The Happening – Fim dos Tempos

O diretor indiano M. Night Shyamalan virou “cult” (cultuado) da noite para o dia quando lançou o realmente muito bom The Sixth Sense (O Sexto Sentido). Depois dele, veio Unbreakable (Corpo Fechado) que, diferente de muitas outras pessoas, eu gostei. Afinal, era uma história “livre” sobre, no fundo no fundo, heróis de HQs – pelo menos uma brincadeira com a idéia deles em “pessoas reais”. O problema é que The Sixth Sense foi uma unanimidade e Unbreakable não. O que ninguém suspeitava, na época – os filmes citados foram lançados em 1999 e 2000, respectivamente – é que M. Night Shyamalan estava apenas começando a descer a ladeira. Ele filmaria, depois, filmes controversos como Signs (Sinais, que eu odiei e outros amaram), The Village (A Vila, que também não me convenceu, mas que outros curtiram) e, em 2006, Lady in the Water (A Dama na Água, um dos piores do diretor até então, na minha opinião). Sempre existem opiniões divergentes – ainda bem!!! – mas, em geral, pode-se dizer que os filmes foram cada vez mais desagradando aos fãs e à crítica. Lady in the Water foi bombardeando por todos os lados. Assim, eu estava curiosa para assistir a esse The Happening porque queria saber se ele tinha conseguido ir ainda mais ladeira abaixou ou se, finalmente, tinha se recuperado um pouco da sequência de filmes ruins. E a verdade é que, ainda que não seja um filme realmente bom, pelo menos eu achei ele melhorzinho que os anteriores.

A HISTÓRIA: O dia começa normal em Nova York. Muitas pessoas caminham pelo Central Park em uma manhã quente e ensolarada. Cenas cotidianas esperadas até que as pessoas começam a ter estranhas reações. Quase todos ficam parados, como que congelados, e começam a andar para trás. Outros buscam maneiras de se matar. Logo estes e outros estranhos eventos começam a ganhar repercussão nas rádios e tevês, com as pessoas sendo orientadas a irem para casa e para evitarem os parques públicos onde os eventos começaram a ser registrados. Inicialmente se fala em ataques terroristas. Logo a história se foca na vida do professor de ciências Elliot Moore (Mark Wahlberg), que leciona na Filadélfia. Ele acaba saindo da cidade para o interior acompanhado da mulher, Alma (Zooey Deschanel), do amigo e professor Julian (John Leguizamo) e pela filha dele, Jess (Ashlyn Sanchez). O problema é que os ataques começam a ser cada vez mais frequentes, em espaços públicos variados e tendo como alvo grupos menores de pessoas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Happening): Algo têm-se que admitir: M. Night Shyamalan sabe como prender a atenção da platéia e tem o talento para construir cenas realmente desconcertantes. O início do filme é excepcionalmente bom – pena que apenas o início. Primeiro, a sequência de imagens de nuvens e música impactante dos créditos iniciais. Me fez lembrar as antigas sequências iniciais de filmes russos e italianos. Gostei muito, aliás, da direção de fotografia de Tak Fujimoto e da trilha sonora do geralmente ótimo James Newton Howard.

Fora a sequência dos créditos iniciais, a parte do filme anterior a apresentação do professor Elliot Moore realmente é muito boa. Os sintomas que afetam as pessoas, primeiro o da perda da fala, depois o da desorientação física – com perda de sentido de direção e, por fim, do suicídio coletivo, realmente é impactante. Aliás, talvez o filme não seja recomendado para os corações sensíveis – ainda que, geralmente, o diretor siga o seu lema de não mostrar propriamente a ação que provoca a morte mas, ainda assim, ele acaba mostrando o “depois”. A verdade é que essa sequencia inicial é o que motiva o espectador a assistir a todo o resto, porque realmente é impactante ver as pessoas caindo de prédios como se fossem folhas de papel ou mesmo ver a tanta gente buscando formas de se matar de algum jeito. Incrível e angustiante.

