Out In The Dark – Além da Fronteira


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O amor não conhece qualquer barreira. Mas elas existem. Em alguns lugares, de forma muito mais presente, cotidiana e física do que em outros. Out In The Dark conta a história de amor de dois jovens que se encontram em uma noite qualquer, como tantos outros jovens já se encontraram. E que acabam desafiando as diversas fronteiras que existem ao redor para tentar viver este amor. Uma forma muito diferente de ver a questão Israel versus Palestina. Acima de tudo, uma narrativa universal.

A HISTÓRIA: Um jovem anda à noite. Passa por terrenos baldios, sobe em um morro, até que se esconde ao avistar uma patrulha. Depois que ela passa, Nimr Mashrawi (Nicholas Jacob) corre e consegue passar pela fronteira. Ele vê a cidade por um vidro até que chega a uma boate. Ele assiste ao final do show e quando tenta pedir uma bebida, sem êxito, conhece a Roy Schaefer (Michael Aloni), que está ao lado dele no balcão do bar. Eles começam a flertar, até que aparece Mustafa Na’amne (Loai Nofi), amigo de Nimr. No fim da noite, depois de conversarem muito, Nimr consegue uma carona para voltar para Ramallah, na Palestina, distante 10 quilômetros de Jerusalém. Mas este é apenas o começo dos encontros entre Nimr e Roy em Tel Aviv.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Out In The Dark): O primeiro acerto deste filme é a naturalidade com que o roteiro do diretor Michael Mayer, escrito junto com Yael Shafrir, evolui conforme o tempo vai passando. E o segundo acerto é a duração de Out In The Dark.

As histórias de Nimr e de Roy se assemelham a de tantos outros casais. Homossexuais ou heterossexuais, tanto faz. Quantas pessoas já encontram o amor (ou um amor) em um bar, em uma aparente noite qualquer com uma apresentação musical com chamariz? Uma conversa despretensiosa mas cheia de intenções começa meio sem querer perto de um balcão e se estende por horas. Até é possível lembrar daquela música da Legião Urbana: “… Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer/ e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer…”. E a vontade, o desejo de seguir, de conhecer a pessoa, leva a um segundo encontro, e a outro, e a outro…

Em Out In The Dark é isso o que acontece entre os protagonistas. Mas há uma série de elementos que cerca a realidade deles e que torna o filme ainda mais interessante – afinal, esta não apenas uma história de amor. Pouco a pouco o roteiro de Mayer e Shafrir mostra a ótica dos palestinos e dos israelenses sobre uns e outros. A família de Nimr, uma destas famílias árabes que parecem ser comuns na fronteira da Palestina com Israel, não admite o contato entre os dois povos.

O irmão de Nimr, Nabil (Jamil Khoury), em especial, não entende o porquê do irmão querer estudar em Tel Aviv. Em certo momento do filme, ainda no início da história, Nabil diz que confia que o irmão vai conseguir avançar nos estudos fora do país sem “se submeter” à ajuda dos israelenses. Na verdade, ele defende um boicote às universidades do país vizinho – como se fosse possível os “inimigos históricos” contaminarem os árabes com o aprendizado acadêmico.

Pela história da família de Nimr – e, depois, pelo comportamento dos agentes da Segurança Nacional israelense – não há espaço para entendimento entre os dois povos. Para eles, o ideal seria uma fronteira inviolável e contato zero entre palestinos e israelenses. Mas a divisa é porosa. Israel tem mais oportunidades e, como qualquer país com esta característica, atrai pessoas que buscam avançar além das limitações dadas em seu ambiente próprio.

Além disso, e esta informação começa a ficar evidente com o fim trágico de Mustafa, existe o tratamento muito desigual dos homossexuais naquele contexto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo a reação da família de Nimr, para uma família árabe é uma verdadeira “desgraça”, uma grande vergonha e degradação ter um homossexual entre os seus integrantes. Do lado israelense, parece que o preconceito é menor – ainda que a mãe de Roy, Rina (Chelli Goldenberg), não parece aprovar o comportamento “espalhafatoso” e de “esfregar na cara” dos pais a “condição” de homossexual do filho, ele não viu problema de se assumir frente aos pais e de viver uma vida aberta. Muito diferente de Nimr, que sabe que será um “párea” social – e rejeitado pela própria família.

