State of Play – Intrigas de Estado

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Eu tenho um problema com filmes que abordam a investigação jornalística. Eu admito. E a razão é simples: como jornalista que acredita na função social da nossa profissão, me comove acompanhar histórias de pessoas talentosas que se arriscam para fazer a sujeira que foi jogada para baixo do tapete vir à tona. Eles cumprem, assim, uma das funções sociais possíveis – e tão pouco praticadas hoje em dia – do jornalismo. E me emociono com estas histórias mesmo quando elas não são reais, como é o caso de State of Play (aqui em espanhol). O filme estrelado por Russell Crowe, Ben Affleck e Rachel McAdams, entre outros, é baseado em uma série televisiva da BBC escrita pelo inglês Paul Abbott. Não é baseada em uma história real, como o clássico All The President’s Men, que reconstitui o magnifício trabalho de Bernstein e Woodward no Caso Watergate. Ainda assim, mesmo se tratando de uma ficção, State of Play se apresenta com uma história bastante convincente e, por todas suas qualidades, se tornou um dos meus filmes preferidos sobre o trabalho de jornalistas.

A HISTÓRIA: Um jovem corre desesperado pela noite de Washington, mas sua fuga acaba terminando em um beco escuro onde ele é assassinado. Um homem que passava de bicicleta pelo local acaba sendo atingido também, mas sobrevive. Na manhã seguinte, o jornalista Cal McAffrey (Russell Crowe) chega ao local e consegue algumas informações extra-oficiais do detetive Donald Bell (Harry Lennix). Pouco depois, o congressista Stephen Collins (Ben Affleck) é informado que a sua assistente, Sonia Baker (Maria Thayer), foi encontrada morta em uma estação de metrô. Em uma declaração que faz ao público pouco depois, em meio a uma sessão do Congresso que investiga as operações de uma empresa de segurança privada atuante nas guerras em que participa os Estados Unidos, Collins se emociona ao comunicar a morte de Sonia Baker. Essa imagem acaba repercutindo na imprensa e faz com que o congressista seja investigado por uma relação amorosa extra-conjugal. Mas seu envolvimento com Sonia Baker é apenas uma parte de uma intricada trama envolvendo interesses corporativos, Exército e políticos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a State of Play): Um grande diretor e três ótimos roteiristas. Adicione a esta receita quase perfeita um grupo de atores competentes. E voilà: você consegue um filme envolvente, intricado e redondinho. Perfeito, ouso dizer. Pois State of Play é exatamente isso.

Para começar, a direção do escocês Kevin Macdonald, responsável por, entre outras produções, a elogiada e premiada The Last King of Scotland. Com State of Play ele mostra, mais uma vez, porque é um nome respeitado e um dos grandes diretores a se ter em conta atualmente. Macdonald sabe respeitar cada momento da narrativa. Em outras palavras, valorizar a atuação dos atores, com closes e planos de câmera que destacam as atuações de sua equipe sem, contudo, tornar o filme lento. Não. Ele é, com o auxílio da editora Justine Wright – que trabalhou com ele no filme anterior -, perfeito em cada corte, garantindo velocidade ao filme mesmo quando ele se torna mais “introspectivo”.

Na mesma medida, Macdonald sabe contar uma história intricada sem torná-la chata ou lenta demais. Pelo contrário. A escolha de seus planos de câmera em cada perseguição, os cortes rápidos quando isso é necessário, cada escolha de posicionamento é planejada e executada com perfeição para servir a história. Outra pessoa que ajuda neste processo é o diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto que, algumas vezes, faz escolhas arriscadas – como na sequência inicial, um tanto escura demais (em uma busca por realismo, sem dúvida). Aliás, o tom realista marca o filme.

Os outros grandes responsáveis pela qualidade de State of Play são os roteiristas que adaptaram para o cinema o texto original de Paul Abbott. São eles: Billy Ray, Matthew Michael Carnahan e o premiado Tony Gilroy. Para resumir, três cobras dos roteiros. E isso se percebe na telona. State of Play nos surpreende mais de uma vez. No melhor estilo de investigação policial e/ou jornalística, somos levados pela mão pelos tortuosos caminhos de crimes e mentiras engendradas para encubrí-los. Mas, para satisfação do espectador, parece que as surpresas nunca terminam. Quando você acha, como os protagonistas, que chegou ao fim da história, existe algo mais para encontrar. E a obstinação dos jornalistas envolvidos na investigação é de tirar o chapéu – quem dera que ela fosse mais frequente.

Mesmo sendo uma ficção, o roteiro de State of Play cai como uma luva para os tempos atuais. Afinal, poucas vezes na história recente tantas “teorias da conspiração” envolvendo possíveis interesses escusos de políticos e governistas – especialmente dos Estados Unidos – esteve tão em voga. Ninguém mais parece se convencer que as guerras se justificam apenas para defender um “modelo de democracia”. Todos buscam a trilha do dinheiro e as pessoas que estariam lucrando com estas guerras e outros conflitos. Nesta corrente de pensamento State of Play surge como uma história convincente e que nos envolve, de quebra, em um interessante jogo de interesses que não se restringem apenas ao Exército e aos políticos “corruptos ou corruptíveis” mas, também – e o que torna mais interessante -, na esfera da imprensa.

Ainda que o tema principal do filme não seja esse, mas é interessante perceber o jogo de dependência que ocorre nesta história entre jornalistas, políticos e investigadores policiais. Todos parecem precisar um dos outros, chegando ao ponto em que não conseguimos perceber quem é a vítima ou o vampiro. E para tornar ainda mais interessante esta história, existe um envolvimento pessoal muito forte entre os personagens centrais desta trama.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Cal McAffrey é um velho amigo do congressista Stephen Collins e, por ter traído o amigo com sua mulher, Anne (a sempre linda e talentosa Robin Wright Penn), no passado, parece se sentir eternamente em dívida com ele. Este envolvimento pessoal de Cal com Stephen acaba sendo explorado pela chefe do jornalista, Cameron Lynne (a sempre ótima Helen Mirren). Até um ponto. Quando percebe que esta relação pessoal entre o profissional a seu cargo e a principal fonte da reportagem está colocando em risco a reputação do jornal – o que, convenhamos, era inevitável -, a editora se questiona sobre a ética de todo o processo. Mas esse questionamento era um tanto tardio. O que também é interessante, porque deixa ainda mais evidente que a questão ética, para as grandes empresas, pode ser relativa – depende mais dos resultados e das finanças do que de padrões que devem ser seguidos.

Bem, mas não era disso que eu queria falar. Estava comentando como as relações pessoais entre os personagens centrais acabam colocando a trama em outro nível, um patamar de questionamentos éticos que vai muito além de suas respectivas profissões e atinge o nível das relações pessoais. Está em jogo conceitos como amizade, amor, fidelidade, diferentes níveis de compromisso e de afeto. Tudo isso torna a trama ainda mais interessante – e mostra como ninguém, absolutamente, está livre de ser avaliado, criticado e absolvido. Nesta história não existem apenas mocinhos e bandidos – mas pessoas complexas e, por isso mesmo, humanas.

Alguns podem encontrar em State of Play mais uma filme de trama policial que envolve, de quebra, políticos e jornalistas. Mas eu vejo mais do que isto. Além do que comentei no parágrafo anterior, sobre a questão do envolvimento pessoal entre diferentes partes desta história, vejo neste filme uma interessante reflexão sobre os novos passos das grandes corporações. Pode parecer chato esse papo, mas a verdade é que cada vez mais poucos estão dominando muitos ou, em outras palavras, que poucas organizações estão se espalhando como pragas por todos os lados. Dominando desde meios de comunicação de massa até petroleiras, de redes de supermercado até construtoras. Enfim… tudo indica que o poder está cada vez mais se concentrando na mão de alguns – e que não aparecem, como os políticos que eles manipulam ou as publicações jornalísticas que eles compram. E as privatizações feitas pelos governos ou as licitações que acabam parando sempre nas mãos destas poucas organizações – algumas vezes “divididas” em vários nomes – só aumentam o seu poder. Pode parecer um tema chato, mas é importante que filmes como State of Play toquem nele – ainda que seja através de uma ficção.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei que State of Play toque na questão das licitações feita pelo governo e da “privatização do Departamento de Defesa”. Estas são duas portas de entrada, realmente, para as organizações corruptas e manipuladores entrarem “oficialmente” em áreas de interesse público. Infelizmente no Brasil e na maioria – talvez na totalidade – dos países do mundo não existe o número suficiente de pessoas atentas a isso.

Todos os atores estão muito bem neste filme, mas destaco, em especial, a atuação bastante emotiva e precisa de Russell Crowe – ele voltou à sua grande forma – e do trabalho de Rachel McAdams. A atriz, que interpreta uma jovem jornalista envolvida, pela primeira vez, em uma grande reportagem, foi a revelação do filme para mim. Rachel McAdams está perfeita no papel, sem exagerar na pose de “garota burrinha que faz tudo para aprender” e nem cair no erro de afrontar o “mestre” todo o tempo.

