Cosas Insignificantes – Insignificant Things

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Objetos aparentemente sem grande importância abrigam, cada um deles, uma história única e instigante. Fragmentos de vidas diferentes que acabam se cruzando pelas ruas da Cidade do México. Na linha de pequenos filmes que contam histórias sobre “o-que-realmente-importa-na-vida”, Cosas Insignificantes se debruça sobre distintos problemas familiares que, basicamente, discutem a importância das relações entre pais e filhos. Filmado com esmero e cuidado, Cosas Insignificantes trabalha a noção de que são justamente os detalhes que interessam. Pequenos gestos, ações que podem custar muito ou pouco para quem as pratica, mas que significam muito para quem as recebe. O filme também chama a atenção por centrar-se em três personagens femininas fortes e insatisfeitas, cada uma a sua maneira. Um trabalho sensível, ainda que um pouco carente de força.

A HISTÓRIA: Esmeralda (Paulina Gaitan) arruma uma série de objetos que foi colecionando com o tempo em um pequeno baú, que é seu tesouro pessoal. Ela sabe que aqueles objetos contam histórias que ela nunca saberá e, talvez por isso, ela os mantenha com tanto apreço e fascínio. Depois de arrumá-los, a adolescente aparece pedalando pelas ruas do Distrito Federal mexicano, percorrendo seu caminho cotidiano até o restaurante aonde trabalha. Ali ela atende a Augusto Gabrieli (Fernando Luján), terapeuta que acaba esquecendo a carteira no local, depois de pagar a conta. Esmeralda acaba ficando com a carteira e, ao chegar em casa, coloca em seu baú de objetos “sem importância” um bilhete com o nome de uma mulher e um telefone. Através deste e de outros objetos encontrados pela garota, somos apresentados a diferentes histórias familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cosas Insignificantes): Todas as histórias deste filme giram em torno de mulheres. E todas elas, estão insatisfeitas e/ou enfrentam problemas dos grandes. Para começar, Esmeralda, que serve como elo condutor da narrativa, assim como a peça de ligação entre os diferentes protagonistas. A adolescente passa os dias em um trabalho que não gosta e vive pressionada pela responsabilidade de cuidar da avó e da irmã menor. Quando surge para ela a oportunidade de viajar para o Canadá  para fazer dinheiro, Esmeralda acaba se sentindo dividida entre a vida que ela tem no México ou a promessa de mais oportunidades que o Canadá parece oferecer.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, acompanhamos um momento decisivo também na vida de Paola (Bárbara Mori), que vive um casamento falido com Tomás (Arturo Ríos) ao mesmo tempo em que tenta reatar um caso com o médico Iván (Carmelo Gómez). Em um relacionamento estável há muitos anos, Iván têm transformado a vida da namorada, a fotógrafa Eli (Lucía Jiménez), em um martírio nos últimos tempos. O que marcou a mudança fundamental no relacionamento deles foi a descoberta por parte de Iván de que ele é o verdadeiro pai de Diego (Diego Lanzeta), um garoto esperto que acaba de ser diagnosticado com leucemia. Sem coragem para contar sobre o filho para a namorada, o médico acaba sendo pressionado por Eli a ponto de sair de casa. Paola, que já enfrentava bastante problemas na sua vida amorosa e com sua auto-estima, acaba questionamento também o seu próprio papel como mãe.

Como se pode perceber, não são poucos os problemas que as protagonistas deste filme enfrentam. Para completar este quadro, Augusto recebe a visita da ex-mulher no dia do próprio aniversário e ganha, dela, o bilhete que começa esta história. Nele, está escrito o nome e o telefone da filha do terapeuta que, por sua vez, resiste a ter contato com o pai. O bonito deste filme é que, de forma natural e muito simples, cada história destas vai se complicando e se resolvendo, em um roteiro que aposta suas fichas na capacidade de cada pessoa em buscar as soluções para seus problemas e dilemas. Depois de aceitarem o que ocorreu e saberem até que ponto cada um pode atuar para mudar o cenário de suas vidas, estas pessoas buscam a coragem necessária para decidir por seus caminhos.

Uma das reflexões mais interessantes e bonitas do mexicano Cosas Insignificantes, com produção executiva do ótimo diretor Guillerme Del Toro, é de nenhum objeto tem importância por si mesmo. Somos nós, as pessoas, quem damos a estes objetos nomes, valores e sentidos. Através de nossa visão de mundo e valores é que as “coisas” ganham um caráter simbólico, passam a ter valor e significado. Assim, enquanto alguns correm atrás de diamantes e de grandes e luxuosos carros, para exemplificar, Esmeralda se contenta com preservar fragmentos de vidas que não são a sua. Aqueles objetos aparentemente sem valor reúnem, simbolicamente, paisagens urbanas que Esmeralda não conhece, não pode tocar e nem vivenciar. Mas, ainda assim, ela respeita. Interessante.

A diretora Andrea Martínez, responsável também pelo roteiro do filme, lapidou com muito cuidado cada imagem de seu filme. Vale a pena acompanhar como ela se preocupou em focar, na maioria das vezes, o detalhe dos objetos, o melhor ângulo dos atores. Pena que, apesar destes cuidados, Cosas Insignificantes sofra com erros de continuidade. Estes erros, que não comprometem em nada a história, vale dizer, podem ser vistos em sequências como aquela em que Iván conta para Paola sobre a doença de Diego.

A história tem a peculariedade de ir e vir na linha do tempo, mostrando alguns momentos de forma repetida e fragmentada, sempre com um novo ângulo, o que exigia uma atenção maior dos continuistas. Percebe-se que a diretora preferiu gravar algumas cenas mais do que uma vez, mostrando diferentes ângulos, o que acaba provocando erros no momento da edição – como a forma diferente com que Iván embala o filho na casa de Paola. São erros um tanto primários mas que, nem por isso, prejudicam a narrativa da produção.

Cosas Insignificantes enfoca três protagonistas femininas mas, ainda assim, não deixa de ser uma grande narrativa e reflexão sobre a figura paterna. Afinal, é ela quem dita a história, seja por sua ausência no caso de Esmeralda e de sua irmã, Lina (Regina De Los Cobos), ou seja pelos problemas enfrentados por Iván e Augusto em assumir os seus papéis como pais.

Mas ainda que em conflito ou em ruptura, estes laços de família são importantes e defendidos pela história, inclusive através do contraste destas vidas retratadas e a do garoto de rua que brinca com uma arma de brinquedo, dorme em um banco na rua e, acaba ganhando, em uma certa noite, um presente especial e inesperado. Esse e outros gestos de Esmeralda, aliás, demonstram como o apego aos objetos é transitório. Ainda que eles nos remetam a pessoas e momentos importantes, eles são apenas pedaços de matéria, que podem adquirir uma importância fundamental em certo momento e, em outro, desvanecerem. Especialmente por esta questão, mais que pela superficialidade com que a história trata os problemas familiares, Cosas Insignificantes merece uma chance para ser visto.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se contabilizados seus acertos e erros, fica evidente que Cosas Insignificantes apresenta muito mais pontos positivos que negativos. Para começar, a direção de fotografia do filme é acertadíssima, mérito de Josep M. Civit. Depois, duas das três protagonistas desta produção esbajam carimas e, principalmente, beleza. São elas Lucía Jiménez e Bárbara Mori. Ainda que tenha um ar másculo no melhor estilo de Javier Bardem, digamos que o ator Carmelo Gómez tirou a sorte grande ao ser “disputado” por estas duas beldades latinas. 😉 Também gostei muito de mais este trabalho da talentosa Paulina Gaitan, uma das melhores atrizes mexicanas de sua geração.

Um dos pontos fracos do filme é a falta de força do roteiro, em muitos momentos, e um certo despreparo dos atores para viverem aquelas situações – especialmente Fernando Luján, que parece um tanto anestesiado durante todo o filme. A direção de Andrea Martínez é correta, cuidadosa, mas parece que lhe falta um pouco de experiência para ousar mais no trabalho com os atores e no registro de algumas cenas – o que se explica pelo fato de que este é apenas seu segundo trabalho como diretora.

Para os que gostam de saber sobre a trilha sonora dos filmes, Cosas Insignificantes tem sua trilha assinada por Leonardo Heiblum e Jacobo Lieberman.

Cosas Insignificante foi visto pela primeira vez no Festival de Cannes em maio de 2008. Depois de passar por aquele festival, esta produção mexicana e espanhola foi exibida no Festival de San Sebastián, o mais badalado da Espanha, em setembro do mesmo ano. Em abril e maio de 2009 o filme estreou nos cinemas mexicanos e espanhóis, respectivamente.

Até o momento, Cosas Insignificantes ganhou um prêmio: o da audiência do Festival Internacional de Cinema Latino-americano de Biarritz, na França, em 2008.

No site IMDb, o filme de Andrea Martínez conquistou a nota 7,5. Não há informações sobre o seu desempenho nas bilheterias, mas segundo a diretora mexicana, Cosas Insignificantes não conseguiu o sucesso esperado no México porque a produção estreou apenas uma semana antes da crise provocada no país pela gripe suína, o que provocou o fechamento de todas as salas de cinema do país.

Segundo esta reportagem do jornal espanhol ADN, a diretora Andrea Martínez procurou, com esta produção, mostrar a idéia de que “são as experiências humanas que dão valor as coisas” através de uma colagem, no filme, de “pequenos momentos da vida”. Na mesma matéria, o ator espanhol Carmelo Gómez classificou o filme como “dinâmico, universal, especial”, e afirmou ainda que o filme é destes que ele mostrará no currículo com orgulho.

