Walk Hard: The Dewey Cox Story – A Vida é Dura


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Uma série de filmes recentes tratou da vida de músicos e, especialmente, de ícones do rock dos Estados Unidos. O primeiro deles em evidência foi Walk the Line (Johnny e June), que conta parte da trajetória de Johnny Cash e June Carter. O filme foi indicado a cinco Oscar e ganhou o de melhor atriz para Reese Witherspoon. Dirigido por James Mangold (que filmou depois o bacana 3:10 to Yuma), realmente é um filme bem interessante. Um ano antes, em 2004, Jamie Foxx ganhava o Oscar por seu impressionante desempenho em Ray, filme sobre a vida de Ray Charles. O filme seria indicado ainda a outros cinco Oscar, ganhando ainda o de melhor edição de som. Em 2005, o premiado Martin Scorsese lança o documentário No Direction Home: Bob Dylan sobre a vida do “trovador” estadunidense. Em 2007, apareceram na telona vários filmes sobre conhecidos artistas da música: Control, sobre a vida de Ian Curtis, o líder da banda Joy Division; I´m Not There, sobre o multifacetado Bob Dylan; e La Môme ou La Vie en Rose, sobre Edith Piaf; só para citar alguns. Pois Walk Hard: The Dewey Cox Story aparece neste cenário para satirizar todos estes filmes e muitos outros. John C. Reilly mostra mais uma vez sua versatilidade e, aqui, todo seu repertório de caras e bocas para assumir a identidade de Dewey Cox, um fictício artista que “surpreende” a todos com o seu talento e, de quebra, nos conta de maneira engraçado tudo que aconteceu no cenário musical dos Estados Unidos desde a década de 50.

A HISTÓRIA: O filme conta a vida de Dewey Cox, um garoto (interpretado por Conner Rayburn nesta fase) que cresceu em uma cidade no interior do Alabama na década de 40 e que, em 1946, perde o irmão “gênio” Nate (Chip Hormess/Jonah Hill) em um acidente que ele mesmo provoca. Renegado pelo pai (Raymond J. Barry), ele encontra alguns artistas negros tocando blues e decide que será músico. Em 1953, aos 14 anos, ele participa de um show de talentos e provoca reações extremas da platéia, incluindo seu pai, com quem acaba discutindo feio. Então ele decide sair de casa e vai trabalhar em um bar onde tocam músicos negros muito bons. Ali ele consegue um espaço em uma noite em que o artista principal não consegue tocar e, após se apresentar, consegue um contrato com uma gravadora de judeus. A partir daí ele consegue emplacar suas músicas nas principais listas de sucessos e conhece figuras como Elvis (Jack White, do The White Stripes), os Beatles, entre outros.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Walk Hard: The Dewey Cox Story): Como se pode presumir do resumo do filme logo acima, o diretor e roteirista Jake Kasdan pega todas as referências das “cinebiografias” de músicos conhecidos desde The Doors (filme clássico de Oliver Stone de 1991) e faz uma salada de referências e de ironias, inclusive com raças e seus pré-conceitos, com especial destaque para negros e judeus. Claro que no meio alguns podem ver piadas “incorretas” com alguns deles. E pode até existir, mas o que eu vejo em Walk Hard é uma paródia escrachada de tudo, com um humor que chega a ser quase infantil. Também percebo no roteiro de Kasdan com Judd Apatow uma alta dose de exagero mesmo, de escracho, como eu disse antes, aumentando as “tintas” de todas as interpretações e dos “momentos decisivos”, como todas as vezes em que Dewey Cox entra em um “vício” novo.

John C. Reilly para mim é o grande nome do filme. Ele consegue exagerar em todas as cenas, fazendo comédia sem emitir uma palavra, apenas com suas expressões e gestuais. A relação mal resolvida com o pai e a “tragédia” que lhe persegue por toda a vida – a morte do irmão – são motores de cenas “dramáticas” geniais, que tiram sarro de todo o drama de filmes “sérios” do gênero. Achei genial a mudança pela qual vai passando o artista conforme as décadas vão seguindo… sua “crise” nos anos 60, em especial, vale o filme. Quando ele pergunta aos jornalistas se não seria Bob Dylan uma cópia dele. hahahahahahaha. E seus shows “engajados” pelos anões… uma comédia! Aliás, para não dizer que os roteiristas tiram sarro só de negros e judeus, eles também satirizam com os anões – talvez os públicos mais óbvios para se fazer uma piada, não é mesmo?

Mas ninguém pode levar a sério Walk Hard. O filme é escrachado, é besta, tem um humor super infantil. E, ainda assim, vale algumas risadas muito francas, tem “sacadas” muito boas… e, ao mesmo tempo, muitas piadas idiotas. Achei meio “besta” ou fraquinha toda a sequência com os Beatles, por exemplo. Ainda que seja, justamente aqui, que se registrem as “pontas” mais rápidas e de gente “famosa” do filme, com Paul Rudd interpretando John Lennon, Jason Schwartzman interpretando Ringo Starr, Jack Black como Paul McCartney e Justin Long fazendo as vezes de George Harrison. Mas, fora a questão curiosa da cena, achei ela muito fraquinha.