Não é por acaso que alguns árabes queiram buscar a “liberdade” maior que o lado israelense parece oferecer. Há mais oportunidades por lá em todos os sentidos. Mas aí entra o trabalho de espionagem e controle social dos agentes da Segurança Nacional de Israel, que buscam de todas as formas controlar a fronteira e impedir uma “invasão árabe”. Do lado palestino, muitas pessoas, a exemplo de Nabil, consideram uma verdadeira traição quem cruza a fronteira e “troca” a Palestina por Israel – mesmo que forem motivados pela legítima busca por melhores condições de vida.

Conforme a história de Out In The Dark vai passando, o espectador espera que algo terrível aconteça com Nimr. Ou mesmo com Roy – ainda que o perfil do filho do aparentemente poderoso Eitan Schaefer (Alon Oleartchik) pareça ser mais de “costas quentes”. A química entre os protagonistas, que são lindos e encarnam bem os respectivos papéis, e essa tensão crescente alimentada pelo roteiro de que a qualquer momento algo de trágico vai acontecer, segura a atenção do público até o final.

Porque os riscos de Nimr são maiores. Ele é pressionado pela Segurança Nacional, que busca um delator do lado palestino. Sofre pressão do “segredo” de ser gay e pelo perigo das armas que o irmão esconde na casa da família servirem de estopim para algum ato violento. Quando ele perde o visto para continuar estudando em Tel Aviv, algo que ele batalhou por muito tempo, o desespero aumenta não apenas porque ele foi ameaçado pela Segurança Nacional, mas porque ele terá que deixar de ver Roy. Talvez para sempre.

Parece aquela situação de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Se ele resolve ir para Tel Aviv sem o visto, corre sério risco de ser preso. E depois que é “descoberto” pela família, se ele é “deportado” de volta para Ramallah, provavelmente será morto pela família, por causa da “vergonha” de ser gay, ou assassinado pelo grupo de palestinos que considera pessoas como ele traidoras da “causa”.

A forma natural e “reconhecível” com que a história é contada e a tensão crescente da narrativa funcionam muito bem. E a produção, como 99% dos filmes do mundo deveriam, tem o tempo adequado de 1h30min de duração. Este é o “timing” adequado para quase todas as histórias, porque ajuda a manter a atenção do espectador e facilita a história a não sofrer com as terríveis “baixadas” narrativas – ou, em alguns casos, enrolação pura e simples. Não há espaço para isso em Out In The Dark, que dá o tempo exato para apresentar os personagens, os entornos deles e o romance que começou naquele bar no início na história.

Diferente de outros filmes, Out In The Dark mergulha na disputa entre palestinos e israelenses com uma história muito humana e que não se restringe ao público gay. Porque qualquer pessoa é capaz de discordar do risco que paira sobre a cabeça de Nimr. Ninguém deve ser perseguido ou executado de forma sumária sem ter feito nada contra ninguém – “ser atacado por ser inocente”, para citar outra letra da Legião.

Mas há quem ficará insatisfeito com o final aberto de Out In The Dark. E eu até entendo este incômodo… afinal, o espectador ficou envolvido com a história e, de repente, ela termina sem uma conclusão óbvia. Diferente de outros filmes, em que o que acontece após o minuto final da produção está mais subentendido. Em Out In The Dark tanto Nimr pode ser pego no meio do caminho pela Segurança Nacional de Israel quanto ele pode chegar até um local seguro em que peça asilo por questão humanitária. Roy de fato pode ficar preso bastante tempo ou, por intermédio do pai, conseguir uma liberdade provisória e escapar para encontrar-se com Nimr no Exterior. Impossível saber. Fica ao gosto dos mais esperançosos ou dos descrentes o desfecho para esta história de amor.

Independente do que possa ter acontecido, este é um filme que funciona. E da minha parte, como sempre tendo para o lado da esperança, acredito sim que Nimr conseguiu se livrar a tempo e que ele iria encontrar Roy tempos depois, quando a Segurança Nacional de Israel desse uma liberdade provisória para o amante preso. Ainda que a liberdade de Roy fosse mais difícil, já que o tema da segurança nacional muitas vezes passa por cima dos direitos básicos dos cidadãos. Mas Roy fez o que deveria fazer, provavelmente salvando a vida de uma pessoa inocente – e de quem ele amava.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei muito curiosa para saber mais sobre a realidade dos homossexuais nos países árabes. E encontrei neste site, o Instituto Cultura Árabe, uma valiosa entrevista com Georges Azzi, coordenador em 2005 da Organização Não-Governamental Helem, o primeiro grupo criado para defender o reconhecimento dos direitos dos homossexuais nos países árabes. Ele fala não apenas do surgimento da ONG e da proposta do grupo, mas sobre a realidade difícil dos gays naquele cenário. Bem interessante.

