Coincidências, encontros há muito desejados, podem nunca acontecer ou, em certo dia, do nada, o “destino” pode bater na tua porta. It Was Just an Accident (Yek Tasadof-e Sadeh no título original) é um destes filmes que contam uma certa cadeia de fatos de forma simples, despretensiosa, mas que acaba se aprofundando em temas relevantes da mesma forma. Uma história sobre busca por justiça acompanhada de uma reflexão sobre o que seria essa promulgada “justiça”. Seria uma espécie de vingança? Ou a justiça é outra coisa, bem diferente? E nesse mundo, existe realmente alguma justiça possível?
A HISTÓRIA
Um casal trafega dentro de um carro em uma estrada escura. Passa por eles um automóvel, e ouvimos (e vemos) um bando de cães correndo atrás do veículo que passou. A mulher pega um doce e dá para o marido, que passa por um obstáculo na estrada que faz a mulher fazer uma careta. Ele comenta que o bebê que ela está levando na barriga deve ter dado “um mortal” naquele momento. A mulher sorri e diz que ele vai ser ginasta. Uma menina, filha do casal, que está no banco de trás, coloca uma música e pede para os pais dançarem.
O casal se olha, e o motorista está sério. Ele diminui o volume da música, e a menina pergunta porque ele fez isso. Ele diz que “som alto” incomoda as pessoas. A menina pergunta “que pessoas”, já que eles estão sozinhos no carro. Ela continua dizendo que em casa eles são cuidadosos por causa dos vizinhos, mas que ali eles não tem nenhum vizinho com que se preocupar. A menina também comenta que ninguém visita eles, e pede para a mãe intervir.
A mulher pede para o marido aumentar o volume e diz que a filha pode dançar. Em seguida, vemos que o carro passa por uma turbulência e ouvimos o ganido de um cão. O atropelamento vai fazer a família buscar ajuda, depois que o carro apresenta problemas, e isso vai mudar um bocado a vida daquele pai de família.
VOLTANDO À CRÍTICA
(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a It Was Just an Accident): Essa produção tem uma premissa interessante. Um homem aparentemente comum, pai de família, que está prestes a se tornar pai pela segunda vez, é sequestrado e mantido prisioneiro por um bom tempo porque algumas pessoas acham que ele pode ter sido o torturador deles.
Isso só pode acontecer em dois tipos de locais: em sociedades com um regime totalitário, abusivo e onde o sistema sequestra, tortura e até mata pessoas em nome da “estabilidade” do poder; ou em sociedades onde o crime organizado está bem estruturado e onde pessoas também são presas, torturadas e até mortas porque elas sabem de algo que interessa os bandidos ou porque eles querem eliminar aquela pessoa.
No caso da história de It Was Just an Accident, estamos falando do primeiro exemplo, de um regime totalitário e que usa todos os artifícios possíveis para se manter o poder – e uma das regras desses “regimes” é justamente perseguir e destruir dissidentes. Mas, claro, esse filme trata, a partir de uma narrativa simples, de questões mais profundas.
Um dos pontos centrais do filme é a dúvida. Por grande parte da produção ficamos nos perguntando se aquelas pessoas que sequestraram aquele pai de família que se envolve em um acidente por distração estão certas ou erradas em sua busca por justiça. Afinal, ele foi o homem que manteve cada um deles preso e os torturou sem peso na consciência? Foi ele que deixou cada uma daquelas pessoas com cicatrizes emocionais para sempre? Ou ele era uma pessoa inocente que foi confundida com o torturador deles?
Para além desta dúvida, que acaba tendo uma resposta decisiva apenas no final, It Was Just an Accident nos faz refletir sobre o senso de justiça e de reparação. Matar o algoz é conquistar a justiça? Ou torturar e matar o algoz é se igualar a ele? Existe ética e possibilidade de sermos melhores que nossos torturadores e algozes ou estamos fadados a repetir os erros deles e entrarmos em uma espiral de abusos e de violência sem fim? Isso me fez lembrar de Abril Despedaçado, do grande Walter Salles, que, claro, trata de uma história bem diferente do que essa, mas que também trata sobre a questão da espiral sem fim da violência.
Até que ponto torturar e matar alguém porque ele fez isso com várias pessoas antes é justiça ou apenas vingança? E existe paz para quem busca vingança ou para quem procura a justiça? Que tipo de paz é possível alcançar em um local em que você parece estar em perigo constante, especialmente se pensa diferente do regime autoritário em vigor?