Por outro lado, o encontro de Dewey Cox com Elvis – interpretado por Jack White – foi ótimo. Assim como os diálogos sem sentido com Buddy Holly (Franke Muniz, em outra ponta de “luxo”). O filme, como se pode perceber, é recheado de pontas de gente interessante.

Achei muito boa a mudança de visual e de “problemática” do personagem conforme os tempos vão mudando, as décadas vão seguindo… nos anos 70, por exemplo, ele se muda para Malibu, na California, e passa por uma crise de identidade gigantesca, assim como não consegue mais criar nada. A saída será ele criar um programa de TV. hahahhahahahha. Muito bom! Genial também a “repaginada” com gosto de “homenagem” e/ou referência que o rapper Lil’ Nutzzak (Jacques Slade) faz da música de Dewey Cox, trazendo ele novamente à ativa. Querendo ou não o filme é uma grande crítica feita com humor aos modismos na música e a exploração que é feita dos artistas pelas gravadoras e pelo mercado. Sátiras sempre são bem-vindas quando feitas com certa inteligência. O que é o caso deste filme.

Ah, e o filme me fez lembrar muito daquela frase de Waly Salomão: “A memória é uma ilha de edição”. Também me fez lembrar do filme Le Scaphandre et le Papillon, recentemente comentado aqui, quando Bauby comenta que a memória e a imaginação é que sobra a todos nós… Porque claro que toda autobiografia é uma história contada em parte, porque nossa memória mesmo “corrompe” e modifica o que aconteceu, seleciona as informações dentro do que foi realidade. O que lembramos e, principalmente, da forma com que lembramos nem sempre é toda a verdade – sei que é difícil admitir isso, mas é assim.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos atores já citados, destaco as participações de Raymond J. Barry como Pa Cox, o pai comicamente “carrasco” do artista; Margo Martindale como Ma Cox, a mãe superprotetora e amorosa do personagem principal; Jenna Fischer como Darlene Madison, a mulher que faz as vezes de “June Carter”, ou seja, a artista que se apaixona por Dewey Cox, termina com o casamento dele com Edith (Kristen Wiig), mãe de seus primeiros filhos, e que acaba sendo o “amor de sua vida”; Harold Ramis como L’Chai’m, o judeu da gravadora que acaba descobrindo e protegendo o seu “jovem” talento; e o trio de músicos que “aguenta” Cox – Tim Meadows como Sam (para mim, o melhor deles, especialmente nas cenas das “drogas”, hehehehehehehe), Matt Besser como Dave e Chris Parnell como Theo.

Estou dando essa nota para o filme porque realmente gostei muito de várias sacadas e de Reilly, mas também acho que ele perde muito do seu potencial com piadas manjadas e um certo humor meio “pueril”. A parte dos exageros de interpretação eu gostei, afinal, os filmes “sérios” do gênero também exageram muito nas doses – mas parecem “bons” porque são “sérios”. Só achei que Walk Hard tira muito sarro de Walk the Line. Acaba sendo quase que uma paródia do filme do Johnny Cash. Tentando seguir a linha deste filme acho que ele perde várias oportunidades de ser mais ousado e engraçado.

O filme foi indicado a quatro prêmios, inclusive dois Globos de Ouro, mas só ganhou o de melhor música no Sierra Award, prêmio conferido pela Sociedade de Críticos de Las Vegas. Fiquei curiosa em ver o filme quando John C. Reilly foi indicado como ator em comédia no Globo de Ouro.

Walk Hard custou aproximadamente US$ 35 milhões e faturou, em menos de um mês em cartaz nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 18,3 milhões. Deve se pagar e conseguir faturar um pouco. Não muito.

A produção inteira foi filmada em Los Angeles, na California.

Os usuários do site IMDb deram nota 7 para o filme, enquanto os críticos do Rotten Tomatoes lhe conferiram 94 textos positivos e 32 negativos. Diria que está um pouco equilibrado o termômetro de público e crítica.

O diretor Jake Kasdan é “especializado” em comédias… nenhuma, até hoje, de grande destaque. Antes ele fez The TV Set com David Duchovny e Sigourney Weaver; Orange County (Correndo atrás do Diploma) com Jack Black e Schuyler Fisk; e Zero Effect, com Bill Pullman e Ben Stiller. Por sua parte, o outro roteirista de Walk Hard, Judd Apatow, é responsável por outras comédias, como as recentes Knocked Up (Ligeiramente Grávidos), Fun with Dick and Jane (As Loucuras de Dick e Jane) e The 40 Year Old Virgin (O Virgem de 40 Anos) – se percebe que ele gosta de um escracho, não é mesmo?

CONCLUSÃO: Um filme engraçado que tira “sarro” das principais cinebiografias musicais desde The Doors. Segue basicamente a linha de Walk the Line – inclusive com seus principais temas -, mas também vai “um pouco além” ao provocar o encontro do personagem principal com ícones como Elvis e The Beatles. Tem uma boa dose de humor pastelão e “pueril” e interpretações propositalmente exageradas. Vale especialmente pela “linha do tempo” satírica e crítica da música nos Estados Unidos desde a década de 50, com todas as suas “ondas” e modas.

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