Toda vez que você encontra uma pessoa que se sente superior às outras e que precisa atacar ou diminuir quem está perto, tenha certeza que a panela de pressão está ligada. É uma questão de tempo para a tampa sair e a pressão explodir destruindo o que estiver por perto. The Perfect Neighbor nos mostra uma dessas histórias absurdas de intolerância e de ódio gratuito que tem tudo para terminar mal. E apesar de todos os sinais estarem lá, dados antes da tragédia, as regras criadas para conter os absurdos naquela sociedade não são suficientes para impedir o pior.
A HISTÓRIA
Começa com uma introdução que explica um pouco sobre as característica dessa produção: “Esse filme é composto em grande parte por imagens de câmeras corporais da polícia gravadas ao longo de dois anos”. Em seguida, as imagens captadas de dentro de um veículo. Os policiais escutam algumas referências: “29-68, código 2”. A unidade responde dizendo que está escutando. Uma atendente da polícia pergunta qual é a emergência, e a voz que está na linha diz que alguém levou um tiro. A luz do carro é acesa, e a viatura sai do local.
Em seguida, vemos como os policiais vão se deslocando pela cidade até chegarem ao local da ocorrência enquanto ouvimos a interação entre as pessoas que testemunharam o crime e quem lhes atendeu. Os policiais chegam rápido, e várias pessoas sinalizam o local em que eles devem socorrer uma mulher que foi baleada. Um dos policiais vai até uma casa próxima e se identifica, pedindo para a pessoa sair com as mãos para o alto. Essa é a introdução dessa história, que tem seu momento culminante em junho de 2023, mas que começou a ser construída menos de um ano e meio antes, em fevereiro de 2022.
VOLTANDO À CRÍTICA
(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Perfect Neighbor): A história desse filme é inacreditável. Mas acontece todos os dias nos Estados Unidos e em outras sociedades onde o racismo e a intolerância de algumas pessoas a respeito de outras faz parte do cotidiano.
Vizinhos podem se ajudar ou podem se odiar. Ou até mesmo podem ser indiferentes uns aos outros. Mas nada justifica o que vemos aqui em The Perfect Neighbor. Se uma pessoa tem sérias dificuldades de viver em sociedade e de conviver com o diferente ela deve buscar maneiras de se isolar, de viver o mais afastado possível. Isso parece meio óbvio, não? Mas não é isso que acontece muitas vezes e em diversas partes do mundo. E aqui temos um exemplo disso.
Cerca de metade do filme dirigido por Geeta Gandbhir mostra o que aconteceu antes do crime. E a base da narrativa, como ficamos sabendo no início da produção, são as gravações feitas pela polícia. Grande parte do que vemos em cena são as imagens captadas pelas câmeras corporais dos policiais. Algumas outras cenas foram gravadas pela diretora na vizinhança onde tudo aconteceu, e elas são apresentadas sempre que Geeta nos apresenta gravações feitas pela polícia – provavelmente feitas apenas em áudio, não sabemos ao certo – com pessoas que viviam ali.
O objetivo dessa primeira parte do filme, portanto, é nos contar como chegamos até o crime que abre The Perfect Neighbor. O que aconteceu para uma vizinha atirar na outra? No total, temos gravações feitas pelos policiais que registraram um total de sete ocorrências em que Susan Lorincz estava envolvida. Gente, sete ocorrências em pouco mais de um ano, entre fevereiro de 2022 e junho de 2023?
Isso é um belo demonstrativo de como Susan Lorincz era uma pessoa problemática e não suportava a vizinhança. E daí uma pergunta aqui torna-se óbvia: se ela não suportava os vizinhos, por que ela não se mudou? Durante as gravações dos policiais, fica claro que tanto ela quanto os vizinhos moravam de aluguel. Então seria muito simples ela sair de lá. Mas conhecemos bem esse perfil de pessoa. Ela acha ok brigar com todos e querer que o mundo se adeque ao que elas querem do que ela se ajustar ao mundo.
Impressionante isso. Claramente, por aquela parte inicial do filme, Susan é destas pessoas arrogantes e autocentradas que acham que podem viver em um bairro residencial cheio de pessoas sem que ninguém “a incomode”, como se isso fosse possível. O ideal para uma pessoa como ela, claramente antissocial, seria viver em uma fazenda distante ou dentro de uma caverna, mas sem ninguém por perto.