Essas são algumas das muitas perguntas que It Was Just an Accident parece nos apresentar enquanto o filme nos mostra uma grande narrativa em que o protagonista junta outras vítimas como ele para tentar descobrir se o algoz do grupo está sob o poder deles ou se eles estão apenas pegando um inocente para extravasar toda sua indignação e dor.
Achei It Was Just an Accident um filme interessante, com uma premissa interessante, mas menos envolvente do que gostaríamos. Essencialmente, o roteiro da produção nos mostra um grupo de pessoas indo para cá e para lá com um prisioneiro sem conseguir dele, inicialmente, uma confissão, e sem saber muito bem o que fazer com ele. Honestamente, acho que a ideia boa de Jafar Panahi poderia ter sido apresentada em um curta. Não acho que esse enredo tão simples e linear rendiam, realmente, um longa.
Mas algo que eu achei interessante nessa produção é a importância do som. Quando uma pessoa é sequestrada e mantida em cárcere, ficando o tempo todo vendada, a visão é um sentido que ela perde. Nesse cenário, outros sentidos são aguçados. O mais evidente deles é a audição, e é isso que faz o protagonista Vahid (Vahid Mobasseri) mudar completamente de expressão e tomar uma medida radical ao ver o colega de trabalho socorrendo a família de Eghbal (Ebrahim Azizi) após eles terem o carro prejudicado depois que o motorista atropela e mata um cachorro.
Vahid está de boa no trabalho dele, fora do horário do expediente já, quando Omid (Omid Reza), colega dele, tenta ajudar Eghbal, a esposa dele (interpretada por Afssaneh Najmabadi) e sua filha (Delmaz Najafi). Vahid reclama quando mãe e filha ligam os aparelhos da empresa sem querer, ao tentarem ligar a luz do banheiro, onde a menina queria ir, mas ele só muda de expressão mesmo quando ouve um certo barulho. E esse barulho tem a ver com o caminhar de Eghbal.
A partir dali, começa a jornada de busca por respostas e por justiça de Vahid. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele segue a família, até ver o local em que eles moram, e depois segue Eghbal até encontrar o que ele considera como a melhor oportunidade para agredi-lo e para capturá-lo. Com uma van emprestada, primeiro ele leva o que ele considera como tendo sido o seu algoz durante a época do cativeiro para um lugar remoto onde ele pensa em enterrá-lo vivo.
Mas aí surge a dúvida. Vahid tenta tirar uma confissão do homem, mas ele nega tudo, diz que não sabe o que está acontecendo, jura inocência. Vahid se vê então diante da incerteza se ele está fazendo justiça ou se pode estar matando um inocente. A partir daí, a história ganha novos personagens quando o protagonista vai atrás de outros sobreviventes do regime como ele.
Primeiro, ele busca a ajuda de um velho amigo, Salar (George Hashemzadeh). Esse amigo diz que não pode ajudar ele a identificar o homem que havia os torturado e sugere que Vahid esqueça isso e liberte o homem que ele sequestrou. Como Vahid não aceita essa ideia, Salar sugere que ele busque então outra pessoa, que talvez possa ajudar nessa identificação. É assim que Vahid chega até a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari).
Ela está trabalhando, produzindo fotos de um casal de noivos que vai se casar em breve. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Inicialmente, Shiva manda Vahid embora e diz que não pode ajudar ele a descobrir se o homem preso na van em um caixote é o torturador deles. Mas depois a busca de Vahid por respostas acaba sendo apoiada pela noiva, Golrokh (Hadis Pakbaten), que também foi torturada e abusada enquanto estava presa. O noivo dela (interpretado por Majid Panahi) acaba entrando na missão do grupo, especialmente para não deixar Golrokh “sozinha”.
O grupo acaba concluindo que nenhum deles pode identificar o homem que os torturou de forma definitiva. Mas Shiva dá uma ideia para resolverem a situação. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela diz que tem uma pessoa que pode ajudar na identificação do algoz e tirar a dúvida que o grupo tem se pegaram ou não a pessoa certa. Eles então vão atras de Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr), outro ex-preso político que teria tocado na perna do algoz do grupo – perna essa que teria sido perdida na guerra e que o torturador ostentava como um troféu.
