la Tour) no filme. Provavelmente o roteirista quis criar um momento de “suspense e tensão” em The Book of Eli mas, francamente, como os demais, me pareceu apenas artificial e sem eficácia.

Descontados todos esses “probleminhas” do filme, tenho que admitir que ele tem alguns toques irônicos bacanas e curiosos. Como por exemplo a inserção de The Da Vinci Code e do Oxford American Dictionary entre os livros desprezados por Carnegie; ou a citação de Johnny Cash por Eli em um momento em que ele tenta explicar “a força que lhe faz seguir adiante”. Muito bom! 😉 Uma das únicas ironias genuínas do filme. Além disso, The Book of Eli “homenageia” outras produções ao expor seus cartazes em algumas cenas. Entre os pôsteres que aparecem estão o de A Clockwork Orange, Baby Doll e Hell’s Angel.

Certamente algumas pessoas vão ficar com certas dúvidas com o final de The Book of Eli. Tentarei esclarecê-las. 🙂 (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Claudia sabia ler em braille, mas ela se “vingou” de Carnegie ao reafirmar a sua “ignorância”/esquecimento (ignorância que o “vilão” tinha como fato em relação à mulher para poder subjugá-la). Depois, Eli não era cego. Como eu sei disso? Além do fato dele olhar em direção ao Sol sempre com óculos escuros, porque todas as vezes em que conseguimos ver seus olhos dá para perceber que eles não são olhos de um homem cego. Comento estes dois pontos porque acredito que algumas pessoas poderiam ter ficado em dúvida.

ATUALIZAÇÃO (26/03): Resolvi acrescentar este parágrafo porque notei que muitas pessoas se prenderam ao detalhe de se o personagem de Eli era cego ou não. Como respondi rapidamente nos comentários abaixo, acho essa pergunta sem importância para o filme. No fundo, é uma questão secundária, porque o centro da história e seus problemas são outros. Mas como a questão apareceu repetidas vezes, ali embaixo, resolvi buscar uma resposta mais concreta. E encontrei esta entrevista com o ator Denzel Washington. Ele também afirma que nunca responde se o personagem é cego ou não porque esta é uma questão que não é importante (bingo! eu também acho). Ainda assim, ele sugere que Eli não era cego e que por provicência Divina ele teria aprendido a ler em braille. Algo que eu também desconfiava, porque com isso sua história acaba sendo ainda mais “milagrosa”…

Em outra entrevista, achei engraçado quando o ator comenta sobre as pessoas que buscam “pequenas pistas” durante a história para defender a teoria de que ele é cego ou a de que ele não – recomendo a leitura. Ficou engraçado! Ah sim, e ele volta a afirmar que nem ele próprio, que deu vida ao personagem, pode responder com certeza se ele era cego ou não. Em outras palavras, cada um acredita no que quiser. Eu continuo achando que ele não era cego e que aprendeu o braille por outras razões – talvez até por “providência Divina”.

Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho de Cindy Mollo na edição; o design de produção de Gae S. Buckley; a direção de arte de Christopher Burian-Mohr e o desempenho do trio Atticus Ross, Leopold Ross e Claudia Sarne com a trilha sonora. Todos trabalhos corretos, ainda que nenhum deles excepcional.

The Book of Eli consumiu importantes US$ 80 milhões. Mas para a sorte de seus produtores, o filme conseguiu pelo menos cobrir os seus gastos, arrecadando pouco mais de US$ 93,4 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos até o dia 7 de março. Nada mal – especialmente pela qualidade do roteiro do filme.

As locações de The Book of Eli foram variadas. A equipe filmou em lugares emblemáticos como a desativada Prisão de Alcatraz, na Califórnia; até em diferentes cidades do Novo México que serviram de pano-de-fundo para os terrenos “desolados” e amplos mostrados pela história.

A atriz sensação do momento, Kristen Stewart, teve que recusar o papel que acabou sendo encarnado por Mila Kunis porque The Book of Eli entraria em conflito com as filmagens de New Moon. Sorte dela!

Outra curiosidade: os produtores fizeram questão de revelar que o ator Denzel Washington encenou realmente todas as cenas de luta do filme. Para isso, ele teria estudado técnicas marciais com o pupilo do lendário Bruce Lee, Dan Inosanto.

Como não poderia deixar de ser, existe um significado para a escolha do nome de Eli para o protagonista. Segundo as notas de produção do filme, em árabe, hebraico e aramaico, o nome Eli pode ser empregado como uma variedade do nome de Deus. O sufixo “i” indicaria o pronome possessivo da primeira pessoa no singular, ou seja, “meu El” ou “meu Deus”.