Para a diretora, foi fundamental ter rodado Cosas Insignificantes na capital mexicana porque a cidade “simboliza” a idéia que ela quer transmitir com o filme, ou seja, de que a Ciudad do México pode ser “um lugar com tráfico, violência… mas também maravilhoso”. A diretora procurou escrever um roteiro que segue a linha de quebra-cabeças de diferentes histórias porque disse que lhe interessa a idéia da simultaneidade. “Um (indivíduo) vive seu drama mas, ao mesmo tempo, muitos outros vivem os seus (próprios)”, opina Martínez.

Segundo esta reportagem do jornal mexicano Informador, Andrea Martínez gostaria de trabalhar, em seu próximo projeto, com uma história familiar. Sua idéia era narrar a jornada que Arturo e Gustavo Martínez, seu pai e seu tio, fizeram de bicicleta em 1956 entre a cidade mexicana de Pachuca e o Canadá. A idéia da diretora é a de mostrar as mudanças “geográficas, econômicas e sociais” que ocorreram neste tempo. Para isso, ela contaria com um material da época, como um diário, fotografias e documentos guardados pelos familiares, e com a experiência de fazer a mesma viagem acompanhada deles agora.

CONCLUSÃO: Um filme singelo e com levada existencialista que discute as relações de comprometimento entre pais e filhos e a importância que é dada para as ações e/ou para os objetos em nossa sociedade consumista e carente de afeto. Bem dirigido, ainda que com algumas falhas de continuidade, este filme ganha pontos por mostrar um pouco da realidade e da cultura da capital do México. Ainda que as tradições daquele país não sejam o foco da história, pelo menos a realidade da menina simples que nos conduz pelo roteiro da diretora Andrea Martínez resgata parte das crenças populares daquele país – o que diferencia o filme de outros do gênero. Nunca é demais conhecer um pouco mais sobre nossos vizinhos americanos. O filme apresenta algumas reflexões interessantes, ainda que lhe falte ousadia e/ou criatividade, elementos que poderiam evitar que ele caísse em uma narrativa um tanto comum e sem emoção (verdadeira, pelo menos, porque de emoções um tanto forçadas o filme entende).

Antichrist – Anticristo

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Um filme pesado, denso, violento, com alta dose de carga psicológica e simbólica. Antichrist é destas produções planejadas para mexer com o público que, certamente, tem mais razões para resistir ao novo filme de Lars von Trier do que para defendê-lo ou recomendá-lo. E isso se justifica pelos elementos listados no início deste texto. Mas ainda que seja um filme incômodo, Antichrist mergulha fundo nas profundezas da mente humana, do desejo, da culpa e do eterno embate entre homens e mulheres na origem do pecado e dos males do mundo. Um filme corajoso de Lars von Trier que não deve agradar a maioria – e, possivelmente, deveria ser visto por poucos, apenas pelos preparados em assistir a um filme que vale mais como experimento do que pelo seu resultado.

A HISTÓRIA: Por descuido de um casal (interpretado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg), o filho deles sai do berço, anda até uma janela e se joga no vazio, morrendo na queda. Flagelados pela dor, eles participam do enterro do menino, quando a mulher desmaia. Internada por não conseguir lidar com a perda, ela acaba sendo liberada do hospital por intermédio do marido, que é terapeuta. Procurando as origens do medo da mulher, o marido decide que os dois devem viajar para o Éden, como ela chama uma cabana localizada no meio de uma floresta aonde passou uma temporada, recentemente, com o filho. Ali, o casal deve enfrentar a loucura, a Natureza e seus medos para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Antichrist): Este é um filme extremamente simbólico e que mexe com força em dogmas religiosos antigos e com distúrbios psicológicos. Certamente a interpretação deste filme foi e será muito variada. Uma prova disto foi a reação que Antichrist teve no Festival de Cannes, quando o Juri Ecumênico chegou a contra-indicá-lo. Uma barbaridade, quase um ato de censura. Por mais que o filme seja violento – e realmente ele é, bastante – e que tenha cenas de sexo praticamente explícita, com closes em órgãos sexuais masculinos e femininos, um júri jamais deveria se prestar ao papel de contra-indicar um trabalho artístico.

Francamente, vejo Antichrist de forma oposta aos integrantes do Juri Ecumênico de Cannes. Para mim, de uma forma nada óbvia, Lars von Trier escreveu e dirigiu um filme que questiona a soberba humana. Vejamos: quem foi o grande responsável pelo caos e pela violência desencadeada no final do filme? A mulher da história, personificada pela maravilhosa Charlotte Gainsbourg, precisava de ajuda e de tratamento. Fragilizada, perdida em seus conceitos, sentindo-se culpada pela morte do filho e perseguida pela “supremacia”/indiferença do marido, ela necesitava de um tratamento convencional. Mas o marido, sentindo-se mais eficiente que o médico da mulher, cheio de autoconfiança e arrogância, assume o tratamento da esposa e, assim, coloca ambos em risco. Para mim, esta é a essência do filme, mais do que uma possível misoginia da produção, como o Júri Ecumênico de Cannes interpretou.

Antichrist deixa claro o seu tom simbolista logo nos primeiros minutos. Sem diálogos, com uma direção de fotografia em preto e branco incrível e embalado por música clássica de qualidade, o epílogo revela alguns dos elementos fundamentais desta história. Para começar, o homem colocado frente a frente (ou em posição oposta, se preferirem) à mulher. Eles, assim como a roupa branca colocada na máquina, procuram se libertar das impurezas pela força da água “purificadora”. Mas sucumbem, com força, ao desejo, ao sexo e ao orgamo. Enquanto eles se deleitam, acontece uma catástrofe em suas vidas, que é a morte do filho – a continuidade deles na vida. O prazer extremo do casal se mistura com a sensação de liberdade vivida pelo garoto em queda livre. Vida e morte se confundem.

Depois do epílogo, começam os capítulos de Antichrist. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei eles um tanto confusos, pelo menos até que o filme se explica, perto do final. Migramos, pausadamente, do capítulo 1, titulado “desespero”, até o 2, “dor – o caos reina” e o 3, “desespero – femicídio”. Como os nomes indicam, o filme não alivia em momento algum. Tenso, recheado por cenas de sexo quase explícito, com closes das genitálias do casal, Antichrist muitas vezes mistura os tons duros da realidade com a neblina suavizada de imagens captadas em sessões de hipnose e/ou de sonhos/devaneios.

Muitas vezes não temos certeza se o que vemos é de fato algo real ou parte da loucura dos protagonistas. Mas a verdade é que a forma escolhida por Lars von Trier em dirigir, frequentemente com a câmera na mão (para dar o tom de documentário) revela que os absurdos vividos pelo casal realmente ocorreram. Pelo menos em seu roteiro-terapia.

Entendi, como disse antes, a divisão em capítulos apenas no final, quando o protagonista entende o significado dos “três mendigos”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nas pesquisas que fez para dar sustentação à sua tese, a protagonista encontrou vários artigos sobre bruxas e demais mulheres perseguidas em épocas passadas. Em meio a este material, o marido dela encontrou uma constelação chamada de “três mendigos”, formada pela representação de três animais: uma raposa, um corvo e uma gazela. Cada um deles simbolizaria, também, um sentimento: dor, desespero e sofrimento, respectivamente.

O curioso é que, na medida em que a mulher vai piorando, o marido também passa a ser influenciado por estranhas visões. Pouco depois deles terem chegado na floresta, quando a mulher pede para descansar um pouco da caminhada, seu marido fica fascinado por uma estranha gazela – que, relembrando, simboliza o sofrimento. A verdade é que ele, tão cheio de razão, acaba repetindo os mesmos passos da mulher, de quem ele pensava tratar. Tanto isso acontece que, no final do filme, ele repete os mesmos sintomas do quadro de ansiedade que ele definiu para a esposa no apartamento deles, tempos antes.

Algo que achei muito curioso neste filme é que ele acaba nos fazendo refletir sobre a repetição de papéis na sociedade. Vejamos: em seu delírio, a protagonista comenta que as mulheres são as responsáveis pelo mal, basicamente. Depois de afirmar isso, ela é reprovada pelo marido, que afirma que ela deveria ser mais crítica com o material que utilizava para sua pesquisa, e que a conclusão deveria ser o contrário, afinal, as mulheres eram vítimas de um sistema opressor. Mas o interessante é que a mulher acaba reproduzindo aquele rol de “figura de Satã”, de figura vil e traiçoeira e que merece ser punida, enquanto o marido, que deveria ser a pessoa racional e “crítica”, reproduz o rol de algoz. Sinistro.

Não sei até que ponto as intenções de Lars von Trier com este filme foram racionais – afinal, ele mesmo admitiu, em diversas entrevistas, que muitas peças em seu roteiro não se encaixam porque foram inspiradas em sonhos e idéias que ele teve durante um tratamento recente contra uma depressão e da infância. Mas sendo um sujeito que afirma que Deus não existe e que foi criado por pais ateus, Lars von Trier esboça, com Antichrist, um roteiro pouco otimista sobre homens e mulheres que, aparentemente, estão fadados a repetir o rol que lhes são devidos, sem a opção de escolherem outros caminhos. Por mais que um sujeito se diga racional e tudo o mais, a impressão que o filme nos dá é que a Natureza acaba sendo muito mais forte e eficaz. Segundo Antichrist, somos umas marionetes da Natureza, suscetíveis sempre a sucumbir a desejos, rompantes de descontrole e ira.

