Ovsyanki – Silent Souls – Almas Silenciosas


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Os russos são curiosos e diferentes. E a verdade é que sabemos pouco sobre eles. Exceto por filmes como o clássico dos clássicos Bronenosets Potyomkin, o interessante Kurochka Ryaba e o mais recente Nochnoy Dozor, por escritores como Dostoiévski e Tolstói e por lembranças de políticos “do contra” como o fanfarrão Boris Yeltsin e o questionável Vladimir Putin, não temos muitas informações sobre os russos. Por isso mesmo é bacana quando surge no horizonte um filme como Ovsjanki, que nos apresenta alguns elementos sobre as crenças, tradições e costumes de uma das etnias que ajudaram a formar este povo distante e que foi e continua sendo fundamental nos jogos de poder mundiais.

A HISTÓRIA: Um homem pedala em uma bicicleta que carrega duas pequenas aves. Ele deixa para trás um caminho molhado e ladeado por árvores. Quem pedala é o narrador desta história, Aist Vsievolódovitch (Igor Sergeev), que conta que comprou as aves, duas escrevedeiras, em uma feira de animais em Kostroma. Ele classifica aquelas aves como estranhas e simples. E afirma que a forma com que o vendedor disse o nome deles, lhe fez lembrar do passado, de sua própria infância ou de algum sonho. Aist conta que mora em Neya, uma destas cidades russas que ninguém mais lembra que existe. Ela foi colonizada pelos mérias, uma tribo finlandesa que foi transformada em eslava há cerca de quatro séculos. Na sequência, vamos conhecer um pouco mais sobre as tradições dos mérias e sobre a vida de Aist.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Ovsjanki): Ganha um doce quem, um dia, antes de hoje, tenha ouvido falar dos mérias. Segundo este filme russo, eles foram uma das diversas tribos que colonizaram a Rússia. De fato, como afirma este e este outro texto sobre a história daquele país, muitas tribos nômades formaram o país durante a era pré-cristã, especialmente na região norte.

Me dei ao trabalho de buscar Neya no mapa, e a cidade fica, na verdade, bem ao Oeste na atual configuração da Rússia. É uma cidade muito pequena, que não fica muito longe da capital, Moscou. Para ser mais precisa, ela fica a 562 quilômetros de distância, algo em torno de sete horas de carro. Para o filme, o território e a formação dele são muito importantes. O protagonista, Aist, assumiu uma posição de resgate das tradições dos mérias, que influenciaram decisivamente aquela sociedade. E faz isso de forma muito simples, escrevendo suas memórias e a cultura que lhe foi passada – seguindo, assim, os passos do próprio pai, que era um poeta local.

Ovsyanki acerta no tom e na proposta logo no início, com Aist falando sobre a repetição de alguns hábitos pelas pessoas sem elas, ao menos, saberem o porquê de fazerem o que fazem. Ele reflete sobre as características do próprio povo, suas influências e o esquecimento destas origens. Não é muito frequente um filme fazer esta autocrítica sobre a realidade da cultura em que está imerso e da qual faz parte. Primeiro ponto positivo para Ovsyanki.

Depois desta introdução “filosófica” do protagonista, que também é o narrador da história, mergulhamos em um exemplo prático de uma repetição de velhos hábitos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O chefe de Aist, o diretor da fábrica de papel da cidade, Miron Alekseyevich (Yuriy Tsurilo), chama o funcionário e, aparentemente, amigo, para uma conversa no telhado da empresa. Ali, eles bebem e Miron conta que a mulher dele, Tanya (Yuliya Aug), morreu. E pede ajuda para dar o “destino final” para ela.

A sequência da mulher sendo preparada pelo marido e pelo amigo dele é interessante, mas me lembrou demais a Okuribito, um filme japonês incrível que eu comentei aqui no blog. Claro que a produção asiática tem outra proposta, e é muito mais filosófica que este Ovsyanki. Então esta homenagem post-mortem é interessante mas, infelizmente, não é nova – e nem tão impactante. O interessante, para mim, ocorre depois, quando Aist e Miron viajam com o corpo de Tanya.

Tanto Aist pensa sobre si mesmo e a sua cultura, quanto Miron desabafa sobre os seus sentimentos e aborda alguns aspectos da vida da mulher morta. Os homens parecem perdidos, com dificuldade de encontrarem a si mesmos, entenderem o que eles sentem e a difícil tarefa de encarar a própria mortalidade. Para Aist, as lembranças do pai, da família e de seus ensinamentos serve como uma âncora eficaz. Para Miron, a única saída é abraçar o amor que ele sente por Tanya, apesar dele não ter sido capaz de perdoá-la.

O filme deixa alguns pontos no ar. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por exemplo, se a traição de Tanya com Aist foi consumada ou havia apenas um forte desejo entre eles. Da minha parte, acho que eles tiveram realmente um caso. E ao descobrir que Tanya não estava mais tão interessada nele, mas no amigo/empregado, Miron decidiu matá-la – outro ponto apenas sugerido pela história. Essa indicação fica mais forte depois que Miron fala para Aist que deveria ter deixado ela ir embora. Aparentemente ela iria deixar o marido para se lançar em uma relação mais séria com Aist. Que não sabe muito bem como lidar com a situação, além de refletir sobre o que permanece além da vida. E aí a grande reflexão desta produção: mais que tradições ou memórias, o que permanece é o amor. Bela mensagem. Bonito registro de uma cultura e forma de pensar, sentir e agir que não é tão familiar pra gente.