The Book of Eli conseguiu uma avaliação positiva entre o público. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,1 para a produção. Os críticos de cinema, por sua vez, foram menos eufóricos. O site Rotten Tomatoes lista links para 85 críticas negativas e para 71 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 46% (com nota média de 5,3). Nem preciso dizer que estou do lado dos críticos, não é mesmo? 😉 (mas isso não é sempre).

Não vou citar muitos críticos desta vez. Quero apenas divulgar rapidamente os textos de Rick Groen, do Globe and Mail, e o de Peter Howell do Toronto Star. O primeiro começa seu texto da seguinte forma: “Realmente, este é apenas mais um conto de profeta-no-deserto – não tão ruim quanto os trailers podem sugerir, mas também sem nenhum risco de sua alma ser iluminada”. Groen comenta que a história se passa 31 anos depois “do Flash” apocalíptico que dizimou grande parte da Humanidade. O crítico recomenda que o espectador coloque seu “cérebro em espera” porque, assim, será mais “fácil apreciar a ação cheia de sermões que está prestes a vir”. hahahahaha. Adorei!

Gostei do texto irônico de Groen. Bastante acertado para o filme. O crítico afirma, por exemplo, que o espectador deve seguir a “marcha do soldado cristão” chamado Eli até o momento em que o roteiro exige um problema em “grande escala”, como aqueles vistos nos filmes-B de western que The Book of Eli começa a imitar. 😉 Groen ainda afirma que fica difícil convencer com as referências bíblicas inseridas em meio à matança de forma humorada e com levada pop depois do trabalho de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction. E ele está certo.

O crítico Peter Howell, por sua vez, escreveu em seu texto que se The Book of Eli tivesse sido lançado um ano antes, ele poderia até ser encarado como uma sátira da troca de poder em Washington (com Denzel fazendo o papel do democrata e Oldman o do republicano). Mas ao invés disso, ele não passa de uma oportunidade perdida. “Este Livro não ensina, inspira ou diverte”, resumiu. Depois, quando fala das ações sem sentido de Carnegie, Howell define o roteiro do novato Gary Whitta como “idiota”, simplesmente porque ele é negligente com os detalhes. Eu não poderia estar mais de acordo.

Howell lamenta que os diretores do anterior From Hell tenham desperdiçado a chance de fazer um The Book of Eli mais crível. Achei cômico quando ele comenta que o protagonista deve ter errado muito seu caminho para, depois de viajar por 30 anos, ainda não ter chegado ao seu destino – ele cita como exemplo o novo confronto de Eli com bandidos que el já havia enfrentado. hahahahahahaha. Howell ainda ironiza o fato de Carnegie mandar queimar um exemplar de The Da Vinci Code e uma revista da Oprah: “Todo mundo é um crítico, mesmo no fim do mundo”.

Uma última recomendação: se você ficou fascinado(a) com a direção de fotografia deste filme, recomendo que assistas a Uç Maymun (ou Three Monkeys, seu título para o mercado internacional, comentado aqui no blog). Eis aí um filme com uma direção de fotografia similar, de alta qualidade, e que além disso tem um roteiro e umas atuações exemplares. Muito melhor que este The Book of Eli.

CONCLUSÃO: Típico exemplo de um filme com grande potencial que acaba se mostrando, no final, muito abaixo do que poderia ter sido. The Book of Eli serve mais como lembrete de filmes marcantes do que como um resgate do gênero de filmes de ação ambientados em cenários pós-apocalípticos. Lento e arrastado em muitos momentos, o filme conta com um roteiro fraco que tenta fazer alguma reflexão sobre o “poder” da Bíblia para os propósitos da Humanidade, mas sem sucesso. A direção dos irmãos Albert e Allen Hughes tem alguns acertos, mas no geral se mostra nada inventiva – na verdade, eles parecem fazer um “apanhado geral” da obra de outros cineastas. O melhor do filme, sem dúvida, é a sua direção de fotografia e o trabalho seguro do sempre excelente Denzel Washington. Ainda assim, francamente, é difícil dizer que ele vale o dinheiro do ingresso. Recomendo outros filmes do gênero, como Mad Max, Planet of Apes, entre outros citados na crítica.

Gigante

Uma história de amor inusitada contada de forma inteligente e cheia de sutilezas. Gigante, filme uruguaio co-produzido por outros três países que encantou os críticos do Festival de Berlim do ano passado, é um grande trabalho de seu diretor e roteirista Adrián Biniez. A produção reforça o talento dos realizadores latinos ao transformar uma história bastante simples e singela em uma produção divertida, tensa e emocionante ao mesmo tempo. Um filme perfeito, que dá espaço para o desenvolvimento de seus personagens principais e trabalha a história em um ritmo particular muito marcante.

