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Ford v Ferrari – Ford vs Ferrari

Um filme emocionante, com algumas imagens incríveis, com uma direção impecável e um bom trabalho de atores. Apesar disso, Ford v Ferrari incomoda um pouco por sua versão dos fatos que trabalha apenas o lado americano da história. Para quem gosta de Fórmula 1 e de outras competições de alta velocidade, certamente este filme será um deleite. Para os demais, Ford v Ferrari é um filme interessante sobre fatos históricos curiosos e sobre uma história de amizade que marcou as corridas de carro. Curioso, mas não é um dos melhores do ano.

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Ahlat Agaci – The Wild Pear Tree – A Árvore dos Frutos Selvagens

Fazer as pazes com as suas origens nem sempre é algo simples. Muitas vezes, insatisfeitos que somos – ou podemos nos tornar -, questionamos o lugar de onde viemos, assim como nossos pais. Mas esta é uma visão inocente dos fatos. Com o tempo, e o efeito dele é algo maravilhoso, percebemos tudo sob outra perspectiva. Com menos dureza, com menos julgamento, com maior compreensão e afeto. Ahlat Agaci é um filme potente sobre isso. Um filme longo, é verdade, com cerca de 3h de duração, mas que justifica esse investimento de tempo e paciência especialmente no final. Um filme belíssimo, sensível e com uma proposta diferenciada. Um achado.

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Di Qiu Zui Hou De Ye Wan – Long Day’s Journey Into Night – Longa Jornada Noite Adentro

O que é cinema e o que é sonho? O cinema, em última análise, não passa de sonho? O quanto das nossas memórias realmente aconteceram e o quanto do que achamos que aconteceu não passa de ilusão, de “armadilhas” ou de “sonhos” que a nossa mesma mente criou? Todas as questões parecem embalar Long Day’s Journey Into Night, filme chinês que mistura muito bem a questão do sonho, das memórias e do cinema. O filme é alternativo, importante você saber. Ele tem um ritmo bastante lento e, claramente, muitas vezes, ele nos desafia a entender se o que está acontecendo é realidade ou não. Um filme “diferentão” mas que tem uma proposta visual e de estilo bem interessante.

A HISTÓRIA: Um microfone e uma bateria ao fundo. Luo Hongwu (Jue Huang) diz que sempre que a via, ele sabia que estava em um sonho novamente. Ele então comenta que quando você sabe que está sonhando, é uma experiência extracorpórea. Ele também se perguntava, quando estava nesses sonhos, se seu corpo era feito de oxigênio e questionava as próprias memórias. Então ele acorda. Ele está em um quarto de bordel.

A mulher que sai do banho comenta que ele estava falando enquanto dormia, e pergunta com quem ele estava sonhando. Ele diz que com alguém que desapareceu. Ele diz que sempre que está prestes a esquecê-la, ele sonha com ela novamente. A garota pergunta se ela é a sua amante. Ele diz que acha que sim, mas que nunca soube a sua idade ou nome verdadeiro, muito menos o seu passado. Ela diz que parece uma história do livro de capa verde que ele sempre carrega. Ele vai embora enquanto ela segue secando o cabelo. Em breve veremos Luo Hongwu em uma jornada própria que mistura passado, presente, sonho e realidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Long Day’s Journey Into Night): Eis um filme com uma proposta interessante. Como a essência mesmo do cinema, que parece ser um pouco sonho, fantasia e um pouco realidade, Long Day’s Journey Into Night também mistura tudo isso em uma história que, no fundo, conta a busca de um homem pela mulher dos seus sonhos, pelo amor, o que, na verdade, marca a busca dele pela própria mãe.

Parece algo freudiano, não é mesmo? E não deixa de ser. Mas afinal, o que é realidade e o que é sonho em Long Day’s Journey Into Night? (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme). Para mim, grande parte da produção é sonho, imaginação e delírio do protagonista, Luo Hongwu. A direção de fotografia de David Chizallet, Jingsong Dong e Hung-i Yao é algo incrível, um dos pontos altos da produção. Ela mostra o protagonista em seu sofrimento em busca de respostas. Para mim, apenas o início da produção e o encontro dele com a amiga da mãe que o abandonou podem estar mais próximos da realidade. O restante mescla desejos e sonhos dele.

Interessante como o filme dirigido e com roteiro de Gan Bi acompanha o protagonista em suas desventuras atrás de respostas e do amor. No caso, aquele amor originário, que ele teve da mãe que o abandonou e de quem ele nunca soube quase nada – exceto o livro de capa verde que conta histórias que acabam embalando parte da narrativa. O momento que nos leva a acompanhar Luo Hongwu em sua aventura é quando ele volta para a cidade natal, Kaili, para o velório do pai, de quem ele herda uma antiga van.

Com esse veículo ele transita para cá e para lá procurando suas respostas. O quanto do que vemos em cena é realidade ou fantasia, me parece, vai depender do gosto de cada espectador. Para mim, a realidade acompanha o personagem até a cena em que ele encontra a fotografia da mãe escondida no relógio que era do pai. Outro momento de realidade é o encontro dele na prisão com a antiga amiga da mãe (amiga interpretada por Yanmin Bi).

Mas ele realmente se encontra com a ex-namorada do amigo morto Wildcat (Hong-Chi Lee)? Até pode parecer que sim, que ele teve algum encontro com ela. Mas em qual momento realmente ele encontrou e se apaixonou pela namorada do homem que o matou, Wan Qiwen (Wei Tang)? Quando vemos estas cenas, a meu ver, elas estão no passado e fazem parte das reminiscências do protagonista. Assim como quando ele lembra da mãe, quando ainda era jovem.

Ainda que parte do que vemos pode ter “bebido” na realidade, acho que maioria das memórias dele sobre a mulher amada também eram carregadas de fantasia. Na narrativa inicial do filme, Luo Hongwu nos diz que ele nunca imaginou que voltaria para Kaili. Que algo marcante em sua vida ali foi quando o amigo, Wildcat, foi morto.