Ao examinar o prisioneiro, Hamid diz que ele foi o homem que manteve todo o grupo preso e que os torturou. Mas o restante do grupo diz que não fará nada contra ele a menos que o prisioneiro admitir. Hamid diz que isso não existe, que ele jamais vai confessar, e que se ele tiver qualquer chance de se livrar da situação eles irão todos morrer. Ele tem pontos bem relevantes, mesmo estando a maior parte do tempo gritando – claramente ele parece mais desestruturado do que os demais pelo que passou no cativeiro.
Hamid comenta que tem certeza que o homem capturado é quem fez eles sofrerem antes, mas também admite que existem muitos homens como ele, sem uma perna e com várias cicatrizes. Então eles nunca terão certeza, sem uma confissão, mas Hamid defende que eles não tem como voltar atrás e que terão que se desfazer do prisioneiro por causa do risco que ele apresenta.
Depois disso, temos várias sequências em que o grupo discute o que fazer, até que as pessoas começam a dispersar. Mas, antes disso, acontece algo importante – e por puro descuido de Vahid. O telefone do sequestrado toca, enquanto o grupo está no local ermo em que Vahid cavou o local em que pretendia se desfazer de Eghbal. É a filha do sequestrado que está ligando porque a mãe dela está passando mal.
Então o filme entra em uma sequência interessante – e decisiva para a história. Mesmo buscando por respostas e por justiça, o grupo de sequestradores não pensa duas vezes em socorrer a mulher grávida que está passando mal. Levam ela para o hospital e, depois, mesmo após esse primeiro socorro, Vahid decide ficar próximo para não deixar a criança, filha do casal, sozinha.
Ou seja, a generosidade e a bondade do protagonista, assim como de Shiva, ficam muito evidentes nessa sequência de socorro à família do possível torturador do grupo. O homem que eles mantém como prisioneiro jamais seria capaz dos mesmos gestos – ou ao menos o homem que eles estão buscando e que acham que encontraram. Então o filme diferencia muito bem Vahid e seu grupo nesse momento.
Ao mesmo tempo que aquele episódio todo mostra que mesmo aquele grupo é heterogêneo. Sim, é verdade que todos passaram por situações horríveis, de sequestro, terror e tortura. Tudo praticado pelo “regime” de seu país. Mas nem todos reagem da mesma forma ou pensam do mesmo jeito. Isso se explica, claro, pela realidade e pela bagagem diferenciada que cada pessoa daquele grupo tem, para muito além da experiência traumatizante que eles compartilharam – o que apenas reforça a compreensão de que nunca somos definidos por apenas uma experiência ruim ou traumática. Cada pessoa é muito mais do que isso.
Toda aquela sequência do hospital também serve para reforçar outra questão importante que It Was Just an Accident nos apresenta: os monstros, os algozes, os torturadores e muitas vezes assassinos que se escondem por trás do poder para praticar os seus absurdos são, fora aqueles momentos de pura crueldade, consideradas “pessoas comuns”. Eles (porque geralmente são homens) têm mulheres e filhas, muitas vezes, e essas pessoas podem não saber o que esses homens fazem realmente para viver.
Isso já foi tratado antes. Nesse sentido, It Was Just an Accident me fez lembrar de outra produção comentada aqui no blog, The Seed of the Sacred Fig (Dane-ye Anjir-e Ma’abed no título original), com roteiro e direção de Mohammad Rasoulof. Naquele filme também temos um “homem comum” sendo desmascarado conforme a história avança. E a família dele acaba ficando horrorizada quando ele revela sua verdadeira face. Isso não acontece em It Was Just an Accident, mas o que os dois filmes tem em comum é a aparente ignorância que a esposa e a filha tem em relação ao que Eghbal realmente faz para viver e levar dinheiro para casa – e para sustentá-las.
Mas, voltando para a história de It Was Just an Accident. Como comentei antes, aquele grupo acaba se desfazendo. Primeiro, Hamid deixa o grupo – principalmente por causa da relação conflituosa que ele tem com Shiva, sua ex. Depois, o casal de noivos também vai embora – porque não vê como poderá contribuir mais com a situação. Então Vahid e Shiva ficam com a missão de terminar com aquele sequestro – de uma forma ou de outra, eles vão decidir ainda o que fazer.
De forma muito inteligente, mas acho que um pouco despretensiosa até, Vahid acaba falando para o homem que ele sequestrou sobre o que aconteceu com a esposa dele. Eghbal fica sabendo, assim, que foi pai pela segunda vez. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Esse momento de “emoção” e de um pouco mais de fragilidade acaba fazendo com que ele ceda, e ele confessa que é o homem que fez mal para Vahid, Shiva e os demais. E então, o que será feito dele agora?