Gostei muito da direção de fotografia do filme, assinada por Anthony Dod Mantle. A direção de Lars von Trier também é acertadíssima, ainda que seu roteiro… bem, digamos que ele tem muitos altos e baixos. Algumas sequências, como as do prólogo, em preto e branco, e as que registram os momentos de hipnose/delírio da protagonista, mostradas como fotografias estilizadas com movimentos suaves, são lindas, sublimes. Elas contrastam radicalmente com os momentos mais tensos do filme, quando o terror domina a trama e explora detalhes escatológicos de tortura/violência.

Algumas cenas, francamente, são dispensáveis. Além de algumas de violência exagerada – que eu acho que não combinam com o restante do filme -, achei totalmente desncessária aquela cena em que a raposa fala com o protagonista. Mas enfim, esta é uma obra de autor. Como o diretor bem disse aos jornalistas que o colocaram contra a parede em Cannes, Lars von Trier fez este filme para ele mesmo.

Antichrist não foi planejado para agradar ou desagradar ninguém. Na verdade, o diretor passava por uma depressão pesada e este filme acabou sendo um antídoto para o criador, que se viu obrigado a sair de casa e trabalhar, em uma rotina que o auxiliou na sua recuperação. Em outras palavras, é um filme essencialmente experimental, ousado e que deve ser visto como parte de um tratamento, mais do que uma boa peça de cinema. Por tudo isso e pelo excelente trabalho de seus atores – mérito dividido com o diretor -, especialmente da premiada Charlotte Gainsbourg, dou a nota a seguir para esta produção.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Finalmente consegui assistir a este filme. Queria vê-lo desde maio, quando ele estreou no Festival de Cannes. Lars von Trier merece respeito pelos filmes que fez anteriormente, assim como por sua proposta do Dogma 95. Certo que nem sempre um grande diretor apresenta um grande trabalho. Acredito que praticamente não há exceção para esta regra. Antichrist está longe de ser o melhor filme do diretor, mas ainda assim ele está acima de outros filmes ruins do mercado. Como em outros casos, é preciso entender as circunstâncias em que ele foi feito para conseguir entendê-lo melhor.

Antichrist pode ser classificado como uma “viagem” de uma mente em colapso e que busca respostas. Afundado em uma profunda depressão, tentando se recuperar do fracasso de seu projeto anterior, o diretor Lars von Trier escreveu um roteiro que misturava imagens de sonhos seus, questões pouco abordadas sobre sexo, culpa, casamento e maternidade. Ele coloca o dedo na ferida – inclusive literalmente, através da protagonista 🙂 – e provoca o espectador. Um filme difìcil de assistir e, igualmente, difìcil de esquecer.

No fim das contas, a mulher parece ser sempre a vítima deste cálculo que envolve desejo, sexo e culpa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O pensamento geral, talvez desde a história de Adão e Eva, seja de que a mulher é quem provoca e desestabiliza o homem. É ela quem o distancia da Natureza, corrompe o que é belo. Curioso que Lars von Trier utiliza a expressão “femicídio” para definir o assassinato da protagonista do filme – em lugar de homicídio, que tem origem na palavra “homem”. Mesmo pessoas inteligentes, como o casal de Antichrist, pode ceder a idéias arcaicas como estas.

No material de divulgação do filme, Lars von Trier comenta sobre a sua depressão. “Foi uma experiência nova para mim. Tudo, fosse o que fosse, não tinha importância, era trivial. Não conseguia trabalhar. Depois de seis meses, decidi escrever um roteiro como forma de exercício. Era um pouco como uma terapia, uma forma de saber se seria capaz de voltar a fazer um filme. Terminei o roteiro e fiz o filme sem muito entusiasmo, usando a metade da minha capacidade fìsica e intelectual”, comenta o diretor.

Lars von Trier disse ainda que não escreveu o roteiro como faz normalmente. “Acrescentei cenas sem ter uma razão para fazê-lo. Cômpus imagens sem pensar na lógica e nem em seu apelo dramático. Uma vez mais o tema era a Natureza, mas desta vez era diferente, muito mais direta que antes. Mais pessoal. Não existe um código moral específico no filme, ela está baseada no que alguns chamariam de ‘necessidades básicas’ a respeito da trama”, comenta.

O diretor ainda afirma que, quando jovem, leu a Strindberg (aqui um texto em espanhol sobre este autor). “Fiquei entusiasmado com o que ele escreveu antes de mudar-se a Paris e retomar o trabalho como alquimista, e com o que ele escreveu durante o tempo que ficou ali… o período que ele logo descreveria como sua crise no inferno. Foi Antichrist a minha crise no inferno? Daí a minha afinidade com Strindberg? Não tenho nenhuma justificativa para Antichrist, apenas minha profunda fé neste filme, o mais importante de toda a minha carreira”. Porreta, não? Certamente, para ele, este filme foi (e deve continuar sendo) fundamental. Apenas por isso, ele merece respeito.

Gostei muito de uma entrevista, que faz parte do material de divulgação do filme, feita com Lars von Trier por Knud Romer, que trabalhou com o diretor dinamarquês em Idioterne. Neste material, o diretor de Antichrist afirma que tudo, para ele, são imagens. E que depois de passar por sua depressão, ele tinha dúvidas de que poderia fazer um filme novamente, e que por isso resolveu retomar um material da sua juventude, quando estava mergulhado no trabalho de Strindberg. “Quis fazer um filme no qual pudesse sacar a razão para fora”, definiu, complementando que ele rodou uma série de imagens que, depois, tentou juntar. Não conheço os textos de Strindberg mas, pelo que tudo indica, a visão em Antichrist dos conflitos entre o casal e o da figura da mulher, especificamente, tem muito a ver com esse autor.

Nesta entrevista, Romer comenta que talvez Lars von Trier esteja, cada vez mais, se aproximando do gênero da pornografia. Neste momento, o diretor comenta que ele já havia flertado com este gênero em Idioterne, e complementa: “De algum modo, a sexualidade e o horror estão muito relacionados. Mas, pornografia? Não sei. Isso é pornografia? Pode ser. Mas a pornografia sempre me incomodou. Os filmes pornô são “utilitários”, e costumam ser muito crus”.

Destaco também o trecho em que Lars von Trier define o seu trabalho: “Tento que meu cinema afete as emoções do público, mas consigo isso criando a imagem mais expressiva para mim. Por isso digo, ainda que seja um pouco mentira, que não penso no público quando faço cinema. Principalmente porque eu mesmo sinto prazer com as imagens que filmo. Ainda assim, não vou negar que as crio com a intenção de que tengam determinado efeito”. Para o diretor, o cinema resgata emoções que foram vividas, anteriormente, na vida real. Por isso ele comenta que os filmes aportam mais do que emoções.

Lars von Trier comenta também como seus protagonistas masculinos costumam ser uns idiotas – algo que se repete neste seu último filme. O diretor também revela que a obra O Anticristo, de Nietzsche, é o seu livro de cabeceira desde que ele completou 12 anos. Lars von Trier elogia muito o trabalho dos atores e afirma que nunca viu ninguém trabalhar com a intensidade de Charlotte. Ele também afirmou que, por se tratar de um filme de “emergência” (para ele mesmo), usou como recurso uma técnica antiga de filmar com uma câmera que registra imagens muito lentas.

“Muitas imagens vem de viagens imaginárias que eu fiz. Aprendi técnicas de xamanismo e encontrei muitas dessas imagens nas minhas viagens. Por exemplo, o ruído de um tambor pode provocar um transe, te levar a um mundo paralelo. Isso é muito interessante e a pessoa que faz isso passa muito bem. Nunca tomei ácido, mas deve ser algo parecido”, revela Lars von Trier, que concorda com o entrevistador de que Antichrist pode ser definido como uma “investigação sexual infantil”.

O diretor de fotografia de Antichrist, o inglês Anthony Dod Mantle, é um craque. Ele foi o responsável pela ótima fotografia de filmes como Slumdog Millionaire, The Last King of Scotland, Manderlay, Dear Wendy, Dogville, Festen, entre outros.

Antichrist recebeu a nota 7,1 pelos usuários do site IMDb. A crítica, como ficou comprovado no Festival de Cannes, torceu o nariz para a produção. Um exemplo é o termômetro do site Rotten Tomatoes: ele registra uma aprovação de 54%, ou seja, no site são linkados 22 críticas posivitas e 19 negativas.

Até o momento, esta produção recebeu apenas o prêmio de melhor atriz para Charlotte Gainsbourg no Festival de Cannes. Nominado ainda para a Palma de Ouro deste ano, o filme perdeu o prêmio para Das Weisse Band.

De baixo custo, Antichrist teria custado US$ 11 milhões. Sem ter entrado em cartaz nos Estados Unidos e em outros mercados importantes, ainda não é possível saber o quanto ele conseguirá de bilheteria, mas tudo indica que será pouco.

Fiquei sabendo, ao ler este texto, que abriga uma entrevista do diretor, que Antichrist foi censurado na Alemanha. Sinistro! Especialmente porque a Alemanha foi um dos seis países que deu dinheiro para que o filme fosse produzido. Também soubre que Eva Green queria fazer o filme, mas que seus agentes a persuadiram a não interpretar a protagonista perturbada e sádica. Charlotte Gainsbourg, segundo o diretor, não teve problema em fazer nenhuma das cenas de nudez, ainda que ela seja uma pessoa muito tímida, segundo Lars von Trier. Ele comenta ainda que as cenas de sexo explícito foram feitas com atores pornô.