Naquele ocasião, Luo Hongwu deveria ter ajudado Wildcat a carregar algumas maçãs, mas ele havia acabado de se divorciar, na época, e estava um pouco perdido. Quando se deu conta do compromisso com o amigo, ele já havia sido morto e as maçãs estavam apodrecendo. Ao limpar o carrinho, ele encontrou uma arma e diz que, após encontrá-la, ele sempre passou a ser “atraído pelo perigo”. Isso teria acontecido antes da morte do pai, aparentemente, que é o que faz ele voltar para a cidade.

Então o que vemos em cena, dele procurando a ex-namorada e tudo o mais, o que seria? Me parece um retorno do personagem ao passado, um resgate dos fatos que aconteceram mas, claro, com uma boa dose de fantasia no meio. Ele realmente se apaixona por Wan Qiwen, mas acaba tendo que abrir mão dela quando Zuo Hongyuan (Yongzhong Chen) retorna para a cidade. Ele é o bandidão do pedaço, responsável pela morte de Wildcat, e nem o protagonista e nem a sua “donzela indefesa” parecem ter chance contra ele.

Quando retorna para Kaili, parece que Luo Hongwu está cercado de lembranças, memórias, de sentimentos de culpa, frustração e amor não completamente realizado. A busca dele por respostas, que acaba envolvendo o seu “grande amor” e também a busca pela mãe, acaba nos fazendo mergulhar em um grande sonho que ele acaba tendo. Entre uma lembrança e outra, o acompanhamos em sua busca por respostas – quase em uma investigação policial.

Entre aquele início, dele voltando para a cidade natal, e a parte mais onírica da produção, vivemos constantemente entre o presente e o passado do protagonista, com ele buscando as suas respostas ao mesmo tempo em que mergulha em suas lembranças.

Depois sim, ele embarca completamente em um sonho. E talvez essa seja a parte mais interessante do filme, quando ele fantasia com Kaizhen (também Wei Tang) e se reencontra com a figura materna através da Red-hair Woman (Sylvia Chang). Interessante, realmente.

Então o filme é esse grande jogo entre um brevíssimo presente do personagem, suas lembranças passadas com uma certa dose de fantasia e seus sonhos mesclados com desejos do que poderia acontecer. Uma viagem, realmente, que nos convida para sair do cinema focado na realidade para entrar em um cinema de fantasia e “realismo fantástico”. Uma proposta diferenciada que é visualmente muito interessante, mas que acaba cansando um pouco por diversos trechos de pouco significado para a história.

Achei Long Day’s Journey Into Night um tanto longo demais e com uma preocupação muito grande de Gan Bi de torná-lo essencialmente artístico. Ok o filme ter uma proposta diferenciada. Esse não é o problema. Mas quando as imagens e o estilo do filme contam mais pontos do que a história, a produção acaba sendo um pouco vazia, hermética ou longa demais. Acho que este filme sofre um pouco com isso.

Ainda assim, ele não deixa de ser uma experiência interessante. Vale ser conferido, especialmente se você se interessa por estilos de cinema de outras latitudes, como, neste caso, o cinema chinês. Gostei do filme, mas é preciso estar bem desperto para acompanhá-lo sem dormir no processo. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dois elementos se sobressaem nesta produção: a sua direção de fotografia e trilha sonora. Excelente o trabalho de construção visual realizado pela direção de fotografia de David Chizallet, Jingsong Dong e Hung-i Yao, assim como o design de produção de Qiang Liu e a decoração de set de Yonghua Li, Dong Li Wang e Changhua Wu. Todos esses elementos ajudam o diretor Gan Bi a construir esta história. Bastante pontual, mas muito marcante também a trilha sonora de Chih-Yuan Hsu e Giong Lim. Essa trilha nos embala em muitos momentos, reforçando a ideia de mistério e de sonho da produção. Marcante, realmente.

Interessante que quando o protagonista entra no seu grande sonho, que o leva na tal longa jornada pela noite, ele mistura todos os elementos que tem a ver com os seus sentimentos – incluindo culpa, curiosidade e desejo. Não por acaso essa parte da história começa em um mina, justamente o local em que o seu melhor amigo, Wildcat, foi encontrado morto. Depois, claro, ele mergulha nas lembranças da cidade, seus eventos e encontros.

O ator de destaque da produção é Jue Huang, que vive o protagonista atormentado e um tanto delirante Luo Hongwu. Depois, além dele, o grande destaque vai para Wei Tang, que interpreta as duas “paixões” da sua vida, Wan Qiwen e a garota dos sonhos dele, Kaizhen. Vale também comentar o bom trabalho, ainda que em cenas bastante específicas, de Sylvia Chang como a mãe de Wildcat e como a Red-hair Woman; de Hong-Chi Lee em praticamente uma ponta como Wildcat; de Yongzhong Chen também em um único momento do filme como Zuo Hongyuan; de Feiyang Luo como o jovem Wildcat, em uma troca interessante com o protagonista no fundo do túnel da mina; e de Yanmin Bi como a amiga da mãe do protagonista.

Além dos elementos técnicos já comentados, vale comentar a boa edição de Yanan Qin; e os figurinos de Hua Li e Chu-Chen Yeh.

Talvez você se pergunte: “Puxa, mas se o filme tem tantos pontos positivos, por que você deu apenas a nota 8 para ele?”. Long Day’s Journey Into Night é um filme interessante e, principalmente, muito bonito e estiloso. Mas quem me acompanha aqui no blog há tempos sabe que, para mim, não basta um filme ter uma proposta interessante e ser visualmente incrível. A história, o roteiro é o que mais me interessa e, nesse sentido, achei esse filme apenas mediano.

Long Day’s Journey Into Night estreou no dia 15 de maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até abril de 2019, o filme participou, ainda, de outros 22 festivais em diversos países pelo mundo. Nessa trajetória, o filme ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 13. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Direção de Fotografia, Melhor Trilha Sonora Original e Melhores Efeitos Sonoros no Festival de Cinema Golden Horse, evento que acontece na cidade de Taipei, em Taiwan; o Special ICS Award conferido pelo International Cinephile Society Awards; e prêmio dado pelo júri estudantil do Tokyo FILMeX.