Mais uma vez, nesse momento de ápice da história, It Was Just an Accident discute sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que diferencia a busca pela justiça e a vingança. Com aquele final, fica claro que não é possível buscar por justiça naquele país. Porque Eghbal jamais vai responder pelos crimes e abusos que cometeu. Então não há espaço para justiça. Há espaço para vingança, é claro, porque isso pode ser feito em qualquer parte, já que é pura barbárie. Mas é isso que Vahid, Shiva e os demais querem?
A vingança vai apagar o que eles sofreram e vai tornar a sociedade deles melhor? Não, claro que não. E o que pode significar para o protagonista se tornar um assassino? Porque é disso que estamos falando aqui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pois bem, It Was Just an Accident poderia ter terminado com um final mais em aberto, mas Jafar Panahi faz aqui uma escolha deliberada por mostrar que as pessoas comuns do Irã são diferentes daquelas que estão no poder. Elas não são assassinas, mesmo tendo “razões” (nunca acho que exista uma razão para isso, mas ok) para buscarem vingança.
(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Então sim, Eghbal acaba confessando, principalmente após saber o que aconteceu com a família dele e com a pressão feita por Shiva, que ele é o homem que o grupo procurava. Ele torturou, foi cruel ao extremo, e ainda tenta justificar suas ações. O que deixa Shiva revoltada é quando ele diz que será bom se eles matarem ele porque ele vai virar “mártir”. Ou seja, além de fazerem algo que eles não querem, eles ainda vão dar algo que o criminoso aquele deseja.
Mas, para além de questões muito particulares e filosóficas, Vahid e Shiva tem um problema pela frente: se eles libertarem Eghbal, o que garante para eles que esse homem, que faz parte do sistema e que está habituado a ser cruel, não vai atrás dele e de seus familiares depois?
(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em certo momento, é verdade que Eghbal promete deixar os perseguidores dele em paz caso ele for libertado e confirmar que a família dele realmente está bem. Mas como acreditar nele? Hamid disse antes, e com razão, que não dá para confiar em alguém cruel e capaz das maiores atrocidades. Então, depois de Eghbal fazer a famosa confissão que Vahid estava esperando, ele acaba sendo libertado. E daí temos a cereja do bolo da produção quando, mais uma vez, o som acaba jogando um papel decisivo nas cenas finais. Não vemos, mas ouvimos Eghbal fazendo uma “visita” para Vahid.
O protagonista congela e fica desesperado ao ouvir novamente aquele caminhar muito característico, marcante e que lhe recorda dos momentos mais tenebrosos de sua vida. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas ao invés de ouvir alguma palavra de Eghbal, um tiro ou qualquer outro som, Vahid ouve o cantar de um pássaro. E, depois, os passos de seu antigo algoz se distanciando. Ou seja, Eghbal entrega um “presente” para Vahid, que está terminando de preparar o seu enxoval. E nada mais simbólico do que um pássaro, não é mesmo? Mas, nesse caso, um pássaro enclausurado.
Seria um lembrete permanente da condição do protagonista? De que ele pode olhar para a frente, amar, criar novos laços, manter-se próximo da mãe e do restante da família, mas que essa liberdade é relativa, a mesma de um pássaro em uma gaiola? Ele pode “cantar”, mas não pode voar. Seria algo bem simbólico também do regime daquele país. Porque toda nação que vive uma ditadura ou um regime autoritário faz com que as pessoas da nação vivam uma liberdade relativa. São livres apenas até certo ponto e apenas para ter determinadas ações, crenças e pensamentos. Tudo que entre dentro do que o regime quer e permite.
O que foge disso, do que o regime deseja, é condenado. E as pessoas rapidamente podem não apenas perder parte de sua realidade, mas deixar de existir. Serem eliminadas. Um filme interessante sobre tudo isso e com um final que faz pensar. O medo de Vahid no final será algo que sempre vai acompanhar ele, não importa o que aconteça a partir dali. Um final interessante, bem planejado, mas a produção poderia ser um pouco mais curta – como eu disse, renderia um belo curta.
Acho que parte da narrativa envolvendo os personagens que buscam por uma resposta sobre Eghbal é um bocado repetitiva, e toda a parte final, em que finalmente Vahid e Shiva conseguem o que querem, é um bocado forçada – ok, dá para entender sobre a perspectiva cultura dos realizadores – e dramática. Sim, chega a ser um pouco subversivo para o contexto do filme uma mulher conseguir torturar um homem e arrancar dele a confissão que eles tanto queriam. Os papeis se inverteram ali. Isso é interessante, mas o desenvolvimento dessa parte e de outros momentos da narrativa achei um tanto redundantes e exagerados.