No mesmo texto o diretor também comenta a cena com a raposa falante, afirmando que ela foi colocada no filme porque ela surgiu em uma de suas viagens xamânicas. Sobre a mutilação da protagonista, o diretor comenta que sua intenção foi mostrar como em uma terapia como aquela é relativamente frequente que as pessoas provoquem danos a si mesmas, e que a cena revela “o que acontece quando o medo toma conta de tudo e muda a realidade”. Aqui pude ler a entrevista que ele deu para os jornalistas do Festival de Cannes, na qual ele define Antichrist como “um sonho muito obscuro sobre a culpabilidade e a sexualidade”.

Antichrist é dedicado ao cineasta russo Andrei Tarkovsky, de quem Lars von Trier se diz “devoto”.

CONCLUSÃO: Essencialmente conceitual e irregular, Antichrist aborda algumas questões simbólicas do catolicismo – ainda que este não seja seu foco principal. Focado na relação conturbada de um casal, que passa por uma fase de aceitação da morte do filho, o novo filme de Lars von Trier é um ensaio sobre a perda/busca de controle, submissão, diferentes tipos de dores, culpa e sexo. Com imagens fortes, incluindo algumas de mutilação e tortura, é um filme tenso, algumas vezes difícil de assistir e com muitos altos e baixos. Ele consegue, ao mesmo tempo, apresentar imagens belíssimas, milimetricamente planejadas e cheias de significado, e sequências um tanto bizarras e enigmáticas. Para os que não se importam com cenas fortes envolvendo sangue, suor e sexo – e que jogam com cenas significativas que podem habitar nosso inconsciente -, vale a pena ser visto como um exemplo de filme conceitual e que foi feito com a alma de seu realizador (alma esta, para alguns, perturbada).

SUGESTÕES DE LEITORES: Eu estava esperando para assistir a Antichrist desde o Festival de Cannes, como eu disse antes, mas há alguns dias o Lucio comentou por aqui sobre o filme. E pediu uma crítica a respeito. Pois bem, Lucio, aqui está o “big texto” sobre o filme. Quero muito que apareças por aqui para comentar tuas impressões sobre Antichrist também. Sei que gostaste muito, como disseste antes, mas quero saber mais… um abraço!

Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events – Desventuras em Série

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Demorei para assistir a este filme de 2004, indicado pelo Caio Cézar há um bom tempinho, graças a um certo preconceito. Primeiro porque eu tinha achado o cartaz muito “Enchanted” para o meu gosto. Depois porque, francamente, poucas vezes eu gostei de alguma interpretação do Sr. Jim Carrey. Dito isso, fui deixando o filme para ver depois, até que enfrentei este meu preconceito e parti para assistir a Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events (nome gradinho, hein?). E que grata surpresa. Para a minha sorte, de quem não estava esperando muito desta produção, me deparei com um filme com efeitos visuais, especiais e de caracterização dos personagens incríveis. Um belo trabalho de equipe e que conta, ainda, com grandes atores em cena e uma história de fantasia envolvente e, na medida do possível, realista e/ou com fundo moral curioso – recomendadíssima para crianças e jovens, especialmente.

A HISTÓRIA: Começa em um bosque encantado, onde proliferam as borboletas e onde vive O Elfinho. Mas esta história feliz é interrompida pelo narrador do filme, Lemony Snicket (com a voz de Jude Law), que nos alerta que o que virá na sequência não será uma história feliz e sim uma narrativa “extremamente desagradável”. Snicket narra o momento em que os irmãos Violet (Emily Browning), Klaus (Liam Aiken) e Sunny (as gêmeas Kara Hoffman e Shelby Hoffman) se tornaram órfãos e passaram a ser perseguidos por um interesseiro familiar chamado Conde Olaf (Jim Carrey).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events): Como a maioria dos chamados “contos de fadas”, Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events (que chamarei abreviadamente de LSASUE) tem sua “moral da história”, vários personagens bondosos e um grande vilão. No lugar da bruxa má e invejosa, o filme nos apresenta a um ator ambicioso e interesseiro interpretado por Jim Carrey. Em sua ânsia por conseguir a herança das crianças, o Conde Olaf se passa ainda por outros dois personagens – o de ajudante de cientistas e o de um marinheiro.

Mas antes de falar do desempenho de Carrey, queria ressaltar o carisma e o bom trabalho dos protagonistas desta história. O roteiro de Robert Gordon, baseado nos livros de Daniel Handler, consegue nos apresentar de forma bastante resumida e acertada as “vocações” de cada um dos irmãos. Assim, temos a Violet, de 14 anos, uma inventora que deixaria o MacGyver no chinelo; Klaus e sua paixão pela leitura (e memória privilegiada); e a pequena Sunny, que ainda nem começou a falar, mas que tem um apreço especial por morder quase tudo que vê pela frente, além de um senso de humor único.

Uma das grandes qualidades deste filme é o seu roteiro. Não li a obra de Daniel Handler que resultou no trabalho de Gordon, mas gostei muito da condução de seu texto e, consequentemente, da transposição em imagens de suas palavras – trabalho cuidadoso do diretor Brad Silberling. A verdade é que LSASUE tem tudo que um bom filme de aventura e fantasia precisa ter: ritmo, reviravoltas, acontecimentos estranhos e inexplicáveis em um primeiro momento, perigo, bons personagens, apreço pelos detalhes e pela beleza das imagens de tirar o chapéu.

Outra qualidade do filme é o seu humor sutil e, algumas vezes, sarcástico. Características, pelo que tudo indica, da obra original de Handler – o site dos livros A Series of Unfortunate Events pode ser conferido aqui (em inglês). Para começar, Handler não assina as obras – em seu lugar, ele usa o pseudônimo de Lemony Snicket. A série de livros escritas por ele envolvendo os Baudelaire abrange 13 obras destinadas, inicialmente, para o público infanto-juvenil (mas algo me diz que sua leitura pode ser interessante para qualquer idade).

Algo bacana de suas histórias, pelo pequeno extrato ao qual somos apresentados por este filme, é que elas tratam com a mesma naturalidade mortes/perdas, manifestações do mal (como crimes, cobiça e inveja), a união da família e a importância de se criar um “santuário” em que a “gentileza, a coragem e a abnegação” pelos outros pode ser preservadas. Em outras palavras, com o pseudônimo de Snicket, Handler nos apresenta uma série de livros que tratam dos desafios da vida real, ainda que suas histórias estejam cheias de fantasia.

A impressão que eu tive, ao visitar o site oficial da série de “Lemony Snicket”, é que o filme de Silberling utiliza o material dos três primeiros livros de Handler – talvez algo mais, de algum outro livro, tenha sido incluído no filme para dar um certo “desfecho” (ainda que um bocado aberto) para a história. Ou seja, se a produção tivesse conseguido o sucesso desejado pelos produtores, tranquilamente a história poderia ter tido uma continuação – o que não foi o caso. Uma pena. Nem sempre um filme bem acabado e “redondinho” em seus aspectos principais (roteiro, direção, fotografia e demais cuidados da produção) consegue cair no gosto do público.

Agora, as estrelas de LSASUE são os atores que interpretam os irmãos Baudelaire. Carismáticos e talentosos, ele seguram no tom exato os desafios de seus personagens – que, diga-se, não são poucos. Por outro lado, os intérpretes veteranos desta história deixam um pouco a desejar. Jim Carrey está mais caricato que nunca. Certo que parte de seu papel, como o Conde Olaf, um ator sem talento e ambicioso, exigia esse tom exagerado de Carrey. Ainda assim, achei que ele passa um pouco do limite. Também acho que a sempre ótima Meryl Streep não consegue chegar ao ponto exato da temerosa e cheia de manias tia Josephine. Os únicos que parecem ter se sentido confortáveis em seus papéis foram Billy Connolly como o tio Monty, o cientista aficcionado por cobras da família, e Timothy Spall como Mr. Poe, o advogado que cuida dos bens dos Baudelaire.

Além de reforçar a idéia de que a união faz a força e de que o principal de uma família deve ser a soma de diferentes talentos e características de seus integrantes, LSASUE tem como uma de suas morais a simbologia de um conto sobre a passagem da fase da infância para a vida adulta. Não é por acaso que o narrador cita o gesto de “passar a tocha” como algo simbólico e que, no filme, assume a figura de uma luneta. Objeto esse que nos remete à astronomia e, consequentemente, à ciência e ao conhecimento. Em outras palavras, o ritual de “passagem” de uma vida de brincadeiras, inocência e “pureza” se concretizaria com o conhecimento. Primeiro, o conhecimento do que está distante de nós (através da educação). Depois, do que está mais próximo e, o que é mais difícil, o auto-conhecimento.

Os pais dos Baudelaire morrem de maneira misteriosa, e deixam para os filhos como herança um pouco do conhecimento sobre a complexidade do mundo e da alma humana, cheia de bondade e de maldade. Além disso, está claro, o filme aposta em uma moral otimista, que acredita que é possível criar, não importa aonde ou apesar de quem, um santuário particular (ou entre pessoas com afinidade) onde a “gentileza, a coragem e abnegação” prevaleçam. Uma bela história e com algumas reflexões interessantes para distintos gostos e idades.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events é um destes exemplos de filme com a marca de Hollywood. Perfeito nos detalhes, ele nos apresenta uma adaptação perfeita da realidade imaginada pela literatura de Daniel Handler em imagens. Entre os vários profissionais responsáveis por este feito, destaco a direção de fotografia de Emmanuel Lubezki; a direção de arte encabeçada por John Dexter; a decoração de set de Cheryl Carasik e os figurinos de Colleen Atwood, só para citar os aspectos mais destacados do filme.