Mas esse não é o caso. Então a primeira parte do filme mostra as sete ocorrências policiais nas quais Susan esteve envolvida em pouco mais de um ano. Deste total de ocorrências, em seis ocasiões quem foi atrás da polícia para fazer queixa e abrir boletins de ocorrência foi Susan. Sempre para reclamar dos vizinhos – essencialmente, para se queixar das crianças que brincavam no terreno vazio ao lado da casa dela.
Em uma dessas ocorrências o alvo da queixa foi a próprio Susan, depois dela usar a caminhonete dela para sair de um lugar estragando um portão. Nessa ocasião ela alega que ficou desesperada ao perceber que ficou trancada no terreno em que estava e que usou o veículo para tentar sair de lá porque ela não suportava a ideia de ficar trancada, já que teria sido vítima de “estupro” e espancamento no passado.
Nessa primeira parte do filme, somos apresentados a alguns dos vizinhos de Susan. Entre outros nomes, Ajike Owens, mãe de quatro crianças – dois filhos dela fazem parte do grupo que brinca no terreno ao lado da casa de Susan – e que será a vítima do crime que essa produção destrincha. Outros vizinhos também aparecem nas gravações da polícia, como Franklin Baez-Colon, Lauren Smith e Phyllis Wills. Além de vizinhos, eles serão chamados como testemunhas do processo.
O cenário do crime é uma vizinhança comum dos Estados Unidos, onde as propriedades são abertas, sem cercas, com as casas seguindo o mesmo padrão e com poucas divisões entre uma propriedade e outra. Em um cenário que parece tranquilo e nessa rua residencial, é que toda a trama se desenvolve. Quem vai morar em um endereço como aquele, sabe que pode ter todo tipo de vizinhança. E que não é raro ter crianças e jovens por perto.
Parece muito óbvio que quem não suporta crianças ou adolescentes deve procurar outro tipo de moradia, não é mesmo? Esse era o caso de Susan, uma mulher claramente antissocial e que não poderia estar morando ali. Além de odiar crianças e jovens e não suportar que eles brincassem perto da casa dela – algo que, por óbvio, qualquer pessoa racional saberia, ela não poderia evitar -, o tipo de xingamento que os vizinhos diziam que ela tinha em relação às crianças eram claramente racistas.
Durante as gravações da polícia – e esse é o problema do filme estar baseado, principalmente, nesse tipo de gravações – , temos apenas as versões de cada lado em cada chamada que Susan faz para reclamar dos vizinhos. Ela nunca admite o que faz de errado – claro, como todo bom covarde -, e os vizinhos contam também suas versões dos fatos. Mas não existem outras gravações para comprovar ou para negar o que é dito. E acho isso incrível, especialmente porque os fatos ocorrem entre os anos de 2022 e 2023, como comentei antes.
Em algumas ocasiões, os vizinhos chegam a comentar que a polícia pode olhar as filmagens da casa de Susan. Então ao menos ela tinha alguma gravação. E será que mais nenhum vizinho tinha câmeras? Se pelo menos Susan tinha, por que essas imagens não foram colocadas no filme? Alguém pode dizer que pelo fato do filme ter sido produzido depois, a partir de 2024 – é o que a produção dá a entender -, as imagens das câmeras dos vizinhos não estavam mais disponíveis. Mas depois que o crime acontece, no dia 2 de junho de 2023, a polícia e o judiciário não solicitaram as gravações mais recentes? Duvido que não.
Então se a investigação policial e o processo tiveram acesso a diversas gravações, que não sejam apenas as feitas pela polícia, porque esse material não está no filme? Temos poucas imagens feitas pela própria Susan e que não ajudam a entendermos grande coisa do dia do crime. E são imagens apenas de celular. Não existiam imagens de câmeras em nenhuma residência que fazia parte daquela vizinhança? Achei isso muito estranho.
Duvido muito que a polícia ou a Justiça americana não tenham conseguido outras imagens. Será que a diretora de The Perfect Neighbor não conseguiu ter acesso a essas imagens? Se isso foi o caso, ela deveria ter citado isso no filme. Porque essa ausência de outras imagens faz muita falta na produção.