Me parece que boa parte da narrativa de It Was Just an Accident está focada em dar espaço para as vítimas do sistema falarem sobre os absurdos pelos quais eles passaram. Acho importante esse posicionamento do diretor, até pelo histórico que ele tem de combater realmente o sistema fazendo um cinema que também é político e social. Mas algumas declarações dos personagens acabam ficando repetitivas, assim como aquela busca deles por uma validação/confissão.
Um filme com propósitos muito claro, muito justos, que vale ser visto mas que não vai perdurar tanto tempo na nossa memória porque lhe falta um pouco mais de profundidade. A sacada do uso do som no filme é um dos pontos fortes da produção. Também gostei da forma como a produção trata perseguidores e perseguidos como pessoas comuns, e de como um fato inesperado (o acidente) pode desencadear uma série de acontecimentos importantes e decisivos para várias pessoas. Apesar dessas sacadas, acho que falta para o filme elementos que sobram em outras produções dessa safra do Oscar.
NOTA
8,6.
OBS DE PÉ DE PÁGINA
O ano passado, 2025, foi um ano em que eu assisti a poucos filmes. Meu tempo ficou bem mais restrito, por diversas razões, e mesmo quando eu tive tempo livre, acabei gastando esse tempo com outras atividades, como leitura, para assistir séries e para ter uma rotina maior de atividades físicas. Mas uma das minhas missões em 2026 é manter esse espaço mais atualizado. E, para isso, claro, ver mais filmes nesse ano.
Comento isso porque eu poderia ter assistido a It Was Just an Accident no ano passado ainda, tranquilamente, depois que a produção ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Porque sim, o filme ganhou a sua grande projeção mundial após vencer o importante festival de cinema francês em maio de 2025. Mas não, eu acabei vendo essa produção só agora e, como vocês podem imaginar, por causa do Oscar 2026.
Não faz muito tempo que It Was Just an Accident e Sentimental Value (com crítica neste link) eram apontados como os grandes concorrentes do brasileiro O Agente Secreto (comentado aqui no blog) em todas as principais premiações do cinema mundial – inclusive no Oscar.
Bem, cada um desses filmes ganhou os seus prêmios. Até o dia de hoje, 18 de janeiro de 2026, O Agente Secreto tem 51 prêmios no currículo, enquanto Sentimental Value tem 38 prêmios e It Was Just an Accident tem 37. Eu não acho que os melhores filmes são, necessariamente, os mais premiados, mas também não dá para ignorar esse fator como um chamariz importante. E sim, devo concordar com os números até agora. O Agente Secreto, para mim, é um filme melhor, mais acabado, mais rico e mais interessante que os outros dois francos concorrentes. Ele ganha em profundidade e acerta muito especialmente no final – parte em que Sentimental Value derrapa, a meu ver.
Então sim, cheguei até It Was Just an Accident por causa do Oscar 2026, apesar de estar um pouco atrasada – já poderia ter assistido ele em meados de 2025. É uma boa produção, mas não acho tão formidável para estar entre as principais concorrentes do Oscar. Acho sim que, como acontece em outras premiações, o Oscar dá visibilidade e espaço para cineastas conhecidos e que tem uma luta política importante. Isso algumas vezes vale mais do que a qualidade da obra em si.
Com isso eu não quero dizer que It Was Just an Accident seja um filme ruim. Claro que não. Mas falta para ele densidade e uma condução mais atrativa. Mas enfim, acho que vale ele ter recebido os prêmios que recebeu – a Palma de Ouro foi um prêmio muito mais político do que por mérito, me parece – e acho que ele vai conquistar sua vaga no Oscar, mas não acho que ele merece ganhar de O Agente Secreto nunca.
Acho que vale falarmos um pouco sobre o grande nome por trás dessa produção, o diretor e roteirista Jafar Panahi. Nascido no dia 11 de julho de 1960 na cidade de Mianeh, no Irã, estreou na direção em 1988 com o curta Yarali Bashlar. No mesmo ano ele dirigiu outro curta, Negah-e Dovom, antes de em 1991 estrear na direção de seu primeiro longa: Kish. Então ele não parou mais de fazer filmes.