Aliás, State of Play tem outra pimentinha interessante em seu roteiro: o embate entre o jornalismo “tradicional” (leia-se os jornais em papel) e a “nova mídia” – aqui representada pelo blog Capitol Hill da jornalista iniciante Della Frye. Na parte inicial do filme, quando os roteiristas ainda não entraram na trama “grossa” envolvendo ex-militares e políticos, assistimos aos personagens de Crowe e McAdams se degladiando para serem ouvidos – ou seria lidos? Ele defendendo sua “velha forma” de fazer jornalismo, enquanto ela apostava suas fichas na “nova onda” da informação online. Verdade que a blogueira se apressa em publicar algumas informações – como a que, equivocadamente, apostava no suicídio da assessora do congressista. Mas é igualmente verdadeira a “contaminação” do trabalho do veterano repórter investigativo desde o início, porque ele tenta, de uma ou outra forma, proteger o seu amigo político pelo qual sente-se endividado. Muito interessante este “embate” – e que não termina, por mais que se especule, com um grande vencedor. Isso porque, mesmo que a grande reportagem “mereceu” ser publicada no jornal impresso, Cal McAffrey deixa evidente que sem a “nova forma” de pensar o jornalismo, ela não teria sido finalizada. Bacana.

Outro nome do elenco que merece aplausos é Jason Bateman. Seu personagem aparece em um momento decisivo do filme e ele, nos minutos que aparece na história, rouba a cena. Literalmente. Ele está excepcional. Robin Wright Penn também consegue magnetizar as atenções sempre que aparece – ela está especialmente bonita neste filme. Além deles, merece menções, ainda que em papéis menores, Jeff Daniels como o senador George Fergus; a indicada ao Oscar Viola Davis em mais uma aparição relâmpago, agora na pele da Dra. Judith Franklin, que ajuda McAffrey a conseguir uns números de telefone da primeira vítima desta trama; David Harbour como Red Six, ex-integrante da Pointcorp; e Michael Berresse como Robert Bingham, o homem responsável pelos assassinatos investigados no filme.

State of Play consegui uma boa opinião do público e da crítica até agora. Os usuários do site IMDb lhe conferiram a nota 7,7, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes lhe dedicaram 160 críticas positivas e apenas 27 negativas (o que garante para o filme uma aprovação de 86%).

Mas se a produção foi bem de crítica, não pode-se dizer o mesmo de sua bilheteria. Até agora o filme arrecadou pouco mais de US$ 36,2 milhões. Não é pouco, eu concordo, mas certamente esta cifra está muito abaixo do que os produtores esperavam.

A série original State of Play começou a ser transmitida pelo canal BBC em maio de 2003. Pouco depois, o produtor Andrew Hauptman começou a negociar os direitos da série com Paul Abbott para adaptá-la para os cinemas. Em novembro de 2004 ele conseguiu este acordo, começando então um longo processo de adaptar uma minissérie de seis horas para um filme de pouco mais de duas – e mudando seu cenário, que agora passaria a ser a cidade de Washington.

Lendo as notas de produção do filme, achei curioso que o diretor Kevin Macdonald disse ter ficado em dúvida quando, cinco anos depois de ter assistido à série de TV original, ter recebido o desafio de adaptá-la para os cinemas. Seu questionamento era o de como adaptar seis horas de uma produção tão espetaculares em apenas duas. Foi aí que ele resolveu mudar tudo. “A base da trama é a mesma, mas o que a envolve mudou muito. Era óbvio que não podíamos fazer outra versão de algo tão genial. Tínhamos que reinventá-lo, e foi isso que fizemos”. Interessante. Fiquei curiosa para assistir a série original.

Outra curiosidade do filme é que ele teria sido prejudicado pela greve de roteiristas que afetou várias produções em Hollywood no final de 2007 e no início de 2008. Segundo as notas de produção do filme, dois atores que haviam concordado em fazer o filme, pularam fora do projeto com o atraso que significou aquela greve. Ainda que os nomes dos tais atores não sejam citados no material de divulgação do filme, se tornou público que Brad Pitt e Edward Norton seriam os astros que pularam foram do projeto. A sorte dos produtores é que entraram em cena Russell Crowe e Ben Affleck.

Russell Crowe aceitou fazer o personagem de Cal McAffrey porque viu neste papel uma forma mais honesta de tratar a “objetividade jornalística”. “Os jornalistas querem ser objetivos; supostamente suas relações pessoais e sua vida não afetam as suas reportagens. Mas neste caso, não é assim que acontece. Eu gostei de que lhe mostramos como seres humanos. Às vezes eles não conseguem se livrar da história, o que pode ter bons ou maus resultados”, opinou Crowe sobre seu papel. O ator está bem “gordinho” neste filme – propositalmente, é claro, porque desta forma ele reforça a idéia de um “veterano” do jornalismo sedentário e “chegado” na bebida – whisky, por favor!

Ben Affleck, por sua vez, disse ter sido atraído pela ambiguidade do seu personagem. “Collins é um enxadrista que não desperdiça nem um único movimento. No seu mundo, os amigos pressionam para conseguir o que querem. O mesmo acontece com os meios (de comunicação). Na corrida para conseguir a notícia, suas fontes costumam lhes manipular conforme seus interesses”. Melhor dito, impossível.

Além dos atores, do diretor e dos roteiristas, o filme contou com uma equipe técnica competente que garantiu, por exemplo, um ambiente bastante legítimo para a redação do Washington Globe. Conforme o material de divulgação do filme, o desenhador de produção Mark Friedberg e a decoradora Cheryl Carasik percorreram diversos jornais, entre eles o Washington Post e o Los Angeles Times, para sua pesquisa. Nestes locais eles teriam feito centenas de fotos, assim como empreenderam uma busca nos arquivos das publicações para conseguirem um ambiente bastante legítimo para State of Play.

Algo curioso desta produção é que o diretor de fotografia, Rodrigo Prieto, utilizou dois tipos de câmera para as filmagens: uma Panavision comum equipada com um conjunto de lentes anamórficas que nunca tinham sido utilizadas ainda em um longa metragem; e uma câmera digital Genesis. “Decidimos explorar dois mundos, e que cada um deles seria diferente um do outro. Utilizamos lentes anamórficas para o mundo do jornalismo e a câmera digital para o mundo político, em parte porque nós, os cidadãos comuns, vemos aos políticos apenas através das notícias”, comentou Prieto. Tanto Macdonald quanto Prieto quiserem diferenciar através das lentes os dois personagens principais, mostrando um Cal desordenado e um Stephen mais formal. Apenas a cena final do filme foi diferente. “A filmamos com uma câmera na mão porque o congressista entra no mundo de Cal”, justifica o diretor de fotografia.

Para constar: State of Play é uma co-produção dos Estados Unidos, Inglaterra e França.

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado sobre as relações de dependência entre dois dos poderes mais presentes na vida cotidiana das pessoas: o do jornalismo e o da política. De quebra, esta intricada trama nos traz assassinatos, conspirações e uma visão um bocado cínica sobre os bastidores das guerras e da segurança pública. Quase ninguém escapa do crivo dos roteiristas e do diretor que, ao mesmo tempo, nos apresentam dilemas pessoais e da sociedade. Envolvente e bem ritmado, State of Play é um filme completo. Particularmente indicado para as pessoas que gostam do tema do jornalismo – e para quem é fã de clássicos do gênero como All The President’s Men.

PALPITES PARA O OSCAR: Sei que é muito cedo para falar do próximo Oscar, mas sinceramente eu vou me arriscar. Pelo histórico da premiação, um filme lançado no início do ano, como State of Play, não tem muitas chances de chegar com força para ser indicado. Ainda assim, para mim, este é o caso de uma produção que mereceria entrar na lista seleta dos indicados. Seja por um dos atores – Jason Bateman, volto a dizer, está fantástico -, pelo roteiro ou pela direção. Mas ele mereceria chegar lá. E talvez consiga.

Elementarteilchen – Partículas Elementares

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Alguns filmes são um verdadeiro prato cheio para os aficcionados da psicoanálises. Elementarteilchen é um destes. Baseado no livro polêmico de Michel Houellebecq, conhecido por ter revolucionado a escrita francesa a partir dos anos 90, este filme alemão foi feito para não deixar ninguém indiferente. Colocando em primeiríssimo plano a questão da sexualidade e das frustrações cotidianas, Elementarteilchen apresenta ao espectador dois meio-irmãos opostos entre si em todos os aspectos, mas que são ligados por uma mesma origem provocadora e de abandono. Carregado muitas vezes de um tom bastante irreal e com uma boa carga de sexo e violência psicológica, este filme acaba sendo um bom exemplo de como a adaptação de uma grande obra literária pode ficar bastante abaixo do esperado. Tudo indica que Elementarteilchen simplifica a obra original, tornando as histórias dos meio-irmãos “apenas” uma questão freudiana.