Apesar desse problema crônico do filme, e apesar da criminosa Susan, como toda boa covarde, nunca admitir o que fala de verdade para os vizinhos, temos uma ideia um pouco mais próxima da realidade com o depoimento de várias pessoas que estavam próximas dela naquele entorno. Então sim, temos alguns elementos para presumir que ela era racista. Que tinha uma certa raiva desproporcional das crianças especialmente por muitas delas serem pretas.
Mas a parte central desse filme é nos mostrar como situações cotidianas de uma vizinhança podem ser totalmente deturpadas e serem utilizadas como motivação para uma senhora branca intolerante e raivosa fazer seis queixas na polícia contra os vizinhos, tendo as brincadeiras das crianças como seu alvo principal, até que essa escalada de raiva e intolerância descamba em um crime. Nada justifica aquela escalada de ódio e de violência. Ao mesmo tempo que essa história fala muito sobre a sociedade atual – não apenas nos Estados Unidos, mas no Brasil e em outros países também.
As pessoas estão mais intolerantes, raivosas, destilam ódio sempre que podem. Não é uma regra, não é a totalidade. Mas a impressão que temos é que essas pessoas raivosas e intolerantes estão crescendo em número a cada ano. As manifestações racistas, de xenofobia, misoginia e tudo o mais que vemos na esgotosfera não se restringem apenas ao ambiente virtual. Infelizmente os crimes que vemos todos os dias refletem como a sociedade está violenta e intolerante para diversos perfis de pessoas.
Isso é mais do que lamentável. E absurdo. E acho que nem preciso discorrer muito sobre essas questões. O importante aqui é comentar que The Perfect Neighbor nos faz mergulhar em uma dessas histórias absurdas e cada vez mais comuns nos Estados Unidos – aliás, as informações que o filme traz no final demonstram como esse é o foco central da denúncia da diretora Geeta Gandbhir com esse filme.
Também acho impressionante como as pessoas vivem realidades paralelas. Em certo momento, Susan chega a afirmar que é “uma vizinha perfeita” – o que inspira o nome do documentário. Como alguém com o comportamento dela pode realmente achar que é uma vizinha perfeita? Para ela, todas as pessoas da vizinhança deveriam ser como ela, sem filhos, apenas com gatos, e cada um enfurnado em sua casa, sem fazer barulho ou se aproximarem um dos outros?
Em que mundo isso é uma vizinhança “perfeita”? Só no mundo de alguém totalmente antissocial, não? Ok, sei que existem pessoas antissociais. E essas pessoas tem o direito de existir. Mas elas tem que ter o mínimo de bom senso ou autoconhecimento para saberem que não podem viver perto de outras pessoas ou terem alguém próximo que diga isso para elas e que façam ela buscar um local adequado para viver.
Quando isso não acontece, quando pessoas que não podem ou deveriam viver em sociedade não entendem a sua própria condição, temos uma panela de pressão sempre prestes a explodir. Alguém pode dizer: nossa, mas com tantos chamados para a polícia, por que ninguém fez algo antes e impediu essa tragédia? O problema é que os policiais mesmo falam nas interações com aquela vizinhança: eles não podem tomar o partido de ninguém e devem seguir a lei.
Ainda assim, eles dão algumas dicas para os pais das crianças que acabam sendo o alvo constante de Susan. Entre outras recomendações, os policiais pedem para as crianças evitarem a propriedade de Susan e, quando surgir alguma discussão ou problema, que eles chamem os pais deles para dialogar com a vizinha e para que eles não entrem em conflito com ela.
Eles não estão errados com essa recomendação, mas é justamente essa dica para as crianças que faz com que os filhos de Ajike procurem a mãe quando Susan pega o tablet de um deles e joga os patins para longe da porta da casa dela. E isso é o que acaba despertando ainda mais a fúria de Susan.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela alega que atirou pela porta – podendo, de fato, acertar qualquer pessoa que estivesse ali, inclusive um dos filhos de Ajike, caso ela estivesse no local com eles – porque se sentiu ameaçada e porque temia pela própria vida. Ou seja, que agiu em “legítima defesa”. Ora, qualquer pessoa com o mínimo de sanidade, já tendo ligado para a polícia, saberia que o risco não era iminente apenas por ter alguém batendo na porta e na janela do lado de fora. Ajike não iria arrombar a porta e entrar como uma pessoa ensandecida na residência para atacar Susan. Essa teoria não faz sentido.
