Searching – Buscando…

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Geralmente eu gosto de filmes com uma certa pegada “humanista”, filosófica ou de psicologia. Os leitores que me acompanham há mais tempo bem sabem disso. Mas nem sempre um filme precisa ter estas características para ser ótimo. Basta, para isso, ter um ótimo roteiro, algumas sacadas muito boas, envolver a audiência com perfeição e, claro, ter bons atores em cena. Searching tem todos esses elementos. Um filme que começa de maneira deliciosa e delicada e que, depois, vai nos levando pela mão como crianças perdidas na multidão. Simplesmente incrível.

A HISTÓRIA: Ouvimos o “clássico” barulho de uma conexão de internet discada. Em seguida, surge em cena a tela do Windows, com um ícone do antivírus Norton no canto direito inferior. O usuário David, login criado por David Kim (John Cho), cria o usuário Margot, login para a filha Margot (interpretada por Alex Jayne Go, aos cinco anos; por Megan Liu aos sete anos; por Kya Dawn Lau aos nove e por Michelle La na adolescência). A partir daí, vemos a várias fotos e vídeos que contam parte da história do casal David e Pamela (Sara Sohn) e de sua filha Margot, até que uma morte e um desaparecimento mudam a rotina da família para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Searching): Fiquei encantada com esse filme, devo admitir. E desde o princípio, desde os primeiros minutos da produção com roteiro de Aneesh Chaganty e Sev Ohanian. Achei ótimas as sacadas do roteiro e, em especial, a condução segura e cheia de pequenas nuances de inteligência do diretor Aneesh Chaganty.

Aliás, fui obrigada a procurar sobre ele. Vi que Searching é o primeiro longa dirigido por Chaganty – antes, ele tinha dirigido a seis curtas. Ou seja, ele começou com os dois pés direitos a sua trajetória em longas-metragem. Para começar, gostei muito das sacadas do diretor ao mostrar o cotidiano de uma família que é comum hoje em dia. O casal David e Pamela tiveram Margot em uma época em que já estávamos imersos em tecnologia. E isso muda muita coisa.

Sei que para a galera que já nasceu praticamente com um smartphone na mão pode ser difícil entender todas as sacadas e o deleite que Searching causa para uma pessoa como eu, que sou fruto de uma geração que bebeu das duas fontes. Me explico. Eu nasci em uma era ainda analógica e comecei inclusive a minha carreira nessa época. Não tínhamos celular e, para chamar “resgate” de um motorista do jornal em que eu trabalhava, ou tínhamos que ligar do local em que estávamos – uma casa ou uma empresa – ou tínhamos que achar um orelhão.

Ao mesmo tempo, apesar de trabalharmos em computadores, convivíamos com internet discada – algo que apenas alguém que viveu aqueles dias vai identificar nos primeiros segundos de Searching. Pois bem, era outra época. Agora, imaginem que a gente sabe bem o que é não fazer fotos e vídeos de tudo – porque, para fazer uma foto, antes dos smartphones, você precisava de uma câmera, de um rolo de filme e, depois, gastar com a revelação.

Isso, claro, é o que pessoas da faixa dos 40 anos, pouco mais ou um pouco menos, vivenciaram. Essa transição entre o analógico e o digital. E é exatamente isso que Searching mostra. Agora, imagine, mesmo você não tendo vivido isso, como era a época sem internet banda larga e smartphones na palma da mão. Certamente as pessoas não tinham muitas fotos e muito menos vídeos de momentos importantes da família. Isso tudo mudou com a digitalização.

Assim, vamos através da narrativa precisa, cheia de boas sacadas e bem planejada de Chaganty, um casal que vivenciou essa transformação digital e que, ao ter a sua filha, conseguem registrar tudo que podem sobre ela. E sobre a vida familiar. Muito bacana ver isso na parte inicial do filme. Inclusive acompanhar, com uma ótima edição e direção, os fatos se sucedendo apenas pelos registros digitais – seja no calendário, seja através de fotos e vídeos.