A HISTÓRIA: Michael Djerzinski (Christian Ulmen) prepara uma carta de demissão de seu cargo em um instituto de biotecnologia. Nela, ele tenta explicar a sua impulsão de voltar para o que considera “elementar”. Mas essa sua busca, logo ele vai descobrir, não envolve apenas uma mudança de país e de emprego, mas também o reencontro com a sua grande paixão da infância e juventude, Annabelle (Franka Potente). Paralela a história de Michael, acompanhamos as desventuras de seu meio-irmão, o professor Bruno Klement (Moritz Bleibtreu). Assombrado por um sentimento de rejeição que lhe acompanha desde a infância, ele busca no sexo fora do casamento uma maneira de manter-se seguro. Depois de tentar seduzir uma aluna e de passar uma temporada em uma clínica psiquiátrica, ele migra para um acampamento hippie onde conhece a libertária Christiane (Martina Gedeck).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elementarteilchen): O resumo acima acabou contando mais do filme do que eu normalmente gosto de narrar, mas achei necessário para conseguir citar, na sinopse desta produção, os nomes dos quatro grandes atores que estrelam Elementarteilchen. Quem tem acompanhado o blog nos últimos tempos e/ou vem seguindo as estréias do cinema alemão nos últimos anos certamente conhece estes atores. Moritz Bleibtreu e Martina Gedeck estrelaram o recente Der Baader Meinhof Komplex, filme que foi indicado para representar a Alemanha no último Oscar – e que ficou entre os cinco finalistas ao prêmio. Franka Potente é conhecida por vários filmes, inclusive em Hollywood, mas eternamente será lembrada como a protagonista de Lola Rennt. E Christian Ulmen é conhecido pela série televisiva Dr. Psycho e pelo filme Herr Lehmann.

Esse quarteto de atores é o grande mérito de Elementarteilchen. Tanto a direção quanto o roteiro de Oskar Roehler acabam sendo apenas medianos. Me explico. Roehler acerta em muitos momentos do filme no quesito direção. Com a ajuda do diretor de fotografia Carl-Friedrich Koschnick ele consegue, por exemplo, diferenciar muito bem o “tempo atual” e o “passado” (leia-se flashbacks) dos protagonistas. Mas no geral, seu pulso com os planos filmados é bastante tradicional – ele não acompanha a inovação da história. E seu roteiro também fica a meio caminho de um bom trabalho. Se por um lado ele consegue manter um ritmo interessante no filme do início ao fim, nos surpreendendo a cada novo episódio da vida dos meio-irmãos protagonistas, por outro lado ele deixa uma grande característica da obra original jogada ao relento.

Certo que uma das características do livro de Michael Houellebecq é explorar como a questão da sexualidade e da libido influi decisavamente na vida de qualquer pessoa, jogando com a questão do desejo/rechaço sexual do filho pela mãe. Esse aspecto do complexo de Édipo e de outras idéias propostas por Freud – aqui você encontra um artigo interessante a respeito – estão presentes na obra original e no filme. Verdade. Mas conforme alguns textos que li sobre Houellebecq, esta questão não é a central de seu livro. Ou, pelo menos, não é o que lhe diferencia de outras obras que tratam do mesmo tema.

Segundo esta referência da Wikipédia sobre o autor, Les Particules Élémentaires ganhou muitos fãs por fazer uma reflexão bastante singular sobre a história do ser humano. Fica evidente, especialmente pelo início e pelo final do filme, que a obra original dá bastante importância para a questão científica, configurada na busca do personagem Michael Djerzinski em investigar a reprodução de organismos sem a necessidade do contato sexual. Mas no roteiro do diretor Oskar Roehler a parte científica é praticamente relegada a um pé de página. O que interessa, na sua adaptação da história, é a diferença com que os “frutos” de uma mesma mulher lidam com a sua sexualidade. Então temos, por um lado, os excessos de Bruno e, por outro, a negação da libido (até um certo ponto) de Michael.

Claro que a reflexão sobre as diferenças entre os protagonistas é válida. O tema de “o-que-nos-faz-ser-quem-somos”, no qual está imersa a questão fundamental da família e, mais especificamente, de nosso pai e mãe, sempre me interessou. Neste quesito, Elementarteilchen se mostra uma interessante reflexão de como podemos ser mais “agentes” de nosso próprio destino do que inicialmente se acredita (ou se vende nas prateleiras das ideologias). Afinal, Bruno e Michael foram igualmente abandonados por uma mãe “libertina”, provocadora e manipuladora, mas cada um fez seu caminho de forma oposta. Michael se dedicou à ciência e se tornou mundialmente conhecido por suas pesquisas, enquanto Bruno teve que lidar com sua sexualidade mal resolvida e com a rejeição materna de forma dura, entrando e saindo de clínicas psiquiátricas. Talvez esse seja o aspecto mais interessante do filme – ou, pelo menos, aquele em que os realizadores apostaram suas fichas.

O problema é que os outros questionamentos da obra, como a crítica mordaz de seu autor aos hippies e ao movimento contracultural, assim como a sua aposta na ciência como o caminho da Humanidade, foram jogados na tela de maneira disciplicente. Fica difícil entender como um homem que rechaça tanto as idéias liberais – e que escreve textos extremamente racistas -, como é o caso de Bruno, acabe suportando justamente um camping hippie em busca de sexo. Bem, talvez esta seja uma crítica do autor à nossa “modernidade”, na qual as convicções parecem tão diluídas e mutáveis.

Mas pior que isso são as citações científicas do roteiro, que apontam de maneira leviana para uma “era da clonagem”. Pelo roteiro de Elementarteilchen, a reprodução assexuada parece ser a solução para a loucura e o descontrole – ressaltando a antítese entre Michael e Bruno. O problema é que estas idéias são jogadas de maneira descuidada na tela, perdendo espaço para as aventuras sexuais de Bruno e Christiane, para dar um exemplo – inevitável não lembrar de Eyes Wide Shut, grande último filme de Kubrick. Uma pena que o filme tenha gastado tantos esforços em mostrar apenas o lado mais sexual da obra de Houellebecq. Se bem que, pelo menos estes questionamentos “freudianos”, valem a experiência.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Elementarteilchen é um destes filmes que merece ser visto mais de uma vez. Primeiro, por sua complexidade. São muitos temas e provocações em uma mesma história. Depois, porque todos os seus atores fazem um grande trabalho.

Além de uma fotografia competente, que eu já citei anteriormente, este filme traz uma trilha sonora muito bacana. Mérito de Martin Todsharow.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não comentei antes, porque o texto já estava muito longo – para variar 😉 -, mas algo que me incomodou também no filme é a completa ausência de informações sobre as pessoas que criaram o personagem de Michael. Bruno, ficamos sabendo por ele mesmo, acabou sendo criado pela avó, depois que a mãe o abandonou. Mas e Michael? Ele foi criado pelo pai? Pelos avós? Teve uma madrasta? Não ficamos sabendo de nada disso. De sua adolescência e infância sabemos apenas que ele cresceu junto à Annabelle e sua família. Nada mais. Para mim, uma falha no filme – sinceramente não sei se o livro explica isso, mas imagino que sim.

Algo muito peculiar nesta história é o permanente tom de surpresa e de uma certa “fantasia” no que se refere ao passado dos personagens. Eu, pelo menos, ficava de boca aberta cada vez que Bruno contava um novo detalhe de seu passado. Pensava: “Não, ele não pode estar falando sério”. E talvez não estivesse. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). As cores exageradas em cada um dos flashbacks me fazem lembrar de outro conceito importante: de que nossa memória é recriada. Está comprovado que não lembramos de tudo que vivemos de forma exata e que, com o tempo, “recriamos” parte de nossa história. Ou a fantasiamos, se vocês preferirem. Então quem garante que Bruno realmente foi para uma escola onde sofria abusos sexuais? Ou que perdeu a virgindade com uma mulher que parecia dançarina de can-can justamente no velório de sua avó? Para mim, grande parte do passado dos protagonistas era uma criação de suas mentes.

Ouvi falar que algumas pessoas criaram uma certa polêmica quando o livro foi lançado por aqui graças ao trecho em que o Brasil entra na história. Ah, por favor! No filme o país também é citado. Mas não existe razão para polêmicas. O personagem de Bruno ataca a “libertinagem” no Brasil da mesma forma com que escancara seu racismo contra negros. Ele é um personagem polêmico e “desajustado” que, convenhamos, representa parte de nossa sociedade. Não é preciso que ninguém se escandalize com isso, porque ninguém está defendendo estas idéias – acredito que o autor estava sendo irônico. Ainda que, como afirma esta crítica sobre o livro – seguida de entrevista com Houellebecq -, o autor seja um positivista convicto, duvido muito que ele defenda idéias de extermínio ou segregação.