A HISTÓRIA: Uma figura grandalhona escuta rock pesado no ônibus a caminho do trabalho. Ele consulta o relógio para se certificar que chegará a tempo para começar seu turno de vigia no supermercado as 23h. Jarra, conhecido também como Jarita (Horacio Camandule) cumprimenta Omar (Diego Artucio), um dos outros funcionários responsáveis pela segurança do local e segue sério para seu posto de trabalho. Todos os dias ele acompanha pelas câmeras de segurança os mesmos movimentos do pessoal de limpeza, repositores, funcionários da padaria e do açougue. Até que um dia ele fica encantado por uma funcionária em especial, Julia (Leonor Svarcas). A partir deste dia, ele começa a seguí-la e a viver parte de sua rotina, enquanto toma coragem para se aproximar da garota.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gigante): Há quem acredite que um filme inteligente precisa ter grandes “sacadas” ou reviravoltas marcantes que deixem os queixos dos espectadores caídos. Mas uma produção pode ser inteligente por seus detalhes, com sutileza. Este é o caso de Gigante. O filme não conta nenhuma história fantástica, apenas desvela e dá importância para um romance ordinário e que, por seus detalhes, se torna tão especial.

Gigante, à sua maneira, é uma crônica interessante do nosso tempo. Uma era em que muitas pessoas trabalham em subempregos para se manter. Pessoas invisíveis que fazem com que um supermercado fique aberto 24 horas ou que garantem a diversão dos demais em boates disputadas. Gente que dorme de dia porque trabalha durante a noite e a madrugada. Homens e mulheres com poucas oportunidades de lazer ou de romance.

A história, por si só, é muito interessante. Mas a forma com que ela é contada tira este filme do balaio de produções corretas para colocá-lo no grupo de filmes excepcionais. Adrián Biniez vai sacando sorrisos em detalhes como a descoberta de um pedaço de um Falcon pelo protagonista quando ele está vigiando Julia na praia. Ou na maneira com que o rapaz sem vida própria vai se transformando no segurança/acompanhante da amada, mesmo de forma anônima.

Gigante é um filme delicioso que segue a técnica narrativa de várias produções européias – especialmente do cinema francês – em contar sua história sem pressa, de forma natural e atenta aos detalhes. Desta forma o espectador vai se aproximando do cotidiano diferenciado dos protagonistas, se colocando ao lado de Jara e se identificando com o seu fascínio pela vida de Julia. Ela não faz nada de excepcional, mas guarda uma vitalidade e um interesse por aproveitar seu tempo que a torna tão diferente de outras pessoas – como Jara.

Movido pelo encantamento, o protagonista vai pouco a pouco mudando a própria rotina. Para muitos, seu costume de seguir e vigiar Julia pode ser assustador – e até um certo ponto, realmente é. Afinal, aquela história pode muito bem virar pura obsessão e terminar mal. Biniez não foge de questionar este ponto – ainda que seu filme não tenha uma função didática a respeito. Jara segue Julia, é verdade, mas o exemplo da garota lhe faz pensar em si mesmo. Ele começa a fazer exercícios, começa a se preocupar com a própria aparência. Sai do estado de aparente letargia.

Como tantos outros “grandões”, Jara assume de forma relativamente confortável a imagem que as pessoas projetam sobre ele. Normalmente sisudo, o protagonista de Gigante é visto como um rapaz trabalhador que foi moldado para o trabalho de segurança. Sua presença realmente impõe respeito. Mas por trás daquela couraça respira um garotão que gosta de dormir vendo televisão, adora música pesada e joga, com o sobrinho, o Playstation. Até ele ficar fascinado por Julia, sua vida se resumia a comer, dormir, assistir a televisão, trabalhar e pouco mais.

Gigante é uma história de amor que rompe os estereótipos do gênero. Primeiro, ao mostrar como o fascínio pode surgir em um lugar tão inusitado como os corredores de um supermercado monitorados por câmeras de vigilância. Depois, porque o filme em si não revela o cortejo de uma garota por um homem, mas o amor platônico de um sujeito adulto que até então desconhecia a paixão ou o amor. Gigante revitaliza personagens esquecidos pelo cinema e lhes dá cores, aspirações, necessidades e desejos. E tudo isso sem exageros e sem apelar para lugares-comum.

De quebra, o filme de Adrián Biniez brinca ainda com a era da “vigilância”, do Big Brother tornado realidade. As câmeras que se tornaram parte do cotidiano da maioria das cidades servem como “cupido” no interesse de Jara por Julia, mas elas também aparecem como um espelho incômodo para o protagonista em dois momentos. Sem debater o assunto, o diretor e roteirista questiona o poder destes aparatos em nos aproximar ou distanciar uns dos outros. Um filme sensível, inteligente e repleto de várias sacadas sutis que nos enche de orgulho pela produção latina. Imperdível.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Possivelmente muitas pessoas vão achar a minha nota exagerada. Mas é que fiquei encantada com o filme. E acho que ele atinge todos os seus propósitos. Então quando um filme consegue comunicar tudo que gostaria de forma criativa e envolvente, sem nenhum grande “pecado” na forma com que foi realizado, para mim ele é uma peça perfeita de cinema. Gigante não apresenta nenhum defeito. Algumas vezes o ritmo pode parecer lento demais, mas quando ele começa a esboçar esta característica, surge em cena alguma pequena mensagem sutil ou detalhe que surpreende e encanta. Preciso, criativo, acertado.