A disputa entre israelenses e palestinos parece um destes conflitos que não tem fim. Algumas vezes a discussão avançou para, depois, retroceder outra vez. As razões para uma disputa como esta durar tanto tempo, claro, não tem a ver apenas com religião. Passa por questões econômicas (dinheiro, sempre dinheiro!), históricas e políticas. Este texto introduz o assunto de forma didática. Da minha parte, evidentemente que eu torço pelo fim dos conflitos e disputas. Mas também acho que, até hoje, os israelenses foram sempre mais favorecidos e protegidos que os árabes. O que fica difícil de achar correto. Agora, inevitável perceber os absurdos praticados pelos dois lados desde o século 19. Lamentável.

Achei a proposta de Out In The Dark bastante corajosa e potente. E buscando saber um pouco mais sobre o filme, após escrever a crítica acima, descobri em textos como este, do Blouin Artinfo, que ele virou um “hit discreto” mundo afora por causa da participação de sucesso em diversos festivais. Como bem pondera o texto do site, a produção dirigida por Michael Mayer faz parte de uma leva de produções reconhecidas por crítica e público e que tiram os filmes com protagonistas gays do circuito restrito ao público homossexual ou de simpatizantes. Blue is the Warmest Color e Jellyfish são exemplos de como o “tabu” sobre estes filmes está sendo quebrado, para citar a interpretação de Robert Michael Poole.

No mesmo texto citado acima há uma entrevista com o diretor de Out In The Dark. Mayer explica, por exemplo, porque estreou em longas com esta história entre um “amor proibido” entre um casal gay em zona de conflito. Interessante que ele foi motivado pelas histórias que um amigo que trabalhou em uma ONG em Tel Aviv ouviu e que fez ele ficar chocado. Daí que ele resolveu compartilhar aquele cenário com quem quisesse ver/ouvir. Isso é fazer diferença com o cinema. Ou tentar, pelo menos.

Gostei da definição do diretor: “Esse filme não coloca os ativistas (da ONG do amigo dele) em primeiro plano. É uma história de amor íntima na qual os dois protagonistas estão tentando se desprender e viver suas vidas”. Apenas isso. E por que é preciso ser tão complicado?

Falando em algo complicado, houve um pequeno detalhe do filme que eu achei forçado e que, infelizmente, diminui uns pontos na avaliação de Out In The Dark. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O que explica a Segurança Nacional de Israel invadir de forma tão fácil uma residência familiar em Hamallah? Afinal, segundo o Google Maps, Hamallah fica a cerca de 21 quilômetros da fronteira com Israel, algo como 25 minutos de carro. Sério mesmo que os palestinos não tem uma boa proteção de fronteira para impedir que um grupo do país vizinho chegue em uma casa e leve armas e pessoas? Achei bem pouco provável aquilo. Além disso, outro fator que fez o filme receber a nota que recebeu, e não uma maior, é que eu acho que ele poderia ser um pouco mais contundente. Havia espaço para ousar mais.

Achei curioso saber, na entrevista com Mayer, que Michael Aloni, que interpreta a Roy, é uma grande estrela em Israel. Bacana um ator que está tão na “crista da onda” entrar em um projeto como este, corajoso em abordar temas polêmicos e que ajuda a denunciar absurdos que, mesmo apenas inspirados em histórias reais, revela-se bastante legítimo. Interessante também saber que está “acontecendo uma onda recente de filmes israelenses gays”. Que, diferente das novelas da Globo, não evitam de mostrar a intimidade entre amantes gays.