Buscando mais informações sobre o filme e o francês Michel Houellebecq, encontrei este texto interessante da revista o grito! que revela que o escritor não gostou da adaptação de sua obra para os cinemas. Segundo ele, a principal falha da produção foi a redução do personagem de Michael na história.

Quem quiser saber mais sobre o autor, recomendo dois textos: este, do blog de Paulo Patrício, que traz uma biografia de Houellebecq (por aqui fiquei sabendo que parte de sua experiência pessoal acabou parando nas páginas de seus livros); e este, do Recanto das Letras, que reproduz um texto do autor quando de sua visita ao Brasil – nele são lançadas muitas idéias controversas.

Elementarteilchen registra a nota 6,8 pela avaliação dos usuários do site IMDb. Por sua vez, os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram seis textos positivos para o filme – e nenhum negativo. Pelo menos por aquele site, ele foi uma unanimidade de crítica.

O filme teria custado 6 milhões de euros. Infelizmente não consegui informações sobre a bilheteria que ele fez na Alemanha ou em outros países.

Elementarteilchen concorreu a cinco prêmios no total, vencendo o de melhor ator para Moritz Bleibtreu no Festival de Berlim de 2006.

Gostei muito do cartaz original do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para mim, ele resume como poucos a idéia geral da produção: a mãe de Bruno e Michael aparece em uma cadeira de praia atrás deles e de suas “mulheres”, representando a importância que ela continua a ter na vida dos filhos mesmo depois de morta. Acho que poucas vezes a idéia freudiana da importância da mãe na vida sexual do filho foi tão bem representada graficamente. 😉

Agora, foi um pouco estranho ver a Franka Potente em um papel tão comportado… não sei, mas eu sempre a vejo com uma cara de quem vai fazer alguma loucura (ou sair correndo? ehehehehe). Falando nisso, o roteiro me fez ficar angustiada boa parte do tempo. Eu esperava, a qualquer segundo, que Bruno cometesse uma loucura – acho que estou muito condicionada a Hollywood.

E falando em atrizes, o que é aquela mulher chamada Martina Gedeck? Maravilhosa! Neste filme, muito mais “solta” com a questão de mostrar o próprio corpo do que em Der Baader Meinhof Komplex.

O elenco de apoio acaba aparecendo pouco. São papéis realmente secundários. Mas vale citar o nome de alguns atores que fazem parte dele: Nina Hoss como Jane, a mãe de Bruno e Michael; Uwe Ochsenknecht como o pai de Bruno; Corinna Harfouch como a Dra. Schäfer, que cuida de Bruno no hospital psiquiátrico; Ulrike Kriener como a mãe de Annabelle; e o veterano Michael Gwisdeck como o Professor Fleisser.

CONCLUSÃO: Um filme forte e surpreendente, que toca como poucos em questões centrais da psicanálises. Baseada em uma obra tida como revolucionária na literatura francesa, esta é uma produção que não deve deixar ninguém indiferente. Alerto, contudo, que ela mostra muitas e variadas cenas de sexo e que pode insultar algum desavisado por jogar, aqui e ali, algumas idéias bastante controversas. Ainda que deixe em segundo plano o debate científico do livro original, se torna uma peça interessante no que diz respeito a importância que os pais e os primeiros anos da formação de um indivíduo tem em sua vida adulta. Merece ser visto e, provavelmente, revisto. Pena que fique abaixo do esperado – levando em conta a obra original – e que deixe algumas questões sem resposta.

SUGESTÕES DE LEITORES: Elementarteilchen faz parte da minha série de críticas de filmes produzidos pela Alemanha, país escolhido pelos leitores deste blog em uma enquete feita no início deste ano. Mas, mais que isto, esta produção foi indicada pelo querido leitor Leandro Soares. Garoto, neste você acertou em cheio, hein? 😉 Muito boa a sua indicação. Gostei muito do filme, ainda que a nota tenha sido meio “baixa”. Mas acho que justifiquei bem os meus motivos. Se eu não tinha gostado de Mein Führer e tinha achado Barfuss apenas regular, desta vez me rendo ao seu bom gosto. E ainda tenho outros dois filmes que você indicou para assistir. Vamos ver se vou gostar dos que faltam também. Muito obrigada, mais uma vez, por esta dica. E apareça, inclusive para falar o que achaste deste texto.

Crossing Over – Território Restrito

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Não é sempre que alguém tenta fazer um filme corajoso sobre o tema da imigração nos Estados Unidos. A realidade é que não é nada comum encontrar uma equipe de Hollywood que queira abordar o assunto dos estrangeiros que buscam o “sonho americano” sem sucesso. Especialmente depois do ataque terrorista ao World Trade Center. Por esse motivo foi tão surpreendente (e gratificante) assistir a Crossing Over, um filme bem escrito, dirigido e que, de quebra, conta com um elenco de respeito. Incluindo o astro Harrison Ford, a sempre concorrida Ashley Judd e a brasileira Alice Braga que, ainda que não fale mais que um par de frase no filme, acaba sendo uma peça-chave na trajetória do protagonista – e na simbologia do roteiro. Uma produção rara para os padrões de Hollywood, destas que tentam reafirmar o lado “politicamente correto” daquela que pretende continuar sendo a indústria do cinema mais vendida mundo afora. Crossing Over não é perfeito, contudo. E isso fica evidente na chuva de críticas negativas que ele tem recebido – elas não são gratuitas, ainda que um pouco exageradas.

A HISTÓRIA: Diferentes etnias de imigrantes são retratadas pelo filme, incluindo muçulmanos, asiáticos, latinos, turcos, judeus e uma australiana em busca de sucesso como modelo e/ou atriz. De uma maneira ou de outra, os distintos estrangeiros acabam se cruzando pelo filme, a maioria deles passa pelo caminho do agente da imigração Max Brogan (Harrison Ford). Veterano na busca e prisão de imigrantes ilegais, Brogan parece destoar de seus companheiros de farda no quesito de importar-se com as histórias das pessoas flagradas ilegalmente no país. Tanto que ele passa o filme todo atrás de Mireya Sanchez (Alice Braga), uma mexicana que é presa deixando um filho para trás. Paralela a história de Brogan, acompanhamos os problemas familiares de outro agente da imigração, Hamid Baraheri (Cliff Curtis); o envolvimento antiético e corrupto de Cole Frankel (Ray Liotta), casado com a advogada Denise (Ashley Judd), com a modelo e atriz Claire Shepard (Alice Eve). Ela, por sua vez, briga por conseguir ficar nos Estados Unidos da mesma forma que o namorado, o músico/professor judeu Gavin Kossef (Jim Sturgess).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Crossing Over): O maior atrativo deste filme, para mim, desde o início, foi o nome da atriz Alice Braga. Não é todos os dias que uma jovem intérprete brasileira aparece nos créditos principais de um filme estrelado por Harrison Ford, Ray Liotta e Ashley Judd. E devo dizer que pelo tanto que ela aparece na tela, ela mereceu muito mais publicidade do que o propriamente merecido. Não que ele não esteja bem em cena. Não se trata disso. Mas é que ela aparece menos de dois minutos em um filme que dura 113 minutos! Se ela não estivesse com a moral em alta em Hollywood, seu nome talvez aparecesse apenas nos créditos finais da produção. Mas não é isso que acontece.

Alice Braga – como o sobrenome sugere, ela é sobrinha da atriz Sonia Braga – comprova seu bom momento em Hollywood ao ter, com esta superponta em Crossing Over, conseguido estampar seu nome em sexto lugar nos créditos do filme. Ela fica atrás apenas de Harrison Ford, Ray Liotta, Ashley Judd, Jim Sturgess e Cliff Curtis. Fora os três primeiros, conhecidos mundialmente, Sturgess merece destaque depois de ter virado um dos sonhos de consumo da meninada por suas interpretações em Across the Universe e em 21; e Curtis é o segundo personagem masculino com maior evidência na história. Alice Braga, ainda que tenha falado bem suas frases em espanhol, aparece pouco no filme para ter conseguido figurar em sexto lugar nos créditos. Isso só se justifica pela evidência que ela está tendo em Hollywood, algo confirmado pela revista Forbes, que a colocou (como eu já comentei antes aqui) na lista dos atores mais relevantes da indústria cinematográfica hollywoodiana atualmente.