O filme de Adrián Biniez começou a sua trajetória em fevereiro de 2009 no Festival de Berlim. Daquela premiação ele saiu consagrado com os prêmios de Melhor Filme de Estréia, o Urso de Prata (ou Grande Prêmio do Júri) e ainda o Prêmio Alfred Bauer. Depois, em março, a produção participou do Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires. Até março deste ano, seguiram-se mais 18 festivais. Além de ser exibido para diferentes públicos em mercados distintos, Gigante ainda abocanhou outros quatro prêmios, além daqueles de Berlim, com destaque para o que recebeu no Festival Internacional de San Sebástian, o Prêmio Horizons.

Antes de escrever o roteiro e dirigir Gigante, o argentino radicado no Uruguai Adrián Biniez havia escrito e dirigido dois curtas: 8 horas, de 2006, e Total Disponibilidad, de 2008. Gigante é o seu primeiro longa, o que torna Biniez uma das grandes promessas do cinema latino atualmente. Agora é esperar o seu próximo projeto.

Gigante é uma história debruçada sobre dois personagens: Jara e Julia. Mas é o ator Horacio Camandule que rouba a cena, exprimindo força, timidez, inocência, uma pitada de obsessão e senso de humor sempre que seu personagem pede um destes elementos. Uma grande descoberta o seu talento.

Além da direção precisa e do excelente texto de Biniez, o filme conta com uma direção de fotografia acertadíssima de Arauco Hernández Holz. Através de suas lentes fica reforçada a idéia do realismo e o contraste entre ambientes fechados e “acinzentados” e a liberdade da rua e da praia uruguaias. A trilha sonora do filme também é um elemento importantíssimo e interessante, mérito de Hector Pauluk. Vale citar ainda o trabalho de montagem de Fernando Epstein e a direção de arte de Alejandro Castiglioni.

Gigante agradou o público e, especialmente, a crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para a produção – achei ela um bocado baixa, o que talvez comprove que nem todos estão habituados a filmes não muito óbvios. O site Rotten Tomatoes, por sua vez, abriga links para 11 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92%. (Logo mais acrescento por aqui algumas das críticas positivas para a produção).

Uma das críticas positivas para o filme foi escrita por Stephen Holden, do The New York Times. Ele escreveu, neste texto, que Gigante é um filme pequeno e despretensioso que integra a corrente do neo-realismo uruguaio. O crítico comenta que o protagonista não parece um tarado obcecado, mas um rapaz tímido que se sente como o protetor da frágil Julia. “Embora o filme observe o descontentamento rebelde que começa a ferver entre trabalhadores, ele não se mostra abertamente político. É um atraente, gentil prólogo cômico para uma história de amor”, definiu Holden.

Outro texto que elogiou o trabalho de Adrián Biniez foi este, escrito por Kevin Thomas do Los Angeles Times. O crítico comentou que em lugar de filmar um thriller em sua estréia, o diretor preferiu “explorar o funcionamento do coração humano com um toque de melancolia e uma pitada de humor”. Thomas classifica Biniez como um “observador agudo compassivo” que “tem a coragem de tomar um caminho arriscado, ousado na observação da vida comum cotidiana de um rapaz solitário”. Gostei quando o crítico ressalta como a tensão vai surgindo nesta história de forma muito sutil.

Para o crítico do Los Angeles Times, Gigante não é de todo previsível. Ainda que desde cedo o espectador assume o conceito de que o protagonista do filme é um homem “digno e de bom coração com quem vale a pena se preocupar”, o diretor mantêm “vivo um sentimento de incerteza quanto a forma com que a sua crescente obsessão  em relação à Julia” pode terminar. O crítico classificou Gigante como uma verdadeira jóia, devido a sua despretensão. Eu assino embaixo desta sua leitura.

O filme de Adrián Biniez é estrelado por um bom moço. Ainda assim, é meio que inevitável não pensar em como a obsessão pode nascer de forma singela e chegar a pontos catastróficos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas eu cheguei a temer por Julia em alguns momentos. Afinal, o que aconteceria se Jara fosse simplesmente desprezado pela garota? Se ela fosse um pouquinho menos singela e carente e, como disse um de seus últimos pretendentes, realmente estivesse buscando um “homem perfeito”? A violência de gênero muitas vezes surge justamente de uma paixão mal correspondida, de um homem obcecado que, aparentemente, era “boa gente” mas que, por várias razões, não consegue lidar com o desprezo ou o rechaço. Mesmo que Gigante não esteja aí para contar uma história trágica neste sentido, ele é importante também para fazer pensar a esse respeito.