O problema do filme começa quando aparece o Sr. Moore. Há tempos já eu não entendo a ironia dos roteiros de M. Night Shyamalan. O que ele parece achar cômico e engraçado eu acho apenas patético. Então as primeiras falas do personagem de Mark Wahlberg – e muitas das que ele ainda vai soltar durante o filme – são realmente intragáveis. Exemplos? Muitos, mas para começar o diálogo dele com o aluno Jake (Robert Lenzi) realmente é de chorar. Se bem que, pensando agora, talvez ele tenha construído todo o absurdo da cena para dizer que algumas vezes as teorias mais aceitas, até no meio científico, podem ser ditas até por um idiota que não tem nenhum interesse na ciência. Será isso, uma grande crítica a base da nossa sociedade atual – que aposta na ciência? Huuuummmmm… se for isso, desculpe, mas discordo dele. Acho até que atualmente se dá menos importância para a ciência e mais para aparências e o consumo do que se deveria. Mas enfim, nem tentarei entrar na cabeça de M. Night Shyamalan. 🙂

O problema é que o personagem de Elliot Moore não vai melhorando conforme o tempo do filme passa. A cada fala – em especial nos diálogos com a mulher Alma – ele parece mais limitado intelectualmente. Mas ok, se o personagem principal não convence, pelo menos as sequências de angústia seguem interessantes. O problema é que elas são poucas. Grande parte do filme se desenvolve em uma fuga que parece não ter fim – e nem direção. Depois, quando finalmente fica evidente a razão dos tais “ataques”, o filme se torna ainda mais risível. (NÃO LEIA SE REALMENTE NÃO ASSISTIU AO FILME). Ok que nos últimos anos o assunto da vez é o aquecimento global, a “merda” que a Humanidade está fazendo com a Natureza e de como as gerações futuras – e até nós, atualmente – vão pagar por tudo isso, mas daí a escrever uma história em que as árvores, gramas e etc. se comunicam para exterminar os humanos como reação aos nossos abusos é um pouco demais, não? Ok, é um comédia e não um filme de suspense ou terror. Ah tá, agora entendi!! 🙂

Certo, o motivo pelo qual as pessoas são mortas pouco interessa, na verdade. Os “fins” aqui não justifica os meios e sim o que é contado antes do “grand finale” é o que interessa. Ainda assim, nem tudo antes é interessante. Como eu dizia antes, a maior parte dos diálogos é dispensável, cômicos mesmo, e uma boa parte da fuga incessante também se torna meio chata. Mas enfim, pelo menos achei melhor que Lady in the Water e que Signs. Se o diretor não consegue fazer diálogos que não pareçam descolados do que se está contando, ele pelo menos continua ótimo na escolha de planos de câmera e dos recursos para fazer uma história ser assustadora.

Ah, e antes que me esqueça: gostei também de uma pequena “discussão” que o diretor faz sobre o egoísmo das pessoas atualmente… Afinal, de que outra maneira se justificaria a morte “gratuita” dos dois garotos que acompanham o casal Moore em uma cidade do interior dos Estados Unidos. Foi uma maneira do diretor dar um tapa “com luva de pelica” nesta sociedade que parece tratar a idéia de dar um tiro em alguém para se proteger como algo perfeitamente aceitável. Afinal, é “só” uma vida que está lá fora. Achei bacana o fato dele nem mostrar os assassinos, afinal, eles poderiam ser qualquer um destes proprietários de casa e de armas que proliferam por aí. Muitos podem ver as mortes dos garotos como gratuitas e desnecessárias, mas perto de outras que o filme mostra, até achei estas com algum sentido crítico.

Também achei curiosa a participação de Frank Collison com um fazendeiro um tanto hippie e um tanto “maluco” (no fundo o mais racional do filme até então) e de Victoria Clark como a sua mulher. Os dois estão bem em seus papéis. Além deles, atuam no filme em papéis pequenos Jeremy Strong como o soldado Auster e Betty Buckley como a solitária e neurótica Mrs. Jones. Aliás, pensando nestes e em outros personagens, parece que o diretor e roteirista tentou, no fundo, fazer uma crítica disfarçada de suspense e com pitadas de comédia do que seriam vários estereótipos dos típicos “norte-americanos” – especialmente daqueles do interior do país. Só achei que, para variar, a neurose de M. Night Shyamalan em incluir crianças na história ficou outra vez forçada. Afinal, para que serve mesmo Jess na história? E não me digam que é o voto de “esperança” do diretor no futuro…