O curioso é que Alice Braga aparece nos créditos, por exemplo, à frente de Alice Eve, Justin Chon e Summer Bishil, três atores que assumem uma posição muito mais importante para a história – e que aparecem mais em cena – do que a Mireya Sanchez da brasileira. Mas, vejam bem, não estou reclamando da evidência de Alice Braga. Pelo contrário. Acho que ela merece e que esse feito precisa ser comemorado. Agora é esperar para conferí-la nos filmes Repossession Mambo, com Jude Law e Forest Whitaker no elenco, e Eleven Minutes, com Mickey Rourke e Vincent Cassel.

Nossa, até parece que esse texto é SÓ sobre a Alice Braga. Bem, levando em conta que eu assisti o filme especialmente para vê-la, até que se justifica. 😉 Mas vamos lá… falemos de Crossing Over. A exemplo do anteriormente comentado por aqui Trade, este filme estrelado por Harrison Ford e escrito e dirigido pelo sulafricano Wayne Kramer me surpreendeu por suas partes ousadas. Especialmente na relação antiética e corrupta de Cole Frankel com a jovem Claire Shepard (a competente – temos que ficar de olho nela – Alice Eve). Não é nada comum um roteiro de Hollywood mostrar que existe um lado “podre” nos departamentos de imigração dos Estados Unidos. Impressionante a forma com que a aspirante a atriz acaba se transformando em prostituta na mão deste sujeito que tem um “certo poder” – como tantos outros – em um escritório de Los Angeles. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Só achei desnecessário e um tanto forçado quando o roteiro de Kramer sugere que Frankel abandonaria a mulher e o plano de ter filhos para ficar com uma garota que mal conhecia – uma “aliviada” na conduta do personagem que poderia ter sido evitada, ainda que tenha rendido boas frases em um diálogo de confronto com a personagem de Claire.

Outra história que merece destaque é a da família de Talisma Jahangir (a também promissora Summer Bishil, revelada em Nothing is Private). Ainda que o tema dos abusos do governo dos Estados Unidos contra os árabes, muçulmanos e demais imigrantes “suspeitos do Oriente Médio” depois do 11 de Setembro tenha sido abordado recentemente – por filmes como o também comentado por aqui Rendition -, nunca é demais mostrar como uma simples tarefa de escola pode render um ato de segregação e discriminação dos mais duros. Como na época das ditaduras latinas – e de outros países comunistas -, a sensação que estas pessoas devem ter é de estarem sendo vigiadas por um “regime policial” a todo instante. Muito bem conduzida a história da adolescente que acaba, sem querer, separando a família de forma arbitrária. Summer Bishil é a responsável por alguns dos momentos – poucos, diga-se – mais emocionantes do filme.

Falando em emoções… Crossing Over talvez tenha nascido, na mente de Wayne Kramer, como um filme para emocionar. Talvez. Mas na prática ele atua mais como uma história para chocar e provocar revolta, incômodo, do que emoção. É um filme com um forte discurso político, disso não há dúvida. Com tantos personagens participando desta história, fica impossível adentrar mais no caráter humano dos personagens e de suas vivências e exclusões. Uma pena. Algumas das histórias contadas, para o meu gosto, estão sobrando no filme. Como a da família de Hamid Baraheri (Cliff Curtis)… para que, cargas d’água, inserir um “suspense” criminoso na história? Entramos no jogo de “Quem matou Zahra Baraheri (a bela Melody Khazae)?” de graça… talvez a intenção do roteirista/diretor fosse a de jogar mais tintas na questão das “diferenças culturais” que compõe a mestiçagem estadunidense. Mas o resultado é que a história apenas tira o foco do que seria o eixo central do filme. O personagem de Yong Kim (Justin Chon) e sua família era suficiente para mostrar os imigrantes que “dificilmente” se enquadram nos Estados Unidos.

A intenção dos realizadores deste filme, contudo, parece ter sido das melhores. A idéia é boa e a direção também. O roteiro, apenas, merecia alguns ajustes. Alguns cortes aqui, uma ou outra aprofundada nos personagens ali, e talvez o filme seria perfeito. Conta a seu favor uma direção de fotografia precisa e atenta de Jim Whitaker e, principalmente, um belo trabalho do compositor Mark Isham em um trilha sonora que, algumas vezes, conduz o filme mais do que o roteiro de Kramer.

Mas apesar do excesso de personagens e da trama policial que sobra lá pelas tantas no filme, algo as pessoas tem que admitir: o final de Crossing Over é um dos mais simbólicos que vimos nos últimos tempos. (SPOILER – realmente não leia se você ainda não assistiu ao filme). Max Brogan chega à casa dos pais de Mireya Sanchez e, sem dizer uma única palavra, entrega para a mãe da garota morta a carteira que foi encontrada com ela na fronteira do México com os Estados Unidos. Com esta cena, Kramer nos remete ao simbolismo dos oficiais do Exército que vão à casa das famílias dos militares mortos em guerra para lhes informar, pessoalmente, que seu filho ou filha morreu em combate, como um herói. A cena seguinte, em que Brogan explica o que aconteceu com Mireya – mas não podemos ouví-lo – no quarto da família, apenas reforça o simbolismo deste final. As palavras dele sobram. O que vale é a força da cena que coloca, no mesmo nível, o heroísmo e o absurdo de mortes como a de uma imigrante ilegal e a de um militar norte-americano. Descontados os problemas do filme, para mim, este final torna válido todo o restante.

NOTA: 9,5 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tenho certeza que ninguém vai concordar com a nota que eu dei para este filme. Mas não tem problema. Acho que justifiquei bem a minha avaliação com o parágrafo final da crítica. Ainda assim, admito: o filme é longo demais e tem algumas partes bastante arrastadas, com uma ou outra história que poderia ter sido cortada ou, pelo menos, resumida. Ainda assim, o final compensa (adoro me repetir!).

O diretor sulafricano Wayne Kramer tem 44 anos e poucos filmes no currículo – comparado a outros profissionais do ramo e de sua geração. Antes de Crossing Over, ele dirigiu a três filmes e a um curta-metragem (que tem o mesmo nome e, ao que tudo indica, serviu de ensaio para este Crossing Over). Não lembro de ter assistido a nenhum de seus filmes anteriores, mas vale a pena mencionar que os três conseguiram uma nota maior que 7 na avaliação dos usuários do site IMDb – não é todo mundo que pode se orgulhar disso, mesmo os grandes nomes de Hollywood.

E falando no site IMDb, por ali o filme Crossing Over mereceu apenas a nota 6,7. Algo muito bom, se comparado com a chuva de críticas negativas registradas em outro site de referência, o Rotten Tomatoes. Neste último, Crossing Over foi alvo de 70 críticas negativas e apenas nove positivas, o que lhe garante uma aprovação de apenas 11%. Uma das piores que eu vi nos últimos tempos. Acho que não é para tanto.

O filme também foi mal – ok, péssimo – nas bilheterias. Nos Estados Unidos, onde ele estreou em março, ele arrecadou pífios US$ 454 mil (atenção, mil e não milhões) até o dia 19 de abril. O que me surpreendeu, ao buscar mais informações, é que esta produção, que leva a assinatura dos poderosos produtores executivos Bob e Harvey Weinstein – eles não precisam ser apresentados, não é mesmo? – tenha estreado em apenas nove salas de cinema nos Estados Unidos e tenha chegado, ao máximo, a 42 cinemas. Isto é nada para os padrões de Hollywood. Estranho, muito estranho. Parece que resolveram matar o filme depois que ele ficou pronto.

Buscando um pouco mais de informações, descobri algo que pode justificar a conduta kamikaze dos Weinstein: eles teriam se desentendido com o diretor, Wayne Kramer, que pretendia deixar o filme com 140 minutos de duração. Depois de ter sido ameaçado por Bob e Harvey, que disseram que poderiam lançar o filme apenas em DVD, ignorando os cinemas, o diretor resolveu diminuir a duração de Crossing Over – que ficou então com 113 minutos. Dizem as más línguas que, na verdade, o corte final no filme foi feito diretamente por Harvey Weinstein e pelo produtor Frank Marshall. Ou seja: eles passaram como verdadeiros tratores nesta história. Segundo o site Hollywood Elsewhere, depois dos produtores fazerem sua própria edição do filme, ela teria sido reprovada por Harrison Ford que, por sua vez, fez a sua própria versão de Crossing Over – e que foi reprovada por Weinstein. Nossa, que rolo! Mas ele ainda não terminou…

Outro problema enfrentado pelo filme foi a exclusão de um pequeno papel que seria feito por Sean Penn. O ator exigiu que as cenas em que ele aparecia no filme fosse eliminadas. Existem duas versões para isto ter ocorrido: a primeira é de que Penn não concordou com a maneira com que os personagens árabes/iranianos foram mostrados pelo filme; a segunda é de que ele viu o seu personagem se tornar tão secundário para a trama, depois de vários cortes feitos na edição, que resolveu ser excluído de uma vez por todas. O fato é que isso só contribuiu para a aura de “projeto maldito” e, claro, para atrair menos atenção para o filme – afinal, Sean Penn acaba de ganhar um Oscar. Segundo o site Hollywood Elsewhere, Penn não gostou de nenhuma das versões finais do filme e, sem ter seus pedidos de mudança atendidos, resolveu ficar de fora da produção.