Achei especialmente interessante a forma com que Gigante trata a realidade de duas pessoas muito diferentes: Jara e Julia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ambos trabalham em algo que não lhes dá nenhum prazer para sobreviver. Mas enquanto Jara passas seus dias em jornadas duplas e em uma rotina de tédio, Julia busca aproveitar cada minuto de seu tempo livre. Ela faz karatê, vai à praia, passeia na vizinhança, vai ao cinema, bate ponto em cibercafés para conhecer pessoas através de chats. Quando Jara começa a perceber tudo o que ela faz, em contraste com a sua própria vida, ele fica fascinado – como nós. Gigante, assim, nos ensina como uma mesma realidade pode ser encarada de maneiras muito diferentes. E que as oportunidades para a felicidade também podem ser criadas – tudo depende de nós. Bela reflexão esta – e não muito comum no cinema.

Gigante é uma co-produção do Uruguai, da Argentina, da Alemanha e da Espanha. Quando o filme começou a ser premiado, chegou a render certa polêmica sobre sua “paternidade”, como bem explica este texto do jornal digital Sociedad Uruguaya. Argentinos e uruguaios começaram a querer puxar cada um para si a nacionalidade do filme. O Sociedad Uruguaya cita uma declaração de Biniez para elucidar a questão: “Naci em Buenos Aires, mas vivo em Montevideo há cinco anos e foi aqui onde começou a fazer cinema. É uma produção cinematográfica mínima (a uruguaia), comparada com a da Argentina”. Uma maneira de resolver estes conflitos é a de, em sua próxima produção, conseguir dinheiro basicamente em seu país adotivo. 😉

CONCLUSÃO: Um filme que apresenta uma história de amor muito diferente dos padrões de Hollywood. Contado de forma linear e honesta, Gigante se debruça sobre a vida de dois personagens solitários que se cruzam através do cotidiano cheio de tédio do trabalho em um supermercado. Inserindo-se na gama de “histórias excepcionais de gente ordinária”, este filme destaca a forma com que o amor pode surgir nos lugares mais inesperados. Também destaca como o fascínio por uma pessoa pode modificar a vida do ser apaixonado. Contado de forma singela mas repleto de achados geniais inseridos na história de forma sutil, Gigante também pode ser visto como uma crônica do nosso tempo. Uma era em que muitas pessoas lutam para sobreviver como podem, muitas vezes deixando suas vidas pessoais, desejos e necessidades em segundo plano. Sem contar a reflexão que o filme faz sobre a solidão, o isolamento e a vigilância eletrônica como elementos constantes do cotidiano das cidades. Simples e genial na medida certa.

Celda 211 – Cela 211

Eis aqui um filme adulto, que começa de maneira potente e que facilmente será comparado com Carandiru. Mas Celda 211, o maior vencedor do último Prêmios Goya (considerado o Oscar espanhol), vai muito além da produção de Hector Babenco. No filme de Daniel Monzón não interessa tanto os tipos diferentes que compõe o cenário de uma penitenciária/cadeia. Em Celda 211 estão em jogo valores como fidelidade, justiça, amizade, sem contar uma história criativa que envolve o espectador desde o primeiro minuto e que vai se complicando cada vez mais. Um dos grandes méritos deste filme é o seu roteiro. O outro, um grupo de atores afinado e que se entrega aos seus personagens.

A HISTÓRIA: Com um isqueiro na mão direita e um pedaço de plástico na esquerda, um homem começa a moldar uma ponta. Com ela, o homem se corta e espera, com os braços imersos na água, que sua vida termine o mais rápido possível. Corta a cena. Na véspera de seu primeiro dia de trabalho, Juan Oliver (Alberto Ammann) se apresenta na penitenciária para causar uma boa impressão. Ele tem pressa em saber sobre os procedimentos no local. Oliver acompanha a revista aos presos que estão entrando, conhece os procedimentos da penitenciária e recebe dicas importantes dos guardas Armando Nieto (Fernando Soto) e Germán (Félix Cubero). Mas um acidente acaba colocando Oliver na cela 211, onde mais de um preso morreu. Em meio a uma rebelião, ele faz de tudo para se passar por um preso qualquer e conseguir sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Celda 211): O início do filme é um belo cartão-de-visitas do que o espectador verá na sequência. E ainda que as cenas de mutilação que chegam a lembrar os primórdios de Saw não continuem, a tensão no filme chega a ser uma constante. Salvo alguns altos e baixos inevitáveis, claro. Mas no geral, Celda 211 é um filme adulto, tenso, com uma premissa interessantíssima.