Além dos atores já citados, vale citar o bom trabalho de Khawlah Hag-Debsy como Hiam, mãe de Nimr; Maysa Daw como a irmã do protagonista – e a única que parece se importar pouco com o fato do irmão ser gay; e Alon Pdut como Gil, o chefão daquele grupo da Segurança Nacional israelense.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de Michael Mayer, que segue a linha de um filme “naturalista”, quase um documentário. Funciona bem a edição de Maria Gonzales, a captação dos sons ambientes e a trilha sonora de Mark Holden e Michael Lopez.

Out In The Dark estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2012. Depois, ele fez uma longa caminhada por diversos festivais. O último foi agora, em setembro, no Festival de Cinema Queer de Lisboa. Nesta trajetória, o filme acumulou 11 prêmios e foi indicado a outros cinco. Dos que recebeu, quatro foram em festivais abertos para qualquer tipo de filme e, o restante, em eventos dirigidos para o cinema gay.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para Out In The Dark, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 16 críticas positivas e seis negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média de 6,6. Eis um destes raros empates “técnicos” entre os dois sites. 🙂

Out In The Dark é uma coprodução de Israel com os Estados Unidos e a Palestina. Por ser majoritariamente um filme israelense, não vou colocá-lo na lista de filmes dos EUA que estão rendendo uma série de comentários no blog como fruto de uma votação feita por aqui.

CONCLUSÃO: Este não é um filme tradicional. Ainda bem. Porque o mundo está cheio de histórias não tradicionais e que são ignoradas pelas pessoas. Importante dizer, logo de cara, que esta produção é protagonizada por dois gays. Então se você é um preconceituoso, faça um favor para todos nós e vença o teu preconceito ou fique longe deste filme. Dito isso, acredito que qualquer espectador interessado em assistir a bons filmes, independente da origem, deve ter visto algumas histórias sobre a aparentemente eterna disputa entre palestinos e israelenses. Out In The Dark foca os efeitos práticos desta disputa na fronteira. Há alguma arma, aqui e ali, mas não é a questão armamentista que está em jogo. E sim a vigilância e o medo constante, especialmente sobre pessoas que não seguem o “padrão desejado”.

Os gays sofrem uma perseguição ainda pior neste cenário, e Out In The Dark tem a coragem de abordar este tema. Uma verdadeira vergonha, na minha opinião. E uma questão humanitária. Não por acaso o pedido de ajuda exterior é o último recurso vislumbrado por um dos protagonistas. Filme bem dirigido, com ótimos atores nos papéis centrais e com um roteiro envolvente, Out In The Dark foge do lugar-comum do início até o final. Não sabemos bem o que irá acontecer depois da última cena. Mas ainda que as perspectivas não sejam boas, há esperança. Terminar com esta mensagem, apesar de todo o contexto, também é um ato de coragem. Bela história, ainda que triste. Mas é importante tratar destes romances que ainda são, de forma absurda, proibidos, para que um dia esse cenário mude.

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6 comentários em “Out In The Dark – Além da Fronteira

  1. Resenha maravilhosa. Me fez pensar sobre o filme de outra maneira. Realmente a situação de qualquer ser humano nesta região é preocupante e merece atenção, ainda mais os homossexuais que tem que viver ainda mais encurralados.

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      1. Olá L.D.!

        Antes de mais nada, seja bem-vinda por aqui.

        Bacana você querer publicar trechos da crítica no site que comentaste. Só me faz um favor? Além de dar o crédito para o material citando o meu nome, podes publicar um link para o meu blog? Porque aí eu acho que a parceria fica boa para as duas partes.

        Obrigada, desde já, pelo teu contato. Abraços e apareça por aqui mais vezes!

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      2. Oi, Alessandra!.

        Eu coloquei várias partes da sua critica na página do site http://www.cinedica.com.br/Filme-Alem-Da-Fronteira-2012-1811263837.php
        Quero dizer que adorei a sua crítica sobre o filme “Além da Fronteira”, esse é um dos filmes mais lindo e tocante que já vi com a temática gay, a sua crítica diz tudo o que eu sinto a respeito do filme e como você escreve bem eu não pensei duas vezes em colocar no site de cinema que eu gosto muito.
        Quero te agradecer pela a atenção e por ter permitido colocar suas “palavras” em outro site. Escrevi no final do texto o link do seu blog e o seu nome.

        Adorei seu blog, já dei uma olhada sobre as dicas de cinema e pode deixar sempre estarei aqui pra conferir as novidades.

        Obrigada!!!

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