Enfim, um filme que está longe de ser bom, mas que pelo menos achei um pouco melhor do que os últimos do diretor. E por isso, apenas por isso, ele não receberá uma nota tão horrível por aqui. E também, admito, porque gostei muito das cenas iniciais, até entrar em cena o casal Moore – chato pra dedéu, diga-se. Ou seja: o filme de 91 minutos é bom realmente pelos primeiros cinco. hehehehehehehe. Agora eu fui má. A verdade é que ele ainda tem alguns bons sustos e cenas angustiantes depois que valem a pena.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como já era esperado, The Happening foi meio que “bombardeado” pela crítica. No site Rotten Tomatoes, por exemplo, são compilados 131 textos negativos e apenas 30 positivos para o filme – ainda assim, para comparar, ele foi melhor que o anteriormente comentado 88 Minutes. Enquanto isso, os usuários do site IMDb deram a nota 5,4 para The Happening – menor que para os anteriores Lady in the Water (nota 6,0), The Village (nota 6,6) ou Signs (nota 6,9). Tenho que admitir que da lista anterior os filmes que eu mais detestei foi Lady in the Water e Signs.

O filme teria custado aproximadamente US$ 60 milhões, o que não deixa de ser interessante. Afinal, o anterior Lady in the Water, que teria custado US$ 75 milhões, fracassou nas bilheterias, arrecadando nos Estados Unidos pouco mais de US$ 42,2 milhões. E, ainda assim, deram a fortuna de US$ 60 milhões para M. Night Shyamalan brincar… No fundo, eles tinham razão. O diretor parece ser daqueles que o público detona  mas que, no final, assiste. Digo isso porque The Happening arrecadou, até o dia 20 de julho, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 63,7 milhões. Ok que ele não irá encher o bolso dos estúdios de dinheiro, mas pelo menos ele já se pagou… o que é algo. Melhor que o anterior…

Eu não sei vocês, mas eu me irritei muito com a interpretação de Zooey Deschanel… não sei, parece que ela está “dopada” o filme inteiro, com aquele olhar perdido e umas frases desconexas. Certo que tais frases também são ditas por Mark Wahlberg e por quase todos os outros personagens, mas Zooey me irritou em especial.

Agora um comentário totalmente idiota (NÃO LEIA SE NÃO ASSISTIU AO FILME): juro que nos dias seguintes que vi a The Happening eu ia caminhando pelas ruas de Madrid, em direção ao meu trabalho, e olhava de forma irônica para as árvores balançando com o vento… ficava pensando: “Quando começará o ataque??”. hehehehehehehehehe

E ok, vai… vamos dar uma chance para o diretor com seu “libelo” contra o aquecimento global. 🙂

O filme é uma co-produção Estados Unidos e Índia (será que foi daí que veio a maior parte da bufunfa?).

Como comentei em textos anteriores, eu curto cartazes bem feitos de filmes… e, como sempre, os cartazes deste filme de M. Night Shyamalan realmente são muito bons.

CONCLUSÃO: Mais um filme da sequência nonsense de M. Night Shyamalan que tenta, a sua maneira, ser um cronista dos problemas modernos. Infelizmente ele não consegue ser tão feliz escrevendo diálogos quanto pensando em cenas interessantes de suspense. O filme é bacana pelos cinco minutos iniciais, com cenas realmente angustiantes de pessoas morrendo a tôrta e a direita. Tem momentos bem filmados e interessantes, mas a maior parte do tempo se mostra um filme com muitas entrelinhas e pouca eficiência, assim como vários momentos de diálogos absurdos e fugas sem fim. Ainda assim, com todos os defeitos que ele têm, achei um filme melhor que o anterior do diretor. Quem sabe ele não está se recuperando?

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88 Minutes – 88 Minutos

Sempre que uma lenda do cinema estadunidense como Al Pacino, Jack Nicholson ou Robert De Niro estrela alguma produção, o filme chama a atenção de imediato. Ainda que estes veteranos, há algum tempo já, vêm demonstrando bastante irregularidade em seus papéis – alguns, que inclusive, não se entende muito bem porque eles escolheram fazer. Este 88 Minutes me chamou a atenção só pelo fato de Al Pacino ser seu ator principal, além de que se trata de um filme policial – um gênero em que o ator nova-iorquino normalmente se dá bem. Pacino está melhor neste filme do que nos últimos que eu assisti com ele – como S1m0ne ou The Recruit – mas, ainda assim, ele está a léguas de interpretações que o tornaram uma lenda em Hollywood. Ainda que não conte com uma grande interpretação de Pacino, o filme não é totalmente horripilante. Tudo bem que ele exagera em muitas partes mas, ainda assim, consegue prender a atenção como um passatempo regular.