Agora, vale citar uma curiosidade sobre esta produção. A comercialização de Long Day’s Journey Into Night gerou controvérsia. Isso porque o marketing do filme, lançado no circuito comercial no dia 31 de dezembro de 2018 como “um bom evento para celebrar o Ano-Novo”, foi direcionado para o público em geral, sem deixar claro que esta produção tratava-se de um filme de arte. Isso fez com que muitos internautas criticassem a produção, inclusive chamando ela de “falso artístico”. O filme ganhou US$ 38 milhões no primeiro dia de exibição, mas já no segundo dia a bilheteria da produção caiu em 96%. Sem dúvida alguma que essa produção não é um filme para quem não aprecia outras escolas de cinema. Certamente não vai agradar quem curte apenas Avengers. 😉

Long Day’s Journey Into Night apresenta a nota 7,2 no site IMDb. No Rotten Tomatoes, o filme ganhou 49 críticas positivas e apenas quatro negativas, o que confere para o filme uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,92. No site Metacritic, o filme registra um “metascore” 88, fruto de 16 críticas positivas e de uma mediana, além do selo “Metacritic Must-see”.

Essa é apenas a quarta produção lançada pelo diretor Gan Bi. Ele estreou em 2012 com o curta-metragem Jingang Jing e lançou o primeiro longa em 2015, Lu Bian Ye Can – conhecido no mercado internacional como Kaili Blues. Depois, em 2016, ele lançou o curta Mi Mi Jin Yu e, agora, em 2018, esse Long Day’s Journey Into Night. Pelo que eu li sobre Kaili Blues, produção que também misturava passado, presente e futuro, o novo filme do diretor parece ser praticamente uma sequência desse seu primeiro longa. Até o momento, Gan Bi coleciona 16 prêmios no seu currículo – além de outras 24 indicações.

Long Day’s Journey Into Night é uma coprodução da China com a França. Bacana ver a um filme chinês, para variar. Apesar deles não terem um cinema tão tradicional quanto o japonês ou como o francês, mas vale acompanhar o que eles nos trazem daquela latitude. O filme todo é falado em mandarim.

CONCLUSÃO: Um filme muito interessante, especialmente em seu visual e no trabalho dos atores, mas que não apresenta um grande roteiro. Sim, Long Day’s Journey Into Night nos faz pensar sobre as questões que apontei no início dessa crítica, mas a história em si conta a trajetória do protagonista, Luo Hongwu, em busca do próprio passado, do seu amor perdido e da figura da mãe que ele nunca teve. O retorno do protagonista para a cidade na qual ele cresceu abre quase um portal no tempo que o leva a misturar passado e presente, assim como sonhos e desejos.

No final, ele tem o desfecho fantasioso de sua história preferida, mas pouco sabemos sobre o que realmente aconteceu. É um filme bonito, mas um tanto vazio de significado – apesar de nos fazer pensar sobre realidade, sonhos, desejos e como alguém pode viver preso em algo irreal. Apesar de apreciar filmes com pegada artísticas e lentos, achei essa produção um tanto cansativa demais. Vale assistir se você tiver interesse pelo cinema chinês e se estiver com vontade de ver a um filme mais onírico, artístico e que joga bem com a ideia de cinema e sonho.

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Amanda

As crianças têm muito a nos ensinar. Da sua forma singela, meiga e diferente da nossa. Amanda nos conta uma destas histórias de aprendizado. Um filme simples, bastante franco e que nos faz pensar sobre a crueza, a brutalidade, a beleza e a simplicidade da vida. Estas questões que nos passam desapercebidas, muitas vezes, porque estamos correndo mais de um lado para o outro do que observando o que realmente se passa ao nosso redor.

A HISTÓRIA: Algumas árvores, locais vazios e o sinal de uma escola. Os estudantes saem, conversam e se despedem. Aos poucos, todos vão embora, menos Amanda (Isaure Multrier), que fica esperando sozinha alguém. Em outro lugar, David (Vicente Lacoste) comenta que as pessoas que ele estava esperando estão atrasadas. A família acaba chegando, e David os recepciona, levando o grupo até o apartamento onde ficarão hospedados. Na escola, Amanda diz que está esperando que David a busque, e uma das responsáveis pelo local pede para ela entrar. David corre para buscá-la e, mais tarde, receberá uma bronca da irmã, Sandrine (Ophélia Kolb).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Amanda): O cinema francês é sempre delicioso. Franco, humano, sensível. Amanda é mais um filme no melhor estilo francês. Por isso, vale assisti-lo com atenção e com tempo. Com o cuidado que a própria história oferece.

De forma tranquila, sem “fogos de artifício” ou momentos planejados para fisgar o espectador pela surpresa, Amanda nos apresenta uma história cheia de elementos do nosso tempo. (SPOILER – não continue lendo se você não assistiu ao filme ainda). Para começar, a constituição da família que temos no centro da história e a vida de seus personagens. Amanda é filha de uma mãe solteira. A relação dela com a mãe é maravilhosa, mas Sandrine, ainda jovem, não deixa de “curtir a vida” e de buscar o amor.

Apesar disso, não existe a presença masculina de forma visível na vida da mãe ou da filha. A presença masculina na vida de Amanda é do tio, que ela não chama de tio, mas de irmão da mãe. Aliás, eles tem uma relação interessante a esse respeito. Quando os irmãos falam dos pais, geralmente citam eles como referência da outra pessoa também. Um exemplo: quando David fala da mãe dele, cita Alison (Greta Stacchi) como a mãe de Sandrine. Volta e meia os próprios irmãos se chamam pelo nome, assim como Amanda os chama pelo nome. Interessante.

Ainda que esta forma de se referirem uns aos outros pareça um tanto impessoal, David, Sandrine e Amanda tem uma relação muito próxima e afetuosa. Os irmãos claramente cresceram juntos e se mantém unidos apesar das diferenças de gênio ou de vida que possam ter. Acompanhamos eles pela cidade, especialmente David – que é o narrador desta história. Os irmãos circulam por Paris de bicicleta, então temos muitas chances de ver a bela cidade durante esta produção – aliás, esta é uma das qualidades do filme.

