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Honeyland

A história de Honeyland é tão impressionante que não parece um documentário. Quando pensamos no que acontece durante a produção, seria mais fácil acreditar que trata-se de uma ficção. Só que não. Um lugar distante, meio que “abandonado” e uma história simples que ganha contornos de um resumo deste mundão em que vivemos. Com este documentário, vemos claramente vários aspectos da vida universal em cena, como diferentes formas de tratar a vida, a natureza e a família, cobiça, simplicidade, doação, ganância e a vontade de sempre continuar.

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American Factory – Indústria Americana

A dignidade humana, para muitos, passa pelo trabalho. Todos deveriam ter a oportunidade de aprender, de trabalhar e de se desenvolver. Mas é isso o que acontece, de fato? Todos têm essa oportunidade? American Factory nos faz refletir não apenas sobre a realidade do mercado de trabalho atual mas, sobretudo, sobre as grandes diferenças que temos, mundo afora, neste universo do trabalho e do que recebemos em troca por ele. As diferenças são grandes, dependendo do país e da cultura. E isso fica bem evidente neste documentário interessante e que vai fundo no assunto sem ser didático ou chato demais.

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Free Solo

Um feito incrível para um indivíduo e uma filmagem delicada e extremamente técnica. Free Solo tem esses predicados. É um excelente documentário? Para o meu gosto, não. Afinal, o que realmente interessa nesse filme, a parte mais interessante, está no final. Sim, a vida de Alex Honnold é interessante. Ele busca a perfeição em cada nova subida no “free style”, sem cordas ou qualquer segurança que não aquela propiciada por seu treino intenso e constante. O melhor do documentário é o registro de seu maior feito até então, a escalada do El Captain, no parque Yosemite. Um filme muito bem feito, tecnicamente, mas que carece de uma história mais rica e/ou de uma abordagem mais completa do retratado.

A HISTÓRIA: Começa com uma cena incrível. Subindo à uma altura impressionante, Alex Honnold utiliza apenas as mãos, os braços e os pés como recursos para manter-se preso à rocha em uma altura que arrepiaria a coluna da maioria dos mortais. Pouco a pouco, pacientemente, ele coloca as mãos e os pés nos locais certos e estratégicos e segue subindo. Na sequência, o trecho de um programa de TV anuncia o personagem retratado por esse filme. A apresentadora introduz Alex Honnold dizendo que ele é “um fenômeno em escalada livre”. Ela logo comenta: “Isso que eu não entendo. Um pequeno erro, um pequeno deslize e você cai para a morte”. Honnold apenas responde: “Sim, sim, você parece entender bem”. Essa é a história de Honnold e de sua aparentemente impossível missão de subir sem equipamentos o pico El Captain, que tem 914,4 metros de altura e que fica no parque Yosemite.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Free Solo): Sem dúvida alguma este é um dos documentários mais bonitos que eu já vi. As cenas captadas pelos diretores Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi são realmente incríveis, maravilhosas, de encher os olhos. Para mim, esse é o maior mérito de Free Solo. As cenas captadas pelos diretores e pelos diretores de fotografia – somam-se ao trabalho de Chin, nesse quesito, os diretores de fotografia Clair Popkin e Mikey Schaefer.

Mais do que um documentário sobre um estilo de escalada e sobre um ícone desse método, Free Solo é um documentário sobre um grande feito. Alex Honnold já tinha subido picos com 2.000 feets de altura – correspondente a 609,6 metros. Pensar que ele faz isso apenas colocando as mãos e os pés em locais-chave já é algo incrível. Mas ele tinha um grande sonho, de escalar o dificílimo El Captain, um pico com 3.000 feets de altura – 914,4 metros – e com um grau de dificuldade altíssimo.

Desde 2009, ele comenta no documentário, ele pensa em escalar o El Captain. A cada ano, ele pensa que aquele será o ano. Mas ele precisa se preparar bem para isso e, como descobrimos em Free Solo, também sentir que o dia certo chegou. O documentário, portanto, é sobre este “namoro” de Honnold com este marco na sua carreira. Vemos em detalhes os seus preparativos para isso e as pessoas que o cercam.

O quanto Free Solo se aprofunda na personalidade e no retrato da trajetória e da vida de Honnold? Para o meu gosto, menos que o desejado. Ainda que tenhamos entrevistas com a namorada dele, Sanni McCandless, com um de seus grandes parceiros de escalada livre, Tommy Caldwell, que ajuda Honnold nos preparativos para El Captain, e com a mãe do retratado, no fundo não sabemos tanto sobre os gostos, as manias, a personalidade e a trajetória de Honnold. Muitos poderiam considerá-lo louco, por optar por um estilo de escalada extremamente mortal. Em algumas ocasiões ele explica a razão de fazer o que faz.

Para Honnold, aquele tipo de escalada, mais arriscada, cobra dele a perfeição. Ele deve ser exato, preciso, apresentar concentração e foco total naquele momento de subida. Isso traz satisfação para Honnold, assim como a sensação de estar realmente vivo naqueles momentos em que enfrenta o risco de subir em alturas impressionantes sem qualquer proteção de equipamentos de escalada.

Os diretores Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi tentam se aprofundar um pouco na vida e na personalidade de Honnold mas, para isso, basicamente, eles entrevistam o retratado. Evidentemente que sempre teremos um retrato limitado quando ouvimos a própria pessoa sobre a qual estamos tentando descobrir “algo mais”. Então sim, senti falta de um pouco mais de profundidade sobre a vida e a personalidade de Honnold. Mas se encararmos Free Solo como uma produção sobre um grande feito, esse documentário cumpre bem o seu papel.

