The Jane Austen Book Club – O Clube de Leitura de Jane Austen


Um filme romântico que busca fugir daquela fórmula padrão que todos conhecemos. Por esse fator, The Jane Austen Book Club merece atenção. O problema, contudo, é se ele consegue fugir realmente dos “lugares-comum” ou não. Até um certo ponto sim, ao tentar – e apenas tentar – introduzir um pouco de conteúdo na história. Afinal, em teoria, o filme (também) debate a obra da escritora inglesa Jane Austen. O problema é que, fora um ou outro acerto na discussão de uma autora aclamada, o filme realmente cai nos estereótipos, em vários lugares-comum e, no fim das contas, enreda o espectador no velho jogo de “torcer pelo romance”. Sem contar que, ainda que o filme tente ser “cuca aberta”, incluindo entre os personagens principais uma lésbica e uma mulher que se casou várias vezes – duas figuras que sofrem um bocado de preconceitos no “mundo real” -, no fim das contas o filme acaba sendo bem tradicional. Quem sabe, até para acompanhar (ou seria “homenagear”) a veia tradicionalista da escritora que inspirou o tal clube de leitura.

A HISTÓRIA: Sylvia Avila (Amy Brenneman) e Jocelyn (Maria Bello) são amigas de infância. Jocelyn foi a garota que quase ficou com Daniel (Jimmy Smits) quando elas eram jovenzinhas, só que no final ela “empurrou” ele para a amiga. Depois de 20 anos de casados, Daniel começa a ter um caso fora do casamento e decide se separar. Jocelyn e Bernadette (Kathy Baker) resolvem, para estimular a amiga a superar a fase ruim, criar um clube de leitura dedicado a Jane Austen, a escritora preferida das amigas. Além das três, são chamados para participar do clube a professora de francês Prudie Drummond (Emily Blunt), a filha do casal Avila, Allegra (Maggie Grace) e o empresário aficcionado por ficção científica Grigg Harris (Hugh Dancy). Enquanto dividem seis das obras de Jane Austen entre si e marcam encontros para discutí-las, os seis personagens vão vivendo diferentes histórias de perda, conflitos, romances e amizades.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Jane Austen Book Club): O filme começa morno, meio “infantil” quase. Afinal, alguns dos nossos personagens principais se encontram para o enterro de um cachorro! Bem, depois desta sequência “cômica” (na verdade não vi muita graça na “piada”), começam a pulular as “bombas” da história. Primeiro o comunicado de Daniel para a mulher de que ele está tendo um caso e que vai se separar dela para ficar com a amante. Deprimida, Sylvia é consolada pelas amigas e pela filha, Allegra, que volta temporariamente a viver com a mãe. Enquanto isso, em uma fila de cinema, Bernadette encontra a Prudie, uma mulher que parece ser, ao mesmo tempo, bem contida e bem descontrolada – pasional equilibrada, se é que isso existe. Impressionada com a “cultura” de Prudie, ela vê na mulher recém “descoberta” uma possível integrante do clube de leitura que ela e as amigas querem montar.

Pouco depois, também por “acidente”, Jocelyn encontra, em um hotel em que vai se hospedar para um congresso canino, ao insistente e curioso Grigg. Ele fica fascinado por ela e insiste em conhecê-la. Jocelyn, uma “solteira convicta”, vê nele um possível atrativo para sua amiga de infância Sylvia – quem sabe ela não consegue repetir a dose praticada com Daniel e apresentar para a amiga um novo amor? Esse é o começo do filme, mas muita água vai rolar em paralelo a tudo isso.

Algo positivo da história é que, apesar dela ser focada em um número considerável de personagens principais, todos eles acabam sendo bem apresentados e conhecidos. Neste ponto o roteiro de Robin Swicord (de Memórias de uma Geisha), baseado no livro de Karen Joy Fowler, funciona. Por outro lado, tais personagens são um bocado estereotipados demais. Vejamos: Jocelyn é uma mulher que busca o romance ao mesmo tempo em que foge dele – afinal, ela considera mais seguro se relacionar com cachorros, de quem ela pode prever reações, do que com homens. Prudie é uma “intelectual” que sofre por estar casada com um homem com pouca cultura, Dean (Marc Blucas), o típico “jogador de futebol americano”; que tem uma relação mal resolvida com a mãe (Lynn Redgrave) e que acaba se interessando pelo “mistério, fascínio e cultura” do jovem estudante Trey (Kevin Zegers, realmente um colírio, hehehehe). Bernadette é uma mulher que se casou seis vezes e que acha o amor – ou seu plural – fundamental. Sylvia é uma mulher que sempre se dedicou ao marido e a filha e que vê a sua vida desmoronar rapidamente quando seu “mundo ideal” cai por terra. Allegra é uma jovem que sempre gostou de aventuras e que buscou sempre a aprovação dos pais. Grigg é um jovem que vive “à sua maneira”, adepto das coisas simples e das relações francas.