Outra qualidade é a forma honesta e simples de conduzir esta história do diretor Mikhaël Hers. Ele é também o roteirista do filme, juntamente com Maud Ameline. Ambos conduzem o roteiro de forma franca, honesta e simples. Assim, nem parece que estamos vendo a uma ficção na nossa frente, e sim quase um documentário. Tudo é contado sob a ótica de David, que é surpreendido pelos fatos como se nós mesmos estivéssemos envolvidos por aquelas situações.

O personagem de David também nos fornece alguns elementos interessantes da vida típica dos nossos dias. Aos 24 anos, o jovem não tem exatamente uma vida segura. Como tantos outros jovens europeus – e de outras partes do mundo – ele não tem um emprego fixo. David vive em um apartamento que não é seu em troca de seu trabalho de administrar um prédio para o seu proprietário. Assim, ele tem que se desdobrar para receber hóspedes e inquilinos e, em troca deste trabalho, ele tem um local para morar.

Algumas vezes, quando é necessário, ele também trabalha para a prefeitura podando árvores. Mas esse trabalho não é regular, então não é algo com o que ele possa contar no seu dia a dia. Além disso, ele vive o seu cotidiano próximo da irmã e da sobrinha e saindo com os amigos. Uma vida bastante normal, por assim dizer, até que um fato chocante acontece e muda as suas perspectivas.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em um dia de folga, Sandrine marca de fazer um encontro com amigos em um parque da cidade e, justamente naquele local e naquele dia, ocorre um ataque terrorista. Ela e várias outras pessoas são mortas, e isso muda a vida de Amanda, de David e de vários outros. Eis outro tema bastante contemporâneo. A partir deste momento, vemos como um ato terrorista tem um efeito devastador e marcante na vida de pessoas comuns.

Muito interessante e potente a forma com que este filme nos mostra o “day after” da tragédia. A cidade está bastante vazia, alguns locais estão fechados para visitação turística mas, no demais, tudo parece seguir “normal”. E isso é o que Amanda nos mostra com muita franqueza. Enquanto a vida de algumas pessoas muda radicalmente, como a da própria Amanda, que nunca mais terá a mãe por perto e não sabe bem com quem ela seguirá vivendo, para a cidade e seus habitantes a vida continua praticamente igual.

Isso nos mostra a particularidade dos acontecimentos. No nosso microcosmo particular, tudo pode mudar, enquanto no resto do mundo, do país, da cidade e até da sua rua tudo pode continuar praticamente igual. Chama a atenção, nesse filme, como muitas vezes os locais estão vazios. Seria uma reflexão sobre a vida normal na cidade extremamente turística de Paris ou uma forma do diretor simbolizar para o vazio das cidades e como a vida realmente acontece no interior das famílias?

Independente da resposta que esta produção desperte em você, algo é fato: Amanda nos mostra como a vida continua e como é sempre possível sorrir e ser grato à vida como a menina que dá nome a este filme nos ensina. Na sua inocência, delicadeza e franqueza, Amanda acaba não falando da mãe que perdeu e de tudo que mudou na sua vida, mas sempre tem um sorriso para dar ao cumprimentar uma pessoa. Ela está aberta ao que lhe acontece e segue adiante, mesmo sem saber todas as respostas. Inspirador, não é mesmo?

Quem dera que a gente preservasse esse olhar de Amanda por grande parte da nossa vida. Quando viramos adultos, temos muitas responsabilidades, contas para pagar, tarefas que fazer… e nos esquecemos de algumas das emoções e dos olhares mais importantes. Esse filme nos ensina que sim, é importante amadurecer (vide David e suas escolhas), mas que é fundamental também preservar o olhar e os sentimentos de quando éramos crianças (vide Amanda).

A vida acontece enquanto fazemos planos… quanto antes nos damos conta disso, menos acreditaremos na ilusão de que temos tudo sob o nosso controle. Importante sim fazer planos, sonhar, buscar realizar esses planos e sonhos, mas é preciso saber que muito pode acontecer no caminho e que precisamos nos adaptar às mudanças. Como Darwin já nos ensinou há muito tempo, sobrevivem os que conseguem se adaptar. Amanda nos conta muito bem sobre isso, de forma franca, sincera e direta. Um belo filme.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme com poucos personagens no centro da trama e atores muito competentes em cena. A produção dirigida com delicadeza e atenção aos detalhes por Mikhaël Hers nos mostra, mais uma vez, que não é preciso pirotecnia ou muitos personagens para contar uma bela história. Se você quer se aproximar das pessoas, dos seus sentimentos e de sua vida, não pode olhar para muitos lados ao mesmo tempo, mas manter o foco em uma ou duas pessoas por vez. Esse olhar atento e próximo faz parte do DNA de Amanda.

Gostei da direção de Mikhaël Hers e do roteiro que ele escreveu junto com Maud Ameline. Eles conseguiram um texto e uma condução muito verdadeiros, como se estivessem acompanhando uma história real e capturando os seus fatos. Um trabalho como este não pode ser feito “sob encomenda” ou de forma paralela a vários outros roteiros. Certamente eles se debruçaram nesta história e a lapidaram até que ela tivesse o tom verdadeiro que vemos em cena. Um presente para quem gosta de uma boa história e simpatiza com o cinema francês.

Como comentei antes, Amanda é focado em poucos personagens. Assim, impossível escapar de um belo trabalho como intérprete. Grande parte do filme está focado em David e Amanda. Assim, sem dúvida alguma, os atores Vincent Lacoste e Isaure Multrier são o destaque da produção. Especialmente a menina, que é realmente encantadora e que garante muita legitimidade para a produção. Lacoste também se sai muito bem nisso.

Além dos dois, merecem destaque, neste comentário, os atores Stacy Martin, que interpreta a Léna, uma inquilina que é recepcionada por David e que acaba se relacionando com ele; Ophélia Kolb como Sandrine Sorel, uma atriz também inspirada e que, infelizmente, por causa da história, acaba aparecendo menos em cena do que gostaríamos; Marianne Basler como Maud Sorel, tia de David; Jonathan Cohen como Axel, amigo de David que também é atingido no parque; Nabiha Akkari como Raja, companheira de Axel; Greta Scacchi como Alison, mãe de David e Sandrine.