Se a saída de Penn ocorreu desta maneira, realmente, fica cada vez mais evidente o poder que os astros estão assumindo em Hollywood. Afinal, como um ator pode exigir que um filme seja mudado depois de ter aceitado fazer parte dele? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certamente estava no roteiro do filme, desde o princípio, o episódio do assassinato motivado por “honra” da personagem de Zahra Baraheri, não é mesmo? Ainda que eu concorde que este crime tenha sido desnecessário, como pode um ator assinar um contrato, contracenar em um filme e, depois, resolver mudá-lo? Entendo a posição de Penn, mas fico admirada com o poder que ele e outros astros – como Harrison Ford – conseguiram atingir em Hollywood. Isso comprova que, nem sempre, um diretor e roteirista são os autores de suas obras – parece que cada vez menos. Também me pareceu um bocado exagerado o “pulso-firme” do Sr. Weinstein – que acabou, por sua conta e risco, prejudicando um projeto no qual investiu vários milhões de dólares. Ele deve estar podendo queimar dinheiro. Uma pena para a atriz Alice Braga, que acabou recebendo menos atenção do que poderia – se o filme não tivesse passado pelos problemas que passou.

Algo que o filme retrata – SPOILER – é a idéia de que, atualmente, as pessoas estão preparadas para fazer de tudo para conseguir uma melhor oportunidade na vida. Isso pode ser visto em qualquer país considerado desenvolvido ou que, pelo menos, atingiu uma melhor “qualidade de vida” média para seus habitantes. Seja nos Estados Unidos, na Espanha ou no Japão, muitas pessoas de diferentes etnias, credos e origens acabam convivendo juntas e “disputando” espaço em busca de melhores condições de vida. Esse é o tema central do filme, mais do que qualquer idéia de patriotismo estadunidense. Desde o judeu que se lembra de ter essa origem apenas para conseguir um visto de trabalho até o pai muçulmano que decide ver a família dividida para conseguir ficar no país em que acredita que terá melhores condições de vida, todos buscam o mesmo.

CONCLUSÂO: Um filme polêmico em muitos e variados sentidos. Primeiro, pela temática, ao abordar distintos aspectos do “problema” da imigração nos Estados Unidos. Depois, pelos embates deflagrados nos bastidores, entre os produtores do filme, seu diretor e astros – incluindo o pedido de exclusão de cena do ator Sean Penn. Apesar de todas as polêmicas e de alguns problemas de roteiro, acredito que é um filme que merece ser visto. Especialmente porque ele está ajudando a atriz brasileira Alice Braga a assumir, cada vez mais, uma posição de interesse no cenário hollywoodiano. Bem dirigido, Crossing Over é um filme que mexe com os sentimentos de pessoas que viveram, de uma forma direta ou indireta, o problema da xenofobia e da divergência de interesses em um mundo cada vez mais competitivo. Pena que essa competição parece ter afetado o filme – um exemplo de como Hollywood pode ser uma verdadeira fogueira das vaidades.

The International – Trama Internacional

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Um filme sobre os meandros do poder e da economia, normalmente, não cai no gosto do grande público. As razões para isso são compreensíveis: a parcela de pessoas que vê o cinema apenas como diversão e minutos de “distração” acham toda aquela trama uma chatice, algo complicado demais para “momentos de lazer”. Talvez por isso The International não tenha conseguido ir tão longe – leia-se bem nas bilheterias – quanto gostaria. Filme de ação com pequenas doses de suspense, ele é “complicado” demais para a média de produções do gênero. Mas, ao lado de The Corporation e de The Constant Gardener, este filme é um dos poucos que trata de maneira direta, algumas vezes dura e cínica, a nossa realidade contemporânea, onde determinadas organizações parecem ter seus tentáculos espalhados em diferentes mercados e negócios. Onde elas, para simplificar, parecem dominar o mundo e tratar as pessoas e seus desejos como simples títeres. Com uma ótima direção, um roteiro muito bem acabado e atores competentes, é um destes filmes que eu recomendo – ainda que, admito, ele nos deixe um tanto desanimados no final.

A HISTÓRIA: Do lado de fora do aeroporto de Berlim, dois homens tem uma conversa tensa em um carro escuro. Eles não chegam a um acordo, mas concordam que devem ter um novo encontro. Um deles sai do carro e comunica “Ela” – apelido de Eleanor Whitman (Naomi Watts) de que seu interlocutor revelou algo bombástico: o banco para o qual trabalha está negociando a compra de US$ 200 milhões em mísseis inteligentes. Pouco depois, este homem cai morto. Seu parceiro nas investigações, Louis Salinger (Clive Owen) corre para ajudá-lo, mas é atingido por um espelho lateral de uma van e não consegue fazer nada. Depois de tentar provar sem sucesso que o homem morto, Thomas Schumer (Ian Burfield) foi assassinado, Eleanor e Louis prosseguem suas investigações mesmo com a resistência da promotoria de Manhattan e da Interpol, para os quais eles trabalham. Eles querem comprovar – e provar – que instituições financeiras como o Banco Internacional de Negócios e Créditos, o IBBC, localizado em Luxemburgo, estão ligados ao crime organizado, ajudando a lavar o dinheiro do crime com a compra de armas que vão financiar guerras, guerrilhas e lutas armadas pelo mundo afora em troca de “favores” futuros.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The International): Como revelei no parágrafo anterior, este filme é um daqueles que quer comprovar como o dinheiro realmente manda no mundo. E o pior é que o roteiro de Eric Singer, muito bem escrito, nos convence bastante a esse respeito. Na verdade, é quase plausível a sua “teoria da conspiração” das instituições financeiras. Alguém já nos ensinou antes, no caso Watergate: “Siga a pista do dinheiro”. E o pior é que normalmente a trilha deixada por ele nos leva até as vertentes mais obscuras da conduta humana e, por consequência, do nosso modelo social.

Mas sem filosofar muito, vamos falar do filme. Achei injusto The International não ter conseguido chegar nem mesmo perto de uma bilheteria “respeitável” para os padrões atuais. Muito, mas muito mesmo bem dirigida por Tom Tykwer – um dos grandes nomes do “novíssimo” cinema alemão -, diretor que se esmeirou em cada detalhe das cenas filmadas e que conseguiu aliar um bom ritmo de ação com uma história densa (e tensa), esta produção merecia um pouco mais de atenção e de paciência do público. Afinal, não é apenas de explosões e de cenas de tiroteio e pancadaria que pode viver o cinema de ação – pelo menos isso é o que eu espero.

Merece igualmente menção os trabalhos excepcionais, neste filme, do diretor de fotografia Frank Griebe; da editora Mathilde Bonnefoy e do trio responsável pela trilha sonora (fundamental neste e em outras histórias do gênero): Reinhold Heil, Johnny Klimek e o próprio diretor, Tom Tykwer. Frank Griebe auxiliou Tykwer ao nos propiciar uma fotografia muito limpa e até, pode-se dizer, um tanto “gélida”, que carrega e valoriza o contraste entre as cores e, principalmente, o branco e o negro de todas as cenas. São detalhes que fazem toda a diferença e que impregnam o filme de uma aura um tanto dura e, porque não, realista. Na direção de fotografia e no roteiro existe pouco espaço para o cinza – a realidade é apresentada no melhor estilo do branco e do preto. Os meios tons podem estar presentes na fala de alguns personagens, que tentam esconder os seus crimes e motivações, mas as imagens revelam as intenções cruas de cada um através de suas expressões e dos contextos em que estão imersos. Excelente uso, por isso mesmo, da fotografia para ajudar a tornar a história ainda mais limpa e precisa.

A edição… bem, todos sabemos que ela é fundamental em um filme de ação. Cada corte de cena, cada costura das imagens deve ser feita para ajudar a contar a história, deixando o espectador com vontade de saber o que vai acontecer em seguida. E a parisiense Mathilde Bonnefoy consegue fazer esse trabalho de Hércules com precisão em The International. Como uma médica, ela sabe o lugar exato em que deve cortar e depois costurar a trama, em um trabalho ágil, cirúrgico e que ajuda a tornar a visão do diretor possível. A trilha sonora, como em muitos outros filmes, acaba se tornando uma peça fundamental, ajudando o espectador a entrar no clima da ação e do suspense. Tudo funciona bem, para resumir, em The International.