A segunda parte do filme foca no que aconteceu após o crime. Temos a investigação policial – grande parte do que vemos em cena são as gravações que a polícia fez de conversas e interrogatórios de Susan – e as repercussões do caso, com diversas manifestações públicas pedindo justiça e, bem na reta final do filme, algumas cenas do julgamento de Susan. Nessa parte ficam mais clara as inconsistências na versão de Susan para os fatos – especialmente a narrativa dela sobre o “perigo” que Ajike significava para ela e sua “reação” em atirar pela porta fechada.
Após a polícia avançar um pouco nas investigações e cruzar dados do horário do crime e da ligação que Susan fez para a polícia antes de atirar – quando ela estava, mais uma vez, se queixando das crianças da vizinhança -, eles percebem que se passaram apenas dois minutos entre uma situação e outra. Ou seja, ela liga para a polícia, depois de destratar as crianças e, apenas dois minutos depois, ela já tinha atirado em Ajike.
Todo o histórico de Susan apontava para uma relação de intolerância contra os vizinhos. No dia do crime, qualquer pessoa razoável teria esperado a polícia chegar para resolver o novo conflito. Não teria atirado pela porta sabendo que poderia matar alguém. Mas Susan sabia que quem estava do lado de fora era Ajike e, claramente, ela odiava a vizinha. Ou pelo menos desprezava tanto a sua existência que não se importava em matá-la. Mesmo sabendo que ela tinha filhos que dependiam dela e que a amavam.
Isso, para mim, é o exemplo máximo de desprezo pela vida humana. Uma pessoa, mesmo não conhecendo muito a outra, mas sabendo o mínimo sobre ela e, ainda assim, não importar em eliminá-la… bem, acho que não preciso falar mais nada a esse respeito. A segunda parte do filme, da metade da produção para a frente, mostra a tese de defesa de Susan – sempre pelas palavras dela, nunca ouvimos a defesa dela (advogados) falando – e a tese de acusação (a partir da investigação feita pela polícia e do entendimento da promotoria).
Novamente, senti falta de The Perfect Neighbor trazer outros elementos para a produção. Por que a diretora não entrevistou os outros vizinhos? Ou então outras pessoas envolvidas nesse caso, como policiais, advogado de defesa de Susan e as pessoas responsáveis pela acusação? Senti falta também de termos um contexto maior sobre a criminosa e sua vítima, com a diretora entrevistando familiares e amigos de ambas.
Temos um recorte muito pequeno sobre elas. E temos alguns pontos que o filme levanta e que não responde. (SPOILER – não leia se você não assistiu a essa produção ainda). Uma das questões que mais me incomodaram é que os policiais comentam com Susan sobre ela ter pesquisado sobre a legislação que ampliava o argumento da legítima defesa. Ela admite que pesquisou sobre, mas não é clara sobre quando ela teria feito isso. Ora, a polícia, investigando o histórico de pesquisas feitas por ela, teria essa resposta. Quando ela pesquisou sobre o assunto, em que datas – isso seria importante para confirmar ou não a questão da premeditação do crime. Mas isso não é respondido pelo filme.
Então ou a polícia fez um trabalho mais ou menos nessa investigação, ou o filme deixou de fora essa questão importante. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Era fácil saber quando Susan pesquisou sobre a legislação que poderia “inocentá-la”. O filme não esclarecer isso deixa em aberto se a polícia resolveu não colocar isso como elemento para ser apresentado ao júri ou se as pesquisas dela refutaram a tese de premeditação. Para mim, isso joga contra o filme. Tudo que não é dito ou explicado deixa o trabalho da diretora fragilizado.
Isso foi o que mais me incomodou na produção. Essa questão, bastante importante, ter ficado apenas sugerida mas não ter sido esclarecida. É ruim. Para além disso, senti falta realmente de termos um contexto melhor sobre Susan e sobre Ajike, as pessoas centrais dessa história. Não custava muito Geeta Gandbhir ter ido atrás de depoimentos de pessoas que conviveram com elas na vizinha e antes dos fatos aqui narrados acontecerem.