A lista de profissionais envolvidos no departamento de arte de LSASUE é gigantesca – os curiosos podem dar uma conferida neste link do site IMDb. Não vou citar nomes, mas posso garantir que os cuidados com a parte artística do filme vão até os seus créditos finais, cheios de traços interessantes que lembram algumas produções de Tim Burton. Os efeitos especiais e os efeitos visuais da produção também contaram com dois times grandes, experientes e criativos. Um bom exemplo de produção nestes dois segmentos.

LSASUE custou uma pequena fortuna: US$ 140 milhões. Mas, francamente, eu acreditava que ela teria custado ainda mais – se fosse produzida hoje, em 2009, certamente não sairia por menos de US$ 180/200 milhões. Nas bilheterias o filme teve um desempenho razoável: conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 118,6 milhões. Pouco, se levarmos em consideração que o filme foi lançado justamente na época do Natal de 2004 e que perdurou nos cinemas estadunidenses até abril do ano seguinte.

Este filme teve algumas cenas rodadas em Wilmington, na Carolina do Norte; no Rockwell Defense Plant, na Califórnia e, claro, a maior parte da produção foi filmada mesmo em dois estúdios.

O início do filme é muito atrativo. Para começar, aquele começo falso de “O Elfinho”. Depois, Lemony Snicket dizendo que o espectador seria apresentado a uma história sobre “órfãos espertos, incêndios suspeitos, sanguessugas carnívoras, comida italiana e sociedades secretas”. Alguém consegue pensar em algo mais atrativo para a meninada? Mas eu, com a memória talvez um pouco fraca, demorei um pouco para atinar para a tal “comida italiana” na história – um prato tradicional feito por Klaus e que é comentado em mais de uma ocasião.

Outro pequeno ensinamento deste filme é que cada pessoa tem sua serventia, independente da idade ou de sua “vocação”. A inventora Violet, o “intelectual” (como muitos chamam quem gosta de ler tudo que aparece pela frente) Klaus e a pequena Sunny, que é especializada em morder distintos objetos, cada um deles tem um papel decisivo em algum momento complicado da história. Ninguém, segundo a história, é mais importante ou “melhor” que o outro. Quem dera que todos os adultos por aí seguissem essa idéia…

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Jim Carrey interpreta ao Conde Olaf que, por sua vez, se passa pelo italiano Stefano e pelo capitão Sham. A maquiagem e o vestuário são os maiores responsáveis pela mudança entre os “personagens”, assim como um sotaque diferenciado que o ator destila para cada um deles. Fora isso, seus trejeitos são praticamente os mesmos para os três personagens – o que irrita aos gostos mais apurados, ao mesmo tempo que justifica, propositalmente, o fato do Conde Olaf ser tão fraco ator.

Completando a lista de profissionais responsáveis pela qualidade deste filme, cito ainda o trabalho de Thomas Newman com a trilha sonora e de Michael Kahn na edição.

LSASUE registra a nota 6,9 no site IMDb, assim como 107 críticas positivas e 44 negativas pela análise dos críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes (o que lhe garante uma aprovação de 71%).

Lemony Snicket’s ganhou o Oscar de melhor maquiagem (assinada por Valli O’Reilly e Bill Corso) e outros seis prêmios, incluindo o de melhor atriz para Emily Browning conferido pelo Australian Film Institute. Além destes prêmios que levou para casa, o filme concorreu ainda a outros 21.

CONCLUSÃO: Um filme sobre três irmãos com aptidões diferentes que devem aprender a viver por sua conta e que, desta forma, simboliza o rito de passagem da infância para a vida adulta. Produzido com esmero, Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events se destaca pela direção de fotografia, pelos efeitos especiais e visuais. Inspirado nos três primeiros livros de uma série de obras escritas por Daniel Handler para o público infanto-juvenil, este filme apresenta uma narrativa envolvente e que brinca com vários dogmas de alguns contos de fadas. Com um desempenho desigual de seu elenco, LSASUE se destaca pela simpatia dos atores que interpretam os irmãos Baudelaire e pela constante variação entre momentos de tensão e de ironia. Recomendado para todas as idades – especialmente para os que gostam de filmes de fantasia que tenham uma boa narrativa.

SUGESTÕES DE LEITORES: Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events foi citado pelo Caio Cézar no dia 11 de janeiro. Na época, ele comentava suas impressões sobre o filme The Curious Case of Benjamin Button, afirmando que a fotografia do candidato ao Oscar deste ano lembrava a de Lemony Snicket’s. Caio, muito bacana essa tua dica. Como eu disse antes, me surpreendi com o filme – até porque esperava algo mais fraquinho. Gostei muito da fotografia de LSASUE, mas achei ela mais conceitual que a de Benjamin Button. O que as duas tem em comum, sem dúvida, é a sua alta qualidade. Obrigada pela dica e apareça! Um abraço.

Public Enemies – Inimigos Públicos

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Poucos diretores atualmente são tão bons em filmar uma história de bandidos, mafiosos e/ou gângsteres quanto Michael Mann. Seu talento artístico para valorizar na mesma medida a ação de perseguições entre mocinhos e bandidos e as características individuais de seus protagonistas fica mais uma vez evidente em Public Enemies. Com uma produção de primeiríssima, o diretor consegue recriar Chicago e outras cidades importantes dos Estados Unidos nos anos 1930 com esmero. Bem produzido, com um roteiro muito bom – descontados um ou outro clichê e exagero -, Public Enemies nos apresenta um dos melhores filmes sobre gângsteres dos últimos tempos, reavivando um gênero um tanto esquecido no cinema produzido nos Estados Unidos depois que os “filmes noir” deixaram de ser produzidos pelos grandes estúdios. E para fechar com chave de ouro, este filme ainda faz reverência a vários clássicos do gênero.

A HISTÓRIA: O ano é 1933. Segundo as linhas que dão início ao filme, aquela data marca o quarto ano da Grande Depressão nos Estados Unidos, época de ouro para os grandes assaltos à banco praticados por John Dillinger (Johnny Depp), Alvin Karpis (Giovanni Ribisi) e Baby Face Nelson (Stephen Graham). Mas, ao mesmo tempo em que este e outros gângsteres se tornam famosos por sua ousadia no roubo de bancos pelo país, o diretor J. Edgar Hoover (Billy Crudup) se sente pressionado a mostrar trabalho. Como medidas para tornar-se mais “querido” pela mídia do que os bandidos, Hoover estabelece Dillinger como o “inimigo público número 1” dos Estados Unidos e nomeia como encarregado de caçá-lo o jovem e obstinado Melvin Purvis (Christian Bale).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Public Enemies): A história por trás deste filme é vasta e complexa. Por isso, nem em sonhos, pretendo fazer aqui algum tratado ou discussão sobre os vários aspectos de Public Enemies. O que precisamos saber, essencialmente, é que a história se desenvolve em uma época em que as pessoas desconfiavam dos bancos e do sistema financeiro nos Estados Unidos – algo muito comprensível depois da conhecida quebra da Bolsa de Valores de Nova York. Ainda que os bancos não tenham sido os responsáveis diretos da crise – como se pode ler, resumidamente, neste texto – e sim a ganância de muitas pessoas, na época do aperto ninguém olhava para o sistema financeiro com bons olhos.

Neste cenário de desconfiança do público com os bancos, aparecem como “Robin Hood’s” modernos figuras do naipe de John Dillinger. Mas diferente da lenda do jovem inglês que “roubava dos ricos para dar para os pobres”, Dillinger e companhia roubavam para manter um padrão de vida confortável, o que significava usufruir do top de linha em armas, carros e mulheres. Como Public Enemies revela (e parece que a história realmente foi essa), contudo, Dillinger soube criar uma aura positiva ao seu redor, entre o público, com gestos curiosos como o de devolver dinheiro para clientes e funcionários dos bancos – querendo “deixar claro” que seu alvo eram as instituições e não as pessoas. Um gesto inteligente, claro, especialmente para quem dependia do público para ficar encoberto.

O problema dos gângsteres da época é que, justamente em 1933, 11 dos 25 mil bancos do país estavam falidos – conforme ainda este texto da Mundo Estranho. Isso vemos refletido no filme todas as vezes que Dillinger e amigos roubavam um banco e faturavam pouco com suas ações. Algo importante a comentar também é que em 1933 o famosíssimo diretor do FBI John Edgar Hoover começou a colher os frutos de uma extensa reforma que ele vinha promovendo na agência do governo para combater o crime. Criado em 1908 pelo presidente Theodore Roosevelt, segundo este texto, o FBI começou a funcionar de forma tímida até que Hoover assumiu a sua direção em 1924. Valorizando “modernas técnicas de investigação” e ampliando exponencialmente o número de policiais a seu serviço, Hoover conseguiu fama ao aniquilar os gângsteres conhecidos nos anos 1930 e, como bem mostra Public Enemies, sabendo utilizar a imprensa a seu favor.