Fazem pontas na produção os atores Bakary Sangaré, diretor do orfanato/casa de abrigo que é visitado por David; Claire Tran como Lydia, amiga de David e de Sandrine que volta para Paris sem saber do que aconteceu; Elli Medeiros como Eve, mãe de Léna; Zoé Bruenau como a assistente social que orienta David após a perda da irmã; e Lily Bensliman como a repórter que tenta fazer uma reportagem sobre o perfil das vítimas e encontra David em um café.

A história de Léna e de David tem o seu toque de complicação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vejamos. Léna só estava no parque porque conheceu David e porque ele a convidou para estar na confraternização com a irmã. Assim, ela quase morreu por ter conhecido ele, indiretamente. Abalada com o atentado – e como não estar? – ela acaba voltando para a casa da mãe. Percebe-se que ela não sabe lidar muito bem com o que aconteceu e com a relação que tem com David. Mas como o tempo ajuda a curar tudo e como David procura por ela, eles voltam a se reaproximar. Gostei da forma com que a história deles foi conduzida.

Entre os elementos técnicos da produção, destaque para a sensível e bastante presente trilha sonora de Anton Sanko, para a direção de fotografia de Sébastien Buchmann e para a edição de Marion Monnier. Também vale comentar o design de produção de Charlotte de Cadeville e os figurinos de Caroline Spieth.

Amanda estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou de festivais em Bordeaux, Tokyo, no Canadá e na Polônia. Em sua trajetória, Amanda ganhou três prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que recebeu foram o de Melhor Filme e Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Tokyo e o Magic Lantern Award no Festival de Cinema de Veneza.

O diretor francês Mikhaël Hers estreou na direção em 2006 com o curta Charell. Depois, ele dirigiu mais dois curtas antes de estrear na direção de longas com Memory Lane, em 2010. Antes de Amanda, ele dirigiu a outro longa, Ce Sentiment de L’Été, lançado em 2015. Pelos outros longas, ele foi indicado a prêmios, mas os primeiros prêmios que recebeu foram dados por seu trabalho com Amanda. Um diretor jovem, de 44 anos, que merece ser acompanhado. Pode render ainda belas produções.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram oito críticas positivas. Como não há críticas negativas no site, Amanda conseguiu, por enquanto, uma aprovação de 100% no Rotten Tomatoes – e uma nota média de 6,75.

Amanda é um filme 100% francês.

CONCLUSÃO: Um filme que nem parece uma produção de cinema. Amanda lembra mais a um documentário, apesar de ser uma obra de ficção. Mérito, especialmente, dos roteiristas e do diretor Mikhaël Hers, que contam essa história com muita franqueza e com um olhar cuidadoso e sem pressa. A história é forte e faz pensar. Sobre a vida, a morte, a família, a necessidade que todos nós temos de nos adaptarmos e de seguirmos adiantes. Um filme singelo mas muito bacana e sensível. Um trabalho muito bem conduzido por todos, com destaque para os atores principais. Mais um belo exemplar do sempre diferenciado cinema francês. Vale ser visto.

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Capharnaüm – Capernaum – Cafarnaum

A miséria é complicada e triste. Nem tanto a miséria que significa ausência de dinheiro e de oportunidades. Mas a miséria humana. Para esta, dificilmente há cura. Capernaum é um filme duro, que mostra uma boa parte da miséria e da crueldade que existe neste mundão mas com as quais, geralmente, não temos que lidar. Que filme, minha gente! Um verdadeiro soco no estômago. Um filme para ficar na memória por muito tempo. Capernaum arrepia, emociona, nos deixa com o coração na mão. Por tudo isso e muito mais, é um filme imperdível.

A HISTÓRIA: Um garoto, magro, apenas de cueca e camiseta, espera entre duas mesas. Depois, ele têm a boca examinada. O médico diz que por ele não ter mais dentes de leite, ele deve ter entre 12 e 13 anos de idade. Em seguida, vemos a muitas mulheres juntas. Alguém chama por Michelle, filipina. Pergunta qual é o sobrenome dela. Ela responde que é Sedad.

O interlocutor pergunta se ela tem passaporte ou visto de entrada. Michelle diz que está com o chefe dela. Em seguida, ele pergunta por Lama, que confirma que está grávida de sete meses. Ele diz que a Caritas vai procurá-la. A terceira mulher a ser questionada é Tigest Ailo (Yordanos Shiferaw), etíope. Assim começa a história de Zain (Zain Al Rafeea) e de Tigest/Rahil, duas pessoas que vivem na miséria e que são esquecidas pela lei, até que eles acabam presos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Capernaum): Desde antes do Oscar, quando saiu a lista dos filmes indicados e, depois, finalistas à premiação, eu queria assistir a Capernaum. Mas eu não sonhava que veria a um filme tão impactante. Não apenas por sua história, mas pela escolha das imagens e de todo o significado que esta produção nos passa. Um filme raro, sem dúvida.

Antes de falar dele, quero deixar claro que este não é um filme “passatempo”. Quem assistir a essa produção terá que mergulhar em realidades realmente complicadas e que vão deixar marcas no espectador. O filme roteirizado por Nadine Labaki, Jihad Hojeily e Michelle Keserwany começa potente e segue assim até o final. Se você está procurando um filme leve, quer algo para “descontrair” você e não ter que pensar muito, passe longe de Capernaum. Agora, se você não tem problemas em encarar de frente problemas que, de fato, existem mundo afora, questões que envolvem o essencial do ser humano, incluindo a sua face mais cruel, esta é uma grande pedida.

O que achei mais impressionante neste filme são as cenas cuidadosamente orquestradas pela diretora Nadine Labaki. Cada imagem é potente, seja ela próxima dos atores ou mostrando a “arquitetura” das cidades a partir de vistas aéreas. Tudo parece impressionar em Capernaum. E o que dizer daquele começo do filme? Impactante, preciso e um belo cartão de visitas do que veremos pela frente. Ah, e como sempre, indico que você assista ao filme sem saber praticamente nada dele antes – esse é o melhor caminho para experimentar ao máximo essa produção.