A HISTÓRIA: O psicanalista forense Dr. Jack Gramm (Al Pacino) conseguiu atingir o topo de sua carreira atuando em casos de homicídio conturbados e ao dar aula em uma universidade de Seattle. Sua fama cresceu, contudo, desde que ele se tornou uma peça-chave na condenação do serial killer (assassino em série) Jon Forster (Neal McDonough). Na véspera do criminoso ser morto com uma injeção letal, Gramm é visto em um bar rodeado de alunos comemorando. Ele sai de lá com Sara Pollard (Leah Cairns), com quem passa a noite. Na manhã seguinte, de ressaca, ele é chamado a seu escritório onde fica sabendo, através de um investigador do FBI, que na noite anterior uma aluna sua chamada Dale Morris (Kristina Copeland) foi morta da mesma maneira com que as vítimas de Forster eram assassinadas. Enquanto Forster tenta recorrer da sentença de morte, Gramm recebe uma ameaça de que será morto em 88 minutos, o que lhe faz correr contra o tempo para se salvar e descobrir quem matou a sua ex-aluna.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a 88 Minutes): O desenvolvimento do filme até que não é ruim. Realmente sempre funciona essa idéia de “lutar contra o tempo e uma ameaça de morte”. Dificilmente, por mais estúpido ou incompetente que um roteirista e um diretor possam ser, eles conseguem o feito de não prender a atenção do público com uma história de gato-caçando-o-rato que uma história do tipo propõe.

A questão de 88 Minutes, contudo, é que toda a história é baseada em idéias totalmente inverossímeis. Vejamos: por que a pessoa que quis matar usando o mesmo “modus operandis” do assassino em série prestes a ser executado esperou o dia de sua execução para começar a matar? Porque existe só algumas possibilidades para o assassinato da estudante: 1) O verdadeiro serial killer está a solta e voltou a matar; 2) Existe um imitador do serial killer preso e prestes a ser morto; 3) Algum comparsa do serial killer preso recomeçou a matar para libertá-lo. Mas em qualquer das possibilidades anteriores a pergunta que não quer calar é: Por que esperaram a noitada pré-execução para voltar a matar? Não seria bem mais fácil adiar um processo de execução se tivessem feito isso antes? A resposta está no título do filme: se tivessem matado antes, seria bem mais difícil convencer qualquer platéia de que o nosso “herói” receberia uma ameaça de 88 minutos para ser morto. Ainda que eu, pelo menos, não fui convencida igual. 🙂

Mas ok, vamos supor que teria realmente sentido esperar o Dia D para matarem outra pessoa e adiarem a execução de Jon Forster. Ainda assim, o resto do filme continua um tanto sem lógica. Vejamos (NÃO LEIA SE REALMENTE NÃO VIU AO FILME): se Gramm passou a noite com uma mulher, ele não tem um álibi certeiro para impedir que a polícia e o FBI duvidem dele como pessoa inocente? Afinal, como ele poderia ter matado a Dale Morris enquanto estava com Sara Pollard? Além do mais, se ele fosse um louco assassino, ele teria escolhido justamente o dia da execução do culpado de seu último grande caso para matar duas mulheres em uma mesma madrugada? Um tanto absurdo, não é mesmo? E pensar que, segundo o roteirista Gary Scott Thompson, essa parece ter sido a versão engolida pela polícia e pelo FBI, que passam a duvidar e até a perseguir Gramm.

Além de tudo isso, vão me desculpar os românticos por histórias de perseguição, mas eu sempre fico com uma certa raiva de filmes como este no quesito “enrolar ao máximo para dar um tiro”. Explico: a pessoa culpada por tudo que acontece – todas as mortes, sequestros e armadilhas para atrair Gramm – não teria sido muito mais eficaz dando um tiro nele a qualquer momento ao invés de fazer tudo que fez para conseguir uma simples gravação do Dr. Gramm? Ok, talvez eu esteja pedindo demais para um filme ruim, mas esses detalhes sempre me incomodam. Adiam a morte até o ponto em que ela se torna quase impossível de ocorrer. Pelo jeito todo bandido é meio burro. 🙂