Se ela tivesse feito isso, por exemplo, poderíamos saber se Susan já teve outros problemas antes com vizinhos, parentes ou até envolvendo a questão do racismo. Ela tinha cometido algum crime antes? Tinha, para além daquela vizinhança, uma longa ficha anterior de queixas feitas na polícia? Susan e Ajike cresceram em que contexto, tiveram que tipo de relação antes?
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aquela alegação de Susan de que ela teria sido estuprada e espancada antes, procede? Uma pessoa com aquele histórico de queixas sobre os vizinhos dificilmente deixaria de fazer um BO caso tivesse sido realmente estuprada e espancada antes, não é mesmo? Mas não temos essa informação no filme. Mesmo uma ausência de queixa formal dela sobre isso seria relevante nesse caso, justamente por mostrar que isso deveria ser mais uma mentira dela para tentar encobrir seu comportamento desproporcional e destemperado.
Especialmente o histórico da criminosa seria relevante aqui. Mais do que o que The Perfect Neighbor nos apresenta, chama a atenção o que o filme deixa de fora da produção. E ficamos sem uma explicação sobre as razões para isso. A diretora teve dificuldades de conseguir o contexto que falta para essa produção porque as pessoas não quiseram dar entrevista para ela ou a polícia/justiça não quis fornecer todos os vídeos e elementos com os quais eles trabalharam ou ela não quis ir atrás?
Talvez a diretora tenha explicado sobre isso em algum lugar. Mas o filme, em si, deveria trazer essas respostas. Como ele não traz, para mim, ele deixa a desejar. É uma baita história, muito necessária para refletirmos sobre as leis de cada país (os Estados Unidos está no foco dessa produção, mas o debate serve para qualquer outro local) e sobre o aumento da intolerância e do ódio pelo mundo. Então o filme é necessário, sim, muito, mas poderia ser melhor construído.
NOTA
8,2.
OBS DE PÉ DE PÁGINA
Assisti a The Perfect Neighbor porque essa é considerada uma das principais produções que estão concorrendo esse ano na categoria de Melhor Documentário no Oscar. A produção, que já conquistou 31 prêmios até aqui, está concorrendo com The Alabama Solution, Come See Me in the Good Light, Cutting Through Rocks e Mr. Nobody Against Putin.
A diretora por trás de The Perfect Neighbor tem um currículo de respeito. No total, até o momento, ela dirigiu 22 produções – incluindo nessa lista seis curtas, nove séries ou minisséries para a TV e sete longas. Eu não assisti a nenhum outro filme dirigido por ela, mas vendo seu histórico no IMDb, ela tem algumas produções bem avaliadas e outras em que ela recebeu uma nota péssima. Pelas notas do site, parece que ela tem um desempenho bastante irregular.
Vale destacar um feito interessante da diretora. No Oscar 2026 ela conseguiu suas duas primeiras indicações ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ela está concorrendo, esse ano, também com o curta The Devil is Busy na categoria Melhor Curta Documentário. Essas são as duas primeiras indicações da diretora ao Oscar.
Acho que vale citar as datas que aparecem no filme e comentar um pouco sobre. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). A primeira ocorrência que vemos em cena foi registrada por Susan no dia 25 de fevereiro de 2022. Na ocasião, ela reclamou que Ajike teria jogado uma placa de jardim pequena nela – Ajike disse que jogou a placa para o alto e que não foi na direção da vizinha. Em agosto de 2022 a queixa foi por causa de “gritos e correria” das crianças da vizinhança. Em dezembro de 2022 Susan chamou a polícia porque as crianças estavam gritando e correndo no terreno ao lado da casa dela. Na ocasião, ela ainda reclamou que teriam xingado ela.
Seguindo com as ocorrências… (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em março de 2023, Susan é quem virou alvo da polícia depois dela jogar a caminhonete dela contra um portão (nesse momento é que ela alega que ficou desesperada porque, no passado, ela teria sido “estuprada e espancada”). Em abril de 2023 ela chama a polícia mais uma vez para reclamar das crianças da vizinhança – alegando, desta vez, que elas teriam tentado colocar um cãozinho na caçamba da caminhonete dela. Em maio de 2023 ela procura a delegacia para reclamar que as crianças da vizinhança insistiam em “invadir” a propriedade dela. E a última ocorrência que vemos ocorre no dia 2 de junho de 2023, o dia em que Susan atira em Ajike.
