Zuzu Angel


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Tinha ouvido falar desse filme brasileiro há algum tempo, mas só agora consegui assistí-lo. Um amigo falou bem dele e pronto, o assisti. Zuzu Angel, vale ressaltar, é uma produção da Globo Filmes, braço para o cinema da Rede Globo – eternamente líder de audiência na televisão do país. A Globo Filmes já propiciou o lançamento de filmes muito bons, como O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias (nosso candidato ao Oscar), Cartola, Lisbela e o Prisioneiro, Casa de Areia (para mim um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos), O Caminho das Nuvens, O Homem que Copiava, entre outros, mas também é uma das responsáveis por filmes ruins e irritantes, como Olga, Redentor, Acquária (um dos piores de todos os tempos), Deus é Brasileiro, etc. Fiz essa relação de filmes, bons e ruins, porque é muito fácil dizer “ah, é um filme da Globo, deve ser ruim”. Esse discurso que se disfarça de esquerdista (só disfarça) para ser contra por ser contra eu acho uma piada. O filme é o que ele é não por mérito ou desmérito da Globo Filmes, mas pelo trabalho de seu diretor, roteiristas e elenco.

A HISTÓRIA: O filme conta a história da estilista Zuzu Angel durante os duros anos da ditadura militar no Brasil nos anos 60 e 70. Desde o princípio a história deixa clara as diferenças ideológicas e de ação entre Zuzu (Patrícia Pilar) e seu filho Stuart Angel (Daniel de Oliveira). Os dois ficavam muito tempo sem se ver ou se falar, com ele vivendo na clandestinidade enquanto ela prosseguia trabalhando para sustentar a família. Mas no dia em que recebe um telefonema anônimo dizendo que seu filho tinha sido preso pelos militares, Zuzu muda de postura completamente e começa a enfrentar a realidade do país de outra maneira.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Zuzu Angel): Para ser franca, eu já tinha escutado falar – é claro! – de Zuzu Angel, especialmente porque ela é um nome que já foi mencionado e homenageado muitas vezes por diferentes artistas, com especial destaque por Chico Buarque, de quem era amiga. Mas, meu conhecimento a respeito dela era muito restrito. Sabia que tinha sido uma mãe que lutou para saber do filho morto pelos militares, mas não sabia, por exemplo, que ela própria tinha sido assassinada pelo governo. Só pelo fato de resgatar a sua história eu acho que filme tem seus méritos.

Aliás, quero comentar que falta no Brasil uma produção ainda maior e mais crítica sobre o tempo da ditadura. Ok, existem os relativamente recentes O Que é Isso, Companheiro? e Ação Entre Amigos, para citar dois, mas ainda assim é pouco. Também sofremos com poucas “cinebiografias”… existe Lamarca, Cazuza e alguns outros, mas também é pouco. Por tudo isso, acho que Zuzu Angel tem o seu mérito.

Quanto ao filme em si, admito que ele tem alguns problemas. Começando pelos exagero dramático em algumas cenas, como quando Zuzu Angel recebe a carta contando da morte do filho e, depois, quando tem confirmado o fato através do tenente que virou seu aliado (Aramis Trindade). Também acho que o roteiro do diretor Sergio Rezende junto a Marcos Bernstein peca ao quase “santificar” a Zuzu, retratando a relação dela com o filho como perfeita. Eles nunca brigam, nunca discutem… ainda que tenham visões diferentes de mundo, o máximo que eles passam é uma “briguinha” aqui e outra ali. Na prática, duvido que foi desta maneira que tudo aconteceu. Achei que, a exemplo de Cazuza, a história de mãe e filho foi suavizada para ser “imortalizada” como quase perfeita.

No mais, acho o filme competente. Sergio Rezende tem uma direção firme e o seu roteiro, junto a Bernstein, consegue contar de forma criativa e com muitos cortes temporais uma história que poderia ficar arrastada. Em termos de interpretação, todos os atores, para mim, são medianos. Ninguém se destaca. No elenco, além dos já citados, estão Alexandre Borges (como Fraga, advogado e amigo de Zuzu), Luana Piovani (como Elke, modelo e amiga da estilista), Leandra Leal (como Sônia, mulher de Stuart e militante política também assassinada), Angela Vieira (Lúcia, amiga de Zuzu), Flávio Bauraqui (capitão Mota), Regiane Alves (Hildegard Angel, filha da estilista), Fernanda de Freitas (Ana Angel, também filha de Zuzu), Othon Bastos (como um brigadeiro), Caio Junqueira (como Alberto, amigo de Stuart e militante político), Nelson Dantas (sapateiro e pai de Lamarca, em sua última interpretação antes de morrer de câncer em 2006 no Rio de Janeiro), Paulo Betti (Lamarca), entre outros.