Até o momento, Panahi tem 77 prêmios no currículo e desde os anos 1990 ele é considerado um dos principais cineastas iranianos. Mas, segundo esse interessante artigo da Harvard Film Archive, o que diferencia Panahi de outros cineastas é sua “compaixão por aqueles à margem da sociedade”. Essa característica fez com que ele, de forma muito natural, se associasse “à oposição política durante os grandes protestos que se seguiram à reeleição do presidente Ahmadinejad em 2009”.
Ainda segundo o texto de Harvard, devido ao posicionamento de Panahi, o governo do Irã “o prendeu por várias semanas, depois o colocou em prisão domiciliar e o proibiu de fazer filmes”. Mas, mesmo perseguido e combatido pelo regime iraniano, Panahi seguiu fazendo cinema – entre os anos de 2009 e 2025 ele dirigiu e lançou quatro curtas, seis longas e participou com dois segmentos em dois longas “coletivos”. Ou seja, um diretor bastante produtivo, apesar de toda a perseguição que ele sofre, e que se mantém muito ativo.
Mesmo proibido de trabalhar, como outros cineastas do seu país e de outros regimes autoritários, Panahi trabalha na clandestinidade e segue fazendo cinema com apoio de outros países. No final de 2025, o cineasta foi condenado mais uma vez – segundo essa matéria da CNN Brasil, que utiliza informações da Variety, ele foi condenado agora a um ano de prisão porque estaria envolvido em “atividades de propaganda” contra o governo do Irã. Bem, acho que não preciso nem comentar, certo? A velha e conhecida repressão. Um regime equivocado tentando calar todos os opositores.
Para quem quer saber um pouco mais sobre o diretor, recomendo esse texto de Raquel Carneiro publicado pela Veja. Achei interessante também esse conteúdo da CBN que repercute uma entrevista de Panahi dada para o The Guardian na qual o cineasta defende que o regime iraniano não deve sobreviver muito tempo – especialmente após a escalada da violência no país, com a repressão terrível que o governo fez dos protestos que se espalharam pelo Irã.
De acordo com essa reportagem do G1, o grupo de direitos humanos HRANA, sediado nos Estados Unidos, estima que 2.677 pessoas teriam sido mortas nos protestos que iniciaram em 28 de dezembro de 2025 e que perseguem até agora no país. Segundo a mesma organização, mais de 19 mil pessoas teriam sido presas nesses protestos. A situação está complicadíssima por lá, e o cinema iraniano, especialmente o feito por Panahi, que tem um posicionamento político muito claro, seguirá em evidência por muito tempo também por causa da realidade enfrentada pelo país.
Claro que o grande nome por trás de It Was Just an Accident é o de Jafar Panahi. Só ele pode contar essa história da forma como ela é contada. E ele é o nome que dá força e visibilidade para a produção. Mas, além dele, claro que o filme tem ao menos um outro grande destaque. O ator Vahid Mobasseri não é apenas o protagonista desta produção como ele rouba a cena cada vez que aparece. Seu personagem é interessante, o típico “cidadão comum”, e Mobasseri se sai perfeitamente nesse papel.
Como comentei anteriormente, It Was Just an Accident é focado em um grupo pequeno de personagens. O destaque, claro, vai para o protagonista Vahid e para o trabalho perfeito, sem sobras ou faltas, do ator Vahid Mobasseri. Mas, depois dele, tem bastante relevância na história os personagens e as atuações de Mariam Afshari como Shiva, a principal parceira de Vahid na busca pela verdade, e de Ebrahim Azizi como Eghbal, o homem que pode ser o grande vilão dessa história ou pode ser apenas um sujeito comum que é pego para Cristo porque tem o mesmo jeito de andar e produz o mesmo barulho que o algoz do grupo. Mariam tem mais tempo de tela, mas tanto ela quanto Ebrahim se saem muito bem em seus papéis.
Depois deles, os coadjuvantes com mais tempo de tela e com maior importância nessa trama são Mohamad Ali Elyasmehr como Hamid, o homem que tocou na perna do algoz a mando dele e que pode ajudar a reconhecê-lo agora – ou ao menos é o que o grupo acredita, ator que está muito bem em seu papel, mas que chega a ser chato pelo nível de descontrole permanente em que ele parece estar (ok, até justificável pela sua história mas, ainda assim, fica chato, um pouco exagerado, culpa do roteiro mais do que do ator, é claro); Hadis Pakbaten está muito bem como a noiva revoltada Golrokh – que representa muito bem, ao lado de Shiva, as mulheres que sofrem na mão do regime do país; e Majid Panahi em um papel ligeiramente menor como o noivo de Golrokh, que simboliza todas as pessoas que não passaram por aqueles abusos mas que sofrem também por terem pessoas próximas como vítimas do sistema.