Inacreditável essa lista de ocorrências, não é mesmo? E ainda que os policiais agiram, de forma geral, de uma maneira correta, sem favorecer um lado ou o outro – apesar de deixarem nas entrelinhas que achavam Susan problemática e “chata”, reclamando sempre de crianças sem ter realmente motivos para isso -, fico me perguntando se eles teriam agido da mesma forma se Susan fosse uma mulher preta. Será que teriam sido tão tranquilos e educados e não teriam se importado em irem tantas vezes naquele endereço por causa de razões tão fúteis? Honestamente, fico em dúvida sobre isso.
No final do filme, a diretora Geeta Gandbhir nos traz informações importantes sobre o debate que essa produção levanta. Segundo os dados que a diretora nos apresenta, “leis que ampliam a legítima defesa” nos Estados Unidos estariam relacionados a um aumento entre 8% e 11% nos índices de homicídio no país, o que significa aproximadamente “700 mortes a mais por ano”. Pararam para pensar nisso? Quase 2 mortes diárias a mais que acabam sem os assassinos e assassinas serem condenados porque colou a versão da legítima defesa…
O filme ainda traz a informação que “estudos apontam enormes disparidades raciais” no uso dessas leis que ampliam a legítima defesa. Americanos brancos têm muito mais chances de êxito ao alegar legítima defesa, especialmente quando eles matam pessoas negras. Bem, acho que nem preciso comentar sobre isso, não é mesmo? Essa é a realidade da justiça nos Estados Unidos, no Brasil e em quase todas as partes. A desigualdade da aplicação da lei conforme o aspecto racial é uma realidade chocante, mas é uma realidade. Até quando?
O filme mostra algumas cenas do julgamento de Susan, no dia 16 de agosto de 2024, e traz o resultado da sentença dela, que foi promulgada pelo juiz no dia 25 de novembro de 2024. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Susan foi culpada do crime de homicídio culposo mediante uso de arma de fogo, recebendo uma condenação de 25 anos de prisão. Achei pouco, até porque ficou evidente que o crime tinha alguns agravantes – motivo fútil, possivelmente premeditação, além do racismo… mas, aparentemente, nada disso foi levado em conta. O juiz só disse que o crime foi mais motivado por “crime foi mais por “raiva do que por medo”. Menos mal que isso ficou registrado. Era o mínimo.
Achei a direção de Geeta Gandbhir ok, apesar do filme ser deficitário no trabalho de pesquisa. A meu ver, faltam entrevistas para dar um contexto melhor para a história. Além disso, grande parte do material com o qual a diretora trabalhou não foi feito por ela – foram gravações feitas pela polícia. Então, honestamente, eu não acho que a direção dela, avaliando apenas a questão técnica, seja grande coisa. Agora, claro, é mérito da diretora ter escolhido essa história para focar sua atenção e nos apresentar esse filme, que é bastante relevante pelo debate que ele desperta e levanta.
Entre os aspectos técnicos do filme, acho que vale destacar a edição de Viridiana Lieberman (uma das maiores qualidades do filme está na edição dela) e, em segundo plano, a trilha sonora bastante pontual de Laura Heinzinger; e o Departamento de Som que contou com o trabalho dos profissionais Giuseppe Cappello, Laura Heinzinger, Kelly Hrebenak, Filipe Messeder e Keith Sengbusch.
Agora, vale citar algumas curiosidades divulgadas pela produção do filme. Segundo a diretora Geeta Gandbhir, existem imagens de câmeras corporais dos policiais que foram até o local do crime e que mostram alguns deles tentando reanimar Ajike depois dela ter sido baleada. Mas a diretora preferiu não incluir essas imagens no filme porque eles não quiseram expor a vítima, apenas “mostrar o suficiente para que o público pudesse imergir” naquele momento que, ainda segundo as palavras da diretora, foi “aterrorizante”, “terrível”.
Ajike Owens era a melhor amiga da cunhada da diretora Geeta Gandbhir. Por isso esse filme se tornou um projeto muito pessoal para ela.