Os atores também estão seguros de seus papéis e fazem um bom trabalho. Mas não há dúvida, nesta história, que o grande personagem da trama é realmente o que vive o ator Clive Owen. Naomi Watts interpreta uma personagem secundária, tão importante para a trama quanto aquele vivido por Armin Mueller-Stahl, Ulrich Thomsen ou Brian F. O’Byrne. O primeiro interpreta Wilhelm Wexler, um ex-comunista que atualmente trabalha como consultor para o banco que negocia armas e demais “injeções” de dinheiro em troca de poder e de influência. Thomsen empresta seu talento para o personagem de Jonas Skarssen, o rosto por detrás da instituição financeira na mira dos investigadores; e O’Byrne interpreta o assassino de aluguel que serve a Wexler e aos interesses do banco – seu braço letal, invisível e perigoso, responsável pelas mortes estratégicas que a trama exige.

Mas além dos atores citados, no elenco existe pelo menos mais uma dezena de personagens secundários – e que, claro está, tem sua importância na trama – que estão bem escritos e cuidadosamente interpretados. No quesito elenco não existe nenhum grande porém. Acho que realmente o filme não fez o sucesso que poderia ter tido por apresentar um roteiro duro demais para os padrões de Hollywood. Afinal, ele não nos dá nenhuma grande esperança de mudar o intricado sistema corrupto e corruptível apresentado. A mensagem final é que estamos todos ferrados. Acho que isso não agrada muito a maioria das pessoas.

Explicando as referências que eu fiz lá no início do texto, vejo semelhanças entre The International e The Corporation no sentido de que ambos tentam mostrar como “todas as instituições estão ligadas” e de que as grandes corporações é que mandam no mundo – porque elas estão em todas as partes. Claro que as semelhanças terminam aí, porque The International é uma obra de ficção que se debruça apenas nas ramas criminosas de uma instituição bancária, enquanto The Corporation é um documentário que faz o interessante exercício de analisar as costuras existentes entre diversos tipos de organizações espalhadas por vários ramos da economia. Vi ainda algum paralelo entre The International e The Constant Gardner na parte em que as duas obras de ficção tentam jogar uma lupa nas partes mais obscuras de dois ramos distintos da sociedade – o sistema bancário e a indústria farmacêutica, respectivamente. Todos estes filmes merecem ser vistos. E se eles não nos dão muita esperança de “um mundo melhor”, porque os problemas parecem ser impossíveis de resolver, pelo menos eles nos tornam menos “inocentes” sobre o lado podre de uma realidade perfeitamente explicável.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como qualquer “teoria da conspiração”, o filme ganha e perde pontos por seguir esta trilha. Se por um lado ele convence, com um roteiro bem escrito – como eu disse anteriormente -, por outro lado ele peca justamente por simplificar algo complexo. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme ainda). Eric Singer escolhe um único banco para contar sua história, o que torna os “vilões” da trama quase como um bando de bodes-expiatórios. Se realmente o sistema financeiro está por trás de guerras, atentados contra civis e organizações criminosas, seria interessante mostrar um pouco mais desta complexidade, não? Por essa razão o filme acabou perdendo alguns pontinhos e terminou com a nota acima. Também não gostei do final… quer dizer, do pré-final. Para que, cargas d’água, Salinger correu atrás de Skarssen pelas ruas de Istambul?? Se não era para matá-lo, se não era para prendê-lo, era para quê, exatamente? Achei boba aquela perseguição, ainda que o ato final, seguido ao confronto dos dois, tenha sido perfeitamente irônico e interessante.

Além de estar recheado de cenas de ação, The International se destaca por levar uma equipe grande de atores e de profissionais do cinema para diferentes cenários mundo afora. Entre as locações, destaque para cidades da Alemanha, Turquia, Itália e Estados Unidos – incluindo o famoso Solomon R. Guggenheim Museum na 5a. Avenida de Manhattan.

Segundo notas de produção do filme, sua história foi inspirada em um escândalo que envolveu o BCCI – Bank of Credit & Commerce International durante o final dos anos 80 e início dos anos 90.

A produção teve sua estréia adiada porque várias cenas de ação tiveram que ser refeitas. O que acabou provocando uma certa ironia em sua estréia, em fevereiro deste ano, nos Estados Unidos, em meio da maior crise bancária dos Estados Unidos.

Como comentei no início deste texto, The International ficou muito abaixo do que os produtores esperavam, em termos de bilheteria. Ele arrecadou, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 25,4 milhões até o dia 22 de março de 2009.

A produção também não caiu no gosto do público ou da crítica… ela conseguiu apenas a nota 6,8 na avaliação dos usuários do site IMDb, enquanto que os críticos que publicam textos no Rotten Tomatoes dedicaram 108 críticas positivas e 78 negativas para The International (o que lhe dá uma média de 58% de aprovação).

Para mim, a cena mais alucinante do filme foi feita no museu Guggenheim… perfeitamente filmada.

CONCLUSÃO: Um competente filme de ação que traz um roteiro um pouco mais complicado que o normal. Ou, em outras palavras, um texto que procura teorizar sobre o verdadeiro papel do dinheiro no mundo contemporâneo. Mesmo se tratando de uma obra de ficção, ela foi baseada em um escândalo bancário real e caiu de paraquedas no momento em que os bancos tem suas condutas questionadas. Claramente um filme de atores, ele é bem conduzido pelo diretor alemão Tom Tykwer, especializado em produzir filmes velozes. Vale ser visto, seja como puro passatempo ou como uma pílula a mais no repertório de histórias que nos fazem pensar sobre o quanto as sociedades modernas foram corrompidas do primeiro ao último escalão. Apenas o quase-final deixa um pouco a desejar, mas nada que tire o mérito de todas as outras qualidades técnicas e de narrativa do filme.

SUGESTÕES DE LEITORES: Coloquei esse filme na lista de filmes alemães para serem vistos por duas razões, basicamente: 1) Ele é uma co-produção da Alemanha, dos Estados Unidos e da Inglaterra e, principalmente, 2) Ele é dirigido por Tom Tykwer, um dos principais diretores da nova safra do cinema daquele país. Volto a comentar, para quem chegou no blog com este último texto, que estou na fase final de análise de uma série de filmes alemães. Em uma votação entre os leitores deste blog, a Alemanha ganhou com um bocado de vantagem para ser o país de origem de várias críticas por aqui. Então sigo com essa tarefa. Agora só faltam cinco filmes para a lista acabar… Depois disso, como sempre, minhas escolhas serão aleatórias – mas sempre tentando encontrar filmes bons para comentar.

Surveillance – Sob Controle

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O diretor David Lynch é um destes sujeitos que eu adoro acompanhar. Quando ele lança um novo filme, estou atrás. Então, quando vi que sua filha, Jennifer Chambers Lynch, havia se lançado no mesmo ofício, fiquei curiosa. Certo que Surveillance não foi seu único filme – o anterior, o superatacado Boxing Helena, ignorei solenemente. Mas foi o primeiro em 15 anos… e, para mim, o primeiro dela que eu assisti. E gostei, gostei muito. Talvez ele marque o começo de um caminho de redenção para a moça – hoje com 41 anos. Tomara que ela siga os passos de outra diretora filha de celebridade, como é o caso de Sofia Coppola, filha de Francis Ford Coppola. Desejo sorte, para ambas – e que as críticas negativas não lhes tirem a vontade de filmar.

A HISTÓRIA: Dois criminosos invadem o quarto de um casal e matam, brutalmente, o homem que estava dormindo segundos antes. A mulher consegue fugir, mas é perseguida pela rua. A sequência dura até que terminam os créditos iniciais. Corta. Aparece na tela os agentes do FBI Elizabeth Anderson (Julia Ormond) e Sam Hallaway (Bill Pullman), que se dirigem para uma delegacia local para interrogar os três sobreviventes de um massacre. Confrontando as versões do que havia acontecido na manhã do dia anterior, eles devem equilibrar os ânimos dos policiais locais, resistentes a uma “interferência” do FBI na investigação dos serial killers, e conseguir, ao mesmo tempo, descobrir a verdade através da ótica dos sobreviventes de um dos crimes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Surveillance): Como um legítimo thriller, Surveillance é recheado de momentos de tensão, de crimes, terror e, claro, alguma reviravolta. Mas, devo admitir, que fazia um bom tempinho que eu não era tão surpreendida por uma história quanto esta. (SPOILER – por isso volto a insistir, não leiam a partir daqui para não estragarem o filme inteiro). Em momento algum eu desconfiei que os mocinhos eram, na verdade, os bandidos. Impressionante o chapéu que os roteiristas Ken Harper e Jennifer Chambers Lynch nos dão. E também merece aplausos as interpretações dos protagonistas, é claro. Porque eles não escondem, em momento algum, um certo “descontrole” – sem, contudo, nos revelar a verdadeira fonte de seu “tesão”. Depois que acontece a reviravolta na história, tudo parece fazer ainda mais sentido.