O problema do filme, contudo, é justamente o seu foco e objetivo. A melhor parte de Free Solo começa quando Honnold realmente resolve voltar para El Captain e encarar o desafio para valer – um ano antes ele tinha pensado em fazer o mesmo, mas acabou desistindo, inseguro com a escalada e incomodado (aparentemente) com a presença das câmeras. Quando ele realmente vai subir o pico em Yosemite, o documentário entra em sua melhor parte. Realmente é impressionante assistir o feito dele, com todo o seu risco e perigo, beleza e perfeição. Aquelas sequências valem todo o tempo dedicado para assistir ao documentário.

Comento que isso também é o ponto débil da produção porque fora os momentos de preparação para a escalada, as tentativas dos diretores de adentrarem mais na vida e na personalidade de Honnold não surtem o efeito desejado. Assim, depois de um começo interessante, temos a um grande “meio” da produção um tanto desinteressante até que chegamos ao ponto alto do filme. Acho que o documentário poderia ser um pouco mais curto, retirando alguns trechos que não são realmente relevantes para a história, ou poderia até ter a duração que tem, ou um pouco mais, se os diretores conseguissem explicar um pouco mais do fenômeno Honnold.

De qualquer maneira, pelas cenas incríveis que apresenta e pela perfeição técnica das filmagens, especialmente nos momentos de escalada, Chin e Vasarhelyi estão de parabéns – assim como Popkin e Schaefer. Um “plus” interessante da produção é quando os realizadores e o próprio Honnold questionam o trabalho de filmar esses feitos. Até que ponto as câmeras podem atrapalhar uma escalada que pode terminar com um acidente fatal? Até que ponto vale a pena arriscar-se para ter o seu feito documentado? Esses são questionamentos que valem para muitos documentaristas mas, especialmente, para pessoas envolvidas em projetos tão ousados quanto os de Honnold. Acho esse questionamento bastante pertinente e é um ponto extra do filme interessante.

Mesmo Free Solo carecendo de um desenvolvimento melhor, algo é preciso ser dito: é admirável o trabalho e a postura de Alex Honnold. Um dos maiores atletas de todos os tempos em um esporte que tem muitos nomes memoráveis e que já fizeram história, chama a atenção a simplicidade dele.

Mesmo depois de fazer um dos grandes – ou o maior – feitos da sua carreira, Honnold não perdeu o foco de continuar o seu preparo físico, que é constante. O exemplo dele realmente pode inspirar qualquer pessoa a focar-se em fazer o melhor na sua área, mantendo o foco, a concentração e o trabalho árduo para exprimir o melhor de si. Honnold, em si, é um belo exemplo em vários sentidos. A história dele nos lembra, como diversas outras de homens que buscaram a excelência, como o ser humano é capaz dos maiores feitos sempre que consegue se superar e deixar para trás todas as suas limitações.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quem acompanha o blog há algum tempo sabe que, para mim, o melhor documentário do ano foi injustiçado no prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Won’t You Be My Neighbor? (com crítica neste link) nem chegou a ficar entre os cinco finalistas ao Oscar de Melhor Documentário neste ano. Para o meu gosto, o filme sobre Fred Rogers é muito mais rico, interessante e aprofundado do que o documentário que acabou levando a estatueta para casa. Mas, como vocês também devem saber, o Oscar tem dessas injustiças. Dificilmente existe algum ano da premiação em que o melhor filme ou intérprete não acaba perdendo a estatueta para alguém não tão bom. A injustiça do ano, me parece, foi em Documentário mesmo.

Alguém pode dizer – e talvez você esteja pesando isso: “Ah, Alessandra, mas como você é chata! Olha o feito incrível que o Alex Honnold fez e que Chin e Vasarhelyi nos apresentaram. Algo exuberante, incrível, maravilhoso!”. De fato, o que Honnold faz é inacreditável e fantástico, mas eu não consigo olhar para Free Solo apenas pela ótica do registro da conquista de Honnold. Olho para este filme como o que ele é, um filme, um documentário. Analisando sob esta perspectiva, de obra de cinema, Free Solo deixa a desejar justamente no desenvolvimento, na construção e no aprofundamento da história. Mas tecnicamente falando, como eu disse antes, ele é perfeito.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o grande destaque de Free Solo é a direção de fotografia do trio Jimmy Chin, Clair Popkin e Mikey Schaefer. Eles fazem um trabalho realmente excepcional na captura das cenas envolvendo os treinos e escaladas de Alex Honnold. A direção de Chin e de Elizabeth Chai Vasarhelyi também é boa, mas acho que faltou um pouco mais de profundidade no trabalho deles de pesquisa.

Free Solo é apenas o segundo trabalho de Jimmy Chin como diretor. Antes, ele tinha dirigido a Meru, documentário de 2015 que mostra a jornada de três atletas que tem a obsessão de escalar o Monte Meru, no Himalaia. Ele fez o filme ao lado de Elizabeth Chai Vasarhelyi. Ela sim, com uma experiência maior na direção. Elizabeth estreou na direção em 2003 dirigindo o documentário A Normal Life. Além de Free Solo e Meru, ela dirigiu ainda Youssou Ndour: I Bring What I Love, Touba, Incorruptible e episódios das séries de documentário feitas para a TV Abstract: The Art of Design e Enhanced. Uma diretora a ser acompanhada.

Dá para destacar, deste filme, ainda, a trilha sonora de Marco Beltrami; a edição de Bob Eisenhardt; e o trabalho dos profissionais que integraram o Departamento de Câmera e Elétrica, formado por Chris Alstrin, Andrew Berends, Samuel Crossley, Greg Harriott, Jim Hurst, Matthew Irving, Keith Ladzinski, Cheyne Lempe e John Trapman.

Free Solo estreou em agosto de 2018 no Festival de Cinema de Telluride. Até março de 2019, o filme participou, ainda, de outros 11 festivais de cinema em diversos países. Nessa trajetória ele ganhou 19 prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Documentário, e foi indicado a outros 44 prêmios. Além de ganhar o Oscar, Free Solo levou para casa o BAFTA e 9 prêmios de Melhor Documentário (muitos deles conferidos pelo público dos festivais e não pelos críticos).

