A Guide to Recognizing Your Saints – Santos e Demônios


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Tem alguns filmes que apresentam uma intensidade que só um fator pode explicá-los: quem conta a história tem conhecimento total de causa. A Guide to Recognizing Your Saints é um destes filmes. Só o nome original já tinha me chamado a atenção faz tempo (algo como “Um Guia para Reconhecer seus Santos”). Na versão brasileira o filme ganhou o nome de Santos e Demônios – nem preciso dizer que prefiro o original, né? Mas ok, eu sempre discordando dos títulos adaptados… hehehehehehe. Mas como eu ia dizendo, o filme só apresenta a força que apresenta porque é dirigido por Dito Montiel, o mesmo homem que escreveu o livro homônimo e que, como já era de se esperar, viveu tudo o que narra na tela. Gostei demais. Tanto que lá vou eu quebrar pela segunda vez a hegemonia de American Gangster… hehehehehehe

A HISTÓRIA: O filme começa com Flori (Dianne Wiest), mãe do escritor Dito (Robert Downey Jr.), ligando para ele para avisar que seu pai, Monty (Chazz Palminteri) está muito doente e precisa ser hospitalizado. Em seguida, vemos a Dito sendo recebido com admiração em uma noite na Califórnia. Pouco depois, a história volta para o bairro do Queens, em Nova York, em 1986, quando somos apresentados ao Dito jovem (Shia LaBeouf). A partir daí, o filme conta a história de Dito e de seus amigos em uma cidade que já vivia a violência, o racismo, a falta de trabalho e as drogas nos anos 80, e de como ele lidou com tudo isso e o que fez de sua vida quase 20 anos depois, quando volta para o local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu A Guide to Recognizing Your Saints): Tentei falar o menos possível do filme no resumo porque eu acho que ele realmente vale a pena ser visto e, como a maioria dos filmes do gênero, quanto menos se sabe antes, melhor.

Desde o princípio eu fiquei impressionada com a técnica do diretor e roteirista, Dito Montiel. Realmente ele tem talento. E o melhor é que o filme só vai melhorando. O começo, em que aparece Robert Downey Jr. fumando e lendo parte de seu livro, é brilhante. Assim como a narrativa da vida do garoto em 1986, quando o ator Shia LaBeouf fala para a câmera que ele vai abandonar a todos que aparecem no filme. O roteiro realmente é muito bom. Gostei tanto das intercaladas da “história real” do Queens anos 80, contando a vida de Dito, até a “revisão”, por assim dizer, desta história com ele adulto. Além disso, a técnica de utilizar uma ou outra vez o ator falando diretamente com a câmera ficou bem interessante. Diferente de outros filmes, esse recurso ficou perfeitamente casado com a história e não pareceu forçado. O mesmo com o uso das músicas… há pelo menos dois momentos chaves da história em que ela conta o sentimento do narrador e adianta o que vai acontecer ou, em outro sentido, une os vários personagens em uma mesma “aura”.

Fiquei impressionada também com o elenco. Não há, realmente, um ator ou atriz que destoem ou que esteja mal. Todos estão muito naturais em seus papéis – algo que parece mais “fácil” quando se tem talento mas, mais que isso, quando o roteiro é realmente verossímel – e imprimem uma força muito interessante ao filme. Além de Robert Downey Jr. (para mim em uma das grandes interpretações da sua carreira) e do garoto Shia LaBeouf, destaco Melonie Diaz, a garota que interpreta a jovem Laurie, paixão de juventude de Dito; Channing Tatum como o jovem Antonio (esse garoto realmente tem um estilo bem interessante de interpretar e faz um bom trabalho em um papel difícil); Chazz Palminteri como Monty, o pai de Dito (o ator está simplesmente fantástico); Dianne Wiest como Flori, mãe de Dito (também em uma interpretação primorosa e comovente); e Rosario Dawson como Laurie (ela tem a sorte de ter algumas das melhores falas do filme). Esses são apenas os que mais me chamaram a atenção, mas ainda vale citar o bom trabalho de Julia Garro como Diane, Adam Scarimbolo como Giuseppe, Peter Anthony Tambakis como o jovem Nerf, Scott Michael Campbell como Nerf adulto e Eric Roberts como Antonio adulto.