Mas fora estes detalhes do filme – que para alguns pode ser o principal da história -, até que 88 Minutes se apresenta como uma boa diversão. Pelo menos é engraçado ver Al Pacino tentando ser galã novamente. 🙂 E fora isso, a verdade é que o elenco é bacaninha… além dos atores já citados, destaque para Alicia Witt como a estudante e assistente do Dr. Gramm, Kim Cummings – em um papel com muitas nuances e duplas interpretações; Leelee Sobieski como a estudante CDF Lauren Douglas (meio irritante ela, especialmente no final, mas tudo bem); Amy Brenneman como a secretária e braço-direito do Dr. Gramm, Shelly Barnes; e William Forsythe como o agente especial da polícia Frank Parks. Ainda fazem parte do elenco, mas em papéis tão pequenos que podem ser classificados quase como “pontas”, Deborah Kara Unger como Carol Johnson, da universidade onde Gramm dá aula; e Benjamin McKenzie como Mike Stempt, um dos alunos de Gramm.

A direção de Jon Avnet é competente, com bons planos de câmera e um ritmo condizente com a história – exceto por aquela forçada em planos lentos que abre o filme. A trilha sonora de Ed Shearmur também ajuda um bocado a história. E antes que alguém diga que é meio absurda também a “preocupação” do Dr. Gramm em proteger a todos ao seu redor, isso até achei que foi bem explicado no filme, já que ele tem uma história familiar de perda complicada no passado – e bem explorada por quem o está ameaçando agora em um legítimo “terror psicológico”. Também achei que o final, exceto pela característica “super poderosa” da pessoa culpada pelas mortes das mulheres e pela ameaça ao Dr. Gramm, ficou interessante. Especialmente o diálogo de Pacino por telefone…

Enfim, não é um filme totalmente imprestável, mas deve ser visto sem grandes reflexões ou preocupações lógicas. Se for ignorado tudo que é absurdo, até que ele tem um bom ritmo e algumas interpretações bacaninhas… 🙂

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que é meio cruel dizer isso, mas o cabelo de Pacino e o seu jeito de dançar no bar no início do filme realmente são de dar risada. Mas ele até que não está mal em cena… cumpre seu papel.

O filme teria custado aproximadamente US$ 30 milhões e arrecadou muito menos que o esperado nos Estados Unidos. Até maio deste ano ele tinha conseguido pouco mais de US$ 16,9 milhões nas bilheterias norte-americanas.

88 Minutes também não convenceu críticos ou público. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para o filme, enquanto que o site Rotten Tomatoes, com críticas de vários jornalistas e comentaristas selecionadas, publicou 98 críticas negativas e apenas seis negativas – um dos filmes com pior avaliação que eu tenho lembrança.

Realmente algo que incomoda no filme, se formos ser racionais, são os possíveis “suspeitos” das mortes que presenciamos após a produção começar. No fundo, ninguém tinha realmente motivos concretos para fazer o que foi feito – exceto a velha idéia de querer arquitetar um “plano perfeito” o que, cá entre nós, estava longe de ser uma realidade. Para quem gosta de um mínimo de lógica, o filme é ruim. Mas não sei… sempre gosto de ver Al Pacino em cena – mesmo quando ele está “meia-boca”.

Para quem não lembra, o diretor Jon Avnet dirigiu antes a Red Corner (Maré Vermelha), um filme razoável de perseguição e intriga com Richard Gere. Um ano antes, em 1996, ele dirigiu a Up Close & Personal (Íntimo & Pessoal), um filme romântico que juntava no telão a Robert Redford e Michelle Pfeiffer. Depois destes dois filmes, Jon Avnet basicamente dirigiu produções para a TV, até que voltou ao cinema com 88 Minutes. Agora ele está na fase de pós-produção de Righteous Kill, um filme policial em que junta depois de muito tempo em uma mesma produção os “monstros sagrados” Al Pacino e Robert De Niro.

Mas se por um lado Jon Avnet parece estar ressurgindo das “cinzas” depois de 11 anos sem filmar para os cinemas, Al Pacino insiste em se arriscar em projetos arriscados… como a refilmagem do clássico Rififi. Acabo de ver que ele está no projeto e me deu um medo… a chance de que “caguem” (desculpem a expressão) um filme clássico é gigantesca. Por que Hollywood não investe dinheiro em divulgar obras-primas com essa ao invés de refilmá-las e estragar o que era bom?? E depois ele dará vida a Salvador Dali (ai Jesus!!!) no filme Dali & I: The Surreal Story, dirigido por Andrew Niccol e previsto para 2009. Juro que essas produções me dão medo! Alguém já imaginou alguém mais distante de Salvador Dalí que Al Pacino? Bem, até que é possível imaginar… 🙂

O filme é uma produção dos Estados Unidos, da Alemanha e do Canadá.