Feita esta contextualização histórica sobre os personagens principais de Public Enemies, vamos ao que interessa: ao filme propriamente dito. Se analisarmos apenas as cenas de perseguições e, principalmente, as de ações de resgate envolvendo Dillinger, Public Enemies mereceria a nota máxima. Que maneira de começar um filme, meus bons amigos e amigas! Simplesmente genial toda aquela sequência de abertura, na qual Dillinger consegue colocar armas dentro do presídio e, pessoalmente, resgatar alguns de seus homens. Logo neste início podemos perceber duas características do filme marcantes: a câmera muitas vezes junto ao protagonista, enfocando em primeiro plano suas expressões enquanto ele se movimenta; e a direção de fotografia de alta qualidade assinada por Dante Spinotti.

Outra característica desta produção que fica logo evidente é a grande quantidade de personagens e, por consequência, de atores talentosos que fazem parte do filme. Francamente, é tanta gente que você até se perde… quase passam sem se fazer notar personagens como Walter Dietrich (James Russo), Pretty Boy Floyd (Channing Tatum, difícil de reconhecer) ou Phil D’Andrea (John Ortiz). Entre tantos outros. Sem contar as participações relâmpago – que podem ser consideradas especiais – de nomes conhecidos como Lili Taylor, Diana Krall, Emilie de Ravin (mega conhecida por seu papel de Claire em Lost), entre tantos outros.

O roteiro, bem escrito e, na maior parte do tempo, envolvente, é assinado pelo diretor junto com Ronan Bennett e Ann Biderman. O trio utilizou o livro “Public Enemies: America’s Greatest Crime Wave and the Birth of the FBI, 1933-34” como base para seu trabalho. O filme funciona bem quando constrói o ambiente de “guerra” entre gângsteres e policiais – algo que Michael Mann já havia feito com competência antes no recomendadíssimo Heat, de 1995, estrelado por Al Pacino e Robert De Niro. Mas consegue um resultado irregular quando tenta dar “profundidade” para alguns de seus personagens e quando força a barra em transformar Dillinger em um romântico – a idéia funciona no cinema, mas se mostra bastante irreal se levarmos em conta o que realmente aconteceu.

Sabemos um bocado sobre Dillinger e uma de suas namoradas, Billie Frechette (a adorável Marion Cotillard), mas praticamente nada sobre Melvin Purvis, por exemplo. Como o protagonista (ou antagonista, dependendo do ponto de vista) pode passar por esta história sem sabermos nada sobre seu passado, vida privada, hábitos, etcétera? Public Enemies perde um pouco de sua força ao escolher, claramente, um lado – o de Dillinger. Outros personagens importantes do filme também sofrem da mesma superficialidade – destaco, entre eles, J. Edgar Hoover, Clyde Tolson (Chandler Williams), Alvin Karpis e Baby Face Nelson.

Ainda que o casal de protagonistas vivido por Johnny Depp e Marion Cotillard funcione perfeitamente, achei um bocado forçada a insistência em transformar parte do roteiro em um romance, sugerindo que Billie era a “mulher da vida” de John. A história real do gângster – este artigo da Wikipedia traz algumas informações, assim como este texto do FBI – foi povoada por várias namoradas. Depois de Billie Frechette, que acabou sendo presa ao tentar visitar uma amiga em Chicago e que, realmente, quase motivou uma tentativa de resgate por parte de Dillinger, o criminoso teve outra namorada, Polly Hamilton (Leelee Sobieski no filme), e casos com várias prostitutas.

Segundo conta a história, Polly não conhecia a verdadeira identidade do namorado – que se passava, na época, por Jimmy Lawrence. Também quiseram resumir as mortes dos parceiros de Dillinger todas em praticamente uma noite – quando, na verdade, elas ocorreram em ocasiões diferentes. Claro que ninguém nunca espera uma adaptação perfeita da história para o cinema, mas acho que não custava muito aos roteiristas serem um pouquinho mais fiéis ao que realmente aconteceu. Se fizessem isso, talvez, eles conseguissem um filme mais complexo e denso, menos suscetível a determinados lugares-comum e ao recurso relativamente fácil de sacar uma história de amor da vida de um criminoso.

A história ia muito bem até o ponto em que Billie Frechette foi presa. A partir dali o roteiro se perde um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, naquela cena exagerada em que Dillinger “simula” uma tentativa de resgate de sua namorada. Ah, vamos combinar… com tantos policiais na rua, ninguém perceberia um homem como ele, armado, suspeitíssimo, por perto? Sem contar que ele era o homem mais procurado da América… mas ok, vamos ignorar esta parte. Depois, os erros comentados no parágrafo anterior, acrescentados de um providencial hiato em deixar claro quem eram aquelas duas mulheres com quem Dillinger vivia – afinal, se os roteiristas explicassem quem elas eram, o filme não poderia terminar de forma “romântica” como terminou.

Descontados estes “probleminhas” do roteiro, Public Enemies é um belo exemplo de um filme que mereceu o investimento que teve – aproximadamente US$ 100 milhões. Bem dirigido, com um ritmo cadenciado por grande parte de seu tempo e com uma produção cuidadosa nos detalhes, Public Enemies resgata a tradição de um tipo de filme que há muito tempo não se via. Pelo menos não com todo este esmero. Vale a pena ser visto pelo conjunto da obra – e com o cuidado de ignorar alguns aspectos históricos.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei curiosa para ler este livro sobre John Edgar Hoover, considerado um dos homens mais poderosos do século passado. Segundo Anthony Summers, Hoover se escondia como homossexual e chantageava políticos menos conhecidos, caçava comunistas, bandidos, opositores à Guerra do Vietnã e líderes de movimentos sociais com o mesmo ímpeto. No livro “Official and Confidential: The Secret Life of J. Edgar Hoover”, lançado em 2003, Summers ainda revela que o famoso diretor do FBI – que ficou neste cargo entre 1924 e 1971 – era vítima de extorsões pelos grandes chefes da Máfia e que, ao mesmo tempo em que perseguia corruptos, não duvidava em aceitar presentes de poderosos milionários. Hoover foi ainda alvo desta biografia romanceada – que toca em alguns dos vespeiros e das teorias conspiratórias mais conhecidas do século 20.

Procurando mais informações sobre John Dillinger – aqui algumas delas -, descobri que a campanha do FBI por estabelecer uma lista de “inimigos públicos” dos Estados Unidos durou o período de 1931 até 1935. O personagem que inspirou o protagonista de Public Enemies foi morto em 1934 aos 31 anos de idade.

Depois da tentativa infrutífera de prender John Dillinger em Little Bohemia – episódio mostrado perto do final do filme -, J. Edgar Hoover designou o agente especial Samuel A. Cowley (interpretado por Richard Short) para encabeçar as investigações de captura do famoso gângster. Cowley trabalhou junto com o agente especial Melvin Purvis, na época responsável pelo escritório do FBI em Chicago, para encontrar Dillinger. Comento isso porque, na verdade, o grande responsável por resolver o “caso Dillinger” foi, segundo os arquivos do FBI, Cowley – e não Purvis, como sugere o filme.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Outra curiosidade histórica segundo este texto do FBI: Anna Sage (que se chamava, na verdade, Ana Cumpanas), a dona de bordel que denunciou Dillinger, foi quem procurou Cowley e Purvis. Public Enemies sugere que Purvis, através de seu “serviço de inteligência”, é quem chegou até ela. Foi o contrário. Ana Cumpanas, natural da Romênia, procurou o FBI buscando uma recompensa em dinheiro e ajuda para que seu processo de deportação fosse anulado. Em outras palavras, ela jamais teve qualquer peso na consciência em delatar Dillinger, que havia aparecido em seu “estabelecimento” acompanhado de Polly Hamilton, amiga da cafetina. Estes novos casos do criminoso não apareceram no roteiro de Mann, Bennett e Burrough. No filme, Ana Cumpanas foi interpretada por Branka Katic, que aparece em uma sequência inicial da produção (pelo minuto 12) e, depois, pelo minuto 22, o que sugere que ela tinha uma relação relativamente antiga com o gângster.

Achei interessante como Public Enemies faz reverências a pelo menos dois nomes famosos do cinema: primeiro, James Cagney e, depois, no final, a Clark Gable e seu filme Manhattan Melodrama. Cagney, que começou sua carreira poucos anos antes, em 1930, ficou famoso por protagonizar filmes sobre gângsteres – como o clássico The Public Enemy, dirigido por William A. Wellman, no qual interpretava o personagem de Tom Powers. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O astro Clark Gable estrelou o filme sobre gângsteres assistido por Dillinger pouco antes de morrer.

Além dos atores já citados, merece ser destacado o trabalho de Jason Clarke como John “Red” Hamilton, um dos braços direitos de Dillinger; David Wenham como Harry “Pete” Pierpont, outra figura importante em seu bando; Stephen Dorff em uma interpretação bastante intuitiva e inspirada como Homer Van Meter; e, do lado dos policiais, Rory Cochrane como Carter Baum; Madison Dirks como Warren Barton; Randy Ryan como Julius Rice; e Kurt Naebig como William Rorer.

Ainda que Dillinger e seus comparsas utilizassem civis como reféns e não pensassem duas vezes em abrir fogo contra policiais, em Public Enemies é a turma de Purvis que parece ser mais cruel, atirando a queima-roupa, agredindo mulheres e torturando prisioneiros. Curioso.