O mais interessante do filme é que ele trata de muitos temas. Mas talvez os mais fortes sejam a amizade, o amor entre pais e filhos – e os problemas que derivam deste amor quando a comunicação é impossível de fluir entre as pessoas -, a busca por uma vida melhor, os laços que nos unem às pessoas, a culpa, o sentimento de pertencer a um lugar ou a um grupo, só para citar alguns. O filme realmente me tocou por dois pontos: a relação de Dito com o pai e a sua dúvida em sair de casa para buscar algo melhor e deixar as pessoas que lhe configuravam como indivíduo para trás.

No caso de Dito e o pai, acho muito interessante como a história mostra a falta de comunicação entre eles. É como se cada um falasse um idioma diferente. Monty está sempre dizendo o que sente sem que Dito lhe escute e Dito está sempre dizendo ao pai o que deseja, anseia e sente sem que Monty lhe escute. O que acontece com eles é quase asfixiante e tão real. Se isso não acontece entre um pai e um filho ou filha, pode acontecer entre uma mãe e um filho ou filha ou entre um marido e uma mulher… enfim. Mas acontece.

O outro tema, do quanto Dito se sente dividido e, no futuro, culpado por escolher o caminho de sair de perto das pessoas de quem gosta e se preocupa também é muito forte. Afinal, o que nos faz sermos o que somos? Muitas coisas, é claro. Mas algo muito forte são os laços de amizade e amor que construímos quando somos jovens, seja com família ou com amigos. E abandonar tudo isso para buscar uma vida melhor ou uma vida fora da loucura que achamos que nos rodeia é muito difícil. Dito teve essa coragem mas, ao rever a sua história com esse filme, ele se culpa muitíssimo. Não concordo com ele de que ele abandonou a todos e que ninguém o abandonou. Com seu livro (que ainda não li, mas pretendo) e seu filme, ele comprova que nunca abandonou a ninguém.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se o mundo fosse um lugar justo, A Guide to Recognizing Your Saints seria indicado ao Oscar. E a mais de um. Mereceria indicações para roteiro, pelo menos, e para Robert Downey Jr. Quem sabe até para Chazz Palminteri como coadjuvante. Mas isso se o mundo fosse justo. Como o filme não tem nenhum grande estúdio para fazer o seu lobby, acho mais provável que não seja indicado a nada – talvez a roteiro, apenas, e isso se ainda pode ser indicado.

No site IMDb o filme contabiliza a nota 7. Por outro lado, no site Rotten Tomatoes, ele registra 63 críticas positivas e 22 negativas. Está comprovado que é o tipo de filme que agrada mais os críticos que o público. Uma pena, porque isso pode ser entendido como algo ruim – só que, nesse caso, os críticos estão mais certos que o grande público. Aliás, acho que várias vezes isso é verdade.

Nas bilheterias o fime teve um desempenho muito ruim. Arrecadou nos Estados Unidos pouco mais de US$ 516 mil – algo justificado também pelo baixo número de cópias distribuídas do filme: 8 na primeira semana, do dia 1 de outubro de 2006, chegando ao máximo de 60 nas últimas duas semanas daquele mês. Realmente, com esse número de cópias e com uma divulgação baixíssima, não tem como esperar que ele fosse bem de bilheteria. Uma pena, porque é um filme que merece ser visto.

Independente do Oscar, o filme já ganhou o reconhecimento de prêmios importantes. No Festival de Sundance (um dos que mais admiro e que realmente premia filmes muito bons e independentes) ele levou o prêmio de melhor direção de drama para Dito Montiel e levou ainda um prêmio especial do júri para o seu elenco. No Festival de Veneza o filme arrebatou dois prêmios para Dito Montiel. O elenco também recebeu o prêmio máximo do Festival de Gijón, na Espanha.

Uma dica: veja o filme até depois dos créditos finais. Há um trecho de um depoimento do pai de Dito no final. Falando no diretor, que tem 37 anos, ele já está trabalhando em um novo projeto: Fighting. Outra vez ele contará para nós uma “história das ruas”.

CONCLUSÃO: Filme sensível, bem dirigido e com um elenco afinadíssimo que conta a história real de um grupo de jovens e seu entorno no Queens de Nova York nos anos 80. O diretor e roteirista acerta no tom dramático e nos conta uma bonita história de redenção pessoal e de reencontro com a sua identidade.

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Um comentário em “A Guide to Recognizing Your Saints – Santos e Demônios

  1. Realmente é um excelente, adoro dramas neste estilo e este é um dos melhores que já vi, perfeito em várias áreas, os atores, a história…
    pena que não foi foco na mídia pois todos deviam ver este filme

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