CONCLUSÃO: Um filme no melhor estilo “caçada-cão-e-gato” com vários suspeitos nada convincentes jogados na trama e que acaba sendo intrigante, ainda que bem difícil de ser “engolido”. O roteiro é ruim, mas os atores estão bem em seus papéis mais ou menos acabados. Al Pacino faz seu papel, sem ser genial mas, pelo menos, sem irritar ou se arrastar em cena. Como entretenimento, pode compensar – mas não gaste seu dinheiro com ele, espere ver de graça na televisão ou na casa de algum amigo. 🙂

In Bruges – Na Mira do Chefe

Existem filmes de ação e sobre criminosos muito diferentes… alguns apostam mais nas perseguições, outros em planos de roubo ou assalto arriscados, outros ainda em “dissecar” o que se passa na mente de um ou mais vilões. Realmente há de tudo, para distintos gostos. Mas são poucos os filmes sobre criminosos marcados, essencialmente, pela auto-ironia e por um bocado de cinismo. Comentei antes aqui no blog sobre o filme Shoot ‘Em Up, que também vejo como um belo exercício de “tirada de sarro” de filmes do gênero. Mas este In Bruges é ainda mais satírico, cínico, e o melhor: não apenas com filmes do gênero, mas essencialmente com parte da cultura inglesa. Realmente é um filme engraçado e que tem um ritmo um tanto louco – com altos e baixos nas horas mais inusitadas. Ele não tem muitas cenas de ação – e as que tem, são “à moda antiga”, ou seja, perseguições de homem contra homem em ruas com neblina, nada de carros em alta velocidade, lanchas, aviões ou qualquer outro meio de transporte enlouquecido pelos lugares. Na verdade, pensando bem, In Bruges consegue ser, ao mesmo tempo, um filme “à moda antiga” e uma produção inovadora. Ele consegue ter essa dupla personalidade sem ser esquizofrênico – apenas engraçado. Mas um humor inglês, deixe-se bem claro! Sutil, cínico, provavelmente não indicado para todos.

A HISTÓRIA: Ray (Colin Farrell) e Ken (Brendan Gleeson) são enviados para a cidade de Bruges, na Bélgica, por ordem do chefe deles. Ray está muito descontente. Ele quer voltar para Londres o mais rápido possível e não entende o que está fazendo em uma cidade belga pequena. Ken, mais experiente, tenta acalmar o amigo e animá-lo a conhecer Bruges, destacando os seus canais, igrejas antigas e demais edifícios do patrimônio histórico. Ray, inconsolável, só começa a se interessar pela cidade quando vê a um anão… e, seguindo-o, acompanha uma filmagem. Fascinado por anões e por mulheres bonitas – assim como por cerveja -, Ray acaba conhecendo a Chloë (Clémence Poésy), por quem fica encantado. Mas aos poucos vamos descobrindo porque Ray e Ken, dois assassinos de aluguel, foram enviados para Bruges – e as razões não são das melhores.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a In Bruges): Difícil fazer um resumo do filme sem estragar surpresas. Aliás, REALMENTE recomendo que você, caro leitor, pare de ler se ainda não assistiu ao filme, porque daqui por diante vou estragar todas as surpresas – e são elas que dão graça à história. Algo que gostei no roteiro do também diretor Martin McDonagh é como ele vai nos contando mais sobre as duas figuras principais da história pouco a pouco. É como se ele nos desse pequenos biscoitos de cachorros como prêmio por cada minuto que vamos gastando com o filme.

Então, inicialmente, não sabemos que Ray e Ken são dois matadores de aluguel. Nem sabemos porque o chefe deles, chamado Harry Waters (Ralph Fiennes) lhes envou para lá. Tudo indica, inicialmente, que eles foram para lá para, quem sabe, matar alguém por ali… depois, parece que o chefe está querendo escondê-los por um tempo, depois que Ray matou acidentalmente a um menino durante o trabalho de matar um padre. Só depois é que descobrimos que as razões de Harry são muito diferentes.