Vale comentar uma curiosidade sobre o trabalho de Alex Honnold. Ao escalar El Cap, ele conseguiu a “tripla coroa” do Parque Yosemite. Antes ele já tinha subido Half Dome e o Monte Watkins.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Free Solo, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 125 críticas positivas e duas negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota 8,22. O site Metacritic apresenta um “metascore” 83 para esse documentário, fruto de 24 críticas positivas e de 1 crítica mediana, além de conferir para ele o selo “Metacritic Must-see”.

Além de ser um sucesso de crítica, Free Solo é um sucesso nas bilheterias – especialmente para um documentário. De acordo com o site Box Office Mojo, o filme fez pouco mais de US$ 16,9 milhões nos cinemas americanos. Um resultado expressivo para um filme do gênero, o que mostra a popularidade de Honnold.

Free Solo é um documentário com produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, o filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem produzido, filmado com esmero e que mostra, de quebra, alguns dilemas de quem faz um documentário no estilo de Free Solo. Ninguém quer colocar em risco o “retratado” ao mesmo tempo em que todos querem seguir fazendo o que amam. Qual é a equação para que tudo dê certo? Exatamente o que vemos na tela. Treinos infindáveis de Alex Honnold e a confiança dele, em um certo dia, de que tudo daria certo. Free Solo tem imagens incríveis e um feito realmente extraordinário como foco central da história. Pena que o retrato de Honnold tenha sido prejudicado pela proximidade dos realizadores do personagem. O filme poderia ser mais completo sobre o free style ou sobre Honnold. Deixa um tanto a desejar na sua profundidade. Por outro lado, é um exemplo de técnica. Vale ser visto, mas não considero o melhor documentário desta temporada.

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RBG

Certa vez, alguém disse que o Papa era pop. Mas quem diria que uma juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos poderia ser pop? RBG traz essa novidade para quem vive fora dos Estados Unidos – porque quem vive lá, certamente, sabe que a juíza é pop. Através desse documentário, que faz parte da “lista curta” de produções pré-indicadas ao Oscar de Melhor Documentário – saberemos se ele chegará na lista de finalistas na próxima terça-feira -, conheci a história da juíza Ruth Bader Ginsburg. Um documentário muito interessante para quem gosta de Direito, da luta por igualdade de direitos e para quem precisa entender que em diversas partes do mundo dividimos problemas semelhantes – inclusive com tribunais superiores que “sofrem” com distintos vieses políticos.

A HISTÓRIA: Começa com diversas cenas de Washington, capital dos Estados Unidos. Em seguida, diversas pessoas começam a criticar uma mulher, chamando de “bruxa”, de uma pessoa que não tem respeito à Constituição ou aos costumes americanos. Outro afirma que ela é uma “verdadeira desgraça para a Suprema Corte”. São diversos os xingamentos, que incluem “antiamericana” e “zumbi”. Todos endereçados para Ruth Bader Ginsburg. Mas afinal, quem é essa mulher? Após as opiniões mais que críticas à ela, Ruth Bader Ginsburg começa a sua fala citando alguém que ela admira, e que diz: “Não peço nenhum favor ao meu sexo. Tudo o que eu peço aos meus irmãos é que deixem de oprimir-nos”. Essa é a história sobre essa juíza que virou ícone pop nos EUA.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a RBG): Esse filme, dirigido por Julie Cohen e Betsy West, cai como uma luva para um tempo em que muitos valores voltaram a ser discutidos. No mundo, como bem previu o grande Zygmunt Baumann, vivemos um novo ciclo de “conservadorismo”, das pessoas preferindo abrir mão da liberdade conquistada para voltarem a ter mais “segurança”.

Nesse cenário, em que diversos avanços sociais voltam ao debate e em que, na visão de alguns, estamos tendo alguns retrocessos na defesa dos direitos humanos e da igualdade entre as pessoas, RBG aparece como um filme necessário. Primeiramente, para mostrar para as novas gerações de americanos – em especial, mas não apenas para eles -, quem é esse ícone pop inusitado que virou meme nas redes sociais. Como uma juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos caiu tão bem no gosto popular e “viralizou”?

RBG nos conta essa história. E é uma história importante de ser contada, porque em 2019 não parece que, há algumas décadas atrás, tivéssemos uma compreensão equivocada sobre tantos fatos. Parece incrível, mas há apenas 40 anos milhares de mulheres em diversos lugares do mundo estavam pedindo por mais direitos. As manifestações nas ruas foram importantíssimas, mas pessoas como Ruth Bader Ginsburg foram fundamentais ao levar toda aquela discussão e comoção popular para dentro dos tribunais.

Afinal, não era necessário apenas mudar a compreensão da sociedade sobre o que é termos um coletivo justo e igualitário, para homens e mulheres, mas, sobretudo, mudar o marco legal que permitia que injustiças acontecessem. Nesse sentido, RBG é um filme interessante e fundamental. Pessoalmente, para mim, que sempre amei o Direito e o debate jurídico, o marco legal que acaba guiando as nossas sociedades, esse filme é especialmente interessante.

Não lembro de outro documentário que eu tenha visto e que aborde uma pessoa que ajudou a mudar, pouco a pouco, leis injustas em um país. Então, apenas por isso, essa produção já é diferenciada. Além de apresentar uma história interessante que envolve o Direito, RBG tenta se aprofundar na história de uma mulher incrível, que a sua maneira – bastante discreta, mas firme e obstinada – e com muito trabalho contribui para mudar uma sociedade.

Admiro muito, muito mesmo todas as mulheres da geração de Ruth Bader Ginsburg – ou que vieram um pouco antes ou um pouco depois do que ela – e que, de forma corajosa, ajudaram a mudar a nossa sociedade, empoderando as mulheres e mostrando que o sexo feminino não é “menor”. Acho que o trabalho das diretoras Cohen e West fazem um resgate importante da trajetória de Ginsburg, contando um pouco da sua origem, dos seus estudos e do apoio decisivo que ela recebeu do marido, Martin D. Ginsburg.