Toda essa tecnologia e a nossa relação com os recursos tecnológicos não faz parte apenas da parte “introdutória” da produção. Não, não. E isso é o que eu achei mais interessante e diferenciado desse filme. De forma muito direta e interessante, Searching nos mostra como tudo hoje passa pelas nossas “pegadas digitais”. Não apenas a relação de pai e filha é bastante intermediada pela tecnologia como, depois que a garota desaparece, toda a investigação e a busca de David acaba sendo feita através das pistas que ele vai achando pela internet.

A grande sacada desta produção, para mim, é justamente a forma ágil e envolvente em que a narrativa nos inclui no cotidiano investigativo do protagonista. Como todos nós usamos algumas ou todas daquelas tecnologias que vemos em cena, não é difícil desenvolver uma empatia com David, Margot e as demais pessoas que participam desta história. Os caminhos escolhidos por David fazem sentido, assim como a exposição do caso e a forma com que televisão/imprensa local aborda o assunto.

Todos aqueles elementos fazem parte da narrativa com a qual nos acostumamos. Chaganty e Ohanian acertam na mosca ao apresentarem aquela dinâmica como um elemento importante da produção. Além disso, Searching nos chama a atenção para a proximidade e/ou a falta de proximidade que temos nas famílias e entre pessoas que convivem – seja no colégio, seja no trabalho – apesar de estarmos “sempre em contato”.

Um tema bastante presente neste filme é: o quanto você realmente conhece aos outros? Mesmo pessoas muito próximas, como um pai e uma filha. O quanto um pode dizer que conhece bem ao outro? Podemos estar “falando” com algumas pessoas com bastante frequência, mas realmente falamos o que interessa? Realmente estamos “nos abrindo” ou, com tanto blá-blá-blá, no fundo, estamos nos escondendo?

Gostei também de algumas “cutucadas” que os roteiristas fazem durante o desenrolar da história. Eles questionam bem os efeitos, em épocas de mídias sociais, da “sociedade do espetáculo”. Assim, enquanto Margot era apenas uma garota desaparecida que estava sendo procurada pelo pai, David descobriu que a filha realmente não tinha muitos amigos – ou ninguém que pudesse ser chamado realmente assim. Mas quando o caso dela ganha projeção, esses mesmos não-amigos se tornam os “melhores amigos” da garota desaparecida nas redes sociais.

O comportamento pouco lógico e racional da internet também aparece em outros momentos da produção. Quando o caso de Margot passa a ser propagado em notícias e em sites diversos, vemos cada vez mais pessoas com tempo livre e “criativas” – para não usar outro termo – com as suas teorias da conspiração e variáveis. Assim, muita gente chega a colocar dúvida sobre o próprio David, sugerindo que o pai teria sido o culpado pelo sumiço da filha. O lado mais cruel e sem responsabilidade da internet acaba fazendo parte da produção também.

Algo que eu gostei nesta produção é como ela foca em poucos personagens. Isso costuma dar muito certo – e a regra é mais uma vez comprovada com Searching. Claro, muitas pessoas acabam “aparecendo” na investigação feita por David, mas ninguém realmente com grande importância. Os personagens significativos na história são quatro: David, Pamela e Margot – elas, essencialmente, através de vídeos que assistimos através de David – e a detetive Vick (Debra Messing), a policial que assume a investigação sobre o que aconteceu com Margot.

Além deles, aparece com certa relevância apenas Peter (Joseph Lee), o irmão mais novo de David e que acompanha tudo com uma certa proximidade. Essa aposta em poucos personagens e no uso da tecnologia como um elemento fundamental da narrativa são dois grandes acertos do filme. Assim como o roteiro inteligente, que acerta ao provocar empatia e na edição ágil e perfeita.