Pessoalmente, acho importante e bacana a preservação dos costumes dos nossos antepassados. Mas mais que isso, vejo como vital a reflexão constante sobre as nossas origens, e sobre o que continua ou não nos servindo. Aist chega a esta conclusão no final. E percebe que é bobagem lutar com todas as forças para impedir que determinados costumes e hábitos sejam preservados, quando eles estão “fadados a desaparecer”. Até porque este desaparecimento pode ser positivo, ao dar lugar para novos hábitos e costumes mais condizentes com a nossa evolução. Porque ela acontece, apesar de recebermos tantas notícias negativas e que parecem um retrocesso da Humanidade.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei da direção de Aleksey Fedorchenko. O realizador de Ovsyanki está atento aos detalhes, e busca sempre valorizar a atuação dos atores e, simultaneamente, o ambiente em que eles estão se desenvolvendo. Em muitos momentos a câmera de Fedorchenko está parada, fixa em uma posição. É como se ele não quisesse interferir na ação, permanecendo em uma zona neutra para não atrapalhar os intérpretes. Ao mesmo tempo, ele tem pleno controle das cenas, buscando sempre um quadro que pode ser capturado quase como uma fotografia. Belo trabalho.

Da parte técnica do filme, importante o trabalho do diretor de fotografia Mikhail Krichman, que mostra segurança, apuro visual e qualidade nos diferentes cenários e momentos do filme. Importante também a pontual e interessante trilha sonora clássica de Andrei Karasyov.

O roteiro de Ovsyanki é assinado por Denis Osokin, que consegue um bom equilíbrio entre as reflexões do protagonista e a a ação da despedida de Tanya feita pelos dois homens que embalaram seus últimos dias. Um roteiro que debate as tradições, a cultura de um povo, os hábitos que prosseguem de geração em geração, e que também aborda as relações entre os sexos, o desejo, o amor e a morte.

Este é um filme de dois atores. Igor Sergeev e Yuriy Tsurilo se saem bem em seus papéis mas, como exige a história, eles tem um desempenho comedido, bem ao estilo russo. Além deles, e de uma interpretação mais sentimental de Yuliya Aug, os demais nomes desta produção são apenas de coadjuvantes – todos fazem praticamente pontas. Ninguém a destacar.

Ovsyanki fez pré-estréia no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2010. Depois, o filme passou por outros 13 festivais, incluindo os de Nova York, Londres e São Paulo. Nesta trajetória, a produção conquistou nove prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Diretor e Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Mar del Plata, e quatro prêmios no Festival de Veneza – todos em categorias “secundárias”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para esta produção. Uma avaliação mediana, especialmente se levarmos em conta os prêmios que o filme recebeu. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 42 textos positivos e apenas um negativo, o que garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 7,7.

Este é o terceiro filme dirigido por Aleksey Fedorchenko. Ele estreou em 2005 com Pervye na Lune e, em 2007, lançou Zheleznaya Doroga. Os dois com avaliações melhores no site IMDb.

CONCLUSÃO: Adoro quando os filmes tem a duração justa, precisa. Não enrolam mais do que precisam e nem terminam antes da hora. Este é o caso de Ovsyanki. Um filme que é poético, dá bastante tempo para os silêncios de seus personagens, e que acaba quando precisa terminar. Esta produção russa resgata costumes antigos e que estão se perdendo no tempo, o que nos faz pensar sobre a fragilidade das tradições e sobre a identidade dos povos. Um filme que serve de registro histórico e, ao mesmo tempo, trata da repetição de costumes sem o devido questionamento, e da dor e da solidão que isso pode provocar em algumas pessoas.

Esta produção tem, assim, um interesse histórico e também filosófico. Centrado em dois homens e com vários flashbacks (retomada de eventos do passado), este filme tem uma evolução calma e uma influência literária que fica evidente logo no início. Ovsyanki deve ser visto com calma, saboreando as tradições em vias de extinção do povo russo, tão pouco conhecido pela gente. Mas que, mesmo sendo diferente do brasileiro, nos lembra o quanto todos somos iguais em diversos momentos, como no amor, na fuga e na dor. E a mensagem final, de redenção, é perfeita.

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2 comentários em “Ovsyanki – Silent Souls – Almas Silenciosas

  1. Já assisti duas vezes o filme Almas silenciosas.Realmente nunca ouvi falar do povo “méria” antes. Pesquisando sobre os costumes do referido povo cheguei à esta pagina…o filme é sombrio, as paisagens desoladas, mas existe um forte apelo emocional, uma tensão contida na face dos dois homens durante a viagem até a cremação do corpo. Tensão esta que se desfaz na ponte quando os dois encontram as prostitutas. A despedida pela manhã cinzenta quando as deixam sem olhar para trás. Um filme introspectivo que nos desperta várias sensações.

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