Por muito tempo, se disse que “por trás de um grande homem, sempre existe uma grande mulher”. Um grande homem ou uma grande mulher podem “se fazer” sem o apoio de uma outra pessoa – ao menos de um parceiro ou parceira mas, certamente, sempre vão precisar do apoio de outras pessoas. Mas RBG nos mostra que uma grande mulher pode se fazer tendo um grande homem “por trás”. Na verdade, nunca acho que o homem ou a mulher estão um atrás do outro, enquanto visão de um ser mais importante que o outro, mas um casal deve sim se apoiar e, através desse apoio, ajudarem-se mutuamente a fazerem a diferença nas suas respectivas realidades.

RBG é um filme do estilo homenagem. Ou seja, ele não chega a ignorar as críticas que são feitas para a pessoa retratada, mas, certamente, as diretoras focam a sua narrativa e o seu trabalho em construir uma “heroína” chamada Ruth Bader Ginsburg. De fato, ela é uma mulher admirável, por tudo que fez e que continua fazendo. Mas acho que o filme poderia montar um perfil um pouco mais aprofundado sobre ela, seja com entrevistas mais densas com a própria retratada, seja com as pessoas que conviveram com ela.

Por que, por exemplo, não são entrevistadas as pessoas que “combateram” (ou seguem combatendo) Ginsburg? Desta forma, talvez, teríamos um perfil um pouco mais completo. Outro documentário no estilo biografia que está buscando a estatueta dourada do Oscar, Won’t You Be My Neighbor? (com crítica neste link), me parece ter mais sucesso nessa busca por um perfil aprofundado do “homenageado”.

Não apenas nos aprofundamos mais no fenômeno de Fred Rogers, como também conhecemos mais sobre as críticas feitas à ele e sobre a sua filosofia de vida. Temos em RBG, acredito que na parte alta do filme, alguns trechos de argumentações e de defesas de causas feitas por Ginsburg. Mas senti falta de ter mais opiniões dela sobre o seu estilo, sobre os seus valores e, até, sobre a sua vida pessoal. Ginsburg fala de alguns pontos, mas ela fala menos do que seria realmente interessante para um perfil mais completo.

Por tratar sobre a evolução de questões importantes para a sociedade e sobre como guinadas recentes “à direita” podem nos levar a retrocessos; por tratar sobre a busca por mais igualdade na sociedade – entre homens e mulheres, negros e brancos, heterossexuais e homossexuais e um longo etcétera; por resgatar a história de um mulher discreta, inteligente, à frente do seu tempo e que sempre defendeu valores fundamentais; e por nos lembrar que é sempre possível defender o que é certo, mesmo quando a maioria está defendendo o que é errado, RBG vale 1h30 do nosso tempo.

Quem dera que mais pessoas como Ruth Bader Ginsburg “viralizasse”. Quem dera que mais Ginsburg virasse “meme” e se transformasse em ícone pop. Pessoas como ela, que defendem valores importantes, que continuam trabalhando enquanto o corpo lhes permitir, porque acreditam em um ideal, deveriam ser realmente os ícones da nossa sociedade. Isso se quiséssemos avançar, é claro. Mas cada sociedade é fruto do que deseja e do que acredita importante. Infelizmente, em diversas partes do mundo, muitas pessoas estão em fase de idiotização e, neste processo, transformando as nossas sociedades em locais mais duros para se viver.

Diante deste cenário, apesar de RBG não ser tão complexo ou completo quanto poderia ser, ele se torna um filme importante. Espero, honestamente, que mais documentários nos lembrem de causas importantes e de histórias inspiradores. Acredito que todos nós estamos precisando delas. Ah sim, e outro aspecto que achei interessante deste filme: como não é apenas no Brasil em que o Supremo Tribunal Federal se dividi entre juízes mais ou menos conservadores, mais ou menos liberais. Isso acontece nos Estados Unidos e, acredito, em todos os países que funcionam sob esse regime.

Essa é uma outra questão levantada pelo filme que me pareceu muito interessante. Ainda que os juízes devem basear-se na legislação nacional – ou local -, eles são indivíduos, formados por ideias e valores. Como a lei não é formada de letras incontestáveis, os juízes tem a função de interpretar esta lei. Eles devem ser isentos? RBG e a realidade nos mostram que essa isenção não existe.

Eles podem – e devem – tentar ser justos, mas eles sempre terão a interpretação da lei influenciada por suas visões de mundo. E isso acontece com os jornalistas e com qualquer outra profissão, por mais que alguns tentem defender a isenção. Na prática, ela não existe. Isso se aplica também à todo e qualquer texto aqui no blog. Posso tentar ser justa com os filmes mas, no fim das contas, a minha leitura sobre qualquer produção estará influenciada por minha história, por meus valores e crenças. Quem nega isso, essa influência, na sua própria vida e decisões cotidianas, está negando a realidade. E tenho dito! 😉

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu acho impressionante, de verdade, pessoas que passam dos 80 anos de idade e que continuam trabalhando. Eu não tenho metade desta idade ainda e gostaria, honestamente, de levar uma vida mais tranquila, sem tanto trabalho e uma rotina mais de “aposentada” – que, para mim, é sinônimo de você fazer apenas o que você deseja. Então acho impressionante a história de Ruth Bader Ginsburg e de outros que parecem amar tanto o trabalho e/ou a “missão” que eles acreditam que o trabalho tem para eles e seguem atuando no mercado mesmo muito depois do que seria o seu direito de se aposentar. Admirável e surpreendente, ao mesmo tempo.

Para mim, a melhor parte de RBG é quando o filme resgata os casos importante na trajetória de Ginsburg. Como amo o Direito e o que ele prevê, achei o resgate dessas histórias o ponto alto da produção. Assim, RBG parece nos vender a ideia que o que realmente interessa em Ginsburg é o seu trabalho – a sua vida pessoal está em segundo plano. Sim, ainda que ela focou grande parte da vida no trabalho, eu acho que o filme poderia tentar explorar outros aspectos das opiniões, dos valores e dos sentimentos da retratada. Senti falta disso.