Mais do que um filme sobre a vida na prisão, o roteiro de Jorge Guerricaechevarría e do diretor Daniel Monzón, adaptado da obra de Francisco Pérez Gandul, transporta para aquele ambiente naturalmente tenso uma idéia explorada outras vezes pelo cinema: a de como uma situação-limite pode fazer com que uma pessoa se coloque no lugar de outra e mude, com isto, a sua visão da realidade. Celda 211 é, essencialmente, uma história sobre a troca-troca de papéis entre dois homens. Um filme que mostra como somos mais próximos dos nossos opostos do que normalmente gostaríamos de admitir. Ou, como diz certa canção, percebemos como “todo mundo é parecido quando sente dor”.

A primeira grande qualidade deste filme é que ele não perde muito tempo com “firulas”. Celda 211 faz uma rápida apresentação da lógica da penitenciária aonde os fatos irão se suceder e, logo em seguida, parte para a “ruptura” da rotina que alimenta a tantos filmes de ação e suspense. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gostei muito da idéia de que um homem que não deveria estar naquele local, nem naquela hora, acaba sendo o pivô de todos os acontecimentos que irão tornar o filme denso/tenso. Juan Oliver teve pressa em conhecer a rotina do seu novo local de trabalho e, de forma totalmente inusitada, acabou tendo que se passar por um preso para sobreviver.

A idéia original do filme é apetitosa. Por si só, rende uma trama intrigante. Interessante como a história de Juan Oliver vai se complicando pouco a pouco. E nós seguimos com ele, ao seu lado, como definiu o diretor Daniel Monzón. Escolhendo sempre a narrativa particular, próxima aos personagens, o diretor aproxima o espectador daquela realidade. Nos insere na prisão – e só respiramos um pouco melhor quando passamos a ver o que Juan Oliver desconhece, a intricada rede de interesses que cerca aquela rebelião com reféns importantes: presos políticos do ETA.

Eis aqui um ponto que terá um efeito específico entre o público espanhol: a questão dos terroristas. Só quem viveu na Espanha ou aqueles que acompanham de perto a cultura daquele país para saber como o assunto é delicado – e como ele tomou grande parte das manchetes desde que os socialistas tomaram o poder com Zapatero. O ETA continua sendo um assunto espinhoso, e o que Celda 211 mostra sobre os “cuidados” e os “efeitos” que a tomada de um grupo de terroristas como refém pode causar é bastante realista.

Na verdade, a única forma dos presos liderados pelo perigoso e genial Malamadre (Luis Tosar) conseguirem o que desejam é mantendo a ameaça constante aos terroristas do ETA. Sem eles, e nisto Juan Oliver está certo, o restante dos presos é alvo fácil das unidades de “ação tática” da polícia ou do Exército. O segundo acerto do filme, além daquele de entrar logo na ação, é o de mostrar com naturalidade como Olivier foi ganhando a confiança de Malamadre.

Vacinado, o chefão da rebelião sabe que não pode confiar em ninguém, e que talvez uma “carne fresca” no pedaço possa ser mais confiável do que “aliados” antigos como Apache (Carlos Bardem) ou seu braço direito, Tachuela (Vicente Romero). Quanto mais tempo um preso passou detido, mais facilmente ele pode ter sido corrompido por uns ou outros – sejam eles bandidos ou parte da “lei”. Olivier tem a coragem de dar idéias constantes no processo da rebelião, e seus palpites acertados vão fazendo com que ele receba a confiança de Malamadre e dos demais.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda assim, cá entre nós, é difícil acreditar que ninguém tenha realmente desconfiado dele, seja o meio “doido” Releches (Luis Zahera), que encontra Olivier na cela 211, ou seja algum outro preso com o qual ele tenha se encontrado antes, quando fazia a ronda de reconhecimento no presídio. Mas ok, esquecemos esta parte difícil de acreditar e nos deliciamos com o jogo de cintura que o rapaz acaba tendo junto aos seus “inimigos” e possíveis algozes.

O protagonista está preocupado, essencialmente, com a própria sobrevivência. Mas, também, em ajudar para que a situação tenha uma resolução adequada, preferencialmente sem invasões e mortes. O problema é que o filme não alivia e, diferente do que se ele fosse feito em Hollywood, Celda 211 não está interessada em terminar deixando um sorriso de satisfação nos lábios dos espectadores. Não, muito pelo contrário. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Assim como Oliver tomou a decisão errada ao “visitar seu trabalho” um dia antes do que era necessário, sua esposa, Elena (Marta Etura) escolheu a saída errada para a sua angústia.