Não sei os demais críticos, mas para mim o filme funciona em todos os seus elementos. Para começar, achei acertada – e pontual, sem ser exagerada – a diferenciação do “tempo narrativo” de Surveillance. Isso ficou por conta da direção de fotografia de Peter Wunstorf, que supervalorizou a luz nos “flashback’s” imprimindo uma idéia de “passado violento carregado de cores irreais”. Um recurso interessante, já que o usual, em filmes do gênero, seria tornar os mesmos flashback’s mais sombrios e/ou carregados. Na visão de Wunstorf a versão de cada sobrevivente dos crimes deve ter uma luz superexposta – que até poderia queimar as suas mentiras? Para contrastar com esta luz exagerada, o presente se mostra natural e, algumas vezes, até um pouco sombrio (um prenúncio do que vai acontecer?).

O elenco também funciona. Especialmente os protagonistas, Julia Ormond e Bill Pullman, que se saem muito bem em papéis que não são nem um pouco frequentes em suas respectivas carreiras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os dois seguram muito bem o suspense na medida em que eles não deixam transparecer, em momento algum, a verdadeira motivação por trás de seu “trabalho” como agentes do FBI. Quando descobrimos, para nosso deleite, eles não viram assassinos enlouquecidos, mas a encarnação pura e simples de um casal de serial killers que alimenta o seu tesão um pelo outro através do crime. E, depois de assistir a Surveillance, sou da opinião que este tipo de filme cai como uma luva para Ormond e Pullman – podia ter uma sequência desta história, hein, hein? 😉

Além deles, merece destaque o trabalho da menina Ryan Simpkins como Stephanie. Como algumas outras crianças em Hollywood anteriormente, ela demonstra segurança e maturidade em sua interpretação. Também estão bem seus papéis Pell James como a permanentemente chapada Bobbi Prescott; Ken Harper como o enlouquecido policial Jack Bennet; e, em menor medida – porque fazem papéis menos importantes, French Stewart como o parceiro de Jack, Jim Conrad; o veterano Michael Ironside como o Capitão Billings; Gill Gayle como o policial “de pá virada” Degrasso e, por fim, Charlie Newmark como o policial Wright.

Mas para não dizer que tudo são flores, Surveillance tem um pequeno grande problema na hora de nos convencer de toda a sua história. (SPOILER – não leia para… você já sabe, estragar o filme). Ok que thriller’s não precisam ser totalmente lógicos. Mas se o roteiro estava se esmeirando tanto até então… Achei genial, por exemplo, a saída de Lynch e Harper (que, só agora, me toquei ser o policial atirador) para a morte de tantas pessoas em sequência. Afinal, até o momento em que os crimes ocorreram, eu fiquei pensando: “Como duas pessoas podem ter matado cinco de uma só vez? Ou não eram apenas dois criminosos?”. Então a saída para este problema foi bastante original. Mas o problema está em dois momentos perto do final… ou alguém vai me convencer que o policial vivido por Harper, tão bom na pontaria, erraria duas vezes na hora de matar Elizabeth Anderson? Ah não, né? Em duas ocasiões ele tinha a criminosa no alvo e simplesmente… errou? Esse deslize do roteiro fez o filme cair no meu conceito original.

Mas descontado este “defeito” do roteiro, é preciso admitir que o texto tem algumas tiradas ótimas. Como quando Bobbi ironiza sobre o “apetite sexual” de Elizabeth, comentando que ele não parecia o de uma policial. hehehehehehehe. Ou o terror psicológico praticado pela dupla Jack e Jim contra os motoristas e os acompanhantes dos dois carros envolvidos na carnificina. Também acertada a brincadeira com a tão famosa “queda-de-braços” entre os policiais e os agentes do FBI e similares. Normalmente funciona a ironia com os lugares-comum.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Agora, certamente alguém vai comparar Surveillance com Natural Born Killers, uma obra-prima (para o meu gosto) de Oliver Stone. Certo, certo… as duas histórias contam as desventuras de um casal de serial killers… mas as semelhanças terminam por aí. Pessoalmente, acho difícil comparar os dois filmes, porque no de Stone os protagonistas são declaradamente insanos, enquanto no filme de Lynch eles são, mais que nada, frios e calculistas. A intenção dos filmes, sua dinâmica e características narrativas também são muito diferentes. Ou seja, repito, não dá para comparar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não é todos os dias que um ator se revela um grande roteirista e, de quebra, um competente produtor. Por isso mesmo, merece entrar na lista de nomes a serem observados o de Kent Harper. Depois de atuar em nove filmes e de produzir seis longa-metragens, ele se lançou no ofício de roteirista ao lado de Jennifer Chambers Lynch, nos presenteando com este interessante trabalho chamado Surveillance. Este ano, em 2009, ele estréia em outra frente: a de diretor. Harper dirige e estrela dois novos roteiros de sua autoria: Man Against Man e Lost in Utopia. Para este ano está previsto ainda que outro roteiro seu ganhe forma, o de The Script, que será dirigido por Raj Pathak. O problema de todos estes projetos, ao dar uma olhada neles no IMDb, é que nenhum parece estar andando pra frente. Ainda assim, vale a pena ficar de olho em Harper.

Para os que gostaram da trilha sonora do filme, vale citar o seu autor, Todd Bryanton. Outro que faz um bom trabalho na produção é o editor Daryl K. Davis.

Surveillance é um bom exemplo de como uma produção de baixo custo pode render um filme bacana. Ele custou, aproximadamente, US$ 3,5 milhões. Para se ter uma idéia, isso representa menos de um quarto do que consumiu o suspense Transsiberian, recentemente comentado aqui no blog – e, cá entre nós, inferior a Surveillance. Difícil ainda medir o sucesso do filme entre o público, já que ele estreou, até agora, basicamente em festivais – e em alguns mercados de forma limitada.

Em sua trajetória por diferentes festivais, Surveillance abocanhou três prêmios: de Melhor Filme no Sitges – Catalonian International Film Festival do ano passado e os de Melhor Atriz (para Ryan Simpkins) e de Melhor Direção no New York City Horror Film Festival. Merecidos, eu diria.

Por tudo que eu comentei, achei muito baixa a nota que o filme recebeu na avaliação dos usuários do site IMDb: 6,5. Os críticos que tem seus textos reunidos no site Rotten Tomatoes foram um pouco (pouco mesmo) mais generosos: dedicaram 18 textos positivos e sete negativos para a produção, o que lhe rendeu uma aprovação de 77%.

E uma curiosidade desta produção: ela é financiada com dinheiro dos Estados Unidos e da Alemanha. Tenho notado que os alemães têm investido bastante no cinema ultimamente, seja em produções 100% germânicas ou em variadas e cada vez mais comuns co-produções com outros países.

Sei que é quase redundante fazer este alerta, mas sim, Surveillance tem um bocado de violência e sangue na tela – os sensíveis devem pensar duas vezes em assistí-lo, ainda que não exista nada verdadeiramente forte para assustar.

Antes comentei sobre a diretora, Jennifer Chambers Lynch, estar envolvida em um novo projeto. Pois está em fase de pré-produção o filme dirigido e roteirizado por Lynch chamado Hisss, um thriller/terror baseado em um mito antigo do Oriente sobre uma mulher-cobra que se transformava em figura humana quando fosse necessário. Filmado na Índia, Hisss é estrelado por Mallika Sherawat, uma das mulheres asiáticas mais sexy segundo a UK Magazine.

CONCLUSÃO: Segundo filme no currículo da filha do diretor David Lynch que, depois do bombardeio de sua estréia nos cinemas, ficou 15 anos sem filmar. De volta à ativa, Jennifer Chambers Lynch mostra que tem talento e competência para seguir na linha do thriller e de filmes de terror/suspense. Contando com um elenco bastante competente, que contrabalanceia na medida certa a experiência de Julia Ormond e Bill Pullman com o talento emergente da revelação Ryan Simpkins, Lynch nos conta a tradicional história de crimes narrados em flashback para, depois, nos surpreender. Bem dirigido e com uma fotografia que separa muito bem o presente do passado imediato, é uma produção barata que deve agradar aos fãs do gênero.

SUGESTÕES DE LEITORES (ATUALIZAÇÃO – 6/7/2009): Ai, ai, ai… que falha imperdoável!! Revisando a minha lista de filmes sugeridos por leitores deste blog é que eu me dei conta desta minha falha gigantesca! Surveillance tinha sido sugerido pelo querido leitor deste blog Enzo há muito tempo. Ai, Enzo, espero que você possa me perdoar por ter escrito este texto e não ter me dado conta que tu já tinhas comentado sobre este filme muito antes. Puf! Que erro o meu! Bem, mas é isso… antes tarde do que nunca para fazer uma correção como esta. Pois que fique registrado que o Enzo tinha sugerido Surveillance, ok? Obrigada, Enzo. Um filme bem bacana, realmente.