As diretoras Julia Cohen e Betsy West utilizam recursos interessantes para contar a história de Ginsburg. Muitos deles, clássicos para documentários, como entrevistas com pessoas que conheceram a retratada e, inclusive, vídeos e depoimentos exclusivos para o filme da própria biografada. Elas também resgatam áudios de audiências e reproduzem reportagens, fotos e vídeos relacionados com a narrativa. Só senti falta delas entrevistarem mais pessoas, inclusive críticos da biografada, assim como aprofundar nas entrevistas com Ginsburg. Se tivessem feito isso, talvez teríamos um perfil mais completo dela.

A pessoa mais interessante que aparece em cena, sem dúvida alguma, é a própria Ginsburg, uma mulher que, após os 80 anos de idade, segue na ativa. RBG resgata a sua trajetória através de fotos e filmagens antigas, assim como pela reprodução de áudios de sessões na Suprema Corte e depoimentos de familiares – dos dois filhos e de uma neta -, amigos antigos e colegas de profissão. Entre outros nomes, temos a aparição de pessoas muito conhecidas, como Bill Clinton, o presidente que a indicou para a majoritariamente masculina Suprema Corte. Bacana, ao resgatar a casos antigos da juíza, quando ela ainda era advogada, foi o fato das diretoras trazerem os “requerentes” à cena novamente. Bacana ouvir as suas histórias de forma direta.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale comentar a trilha sonora de Miriam Cutler; a direção de fotografia de Claudia Raschke e a edição de Carla Gutierrez. Repararam em algo? Sim, na predominância de mulheres nessa produção. Achei isso muito interessante. Por que mais produções não buscam ao menos um equilíbrio entre profissionais dos dois sexos? É possível, sem dúvida. Basta o interesse dos envolvidos.

RBG estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria, ainda, de 19 festivais de cinema em diversos países. Na sua trajetória, o documentário ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 36, inclusive uma indicação ao BAFTA. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o prêmio de Melhor Documentário segundo o National Board of Review e para os prêmios de Melhor Documentário Político e Melhor Documentário sobre uma Pessoa Viva dados pelo Critic’s Choice Documentary Awards.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: As diretoras Julie Cohen e Betsy West já tinham trabalhado em alguns projetos que incluíam Ginsburg até que, em 2015, elas decidiram fazer um documentário focado exclusivamente na juíza. Em 2016, as diretoras acompanharam Ginsburg em diversos eventos, reuniões e discursos em que ela participou, incluindo eventos nas cidades de Chicago e Washington. No total, as diretoras tinham 20 horas de filmagens para trabalhar. A entrevista com Ginsburg feita “cara a cara” foi realizada em 2017.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 145 críticas positivas e oito negativas para RBG – o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 7,5. O site Metacritic apresenta o “metascore” 71 para esse documentário, fruto de 28 críticas positivas, três medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, RBG faturou US$ 14 milhões nas bilheterias americanas. Para um documentário, esse resultado pode ser considerado excelente. Com certeza, por ser um “ícone pop” nos Estados Unidos, Ginsburg atraiu muitas pessoas para o cinema para conhecer um pouco mais sobre a sua história. Interessante.

Eu não sei se o Supremo Tribunal Federal permite “votos dissidentes” registrados como tal, como RBG mostra que acontece nos Estados Unidos, mas isso seria algo interessante de ser feito por aqui também. Ficar registrado, em algumas decisões, as opiniões contrárias e bem argumentadas de alguns juízes.

RBG é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme vai fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. Mais um para a lista. 😉

CONCLUSÃO: Não importa se a maioria está defendendo algo errado e se o seu voto sempre é vencido. O importante é que você está defendendo o que é certo e deve ter o direito de verbalizar isso. Essa é uma das principais mensagens que RBG passa. Um filme sobre uma personagem muito interessante. Bem conduzida e interessante, essa produção só peca um pouco por investir mais na “curiosidade” sobre a personagem do que no aprofundamento sobre ela. Senti falta de ouvir mais opiniões da magistrada ou mesmo depoimentos de pessoas que esboçassem um retrato mais rico dela. Ainda assim, é um filme interessante pelas mensagens que ele passa. Vale ser visto e compartilhado, especialmente porque a mulher retratada é um grande exemplo, de fato.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Difícil fazer um prognóstico da categoria Melhor Documentário para a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deste ano. Especialmente porque tenho muitos títulos para conferir ainda. Ainda assim, considerando que a Academia gosta de ter a sua presença “política” nos Estados Unidos, não seria nenhuma surpresa que um filme como RBG fosse indicado ao prêmio.

Agora, ele tem chance de ganhar? Se a Academia estiver em um ano de crítica maior, digamos assim, ao cenário político americano, certamente. O filme é bom o suficiente para levar um Oscar? Não acho. Acho sim que RBG é um filme importante por resgatar uma história inspiradora e por nos mostrar, em perspectiva, como podemos avançar ou retroceder enquanto sociedade. Mas acho que como produção cinematográfica, RBG poderia ser melhor.

Assisti, como vocês sabem, a apenas dois documentários desta temporada – além de RBG, assisti a Won’t You Be My Neighbor? (comentado por aqui). Francamente, achei o filme sobre Fred Rogers muito mais bem acabado, completo, envolvente e emocionante. Entre os dois, o meu voto iria para Won’t You Be My Neighbor?, sem dúvidas. Mas, claro, eu ainda preciso assistir a outras produções que estão na disputa para realmente poder opinar. Sigamos em frente, portanto! 😉

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Won’t You Be My Neighbor?