Nas primeiras cenas de Capernaum vemos a um menino sendo examinado. Ele não fala, mas não pode ser algo bom um médico ter que examiná-lo para dizer a idade que ele tem. Algo de errado aconteceu ali. Depois, vemos a uma mulher muito emocionada, com muitas lágrimas nos olhos, no que parece ser um grupo de refugiados. Essa introdução abre lugar para uma trilha sonora fantástica e uma edição incrível de um grupo de crianças brincando com armas feitas de madeira e pedaços de plástico ou latas.

Vemos na nossa frente um bando de garotos. Eles parecem estar extravasando a sua energia – talvez a sua raiva. A câmera de Nadine Labaki vai se afastando e vemos uma cidade que parece um tanto caótica. Mas a cena seguinte é ainda mais impactante. Vemos a uma criança algemada. Isso não é fácil de ser visto. Sob circunstância alguma. Perto um do outro estão Zain e Tigest, ambos algemados. O que poderia fazer uma criança ser algemada? Que crime ele pode ter praticado?

Em seguida, descobrimos que todos estão reunidos frente a um juiz porque Zaid, que nunca foi registrado e que teria, segundo um médico, cerca de 12 anos, está acusando os pais. Ele foi condenado a cinco anos por ter esfaqueado “um filho da puta”, segundo as suas palavras, mas agora acusa os pais por ele ter nascido. Não consigo imaginar um começo de filme mais impactante que esse. Mas o mais impressionante desta produção é que não é apenas o seu início que nos impacta, mas todo o seu desenrolar.

O que vemos em cena é muita, muita miséria. Pessoas que vivem de favores, de pequenos crimes e de muito trabalho informal. As crianças não podem ser crianças. Logo que tem tamanho suficiente para carregar peso, elas são colocadas para trabalhar. Os menores, são expostos a situações de risco porque, geralmente, acompanham os irmãos maiores. Capernaum começa com a mãe de Zain, Souad (Kawsar Al Haddad), fazendo o filho comprar remédios com uma prescrição médica em diversos lugares para, depois, envolvê-lo em uma operação de colocar a droga disfarçada em roupas para o irmão mais velho dele, que está preso. E isso é só o começo.

Os pais de Zain, Souad e Selim (Fadi Yosef) estão cercados de filhos e vivem em um local pequeno cedido pelo comerciante Assaad (Nour El Husseini). Em troca do local, os filhos do casal trabalham para Assaad – especialmente Zain. Também está “subentendido” no “contrato” entre eles que, quando a irmã de Zaid, Sahar (Haita “Cedra” Izzam) for grande o suficiente, ela irá se casar com Assaad. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descobrimos, no final da produção, que esse “grande o suficiente” ocorreu quando ela tinha 11 anos de idade.

Em resumo, Souad e Selim não param de ter filhos, mesmo vivendo em uma condição de miséria. Eles não registram nenhum dos filhos, nem se preocupam em colocá-los na escola. Parece que o único propósito dos filhos do casal é ajudá-los a sobreviver. Com tantos filhos, Souad parece passar os dias em função deles – não para lhe dar carinho, mas para alimentá-los e para dar ordem para os maiores trabalharem. Selim, ninguém sabe o que faz da vida.

Capernaum acompanha, de forma muito inteligente, as crianças. O narrador da história é Zain. Assim, vemos como ele trabalha e é utilizado pelos pais para fazer o que eles desejam. Também acompanhamos o amor que ele tem pelos irmãos, especialmente por Sahar, que é a pessoa mais próxima dele. Quando ela menstrua, Zain procura esconder esse fato para que a garota não seja vendida para Assaad. Mas toda a proteção dele resulta ineficiente.

É de cortar o coração quando Sahar é levada contra a sua vontade e os irmãos são separados. Isso acontece pouco antes de Zain conseguir levar a irmã para uma viagem em busca da avó. Após a irmã ser vendida, Zain resolve fazer a viagem por conta própria. Mas no ônibus, ao encontrar Harout, vestido de Homem Barata (Joseph Jimbazian), que desce em um parque de diversões, Zain muda de ideia e resolve seguir o senhor idoso.

Por causa dessa decisão, somos apresentados a um outro cenário de miséria. Zain acaba conhecendo, durante a sua aventura, Tigest, uma mãe que está ilegal no país e que precisa conseguir bastante dinheiro para arrumar novos papéis e ficar mais tempo sem ser presa ou deportada. A exemplo de Zain e de seus outros irmãos, Tigest também não registrou a filha Yonas (Boluwatife Treasure Bankole). Mas as semelhanças terminam por aí.

Para mim, este é uma das grandes “sacadas” do roteiro de Nadine Labaki, Jihad Hojeily e Michelle Keserwany, que contaram com a colaboração de Georges Khabbaz e Khaled Mouzanar. Capernaum nos apresentam dois cenários de pura miséria. Tanto a família de Zain quanto Tigest e a filha vivem em realidades em que parece que falta tudo que pode significar segurança, qualidade de vida e dignidade humana.

Falta água encanada, banheiro decente, local confortável para dormir e, muitas vezes, comida. Também faltam registros, documentos básicos que deem ciência para a sociedade que aquelas crianças existem. Consequentemente, elas não tem acesso à saúde ou à educação. Ainda que em uma análise rápida parece que tanto a família de Zain quanto Tigest e Yonas vivam na mesma miséria, com Capernaum aprendemos que existem dois tipos de miséria.

Temos sim a miséria material, toda a falta de recursos que comentei antes e muito mais. Essa miséria pode ser resolvida com uma distribuição de renda mais justa ou com mais oportunidades de estudo e de trabalho para as pessoas. A miséria material pode ser resolvida com a inclusão social. Mas existe a miséria humana, que é muito mais difícil de resolver. Essa miséria é vista na família de Zaid, na falta de consciência, compaixão e amor que os pais dele tem com os seus próprios filhos. O mesmo não pode ser dito da realidade de Tigest e Yonas.

Ainda que Souad diz que ninguém pode julgá-la, e longe de mim fazer isso, mas ela e o marido veem nos filhos sim moeda de troca. Eles não pensam duas vezes em vender a própria filha para Assaad. Para buscar perdão da própria consciência, Selim diz que fez isso para “livrar” a filha da miséria. Ele diz que a culpa é de todos que lhe disseram que, por ele ser um homem, ele deveria ter filhos. Mas ele considera que foi justamente essa decisão, ter casado e ter tido filhos, que lhe “fudeu” a vida.