O trio de atores acima, juntamente com os já citados Vahid, Mariam e Ebrahim, são o coração do filme. Eles que conduzem essa história e que merecem a maior parte da nossa atenção. Mas, além deles, tem alguns outros personagens secundários que merecem ser citados. Esses são os casos de Delmaz Najafi como a filha fofa – e com falas bem importantes – de Eghbal; de Afssaneh Najmabadi como a esposa de Eghbal – a atriz está muito bem e passa uma imagem de uma mulher muito bacana e amorosa que é esposa de um homem capaz de praticar as maiores atrocidades em seu trabalho; George Hashemzadeh praticamente em uma ponta como Salar, o amigo de Vahid que faz ele se aproximar de Shiva e das outras pessoas do grupo de justiceiros; Omid Reza como o colega de trabalho de Vahid e a pessoa que acaba colocando Eghbal na rota do colega sem querer; e Sedigheh Sa’adati em uma ponta como a mãe de Vahid.
Entre os aspectos técnicos do filme, acho que os pontos de destaque são a direção de fotografia de Amin Jafari e a edição de Amir Etminan. Além deles, vale citar o trabalho de Leila Naghdi Pari como decoradora de set e figurinista. Por fazer esse filme de forma independente e clandestina, Panahi trabalhou com uma equipe muito enxuta.
Agora, vale citar algumas curiosidades sobre essa produção. A ideia do filme surgiu a partir da experiência que o diretor e roteirista Jafar Panahi teve na prisão, onde ele ficou detido entre julho de 2022 e fevereiro de 2023. Mesmo condenado a seis anos de prisão, ele saiu após esse período depois que fez uma greve de fome. Depois de ganhar liberdade, Panahi conheceu e conversou com diversos outros detentos. Isso o motivou a escrever um filme no qual ele pudesse elaborar o que essas pessoas fariam após elas serem libertadas.
Segundo as notas de produção, It Was Just an Accident foi rodado em segredo e sem autorização da República Islâmica. A maioria das atrizes que vemos em cena não usam o hijab, o que é obrigatório para as mulheres no Irã – isso foi algo que me chamou a atenção no filme. Apesar dos cuidados que a equipe teve ao fazer o filme, quando eles estavam próximos de terminar as gravações, policiais abordaram a equipe e exigiram que eles entregassem as cenas gravadas. Esses policiais ameaçaram prender todos e interromper as gravações quando Panahi se recusou a entregar o material. Depois de algum tempo os policiais acabaram cedendo e o diretor conseguiu concluir o filme.
Apesar de ter sido rodado de forma clandestina no Irã, It Was Just an Accident teve toda a sua fase de pós-produção realizada na França. Panahi fez essa escolha para evitar interferências das autoridades iranianas nessa fase do filme – e outro tipo de represália que pudesse surgir a partir daí.
Por ter sido finalizado na França e por contar com recursos do país europeu It Was Just an Accident foi escolhido como o representante oficial do país no Oscar 2026.
O elenco mistura atores profissionais, como Vahid Mobasseri e Ebrahim Azizi, com atores amadores, como Mariam Asfshari, que interpreta Shiva e que no dia a dia atua como árbitra de caratê, e Mohamad Ali Elyasmehr, que interpreta Hamid e que atua como carpinteiro e estudante de teatro.
It Was Just an Accident recebeu, até o momento, 37 prêmios, como eu comentei anteriormente, e foi indicado a outros 102 prêmios. Entre os prêmios que recebeu, além do destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2025, vale citar os prêmios de Melhor Filme Internacional do National Board of Review; os de Melhor Filme Internacional, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original nos Prêmios Gotham; e o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Sydney.
Além disso, o filme foi indicado a quatro categorias do Globo de Ouro 2026: Melhor Filme – Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa, Melhor Roteiro e Melhor Diretor. O filme não ganhou nenhum desses prêmios.
Os idiomas falados durante It Was Just an Accident são o persa (língua oficial do Irã, do Afeganistão e do Tajiquistão) e a língua azeri (falada principalmente no Azerbaijão e no Irã).