Nós somos seres gregários e que gostamos de nos comunicar. Ao menos, na maior parte do tempo. Quando nos comunicamos, podemos investir em algo bom, propagar os melhores valores. Como o amor, o respeito, a empatia e a solidariedade. Mas nem sempre é isso que acontece quando nos comunicamos ou nos aproximamos. Por isso é tão bom conhecer uma história maravilhosa como a contada pelo documentário Won’t You Be My Neighbor? Por muitos anos e para milhares – ou milhões – de crianças, Fred Rogers foi uma referência. Para a gente, no Brasil, não. Mas conhecer a sua história nos enche de esperança e de reflexão. Um grande filme.

A HISTÓRIA: Fred Rogers está sentido em um piano e pede para que o cinegrafista se aproxime. Ele está falando com cada um de nós, os seus expectadores. Ele comenta que tem tido algumas ideias sobre modulação. Ele comenta que existem diferentes temas na vida. Vemos a Fred Rogers em 1967. Ele comenta que uma de suas principais missões é, através dos meios de comunicação de massa, ajudar as crianças com as modulações difíceis das suas vidas.

Rogers então comenta como é fácil passar de algumas notas para outras, enquanto que outras variações são bem mais difíceis. Então ele comenta sobre a importância de ter alguém que lhe ajude a passar pelos momentos mais difíceis. Essa é a história sobre este apresentador de programas feitos para o público infantil, em especial, e que também trabalhou em um programa para o público adulto.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Won’t You Be My Neighbor?): Depois que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou a lista de produções que avançaram em busca de uma vaga em nove categorias do Oscar 2019, algo que comentei neste post, fui atrás de tentar assistir aos filmes pré-indicados em Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Documentário.

Antes mesmo dessa lista ser divulgada, eu já tinha visto muitos especialistas no Oscar e críticos apontando Won’t You Be My Neighbor? como um dos fortes concorrentes do ano na categoria de Melhor Documentário. Eu não sabia sobre o que o filme tratava, mas foi uma grata surpresa perceber que ele abordava a trajetória de um ícone da TV infantil para o público americano. Fred Rogers marcou a cultura dos Estados Unidos a partir de 1968.

E que trajetória impressionante a dele! Uma trajetória narrada com perfeição pelo diretor Morgan Neville em Won’t You Be My Neighbor?. Para contar a história de Fred Rogers, Neville intercala diversos trechos de entrevistas do apresentador com trechos de seus programas, assim como trechos de animação e entrevistas com pessoas da família dele, pessoas que trabalharam com ele, amigos ou especialistas em sua história.

Para mim, o maior ganho de Won’t You Be My Neighbor? e da trajetória de Rogers é nos mostrar a infância sob uma outra perspectiva. Da minha parte, de quem nem sempre tem “paciência” com as crianças, provavelmente porque eu não consigo entendê-las como eu deveria ou poderia, Won’t You Be My Neighbor? foi uma lição e um aprendizado.

Rogers tinha um olhar profundo, compreensivo e amoroso para as crianças. Elas eram o foco de seu trabalho e de sua preocupação. Ao conhecer a sua história e a sua proposta para um programa de TV, passei a repensar a minha própria forma de olhar e, quem sabe, até de agir em relação às crianças. Como Neville busca também elementos na infância de Rogers para explicar o seu estilo e personalidade, somos motivados a fazer isso a respeito de nós mesmos.

Assim, Won’t You Be My Neighbor? se revela um filme muito humano e sensível. Ele conta não apenas a história de um ídolo para muitas crianças americanas mas, também, nos faz refletir sobre as nossas próprias infâncias e sobre o universo das crianças. Um universo muito mais complexo e amplo do que a imagem que estamos acostumados a imaginar ou pensar. Essa reflexão e esse outro olhar sobre a infância e as crianças foram dois dos pontos que mais me marcaram deste filme. Mas não foram os únicos.

Como profissional formada na área de Comunicação, Won’t You Be My Neighbor? me fez lembrar o que me motivou a estudar essa área. A crença que a comunicação pode ser usada para o bem, para melhorar a nossa realidade. Rogers fez isso durante toda a sua vida. Ele batalhou por uma televisão pública de qualidade e por apresentar questões importantes para as crianças. E um ponto fundamental para ele buscar isso foi respeitando a inteligência e os sentimentos das crianças – e não as tratando como pessoas que ainda não cresceram, como muitos de nós fazemos.

Won’t You Be My Neighbor? nos faz pensar ainda mais sobre que tipo de televisão e de sociedade da informação nós temos hoje em dia. Para nós, adultos, e para as nossas crianças também. Que tipo de informação e lazer estamos consumindo? E as crianças do nosso país e de outras nações, que tipo de programas e de informações elas estão tendo? Won’t You Be My Neighbor? é um aprendizado também para quem ama a comunicação e atua nessa área.

Além de tudo isso, Won’t You Be My Neighbor? me impressionou por abordar e reforçar constantemente os valores e a “missão” que Rogers acreditava que tinha pela frente. Ele falava de amor, de valorizar o olhar compreensivo e compassivo, de perdão, de compreensão e de respeitarmos a todas as pessoas – especialmente as crianças. Falava sobre a importância de protegermos e apoiarmos as crianças. Abordava uma série de valores fundamentais e que nem sempre são lembrados com a constância e a força com que deveriam.

Por tudo isso, achei esse filme excepcional. Não apenas por nos contar uma história inspiradora, mas por nos mostrar que sim, podemos fazer mais e melhor do que estamos fazendo. Que é possível sempre buscar o bem, mesmo quando fatos ao nosso redor nos mostram retrocessos. Além disso, apesar de Won’t You Be My Neighbor? ser claramente uma homenagem para Rogers, Neville não foge de alguns temas controversos do personagem retratado.

Ou seja, diferente de outras produções que eu já comentei por aqui e que sofriam por serem apenas uma homenagem para a pessoa retratada, Won’t You Be My Neighbor? aborda os questionamentos feitos sobre Rogers. Temos tanto os programas que o parodiavam quanto os questionamentos sobre ele ser gay ou apoiar/não apoiar os gays – sendo que um ator de sua equipe, François Scarborough Clemmons, era gay e foi incentivado a se “esconder” por Rogers. Neville poderia ter “ignorado” estes fatos mas, acertadamente, ele não fez isso.

