The Walker – O Acompanhante


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The Walker é um destes filmes surpreendentes. Eu não tinha ouvido falar nada dele, mas ouvi recomendações em um site em que baixo legendas para os filmes. Pois isso foi o suficiente para ir atrás dele e, quando vi o elenco com Woody Harrelson (que adoro!), Kristin Scott Thomas, Lauren Bacall (estupenda com seus 83 anos!), entre outros, pensei: “Uau, tenho que assistí-lo logo!”. Depois é que fui ver o diretor – Paul Schrader – e fui saber da história. Fascinante. Um roteiro de primeira de Schrader (que escreveu antes clássicos como The Yakuza, Taxi Driver, American Gigolo ou Gigolô Americano, entre outros) e umas interpretações que valem o tempo dedicado ao filme.

A HISTÓRIA: Carter Page III (Woody Harrelson) vive rodeado de um grupo de mulheres muito ricas e casadas com políticos e personalidades influentes em Washington D.C. Ele se encontra com elas para jogar cartas e, entre uma conversa e outra, se torna um confidente do que acontece nos bastidores da política e das casas destas mulheres, entre elas Lynn Lockner (Kristin Scott Thomas), Natalie Van Miter (Lauren Bacall) e Abigail Delorean (Lily Tomlin). Filho e neto de políticos e empresários muito influentes, Carter Page III é como uma piada para os homens da cidade. Mas ele administra bem a sua vida, as maledicências e a sua homossexualidade até o momento em que Robbie Kononsberg (Steven Hartley) é encontrado assassinado e ele passa a ser pressionado pelo detetivo Mungo Tenant (William Hope), que procura sacar algum proveito político da situação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – parte do que vou comentar a seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a leitura as pessoas que já assistiram a The Walker): Como eu ia dizendo, uma qualidade de The Walker é o roteiro de Paul Schrader. Seria um exagero dizer que ele conseguiu fazer aqui um filme ao estilo de Oscar Wilde, mas quase. Da produção do cinema mais comercial recente, eu diria que esse é um dos poucos filmes que critica tão cinicamente os “bastidores” do poder político e de dinheiro, especialmente de Washington, a capital do todo-poderoso Estados Unidos.

É muito interessante o jogo de sigilo, confiança e traição que os personagens principal jogam. Para começar, gostei da ironia de focalizar a história em um “acompanhante” de mulheres ricas e poderosas, mas sempre à sombra de seus maridos que, eles sim, aparecem na mídia como políticos influentes ou empresários poderosos. Afinal, essas mulheres são da espécie que pode definir o futuro de um país ao esconder segredos de alcova e segredos de poder que ninguém mais possui. E nosso “herói” é uma espécie de “acompanhante” destas mulheres, o homem que tem tempo de falar e jogar cartas com elas – já que seus maridos não tem esse tempo.

Fascinante o personagem de Woody Harrelson. Ele, aliás, no melhor desempenho de sua carreira. Está perfeito! Mas voltando a seu personagem: um homem que vive assombrado por seus antepassados e que, graças a sua vida atual e sempre comparado com seu pai e avô, vira chacota de parte da sociedade. Ao mesmo tempo, é “aceito” pelas rodas sociais porque tem a “linhagem” que tem (usando uma frase dita por Lauren Bacall) e porque é um homem discreto, destes que aceita levar a culpa para defender a discrição, os segredos de suas “amiguinhas”.

Mas ele vive uma dupla vida. Primeiro, desempenha o seu papel como “acompanhante” das mulheres ricas (o que seria uma possível tradução para “the walker”), um “bon vivant” que vem de uma “linhagem” de homens admirados e respeitáveis. Depois, vive um pouco escondido a sua vida de homossexual, em uma relação um pouco complicada com o artista Emek Yoglu (o ator alemão Moritz Bleibtreu, ótimo em seu papel também). Quando ele é confrontado com a morte do amante de uma de suas amigas, passa a ter seus fantasmas expostos, seu estilo de vida dissecado e usado como madeira para a fogueira.

Interessante como os maridos destas mulheres que são o “círculo social” de Carter Page III agem na história. Estão sempre distantes, sempre ocupados com outras realidades do que aquela “vidinha mundana e superficial” que eles acreditam que seja a de suas mulheres. Interessante também ver que se confirma a teoria de que atrás de quase todos os crimes está o sexo ou o dinheiro. No caso do crime deste filme a regra se mantêm.

Mas o mais curioso de The Walker é que o mistério da morte de Robbie Kononsberg é uma questão fundamental a ser resolvida mas, ainda assim, não é o principal da história. Para mim, o principal do filme é justamente a crítica que ele faz, um pouco irônica, um pouco mordaz, desses circuitos políticos e de poder de Washington, de tudo que se joga, podendo ganhar ou perder, nestes meios. Histórias que poucos ficarão sabendo mas que, na verdade, definem muitas coisas, algumas vezes influem em mais decisões do que gostaríamos de imaginar. Além disso, o filme vale pelo desempenho de Harrelson que está, para mim, a altura de um Oscar.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso como esse filme não tem grande divulgação. Procurei muito e não encontrei o cartaz dele por aí, para baixar e poder publicar aqui. Quem sabe mais para a frente eu consiga um – e se conseguir, substituio essa foto.

The Walker estreou no Festival de Berlin, no dia 13 de fevereiro. Depois, passou por alguns outros festivais, como o de Cannes, o de Sydney, o de Cambridge, o de Toronto e o de San Diego. Agora no dia 21 de outubro participa do festival de Viena. De nacionalidade inglesa, o filme entrou em cartaz na Inglaterra em 10 de agosto e, nos Estados Unidos, entra em um circuito limitado só a partir de 7 de dezembro. No Brasil eu não sei se chegará aos cinemas ou será lançado diretamente em vídeo e DVD.

O filme conseguiu a nota 7,1 no IMDb, o que é uma nota boa. Detalhe é que as pessoas que comentaram devem ter visto o filme essencialmente em festivais ou, como eu, através da Internet. Uma pena se o filme, por não ter o apoio de uma grande distribuidora ou estúdio, ficar desconhecido. Merece ser visto.

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2 comentários em “The Walker – O Acompanhante

  1. Vi esse filme ontem na TV e também fiquei muito impressionado. Gostaria de pensar que isso fosse antes uma caricatura dos círculos de poder nos Estados Unidos do que um retrato. Pra que minha fé na humanidade não diminua ainda mais… Excelente a atuação de Woody Harrelson.

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    1. Oi Pedro!

      Então, fica difícil dizer o quanto é uma caricatura, o quanto é uma crônica dos círculos de poder e de riqueza nos Estados Unidos. Talvez seja um pouco dos dois.

      E olha, a verdade é que há muitos motivos para perdermos a fé na humanidade… e, mais que estes, há muitos mais para renovar esta mesma fé. 🙂

      Estou contigo… o Woody Harrelson está ótimo.

      Muito obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Espero que voltes por aqui mais vezes.

      Abraços e inté!

      Curtir

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