Em novembro de 2024, Pamela Dias, mãe de Ajike Owens, juntamente com Takema Robinson, amiga de Ajike, criaram o Standing in the Gap Fund em homenagem a Ajike. O fundo tem o objetivo de apoiar famílias como a de Ajike, que sofrem com perdas inesperadas e não sabem como lidar com o luto. O Standing in the Gap Fund tem como meta arrecadar mais de US$ 3,5 milhões até 2030.
Por falar na família de Ajike, ela deixou os filhos Afrika, Isaac, Israel e Titus. (SPOILER – não leiam se vocês não assistiram ao filme). Agora imaginem cada um deles vivendo o restante da vida sem a mãe amorosa deles porque uma senhora branca racista saída dos infernos resolveu matar a mulher simplesmente porque ela não suportava ter ela como vizinha? Olha, nem vou falar mais nada. Mas esse mundo está muito errado e as pessoas muito perdidas para algo assim acontecer. Afrika, Isaac, Israel e Titus vão ter que descobrir como viver sem a mãe deles pelo resto da vida, tendo esse vazio gigante para lidar.
Até o momento, The Perfect Neighbor ganhou 32 prêmios e foi indicado a outros 42 (incluindo nessa lista a indicação ao Oscar 2026 na categoria Melhor Documentário). Entre os prêmios que o filme recebeu, vale destacar o de Melhor Documentário Americano no Festival de Cinema de Sundance.
Ah, eu tive curiosidade para saber se havia alguma notícia mais recente sobre Susan Lorincz. Achei interessante e recomendo a leitura dessa matéria da People. Entre outras informações relevantes da reportagem, assinada por Lynsey Eidell e publicada em outubro de 2025, achei interessante eles comentarem que o crime realmente “provocou indignação nacional” em 2003 e que Ajike, quando foi atingida pelo disparo de Susan, não estava sozinha. Ela estava com o filho de 10 anos, que tinha antes sido agredido por Susan – ela teria jogado os patins dele contra o menino -, junto. Ou seja, o tiro que ela deu poderia ter acertado a criança, na verdade. Inacreditável.
Lendo a matéria da People foi que eu me toquei sobre algo: Susan foi condenada por “homicídio culposo”, ou seja, um crime “onde ocorre a morte da alguém sem a intenção do agente (ausência de dolo), provocada por negligência, imprudência ou imperícia”. Me desculpem, mas isso é um absurdo. Só porque ela não abriu a porta e mirou direto na vítima quer dizer que ela não tinha intenção de matar? Com toda a perseguição que ela vinha fazendo com as crianças da vizinha? Enfim, complicado.
Queria fazer um último comentário sobre filme, antes de finalizar esse conteúdo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando os policiais confrontam Susan sobre o tempo que passou entre ela ligar para a polícia e disparar contra Ajike e, diante da falta de uma explicação convincente sobre isso, eles terem dado voz de prisão para ela, Susan tem uma reação totalmente ridícula e típica de uma covarde. Ela me lembrou demais certos criminosos “de elite” no Brasil que, após serem condenados, viverem alegando problemas de saúde. Ali, naquela cena, Susan se fez de coitada, disse que não poderia acompanhar os policiais para ser presa, que não tinha forças pra isso, etc. e tal. Ou seja, comportamento de covarde, que é bem o que essa pessoa é. Patética.
Também mais uma consideração: The Perfect Neighbor mostra como problemas simples e discussões banais podem terminar em tragédia em sociedades que não apenas toleram mas, principalmente, incentivam que seus cidadãos tenham armas dentro de casa. Se Susan não fosse uma mulher branca racista armada, ela apenas teria ligado insistentemente para a polícia e nenhuma assassinato teria ocorrido. Mas não, os Estados Unidos e, infelizmente, o Brasil nos últimos anos aderiram a essa ideia péssima de incentivar as pessoas a ter armas em casa… e aí histórias como essa acontecem.