Alguém pode dizer: “Mas onde estão os estereótipos? Afinal, existem pessoas assim de verdade…”. Ok, claro que existem. Mas ninguém é “apenas” isso, não é mesmo? As pessoas – a maioria, pelo menos – é mais complexa. E um filme que resolve destacar tantas pessoas acaba, claro, simplificando-as muito. Esse é um problema de The Jane Austen Book Club… simplificar as pessoas, suas relações e, de quebra, a obra de Jane Austen. Sim, porque no final das contas, todas as reuniões para debater a sua obra acabam girando sempre nos mesmos eixos: Jane Austen era uma escritora tradicionalista que jogava muito com os conflitos amorosos, encontros e desencontros e que, normalmente, caia no amor rigoroso que ela mesma não conseguiu vivenciar… hummmmm, digamos que é uma maneira de olhar. Mas não é a única. Acho que Jane Austen é mais que isso, mas enfim…

Acho que para um fime que se propõe a discutir literatura, houve pouca dialética. Pouca diversidade de idéias e, no fim das contas, uma jogada de “adaptar” para a vida real situações da obra de Jane Austen que já vimos antes (mas de forma mais original). Resumindo: o filme tem boas intenções, mas acaba sendo fraquinho.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A primeira coisa que me chamou a atenção no filme foi ver uma série de atores coadjuvantes em outros filmes ganhando, finalmente, destaque de protagonistas. Com isso não quero dizer que figuras como Maria Bello, Amy Brenneman e Kathy Baker nunca tenham sido protagonistas… já foram, claro. Mas normalmente de filmes de menos destaque, por assim dizer. E aqui todos estão no mesmo patamar em um filme que recebeu uma certa repercurssão. Bacana isso. Acho que são atores que merecem.

Falando neles, gostei da interpretação de praticamente todos… as falhas na história tem mais a ver com o roteiro ser um pouco fraquinho do que com os “recursos dramáticos” de cada ator ou atriz, na minha opinião. Ainda assim, achei um tanto falso demais o tom que os atores Emily Blunt e Marc Blucas deram para o seu “casal”… faltou química e um pouco mais de “comprometimento” com seus personagens.

O filme, relativamente “independente”, conseguiu uma bilheteria um tanto razoável: arrecadou, em três meses, pouco mais de US$ 3,5 milhões. Sem grande campanha publicitária ou mesmo sem estar em muitos cinemas na maior parte deste tempo, até que ele não foi mal.

Os usuários do site IMDb deram uma boa nota para ele: 7,1. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes também seguem a tendência, conferindo 68 críticas positivas para o filme e apenas 38 negativas.

A direção da também roteirista Robin Swicord está ok, ainda que seja bem tradicional e não ouse nada na linguagem cinematográfica – nem em planos, nem em nada.

The Jane Austen Book Club foi todo filmado na California, em cidades como Los Angeles, Santa Monica, Santa Clarita, Long Beach e Lakewood.

De todas as interpretações, gostei em especial de Maria Bello e de Maggie Grace. É a primeira vez, que me lembro, de ver o ator Jimmy Smits em um papel romântico… estou acostumada a vê-lo normalmente como mal, bandido ou algo assim. Bacana vê-lo como um marido apaixonado que se surpreende perdido lá pelas tantas. Gostei dele também. Ainda que destaque essas figuras, para mim a revelação foi mesmo Hugh Dancy, que deu o tom exato para um personagem que podia parecer ridículo ou cômico demais. Depois de algum tempo é que foi cair a minha ficha de que ele é um dos atores principais de um filme que gostei muinto: Evening.

Uma curiosidade: o filme foi indicado a um único prêmio até agora. Para o de melhor filme no GLAAD Media Awards, um prêmio criado para difundir boas iniciativas na mídia em geral – TV, cinema, etc. – no trabalho de combate contra a hemofobia. Um prêmio GLS. Interessante porque, ainda que a personagem de Allegra seja vista naturalmente na história, inclusive quando se relaciona com Corinne (Parisa Fitz-Henley), achei que as entrelinhas do roteiro colocam dúvidas sobre a sua “atitude” em ser lésbica, deixando solto um perigoso fio que leva para a idéia de que ela talvez tenha “feito essa escolha para chamar atenção”. Ela poderia ser uma personagem natural sem ter nenhuma entrelinha que insinuasse nada, não?

E algo que ia esquecendo de comentar… o filme acaba lembrando, inevitavelmente, a Magnólia, do Paul Thomas Anderson. Nem tanto pela história ou porque ele seja tão bom quanto aquele outro, mas por dois elementos: primeiro, pela música de Aimee Mann – fazia tempo que não ouvia a sua voz em um filme; e segundo porque ele tem, umas duas ou três vezes, aquela “seqüência de repasse” na vida dos personagens em, teoricamente, momentos decisivos. Recurso esse usado em Magnólia e em outras histórias mas que, aqui, não tem o mesmo efeito – até porque o repasse esse não é tão determinante.

Agora, uma coisa é fato… depois de assistir tantos filmes “românticos”, preciso mudar urgentemente de gênero, porque é muito açúcar seguido para o meu coraçãozinho. 🙂

CONCLUSÃO: Um filme que busca mesclar histórias reais com a ficção de Jane Austen. Consegue seu objetivo em parte, ainda que simplifique demais as situações e os personagens, tornando parte da história um amontoado de lugares-comum e parte de seus personages estereótipos. Ainda assim, é um filme que pode agradar como passatempo – especialmente porque tem certo “charme” ao contar a história das aventuras possíveis de um grupo de leitura.

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2 comentários em “The Jane Austen Book Club – O Clube de Leitura de Jane Austen

  1. Olá Isa!

    hahahahahhahahahahahhaha

    Gostei disso… aliás, uma qualidade dos filmes é se eles nos instigam a buscar mais informações, não é? Eu adoro isso… E sim, Jane Austen merece ser lida. Não conheço toda sua bibliografia, mas do que eu conheço, posso dizer que uns livros merecem mais serem lidos que outro… ainda assim, é uma escritora a ser bastante respeitada – especialmente se contextualizarmos a sua vida e obra.

    Depois que você ler alguns livros dela, comenta por aqui o que achaste. 🙂

    Mais beijos

    Curtir

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