Buscando informações sobre a verdadeira Zuzu Angel descobri que depois do fim da ditadura ficou comprovado que ela realmente foi morta pelo sistema, assim como seu filho, Stuart. Li uma crítica ao filme que achei muito inocente ao dizer que o filme enaltece uma mulher burra (porque foi buscar ajuda com o inimigo, o governo dos Estados Unidos) e supérflua (porque usou a moda para manifestar seu repúdio a um sistema que matou o filho). A crítica também comentava que achava absurdo fazer um filme sobre uma mulher que nunca deu bola para a ditadura e que só resolveu se mexer quando o filho foi morto – e, ainda assim, tratava a luta dele como algo “juvenil” e não como algo necessário.

Eu discordo dessa crítica por uma única razão: a minha verdade não é a única verdade que existe. Stuart Angel estava certo em lutar contra o sistema arbitrário da ditadura? Claro que estava. Ele tinha a força da juventude – digam o que disserem mas a juventude tem mais força do que as outras fases da vida de qualquer pessoa – a seu favor e a indignação como combustível. E Zuzu Angel estava certa ao dizer para o filho que a luta dele era absurda? Sim, estava. No caso dele, como mãe, ela estava mais preocupada com a vida do filho do que em mudar o país. Além do fato de ser mãe, no fundo no fundo ela parecia achar absurdo o filho de um americano chamar todo e qualquer sinal vindo dos Estados Unidos como algo mau. Se fosse assim mesmo, ele não deveria expulsar ou matar o próprio pai, um elemento desse sistema de dominação que ele tanto combatia? Pode parecer exagero, mas não é. Zuzu Angel, muitas vezes, na verdade, questionava o filho sobre os seus discursos porque via, com a idade que tinha, que a realidade é diferente dos sonhos. Ainda assim, claro, é preciso sonhar. Tanto que ela, depois que perdeu o filho, não descansou na busca por saber a verdade e por divulgá-la para quem lhe desse espaço para ouvir.

Sobre ela ter sido inocente ao buscar “ajuda com o inimigo”. Na verdade, para mim, ela fez o certo. Afinal, se no Brasil ela não podia ser ouvida – a imprensa estava amordaçada e não lhe dava ouvidos -, o que lhe restava de oportunidade era fazer barulho fora do país. E quer lugar melhor do que no próprio país em que o governo, por debaixo do pano, alimentava a idéia das ditaduras na América Latina? Afinal, digam o que disserem, naquela época os Estados Unidos vivia uma época de imprensa livre, e Zuzu Angel se aproveitou de sua relativa fama como estilista para aparecer na imprensa de lá. Depois disso, conseguiu ser ouvida até certo ponto pelos políticos norte-americanos – com seu tema sendo exposto até no Congresso dos Estados Unidos. Para a época não foi pouca coisa. Ela não conseguiria maior efeito se divulgasse o que estava acontecendo na Europa. Como estilista, ela utilizou as armas que conhecia para fazer barulho e ser ouvida. O trágico é que na época, realmente, a ditadura mandava e desmandava e podia calar a quem quisesse, como fez com essa mãe em busca de verdade.

Gostei da história e, ainda que com alguns problemas, gostei do filme. Ainda assim, claro, ele poderia ser menos emotivo e mais realista. Teria ganhado pontos. Gostei, em especial, da abertura do filme, com um belo trabalho de arte sobre fotos da época. O cinema brasileiro precisa escavar mais nos porões da ditadura e nos contar histórias que por muito tempo foram proibidas. Só temos a ganhar.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No Brasil o filme faturou nas bilheterias pouco mais de R$ 4,6 milhões segundo o site IMDb. Falando no meu banco de dados preferido sobre cinema, os usuários do site deram nota 7,2 para Zuzu Angel.

O filme foi rodado em Juiz de Fora, Minas Gerais, e no Rio de Janeiro.

CONCLUSÃO: Cinebiografia de Zuzu Angel a partir do momento em que ela descobre sobre o desaparecimento do filho, Stuart, durante a ditadura militar no Brasil. Vale pelo resgate histórico e pela narrativa que “respeita” as diferentes visões de mundo de mãe em filho, mas peca na dose de drama e em alguns exageros do roteiro.

Sobre Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema. Em outras palavras, uma cinéfila inveterada. Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

10 Respostas

  1. estou fazendo um trabalho de escola sobre o filme zuzu angel pra amanha sera q tem como vcs me ajudarem preciso o mais rapido de um…
    conclusao do filme ..
    quais os direitos humanos que foram violados pelo aparelho repressor da ditadura militar…
    qual a fase historia representada no filme
    por favor ser q tem como me ajudarem desde ja obrigado

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  2. Juliaaaaaaaa

    me ajudem por favor?!
    tenho um trabalho para fazer terça 😦
    Um personagem do filme , um militar da aeronautica diz que ele “segue rigorosamente a convenção de Genebra” . Explique o que foi?

    No final ,ela escuta no carro uma música do Chico Buarque. Qual a música? qual a relação da letra da música e o compositor com o período abordado no filme?

    Qual era o orgão repressor da ditadura criado em 1970 e seu objetivo?
    me ajudem por favor!!

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  3. Lucas

    oi eu preciso saber “O que motiva questionamentos na personagem?”
    e também
    “Como a personagem principal se posiciona politicamente no final do filme?”

    Obrigado desde já

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