No fim das contas, Won’t You Be My Neighbor? é um filme bastante profundo. Que nos faz refletir sobre diversos valores e atitudes. Que nos faz pensar sobre o nosso próprio processo de amadurecimento e sobre como enfrentar as dificuldades e os temas difíceis e delicados da vida. Um documentário que estimula o olhar generoso e atento, que nos estimula a ser melhores ou a incentivar essa procura.

Bem conduzido, envolvente, apresentando uma narrativa profunda e, ao mesmo tempo, pontuada com diversos momentos de ternura e engraçados, Won’t You Be My Neighbor? é um filme inesquecível. Impressiona por sua humanidade, por sua sensibilidade e por sua capacidade de nos fazer refletir. Sou franca em dizer que ele também me emocionou. A narrativa segue em um crescente que pode levar muitos às lágrimas no final – algo que aconteceu comigo. Veja de coração aberto e se deixe levar. É uma bela, bela produção. Das melhores do gênero.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu nunca vi alguém tratar as crianças com tanto respeito e sensibilidade. Para Fred Rogers, não havia assunto que não pudesse ser tratado com as crianças. E ele estava certo sobre isso. Desde os anos 1960 ele sabia que as crianças eram bombardeadas pelos fatos bons e ruins da vida. Por causa da televisão, nos anos em que ele atuou e, mais recentemente, por causa da internet, as crianças não estão alheias a nada que acontece no mundo. Mas como tratar assuntos difíceis com as crianças? Rogers tem ensinamentos importantes para qualquer pai e mãe ou para qualquer pessoa interessada nesse tema e que seguem muito válidos até hoje.

Gostei muito do trabalho do diretor Morgan Neville. Ele constrói a narrativa de Won’t You Be My Neighbor? de maneira primorosa, não apenas pelos elementos que ele intercala para contar essa história mas, especialmente, pela forma com que ele vai se aprofundando no seu “personagem”. Esse filme é, no fundo, um grande estudo de personalidade. Por isso o filme é tão humano e sensível. Porque ele não apenas conta uma trajetória, mas também se aprofunda na personalidade, nos sentimentos e nas intenções do biografado.

Won’t You Be My Neighbor? se apresenta como uma produção muito envolvente, com uma edição primorosa de Jeff Malmberg e de Aaron Wickenden e que, acertadamente, mescla momentos de humor, narrativa, drama e emoção. As diferentes impressões das pessoas sobre Fred Rogers, o contexto que eles ajudam a montar sobre ele e o próprio trabalho e opiniões do biografado montam um perfil bastante completo sobre o homenageado.

Além da direção de Neville e da edição de Malmberg e Wickenden, vale destacar, nesta produção, o trabalho da direção de fotografia de Graham Willoughby; a trilha sonora de Jonathan Kirkscey; o departamento de arte comandado pelo designer gráfico Scott Grossman; e o departamento de animação comandado pelos animadores Ariel Costa e Rodrigo Miguel Rangel.

Algo interessante sobre Won’t You Be My Neighbor? é que o filme, apesar de ter uma narrativa quase toda linear – fora os momentos em que o filme fazia rápidas imersões na infância do retratado -, foge um pouco do modelo “clássico” de documentário focado em um biografado.

Comento isso porque, apesar de ouvirmos os depoimentos da esposa e de dois filhos de Rogers, o documentário não conta propriamente a história deste núcleo familiar. Não sabemos quando eles se casaram, como eles se conheceram e quando nasceram os filhos. Essa “ausência” de informações, para mim, tem um propósito: nos deixar focados na mensagem e na missão de Rogers e nem tanto na sua vida privada ou em particularidades da sua vida que acrescentariam pouco para entendermos as suas intenções. Interessante essa escolha de Neville.

Um outro detalhe que eu pensei sobre a história de Rogers: como ele soube aproveitar as condições especiais que ele teve pela frente para tirar o melhor proveito possível de seus recursos. Comento isso porque justamente em Pittsburgh foi nascer uma TV pública que poderia dar espaço para ele desenvolver um programa infantil com aquela preocupação social e com a psicologia das crianças e onde também foi feito um trabalho importante (eu diria fundamental) sobre as fase de desenvolvimento humano e sobre o aprendizado infantil. Dois fatores importantes para que ele tivesse tanta qualidade no seu trabalho.

Durante a sua trajetória, Fred Rogers ganhou 12 prêmios e foi indicado a outros 57 – inclusive a indicação a três prêmios Emmy. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os Emmy’s recebidos em 1980, em 1985, em 1997 e em 1999; para o Peabody Awards recebido em 1993 e para o seu nome colocado na Calçada da Fama em 1998. A estrela dele na Walk of Fame está na 6600 Hollywood Blvd. com a inscrição “To Mister Rogers”.

Como sempre, você pode entender ou não uma mensagem. Quando Rogers disse que todas as pessoas são especiais e perfeitas como elas são, ele não quis dizer que você terá tudo fácil e que não precisará fazer nada para se aperfeiçoar. Ele quis relembrar conceitos cristãos de que Deus ama a todos e que todos são perfeitos para Ele. Tem pessoas que conseguem entender isso, e tem outras que preferem não entender. E beleza sobre isso. Mas Rogers dizer isso repetidamente para as crianças, foi algo maravilhoso e muito corajoso.