Nenhum dos dois, assim como 99,9% dos espanhóis, dos brasileiros ou do povo que for, tem muita idéia do que, na prática, acontece em um presídio – ainda mais em uma situação como a de uma rebelião. Elena tem a má idéia de ir até o local, e daí sim a história dela e do marido vão ladeira abaixo. E sem volta. Mais do que nunca Oliver tem motivos para se sentir familiarizado com os presos – muitos deles também tem histórias de violência contra si ou seus familiares para contar. E quando o “vilão” da história, o guarda violento Utrilla (Antonio Resines) entra no presídio, Olivier consegue a sua vingança – e, ao mesmo tempo, sua sentença de morte.

Impressionante como o personagem e o ator que o interpreta foram, pouco a pouco, mudando de lado. No final das contas, o homem inocente se converteu em assassino, em culpado. E ainda que ele tivesse justificativas, na prática, ele deixou de ser “melhor” que os demais criminosos que o cercavam. Uma alegoria interessante em dois sentidos: na de que é o meio que molda o homem e a de que a oportunidade faz o bandido. Celda 211 joga com estas duas idéias.

Primeiro, sobre a influência do meio. Se Oliver não estivesse preso, cercado por bandidos e na iminência de ser tratado como mais um deles, dificilmente ele teria tomado aquela atitude em relação a Utrilla. Incentivado pelo grupo, ele agiu como outras pessoas do grupo agiriam. Depois, a questão da oportunidade. Se o local fosse outro ou Oliver tivesse tempo para “esfriar a cabeça”, provavelmente o desfecho não teria sido aquele. Quando se junta ambiente e oportunidade, temos um inocente virando culpado. Interessante esta reflexão do filme, que procura tirar o véu que separa estes conceitos ao mostrar que somos muito mais parecidos, seja para o bem ou para o mal, do que normalmente admitimos.

Os atores, em geral, estão fantásticos. Especialmente aqueles que interpretam Malamadre, Juan Oliver e Armando Nieto. Só senti um pouco mais de constância em relação aos personagens secundários. Também achei exagerada a forma com que Elena foi atingida – e, especialmente, a facilidade com que Oliver acabou tendo acesso às imagens. Perto do final, não se encaixou muito bem a “acelerada” das negociações. Mas os pequenos altos e baixos que o filme apresenta não tiram seus méritos, uma bela idéia de roteiro e grande parte de seu desenvolvimento. Uma produção com um olhar diferente sobre uma rebelião, tornando a história mais uma humana sem ser pedante e, o que é fundamental, com muita ação e tensão.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Celda 211 tem se saído muito bem nas premiações nas quais participou. Especialmente no Prêmio Goya deste ano, quando abocanhou oito das impressionantes 16 indicações que recebeu. Celda 211 ficou com os principais prêmios do “Oscar espanhol”: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor ator, melhor edição, melhor ator revelação, melhor atriz e melhor som. O filme ainda ganhou cinco prêmios do Círculo de Escritores Cinematográficos espanhol, entre outros entregues por diferentes premiações. Até o momento, o filme ganhou 18 prêmios e foi indicado a outros 20. Nada mal.

O filme dirigido por Daniel Monzón estreou em setembro no Festival de Veneza. No mesmo mês ele participou do festival internacional de Toronto. No Brasil ele ainda não tem data definida para estrear.

Celda 211 teria custado aproximadamente US$ 5,7 milhões. Um orçamento bastante enxuto – e que, junto com outros filmes de qualidade recentemente comentados no blog, só comprova que o cinema de qualidade não precisa, necessariamente, de altos orçamentos. Apenas na Espanha o filme teria arrecadado, em 2009, 9 milhões de euros – consagrando-se como uma das maiores bilheterias espanholas e uma das grandes surpresas do ano.

Eu fiquei curiosa para saber aonde o filme tinha sido rodado – não consegui identificar a cidade nas cenas em que Elena, especialmente, aparece andando pelas ruas. Procurando mais informações sobre a produção descobri que ela foi rodada na cidade de Zamora, que pertence a Castilla y León, situada 67 quilômetros ao norte de Salamanca. Interessante. Uma cidade relativamente pequena e pouco conhecida por figurar nas produções do cinema espanhol.

Além dos atores já citados, vale a pena comentar o trabalho de Manuel Morón como Almansa, o primeiro negociador enviado pelo Ministério do Interior para solucionar o impasse no presídio; e Manolo Solo como o diretor do presídio que, por medo da situação fugir do seu controle, toma uma postura de precaução grande parte do tempo.

Na parte técnica do filme, vale citar a trilha sonora de Roque Baños; a direção de fotografia bastante correta e precisa de Carles Gusi; a edição de Cristina Pastor e a edição de som coordenada por Carlos Faruolo.