Na matéria da People há informações complementares sobre a audiência que determinou a sentença de Susan. Essa é uma parte interessante, porque há informações da irmã dela e de uma psiquiatra sobre os abusos que ela teria sofrido quando jovem e o transtorno que ela teria decorrente disso. Também há informações sobre Susan ter pedido perdão por ter matado Ajike dizendo que ela não tinha essa intenção, com a mãe da vítima comentando que não achava esse pedido sincero porque ela nunca tinha demonstrado remorso. E isso é um fato. Pelo menos pelo que vemos no filme, Susan em nenhum momento demonstrou ter sentido algo pela morte de uma mãe de quatro crianças.
Não encontrei informações sobre o quanto The Perfect Neighbor custou ou que resultado o filme conquistou nas bilheterias.
O site IMDb apresenta a nota 7,1 para essa produção. No site Rotten Tomatoes, The Perfect Neighbor recebeu 94 críticas positivas e apenas uma negativa, o que faz o filme ter 99% de aprovação e o “Certified Fresh Rotten Tomatoes”. O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” 83, fruto de 20 críticas positivas e de uma crítica mesclada. Além disso, o filme ganhou o selo “Metacritic must-see”.
The Perfect Neighbor é uma produção 100% dos Estados Unidos.
CONCLUSÃO
Um filme interessante, pela história que ele conta e pelo debate que ele abre, mas que não tem todo o contexto ou a profundidade que deveria ter. No fim das contas, The Perfect Neighbor é uma produção simples, basicamente construída a partir de gravações da polícia, o que torna o drama da história extremamente realista ao mesmo tempo em que carece para esse filme um trabalho um pouco maior de pesquisa. Tem perguntas que ficam no ar e que não são respondidas pela produção. Um filme bom, necessário, mas que poderia ser melhor.
PALPITE PARA O OSCAR 2026
Como eu comentei anteriormente, cheguei até The Perfect Neighbor por causa da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Esse filme é apontado pelas bolsas de apostas como o favorito na categoria Melhor Documentário.
Bem, eu não assisti a todos os filmes concorrentes que chegaram até a disputa final na categoria Melhor Documentário, mas devo dizer que, se The Perfect Neighbor é o melhor filme na disputa nesse ano, isso é um belo indicativo de que estamos com uma temporada bem fraca neste ano. Porque achei o filme interessante, mas, como expliquei em detalhes anteriormente, falta a The Perfect Neighbor contexto e um pouco mais de trabalho de pesquisa.
Diferente de The Voice of Hind Rajab (filme com crítica neste link), faz, ao reproduzir os áudios originais daquela história dramática enquanto o restante da história é contada através do ótimo elenco em cena, aqui nesse documentário as gravações dos policiais ajudam a contar a história, mas não há imagens ou gravações complementares e que nos ajudam a entrar no conflito de forma mais envolvente e direta.
Acho que falta um pouco de alma para esse filme, assim como falta um contexto maior sobre as pessoas envolvidas na história – especialmente a criminosa e a vítima. Acho que o filme seria melhor e ter um impacto ainda mais decisivo se tivesse contado com entrevistas de diversas pessoas, tanto os vizinhos que conviveram com aquelas duas mulheres quanto com a busca pela história das duas, mostrando suas origens, relações e a trajetória até o dia do crime.
É uma história importante, que precisava ser contada, mas acho que o filme fica aquém do que poderia ser. Por isso, honestamente, ainda não sei se esse é o melhor documentário na disputa pelo Oscar, mas se ele for o melhor deste ano, isso significa que estamos com uma safra muito fraca e ruim. Nos anos anteriores, tivemos filmes melhores na disputa.
Vale comentar, ainda, que The Perfect Neighbor tem a nota mais baixa no site IMDb entre os documentários que concorrem ao Oscar deste ano. The Alabama Solution tem a nota 7,8; Come See Me in the Good Light tem a nota 7,6; Cutting Through Rocks tem a nota 7,4; e Mr. Nobody Against Putin tem a nota 7,5.
Ou seja, se formos pelo critério de quem votou no IMDb e não pelas bolsas de apostas, talvez The Perfect Neighbor não seja realmente o melhor filme na disputa. Ou seja, ainda há esperanças para vermos filmes melhores nessa categoria. 😉 Espero ter tempo ainda de assistir a outras produções que estão nessa disputa.
One reply on “The Perfect Neighbor – A Vizinha Perfeita”
[…] The Perfect Neighbor […]
CurtirCurtir