Como um bom filme policial e de suspense pede, Searching tem algumas reviravoltas na história. E isso é um verdadeiro deleite para o espectador. 😉 (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Honestamente, quando a história já tinha passado da teoria da fuga da garota para a de que alguém a tinha sequestrado e, por fim, de que um ex-detento havia matado ela e depois se matado, eu estava como o pai da jovem. Ok, a “realidade” é difícil de acreditar, é dura, mas mais que isso é complicado lidar com a sensação de que algo não estava se encaixando.

Naquele momento de Searching, eu pensei: “Não, mas tem algo estranho aí. Se a confissão de vídeo do sujeito fosse verdade, por que não encontraram o corpo da garota?”. O próprio David questiona a história do carro e das malas, mas todos, inclusive a detetive Vick, insistem apenas em lhe dar as condolências e os pêsames. Ele está quase aceitando a perda, até que surge uma imagem “familiar” como agradecimento do serviço de homenagem para a filha. Que sacada, minha gente!

Na hora, como trabalho com “banco de imagens”, pensei no mesmo que David: “Aí tem coisa!”. Mas ele foi muito mais rápido e longe do que eu. O “plot twist” derradeiro de Searching foi bastante criativo e não deixou pontas soltas. Algo fundamental em produções do gênero também. Claro, alguém pode questionar o “milagre” que a história opera e o final feliz que a produção acaba tendo, mas a gente até pode dar um desconto para tanto “otimismo” depois de ver a um filme tão bem feito.

Eu simplesmente não consigo achar defeitos em Searching. Para mim, o filme tem o ritmo adequado, uma bela imersão na forma com que as pessoas se comunicam (ou deixam de se comunicar) atualmente, além de uma análise interessante sobre as famílias. Tanto a família de David quanto a da detetive Vick se mostram “incompletas” – no caso da família dele, porque a esposa morreu vítima de câncer; no caso da família dela, não temos essa resposta na produção. Essas famílias incompletas revelam tentativas diferentes dos responsáveis pelos jovens em educá-los.

Enquanto David procura incentivar e apoiar a filha ao mesmo tempo que não deixa ela totalmente “solta”, ou seja, que também cobra dela responsabilidade, Vick revela-se uma mãe super-protetora, daquelas que nunca admite que o filho está errado. Os efeitos destas escolhas dos pais e da forma deles de “educar” (em alguns casos, deseducar) podemos ver claramente no filme e na vida fora das telonas também.

Achei muito bacana também uma das mensagens dessa produção. A busca incessante de um pai por respostas, por encontrar a filha e por se aproximar dela. No lugar dele, eu também provavelmente não iria “descansar” até que a minha filha – ou o corpo dela, ao menos – fosse encontrado. Bonita essa mensagem, de busca incessante por uma resposta e por proximidade. Precisamos disso mais do que nunca nos dias atuais.

Por todo esse conjunto da obra e por nos apresentar um roteiro bem cadenciado e envolvente, não vejo alternativa além de considerar esse um dos melhores filmes que eu assisti esse ano e de conferir para ele a nota abaixo. 😉

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tenho um certo “modus operandi” para escolher aos filmes que eu vou assistir. Primeiro, vejo se eles tiveram um bom nível de aprovação de público e de crítica. Depois, vejo quem está por trás das produções. Se o filme é dirigido por alguém de quem eu gosto muito – ou, pelo menos, por alguém que eu costumo acompanhar e/ou admiro -, mesmo que a produção levou “bomba”, costumo assistir também.

No caso de Searching, certamente o que me motivou a conferir esta produção foi o belo nível de aprovação que o filme apresentou tanto no site IMDb quanto no Rotten Tomatoes. Vou começar essa seção “Obs de pé de página” falando sobre isso, portanto.