Com mais acertos que erros, o roteiro de Public Enemies tem algumas frases muito boas. Destaco duas trocadas por Dillinger e Frechette em um restaurante de alta classe de Chicago. Ela diz “Estão olhando para mim porque não estão acostumados a ter uma garota em seu restaurante com um vestido tão barato”; se referindo às mulheres que estão lhe encarando com desdém. No que Dillinger responde: “Ouça boneca: isso acontece porque para eles importa de onde as pessoas vem. Mas a única coisa importante é para onde elas estão indo”. Muito bom, hein? E o restante do diálogo é igualmente bacana – mas não vou citar para não estragar surpresas. 😉

Não sei vocês, mas eu precisei pesquisar na internet para saber quem era Phil D’Andrea, entre outros personagens citados pelo filme. Segundo este site da Chicaco Historical Society, D’Andrea foi um dos guarda-costas de Al Capone, meus amigos! Nada mal para Dillinger receber um elogio desta figura, não? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O problema, para Dillinger, é quando D’Andrea passa a enxergar o assaltante de bancos como uma pedra no seu sapato. Envolvido com uma intricada teia de palpites para as corridas de cavalos, D’Andrea prefere ver Dillinger longe de seu negócio, para não chamar a atenção da polícia – o que faz com que as ajudas para o gângster praticamente desapareçam.

Frank Nitti também é citado – e aparece – no filme rapidamente, interpretado por Bill Camp. De origem italiana, Nitti marcou época durante o reinado de Al Capone porque foi encarregado por ele para controlar as operações de distribuição de bebidas – sua venda, na época, era feita de forma clandestina. Nitti foi apelidado de The Enforcer e ficou conhecido por não se envolver diretamente em disputas sangrentas – segundo este texto. Em 1987 o mafioso italiano foi retratado de maneira fantasiosa por Brian De Palma no filme The Untouchables (responsável por resgatar o gênero também) como um vilão sangrento perseguido por Elliot Ness. Achei curioso que Public Enemies sugere que foi Nitti, através do detetive de polícia Martin Zarkovich (interpretado por John Michael Bolger), quem articulou a entrega de Dillinger por Anna Sage, com quem o policial teria um caso.

Frequentemente nas manchetes dos jornais, segundo o texto do FBI que eu citei anteriormente, Dillinger e seu grupo foi responsável, em menos de um ano, por diversos assaltos a bancos, por provocar 10 mortes, deixar sete feridos, praticar roubos de armas da polícia e liderar três fugas de prisões.

O personagem de John Dillinger apareceu, até o momento, em 15 filmes diferentes. Em 2010 ele aparecerá novamente, desta vez em Pretty, Baby, Machine. Os rumores dizem que ele poderá ser interpretado por Gary Oldman.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme – achei um pouco baixa demais. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 157 críticas positivas e 78 negativas para Public Enemies, o que lhe garante uma aprovação de 67%.

Lançado no final de junho no Festival de Cinema de Los Angeles (depois de uma premiere em Chicago, cinco dias antes), Public Enemies arrecadou, até o dia 30 de agosto, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 97 milhões. Um desempenho abaixo do esperado pelos produtores, certamente – afinal, eles investiram US$ 100 milhões no filme.

Até o momento, Public Enemies foi indicado a apenas dois prêmios no Teen Choice Awards – e perdeu ambos.

Da parte técnica do filme, destaco a trilha sonora do premiado Elliot Goldenthal; a direção de arte de Patrick Lumb e William Ladd Skinner; e o figurino de Colleen Atwood.

CONCLUSÃO: Com pulso de ferro e uma equipe de produção de primeiríssima linha, o diretor Michael Mann ressuscita os filmes de gângsteres com estilo, trazendo à tona a época áurea de um de seus criminosos mais famosos. Johnny Depp assume com propriedade os holofotes e encarna um bandido ousado, ético e romântico – levemente inspirado no personagem real. O roteiro vai bem até um certo ponto, mas depois perde força ao apostar fichas demais em um romance do protagonista e por deixar de lado mais detalhes dos bastidores do surgimento do FBI. Vale pelas cenas de ação, especialmente as que mostram a ousadia e ironia do personagem de Depp no resgate de seus companheiros e na sua relação com o FBI.

PALPITES PARA O OSCAR 2010: Acredito que Public Enemies não terá muitas chances na disputa pelas próximas estatuetas douradas da Academia. Pelo menos, nas categorias principais. Porque naquelas que são consideradas secundárias eu acredito que ele poderá chegar com força. Entre elas, destaco a de melhor figurino, melhor direção de arte e, quem sabe, de melhor mixagem de som e/ou melhor edição de som. Marion Cotillard talvez consiga ainda uma indicação como melhor atriz coadjuvante – mas isso vai depender do trabalho de suas colegas.

Sleepwalking

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Pessoas ferradas, algumas vezes, tomam atitudes desesperadas. E basta uma escolha errada para que uma espécie de roda gigante de acontecimentos ruins passe por cima desta pessoa – e de quem mais estiver por perto. Esta idéia foi explorada com sucesso por vários filmes, incluindo o comentado por aqui Before the Devil Knows You’re Dead. A mesma premissa ronda o núcleo narrativo de Sleepwalking – um filme que chamou a minha atenção por seu título, pelo elenco e, porque não dizer, por seu cartaz. Escrito para ressaltar o talento de seus atores, Sleepwalking conta uma história de escolhas ruins e acertos de contas. Mas, infelizmente, esta produção não consegue ir além da temperatura média. Convence, mas não emociona como poderia.

A HISTÓRIA: Joleen (Charlize Theron) tenta se explicar na delegacia local, mas não convence ao policial (Mathew St. Patrick), que aproveita para lhe dar um par de conselhos. Louca para sair dali, Joleen agarra a filha Tara (AnnaSophia Robb) pelo braço e a leva para a escola. Enquanto isso, James (Nick Stahl), irmão de Joleen, liga para seu trabalho e repete mais uma vez uma desculpa esfarrapada para faltar. James sabe que a irmã precisa dele. Joleen e Tara se mudam para a casa de James. Mas tio e sobrinha são surpreendidos quando Joleen some sem dizer para onde foi, apenas deixando uma carta para Tara dizendo que voltará a tempo de seu aniversário. Pouco depois, James é demitido do trabalho e, com o aluguel atrasado, tem que deixar sua casa. Tara passa a ser responsabilidade do serviço social, até que ela e o tio resolvem fazer uma manobra arriscada e sair da cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sleepwalking): Pessoas que tem uma vida confortável e, teoricamente, pequenos problemas para resolver, dificilmente entendem as pessoas que tomam atitudes desesperadas. Isso é certo. Mas é igualmente verdadeiro o problema que muitos tem em conseguir se comunicar. No caso da história de Sleepwalking, é preciso dois tipos de compreensão. O primeiro exige que “baixemos” de nossa vida segura para nos colocar no lugar de quem está completamente ferrado. A perspectiva muda. O segundo passa pela reflexão de como a falta de comunicação pode tornar tudo na vida muito mais complicado.

Sleepwalking, para mim, é um drama sobre problemas familiares, falta de oportunidades e, principalmente, dificuldades de comunicação. Tudo seria diferente, nesta história, se ao invés de desaparecer da casa do irmão, em uma certa manhã, deixando apenas uma carta com algum dinheiro para a filha, Joleen tivesse sentado com o irmão e Tara para explicar-lhes seu plano. Ou não? Certamente a insegurança, o desespero e o turbilhão de dúvidas que passou a tomar conta da vida de Tara e de James teriam sido radicalmente diminuídos. Ou nem existiriam.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, provavelmente James não teria passado um dia inteiro, praticamente, procurando a irmã – e, consequentemente, não teria perdido o emprego. Talvez, ainda empregado, James teria conseguido pagar o aluguel e Tara, mais tranquila, continuaria indo a escola regularmente. Ninguém teria parado nas mãos da assistência social, sob o risco de ser adotada por uma outra família. Mas não, Joleen repetia os passos do pai, Mr. Reedy (Dennis Hopper), de quem tinha fugido anos antes. Aliás, este parece ser um fardo de muitos filhos de pais que não sabem se comunicar e/ou que são violentos. Odiando a conduta do pai, Joleen conseguiu “melhorar” em relação a ele apenas em parte – aparentemente ela não era uma pessoa violenta mas, ainda assim, não conseguia manter uma conversa franca com a filha ou o irmão.

Esta é uma das grandes questões deste filme: o quanto as pessoas são capazes de aprender com a própria casa. Ou, em outras palavras, até que ponto os filhos conseguem ser uma “evolução” dos próprios pais. Porque esta, em teoria, é uma das nossas funções, não é mesmo? Evoluirmos para sermos melhores… e sem que isso seja uma competição, saliento. Acredito, honestamente, que um dos sentidos de vivermos é o de melhorarmos em relação ao que aprendemos – dos outros, incluindo nossos pais, e com nossa própria experiência. Se não evoluímos, avançamos, para que mesmo estamos aqui?

Sleepwalking mostra um pouco disto pela trajetória de Joleen e James, filhos de um “brucutu”, um senhor do interior dos Estados Unidos acostumado a lidar com os filhos (e com a vida) de forma bruta. Certo que ele provavelmente foi criado assim e repetia velhos processos de aprendizado, mas cadê a evolução daquele senhor? Como muitas pessoas que passam pela vida sem um minuto de reflexão, acredito que ele não pensava em evoluir. O problema é que o efeito disso é sentido por pessoas que dependem economica e, principalmente, afetivamente dele. No caso, seus filhos e neta.