Achei muito engraçado todo o “desprezo” de Ray para a cidade. É como se ele dissesse, a cada segundo: “E o que me interessa essa cultura, esses séculos de história? São apenas igrejas, apenas construções antigas e sujas”… heheheheheheeh. Na verdade ele fala essas coisas, não assim literalmente. Enquanto isso, Ken tenta aproveitar o tempo por lá. Que remédio? Mas tudo muda, claro, quando Harry finalmente liga e comunica a Ken a razão deles estarem ali: ele quis que Ray, antes de morrer, conhecesse a sua visão de “paraíso” na Terra, ou seja, que conhecesse a Bruges. E o mais cômico é que Ray, se não fosse por ter conhecido a Chloë, teria odiado a experiência. hehehehehehehehe. Ironia pura! E das boas.

Achei cômica a fixação de Ray com anões. O cara ficava louco toda vez que pensava em um anão e cada vez que via a Jimmy (Jordan Prentice). Sei que fazer piadas com anões e qualquer outra minoria é politicamente incorreto, mas a sequência em que Ray vai “tirar satisfações” com Jimmy no bar, depois de estar louco por ter cheirado cocaína, é algo absurdamente cômico. Falando em absurdo, o filme tem que ser visto com um bocado de percepção de “realidade fantástica”, porque tem várias cenas que são exatamente isso – e não apenas a sequência final, mas a maioria das cenas com Jimmy e com Harry, para dar exemplos. Guardada todas as devidas proporções, mas o trabalho do diretor Martin McDonagh me lembrou um pouco a Fellini.

Respeitando ao máximo a “lenda” que gira sobre os ingleses – aliás, a história brinca muito com estereótipos -, o filme exagera nos palavrões e nos personagens bebendo cerveja. E a partir do momento em que Harry aparece em cena, ele exibe muitas armas e um bocado de violência. Como Eastern Promises (que eu comentei aqui), In Bruges também fala de “código de ética” dos bandidos – neste caso, especialmente na sequencia final. Cheio de surpresas pelo caminho, é uma história que sempre vai mudando de rumo e segurando a atenção do espectador.

Só que repito: é um filme com humor muito inglês, ou seja, é um humor um tanto irônico e diferente do que estamos acostumados no dia-a-dia. Nem por isso deixa de ser bacana, pelo contrário. Só talvez não convença ou goste a todos.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Segundo informação do site IMDb, a palavra “fuck” e seus derivados são ditos 126 vezes durante o filme. Levando em conta que a produção tem 107 minutos, isso significa que um palavrão é dito mais de uma vez por minuto. heheheheheheheehhe

Colin Farrell e Brendan Gleeson estão geniais em seus papéis. Os dois convencem muito – e não sei como eles não morriam de rir de algumas de suas falas. 🙂

Nos Estados Unidos o filme teve uma bilheteria um tanto fraca… pouco mais de US$ 7,7 milhões. Na Inglaterra, até o dia 1 de junho, ele tinha conseguido pouco mais de 4,7 milhões de libras esterlinas.

In Bruges foi indicado para três prêmios na Golden Trailer Awards, uma premiação criada para valorizar os melhores trailers feitos pelo mercado. Das três indicações que recebeu, In Bruges ganhou como o Mais Original trailer feito em 2008. Curioso.

Tanto o público quanto os críticos gostaram do filme. Uma prova disto é a nota 8,1 que os usuários do site IMDb deram para a produção, assim como as 99 críticas positivas compiladas pelo Rotten Tomatoes. Os críticos que tem textos publicados no site dedicaram ainda 26 crônicas negativas sobre o filme.

Esse é o primeiro longa do diretor londrino Martin McDonagh. Antes ele tinha filmado apenas a um curta: Six Shooter, de 2004. Mas claro, esse curta não foi “apenas” mais um, porque ele ganhou o Oscar e outros quatro prêmios.

Os dois cartazes que vi do filme achei ótimos também. Nada como cuidar de cada detalhe de um projeto e ter uma noção de “identidade” dele em tudo bem feita, não é mesmo?

CONCLUSÃO: Filme de ação com muito humor politicamente incorreto sobre a vida de dois bandidos que são enviados para Bruges, na Bélgica, e que esperam por ordens de um tal de “Harry”. Produção inglesa que tira sarro de tudo, especialmente sobre fazer turismo, sobre o “jeito inglês” e muitos outros estereótipos. Indicado para quem gosta do humor inglês e de um filme que aposta um bocado pelo surrealismo.