No site IMDb, Searching apresenta uma nota 7,9, enquanto no Rotten Tomatoes o filme apresenta uma aprovação de 93% – fruto de 162 críticas positivas e de 13 críticas negativas. A nota média dada pelos críticos do Rotten Tomatoes é 7,4. Especialmente as notas chamam a atenção. Bastante positivas para o padrão dos sites. No site Metacritic esse filme apresenta o “metascore” 71, fruto de 29 críticas positivas, quatro medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Searching faturou US$ 23,11 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 31,1 milhões nos outros mercados em que o filme estreou até o dia 24 de agosto de 2018. Ou seja, somando esses resultados, Searching teria feito pouco mais de US$ 54,2 milhões. Por tratar-se de um filme “independente” e sem nenhum grande astro no elenco, certamente a produção está registrando um bom lucro. Merece.

Gostei muito da direção de Aneesh Chaganty. Ele tem uma visão muito interessante e uma apresentação das informações simples e que faz bastante sentido para o espectador que vivencia a internet no seu dia a dia. Chaganty valoriza muito bem o trabalho dos atores e também apresenta em cena recursos que criam empatia com o público. Muito bom o ritmo de direção dele e o roteiro que ele escreveu com Sev Ohanian. Com o trabalho deles, o filme apresenta algumas reviravoltas interessantes e uma trama que não desacelera em momento algum.

Além da direção e do roteiro que se destacam, vale comentar o ótimo trabalho dos editores Nicholas D. Johnson e Will Merrick; a direção de fotografia de Juan Sebastian Baron, Nicholas D. Johnson e Will Merrick; a trilha sonora discreta de Torin Borrowdale; o design de produção de Angel Herrera; a direção de arte de Carol Uraneck; a decoração de set de Robert Guard; e os figurinos de Emily Moran.

Searching estreou em janeiro de 2018 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, até o início de setembro, o filme participaria, ainda, de outros 14 festivais em diversos países. Nessa trajetória, a produção ganhou dois prêmios e foi indicada a outros dois. Os prêmios que Searching recebeu foram dados no Festival de Cinema de Sundance: prêmio do público em Best of Next! para Aneesh Chaganty e o Alfred P. Sloan Feature Film Prize para Aneesh Chaganty e Sev Ohanian. Sem dúvida, estou com o público de Sundance. Chaganty merece ser acompanhado. Veremos o que ele nos apresenta na próxima – já foi divulgado que será um filme de terror. 😉

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Searching levou apenas 13 dias para ser rodado. Apesar das filmagens terem sido rápidas, a produção levou dois anos para ser concluída devido ao trabalho de preparação, edição e finalização – especialmente os dois últimos pontos.

Além de marcar a estreia de Aneesh Chaganty dirigindo a longas, Searching marca a estreia da atriz Michelle La – que interpreta a jovem Margot Kim.

Vale conferir diversas curiosidades sobre esta produção no IMDb, diversas “migalhas de pão” que os realizadores vão deixando para o público durante o filme e que não percebemos em um primeiro momento. Interessante.

Falando em elenco, devo bater palmas para os atores envolvidos nesse projeto. Todos estão muito bem. O destaque principal vai para John Cho. Para mim, o melhor filme e desempenho do ator até o momento. Também vale destacar o ótimo trabalho de Debra Messing como a detetive Vick e de Michelle La como Margot. Estão bem também, ainda que em papéis de menos destaque, Sara Sohn como Pamela Nam Kim; Joseph Lee como Peter; Connor McRaith em uma ponta como Isaac; Briana McLean também em uma ponta como Abigail; Ric Sarabia em uma ponta como Randy Cartoff; e Steven Michael Eich em um papel pequeno como Robert.

Searching é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esse filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme com uma forte pegada familiar, embebido em tecnologia e nos tempos atuais e que ainda tem uma narrativa competente de investigação policial e de suspense. Dificilmente alguém não consegue se colocar no lugar do protagonista de Searching. Não importa se você teve filhos ou não, mas o roteiro é tão envolvente que é impossível não desenvolver empatia. E esse elemento vale ouro em uma produção com uma boa carga de drama e de suspense. Bem conduzido, com um roteiro cheio de boas sacadas e ótimos atores, Searching surpreende. Sem dúvida alguma, uma das boas surpresas do ano até o momento.

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