No fundo, Joleen e James não conseguiram exorcizar a carga negativa recebida pelo pai. Ambos tentavam negar as atitudes do velho mas, até certo ponto, repetiam alguns de seus passos. Pelo menos Joleen, que mantinha a falta de comunicação com a filha e sofria, aparentemente, de uma carência crônica. James, um tanto “anestesiado” em uma vida sem muitos altos e baixos, acaba despertando de seu “sonambulismo” quando se vê obrigado a se sentir responsável verdadeiramente por alguém – no caso, a sobrinha Tara. No fundo, Sleepwalking é um belo filme sobre comprometimento e a noção de que estarmos “despertos” significa enfrentar nossos medos e fantasmas. Compreender o “de onde viemos” e fazer uso disso para o nosso futuro.

Mas nem tudo é perfeito no reino da Dinamarca. Ao mesmo tempo em que Sleepwalking consegue tocar com os dedos em questões familiares importantes, ele se perde em algumas saídas desnecessárias. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Me incomodou um pouco o exagero na caracterização de “malvado” do personagem de Dennis Hopper. Ainda que o ator esteja divino neste papel – como quase todos os outros do elenco -, achei o Sr. Reedy muito caricato. Também não vi muito sentido naquele excesso de violência – e desfecho idem. Se James sabia tão bem em que terreno estava pisando, ele provavelmente não agiria daquela forma. Afinal, ele não era mais uma criança ou um jovem indefeso facilmente suscetível a um rompante de descontrole. Não sei… mas achei que o roteiro começa a derrapar a partir do momento em que James, Tara e o Sr. Reedy começam a conviver na fazenda.

Mesmo com estes “poréns” a respeito do roteiro de Zac Stanford, devo salientar que Sleepwalking é um filme que valoriza o trabalho dos atores. Gostei muito de Charlize Theron, mais uma vez. A cada produção, para mim, ela demonstra como é uma atriz madura na questão da interpretação. Aqui ela faz mais um belo trabalho. Nick Stahl também consegue uma interpretação acima da sua média – até porque, normalmente, eu acho este ator apenas mediano. E, sem dúvida, esta foi a melhor oportunidade na carreira de AnnaSophia Robb até agora. A menina mostra que tem talento e que, talvez, possa seguir mostrando um bom desempenho por muito tempo ainda. E o Sr. Dennis Hopper, com seu personagem forçado, tem pouco trabalho pela frente.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se o roteiro de Sleepwalking deixa um pouco a desejar, o contrário acontece com a direção de Bill Maher. A estréia dele na condução de um filme valoriza, praticamente na mesma medida, a interpretação dos atores e o cenário que eles escolheram para fazer as suas vidas – e que fala muito sobre suas escolhas. Antes de Sleepwalking, Maher havia trabalhado como assistente de direção em The Chumscrubber e como responsável de efeitos especiais de diferentes produções.

Pelo menos três coadjuvantes tem um certo destaque nesta história: Woody Harrelson como Randall, amigo do trabalho de James que acaba convidando o ex-colega a viver no porão de sua casa; Deborra-Lee Furness como Danni, uma mulher mais velha que parece se interessar por James; e Callum Keith Rennie, conhecido pela série Californication, como Will, um caminhoneiro que mantêm um caso com Joleen.

Aos que se interessam pela parte técnica dos filmes, destaco aqui duas pessoas que fizeram um bom trabalho em Sleepwalking: o espanhol Juan Ruiz Anchía como diretor de fotografia e Christopher Young pela trilha sonora.

Ainda que tenha qualidades, o roteiro de Zac Stanford sofre com um ritmo lento demais, em alguns momentos, e aparentemente vazio de significados, em outros. Como pontos positivos, destaco a já comentada valorização dos atores e o espaço que o filme dá para momentos construídos visualmente de maneira perfeita. O principal deles envolve Tara, uma piscina, um cigarro e patins. Aquela cena, em que a adolescente repete os passos da mãe e mostra talento em fascinar os homens (em seu caso, garotos), é uma das melhores do filme.

Sleepwalking estreou em janeiro de 2008 no Festival de Sundance. Sem ganhar nenhum prêmio e nem chamar muito a atenção das distribuidoras mundo afora, o filme acabou sendo lançado diretamente em DVD em muitos mercados.

Produzido pelos Estados Unidos e pelo Canadá, este filme foi rodado em duas cidades canadenses – Moose Jaw e Regina.

Entre março e maio de 2008, período em que o filme ficou em cartaz nos Estados Unidos, Sleepwalking conseguiu arrecadar pouco menos de US$ 169 mil nas bilheterias.

Acredito que a atriz AnnaSophia Robb, que ficou conhecida, entre outros, por seu papel como Loren McConnell em The Reaping, logo mais poderá abocanhar algum prêmio importante em sua carreira. Sleepwalking demonstra que a menina do Colorado atualmente com 15 anos está amadurecendo como intérprete. Olho nela, porque em 2010 será lançado Dear Eleanor, filme dirigido por Garry Marshall protagonizado por AnnaSophia e que conta uma destas histórias desenhadas para prêmio. No filme, a atriz interpreta uma garota de 14 anos que cruza os Estados Unidos em 1962, em plena crise dos mísseis de seu país com Cuba, para procurar a sua falecida mãe e também a Eleanor Roosevelt.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,2 para este filme. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais cruéis com Sleepwalking: lhe dedicaram 46 críticas negativas e apenas 10 positivas – o que lhe garante uma aprovação de 18%. Claudia Puig, crítica do USA Today, definiu Sleepwalking, neste texto (em inglês), como um indutor de sono. “Portentoso e maçante, o filme apresenta uma das piores performances da carreira de Dennis Hopper” que, para Puig, acaba com qualquer possibilidade deste drama familiar ser levemente interessante.

Concordo com a crítica quando ela diz que o roteiro tem vários pontos que não convencem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Puig exemplifica esta falta de coerência com a fuga fácil demais pela estrada de James e Tara, assim como a volta repentina de Joleen, “sem explicações a respeito de por onde ela passou, porque ela saiu ou porque voltou”. Se bem que, francamente, acredito que estas explicações viriam depois do reencontro dela com a filha. Mas Puig está certa ao comentar que os personagens do roteiro são exageradamente unidimensionais.

Outro texto bem interessante é este (em inglês), assinado por Lou Lumenick, do New York Post. “Cuidado com qualquer filme que termine com um clichê tão extremo como ‘Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida'”. Assim começa a crítica. hahahahahaha. Genial; e bem verdadeiro. Para Lumenick, Sleepwalking é “quase uma paródia dos filmes do Festival de Sundance”, onde estreou em 2008. Pior que realmente ele parece, muitas vezes, uma tentativa infrutífera de fazer parte do bom cinema independente norte-americano. Ele quase, quase chega lá…

Indico ainda esta crítica (em inglês) assinada por Stephen Holden, do The New York Times. “Filmado principalmente durante o inverno, em tons  pardos, cinzas e branco sujos, Sleepwalking sustenta um clima de frieza implacável, usando uma estética de desolação como símbolo de integridade. Integridade e qualidade, infelizmente, não são sinônimos. Sleepwalking permanece em um pequeno território onde poucos filmes – mesmo os indies – ousam pisar, mas apresenta falhas demais para torná-lo um candidato a ser considerado para premiações”, começa o texto de Holden. O crítico ainda comenta, lá pelas tantas, sobre a cena e Tara na piscina, afirmando que ela parece pertencer a outro filme – ele comenta isso porque considera que o diretor exprime o tom errado desta história. Gosto quando ele comenta que Sleepwalking, infelizmente, passa por uma metamorfose do “realismo social meticuloso para um thriller de horror”, referindo-se à passagem da cidade onde James, Tara e Joleen moravam para a fazenda de Reedy. Para Holden, a melhor atuação do filme é a de AnnaSophia Robb.

Lendo as notas de produção de Sleepwalking descobri que o roteirista, Zac Stanford, teria se inspirado na própria vida para escrever este que foi seu primeiro roteiro – e que ficou seis anos na gaveta até ser produzido. “Eu conheço esses personagens que cresceram em uma área mais rural”, comentou o roteirista que ainda disse ter pensado na questão da relação de pais e filhos depois que teve uma menina, criança quando ele produziu o texto de Sleepwalking.

A atriz Charlize Theron foi apresentada ao roteiro e se empolgou com ele, ajudando a produzir o filme. Ela gostou, especialmente, da reflexão que Sleepwalking faz sobre a capacidade das pessoas em determinar os seus próprios caminhos. Charlize disse que gostou da idéia de que “não temos que viver na escuridão ou nas sombras, ou ser perseguido de qualquer forma por causa de um legado ou por nossa família. Só porque temos o mesmo sangue fluindo pelas veias não temos que cometer os mesmos erros”. Para a atriz, a sua personagem no filme é o exemplo de uma destas mulheres que não tem vocação para ser mãe. Interessante.

CONCLUSÃO: Um drama familiar que começa promissor, conta com boas atuações – na maioria -, mas que, infelizmente, se perde pelo caminho. Ainda que tenha boas reflexões e alguns momentos bem construídos, Sleepwalking acaba não convencendo ou emocionando como deveria. Falhas do roteiro, que construiu personagens simplórios demais e situações que acabam não tendo a conexão/explicação adequada. Como curiosidade, para assistir a mais um bom desempenho de Charlize Theron, Nick Stahl e, principalmente, o grande trabalho até agora da atriz AnnaSophia Robb, o filme vale a pena. Mas estejam preparados para uma história um bocado sombria – no visual, na estética e nos temas abordados – e que apresenta alguns clichês desnecessários.