Curioso como os inescrupulosos e os cruéis, aqueles que machucam os outros e veem nos demais apenas pessoas que eles podem usar para algum proveito próprio, sempre encontram uma desculpa nos “outros”, não? A culpa é sempre do outro, ou da sociedade. Eles nunca percebem a própria responsabilidade. Ninguém colocou uma arma na cabeça de Selim e o obrigou a casar. Ninguém ameaçou Selim e Souad e os obrigou a ter filhos sem parar.

Não me venham com a desculpa de “ah, mas a religião deles diz isso e aquilo”. Me desculpem, mas não importa o que a religião diz. A fim e a cabo, você é responsável pelos seus atos. E você deve sim se perguntar se tem condições de colocar um filho no mundo. E quando digo condições, principalmente as afetivas. Mas também as materiais. Colocar um filho no mundo para que ele não receba amor, afeto, atenção e condições básicas de desenvolvimento, a meu ver, é um crime. Ou, ao menos, um grande, grande erro.

Zain, na altura dos seus 12 anos de idade, mas já tendo visto e sentido mais do que muito adulto que vive 90 anos, está coberto de razão ao dizer que os seus pais deveriam ser proibidos de ter filhos. Eles não deveriam ter esse direito, de gerarem uma vida que depois será jogada na mais profunda miséria – incluindo a pior de todas, de ter pais incapazes de ensinar valores ou algo de bom que seja.

Um grande achado de Capernaum é mostrar que a miséria material não significa, necessariamente, miséria humana. Muito pelo contrário. Tigest, igualmente vivendo em um cenário de grande precariedade, jamais queria abandonar a filha Yonas. Tigest faria tudo para ficar com ela. Quando o “comerciante”, falsificador e traficante de pessoas Aspro (Alaa Chouchnieh) oferece dinheiro para Tigest vender Yonas, ela fica indignada. E mesmo tendo dificuldade de pagar aluguel, levar comida para casa e conseguir o dinheiro exigido por Aspro para ele falsificar os papéis dela, Tigest tem a generosidade de acolher Zain em casa.

Verdade que ela aproveita a chegada do garoto para ele ajudar a cuidar da sua filha. Mas, em troca disso, ela lhe dá abrigo e comida. Claramente Tigest se sacrifica por amor. Palavra essa que parece não fazer parte do vocabulário ou da realidade dos pais de Zain. Então a miséria material pode ser contornada, mas a miséria humana… essa é muito complicada de ser tratada ou resolvida. Zain, mesmo tendo crescido em uma casa tão disfuncional, é um garoto sensível, carinhoso e responsável.

O filme, que já vinha sendo complicado até então, ganha uma outra carga de dramaticidade quando Tigest é presa. Zain, sozinho para cuidar de Yonas, tenta ao máximo ficar e cuidar da menina. Mas para um garoto como ele, sozinho em um local no qual ele não conhece praticamente ninguém, essa vontade se torna praticamente impossível. É de cortar o coração quando Zain deixa Yonas para ver se alguém se apresenta para cuidar da menina, mas ninguém faz isso. Ignoram completamente a criança e Zain acaba deixando ela com Aspro.

Mas ele não faz isso sem ficar com o coração partido. Momentos difíceis do filme, sem dúvida. Sonhando em deixar o país e tudo o mais para trás, Zain volta para casa atrás de seus documentos. Daí ocorre o desespero que faz ele cometer o crime que o leva a ser condenado. Zain não precisa nem saber exatamente o que aconteceu. Mas ele sabe perfeitamente quem é o culpado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, Assaad foi o culpado direto pela morte de Sahar, mas tiveram a sua parcela de culpa os pais da menina. Ela poderia ter sobrevivido a vários estupros – porque evidentemente não foi outra coisa que ela teve com Assaad – e a uma gravidez aos 11 anos de idade? Poderia. Mas como ela, muitas meninas que são “vendidas” por seus pais com essa idade, pouco menos ou pouco mais, acabam morrendo por causa dos estupros e da gravidez em idade tão baixa. Um verdadeiro absurdo.

Pode parecer incrível, mas depois de tanta crueldade, de tanta miséria e de tantos absurdos, podemos dizer que Capernaum tem um final feliz. Aspro é preso e as pessoas que ele mantinha em cativeiro foram resgatadas. Inclusive Yonas. Assim, Tigest consegue se reencontrar com a sua filha, e Zain consegue, finalmente, ter uma identidade. No fim, ambos, mesmo com todos os desafios que eles terão pela frente, ganham perspectivas. Isso é, sem dúvida, um final feliz para essa história. Um filme incrível, portanto. Dos melhores que eu assisti nesse ano, até o momento.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nadine Labaki, diretora deste filme, é mais conhecida por seu trabalho como atriz. Ela tem 14 trabalhos como intérprete e quatro como diretora. Mas fiquei tão impressionada com o roteiro e a direção dela nesse Capernaum que eu penso e assistir aos outros filmes que ela dirigiu. Ela estreou como diretor em 2007 com o filme Sukkar Banat, que recebeu cinco prêmios. Depois, em 2011, ela dirigiu Et Maintenant on Va Où?, que recebeu oito prêmios. O terceiro trabalho dela na direção foi o segmento “O Milagre”, no filme Rio, Eu Te Amor. Acho que ela merece ser acompanhada. Eu vou atrás dos filmes anteriores dela, com certeza.

Impressionante o trabalho de Nadine Labaki tanto na direção quanto no roteiro. Ela esteve sempre atenta ao excelente trabalho dos atores, além de focar muito bem a realidade em que eles viviam. Parece até que estamos assistindo a um documentário e não a uma produção que segue um roteiro. Essa sensação é fruto de um ritmo muito bem planejado pela realizadora, que acerta em cada escolha e em cada detalhe da produção que nos envolve, nos angustia e nos emociona.