Fred Rogers nasceu na cidade de Latrobe, no Estado da Pennsylvania, no dia 20 de março de 1928. Ou seja, no ano passado, quando Won’t You Be My Neighbor? foi lançado, se ele estivesse vivo, ele teria 90 anos de idade. Rogers comandou o programa Mister Roger’s Neighborhood entre 1967 e 2001 – no primeiro ano, em uma emissora de Pittsburgh e, a partir de 1968, na PBS, com transmissão em nível nacional. Rogers morreu em 2003 após uma rápida batalha contra um câncer no estômago. Ele se casou com Joanne Rogers em 1952 – eles ficaram casados até a morte dele. Com ela, ele teve dois filhos – os dois aparecem no documentário, John e Jim Rogers.

Até hoje, nos Estados Unidos, 305 dos 895 episódios de Mister Roger’s Neighborhood continuam sendo reprisados. Que sorte dos americanos por terem tido um programa como esse para as suas crianças! Os valores transmitidos por ele e plasmados neste Won’t You Be My Neighbor? são, para mim, pura preciosidade.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para esta produção. Não encontrei a página sobre este documentário no Rotten Tomatoes, mas no site Metacritic o filme é classificado com o “metascore” 85, fruto de 39 críticas positivas e de duas medianas, e com o selo “Metacritic Must-see”.

Won’t You Be My Neighbor? estreou em janeiro de 2019 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, até outubro do mesmo ano, ele participaria de outros 17 festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou 33 prêmios e foi indicado a outros 28. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 25 prêmios de Melhor Documentário conferidos por diferentes associações de críticos. Além disso, ele foi considerado, ao lado de Minding the Gap, Free Solo, Crime + Punishment e Three Identical Srangers, um dos cinco melhores documentários do ano pela National Board of Review – mas quem venceu nesta categoria foi outro filme, RBG.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Em determinado momento do filme, vemos a um encontro de Rogers e o gorila Koko. Mas aquela situação do gorila tirar os sapatos de Rogers não é explicada no documentário. Quando Koko morreu, em junho de 2018, vários detalhes sobre a sua vida vieram à tona. Por exemplo, o fato de que o gorila assista ao programa de Rogers todos os dias e que ele tirou os sapatos do apresentador porque isso era o que ele fazia no começo de cada programa.

O diretor Morgan Neville foi parcialmente inspirado a contar a história de Rogers quando, ao entrevistar Yo-Yo Ma sobre como ele tinha lidado com a sua fama, ele ter respondido que aprendeu com Rogers que ele poderia usar a sua fama para o bem.

Betty Aberlin, que vemos contracenando com Rogers em muitos momentos do programa dele, foi convidada para participar do documentário, mas ela se recusou porque fazia muito tempo que ela não dava entrevistas e se sentiu insegura de aparecer novamente frente às câmeras.

Além de ser um sucesso de crítica, Won’t You Be My Neighbor? teve um ótimo resultado nos cinemas americanos. O filme fez US$ 22,6 milhões nas bilheterias segundo o site Box Office Mojo, um ótimo resultado para um documentário, sem dúvida. Certamente esse resultado foi puxado pela popularidade do apresentador.

Se vocês ficaram interessados sobre saber mais sobre os estudos a respeito do desenvolvimento humano e infantil, vale dar uma olhada no trabalho de Erik Erikson. Uma boa introdução pode ser esse texto do site Pensar Contemporâneo. #ficaadica

O diretor Morgan Neville tem 25 trabalhos no currículo como diretor, incluindo documentários, filmes para a TV e episódios de séries de documentário feitas para a TV. Em 2014 ele ganhou o Oscar de Melhor Documentário por Twenty Feet from Stardom (comentado neste link).

Não tenho dúvidas que esse filme “bate” de maneira muito diferente para nós, que não crescemos assistindo a Fred Rogers, e para o público americano, que teve um contato muito mais próximo e afetivo com ele. Ainda assim, acho que Won’t You Be My Neighbor? tem uma linguagem universal e pode tocar a qualquer pessoa que acredite nos mesmos valores que o biografado – e que esteja aberto a observar as crianças de uma outra maneira. Fascinante.

Won’t You Be My Neighbor? é um filme 100% dos Estados Unidos, por isso ele entra na relação de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme, para ser grande, deve nos envolver, nos surpreender, nos fazer pensar e nos emocionar. Uma produção que consiga tudo isso é algo difícil de encontrar. Mas é exatamente isso que o documentário Won’t You Be My Neighbor? proporciona. Esse filme resgata uma história inspiradora que precisa ser mais difundida, especialmente para que repensemos a forma com que olhamos e com que tralhamos a nossa relação com as crianças. Sejam as que nos rodeiam, sejam as crianças que ainda podem estar nos habitando. Um filme imprescindível, especialmente para os dias atuais, em que, muitas vezes, nos perguntamos para onde estamos indo enquanto coletivos. Impecável, muito bem narrado e conduzido, não nos faz apenas pensar, mas também sentir.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Won’t You Be My Neighbor? foi um dos 15 filmes que avançaram na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Documentário, conforme comentei neste post. Ou seja, cada um dos filmes que avançaram na disputa vão deixar outros dois para trás – afinal, apenas cinco produções realmente serão indicadas nesta categoria.

Como quem acompanha o blog sabe, Won’t You Be My Neighbor? é o primeiro filme da lista de documentários que avançaram na disputa que eu assisto. Não consigo compará-lo ainda com os concorrentes, portanto, mas devo dizer que torço muito para ele chegar entre os cinco finalistas nessa categoria na premiação máxima da indústria cinematográfica norte-americana. Simplesmente porque eu acho que ele é um grande filme, cheio de boas intenções e muito bem narrado e construído.

Por ter tantas qualidades, acho que Won’t You Be My Neighbor? merece chegar entre os finalistas e, quem sabe, inclusive ganhar a estatueta dourada? Claro que precisarei assistir a outros concorrentes para falar melhor a respeito, mas acho que seria muito bacana que esse filme chegasse tão longe. Quem sabe assim, mais gente não se interessa em assisti-lo? E isso seria algo importante, especialmente pelas mensagens que essa produção passa. Acho sim que ele chegará entre os finalistas. Agora, sobre ele ter chances de ganhar, ainda é cedo para dizer.