Celda 211 é o quarto trabalho como diretor do também roteirista Daniel Monzón. Nascido em Palma de Mallorca em 1968, Monzón estreou nos cinemas com o filme El Corazón del Guerrero, no ano 2000. A produção não se saiu muito bem na avalição do público e da crítica. O mesmo aconteceu com seu filme seguinte, El Robo Más Grande Jamás Contado, de 2002. Apenas quatro anos depois, com o filme The Kovak Box (ou La Caja Kovak) Monzón começou a se sair um pouco melhor. Encabeçando o elenco desta última produção estavam nomes conhecidos como Timothy Hutton, Lucía Jiménez e David Kelly.

O roteirista Jorge Guerricaechevarría tem em seu currículo trabalhos muito elogiados e que tiveram uma boa repercussão entre público e crítica. Ele escreveu, entre outros, os roteiros de Carne Trémula, dirigido por Pedro Almodóvar; os sucessos Crimen Ferpecto e The Oxford Murders; além de 16 capítulos da série Plutón B.R.B. Nero que tira sarro de filmes de ficção científica.

Integra o roteiro de Celda 211 uma série de “pecados” do sistema penitenciário e dos homens que são pagos para manter a “ordem” na sociedade. Como temas paralelos à história principal e pessoal, o espectador é apresentado a questões como violência desmedida, covardia (nenhum agente teve a coragem de assumir as suas culpas, nem mesmo com o abandono de Juan Oliver), abuso de autoridade, corrupção. Temas que fazem parte da realidade brasileira, espanhola, e de tantos outros países. Este artigo publicado no jornal El País questiona brevemente a chance que Celda 211 dá para um debate público sobre estes temas na Espanha. Interessante.

Para os interessados em saber mais sobre o filme e seus realizadores, indico algumas entrevistas e reportagens interessantes publicadas no jornal El País (todas em espanhol): esta primeiraesta segunda e esta terceira entrevista com o ator (sempre fantástico) Luis Tosar; esta reportagem sobre os prêmios Goya, pela qual fiquei sabendo que Tosar é namorado de Marta Etura; esta entrevista com o diretor e roteirista Daniel Monzón; e, por fim, esta reportagem que conta os bastidores da produção (em galego).

Em sua entrevista para o El País, Monzón comenta que não vê uma classificação clara para Celda 211 – que poderia ser considerado drama e thriller carcerário ao mesmo tempo. “Se há algo que eu gosto em Celda 211 é que ele está protagonizado por personagens emocionantes e que emocionam”, comenta o autor. Pela matéria também fiquei sabendo que antes de ser cineasta Monzón era jornalista.

Na reportagem dos bastidores do filme fiquei sabendo que Celda 211 é baseado no primeiro livro do escritor Francisco Pérez Gandul – a obra tinha tido seus direitos vendidos para outra produtora antes de ser vendida para a Vaca Films, responsável por Celda 211. Curioso também que os produtores deram logo a história para Luis Tosar que, primeiramente, se interessou pelo personagem de Juan Oliver – mas depois foi convencido de que seu personagem na história deveria ser o de Malamadre.

Segundo a mesma reportagem, Celda 211 foi vendida para 20 países. Agora é esperar a sua estréia no Brasil. Também existem negociações para a história ser refilmada nos Estados Unidos – como não!

Achei interessante também este outro artigo do jornal El País em que seu autor, Miguel Lorente, fala sobre o papel da mãe e do pai na educação dos filhos e na prevenção da violência. Outro tema levantado pelo filme – menos óbvio que os demais – e que rendeu pano para manga na Espanha. A questão vale, especialmente, em socidades tradicionalmente machistas.

Poucos críticos comentaram até agora sobre o filme. Destaco, até o momento, este texto assinado pelo conhecido Carlos Boyero e publicado no jornal El País. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,9 para o filme – uma avaliação muito boa, especialmente por se tratar de um filme espanhol (que normalmente é pouco valorizado em seu próprio país).

CONCLUSÃO: Uma história criativa sobre a fronteira difusa que separa “mocinhos” e “bandidos” no território de um presídio em rebelião. Em certo ponto, o filme lembra Carandiru, mas logo Celda 211 se mostra superior. Primeiro, porque trabalha uma idéia interessante: a de um guarda tendo que se passar por um preso para sobreviver. Depois, porque a ação vai subindo de tom até que chega a um final realista. Conta muito à favor do filme o seu roteiro, o núcleo de atores principal e, principalmente, a forma com que a história vai se desenvolvendo. De forma muito natural Celda 211 debate a questão do ambiente e da oportunidade como elementos fundamentais para que um criminoso se forme. Também coloca o espectador muito próximo dos personagens, desmistificando estereótipos e revelando como as pessoas podem ser muito parecidas, especialmente quando colocadas em situações-limite. Um filme de ação bem dirigido, envolvente, e que ainda deixa algumas questões importantes no ar. Mereceu os vários prêmios que recebeu até o momento.