A cada filme que eu vejo neste ano e que tinha uma chance de ganhar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mais eu fico indignada com a decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Não vejo problema deles quererem bajular e mega premiar o diretor Alfonso Cuarón. Mas é simplesmente injusto um filme como Roma ganhar de uma produção como Capernaum ou como Shoplifters (comentado aqui). Simplesmente injusto. Esses dois filmes, a exemplo de Cold War (com crítica neste link), são muito mais interessantes e inovadores do que Roma. Me desculpem os filmes de Cuarón, mas é isso que eu penso.

Além de uma direção inspirada e de um roteiro magistral, Capernaum se destaca por sua direção de fotografia, assinada por Christopher Aoun; pela excelente edição de Konstantin Bock e Laure Gardette; e pela maravilhosa trilha sonora de Khaled Mouzanar. A trilha sonora, por si só, é uma peça de arte. Colocada em momentos precisos, ela ajuda a contar essa história e a fazer os espectadores mergulharem nela.

Da parte técnica do filme, vale comentar também o bom trabalho de Hussein Baydoun no design de produção; de Toufic Khreich como diretor assistente; de Nizar Nassar na direção de arte; e da equipe de Ghina El Hachem no Departamento de Casting. Perfeito o trabalho que foi feito com o elenco, boa parte dele formado por crianças.

Todo o elenco está ótimo, aliás. Mas é inevitável não destacar o trabalho de algumas das crianças, com destaque para Zain Al Rafeea como Zain; de Boluwatife Treasure Bankole como Yonas; e de Haita “Cedra” Izzam como Sahar. Alguns adultos também merecem aplausos, especialmente Yordanos Shiferaw como Tigest/Rahil. Outros que merecem ser citados por fazerem um belo trabalho são Kawsar Al Haddad como Souad; Fadi Yousef como Selim; Alaa Chouchnieh como Aspro; Nadine Labaki como Nadine, advogada de Zain; Elias Khoury como o juiz; Nour El Husseini como Assaad; Joseph Jimbazian como o Homem Barata/Harout; Farah Hasno como Maysoun, a menina que ajuda Zain a abrir um refrigerante e se torna uma “amiga” dele na cidade.

Capernaum estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até março de 2019, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais de cinema e mostras em diversos países. Nessa trajetória, o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo uma indicação ao Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para três conferidos pelo Festival de Cinema de Cannes: o Prêmio do Júri para Nadine Labaki, o Prêmio do Júri Ecumênico para a diretora e o Prix de la Citoyenneté para Nadine Labaki e Mooz Films. A produção também ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Ficção Estrangeira no Festival Internacional de Cinema de São Paulo. Vale citar ainda 12 prêmios recebidos como Melhor Filme e 3 recebidos por Melhor Jovem Ator/Melhor Ator/Melhor Estreia para Zain Al Rafeea. O filme e o garoto realmente mereceram.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O menino que interpreta Zain, Zain Al Rafeea é, na verdade, um refugiado sírio. Ele viveu no Líbano por oito anos e tinha 12 quando interpretou Zain em Capernaum. A escolha do nome do personagem no filme foi feita após a escolha de Zain para interpretar o protagonista.

Todos os atores que fazem parte de Capernaum são pessoas que tem histórias parecidas com a dos personagens que aparecem no filme. Assim, a vida de Zain se assemelha, até certo ponto, à do seu personagem, assim como a de Rahil/Tigest, que era uma “indocumentada”. Para escrever o papel da mãe de Zain, Nadine Labaki se inspirou em uma mulher que ela conheceu, que tinha 16 filhos em condições semelhantes ao dos personagens de Capernaum. Seis dos filhos dessa mulher morreram, e vários outros estão em orfanatos por falta de cuidados dos pais.

Capernaum é uma ficção baseada em elementos e fatos que Nadine Labaki realmente viu enquanto fazia o trabalho de pesquisa de campo para esta produção. De acordo com a diretora e roteirista, nada no filme foi fantasiado ou imaginado. Pelo contrário, ela gosta de enfatizar, tudo que vemos em cena é resultado do que a diretora/roteirista observou em visita a bairros desfavorecidos, em centros de detenção e prisões juvenis onde ela foi sozinha. Ou seja, o que a gente só pensava ser possível, vendo o filme, se confirma como a mais pura realidade.

Esse mundão é muito grande e muito desigual. E há muita miséria material e humana por aí sim. Ainda que a gente normalmente não conviva com ela, mas não dá para ignorar de que ela existe. Capernaum nos mostra bem isso.

As filmagens de Capernaum duraram seis meses e resultaram em 12 horas de filme. O trabalho de edição, para condensar tudo isso em cerca de duas horas, demoraram dois anos.

Capernaum recebeu uma ovação de 15 minutos após a sua estreia no Festival de Cinema de Cannes. Se eu estivesse lá, certamente aplaudiria também.

Muitos dos atores escolhidos para Capernaum estrearam no cinema com o filme. Nadine Labaki disse que isso era necessário para que ela visse uma “verdadeira luta” na telona. Realmente cada um deles passa muita verdade nos seus papeis.

Capernaum significa “caos”, em árabe. O nome também faz alusão a uma cidade bíblica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 131 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,83. As duas notas bem acima da média que costumamos ver nesses sites. O Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” 75 para Capernaum, fruto de 27 críticas positivas, cinco medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Capernaum faturou US$ 1,57 milhão nos Estados Unidos. Não existe informação sobre o resultado do filme em outros mercados.

Capernaum é uma coprodução do Líbano, da França e dos Estados Unidos. Ele teria custado cerca de US$ 4 milhões.

CONCLUSÃO: Pensem em um filme punk. Destes que vai criar desconforto e que vai te deixar “mal” por um tempo. Ainda assim, Capernaum é um filme que, podemos dizer, tem um final feliz. Mas com tudo nessa vida, o que importa é a trajetória, o caminho e o que ele nos ensina. Um filme duro, mas muito necessário. A miséria material não é uma escolha, mas a miséria humana sim. Importar-se com o outro ou ser indiferente, exceto se você sofre de algum transtorno mental, é uma escolha. Crianças deveriam ter o direito de serem crianças. Mas nem sempre é isso que acontece. Mas elas tem muito a nos ensinar. Um filme incrível, potente e imperdível. Um dos melhores do ano.