Não encontrei informações sobre o custo de produção de It Was Just an Accident, mas no site Box Office Mojo eles nos informam que o filme faturou US$ 1,7 milhão nos cinemas dos Estados Unidos e US$ 7,9 milhões nos cinemas de outros países onde a produção já estreou. O melhor resultado do filme foi na França, onde ele fez US$ 5,4 milhões nas bilheterias. Depois vem a Itália, com quase US$ 1,5 milhão.
Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para It Was Just an Accident, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 186 críticas positivas e cinco negativas para o filme – o que garante para essa produção o nível de aprovação de 97%. O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” 91 para essa produção, fruto de 39 críticas positivas e de duas críticas mescladas, além do selo “Metacritic Must-see”.
It Was Just an Accident é uma coprodução do Irã com a França, Luxemburgo e os Estados Unidos.
CONCLUSÃO
Um filme interessante, bem desenvolvido, e que se destaca pelos detalhes. O som, em especial, acaba tendo um papel muito importante em It Was Just an Accident, o que torna o filme um pouco mais sofisticado do que a média do mercado. A história em si da produção é simples, linear, mostrando um grupo de pessoas – com duas em especial – procurando pela verdade e por algum tipo de justiça.
Com uma carga política e de crítica social importante, It Was Just an Accident nos faz refletir sobre os conceitos que eu comentei antes (busca da verdade e por justiça) e nos apresenta, através de diálogos entre os personagens, alguns relatos de abusos de um regime autoritário e arbitrário. Um bom filme, mas menos potente e interessante que outros desta safra.
PALPITES PARA O OSCAR 2026
Cheguei até esse filme, como comentei anteriormente, porque ele é um dos dois fortes concorrentes do Brasil no Oscar desse ano. Por algum tempo, apontaram It Was Just an Accident como o favorito ao prêmio de Melhor Filme Internacional. Mas isso até que Sentimental Value (com crítica neste link) começasse a ganhar corpo e, principalmente, que O Agente Secreto (com comentários por aqui) começasse a ser visto. Daí o filme dirigido por Panahi foi perdendo força pouco a pouco.
Depois de assistir a essa produção, realmente, tenho que concordar com quem tem feito essas avaliações sobre as chances dos filmes para o Oscar. O Agente Secreto é o melhor dos três, sem dúvidas. Em seguida, gostei mais de Sentimental Value, que acho mais denso e com mais camadas do que esse It Was Just an Accident. Claro, não dá para ignorar as dificuldades de Panahi de fazer cinema e da importância dele seguir trabalhando como um ato de resistência, mas isso não faz, por si só, seu filme ser o melhor da temporada.
Admiro muito o trabalho do diretor e seu ato corajoso – e de sobrevivência – de seguir fazendo arte, apesar de toda a perseguição política. E busca a liberdade através da capacidade que o cinema lhe dá para se expressar, e isso é digno de prêmios e de homenagens. Mas olhando para a safra que está concorrendo neste ano no Oscar, It Was Just an Accident se apresenta como um bom filme, que merece ser indicado em uma ou mais categorias do Oscar, mas que não tem força, me parece, para levar uma estatueta dourada para casa.
Na divulgação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood feita no dia 16 de outubro, quando foram divulgados os filmes que avançaram nas “shortlists” em 12 categorias do Oscar, It Was Just an Accident aparece entre os 15 filmes que avançaram na disputa e que poderiam ser votados para o prêmio de Melhor Filme Internacional. Segundo as bolsas de apostas, It Was Just an Accident deve conseguir uma das cinco vagas entre os finalistas dessa categoria, mas ele aparece atrás de O Agente Secreto e de Sentimental Value como as produções com maior chance de ganhar esse Oscar.
Francamente, devo concordar com os apostadores. Ainda preciso assistir a Sirât e No Other Choice, apontados como os outros dois filmes que devem fechar a lista de Melhor Filme Internacional, mas entre os filmes que eu assisti até o momento, realmente O Agente Secreto merece esse Oscar. E digo isso não pelo patriotismo ou por querer ver o Brasil ganhando o segundo Oscar consecutivo, mas porque o filme realmente merece. Entre os possíveis indicados desse ano, ele é o melhor. Veremos se o meu palpite e a aposta da galera se confirma.
Ah, e vale comentar que, apesar de ser extremamente reconhecido pelos festivais de cinema europeus e muito premiado por lá, Jafar Panahi nunca foi indicado ao Oscar. Em 2026 ele deve conquistar isso pela primeira vez, portanto. Mas acho que ele não sairá vencedor.